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Teoria e Métodos em Geografia – O Pensamento Geográfico O ensino de Geografia no Brasil Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profa. Dra. Vivian Fiori Revisão Textual: Profa. Esp. Kelciane da Rocha Campos 5 Para que a temática desenvolvida nesta unidade possa ser bem aproveitada, leia atentamente o texto teórico sobre a história e historiografia do ensino de Geografia no Brasil, no nível do Ensino Superior, bem como no Ensino Escolar. Observe as influências políticas e ideológicas no ensino em diversos governos brasileiros e as características gerais da formação do professor de Geografia. É importante também realizar as atividades propostas, buscar ler os materiais complementares e assistir ao vídeo proposto. Nesta unidade, nosso objetivo é explicar o processo da existência do conhecimento geográfico e da disciplina de Geografia no Brasil. E, ainda, refletir sobre as diferentes abordagens da Geografia no Brasil. O ensino de Geografia no Brasil · A História e Historiografia da Geografia no Brasil · O período de 1996-2010: as políticas públicas e as características dos cursos de Geografia 6 Unidade: O ensino de Geografia no Brasil Contextualização O Ensino de Geografia no Brasil passou no final do século XX, sobretudo após os anos 1980, por mudanças no campo teórico, sobretudo no Ensino Superior, mas no Ensino Escolar a questão é mais complexa, e segundo diagnóstico apontado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), há alguns problemas detectados no ensino de Geografia: os modismos de escolher alguns temas, sem se preocupar em aprofundá-los e fazer as necessárias relações para a compressão desses temas; o excessivo uso apenas da memorização de fenômenos e conceitos geográficos, sem problematizá-los, entre outros. Leia com atenção o excerto extraído dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Geografia para o Ensino Fundamental sobre esses problemas: • [...] abandono de conteúdos fundamentais da Geografia, tais como as categorias de nação, território, lugar, paisagem e até mesmo de espaço geográfico, bem como do estudo dos elementos físicos e biológicos que se encontram aí presentes; • são comuns modismos que buscam sensibilizar os alunos para temáticas mais atuais, sem uma preocupação real de promover uma compreensão dos múltiplos fatores que delas são causas ou decorrências, o que provoca um “envelhecimento” rápido dos conteúdos [...] • a memorização tem sido o exercício fundamental praticado no ensino de Geografia, mesmo nas abordagens mais avançadas. Apesar da proposta de problematização, de estudo do meio e da forte ênfase que se dá ao papel dos sujeitos sociais na construção do território e do espaço, o que se avalia ao final de cada estudo é se o aluno memorizou ou não os fenômenos e conceitos trabalhados e não aquilo que pôde identificar e compreender das múltiplas relações aí existentes [...] (BRASIL, 1997, p. 73). Embora esse documento do Ministério da Educação (MEC) seja de 1997, ainda há muitos problemas no Ensino de Geografia no nível escolar, conforme as assertivas citadas nos PCNs de Geografia, mas também em outras pesquisas sobre educação, assim como em documentos mais recentes do próprio MEC. O texto teórico da disciplina evidencia tais problemas, assim como propõe algumas concepções sobre o ensino de Geografia que não sejam tradicionais. 7 A História e Historiografia da Geografia no Brasil Ninguém pode improvisar-se professor. Nenhum professor de geografia pensaria improvisar-se engenheiro ou advogado. (Pierre Monbeig, 1955) Considera-se que para compreender a história da Geografia no Brasil é fundamental evidenciar a relação do contexto social e político com as atividades mais propriamente internas da Geografia. Portanto, o entendimento da Geografia no Brasil não se dá por processo evolutivo, linear, numa repetição ou transposição das produções da Geografia de outros países. Os cursos de Geografia também não evoluíram numa lógica formal (LEFEBVRE, 1995). Quando afirmamos isso, nos referimos ao fato de que não houve só progresso ao longo do tempo, há sempre idas e vindas. Ao longo do tempo histórico, houve mudanças na Geografia brasileira, mas tais transformações não devem ser dissociadas da política, das possibilidades históricas de cada tempo social, das escolhas que são feitas mediadas por questões ideológicas. Se, por um lado, é possível dizer que, ao longo do século XX, a Geografia brasileira superou- se, por outro cumpre afirmar que ainda hoje existem questões que já eram apontadas como problemáticas no começo do século XX, tais como: a dicotomia entre Geografia Física e Geografia Humana; o ensino e a pesquisa; o perfil de formação dos licenciados e bacharéis, entre outras. A criação dos cursos de Geografia da Universidade de São Paulo (1934), da Universidade do Distrito Federal1 (1935) e da Universidade do Brasil (1939) é considerada por alguns autores, como Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (1980), como o momento da institucionalização da Geografia universitária no Brasil. No entanto, antes desse período, já havia produção geográfica institucionalizada. Embora não houvesse cursos de Geografia nas Instituições de Ensino Superior (IES), a produção do conhecimento geográfico se fazia pelas mãos de autodidatas, historiadores, religiosos, engenheiros civis e militares, entre outros, ainda que fora do âmbito acadêmico universitário2. Manoel de Sousa Neto (2008) destaca a ideia de que a Geografia brasileira já tinha instituições importantes antes do Ensino Superior, tais como: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), de 1838; o Colégio Imperial Pedro II, de 1837; e a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (SGRJ), de 1883. Antes que a formação em Geografia fosse institucionalizada pelas IES, havia aqueles alunos que estudavam no secundário e iam tornando-se professores de Geografia, mesmo sem formação universitária. 1 A Universidade do Distrito Federal (UDF) foi criada em 1935, e a implantação do primeiro curso de Geografia fluminense fez parte de ações modernizadoras do governo Getúlio Vargas com objetivos nacionalistas. A UDF foi extinta e incorporada à Universidade do Brasil em 1939. 2 O termo acadêmico é usado neste texto no sentido de participar de um grupo de ciências e letras, assim como se refere ao que participa do mundo das Instituições de Ensino Superior. 8 Unidade: O ensino de Geografia no Brasil Havia também a formação de engenheiros geógrafos, concedida como especialização na Engenharia, embora se tratasse de uma formação mais técnica, mais próxima aos estudos cartográficos. No início da institucionalização acadêmica da Geografia no Brasil, houve um papel importante dos estrangeiros, sobretudo franceses. Contudo, a Geografia brasileira do início do século XX não sofreu apenas influência francesa, tampouco sua institucionalização deu-se somente a partir da criação dos cursos superiores. Também importa reconhecer o papel que a disciplina de Geografia no Ensino Secundário (atualmente Ensino Fundamental II) teve antes mesmo da criação das IES, bem como o papel das produções de caráter geográfico ocorridas antes da sua institucionalização universitária, principalmente com a criação das sociedades geográficas no Brasil. Entretanto, é notável que a produção geográfica se ampliou e se diversificou após a criação das Instituições de Ensino Superior (IES) e de seus cursos de Geografia; do Conselho Nacional de Geografia (CNG), em 1937; do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1937; bem como da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), em 1934. Essa produção geográfica é considerada por alguns como científica só a partir da criação dessas instituições. Um geógrafo que retrata a historiografia da Geografia brasileira é Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (1980), que publicou o livro A Geografia no Brasil (1934-1977): avaliação e tendências. Sua historiografia iniciou-se com o que chamoude implantação da “Geografia científica”, de 1934 a 1948, cujo desenvolvimento foi pautado por grande dependência externa de geógrafos de outros países, sobretudo franceses. Ele destacou, principalmente, as figuras de Pierre Monbeig, Francis Ruellan3 e Leo Waibel, professores respectivamente da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade do Brasil e do IBGE. Já Nilo Bernardes (1982) periodizou 4 as etapas de evolução da Geografia no Brasil e afirmou que a institucionalização da Geografia só ocorreu a partir da criação dos cursos de Geografia da USP e da Universidade do Brasil (atual UFRJ), assim como ressaltou a relevância do papel do Conselho Nacional de Geografia (CNG) e da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) na produção e difusão de conhecimentos geográficos no Brasil. Em outro livro recém-publicado sobre o assunto, O pensamento geográfico brasileiro: as matrizes brasileiras, Ruy Moreira (2010) relata que esse período, do século XIX e início do século XX, foi do encontro entre o conhecimento informal dos cronistas, dos viajantes, da intelligentsia brasileira e dos romancistas que escreviam sobre o Brasil, e a Geografia, além do conhecimento formal dos professores e pesquisadores que vieram ao Brasil, cujas influências são, segundo o autor, principalmente de três matrizes teóricas: [...] a francesa de Vidal, a franco-germânica de Brunhes e a germânica de Hettner, além de uma quarta, a norte-americana de Sauer e Hartshorne, vindo a acrescentar-se tardiamente. A perspectiva vidalina nos chega através de Monbeig e Ruellan, a brunhiana através de Deffontaines e a hettneriana através de Waibel (MOREIRA, 2010, p. 12). 3 Francis Ruellan chegou ao Brasil em 1940, tornou-se professor da Universidade do Brasil e trabalhou também no IBGE, atuando principalmente na área de Geomorfologia. 4 Ele destacou quatro períodos na Geografia Brasileira, até a década de 1980, a saber: a primeira fase, com forte influência da escola francesa (Lablachiana); a segunda fase, com trabalhos de Preston James e Waibel, com ênfase econômica; a terceira, com novos métodos, caso da Geografia Física de Tricart, Geografia Urbana de Rochefort e regionalização, marcada na década de 1960 por trabalhos de Geografia Tópica e os primeiros trabalhos de regiões polarizadas e homogêneas; a quarta fase, de Geografia Teorética, na década de 1960, e, por fim, da Geografia Radical Crítica, a partir dos anos 1980. 9 A concepção de conhecimento formal e informal, proposta por Ruy Moreira, desconsidera que tais conhecimentos produzidos na época não eram mais formais porque eram produzidos nas instituições de ensino. O que ele denomina não formal, outros autores dirão que se trata de conhecimento não científico. Nesse período, há relação entre o governo Vargas e a criação das IES católicas, conforme afirma Luiz Antônio Cunha: [...] durante a era Vargas houve decidido apoio para a criação da Universidade Católica, uma instituição particular. Para esse apoio concorreu, certamente, o pacto informal de colaboração recíproca, proclamada do lado do Estado pelos discursos de Francisco Campos5 e Capanema; pela política favorável ao ensino religioso, isto é, da igreja católica, nas escolas estatais [...] Do lado da Igreja, a difusão da ideologia da ordem, na versão corporativa, reforçava a doutrina do Estado Novo, contribuindo para sua legitimidade (CUNHA, 2007, p. 282). Dessa forma, as IES católicas cumpriam um papel de apoio ideológico na construção do ideário do Estado Novo (1937-1945), numa política de educação autoritária, já que havia interesses recíprocos nessa relação entre o Estado e a Igreja Católica, buscando conservar o trinômio: religião, família e pátria. Outro exemplo dessa tentativa do controle estatal do Estado Novo (governo Vargas de 1937- 1945) foi a intervenção na Universidade do Distrito Federal (UDF), cujo projeto de Anísio Teixeira6 era considerado mais liberal, e sua fusão com a Universidade do Brasil, em 1939. Logo, esse é um panorama de onde estavam inseridos os primeiros cursos de Geografia no Brasil, com diferentes tipos de intencionalidades, e afirmam o papel ideológico que a criação das IES e de seus cursos de Geografia tinham. Essa concepção também está atrelada à própria criação do IBGE e do CNG, já que houve uma nítida relação entre o Conselho Nacional de Geografia e as proposições do governo Vargas em criar formas de conhecer melhor o território nacional. No artigo 1°, da criação do CNG, em 1937, está: Fica instituído o Conselho Brasileiro de Geografia, incorporado ao Instituto Nacional de Estatística e destinado a reunir e coordenar, com a colaboração do Ministério da Educação e Saúde, os estudos sobre a geografia do Brasil e a promover a articulação dos serviços oficiais (federais, estaduais e municipais), instituições particulares e dos profissionais que se ocupem de geografia do Brasil, no sentido de ativar uma cooperação geral para um conhecimento melhor e sistematizado do território pátrio (IBGE, 1962, p. 289). 5 Francisco Campos foi secretário do Interior de Minas Gerais, instituição que tinha a incumbência de tratar de questões ligadas à educação. Cabe re ssaltar que o estado de Minas Gerais foi o primeiro onde houve aproximação entre a igreja católica e o ensino religioso formalmente, já que na Primeira República fora abolido o ensino religioso obrigatório em instituições públicas. Com a criação do Ministério de Educação e Saúde Pública (1930) tornou-se o primeiro titular do Ministério e a partir daí foi autorizado o ensino religioso nas escolas federais (CUNHA, 2007). 6 Anísio Teixeira foi um jurista, educador e intelectual brasileiro, adepto da Escola Nova, que atuou no Ensino Superior e se contrapunha ao interesse da educação autoritária e nacionalista, comum no governo Vargas. Para ele o ensino universitário deveria contemplar a formação profissional, desenvolver o saber humano e alargá-lo. Deveria ainda, por fim, servir como transmissor da cultura brasileira, em sua diversidade (TEIXEIRA, 1967). 10 Unidade: O ensino de Geografia no Brasil Em 1933, por exemplo, conforme o mapa 1, as IES já se encontravam concentradas em São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal (atual Rio de Janeiro), que eram os mais populosos e com maior densidade técnica, expressa em infraestrutura e nos sistemas de engenharia da época. Mapa 17 - Fonte: Séries Históricas, IBGE, 1933 e 1953. Nesse período inicial, o governo Getúlio Vargas (1930-45), em seu projeto nacionalista, buscou criar instituições brasileiras, entre elas o Ministério da Educação e Saúde, as IES e também os cursos de Geografia. Essa época, segundo Antonio Carlos Robert Moraes (2005), é o tempo do Brasil Moderno, do discurso “civilizador” e da “modernização” mediante a (re)organização e ocupação do território brasileiro por meio de novas normas territoriais e sistemas de engenharia, criação de órgãos e instituições públicas, bem como do ideário da brasilidade e do nacionalismo vigente no governo Vargas. A concentração de IES no estado de São Paulo devia-se ao crescimento e destaque paulista na economia nacional, na concentração industrial, principalmente a indústria têxtil, que abrigava grande número de trabalhadores, se comparado a outros estados brasileiros, assim como na participação na exportação e importação no total do Brasil. As primeiras dicotomias dos cursos de formação em Geografia se deram com a formação inicial em História e Geografia, já que os primeiros cursos de Geografia eram juntos com os de História, situação que durou até a década de 1950. 7 Observação: O estado de Mato Grosso do Sul não existia até 1977, sendo todo denominado Mato Grosso; o Tocantins foi criado em 1988, antes seu território era parte de Goiás. Fo nt e: E la bo ra do p or M au ríc io Y am ad a e V iv ia n Fi or i, 20 10 . S ér ie s H is tó ric as , I B G E , 1 93 3 e 19 53 . 11 Apesar da relevância desses primeiros cursosde Geografia no Brasil, o número de formados no Ensino Superior era incipiente. Para complementar a formação dos recém-formados, o Conselho Nacional de Geografia (CNG) desenvolvia na época, no Rio de Janeiro, anualmente, cursos de extensão para os interessados, provenientes de várias regiões do Brasil. Essas atividades, no período de férias, contavam com professores associados ao CNG, em alguns casos com apoio da Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro, e com outros convidados, através de atividades como palestras, excursões de campo, visitas a instituições especializadas em Geografia, exibição de filmes, entre outras. Os participantes eram diplomados 8 mediante participação no curso e uma avaliação final. Comparando-se ao ano de 1965, o mesmo curso parece ser mais direcionado, com menos conteúdo político. Em 1963, por exemplo, havia temáticas sobre Teoria e Metodologia de Geografia, Geografia Física e Humana, Geografia Regional e Geral etc., ministradas pelo Prof. Pedro Geiger, assim como Geografia Agrária, por Orlando Valverde, incluindo assuntos como reforma agrária. Em 1965, conforme relato a seguir: O curso de Férias para Aperfeiçoamento de Professores de Geografia do Curso Secundário (CAGE) vai se restringir, no ano de 1965; à análise e aplicação dos temas geográficos que cada mapa do Atlas Geográfico Escolar (AGE) proporciona. [...] Assim treinado, pode finalmente o professor dirigir o interesse do seu aluno, tornando de fato a Geografia uma disciplina educativa no mais amplo sentido, como preceitua a Lei de Diretrizes e Bases de Educação Nacional (IBGE, 1965, p. 175-176). Essa situação demonstra que, nos anos 1960, a intervenção do governo se fez mais presente nas políticas de Ensino Superior, definindo um novo período para os cursos de Geografia. Esse período inicia-se com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB 4024/61), que definiu as políticas de Ensino Superior e conferiu ao Conselho Federal de Educação (CFE) a definição dos currículos mínimos para o Ensino Superior. Outro evento importante, após 1960, é a chegada do regime militar no Brasil (1964-1985), intensificando-se com a Lei n° 5540/68 (BRASIL, 1968) sobre normas do Ensino Superior, através de uma gestão autoritária com medidas restritivas às IES. Essas resultaram em perseguições políticas a docentes e discentes, demissões de reitores e diretores, manipulações políticas diretas em algumas IES, intervenção direta do governo federal, impedimento de experiências mais liberais no ensino. No caso do ensino de História e Geografia, proibiam-se críticas ao governo militar; logo, a Geografia Tradicional acabava sendo uma concepção aceita pelos militares no lugar de uma visão mais crítica. Nesse período dos governos militares, passamos a conviver basicamente com os seguintes cursos com habilitação para Geografia: · Bacharelado, geralmente nas IES públicas; · Licenciatura em variados tipos de IES; · Formação de professores em Estudo Sociais, com formação geralmente em dois anos, denominada “licenciatura curta”, que habilitava para os anos finais do Ensino 8 Essas atividades davam direito aos participantes de lecionarem, como apontado pela RBG: “Esse curso, que se realizou sob patrocínio do Conselho Nacional de Geografia, foi oficializado pelo Departamento Nacional de Educação, tendo para esse efeito, o prof. Abgar Renault, diretor daquele Departamento, determinado que o diploma conferido aos alunos do Curso dê direito à extensão para o 2º ciclo dos registros de professores de geografia já concedidos para o 1º ciclo” (IBGE, 1945, p. 347). 12 Unidade: O ensino de Geografia no Brasil Fundamental (antigo Ginasial/1˚Grau). A formação em Estudos Sociais habilitava em História; Geografia; Educação Moral e Cívica; e Organização Social e Política Brasileira. · Estudos Sociais, acrescido de disciplinas de formação em Geografia, com habilitação plena, geralmente em mais dois anos, que habilitava a lecionar Geografia nos anos que correspondem atualmente ao Ensino Médio (antigo Colegial/2˚Grau). A novidade do período foi o curso de Estudos Sociais. Nos governos militares (regulamentação Lei n. 5692/1971), o Conselho Federal cria cursos de formação de professores, com habilitação para várias disciplinas, denominados de polivalentes, em três anos, surgindo, entre outros, Estudos Sociais. Na década de 1960, foi institucionalizado o currículo mínimo para os cursos de Geografia, bem como criados os cursos de Estudos Sociais, que também habilitavam à formação de professores em Geografia. Essa situação continuou até o início dos anos 1990, com a coexistência de cursos de Geografia e de Estudos Sociais. Desse modo, há diversas dicotomias presentes nos cursos de Geografia desde o início de sua existência. O período de 1996-2010: as políticas públicas e as características dos cursos de Geografia A partir das mudanças políticas no Brasil, introduzidas com a promulgação da Constituição de 1988, a educação em geral passou por contínuas transformações, que se tornaram mais intensas a partir de 1996, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) nº 9394 (BRASIL, 1996), das legislações específicas para as licenciaturas em 2001, assim como com a existência da política neoliberal e a estabilidade política e financeira do período, que permitiram um avanço do Ensino Superior no Brasil. Isso resultou na expansão dos cursos de Geografia no território brasileiro, sobretudo de licenciatura, em situações bastante diferentes do que tínhamos até então, com um novo processo de interiorização. De comum com os períodos anteriores, a antiga discussão entre perfil de licenciatura e bacharelado, bem como os problemas na formação e na falta de professores de Geografia. Em relação às políticas institucionais do governo federal para o Ensino Superior e especificamente para a Geografia, são promulgadas, nesse período, as Diretrizes Curriculares Nacionais de Geografia (MEC, 2001). Todavia, essas novas legislações deram novo impulso à criação das licenciaturas, pois a formação de professores de Educação Básica, que até 1996 poderia ocorrer mediante a formação em Magistério, a qual habilitava à formação de professores, passou, a partir da LDBEN n° 9394/1996, a ocorrer mediante a formação em curso superior, conforme artigo 62: 13 A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal (BRASIL, 1996, p.22). Considerando-se o período mais recente, pós 1996, houve, no Brasil, duas políticas do MEC que se relacionam mais diretamente à questão curricular de Geografia: a primeira são as Diretrizes Curriculares Nacionais de Geografia (Parecer CNE/CES 492/2001 e Parecer CNE/CES 1363/2001); a outra, a legislação específica sobre a formação de professores (CNE 009/2001 e Parecer CNE/CP 28/2001). A legislação do Ensino Superior específica para as licenciaturas define que os cursos de licenciatura deverão ter características curriculares próprias, que a diferenciem dos cursos de bacharelado, conforme se estabelece no Parecer CNE/CP 009/2001: O processo de elaboração das propostas de diretrizes curriculares para a graduação, conduzido pela SESu, consolidou a direção da formação para três categorias de carreiras: Bacharelado Acadêmico; Bacharelado Profissionalizante e Licenciatura. Dessa forma, a Licenciatura ganhou, como determina a nova legislação, terminalidade e integralidade própria em relação ao Bacharelado, constituindo-se em um projeto específico. Isso exige a definição de currículos próprios da Licenciatura que não se confundam com o Bacharelado ou com a antiga formação de professores que ficou caracterizada como modelo “3+1” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO,2001, p. 6). Nesse sentido, as licenciaturas em Geografia têm de ser separadas do curso de bacharelado, com disciplinas pedagógicas ao longo do curso. A Geografia Escolar O ensino escolar de Geografia inicia-se com a cátedra de Geografia no Colégio D. Pedro II, em 1837, no Rio de Janeiro. Como esse colégio era referência da educação escolar na época, essa disciplina passou a ser ensinada nas escolas secundárias do Brasil. No Brasil, a inserção da Geografia como disciplina obrigatória nas escolas surgiu pela primeira vez em 1837, no Colégio D. Pedro II. Nesse período, o Brasil regencial estava marcado por uma grande instabilidade política, por conta dos movimentos políticos e/ou separatistas de diversas províncias do país. Por esse motivo, a disciplina era vista como uma forma de despertar certa identidade nacional, transmitindo a imagem de um país grande e unificado, e de trazer cultura geral sobre o mundo às elites brasileiras. Ao longo do século XX, a disciplina foi se consolidando como disciplina escolar, mas o ensino de Geografia era muito descritivo, com inúmeros nomes, enciclopédica, e na reprodução dos conhecimentos preexistentes. Era um conhecimento bastante fragmentado (separando-se aspectos físicos dos humanos), elaborando uma fragmentação (dicotomia) do que se conhece como Geografia Física e Humana. 14 Unidade: O ensino de Geografia no Brasil Delgado de Carvalho9 foi uma figura importante para a história da Geografia no Brasil, que publicou intensamente obras nas áreas de humanidades, mas também em fisiografia e sobre a questão territorial do Brasil, assim como sobre ensino, e que teve grande importância para a Geografia: A grande exposição de Delgado aos ambientes envolvidos com a geografia deu-se anteriormente à institucionalização propriamente dita, isto é, nos sítios pioneiros de antes da domesticação aplicada da disciplina nas faculdades e no executivo federal. Delgado não foi partícipe da fase realmente significativa da legitimação do geógrafo pelo trabalho de campo, após a metade dos anos 1930 e adiante. Celebrara a importância da ida ao campo de forma mais doutrinária e educacional, como um difusor precoce de proposições de novas atitudes metodológicas (BARROS, 2008, p.326-327). O ensino de Geografia no Brasil, por muito tempo, e até certo ponto em algumas situações, ainda hoje é bastante tradicional. Em muitos casos há uma excessiva preocupação com memorizações de fatos e conceitos geográficos, sem tentar buscar entender os processos pelos quais se realizam. A concepção tradicional, numa concepção positivista, da Geografia como a ciência dos lugares, da localização, sem compreender em que a localização tem relação com os fenômenos geográficos. Além disso, com a formação de muitos professores em Estudos Sociais – até anos recentes, que possibilitava a formação de licenciatura curta, em até dois anos, fez com que a formação ficasse ainda mais deficitária. Pois em dois anos poderiam lecionar História e Geografia para o Ensino de 1˚ Grau (hoje Ensino Fundamental II). Assim, para muitos, a Geografia ainda é entendida como uma ciência da localização, dos mapas, muito descritiva, numa concepção equivocada, que muitas vezes é reproduzida por professores de Geografia no nível escolar. Ao pensar na Geografia Escolar, cabe afirmar que não se trata de pura transposição didática do que se aprende no Ensino Superior, e sim de considerar o contexto no qual existe a escola, a turma, a idade e condição do aluno, os elementos curriculares, entre outros, que são essenciais para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem. O uso de teorias e conceitos, no mundo acadêmico, é fundamental, mas sua utilização no Ensino Escolar também precisa ser levada em conta. Nesse caso, é importante considerar diversas mediações, entre elas: a idade do aluno; a série e turma na qual o aluno está inserido; o tipo de currículo; o contexto no qual está inserida a escola, entre outras mediações. O ensino de Geografia tradicional privilegiou a etapa da memorização em detrimento de outras sequências no processo de ensino-aprendizagem. Num estudo de Geografia escolar, é fundamental também tratar e usar as categorias geográficas e seus conceitos como forma de desvendar os fenômenos e temáticas geográficas. Para isso, além da memorização, há outros fatores que são fundamentais no processo de ensino-aprendizagem, entre eles: a capacidade de diferenciação; a classificação; a análise; a síntese; e a abstração (COUTO, 2005). 9 Delgado de Carvalho atuou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e na Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro (1920). Os livros mais próximos a conhecimentos geográficos são: “Geographia do Brasil” (1913); “Météorologie du Brésil” (1917); “Physiografia do Brasil” (1923), “Introdução a Geografia Política” (1925) e “Metodologia do Ensino Geográfico” (1925). Foi docente do Colégio Pedro II, sendo professor de Geografia e Sociologia. Em 1935, torna-se professor de Geografia Humana na Universidade do Distrito Federal. 15 É essencial que as categorias e conceitos geográficos sejam tratados dentro de um contexto e tornem-se significativos para o educando. Tornar significativo é fazê-la uma aprendizagem significativa, e não uma aprendizagem mecânica, que possa ser internalizada pelo aluno e não apenas memorizada. Para isso, é fundamental que os conceitos geográficos sejam também apreendidos pelo futuro geógrafo e/ou professor de Geografia. Para que um estudo de conceitos seja desenvolvido adequadamente, é importante que não seja apenas reproduzido verbalmente nem no Ensino Superior nem na Educação Básica. São muito comuns, numa abordagem tradicional de Geografia no Ensino Escolar, as seguintes indagações: qual o ponto culminante do Brasil? Qual o principal rio da região Norte? Qual a localização do clima tropical? Onde se localiza o maior produtor de petróleo do Brasil? Qual o nome da maior cidade brasileira em número de habitantes? Qual o tipo climático da Amazônia? Qual o maior país do mundo? Por outro lado, nessa perspectiva mais tradicional de ensino de Geografia, também é comum a reprodução verbal dos conceitos. Em um estudo sobre urbanização, por exemplo: o que é urbanização? O que é paisagem urbana? O que é globalização? O que é relevo? Geralmente, o livro didático traz a definição ou ela é dada pelo professor. Então, os alunos acabam memorizando e decorando, e isso se torna o fim do conhecimento, quando na verdade os conceitos servem para ler o mundo e não somente tem sentido como uma explicação que tem fim em si mesmo. O conceito precisa ser aplicado a uma realidade existente, vivida, que possa ser operacionalizada num estudo específico. Para isso, é fundamental que o professor de Geografia tenha uma formação sólida em Psicologia de Educação e teorias geográficas, como aponta um documento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), sobre a importância de que um formando em Geografia tenha conhecimentos sólidos para sua atuação como professor: [...] esperava-se dos licenciandos o domínio das teorias da psicologia da aprendizagem, que tomam como fundamentais o repertório e a linguagem dos alunos no processo de construção do conhecimento. Um outro caminho de raciocínio, também considerado, diz respeito àquele baseado nos conceitos da Geografia. Em outras palavras, é pressuposto na questão que a elaboração do conceito de espaço geográfico é gradativa, mobilizando-se, ao longo do ensino fundamental, categorias analíticas (paisagem, território, lugar, dentre outros) e diferentes escalas espaços temporais (do local ao global), que constituem o núcleo central do método geográfico (INEP, 2003, p. 53). Para compreender a linguagem geográfica, suas categorias analíticas e conceituá-las, é necessário tratá-las em contextos específicos. No lugar de dar a definição, é importante desenvolver situações no processo de ensino-aprendizagem que tragam luzaos conceitos, de forma que eles sejam entendidos em seu contexto concretamente. A comissão responsável pela leitura das provas de Geografia respondidas por estudantes de cursos de Geografia no Brasil, que ao final do curso realizam um exame nacional denominado Exame Nacional de Desempenho de Estudante (ENADE), chegou à seguinte conclusão em um relatório disponibilizado pelo INEP: 16 Unidade: O ensino de Geografia no Brasil Não se constata, na maioria das provas, um repertório próprio da geografia. Os termos utilizados derivam do senso comum. Exemplos: buracos, crateras, casas, plantio, ganância, dinheiro, garagens, processo de escavação, afundamento do terreno. Em relação à leitura do gráfico, foi perceptível que muitos estudantes somente faziam menção ao tempo passado, dando os exemplos de Roma e do Egito. Isso demonstrou a insuficiência da habilidade da própria leitura de gráficos, já exigida no ensino médio e própria da formação em Geografia (INEP, 2006, p.52). O Relatório apontava falta de conhecimento dos conceitos básicos de Geografia, falta de articulação entre conteúdos e os conceitos geográficos, e dificuldade na leitura de gráficos e mapas. Portanto, apesar de estarem concluindo o curso, havia deficiências básicas na formação desses discentes. Desse modo, uma formação adequada em Geografia requer um repertório de conceitos geográficos e não do senso comum. O conhecimento científico requer o uso de categorias e conceitos, cujas explicações fundamentam-se na necessidade de compreender o mundo, o espaço geográfico em diferentes escalas e situações. Claudivan Sanches Lopes (2010) destaca, em sua tese, que se adquire conhecimento mediante a própria ação e prática docente, mas que esta não termina apenas numa mediação tecnocrática e nem se deve supervalorizar a prática em relação à teoria. Conforme diz o autor: [...] a pesquisa e a análise da prática cotidiana profissional dos professores têm mostrado que esse modelo de orientação tecnicista, legado do positivismo no campo das ciências sociais, não resiste ao presente momento histórico [...] o pressuposto que a ciência pode produzir conhecimentos para guiar, com segurança, a ação profissional dos professores na consecução de sua tarefa tem-se mostrado parcial. Porque ignora, entre outros aspectos, a complexidade e singularidade dada pelo contexto de todo processo educativo (LOPES, 2010, p. 31). Nesse sentido, teoria e prática são fundamentais e indissociáveis. Trata-se de uma situação complexa que precisa ser considerada nas dimensões da formação e das condições de trabalho dos professores, no contexto social, político e educativo, com os lugares nos quais se dão o aprendizado e a prática docente. É fundamental também buscar novas formas de entender e ensinar Geografia, caso da proposta de Geografia Crítica. Conforme explica Clarice Cassab: A Geografia Crítica afirma, nesse momento, a importância da Geografia assumir um papel transformador da realidade e, para tanto, o primeiro passo seria conhecer essa mesma realidade. Daí a importância de ver o espaço como heterogêneo, socialmente construído e reflexo da forma de organização societária. A configuração espacial é tratada como categoria histórica, como produto, meio e condição da produção e reprodução social. Há, nessa acepção, um claro afastamento ao discurso da pretensa neutralidade e racionalidade apresentado pela Geografia Teorética. A ciência não seria neutra e caberia ao geógrafo conhecer o espaço para transformá-lo. O espaço passa a ser, ele mesmo, um produto social (CASSAB, 2009b, p. 5). 17 Compreender o papel social que a Geografia tem, analisando o espaço de forma crítica, requer uma sólida formação do futuro professor de Geografia, que não será um mero transmissor de conhecimentos, mas principalmente um mediador e questionar da realidade existente. Compreender as teorias e métodos da Geografia e saber empregá-las no Ensino Escolar, considerando-se as especificidades do ensino na escola, é fundamental para um futuro professor de Geografia. Nesse sentido, ler e se aprofundar nas diversas temáticas do curso é muito importante para uma boa formação. Conhecer o espaço e saber compreendê-lo criticamente para melhor nele atuar, contribuindo para uma formação cidadã. 18 Unidade: O ensino de Geografia no Brasil Material Complementar Explore Leituras: · CAVALCANTI, Lana de Souza. A Geografia e a realidade escolar contemporânea: avan- ços, caminhos, alternativas. Anais do I Seminário Nacional: Currículo em Movimen- to – Perspectivas Atuais. Belo Horizonte, nov. 2010. Disponível em: . Acesso em: 20 jun. 2014. · MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC). PCN+ Ensino Médio: Orientações educacio- nais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências Humanas e suas tecnologias. Brasília, 2000. Disponível em: . Acesso em: 20 jun. 2014. Vídeo: · UNIVESPTV. D-22- O que é Geografia? UNESP, 14min44, 2012. Disponível em: . Acesso em: 22 jun. 2014. 19 Referências BARROS, Nilson Cortez Crocia de. Delgado de Carvalho e a geografia no Brasil como arte da educação liberal. Estudos Avançados, Universidade de São Paulo, São Paulo, 22 (62, 2008), p. 327-333. BERNARDES, Nilo. A influência estrangeira no desenvolvimento da Geografia do Brasil. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, ano 44, nº 3, jul/set. 1982, p. 519-528. BRASIL. Lei nº 9394 de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União. 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