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RESENHAS PEDAGÓGICAS 1 www.intensivopedagogico.com.br Pesquisa Entrevistaram 30 representantes - mães de alguns dos unas selecionados -, 20 professores e as 90 crianças integrantes da amostra. Professores Todos os professores entrevistados- independente de gostarem ou não da matemática - concordam em assinalar que é uma disciplina que provoca medo. Crianças São muitas também as crianças que afirmam que a matemática é a disciplina de que menos gostam, e muitos poucas as que a escolhem como uma de suas disciplinas prediletas. Uma menina da série, cujo rendimento frente ao instrumento de diagnóstico foi excelente, explica-nos melhor seu desgosto diante da matemática. Como o pesquisador expressa sua surpresa ante o fato, ela fica pensando e chega a seguinte conclusão: O que eu não gosto é de decorar as contas. Se a matemática não fosse lembrar os números, me fascinaria. As opiniões dos professores podem serem sintetizadas assim: tem importância por que prepara a criança para raciocinar com rapidez e porque se deve saber utilizá-la na vida diária; é uma disciplina instrumental – como a leitura – que ajuda a compreender as demais matérias; é uma ciência “muito completa” porque é exata. Os pais são mais explícitos que os professores: “a matemática serve para tudo, para a vida diária, para fazer cálculos orçamentos” e “serve para contar reais, para resolver problemas, utiliza- se nos supermercardos”, além de por em destaque outros aspectos que nenhum dos professores entrevistados tinha analisado. (..) "serve para a vida diária e também em nível acadêmico"; "utiliza-se no futebol, na comida, na música... utiliza-se em tudo". É curioso que sejam os pais que tenham maior consciência da utilidade da matemática em todos os âmbitos da vida: o trabalho, o acadêmico, o esportivo, o artístico. Respostas das crianças: A matemática só é útil no âmbito escolar. Elas afirmam que a matemática serve "para fazer números, somar, subtrair e muitas coisas mais"; "para aprender na escola"; http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 2 www.intensivopedagogico.com.br Porém Nem os pais e nem os professores tem conseguido transmitir as crianças – ao menos às mais pequenas – essa utilidade da matemática que alguns deles percebem tão claramente. A Matemática é usada em muitos espaços e os pais também usam É necessário muita conversa para as crianças perceberem que a matemática é usada em outros espaços. Também é difícil que cheguem a dar-se conta de que a matemática não é patrimônio exclusivo das crianças que vão à escola, de que também é utilizada pelos pais. Professores: Alguns consideram pouco clara nossa pergunta e outros – a maioria – responderam-nos descrevendo a forma como eles ensinam, como se pensassem que o processo de aprendizagem reproduz fielmente o método de ensino. “Os meus praticam no quadro negro”. Porém, muitos professores reconheceram que alguns conhecimentos matemáticos são construídos pelas crianças a partir da sua experiencia social, e que a aprendizagem de certos conteúdos começa antes do ingresso na escola. Não há muita certeza dos professores "Não estou segura ... Talvez sim ... Como essas pessoas que não estudam têm uma despensa cheia ...Como é que fazem?" Outros professores, porém, não conseguem imaginar que as crianças aprendem sem que exista uma intervenção do ensino: em matemática elas vem aprendendo pois os pais ensinam... em outros assuntos não, para aprender tem que ser ensinado. Falam sobre método, que deve ser fragmentado para facilitar a compreensão Não tivemos concordância nas respostas- foram dadas por diferentes professores -, no entanto, existe um aspecto essencial do método de ensino em que todos coincide: o que garante o Ensino é a repetição. “É necessário fazer muito material concreto e exercitar muito…repetir muitas vezes. Não se consegue um objetivo em um só dia, tens que fazer repetição, colocar exercícios. Não compridos, mais curtos. Dar-lhes em pedacinhos é melhor que ocupá-los em exercícios por horas seguidas. Respostas da terceira e quinta série As crianças parecem aceitar que são meras reprodutoras e não seres pensantes. Porém, o professor também é visto como alguém que se limita a reproduzir: “Se eu fosse professor, ensinaria como diz o programa. Tudo deve ser feito como ali se diz”. Necessidade de compreender os alunos A esta concepção básica do processo de ensino-aprendizagem algumas crianças somam a necessidade de que o professor ajude e compreenda a seus alunos: "ensinaria como minha professora, explicando, sem raiva, sem ser má, não xingando-os ... assim, aprendemos mais rápido"; http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 3 www.intensivopedagogico.com.br Cultura Escolar enraizada Estas afirmações levam a pensar que as crianças estão impregnadas pela cultura escolar que não podem reconhecer a sua própria participação na aprendizagem. Quando aceitam que aprenderam sozinhos, são coisas desvinculadas do conhecimento escolar. Outros acreditam que é possível aprender sozinho quando somos pequenos Repetição ou exercitação Enquanto continuarmos considerando que a repetição (ou exercitação) do explicado pelo professor é um processo privilegiado para ensinar matemática, seguiremos impedindo que as crianças descubram em que consiste o conhecimento matemático; impediremos também que eles ponham em ação suas próprias possibilidades de fazer matemática. Aprender segundo a autora é Descobrir, investigar, discutir, interpretar... conceitos que definem uma concepção da aprendizagem e do ensino muito distinta daquela que postula "explicar, repetir, memorizar" Concordam Quase todos os pais inclinam-se a pensar que seus filhos tem aprendido sozinho. As crianças procuram, pesquisam, perguntam, manifestam sua curiosidade para aprender". Sugerem a necessidade de mudar as metodologias Quando pedimos sua opinião sobre a forma com que ensinam matemática seus filhos, vários pais concordam com a metodologia utilizada, porém alguns fazem críticas e sugerem alternativas. Professores e crianças coincidem: na primeira série, os conteúdos mais difíceis são o valor posicional e a subtração; a partir da terceira série, o difícil é a divisão. Valor posicional este conteúdo é assinalado como difícil por várias das professoras da primeira série. Frações Enquanto alguns alunos mencionam as frações como outro conteúdo que apresenta dificuldades, para outros as frações são incluídas dentro do item "fáceis", junto à multiplicação "que é quase igual à soma" Repetição e encaminhamento as respostas mais frequentes apelam à repetição, ao encaminhamento para a aula integrada ou ao pedido de colaboração por parte dos pais. 2 professoras tem resposta diferente "são poucas as crianças que têm dificuldades, o professor pode lhes dar uma atenção mais individualizada em aula... ". Em resumo ainda que seja reconfortante observar que quase todos os professores são sensíveis às dificuldades enfrentadas pelas crianças, é evidente que nem todos assumem o mesmo grau de responsabilidade em relação a estas dificuldades” Unanimidade pais, crianças e professores - em relação à importância dos pais no processo de aprendizagem. http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 4 www.intensivopedagogico.com.br Os professores querem apoio, mas até certo ponto Conversar com os pais a respeito do trabalho pedagógico Por outro lado, mesmo que os professores requeiram a ajuda dos pais, esperam também que esta ajuda tenha seus limites: " os pais os têm acostumado a fazer tudo e a criança não pensa e não faz nada...então seria bom orientá-los" e não só a respeito das dificuldades de seus filhos- asseguraria uma maior coerência entre as intervenções da escola e as do lar na aprendizagem das crianças. Dar aos pais a oportunidade de inserir-se na atividade de aula, conforme desejam e possam, tornar possível introduzir novas modalidades de trabalho cooperativo, gerar, interesses relacionados com sua experiência pessoal e de trabalho, assentar as bases de uma verdadeira vinculação entre a escola e a família. As crianças de primeira série consideram que a avaliação se baseia tanto na aprendizagem quanto no comportamento. “para melhorar minhas notas tenho que me comportar”, “tenho boas notas porque sou tranquilo”. Crianças maiores e adultos a avaliação considera-se relacionada somente com a aprendizagem: "tirei boas notas porque tenho estudado" (...)Os adultos entrevistados compartilham a opinião das crianças maiores Crítica a avaliação Chama a atenção que, entre os entrevistados, sejam os professores os que se mostram mais críticos em relação às provas e à avaliação numérica. Não reflete esforço Alguns professores mostram que o valor das provas é relativo porque estas não refletem o esforço e nem os progressos que tenham realizado pelas crianças. Sobre a participação na aula A maioria das crianças entrevistadas não se sente inclinada a participar porque acredita que participar da aula é correr risco. Porque tem medo de errar. “Porque me dá vergonha e medo”. É necessário e urgente modificar o clima de aula É preciso convencer-se - porque só assim se consegue convencer às crianças - de que o erro é válido porque faz parte do processo de aprendizagem, tem que se valorizar todas as intervenções das crianças porque elas refletem seus esforços para adquirir o conhecimento; tem que se fazer o possível para conseguir que nenhuma criança volte a ter medo de expressar suas incertezas e suas dúvidas, suas descobertas e suas dificuldades. Visão atual de avaliação A avaliação cumpre, antes de tudo, a função de reorientar o processo de ensino- aprendizagem. Ao dar informações sobre a forma com que as crianças têm assimilado os conteúdos trabalhados, a avaliação constitui uma das bases imprescindíveis para a planificação da tarefa futura, permite ao professor determinar quais são os aspectos que são necessários enfocar desde uma perspectiva distinta, é o ponto de partida para a criação de novas situações de aprendizagem que tomem possível aprofundar e aplicar os conhecimentos adquiridos pelas crianças. Até agora, o habitual é que o professor desempenhe o papel de "avaliador" e as crianças, o de" avaliados". Acreditamos que para que a avaliação cumpra sua função como retroalimentadora do processo de aprendizagem é imprescindível que as estratégias didáticas propostas pelo professor também sejam avaliadas e que as crianças participem como coavaliadoras de seus próprios progressos. Ensinar matemática é muito mais do que fazer conta Se na escola nós assumirmos, tanto ao ensinar como ao avaliar, que fazer matemática é muito mais do que fazer contas, não só poderíamos conseguir que as crianças adquirissem conhecimentos mais sólidos como também ofereceríamos a oportunidade de que elas se apaixonassem por essa invenção humana que é a matemática. http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 5 www.intensivopedagogico.com.br Problema: "Um ônibus leva 24 passageiros, em uma parada descem 17. Quantos passageiros ficam?" Aproximadamente a metade das crianças entrevistadas encontram a solução correta deste problema (...) A análise das respostas das crianças também nos mostrou que: • Encontrar uma estratégia adequada para resolver um problema é algo muito diferente de poder representá-lo através de uma conta convencional. • A introdução apressada da conta convencional pode criar obstáculos para elaboração de uma estratégia adequada • É necessário dar tempo às crianças para repensar o problema, como também oportunidades para autocorrigir seus erros acidentais • É imprescindível diferenciar a adequação da estratégia ao problema formulado da correção ou incorreção do resultado obtido. (Sidarta, por exemplo, obtém o resultado errado porque engana-se ao contar, porém, sem dúvida, consegue elaborar uma estratégia adequada.) • Trabalhar com números menores e sugerir a utilização de material concreto, ou do desenho, parecem ser recursos úteis para ajudar as crianças a elaborar uma estratégia de resolução • O trabalho com problemas complexos é evidentemente mais complexo do que se pode supor, não só para as crianças como para os professores. Como fazer para que a diversidade seja um fator positivo para o aprendizado? Apelar à cooperação entre as crianças, incentivar a confrontação de suas diversas estratégias, discutir a respeito da validade de cada uma delas. Porém só a pesquisa didática nos permitirá analisar de perto como interagiam as crianças em cada situação específica, em que medida fazem suas as estratégias propostas pelos seus colegas e, sobretudo, quais são as intervenções do professor que tornam possível uma cooperação verdadeiramente produtiva para a aprendizagem de todos. Subtração é entendida como diminuição. Mas e quando na verdade a subtração indica aumento (uma dívida a ser paga)? "Se a subtração é pensada pela criança pequena como a diminuição de uma quantidade é compreensível que os alunos tenham dificuldade em estender o significado da operação de subtração a situações nas quais a transformação é, na realidade, um aumento, ou a situações nas quais tem que se procurar uma diferença entre estados, ou uma diferença entre transformações"( Vergnaud, 1984). Usam estratégias diferentes É necessário então levar em conta que o fato de que uma criança resolva de uma determinada maneira uma situação específica de subtração (ou de soma) não significa que ela resolverá da mesma maneira outra situação que envolva a mesma operação. As respostas que obtivemos neste sentido podem classificar-se em 5 grupos: A forma como as crianças representaram as operações ao resolver os problemas que lhes propusemos ou que elas mesmas inventaram não coincide sempre com a "conta" convencional: • Representação exclusiva do resultado: Yosmar, por exemplo, quando resolve o primeiro problema de subtração limita-se a escrever 7, que neste caso é o resultado da operação, já que se tinha trocado os dados do problema ao constatar que não conseguia resolvê-lo com os números originais. • Representação exclusiva dos dados incluídos no enunciado: quando perguntamos pelo significado de sua escrita, ela explica que pôs os números “bem separados e com risquinhos, porque estes se foram”. • Representação dos dados do problema e do resultado, porém sem incluir o sinal que indica a operação realizada http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 6 www.intensivopedagogico.com.br • Representação não convencional de todos os termos envolvidos na operação (criança usa o E como sinal de soma) • Representação convencional (formas originas e convencionais) • Nenhuma criança utiliza de forma exclusiva a representação convencional; todas a combinam com alguma outra forma de representação. No entanto, há muitas crianças que utilizam sempre formas próprias de representação, sem apelar, em nenhum caso, à forma convencional. Antes de representar o número 5 só com o numeral 5 Para esta crianças, um conjunto de 5, elementos não pode representar-se com um só numeral: é necessário escrever, tanto os numerais quanto os objetos que tenha o conjunto. Hughes recorre à história dos sistemas de numeração. Uma das explicações que Historiadores dos sistemas de numeração propõem a respeito da origem do sinal + é a seguinte: é muito possível que provenha da palavra latina “et", que significa ''e" e que àsvezes se escrevia com uma cruz inclinada (x). Por isso assinalamos antes que Dony tinha razão quando afirmava que II e" era uma boa representação da ação de agregar. Dar oportunidades de usar formas de representação válidas É necessário dar as crianças oportunidade de usar formas de representação que elas consideram válidas. No entanto, isso não significa que se deve deixar de lado a representação convencional. Isto seria absurdo, já que o que esperamos é que as crianças se aproximem da forma atualmente é aceita como válida. Porém, uma coisa é incluir a representação convencional como objeto de confrontação e discussão, e outra é impô-la como a única possível. Procedimento convencional deve ser algo estranho os números (e também as palavras) se escrevem e se leem da esquerda para a direita; e quando calculamos mentalmente - por exemplo para ter um valor aproximado de quanto nos custarão três produtos que necessitamos comprar - nunca "começamos pelas unidades” Resultados Diferentes com métodos diferentes Parece evidente que elas não as consideram como formas concretas de representação de uma conta; as consideram como entidades autônomas, que não representam nada e das quais podem surgir resultados totalmente independentes das ações realizadas pelo sujeito. “Eu não sei porque é assim. Isso as contas é que sabem” Enquanto continuarmos ensinando procedimentos mecânicos sem criar condições que permitam aos alunos descobrirem os fundamentos desses mecanismos, enquanto não favorecermos a utilização das estratégias que as próprias crianças possam elaborar para resolver e representar as operações, teremos que continuar aceitando que as contas sejam interpretadas como truques inventados por um mágico, como entidades que obedecem a regras próprias, independentes das ações de "agregar" e "tirar". Conta subtração É no caso da subtração que se coloca mais claramente em evidência a diferença entre as estratégias das crianças quando resolvem uma situação problema e quando resolvem uma conta. (...) "pedir emprestado", encontram-se na impossibilidade de subtrair as unidades do subtraendo das do minuendo. Veem-se obrigadas a criar procedimentos especiais para resolver a situação em que o valor do minuendo é menor que o que ocupa o lugar no subtraendo, e estes procedimentos são basicamente os seguintes: somar em lugar de subtrair, inverter os termos da subtração (subtrair ao contrário), tirar do minuendo o que se pode tirar e não realizar a operação. Hughes (1986) "é como se habitassem em dois mundos, cada um dos quais possui suas próprias regras e procedimentos, porém sem conexão entre ambos". http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 7 www.intensivopedagogico.com.br A primitiva aritmética infantil - inventada por ela - dedica-se basicamente a problemas com objetos reais As crianças com frequência fazem as contas com os dedos para realizar uma operação. Os métodos: deste tipo permitem trabalhar com facilidade e corretamente. Depois, são ensinados diversos procedimentos escritos para conseguir os mesmos objetivos. Por desgraça, frequentemente não compreendem a necessidade ou a lógica dos métodos escritos impostos pela escola. Como resultado, surge uma extravagante aritmética escrita, separada por um abismo em relação ao conhecimento informal das crianças. Como fazer para evitar essa separação entre o conhecimento das crianças, e os procedimentos escritos que a escola pretende ensinar-lhes? O conjunto de dados aqui mostrados coloca em evidência a necessidade de tomar sempre como ponto de partida situações-problema reais ou hipotéticas no lugar de apresentar contas carentes de significado. Frente a estas situações, as crianças poderão colocar em ação diferentes estratégias de resolução, discutir com seus colegas a validade das ditas estratégias, refletir sobre elas para determinar quais são mais adequadas ou mais úteis para cada situação. Parece imprescindível criar um vínculo constante entre a ação e a representação, um vínculo que deve incluir tanto a produção por parte das crianças dê maneiras de representar as operações realizadas ou a realizar, como também a interpretação das representações das demais, incluída - é claro - a representação convencional. Por outro lado, as experiências de C. Kamii (1988) mostram que é possível conseguir progressos consideráveis nas possibilidades das crianças de operar com números relativamente grandes sem ensinar o procedimento convencional para somar ou subtrair quantidades de dois ou mais algarismos . Elas poderiam "fazer matemática em lugar de ver-se reduzidas a aplicar procedimentos que não compreendem. De fato, estes procedimentos estão longe de serem imprescindíveis, quando não dispomos de lápis e papel para fazer uma conta, encontramos procedimentos que nos permitem resolver mentalmente. (...) Por que não deixar que as crianças tentem chegar ao resultado de diversas maneiras? Soma são fáceis Os problemas de soma em termos gerais não representaram nenhuma dificuldade para as crianças. Para algumas crianças, os problemas apresentados de forma parcialmente gráfica são um tanto surpreendentes "Assim é que eu o queria, assim escrito, não os problemas gráficos!" (...) esta apresentação é diferente da convencional —, não aparece no enunciado nenhuma das chaves Quanto percorre em 15 voltas? Na vida real os problemas não são escritos seria conveniente formular às crianças (e com elas) problemas dos mais diversos tipos, que reflitam a variedade de situações problemáticas que possam apresentar-se na vida cotidiana. Lerner (1985) mostra que a notação fracionaria também requer e neste caso as crianças elaboram ideias próprias em lugar de aceitar a notação convencional. Disto deriva a necessidade de formular em aula a representação como ela é realmente para as crianças: um problema para resolver. Parece necessário favorecer — também em relação às frações — a confrontação de http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 8 www.intensivopedagogico.com.br um processo de reconstrução diversas formas de representação propostas pelos alunos, como também as diferentes interpretações da representação convencional. Reflexão das propriedades da operação O que fica evidente a partir destes resultados é a necessidade de reservar um espaço para a reflexão acerca das propriedades das operações, para a análise de diversas situações concretas que contribuam à reconstrução — e não ao "recitado" — dessas propriedades. Formular problemas Se na vida cotidiana todos necessitamos formular claramente os problemas para poder resolvê-los; se todos necessitamos selecionar, entre os múltiplos dados que a realidade nos apresenta, aqueles que são pertinentes para responder as nossas interrogações, por que considerar que na escola estas funções são privativas do professor? Por que não dar às crianças a oportunidade de chegarem a ser bons "enunciadores" de situações-problema? Renuncia a sua explicação Todas as crianças são capazes de elaborar estratégias adequadas para resolver os diversos problemas que lhes são formulados. Porém, algumas delas às vezes são levadas a renunciar às suas próprias possibilidades de pensar e optar por prender-se a certas "chaves" linguísticas e numéricas que aparecem seguidamente nos "problemas-padrão" geralmente apresentados na escola. Renunciar ao molde Se renunciarmos ao molde e apresentarmos enunciados produzidos de maneira mais artesanal, podemos conseguir que as crianças se centrem sempre na estrutura lógica dos problemas e deixem de buscar indícios artificiais que obstaculizam seu raciocínio. Visão das crianças é diferente problemas que parecem equivalentes aos olhosdos adultos, podem não ser vistos assim pelas crianças. A não equivalência entre estes problemas reflete-se na utilização de estratégias diferentes para resolvê-los e, em alguns casos, na dificuldade para representar os procedimentos efetivamente colocados em prática através das contas convencionais. Não encontrar a "conta" adequada para resolver um problema é, algo muito diferente de não poder resolver o problema: pode acontecer que a criança tenha elaborado um excelente procedimento para resolvê-lo, porém não encontra a forma correta de representação que corresponde a esse procedimento. Quanto as frações é necessário formular situações nas quais o fracionamento da unidade apareça como resposta para resolver um problema — em vez de centrar-se em representações estereotipadas ——; é necessário também favorecer a tomada de consciência das operações realizadas e a comparação das frações resultantes de distintas partições, assim como a produção de diferentes formas de representar os números fracionários e a discussão das interpretações das crianças frente à notação convencional. Reversibilidade das operações a escola deve dar uma importância muito maior que a dada atualmente a dois aspectos essenciais: a antecipação dos resultados das operações e a reflexão sobre as propriedades das operações. O 0 e o valor posicional as crianças já têm compreendido que o 0 é o "elemento neutro" nas operações de soma e subtração. O valor do 0 depende de sua localização. O que é mais surpreendente, nas reações destas crianças, é que quase todas afirmam desde o começo que o valor do 0 depende de sua localização. (...) Todas as crianças afirmam que não vale nada quando está só ou quando http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 9 www.intensivopedagogico.com.br aparece à esquerda de outros números; quando o 0 aparece à direita de outros números dá lugar novamente a duas posições diferentes. Babilonios e India Para os primeiros inventores de um sistema posicional — que foram os babilônios, aproximadamente no ano 2000 a.C. — formulou-se o problema de encontrar um método inequívoco de representar as quantidades quando a coluna correspondente a uma das potências da base encontrava-se vazia. No princípio, resolveram o problema deixando um espaço vazio, porém isto levava a confusão. Posteriormente, criaram um símbolo 0 que se empregava para indicar a ausência de elementos em um valor posicional determinado. O sistema posicional inventado na India — que os árabes expandiram logo pelo mundo — incluía também um símbolo 0 equivalente ao dos babilônios. Flegg* ( 1984 ) sustenta que a lentidão com que foi adotado o sistema indoarábico em outros lugares do mundo está relacionada com a dificuldade que representava a compreensão do 0. As crianças que já tinham conhecimento de Unidade e Dezena Em síntese, o fato de ter sido ensinado a estas crianças o conceito de dezena não é suficiente para que isto se constitua em um conhecimento operativo. Elas não conseguem diferenciar as dezenas das unidades e se formulam em alguns casos muitos questionamentos referentes à natureza desta diferenciação que lhes é imposta. (...) As crianças podem repetir, mesmo quando não compreenderam As crianças podem aplicar, em determinadas situações, um mecanismo que lhes foi explicado, ainda que não o compreendam. Como não compreendem, não podem generalizar sua aplicação a situações diferentes daquela em que lhes foi ensinado o mecanismo. Algumas crianças resignam-se a não entender, outras fazem um grande esforço por encontrar uma lógica nesse conjunto de informações que receberam e que para elas são contraditórias. Que resultados obteríamos se trabalhássemos diretamente com a numeração escrita no lugar de Sistema de numeração é economico A humanidade levou muitos séculos para inventar um sistema de numeração como este, um sistema que é muito econômico, porque permite escrever qualquer número utilizando só dez símbolos. Porém, justamente por ser tão econômico, pode tornar-se bastante misterioso para aqueles que estão procurando pistas (ou elementos) que lhes permitam reconstruir seus princípios. Se reconhecemos que o sistema de numeração é um objeto de conhecimento muito complexo, reconheceremos também que sua compreensão não pode ser conseguida simplesmente através de explicações acerca do valor das dezenas ou das centenas. Por que as crianças não aprendem E possível que a resposta que estamos oferecendo quando ensinamos "Unidades, dezenas e centenas" não corresponda a nenhuma pergunta que as crianças formulam e essa seja a causa de a aprendizagem destas noções não ser nem significava nem operativa. Um número é maior que o outro de acordo com a quantidade de algarismos No entanto, estas crianças que não compreendem o valor posicional são capazes de escrever e interpretar números de dois e inclusive de três algarismos e podem estabelecer — como temos visto no ponto referido ao valor do 0 que um número é maior ou menor que outro em função da quantidade de algarismos que o compõe. Compreensão do valor das dezenas e centenas não é Isto parece indicar que a compreensão do valor das dezenas e centenas não é um requisito prévio para a compreensão de outros aspectos que constituem o sistema de numeração. Se verificarmos o que é que sabem nossos alunos a http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 10 www.intensivopedagogico.com.br um requisito para a compreensão de outros aspectos respeito do sistema de numeração — e seguramente sabem muito mais do que imaginamos — isso será a base para formular problemas que tenham sentido para elas para ajudá-las a resolver esses problemas. Ensinar por espaços ocupados Formular os números como entidades estáticas nas quais cada algarismo ocupa um lugar determinado não parece ser um procedimento adequado para facilitar a compreensão do sistema posicional. Não deveriam ser criadas as condições para que as crianças descobrissem que quando escrevemos um número estamos colocando o resultado de um processo que consiste na agrupação sucessiva de uma base 10? As crianças de quinta série fazem uma descoberta Decimais em dinheiro é mais fácil Porém, quase todas as crianças são capazes de interpretar com exatidão o significado dos decimais quando estes se referem a um aspecto particular: o do dinheiro. (...) É provável que as interpretações corretas que as demais crianças fazem dos números decimais estejam mais vinculados com seu conhecimento extra-escolar do dinheiro que com o ensino dado pela escola. Decimais em situações específicas é mais complicada Para quase todas as crianças é difícil encontrar a denominação que corresponde aos decimais quando estes se referem a sistemas de medição específicos. Daremos só dois exemplos: Zuheil ( terceira série) lê 0,95 litros de três maneiras diferentes: "95 litros"; "95 centimos" e, finalmente, "0,95". Ensino por projetos Estas relações não deveriam ser "explicadas" pelo professor, e sim estabelecidas pela próprias crianças a partir da realização de projetos de ação que necessitem da utilização operacional das medidas com fins práticos, assim como a reflexão a respeito das mesmas. Agrupação sucessiva em base 10 Seria possível compreender melhor as relações entre décimos' centésimos ... e também descobrir que o zero colocado no final do número decimal não desempenha uma função diferenciadora (à diferença do que acontece no caso dos números naturais), Finalmente, a compreensão dos decimais como um tipo particular de frações e a vinculação entre a notação decimal e a notação fracionária contribuíram, seguramente, para conseguir uma reconstrução mais perfeita do significado dos decimais. A virgula ajuda De fato, na primeirasituação, todas as crianças de terceira série ordenam corretamente as quantidades, porque a vírgula ajuda a resolver todos os problemas que podem surgir: todos sabem que as vírgulas devem estar em coluna É muito mais difícil criar situações de aprendizagem que permitam às crianças descobrir o significado da multiplicação pela base - e a partir disso elas mesmas reconstruírem a regra - que lhes transmitir uma regra elaborada por outros e pedir-lhes que exercitem sua aplicação. Porém, estamos seguros que é muito mais produtivo que as crianças compreendam o que estão fazendo; porque não temerão o esquecimento - já que se terão apropriado dos elementos necessários para reconstruir o esquecido -; porque confiarão na regra por elas elaborada e não necessitarão "fazer a conta" para estarem seguras; porque isto lhes permitirá entender melhor não só esta regra específica como algo muito mais importante: os princípios que regem nosso sistema de numeração. As crianças têm aprendido muito na escola Todos estes conhecimentos não resultam suficientes para que compreendam o que é que fazem quando "se leva" ou "pede emprestado", não são suficientes para entender a natureza dos números decimais e diferenciá-los dos inteiros, http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 11 www.intensivopedagogico.com.br não bastam para coordenar os diversos aspectos da função do 0 em nosso sistema de numeração; não servem para descobrir as razões que fundamentam os mecanismos utilizados. Regras que as crianças criam Tem que haver um lugar na aula — e um lugar importante — para as regras que as crianças vão descobrindo e que são capazes de utilizar operativamente; também é preciso que se conceda um espaço para discutir os novos problemas que são formulados a partir destas regras, assim como as dúvidas e perguntas que surgem ao comparar as próprias ideias com os procedimentos convencionais ensinados na escola. Deixar de lado seu raciocínio Se o enfoque pedagógico que é adotado leva as crianças a deixarem de lado seu raciocínio lógico quando lhes são ensinados conteúdos matemáticos, elas seguramente aprenderão a adaptar-se às exigências da escola, porém não aprenderão matemática, porque não é possível aprender matemática renunciando a pensar. Ciência em evolução Devolvamos à matemática seu direito de apresentar-se — também na escola como uma ciência em permanente evolução. Devolvamos às crianças seu direito de pensar, também quando se trata da matemática. Devolvamos à escola o direito de ser um espaço de produção de conhecimento. A autora é contra memorização e aprendizagem sem sentido Todo mundo tem problema e a escola poderia nos ensinar estratégias úteis Propor/Criar enunciados de problemas / Sinal de igual anuncia Resultado Antes de “colocar no papel” deve-se proporcionar a “antecipação dos resultados das operações e a reflexão sobre as propriedades das operações”. http://www.intensivopedagogico.com.br/ RESENHAS PEDAGÓGICAS 12 www.intensivopedagogico.com.br (VUNESP -Prefeitura de Ferraz de Vasconcelos - SP -2018) Uma professora reuniu um grupo de crianças de 2° ano do Ensino Fundamental I e apresentou-lhes algumas situações sobre unidades, dezenas e centenas. Lerner (1995) usa o exemplo apresentado para tratar de concepções das crianças de primeiro ano do ensino fundamental I acerca do sistema de numeração decimal. Para ela, se reconhecemos que o sistema de numeração é um objeto de conhecimento muito complexo, reconhecemos também que a. sua compreensão não pode ser obtida simplesmente através de explicações acerca do valor das dezenas ou das centenas. b. as crianças que não compreendem o valor posicional não são capazes de escrever e interpretar números de dois e três algarismos. c. a compreensão do valor das dezenas e centenas é um requisito prévio para a compreensão de outros aspectos do sistema de numeração. d. as crianças que não compreendem o valor posicional não distinguem que um número é maior que outro em função da quantidade de algarismos. e. a representação figurativa – como os pontos – constitui uma ajuda para a compreensão do sistema de numeração. (VUNESP -Prefeitura de Serrana - SP -2018) Durante o desenvolvimento de um projeto com ênfase em conhecimentos matemáticos, as professoras da escola Y objetivavam diagnosticar a compreensão que os alunos do 1º ao 5º ano tinham acerca do número zero e de seu valor posicional. Para tanto, empreenderam um diálogo com as crianças. Uma aluna do 2º ano disse que o zero não vale nada, porque se dão a um garoto zero bala, não lhe dão nada. Então, a professora lhe indagou sobre as seguintes situações: A situação ilustrada acerca de como as crianças interpretam o valor posicional do zero evidencia que a. é necessário tomar como ponto de partida a natureza do sistema posicional, assim como as ideias que as crianças têm construído a respeito dele através de sua interação cotidiana com os números. b. os professores dos anos iniciais do ensino fundamental têm dificuldade de desenvolver metodologias que ajudem os alunos a compreender o sistema de numeração decimal. c. desde os anos iniciais do ensino fundamental as crianças têm concepções equivocadas acerca do sistema de numeração decimal, como quando afirmam que o zero não vale nada. d. é importante conversar com os alunos sobre o nosso sistema de numeração, adotado dos romanos, para que pela história da matemática os alunos não apenas memorizem, mas compreendam as regras do sistema. e. o sistema posicional, inventado em Roma, tem regras mistas, isto é, algumas têm uma lógica que deve ser compreendida pelas crianças, enquanto outras devem ser memorizadas, como o valor posicional do zero. http://www.intensivopedagogico.com.br/ https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/vunesp https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/prefeitura-de-ferraz-de-vasconcelos-sp https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/vunesp https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/prefeitura-de-serrana-sp