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CBI of Miami 1 CBI of Miami 2 DIREITOS AUTORAIS Esse material está protegido por leis de direitos autorais. Todos os direitos sobre o mesmo estão reservados. Você não tem permissão para vender, distribuir gratuitamente, ou copiar e reproduzir integral ou parcialmente esse conteúdo em sites, blogs, jornais ou quaisquer veículos de distribuição e mídia. Qualquer tipo de violação dos direitos autorais estará sujeito a ações legais. CBI of Miami 3 Tecnologias e Aprendizagem: Um Olhar Psicopedagógico Claudia Nunes Quando estudamos PSICOPEDAGOGIA, estudamos de pronto nosso poder de observação. Não uma observação qualquer, mas uma observação focada no processo de aprendizagem e/ou em sua dificuldade. Então algumas palavras já se tornam importantes: observação, foco, processo e aprendizagem. Todas muito relacionadas ao MOVIMENTO. Nenhuma dessas ações ocorre sem MOVIMENTO. Nós, psicopedagogos, trabalhamos com o movimento cujo resultado é um determinado COMPORTAMENTO que precisa de intervenção externa para se adequar / organizar / modificar / melhorar. Ou seja, a psicopedagogia se articula com os estímulos às chamadas ‘funções cognitivas’1 que, de alguma maneira, no desenvolvimento do sujeito, dificultam sua aprendizagem em uma das dimensões humanas (emocional, cognitiva e motora) ou em mais de uma delas. Inicialmente, o processo psicopedagógico é o seguinte: • Observar ações iniciais; • Entender suas relações com as três dimensões humanas; • Oferecer atividades; • Observar atitudes, e, com atividades mais assertivas. Um psicopedagogo, então, age a partir dessas etapas para modificar, adequar ou organizar comportamentos disfuncionais ou inadequados, garantindo principalmente, as formas de aprender dos aprendentes. Como afirma Bossa (2011, p.33), a psicopedagogia “se preocupa com o problema da aprendizagem relacionada às características da mesma: como se aprende; como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores; como se produzem as alterações na aprendizagem; como reconhecê- las, tratá-las e preveni-las”. 1 Habilidades do cérebro para sentir, pensar e agir; e estão divididas em percepção, atenção, memória, linguagem, raciocínio lógico e funções executivas. CBI of Miami 4 E, reconhecendo isso, comecemos a dialogar sobre recursos que favoreçam a ocorrência dessas etapas: as TECNOLOGIAS. Não seja saudosista: o mundo mudou. Desde a Revolução Industrial, o mundo mudou muito! Nós, seres vivos humanos, temos como base de nossa evolução, a curiosidade e a criatividade; e, por isso, a partir do pós-guerra, introduzimos na sociedade, diferentes recursos tecnológicos, na intenção de melhorar estes aspectos, além das dinâmicas de convivência e atuações profissionais. Exemplos de tecnologias atuais e muito discutidas: Computador e o mundo da Internet. Hoje observamos intensa transformação justamente nos comportamentos emocionais, cognitivos e motores; além de uma forte reconfiguração nos setores sociais: família, diversão, escola, religião, afetos etc.; todos fundamentais ao processo de aprender. Ser social ganhou outro ambiente de atuação/ prazer / ação / sonho: o ambiente virtual. Ou seja, com a introdução das tecnologias emergentes, no cotidiano, a dinâmica da vivência em sociedade em geral mudou. Mas permanecemos dentro de um conceito padrão: nós, seres vivos humanos, temos a habilidade de nos ADAPTAR. E adaptação significa que nós temos, biologicamente, a qualidade de nos acomodar às situações, pessoas, emoções, caso outro conceito primeiro seja colocado ‘em perigo’: nossa SOBREVIVENCIA. Nós precisamos sempre nos adaptar para nos permitir sobreviver também no século XXI: este é o sentido da manutenção do processo de aprender. Por Que Estamos Introduzindo o Assunto desta Forma? Porque, como psicopedagogos, nós vamos atuar com sujeitos (crianças, jovens, adultos e idosos) com FUNÇÕES COGNITIVAS e EXECUTIVAS2 diferentes. São outras dinâmicas neuronais; gerando outra percepção, atenção e memória; e apresentando outra execução junto às linguagens, 2 Conjunto de habilidades e capacidades que nos permitem executar as ações necessárias para atingir um objetivo. Nelas se incluem a identificação de metas, o planejamento de comportamentos e a sua execução, além do monitoramento do próprio desempenho, até que o objetivo seja consumado. Elas possibilitam nossas interações com o mundo frente às mais diversas situações que encontramos (COSENZA, 2011, p.89) CBI of Miami 5 principalmente, do corpo. Isso mesmo! Sentir, pensar e agir tem outro movimento no cérebro e, logicamente, representarão comportamentos outros através do corpo porque os acessos às tecnologias emergentes se tornaram natural, obrigatório, prazeroso e fundamental. Primeiras Ideias: Para além da genética, há a intervenção do meio ambiente ou como afirma Carl Sagan, há a intervenção ‘extragenética’, e essa é a nossa tônica neste trabalho. Esta intervenção acontece através das emoções, dos exemplos, das bactérias, dos limites e dos recursos aos quais acessamos ou interagimos desde a gestação e, principalmente, a partir do nascimento, na relação com os outros. Só que sabemos que APRENDER é um continuum, não é um processo que ocorra apenas junto às tecnologias emergentes. Ele ocorre através de diferentes tecnologias, hoje, incluindo intensamente, as tecnologias emergentes. Não há descartes, há tempos históricos relevando certas tecnologias em detrimento de outras, mas todas permanecem no conjunto recursivo passível de acessarmos quando o objetivo é estimular aprendizagem ou minimizar dificuldades de aprendizagem. Recursos tecnológicos não são descartáveis! Os recursos tecnológicos seguem se integrando ao nosso cotidiano e, mesmo no século XXI, podem ser utilizados, quando a intenção é minimizar as dificuldades de aprendizagem. A Psicopedagogia está voltada para o desenvolvimento das funções cognitivas do aluno, tendo como meta desbloquear e canalizar o aluno para o aprendizado, isso só pode ocorrer quando são detectados possíveis perturbações no processo de aprendizagem3. Mas para que os recursos possam ser adequados para determinados aprendentes, o psicopedagogo, de pronto, precisa encarar recursos de investigação seriamente. Afinal, dentro do cabedal de atividades psicopedagógicas, escolher a melhor tecnologia ou técnica para o 3 Fonte: https://www.webartigos.com/artigos/a-psicopedagogia-e-a-tecnologia/110810 https://www.webartigos.com/artigos/a-psicopedagogia-e-a-tecnologia/110810 CBI of Miami 6 desenvolvimento de cada sujeito, requer primeiramente tecnologias HUMANAS fundamentais, como: • Empatia • Paciência • Escuta sensível • Flexibilidade cognitiva e recursiva • Prontidão • Tolerância • Humildade • Foco • Confiança Essas tecnologias humanas (também relacionadas às habilidades socioemocionais), como as tecnologias digitais e virtuais aos quais nos referiremos mais à frente, requerem técnicas que segundo Kenski (2003) são “as maneiras, os jeitos ou as habilidades especiais de lidar com cada tipo de tecnologia, de maneira a executar ou fazer algo. (...) Algumas dessas técnicas são simples e de fácil aprendizado. São transmitidas de geração em geração e se incorporam aos costumes e hábitos sociais de um determinado grupo de pessoas. (...) Outrastécnicas são mais elaboradas representadas por habilidades e conhecimentos específicos e complexos: você já pilotou um avião?” (p.19). Quando pensamos em intervenções psicopedagógicas, além dessas habilidades humanas, pensamos em outros recursos tecnológicos externos como: • Entrevistas iniciais (famílias, professores e aprendentes). • Relatórios de observação (famílias e aprendentes), principalmente em seus ambientes de interação. • Atividades lúdicas (famílias, se caber; professores; aprendentes). • Uso de diferentes recursos: do papel, caneta e lápis ao mundo virtual. CBI of Miami 7 Essa é a forma com que psicopedagogos podem alcançar diferentes contextos e entender comportamentos e características; tendo como plataforma de trabalho o reconhecimento de que os sujeitos passam por diferentes etapas (e emoções) em seu desenvolvimento. Os aprendentes são singulares, logo, cuidado com cobranças ou julgamentos excessivos. Cada idade tem sua performance emocional, cognitiva e motora. 1.1. E O Que Significaria APRENDER Hoje? Uma vertigem! Sim! Nossa percepção é de convivermos num caleidoscópio de informações cuja participação das tecnologias tradicionais e emergentes é fundamental e imprescindível, tanto como forma de inclusão social; quanto como maneira de se trabalhar as dificuldades de aprendizagem. CBI of Miami 8 Você saberia viver sem seu celular ou computador por uma semana? O que sentiria? _____________________________________________________ _____________________________________________________ Se sua resposta for tensão, desespero, angústia, preocupação, vazio, saiba que você pode sofrer de NOMOFOBIA4. E isso é uma questão séria de saúde mental! Junto a essas tecnologias, nós, seres vivos humanos e sociais, nos organizamos dentro de uma característica, cujos adjetivos bom e mau são pertinentes. Machado de Assis quando inicia a escrita de ‘Dom Casmurro’ afirma: ‘julgue quem lê’. Aqui podemos parafrasear dizendo: ‘julgue quem usa’. Nós nos organizamos, enfim, em/para/com VELOCIDADE. A velocidade parece ser a alma do negócio chamado ‘conviver em sociedade’ ou ‘aprender na escola ou no mundo’. Nesta perspectiva, as dificuldades de aprendizagem surgirão em maior volume e intensidade, determinando maior ou menor sucesso educacional do aprendente. Somos diferentes, aprendemos de forma diferente: alguns mais rápidos (os pentiuns) e outros mais lentamente (os lentiuns); logo fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e/ou pedagógicos estão em movimento sinérgico e de adaptação / adequação de maneiras diferentes; mas a velocidade vem fazendo a diferença quando o conjunto sensório (sentidos) é estimulado no intuito de desenvolver aprendizagens e causando disfunções / problemas no processo cognitivo. Ou seja, a velocidade assimilada a partir do acesso e uso constante das tecnologias emergentes segue: 4 Surge na Inglaterra a partir do conceito de no-mobile (sem celular) unida a palavra fobos (do grego, fobia). Fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante do medo de ficar incomunicável ou pela impossibilidade de comunicação por intermédio do telefone celular, computador e Internet (fica off- line). (KING, NARDI e CARDOSO, 2014, p.4) CBI of Miami 9 • Mudando a articulação das funções cognitivas. • Interferindo no tempo de atenção e de reflexão. • Modificando a qualificação da memória. • Reorganizando as formas de aprender. Então O Que Fazer? Compreender as novas habilidades envolvidas a partir do uso também das tecnologias emergentes e pensar (e criar) atividades lúdicas / pedagógicas que possam favorecer o aprendente em suas dificuldades de aprendizagem, afinal, aprender às tecnologias e técnicas (recursos), depende: • De os tipos de estímulos; • De os sentidos e desafios; • De as experiências já presentes; • De as formas de aproximação (construção afetiva); • De planejamento; • De as práticas oferecidas. É Um Grande Desafio Pessoal e Profissional! CBI of Miami 10 Psicopedagogos modificam comportamentos através dos estímulos às funções cognitivas (percepção, atenção, memória, linguagem, raciocínio lógico) e executivas. Ao observar o esquema e a afirmação acima, entendemos que, para que o psicopedagogo invista realmente no processo de ensino e aprendizagem, é preciso: • Fomentar interações interpessoais (sócio interacionismo de Vygotsky); • Estimular posturas transformadoras (olhar diferenciado, escuta sensível); • Buscar inovações às práticas escolares (contextualização e promoção da aprendizagem significativa); • Enfatizar ações com conteúdos relevantes e significativos; • Compreender quais são os objetos de estudo em âmbito curricular; • Orientar e interagir com o corpo docente no sentido de desenvolver mais o raciocínio do aluno, ajudando-o a aprender a pensar e a estabelecer relações entre os diversos conteúdos trabalhados (aprendizagem efetiva); • Reforçar a parceria entre escola e família (relação de confiança); • Incentivar a implementação de projetos que estimulem a autonomia de professores e alunos; • Trabalhar preventivamente. Estes são objetivos da ação psicopedagógica para promover sinergia nas três dimensões humanas, na perspectiva do aprendizado, das formas de adaptação e do movimento (desempenho futuro). Assim: CBI of Miami 11 Tecnologias tradicionais e emergentes podem e devem ser utilizadas na prática psicopedagógica, através de atividades diversificadas e criativas, sempre de acordo com as necessidades, interesses e a problemática apresentada pelo sujeito, motivando ensinantes e aprendentes para a construção de processos de aprendizagem mais significativos. 1.2. Pensando em TECNOLOGIAS “A tecnologia é, como a escrita, na definição de Pierre Levy, em seu livro ‘Tecnologias da Inteligência’, de 1993, uma tecnologia da inteligência, fruto do trabalho do homem em transformar o mundo, e é também ferramenta desta transformação” (LEITE, 2003, p.11). Nossa primeira tecnologia é o CÉREBRO. Órgão com cerca de 2k500g cuja função básica é receber e distribuir as informações que chegam pelos órgãos dos sentidos, além de processar estas mesmas informações, comparando-as com nossas vivências e expectativas (COSENZA e GUERRA, 2011). Assim tomamos consciência da realidade em processo de aprender aprendendo, vivendo. Observe a foto abaixo com atenção: CBI of Miami 12 OS SENTIDOS Somos seres vivos humanos em constante intercâmbio com o meio ambiente (interação) para sobreviver. (Cosenza e Guerra, 2011) Cérebro em funcionamento utiliza técnicas e parcerias para manter todo o sistema biológico funcionando. Sentidos, circuitos nervosos (neurônios), neuroquímica e sinapses, elementos que, em sinergia e junto à alimentação saudável, sono adequado, relações positivas e atividades físicas constituem (e fomentam) um dos principais conceitos da neurociência chamado NEUROPLASTICIDADE, capacidade de o sistema nervoso se adaptar aos estímulos que recebe do meio ambiente junto à genética, fortalecendo memória e aprendizagem. Desta forma, com autonomia interna, os seres vivos humanos têm qualidade em seus processos mentais como pensamento, atenção, capacidade de julgamento e decisão. Para desenvolver aprendizagem, o psicopedagogo precisa saber que deve estimular todos os sentidos humanos porque estimulará o cérebro esuas cadeias neuronais, de forma voluntária ou nem tanto. CBI of Miami 13 Quando nos referimos aos estímulos aos sentidos, referimo-nos às EMOÇÕES. E de acordo neurologista português António Damásio (apud LENT, 2008, p.254), as emoções humanas são divididas em três aspectos. Leia o quadro abaixo: EMOÇÕES HUMANAS Emoções Primárias Consideradas inatas e não aprendidas. São emoções comuns a todos os indivíduos da nossa espécie independente de fatores socioculturais5. Darwin observou seus próprios filhos e pessoas de outras culturas, e percebeu padrões semelhantes nas expressões emocionais (principalmente faciais), o que indicada natureza não-aprendida e hereditária. Também o cientista Paul Ekman6 observou que diferentes culturas e civilizações não tem dificuldade de reconhecer algumas expressões faciais umas das outras. Ainda que haja divergências entre estudiosos das emoções, indicam-se pelos menos seis emoções primárias: alegria, tristeza, medo, nojo, raiva e surpresa. Emoções Secundárias São mais complexas e dependem de fatores socioculturais. Culpa e vergonha são os grandes exemplos, pois variam amplamente de acordo com a cultura, a experiência prévia e a época em que o indivíduo está inserido. É possível que algumas culturas podem vivenciá-las com intensidade; e outras nem tanto, ou nem as apresentar. Emoções de Fundo Estão relacionadas com o bem-estar ou com mal- estar, com a calma ou com a tensão. Os estímulos que induzem essas emoções são geralmente internos, gerados por processos físicos ou mentais contínuos que nos levam a um estado de tensão ou relaxamento, 5 Leiam Charles Darwin em seu livro ‘A expressão das emoções no homem e nos animais’ 6 Leiam Paul Ekman em seu livro ‘A linguagem das emoções’. CBI of Miami 14 fadiga ou energia, bem-estar ou mal-estar; ansiedade ou apreensão. Aqui o papel principal é o desempenhado pelo meio interno e pelas vísceras, embora se expressem em alterações complexas musculoesqueléticas, tais como variações sutis na postura do corpo e na configuração global dos movimentos. Quadro montado a partir da leitura de Lent (2008, p.254-255) Nossa principal tecnologia tem técnicas importantes previamente preparadas para aprender em reconfigurações constantes. Já Goleman (1995) apresenta, de forma descritiva, “como diferentes tipos de emoção preparam o corpo para diferentes tipos de resposta” (p.20). É nosso repertório emocional criando assinaturas biofisiológicas. Leia com atenção o resumo abaixo7. EMOÇÕES Observações no CORPO Na raiva Sangue flui para as mãos, tornando mais fácil sacar uma arma ou golpear um inimigo; batimentos cardíacos acelerados; onda de hormônios (adrenalina e outros) gera pulsação; energia forte; atuação vigorosa. No medo Sangue corre para os músculos do esqueleto (pernas facilitando a fuga); rosto lívido; corpo imobilizado (tempo para agir, fugir e se esconder); circuitos dos centros emocionais disparam torrente de hormônios = corpo em alerta = inquieto e prontidão; atenção fixa na ameaça para melhor calcular a resposta. Na felicidade Atividade do centro emocional é incrementada; inibição de sentimentos negativos; aumento da energia existente; menos preocupação; não há mudança particular na fisiologia a não ser tranquilidade; corpo em total relaxamento; mais 7 Assista também com muita atenção ao filme DIVERTIDAMENTE. CBI of Miami 15 disposição e entusiasmo; vontade maior para realizar uma variedade de metas. No amor Sentimentos de afeição e satisfação sexual implicam estimulação parassimpática (resposta de relaxamento); oposto fisiológico do ‘lutar-e-fugir’ quando se tem medo ou ira. É conjunto de reações que percorre todo o corpo, provocando estado geral de calma e satisfação, facilitando a cooperação. Na surpresa Erguer sobrancelhas. Varredura visual ampla; mais luz na retina; mais informação sobre o acontecimento que se deu de forma inesperada; mais fácil perceber o acontecido e conceber plano de ação. Na repugnância Mesma mensagem para todos: alguma coisa desagradou ao gosto ou ao olfato, real ou metaforicamente. Expressão: lábio superior se retorcendo para o lado e o nariz se enrugando ligeiramente (Darwin já alertava). Tapar as narinas e evitar o odor nocivo ou cuspir comida estragada. Na tristeza Ela propicia um ajustamento a uma grande perda (morte ou decepção séria). Acarreta perda de energia e do entusiasmo pelas atividades da vida. Tristeza profunda = depressão. Velocidade metabólica do corpo reduzida. Retraimento introspectivo pode acarretar oportunidade de superação (captar novas energias). Partindo dessa tecnologia biológica, vamos à mente (social) e ao mundo exterior. Dificilmente nossa maneira atual de viver seria possível sem as tecnologias externas em geral. Sempre foi assim. “A evolução social do homem confunde-se com as tecnologias desenvolvidas e empregadas em cada época” (KENSKI, 2003, p.20). As tecnologias, então, sempre fizeram parte do desenvolvimento humano; apenas estamos em um tempo cujo olhar (percepção) dá ênfase às tecnologias emergentes (computador e Internet). Então entendamos certas diferenças: CBI of Miami 16 “Tudo o que utilizamos em nossa vida diária, pessoal e profissional – utensílios, livros, giz e apagador, papel, canetas, lápis, sabonetes, talheres... – são formas diferenciadas de ferramentas tecnológicas. Quando falamos da maneira como utilizamos cada ferramenta para realizar determinada ação, referimo-nos à técnica. A tecnologia é o conjunto de tudo isso: as ferramentas e as técnicas que correspondem aos usos que lhes destinamos em cada época” (KENSKI, 2003, p.19) E ainda assim sempre nos deparamos com dificuldades de aprendizagem; com a necessidade de desenvolver habilidades; e com a importância do processo de inserção social (e organização emocional) das nossas crianças e de todos com todos. Somos uma máquina complexa, mas imperfeita, já que, diante dos tantos estímulos que recebemos constantemente, podemos não ter tempo para nos adaptar e continuar convivendo adequadamente. Atenção! Além do cérebro (nossa grande tecnologia), nós somos envolvidos por outras tecnologias. Do gesto, passando pelo papel, ao computador e à Internet, nós preservamos culturas e sociedades, além de múltiplos instrumentos, responsáveis pela gestão, mediação e transformação da realidade. Mas sempre, no seio do contexto social, há gerações que se sucedem, convivem e convergem informações e saberes. E estas colocam em xeque os paradigmas relacionados à aprendizagem8. A cada época uma tecnologia. Uma forma de, evolutivamente, superarmos nossas fragilidades, principalmente, físicas. 8 Alguns autores e seus paradigmas devem ser relembrados e estudados constantemente, como Piaget, Vygotsky e Wallon. Acessem resumos destas teorias nos anexos nesta apostila. CBI of Miami 17 Marc Prensky (2001), consultor pedagógico, apresenta e analisa as divergências entre gerações dentro dos conceitos de ‘nativos e imigrantes digitais’. No caso dos nativos digitais, o autor refere-se à geração de sujeitos que: • Cresceu e cresce com a evolução da Web e da tecnologia em geral; • Convive diariamente com computadores, videogames, música digital, celulares de última geração etc.; • Recorre, raramente, a leitura de manual de instruções; técnicos especializados; • Tem uma habilidade para usar as tecnologias virtuais e uma característica: a tecnofilia (sentem atraçãopor tudo que for associado às novas tecnologias); • Adora fazer várias coisas ao mesmo tempo: são multitarefa, hipertextuais, imediatistas; • Está psicologicamente ‘linkada’ com o uso que fazem das ferramentas digitais e, nelas, percebem conceitos como espaço, tempo, identidade, memória dentre outros. Já quando o autor apresenta o conceito de imigrantes digitais (ou nativos analógicos), refere-se à geração de indivíduos que não tendo nascido no mundo digital, em determinada altura se sentiram atraídos e mostraram interesse pelas ferramentas digitais. É uma geração que: • Precisará sempre se adaptar ao ambiente; • Acrescenta novas aprendizagens às anteriormente conseguidas cotidianamente; • Sente por vezes a necessidade de imprimir um documento de texto que pretende editar ou telefona a alguém para avisar do envio de um e-mail; • Está em processo de migração tecnológica com muitos conflitos vinculados à velocidade com as quais lidam com as informações e às formas de apropriação dos meios digitais. Essas e outras características e diferenças determinam a perspectiva que cada um tem da tecnologia: um nativo abraça-a, um imigrante adapta-a e, por mais que a utilize, haverá sempre um ligeiro sotaque na sua língua. Ainda assim, apesar de fazer uma coisa de cada vez, nada impossibilita a transição CBI of Miami 18 dos imigrantes para o ‘digital’ quando se encantam pelas possibilidades da tecnologia digital. De novo, a questão do tempo. Eles precisam de tempo para reflexão, de adaptação e de adequação. Deem uma olhadinha no quadro abaixo montado por Monteiro (2009): NATIVOS DIGITAIS IMIGRANTES DIGITAIS INTERNET: tudo o que estiver on-line merece credibilidade SE ESTIVER IMPRESSO em papel merece credibilidade. O MUNDO do conhecimento é público O MUNDO do conhecimento é particular. LEEM E OUVEM: se gostam, compram COMPRAM PARA LER ou ouvir sem saber se vão gostar. SÃO SOCIALMENTE LIBERAIS: acessam-se mutuamente para depois se conhecerem pessoalmente (o mundo é sua vizinhança) SÃO SOCIALMENTE CONSERVADORES: conhecem pessoalmente para depois compartilhar acessos (são extremamente bairristas). DESCONFIAM DAS AUTORIDADES: percebem a falta de autenticidade e fogem da farsa. ACREDITAM NAS AUTORIDADES e lhes dão segunda chance quando erram. CONFIAM PRIMEIRO em seus pares. Subvertem hierarquias. RESPEITAM e se submetem às hierarquias formais. ADORAM A IDÉIA DE POUT-POURRI de funcionalidade num mesmo aparelho. Experimentam aplicativos e abraçam novidades. ELEGEM CADA APARELHO para uma única finalidade. Tem resistência a novidades e aplicativos complementares. APRECIAM O LÚDICO para aprender e se sociabilizar. RESERVAM O LÚDICO para o lazer e a recreação. TÊM FACILIDADE em bloggar, twittar (usar o Twitter) e linkar. TWITTER, BLOG, LINKS: o que é isso? SÃO MULTITAREFAS: fazem várias coisas ao mesmo tempo. SÃO LINEARES E SEQUENCIAIS: fazem uma coisa de cada vez. Fonte: MONTEIRO, 2009. http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2009/05/18/as-diferencas- entre-nativos-imigrantes-digitais-755911443.asp http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2009/05/18/as-diferencas-entre-nativos-imigrantes-digitais-755911443.asp http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2009/05/18/as-diferencas-entre-nativos-imigrantes-digitais-755911443.asp CBI of Miami 19 Sendo assim, um psicopedagogo junto às tecnologias promove caminhos para inserção e convivência social sem muitos obstáculos. É uma questão de proporcionar maior comunicação entre todos para que possam exercer, de alguma maneira, diferentes papéis sociais, ainda que a questão acadêmica não seja a premissa. Psicopedagogia e tecnologias promovem maior funcionalidade ao corpo e à mente do sujeito em dificuldade. As tecnologias visam facilitar a execução das atividades num tempo próprio e adequado, de forma que os comportamentos se adequem minimamente ao contexto das vivências e experiências. 1.3. Intervenções e Recursos Tecnológicos Psicopedagógicos De acordo com Fonseca (2016, p.97), a definição do National Joint Committee on Learning Disabilities (1988) sobre as dificuldades de aprendizagem, é, presentemente, a que reúne internacionalmente maior consenso. O conceito de DAs seria, portanto, “uma designação geral que se refere a um grupo heterogêneo de desordens manifestadas por dificuldades significativas na aquisição e na utilização da compreensão auditiva, da fala, da leitura, da escrita e do raciocínio matemático. Tais desordens, consideradas intrínsecas ao indivíduo e presumindo-se que sejam devidas a uma disfunção do sistema nervoso central, podem ocorrer durante toda a vida. Problemas na autorregulação do comportamento, na percepção social e na interação social podem coexistir com as DA. Apesar de as DA ocorrerem com outras deficiências (deficiência sensorial, deficiência menta, distúrbios socioemocionais) ou com influências extrínsecas (diferenças culturais, insuficiente ou inapropriada instrução...), elas não são o resultado dessas condições”. Em outras palavras, estamos diante de mais aprendentes que não tem atenção adequada; que vivem se movimentando e perturbando a sala de aula ou a casa (não para quieto); que criar brincadeiras fora de hora ou provocativas; que tem muita facilidade em alguma área de saber, mas vários insucessos em outras; que não tem problemas de comunicação, mas escreve de forma ininteligível; que é um grande esportista / artista, mas tem muitas CBI of Miami 20 notas baixas; dentre outros desafios. Além disso, há aqueles “com limitações relacionadas a deficiências sensoriais, como a visual e a auditiva ou com desarranjos ou diferenças de comportamento social, cognitivo ou motor, cuja evolução no processo de aprendizagem é bastante distinta dos demais aprendentes” (COSENZA e GUERRA, 2011, p.130) As dificuldades de aprendizagem e os fatores que as influenciam são a plataforma da ação psicopedagógica. Quando pensamos tecnologias junto às aprendizagens a partir de ações psicopedagógicas, pensamos em favorecimentos, integrações, melhorias e avaliações mediadas pelas tecnologias humanas, digitais e virtuais. Leite (2003) divide as tecnologias em independentes (não dependem de recursos elétricos ou eletrônicos para sua produção ou utilização) e dependentes (dependem de um ou vários recursos elétricos ou eletrônicos para serem produzidas e/ou utilizadas); além de diferentes ferramentas. Observe o quadro abaixo9: Tecnologias independentes Tecnologias dependentes Álbum seriado; Blocão; Cartão- relâmpago; Cartaz; Ensino de fichas; Estudo dirigido; Flanelógrafo; Mimeógrafo; Normógrafo; Gráfico; História em quadrinhos; Ilustração / Gravura/Desenho; Instrução programada; Jogos em geral; Jornal; Jornal escolar; Livro didático; Livro infanto-juvenil; Mapa e Globo; Modelo; Módulo instrucional; Mural; Peça teatral; Computador; Fita de vídeo; Fita sonora e CD; Gravadores; Internet e suas ferramentas - www, Chat, FAQs, Correio Eletrônico, Lista de discussão, Vídeo conferência, Programas de computadores (softwares/aplicativos), Página (home Page) instrucional; Rádio; Slide; Televisão comercial; Televisão educativa; Transparência para retroprojetor; Educação a distância. Além disso, hoje, há celulares; data show; lousa interativa; 9 O quadro foi revisto e ampliado para pensarmos recursos também à aprendizagem no século XXI. Não descartamos nenhuma delas. CBI of Miami 21 Quadro-de-giz/de tinta/magnético; Quadro-de-pregas; Sucata; Gêneros textuais diversos (conto, crônica,poesia, romance, bilhete, receita de bolo etc.) pendrive; redes sociais em geral; blogs. O uso das tecnologias muda o acesso aos saberes e permitem construir novos modelos, novas formas de agir no mundo. De novo, estamos escrevendo sobre comportamentos, hoje, alterados pelo acesso e uso excessivo das tecnologias também emergentes, e de como isso pode ser assimilado pela ação psicopedagógica para, justamente, reorganizar / minimizar as dificuldades de aprendizagem. Sua incorporação, na dinâmica psicopedagógica, favorece: • Desenvolvimento de habilidades sociais / cognitivas / emocionais / motoras; • Combate ao estresse, depressão; • Aumento da criatividade (uso da memória); • Estímulo à curiosidade e aprendizagem (interesse, gosto, prazer, diversão); • Oportunidade de colaborar / interagir (sensação de integração / pertencimento); • Exploração dos sentidos e sentimentos; • Desenvolvimento cerebral / psíquico; • Diminuição de vulnerabilidades, inseguranças, timidez, medos; • Exercício de flexibilidade / imaginação / autocontrole emocional; • Capacidade de lidar com o inusitado, estranho, diferente; • Aprofundamento do processo de aprendizagem; • Resgate de possíveis fraturas. Neste contexto, é preciso pensar dinâmicas com tecnologias adequadas a cada faixa etária e cujas técnicas desenvolvam a sociabilidade na prática, como montagem de mural imagético, visitas técnicas (museus, parques, feiras, shopping etc.), excursões curtas ou longas, bibliotecas, JOGOS dentre outras atividades que a imaginação psicopedagógica poder utilizar. CBI of Miami 22 Por Que Damos Ênfase na Palavra JOGO? Porque o jogo desenvolve a criatividade, a imaginação, a curiosidade, a motivação, funções cognitivas superiores, sonhos, desejos, emoções em geral, em muitos casos de maneira inconsciente. Daí a importância da observação também da questão motora. Toda relação psicopedagoga-paciente / psicopedagoga-aprendente é mediada por atividades bem definidas, mas geradas e gerenciadas por diferentes tecnologias e técnicas (ferramentas = materiais). Sendo assim o JOGO ganha lugar de destaque, junto às tecnologias mais complexas e mais estimulantes à neuroplasticidade, neuro gênese e à diminuição das dificuldades. O jogo envolve o BRINCAR, o lúdico, a alegria, a liberação da emoção mais verdadeira e positiva. Lembremos Huizinga (2012, p.11-14) o qual afirma que, para melhor entendermos o jogo, devemos saber que ele apresenta múltiplas e complexas características, como: • É a atividade voluntária (é livre, é liberdade); • É brincar porque se gosta de brincar simplesmente; • É sempre praticado nas ‘horas de ócio’; • De outra forma, tem função cultural; • Não é vida ‘corrente’, nem vida ‘real’; • É ‘faz-de-conta e tem função cultural; • Tem limites de tempo e duração; • Oferece movimento, mudança, alternância, sucessão, associação, separação; • Dá qualidade e movimento à memória e outras funções cognitivas; • É a capacidade de repetição (fio condutor de todas e quaisquer transformações individuais e/ou coletivas) em espaços diversos como: arena, mesa de jogo, círculo mágico, templo, palco, tela, campo de tênis, tribunal etc. CBI of Miami 23 • Mas é preciso adequar o JOGO às faixas etárias10. Assim: Tudo é possível para o ‘homo zappiens’ (homem que joga), pois nada revela tão bem a humanidade quanto os jogos que joga. Seja criativo, psicopedagogo(a)! Pensemos em Diferenças: Na psicopedagogia escolar, as tecnologias emergentes favorecem o sujeito a vivenciar e experimentar ações cuja reflexão aumenta sua criticidade e autonomia. Na psicopedagogia clínica, elas se oferecem aos diagnósticos e intervenções relacionadas às dificuldades e distúrbios de aprendizagem. Em ambas, há uma remodelagem das infovias neuronais (estímulos = processos mais cooperativos e interativos) através de práticas mais eficientes com atividades lúdicas e dinâmicas. Importante é que o psicopedagogo continue estimulando potências e positividades; e diminuindo ansiedades, frustrações e limitações junto à geração digital, adaptando-se ao seu tempo e às tecnologias deste mesmo tempo. Os aprendentes agradecerão! 10 Em anexo, um quadro com outras possibilidades de estímulos por faixa etária. CBI of Miami 24 Referências Bibliográficas BARBOSA, Laura M. S. Psicopedagogia: um diálogo entre a psicopedagogia e a educação, 2ª edição, Curitiba, Bolsa Nacional do Livro, 2006. BOSSA, Nadia A, A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Rio de Janeiro: WAK editora, 2011. COSENZA, Ramon M. e GUERRA, Leonor B. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011. FERNANDEZ, Alicia. Os idiomas dos Aprendentes. Editora Digital Source, 2001. FONSECA, Vitor. Dificuldade de Aprendizagem: análise contextual e novos desafios. In. Dificuldades de Aprendizagem: abordagem neuropsicopedagógica. 5ª edição. Rio de Janeiro: WAK editora, 2016. (Capítulo 2). p. 95-115. GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. 84ª edição. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1995. HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. 7ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2012. (Estudos nº 04) KENSKI, Vani Moreira. 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