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2 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia SUMÁRIO OS CAMINHOS TRILHADOS PELA CIÊNCIA GEOGRÁFICA ..........................................3 A GEOGRAFIA COMO CIÊNCIA HUMANA ..........................................................................4 A HISTÓRIA DA GEOGRAFIA NO BRASIL ......................................................................9 OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: OS CAMINHOS DO ENSINO DE GEOGRAFIA ............................................................................................................................16 A METODOLOGIA VOLTADA PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA ................................19 A GEOGRAFIA NO SÉCULO XXI ....................................................................................22 A ESTRUTURA CONCEITUAL PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA: O PAPEL DA ESCOLA, DO PROFESSOR E DO ALUNO ........................................................................25 A ESTRUTURA CONCEITUAL BÁSICA PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA: OS NÍVEIS DE APRENDIZAGEM ...............................................................................................26 DIRETRIZES METODOLÓGICAS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA: OS PCNs ......30 O PAPEL DA ESCOLA NO SÉCULO XXI PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA ........35 O PERFIL DO PROFESSOR PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL ..............................................................................41 INFORMAÇÃO CONHECIMENTO ...................................................................................43 O PAPEL DO ALUNO NO ENSINO DE GEOGRAFIA .......................................................46 O ESPAÇO GEOGRÁFICO: ..................................................................................................52 O ESPAÇO GEOGRÁFICO X ESPAÇO NATURAL .......................................................52 A IMPORTÂNCIA DOS CONCEITOS GEOGRÁFICOS ....................................................55 PRODUÇÃO DE NECESSIDADES: TRANSFORMANDO A NATUREZA E O PRÓPRIO HOMEM .................................................................................................................63 A CRIANÇA E AS RELAÇÕES ESPACIAIS: A EVOLUÇÃO DA NOÇÃO DE ESPAÇO ...................................................................................................................................................66 AS ATIVIDADES LÚDICO-PEDAGÓGICAS NA AMPLIAÇÃO DO DOMÍNIO DE ESPAÇO ...................................................................................................................................76 Atividade 1: mapear o eu........................................................................................................76 Atividade 2: o banho de papel ...............................................................................................77 Atividade 3: lavando o corpo hemisferizado: o equador corporal .....................................78 Atividade 4: lavando o corpo hemisferizado: meridiano corporal e a lateralidade .........79 Atividade 5: quem é o vizinho? ..............................................................................................80 Atividade 6: disco voador .......................................................................................................82 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................84 3 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia OS CAMINHOS TRILHADOS PELA CIÊNCIA GEOGRÁFICA Em síntese, podemos concluir que todas as ciências acima elencadas privilegiam o homem e as relações entre outros homens, mas sobretudo, a Geografia busca privilegiar o homem e compreender as características do espaço natural em que se encontra, que é uma preocupação da Geografia O nosso objetivo a partir deste material é contribuir para a sua formação acadêmica, assim como estudar alguns princípios teórico - metodológicos que norteiam o processo de ensino - aprendizagem na disciplina de Metodologia do Ensino de Geografia. Nesse sentido, o nosso caminhar se dará, em primeiro lugar, em uma aproximação da definição de Ciência. Mas qual Ciência? As Ciências Humanas. Quando falamos em Ciências Humanas é preciso compreender ao menos duas questões que se correlacionam entre si: a primeira questão é o entendimento de que as Ciências Humanas decorrem de uma vasta área do conhecimento humano; que são oriundas do sa ber de outras ciências: Antropologia, História, Geografia, Sociologia, Economia, Política, entre outras. A segunda questão é que todas essas ciências aparentemente separadas têm como objeto de estudo “[...] o homem em suas relações: entre si, com o meio na tural em que vive, com os recursos já criados por outros homens através do tempo [...]” (DUPAS, 1994, pp.17 - 18). 4 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Física. Por outro lado, e como já citado anteriormente, como os homens fazem uso desse espaço. Por meio das relações que estabelecem entre si é o objeto do qual se ocupa a Geografia Humana. Diante do exposto e sem a pretensão de esgotar a complexidade do assunto, concordamos que cada uma das ciências citadas anteriormente possui uma vasta área de abrangência e especializa-se em determinados aspectos do seu objeto de conhecimento. Em específico com a Geografia é preciso retomar o que foi anunciado. Nesta perspectiva, é isto e mais um pouco que procuraremos discutir nesta primeira unidade. Vamos lá? A GEOGRAFIA COMO CIÊNCIA HUMANA A primeira aula de Geografia sempre começava assim: a professora escrevia no quadro a palavra Geografia e então separava GEO de GRAFIA e dizia que GEO significava Terra e GRAFIA estudo, portanto, esta disciplina se comprometeria a estudar a Terra. Mas que Terra era essa que a professora mencionava? Ficava muitas vezes limitado a entender que esta disciplina estudava o mundo. E assim permanecia com um conhecimento abrangente, mas de pouca complexidade. Penso que não há nada melhor do que começarmos nossa discussão reavivando a memória, para hoje, entendermos o quão esta ciência vai muito além do estudo da Terra. O DIA DA TERRA A TERRA É NOSSA MÃE !!! O Dia da Terra foi criado em 1970 quando o Senador norte- -americano Gaylord Nelson convocou o primeiro protesto nacional contra a poluição. É festejado em 22 de abril e a partir de 1990, outros países passaram a celebrar a data. Sabe-se que a Terra tem em torno de 4,5 bilhões de anos e existem várias teorias para o “nascimento” do planeta. A Terra é o terceiro planeta do Sistema Solar, tendo a Lua como seu único satélite natural. A Terra tem 510,3 milhões de km2 de área total, sendo que aproximadamente 97% é composto por água (1,59 bilhões de km3). A quantidade de água salgada é 30 vezes a de água doce, e 50% da água doce do planeta está situada no subsolo. A 5 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia atmosfera terrestre vai até cerca de 1.000 km de altura, sendo composta basicamente de nitrogênio, oxigênio, argônio e outros gases. Há 400 milhões de anos a Pangéia reunia todas as terras num único continente. Com o movimento lento das placas tectônicas (blocos em que a crosta terrestre está dividida), 225 milhões de anos atrás a Pangéia partiu-se no sentido leste-oeste, formando a Laurásia ao norte e Godwana ao sul e somente há 60 milhões de anos a Terra assumiu a conformação e posição atual dos continentes. O relevo da Terra é influenciado pela ação de vários agentes (vulcanismo), abalos sísmicos, ventos, chuvas, marés, ação do homem) que são responsáveis pela sua formação, desgaste e modelagem. O ponto mais alto da Terra é o Everest no Nepal/ China com aproximadamente 8.848 metros acima do nível do mar. A Terra já passou porda família nuclear, no ganho de poder da juventude na sociedade contemporânea, na modificação dos valores morais e éticos, assim como no impacto dos avanços tecnológicos e meios de comunicação e informação que estão cada vez mais acelerados. Durante muito tempo, sobretudo, nas décadas de 1970 e 1980 vivemos sob a iminência de uma guerra nuclear que ameaçava a história da humanidade no planeta. Hoje não vivemos mais sob essa ameaça, mas ainda presenciamos uma nova forma de extinção com a aceleração, ocupação humana e produção industrial, assim como temos observado a solidariedade, a ética, os valores morais cedendo espaço para a competitividade e o individualismo. Diante desse cenário de transformações, o que podemos esperar da educação? Qual seria o papel da escola para o ensino de Geografia? Para ilustrar a gravidade da situação atual, leia a charge e procure analisá-la com um olhar crítico diante do que vê. 39 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia 2011. Hoje estamos diante da globalização, do ciberespaço, do fim das verdades absolutas e isso, muitas vezes, nos leva a questionar essa instituição social chamada escola, que parece não atender mais as nossas expectativas enquanto partícipes de uma sociedade altamente competitiva, potencializadora de exclusão social com regras e valores nem sempre definidos para a maioria. Parece que ela parou no tempo, ou melhor dizendo, anda em descompasso com o nosso tempo, sendo considerada por muitos, ainda, como mera transmissora de conteúdos estáticos e desconectada de uma finalidade social dos conteúdos escolares. Fonte: . Acesso em: 28 jun. 40 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Porém, se entendermos que a escola nunca é neutra, mas comprometida ideológica e politicamente, isso vale dizer que a cada momento histórico ela procura responder as necessidades da sociedade à qual está inserida. Sendo assim, a educação de nossas crianças nos anos iniciais necessita ter uma função social para o século XXI. Por isso mesmo, presos a nossa aldeia, devemos ter o distanciamento necessário para ver a amplidão do mundo e a partir daí formar cidadãos não apenas para uma cidade ou um país, mas educarmos para um mundo com todas as suas possibilidades e contradições. Segundo as palavras do professor e filósofo espanhol Fernando Savater (2002, p.1), A escola deve reforçar as qualidades sem as quais ninguém consegue sobreviver no mundo contemporâneo, [...] mas creio que a educação é a que mais nos preocupa, pois falar sobre ela significa refletir sobre o destino do homem, nosso lugar na natureza e a relação com os nossos semelhantes [...]. A escola deve ser, então, um espaço de reflexão que nos leve a perceber que cada fenômeno, assim como a nossa relação com os nossos semelhantes, não está separado, mas articulado. Sendo assim, o elementochave da escola, bem como da sobrevivência do homem contemporâneo, está na compreensão e na relação do homem com a natureza. Nesse sentido, o papel da escola para o ensino de Geografia, nos anos iniciais, deve ser visto como instrumento de conscientização. Em outras palavras, significa dizer que não basta que o aluno observe, analise, interprete como o homem produz o espaço geográfico, mas é preciso perceber que esses espaços são desiguais. Assim, a educação geográfica contribui para a compreensão do mundo e para a formação do conceito de identidade, que pode ser expresso de diferentes maneiras, de acordo com Castellar e Villhena (2010, p.15): • Na consciência de que somos sujeitos da história. • Nas relações com lugares vividos (incluindo as relações de produção). • Nos costumes que resgatam a nossa memória social. 41 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia • Na identificação e comparação entre valores e períodos que explicam a nossa identidade cultural. • Na compreensão perceptiva da paisagem que ganha significados, à medida que, ao observá-la, nota-se a vivência dos indivíduos. Desta forma, ensinar Geografia significa possibilitar ao aluno raciocinar e levá-lo à compreensão da formação do conceito de identidade e ao estudo do território com seus usos, hábitos, costumes, culturas e etnias em uma dimensão cultural, econômica, ambiental e social. O saber geográfico tem também um caráter político, pois é por meio do trabalho que os homens se apropriam da natureza. Nesse sentido, não é possível ignorar a relação do homem com a natureza, assim como não é possível considerar o homem como um ser abstrato e desconectado da sociedade. “[...] Estes são homens concretos que se relacionam com a natureza, sob determinadas condições sociais” (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.63). São justamente nessas relações sociais que se desenvolvem o trabalho e o processo de transformação da natureza para atender em às necessidades humanas não de forma individual, mas dentro de determinados objetivos que são definidos socialmente com influência significativa daqueles que controlam os meios de produção. Assim, o trabalho é o elemento chave que integra as relações do homem com a natureza. Diante das considerações elencadas com relação ao papel da escola no século XXI, constatamos que a mesma deve estar comprometida ideológica e politicamente, pois essa tem como finalidade responder às necessidades de cada período histórico, levando em consideração os homens que vivem na sociedade e suas formas de produção. Pensar uma educação para a Geografia nessa mesma sociedade significa pensar o homem na sua relação com a natureza e a transformação que o mesmo produz como forma de organizar a sua vida social. Uma educação para a Geografia deve levar em consideração não somente o espaço presente, mas o que queremos deixar para as gerações futuras, considerando que a Terra é, ao menos por hora, o único espaço que abriga a vida humana. 42 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Encerramos essa seção com alguns trechos da música “O Sal da Terra”, de autoria de Beto Guedes, que nos leva a refletir sobre o mundo que deixaremos para as próximas gerações. O SAL DA TERRA Anda! Beto Guedes Caso prefira, também poderá acessar ao link: e assitir ao vídeo. Quero te dizer nenhum segredo Falo nesse chão, da nossa casa Vem que tá na hora de arrumar... Tempo! Quero viver mais duzentos anos Quero não ferir meu semelhante Nem por isso quero me ferir Vamos precisar de todo mundo Prá banir do mundo a opressão [...] Terra! És o mais bonito dos planetas Tão te maltratando por dinheiro Tu que és a na ve nossa irmã Canta! Leva tua vida em harmonia E nos alimenta com seus frutos Tu que és do homem, a maçã... Vamos precisar de todo mundo Um mais um é sempre mais que dois Prá melhor juntar as nossas forças É só repartir melhor o pão Recriar o paraíso agora Para merecer quem vem depois... 43 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Agora é com você! Pense, reflita e expresse sua opinião: a) Como é apresentada a relação homem-natureza nessa música? b) As sociedades modificam a natureza em graus de intensidade de acordo com seus níveis de desenvolvimento e interesses. Sendo assim, o que o autor da letra quis dizer com “tão te maltratando por dinheiro”? c) Que mundo é esse que deixaremos para as gerações futuras? d) Segundo a letra da música, como é possível “recriar o paraíso agora”? Isto reverteria a situação atual? Explique. O PERFIL DO PROFESSOR PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL Na prática educativa interessa-nosa ação docente, ou seja, a didática e a forma como o aluno se apropria do conhecimento. Castellar e Vilhena, temos observado que os Parâmetros Curriculares Nacionais têm como direcionamento em um dos seus objetivos que a escola e o professor oportunizem para as crianças conhecimentos necessários para: [...] crescerem como cidadãos plenamente reconhecidos e conscientes do seu papel na sociedade (BRASIL, 2000, p.6). Para crescer em como cidadãos conscientes de seu papel na sociedade, faz-se necessário que os alunos compreendam que a cidadania trata-se de uma participação social e política e que, no dia a dia, exerçam seus direitos e deveres assumindo e internalizando atitudes de solidariedade, de cooperação, de negação às injustiças, de respeito e exigindo para si o mesmo respeito. Complementando essa formação inicial, a Geografia, segundo o mesmo documento, deve oferecer instrumentos a fim de que os alunos possam compreender e intervir na realidade social, compreendendo como as diferentes 44 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia sociedades interagem com a natureza e também com as transformações ocorridas nessa natureza em diferentes lugares e tempos (BRASIL, 2000, p.99). Considerando os objetivos dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que perfil deve ter o professor para o ensino de Geografia nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a fim de que os alunos possam construir uma formação com base na cidadania, assim como compreender e intervir na realidade que os circunda? No nosso entendimento, o perfil do professor para o ensino de Geografia não pode ser aquele que apenas transmite o conhecimento para o aluno como se este fosse um mero depositário, recebendo-o de forma passiva e sem intervenção de forma crítica sobre esse. Por outro lado, acreditamos que o conhecimento sistematizado não ocorre de forma espontânea por parte dos alunos, tendo em vista que na sociedade atual, devido às grandes transformações tecnológicas, a sala de aula tem se tornado pouco atrativa para uma expressiva parcela de alunos em todas as séries. Cabe ao professor adequar o seu conteúdo com a realidade do aluno tanto local quanto global, uma vez que esse e é considerado um nativo digital já nasceu e cresceu com essas tecnologias presentes em sua vida. “[...] Afinal, o professor também é um cidadão que vive no mesmo mundo pleno de mudanças do educando e ele também deve estar a par e participar das inovações tecnológicas [...]” (VESENTINI, 2004, p.30). O professor como partícipe dessa sociedade e das suas transformações tecnológicas que impulsionaram o uso da internet, dos celulares, Ipods, da mídia televisiva e eletrônica por parte dos alunos, está ciente de que esses recebem informações no exato momento em que elas são produzidas, pois essas não trafegam apenas por jornais e livros didáticos, mas estão sendo publicadas, distribuídas e atualizadas em tempo real no ciberespaço. Nesse sentido, é preciso que o aluno esteja inserido na sua realidade local, assim como em outras realidades, outros espaços, outros tempos, e comece a estabelecer relações entre os acontecimentos e os efeitos que esses produzem efeitos em lugares diferentes dos que foram produzidos inicialmente. 45 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Nesse momento, você deve estar se perguntando: se o aluno recebe a informação no exato momento em que essa é produzida e atualizada, qual seria, então, o papel do professor de Geografia? Para responder à pergunta é preciso em primeiro lugar compreender a diferença entre informação e conhecimento, pois são palavras que aparentemente apresentam o mesmo significado e muitas vezes são utilizadas sem a devida diferenciação. INFORMAÇÃO CONHECIMENTO Um ou mais fatos conhecidos, pré-organizados, produzidos fora do espaço escolar, completos e acabados e que devem ser assumidos pelos alunos. O professor que não transforma a informação em conhecimento tornase o responsável por sua transmissão, tal como o faz um texto, um vídeo, uma emissora de rádio ou outra mídia, e, portanto, pode por ela ser substituído. Em sua aula, o aluno é apenas ouvinte e espectador. Produto de uma interação entre o indivíduo (aluno), a informação que lhe é exterior e que chega trazida pelo professor ou por outras fontes que instiga o aluno a acessar e incorporar significado para essa informação. O professor que transforma informação em conhecimento faz de seu aluno um protagonista que descobre como associar informações que já possui, para atribuir significado às informações que recebe. 46 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia INFORMAÇÃO CONHECIMENTO Um ou mais fatos conhecidos, pré-organizados, produzidos fora do espaço escolar, completos e acabados e que devem ser assumidos pelos alunos. O professor que não transforma a informação em conhecimento torna- Produto de uma interação entre o indivíduo (aluno), a informação que lhe é exterior e que chega trazida pelo professor ou por outras fontes que instiga o aluno a acessar e incorporar significado para essa informação. se o responsável por sua transmissão, tal como o faz um texto, um vídeo, uma emissora de rádio ou outra mídia, e, portanto, pode por ela ser substituído. Em sua aula, o aluno é apenas ouvinte e espectador. O professor que transforma informação em conhecimento faz de seu aluno um protagonista que descobre como associar informações que já possui, para atribuir significado às informações que recebe. Fonte: . Diante do quadro, a informação pode ser obtida por meio de vários suportes de leitura e de comunicação extras sala de aula, mas também dentro dela, quando o professor propõe uma atividade sem um significado intencional para o aprendizado do aluno e este se torna apenas um espectador passivo dessas informações. Essa constatação se dá pelos avanços científico-tecnológicos que facilitam o acesso à informação fora da escola, assim o papel do professor no processo de ensino-aprendizagem vem sendo questionado, pois à primeira vista, parece que ele perdeu a sua função de transmissor e construtor dos conhecimentos e pode ser substituído por computadores e outros recursos midiáticos por meio dos quais o aluno adquire informação. Segundo o professor Gasparin (2003, p. 1), ”[...] Não se dispensam as tecnologias, pelo contrário, exige-se, cada vez mais sua presença na escola, mas como meios auxiliares e não como substitutos dos professores”. 47 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Desta maneira, o professor de Geografia deverá ser o mediador entre a informação e o processo de construção do conhecimento, que deixa de ser o senso comum para ascender ao conceito científico, o que ocorre pela prática intencional do professor. Partindo desse princípio o professor nunca será substituído, pois ele será a ponte que possibilitará esse novo conhecimento sistematizado pelo espaço escolar, considerando o processo de ensino-aprendizagem como uma via de mão dupla, incluindo aquele que ensina (o professor), aquele que aprende (o aluno) e as interações que ocorrem entre eles. Se por um lado o professor de Geografia precisa ser a ponte de interação entre o conhecimento sistematizado e o conhecimento cotidiano que o aluno traz consigo antes de adentrar ao espaço escolar, ao mesmo tempo esse professor deve refletir sobre o real objetivo da Geografia nos anos iniciais do Ensino Fundamental, contribuindo para a construção da cidadania e de uma sociedade mais justa. Nesse sentido, o aluno precisa estar em contato com os acontecimentos a sua volta na sociedade na qual está inserido, a fim de que ele vá aos poucosconstruindo a sua noção de cidadania e de leitor crítico desses acontecimentos. Sendo assim, a tecnologia pode contribuir como auxílio ao professor na construção dessa cidadania e leitura crítica, indo além das imagens que são transmitidas pela televisão como forma de captar audiência ou pela internet, ultrapassando a mera descrição dos fatos ou dos acontecimentos sem que esses explorem toda a complexidade de fenômenos e suas consequências políticas, econômicas e sociais. Isto porque acreditamos que o senso crítico polariza a construção do conhecimento geográfico significativo e se expressa pelo discernimento que o aluno exerce frente aos fenômenos e às informações, raciocinando e questionando sobre o que observa, analisa e compreende. O senso crítico que é construído a partir das observações e análises do aluno para a construção do conhecimento geográfico deve ser incentivado pelo professor desde os primeiros anos, fazendo com que o aluno, pouco a pouco, 48 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia vá se envolvendo com determinado conteúdo trazendo o seu conhecimento já elaborado antes da sala de aula. Nesse sentido, a preocupação do estudo da Geografia nos anos iniciais deverá ser o de proporcionar ao aluno a inserção progressiva de forma mais ampla e abrangente da realidade geográfica, possibilitando a construção e a conscientização em relação à natureza e ao meio ambiente, assim como a compreensão da noção de paisagem, de lugar, de território, com base na leitura do espaço geográfico nos seus diversos segmentos: relevo, clima, fauna, flora, vegetação, espaço natural e espaço construído. Do ponto de vista da aprendizagem entendemos que o professor, assim como a escola, é o agente no processo de ensino-aprendizagem e que a construção do conhecimento é resultado de um processo construído e realizado pelo próprio aluno mediado pelo professor. Trata-se, portanto, de um processo relacional em que a dinâmica da sala de aula exigirá do professor um olhar atento para o conhecimento que o aluno traz consigo do seu cotidiano e a apropriação do conhecimento sistematizado e elaborado, a fim de que o aluno saia da situação de ensinoaprendizagem diferente da forma que entrou na escola. Assim, faz-se necessário que o professor tenha clareza dos caminhos que nortearão o processo de ensino e aprendizagem, ou seja, a didática que irá subsidiar e estruturar os conteúdos que possibilitarão uma educação geográfica com base na construção da cidadania e da visão crítica da sociedade. Nosso propósito nessa seção foi de apresentar o perfil do professor de Geografia para os anos iniciais, assim como interessou-nos a sua prática docente com a finalidade da apropriação do conhecimento por parte do aluno considerando a experiência que esse traz da sua prática social inicial. Sendo assim, entendemos que é a partir da observação, da análise, da construção da cidadania que levaremos esses alunos a compreenderem a sua realidade, assim como transformá-la. 49 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia O PAPEL DO ALUNO NO ENSINO DE GEOGRAFIA Nesta unidade abordamos o papel do professor como sendo o mediador nas condições externas e internas no processo de ensinoaprendizagem. Dando continuidade a essa seção, comentaremos o papel do aluno no ensino de Geografia como sendo um sujeito que chega ao espaço escolar com um conhecimento prévio de mundo, adquirido em outros espaços e vivências extras sala de aula. Isso equivale a dizer que o aluno é um sujeito sociocultural inserido em um determinado tempo e espaço. Conceber esse aluno como um sujeito sociocultural é levar em consideração que os seus conhecimentos são fruto de uma história social e cultural vivida em parceria com sua família, amigos, comunidade entre outras instituições sociais, e perceber que esse sujeito por meio da escola e da mediação do professor atuará em um espaço com vistas a modificá-lo. Essa visão da realidade, contudo, é ainda sincrética de acordo com as palavras de Gasparin (2003, p.18): “A visão dos alunos é sincrética porque, apesar dos conhecimentos que possuem sobre o assunto, a partir do cotidiano, ainda não realizaram, no ponto de partida, a relação da experiência pedagógica com a prática social mais ampla de que participam [...]”. Assim, compreendemos que o aluno de fato chega à escola com um conhecimento, no entanto, é por meio da mediação pedagógica e dos conteúdos escolares sistematizados que o aluno abandonará aos poucos esse conhecimento precário para, em confronto com esse novo saber sistematizado, lançar um novo olhar sobre a realidade que o circunda. Cabe ressaltar que a proposta de considerar a realidade social do aluno e sua vivência antes do seu ingresso escolar é, algumas vezes, mal interpretada justamente por não se ter o entendimento dessa proposta pedagógica, que tem como referência epistemológica a teoria dialética do conhecimento, cujos objetivos são entrelaçados: fundamentar a concepção metodológica, o planejamento de ensino-aprendizagem e a ação docentediscente. Em outras palavras, essa teoria constrói-se a partir da base material. 50 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia “[...] Assim, o conhecimento, segundo essa teoria epistemológica, resulta do trabalho humano no processo histórico de transformação do mundo e da sociedade, através da reflexão desse processo [...]” (GASPARIN, 2003, p.4). A nossa intenção nesta seção não é adentrar na teoria dialética do conhecimento, no entanto, julgamos necessária essa intervenção uma vez que na unidade I deste livro e ainda na unidade II foi ressaltada a importância de analisar o homem como um ser social e histórico que não apenas atua sobre a natureza, mas a modifica para atender as suas necessidades, interferindo na sua paisagem por meio do trabalho. A interpretação dessa teoria e da prática social inicial do aluno é, por vezes, inadequada, pois em algumas situações o aluno não consegue ultrapassar esses conhecimentos imediatos e cotidianos pela não intervenção nessa realidade inicial. Nesse sentido, é preciso compreender que o aluno possui um conhecimento prévio que se dá a partir da sua PRÁTICA SOCIAL INICIAL, sendo que a escola e o professor, por meio da mediação pedagógica, proporcionará a esse aluno um novo conhecimento sistematizado (TEORIA), que promoverá uma nova atitude diante do novo conhecimento (PRÁTICA SOCIAL FINAL). Nessa última, o aluno deve sair com um conhecimento diferente do que quando entrou no espaço escolar. Podemos exemplificar tal situação com nós mesmos. Você, aluno, está estudando a disciplina Metodologia do Ensino de Geografia, para isto está lendo este material, assistindo às aulas gravadas, realizando as atividades diversas e, ao fim deste estudo, você precisará sair transformado, ou seja, com uma nova visão de mundo. Caso não façamos a contento, é sinal de que nosso trabalho não obteve êxito, portanto a prática social final ficou comprometida. Nesse sentido, é de suma importância que o professor conheça quais são os conhecimentos que seus alunos têm sobre o lugar em que vivem, como também sobre outros lugares e, o mais importante, a relação entre eles. Pois “mesmo que os alunos não tenham tido um contato com o conhecimento geográfico de forma sistematizada e organizada, os alunos possuem ideias e informações que são oriundas do meio no qual estão inseridos; conhecimento 51 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia esse produzido pelos seus familiares, pessoas próximas e pelos meios de comunicação” (BRASIL, PCN, 2000, p.128). São justamente esses conhecimentos que o professor deve investigar para que crie intervenções significativas na promoção e no avanço das concepções do aluno. “É preciso, também,cuidado para avançar naquilo que os alunos já sabem, evitando as ideias e temas que esses já dominam e muito pouco promovem para a ampliação do seu conhecimento acerca da presença do papel da natureza na paisagem local” (BRASIL, 2000, p.123). O documento em questão confirma o que já anunciamos nesta seção com relação ao entendimento de que é preciso avançar naquilo que o aluno já sabe para que ocorra a internalização do conhecimento sistematizado. Partir do conhecimento do aluno não significa que devemos acatar todas as ideias e hipóteses desse sem intervenção, mas justamente o contrário, o papel do 52 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia O terremoto que aconteceu hoje, dia 11 de março de 2011, já é considerado um dos piores desastres naturais já ocorridos no Japão. O tremor conseguiu superar todos os outros que por ventura já abalaram o território japonês e recebeu a classificação de 7º pior terremoto da história, segundo professor é imprescindível nesse processo de ensino - aprendizagem intervindo naquilo que o aluno ainda não é capaz de realizar, analisar, abstrair ou reconhecer sozinho. Dessa forma, você já deve ter percebido que embora o papel da escola, do professor e do aluno para o ensino de Geografia esteja separado nas unidades I e II deste livro, é preciso uma compreensão de que eles estão relacionados e interligados. Não podemos falar do processo ensino - aprendizagem sem levar em consideração esses três componentes que são o tripé que sustenta o processo ensino - aprendizagem. Cabe ainda ressaltar, conforme expresso pelo documento e o que já foi discutido por nós anteriormente, que os meios de comunicação também contribuem para o conhecimento prévio do aluno. Não podemos desconsiderar essas fontes de informação, mas cabe - nos retomar aqui que muitas dessas informações só serão de fato transformadas em conhecimento pela intervenção da escola e do professor. Para exemplificarmos o que estamos querendo afirmar, façamos um exercício: Observe as fotografias a seguir. Tratam - se do Terremoto do Japão ocorrido em 2011. 53 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia constam as pesquisas do Serviço Geológico dos EUA. Agora mais de 50 países do Pacífico se encontram em estágio de alerta. Fonte:. Acesso em: 28 jun. 2011. d) Como ficaram as paisagens, a orla marítima, as casas das pessoas? De fato, com a ampliação do acesso à mídia e às TICs - Tecnologias da Informação e Comunicação, as informações multiplicaram-se em escalas exponenciais e muitas vezes o conhecimento geográfico está sendo transmitido por esses suportes de comunicação. No entanto, nas palavras de Castellar e Vilhena (2010, p.10), “[...] A geografia é mais do que possuir essas informações e estudá-las, significa relacioná-las aos métodos de análise e processos de aprendizagem”. Nesse sentido, interessa-nos que o aluno possa não só dar significado ao novo conhecimento, mas compreender, de fato, o quê e para quê determinado conteúdo está sendo ensinado. Se esse conteúdo se encerra apenas em uma atividade avaliativa que também é uma exigência do nosso Fonte:. Agora pense: a) Que relação podemos estabelecer entre este terremoto e o espaço geográfico? b) Como a paisagem foi alterada, após o terremoto segu ido do Tsunami? c) A mídia se concentrou em passar as informações pelo imediatismo da tragédia, mas o que veio depois? 54 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia sistema escolar sem uma contribuição para a realidade que o cerca, é muito provável que esse conhecimento deixe de existir, pois o aluno não consegue estabelecer relações com a sua própria vida e com as vidas das demais pessoas que o circundam e que fazem parte do mesmo espaço geográfico que o seu. [...] Optando por uma metodologia de ensino que envolva o aluno na construção do conhecimento, espera-se que ele estude a partir de situações do cotidiano e relacione o conhecimento aprendido para analisar a realidade, que pode ser global ou local [...] (CASTELLAR; VILHENA, 2010, p.6). Ao nos referirmos à construção do conhecimento por parte do aluno, é preciso levá-lo à compreensão de que não existe apenas uma única realidade, ou seja, a realidade a qual ele pertence, mas que outras realidades em diferentes lugares também existem e que a intervenção feita pelo homem, assim como as mudanças naturais nessas paisagens distantes dele, podem interferir na vida de muitas pessoas, transformando não só a paisagem local, como também a realidade de quem vive nesse determinado espaço. Esse reconhecimento equivale a dizer que a escola tem um papel significativo ao possibilitar a difusão do conhecimento em um determinado contexto social, cultural e histórico. 55 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Nesse sentido, os conteúdos escolares não devem ser fechados em si mesmos, como algo permanente e estático, ao contrário, devem dialogar com as mudanças ocorridas no mundo científico e tecnológico. d O ESPAÇO GEOGRÁFICO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Estamos nos aproximando de alguns conceitos que são fundamentais para o ensino da Geografia na Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental. Dentre esses conceitos para o ensino de Geografia destacamse o espaço, tempo, necessidades e transformações que se inter-relacionam e estão ligados aos conceitos de trabalho, sociedade, natureza e cultura. Cabe ressaltar que, para a compreensão e a discussão do conceito de espaço, é necessário um trabalho conjunto de professores e alunos, no entanto, a prioridade conforme já abordado na unidade anterior deve ser sempre a realidade do aluno partindo “[...] do concreto ao abstrato, do específico ao mais amplo, num contínuo movimento de ir-e-vir” (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.24). Isto porque precisamos ter claro que o espaço geográfico é produto humano e por isto mesmo requer uma reflexão quanto a essa ação humana sobre o espaço natural. Propomos a distinguir o espaço geográfico e natural, bem como compreender os conceitos ligados à Geografia e suas implicações. O ponto de partida será a criança e as relações espaciais, ou seja, a evolução da noção de espaço na criança, finalizando com a proposta de algumas atividades lúdico-pedagógicas para ampliar este domínio de espaço pela criança em idade escolar. O ESPAÇO GEOGRÁFICO X ESPAÇO NATURAL A história não se escreve fora do espaço, e não há sociedade a-espacial. O espaço, ele mesmo, é social. Milton Santos 56 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Para estudarmos o espaço geográfico e seu contínuo movimento de “ire-vir” é preciso compreendê-lo e entendê-lo na sua dinamicidade, indo além de seu conteúdo físico ou natural, questionando como esse espaço surgiu e por que ele é dessa forma. São essas as indagações que nos distanciam das simples aparências levando-nos à compreensão de um espaço geográfico que foi transformado pelo homem. “[...] Compreender o conceito de espaço é entender como o homem transforma a natureza por meio do trabalho, produzindo o chamado ‘espaço geográfico’” (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.24). Santos (1996, p.24) afirma que o espaço é “um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos”. Com certeza, o espaço geográfico no período habitado pelos nossos ancestrais, os homens de Neandertal, possuía características muito peculiares com relação a sua organização,pois esses se organizavam em grupos, viviam da coleta de alimentos. Esses homens se distanciaram de outros primatas ao longo da evolução humana, criando a capacidade de produzir instrumentos que os auxiliavam na luta por sua sobrevivência e criando, ao mesmo tempo, a sua cultura, o seu modo de pensar, de viver, de criar e de agir diante da natureza, não como um simples observador, mas como um agente capaz de transformála para atender as suas necessidades por meio do trabalho. Milhões de anos nos separam desde as primeiras necessidades desse homem que dominou o fogo para se manter aquecido e afugentar os grandes animais e com isso estabeleceu os laços unindo-se a grupos cada vez maiores à procura de lugares com climas menos inóspitos e alimentos. Conclui-se então que, quanto mais conhecimento os homens adquiriam, maiores eram as intervenções do mesmo sobre a natureza. Aqui nos cabe a compreensão sistemática de alguns conceitos geográficos essenciais para darmos continuidade as nossas discussões: 57 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia • Espaço geográfico: é todo o espaço que, sendo originalmente natural, sofre a ação humana, transformando-se, portanto, em espaço geográfico, espaço humanizado ou, ainda, cultural. • Paisagem: é tudo o que nossa visão alcança. Qualquer lugar que é apreendido pela visão do observador, independentemente de ser feio ou bonito, agradável ou não. Constitui-se por elementos naturais e humanizados, por elementos fixos, pelos fluxos que existem no lugar, pelas cores, sons, cheiros; enfim, é um momento captado pelos nossos sentidos. • Lugar: esse conceito se refere à relação estabelecida pelo sujeito com o meio. Está asso- ciado à relação e aos sentimentos que existem entre ambos. • Território: está diretamente ligado a posse, limite, disputa de poder. São exemplos os municípios, estados, países etc. Como já anunciamos anteriormente, a construção destes conceitos deverão partir da realidade do aluno e do concreto para o abstrato gradativamente. Em outras palavras, essa apropriação gradativa dar-se-á de acordo com o espaço concreto vivido pelo aluno ou com sua experiência. Somente a partir desses espaços vividos e próximos é que o aluno construirá ao longo das séries escolares a noção de espaço percebido mais abstratos e que não são vivenciados diretamente. “[...] Pode, então, perceber as distâncias - se curtas ou longas - sem que precise percorrer o espaço” (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.26). Na Educação Infantil e anos iniciais, o trabalho com o conceito de espaço envolve duas noções, orientação e localização, tais como: perto-longe, na frente-atrás, em cima-embaixo, ao lado-entre, esquerda-direita, pontos cardeias. Essas noções implicam em representações que ocorrem pelo uso de globos, maquetes, mapas e o estudo dos elementos do espaço sendo eles naturais e culturais. Os naturais são relevo, clima, vegetação e os culturais são cidade, bairro, fábricas, além de sua distribuição no espaço, ou seja, a localização desses elementos. Destacamos as expressões acima a fim de que você, observe que a atividade escolar com o conceito de espaço não se esgota na sua simples 58 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia orientação e localização como fatos isolados em si mesmos, mas que estão com correspondência como se fossem eixos ou ciclos ao alcançarem as suas representações, distribuições e localizações. Trata-se, portanto, de um trabalho complexo e gradual e à medida em que o concreto vai cedendo espaço ao abstrato se estabelecem as inter-relações entre esses conceitos. Mas como deve ser trabalhado o conceito de espaço em sala de aula? Onde vamos encontrar o espaço concreto? Como já foi discutido anteriormente, é a partir da observação do meio mais próximo do aluno que serão construídos os conceitos que levarão a criança a compreender sua realidade e transformá-la, e, gradativamente ao longo das séries, os níveis de abstração tornar-se-ão mais amplos. As crianças, sobretudo, as nascidas no contexto da globalização e da tecnologia, estão imersas em informações visuais por meio de jogos eletrônicos, desenhos que a cada dia tornam-se mais interativos e o próprio mundo que as circunda está rodeado por informações. Sendo assim, devemos aproveitar essa experiência acumulada de observação dos alunos e que ele já possuem antes do ingresso escolar “[...] Essa experiência acumulada constituiu um rico material a ser explorado pelo professor” (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.37). Observe, o quão importante é a mediação do professor para o processo de construção dos conceitos que vai muito além da simples observação que o aluno já possui ao ingressar na escola. É o momento de transformar a informação em conhecimento como já anunciamos na unidade anterior. Unindo a mediação do professor e a capacidade de observação dos alunos, vamos apresentar alguns conteúdos que poderão ser ampliados de acordo com a realidade deles, ou mesmo reformulados em diferentes circunstâncias da prática pedagógica das crianças. Nesse sentido, o espaço da escola é o ponto inicial a ser explorado na proposta didático-pedagógica. Você deve se recordar dos níveis (exploratório, específico da série, ampliação) propostos por Penteado (1994) que foram trazidos por nós na unidade II e que esses níveis formam a espinha dorsal para a construção dos conceitos por parte dos alunos do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental, não é mesmo? 59 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia A IMPORTÂNCIA DOS CONCEITOS GEOGRÁFICOS Há uma pedagogia indiscutível na materialidade do espaço. Paulo Freire Apropriaremo-nos agora de algumas atividades propostas pelos autores referenciados Kozel e Filizola (1996), a fim de contribuirmos com você, futuro(a) professor(a), no exercício de sua futura ação docente na construção do conceito de espaço. Essas atividades não são as únicas, podendo ser modificadas levando em consideração as necessidades da escola e da realidade dos alunos. Sugerimos que esse livro elaborado por nós não se encerre com o fim dessa disciplina, mas, sobretudo, que ele seja usado como um instrumento didático que o ajude no exercício da sua prática docente. Vamos, então, para alguns conteúdos propostos por Penteado (1994) para a construção dos conceitos de espaço? Organizamos esses conteúdos em tabelas ao longo dos cinco anos iniciais do Ensino Fundamental (adaptadas), assim como fizemos um resumo dos principais objetivos de cada série para a construção do conceito de espaço. Cabe lembrar, que fizemos um recorte somente do conceito de espaço nas tabelas abaixo, pois esse é o nosso assunto específico, mas não poderíamos deixar de mencionar que esse conceito ao longo das séries está atrelado no nível (exploratório, específico da série, ampliação) com os conceitos de relações sociais, tempo, natureza e cultura. Ao final de cada série você encontrará também os principais objetivos. 60 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia O objetivo deste primeiro ano é explorar os conteúdos com relação ao espaço interno da escola. Toda exploração feita junto aos alunos é registrada por meio de desenhos (mapas). No terceiro ano o objetivo é levar o aluno à compreensão de que existem divisões no espaço, identificar as divisões do espaço terrestre, ler mapas e globos e construir representações dos espaços. O principal objetivo dos conteúdos com relação ao espaço no segundo ano é a exploração e o uso organizado do espaço da escola e identificação da sua localização (endereço), estabelecendo as primeiras noções de espaço escolar. 61 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia E, por último, no quinto ano o objetivo é a utilização de mapas, a fimde localizar a distribuição dos homens dispersos geograficamente e em diferentes tempos históricos. O objetivo no quarto ano será o conhecimento, a compreensão e a utilização de pontos de orientação, assim como conhecer e relacionar os movimentos da Terra com suas consequências naturais e culturais e ler as horas. 62 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia É importante ressaltar que o trabalho com o conceito de espaço do 1° ao 5° ano inicia-se justamente na escola pela sua referência de função socializadora. É nesse espaço que devem ser trabalhadas a desigualdade sociolinguística, econômica, social, profissional, sexual etc. Considera-se a importância dos alunos observarem juntos às diferenças e às discriminações que marcam as relações sociais. A criança passa a perceber que faz parte de grupos em que a heterogeneidade é uma realidade que está a sua volta (KOZEL; FILIZOLA, 1996). O início da discussão pode ocorrer a partir das diferenças entre os próprios alunos, sendo essa uma oportunidade para dar início a discussões mais amplas que marcam as relações sociais. É o momento em que a criança começa a descobrir que ela faz parte de um grupo que é diferente dela. Selecionamos para você, algumas perguntas sugeridas por Kozel e Filizola (1996), que promoverão uma discussão sobre as diferenças existentes na escola e no próprio grupo de alunos. Quantos meninos e meninas existem na sala? Em que cidade e estado nasceram? Quem estudou em escola particular ou pública? Como está distribuído o espaço da escola onde o aluno estuda? Como eram os espaços das escolas estudadas anteriormente? Tamanho da escola, distribuição das salas, pátios, áreas de lazer? Para os autores, na escola também é possível observar as relações de trabalho. Essa observação se dá a partir dos diferentes profissionais que atuam na escola, tais como a zeladora, a bibliotecária, o professor, o diretor entre outros. Uma vez identificados todos os profissionais existentes na escola, o professor inicia o trabalho de listar a profissão e o salário aproximado de cada um desses profissionais, a fim de que os alunos percebam que a diferença não está apenas no salário que recebem, mas que nesse salário está embutida uma questão maior que é a divisão social do trabalho. O itinerário da casa para a escola também deve fazer parte da construção de conceito nos anos iniciais. O trabalho a partir desse itinerário tem o objetivo 63 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia de levar a criança a observar os arredores da escola, assim como progressivamente possibilitar aos alunos a aquisição de conhecimentos que estão relacionados à ocupação humana, à construção e à organização dos espaços. Os espaços que devem ser contemplados para o estudo do espaço geográfico em sala de aula devem partir dos mais familiares às crianças. Nesse caso, seu estudo deve contemplar os espaços mais familiares às crianças, como a escola e seus arredores, e aqueles que lhes são parcialmente conhecidos, como o município, o estado, o país ou o mundo de forma geral, facilitando a compreensão da sociedade, que afinal, produz o espaço (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.45) De acordo com o exposto, o estudo dos espaços tem origem nos arredores do espaço vivido pela criança, no entanto, para uma compreensão de que a construção desses espaços na sociedade é fruto da intervenção humana, ou seja, das transformações que o homem faz na natureza, se faz necessário gradativamente ampliar o conhecimento dos alunos para outros espaços que estão além do seu dia a dia ou do seu itinerário casa-escola. Mais uma vez, recorremos a Kozel e Filizola (1996) que contribuem com alguns exemplos para o trabalho de observação do espaço na escola, no itinerário casa-escola, assim como a sua ampliação para outros espaços que não fazem parte do cotidiano do aluno. • Espaço da escola: a escola é grande ou pequena? É arborizada? Há biblioteca? Quantas salas tem? • Itinerário casa-escola: o percurso é feito a pé, de ônibus ou de carro? A que horas o aluno sai de casa? No caminho há árvores, pontes, viadutos, prédios, lojas? Há rios? Postes de iluminação? A partir dessas informações trazidas pelos alunos, é possível iniciar um trabalho que os leve a compreender que o trajeto percorrido por eles até a escola é muitas vezes diferente de seus colegas de sala. Nesse momento, inicia-se um trabalho de exploração quanto aos serviços que existem nesses diferentes lugares, tais como o lazer, a saúde, o transporte. Exemplificando: 64 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia ITINERÁRIO DE CASA A ESCOLA Nível: 1° ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL O que o aluno poderá aprender com esta aula As crianças poderão expressar conhecimentos sobre os pontos de referências que elas conhecem quando trafegam da casa até a escola. Duração das atividades Cada atividade será desenvolvida em diferentes momentos com duração aproximada de 15 minutos cada. Conhecimentos prévios trabalhados pelo professor com o aluno Pontos de referências. Estratégias e recursos da aula Atividade 1 – Observar os pontos de referências que vê no percurso da casa até a escola. 1º Momento: De acordo com a atividade realizada anteriormente sobre posição espacial (direita, esquerda, a frente, atrás) o professor deverá questionar sobre os pontos de referências (objetos) com relação ao corpo da criança. Assim, para situar as crianças na atividade, o professor deverá iniciar a aula perguntando quais os pontos de referências (objetos) que estão mais próximos a cada criança, deixando que cada criança aponte sua referência, depois o professor deve sugerir que caminhem pela sala de aula e falem sobre a referência dos objetos com relação ao seu corpo. • Armários? • Mesas? • Quadro negro? Em seguida, o professor irá indagar as crianças sobre os pontos de referências que elas vêem quando vem para a escola. • Supermercados? • Farmácia? • Padaria? • Restaurantes? • Escolas? 65 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia OBS: O professor deverá explicar que as referências têm que ser fixas, pois um carro, um animalou uma pessoa não pode ser referência, uma vez que no dia seguinte não estarão no mesmo lugar. 2º Momento: O professor irá registrar no quadro ou cartolina o percurso e os pontos de referência do caminho de casa até a escola de cada criança. Após esse registro o professor irá dar para cada criança um papel e solicitará desenhem o seu percurso, tentando lembrar todos os pontos de referência. Para concluir é preciso considerar que ao produzir o seu espaço, o homem modifica a natureza. No entanto, o desenvolvimento da sociedade industrial e a produção voltada para o consumo em larga escala resultaram no desrespeito aos ritmos de renovação da natureza. [...] Em poucas palavras, pois assim que a sociedade moderna produziu uma crise ambiental sem precedentes, que deixa de herança para as gerações Imagem - Percurso e pontos de referências num trajeto realizado por uma criança O professor deverá avaliar s e as crianças: • Perceberam os pontos de referências que os localizam no trajeto casa/escola; • Consegue expressar por meio da oralidade e desenho os pontos de referência. Pesquisa realizada no Portal do Professor pelo site: .Acesso em: 02 ago.2011. 66 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia futuras a preocupação com o efeito estufa, o buraco na camada de ozônio, a desertificação das áreas verdes e a extinção de espécies de animais (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.74). Considerando que as crianças da geração atual estão em contatocom os mais diversos meios de comunicação e informação, a questão do meio ambiente ou a preservação da natureza já faz parte da vida dessas criança antes do ingresso escolar. Sendo assim, cabe ao professor no espaço escolar levar o aluno a perceber a ligação de espaço e questões ambientais ao longo de todas as séries. Além do mais, o estudo de Geografia possibilita: Aos alunos, a compreensão de sua posição no conjunto de relações da sociedade com a natureza; como e por que suas ações individuais e coletivas, em relação aos valores humanos ou à natureza, têm consequências – tanto para si como para a sociedade. [...] e perceber a importância de uma atitude de solidariedade e de comprometimento com o destino das futuras gerações (BRASIL, PCN, 2000, p.113). Progressivamente durante os anos iniciais, é preciso levar o aluno a observar que existe uma inter-relação entre o todo e as partes e que o espaço é construído e modificado segundo padrões de determinada sociedade atendendo às necessidades dos homens que nela vivem. Sendo assim, o modo como a sociedade produz o espaço geográfico depende de como o trabalho humano é realizado; quanto mais capitalista for essa sociedade maior será a intervenção humana sobre o mesmo sentido de modificá-lo para satisfazer os desejos dos homens, que às vezes estão em desacordo com a própria natureza, e com graus de intensidade que variam de acordo com seu nível de desenvolvimento tecnológico. PRODUÇÃO DE NECESSIDADES: TRANSFORMANDO A NATUREZA E O PRÓPRIO HOMEM Dizer que o homem vive da natureza é dizer que a natureza é seu corpo, com o qual ele deve estar em trocas constantes, a fim de não morrer. Karl Marx O homem cria permanentemente as suas necessidades e transforma a natureza para que essa satisfaça os seus desejos. Na medida em que essas 67 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia não os satisfazem ou não os atendem mais, novas necessidades são criadas. Nesse sentido, o espaço é sempre reelaborado por meio do trabalho (ou da ação humana), mas os espaços não se desenvolvem igualmente, sendo assim, alguns se ampliam e outros não. São diversos os motivos que levam a essa diferença entre os espaços que vão desde a cultura do povo, o próprio espaço físico natural, mas, sobretudo, pela economia e a política. Esses dois últimos têm papel fundamental na construção e ampliação de alguns espaços considerando que dependem do investimento financeiro, isenção de impostos e industrialização. Dentro do processo de formação do sistema capitalista, a sociedade se urbanizou e se industrializou, para atender às necessidades crescentes de produção. Com a modernização do campo, parte significativa dessa produção migra para as cidades atendendo também a uma necessidade de trabalho, espaço de sobrevivência (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.27). O capitalismo cada vez mais acirrado altera a vida das pessoas e dos espaços geográficos que as circundam. Tais mudanças são observadas no campo com a substituição da mão de obra humana pelas colheitadeiras mecanizadas. Essas pessoas sem trabalho e sem qualificação migram para as cidades procurando uma alternativa de vida e de sustento para a sua família. Ao chegarem às grandes cidades, essas vão em busca de trabalho e por não serem mão de obra qualificada acabam muitas vezes por não encontrar, nesse sentido vão em busca de uma necessidade de trabalho, espaço e sobrevivência. Todas essas mudanças percebidas no campo e na cidade são decorrências do processo de industrialização que teve início a partir da Primeira Revolução Industrial. Deste modo, as cidades passam a atrair pessoas para trabalharem nas fábricas, com a urbanização crescente exigiuse a expansão do comércio e dos serviços, em consequência dessa urbanização houve a necessidade de criar transportes, energia, abastecimento e distribuição de água, coleta de lixo e os meios de comunicação. Todas essas mudanças produzem também um conceito que é o de transformação. 68 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia O conceito de transformação está presente em todo o estudo do espaço, uma vez que a sociedade humana, ao satisfazer as necessidades que ela mesma cria, atua sobre a natureza e modifica o seu espaço. Essa intervenção se dá com a apropriação da natureza, ou seja, o homem não se submete ao espaço natural, cada vez mais ele altera por meio do trabalho (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.28). O conceito de transformação deve estar presente em todas as atividades de observação e análise do espaço desde os primeiros anos, ampliando aos poucos a percepção dos alunos até que eles se vejam como agentes transformadores, e não apenas como observadores dos espaços vividos. Visto sob este ângulo, cabe ao professor observar e acompanhar os conhecimentos geográficos dos alunos sendo que espaço, tempo, produção de necessidades e transformação são ampliados e inter-relacionados com os conceitos de sociedade, trabalho, natureza e cultura e espaço vivido. A criança vai construindo o espaço percebido e depois concebido. Sendo assim, o propósito do ensino de Geografia é desenvolver nos alunos uma perspectiva de totalidade. Em suma, a espinha dorsal para a compreensão da relação do homem com a natureza se dá pelo trabalho. Os conceitos de tempo, espaço, transformação da natureza e produção das necessidades articulam-se em torno de um eixo temático, em um “ir-e-vir” entre o conhecimento sistematizado e o cotidiano, do amplo para o genérico, do espaço mais próximo e concreto (corpo, casa, rua, escola) Para os mais distantes do aluno considerados como abstratos ou simbólicos (bairro, cidade, estado, país, mundo, mapa, escalas, gráficos entre outros). “[...] Os conceitos e conteúdos são retomados, comparados e ampliados na sua relação com a complexidade da organização econômica e social do mundo de hoje” (KOZEL; FILIZOLA, 1996, p.36). Como encerramento do que nos propomos a discutir até aqui, gostaríamos que compreendesse que os autores acima elencados foram os mesmos que sustentaram nossa base teórica nas unidades I e II, como também produziram a afirmação acima há dezesseis anos, isso significa que não podemos trabalhar os conceitos de tempo, espaço, produção de necessidades, 69 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia transformação na natureza sem levar em conta as determinantes econômicas do mundo atual. O homem a cada dia altera a natureza e a paisagem para atender às necessidades que não se resumem mais à caça, à pesca e à sobrevivência em climas inóspitos como os nossos ancestrais. Na sociedade contemporânea, o homem se vê atrelado às questões econômicas e sociais para dar continuidade a sua existência que sabemos não ser linear, excludente e vivendo à margem da sociedade. São esses os contornos que dão a dinâmica da sociedade tal qual ela se apresenta hoje e que devemos proporcionar aos nossos alunos. A CRIANÇA E AS RELAÇÕES ESPACIAIS: A EVOLUÇÃO DA NOÇÃO DE ESPAÇO É por isso que, hoje, seja qual for a escala, o território constitui o melhor revelador de situações não apenas conjunturais, mas estruturais e de crise. Milton Santos Como você já deve ter percebido ao longo da Unidade II e na continuidade da Unidade III, o espaço geográfico é considerado como território que, por sua vez, é historicamente produzido e modificado pelos homens que atuam sobre a natureza modificando o espaço a sua volta. Os estudos de diferentes representações, linguagens e imagens levam a análises, interpretações da formação do espaço e à construção de conceitos geográficos. Mas como se constrói a noção de espaço pela criança? A construção de noção de espaço requer longa preparação e está associada à liberação progressiva e gradual do egocentrismo. O espaço apresenta-se para a criança do nascer aos 2anos, mais ou menos, como sendo o espaço da ação [...] (CASTROGIOVANNI, 2000, p.15). Esse é o espaço vivido pela criança, que é também construído pelos deslocamentos que ela faz por meio do seu rastejar, engatinhar, andar, procurar e pelos sentidos que estruturam as relações de próximo, de acima, embaixo, ao lado, dentro, fora etc. 70 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Nesse período, inicia pela criança a construção da função simbólica, ou seja, a substituição de uma ação ou objeto por um símbolo, imagem ou palavra. Com isso ocorre a construção do espaço representativo. As ações que a criança excuta são interiorizadas, embora não representadas (CASTROGIOVANNI, 2000, p.16). A construção do espaço representativo é constituída por dois momentos, sendo eles o intuitivo e o operatório. O intuitivo é manifestado por representações estáticas e irreversíveis e o operatório é o que operacionaliza os elementos espaciais. É do operatório que surge a possibilidade de ordenação e a reversibilidade das relações. No entanto, é preciso estabelecer distinção entre os espaços da ação ou perceptivos e o espaço representativo. O espaço de ação é construído em contato com o objeto, em outras palavras, esse espaço é construído por meio dos sentidos. Com relação ao espaço representativo, esse é construído ao contrário, ou seja, na ausência do objeto, portanto, reflexivo. Cabe ressaltar que são as relações espaciais que possibilitam as construções e as representações do espaço. Mas de que forma isso acontece? Para que ocorra a construção das relações espaciais é preciso que haja condições específicas. Uma delas é a interação do sujeito com o meio em que ele vive, e essa interação realiza-se com a liberação progressiva e gradual do egocentrismo primitivo. “[...] A criança passa a localizar os objetos a partir das relações que estabelece entre eles, pela própria coordenação de diferentes pontos de vista ou de sistemas de coordenadas [...]” (CASTROGIOVANNI, 2000, p.16). Para Almeida e Passini (2004), desde os primeiros meses de vida a criança vai delineando as impressões e as percepções com relação ao domínio espacial e essas só ocorrem mediante sua interação com o meio. Por isso é importante reafirmar que muito antes da criança ingressar no período de escolarização o desenvolvimento da concepção da noção de espaço já acontece. No entanto, é na escola que deve ocorrer a aprendizagem espacial 71 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia que leva a compreensão das formas pelas quais a sociedade organiza o seu espaço. A noção de espaço passa por níveis próprios de evolução das crianças na construção do conhecimento do espaço, que pode ser expresso da seguinte maneira: vivido – percebido – concebido. Cada um desses espaços tem suas características específicas, a partir da contribuição de Almeida e Passini (2004, p.26): O espaço vivido (grifo nosso) refere-se ao espaço físico, vivenciado através do movimento e do deslocamento. É apreendido pela criança através de brincadeiras ou de outras formas ao percorrê-lo, delimitado ou organizado segundo seus interesses. Daí a importância de exercícios rítmicos e psicomotores para que ela explore com o próprio corpo as dimensões e relações espaciais. Nota-se o quanto é importante para a construção do espaço vivido que a criança se locomova e brinque, a fim de que ela perceba os espaços que estão a sua volta, assim como reconhecer o seu próprio corpo. Nesse sentido, mesmo antes do ingresso no primeiro ano do Ensino Fundamental, é de extrema importância que a criança esteja em contato com outras e a partir do seu meio, das relações que ela estabelecer com este e com a interação com as outras crianças, ela começa a construir essa identidade espacial. Com relação ao espaço percebido as autoras se posicionam da seguinte forma: O espaço percebido (grifo nosso) não precisa mais ser experimentado fisicamente. Assim, a criança da escola primária é capaz de lembrar-se do percurso de sua casa à escola, o que não se dava antes, pois era necessário percorrêlo para identificar os edifícios, logradouros e ruas (ALMEIDA; PASSINI, 2004, p.26). Nessa fase a criança já é capaz de distinguir as distâncias e a localização, por exemplo, ao olhar uma foto. Antes ela só percebia o aqui, agora ela já é capaz de identificar o distante. Nesse período entre o espaço vivido e o espaço percebido deu-se tanto a ampliação do espaço empírico da criança, 72 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia quanto a análise desse espaço que passa a ser feito agora por meio da observação. Esse é o momento em que se inicia, para a criança, o estudo da Geografia. Por isso é importante que o professor dos primeiros anos, ao trabalhar o conteúdo, dê preferência e se preocupe em elaborar atividades que desenvolvam conceitos e noções de espaço. Com relação ao espaço concebido cabe definir: Por volta de 11-12 anos o aluno começa a compreender o espaço concebido (grifo nosso), sendo-lhe possível estabelecer relações espaciais entre elementos apenas através de sua representação, isto é, é capaz de raciocinar sobre uma área retratada em um mapa, sem tê-la visto antes (ALMEIDA; PASSINI, 2004, p.27). Observa-se que desde o espaço vivido, passando pelo espaço percebido até chegar ao espaço concebido houve um processo evolutivo na construção do espaço pela criança. Isso equivale a dizer que o professor deve desenvolver um trabalho que privilegie desde os anos iniciais uma estruturação desse espaço, pois para a criança os objetos e o espaço que eles ocupam são indissociáveis, ou seja: “[...] a posição de cada objeto é dada em função do todo no qual ele se insere. E a criança percebe esse todo e não cada parte distintamente [...]” (ALMEIDA; PASSINI, 2004, p.27). É por essa percepção do todo e não de cada parte distintamente que a criança, até aproximadamente os seis anos, define tanto a localização quanto os deslocamentos de objetos a partir dos próprios referenciais, a em outras palavras, da sua própria posição. Essa percepção que ela tem do espaço a sua volta dificulta a distinção de categorias de localização espacial, tais como: perto de, abaixo, no limite de; tanto para a própria criança situar-se quanto para situar os objetos de forma objetiva. Nesse sentido, é tarefa do professor auxiliar o aluno na compreensão dessas categorias para chegar a estruturas de organização espacial. Já foi abordado nessa seção que a exploração do espaço pela criança ocorre desde o seu nascimento, por meio das experiências que ela realiza ao seu redor. Acrescentamos ao que já foi dito que ao ser tocada, acariciada, 73 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia sustentada no colo, amamentada a criança inicia o processo de aprendizagem do espaço, pois ficam registrados na sua memória os referenciais de lados e das partes do corpo, sendo que esses servirão de base para os referencias espaciais. “[...] Nesse processo de conscientização do espaço ocupado pelo próprio corpo há dois aspectos essenciais: o esquema corporal e a lateralidade” (ALMEIDA; PASSINI, 2004, p.28). O esquema corporal depende tanto das funções motoras quanto da percepção do espaço imediato. Gradualmente, a criança vai tomando consciência do seu corpo seja pelo estado de repouso ou de movimento. Esse reconhecimento se dá pela inter-relação das partes do seu corpo e na relação com o espaço e os objetos que a rodeiam. Essa consciência começa ao nascer e vai se desenvolvendo até a adolescência, sendo que neste estágio ocorre a elaboração completa do esquema corporal, juntando-se a essa elaboração o desenvolvimento do sistema nervoso e da relação que o adolescente faz em relação a ele mesmo e ao mundo que o rodeia. À medidaque a criança for crescendo ela reconstruirá o espaço que é próprio dos adultos. Isso ocorre porque ela está voltada para o espaço externo desses, que são os móveis, as casas, as ruas, as praças, os campos. Esse espaço não corresponde as suas pequenas dimensões físicas e à sua pouca vivência do mundo. “[...] A reconstrução desse mundo será feita, inicialmente, a partir de suas próprias dimensões e capacidade de percebê-lo [...]” (ALMEIDA; PASSINI, 2004, p.29). Outro aspecto a ser considerado na organização espacial diz respeito ao predomínio de um lado do corpo. [...] Existe um melhor adestramento de uma mão, um olho, uma perna e pé, e isto implica em viver, mesmo sem ter consciência. Uma divisão do espaço em duas partes assimétricas, a qual será a raiz da futura análise do espaço percebido (ALMEIDA; PASSINI, 2004, p.30). Nesse momento é preciso uma intervenção do professor para auxiliar a criança a lateralizar-se. Em outras palavras, significa auxiliá-la para que ela tome consciência de seu predomínio lateral para esquerda ou para a direita. 74 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Essa ação do professor é necessária para que a lateralização ocorra de forma clara e completa. A partir dos 5 até os 7 anos é que a criança vai tomando gradativamente consciência do seu corpo e de suas partes distintas, iniciando o processo de identificação. É no decorrer desse período que surge lentamente a possibilidade de projetar para outros objetos e outras pessoas o que ela já havia comprovado em si mesma. Cabe ainda ressaltar que as primeiras relações espaciais que a criança estabelece são chamadas relações topológicas. Dessas relações espaciais derivam posteriormente as relações projetivas e euclidianas (CASTROGIOVANNI, 2003). As relações topológicas são aquelas relações espaciais que se estabelecem no espaço próximo, usando referenciais, tais como: na frente, atrás, dentro, fora, perto, longe etc. Essas relações começam a ser estabelecidas pela criança desde o seu nascimento e são a base das relações espaciais mais complexas. Observe os exemplos abaixo para compreender melhor: Figura 1: Representação da relação topológica de ordem espacial aplicada aos pares de elementos Fonte: . Neste desenho de uma criança de 3 anos aproximados, os dois olhos e as duas pernas estão ordenados entre si. O que parece uma coroa em cima da cabeça, na verdade é uma mão; embora os dedos representados também guardem uma ordenação espacial, a mão em si não está na posição (ordem) real. Disponível em: . 75 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Acesso em: 01 jul. 2011. Figura 2. Representação da relação topológica de ordem espacial aplicada ao conjunto dos elementos Fonte: . “Desenho de criança de 4; 6 meses aproximadamente, retratando cena de um castelo. A ordem espacial está presente em cada elemento em si, bem como encontra-se representada na coordenação dos elementos entre si”. Fonte: . Acesso em: 01 jul. 2011. No caso do espaço topológico, as relações espaciais se dão no plano perceptivo e se processam na seguinte ordem: vizinhança, separação, ordem ou sucessão, envolvimento ou fechamento, continuidade ou contínuo que servem de ponto de partida para as noções representativas, ou espaço prélógico, mais ou menos na faixa entre os 6-7 anos que coincide com o início da atividade escolar. De acordo com Castrogiovanni (2003, p.18), as relações espaciais topológicas, são as primeiras a serem construídas, mas estão sempre sendo ressignificadas e empregadas no cotidiano. Vizinhança: relações em que os elementos são percebidos no mesmo campo, próximos uns dos outros. Separação: as crianças percebem que os objetos, embora vizinhos, estão dissociados, ocupam posições distintas no espaço. Ordem ou Sucessão: relações que se estabelecem entre elementos vizinhos e separados. 76 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Envolvimento ou fechamento: estabelecem-se no sentido das noções de interior, exterior, centralidade, proximidade, contorno. Continuidade ou contínuo: envolve o conhecimento de pontos colocados em sequência no espaço, o desenho de uma paisagem, por exemplo. Para se estabelecer tais relações, empregam-se todas as outras noções de vizinhança, separação, ordem ou sucessão e envolvimento ou fechamento. Nas palavras de Castrogiovanni (2003, p.18): Relações projetivas são as que permitem a coordenação dos objetos entre si na atividade de um sistema de referência móvel, dado pelo ponto de vista do observador. Inicialmente o ponto de referência está centrado na própria criança, aos poucos é transferido para outras referências, ou seja, ocorre a descentração [...]. As relações projetivas têm seu fundamento na noção da reta, em outras palavras, em pontos alinhados ou ordenados em uma direção, segundo um ponto de vista. É por meio da atividade perceptiva e da inteligência sensóriomotora que a criança aprende a manejar certas relações projetivas, no entanto, são necessários muitos anos para a criança organizar um sistema de referência operatório de referência projetiva que leve a total coordenação da perspectiva e a reversibilidade dos pontos de vista. As noções fundamentais que envolvem as relações projetivas são: frente e trás, em cima e embaixo, direita e esquerda. A construção da projetividade se dá em três fases, sendo que na primeira a criança consegue dar a posição de objetos a partir do seu ponto de vista (5-8 anos), logo após a partir do ponto de vista do outro colocado a sua frente (8-11 anos) e, por último, colocando-se no lugar dos objetos distintos, quando solicitado a situá-los entre eles (12 anos). Com as relações projetivas é possível iniciar a transposição da orientação corporal para a geográfica, estabelecendo as relações Norte-Sul-Leste-Oeste. 77 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Figura 4 - Desenho que demonstra a solução dos problemas projetivos e euclidianos na transformação de um objeto tridimensional em representação bidimensional Fonte: . FIGURA 3 - Associação entre hemisférios corporais e os hemisférios do “corpo Plane ta Terra” Fonte: Callai e Kaercher (2003, p.20). As relações euclidianas, de acordo com Castrogiovanni (2003, p.20): “São representadas pelas relações que têm como base a noção de distância e permitem situar os objetos uns em relação aos outros, consideran do um sistema fixo de referência. O espaço euclidiano deriva do espaço topológico e do projetivo.” 78 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Elaborado por criança de 10 anos e 1 mês. Repare - se a proporção exata, a perfeita conservação de ângulos e paralelas - todos coordenados pelo mesmo ponto de vista. Observe - se, por outro lado, que as árvores não guardam o mesmo nível de excelência daquele apresentado na figura do trem, porque não conservam a linha vertical. É muitíssimo comum o desenho infantil apresentar dois ou mais níveis de grafismo numa mesma representação. Fonte: . Acesso em: 2011. 01 jul. As primeiras conquistas da atividade perceptiva, assim como as primeiras constatações de grandeza e de forma pela criança, são organizadas no nível da inteligência sensório - motora (perman ência do objeto ausente). Somente no nível das operações concretas surgem as primeiras conservações verdadeiras, tais como: superfície, distância, comprimento tão necessáriaspara o progresso do espaço métrico e quantificado. Para finalizarmos esta seção a presentamos um quadro explicitado em . Acesso em: 01 jul. 2011. Quadro 1 - Relações envolvidas na representação através do desenho 79 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Fonte: . AS ATIVIDADES LÚDICO-PEDAGÓGICAS NA AMPLIAÇÃO DO DOMÍNIO DE ESPAÇO Com o intuito de aproximar você, , das questões aqui elencadas com relação à construção da noção de espaço pela criança, apresentaremos algumas atividades que gradualmente levarão o aluno a agir e refletir sobre o espaço. Atividade 1: mapear o eu Como primeira proposta de atividade, as autoras Almeida e Passini (2004, pp.47-48) sugerem mapear o próprio corpo, pois a partir daí ele toma consciência de sua estatura, posição dos membros e dos lados do seu corpo. “[...] Ao representá-los terá necessidade de se utilizar de procedimentos de mapeador – generalizar, observar a proporcionalidade, selecionar elementos mais significativos -, para que a representação não perca a característica de sua imagem”. Os materiais necessários para essa atividade são: papel de embrulho do tamanho do aluno, giz de cera, caneta hidrocor, giz, papel sulfite, barbante, globo terrestre. Procedimento No primeiro momento os alunos devem se colocar em pares para fazer o mapa do próprio corpo. Na sequência, o aluno A deita-se sobre a folha de papel, enquanto o aluno B risca o seu contorno. Em seguida, os papéis se invertem podendo, também, riscar o contorno no chão com giz escolar. No segundo momento, cada aluno com o contorno do próprio corpo nomeia as partes desse corpo e escreve ou cola etiquetas. No momento seguinte, a atividade deverá ser repetida para trabalhar a lateralidade e o contorno do corpo dos alunos que é feito com giz no chão. A partir daí duas sequências de atividades podem ser desenvolvidas. Primeira sequência: com os alunos em pé sobre o traçado da cabeça no contorno. Nesse caso em específico, a projeção da lateralidade se dá sem espelhar, a direita do aluno coincide com a direita do contorno. Em seguida, a 80 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia professora cola um barbante na testa dos alunos com durex e solicita que cada as criança identifique o seu lado direito, colocando uma marca (com giz na mão direita ou com durex no peito direito etc.). O barbante, como linha demarcatória do eixo de lateralidade, deverá ser traçado também no contorno. Uma vez identificados os lados do corpo no contorno, a professora solicita que os alunos identifiquem as partes de cada lado do corpo no contorno, por exemplo: Pularem no ombro direito. Pularem no joelho esquerdo. Pularem no pé direito. Pularem no braço direito etc. A segunda sequência é idêntica à primeira, no entanto aqui a lateralidade é espelhada, sendo assim o aluno posiciona-se em pé sobre os pés do contorno. Com a lateralidade espelhada a sua direita corresponde ao lado esquerdo do contorno, seguindo para o lado contrário de seu corpo. Atividade 2: o banho de papel Trata-se de uma atividade que pode ser desenvolvida a fim de levar o aluno a identificar as partes do próprio corpo, antes mesmo de mapeá-lo, ou seja, projetá-lo no papel. Tal atividade consiste em fazer com que os alunos simulem um banho. Para as crianças que não possuem as noções de direita e de esquerda corporais, é indicado que se trabalhe com a ideia espacial de “lado do coração” e lado “oposto do coração”. De posse de um objeto simulando um sabonete, a criança lava o corpo sob a orientação do professor, com as seguintes solicitações: Lavar a testa. Lavar o braço situado no lado do coração (esquerdo). Lavar o braço situado ao lado oposto do coração (direito). Lavar a perna situada no lado do coração (esquerdo) de cima para baixo etc. 81 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia A atividade possibilita o emprego de noções espaciais, tais como: lado esquerdo, lado direito, centro, acima, embaixo e também noções temporais: antes, depois, rapidamente, suavemente etc. Essa atividade, por usar a estimulação tátil, leva a criança a sentir e gravar na sua memória corporal as partes e lados do seu corpo. Atividade 3: lavando o corpo hemisferizado: o equador corporal Essa atividade deve ser trabalhada para desenvolver os hemisférios corporais das crianças. Para essa atividade é necessário dois metros de cordão (barbante). A intenção é representar o Equador Corporal no corpo da criança, como se esse fosse o Planeta Terra, passando um cordão à volta do corpo da criança. A atividade deve ser desenvolvida de acordo com a proposta de Castrogiovanni (2003, pp. 32-33): Interrogue a criança sobre o quê o cordão estabeleceu. É importante já ter trabalhado as noções de “acima” e “embaixo” com o auxílio de objetos e de uma mesa. Discuta o que deve ser entendido como “em cima” e “embaixo de”, considerando o corpo apoiado pelos membros inferiores sobre o chão, questionando-a sobre que parte do seu corpo está agora para baixo e qual está para acima. Discuta a ideia de que, estar “acima de” ou “embaixo de”, depende do ponto de apoio-ponto de vista, portanto, é relativo a uma situação. Trabalhe com o globo terrestre, mostrando que a Terra está “solta” no espaço e, portanto, não existe “acima de” e “embaixo de” quando se trata de representações do planisfério (mapas), pois a Terra não está sobre alguma coisa. Com o cordão em torno da cintura (Equador Corporal), crie um novo roteiro para o “banho”, agora considerando o nome dos hemisférios corporais atribuídos pelo grupo. É fundamental manter presente um globo e fazer associação: globo-Equador, criação de dois hemisférios terrestres – Norte e Sul, com o corpo–cintura, criação de dois hemisférios corporais. 82 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Figura 5 - Associação entre os “paralelos corporais” e os paralelos da Terra - Fonte: Callai e Kaercher (2003, p.33). Atividade 4: lavando o corpo hemisferizado: meridiano corporal e a lateralidade Nessa atividade devem empr egar mais dois metros de cordão. O professor propõe para que a criança passe o cordão pelo seu corpo no sentido vertical. Essa linha “traçada verticalmente” deve ser passada na frente, sobre o nariz, umbigo e nas costas, sobre o centro da coluna, estabelec endo assim dois hemisférios (direito - esquerdo). O professor auxilia nessa atividade chamando a atenção dos alunos para a simetria corporal, ou seja; os braços, pernas, mãos, orelhas são duplos e estão “cada um de um lado”. O coração está no centro suavemen te voltado para a esquerda, sendo assim, temos dois hemisférios que é o esquerdo ( coração) e o direito (outro lado ). O professor orienta o banho considerando os dois hemisférios verticais, após, ainda com o cordão na cintura das crianças, também os horizon tais, ou seja, os quatro hemisférios, mas sempre relacionando o corpo da criança com o Planeta Terra (Globo Terrestre) (CASTROGIOVANNI, 2003, p.34). A ideia dessa atividade é de que a criança, a partir das representações de seu próprio corpo, transporte pa ra outras referências espaciais, no caso o Planeta Terra. 83 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Figura 6 - Associação entre os “meridianos corporais” e os meridianos da Terra-Fonte: Callai e Kaercher (2003, p.35). Atividade 5: quem é o vizinho? Essa atividade foi proposta por Castrogiovanni (2003, pp.26-27) e trata das relações de vizinhança e continuidade. Ela poderá ser realizada por meio do estudo dos bairros. A atividadepelo menos 3 grandes períodos glaciais e outros pequenos. A reconstituição da vida na Terra foi conseguida através de fósseis, os mais antigos que conhecemos datam de 3,5 bilhões de anos e constituem em diversos tipos de pequenas células, relativamente simples. As primeiras etapas da evolução da vida ocorreram em uma atmosfera anaeróbia (sem oxigênio). As teorias da origem da vida na Terra são muitas, mas algumas evidências não podem ser esquecidas. As moléculas primitivas, encontradas na atmosfera, compõem aproximadamente 98% da matéria encontrada nos organismos de hoje. O gás oxigênio só foi formado depois que os organismos fotossintetizantes começaram suas atividades. As moléculas primitivas se agregam para formar moléculas mais complexas. A evidência disso é que as mitocôndrias celulares possuam DNA próprio. Cada estrutura era capaz de se satisfazer suas necessidades energéticas, utilizando compostos disponíveis. Com este aumento de complexidade, elas adquiriram capacidade de crescer, de se reproduzir e de passar suas características para as gerações subsequentes. A população humana atual da Terra é de aproximadamente 6 bilhões de pessoas e a expectativa de vida é em média de 65 anos. 6 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Para mantermos o equilíbrio do planeta é preciso consciência dessa importância, a começar pelas crianças. Não se pode acabar com os recursos naturais, essenciais para a vida humana, pois não haverá como repô-los. O pensamento deve ser global, mas a ação local, como é tratado na Agenda 21. Fonte: . Acesso em: 11 ago. 2011. Atualmente, compreendemos que o objeto de estudo dessa ciência privilegia as relações entre os homens, no espaço em que estes estão situados. Cabe ressaltar ainda que a análise desse estudo se dá analisando os aspectos já mencionados, a saber: a Geografia Física e a Geografia Humana, acrescido de um terceiro elemento o Fator Econômico. Comentados por Kozel e Filizola (1996, p.14): a) Geografia Física: Hidrografia (rios, bacias hidrográficas, redes fluviais); Relevo (planícies, planaltos, serras); Clima (calor, frio, geada, neve); Vegetação (florestas, campo, cerrado, caatinga e a distribuição das espécies vegetais). b) Geografia Humana: o “encaixe” do homem e a sua ocupação na geografia física com todos os seus recursos de solo, água, animais, vegetais, minerais. Água, animais, vegetais, minerais. c) Fator Econômico: tenta demonstrar como o homem explora e transforma o ambiente por meio das atividades econômicas como agricultura, pecuária, indústria, serviços, comércio e meios de transporte. Diante do exposto, fica evidenciado que a Geografia estudada nesses três aspectos oportuniza um conhecimento que só se efetiva quando apoiado na transversalidade, ou seja, quando faz uso de um conhecimento produzido por outras áreas, conforme já anunciado anteriormente. Quando a Geografia preocupa-se com o meio natural do homem e suas relações, seu campo de atuação necessita do conhecimento que é produzido por outras ciências, tais como: a Sociologia, a Antropologia e a História, que comentaremos a seguir: a) Sociologia: focaliza as relações dos homens entre si, travadas no seu espaço e no seu tempo. Busca compreender as relações familiares, de 7 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia trabalho, religiosas, de poder, de lazer e as relações existentes na organização e seus funcionamentos simultâneos. Decorre daí conhecimentos de outras áreas das Ciências Humanas como, por exemplo, a Economia (que tem como objeto de estudos a relação de produção, assim como a distribuição dos bens necessários à sobrevivência) e a subordinação Política (relações de subordinação e resistência, relações de dominação que são desenvolvidas pelos humanos na sua convivência). b) Antropologia: o objeto de estudo tem como foco o homem e o que suas ações produzem. A antropologia se divide em adquirir conhecimentos sobre o ser humano enquanto espécie animal (campo da Antropologia Física) e analisar as criações e ações humanas (campo da Antropologia Cultural). Na Antropologia ocorre também a interdisciplinaridade, pois essa necessita de conhecimentos produzidos por outras Ciências Humanas, tais como: a Sociologia, a História, a Economia, assim como conhecimentos produzidos pelas Ciências da natureza ou Ciências Físicas, a Química e as Biológicas. Antropologia (do grego άνθρωπος, transl. anthropos, “homem”, e λόγος, logos, “razão”/”pensamento”) é a ciência que tem como objeto o estudo sobre o homem e a humanidade de maneira totalizante, ou seja, abrangendo todas as suas dimensões. A divisão clássica da Antropologia distingue a Antropologia Cultural da Antropologia Biológica. Cada uma destas, em sua construção abrigou diversas correntes de pensamento. Pode-se afirmar que há poucas décadas a antropologia conquistou seu lugar entre as ciências. Primeiramente, foi considerada como a história natural e física do homem e do seu processo evolutivo, no espaço e no tempo. Se por um lado essa concepção vinha satisfazer o significado literal da palavra, por outro restringia o seu campo de estudo às características do homem físico. Essa postura marcou e limitou os estudos antropológicos por largo tempo, privilegiando a antropometria, ciência que trata das mensurações do homem fóssil e do homem vivo. Fonte: . Acesso em: 11 jun. 2011. c) História: estuda-se o homem em seu contexto de espaço e tempo, assim como suas ações em diferentes lugares. Preocupa-se em compreender as permanências e, ao mesmo tempo, as mudanças ou transformações no 8 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia modo de vida do homem. Essa compreensão só é possível pela interdisciplinaridade de outras Ciências Humanas, tais como a Sociologia, a Economia, a Antropologia, a Política etc. Dessa forma, fica evidenciado que o conhecimento produzido pelas diversas áreas das Ciências Humanas não são apenas um aglomerado de ciências estanques, que foram produzidas ao longo da Humanidade pelas necessidades dos homens em determinado período histórico, mas cabe a nós compreender que essas ciências constituem um todo maior e indivisível, o que nos leva a concluir, a priori, que o estudo da Geografia não pode ser entendido e compreendido apenas como a construção de um espaço. Encontramos respaldo dessa indivisibilidade e interdisciplinaridade nas palavras de Penteado (1994, p.19): A produção do conhecimento compreende, pois, um processo de trabalho, atualmente organizado por uma “divisão do trabalho” entre cientistas de diferentes especialidades. No presente momento da história das ciências, essa divisão tem a função de viabilizar a ação humana de produção do conhecimento científico. Não impede, contudo, e chega mesmo a requerer, o recurso a saberes produzidos em outros campos, ou a construção de equipes interdisciplinares de trabalho. Isso porque a própria indivisibilidade da realidade exige sempre a volta ao todo, à compreensão abrangente. O estudo da Geografia com base na interdisciplinaridade deve privilegiar o encontro e a recursividade de outras ciências, a fim de não fragmentar o conhecimento e não limitá-lo tão somente ao estudo temporal e espacial sem a compreensão das ações do homem sobre si, sobre os demais, os espaços que esses ocupam e os registros que o homem deixa ao longo de sua trajetória Humana. Pensando na interdisciplinaridade, Alexander Von Humbold (17691859), naturalista e explorador, considerado por sua obra o pai da Geografia, participou de inúmeras expedições pela Europa, Ásia, América Latina e América do Sul, incluindo Brasil. Seusdeve iniciar com a localização e a posição do bairro da escola, empregando as relações topológicas e, no momento seguinte, os pontos cardeais. Procedimentos da atividade Distribua para cada aluno um mapa (planta do traçado urbano) de sua cidade já com os respectivos bairros assinalados. Peça que localizem no mapa o bairro que moram, o bairro da escola e o bairro centro. Discuta o porquê do nome “centro”. Distribua também o quadro. Solicite que localizem o bairro em relação aos bairros vizinhos. Trabalhe com noções tais como: vizinho de, perto de, longe e muito longe. Discuta critérios para adotar essas referências. Preencha os espaços com os critérios no lugar reservado no quadro (CASTROGIOVANNI, 2003). Construa com os alunos o quadro a seguir: 84 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia E, sucessivamente, coloquem os outros bairros de acordo com as direções cardeais: Norte, Sul, Leste, Oeste. Nessa atividade é possível trabalhar com os pontos colaterais: Nordeste, Sudeste, Sudoeste, Noroeste. Em seguida, faça a inversão, em outras palavras, solicite que os alunos coloquem a rosa dos ventos sobre cada bairro fazendo com que identifiquem onde está localizado o bairro em que a escola está situada e assim pôr outras referências. Essa atividade pode ser ampliada para outros municípios, estados brasileiros, continente etc. Em seguida, os alunos devem ser orientados para que coloquem o nome do bairro em que moram no centro da rosa dos ventos. Figura 7 - Rosa dos Ventos: a referência é o bairro no qual reside o aluno Fonte: Castrogiovanni (2003, p.27). 85 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Atividade 6: disco voador A proposta da atividade do disco voador é trabalhar com as noções topológicas de contém, está contido, secção, continuidade e, ainda com a posição relativa de interioridade e exterioridade. “[...] Auxilia na construção das estruturas lógicas que leva a criança a entender as relações de tamanho e proporcionalidade entre os diferentes territórios, como o município em um Estado e esse inserido em um país [...]” (CASTROGIOVANNI, 2003, pp. 2930). Desenvolvimento da atividade: Construa com as crianças, em uma folha de papel ofício, discos voadores que empreguem círculos concêntricos. Cada disco deve ter uma cor diferente das demais. O espaço é o todo, portanto, envolve os demais subespaços, formando a “continuidade territorial”. O “todo territorial” pode ser associado à casa da criança, ao bairro, à cidade, ao município, a uma região, ao país, ao continente e ao próprio Planeta Terra. Proponha desafios que operem com simulações de situações geográficas, empregando as relações espaciais. Por exemplo, considere inicialmente como sendo o território o pátio da escola. Questione: o que representariam as outras letras nesse caso? Observe que a ideia é sempre lidar com as noções “contém” e “está contido”, ou seja, a continuidade territorial. Problematize empregando a ordem inversa e mesmo a ordem intermediária. Por exemplo, se o B for o município X, o que será o território A? E o território C? O território D pode ser a nossa escola? Por quê? (CASTROGIOVANNI, 2003). Os círculos abaixo, do menor para o maior, são representados pelas sequências do alfabeto: A-B-C-D-E-F. 86 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Figura 8 - Cada um dos segmentos territoriais representa um lugar Fonte: Castrogiovanni, 2003. 87 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia REFERÊNCIAS BELLONI, Maria Luiza. Educação a Distância. 3. ed. Campinas: Autores Associados, 2008. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: História e Geografia. Secretaria de Educação Fundamental. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. CASTELLAR, Sônia; VILHENA, Jerusa. Ensino de geografia. São Paulo: Cengage Learning, 2010. Coleção idéias em ação. CASTRO, Moysés. Os Mapas e as Crianças. Disponível em: . Acesso em: 01 jun. 2011. CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos. Apreensão e compreensão do espaço geográfico. In: CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos (org.). Ensino de geografia: práticas e textualizações no cotidiano. Porto Alegre. Mediação, 2000. CERQUEIRA E FRANCISCO, Wagner. 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Kozel e Filizola (1996, p.11), nos guiarão: Fonte: . Acesso em: 11 jun. 2011 . Dessa forma, concluímos que a Geografia como ciência constitui um ramo de conhecimento indispensável para a formação de professores que terão a responsabilidade de comp reendê - la como um espaço natural, mas que sofreu modificações considerando as necessidades do homem com todas as suas contradições e relações estabelecidas entre os grupos sociais em espaços e tempos históricos distintos. A HISTÓRIA DA GEOGRAFIA NO BRASIL A Geografia passou por diferentes momentos no Brasil, produzindo não só a sua própria história, mas gerando reflexões sobre a sua metodologia. Nesse sentido, faremos uma breve retrospectiva histórica, a fim de refletirmos sobre as práticas do fazer geográ fico. No entanto, para uma melhor compreensão da Geografia, cabem - nos ao menos três perguntas: o que significa a palavra Geografia? Quem foram os primeiros a fazer esses registros? Quais eram os interesses que promoveram seu desenvolvimento? 10 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Fonte:. Acesso em: 1 jun. 2011. Os gregos foram os primeiros a fazer registros sistemáticos de geografia, pois sua intensa atividade comercial permitia-lhes explorar e conhecer diferentes povos e lugares ao longo da costa do mar Mediterrâneo. A própria origem da palavra geografia é grega (“geo = terra; “grafia” = escrita, descrição), embora esses conhecimentos iniciais pouco se assemelhassem ao que hoje consideramos geografia. A síntese dos autores nos dá a compreensão de que a origem da palavra Geografia está diretamente ligada aos registros de uma atividade marítima com fins comerciais. Os escritores gregos foram significativos para os dados e informações com relação aos espaços e formas da Terra e as relações dos homens nesses meios para o desenvolvimento geográfico que se desenvolveria posteriormente. Cabe ressaltar ainda, que até o final do século XVIII esses dados e informações ficaram registrados em obras de estudos históricos e filosóficos. Nessas obras eram encontrados relatos de viagens, relatórios estatísticos, catálogos sobre continentes e países. A união entre os interesses comerciais e o desejo da expansão religiosa impulsionou essas navegações entre os italianos, árabes e portugueses. No entanto, devido às limitações técnicas dos mesmos e o pensamento predominante da Igreja Católica, essas navegações tinham caráter apenas quantitativo e descritivo dessas viagens. 11 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Ao longo do processo de constituição do capitalismo que foi iniciado na Europa houve condições para uma sistematização dos conhecimentos geográficos, deixando de ser apenas relatos e dados para o estabelecimento de um estudo científico das questões geográficas. No início do século XIX, essas condições já estavam desenvolvidas a ponto de termos as seguintes sistematizações: • O conhecimento do planeta para dominar a dimensão e a forma dos continentes. • Informações sobre a superfície terrestre, a fim de estudar e comparar os diferentes lugares. • Aprimoramento de técnicas cartográficas, que eram fundamentais para a representação dos fenômenos, dos elementos observados e da localização dos lugares. Acreditamos que respondemos, mesmo que de forma sintetizada, as três perguntas iniciais. Cabe a você, pesquisar mais sobre o assunto, a fim de iniciar o seu acervo pessoal de informações e conhecimentos pertinentes a essa temática e que serão essenciais para o trabalho pedagógico nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nosso intuito, mais do que apresentar essas informações, é provocar esse desejo e ao mesmo tempo auxiliar na compreensão de que as mudanças ocorridas na Geografia foram em decorrência do processo histórico e dos conhecimentos acumulados pelas gerações anteriores. Ao tomarmos consciência de que a história da Geografia teve início na Grécia, que a sua expansão foi impulsionada por motivos comerciais e religiosos e que no século XIX as técnicas para a produção de uma Geografia sistematizada e científica estavam desenvolvidas, cabe-nos, agora a seguinte pergunta: como ocorreu a história da Geografia no Brasil? A Geografia no Brasil também passou por diferentes momentos, gerando reflexões acerca da metodologia do fazer geográfico. Refletir sobre o modo como se ensinava apresenta-se como fundamental para uma melhor compreensão de como foi implantada a Geografia no país em diferentes 12 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia momentos históricos. Sendo assim, convidamos você para essa retrospectiva histórica. Mas antes disso, pense: • Que lembranças você guarda de seus tempos de estudante dos anos iniciais do Ensino Fundamental, como hoje denominamos? • Recorda-se dos conteúdos que eram desenvolvidos? • De como eram as aulas? • E os livros didáticos? • E os recursos que os professores utilizavam? Na síntese elaborada por Kozel e Filizola (1996), no Brasil, até as primeiras décadas do século XIX, o ensino de Geografia se limitava a uma concepção tradicional. Os livros didáticos se limitavam a uma Geografia descritiva e enumerativa como se fosse um simples catálogo. Os textos eram verdadeiros relatos que mais se assemelhavam a fotografias faladas, tal a riqueza de detalhes utilizados na descrição das diversas paisagens. Ampliar essa concepção tradicional de ensino nos leva a compreender que a prática didático pedagógica estava alicerçada por transmitir os conteúdos de forma estanque e sem a proposta de uma percepção crítica dessa Geografia e dos alunos. Pelo contrário, era exigido apenas memorização de nomes e números, sem, contudo estabelecer relações, analogias ou generalizações. Com a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1934), a Geografia no Brasil, passou a ser ensinada por professores licenciados, sob influência da escola Francesa de Vidal de La Blanche. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais: Essa geografia era marcada pela explicação objetiva e quantitativa da realidade que fundamentava a escola francesa de então. Foi essa escola que imprimiu ao pensamento geográfico o mito da ciência [...] não-politizada, como argumento da neutralidade do discurso científico. Tinha como meta abordar as relações do homem com a natureza de forma objetiva, buscando a formulação de leis gerais de intrepretação (BRASIL, 2000, p.103). Os parâmetros curriculares nos indicam que a apropriação da Geografia adotada da escola Francesa e os seus desdobramentos deram início à 13 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia chamada Geografia tradicional. Os parâmetros confirmam a valorização do homem como sujeito histórico, no entanto, ao estudar o espaço geográfico e a relação homem-natureza, as relações sociais não eram priorizadas, imprimindo uma ciência e um pensamento geográfico não politizado, ou seja, sem a pretensão de uma análise crítica da realidade social. Ao se estudar, por exemplo, a população, excluía-se a sociedade e as relações sociais; estudava- se as técnicas e os instrumentos de trabalho, mas excluía-se o processo de produção. Em síntese, as relações socias não eram discutidas, retirando o homem de seu caráter social, articulando o ensino de Geografia de forma fragmentada e com víes neutralizante. Cabelembrar, ainda, que a perspectiva de uma Geografia neutra dissociada do espaço vivido pela sociedade e das relações contraditórias de produção da organização desse espaço, marcou a produção de livros didáticos até meados da década de 1970 e, ainda hoje, alguns livros apresentam ideias e interpretações defendidas pela Geografia tradicional. A partir dos anos 1950, com o término da Segunda Guerra Mundial, a realidade tornou-se mais complexa com o desenvolvimento do capitalismo e a hegemonia dos Estados Unidos. Nesse sentido, a condição de (re)elaboração das condições de dependência do Brasil diante desse novo cenário leva as classes sociais brasileiras a participarem dos debates sobre os problemas nacionais; a urbanização acentuou-se, o espaço agrário sofreu modificações estruturais comandadas pela Revolução Verde, em função da industrialização e da mecanização das atividades agrícolas em várias partes do mundo. É nesse momento de transição que a Geografia tradicional torna-se insuficiente para apreender toda essa complexidade e, sobretudo, explicá-la, uma vez que as realidades locais passaram a ter dependência externa e de escala mundial. Encontramos respaldo nas palavras de Pontuschka, Paganelli e Cacete (2007, p.51) quando afirmam que: O espaço geográfico, mundializado pelo capitalismo, tornou-se complexo e as metodologias propostas pelas várias tendências da Geografia Tradicional não eram capazes de apreender essa complexidade. Novas metodologias deveriam surgir para empreender tal tarefa [...]. 14 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia A complexidade comentada pelos autores estava alicerçada por uma nova ordem mundial que privilegiava as relações mundiais e análises de ordem econômica, social, política e ideológica. Por outro lado, o desenvolvimento dos meios técnicos e científicos impulsionaram o estudo do espaço geográfico globalizado. Os geógrafos passaram a utilizar de modo mais expressivo a leitura de imagens de satélites, sobretudo na metereologia e na climatologia. A crítica à Geografia Tradicional surge a partir da década de 1960 sob a influência das teorias marxistas, cujo eixo de preocupação está alicerçado sobre as relações entre a sociedade, o trabalho e a produção do espaço geográfico. A partir desse momento, os geógrafos passam a estudar a sociedade por meio das relações de trabalho e da apropriação humana para a produção e distribuição dos bens necessários. “Surge a crítica ao Estado e as classes sociais dominantes tendo como proposta uma Geografia que atendesse aos interesses coletivos, propondo, assim, uma luta de classes” (BRASIL, PCNs, 2000, p.105). Diante dessa nova perspectiva teórica, explicar o mundo não é mais suficiente, é preciso também transformá-lo. “[...] Marx e seus seguidores afirmavam que só a perspectiva de transformar o mundo permitia sua compreensão, só a visão crítica permitia apreender a essência e o movimento dos processos sociais” (PONTUSCHKA; PAGANELLI; CACETE, 2007, p.54). Nesse sentido, a Geografia deixa de ser neutra e ganha contornos e conteúdos políticos que são significativos na formação do cidadão. A implicação dessa transformação teórica e metodológica marxista influenciou a produção da Geografia no Brasil, sobretudo nas décadas de 80 e 90 do século passado, influenciando também uma nova geração de pesquisadores. No entanto, para Andrade (2004), essa nova proposta teórica trouxe inovações para o pensamento geográfico nacional, mas também promoveu graves distorções com relação à dominação quantitativista, predominantemente após a democratização do país. Tanto a Geografia Tradicional quanto a Geografia Marxista não atenderam à complexidade do momento histórico, pois não contemplaram a relação do homem com a natureza, produzindo uma lacuna pelas duas 15 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia propostas ao não considerarem a dimensão da sensibilidade de percepção do mundo. Por um lado, a Geografia Tradicional negligenciou um conhecimento que passasse pela subjetividade, uma vez que sua proposta estava alicerçada na visão positivista de mensurar, quantificar e ordenar. E, por outro lado, a Geografia Marxista considerava alienante qualquer explicação subjetiva (BRASIL PCNs, 2000). Cabe lembrar que, se por um lado, enquanto nas universidades na década de 1970 os debates acalorados se detinham na busca de novos paradigmas teóricos para o ensino de Geografia, o mesmo não acontecia com a escola pública de primeiro e segundo graus, hoje Ensino Fundamental e Médio com a promulgação da Lei 5.692.71 que significou: “[...] a criação de Estudos Sociais com a eliminação gradativa da História da Geografia da grade curricular” (PONTUSCHKA; PAGANELLI; CACETE, 2007, p.59). Qual o impacto dessa lei para o ensino de Geografia? Para responder a essa pergunta, caro (a) aluno (a), não podemos esquecer que essa medida legal foi tomada em plena Ditadura Militar, o que significa que a discussão dos problemas do país era praticamente ausente e restrita a um círculo fechado, eliminando assim qualquer possibilidade de diálogo com a sociedade. Com a promulgação da Lei 5.692/71 foi extinto o antigo ginásio e realizada a fusão deste ao primário (antigo grupo escolar), ficando então constituída a escola de primeiro grau de oito anos. Com um olhar atento sobre essa fusão observa-se um retrocesso com relação às verbas educacionais, que se mostravam insuficientes diante do número de alunos a ser escolarizado. As mudanças chegaram inevitavelmente ao currículo e à grade curricular com a criação dos Estudos Sociais e Educação Moral e Cívica. O que significaram essas mudanças no ensino de Geografia e na formação dos alunos? Tais mudanças oriundas da Lei já citada transformou o ensino de Geografia em uma disciplina inexpressiva no interior do currículo, significando uma fragmentação do conhecimento e por consequência a má formação de uma geração de alunos. 16 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia As repercussões da Lei 5.692/71 influenciaram também a formação docente, pois não havia a reflexão profunda sobre os fundamentos epistemológicos e metodológicos das disciplinas, retirando assim a possibilidade de preparar o futuro docente para estar no mundo, agir sobre ele e participar efetivamente da construção da realidade social não só no momento presente, mas também futuro. Você também poderá ler na íntegra esta Lei 5.692/71 pelo sítio: . Como fruto das discussões para a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, mudanças significativas ocorreram na educação brasileira e as propostas curriculares dos estados foram debatidas com o objetivo de gerar uma nova proposta, que se dá agora pelo nome de Parâmetros Curriculares Nacionais. Com a nova LDB, o Ministério da Educação (MEC), por via da Secretaria, toma decisões com relação ao currículo das escolas públicas no país. O governo criou um novo currículo para o ensino de primeiro e segundo graus, dando uma nova nomenclatura a esses níveis, passando a denominá-los Ensino Fundamental e Médio. É o que veremos a seguir. OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: OS CAMINHOS DO ENSINO DE GEOGRAFIA Os parâmetros curriculares de Geografia (tendo sua primeira edição em 1997) permitem uma visão não só da realidade que nos circunda (local), mas para além do nosso espaço geográfico (global) com uma percepção ampliada da realidade que nos leva a refletir e intervir sobre esses espaços em tempos e lugares diferenciados. Nosso intuito não é explorar em todos os detalhes o que contempla esse documento, mas permitir que você, enquanto futuro educador, possa conhecê- lo e tê-lo como um auxílio para o seu trabalho pedagógico na formação dos seusalunos enquanto futuros cidadãos conscientes de seu papel na sociedade e para a conquista de sua cidadania. 17 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Nesse sentido, os estudos dos PCNs para o ensino da Geografia no Ensino Fundamental têm entre suas propostas uma reformulação e renovação da proposta curricular, bem como a participação de toda equipe como ação conjunta na promoção de uma educação com qualidade. Reconhecendo a complexidade da prática educativa, esse documento busca auxiliar os professores na tarefa de assumirem o seu importante papel no processo de formação dos cidadãos brasileiros. Considerando a abrangência dos assuntos abordados, os PCNs podem ser utilizados com objetivos diferenciados e como instrumentos essenciais para a compreensão e intervenção na realidade social. O PCN para a Geografia no Ensino Fundamental propõe um trabalho pedagógico visando à ampliação das capacidades dos alunos no sentido de observar, explicar, conhecer, comparar e representar. Não somente as características do lugar em que se vive, identificando paisagens e espaços geográficos, como também estabelecendo relações com outros lugares distantes no tempo e no espaço no sentido de perceber as marcas do passado no presente. [...] podemos compreender como diferentes sociedades interagem com a natureza na construção do seu espaço, as singularidades do lugar em que vivemos, o que o diferencia e o aproxima de outros lugares e, assim, adquirirmos uma consciência maior dos vínculos afetivos e de identidade que estabelecemos com ele (BRASIL, PCNs, 2000, p.99). As abordagens atuais do ensino de Geografia buscam práticas pedagógicas com o intuito de apresentar aos alunos uma compreensão cada vez mais complexa da sociedade, desenvolvendo no educando a capacidade não só de identificação, mas sobretudo da reflexão sobre os diferentes aspectos dos espaços geográficos para a compreensão de relação sociedadenatureza. A relação sociedade-natureza não envolve apenas descrição, observação, registro, mas é preciso focar a dinâmica das suas transformações. Para tanto é necessário buscar explicações para aquilo que em uma determinada paisagem permaneceu ou foi alterado e os elementos do passado e do presente que nela convivem e podem ser compreendidos a partir de uma 18 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia análise do processo de produção e organização do espaço. Não podemos esquecer que o espaço geográfico é produzido e alterado pelo homem, e agindo sobre esse espaço ele o modifica para atender as suas necessidades econômicas, culturais e sociais. Para tanto, as noções de sociedade, cultura, trabalho e natureza são fundamentais e podem ser abordadas por meio de temas nos quais as dinâmicas e determinações existentes entre sociedade e natureza sejam estudadas de forma conjunta (BRASIL PCNs, 2000, p.117). O estudo da Geografia com base na relação entre sociedade e natureza contribui para a compreensão e explicação mais complexa da realidade do nosso dia a dia, do local em que estamos inseridos e o que acontece em outros lugares, pois a sociedade na qual vivemos hoje passa pela demanda de uma compreensão maior e interdependente, abrangendo os problemas sociais, econômicos, a consciência conservacionista e ambiental, a distribuição de renda etc. Para a compreensão e reflexão acerca da relação entre sociedade e natureza é preciso buscar um trabalho interdisciplinar, ou seja, outras fontes para o estudo da Geografia que podem ser encontradas, por exemplo, na Literatura por meio de obras de autores brasileiros (Jorge Amado, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo entre outros), considerando que suas obras retratam paisagens diferenciadas do Brasil abordando seus aspectos sociais e culturais. Assim também músicas, a fotografia, o cinema, o jornal poderá auxiliar professores e alunos a obter informações, fazer comparações, interpretar e construir conhecimentos sobre o espaço geográfico. Nas palavras de Castellar e Vilhena (2010) é preciso uma educação geográfica no sentido de uma compreensão por parte dos alunos com relação à ação social e cultural de diferentes lugares, às interações entre as sociedades e à dinâmica que ocorre em diferentes momentos históricos, levando em consideração que a própria vida em sociedade é uma dinâmica que implica alterações no comportamento e na cultura dos povos dos diferentes lugares, e considerando ainda que as inovações no campo da informação e da técnica são 19 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia absorvidas pelo espaço geográfico, não de forma linear, mas com todas as suas contradições advindas dessas inovações. Nesse sentido, de acordo com os PCNs (BRASIL 2000), o objetivo geral, ao longo dos anos fundamentais, é que os alunos construam um conjunto de conhecimentos referentes a conceitos geográficos que lhes permitam inferir no ambiente social e natural de forma harmônica. Apresentaremos os principais conjuntos de conhecimentos abordados por esse documento (BRASIL, PCN, 2000, p.121): Com a abordagem de alguns tópicos contemplados nos PCNs de Geografia e do conjunto de conhecimentos esperamos que você, caro(o) aluno(a), construa o seu próprio conhecimento com relação ao estudo da Geografia pautado na compreensão de que as relações entre sociedade e natureza não podem ser vistas separadamente, assim como as alterações sofridas no espaço geográfico atendem às necessidades do homem que ocupa esses espaços. Embora muito já se tenha criticado e mereça revisão, segundo nosso parecer, os PCNs podem contribuir para sua formação profissional desde que se compreenda que se trata de um parâmetro e não um guia didático. Você também pode lê-lo na íntegra por intermédio do site do MEC: . A METODOLOGIA VOLTADA PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA No ensino de Geografia é preciso refletir e utilizar metodologias que privilegiem a inserção do aluno no contexto social por meio de diálogos, com a finalidade de integrar esse aluno à realidade existente, na qual nossos educandos façam parte. Nesse sentido, no processo de ensino-aprendizagem é certo que teremos os conteúdos e também métodos. No entanto, esse processo terá como eixo norteador uma relação de diálogo entre professor e aluno, cada qual assumindo o seu papel diante dele. Ao professor cabe a responsabilidade do 20 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia planejamento e desenvolvimento dos conteúdos, criando situações que favoreçam a aprendizagem do aluno. Para que essa aprendizagem ocorra é preciso que o professor tenha clareza do processo pedagógico e, sobretudo, conhecimento dos conteúdos a serem trabalhados com o aluno. Tratando-se de uma relação de mão dupla, ao aluno cabe a responsabilidade de assumir para si o desejo de aprender, sendo questionador e intervindo no processo de aprendizagem como um sujeito ativo. No entanto, a maneira mais comum de se ensinar Geografia tem sido com o professor apoiado no livro didático, e a abordagem dos conteúdos é feita, na maioria das vezes, descontextualizadas do contexto ao qual o aluno está inserido. “Usualmente após um trabalho de leitura ou de uma exposição, o professor avalia também de forma fragmentada pelos exercícios de memorização” (BRASIL, PCNs, 2000, p.115). A nossa concepção de metodologia para o ensino de Geografia converte para uma prática pedagógica que possibilite ao aluno compreender a complexidade de cada conteúdo tratado. Nesse sentido, ao abordar um conteúdo é preciso que o professor promova a capacidade de reflexão sobre diferentes aspectos da realidade. Essa abordagem exige do professor uma atitude problematizadora que permita a observação, o registro e relaçãodesses conteúdos com a realidade na qual o aluno está inserido. É preciso ainda que o aluno tenha participação ativa nos conteúdos, considerando o conhecimento que esse traz consigo, e que saia desse processo diferente de quando entrou. Essa mudança conceitual terá a participação direta do professor ao fazer a abordagem dos conteúdos, a fim de que os alunos possam mudar a sua prática social. “[...]Quando o aluno apenas memoriza, ou não vê objetivos no que aprende, acaba esquecendo os conteúdos[..]” (CASTELLAR; VILHENA, 2000, p.5). Com relação a uma nova metodologia para o ensino de Geografia, Castellar e Vilhena (2010, p.9) confirmam o nosso posicionamento diante do processo ensino-aprendizagem: “Propomos, então, construir ideias em outras perspectivas, o que significa ressaltar um processo de aprendizagem com base 21 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia no conhecimento prévio, nos conteúdos científicos e na realidade, proporcionando um novo olhar para a geografia escolar [...].” Não temos dúvida de que o caminho metodológico a percorrer no ensino de Geografia esteja pautado na dialogicidade entre professor e aluno, reafirmando o importante papel do professor como mediador no processo de ensino-aprendizagem. Nessa perspectiva o professor não caminha pelo aluno, mas caminha junto com ele no sentido de promover a ascensão dos conhecimentos prévios que ele já traz consigo. Interessa-nos, sobretudo, a ação docente, assim como a dinâmica da própria sala de aula que deve ser levada em conta, o desenvolvimento atual do educando e a faixa etária dos alunos. Nesse sentido, se a proposta final da prática pedagógica é o ensino e aprendizagem, é preciso que sejam levados em consideração esses fatores dos educandos. Vale ressaltar que diante de todos os avanços da Tecnologia da Informação e Comunicação, as chamadas TICs, os computadores ligados em rede e as informações sendo produzidas em tempo ininterrupto e simultaneamente, o livro didático ainda continua sendo um dos suportes mais utilizados na realidade da maioria das escolas. Nesse sentido, quando mencionamos o livro didático não estamos fazendo uma crítica a esse suporte, mas a forma como ele tem sido utilizado por algumas instituições tanto pelos autores quanto pelos próprios professores. Em muitas situações o livro é utilizado como um fim e não como um meio no processo de ensino-aprendizagem. Entendemos que ele deve ser utilizado como um apoio e a partir dele o professor amplie os conteúdos. A abordagem metodológica está diretamente relacionada com a concepção que o autor e o próprio professor tem tanto do processo de ensinoaprendizagem quanto da abordagem do conteúdo. Não podemos esquecer que o livro traz uma abordagem teórica, pois aquele que o escreveu tem um posicionamento teórico que pode ser tradicionalista ou socioconstrutivista, por exemplo. Nesse sentido, é preciso que você, futuro(a) professor(a), tenha clareza da linha teórica na qual você subsidiará a sua prática pedagógica, pois dessa forma você saberá escolher e utilizar a obra escolhida. 22 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Fechamos esse assunto deixando para você, uma reflexão acerca da metodologia a ser utilizada na sua prática docente independente do suporte utilizado. Tratamos aqui do livro didático, no entanto, sabemos que outros suportes estão à disposição dos professores, tais como jornais, revistas, filmes, reportagens, a própria internet que já faz parte da vida dos alunos. Nesta perspectiva, lançamos a questão que poderá ser respondida a partir da leitura do excerto abaixo: por que ensinar Geografia nos anos iniciais? Pautado em uma perspectiva atual de ensino, o conhecimento ocorre pelas relações entre professor e alunos e mediatizado pelo mundo que os cerca. Na unidade II deste material trataremos de forma mais abrangente os papéis de professor e aluno diante do conhecimento geográfico. Muitos desafios são reinaugurados com o início deste século; um deles seria o próprio papel da escola uma vez que ela não é mais a única detentora A GEOGRAFIA NO SÉCULO XXI A sociedade do século XXI da qual somos todos partícipes tem passado por inúmeras transformações ocorridas no campo da economia, da política, da saúde entre outros. Na educação não ocorre de modo diferente, pois considerando as constantes mudanças ocorridas no campo da tecnologia e da informação, essa instituição tem sido questionada sobre o seu real valor na sociedade onde todos têm acesso a informações a qualquer tempo e espaço. Fonte:. Acesso em: 11 jun. 2011. 23 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia do saber, pois a televisão, a internet e os dispositivos móveis, tais como celular, Ipod, Tablet transmitem a informação a qualquer momento e em qualquer lugar. Essa revolução tecnológica altera também nossos padrões de comportamento e de aquisição do conhecimento. Não é preciso mais esperar o telejornal preferido para saber das notícias do dia, pois as informações estão disponibilizadas no momento em que são produzidas e distribuídas em escala planetária. No entanto, cabe ressaltar que a escola, assim como o próprio professor não tem a função apenas de transmitir a informação ou o conhecimento, mas promover a reflexão crítica acerca da mensagem ou conteúdo. Essa sociedade exige ainda que os cidadãos sejam criativos, próativos, que saibam trabalhar em coletividade para atender às expectativas pessoais, assim como atender às exigências do mercado de trabalho. Para sobreviver no século XXI, a sociedade contemporânea e as gerações futuras requerem um novo tipo de indivíduo e trabalhador que desenvolva capacidades e competências múltiplas, a saber: gestão do próprio conhecimento, adaptabilidade, flexibilidade, responsabilidade, trabalho colaborativo (BELLONI, 2008; RAMAL, 2002). Todas essas questões acima elencadas não serão discutidas neste material, mas elas são de fundamental importância para refletirmos sobre o ensino de Geografia na sociedade atual, pois não poderemos ignorar tais mudanças e nem as pedagógicas que o nosso tempo requer. Sen (2005, p.9) nos dá subsídios para repensar o papel da escola e do ensino de Geografia ocorridos na sociedade. Será que o ensino de geografia vai conseguir sobreviver – ou talvez até se fortalecer – com essas mudanças no sistema escolar? Acreditamos que a resposta para essa questão [...] não se encontra completamente determinada, isto é, ela está “em se fazendo” e dependerá muito de cada realidade nacional específica. Fundamentalmente será concretizada pelas nossas ações – como geógrafos e professores e como cidadãos – e também pelo processo econômico, cultural e político de cada sociedade [...]. 24 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia O questionamento de Amartya Sen (2005) é muito oportuno, sobretudo porque ciente das transformações ocorridas no século XXI tem a compreensão de que a escola enquanto uma instituição social pertence ao todo maior que é a própria sociedade. Nesse sentido, todas as questões econômicas, culturais e políticas permeiam e estão intrinsecamente ligadas. É oportuno, também, levar em consideração que esse sistema escolar representado pelo diretor, o pedagogo, o psicólogo, o aluno e a comunidade como um todo, deve se fortalecer diante dos desafios existentes. O sistema escolar deve estar renovado e preparado para as exigências e desafios do século XXI que se propagam agora em escala global e local, tendo a compreensão do espaço e tempo, assim como da expansão dos direitos humanos e da necessidade do educando aprender a lidar com o diferente e também com as questões ambientais. Esses e outros temas passam a seridentificados como pertencentes à Geografia e tenderão a ser cruciais no Ensino Fundamental e Médio, porque mais do que conhecer esses espaços em que vivemos, é preciso refletir sobre os problemas urbanos, étnicos, culturais, no intuito de estabelecer relações entre a sociedade e a natureza. Como docentes comprometidos não podemos ignorar essas mudanças. Elas devem envolver a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, promovendo a superação dos conceitos da Geografia Tradicional da primeira metade do século XX. No âmbito de cada ciência e também da geografia, apesar de toda a discussão sobre a interdisciplinaridade, ainda se realiza um trabalho compartimentado e isolado com pouca interlocução entre os responsáveis pelos vários ramos do conhecimento (PONTUSCHKA; PAGANELLI; CACETE, 2007, p.144). Em relação aos pressupostos acima elencados pelos autores, compreendemos que a interdisciplinaridade, apesar de ser proclamada, ainda não se efetiva no ensino de Geografia, tornando-a uma disciplina estanque. Para que essa ocorra de fato, é preciso uma maior aproximação com a realidade 25 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia social e o espaço geográfico considerando os temas de interesse e necessidades. Pensar e agir interdisciplinarmente não são tarefas fáceis, pois é preciso passar de um trabalho que se realiza individualmente no interior de uma escola para assumir uma nova postura de trabalho coletivo, o que, em muitas vezes, faz emergir diferenças e contradições nesse espaço social. O pensamento interdisciplinar não está alicerçado no fragmentado ou o desconectado, mas na tentativa de unir esses fragmentos, diminuindo o isolamento tão característico das especializações, promovendo o intercâmbio entre professores e alunos como idealizadores do mesmo projeto (PONTUSCHKA; PAGANELLI; CACETE, 2007). Considerando que uma prática interdisciplinar requer reflexões e trabalho coletivo, de que forma essa ação se concretiza na escola? Faremos uma síntese de algumas atitudes que promovem essa nova postura no corpo escolar baseadas nas autoras Pontuschka, Paganelli, Cacete (2007). • Nas reuniões de planejamento, o professor explicita os objetivos e conteúdos escolares a partir da sua área de conhecimento, a fim de promover um diálogo entre os diferentes professores de diferentes áreas. • Os momentos para o planejamento devem ser momentos de reflexão, de diálogo e fortalecimento das relações interpessoais. • O tema gerador deve ser escolhido com base nas relações dos homens com o mundo. O tema gerador pode ser trabalhado na geografia com a finalidade de contribuir para que os alunos superem o senso comum para chegar a um conhecimento mais elaborado e científico acerca da realidade que os circunda. Esses temas surgem após o estudo da realidade, e o próprio conceito de aula vai ganhando novos contornos no sentido de que ela não acontece mais apenas dentro de quatro paredes, mas pode ser desenvolvida em outros espaços físicos e com a participação de outras pessoas, seja na visita à favela, a museus, parques e diversos espaços existentes. Não resta dúvida de que uma Geografia do século XXI deve levar em conta os problemas da sociedade que não pertencem mais a um contexto local, 26 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia mas à escala global; e a necessidade de professores e educandos trabalharem com temas que tendem a ser cruciais, tais como: conhecer o espaço em que vivemos, analisar as relações entre sociedade e natureza, refletir sobre os problemas urbanos, ambientais, étnicos etc. A ESTRUTURA CONCEITUAL PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA: O PAPEL DA ESCOLA, DO PROFESSOR E DO ALUNO Agora procuraremos refletir sobre a estruturação conceitual básica para o ensino de Geografia nos anos iniciais do Ensino Fundamental, bem como os níveis de aprendizagem, isto porque acreditamos que a faixa etária e o nível cognitivo de nosso aluno interfere diretamente em seu processo de aprendizagem. Isso é o mesmo que dizer que ele somente transformará informação em conhecimento se tiver uma maturidade cognitiva, portanto, é papel da escola e mais precisamente do professor proporcionar condições para que esse aluno alcance os mais elevados níveis de conhecimento. Verificaremos, ainda, as diretrizes metodológicas para o ensino de Geografia a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os chamados PCNs, documento elaborado pelo Ministério da Educação em 1997 sob orientação da nossa última LDB 9394/96. Para finalizarmos, buscaremos o entendimento do momento que ora vivenciamos, correlacionando-o a responsabilidade da Escola neste século XXI e ao papel do professor e do aluno. A ESTRUTURA CONCEITUAL BÁSICA PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA: OS NÍVEIS DE APRENDIZAGEM Ao abordar a estrutura conceitual básica para o ensino de Geografia e os níveis de aprendizagem nos anos iniciais do Ensino Fundamental, interessa- nos discutir essas condições na perspectiva do professor mediador como aquele que auxilia o processo de ensino-aprendizagem, fazendo uso das 27 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia experiências e conhecimentos que os alunos já possuem e trazem para a sala de aula. Antes de abordamos o perfil do professor no ensino de Geografia, fazse necessário esclarecer que a vida do homem se passa dentro de um espaço natural que possui características próprias e que é transformado através do tempo por agentes naturais. Por outro lado, é no encontro dos homens, por meio do trabalho, com esse espaço natural que se define o espaço sociocultural de sua existência, que surge em decorrência das transformações e criações que esse mesmo homem, por meio das suas relações sociais humanas, promove nesse meio. 28 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Fonte: (PENTEADO, 1994, p.36). A expressão gráfica acima nos permite uma aproximação das condições de aprendizagem e os níveis de ensino, como critério norteador de situações De posse da afirmação acima é possível selecionar uma estruturação conceitual básica que forma a estrutura do campo de conhecimento que é, por sua vez, gerador de outros conhecimentos. A estrutura desse campo de conhecimentos se dá sobre conceitos básicos que podem ser expressos da seguinte forma: as relações sociais humanas como eixo central e nas suas extremidades a natureza, o espaço, a cultura e o tempo. É preciso considerar ainda que os conceitos básicos são instrumentos de trabalho para a análise e compreensão da realidade na qual o homem está inserido e que esses conceitos possuem uma interligação. Cada um dos conceitos, por si, constitui um eixo conceitual, que se [...] amplia e desdobra em outros conceitos a ele relaci onados, à medida que o processo de compreensão dos mesmos caminha. Todos mantêm, ao longo de seus desdobramentos, relações entre si. A esses conceitos inter - relacionados denominados corpo conceitual (PENTEADO, 1994, p. 36). Apresentaremos a expressão gráfi ca proposta por Penteado (1994) desse corpo conceitual como eixos que se ampliam e se inter - relacionam. Vejamos: 29 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia significativas de aprendizagem, levando em consideração um trabalho escolar que se desenvolverá em três níveis diferentes de realização, de acordo com Penteado (1994): 1. Nível do desenvolvimento de conceitos específicos da série: explorará em todas as séries as experiências que os alunos já têm ao chegar à escola, ou seja, o conhecimento prévio com relação aos conceitos específicos com que vai se trabalhar e privilegiará, também, o trabalho com alguns conceitos específicos de cada série. 2. Nível de ampliação dos conceitos: os conceitos já trabalhados especificamentesão retomados e ampliados nas séries seguintes. 3. Nível exploratório de formação de conceitos: nesse nível são proporcionadas experiências em todas as séries possibilitando aos alunos condições para a formação de conceitos a serem trabalhados nas séries subsequentes. Com relação aos níveis de ensino apresentados, observamos que o ponto de partida sempre é o aluno e suas experiências vividas fora do âmbito escolar. Essas experiências seriam as condições externas de aprendizagem. Gasparin (2005) considera de extrema importância a valorização dos saberes que os alunos trazem da sua prática social inicial ou conhecimentos cotidianos. A denominação conhecimentos cotidianos é pertinente em substituição ao senso comum, por acreditarmos que senso comum designaria conhecimentos de todos, o que nem sempre é uma verdade, e conhecimentos cotidianos estão ligados às experiências diárias das pessoas, no nosso caso, dos alunos. Sendo assim, a escola e a ação do professor são os principais agentes que promoverão novos espaços de saber para que ocorra gradualmente a mudança dos conceitos cotidianos para os conceitos científicos. Ainda com relação aos três níveis abordados acima, esses serão distribuídos nos cinco anos iniciais do Ensino Fundamental. A tabela a seguir, explicitada em Penteado (1994, p.43) e adaptada por nós, permite-nos identificar a distribuição dos conceitos de: natureza, cultura, espaço e tempo, 30 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia esses que são os eixos centrais da programação do primeiro ao quinto ano, assim como os três níveis (exploratório, específico de cada série, ampliação). Fonte: Tabela adaptada (PENTEADO, 1994, p.43). No nível exploratório são tratados os conceitos que os alunos já trazem de suas experiências de vida ou seus saberes cotidianos. O conceito de tempo, por exemplo, não é tratado apenas no nível exploratório justamente pela sua complexidade na dimensão sócio-histórico-cultural, pois tal conceito desempenha uma relação entre fatos e não simplesmente de um fato em si. Advém, daí, a necessidade de se trabalhar no primeiro, segundo e terceiro anos e depois retomá-lo como item específico nos anos seguintes. O conceito de relações sociais permanece em todos os cinco anos, levando em consideração a vivência entre os próprios alunos na escola e a experiência que esses já trazem de suas relações sociais anteriores em diferentes tempos e espaços. Essas relações sociais entrelaçam-se com os conceitos de cultura, nesse sentido a complexidade desses conceitos se dá por conta das “relações de relações”. Sendo assim, eles se entrelaçam na maioria dos primeiros anos do Ensino Fundamental. No terceiro nível, de ampliação dos conhecimentos de menor complexidade, natureza, cultura e espaço são retomados nos anos subsequentes, o que permite que uma maior compreensão seja trabalhada. É importante ressaltar, que mais do que uma simples disposição esquemática dos conceitos e eixos geradores nos cincos primeiros anos do Ensino Fundamental, como explicitado na tabela, o que deve ser levado em 31 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia consideração e o que se propõe é uma nova metodologia de trabalho com a Geografia. Nas palavras de Penteado (1995, p. 44): Nessa perspectiva, os “fatos” ou “conteúdos” selecionados constituem a matéria-prima do trabalho de ensino-aprendizagem; os conceitos são os instrumentos de trabalho a ser feito com estes fatos; o conhecimento do fato numa perspectiva mais ampla do aluno, do agente, é o resultado esperado. Essa nova metodologia deve ter como ponto de partida o aluno e suas experiências vividas anteriormente, ou seja, a realidade concreta que o circunda ou as suas condições externas de aprendizagem. Outro fator que deve ser levado em consideração é de que nessa nova metodologia o processo de ensino-aprendizagem não encerra o conteúdo na sua memorização, dificultando dessa forma a ultrapassagem do conhecimento cotidiano para o conhecimento científico. Devido às constantes revoluções nas áreas da comunicação, sabemos que a escola não é o único lugar de acesso à informação e ao conhecimento, no entanto, ela tem papel fundamental para a transmissão dos conhecimentos acumulados pela humanidade e deverá ser transmitida às gerações que a sucedem com o critério e rigor científico. Nesse sentido, tanto a escola como o professor tem papel fundamental, pois cabe a eles a função de transformar a informação ou o conhecimento que o aluno traz da sua experiência cotidiana em conhecimento científico, a fim de que esse aluno possa alterar a sua prática com um novo conhecimento agora sistematizado e reelaborado à luz dos saberes científicos. Assim, os conceitos apresentados, bem como a sua disposição em eixos nos anos iniciais de acordo com a tabela apresentada e comentada, estão em consonância com as diretrizes para o ensino da Geografia a partir das propostas dos PCNs. 32 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia DIRETRIZES METODOLÓGICAS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA: OS PCNs De acordo com as diretrizes metodológicas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a escolha dos conteúdos do ensino de Geografia deve levar em consideração a realidade do aluno de forma mais ampla, possibilitando que esses interfiram nessa realidade de forma mais consciente. No entanto, para que esses alunos tenham essa visão ampliada é necessário que eles adquiram conhecimentos, dominem categorias e conceitos (BRASIL, PCNs, 2000, p.108). A síntese elencada acima nos dá a compreensão do que já anunciamos anteriormente, levando em consideração que o conteúdo de Geografia deva ser parte integrante da realidade do aluno, devemos ter a compreensão de que esse é o primeiro passo para uma mudança conceitual e uma visão mais ampla dessa realidade. O segundo passo se daria a partir dos conhecimentos que esse aluno vai adquirir no espaço escolar com o auxílio do professor. O trabalho escolar permite levar o aluno não apenas à compreensão das relações socioculturais das quais historicamente ele pertence, mas que ele se perceba enquanto sujeito histórico no espaço geográfico no qual está inserido. Nesse sentido, a sua inserção histórica e cultural individual faz parte de uma integração de outros lugares e espaços e outras culturas. Fonte: . Acesso em: 25 jun. 2011. Castellar e Vilhena (2010, p.2) nos auxiliam na compreensão de uma visão ampla da realidade: “Diante de fatos e relações, perguntamos: qual é o papel do ensino nas séries do fundamental [...]? Se for para contribuir para a 33 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia formação do aluno e ajudá-lo a entender o mundo em que vive, estabelecer relações entre a sociedade e o meio físico [...]”. Não podemos duvidar que, para responder a essa pergunta, é importante compreender que os conteúdos da Geografia privilegia uma formação com base no reconhecimento do quê ensinamos e para quê ensinamos, em outras palavras, significa que os princípios epistemológicos da Geografia têm uma função social ao estabelecer relações entre a sociedade e o meio físico ao qual o educando pertence. Assim, ao escolher os conteúdos e abordá-los de forma pedagógica, entendemos que esses não devem ser aplicados de maneira mecânica ou decorativa, mas que eles estejam em consonância com a realidade que circunda os alunos. O objetivo da Geografia é explicar e compreender as relações existentes entre a sociedade e a natureza. Trata-se, portanto, de uma abordagem relacional, onde se pretende trabalhar com diferentes noções espaciais e temporais, assim como os fenômenos sociais, culturais e naturais de cada paisagem, a fimde permitir uma compreensão processual e dinâmica de sua constituição (BRASIL, PCN, 2000). Uma abordagem relacional significa, portanto, não isolar os fenômenos em si mesmos como se esses pudessem ser explicados e compreendidos na sua individualidade ou apenas nas suas características e particularidades. Uma abordagem processual exige um pensamento complexo. Pensar complexamente não é tarefa fácil, principalmente porque estamos arraigados as nossas tradições, crenças e valores que constituíram o nosso ser e a nossa visão de mundo e de saber fragmentados. Entretanto, se nos propusermos a uma mudança, poderemos compreender o mundo de outra forma, ou seja, “recontextualizar o objeto, o elemento no contexto, isso implica em dizer que é preciso vê-lo existindo no sistema e interagindo com outros sistemas ou interligações. Trata-se, portanto, de um exercício de amplidão de foco” (VASCONCELLOS, 2002, p.112). Dessa forma, uma abordagem relacional não abarca apenas o contexto presente no qual o aluno está inserido, assim como analisar cada fenômeno na 34 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia sua individualidade não permitirá uma análise contextualizada do espaço geográfico; é preciso, portanto, levar o aluno a compreensão de que os espaços geográficos representam as heranças das sucessivas relações e mudanças ocorridas na própria natureza e por intervenção do homem no decorrer da sua história entre a sociedade e a natureza. Sendo assim, a análise dos espaços geográficos deve estar pautadas na dinâmica de buscar explicações para o que em determinado espaço geográfico permaneceu ou foi transformado, indo além da mera descrição de fatos observáveis. A compreensão dessa dinâmica abarca a possibilidade de 35 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Imagem: Av. Paulista, em 2008, São Paulo diálogos entre o presente e o passado, que podem ser compreendidos de posse de uma análise do processo de produção e organização d o espaço. Vamos para um exemplo prático desse diálogo entre o passado e o presente na transformação do espaço geográfico? As imagens abaixo nos permitem uma reflexão acerca das transformações do espaço geográfico que foi construído e alterado pelo homem. A figura à esquerda apresenta algumas dessas transformações realizadas pelo homem, mas ainda é possível identificar os aspectos físicos ou naturais nessa paisagem, tais como: árvores, relevos e poucos edifícios. A figura à direita apresenta a mesma avenid a completamente urbanizada com arranha - céus que dominam a paisagem. Essa mudança gradual ao longo de 88 anos se deu por um conjunto de fatores, mas com a Primeira Revolução Industrial essa paisagem foi sendo alterada para atender às necessidades dos homens . Essas transformações nem sempre respeitam a natureza e, muitas vezes, tem provocado uso irracional dos espaços, comprometendo não só a vida no presente, mas para as futuras gerações. Imagem: Av.Paulista, em 1920, São Paulo 36 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia Dando continuidade às propostas dos PCNs para o ensino de Geografia, não podemos deixar de mencionar a importância de uma vida participativa em sociedade, e em especial à formação do cidadão nessa sociedade. Não sendo campo específico somente da História, também a Geografia se ocupa do compromisso de uma formação para a cidadania. Desde as primeiras etapas da escolaridade, o ensino de Geografia pode e deve ter como objetivo mostrar ao aluno que cidadania é também o sentimento de pertencer a uma realidade na qual as relações entre a sociedade e a natureza formam um todo integrado – constantemente em transformação – do qual ele faz parte e, portanto, precisa conhecer e sentir-se como membro participante, afetivamente ligado, responsável e comprometido historicamente (BRASIL, PCN, 2000, p. 121). Nesse sentido, enfatizamos que os conteúdos de Geografia devem contemplar temáticas de relevância social que levem o aluno a uma formação consciente para o desempenho de suas funções de cidadania. E o que significa desempenhar as funções de cidadania? Significa que o aluno seja capaz enquanto cidadão de reconhecer as características culturais, sociais e naturais não só do lugar onde se vive, mas de outros lugares, a fim de poder explicar, comparar e compreender as múltiplas relações em diferentes sociedades e épocas na construção do espaço geográfico (BRASIL, PCN, 2000, p.123). Desta forma, pensar sobre as múltiplas relações entre sociedade e natureza, estabelecendo uma relação com a cidadania, implica em um 37 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia comprometimento histórico e em uma aquisição de conhecimentos que levem o aluno à construção de uma consciência de limites e possibilidades, não apenas a partir de uma ação individual, mas sobretudo coletiva com relação não apenas ao seu espaço, e a contextos mais amplos. Nas palavras de Damiani (2004, p. 50), “compreendo a cidadania envolvendo, claramente, a questão da sociedade civil e suas formas de apropriação do mundo produzido por ela, para além das formas de representação política, que se desenvolveram [...]”. A noção de cidadania seria definida quando o homem vivesse o seu espaço social em um reconhecimento de sua produção e, ao mesmo tempo, se reconhecendo nela. O contrário também existe, na definição de infra cidadão que é o homem que não se reconhece na sua obra e vivencia de forma alienada as suas relações humanas, reduzindo o seu espaço vivido a um simples espaço geométrico. Essa restrição de vivência no espaço atinge os mais pobres de forma mais acentuada, mas a qualidade desses espaços são vivenciados por todos que dele fazem parte, restringindo os espaços de vida, das relações sociais e afetivas. Para finalizar e consolidar a importância da cidadania no espaço geográfico é preciso, enquanto futuros educadores, refletir que quando se retira o direito ao espaço fica comprometida a vivência material das pessoas, mas sobretudo, as suas condições de reuniões sociais ficam reduzidas. Em síntese, é fundamental relacionar os estudos dos espaços geográficos ao exercício da cidadania. O PAPEL DA ESCOLA NO SÉCULO XXI PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA Da minha aldeia vejo quanta terra se pode ver do Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura... Fernando Pessoa O poema de Fernando Pessoa nos dá o tom da discussão. Vivemos em uma 38 www.soeducador.com.br Metodologia do Ensino de Geografia época de profundas transformações e de avanços científico-tecnológicos, com incomensurável capacidade de produzir, armazenar e distribuir informações em tempos cada vez menores e em velocidade jamais vista anteriormente; e essas mudanças nos fazem refletir sobre o papel da escola e sua função social. O advento das transformações teve início com mudanças radicais no final do século XX e início do século XXI, alterando as relações no campo social, econômico e político; com repercussões na cultura e nas ciências. O final do século XX presenciou o fim da Guerra Fria, a derrocada do socialismo soviético, assim como a queda do muro de Berlim. Para Toffler (1985), velhos modos de pensar, antigos dogmas e ideologias, por mais úteis e confortáveis que tenham sido no passado, não se adaptam mais aos novos fatos. O mundo está emergindo do choque de novos valores e tecnologias, novos estilos de vida, novos modos de comunicação, novas relações geopolíticas, exigindo novas formas de conhecimentos. Outras mudanças podem ser observadas na estrutura