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M orfologia da Língua Inglesa GRUPO SER EDUCACIONAL gente criando o futuro METODOLOGIA DE ENSINO DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA Aline Lúcia Nogueira Medeiros e Ivo Venerotti MORFOLOGIA DA LÍNGUA INGLESA Organizadora Diana de Castro Atagiba C M Y CM MY CY CMY K Presidente do Conselho de Administração: Janguiê Diniz Diretor-presidente: Jânio Diniz Diretoria Executiva de Ensino: Adriano Azevedo Diretoria Executiva de Serviços Corporativos: Joaldo Diniz Diretoria de Ensino a Distância: Enzo Moreira Créditos Institucionais Todos os direitos reservados 2019 by Telesapiens Metodologia de Ensino de História e Geografia Olá. Meu nome é Aline Lúcia Nogueira Medeiros. Sou mestra (2017) e bacharela (2014) em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sou pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Geografia Humanista (NPGEOH) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desde 2014, através do qual atuo academicamente nas áreas de história do pensamento geográfico; geografia cultural e humanista; e ensino de geografia. Atuo profissionalmente como geógrafa, elaborando e executando projetos de assessoria técnica na área em Organização não-governamental. Possuo experiência em elaboração de conteúdo para Educação à Distância e já atuei como professora do magistério superior na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) em Diamantina – MG, em 2018. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! A AUTORA ALINE LÚCIA NOGUEIRA MEDEIROS O AUTOR IVO VENEROTTI Olá. Meu nome é Ivo Venerotti. Sou professor e doutor em geografia, com mais de 10 anos de experiência em projetos de ensino, dedicado à relação das pessoas com o espaço geográfico. Atuei em universidades, escolas públicas e em pré-vestibular comunitário. Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidado pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Esses ícones que irão aparecer em sua trilha de aprendizagem significam: RESUMINDO Breve descrição do objetivo de aprendizagem; Uma nota explicativa sobre o que acaba de ser dito; Uma síntese das últimas abordagens; Parte retirada de um texto; Sugestão de práticas ou exercícios para fixação do conteúdo; O conteúdo em destaque precisa ser priorizado; Um atalho para resolver algo que foi introduzido no conteúdo; Um jeito diferente e mais simples de explicar o que acaba de ser explicado; Explicação do conteúdo ou conceito partindo de um caso prático; Uma opinião pessoal e particular do autor da obra; Indicação de curiosidades e fatos para reflexão sobre o tema em estudo; O texto destacado deve ser alvo de reflexão. Informações adicionais sobre o conteúdo e temas afins; Resolução passo a passo de um problema ou exercício; Links úteis para fixação do conteúdo; Definição de um conceito; CITAÇÃO TESTANDO IMPORTANTE DICA EXPLICANDO DIFERENTE EXEMPLO PALAVRA DO AUTOR CURIOSIDADE REFLITA SAIBA MAIS SOLUÇÃO ACESSE DEFINIÇÃO + OBJETIVO OBSERVAÇÃO +++ SUMÁRIO UNIDADE 1 O Que é Geografia ................................................................10 A Geografia é nosso dia a dia ................................................10 A Geografia é uma ciência ....................................................16 Como surgiu a ciência geográfica .........................................17 As diferentes concepções de ciência geográfica ...................20 Geografia tradicional ....................................................21 Geografia quantitativa .................................................23 Geografia crítica ..........................................................25 Geografia humanista .....................................................27 Ciência Geográfica e Ensino de Geografia .........................30 A ciência geográfica no Brasil ...............................................30 A ciência geográfica e a geografia escolar .............................34 Práticas didático-pedagógicas ...............................................38 Cultura escolar .....................................................................40 O Objeto de Estudo da Geografia.......................................43 O espaço geográfico ...............................................................44 Diferentes escalas ................................................................50 A paisagem .............................................................................52 O lugar ...................................................................................56 A região ..................................................................................59 Metodologia de Ensino de Geografia 7 UNIDADE 01 ANOS INICIAIS Metodologia de Ensino de Geografia8 Você sabia que a Geografia que aprendemos nas escolas não é igual a Geografia científica? Que o nosso dia a dia é recheado de experiências geográficas, que podem e devem ser utilizadas nas salas de aulas? Isso mesmo! Chamamos de geografia do nosso dia a dia, pois todas as nossas vivências acontecem no espaço e se relacionam com ele. Essa geografia pode ser mobilizada no aprendizado de forma a desenvolver a capacidade de leitura do mundo e a orientação espacial dos alunos. Para isso, precisamos utilizar alguns conceitos geográfico, como espaço, lugar, paisagem, território, escala, que nos permitem entender os fenômenos e as relações entre eles que transformam e criam o mundo que nós conhecemos. Tanto a Geografia científica quanto a Geografia escolar são áreas que produzem conhecimentos e leituras de mundo específicas, que nos ajuda a compreender melhor o mundo. Mas elas são diferentes! Cada uma possui sua origem, sua história e seus autores principais. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO Metodologia de Ensino de Geografia 9 1 2 3 4 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: OBJETIVOS Compreender a constituição da Geografia cientifica e suas diversas concepções; Entender as relações entre a Geografia escolar e a ciência geográfica; Identificar o objeto de estudo da Geografia e as categorias espaciais principais; Atuar com ética e compromisso com vistas à construção de uma sociedade justa, equânime, igualitária. Então? Está preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Metodologia de Ensino de Geografia10 O Que é Geografia Ao término deste capítulo você será capaz de entender os elementos fundamentais que caracterizem a Geografia vivida e científica, como surgiu a ciência geográfica na Europa e no Brasil e as diferentes concepções dessa ciência. Será capaz de entender como a disciplina cientifica se relaciona com a geografia escolar, e as principais categorias espaciais. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver estas competências? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO A Geografia é nosso dia a dia A geografia existe desde sempre e nós a vivemos no nosso dia a dia. Antes do(a) geógrafo(a) e sua preocupação com uma ciência, a vida nos mostra uma geografia em ato, marcada pelos sentimentos em relação ao lar e o cuidado com a casa, pela exploração das ruas e da cidade, nos caminhos percorridos nos transportes públicos, no revezamento entre o sol e a chuva no céu, nos rios e nas pessoas que o vivem quando pescam. O quesomos, pensamos e experimentamos é inseparável dos espaços onde vivemos (casa, escola, rua, bairro, parque, cidade, região, país). Nossas vidas estão entrelaçadas pelos espaços, pelos quais nos movemos e nos quais nossas ações estão localizadas e a respeito do qual estamos orientados e nos localizamos. O lugar onde moramos, nossas relações de vizinhança, os lugares que frequentamos e desejamos, nossos movimentos físicos e imaginados, tudo isso envolve a geografia. Metodologia de Ensino de Geografia 11 A geografia em ato é o dinamismo do mundo vivido, que envolve tanto nossa vida individual e familiar quanto coletiva. Coletividades são definidas por classe social (rico, pobre), raça (indígena, negro, branco), gênero (feminino, masculino, não-binário) etc. comuns a um grupo de indivíduos que vivem experiências semelhantes no cotidiano. Essas experiências, individuais, familiares e coletivas, são o fundamento do entrelaçamento das vidas com o espaço e caracterizam a geografia. Figura 1: Crianças brincando juntas ao ar livre Fonte: Pixabay O espaço vivido por nós tem forma, aspecto, som, cheiro, cor, textura etc. Ele é definido materialmente e preenchido de características que interagem com o corpo, através dos sentidos (visão, olfato, tato, audição e paladar) e das sensações proporcionadas. O espaço perceptivo é prático e vivenciado, especialmente de uma forma sensório-motora, que é ligada à locomoção e à intuição. Percebemos o espaço em suas condições físicas, sociais e culturais. Metodologia de Ensino de Geografia12 Para entender melhor, confira esse sensível relato de uma migrante apalachiana, povo tradicional que vivia na cordilheira Apalachiana, nos Estados Unidos, marcada pelas sensações em relação aos diferentes espaços vividos. Todavia, temos que tornar a lembrar; gosto de lembrar os dias em que vivemos no vale e nem Jack e nem eu nos importávamos em saber as horas. Sabíamos o que tínhamos que fazer e íamos e o fazíamos. Havia o sol, naturalmente; a hora do sol era suficiente para nós. Aqui, nunca vemos o sol. Pergunto a mim mesma: o que aconteceu com o sol e a lua? Posso caminhar durante semanas e jamais ver qualquer sinal de lua, e as estrelas estão sempre atrás de uma nuvem. E o sol não brilha dentro de nossas janelas; parece que estamos no ângulo errado. Minha garotinha ouve- me queixar, porém ela realmente não sabe do que estou falando. Tinha dois anos quando saímos de casa, e ela não se lembra daquelas noites com estrelas tão baixas que você podia estender uma xícara e enchê-la com elas, diria minha mãe, e a lua empoleirava-se sobe uma árvore, sorrindo pra você. E pela manhã, você repentinamente ouvia os pássaros começarem a cantar e você sabia que estava gritando o seu alô ao sol, que estavam tentando chegar ao seu território - da China, não é? Isso é o que o nosso professor dizia, que à noite o sol estava na China. Algumas vezes o sol demorava a vir até nós, de modo que os pássaros pareciam gritar cada vez mais alto, porque ficavam impacientes depois de certo tempo, esperando e esperando. Porém, então, vinha e toda cabana seria um lugar diferente. Se tivesse de dizer uma coisa do que mais acho falta, seria o nascer do sol. E a segunda, seria o pôr do sol. Eu vejo porque Metodologia de Ensino de Geografia 13 todo mundo aqui tem de ter relógio por perto. De outra forma, eles jamais saberiam se está claro ou escuro nas ruas. (BUTTIMER, 1985, p. 187) O relato dessa migrante demonstra como se deu a relação dela com o espaço antes, quando ainda morava na aldeia, e depois, vivendo na cidade. As percepções sobre o céu, o sol e as horas aconteciam de forma diferente. Para ela, não é surpresa que as pessoas dependam do relógio para saber as horas na cidade, pois não possuem visão do céu. Já a filha dela, que cresceu na cidade, não compreende como era diferente a vivência na aldeia. Fica claro, a partir desse relato, que existem diversas formas de se relacionar com o espaço e de percebê-lo. O desenvolvimento da noção de espaço ocorre ao logo da vida, variando desde crianças, adolescentes, adultos, até os mais velhos. Varia também em função da cultura, do nível de industrialização das cidades, da classe social. Essa noção de espaço é uma construção, um processo, que envolve vários planos: perceptivo, cognitivo e representativo. Mas sempre em relação ao desenvolvimento: mental, sensório-motor, afetivo, social e cultural do indivíduo. O que são os planos perceptivo, cognitivo e representativo? E o desenvolvimento mental, sensório-motor, afetivo, social e cultural? Esses conceitos estão associados ao desenvolvimento da criança nos primeiros anos de vida e fundamentados na teoria de Piaget. O plano representativo corresponde a reconstrução do mundo a partir da criança, na fase dos 2 aos 5 anos, quando o egocentrismo intelectual está no auge no decurso dessa etapa. A dominação do pensamento por imagens encerra a criança em si mesma. Já o desenvolvimento metal refere-se ao processo do conhecer, que pode ser entendido como “organizar, estruturar e explicar o mundo em que vivemos — incluindo o meio físico, as ideias, os valores, as relações humanas, a cultura de um modo mais amplo — a partir do vivido ou experienciado”. Portanto, o principal elemento desenvolvedor da criança, para Metodologia de Ensino de Geografia14 Piaget, é a interação, com objetos e pessoas, que vai responder aos desenvolvimentos mental, sensório-motor, afetivo, social e cultural. Para entender melhor o que é a teoria do desenvolvimento da criança elaborada por Piaget, acesse: http://bit.ly/2RiLa8j. (Acesso em 21/12/19). ACESSE O conhecimento do espaço por meio das experiências e percepções de vida dos indivíduos ou coletividades, a partir do desenvolvimento mental, sensório-motor, afetivo, social e cultural, pode ser espontâneo ou intencionalizado por meio do ensino e da escolarização. O conhecimento do espaço, geográfico, espontâneo surge em atendimento a necessidades básicas, como orientação para localização, para movimentação e levantamento de recursos, como alimentação, ou então para orientação em relação aos ventos, chuvas, rios e condições ambientais, em geral. Diferentes coletividades criam saberes geográficos diferentes a partir das suas experiências e da percepção que possuem do espaço. Alguns, como a migrante apalachiana, valorizam o contato com o sol e o céu. Outras se orientam pelo relógio, transitando pelo espaço em função do trabalho e da escola. Existe uma diversidade de conhecimentos geográficos, dentre eles está o conhecimento científico e escolar. Hoje em dia, valorizamos os saberes tradicionais das comunidades mais diversas. Reconhecemos e respeitamos as identidades, que ligam determinadas pessoas a um grupo ou Metodologia de Ensino de Geografia 15 comunidade com sentimentos de pertencimentos. A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um lugar de lutas e conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e se estar no mundo. Por isso, é mais adequado falar em processo identitário, realçando a mescla dinâmica que caracteriza a maneira como cada um se sente e se reconhece. A identidade como processo nos fazer ver que ela é pensar e ser. É uma metamorfose, que se expressa através das pessoas no mundo e para o mundo. Não basta, porém, apenas reconhecer que existem as diferenças, as diversas identidades e saberes. É preciso avançar para um reconhecer-se nos outros ao observar o diferente e, a partir daí, “identificar criticamente as relações desiguais tratadas entre os diversos grupos – e até no interior desses” (GONÇALVES, 2011, p. 21). As diferentes experiências e saberes geográficos precisam ser valorizadas e trabalhadas na escola, destacando a necessidade de respeito mútuo. Nesse sentido, a geografia é uma disciplina que permite aos estudantes tomar conhecimento da diversidade que compõe o mundo.É possível fazer um estudo geográfico tanto da nossa casa, como de todo o mundo. O que importa, depois que constatamos que cada lugar geográfico é diferente dos demais, é ter sempre em conta que nosso planeta não é uma realidade homogênea, mas sim a combinação de diferenças de todos os tipos, que se expressam em todas as escalas. Estudar a geografia de uma pequena localidade significa entendê-la em suas particularidades, mas também na sua inserção na realidade do mundo como um todo. Estudar a geografia do mundo é procurar constantemente as maneiras como os diferentes lugares se combinam. Existe, então, uma abertura para conhecer diversos saberes, experiências e identidades ao estudar a geografia do mundo. Entretanto, isso é feito seguindo a orientação do conhecimento científico geográfico e escolar, que é muito importante também. O conhecimento da disciplina geográfica é fundamental para Metodologia de Ensino de Geografia16 o desenvolvimento enquanto pessoa, social e cultural, e das competências; para exercer a inclusão e evitar a intolerância com o diferente. Essencial para viver em sociedade de forma ética e harmônica. Vale ressaltar que a transformação da escola em um lugar de tolerância, igualdade e oportunidade, de respeito às diferenças, cooperação solidariedade e forte disposição no enfrentamento a todo tipo de violência, preconceito e discriminação é um dos desafios trazidos à educação brasileira, pela Política Nacional de Direitos Humanos. A geografia é nosso dia a dia. Existe um processo de conhecimento do mundo e do espaço que ocorre de maneira espontânea, a partir do desenvolvimento da pessoa e da sua percepção do mundo, que é fundada nas relações pessoais, familiares e coletivas. Esse processo gera uma diversidade de identidades e saberes acerca do mundo, que deve ser respeitada. A disciplina geográfica é orientada pelo conhecimento científico e escolar, mas deve sempre valorizar a diferença e problematizar a desigualdade e o desrespeito. A Geografia é uma ciência A Geografia é também um campo de estudo e pesquisa científica. Envolve a produção sistemática de conhecimento acerca do seu objeto, o espaço geográfico. Nesse sentido, a Geografia científica analisa a realidade de maneira integrada, de conjunto, envolvendo diversos conhecimentos e produzindo um conhecimento que não é apenas descritivo ou classificatório, mas muito mais explicativo e analítico (OLIVEIRA, 1999). As formas ou os caminhos definidos para se produzir conhecimentos geográficos são estudados e debatidos. Os princípios, as referências e as experiências que embasam o conhecimento geográfico científico podem ser questionados e revistos. Metodologia de Ensino de Geografia 17 Como a ciência geográfica se relaciona com essa geografia vivida no nosso dia a dia? Sabemos que as pessoas precisam de conhecimentos geográficos diversos na vida cotidiana. Elas tiram elementos essenciais para dar sentido a sua existência, enquanto pessoa e coletivo, e para construir identidades. As pessoas crescem e vivem experiências que envolvem morar, viajar e até sonhar. Quando falamos de geografia, a gente fala da geografia quer como de um conjunto de experiências, práticas e saberes comuns a todos os seres humanos, quer da geografia como ciência. Existe uma ligação fundamental entre esses dois aspectos da geografia: a científica raciocina sobre as práticas e os saberes empíricos, a geografia do nosso dia a dia, de cada um e os sistematiza. O campo geográfico como prática vivida é muito largo, quiçá infinito. E, até recentemente, a disciplina científica só foi capaz de sistematizar uma parte dos saberes e da experiência espaciais das pessoas. Existem diversas maneiras de sistematizar e raciocinar sobre a geografia do nosso dia a dia, definidas de forma mais ou menos formal em função das diferentes concepções de ciência geográfica. Mas antes de entender melhor essas concepções, vamos ver como surgiu a ciência geográfica na Europa e como ela chegou e começou a ser produzida no Brasil. Como surgiu a ciência geográfica Foram os gregos, na Antiguidade, que inventaram a filosofia, a democracia e a política a partir da criação de um espaço público, dessacralizado, que permitia o debate entre as pessoas, inclusive e principalmente quando envolviam ideias contrárias. Esses filósofos antigos, ao refletirem sobre as coisas do mundo, despontaram um conhecimento geográfico (OLIVEIRA, 1999). Alguns debates enunciados, então, foram: a concepção da forma da Terra como esfera; a concepção do Homem como ser racional, humano, inteligente e histórico; a concepção do Universo. Surge, assim, as preocupações com a Metodologia de Ensino de Geografia18 mensuração do mundo e a geometria, as formas e tamanhos dos planetas e do sistema solar, a posição ou localização dos fatos geográficos no mundo (latitude e longitude) e as representações gráficas desses fatos (mapas) (OLIVEIRA, 1999). Os gregos realizaram ainda viagens de exploração por toda a bacia mediterrânea até os confins da Ásia, contataram novos povos, línguas e costumes, aprenderam novas técnicas e novos costumes. Com referência a autores que contribuíram de forma efetiva nesse período para a concepção da ciência geográfica, destacamos Estrabão (63 a.C. – 24 d.C.), autor de “Geographia”, um tratado de dezessete livros contando a história e a descrição dos povos e locais conhecidos pelos gregos (e pelos outros povos com os quais teve contato) à época. O pensamento geográfico desenvolvido pelos gregos e a sua relação com a cartografia estão destrinchados na obra “Uma história do mundo em 12 mapas” de Jerry Brotton, disponível em http://bit.ly/2FPvIeE (Acesso em 17/12/19). SAIBA MAIS Até o desenvolvimento da ciência moderna, a filosofia natural foi a expressão usada para designar esse conjunto de reflexões acerca da natureza e do universo físico de maneira racional, isto é, estimulando o questionamento e a dúvida, desenvolvido na Idade Antiga. Durante a Idade Média, os conhecimentos gregos foram aprofundados e compilados pelos árabes, que evitaram a total destruição dos papiros greco-romanos pelas forças que Metodologia de Ensino de Geografia 19 então dominavam a Europa, aliadas à Igreja Católica e ao Tribunal da Inquisição. Os árabes, muitas vezes nômades, não estavam submetidos aos desígnios da doutrina cristã. Por isso, foram responsáveis por copiar, traduzir e guardar muito do conhecimento produzido pelos gregos, que eram eliminados pelos desígnios cristãos. Eles possuíram importantes bibliotecas e centros de discussão de ideias e produção de conhecimento nesse período. No Período da Renascença e ao longo dos séculos XVI e XVII, as viagens de exploração empreendidas pelos europeus rumo ao continente asiático e americano reavivaram a busca por conhecimentos, teorias mais solidas e informações mais detalhadas. Os naturalistas são muito importantes para a catalogação de informações sobre o mundo, seus aspectos físicos e biológicos. Eles eram viajantes, que iam em excursões de reconhecimento e exploração dos “novos mundos”, isto é, os territórios conquistados pelos europeus na América, África e Ásia. Um importante precursor da ciência geográfica é Alexander von Humboldt, um alemão que nasceu em 1779 e morreu em 1859. Ele estudou na Universidade de Frankfurt, porém não se denominava geógrafo, já que ainda não existia esse curso na universidade. Porém, ele é considerado o primeiro geógrafo, e faz seus estudos na América do Sul, onde atuou como pesquisador-naturalista. Isso significa que ele viajou a América buscando catalogar as espécies da fauna e flora, identificar como elas se distribuíam e qual as causas para isso. Suas obras mais importantes são: “Quadros da Natureza” e “Cosmos”. Ele estudou os fenômenos naturais, como magnetismo terrestre, vegetação, relevo. Produziu relatos dessas viagens, disseminando um fascínio por livros de viagem na Europa,que são fontes interessantes de pesquisa sobre a América dessa época. Usava instrumentos como barômetro para descrição e estudos geográficos, e buscava sempre a relação/conexão entre os fenômenos. Metodologia de Ensino de Geografia20 Conheça a biografia de Alexander von Humboldt, suas principais obras e expedições na América do Sul. Disponível em: http://bit.ly/2Rfbtwr. (Acesso em 17/12/19). SAIBA MAIS Foi só a partir do final do século XVIII que a Geografia foi reconhecida como disciplina cientifica na Europa, primeiramente na Alemanha e na França, quando adentrou as universidades na forma de cursos de graduação. As diferentes concepções de ciência geográfica A ciência geográfica é demarcada por diferentes concepções ou leituras de mundo, que se embasam em conceitos e paradigmas filosóficos diferentes. Essas diferentes concepções envolvem diferentes formas de relação com a geografia do nosso dia a dia. É como se, dentro de um mesmo campo de conhecimento, diversas lentes pudessem ser acessadas para elaborar leituras diferentes de um mesmo objeto, o espaço. Essas concepções surgem em diferentes momentos da história do pensamento geográfico, em diferentes países, a partir de obras específicas, e se relacionam com formas distintas de ensino da disciplina geográfica. Os paradigmas filosóficos que orientam a ciência podem ser chamados de “métodos científicos”. Para a ciência geográfica, reconhecemos o uso de quatro métodos principais: o hipotético- Metodologia de Ensino de Geografia 21 dedutivo, ou positivista, em que se descreve o real através de hipóteses e deduções; o dialético, cujas relações contraditórias não precisam ser soberanas e as construções e as transformações sujeito/objeto são recíprocas; e o fenomenológico-hermenêutico, em que a sobreposição do sujeito ao objeto geram descrições do objeto a partir do ponto de vista do sujeito. Vamos conferir a seguir as principais concepções da ciência geográfica, como elas surgiram e seus principais autores. Veremos ainda como elas se manifestam na escola. Geografia tradicional A geografia tradicional é a denominação da forma de fazer ciência geográfica que surge, no século XVIII, com a criação dos cursos de geografia nas universidades europeias. É, por isso, nomeada assim. Ela se relaciona com um método científico positivista, que valoriza a materialidade da existência humana e análise dessa realidade a partir da segmentação em temas. Ela se relaciona com a geografia do nosso dia a dia a partir da observação, da descrição e da classificação dos fatos encontrados. Embora essa forma de se fazer ciência geográfica tenha surgido no século XVIII, ela existe até hoje, mesmo não sendo predominante nas universidades. Os principais autores dessa concepção são: Paul Vidal de la Blache, na França, e Friedrich Ratzel, na Alemanha. Vidal de La Blache foi um francês, que viveu de 1845 até 1918. Ele era considerado um historiador, com um discurso cultural (focado na materialidade das diferentes culturas). Ele compreendia a natureza como um espaço aberto às possibilidades. Compreendia a Geografia como a relação do homem com o meio. Valorizava os mapas e trabalhava principalmente com o conceito de região. Suas obras se estabelecem em duas linhas: a Geografia Regional, formatada a partir da criação de um método regional, sistematizado em seu livro Quadro da geografia da Metodologia de Ensino de Geografia22 França (Tableau de la géographie de France); e a Geografia da Civilização, trabalhado no livro Princípios da geografia humana (Principes de géographie humaine). Ratzel foi um alemão, nascido em 1844 e falecido em 1904. Estudou Biologia, Química, Geologia e se tornou Jornalista, podendo assim viajar por várias partes do mundo e teve contato com vários povos (início pelo interesse por Geografia). Foi professor da Universidade de Munique. Possui uma concepção positivista de ciência, focado no espaço como superfície terrestre e território, valorizando a demarcação de fronteiras. Realizava uma Geografia comparada (regionalista, ciência natural, estabelecimento de leis). Criou a teoria do espaço vital, que entendia o Estado como um organismo vivo com necessidade e direito de se expandir para sobreviver. Ofereceu, com suas obras, suporte intelectual para o imperialismo alemão. Essa forma de fazer ciência contribuiu para uma visão compartimentada do espaço geográfico, separando em quadros naturais ou humanos sem observar as relações entre eles. Seus pressupostos teórico-metodológicos são, basicamente, baseados em “dividir para conhecer”. Imaginava-se, ainda, que esse conhecimento produzido era neutro, embora carregasse em si, como qualquer outro, suas particularidades na leitura do mundo. No Brasil, a Geografia, institucionalizada na década de 1930, pelas Universidades e pelo IBGE, foi baseada na escola francesa. Esta Geografia que vai ocorrer no país até a década de 1960 teve uma forma de trabalhar Geografia essencialmente descritiva, com o intuito de conhecer as características físico- naturais, por um lado, e da população, por outro, do território nacional. No ensino da geografia, essa tendência se consolidou no estudo meramente descritivo das paisagens naturais e humanizadas, sem estabelecer relações entre elas. Os procedimentos didáticos baseavam-se na memorização e na descrição dos elementos e conceitos que compõem a disciplina. Metodologia de Ensino de Geografia 23 Muitas obras didáticas adotam o estudo fragmentado do espaço geográfico, explorando os quadros naturais, econômicos e da população, sem relacioná-los. Geografia quantitativa A geografia quantitativa surgiu a partir da busca por novos conceitos e metodologias para ciência geográfica, novas formas de se realizar a leitura do mundo, mas a partir de um mesmo método positivista (ou hipotético-dedutivo). Ela rompe com a visão tradicional da geografia, que enfatizava o empirismo, a descrição e a análise posterior. A geografia quantitativa surge, especialmente, nos Estados Unidos e na Inglaterra, no final do século XIX. A partir dela, são incorporados à ciência geográfica (ou criados) métodos estatísticos de análise dos mercados como fator de localização de indústrias e para correlação de vários índices de fenômenos urbanos; processos cartográfico- estatísticos combinados, que buscam estabelecer a vinculação entre fenômenos presumivelmente relacionados entre si. De maneira que há uma aproximação com a estatística, a cartografia, buscando rapidez e exatidão nas correlações espaciais. Essa concepção geográfica gerou linhas próprias de desenvolvimento do pensamento, como a cartografia moderna e, posteriormente, o geoprocessamento. Seu principal autor foi Richard Hartshorne, um geógrafo estadounidense nascido em 1899 e falecido em 1992. É o autor de “A natureza da Geografia” (The Nature of Geography) (1939) e “Perspectivas da natureza da geografia” (Perspective on the Nature of Geography) (1959). Hartshorne desenvolveu um novo conceito de espaço, como sendo apenas um receptáculo que contém as coisas. Ele incentiva também a apropriação pelos geógrafos de diferentes métodos estatístico e matemáticos. No Brasil, foi no final da década de 60 e na década de 70, que ocorreram as primeiras tentativas de rompimento com a Geografia feita e ensinada até então, isso principalmente Metodologia de Ensino de Geografia24 pela necessidade de estudos para embasar o planejamento e a realização de grandes empreendimentos da época. Essa tendência que teve duração não muito longa, mas com adeptos até hoje, ficou conhecida como Geografia Teorética ou Quantitativa (CALLAI, 1995). No posicionamento teórico desta “nova geografia”, o conceito de natureza passa a ser entendido como parte de um espaço geométrico, hierarquizado e a separação entre as pessoas e o espaço em que vivem é ainda mais aprofundada. A natureza e o espaço passam a ser visto sob uma lógica produtiva, como“recurso natural”, e as pessoas são entendidas a partir de números e estatísticas. Em se tratando do contexto escolar, não se alterou de forma expressiva os objetivos, que continuava sendo o enaltecimento das riquezas naturais. Durante esse período, a escola e o ensino resumiam-se a apresentar através de gráficos, tabelas e dados numéricos o desenvolvimento econômico do país. É nessa concepção da ciência geográfica que ocorre também a aproximação com a abordagem sistêmica. Essa abordagem compreende a realidade geográfica a partir da noção de sistema, que é um composto de matéria, energia e estrutura. A matéria se caracteriza pelo material que será mobilizado através do sistema, é aquilo que vai se movimentar. A energia se caracteriza pelas forças que fazem o sistema funcionar, “gerando a capacidade de realizar trabalho”. Já a estrutura é constituída pelos “elementos e suas relações, expressando-se através do arranjo de seus componentes (CHRISTOFOLETTI, 1979, p 8). A ciência geográfica é pautada, então, na análise espacial de todos os elementos e processos físicos que compõem o sistema ambiental, interpretado como entidades organizadas na superfície terrestre, fruto das relações entre os Sistemas Naturais (compostos pelo substrato mineral, o relevo, o solo, o clima, a fauna, a flora, as águas continentais e as águas oceânicas) e os Sistemas Antrópicos (junção entre os sistemas de uso e ocupação Metodologia de Ensino de Geografia 25 existentes, somados as demais características socioeconômicas do espaço, tais como a localização de indústrias e matrizes de atividade econômica) (CHRISTOFOLLETI, 1998). A concepção sistêmica está presente no ensino de geografia, especialmente nas temáticas consideradas da geografia física. Entendemos como sistemas: o sistema solar, o ciclo da água, os relevos, o solo, o clima, entre outros. Para conhecer melhor os geossistemas e como eles são entendidos a partir da leitura da paisagem na geografia consulte “A paisagem e o geossistema como possibilidade de leitura da expressão do espaço sócio-ambiental rural” dos autores Janise Dias e Leonardo Santos, disponível em: http://bit.ly/30jWipL (Acesso em 18/12/19). SAIBA MAIS Geografia crítica A geografia crítica surge a partir da necessidade dos(as) geógrafos(as) realizarem uma leitura de mundo que compreendesse os diversos conflitos e lutas por direitos que começaram a tomar partes do mundo nas décadas de 1960 e 1970. Com base fundamentada no materialismo-histórico e dialético marxista, a Geografia Crítica buscou interpretar o espaço geográfico, considerando as relações entre espaço e sociedade como eixo de embasamento epistemológico. O diálogo entre processos sociais, espaciais e naturais são entendidos numa relação dialética e considerados constituintes para produção e reprodução da sociedade, portanto, são vistos nesta corrente, como plano de análise da geografia. Metodologia de Ensino de Geografia26 Um dos principais autores dessa concepção, conhecido internacionalmente, é o brasileiro Milton Santos. Nascido em 1926 e falecido em 2001, estudou na França e exilado em 1964. Formado em Direito, considerava-se um “militante de ideias”, que corresponde com um rompimento com a suposta neutralidade acadêmica. Sua obra apresenta enorme complexidade teórica, com elementos de diversas concepções e uma amplidão de autores que respondem pela riqueza de sua abordagem. Compreende a Geografia como instrumento de mudança. Aborda, em suas obras, o subdesenvolvimento, pobreza, Globalização econômica e a desigualdade social. Assista essa entrevista com o professor Milton Santos, realizada em 31 de março de 1997, que está disponível em: http://bit.ly/30lTtnW (Acesso em 18/12/19). SAIBA MAIS Esse movimento consolidou-se no Brasil na década de 1980, com um amplo espaço de discussões e debates em torno do papel do ensino da geografia. Straforini (2008, p.56) sobre o assunto escreve que: “O papel da educação e, dentro dessa, o do ensino de geografia e trazer à tona as condições necessárias para a evidenciação das contradições da sociedade a partir do espaço, para que no seu entendimento e esclarecimento possa surgir um inconformismo e, a partir daí, uma outra possibilidade para a condição da existência humana”. A Geografia centra-se no estudo das relações de trabalho e de produção e no ensino insere-se no estudo de conceitos como: divisão internacional do trabalho, globalização, problema ambientais, relações de produção, entre outros. Metodologia de Ensino de Geografia 27 Geografia humanista A geografia humanista é uma concepção da ciência geográfica que surge em paralelo às primeiras reflexões da geografia crítica. Objetivava uma nova leitura do mundo, que fornecesse alguma atenção para os aspectos subjetivos. É desenvolvida nos Estados Unidos e na Inglaterra na década de 1960. Um dos seus principais questionamentos é: “Pode a ciência continuar a servir a uma função útil medindo e explicando a face objetiva e esboçando mecanismos da realidade social, ou deve também penetrar e incorporar suas dimensões subjetivas?” (Anne Buttimer, 1969:419). Uma de suas autoras principais é a geógrafa estadunidense Anne Buttimer, que se doutorou em Geografia em 1965 na Universidade de Washington (Seattle), falecida em 2017. Em uma de suas obras enfatizou a questão do estoque de conhecimento geográfico das pessoas não confinadas à educação formal, a geografia do nosso dia a dia. A geógrafa questiona se o mundo vivido não seria constituído com base na tensão entre os níveis de ideias e valores (noosfera), da ação e das rotinas temporo- espaciais de interação (sócio-tecnosfera) e dos ritmos do corpo no meio (biosfera). De forma que, para ela, seja por essa ou por outras vias, o(a) geógrafo(a) que busca estudar os tipos de experiência de vida no mundo deve começar a investigação pela própria biografia. A geografia humanista aproxima-se de uma concepção filosófica chamada de fenomenologia, que considera a experiência das pessoas e coletivos como a base para a produção de conhecimento, assim como a arte (literatura, música, pinturas, entre outras) e as produções populares. No Brasil, a geografia humanista se inicia a partir da década de 1990 e alcança hoje um intenso desenvolvimento, especialmente ao explorar as relações entre a geografia e a fenomenologia. No contexto escolar, tornou-se expressivo o interesse por esta corrente, que acabou chamando a atenção de Metodologia de Ensino de Geografia28 vários especialistas do ensino de geografia pela valorização que propunha à dimensão afetiva. Sobre as relações entre a geografia humanista e geografia escolar, leia a dissertação de mestrado intitulada “Geografia Humanista e Ensino-Aprendizagem: Perspectivas em Formosa-GO” do geógrafo Rodrigo Capelle Suess, disponível em: http://bit.ly/2NrxpmV (Acesso em: 18/12/19) SAIBA MAIS Todas essas concepções coexistem ainda hoje na produção acadêmica e escolar. É importante entender que elas se articulam na leitura do mundo, apresentam desenvolvimentos próprios e diversos(as) geógrafos(as) transitam entre elas na leitura de mundo que realizam. E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que existem duas geografias: a geografia do nosso dia a dia e a geografia científica. A geografia científica surgiu, em seus primórdios, na Grécia antiga, mas apenas se iniciou de fato com a criação de cursos de geografia nas universidades europeias no século XVIII. Vimos também que a geografia cientifica se divide em várias concepções, sendo ela: tradicional, quantitativa, crítica e humanista. Embora elas apresentem lentes distintas para a observações e leitura do mundo, podem ser relacionadas. Metodologia de Ensino de Geografia 29 Figura 3: As diferentes concepções da CiênciaGeográfica Fonte: adaptado de REIS JUNIOR, 2011 Metodologia de Ensino de Geografia30 Ciência Geográfica e Ensino de Geografia Ao término deste capítulo você será capaz de entender como a geografia escolar se relaciona com disciplina cientifica, e como se configura a geografia escolar na escola. Você também verá como a Geografia científica chega ao Brasil. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver estas competências? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO A geografia se divide, de forma ampla, entre a geografia do nosso dia a dia e a geografia científica e escolar. Agora, vamos refletir sobre a geografia escolar. É a mesma nas universidades e nas escolas? É uma simplificação? Como elas se relacionam? Como a geografia do nosso dia a dia se relaciona com a ensinada na escola? A ciência geográfica no Brasil A história da geografia no Brasil surge de maneira diferente da Europa, recebendo, porém, suas influências e conhecimentos. Ela aparece primeiramente nas escolas e, quase um século depois, é institucionalizada a partir da criação de universidades, quando a ciência geográfica começa a ser produzida. No período colonial, basicamente, eram os jesuítas e outros grupos (ordens religiosas, bispados, o governo real, confrarias e sociedades literárias) que eram encarregados da educação no Brasil. A geografia não se configurava como disciplina acadêmica, ela era um saber produzido em função do governo real e da ocupação do território, muitas vezes pelos próprios Metodologia de Ensino de Geografia 31 jesuítas (VEIGA, 2007). Os conteúdos trabalhados, então, nas aulas de Geografia, ministradas pelos jesuítas, eram diversos, como relatos de viagem, curiosidades, relatórios estatísticos sobre países, astronomia, porém sempre eram ensinados sob a forma didática de memorização, disposto em extensas listas de nomenclatura (NAIEMER, 2015). Vale ressaltar que a instrução era reservada apenas para os filhos da elite colonial. No Brasil, a Geografia pensada enquanto disciplina escolar teve início no século XIX, ligada inicialmente ao Colégio Pedro II, criado em 1837 na cidade do Rio de Janeiro, e foi sendo posteriormente incorporada ao currículo oficial das demais escolas do país. Cavalcanti (1998, p. 18) afirma que a Geografia foi caracterizada como uma disciplina voltada para a “transmissão de dados e informações gerais sobre os territórios do mundo em geral e dos países em particular”, de maneira a difundir a concepção de nação e território brasileiros, padronizando a língua, os costumes e constituindo uma identidade nacional específica. Depois da independência, a institucionalização da escola pública, gratuita e obrigatória passou a representar um elemento de afirmação do novo governo do Brasil – ou seja, era um ato político com o objetivo de organizar e dar coesão à nova sociedade nacional. As elites política e intelectual do país se investiram da missão de civilizar o povo, representado por elas como indolente, descuidado e atrasado. Acima de tudo, no entanto, caberia à educação desfazer os valores miscigenados e a diversidade de comportamentos de uma população, ela própria miscigenada e diversa, homogeneizando-os em novos parâmetros e atitudes. (VEIGA, 2007, p. 131) Metodologia de Ensino de Geografia32 A criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838 representou um primeiro esforço no sentido da acumulação e sistematização de dados e informações sobre o território brasileiro. Com a Proclamação da República, em 1889, foi inaugurado um período de transformações significativas no país, sendo que, na educação, foi instituído o ensino laico, a manutenção de uma organização curricular enciclopédica e a sua função como o principal vetor da ideologia e dos discursos nacionalistas. Já na transição para o século XX, percebemos que o objetivo da educação no país era a formação dos “brasileiros”, isto é, a criação de um sentimento nacional e legitimação da cidadania republicana (CARVALHO, 2015). A geografia no Brasil começa a ser pensada e produzida no contexto científico e acadêmico apenas na década de 1930. A criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, e a criação da Universidade do Distrito Federal (1935), atualmente Universidade Federal do Rio e Janeiro, demarcam o início dos cursos de graduação em geografia, com a contratação de professores geógrafos principalmente franceses (trouxeram para o país um modelo baseado na importante Escola Francesa de Paul Vidal de La Blache) e alemães, diretamente da Europa, que lançam as bases da ciência geográfica com intensa influência das concepções desenvolvidas nesses países. Outras instituições que contribuíram para a formação da ciência geográfica brasileiras são: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), criado em 1930 no Rio de Janeiro, que tinha como objetivo primeiro desenvolver o conhecimento do território nacional através da racionalização de uma política de coleta de dados estatísticos que dariam suporte à administração pública; e a Associação dos Geógrafos do Brasil (AGB), criada em 1934 pelo francês Pierre Deffontaines, em São Paulo. Metodologia de Ensino de Geografia 33 A história do pensamento geográfico brasileiro tem sido cada mais estudado, evidenciando-se suas origens, transformações e influências. A obra “História da ciência geográfica: espectro temático e uma versão descritiva” de Dante Flávio da Costa Reis Júnior aprofunda na trajetória dessa ciência e está disponível em: http://bit.ly/30j9ZFq (Acesso em 17/12/19) SAIBA MAIS Mesmo com a criação das universidades e cursos de geografia, a sistematização desse conhecimento, no Brasil, dependeu, em grande parte, da disciplina escolar. A institucionalização acadêmica da geografia ocorreu, principalmente, em função da necessidade de ser formar professores de geografia. Até então os professores eram graduados em outras áreas e tomavam conhecimento da geografia a partir dos livros didáticos, que também eram escritos por profissionais que não tinham formação na área de geografia. Os livros didáticos, portanto, foram de extrema importância para a consolidação e sistematização do conhecimento geográfico no Brasil. Por não haver uma formação específica na área, os livros didáticos eram adaptados de versões europeias, influenciados pelas suas teorias e reinventados para o contexto brasileiro, com o objetivo de formação cívico patriótica. A ciência geográfica chega ao Brasil a partir dos ensinamentos jesuítas (e de outros grupos) na forma de curiosidades sobre diferentes territórios do mundo, enumerados em listas para facilitar a memorização, em um formato enciclopédico. Inicialmente, é apenas nas escolas que se vê a Metodologia de Ensino de Geografia34 disciplina geográfica, que é difundida entre os seus professores através dos livros didáticos adaptados da Europa. A disciplina geográfica passa, então, a ter um objetivo claro: homogeneizar as noções acerca do território brasileiro e criar uma ideia de nação. É só na década de 1930 que os cursos superiores de geografia são criados, professores estrangeiros contratados e há o início de uma produção científica geográfica brasileira. A ciência geográfica e a geografia escolar É importante entender que tanto a ciência geográfica quanto a Geografia escolar possuem autonomia uma sobre a outra, mas ao mesmo tempo se entrelaçam numa relação de interdependência na produção de conhecimentos, sejam eles acadêmico, escolar ou cotidiano, os quais também se inter-relacionam e produzem saberes. Já sabemos que o surgimento da geografia nas escolas aconteceu antes mesmo das universidades no Brasil. A história da geografia cientifica e escolar se entrelaça, mas mobiliza arcabouços, concepções e autores distintos. De forma que a Geografia ciência tem referenciais próprios, que expressam os limites desua investigação, assim como a Geografia escolar. Durante décadas, a relação entre conteúdo científico e escolar foi concebida a partir do conceito de transposição didática, desenvolvido pelo autor francês Yves Chevallard (1991). Transpor didaticamente um saber científico é “fabricar artesanalmente os saberes tornando-os ensináveis, exercitáveis e passíveis de avaliação no quadro de uma turma, de um ano, de um horário, de um sistema de comunicação e trabalho” (PERRENOUD, 1997, p. 25). Isso significa dizer que o conteúdo científico passa por transformações até se transformar em conteúdo escolar. Não se trata, necessariamente, de um processo de simplificação, mas de transformação qualitativa, de natureza pedagógico-metodológica, na qual o conteúdo científico se transforma em conhecimento a ser ensinado, para que chegue aos alunos do ensino básico. Metodologia de Ensino de Geografia 35 A ideia de transposição didática parte do pressuposto de que o saber escolar é subordinado ao acadêmico, encontrando nele seu principal critério de validade e legitimidade. Indicando que os pesquisadores que se dedicam ao entendimento dos saberes escolares, as concepções e práticas que os norteiam, precisam fazer um movimento investigativo que, partindo da sala de aula da escola, vai em direção a universidade, entendendo neste percurso as transformações pelas quais o conhecimento geográfico passou. “A relação entre uma ciência e a matéria de ensino é complexa; ambas formam uma unidade, mas não são idênticas. A ciência geográfica constitui- se de teorias, conceitos e métodos referentes à problemática de seu objeto de investigação. A matéria de ensino Geografia corresponde ao conjunto de saberes dessa ciência (...) convertidos em conteúdos escolares a partir de uma seleção e de uma organização daqueles conhecimentos e procedimentos tidos como necessários à educação geral” (CAVALCANTI, 1998, p. 9). A teoria da transposição didática gera algumas consequências políticas e formativas no ensino e na formação docente em Geografia. Em primeiro lugar, ao considerar o saber acadêmico como origem do saber escolar, contribui para reforçar a ideia de que professor da escola é um mero reprodutor de conteúdos e conhecimentos produzidos por outras pessoas. Nesse sentido, não é incomum que disciplina geográfica seja trabalhada numa aula com características enciclopédicas, com ênfase em estudos descritivos, onde o professor é visto como transmissor e o aluno receptador desse conhecimento. O ensino de geografia na escola, sob essa visão, deve ensinar um sistema ou uma combinação de conceitos mais ou menos encadeados entre si, de uma forma simplificada ou transformada para que o aluno consiga compreender. Contrários a esta Metodologia de Ensino de Geografia36 posição, alguns pesquisadores apontam para uma necessidade de reconhecimento das características específicas dos currículos escolares, repensando a relação entre os conhecimentos escolares e científicos. Um dos pontos convergentes destas pesquisas é o conceito de cultura escolar, construído no interior das pesquisas sobre história das disciplinas escolares e saberes docentes. A geografia que se ensina não é, portanto, uma reprodução simplificada da geografia científica, mas um arranjo de diversos fatores como: o ambiente escolar, a cultura dos agentes da escola e as práticas didático-pedagógicas do professor (CAVALCANTI, 2012). Entendemos, então, que são espaços distintos que produzem conhecimento ao lidar com o pensar geográfico, um científico e outro escolar, cada um com compreensão própria e grau de intensidade e dificuldade diferentes. Já a relação da geografia escolar e da geografia do nosso dia a dia traz outros elementos. Cavalcanti (1998, p. 11) afirma que a espacialidade em que os alunos vivem na sociedade atual, como cidadãos, é bastante complexa. Seu espaço, diante do processo de mundialização da sociedade, extrapola o lugar de convívio imediato. Em razão dessa complexidade, que é crescente, dificilmente as pessoas conseguem sozinhas e espontaneamente compreender seu espaço de um modo mais articulado e crítico, considerando as diversas escalas (do local ao global). O conhecimento mais integrado da espacialidade requer uma instrumentalização conceitual que torne possível aos alunos a apreensão articulada desse espaço, e aí temos um dos objetivos da geografia escolar. Metodologia de Ensino de Geografia 37 Sabemos que, em se tratando da produção de saberes geográficos, sejam eles acadêmicos ou escolares, é preciso considerar que estes fazem parte da formação (inicial e continuada ou em processo), e que nunca são conclusivos, estão sempre em construção e ressignificação, inclusive a partir da geografia do nosso dia a dia, não é mesmo? REFLITA Portanto, mais do que pensar em uma simplificação ou transposição do conhecimento científico para escola, é importante considerar que a escola tem uma cultura particular, que os estudos da geografia apresentam particularidades quando produzidos nas escolas. A geografia escolar tem uma história particular, que toma configurações particulares, porque é delimitada tanto pelas amarras institucionais e disciplinares, quanto pelas contingências cotidianas particulares de cada escola, de cada espaço onde se situa e de cada interlocução entre as pessoas que envolve professores, funcionários e alunos, e destes com as suas geografias do dia a dia. A geografia não se divide apenas em científica e do nosso dia a dia. A geografia escolar é igualmente importante. O que ensinamos nas escolas não é resultado de uma simplificação dos conhecimentos científicos, nem de uma transposição. Metodologia de Ensino de Geografia38 A geografia escolar é um espaço autônomo de produção de conhecimento, com cultura, história, pesquisadores e teorias próprias. Precisamos estimular, cada vez mais, as trocas entre a geografia escolar e a científica, o entrelaçamento e a cooperação, sempre respeitando a autonomia e relevância própria de cada uma. Práticas didático-pedagógicas As práticas didático-pedagógicas são uma particularidade da geografia escolar, constituindo um dos elementos que a diferenciam da geografia científica. De um lado, o objetivo educativo das práticas docentes indica uma necessidade de viabilizar a aprendizagem, de outro uma particularidade na produção de saberes do docente. Ao mesmo tempo em que compreende a geografia científica, no plano pedagógico, o professor mobiliza conhecimentos construídos no processo de reflexão sobre a prática social dos profissionais da educação, tendo como base saberes relacionados à pedagogia e à didática, ou seja, ao saber ensinar. O processo pedagógico deve possibilitar aos alunos, através do processo de abstração, a compreensão da essência dos conteúdos a serem estudados, de modo que sejam estabelecidas conexões internas específicas desses conteúdos com a realidade global, ou seja, com a totalidade da prática social e histórica. Esse é o caminho por meio do qual “os educandos passam do conhecimento empírico ao conhecimento teórico científico, desvelando os elementos essenciais da prática imediata do conteúdo e situando-o no contexto da totalidade social” (GASPARIN, 2005, p.7). Percebemos, assim, a importância do papel desempenhado pelo professor nesse processo pedagógico. Ele é a peça chave dessa articulação, embora o contexto escolar esteja permeado Metodologia de Ensino de Geografia 39 por outros tipos de mediações. É através da prática docente, do dia-a-dia da sala de aula, que esse conhecimento ganha sentido e relevância social para os alunos. Nesse sentido, o professor, em seu processo contínuo de formação constrói, adquire e desenvolve múltiplos saberes na sua prática, os quais contribuem para sua competência profissional e para estimular a aprendizagem dos alunos. São saberes adquiridos com a prática docente, as experiências e dificuldades cotidianas,que diferem de qualquer conhecimento científico acerca da disciplina geográfica. Quando consideramos, ainda, que o ensino e a aprendizagem são dois processos diferentes, com protagonistas diferentes, a reflexão sobre as diferentes maneiras de ensinar Geografia e sobre como os alunos aprendem se torna fundamental. São diversos os caminhos possíveis e existe uma necessidade de compreendermos esses processos. É importante considerarmos também que as políticas públicas educacionais impactam diretamente o cotidiano e a institucionalidade escolar, interferindo nas formas de ensinar e, portanto, no conhecimento geográfico escolar. Tardif (2002) caracteriza o saber docente como plural. Ele é composto por vários saberes, que são provenientes de contextos diferentes, originados das propostas curriculares, das disciplinas, do trabalho profissional e das experienciais pessoais. Pois, “os professores de profissão possuem saberes específicos que são mobilizados, utilizados e produzidos por eles no âmbito de suas tarefas cotidianas [...]” (TARDIF, 2002, p.228). Esse saber docente é mais um elemento na configuração da diferença entre a geografia escolar e científica. O saber docente é constantemente criado, trabalhado, experimentado, discutido e estudado pelos professores de geografia, alimentando daí a própria geografia escolar. De forma que os professores são, em suas atividades docentes cotidianas, mais criadores do que reprodutores. Metodologia de Ensino de Geografia40 Como você, professor, pode se envolver mais profundamente com as questões específicas de sua disciplina e ter reconhecido seu potencial como produtor de conhecimentos e de subjetividades? Esse conjunto de saberes docentes, advindos da prática, já está sendo sistematizado e pesquisado através dos canais acadêmicos, enriquecendo as discussões científicas acerca da geografia, e contribuindo para evidenciar as particularidades da geografia escolar e as trocas entre docentes. Cultura escolar Quando estudamos a história da disciplina geográfica escolar, especialmente no Brasil, percebemos que ela é diferente da história da ciência geográfica. Existe, inclusive, uma origem própria da geografia enquanto disciplina escolar anterior ao processo de institucionalização da geografia como ciência moderna. Definitivamente, a geografia foi uma matéria própria do ensino primário e secundário antes de merecer categoria universitária, quando foi considerada que era “um conhecimento que era preciso ensinar aos futuros professores a fim de que eles o ensinassem, por sua vez, a seus alunos” (LESTEGAS, 2012, p. 20). A geografia escolar acontece em espaços diferentes e é protagonizada por autores e autoras diferentes. A geografia escolar possui uma construção própria, que se desenvolve numa cultura particular. Chervel (1990) denomina de “Cultura Escolar” esse conjunto de conhecimentos, competências, atitudes e valores que a escola se encarrega de transmitir explicita ou implicitamente aos estudantes como bagagem cultural e patrimônio comum de todos os cidadãos. Isso significa entender a escola como uma comunidade de sujeitos escolares, em competição e colaboração entre si, buscando suas fronteiras e identidades, gerando uma produção Metodologia de Ensino de Geografia 41 própria, dos próprios sujeitos envolvidos no processo de construção de conhecimento, relativamente autônoma, mas imbricada no movimento da totalidade social. De forma que o conhecimento escolar deixa de ser apenas tributário do conhecimento acadêmico e passa a ser interpretado como resultado de uma história própria que diz respeito ao processo de escolarização da sociedade moderna com foco na instituição escolar. Partir do entendimento da cultura escolar como resultado, meio e condição da ação educativa implica muitos processos, ações e saberes próprios, que vão além da ideia da transposição didática. O conhecimento acadêmico, seus atores e espaços de produção deixam de ser o centro do processo formativo e se tornam mais uma possibilidade de entrada, necessária, mas não suficiente, no processo de formação docente. Os outros processos desta formação se constroem no diálogo constante com a cultura escolar em suas diferentes dimensões, como profissional, curricular, afetiva e das experiências. A cultura escolar só pode ser acessada a partir da imersão, da vivência cotidiana dos desafios e práticas escolares. Como toda ação educativa é localizada, situada, contextualizada, cada escola produz uma cultura escolar própria, que é um ponto em uma rede complexa e dinâmica na qual a relação entre educação e sociedade se dá no mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que sofre a influência de processos e concepções das mais diferentes dimensões e aspectos da sociedade, as pessoas envolvidas com a escola, sejam professores ou não, apresentam também outros conhecimentos, ações e visões de mundo, próprias da geografia do dia a dia, e recriam as condições de suas relações a partir do cotidiano da ação educativa. Por isso mesmo, percebemos a necessidade de pensar a relação da escola com a sociedade, com outros espaços de socialização, coletivos e vivências dos alunos, da infância e da juventude, principalmente nas suas relações com a família, Igreja e com o mundo do trabalho. Metodologia de Ensino de Geografia42 Entenda melhor o que significa “cultura escolar” e aprofunde na história da geografia escolar brasileira lendo a dissertação de mestrado do Thiago Tavares de Souza, intitulada “História da Geografia escolar: uma possibilidade de estudo da cultura escolar através da história oral temática híbrida”, que está disponível em: http://bit.ly/3a8euXL (Acesso em 19/12/19) SAIBA MAIS Neste sentido, constituem fontes privilegiadas para compreensão da cultura escolar: livros, cadernos escolares, objetos, atividades de alunos, provas, fotos, boletins, atas, planos de ensino, diários de aula, diplomas, espaços escolares, relatórios, depoimentos, observação, entrevistas; que se juntam ou precedem os documentos de ordem oficial, como legislações e currículos. O currículo é uma produção cultural por estar inserido nessa luta pelos diferentes significados que conferimos ao mundo. O currículo não é um produto de uma luta fora da escola para significar o conhecimento legítimo, não é uma parte legítima da cultura que é transposta para a escola, mas é a própria luta pela produção do significado. (Lopes; Macedo, 2011, p.93) E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Nesse capítulo, você viu que existem muitas diferenças entre a geografia escolar e a científica. A geografia escolar é marcada por história e origem próprias, anteriores a geografia científica. Ela não é uma simplificação ou Metodologia de Ensino de Geografia 43 transformações dos conteúdos científicos a partir das práticas pedagógicas. A geografia escolar é marcada pela criação de conhecimentos específicos, baseados no processo de ensino e aprendizagem. Os professores criam conhecimentos e maneiras próprias de ensiná-los no cotidiano da vida docente. Além disso, existe toda uma cultura escolar que envolve as pessoas (professores, funcionários, alunos) e a sociedade, como um todo. Compreender essa cultura escolar é um processo de vivência cotidiana da escola, seus conflitos e suas conquistas. Entendemos, então, que a escola é um lugar de produção de conhecimento geográfico, não de reprodução! O Objeto de Estudo da Geografia Ao término deste capítulo você será capaz de entender como os conceitos básicos de geografia são utilizados na leitura do mundo e trabalhados nas escolas. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver estas competências? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO O objeto de estudo da geografia é, de modo geral, o espaçogeográfico. Ele difere do espaço geométrico, que é uma abstração, ou seja, não é dotado de materialidade, forma, cores, pessoas. O espaço geográfico é o chão em que nós vivemos, pode ser entendido por meio dos processos que produzem esse chão, sejam eles locais, globais ou misturados. Metodologia de Ensino de Geografia44 O espaço geográfico pode ser definido a partir de diferentes conceitos, que são fundamentais no entendimento da geografia. Esses diferentes conceitos espaciais articulam análises e pensadores(as), tendo cada um seu contexto. De modo que o espaço geográfico se desdobra, a partir da análise a ser feita, em paisagem, lugar, território e região. Cavalcanti (2012, p. 136) questiona: “o que se ensina, quando se ensina Geografia?”. Ensinamos a “observar a realidade e a compreendê-la com a contribuição dos conteúdos geográficos”, ou seja, um “modo de pensar a respeito de algo”. Ensinamos, por meio dos conteúdos “a perceber a espacialidade da realidade”. Ensinamos a perceber o mundo, a geografia do nosso dia a dia, mobilizando os conteúdos da disciplina geográfica. Não podemos ignorar como as dinâmicas espaciais são relevantes no atual estágio de globalização, em que o mundo se conecta de formas tão intensas e diversas, nos sentidos técnico, científico e informacional. Claval (2010, p. 30) afirma que as “práticas, as habilidades e os conhecimentos indispensáveis a qualquer vida social têm componentes geográficos”. No mundo globalizado, não há como evitar falar dos conceitos básicos da geografia – lugar, região, paisagem, território, territorialidade – para entender as diferentes concepções de mundo e as transformações das sociedades. Veremos como se articulam esses componentes através das categorias espaciais, ou geográficas. O espaço geográfico O espaço geográfico é “manifestadamente físico”, mas o físico não tem aí o sentido de “geografia física” ou de natureza. O físico é a materialidade, é uma construção social, nas mais diferentes escalas, desde um processo de construção espacial direta até o ato de se apropriar de todo planeta pelas mais diversas sociedades. O espaço geográfico é um elemento componente da Metodologia de Ensino de Geografia 45 sociedade, ou ainda, “o espaço não é um reflexo da sociedade, ele é a sociedade”. Pois “diferentes práticas humanas criam e usam diferentes concepções de espaço”, como nos ensina Harvey (2015). Para Cavalcanti (2012, p.136), é pela elucidação das práticas espaciais reveladas pelo conhecimento geográfico que se projeta um cidadão crítico e reflexivo, capaz de ler e compreender o seu próprio meio em relação com múltiplas escalas. A autora acredita, ainda, que essa compreensão possibilita que as pessoas realizem outras práticas espaciais, mais solidárias. Para compreender melhor a noção de espaço geográfico, utilizaremos como texto-base a obra “Por uma nova geografia”, de Milton Santos (1978). “O espaço é um verdadeiro campo de forças cuja formação é desigual. Eis a razão pela qual a evolução espacial não se apresenta de igual forma em todos os lugares” (SANTOS, 1978, p. 122). O espaço geográfico pode ser entendido com um campo de forças, em que diferentes atores tencionam de modos conflituosos, cada um com interesses e ideias próprias acerca de como produzir aquele espaço; alguns possuem mais poder (ou capital) para implementar suas ideias e predominam. Por isso, ele é um campo de forças desigual. Os atores globais que podem e alteram o espaço, em função de seus interesses, como atividades de extração minerária e grandes redes hoteleiras, muitas vezes enfrentam resistências dos habitantes dos locais onde se instalam. A atividade minerária, de extração, é incompatível com a conservação ambiental local, comprometendo ecossistemas e formas tradicionais de habitar. Essas populações locais são, geralmente, afastadas ou expulsas, seja pela concessão de exploração no local, seja pelas péssimas condições ambientais consequentes. Já as cadeias hoteleiras privatizam o uso dos espaços turísticos, que eram antes frequentados ou habitados pela população local. Os resorts nordestinos são um bom exemplo. Metodologia de Ensino de Geografia46 Para aprofundar nesse assunto, acesse a reportagem “Com 25 praias privadas, Angra dos Reis ensina como os ricos limitam o acesso dos pobres ao mar”, da Revista eletrônica EcoDebate, que está disponível em: http://bit.ly/30krzZx (Acesso em 19/12/19) ACESSE Milton Santos (1978, p. 171) diz que o espaço, seja por suas características e por seu funcionamento ou “pelo que ele oferece a alguns e recusa a outros, pela seleção de localização feita entre as atividades e entre os homens, é o resultado de uma práxis coletiva que reproduz as relações sociais”, de forma que “o espaço evolui pelo movimento da sociedade total”. Compreender como ele se modifica e transforma significa analisar de maneira multiescalar seus fenômenos, que podem ter origens internacionais (em um acordo, ou na instalação de uma empresa multinacional no local) e consequências locais (no bairro, cidade ou região em que se instala). O conceito de espaço é, portanto, considerado um fator social e não somente como um reflexo social. Ele apresenta características que são próprias daquela localidade, como as características ambientais e as populações locais, influenciando na forma como os processos, de fato, ocorrem. � Exemplo: Na instalação de uma grande rede hoteleira nas proximidades de uma comunidade tradicional, que utiliza o espaço para as atividades diárias, a população local pode se manifestar de forma contrária a instalação, levando a um processo de acordo entre as partes quando da aquisição da Metodologia de Ensino de Geografia 47 permissão governamental para a instalação (pelo licenciamento ambiental, por exemplo). O espaço, assim, precisa ser considerado como totalidade: conjunto de relações realizadas através de funções e formas apresentadas historicamente por processos tanto do passado como do presente. O espaço social corresponde ao espaço humano, lugar de vida e trabalho: morada das populações. O espaço geográfico é organizado pelas populações vivendo em sociedade e, cada sociedade, historicamente, produz seu espaço como lugar de sua própria reprodução. Milton Santos (1978) elege as seguintes categorias como fundamentais na compreensão do espaço: forma, função, estrutura, processo e totalidade. A forma é o aspecto visível, exterior, de um conjunto de objetos. A função é a atividade desempenhada pelos objetos criados. Já a estrutura, que é social-natural, é a conjugação da forma e da função que é criada historicamente em determinado local; é a maneira como a materialidade é criada/alterada naquele local, considerando sua história. As formas e as funções variam no tempo e assumem as características de cada grupo social. O processo significa a ação realizada de modo contínuo que objetiva um resultado, ou seja, implica tempo e mudança. Os processos ocorrem no âmbito de uma estrutura, que é social, ambiental e econômica, resultando de suas ações e contradições internas. Assim, ao considerarmos esses processos em conjunto, podemos analisar os fenômenos espaciais na sua totalidade. “O espaço deve ser considerado como uma totalidade, a exemplo da própria sociedade que lhe dá vida (...) o espaço deve ser considerado como um conjunto de funções e formas que se apresentam por processos do passado e do presente (...) o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e Metodologia de Ensino de Geografia48 do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que se manifestam através de processos e funções” (SANTOS, 1978, p. 122). Portanto, entendemos que o espaço geográfico é o resultado de múltiplas determinações, que são naturais e histórico-sociais. Em se tratando do ensino, a compreensão da organização espacial da sociedade vai ocorrerde forma mais concreta se o professor iniciar os estudos desta organização a partir da análise dos elementos presentes na realidade espacial vivida pelo aluno, já que isso estimula o envolvimento do aluno nos estudos e demonstra como ele se insere ativamente no próprio espaço geográfico. Caso isso não ocorra, cairemos num tipo de ensino em que elementos físicos e elementos sociais do espaço serão estudados de forma apartada e estagnada e a cartografia, que pode ser usada metodologicamente para discutir os diversos elementos do espaço geográfico e suas transformações, se tornará um tópico à parte e sem sentido. Confira abaixo uma atividade sobre o espaço geográfico elaborada pela professora Noemia Ramos Viera, em 2001, para seus alunos do Ensino Básico (5º ano). Inicialmente fizemos uma pesquisa entre todos os alunos da escola para identificar qual era a marca de borracha mais utilizada na escola. O resultado foi a marca “Faber Castell”. Para representar os resultados obtidos com a eleição do objeto, e com a pesquisa sobre a marca mais utilizada de borracha-apagador, construímos gráficos de barra e de setor. Posteriormente construímos textos que explicassem o significado dos gráficos. Essa atividade de modo específico, contribuiu para que o aluno se apropriasse de alguns conteúdos procedimentais utilizados pela ciência geográfica na análise e compreensão da realidade. Em seguida os alunos, em grupo, passaram a observar com mais atenção o objeto escolhido e a elaborar Metodologia de Ensino de Geografia 49 questionamentos sobre ele. O resultado destes questionamentos foi uma lista de 50 questões a serem respondidas e esclarecidas sobre a natureza da borracha-apagador. Assim, diante da impossibilidade de esclarecimentos dessas questões, pois, nos deparamos com muitas dúvidas sobre a borracha apagador, passamos a buscar estratégias para o esclarecimento de tais dúvidas. Nesse sentido abrimos duas frentes de pesquisa sobre a borracha apagador, uma delas, com a participação direta dos alunos, teve prosseguimento com os conhecimentos prévios dos alunos e com pesquisa em enciclopédias, revistas, jornais, livros didáticos, internet, entrevistas, etc. e a outra se encaminhou através do envio de uma carta à Faber Castell contendo as dúvidas a serem esclarecidas. Assim, enquanto aguardávamos a resposta da Faber Castell, demos prosseguimento a outra frente da pesquisa. A partir dos conhecimentos prévios dos alunos e daqueles obtidos através da pesquisa conseguimos obter esclarecimentos sobre todo o processo-histórico de produção da borracha-apagador (descoberta do látex, invenção da borracha, produção, distribuição, circulação, comercialização e consumo da borracha apagador). Em seguida, os alunos construíram esquemas representativos do trajeto realizado pela borracha apagador desde a fonte da matéria-prima até a sua chegada ao consumidor e vice e versa. Essa atividade foi importante para que visualizássemos a totalidade e a integração do espaço que a sociedade estabelece na produção dos objetos (mercadorias). Ao chegar as informações da Faber Castell, juntamente com as já obtidas pelos alunos, passamos a um aprofundamento do assunto, principalmente das noções de cartografia. Nesse contexto, todas as informações coletadas sobre a borracha- apagador foram representadas nos mapas de São Paulo, Brasil e do Mundo. Com os esclarecimentos da Faber Castel, além de uma sistematização cartográfica do espaço geográfico da borracha-apagador nas suas diversas escalas (local, regional, Metodologia de Ensino de Geografia50 estadual, nacional e mundial), foi possível estudar diversas temáticas. Terminamos o ano letivo estudando de forma mais aprofundada o processo histórico de produção da borracha, o qual serviu como introdução aos estudos sobre o processo de regionalização e organização do espaço brasileiro, tema a ser trabalhado na série seguinte. Disponível em: http://bit.ly/2QRk9Ka (Acesso em 19/12/19). Diferentes escalas A escala focaliza um recorte ou uma extensão espacial, e envolve elementos e fenômenos vislumbráveis no contexto recortado. Ou seja, diferentes elementos e fenômenos são observados a partir de diferentes escalas geográficas, sendo elas: local, municipal, regional, estadual, nacional, continental e global. Alguns fenômenos são determinados em uma escala global, mas se inserem no espaço geográfico numa perspectiva local, como é o caso das empresas multinacionais. Outros fenômenos são típicos de sistemas ambientais, como o clima, e possuem características globais (efeito estufa), mas perpassam e atuam em todas as escalas climáticas. É comum conceber que fenômenos globais afetam todas as outras escalas. Já os fenômenos locais só afetam, de forma geral, na escala local, mas vão sendo influenciados pelas escalas subsequentes. Entretanto, as maneiras como os fenômenos são afetados não é igual. Ou seja, um fenômeno global pode afetar todos os locais, mas de formas desiguais, correspondentes, complementares ou envolvendo uma subordinação entre eles. Ao analisar o espaço geográfico podemos articular as reflexões em função das escalas, lembrando que elas são conectadas. As análises que levam em consideração mais de uma escala são chamadas de multiescalares. A escala, portanto, confere Metodologia de Ensino de Geografia 51 visibilidade a um fenômeno, seja qual for sua característica (econômica, social, cultural, política etc.). A perspectiva multiescalar permite levar em conta as naturezas diferentes das escalas, possibilitando conciliar tanto a escala topográfica (distâncias que são espacialmente medíveis, isto é, demarcadas por quilometragem) como a escala topológica (em função da proximidade e distanciamento vivenciados, que não está necessariamente ligados a distância física), articulando a distância e a proximidade em termos de extensão territorial e em termos virtuais. Uma escala material, outra imaterial, mas ambas reais e concretas porque se constituem como sínteses de múltiplos fenômenos. � Exemplo: A escala, então, ao conferir visibilidade aos fenômenos permite a observação de como eles se articulam em diferentes níveis. Veja um exemplo na figura abaixo. Figura 3: Articulação entre fenômenos em uma perspectiva multiescalar segundo Neil Smith Fonte: Adaptado de SMITH (2000) Metodologia de Ensino de Geografia52 A escala não é uma forma de representar o espaço ou indicadora de abrangência (como a escala cartográfica), nem é um dado prévio da realidade, mas sim uma construção, uma forma de análise geográfica, que articula ou isola. A escala permite a compreensão dos fenômenos que interajam no/com o espaço: os mais diversos grupos e coletivos, com seus diferentes pressupostos ideológicos (econômico, o político, o partidário, ou o utópico), e as mais variadas filiações culturais, sejam de gênero, classe, religião, etnia ou idade. A escala não deve ser entendida como algo inerente ao objeto, mas como uma forma de se conceber o mundo, de se relacionar com, e compreender, o meio geográfico. Nesse sentido, não existe uma escala mais ou menos válida, a realidade está contida em todas elas. Entendemos, porém, que a escala da percepção é sempre ao nível do fenômeno percebido e concebido, ou seja, no nível de vida da pessoa. A escala não fragmenta o real, apenas permite a sua apreensão. A noção de escala, então, define a articulação de diferentes fenômenos espaciais, possibilitando que os alunos compreendam as relações existentes entre fatos nos níveis local e global. Portanto, no decorrer do Ensino Fundamental, os alunos precisam compreender as interações multiescalares existentes entre sua vida familiar, seus grupos e espaços de convivência e as interações espaciais mais complexas. Para compreender a totalidade do espaço geográfico, precisamos mobilizar várias escalas, as quais podem ser municipais, regionais, estaduais, nacionais, globais, e/ou construídassocialmente, como distintos níveis de interação. A paisagem A paisagem é, muitas vezes, associada ao olhar em perspectiva de retrato ou pintura, à fisionomia de uma certa área. Ou, em outras palavras, a expressão visível da natureza. Essa Metodologia de Ensino de Geografia 53 associação se conecta com às origens da ciência geográfica, durante as viagens naturalistas e a grande divulgação dada aos relatos no século XIX, que favoreceram a ideia da paisagem como características físicas de uma dada área. Alexander von Humboldt se destaca nessa fase por suas famosas e pioneiras descrições de paisagens, enfatizando a necessidade de praticar observações e descrições cuidadosas e precisas das formas visíveis em campo, inclusive com a utilização de desenhos e pinturas para ilustrar. Entretanto, a dinamicidade da paisagem, que engloba as relações e conjunções de elementos naturais e tecnificados, socioeconômicos e culturais, rompeu com a ideia de paisagem como fisionomia estanque. A paisagem traz as marcas das atividades produtivas das populações, os seus esforços para habitar o mundo adaptando-o às suas realidades. Ela é marcada pelas técnicas materiais que a sociedade domina, e responde às convicções religiosas, às paixões ideológicas ou aos gostos estéticos dos grupos. Constitui desta maneira um documento-chave para compreender as culturas e o único que subsiste frequentemente para as sociedades do passado (CLAVAL, 2001). “a paisagem é uma fusão de diferentes perspectivas, é natureza e cultura, ambiente e percepção, objetiva e subjetiva, funcional e estética. É o esforço da imaginação que deve agregar essas possibilidades em só sentido” (PÁDUA, 2013, p. 76). A paisagem é revelada na relação com as pessoas. Ela não existe sem alguém que a sinta. A paisagem é o encontro, o acontecer simultâneo de um local, um olhar e uma imagem. A paisagem chega a nós originariamente como sentir. Por isso, podemos explorar os sentidos para caracterizar as paisagens; não apenas a visão, mas o olfato, o paladar, o tato e a audição. Metodologia de Ensino de Geografia54 Falamos, nesse sentido, de paisagens com características sonoras, olfativas, de sabor e textura. Não apenas acessamos a paisagem pela visão, mas como todo o corpo sensível. Cavalcanti (2008, p. 51) afirma que “[...] a paisagem o domínio do visível – a expressão visível de um espaço –, o domínio do aparente, de tudo o que nossa visão alcança; o domínio do que é vivido diretamente com nosso corpo, com nossos sentidos – visão, audição, tato, olfato, paladar; ou seja, trata-se da dimensão das formas que expressam o movimento da sociedade. A observação e a compreensão dessas formas servem para dar caminhos de análises do espaço.” A paisagem envolve características ambientais e culturais, em uma mistura característica da dinâmica do espaço geográfico. Podemos sentir e analisar a paisagem em qualquer local, basta para isso se dispor a realizar essa atividade. � Testando: Feche os olhos e respire fundo algumas vezes. Abra os olhos. Repare no seu entorno, nos cheiros e sons que chegam até você. Anote todos eles. Ande um pouco e repare mais. O que você escuta? O que você pode provar? O que você sente? Desenhe ou escreva um texto descritivo. Na sequência, analise sua produção. O que é possível descobrir ou perceber sobre o espaço geográfico que você está vivendo agora? Quais relações multiescalares é possível estabelecer? O conceito de paisagem deve ser trabalhado na caracterização do seu aspecto dinâmico e relacional, possibilitando a compreensão, em partes, do complexo espaço geográfico em que vivemos. Para tanto, os estudos devem considerar o maior número possível de elementos que caracterizam e formam a paisagem, que são responsáveis por sua dinâmica, considerando suas dimensões objetivas e subjetivas, culturais e naturais. Metodologia de Ensino de Geografia 55 Através do trabalho com o conceito de paisagem, podemos estimular o aluno a interpretar e expressar sentimentos, crenças e dúvidas com relação a si mesmo, aos outros e às diferentes culturas. Podemos, assim, promover o acolhimento e a valorização da diversidade das pessoas e coletivos, dos seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza, considerando também a geografia do nosso dia a dia. Cavalcante (1998) realizou uma atividade sobre o conceito de paisagem, através de registros de observações em sala de aula, questionários, atividades em grupo e conversas com os alunos, considerando as relações possíveis entre o conhecimento científico da ciência geográfica e os saberes construídos pelos alunos em situações escolares. A “paisagem” foi um dos conceitos captados nas representações destes alunos, das quais há depoimentos como “campo cheio de rosas, árvores dando fruto, tudo colorido. Muita coisa boa”. A autora observou que a ideia de paisagem que está sendo construída por essas crianças é estereotipada, é uma imagem estática, que não apresenta dinâmica. Além disso, é inteiramente focada na visão e não conversa com a necessária leitura do espaço geográfico. Por isso, ao se trabalhar a paisagem é preciso explorar os sentidos e as sensações do corpo, sua relação com espaço vivido e com a multiescalaridade dos fenômenos que se expressam ali. O desenvolvimento da capacidade de observação e de compreensão dos componentes da paisagem contribui para a articulação do espaço vivido com o tempo vivido, ao indicar as transformações ocorridas na paisagem - o que é possível ainda ser sentido e o que não existe mais, sempre em relação com o corpo e a pessoa que sente a paisagem. Metodologia de Ensino de Geografia56 Para compreender melhor o significado de paisagem, leia mais sobre a experiência de ensino de Luciana Maria Santos de Arruda, intitulado “GEOGRAFIA NA INF NCIA PARA ALUNOS COM DEFICIÊNCIA VISUAL: a utilização de uma maquete multissensorial para a aprendizagem do conceito de paisagem”, disponível em: http://bit.ly/2FNJdvl. (Acesso em 20/12/19). SAIBA MAIS O lugar O lugar é categoria espacial que mais se aproxima das nossas vivências, experiências e sentimentos pelo espaço. Quando possuímos afeição ao lar, o espaço da casa, estamos trabalhando com essa categoria, o lugar. O lar é um lugar, a pátria (sentimento de afeição por uma nacionalidade), uma poltrona ou nosso espaço preferido da casa ou da escola, tudo isso são lugares. Lugares marcam nossa história de vida, podem ser a casa dos avós ou uma praia que conhecemos pela primeira vez. São constituintes da nossa identidade, do nosso dia a dia. A experiência expressa a capacidade de aprender a partir da própria vivência; significa aprender, atuar sobre o que foi vivido e criar a partir dele. São as experiências que transformam espaços em lugares: assim, lugares podem ser entendidos como espaços cheios de significados adquiridos pelas experiências e vivências. Por isso, “o que somos como seres que vivem, pensam, experimentam é inseparável dos lugares onde vivemos – nossas vidas estão saturadas pelos lugares e pelas coisas e outras pessoas entrelaçadas a estes lugares” (MALPAS, 2001, p. 231). Metodologia de Ensino de Geografia 57 O lugar se refere, então, a uma pessoa ou coletivo. Pessoas diferentes estabelecem relações e sentimentos pelos espaços de forma diferentes, portanto o lugar não é sempre o mesmo para todo mundo. Cada um tem suas referências de lugar. Cavalcanti (2003, p. 12) afirma que: “A identidade do lugar permite que as pessoas tenham uma identificação com o mesmo, mas acima de tudo é necessário que cada sujeito construa a sua identidade singular”. Assim, mesmo que o lugar seja um espaço significativo para um grupo familiar ou uma coletividade, é preciso que cada pessoa tenha suas experiências próprias e crie sua identidade singular. Yi-Fu Tuan (2013), geógrafo sino-estadunidense, afirma que o lugar é pausa no movimento. Isso não significa dizer queo lugar é estanque, mas que, para nos conectarmos com o espaço, significar o espaço, precisamos parar por um tempo e viver o espaço, tornando-o um lugar para nós. � Exemplo: Assim, no processo de sentir e compreender uma paisagem, por exemplo, pode ser que façamos uma parada. Nós nos sentamos em um banco na rua. Ali, comemos um lanche e conversamos. Observamos as pessoas se movimentarem e, ao fim de uma tarde agradável, aquele banco tem um significado diferente para nós: ele se tornou, então, um lugar. Quando passamos de novo por aquela rua, olhamos para o banco e lembramos da tarde agradável que vivemos ali. O lugar é um núcleo de significados fundamental para a configuração da identidade individual de cada pessoa. Ele envolve o entrelaçamento das pessoas e coletivos com o espaço, e seu estudo revela essa história. O estudo do lugar revela como as pessoas e coletivo se relacionam com o espaço que vivem, quais locais possuem mais ou menos significado. Assim, essa categoria geográfica focaliza, numa escala mais local, a relação Metodologia de Ensino de Geografia58 das pessoas e coletivos com o espaço geográfico em suas dimensões subjetivas e emocionais, das memórias e histórias de vida, das identidades. Para compreender melhor o significado de lugar, leia o belíssimo relato de Marisa Terezinha Rosa Valladares e Regina Célia Frigério, intitulado “GRAÚNA: ...voos e cantos de crianças no currículo quilombola de uma comunidadescola...”, disponível em: http://bit.ly/3a9Sg7Y. (Acesso em 20/12/19) SAIBA MAIS Figura 4: Diferentes referenciais de território a partir de suas dimensões principais. Fonte: adapado de SANTOS et. al., 2015 O território pode ser considerado como delimitado, construído e desconstruído por relações de poder, sendo que nem sempre ele é fixo. Alguns territórios, como de algumas relações de trabalho ou grupos culturais, aparecem apenas em determinados turnos do dia, ou épocas do ano. Essa categoria Metodologia de Ensino de Geografia 59 Tabela 2: As principais categorias geográficas espacial envolve o espaço ocupado por diferentes atores sociais que se territorializam a partir de uma intencionalidade. Assim sendo, a delimitação do território pode não ocorrer de maneira precisa, e ser irregular e periódica. A região A região é um conjunto de áreas ou paisagens que possuem características semelhantes ou homogêneas, ou funcionalidades especificas. Podem ser delimitadas por vários métodos, da experiência vivida aos meios estatísticos. A região agrupa, por semelhança, conexão ou influência, áreas do espaço geográfico que se relacionam. Assim, é possível que características ambientais definam regiões por semelhança, assim como características econômicas, sociais, culturais. A funcionalidade de um conjunto de áreas, que define uma região, pode ser compreendida pelo movimento de pessoas, mercadorias, informações, decisões e ideias, de modo que podemos entender a área de influência de um local sobre o outro, estabelecida através do nível de relacionamento existente. A região pode ser definida, ainda, a partir de um conjunto de lugares ou paisagens que guardam alguma relação ou semelhança entre si. A região é multiescalar, podendo variar de tamanho em função do que engloba ou conjuga. Existem regiões à nível de cidade, mas também do mundo. Metodologia de Ensino de Geografia60 Fonte: HAESBAERT, 2014 (adaptado) Metodologia de Ensino de Geografia 61 E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que existem diferentes formas de compreender o espaço através da Geografia: são as categoriais espaciais ou geográficas. Todas elas são importantes para a Geografia, e evidenciam fenômenos ou relações diferentes. Elas também apresentam escalas diferentes. Mas o que é escala? Escala é um elemento de análise geográfica que permite focalizar os fenômenos e relações em um nível de complexidade específico. É como utilizar a ferramenta “zoom” quando vamos tirar uma foto ou utilizar o Google Earth / Maps. Escala pode ser local, municipal, regional, estadual, nacional, continental e global. No contexto local, nos aproximas das pessoas, seus espaços e histórias de vida. Já no contexto global, vemos sistemas ambientais, com o sistema climático, e a atuação das grandes corporações e empresas multinacionais. As categorias geográficas podem ser analisadas em uma perspectiva multiescalar. Mas quais são as categorias geográficas? Vamos lá! Temos o espaço geográfico, que envolve a totalidade dos fenômenos e processos, do chão que pisamos ao céu que vemos quando olhamos para cima. Todas as outras categorias fazem referência a ele, como recortes específicos. A paisagem, que é ligada ao sensível e envolve o espaço, natural, cultural e técnico, no presente e no passado: é ideal para compreender as transformações que o espaço sofreu com o passar dos anos. Já a região envolve um conjunto de áreas com características semelhantes, sejam elas ambientais, culturais, econômicas ou políticas. Por fim, o território sempre se relaciona com relações de poder, dominação e ocupação por grupos culturais, econômicos ou políticos. No seu sentido tradicional, o território nos revela os espaços delimitados dos Estados-nações, ou seja, dos países. Todas as categorias são importantes no estudo da Geografia e devem ser trabalhadas a partir de suas lógicas próprias! Metodologia de Ensino de Geografia62 REFERÊNCIAS BUTTIMER, A. Social space in interdisciplinary perspective. Geographical Review, 59 (4), 1969, pp.417-426. BUTTIMER, A. Aprendendo o dinamismo do mundo vivido”. In: CHRISTOFOLETTI, A. Perspectivas da geografia. São Paulo: Difel, 1985. CALLAI, Helena C. 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SUMÁRIO UNIDADE 2 Temas em Geografia no Ensino Fundamental:Anos Iniciais ..................................................10 Ciclos naturais e a vida cotidiana ............................................10 Os usos dos recursos naturais: solo e água no campo e na cidade .............................................................14 Matéria-prima e indústria .......................................................16 Território e diversidade cultural ..............................................17 Diferentes tipos de poluição ....................................................20 Elementos Para O Ensino De Geografia (Orientação E Expressão cartográfica) ...............................21 A noção de espaço pela criança ..............................................21 As relações topológicas, projetivas e euclidianas ...................26 A criança e as expressões do espaço geográfico através da cartografia ..............................................................27 Mapas mentais ........................................................................32 Interdisciplinaridade no Ensino de Geografia nos Anos Iniciais ..................................................35 A interdisciplinaridade ............................................................36 Interdisciplinaridade e linguagens ..........................................38 Geografia e História ................................................................42 Geografia e Educação Ambiental ........................................46 Metodologia do Ensino de Geografia 7 UNIDADE 02 Metodologia do Ensino de Geografia8 Ok, Geografia nos anos iniciais é importante, mas o que posso trabalhar?”. Opa! Então aqui estamos. Certos temas são incontornáveis, como orientação e cartografia, e mesmo a relação com o meio ambiente. Outros temas seriam muito estranhos caso não fossem trabalhados, como os usos dos recursos naturais, a indústria e a diversidade cultural. E como não poderia deixar de ser, tudo isso demanda uma perspectiva interdisciplinar, de forma que a Geografia atravesse as outras disciplinas e outros campos também façam uso dela. Certamente você estará muito mais antenando aos debates atuais e mais capacitado para agir em prol de um ensino de qualidade. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO Metodologia do Ensino de Geografia 9 1 2 3 4 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 2 - Temas no ensino de geografia. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: Estudar as relações entre educação e trabalho, diversidade cultural, cidadania, sustentabilidade, entre outras problemáticas centrais da sociedade contemporânea. Compreender as representações e linguagens no ensino de Geografia. Construir referenciais que possibilitem uma participação propositiva e reativa nas questões socioambientais. Fortalecer o desenvolvimento e as aprendizagens de crianças do Ensino Fundamental, assim como daqueles que não tiveram oportunidade de escolarização na idade própria. Convido a vocês a iniciar essa caminhada na direção de um ensino de Geografia de qualidade! Vamos? Metodologia do Ensino de Geografia10 Temas em Geografia no Ensino Fundamental – Anos Iniciais OBJETIVO Ao término deste capítulo você será capaz de compreender possibilidades de ensino de temas específicos da Geografia – Anos Iniciais, com atenção à elaboração de planos de aulas com metodologias ativas e atividades lúdicas, seguindo as orientações da Base Nacional Comum Curricular para o Ensino Fundamental. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! Para compreender como trabalhar os conteúdos e temas que compõem as orientações de ensino para o Ensino Fundamental – Anos iniciais, selecionamos ao acaso quatro temas, em diferentes anos do ensino, para detalhar possibilidades e caminhos metodológicos possíveis. Você pode se guiar por essas possibilidades, mas deve inovar com suas criações, ideias e formas próprias de exercer o trabalho docente. Ciclos naturais e a vida cotidiana “Os ciclos naturais e a vida cotidiana” é uma temática de ensino do primeiro ano do Ensino Fundamental, um objeto do conhecimento. Deseja-se desenvolver com esse objeto a habilidade de o aluno observar e discutir ritmos naturais (dia e noite, variação de temperatura e umidade etc.) em diferentes Metodologia do Ensino de Geografia 11 escalas espaciais e temporais, comparando a sua realidade com outras. A BNCC estipula o objeto do conhecimento e a habilidade a ser trabalhada, porém o resto é com o professor! Como ensinar? Como elaborar um plano de aula? Como escolher as estratégias metodológicas mais adequadas? Cabe aos professores considerarem a realidade dos alunos, da cultura escolar na qual se inserem e seus conhecimentos docentes e estratégias metodológicas, criando, assim, a geografia escolar no cotidiano e se norteando pelos documentos regulamentadores, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Projeto Político Pedagógico da escola. IMPORTANTE Antes de escolher alguma atividade ou modelo de aula, é preciso considerar a realidade e o contexto dos alunos; o projeto político pedagógico da escola; as afinidades do professor. Portanto, é importante considerar que detalhar como trabalhar com essa temática é uma sugestão de caminho que precisa ser criado pelo docente em sua sala de aula. Os ciclos naturais são formas como o planeta terra se renova. As coisas vivas dentro de um ecossistema interagem umas com as outras e com o seu ambiente não vivo, paraformar uma unidade ecológica, que é em grande parte autossuficiente (mas passível de desequilíbrio pela ação humana). Às vezes, esse processo de renovação é gradual e suave. Às vezes é violento e destrutivo. No entanto, os ecossistemas contêm Metodologia do Ensino de Geografia12 dentro de si os recursos para regenerar-se. A vida na Terra se desenvolve através de uma reciclagem constante. Os elementos são continuamente recriados a partir dos átomos que circulam em cadeias biogeoquímicas. Morte, destruição e decomposição são partes de um ciclo que possibilita novas estruturações. Entre os mais importantes ciclos da natureza estão: o da Água, do Carbono e do Nitrogênio, sendo que a Cadeia Alimentar pode ser entendida como um Ciclo de Energia. A compreensão dos ciclos naturais alinha-se a concepção sistêmica em Geografia, que define o sistema como um conjunto de partes interagentes e interdependentes coordenadas e não relacionadas, formando um todo complexo ou unitário, mantendo um contínuo intercâmbio de matéria/energia/informação com o ambiente. Permite considerar os fenômenos em uma abordagem global, com a inter-relação e integração de assuntos que são, na maioria das vezes, de natureza completamente diferentes. Entenda melhor os ciclos naturais e seu comportamento sistêmica estudando o artigo de Celso Carneiro, Pedro Gonçalves e Osvaldo Lopes, intitulado “O ciclo das rochas na natureza”, disponível em: http://bit.ly/2tXDznY (Acesso em 01/01/20). SAIBA MAIS Instigar os alunos a perceber, em seu cotidiano, os primeiros elementos que integram esses sistemas, os ciclos naturais, permite a introdução de habilidades de observação e análise do espaço geográfico. Vale lembrar que os ciclos naturais http://bit.ly/2tXDznY Metodologia do Ensino de Geografia 13 consideram a integração de elementos antrópicos, não sendo apenas uma noção da geografia física. Observar e discutir ritmos naturais (dia e noite, variação de temperatura e umidade etc.) em diferentes escalas espaciais e temporais, comparando a sua realidade com outras, habilidade a ser trabalhada, envolve uma primeira percepção das características ambientais dos lugares de vivência dos alunos, como casa, escola e outros. É importante trabalhar outras experiências, de viagens e aulas de campo, que ocorreram em ambientes distintos, considerando os percursos realizados pela criança em outras esferas, os seus passeios com a família, as viagens realizadas e o acesso à televisão que descortina uma série de outros lugares e culturas para o universo infantil, mesmo que inadvertidamente. É possível trabalhar a temática a partir de diferentes atividades e abordagens, todas elas planejadas durante a elaboração do plano de aula. É interessante estimular as crianças fazendo perguntas, como: Existem elementos que só podemos observar durante um determinado período? Como podemos diferenciar quando está dia e quando está noite? Existe comportamentos, que na maioria das vezes, só fazemos durante a noite? O que é comum fazermos durante o dia? E durante a noite? O que podemos ver no céu durante o dia? E durante a noite? Sentimos mais calor de dia ou de noite? Como está a sensação agora, quente ou frio? As formas de trabalhar essas questões podem envolver painéis, diários, desenhos, entre outras. Outras atividades podem envolver a observação direta do ambiente, procurando plantas e animais e pesquisando depois sobre seus hábitos. Atividade “Observando o céu”: o objetivo da atividade é que os alunos sejam capazes de identificar e diferenciar elementos que caracterizam o dia e a noite, apoiando-se por meio de fenômenos naturais e a comportamentos dos seres vivos. Metodologia do Ensino de Geografia14 Os usos dos recursos naturais: solo e água no campo e na cidade “Os usos dos recursos naturais” é uma temática de ensino do segundo ano do Ensino Fundamental. Deseja-se desenvolver com esse objeto a habilidade de reconhecer a importância do solo e da água para a vida, identificando seus diferentes usos (plantação e extração de materiais, entre outras possibilidades) e os impactos desses usos no cotidiano da cidade e do campo. São considerados recursos naturais tudo aquilo que é necessário às pessoas e à sociedade, e que se encontra na natureza, dentre os quais podemos citar: o solo, a água, o oxigênio, energia oriunda do Sol, as florestas, os animais, dentre outros. Os recursos naturais são classificados em dois grupos distintos: os recursos naturais não renováveis e os recursos naturais renováveis. Os recursos naturais não renováveis abrangem todos os elementos que são usados nas atividades antrópicas, e que não têm capacidade de renovação. Com esse aspecto temos: o alumínio, o ferro, o petróleo, o ouro, o estanho, o níquel e muitos outros. Isso quer dizer que quanto mais se extrai, mais as reservas diminuem, diante desse fato é importante adotar medidas de consumo comedido, poupando recursos para o futuro. Já os recursos naturais renováveis detêm a capacidade de renovação após serem utilizados nas atividades produtivas. Os recursos com tais características são: florestas, água e solo. Entretanto, o mau uso desses recursos pode acarretar a sua extinção, ou poluição de forma irreversível. Quando falamos na poluição e degradação dos recursos naturais, lembramos sempre da sustentabilidade. Esta é uma temática amplamente difundida e precisa ser analisada com olhos críticos para compreender como ela se relaciona com a produção do espaço geográfico e com as nossas vivências cotidianas. Para saber Metodologia do Ensino de Geografia 15 Esse objeto busca o reconhecimento dos recursos utilizados, especialmente água e solo, e de como eles são utilizados tanto no campo como na cidade, identificando suas diferenças, já que no campo a água e o solo são destinados à produção agropecuária e à extração de minerais, enquanto na cidade ao abastecimento da população e outras atividades industriais. Vale ressaltar que a poluição das águas e a degradação, contaminação e perda do solo podem ser trabalhados, pois constituem parte da temática. Figura 1: Uso de água no Brasil por setor Fonte: Adaptado editorial Telesapiens mais, leia o artigo de Daniela Venceslau Bitencourt, denominado “Sustentabilidade: a construção do discurso”, disponível em: http://bit.ly/2tlFUsD (Acesso em: 01/01/20). Algumas possibilidades de ensino da temática envolvem pensar os usos cotidianos desses recursos, especialmente a partir da vivência dos alunos, e se seria possível a vida sem eles; além disso, os usos que envolvem as atividades agrícolas (produção http://bit.ly/2tlFUsD Metodologia do Ensino de Geografia16 de alimentos), industriais e extrativas (como a mineração). É possível utilizar, como estratégia metodológica, jogos e brincadeiras que envolvam perguntas, descobertas e desafios sobre os usos desses recursos. Veja modelos de plano de aula sobre a temática, disponíveis em: http://bit.ly/3a5mlW6 (Acesso 01/01/20). ACESSE Matéria-prima e indústria “Matéria-prima e indústria” é uma temática de ensino do terceiro ano do Ensino Fundamental. Deseja-se desenvolver com esse objeto a habilidade de identificar alimentos, minerais e outros produtos cultivados e extraídos da natureza, comparando as atividades de trabalho em diferentes lugares. Matéria-prima é um produto natural ou transformado(semimanufaturado), que as empresas utilizam como base em um processo produtivo para a obtenção de um produto acabado. O produto acabado é a mercadoria que as empresas vendem. Existem também casos de matérias-primas que não precisam passar por transformações, como por exemplo os vegetais e as frutas, que são comercializados da forma que são extraídos da natureza. Os tipos de matérias-primas existentes podem ser determinados conforme suas origens, como vegetal (látex, borracha), animal (carne, leite, couro) ou mineral (petróleo, minério de ferro). http://bit.ly/3a5mlW6 Metodologia doEnsino de Geografia 17 ACESSE Para compreensão dessa temática, é possível realizar investigação da cadeia produtiva de qualquer objeto, utilizado na escola ou em casa. Pensar onde ele é fabricado, como e qual seu percurso até a escola ou a casa. Pensar como ele é fabricado, quais os tipos de indústria e cultivo. Podem ser utilizados, como estratégia metodológica, jogos e brincadeiras, produção de maquetes, aulas de campo, músicas e filmes/documentários. Lembrando que os recursos usados pelo professor não devem ser utilizados de forma exclusiva, ou seja, devem ser complementados com alguma atividade, discussão, debate ou reflexão. Veja um simulador que apresenta as etapas de extração da matéria- prima, transporte e a produção industrial de móveis, do carvão e de cadernos e livros, auxiliando na compreensão das etapas de produção das indústrias: madeireira, de carvão e de celulose, elaborado para alunos do Ensino Fundamental. Disponível em: http://bit.ly/2FVoBBi (Acesso 01/01/20). (Funciona apenas no navegador Internet Explorer). Território e diversidade cultural “Território e diversidade cultural” é uma temática de ensino do quarto ano do Ensino Fundamental. Deseja-se desenvolver com esse objeto a habilidade de valorização do que é próprio em cada cultura e sua contribuição para a formação da cultura local, regional e brasileira a partir da seleção, em seus lugares http://bit.ly/2FVoBBi Metodologia do Ensino de Geografia18 de vivência e em suas histórias familiares e/ou da comunidade, de elementos de distintas culturas (indígenas, afro-brasileiras, de outras regiões do país, latino-americanas, europeias, asiáticas etc.). O geógrafo francês Paul Claval define cultura da seguinte maneira: “A cultura é a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos […] Ela tem um passado longínquo, que mergulha no território onde seus mortos são enterrados e onde seus deuses se manifestaram. Não é, portanto, um conjunto imutável de técnicas e de comportamentos. Os contatos entre os povos de diferentes culturas são algumas vezes conflitantes, mas constituem uma fonte de enriquecimento mútuo. A cultura transforma-se, também, sob o efeito das iniciativas ou das inovações que florescem em seu seio”. (CLAVAL, 2007, p. 63). A cultura, portanto, enquanto soma dos comportamentos, das técnicas, valores, conhecimentos, manifestações artísticas de um povo ou coletivo, está em constante transformação, envolvendo um diálogo entre a tradição e as novas práticas. Ao se falar de povos e coletivos culturalmente diversos, é preciso compreender qual as suas histórias e tradições, e quais as concepções e formas de vida existem ainda hoje. A identificação de territórios envolve a espacialização desses distintos grupos e coletivos culturais, a descoberta da forma como eles habitam e constroem seus espaços e, ainda, como esses espaços foram delimitados. É preciso ainda inibir o sentimento de que nossas práticas e crenças particulares são “normais”, em contraposição àquelas vivenciadas por grupos e coletivos culturalmente distintos. Existe um nome para essa sensação: etnocentrismo. Conforme Metodologia do Ensino de Geografia 19 Henriques (2003, p. 51), é o etnocentrismo que perturba “nossa percepção do Mundo, levando-nos a tomar como universais tendências que nos são particulares”. A habilidade de valorização do que é próprio em cada cultura envolve um dos papeis do ensino, qual seja, “mostrar aos alunos que existem outras culturas além da sua. Por isso, a escola tem que ser local, como ponto de partida, mas tem que ser internacional e intercultural, como ponto de chegada” (GADOTTI, 1992). O autor afirma que, para isso, o ensino precisa fomentar a curiosidade e ousadia, buscando um diálogo com diferentes culturas e concepções de mundo. Compreenda mais sobre a noção de cultura e suas relações com a educação lendo o trabalho de Moacir Gadotti intitulado “Diversidade cultural e educação para todos”, disponível em: http://bit.ly/3acfvOJ (Acesso em 01/01/20). Uma possibilidade muito interessante de trabalho com a temática envolve o mapeamento das distintas comunidades étnico-culturais existentes na região da escola e o envolvimento dos alunos com elas através de abordagens distintas, como aula de campo, troca de cartas, fotografias, elaboração de mapas coletivos, painéis etc. Outra possibilidade metodológica é o trabalho com músicas, ritmos e melodias, e danças (ou jogos e brincadeiras) praticadas por grupos e comunidades nacionais e internacionais culturalmente diversas. É importante que a postura de respeito, curiosidade e a abertura para dialogar com a diversidade seja realizada e estimulada pelo próprio professor. Propagar a necessidade de respeitar a diversidade e não exercer essa postura dificulta o aprendizado e o desenvolvimento dos alunos, podendo interferir negativamente nessa construção, inclusive. http://bit.ly/3acfvOJ Metodologia do Ensino de Geografia20 Diferentes tipos de poluição “Diferentes tipos de poluição” é uma temática de ensino do quinto ano do Ensino Fundamental. Deseja-se desenvolver com esse objeto a habilidade de identificar e descrever os problemas ambientais que ocorrem no entorno da escala e da residência (lixões, indústrias poluentes, destruição do patrimônio histórico etc., propondo soluções (inclusive tecnológicas) para esses problemas. Poluição é degradação do ambiente por um ou mais fatores prejudiciais, podendo ser causada pela liberação ou retirada de matéria ou energia (luz, calor, som) de forma prejudicial ao ambiente ou às pessoas. Podem ser definidas a partir dos elementos alterados pelos poluentes, como poluição do ar, da água, do solo etc. Podem ser trabalhados a partir do uso de notícias de jornais e revistas, aula de campo, registro de percurso em diário ou desenhos, registros de conversas com os pais ou responsáveis sobre as mudanças na paisagem em diferentes tempos, entre outras formas. Leia um relato de uma aula de campo do Ensino Fundamental sobre essa temática e se inspire! Elaborado por Aline Santo e Kleber Costa, intitulado “Percepção Ambiental e Ensino de Geografia: Trilhando o Caminho de um Riacho Urbano em Delmiro Gouveia-AL”. Disponível em: http://bit.ly/2Ts0iDo (acesso em 01/01/20) ACESSE http://bit.ly/2Ts0iDo Metodologia do Ensino de Geografia 21 E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a elaboração de aulas demanda a criação, por parte do professor, de planos de aula que envolvem a definição de uma ou mais atividades e conteúdos a serem trabalhados como os alunos, podendo ser expositiva, lúdica, dialogada, de campo etc. Para tanto, você deve ter visto sugestões de leituras e caminhos a serem traçados na hora de trabalhar diferentes temáticas de diferentes anos do Ensino Fundamental. Você deve ter visto, ainda, que é importante que a postura de respeito, curiosidade e a abertura para dialogar com a diversidade seja realizada e estimulada pelo próprio professor. Elementos Para O Ensino De Geografia (Orientação E Expressão cartográfica) Ao fim deste capítulo você será capaz de compreender as representações e linguagens no ensino de Geografia. Claro que não se pretende dar conta de todas as possibilidades de expressão referentes à Geografia referentes ao ensino da disciplina. Mas você vai entender as etapas de desenvolvimento da orientação de uma criança e como a cartografia é um instrumento essencial e poderoso na construção de saberes nos anos iniciais. Convido vocês para me acompanhar por essas linhas! A noção de espaço pela criança Falar da construção da noção de espaço pela criança é falar também em uma psicogênese que atravessa as etapas característicasdo desenvolvimento geral da criança com relação ao conhecimento. Especificamente em nosso caso, estamos falando do espaço vivido aopercebido, do espaço percebido ao concebido. Metodologia do Ensino de Geografia22 Psicogênese é a origem e desenvolvimento dos processos mentais, muito ligada formação da personalidade e ao comportamento. De acordo com esse entendimento, o espaço vivido concerne àquele experienciado presencialmente, através do movimento e do deslocamento. A criança o interioriza através de brincadeiras e por outras maneiras – percorrendo, delimitando, enfim, organizando o espaço vivido conforme suas vontades. Figura 2: O espaço vivido da criança envolve sua área de convívio imediata como, por exemplo, seu quarto. Fonte: Pixabay Nesse sentido, é muito importante que a criança explore com o seu próprio corpo as dimensões e relações do espaço, por isso que deve ser enfocados exercícios rítmicos e psicomotores. Metodologia do Ensino de Geografia 23 O espaço percebido, por outro lado, não precisa ser experenciado em presença. Assim, é possível que o aluno dos anos iniciais lembre do trajeto casa – escola. Isso não acontecia antes, pois havia a necessidade de percorrer esse trajeto para identificar casa, prédios, ruas, praças, e demais marcas do percurso. Nessa etapa da formação mental em que se encontram os alunos dos anos iniciais, as crianças são capazes se dar conta da distância e da localização dos objetos ao observar uma foto, por exemplo. Antes, percebia o “aqui”, em seguida, “ali”. Pode parecer simples demais, mas nessa sutil passagem está a ampliação do campo experiencial da criança, somada pela observação. Podemos até dizer que a disciplina Geografia começa para ela nesse momento. É nesse contexto que os professores precisam estar mais preocupados em atividades que trabalhem na formação de conceitos e noções espaciais, do que no conteúdo de maneira sistemática. Falamos de um espaço vivido e de um espaço percebido, mas precisamos falar também de um espaço concebido. Esse começa a ser compreendido em outro estágio de aprendizagem, ao longo dos anos finais do Ensino Fundamental. Por volta dos 11-12 anos, a criança já consegue fazer relações entre elementos sem experiência direta com eles, ou seja, por sua expressão. Em outras palavras, o aluno consegue refletir acerca de uma área expressa em um mapa, por exemplo, ser ter estado lá ou sem ter visto antes. Como pode ser visto, é um trabalho de formação das noções espaciais, para o qual o professor deve desenvolver um O “jogo da amarelinha” é um bom exemplo de um exercício rítmico Metodologia do Ensino de Geografia24 trabalho que leve em conta o tipo de observação de mundo da criança. E que tipo seria esse? É uma percepção fundada em uma percepção de conjunto, indiferenciada, do mundo. Isto é, para ela, as coisas não são separadas de seus lugares, as posições são dadas na relação com o todo em que está inserido. Então o todo pode ser percebido com facilidade, o que não ocorre com suas partes. Isso é mais acentuado nas crianças até por volta dos seis anos, em que localização e deslocamento das coisas estão em referência a si mesmo. Então será possível notar uma certa dificuldade inicial em algumas noções, coo perto de, abaixo, no limite etc., com relação a si e as outras coisas. O professor precisa mediar essa percepção do espaço infantil de forma a desenvolver a noção espacial. Esse passo a passo envolve dar-se conta do espaço ocupado pelo seu próprio corpo, da disposição e da posição das coisas e, com deslocamento e orientação, das distâncias e das medidas. A criança e a descoberta do espaço ocupado pelo corpo. A noção espacial infantil é antes corporal que uma elaboração da mente. Ou seja, uma experiência que ativa sensações e sentimentos, sem haver um raciocínio sobre isso. Na amamentação, ao ser segurada no colo e acarinhada, tem início a aprendizagem do espaço. No corpo, vão sendo gravadas as referências das partes e dos lados do corpo, base para o desenvolvimento de referenciais espaciais. Jean Piaget, psicólogo suíço e um dos mais importantes pensadores da Educação, diz que o desenvolvimento da noção espacial é coerente com o desenvolvimento da mente e da criança como um todo. Metodologia do Ensino de Geografia 25 Figura 4: Períodos de desenvolvimento infantil e o desenvolvimento de elementos espaciais Fonte: Adaptado editorial Telesapiens O período sensório-motor se estende do nascimento até o desenvolvimento da linguagem, uma ação prática da pessoa em sua experiência. O período pré-operatório começa quando se identifica a função simbólica nas crianças e vai até quando se organiza o raciocínio em operações concretas. O período operatório pode ser notado entre seis e sete anos, envolvendo as noções de peso e volume, avança para quando opera sobre as Metodologia do Ensino de Geografia26 coisas e termina quando ocorrem as operações lógicas, ou seja, sem a necessidade da presença em sua concretude das coisas. Quanto à espacialidade, inicialmente se liga a um espaço sensório-motor, relacionado à percepção e à motricidade. O espaço sensório-motor é constituído na interação entre o corpo e o ambiente, em uma organização e adaptação contínua em relação às coisas. Depois, a noção de espaço para a uma fase em que se coincide a elaboração de imagens e do simbólico, contíguos ao desenvolvimento da linguagem. As relações topológicas, projetivas e euclidianas Quanto às relações espaciais, podemos diferenciar em três tipos. A topológica, projetiva e euclidiana. A topológica limita-se a uma coisa em particular, sem situá-la em relação a outra, no que concerne a uma perspectiva ou a um ponto de vista particular. Denomina-se relações topológicas elementares as primeiras noções espaciais, como dentro, fora, atrás, em frente, perto, longe, sem levar em consideração medidas, como metros, quilômetros etc. São relações que se desenvolvem na criança desde o nascimento, base para as relações mais complexas. As relações projetivas dizem respeito a noção dos objetos coordenados entre eles, situando-se aqueles do mesmo grupo, uns em relação aos outros. Nesse sentido, se desenvolvem as noções fundamentas das relações projetivas de esquerda e direita, frente e atrás, em cima e embaixo e ao lado de. Sempre lembrando que o ponto de partida para a localização das coisasde uma criança é o seu próprio corpo e é justo as relações projetivas que vão transformar isso, liberando a noção espacial do egocentrismo. Assim, começam os passos para que se estabeleçam as relações de norte, sul, leste e oeste e mesmo aquelas de ordem tridimensional. Metodologia do Ensino de Geografia 27 As relações euclidianas, por sua vez, consideram um sistema fixo de referência. Segundo Castrogiovanni (2002, p. 21), As primeiras evidências das relações euclidianas ocorrem nas primeiras conquistas da atividade perceptiva, como as primeiras constatações de grandeza e de forma pela criança, e já são organizadas em nível da inteligência sensório- motora (permanência do objeto ausente, por exemplo), mas permanecem intuitivas, sujeitas às deformações geradas pelo caráter estático e irreversível das representações imagináveis. Em resumo, o espaço euclidiano relaciona-se com a noção de distância, e as coisas se equivalem a depender de uma igualdade numérica. O espaço projetivo baseia-se na noção de reta, e as coisas se equivalem a depender da perspectiva. O espaço topológico, por sua vez, concerne a relações qualitativas inerentes a uma coisa em particular, como vizinhança, separação, envolvimento etc. Finalmente, a noção de espaço da criança parte de seu próprio corpo como referencial locacional. Aos poucos, percebe a possibilidade de outros referenciais, situando as coisas em relação entre elas mesmas, utilizando um sistema de coordenadas. A criança e as expressões do espaço geográfico através da cartografia Ao observar a geografiada humanidade, é possível notar a necessidade em cartografar desde os mais primórdios tempos, mapeando as localidades e acontecimentos mais importantes, por exemplo. Se pesquisarmos as origens da atividade de Metodologia do Ensino de Geografia28 cartografar, iremos reparar que sua história se confunde com a da própria humanidade. Antes de ser inventada a escrita, foi registrada em cartografias, as rotas percorridas para que pudessem ser encontradas posteriormente. Em desenhos envolvendo trajetos das aldeias, por exemplo, foram mobilizados símbolos, respeitando a proporção e o significado das coisas a serem expressas. Sobre isso, Vygotsky nos diz que a utilização de signos leva a humanidade a um comportamento especificamente estruturado, para além do desenvolvimento biológico, criando processos psicológicos profundamente relacionados à cultura. Em continuação, o conhecimento é um acontecimento que emerge entre as interações de fatores ambientais, cognitivos e sociais. A relação com o mundo leva em conta o estoque de conhecimento de cada um, a depender dos encontros, ou seja, da interação com os outros e as outras coisas, em meio a um longo processo de aprendizagem que se inicia ao nascer e termina ao morrer no seio de determinada cultura. É praticamente um consenso o quão é essencial é a cartografia para o estudo da Geografia. No entanto, não são poucas as dificuldades para desenvolver esse conteúdo nos anos iniciais. E isso envolve o estímulo à expressão gráfica, ao desenho. Claro que isso é valorizado, mas enquanto expressão artística. Isso quer dizer que as primeiras noções de localização e proporção presentes nessa produção, frequentemente não são trabalhadas geograficamente. Durante todo o século XX, principalmente nos anos que seguiram a Segunda Guerra Mundial (os anos do pós-Guerra, a partir de 1945) até os anos de 1970, a Geografia esteve muito centrada em uma perspectiva positivista, assim como as outras ciências. A cartografia considerada era o mapa, cujo desenho perseguia a máxima precisão, milímetro a milímetro. Metodologia do Ensino de Geografia 29 A prioridade era a descrição espacial do espaço geográfico, ao invés da construção cartográfica a partir da vivência das pessoas por seus lugares. A produção cartográfica deve buscar, então, meios de ir além de uma visão positivista do espaço geográfico, restrita à matemática, eurocêntrica e frequentemente voltada unicamente para a exploração capitalista do espaço, aprofundando desigualdades. Isso pode se realizar se assumirmos uma preocupação permanente em estabelecer condições, durante o processo de formação escolar, para que os estudantes tenham contato com expressões culturais e artísticas, incluindo também o processo de construção dessas expressões. Importante ter em mente, como professores, que aprender a construir um mapa é diferente de pensar com um mapa. Essa é uma forma de se desenvolver diferentes leituras do mundo. Importante dizer que aulas com arte e diferentes expressões precisa ir além de uma ilustração, uma “decoração”, “tornar mais atraente”, sendo mesmo um objetivo a ser perseguido na efetivação das práticas pedagógicas, compondo a formação de saberes escolares. Isso traz uma mudança na forma de entender a produção de saberes. Assumindo essa perspectiva, o saber passa a ser entendido não somente como consequência de um procedimento científico. A própria qualidade do que é científico deve ser questionado, encarando outros sentidos do científico que não o positivista. Bem, é de extrema importância integrar aspectos subjetivos, a percepção de cada ao criar expressões. É necessário que mobilizar cada vez mais recursos, promovendo cada vez mais encontros com outras áreas e disciplinas que não a Geografia. Ampliar o conhecimento geográfico, indo para fora das paredes da sala de aula. Os saberes aprendidos em sala de aula precisam estar em relação com a prática de vida cotidiana, com a experiência Metodologia do Ensino de Geografia30 vivida. Ou seja, superar uma visão positivista da cartografia é superá-la também como postura de vida, não só científica ou meramente profissional. Uma visão positivista separa as pessoas (sujeitos) das coisas (objetos), ou seja, as coisas são em si, e não em relação às pessoas. Não interessa, portanto, o significado das coisas, mas a quantificação das coisas. A visão positivista defende métodos regidos pela lógica e matemática, única maneira de se chegar ao verdadeiro conhecimento científico, isento de valores, da política e do contexto. Em nosso caso, o que as pessoas sentem, seus saberes e imaginações, como se relacionam com o espaço geográfico para além de resultados numéricos, suas emoções e sentidos - tudo isso não interessa a uma visão positivista. Para esta, pessoas e coisas devem são contadas, são números, estatísticas, mensuráveis em ordem de grandeza. A cartografia, seja para localização ou mapeamento daquilo que se observa, não é um fim em si, mas o meio para um raciocínio geográfico. Ou seja, quando a configuração cartográfica se reporta ao processo de produção do espaço. Especificamente quanto ao mapa, ele é uma ferramenta poderosa na medida que sua compreensão pode trazer uma mudança de qualidade na capacidade do aluno em pensar o espaço. Isso porque condensa um conjunto de signos com imenso potencial de síntese, que mobilizam recursos externos à memória, que mobilizam o conhecimento. A formação de noções espaciais pelas crianças é um processo que inclui dar-se conta do próprio corpo pela pessoa, em uma espécie de construção de um mapa corporal. A expressão do mapa corporal pode tornar possível a transposição de outros lugares e, em consequência, a expressão de outros mapas. O corpo da criança como referência para a formação de noções espaciais. Metodologia do Ensino de Geografia 31 Fazer e interpretar mapas deveria ser considerado tão importante quanto ler e escrever, e mesmo a execução de cálculos matemáticos. Essa alfabetização cartográfica precisa ser, desde cedo, perseguindo a construção de uma postura crítica. Isso passa por assumir o espaço vivido do aluno como ponto de partida dos estudos geográficos, para que, pouco a pouco, entende que aspectos e processos na escala pessoa, local, regional e global estão relacionados. Dispor de expressões visuais é indispensável ao ensino da Geografia, assim como dominar o arcabouço conceitual do campo. Assim, é possível compreender a Geografia como estudo da Terra como lar das pessoas, interpretando o ambiente e atestando relações. O processo de aprendizagem do mapeamento do espaço geográfico pelos alunos dos anos iniciais não está descolado do processo mais geral do desenvolvimento mental, e é contíguo à construção da noção espacial. Nesse contexto, é necessário investigar sobre o processo de construção de mapas pelas crianças. Deve ser levado em consideração, portanto, os mecanismos cognitivos e perceptivos que a criança recorre mapeando seus lugares, o desenvolvimento intelectual no que tange ao mapeamento e como as crianças se comportam durante essa atividade. É preciso ressaltar que a criança precisa ter postura ativa sobre os mapas, ao dispor de estruturas cognitivas para tal. É impossível separar o mapa da ação da pessoa exercida sobre ele. Assim como a relação de uma criança com as coisas, a aprendizagem do mapa precisa incluir a experiência. Em outras palavras, para apreender um objeto, por exemplo, ela manipular, tocar, ver, ouvir, sacudir, provar... um processo ativo sobre o objeto. Para o mapa, é necessário o mesmo com o espaço geográfico, experiência que envolva os sentidos, movimento e locomoção, em presença ou através da imaginação. Processo ativo sobre o ambiente. Metodologia do Ensino de Geografia32 Estamos falando de um processo que envolve aprendizagem formal e não formal, ambientes não escolares e escolares, geografias e Geografia. Na Geografia, disciplina econteúdo escolar, processo formal de aprendizagem em ambientes escolares ou não, pode atuar o professor. O aluno participa do processo de (re)construção do conhecimento em meio a prática escolar mediada pelo professor. A noção espacial envolve as geografias, relação pré-científica das pessoas com a terra, saberes e conhecimentos obtidos através de hábitos, tradição, cotidiano, experiência de vida. As expressões de mundo são criações sociais ou individuais. Se estamos falando de imagens relacionadas à expressão do espaço geográfico, se envolve localização, orientação e o que mais reunir sobre o lugar vivido, são, então, expressões singulares, os mapas mentais. Mapas mentais Estamos nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Período em que são reforçados (ou mesmo ensinados) certos hábitos de higiene, exercitada a sociabilidade, assim como se aprende a ler e a escrever. Ou seja, um conjunto de sabres, práticas e conhecimentos que esperam dar maior autonomia às pessoas. O mesmo objetivo é perseguido pela construção e uso do mapa mental. Os mapas mentais são uma expressão que veicula o que é significativo para o aluno, as marcas de seu percurso particular, os símbolos de seus caminhos, aquilo que ativa seus sentidos e seus sentimentos. Varia de pessoa para pessoa, de acordo com sua experiência de vida, atestando a personificação do lugar. Os mapas mentais expressam sentidos e significados da espacialidade vivida. Metodologia do Ensino de Geografia 33 Figura 5:Exemplo de Mapa Mental. Percurso da casa a escola.p Fonte: Adaptado editorial Telesapiens Figura 6: Exemplo de Mapas Mentais. Paisagem da caratinga. Fonte: Adaptado editorial Telesapines Fonte: Adaptado editorial Telesapines Figura 7: Exemplo de Mapa Mental. Município de Presidente Prudente. Metodologia do Ensino de Geografia34 Mais que uma oportunidade, exercício didático e atividade pedagógica, o mapa mental consiste em uma necessidade trabalhar para além de mapas existentes. Assim o aluno expressa suas observações e leituras sobre os lugares e, para isso, as atividades escolares e cotidianas precisam desenvolver e integrar essa forma de expressar seus mundos vividos. Dessa maneira, há um avanço na capacidade cognitiva da pessoa, na medida em que ela terá condições de escrever seu mapa, ampliando sua relação com essa expressão para além da leitura. Ao refletir sobre o processo de ensino-aprendizagem interdependente ao desenvolvimento cognitivo humano, devemos ter no horizonte que as práticas escolares devem se orientar para além do que a criança já sabe, isto é, para o que ela pode vir a saber e conhecer. Trata-se de uma postura pedagógica que reordena as bases da escola, com a intenção de que não seja um lugar apenas de reprodução de saberes e conhecimento, mas que reserve em suas ações a possibilidade constante de transformação. Seguindo o mesmo propósito, o mapa mental pode, também, ampliar e tornar cada vez mais complexo os níveis cognitivos do aluno. Ele pode servir como um instrumento indicativo de saberes e conhecimentos geográficos. Isso pode tornar possível que se indique caminhos a ser percorridos por cada um com o objetivo de aprofundar seus conhecimentos referentes a um dado contexto. Neste capítulo você viu que a noção de espaço infantil acompanha suas próprias etapas de desenvolvimento cognitivo. Muito influenciado pelo psicólogo francês Jean Piaget, envolve espaço vivido, espaço percebido e espaço concebido. Você pode aprender também a importância de se explorar as dimensões e relações do espaço com seu próprio corpo, demandando exercícios rítmicos e psicomotores, que nada mais é do que o próprio brincar da criança. Seguindo as teorias da psicologia infantil, você aprendeu também que existem relações topológicas, projetivas e euclidianas, cada uma correspondente a uma etapa Metodologia do Ensino de Geografia 35 da compreensão do espaço pela criança. Na primeira, tudo está em relação ao corpo da criança, na segunda, é possível estabelecer distâncias das coisas em relação a elas mesmas, e na terceira já são pensadas a disposição das coisas de forma mais abstrata, envolvendo números e proporções. Com este capítulo você pode aprender também a importânciadacriança expressar o espaço geográfico através da cartografia. Vimos como as crianças precisam construir cartografias e mapas, expressando seu mundo vivido. Nesse sentido que é preciso ultrapassar uma visão positivista da cartografia e da Geografia como um todo, sem menosprezar os números, mas valorizando e dando centralidade às percepções singulares, aos sentidos e aos sentimentos. Uma jornada e tanto, não é mesmo? Interdisciplinaridade no Ensino de Geografia nos Anos Iniciais Ao término deste capítulo você terá informações e meios para atuar no sentido de fortalecer o desenvolvimento e as aprendizagens de crianças do Ensino Fundamental. Para isso é muito importante assumir o potencial e a necessidade de uma abordagem interdisciplinar para o trabalho com os conteúdos dos anos iniciais. Sair das caixinhas em que se compartimentam as disciplinas expressa um imenso desafio, mas que só tem a contribuir no caminho da construção de uma educação de qualidade. Agora é aprender mais ainda em busca de um ensino sem fronteiras! Adiante! OBJETIVO Metodologia do Ensino de Geografia36 A interdisciplinaridade Interdisciplinaridade é uma demanda da Educação como um todo. Porém, é mais do que uma recomendação ou algo a ser cumprido por qualquer tipo de exigência. A interdisciplinaridade requer uma atitude de busca frente ao conhecimento, um ato de ousadia. Trabalhar nessa perspectiva é ir além da fragmentação, agir de maneira integrada com as outras áreas de conhecimento. Importante ressaltar que a interdisciplinaridade não é a eliminação dos componentes curriculares. Mas, sim, colocá-los em encontro, entender cada um deles como produtos geográficos, históricos, culturais e sociais, tendo no horizonte o processo de ensino-aprendizagem. Mas o que é a interdisciplinaridade? “Mais importante que defini-la, porque o próprio ato de definir estabelece barreiras, é refletir sobre as atitudes que se constituem como interdisciplinares: atitude de humildade diante dos limites do próprio saber, sem deixar que ela se torne um limite; a atitude de espera diante do já estabelecido para que a dúvida apareça e o novo germine; a atitude de deslumbramento ante a possiblidade de superar outros desafios; a atitude de respeito ao olhar o velho como novo, ao olhar o outro e reconhecê-lo, reconhecendo-se; a atitude de cooperação que conduz às parecerias, às trocas, aos encontros, aso das pessoas que das disciplinas, que propiciam as transformações, razão de ser da interdisciplinaridade. Mais que um fazer, é paixão por aprender, compartilhar e ir além” (TRINDADE, 2008, p. 73). A interdisciplinaridade pode ser primeiramente observada na França e na Itália nos anos de 1960, época marcada por uma imensa turbulência social e política na Europa e em várias partes Metodologia do Ensino de Geografia 37 do globo. Dentre as várias demandas de diversos segmentos da sociedade, havia o movimento estudantil reivindicando um ensino mais conectado com à época, dedicado a pensar e a agir sobre as questões do tempo, envolvendo as profundas desigualdades sociais, concentração de renda, emancipação feminina, liberdade sexual e justiça racial. A vida ferve com a explosão das minorias sociais e políticas, e tenciona a ciência. Nesse contexto, entre as várias medidas educacionais criadas como resposta às demandas estudantis no que se refere à Educação, é elaborada a abordagem interdisciplinar, como um contraponto à compartimentação e especialização das ciências. Os complexos problemas que movimentaram a ruas e os gabinetes governamentais na década de 1960, e perduram até hoje, não poderiam ser atacados por apenas um campo de saber. Aprender e ensinar em uma atmosfera interdisciplinarparte do ponto de que a compreensão se dá em meio a relação entre variados fatores, com soluções que só podem ser concebidas coletivamente. Também na década de 1960 a interdisciplinaridade se faz notar no Brasil, impactando a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases de 1971. O tema logo ganhou relevância nos debates envolvendo a Educação no Brasil, tornando-se uma motivação, e atravessando os últimos conjuntos legais sobre a Educação, como a Lei de Diretrizes e Bases de 1996, os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) e, mais recentemente, permeia a Base Nacional Comum Curricular (2017). Defender componentes curriculares integrados é também conceber como e em que local essa integração é feita. É o currículo que organiza o trabalho interdisciplinar, e, por isso, precisa contemplar conteúdos e estratégias no processo de ensino-aprendizagem, fornecendo condições ao aluno para a vida-em-sociedade. Metodologia do Ensino de Geografia38 Presente na esfera legal e nas propostas curriculares, a interdisciplinaridade ganhou força nas escolas, e ressoa tanto no discurso como na prática dos professores da disciplina de Geografia, nos variados níveis de ensino. Para muitos a Geografia é uma disciplina “decoreba”, e “aprender” o conteúdo é memorizar Estados e suas capitais, dados populacionais, características climáticas etc. Bem, os debates sobre a Geografia escolar e as práticas escolares já avançaram bastante para além disso, mas boa parte dos alunos não consegue enxergar alguma ligação com o que é ensinado com seu cotidiano e com suas vivências. A interdisciplinaridade contribui para alterar esse quadro, trabalhando conteúdos de forma integrada, envolvendo os alunos. A seguir, vamos abordar alguns encontros entre Geografia e outras disciplinas que compõem o conteúdo dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Interdisciplinaridade e linguagens Desde o momento de nosso nascimento aprendemos a interpretar movimentos, gestuais, expressões, palavras e imagens. A escola amplifica essa capacidade, ensinando a ler e a escrever, permitindo o acesso a boa parte da produção cultural da humanidade. É algo que envolve várias áreas, uma vez que não se trata de uma reprodução do som das palavras, mas de uma compreensão. Alguns termos como paráfrase, latifúndio, colonialismo e transgênico pode ter a relação com seus significados a partir do letramento proveniente em aulas de Geografia atravessando várias disciplinas, como Língua Portuguesa, História e Ciências, por exemplo. Atitudes nesse sentido fazem parte da alfabetização científico – tecnológica. As linguagens precisam compor os objetivos de instrução além de pré-requisito exclusivo de aulas de Língua Portuguesa e Matemática, como é o comum ocorrer. Metodologia do Ensino de Geografia 39 Vale lembrar, a competência de ler e escrever se desenvolve com a leitura do mundo – para Paulo Freire, algo que antecede a leitura de textos. A criança aprende antes a ler o mundo do que ler em seu idioma natal. Então, cada professor precisa ter isso em mente ao desenvolver os conteúdos, e buscar não trabalhar sozinho, mas envolvendo os colegas que compõem o ambiente escolar. Pensemos em uma aula de Geografia em que o estudante se debruça sobre um mapa, em um pronto ou em sua construção. A criança assinala ou retrata os pontos de seu percurso e expressa as experiências vividas nesse mundo particular, incluindo a sua verbalização e, a depender da idade, já em escrita. Isso também pode ser uma atividade coletiva, seja em um desenho de várias mãos em painel, ou uma maquete com pontos de referência em uma cidade, como a escola, uma praça, um posto de saúde, igreja, entre outros. O aluno está aprendendo mais do que a se situar, inclusive mobilizando outras competências, mas isso é também um exercício pessoal da escrita, que encontra seus passos na narração, na descrição antes mesmo de grafar as letrinhas. A depender do estágio de desenvolvimento, essas atividades podem ganhando mais complexidade, retratando, por exemplo, problemas ambientais, como um córrego poluído, o desmatamento, a rua que alaga, o despejo e a coleta irregular de lixo. E mesmo tratar da geografia da cidade, seu surgimento e evolução urbana, e sua economia, como a título de ilustração. Essas atividades mobilizam linguagens aprendidas em aulas com conteúdo de Artes, Ciências, História, Língua Portuguesa e mesmo Matemática. É importante ressaltar que para uma mudança efetiva que possa melhorar os alfabetização e seus dados, a prática interdisciplinar precisa fazer parte da rotina escolar. “Ah, mas como vou ensinar conteúdo de várias disciplinas se os alunos nem sabem ler direito?”, eis uma pergunta/queixa comum, Metodologia do Ensino de Geografia40 acompanhada da concepção de que não sabendo ler com efetividade os estudantes apresentam dificuldades em outros conteúdos. Na verdade, não se deve esperar uma relação de um bom preparo da língua para a boa aprendizagem de outras matérias, mas, sim, que a leitura e a escrita percorram todas as áreas, e sejam aprimoradas em conjunto. As crianças leem e escrevem acerca de suas relações pessoais e sociais, em um ambiente, considerando a natureza, humana e não humana. Em uma atmosfera interdisciplinar, é de imensa importância que se acione diversos meios a fim de envolver as crianças, inclusive fazendo uso de novas tecnologias. Tanto melhor se tiver disponibilidade de recursos, mas mesmo aplicativos em celulares, algo bastante acessível a professores, pode exercer esse papel. É importante um trabalho com tecnologia não deve ser um subterfúgio para preencher o tempo, ou mesmo para descanso docente. É algo que demanda bastante atenção, sensibilidade ao contexto da turma e de cada aluno, para desde cedo não se criar uma dependência, afetando aspectos motores e sensibilidade. Trata-se também de uma alfabetização tecnológica, não só no sentido de saber usar, mas de saber lidar com, promovendo um uso consciente e saudável. Isso porque a democratização da Internet e do celular ocorreu em processo muito mais acelerado do que a democratização de uma educação de qualidade. Nesse sentido, celulares e Internet, já fazem mais parte da vida dos alunos do que livros e cadernos. Para as crianças em alfabetização, é realmente impactante como rapidamente desenvolvem caminhos para achar seu vídeo preferido na tela de um celular, e como um pouquinho mais crescidas já conseguem se comunicar pelas redes sociais, gravando áudios e mesmo fazendo chamadas por vídeo. A escola não tem conseguido acompanhar esse ritmo, e muito deve ser debatido e melhorado para que se consiga mobilizar o interesse dos alunos para que ingressem no universo das letras em diferentes níveis. Lembrando que escrever à mão, por exemplo, aciona muito mais o raciocínio e desenvolve muito Metodologia do Ensino de Geografia 41 mais a cognição que digitar em um celular ou em um computador. Frente a um ambiente escolar em geral precário em estrutura física, é realmente um desafio colocado em nosso tempo. “Como usar as Novas Tecnologias na Educação: sala de aula deve ser ambiente de criação”, esse é o título do vídeo que traz mais um pouco sobre esse tema, incontornável para quem quer pensar a relação ensino-aprendizagem atualmente. Clica e confira em http://bit.ly/2TxcNxv . SAIBA MAIS Mas como podemos falar em uso de tecnologia em um cenário de baixos salários de professores, em que muitas salas de aulas Brasil agora nem sequer possuem uma tomada elétrica? Como cobrar profissionais qualificados para ligar com esse quadro? Como não fazer a tecnologia na escola não ser algo “para inglês ver”? Certamente, somente em uma sociedade que apresente níveis elevados de letramento em diferentes disciplinas, cada um guardando sua particularidade. Dessa maneira, a tecnologia é um desdobramento social, criando em meio ao tecido social, expressão de relações, e não algo de cima para baixo,ou de fora para dentro. A tecnologia precisa fazer parte de um povo como um todo para estar nas escolas, e isso só pode acontecer com a verdadeira democratização de um ensino de qualidade. Caso o contrário, vamos continuar entendendo acesso ao consumo como sinônimo de exercício cidadão, o que não confere. http://bit.ly/2TxcNxv Metodologia do Ensino de Geografia42 Bem, a interdisciplinaridade abrange um imenso conjunto de meios para que se aprenda a linguagem por todas as disciplinas. É de fato empolgante e efetivo quando há estrutura para que um trabalho com esse caráter seja desenvolvido, tanto no aspecto físico quanto em uma equipe pedagógica comprometida a orientar a comunidade escolar nesse sentido. Sim, em condições ideais todos estão preparados para ações conjuntas, mas cada um sabe as dificuldades, das mais variadas ordens e esferas da Educação. Sendo assim, já pode ser feita uma enorme diferença o trabalho levado a frente pelo docente em sala de aula, preparando-se para articular e desenvolver diferentes linguagens com os alunos. Geografia e História Não podemos que a preocupação e apresentar os alunos às letras e aos números ocupa a centralidade de quem pensa e atua nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Por isso que Língua Portuguesa e Matemática ocupa boa tarde do tempo investido pelos professores dessa fase escolar. Por outro lado, acreditamos que, se você chegou até aqui em nosso curso, não vai ignorar ou minimizar a importância das disciplinas Geografia e História. Quase com certeza se falamos em abordagem interdisciplinar em Geografia o que vem à cabeça o encontro com a História. Ambas compõem, inclusive, o percurso das Ciências Humanas na Base Nacional Comum Curricular. As duas disciplinas permitem às crianças acessas mais possibilidades de interpretação do mundo e de se inserir nele como alguém consciente e atuante. E, se ainda resta alguma compreensão equivocada dessas duas disciplinas, devemos reforçar que elas vão muito além de decorar datas, capitais, rios e heróis. Muito se diz que para interferir no mundo é preciso aprender a observá-lo e interpretá-lo. Através do encontro entre Geografia e História, os estudantes dos anos iniciais do Ensino Metodologia do Ensino de Geografia 43 Fundamental têm uma imensa possibilidade de aprendizagem nesse sentido. De maneira geral, os estudos em Geografia envolvem as transformações do espaço e suas expressões, suas múltiplas presenças. Do desenvolvimento do raciocínio geográfico, que permite à criança compreender que não é o centro do mundo, incialmente posto de maneira egocêntrica. Descentraliza, então, a relação com o ambiente. Resumidamente, seguindo as trilhas abertas ao estudar Geografia, aos poucos vai-se notando que, por exemplo, a relação com o país de cada um é a relação do trecho onde se vive, e vice-versa. Especificamente no caso da História, a centralidade é em torno do tempo, abordando acontecimentos, agentes e consequências. Para os anos iniciais, é importante o entendimento de permanências de elementos que podem ser considerados históricos, como, por exemplo, edificações, hábitos, tecendo a relação de passado com seus impactos no presente. É um percurso e identificação, e mais que isso, de tornar aparente as causas de conduzir os alunos para que se percebam como agentes históricos. Dito isto, mais do que uma necessidade, é mesmo inevitável cruzar essas disciplinas. As transformações se dão em determinado ambiente em certo tempo. Vejam o imenso potencial desse encontro interdisciplinar, para o qual, enquanto professores, devemos estar preparados: essas aulas montam as condições para os alunos compararem o passado com o presente, permitindo compreender melhor o munda que se vive atualmente, fornecendo todo um instrumental que, se bem utilizado, pode planejar futuros. E isso com relação à escala de vida de cada um, ou seja, as fronteiras do bairro e a trajetória pessoa. Em tempos de um mundo hiper conectado, com muito mais facilidade se pode interligar a experiência vivida dos alunos com aquilo que acontece em todo o globo. Metodologia do Ensino de Geografia44 Nesse vídeo, do canal Nova Escola, os professores João Ferraz e Jorge Silva, da Universidade Federal do Estado de São Paulo, falam um pouco sobre como trabalhar Geografia e História nos anos iniciais. http://bit.ly/3aeG7hR ACESSE Geografia são circunstâncias que integram de tal maneira a vida das pessoas e o destino dos grupos que ninguém pode alegar desconhecê-la. História guarda o potencial de colocar o conhecimento comum em uso com os conceitos do campo, como temporalidade e análise de fontes. Diante do que foi dito, uma boa aula envolvendo o trabalho entre as duas disciplinas precisa partir da escuta atenta do que os estudantes têm a dizer, diante de um tema previamente delimitado para ser trabalhado, seja em sala de aula ou em trabalho de campo. A partir daí pode ser construído um diagnóstico do que se sabe. Com isso, o que foi dito é ampliado com imagens, literatura, artefatos, e mesmo com documentos e entrevistas. A postura do professor é de manter um clima de questionamento, alimentar o interesse a partir da dúvida e da vontade de descoberta. Perguntas como, por exemplo “por que esse lugar é desse jeito?”, “o que isso pode nos dizer?”, “e agora, como é?”, entre outras que mantenham esse tom. Está sendo pavimentado o caminho para o que os alunos entrem em contato com memória, motivados por uma proposta que tensiona o significado pessoa e social, algo desafiante para eles. Algo importantíssimo de ter em mente é a http://bit.ly/3aeG7hR Metodologia do Ensino de Geografia 45 desconstrução de que estamos em progressos, sempre avançando, de que há culturas inferiores, o passado, e superiores o presente. Ou seja, a relação precisa se liberar do juízo de que aqueles do passado eram atrasados e que hoje a humanidade é evoluída. Cada acontecimento precisa ser entendido em seu contexto, os fatos são decorrentes de momentos diferentes, expressando outros modos de vida estruturados sobre outras bases. Essas noções são desenvolvidas com a turma, movimentando ferramentas diversas, durante as atividades propostas. Da mesma maneira é essencial que as crianças notem as mudanças em certos lugares e em determinadas paisagens, e como elas afetam as pessoas, pensando maneiras de atuação. Na confluência entre Geografia e História, a escola encaminha os alunos a observar o que ocorre na sociedade e no ambiente, trabalhando as perguntas, ensinando como pesquisar e a técnica de comparação. E aí? O que achou do que vimos até aqui? Sentiu que aprendeu bastante? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido o quão é importante a interdisciplinaridade não só para aprender Geografia, mas para como deve ser uma postura a nortear o exercício docente nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Para isso, vimos o quão importante é refletir sobre atitudes interdisciplinares, ciente que cada campo do saber apresenta um limite, que só pode ser ultrapassado no encontro entre as mais diversas disciplinas. Falamos da relação entre a interdisciplinaridade e linguagens, algo que que o professor desse estágio do ensino já lida em sala de aula, às vezes só não se dava conta. Você notou que o processo de alfabetização vai além do ensino da Língua Portuguesa e que a instrução é mais que isso e o ensino de Matemática. Você viu como a Geografia tem um imenso potencial em acionar diversos outros conteúdos, e como as questões geográficas estão presentes em temas de Metodologia do Ensino de Geografia46 outras disciplinas. Não poderíamos deixar de abordar a relação entre Geografia e História, que de tão próximas, mas como focos diferentes - o espaço e o tempo - deveriam com bastante frequência serem trabalhadas em conjunto. Agora é arregaçar as mangase se preparar para um ensino interdisciplinar. Geografia e Educação Ambiental Ao término deste capítulo você será capaz de construir referenciais que possibilitem uma participação propositiva e reativa nas questões socioambientais. Isto será fundamental para o exercício docente frente a gravíssima crise em que nos encontramos atualmente. Geografia e Meio ambiente significa estudar educação ambiental, pensando os problemas e dando condições para o plano de ação. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO Quando falamos em Geografia e Meio Ambiente, estamos falando de educação ambiental. Ela tem como objetivo a formação de pessoas preocupadas com os problemas ambientais, como poluição – de cursos d’águas, do ar, mas também sonora e visual, desmatamento, aquecimento global, desequilíbrio ecológico, entre outros. A crescente necessidade de se abordar esse assunto ocorre frente a uma compreensão humana bastante equivocada que levou as pessoas a deixarem de se entender como parte da Natureza. Vale ressaltar, os preceitos de conservação e preservação dos recursos naturais, para não falar de sustentabilidade, só fazem sentido em uma Metodologia do Ensino de Geografia 47 sociedade ocidental, que ignora e mesmo combate os saberes de povos tradicionais, como a de indígenas e aqueles nativos do continente africano. Dizemos isso porque, para esses grupos, a educação ambiental não faria sentido. Explicamos: Guardando suas diferenças, se entendem como mais um modo da Natureza, não havendo, portanto, separação. Figura 8: Uma retratação de Pachamama, divindade máxima dos povos indígenas dos Andes Centrais. Em quéchua, mama é mãe, ou, mais especificamente, mãe terra. Pacha é universo, mundo, tempo e lugar. Fonte: Pixabay “Há mais de uma forma de viver, sentir e pensar. A origem da separação Homem x Natureza não é nem tão antiga, e nem tão universal assim. A natureza é importante para a educação, seja na escola ou na universidade, e interliga diversas soluções para os problemas atuais”. Assista à Metodologia do Ensino de Geografia48 palestra da educadora Léa Triba no “I Seminário Criança e Natureza”. Leia o texto “Separação entre natureza e cultura — a base do pensamento moderno”, de Juliana Diniz na plataforma Medium http://bit.ly/376T1gh Dito isto, a educação ambiental busca a conservação e a preservação dos recursos naturais, buscando cumprir esse objetivo em uma perspectiva holística. Isso significa abordar aspectos políticos, econômicos, sociais, ecológicos e éticos, em uma ótica contextualizada e de caráter interdisciplinar. É justamente por isso que a educação ambiental encontra na Geografia a disciplina ideal para que aconteça. Isso porque é necessário articular diferentes escalas entre o local e global, junto à necessidade de problematizar como o meio ambiente se expressa com suas diferenças e seus significados. Isso permite que aos alunos ter contato com outros modos de viver a natureza, de forma que se tornem pessoas capazes de interferir em sociedade. Figura9: Atividade de educação ambiental em reserva da mata atlântica em Santa Catarina Fonte: Wikimedia http://bit.ly/376T1gh Metodologia do Ensino de Geografia 49 Com isso tudo que falamos, fica difícil admitir um modelo centrado na mudança de comportamento individual, sem tecer críticas em modelos de sociedade que provocam esses comportamentos. Precisamos superar essa ideia de que a degradação ambiental ocorre por causa do modo de ser da humanidade, entendendo-a fora do contexto, espacial e temporal. Não se trata de algo do tipo “se cada um fizer a sua parte, tudo vai melhorar”, dado modos de produção predatórios, indústrias poluentes, atividades mineradoras, desigualdade social, incentivo ao consumo desenfreado etc. É por isso que a precisamos falar de uma temática socioambiental em Geografia. A perspectiva holística busca o entendimento integral dos fenômenos, ou seja, buscando entendê-los em sua totalidade. A palavra holística foi criada a partir do grego holos, que significa “todo” ou “inteiro”. A Geografia apresenta diversos conteúdos e temas de ordem socioambiental, de maneira a fornecer mais condições para a formação crítica dos alunos, preparando o caminho para serem atuantes. Pessoas que serão capazes de interpretar e agir em seus mundos vividos. Atividade de educação ambiental. Em uma realidade cada vez mais urbanizada, trabalhar o contato com a terra é uma das formas de se reconectar com a natureza. Não precisa pensar muito para que se chegue à conclusão de que já passou da hora da humanidade mudar para outra forma de viver, para além de elos comerciais e econômicos. Uma educação ambiental comprometida preocupa-se, de forma conjunta, com laços de solidariedade e com a equidade. De que maneira podemos trabalhar a criticidade em relação ao mundo, explorando a educação ambiental em Geografia? A pergunta deve ser respondida com o empenho em tornar os alunos atuantes na transformação de suas vidas e de seus lugares. De partida, o desafio que se coloca é que a relação com a natureza varia de acordo com a cultura, a sociedade, a classe social, levando-se em consideração a diferença de lugar e Metodologia do Ensino de Geografia50 de tempo. Isso leva a um cenário de tensão e disputa, a depender do lugar. Geralmente, as posições antagônicas e irreconciliáveis são as que entendem a natureza como uma mercadoria e outra como base para a reprodução da vida. Nesse caso, podemos citar alguns exemplos, como atividades mineradoras e a monocultura, e, de outro lado, a população que vive do extrativismo e do artesanato. Vale destacar, essas atividades que enriquecem a poucos, e prejudicam a muitos, ocorrem sobre ecossistemas singulares, frequentemente precarizando a disponibilidade de recursos, principalmente a água e trazendo imenso desequilíbrio climático. De forma dominante, as sociedades modernas têm nas configurações naturais um obstáculo ao progresso ao mesmo tempo que é vista em sua materialidade econômica, disposta para ser explorada. Por outro lado, a natureza é a presença de crenças e espíritos, é fonte para a subsistência de famílias, lugar de tradições. Como podemos ver, a depender da classe social e do modo de vida, podemos contrastar condições de exploração e meios de interação com a natureza, o que pode significar a permanência ou a aniquilação de certos ecossistemas. Estamos falando de um campo de disputa. Estudar Geografia e questões socioambientais é algo abrangente e demanda atitude questionadora em referência aos modelos de ocupação, apropriação e uso da natureza pela sociedade, da relação entre as pessoas e os modelos políticos e econômicos adotados. Como pode ser imaginado, é algo de proporções totalizantes, o que dificilmente alcança um consenso. Entram em conflito pessoas e grupos com suas convicções, entendimentos, interpretações e intenções. Como dar conta disso tudo em sala de aula? Para pensar e planejar o ensino de Geografia e meio ambiente, é importante que se leve em consideração que não Metodologia do Ensino de Geografia 51 é um trabalho que guarde uma linearidade ao gosto dos livros didáticos. Precisamos partir da premissa que não é possível essa exploração brutal da natureza, dando visibilidade aos grupos que vivem outra concepção divergente dessa – povos e sociedades que não consideram a natureza apenas como fonte de matéria- prima. Ao lado disso, deve estar como fundo o fato de os fenômenos da natureza serem conectados e reforçando que o mundo natural inclui os seres humanos, cujo destino encontra-se indissociável e conectado. Ou seja, buscar superar a visão antropocêntrica, da humanidade no centro de tudo, mais importante que a natureza, como se não fosse dela integrante. No cotidiano de sala de aula, é preciso, sim incentivar medidas que visem a conservação ambiental. Para tal, devem ser promovidas atitudes ao alcancedos alunos, entrelaçando conhecimento e habilidades de forma transversal e construtivista, direcionando o desejo de transformação diante da crise socioambiental. Quer ideias para atividades voltadas aos alunos dos anos iniciais em Educação Ambiental? Selecionamos para você um material elaborado pela equipe de educação ambiental do município de Foz de Iguaçu com vários jogos e brincadeiras sobre o tema. Acesse http://bit.ly/3abGNVf SAIBA MAIS http://bit.ly/3abGNVf Metodologia do Ensino de Geografia52 Por aqui encerramos mais um capítulo de nossa unidade. Gostou do que viu até aqui? Motivado a trabalhar com educação ambiental nos anos iniciais? Vamos repassar alguns pontos. Ao final deste capítulo você deve ter aprendido que a educação ambiental encontra na geografia um campo privilegiado, dado o seu caráter interdisciplinar, a necessidade de articular diferentes escalas, entre o global e local, além de aspectos políticos, econômicos e sociais. Você deve ter aprendido que uma educação ambiental verdadeiramente comprometida vê as pessoas como parte integrante da natureza não humana e se opõe à sua exploração brutal. Esperamos também que você tenha entendido que há uma forma predominante de se relacionar com a natureza na sociedade moderna ocidental, que a enxerga como obstáculo ao progresso ao mesmo tempo que a tem como produto disposto à sua exploração. Você deve se lembrar que é uma relação que depende de classe social e cultura, envolvendo diversas formas de concepção e interação. E esperamos que você planeje suas aulas de forma a dar centralidade aos povos tradicionais e outras sociedades, para os quais a educação ambiental nem faria sentido, por se entenderem como parte da natureza. Em outras palavras, cuidar da Natureza é cuidar de todos e de um destino coletivo. Metodologia do Ensino de Geografia 53 Metodologia do Ensino de Geografia54 REFERÊNCIAS ANJOS, E. K. O.; DIAS, J. R. A. Psicopedagogia: sua história, origem e campo de atuação. Revela, ano 8, nº 18, Jul 2015. Disponível em <http://fals.com.br/revela/ed18/elza_ anjos.pdf> Acesso em 25/04/2019. BORTOLANZA, M. L.; KRAHL, S.; BIASUS, F. Um olhar Psicopedagógico sobre a velhice. Revista Psicopedagogia, v. 22, n 68, p. 162 – 170, 2005. BOSSA, N. A. A Psicopedagogia no Brasil: construção a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. BOSSA, N. A. 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Disponível em <http://www.revistapsicopedagogia.com.br/detalhes/196/ atuacao-psicopedagogica-no-contexto-escolar--manipulacao-- nao--contribuicao--sim>Acesso em 03/03/2019 SANTOS, D. M. Como a psicopedagogia pode contribuir no tratamento das crianças autistas. Monografia, 43 p. Rio de Janeiro, 2009. Disponível em <http://www.avm.edu.br/docpdf/ monografias_publicadas/T205038.pdf> Acesso em 25/04/2019. SUMÁRIO UNIDADE 3 O saber histórico e o saber histórico escolar: limites e possibilidades na prática pedagógica 10 Dos limites e diferenças entre escola e universidade 10 Das diversidades internas do sistema escolar 11 Das particularidades do educando do ensino básico 12 Do desafio da autonomia 13 Do desafio da diversidade 14 O ensino de história em discussão: os parâmetros curriculares nacionais e o ensino de história 17 As categorias históricas no processo de ensino- aprendizagem: uma abordagem interdisciplinar 26 O que é interdisciplinaridade? 26 As categorias históricas 28 Trabalhando a interdisciplinaridade 29 Amarrando as pontas: refletindo sobre a prática docente e as exigências 31 Dos objetivos da prática docente 31 Dos limites e desafios da prática docente 32 Das possibilidades na prática docente 33 Metodologia do Ensino de História 7 UNIDADE 03 Metodologia do Ensino de História8 Você sabia que o ensino de História além de obrigatório, é uma ferramenta fundamental não só para o desenvolvimento do senso de identidade de uma nação, mas para o desenvolvimento do senso crítico? Isso mesmo. A área de História faz parte Base Nacional Curricular Comum e é uma disciplina obrigatória dentre das áreas de “Ciências Humanas” (Ensino Fundamental) e de “Ciências Humanas e Sociais Aplicadas” (Ensino Médio). Sua principal responsabilidade é auxiliar o ser humano a desenvolver a noção de processo e compreender a multiplicidade do tempo dos povos. Além, disso a História ajuda a desenvolver a noção de que todo o ser humano é protagonista da sua vida e da vida do seu país. Sendo assim, ela pode ser uma ferramenta poderosa para tanto o desenvolvimento do senso crítico, como para a aceitação da diversidade. Daí a importância de se ensiná-la que garanta o pleno desenvolvimento destas habilidades. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO Metodologia do Ensino de História 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 3. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências pro issionais até o término desta etapa de estudos:1 Compreender a construção do saber histórico como fundamental para a formação da consciência crítica dos educandos na sociedade multicultural; 2 Aplicar os parâmetros curriculares nacionais no ensino de história; 3 Identificar e discutir os usos destes parâmetros dentro do ensino de História; 4 Executar abordagens interdisciplinares para as categorias históricas no processo de ensino-aprendizagem. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Vamos começar nossa desafiadora e estimulante jornada sobre o ensino de História Metodologia do Ensino de História10 O saber histórico e o saber histórico escolar: limites e possibilidades na prática pedagógica Ao término deste capítulo você será capaz de entender como funciona os limites entre o saber histórico e o saber histórico escola, e quais os limites e as possibilidades que te abrem dentro da sua prática pedagógica. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão, pois te auxiliará a buscar um meio termo entre rigor acadêmico e a clareza necessária ao se explicar para um público leigo, sem cair no risco de fazer uma exposição desnecessariamente complexa ou raza. E então? Motivado para encontrar o difícil caminho do meio? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO Dos limites e diferenças entre escola e universidade Vamos começar por algo bem óbvio que é estabelecer os limites entre estes dois espaços de conhecimento: a escola e a universidade. Por mais que ambos sejam espaços dedicados a transmissão de conhecimento e de importância para a sociedade, são espaços absurdamente diferentes entre si e com visíveis diferenças tanto de público quanto de finalidades. Se no primeiro estamos falando basicamente de um espaço onde crianças e adolescentes frequentam de forma compulsória para adquirir conhecimentos básicos e habilidades de socialização; no segundo temos um espaço com um público adulto frequentando de forma voluntária, com a finalidade de se profissionalizar em um ramo do conhecimento e ofício de alta complexidade e, muitas vezes, voltado para a pesquisa ou desenvolvimento de novas práticas e tecnologias.Metodologia do Ensino de História 11 Fora o fato das próprias finalidades das duas instituições, temos de um lado alunos com menor conhecimento e ainda em estágio de formação (tanto academicamente como na persona- lidade). Enquanto no outro, pressupõe-se que estejam lidando com indivíduos formados e com o mínimo de autonomia no estudo. Quando me refiro à autonomia, estou me referindo a capacidade em que o indivíduo teria de criar estratégias e rotinas de estudo com o mínimo de auxílio possível, bem como criar as mesmas lidando com os prazos da vida acadêmica versus suas responsabilidades cotidianas extracurriculares, ou seja é aquele que controla o próprio aprendizado. Por ora, ainda não discutirei aqui a questão de autonomia de pensamento Sendo assim, há diversos fatores para se levar em conta na hora de levarmos o conhecimento histórico que aprendemos no bancos da faculdade para o aluno da escola, seja ele do ensino fundamental, médio ou da EJA. Das diversidades internas do sistema escolar De acordo com a legislação vigente (a lei 9394/96), o nosso sistema escolar se divide em: Educação infantil (três anos), Ensino Fundamental (oito anos divididos em dois segmentos - o primeiro com cinco anos e o segundo com quatro anos) e Ensino Médio (três anos), conforme consta nos títulos III e IV da referida lei, além da educação de jovens e adultos que tem uma realidade bem particular, mas também é garantida no Título V, capítulo IV, seção V da mesma lei. DEFINIÇÃO Metodologia do Ensino de História12 Em outras palavras, o próprio sistema da educação básica já tem uma realidade múltipla em sua própria organização que tem que ser levada em pelo profissional na hora de se planejar sua aula. Das particularidades do educando do ensino básico O perfil do aluno do ensino básico, como já mencionado, é bem diferente. De acordo com a mesma LDB, o aluno da educação básica tem de quatro a dezessete anos (no caso específico de nós professores de História que lidamos com alunos de sexto ano do ensino fundamental até terceiro ano do ensino médio, são jovens de onze a dezessete anos em média). Figura 1 - Organograma resumindo a educação básica de acordo com a Lei 9394/96. O conhecimento histórico elaborado nas universidades não foi pensado para este aluno! Salvo aqueles pesquisadores que se debruçam sobre compreender os processos de ensino aprendizagem da disciplina ou aqueles que buscam entender ou desenvolver métodos para ensinar História, esse conhecimento produzido tem por alvo outro público bem diverso desse que será (e é a minha) realidade profissional diária. Sendo assim, o nosso papel como educadores é fazer uma ponte entre um conhecimento científico altamente complexo (mas absurdamente necessário Metodologia do Ensino de História 13 para a compreensão do sua realidade e a construção da cidadania e respeito da diversidade), para um público ainda em formação, porém em diferentes níveis. Isso vai nos levar a outros desafios: como criar a autonomia neste aluno e como simplificar sem tornar raso, e isso lidando com toda a diversidade desse contex Do desafio da autonomia Como aponta Vitor Henrique Paro (PARO 2011: 198) autonomia é uma questão no mínimo espinhosa. Se por um lado, é algo desejável por tornar o educando independente e senhor do seu processo de ensino-aprendizagem, por outro pode se chocar com uma proposta mais tradicional de ensino, pois nesta visão que o aluno é um mero receptáculo de conhecimento. Figura 2 - A autonomia é de extrema importância para o educando conseguir avançar no processo de ensino-aprendizagem. Fonte: wikimedia commons Vale lembrar que fatores extra escola tem muito influência podendo dificultar ou facilitar esta busca. Violência, indisciplina e problemas familiares podem ser outros complicadores que podem dificultar e muito o trabalho do educador. Como bem lembra o já citado o Vitor Henrique Paro (PARO, 2011: 204- 206), no ensino público estes problemas tendem a se agravar mais ainda (vale muito a pena você ler completo este artigo em que o Professor Paro estudou a questão da autonomia nas escolas públicas, caro futuro colega). Metodologia do Ensino de História14 Do desafio da diversidade Mais do que algo desejável ou possível a diversidade é tanto um desejo quanto um desafio e uma obrigação legal. Tantos os PCNs quanto À BNCC e a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação (a nossa famosa 9394/96) citam em alguma momento o respeito à diversidade com um dos objetivos do ensino de História. Além disso, o próprio ambiente da sala aula em si já é diverso. Nele temos alunos com diferentes vivências e crenças muitas vezes conflitantes (por exemplo, não é segredo para ninguém que muitas vezes as rivalidades entre facções criminosas de comunidades são levadas para os ambiente escolar pelos próprios alunos, além do que preconceitos religiosos dentre outros afloram no ambiente escolar). Tabela 1: Objetivos do ensino de História de acordo com a BNCC Ensino Fundamental II Ensino Médio Estimular a autonomia de pensamento Permitir aos estudantes elaborar hipóteses, construir argumentos e atuar no mundo, recorrendo aos conceitos e fundamentos dos componentes da área. Estimular a capacidade de reconhecer que os indivíduos agem de acordo com a época e o lugar nos quais vivem Aprofundar e a ampliar da base conceitual e dos modos de construção da argumentação e sistematização do raciocínio Perceber que existe uma grande diversidade de sujeitos e histórias e que esta percepção poder ser usada para estimular o pensamento crítico e a formação da cidadania estimular uma leitura de mundo sustentada em uma visão crítica e contextualizada da realidade, no domínio conceitual e na elaboração e aplicação de interpretações sobre as relações, os processos e as múltiplas dimensões da existência humana. Fonte: Adaptado de: http://bit.ly/34IxlER. Na BNCC, no ensino médio História faz parte do componente “Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas.” Metodologia do Ensino de História 15 Sendo assim, o trabalho do professor é muito mais do que um mero transmissor de conhecimento (ok, sei que você já leu isso antes cara futuro colega, mas nunca é demais relembrar) e tem que ajudar a desenvolver a autonomia e o respeito à diversidade, estimulando o pensamento crítico. E no quê isto vai afetar os limites do saber histórico com o saber histórico escolar? Muita coisa, já que o seu ensino vai ter que ser toda hora mediado por estes objetivos e, lembrando mais uma vez, o saber histórico construído fora dos bancos escolares não teve esse tipo de preocupação. Se fôssemos deixar esta discussão um pouco mais técnica poderíamos dizer que o primeiro seria uma “ciência pura” (aquela voltada ) e outro uma “ciência aplicada” (aquela voltada para o progresso tecnológico e econômico ou, como prefiro, focada em soluções para os problemas da sociedade). Não que o conhecimento gerado pelos pesquisadores universitários gere benefícios para a sociedade, muito pelo contrário. Mas, em se tratando do conhecimento histórico produzido pela a academia há um abismo muito grande entre ele e a sala de aula. Como professores nós temos a tarefa de pegar esse conhecimento altamente complexo e voltado para um público mais adulto e, em tese, já “formado” para essa plateia diversa e ainda em formação, de uma forma que os estimulem a desenvolver sua autonomia, sen.so crítico e respeito às diversidades. Para isso é necessário um misto de criatividade, bom senso e um conhecimento profundo não só da sua disciplina e da parte legal que envolve ela, mas principalmente da turma que você está lidando, e isso só a prática pedagógica que vai lhe dar. Ao longo da sua experiência no magistério você verá que o conhecimento dos seus educandos será o grande diferencial para você ser bem sucedido na profissão. A partir desse conhecimento é que você poderá quais os limites que você poderá cruzar entre este doisconhecimentos históricos tendo sempre como meta o que os parâmetros curriculares trazem, que será o nosso próximo item. Metodologia do Ensino de História16 E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o saber histórico e o saber histórico escolar são dois conhecimentos diferentes, apesar das suas semelhança. O primeiro é um conhecimento de “ciência pura”, voltado para a explicação da sociedade e voltado para uma audiência já formada. O segundo é um conhecimento mais próximo de uma “ciência aplicada” que visa, de acordo com os estabelecido na legislação vigente, ajudar na formação do pensamento crítico e do respeito à diversidade em uma audiência ainda em formação. Nesse contexto, o papel do professor é ser um mediador em entre o primeiro e sua audiência para construir o segundo e alcançar as finalidades estabelecidas. RESUMINDO Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: “Ciência Pura e Ciência Aplicada-A dicotomia entre pesquisa básica e pesquisa aplicada no cenário do desenvolvimento científico, tecnológico e econômico” (SAMPRONHA et ali), acessível pelo link http://www.rc.unesp.br/biosferas/Esp12-11.html (Acesso em 25/10/2019). Metodologia do Ensino de História 17 O ensino de história em discussão: os parâmetros curriculares nacionais e o ensino de história. Como dito anteriormente, é necessário o conhecimento da legislação vigente para se realizar um bom trabalho (ainda que seja assumindo uma postura crítica) e toda a documentação envolvendo o ofício do magistério. Uns desses documentos são os Padrões Curriculares Nacionais (PCN). Surgidos como material de apoio à Lei 9394/96, em seu texto de introdução que eles são “ orientar e garantir a coerência dos investimentos no sistema educacional, socializando discussões, pesquisas e recomendações, subsidiando a participação de técnicos e professores brasileiros, principalmente daqueles que se encontram mais isolados, com menor contato com a produção pedagógica atual (PCN, 1997: 13).” Então, os PCNs servem com uma espécie de guia para o professor de quais objetivos ele deve trabalhar na sua disciplina, dentro da realidade do ensino fundamental. Ele vem a reboque de uma série de mudanças que ocorreram no país e no mundo. A legislação anterior era de 1971 (Lei Federal n. 5.692, de 11 de agosto de 1971 - não por acaso, governo do Presidente Emílio Garrastazu Médici, cujo governo ficou conhecido como “Anos de Chumbo” da Ditadura Militar) e nove anos antes da promulgação desta lei, teve a promulgação da Constituição de 1988 (a “Constituição Cidadã”, primeira depois da redemocratização) e uma série de conferências internacionais sobre educação. Ou seja, ela está alinhada com todo um momento histórico de abertura política e de repensar a cidadania e o papel do cidadão, e o como a educação se encaixa nisso tudo. Sempre é bom refletir que, mais do que um direito do cidadão, a educação é uma política de Estado e representa os interesses dos governantes, além de refletir o momento histórico. Governos mais democráticos ou mais autoritários terão diferentes interesses para a educação. Reflita. Metodologia do Ensino de História18 O ensino de História dentro destes PCNs vai se encaixar da seguinte forma: “compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito;posicionar- se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas (...)” (PCN - História e Geografia, 1997: 5) Ou seja, os PCNs eles se alinham com os objetivos de autonomia, pensamento crítico e respeito à diversidade que estão incluídos na Lei 9394/96. Sendo assim, eles serviriam como um guia para os profissionais de educação alcançarem estes objetivos. Mais do que uma determinação do governo e uma lei que o professor tem que cumprir, os PCN são um documento histórico do momento da redemocratização do país. Representam uma época que, depois de o término de um ciclo de autoritarismo e reestruturação da república. E, como já dito anteriormente, a educação serve também como reflexo dos interesses do Estado. A educação, assim como outros setores, é uma política de Estado e reflete os interesses dos grupos dominantes. Não é por acaso que objetivos como respeito à diversidade e formação do pensamento crítico foram incluídos justamente no momento em que o país estava se redemocratizando. Metodologia do Ensino de História 19 Tabela 2: Estudo comparativo das LDBs. Lei 5692/71 Lei 9394/96 Primeiro grau com oito anos de duração Ensino fundamental com oito anos de duração Segundo grau com três anos de duração Ensino médio com três anos de duração Prevalecia o ensino tecnicista em que no atualmente chamado de médio formava profissionais a nível médio (técnico). Propõe uma reforma na formação profissional, em que o nível de formação deve passar à superior fazendo com que até então chamado de médio não servisse mais como requisito básico no mercado de emprego. Uso de disciplinas como “moral e cívica”, no primeiro grau e OSPB (Organização Social e Política Brasileira), no segundo grau com a intenção de estimular o patriotismo e o civismo. Exclusão de OSPB e “moral e cívica”, e inclusão de disciplinas como sociologia e filosofia no ensino médio, visando (junto com História e geografia) auxiliar na formação do pensamento crítico e compreensão da realidade social. Fonte: Adaptado de FERREIRA, Natália de Carvalho. Estudo comparativo das LDBs. Disponível em: http://pedagogiaaopedaletra.com/estudo-comparativo-das-ldbs/. Acesso em: 25/10/2019. Apesar de o tempo de escolaridade ter se mantido e, numa primeira olhada, parecer que a mudança maior foi na nomenclatura, uma observação mais apurada já demonstra algumas mudanças. A primeira mudança que podemos notar é a questão da mudança do foco de uma educação tecnicista para uma educação com um foco mais crítico, o que se refletiu também numa sutil mudança no currículo na exclusão das disciplinas “educação moral e cívica” e “OSPB” (respectivamente, no primeiro grau e no segundo grau) e a inclusão das disciplinas sociologia e filosofia, ambas no ensino médio. Por educação tecnicista, quero dizer uma educação puramente voltada para a transmissão de conhecimento e a formação de profissionais para o mercado de trabalho, sem uma reflexão mais profunda da realidade social e política. Metodologia do Ensino de História20 Até aqui, ok, mas você deve estar se perguntando: “E o quê isto tem a ver com o ensino de história?” Muito, meu caro futuro colega. Do momento que a própria lei estabelece como objetivo a formação crítica dos cidadãos e o respeito à diversidade, você já tem uma poderosa ferramenta em mãos para fugir do lugar comum de nomes, datas e heróis nacionais e buscar fazer uma proposta mais questionadora, sem correr o risco de ter problemas com os pais (acredite, isto pode acontecer). Por mais que possa soar absurdo, mas existem temas na disciplina de História que podem se tornar espinhosos dependendo da clientela ou responsáveis. Por exemplo, temáticas voltada para a cultura afro-brasileira (principalmente, a questão da religiosidade) podem ter resistência de alunos que venham de famílias neopentecostais, assim como temas como “O Golpe de 1964” podem causar atritos com escolas militares ou alunos com familiares militares. Para se livrar dessas situações, sempre mostre que a lei está do seu lado. IMPORTANTE Daí, a importância dos PCNs e da nova LDB. Mais do que uma guia para o professororientar o seu trabalho, essa documentação pode servir como uma espécie de “apólice de seguros” que podem lhe salvar de situações desagradáveis com alunos ou seus responsáveis. Mas como foram feitos os PCNS e, principalmente, qual a visão de História que se encaixa nele? De acordo com Silva et alli (2016: 47), os PCNs foram desenvolvidos a partir de um estudo preliminar de propostas curriculares de estados e municípios feito pela fundação Carlos Metodologia do Ensino de História 21 Chagas, a pedido do MEC. A partir destes estudos, foi feita uma “versão preliminar” que foi colocada para debate nacional. Para isso, foram feitas discussões entre professores universitários, representantes de secretarias municipais e estaduais de educação, entre outros profissionais do ramo e a partir daí, gerados dois documentos: os PCNs do ensino fundamental e os PCNs do ensino médio. Como um todo os parâmetros buscaram uma abordagem interdisciplinar, valorizando temas transversais. Dentro da disciplina de História, a linha que ficou predominante foi da “História Nova”, mas precisamente a parte ligada à História do cotidiano, micro e macro-história. Também conhecida como “terceira geração dos Annales”, o movimento da “História Nova” (também chamado de “Nova História Cultural” ou “Nouvelle Histoire”), foi um movimento de historiadores franceses surgido após os protestos de maio de 1968. Este grupos de historiadores tentavam entender o papel da cultura e das estruturas de mentalidade dentro das mudanças históricas. Para isso era fundamental também compreender o papel de grupos marginalizados e minoritários, o que a fez também ser conhecida como “História dos vencidos”. Para maiores informações, veja Burke, 1997: 79 -108. DEFINIÇÃO Sendo assim, os PCNs abrem um leque imenso de possibilidades para se trabalhar diversas possibilidades históricas. Uma das mais ricas é se utilizar dos conteúdos de micro-história e História dos vencidos para se trabalhar propostas de como o aluno pode se reconhecer como agente da história. Principalmente na rede pública, a presença de grupos Metodologia do Ensino de História22 tradicionalmente marginalizados em sala de aula é certa. Numa perspectiva uma História tradicional (mais cara ao paradigma da escola metódica) de grandes nomes e fatos, pode causar pouca identificação aos alunos. Para “ajudar” mais ainda, tradicionalmente, História é uma disciplina que tem uma carga horária menor do que outras disciplinas como matemática e língua portuguesa (para se ter uma ideia, na rede municipal do Rio de Janeiro, responsável pelo ensino fundamental, História conta com três tempos de cinquenta minutos por semana e a rede estadual, responsável pelo ensino médio, conta com dois tempos por semana). Ou seja, mais um complicador é adicionado a já nada fácil vida do magistério. A escola metódica foi um movimento surgido na França, liderados pelos historiadores Gabriel Monod e Gustave Charles Faganiez que fundaram a revista Revue Historique, em 1876. Influenciados pelo historiador alemão Leopold von Ranke, eles buscavam fazer uma História científica, valorizando a documentação escrita e focando nos grandes fatos históricos e nomes, pois era uma História que buscava também servir como elemento de coesão nacional. Para maiores informações ver Fontana, 2004: 171-198. Esse assunto será melhor abordado adiante, mas apontarei aqui algumas estratégias que podem lhe ajudar nessa tarefa. Uma saída (inclusive sugerida na própria LDB e no PCN) é trabalhar com a História local. Vivemos num país com uma riqueza cultural imensa e que respira História, apesar desconhecida por uma parte considerável da população. Então, a história local/regional pode ser uma poderosa ferramenta para criar esse elo. Nos exercícios e outros materiais detalharei melhor, mas vou colocar aqui um exemplo baseado na minha realidade para dar um auxílio. Atualmente, dou aula em Bangu, um bairro da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Um bairro não exatamente “glamuroso” e longe da praia, mas que foi primordial para a História do futebol do país. Metodologia do Ensino de História 23 Surgido a partir da fusão de duas fazendas, o bairro foi fundado em 1890 para receber uma fábrica de tecidos que levou o nome do bairro: a Fábrica de Tecidos Bangu, que hoje é um shopping center que lava o nome do bairro. Figura 3 Fonte: wikimedia commons O que pouca gente sabe é que este bairro e o canteiro desta fábrica foram palcos da primeira partida de futebol no Brasil. Muito antes do paulistano Charles Miller, o escocês Thomas Donohoe realizou a primeira partida no canteiro dessa fábrica. Figura 4 Fonte: wikimedia commons E a partir da pelada de Donahue é que foi formado o Bangu Atlético Clube, de onde saiu Domingos da Guia, craque da Copa do Mundo de 1938. Metodologia do Ensino de História24 Figura 5 Fonte: wikipedia Essa História está toda contada pelas ruas do bairro na forma de estátuas e instalações do clube, além da imponente presença do prédio da antiga fábrica, que hoje é o shopping center do bairro. Isso tudo fornece um material riquíssimo para ser trabalhado que variam desde atividades mais lúdicas como colorir o brasão do bairro (ideal para turmas de primeiro segmento ou de sexto ano), até pesquisas mais profundas para as turmas maiores. Isso tudo perfeitamente alinhado com os objetivos de valorizar a história local/regional, como também manda os PCNs e a LDB. E aí, ficaram curiosos sobre a importância de Bangu para a História do futebol brasileiro? Você pode saber mais sobre esse tema no blog do meu amigo e colega de trabalho, o professor de Educação Física Rogério Melo (http://blogdorogeriomelo.blogspot.com) ou na própria página oficial do Bangu Atlético Clube (https://www. bangu-ac.com.br/). No YouTube também tem um vídeo bem bacana cahamdo “Bola para o Seu Danau” (https://www.youtube.com/ watch?v=WvswFeQUBOQ) com uma dramatização da primeira partida e um pouco da História por trás dela. Agora, bola pra frente! SAIBA MAIS Metodologia do Ensino de História 25 O exemplo é para mostrar como com um pouco de pesquisa e criatividade você pode se alinhar aos PCNs e tentar despertar um pouco da paixão que nós sentimos pela História (e quem sabe talvez até descobrir um futuro colega nosso. Acredite, mesmo sem querer podemos inspirar). Portanto, estude, pesquise, pense e use sua criatividade. RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o saber Parâmetros Curriculares Nacionais são orientações para o trabalho do professor e estão alinhados com os objetivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96, de estimular o pensamento crítico, o respeito à diversidade e o ensino da História local/regional. Que tanto os PCNs quanto a LDB são fruto de um momento histórico tanto nacional, que foi o processo de redemocratização, como internacional, que foram discussões internacionais como a Conferência Mundial de Educação para Todos, em Jomtien, em 1990. Você também deve ter aprendido que mais que um guia, os PCNs e a LDB podem servir como documentos para o professor se resguardar em possíveis momentos delicados com alunos e responsáveis. E, por último, você deve ter aprendido que a história local/ regional pode ser uma poderosa aliada para despertar o interesse dos alunos pela matéria, desde que você use de pesquisa e criatividade. Metodologia do Ensino de História26 As categorias históricas no processo de ensino-aprendizagem: uma abordagem interdisciplinar Então, meu caro futuro colega, a medida que nos aproximamos do final (estamos na nossa penúltima unidade) vamos olhar detalhadamente para a nossa disciplina e sua prática de sala da aula, ainda com aquela velha pergunta do início desta unidade nesta: como adaptar esse conhecimentoaltamente técnico e complexo para a realidade da nossa clientela, e respeitando os objetivos de incentivar a diversidade e o desenvolvimento do senso crítico, dentre outros que já discutimos? Para isso pretendo aqui mesclar um pouco de prática e teoria para nós refletirmos (eu e você meu caro leitor) do que são certos conhecimentos mais técnicos da nossa área e da própria pedagogia, e tentar revertê-las em exemplos de como podemos trabalhar em sala de aula. Para isso vamos discutir individualmente o que são as categorias históricas, o que é a interdisciplinaridade e depois pensarmos o como vamos trabalhar em sala. O que é interdisciplinaridade? Para quem acompanha as discussões sobre educação há algum tempo, a palavra interdisciplinaridade com certeza já apareceu em algum artigo ou outro material sobre o assunto. Para mim, que comecei a faculdade nos fins do anos 1990 (agosto de 1997, para ser mais preciso), ela começou a aparecer na minha vida acadêmica nas aulas da disciplina “Metodologia da História I”, onde comecei a dar meus primeiros passos acerca de refletir sobre o que é a ciência histórica (e também o que é a ciência, em si), como fazer resenhas críticas, fichamentos, etc. O primeiro texto que a nossa professora nos mandou ler foi “Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna”, do pensador Boaventura de Sousa Santos. Metodologia do Ensino de História 27 Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick, tem vários livros e artigos publicados em temas como metodologia científica das ciências humanas, globalização, sociologia do direito, epistemologia, democracia e direitos humanos. Maiores detalhes sobre sua obra podem ser vistos no site http://www. boaventuradesousasantos.pt. Nesste texto, escrito no final dos anos 1990, o Professor Boaventura nos falas de uma série de mudanças no referencial do que são as ciências (ou num jargão mais técnico, no “paradigma científico“). Boaventura não chega ser tácito ao afirmar o que será esse novo paradigma, pois para ele o mesmo ainda se encontra em formação (que aqui será chamdo de paradigma pós-moderno), mas faz algumas afirmativas e comparações com o paradigma vigente da época (que será chamado aqui de Paradimga Moderno). Eu sintetitizei esse pontos na tabela abaixo. Tabela 3: Paradigmas Paradigma Moderno Paradigma Pós-moderno Influência do Iluminismo Influência de Hegel e Heidegger Aceita a diversidade interna, porém com fronteiras bem demarcadas entra as ciências Fim da fronteira entre ciências naturais e sociais Visão determinista Visão não-determinsita Adaptado de Santos, 1998: 50-54,59-71]] Foi a partir deste texto que tomei com os conceitos de interdisciplinaridade e de transdisciplinaridade. Explicando muito rapidamente, interdisciplinaridade será um intercâmbio entre saberes diferentes mas ainda mantendo a hierarquia entre as disciplinas. Já a transdiciplinaridade explodiria com isso tudo, gerando novas disciplinas onde você não veria mas essa fronteiras. Se no primeiro caso poderíamos falar por exemplo de Metodologia do Ensino de História28 uma geografia histórica, ou História geográfica, no segundo caso disciplinas como Biologia molecular estreitariam esta fronteiras entre química, física e biologia. Para entender um pouco melhor sobre essa diferenças, veja a entrevista filósofo Ivan Domingues para a revista Diversa em https://www.ufmg.br/diversa/2/entrevista.htm. É dentro dessa primeira perspectiva que trabalharemos agora: a de construída uma abordagem histórica, se valendo de outras disciplinas, mas sem jamais perder a História do horizonte. Não por caso, trabalharemos categorias históricas. As categorias históricas Como toda ciência, a história tem noções específicas dentros do seu campo que são obrigadas se compreendê-la. Categorias permanência, mudança, diacronia (eventos que ocorrem em sucessão), sincronia (eventos que ocorrem ao mesmo tempo) e anacronismo (um juízo inadequado feito de um tempo presente feito uma determinada época passada), além do nome de ideologias políticas, períodos históricos, etc. O canal do YouTube “Leitura Obrigahistória” tem uma série de vídeos bem bacanas sobre conceitos históricos. Você pode conferir o playlist em http://bit.ly/2PFFpSB , acessado em 31/10/2019. ACESSE Nem todos esses conceitos são de familiaridade de todos (para ser sincero, quase nenhum o é), porém são fundamentais para o correto entendimento dos conteúdos da nossa disciplina, além de uma forma conseguirmos os objetivos determinados pelo governo. Sendo assim o uso de outras disciplinas pode se tornar um facilitador. E sobre isso que será o próximo item. Metodologia do Ensino de História 29 Trabalhando a interdisciplinaridade Esta parte agora buscarei ser menos técnico e falar mais de propostas concretas que consegui construir ao longo da minha experiência tanto como professor, como aluno. Sempre é bom começar pela parte mais fácil e, na maioria das vezes, quando se fala em uma ciência/disciplina próxima para se trabalhar com História, geografia costuma a ser a primeira opção. Realmente, mapas costumam a ser uma mão na roda para se trabalhar, por exemplo, as noções de permanência e mudança, como vemos no site (https://www.vox. com/world/2018/6/19/17469176/roman-empire-maps-history- explained) que disponbiliza quarenta mapas que explicam o Império Romano. Não só permanência e mudança, mas questões como diacronia e sincronia podem ser muito bem trabalhadas ao se mostrar que o avanço do Império Romano foi fruto tanto de sequências de campanhas militares ocorrendo ao longo de séculos, quanto de batalhas simultâneas. Figura 6 Fonte: http://bit.ly/2Q4l0FL. Acesso em: 31/10/2019. Não só a música como o cinema, a literatura e até as artes plásticas podem ser importantes ferramentas para você usar aliadas na construção do conhecimento histórico. No EJA Metodologia do Ensino de História30 (Educação de Jovens e Adultos), por exemplo, a partir do ano que vem começaremos a trabalhar com eixos temáticos que permeiam todas as matérias que são, trabalho, cultura e meio ambiente, que perpassarão todas as disciplinas, o que nos levará a usar e abusar de interdisciplinaridade no nosso dia-a-dia. Para entender um pouco melhor como funciona a Educação de Jovens e Adultos aqui no Rio de Janeiro, acesse: http://prefeitura. rio/web/sme/exibeconteudo?id=9272643. ACESSE Portanto, meu caro futuro, use da criatividade e diálogo. Não se isole! Discuta com seus colegas, elabore os seu projetos e pense fora da caixa. E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a interdisciplinaridade é uma tendência muito em voga desde o final do século XX e que ela tem a ver com uma mudança no paradigma científico onde as disciplinas antes isoladas começaram a se aproximar. Você deve ter aprendido que, ao contrário da transdisciplinaridade, a interdisciplinaridade incentiva o diálogo e a importação de conceitos entre as disciplinas, mas sem quebrar com as fronteiras entre os saberes. Você também deve ter aprendido que a interdisciplinaridade pode ser uma importante ferramenta para te ajudar a trabalhar categorias históricas como permanência, mudança, anacronismo, dentre outras, te obrigando a pensar fora da caixa e a dialogar com seus colegas de outras disciplinas. Metodologia do Ensino de História 31 Amarrando as pontas: refletindo sobre a prática docente e as exigências Agora, meu caro futuro colega, que já estudamos acerca de algumas leis que envolvem nosso ofício, dos objetivos que as mesmas determinam e de possíveis formas de usarmos outras disciplinas (e o auxíliode outros colegas) para tentarmos alcançar estes objetivos, cabe agora tentar amarrar isto tudo em uma reflexão sobre a prática em sala. Para isto é bom retornarmos e pensarmos sobre os objetivos, os limites e as possibilidades que se abrem. Dos objetivos da prática docente Como já falamos algumas vezes, os principais objetivos do ensino de História, dentre outros, são: Ensino Fundamental Ensino Médio compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas; compreender a sociedade, sua gênese e transformação, e os múltiplos fatores que nela intervêm, como produtos da ação humana; a si mesmo como agente social; e os processos sociais como orientadores da dinâmica dos diferentes grupos de indivíduos; conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noção de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinência ao país; compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando- as às práticas dos diferentes grupos e atores sociais, aos princípios que regulam a convivência em sociedade, aos direitos e deveres da cidadania, à justiça e à distribuição dos benefícios econômicos; Metodologia do Ensino de História32 conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais; traduzir os conhecimentos sobre a pessoa, a sociedade, a economia, as práticas sociais e culturais em condutas de indagação, análise, problematização e protagonismo diante de situações novas, problemas ou questões da vida pessoal, social, política, econômica e cultural; Fonte: http://bit.ly/2s5svV5 e http://bit.ly/2ZfZLFq Se nós fôssemos resumir os objetivos, poderíamos dizer que, em ambos os segmentos, o ensino de História visa a formação de um cidadão crítico e consciente da realidade histórica e cultural do país. Esses objetivos têm que estar permeando o tempo todo a nossa prática pedagógica, ou seja, as nossas aulas e atividades tem que estar sempre direcionadas para estas metas. Dos limites e desafios da prática docente Além dos limites óbvios como as diferenças de idade de cada segmento, limitações individuais dos alunos, limitações de estrutura física da escola (infelizmente, nem todas escolas contam recursos multimídias como aparelhos TV, áudio ou de DVD, projetores, caixas de som, etc.; e às vezes esta estrutura está precarizada seja por má conservação, seja por quantidade insuficiente para todos os profissionais), há ainda outros complicadores como: � carga horária desigual e má distribuída, que pode limitar as possibilidades de atividades a serem realizadas em sala de aula; � resistência por parte dos alunos ou de seus pais devido às suas convicções como crenças religiosas, orientações políticas, etc. Metodologia do Ensino de História 33 � resistência por parte de direções ou do projeto pedagógico da escola que muitas vezes pode estar mais focado a servir como preparatório para provas como ENEM, etc. � escolas localizadas em zona de conflito ou que tenham alunos que levem conflitos de fora da escola para dentro do ambiente escolar Esses são apenas alguns dos complicadores que se apresentam dentro da prática docente. Porém, dizem que o otimista costuma ver oportunidades onde o pessimista vê complicações e se por um lado, num primeiro momento os complicadores acima podem limitar nossa ação, por outro podem servir como um estímulo a nossa criatividade, abrindo novas possibilidades. Das possibilidades na prática docente Lembre-se que os PCNs e a LDB são instrumentos legais. Logo, tenha sempre eles em mão para caso ocorra alguma emergência. Se você for questionado, mostre que você só estava cumprindo a lei. Sempre use também do seu bom senso e criatividade. Evite criar aborrecimentos desnecessários e/ou prejudicar sua carreira. Se você ver que uma atividade não teve o retorno esperado ou causou uma agitação desnecessária ou desproporcional, não tenha medo (ou vergonha) de repensar, replanejar ou, até mesmo, desistir e esperar um momento oportuno. O universo escolar é extremamente rico, variado e imprevisível. Então, erros, improvisos e correções de rumo sempre são necessários, por mais que se tenha planejado à exaustão. Aliás, sobre os imprevistos, aprenda a lidar com eles. Eles serão uma constância em sua vida como docente. Sobre a carência da estrutura, bom, você pode ter duas opções para trabalhar com isso: ou suprir por conta própria com recursos que ache relevantes, ou se limitar às possibilidades que Metodologia do Ensino de História34 a escola lhe oferece. Particularmente, eu tentei ficar num meio termo, me municiando de cabos, extensões e fazendo um acervo próprio de DVDs que eu podia levar para qualquer escola que eu desse aula ou aproveitar até em casa mesmo. Esse último item, deixo com você, pois só ninguém conhece melhor seus limites e possibilidades do que você. Sobre a resistência de direções autoritárias e/ou projeto pedagógico, bom tente na medida do possível negociar e chegar num meio termo, sem colocar seu emprego em risco (principalmente, se você estiver na rede particular ou ainda estiver no estado probatório na rede pública). No caso de grandes redes com projeto políticos pedagógicos amarrados e um foco para provas como ENEM, realmente pode ser que você não tenha muito o que fazer. Geralmente, essas grandes redes tem apostilas já prontas, provas padronizadas e toda uma “receita” a ser seguida estabelecida pela matriz e definida pelo projeto político e pedagógico da rede. Porém, o ENEM pode se tornar o seu maior aliado na hora de tentar fazer uma proposta voltada para a formação de um cidadão crítico e tolerante. Sendo uma prova elaborada pelo governo (mais precisamente o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP, autarquia vinculada ao Ministério da Educação do Brasil, criada em 1998), ela é alinhado aos PCNs e a LDB; isso sem falar que a prova de redação costuma a tocar em temas polêmicos como a questão da manipulação de pessoas pela internet. http://bit.ly/2Sc5Lxu, acesso em 01/11/2019. ACESSE Metodologia do Ensino de História 35 E, para finalizar, lembre acima de tudo que “a educação é um ato de amor, por isso um ato de coragem” (FREIRE, 1974: 46). Quando nós amamos, nossa colocamos vulneráveis e nossa paciência é colocada sempre à prova e, acredite, nessa profissão isso acontecerá contigo constantemente. Então, ame sua profissão, seus alunos e colegas, mas não deixe de se amar também. Desafie os seu limites, mas lembre que eles existem e se eles não podem ser expandidos, respeite-os. Metodologia do Ensino de História36 BIBLIOGRAFIA BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia. São Paulo: Unesp, 1997. Domingues, Ivan. Humanidade Inquieta, IN: Diversa Revista da Universidade Federal de Minas Gerais Ano 1 - nº. 2 - 2003. Disponível em: http://bit.ly/2SbFeAq. Acesso em: 31/10/2019. FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. FONTANA, Josep. A história dos homens. Bauru: EDUSC, 2004. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em 25/10/2019. PARO, Vitor Henrique. Autonomia do educando na escolafundamental: um tema negligenciado. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 41, p. 197-213, jul./set. 2011. Editora UFPR. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/er/n41/13.pdf, acessado em 25/10/2019 SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Estudos Avançados, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 46-71, Ago. 1988 . Disponível em: http://bit.ly/34zQHw0. Acessado em: 31/10/2019. SAMPRONHA, STEPHANIE; GIBRAN, Fernando Z.; SANTOS, Charles M. D. Ciência Pura e Ciência Aplicada-A dicotomia entre pesquisa básica e pesquisa aplicada no cenário do desenvolvimento científico, tecnológico e econômico. Jornal Biosferas ED. ESPECIAL 2012: A Biologia como Ciência e a Biologia como Profissão. São Paulo: UNESP, 2012. Disponível em: http://www.rc.unesp.br/biosferas/Esp12-11.html, acessado em 25/10/2019. Metodologia do Ensino de História 37 Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental. Brasília: MEC, 1997. Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental vol.5 - História e Geografia. Brasília: MEC, 1997. Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio. Brasília: MEC, 2000. SUMÁRIO UNIDADE 4 Livros didáticos de história para as séries iniciais do ensino fundamental: entre propostas estimulantes e abordagens tradicionais ........................................................12 O papel do PNLD no mercado editorial e no Ensino de História ...... 12 Como se processa a seleção e as compras no PNLD ......14 O Guia do Livro Didático .................................................15 Verticalização e pulverização ...................................................16 Avaliando o PNLD ...................................................................16 Identificando e diferenciando os diversos tipos de material didático ....................................................................................19 Identificando os materiais didáticos .........................................19 Conceito de Suporte de Informação .................................20 A definição de documento ................................................21 A tradição e a modernidade na sala de aula .............................23 O difícil caminho do meio .......................................................23 Aprendendo com a própria experiência ............................25 Achando o caminho e prosseguindo a viagem .........................28 O livro didático entre propostas tradicionais e inovadoras no século XXI ...............................................................................30 O papel da pedagogia crítica e da internet ...30 Metodologia do Ensino de História 7 A Internet e os livros didáticos .........................................32 A reação das editoras e o efeito da Internet ......................32 O livro didático nos anos iniciais do ensino fundamental .......34 História para crianças ...............................................................34 A organização do nosso sistema educacional ...................36 A importância dos anos iniciais na construção de um cidadão crítico ..................................................................37 Cidadão critico, consciente e tolerante ....................................38 Elaborando seu próprios materiais ......................................41 Por que o professor deve saber desenvolver seus materiais? ...41 Delimitando os objetivos ..................................................44 Analisando e disponibilizando os recursos ......................45 Administrando o tempo e analisando o perfil da turma ....45 Construindo exemplos .............................................................46 A batalha do passinho ..............................................................47 Avaliando os resultados ....................................................48 A Avaliação digital de História e Geografia .............................49 Avaliando os resultados ....................................................50 Metodologia do Ensino de História 9 UNIDADE 04 Metodologia do Ensino de História10 Você sabia que os livros didáticos são um campo de discussão extremamente profícuo? Isso mesmo. A área de didática vem discutindo o papel do livro didático desde sempre. Com a principal responsabilidade de servir tanto de materia de apoio para o professor como referência para o aluno, ele tem tido seu papel discutido nos últimos anos. Com as mudanças feitas pela LDB 9394/96 e pelos PCNs, além da ascenção da Internet, as editoras tem se esforçado para atender às demandas da atualidade e manter o livro didático como material relevante, até porque ele tem enfrentado concorrência de diversos meios digitais e analógicos. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo dos recursos didáticos! INTRODUÇÃO Metodologia do Ensino de História 11 1 2 3 4 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 4. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: Compreender como funciona o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático); Aplicar as técnicas de seleção de materiais e livros didáticos; Identificar e solucionar problemas relacionados a materiais desatualizados ou formalmente incorretos; Executar os procedimentos de adequação e crítica para quando ocorrer a situação acima. Então? Está preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Vamos começar nossa desafiadora e estimulante jornada sobre o ensino de História. Metodologia do Ensino de História12 Livros didáticos de história para as séries iniciais do ensino fundamental: entre propostas estimulantes e abordagens tradicionais OBJETIVO Ao término deste capítulo você será capaz de entender como funciona Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. Este programa ele distribui livros para escolas públicas e, para isso define critérios que são utilizados por editoras de todo o país. Então vamos lá. Avante! O papel do PNLD no mercado editorial e no Ensino de História O livro didático sempre teve um papel ambíguo na sala de aula. Visto como uma “amarra” para uns e uma ferramenta indispensável para outros, ele faz parte do cotidiano de educadores e educando há bastante tempo. Como diversos outros elementos materiais e imateriais da escola e do processo de ensino-aprendizagem, ele representa concepções históricas e ideológicas do período e da instituição onde este processo ocorre. Sendo assim, é normal que ele sofra diversas alterações ao longo dos anos. Seja pela natural processo de atualização e evolução do campo científico, seja pela interferência do Estado atuando na educação. Como a educação é um setor estratégico alvo de interesse público, ela é constantemente alvo de políticas públicas que representam as concepções de governo e sociedade. Tanto se adequar a tais mudanças, editoras e autores vão constantemente atualizar e revisar seu materiais como forma de se manterem relevantes dentro do mercado. Nos últimos anos, o grande Metodologia do Ensino de História 13 termômetro deste mercado tem sido o Programa Nacional de Distribuição de Livros Didáticos (PNLD). Voltado para a educação básica, este programa compreende um conjunto de ações voltadas para a distribuição de obras didáticas, pedagógicas e literárias, entre outros materiais de apoio à prática educativa nas escolas públicas de educação básica do País. Dado o tamanho da rede pública (ainda insuficiente para cobrir nossos 8.511.165 km² e nossa população de mais de 20 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar) do nosso país, as editoras tem se esforçado em se adequar aos padrões exigidos pelo MEC, via LDB 9394/96 e pelos PCNs. Para se ter uma ideia da importância em números deste programa, de acordo com o site oficial do programa (fnde.gov.br) em 2019 foram gastos cerca de R$1.102.025.652,17. Destes valores, cerca de R$ 615.852.107,23 com os anos iniciais do ensino fundamental, beneficiando 12.189.389 alunos, distribuídos por 92.467 escolas em todo território nacional. Só por estes números podemos ver que ele está longe de ser algo desprezível para um setor que pelo quinto ano seguido registra queda como podemos ver na matéria no link: https://bit.ly/39iz0Vh. ACESSE Não nos esquecemos que, para além da importância para o mercado editorial, o PNLD tem uma grande importância em garantir acesso aos livros a alunos de famílias de baixa renda, tradicionalmente a principal clientela do ensino público. Com a obrigatoriedade do ensino a partir dos anos 1980 e as diversas iniciativas tentando universalizar o acesso ao ensino público, https://bit.ly/39iz0Vh Metodologia do Ensino de História14 fornecer o material didático entre outras políticas se tornou uma questão chave para garantir a permanência dos mais carentes. Para compreendermos de fato o como funciona o PNLD e o seu impacto, precisamos entender o como se dá o processo de compra e distribuição, como as escolas participam e, principalmente, a escolha dos livros. Entendendo esses processos você poderá ter uma visão melhor de qual é o impacto deste programa e, principalmente, pensar melhor suas escolhas quando chegar o momento de selecionar o livro para sua turma. Como se processa a seleção e as compras no PNLD O processo de escolha dos livros para serem comprados é um processo que obedece a várias etapas. Para as editoras a primeira etapa é se inscreverem num edital do governo. SAIBA MAIS Edital é um ato escrito em que são apresentadas determinações, avisos, citações e demais comunicados de ordem oficial. No caso específico do PNLD, dentro do edital são estabelecidas todas as condições para a editora participar e o conteúdo exigido dos livros. Você pode acessar estes editais em: https://bit.ly/2SCFtER. Em outras palavras, a cabe ao governo federal determinar quais os critérios mínimos para que os livros possam participar da seleção pública que será encaminhada às escolas. Esses critérios são usados Guia do Livro Didático os livros aprovados são reunidos. https://bit.ly/2SCFtERhttp:// Metodologia do Ensino de História 15 O Guia do Livro Didático Elaborado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o Guia do Livro Didático é um manual que consta com os livros aprovados enviado pelas editoras e que os professores das escolas de educação básica deverão escolher. Lá constam os livros aprovados na triagem feita pelo MEC, com a nota dada a cada um na avaliação feita pelos especialistas do Ministério. O guia faz parte de um processo de onze etapas que envolve o programa, conforme mostra o diagrama abaixo. Figura 1: Organograma das estapas do Programa Nacional do Livro Didático Fonte: Editorial Telesapiens Adaptado de: https://bit.ly/3643SH0 1. Adesão das Escolas 7. Pedido 2. Lançamento de Editais 8. Aquisição 3. Inscrições das Editoras 9. Produção 4. Triagem/Avaliação 10. Análise de Qualidade Física 5. Guia do Livro 11. Distribuição 6. Escolha 12. Recebimento Como vimos o Guia ele é uma parte central da engrenagem, pois ele que orienta a escolha dos professores. Uma vez de posse do guia, professor vai avaliar as suas opções e determinar a escola. Normalmente, as editoras enviam amostras para as escolas e até vendedores para explicar, pois cada vez mais os livros estão virando uma ponta em todo um sistema de ensino mais amplo, fornecido pela editora (falaremos melhor mais adiante). A escolha https://bit.ly/3643SH0 Metodologia do Ensino de História16 mais votada pela área, será a escolha daquela escola. Se por um lado, há um ponto positivo que é a parte de ser uma escolha democrática feita pelos especialistas da escola, há também um ponto negativo, e será este balanço que será feito no item a seguir Avaliando o PNLD Como mostrado, o PNLD é um programa bem amplo e que está presente em todas as regiões do país. Para além da questão da importância econômica para o mercado editorial, ele é um programa que inclui milhões de aluno que não teriam como ter acesso ao material por razões financeiras e valoriza a opinião do professor. Porém, nada é perfeito e sempre há um detalhe a ser analisado. Não é porque tem pontos negativos que o programa deve ser extinto. É inegável que ele tenha benefícios palpáveis em tornar acessível o conhecimento para alunos de baixa renda. Porém, o preço da liberdade é a eterna vigilância e críticas bem-feitas sempre são necessárias para melhorar o processo. IMPORTANTE Sendo assim, vamos falar de dois principais problemas que encontro nele que são a verticalização das decisões e a pulverização do material. Verticalização e pulverização Como já dito o PNLD é bem amplo e possui diversas etapas, onde os professores da educação básica tem um determinado momento em que participam que é o da escolha. Por mais que seja extremamente positivo, isto implica em alguns problemas, que tentei resumir na tabela abaixo. Metodologia do Ensino de História 17 Tabela 1:Pontos positivos e negativos do PNLD Fonte: O Autor Positivos Negativos Democratização no acesso ao livro didático Centralidade na elaboração do Guia Maior transparência no processo de escolha Ausência de espaço para os professore participarem do guia Valorização da opinião do professor Pulverização de títulos, fazendo com que escolas da mesma rede tenham livros diferentes O professor basicamente só participa de um momento. Ele nem sugere o livro para o Ministério, nem ajuda a determinar os critérios. Isso fica a carga de uma comissão à parte que numa reunião técnica decide e posteriormente faz um triagem do material recebido. Outro problema é que devido ao fato de cada escola escolher independentemente qual título vai utilizar, isso acaba levando a uma pulverização de títulos dentro da mesma rede. Não que isso seja totalmente ruim, pois cada escola tem o seu projeto político e pedagógico, daí a necessidade de se ter a liberdade para escolher o livro mais adequado. Porém, com esta pulverização as vezes ocorrem problemas para se conseguir exemplares para todos os alunos. O número de alunos de uma escola nunca é fixo e ocorrem flutuações diversas ao longo do ano por diferentes razões (mudanças de endereço, transferência por indisciplina, etc). Com isso, as vezes ocorrem problemas até para se conseguir exemplares em outras escolas, por conta de que muitas vezes adotam outros livros. Mesmo assim, o programa é de grande validade e merece ser aperfeiçoado e mantido. Metodologia do Ensino de História18 Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: “O papel do guia dd livro didático de história/pnld no processo de escolha dos livros pelos professores dos anos finais do ensino fundamental” (MORAES & GARCIA), acessível pelo link: https://bit.ly/360YILW. SAIBA MAIS E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o Programa Nacional do Livro Didático e um programa instituído pelo MEC que distribui livros para todas as escolas públicas de educação básica do país e que ele tanto funciona como uma importante fonte de renda para as editoras, como uma forma de democratizar o acesso à educação para milhões de alunos de baixa renda. Você deve ter comprendido que o programa se compões de doze etapas indo desde à inscrição das editoras e à entrega dos livros e que o professor é uma peça chave deste processo. É ele quem escolhe os livros a partir do Guia do Livro Didático, que é elaborado pelo MEC após uma triagem feita a partir do material feito pelas editoras. Você também deve ter aprendido que se o programa por um lado democratiza o acesso aos livros e dá uma maior transparênciaao processo de escolha, por outro ele concentra algumas etapas chaves no MEC (como a elaboração dos critérios para ser incluído no Guia e a elaboração do próprio Guia) e leva uma pulverização de títulos diversos dentro de uma mesma rede (o que leva à dificuldades em caso de transferências de alunos ao longo do ano letivo). https://bit.ly/360YILW Metodologia do Ensino de História 19 Identificando e diferenciando os diversos tipos de material didático OBJETIVO Ao término deste capítulo você será capaz de entender os diversos tipos de material de materiais didáticos, seus usos e limitações. Isso será fundamental para você conseguir melhor selecionar os materiais para a atividade ou curso que você planejou. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! Identificando os materiais didáticos No trabalho docente é preciso a todo o momento realizar criteriosas seleções. Dado a responsabilidade que temos em mãos, futuro colega, é preciso termos consciência absoluta dos objetivos, público e materiais disponíveis. Para isso temos de ter conhecimento de todas as distinções e definições que envolvem nosso ofício. E uma delas é a diferença entre material e suporte didáticos. De acordo com a autora Circe Bittencourt (BITTENCOURT, 2008: 296-299) é preciso diferenciar o que no material didático o que é suporte informativo e documento. Você ter consciência dessas definições permitem identificar as finalidades, potencialidades e limitações de cada um. Uma vez tendo consciência disso, ficará mais fácil você planejar selecionar os materiais para as suas aulas e atividades, pois uma vez consciente das finalidades, potencialidades e limitações de cada, você poderá direcionar melhor o que utilizar, de acordo com o resultado que deseje. No trabalho docente é preciso fazer criteriosas seleções de materiais e suporte. Metodologia do Ensino de História20 A primeira definição que temos que ter em mente é qual o papel do material didático e qual sua importância no processo de ensino aprendizagem. A resposta é que eles são mediadores e facilitadores neste processo. Os materiais didáticos eles auxiliam na compreensão dos conceitos, na proficiência de informações e de um vocabulário específico da disciplina. Com isso eles facilitam, mas não substituem o nosso trabalho, pois no final de tudo, é o crivo do professor que deve determinar o que será utilizado. O material ele é produzido de forma genérica e voltado para o professor, já que é ele que vai avaliá-lo. Quem o produziu, não tem conhecimento da realidade mais específica da sua turma ou da sua escola. Então, a palavra final sempre é a do professor. Além do mais, um material mal escolhido, mal utilizado ou mal elaborado, pode atrapalhar mais do que ajudar. As editoras e demais envolvidos na produção de conteúdo para escola pensam e desenvolvem produtos para um mercado nacional. Nisso particularidades regionais que necessitam serem levadas em conta no planejamento ficam de fora deste material. Não bastasse esse detalhe, por mais que haja uma equipe do MEC selecionando livros e materiais, muitas vezes alguns erros reproduzindo preconceitos e visões equivocadas passam por vezes despercebidos. Sendo assim, o professor deve estar sempre com o olhar atento na hora de selecionar o que será utilizado. Nos próximo item falarei melhor sobre a diferença entre suporte e documento. Espero com isso ajuda-lo na sua seleção e planejamento das suas futuras atividades Conceito de Suporte de Informação Podemos definir o termo “suporte de informação” a partir das pesquisas do Institut Natrional de Recherche Pédagogique (INRP), da França, da seguinte maneira: Metodologia do Ensino de História 21 “Suportes de Informação” representam todo discurso produzido com a finalidade de comunicar elementos relativos ao conhecimentos das disciplinas escolares. Em outras palavras, livros, DVDs, CD-ROMs, apostilas, cadernos, jogos, etc. são exemplos de suportes informativos. Eles são meios produzidos com a finalidade de transmitir (ou facilitar a transmissão) dos conteúdos escolares para o aluno. Neste contexto, canais de YouTube, blogs, sites e plataformas de ensino à distância (EaD) são também suportes informativos se foram produzidos com esta intenção descrita acima. Vale dizer que na Internet há uma profusão de materiais produzidos com este propósito e muitos por especialistas nas suas áreas, além das próprias editoras lançarem plataformas próprias que servem de complemento para seus livros didáticos. Porém, o suporte de informação não é o único material disponível. Há também o documento e este é o próximo assunto. A definição de documento De acordo com Bittencourt (2008: 296), documento são “todo o conjunto de signos, visuais ou textuais, que são produzidos em uma perspectiva diferente dos saberes das disciplinas escolares e posteriormente passam a ser utilizados com finalidade didática”. Sendo assim, vemos uma importante dicotomia entre suporte e documento: os primeiros são produzidos com a finalidade de serem trabalhados em sala e os segundos não são, conforme mostra o diagrama abaixo. Metodologia do Ensino de História22 Figura 2: Infográfico diferenciando tipos de materiais didáticos Fonte: O Autor A partir dessa diferença podemos pensar em duas grandes definições. Enquanto o suporte informativo pode ser percebido como uma construção da industrial cultural para facilitar o processo de aprendizagem, o documento pode ser percebido como parte de uma construção mais horizontal que pode envolver desde a comunidade acadêmica, a própria indústria cultural ou o professor. Como o documento é algo que não foi produzido com a intenção de ser recurso didático, mas é utilizado como, ele pode ser muito bem qualquer coisa (imagens, utensílios, obras artísticas, etc.) que o professor julgue facilitar a apreensão dos conteúdos da sua disciplina. Sendo assim, o documento pode muito bem envolver um processo de construção tanto do professor quanto dos seus próprios alunos para facilitar o processo de ensino aprendizagem. Porém, tanto o livro (ou qualquer outro suporte de informação) quanto o documento podem ser trabalhados de forma tradicional ou de uma forma estimulante. E como isso pode ser feito? É que veremos a seguir. Metodologia do Ensino de História 23 A tradição e a modernidade na sala de aula Seja no ensino de História ou de qualquer outra disciplina, perspectivas tradicionais e modernas vivem se chocando, às vezes por imposição dos pais, projeto político e pedagógico da escola ou postura do docente. Mas afinal de contas, o que seriam estas duas perspectivas? Por perspectiva tradicional, temos por definição aquela que vê o aluno com um mero receptor passivo do conhecimento e o professor com senhor supremo deste processo. Sendo assim, uma perspectiva mas “moderna” (e, de certa forma, estimulante) é aquela que enxerga o aluno como agente desse processo e busca construir com ele uma ponte para o conhecimento. Nesta perspectiva, o professor deixa de ser senhor para ser facilitador/orientador. No próximo item, tentarei demonstrar como tais perspectivas podem conviver de forma mais ou menos harmoniosa dentro de sala. Para isso, tentarei demonstrar limitações e vantagens de cada uma. O difícil caminho do meio Para ilustrar melhor as diferenças entre o que seria uma postura tradicional e uma postura mais “moderna”, elaborei a tabela abaixo. Tabela 2: Comparativo tradição x mordernidade Postura tradicional Postura moderna Aluno como um receptáculo dos conhecimentos Aluno como um indivíduo que traz uma bagagem de conhecimentos extra classe Aluno com postura passiva Aluno com postura ativa Metodologia do Ensino de História24 Fonte: O Autor O professor é o dententor dos conhecimentos, os quais transmitirá para o aluno O professor é um facilitador que orientará o aluno na aquisição dos conhecimentos Os materiais didáticos sãoselecionados pela direção e o docente, e aplicados na sala de aula Além dos materiais selecionados pela direção e docente, o professor constrói com os alunos materiais didáticos Como está claro na tabela, é essa posição tradicionalista tende a ser muito comôda para o professor à primeira vista, pois o coloca numa postura de autoridade inquestionável na sala. Reduzindo o papel do aluno a um mero receptáculo de conteúdos, as atribuições do aluno se resumiriam a fazer as atividades e tirar dúvidas. Tende a ser vista como mais difícil, porém mais estimulante. Ao enxergar o aluno como um indivíduo que já traz toda uma bagagem de fora da escola e que o professor é um facilitador que orienta o seu processo de ensino aprendizagem, este aluno passa a construir o seu processo junto com o professor. A princípio isto pode soar demasiadamente utópico e cansativo, já que implica em o professor reconhecer que ele não é o único detentor de conhecimento e nem que os conteúdos que ele pretende ensinar são os únicos relevantes. Porém, esta postura tem um efeito humanizador na figura do docente, ao reconhecer que ele não sabe de tudo e que seus alunos também são portadores de saberes dignos de consideração. Além do mais, permite tanto ao profissional do magistério quanto ao aluno certo grau de independência, estimulando-os a construírem seu próprio material de estudo. Por outro lado, principalmente se levarmos em conta os anos iniciais do ensino fundamental, esta proposta deve ser vista Metodologia do Ensino de História 25 com cautela. Sabemos que neste segmento lidamos com crianças de cinco a onze anos. Não bastassem todas as dificuldades normais de se lidar com indivíduos ainda em formação e desenvolvendo habilidades básicas, temos o fato das crianças hoje em dia estarem em contato com tecnologias que ajudam elas a se tornarem mais dispersas. SAIBA MAIS Sobre esta questão da dispersão na infância e tecnologias, veja o artigo “A influência das tecnologias na infância: vantagens e desvantagens”, de Benizáquia da Silva Pereira e Thales Siqueira Arrais, disponível em: https://bit.ly/2StEaYu. Não é exatamente uma novidade que para o processo de ensino aprendizagem (seja na atividade coletiva da sala de aula, seja na atividade individual em casa) necessita de um mínimo de concentração, organização e disciplina. Em turmas com pouca idade situações de indicisplina e dispersão podem dificultar que se realizem trabalhos de complexidade maior. Isso sem falar que muitas atividades podem exigir que já tivesse algum conhecimento prévio. Logo, mais uma vez, o bom senso e a ciência da realidade da sua turma é que vão dizer o que é adequado e o que não é adequado fazer em sala de aula. Aprendendo com a própria experiência Caros futuros colegas, sinto lhes informar que não há manual que vai lhe ensinar isso. Somente sua experiência em sala de aula é que vai conseguir te dar o devido discernimento. Porém, posso tentar algumas dicas de como você pode achar este tal caminho do meio, que a meu ver é o mais adequado para https://bit.ly/2StEaYu Metodologia do Ensino de História26 se trabalhar em sala de aula. Por mais que todas as críticas à pedagogia tradicional sejam válidas, em minha opinião ela não é cem por cento descartável. Ao prezar pela disciplina e controle, ela valoriza um ambiente com tranquilidade e organização, características imprescindíveis para o aprendizado a meu ver. Isso sem falar que ao colocar o professor numa posição de autoridade na sala, ela também o coloca numa posição de responsabilidade sobre o processo de ensino de aprendizagem, o que demanda preparo por parte do docente, para que ele tenha a devida segurança em frente a sua turma. Além do mais, lembre- se que a escola tem um projeto político pedagógico e que você deve seguí-lo. Nem todas as escolas tem um projeto (ou recursos materiais) que possibilitem abordagens mais “fora da caixa”, para usar um termo mais em voga. Então, caros futuros colegas, usem do bom senso e da sua capacidade de observação. Como já diz o velho ditado, “não vamos jogar a criança com a água da bacia”. Veja o que pode ser feito e o que não pode ser feito. De uma forma geral, prefiro utilizar abordagens mais convencionais (leitura de texto, cópia do quadro, etc.) para introduzir conceitos mais básicos e a medida que a matéria vai se complexificando (e a turma vai demonstrando maior maturidade) vou dando maior independência para os alunos. Como já disse anteriormente, minha experiência é a partir do sexto ano do ensino fundamental. Em geral, com alunos mais novos trabalho toda uma parte de explicar conceitos básicos desde o que é História, até a divisão cronológica e ciências correlatas para os alunos de sexto ano, no primeiro bimestre. Não só com eles, mas também com os alunos de turmas maiores tendo a nos primeiros meses adotar uma postura mais tradicional para fazer uma avaliação do perfil da turma. À medida que os meses vão avançando, costumo a dar mais liberdade e “sair mais da caixa”. Metodologia do Ensino de História 27 Como você terá uma experiência com alunos mais novos, dependendo de que ano você lecione (lembremos que normalmente o professor de primeiro segmento só trabalha com uma turma por turno de quatro horas e meia) você talvez possa trabalhar atividades lúdicas. Lembremos que no já citado artigo “O ensino de história nos anos iniciais do ensino fundamental: o lugar das efemeridades”, da professora Maria Aparecida Cabral, que muitas vezes o ensino de história é visto como lugar que se “mobilizam constantemente símbolos e valores para a explicação de fatos históricos às crianças, cujo alicerce se ancora nas atividades lúdicas como desenhos, cantos, encenações teatrais e narração de histórias (CABRAL, 2013: 10).” Neste contexto, datas comemorativas nacionais são usadas como atividades que mobilizam uma escola inteira ou, pelo menos, todo o segmento ou as turmas de um determinado ano. Isto pode ser um excelente momento para se trabalhar na construção de materiais próprios, incentivando os alunos a refletirem sobre o significado destas datas. Dia do Índio (29/04), Dia da Abolição (13/05), Dia da Consciência Negra (20/11) além de outras comemorações como Independência (07/09) ou Proclamação da República (15/11) podem se converter em excelentes oportunidades. Mas nunca realize uma atividade sem antes fazer o devido diagnóstico da turma e uma criteriosa avaliação de riscos e possibilidades. Pense sempre nas habilidades da turma, nos recursos e projeto político e pedagógico da escola, além da conformidade com os Parâmetros Curriculares Nacionais e as demais leis vigentes. Lembre-se que além da LDB 9394/96 e dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a lei 11.645/08 estabelece a obrigatoriedade dos ensinos de cultura indígena e africana. Sempre tenha em mente as potencialidades, riscos e possibilidades para alinhar com suas finalidades. Metodologia do Ensino de História28 Achando o caminho e prosseguindo a viagem Então, podemos concluir que ambas as perspectivas que ambas têm suas limitações vantagens e desvantagens. Se a princípio uma proposta mais “moderna” pode se apresentar de forma mais estimulante, ela exige mais do profissional tanto no tocante à construção da proposta, domínio dos conteúdos, estrutura física da escola e diálogo com os alunos. Da mesma forma a proposta tradicional tende a ser vista como engessada e enfadonha, tem também a questão de ser o viável no momento, seja por falta de estrutura física, limitantes de tempo, proposta da instituição ou limites da turma. O que eu recomendo? Tenha sempre bom senso e atenção. Não é porque você vai estar numa turma difícil e numa escola com uma estrutura física limitada que não haverá espaço para você “sair da caixa”. Muitas vezes as propostas fora da caixa podem ter excelentes resultados com alunos mais indisciplinados. Eu mesmo já tive gratas surpresas nesse contexto.Também não pense que uma proposta mais tradicional vai facilitar a sua vida. Lembre-se que ao adotar uma postura mais firme e distante, você terá muito pouca margem de falha, o que te obrigará a ter um preparo bem rigoroso quanto aos conteúdos. Então, minha dica final é tenha conhecimento. Tenha conhecimento da sua instituição e projeto político e pedagógico, tenha conhecimento da sua turma e tenha conhecimento de você mesmo. Conhecimento este tripé, você com certeza evitará muitos problema e terá maiores chances de bons resultados. Agora que já estabelecemos o que são posturas tradicionais e modernas, resta saber como isto afeta os livros. É possível falar em livros tradicionais e modernos? Como o impacto destas duas perspectivas estão afetando o mercado editorial? O que isso está influenciando na produção do material didático? Estes itens serão discutidos no capítulo a seguir. Metodologia do Ensino de História 29 SAIBA MAIS Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: “Paradigmas contemporâneos de educação: escola tradicional e escola construtivista” (LEÃO), acessível pelo link: https://bit.ly/2t3Apyp. E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que os materiais didáticos se dividem em dois grandes grupos: o primeiro são os suportes informativos e o segundo são os documentos, e que o grande diferencial entre ambos é a questão da intencionalidade (os primeiros são produzidos com a intenção de serem materiais didáticos e os segundos não). Você também deve ter aprendido que basicamente existem duas grandes de se trabalhar como docente: a primeira seria uma proposta dita “tradicional” e segunda é dita como “moderna”. A primeira proposta basicamente enxerga o aluno como repositório de conteúdos que o professor, visto como autoridade surpema e inquestionável (salvo em caso de dúvidas), vai depositá-los. Também já deve ter entendido que ambas as propostas têm suas vantagens e desvantagens, e cabe a você analisar a realidade da suas turmas, escola e do seu perfil profissional para entender como e quando utilizar cada uma delas. https://bit.ly/2t3Apyp Metodologia do Ensino de História30 O livro didático entre propostas tradicionais e inovadoras no século XXI OBJETIVO Ao término deste capítulo você será capaz de entender como o livro didático foi afetado tanto pelos PCNs, quanto pela expansão . Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. Tendo o conhecimento destes processos você será capaz fazer dos seus materiais didáticos. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! O papel da pedagogia crítica e da internet Como já deve ter ficado claro, sendo um setor estratégico a educação sempre está sofrendo alguma forma de controle do Estado. Seja em governos autoritários ou democráticos, o poder central sempre vai estar estabelecendo conteúdos e finalidades, além de delimitando critérios para se trabalhar com educação. No nosso caso, os já citados Parâmetros Curriculares Nacionais e Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96 é que vão representar o papel do Estado em definir critérios e conteúdos para a educação. Lembremos também da lei 11645/2008 que obriga o ensino de cultura e história afro-brasileira e indígena. Estas leis todas vão mexer diretamente com os conteúdos dados em sala de aula e com os conteúdos dos livros. Conforme já dito anteriormente, com a crise em nosso mercado editorial, os livros didáticos se tornaram uma fonte de renda indispensável para diversas editoras, o que aumenta bastante o interesse e o impacto destas leis. Lembremos também que com o PNLD, as escolas públicas também se tornaram alvo de interesse das editoras de livros didáticos. Metodologia do Ensino de História 31 Como já explicado aqui, os PCNs e a LDB são frutos de um momento histórico intimamente ligado com a redemocratização do país. Conforme discutimos na primeira unidade , tanto o ensino de História, quanto o ensino de uma forma geral foi influenciado por este momento no eco de propostas que defendiam uma preocupação com a formação de um cidadão questionador e consciente. Vale lembrar que propostas assim, não são exatamente uma novidade na nossa História. Paulo Freire, por exemplo, defendia ideias similares desde os anos 1960. Porém, tais propostas ficaram de fora do nosso meio escolar após o golpe de 1964 e a Ditadura Militar que se seguiu ao mesmo. Porém, após a redemocratização tais propostas ganharam novo fôlego e passaram a integrar a legislação vigente na educação e fazerem partes de políticas públicas. Com isso uma corrente pedagógica chamada “Pedagogia crítica dos conteúdos” vai ganhar espaço e passar a fazer parte dos currículos escolares, dos materiais didáticos e da realidade acadêmica. A partir disso gradativamente veremos uma virada de 180 graus no nosso sistema de ensino. Muito em voga no país após o período da redemocratização, a pedagogia crítica dos conteúdos defende que a função da escola é transmitir conteúdos concretos, vinculados ao cotidiano do aluno e de sua realidade sociopolítica e cultural, fornecendo- lhe meios para uma participação organizada e ativa na democratização da sociedade. Esta corrente tem como principais nomes no país José Carlos Libâneo, Cipriano Carlos Luckesi, Demerval Saviani. Com isso, os livros de História que basicamente tinham um discurso superficial e patriótico, passaram a esboçar um visão mais crítica da nossa sociedade. Além do mais, segmentos tradicionalmente marginalizados passaram a ser assunto na sala de aula, como indígenas e negros (lembre-se da lei 11645/08). Mas além da revisão dos conteúdos, a revolução tecnológica também teve seu impacto nos livros didáticos e sobre este é o nosso próximo assunto. Metodologia do Ensino de História32 A Internet e os livros didáticos Podemos definir o termo “Internet” no contexto atual da seguinte maneira: “Internet” é a rede mundial de computadores, ou seja, um conjunto de redes (vários computadores ligados entre si trocando dados) interligadas que permite o acesso e troca de informações em qualquer lugar do planeta. Surgida na época da Guerra Fria, a intenção era de que caso acontecesse uma guerra nuclear, existisse uma rede espalhada para garantir a troca de informações. Em outras palavras, a Internet é um gigantesco rio de informações fluindo de e para todas as partes do mundo. Com ela podemos não só acessar como produzir qualquer conteúdo. Com isso, qual a relevância do livro didático nesse mar de informação? Tentar responder essa questão será o próximo assunto. A reação das editoras e o efeito da Internet Com a democratização do acesso da informação proporcionada pela Internet, muitos meios tradicionais de informação passaram a ter sua legitimidade questionada. Porém, uma questão que tem sido levantada ultimamente é de que, muita informação errada tem sido divulgada, já que ao serem publicadas na Internet, as informações não passam pelo crivo de especialistas que envolve a publicação de um livro didático. Com isso, muitas vezes informações falsas são divulgadas. Metodologia do Ensino de História 33 Figura 3: Os dois lados da internet Fonte: Editorial Telesapiens O Autor POSITIVO INTERNET NEGATIVO Democratização na produção de conteúdos Ausência de curadoria Conhecimento ao alcance de todos Divulgação de informações falsas em nível global Mesmo assim, a Internet tem ganhado cada vez mais espaço entre diversos segmentos e influenciado até a política mundial. Então, o livro didático se torna uma fonte segura de informação e sob a orientação de um profissional qualificado capaz de apontar suas inconsistências, que é o professor. Muitas editoras além de recorrerema uma diagramação mais ágil, tem se utilizado da internet como forma de oferecer um conteúdo complementar para o livro. Através dos sites das editoras muitas vezes existem vídeos, animações exercícios e diversos materiais que podem servir de suporte para o professor, transformando o livro numa espécie de “pacote de serviços” que oferecido ao professor e aos alunos. Sendo assim, podemos dizer que tanto editoras, quanto autores e políticas públicas estão se mobilizando para realizar uma “transposição didática das inovações tecnológicas” (SCHMIDT apud COSTA & RALEJO, 2013). Mas como estas mudanças tem se processado na realidade dos anos iniciais do ensino fundamental? Metodologia do Ensino de História34 O livro didático nos anos iniciais do ensino fundamental Como já vimos o ensino de História nos anos iniciais do ensino fundamental e tende a ter uma característica bem mais lúdica do que teórica. Além do mais, normalmente até o terceiro ano do ensino fundamental, história e geografia são fundidas na disciplina ciências sociais, mesclando tanto o já mencionado caráter de “efemeridades”, quanto de conhecimentos básicos como o que é um bairro, um município, etc. Criada pela lei 5692/71, a disciplina ciências sociais foi uma criação de o governo militar. Como parte das suas mudanças no sistema educacional, eles fundiram História e geografia em uma única disciplina. Mesmo após a lei 9394/96, esta fusão foi mantida nos primeiros anos como forma de introduzir os alunos aos conteúdos destas disciplinas. No próximo item nos aprofundaremos de como estes conteúdos se processam nestes livros. História para crianças Como Circe Bittencourt (2009: 112,113) aponta, nos livros dos anos iniciais há uma preocupação de se ultrapassar a limitação do ensino de História como o ensino do nome de grandes que são vistos como figuras atemporais. Isto tem a ver com a substituição do paradigma romântico pelo paradigma da escola dos Annales, como recordamos na tabela a seguir. Tabela 3: Diferenças entre o paradigma romântico e da escola dos Annales Paradigma romântico Paradigma dos Annales História factual História problema Foco nos grandes nomes Foco em grandes estruturas Metodologia do Ensino de História 35 Valorização do nacionalismo Crítica ao nacionalismo Utilização da História como um elemento de formação da unidade nacional. Utilização da História como elelmento de formação de um cidadão crítico e consciente. Fonte: BARROS,José Costa D‟Assunção. Os historiadores e o tempo: a contribuição dos Annales; In: Cadernos de História, Belo Horizonte, v. 19, n. 30, 1º sem. 2018. Disponível em https://bit.ly/2tPkK67 Nesta tabela vemos que, apesar de ainda ter a valorização das datas comemorativas (dito pela própria autora) vemos uma importante mudança. Com a influência deste viés mais crítico, já há uma diminuição do impacto do “lugar das efemeridades” já citado anteriormente. Relembrando que este viés mais crítico tanto na História como na própria pedagogia vai estar representado nos Parâmetros Curriculares Nacionais, como mostrado no diagrama abaixo. Figura 4 Fonte: O Autor https://bit.ly/2tPkK67 Metodologia do Ensino de História36 Isso por si só já obriga diversas mudanças no ensino destes anos fundamentais, onde as crianças além de começarem a desenvolverem suas habilidades básicas começam a construir uma relação com o conhecimento mais formal. Além de aprender a ler, escrever e desenvolver a coordenação motora é necessário nessa idade (entre seis e dez anos de idade, relembrando que o ensino de História tende a se intensificar a partir do terceiro ano, quando os alunos em média estão com oito anos de idade). Por isso, tem-se a preocupação em se apresentar noções de conceitos históricos que serão expandidos ao longo dos anos na vida escolar do aluno. Com isso o profissional dos anos iniciais já introduz ao aluno certos conceitos como permanência, mudança, temporalidade, entre outros que serão trabalhados pelo professor especialistas. Este trabalho é de suma importância, pois, já começa a familiarizar o aluno com versões mais simples de conceitos complexos que ele trabalhará ao longo de sua vida escolar. Vale lembrar que atentar para este fato não é desvalorizar o trabalho do professor dos anos iniciais e muito menos subordiná- lo ao professor especialista que ele terá contato só nos quatro anos finais do ensino fundamental. Muito pelo contrário, é reconhecer a importância que este profissional tem para o desenvolvimento social e cognitivo da criança. A organização do nosso sistema educacional Nos seus primeiros três anos de vida a criança costuma a estar (salvo aqueles que têm necessidade e condições para colocar seus filhos em creches) em contato mais direto com seus pais (principalmente, a mãe e/ou parentes mais próximo que auxiliem nos primeiros cuidados). A partir dos quatro anos a criança vai vagarosamente sendo iniciada no mundo escolar quando cursa três anos de pré-escola/educação infantil (o que também chamado de jardim da infância) e em seguida passa para os anos iniciais do ensino fundamental (com duração de quatro Metodologia do Ensino de História 37 anos), e a partir do quinto ano do ensino fundamental contará com professores especialistas para todas as disciplinas até o último ano do ensino médio. Analisando o descrito acima, vemos que o nosso sistema educacional está organizado de uma forma progressiva e acumulativa. A criança é introduzida no sistema educacional aos quatro anos e aos poucos vai sendo apresentada pela professora a uma série de conhecimentos. Á medida que vão ficando mais complexos vão sendo adicionados professores especialistas (lembrando que artes, educação física e língua estrangeira são disciplinas com professores especialistas que fazem parte da grade curricular dos anos iniciais do ensino fundamental), até a grade ser ocupada em sua totalidade por professores especialistas a partir do sexto ano do ensino fundamental (quando a criança está com onze anos de idade). Porém, mais do que a aquisição de conhecimentos temos outro fator que costuma a ser deixa de lado: a socialização. A importância dos anos iniciais na construção de um cidadão crítico Conforme vimos no item anterior, a criança começa a frequentar a escola em média a partir dos quatro anos. Normalmente, é a partir deste momento que a criança toma contato com pessoas fora de seu círculo familiar e da sua vizinhança. Sendo assim, este momento se torna fundamental para a criança começar a construir o seu contato com a diversidade. A experiência de se tomar contato com o diferente, de ver outras formas de arranjos familiares, crenças, situação econômica, etc. se dá a partir da escola. Esta convivência se torna importantíssima para construir duas habilidades de suma importância para o convívio em sociedade: empatia e tolerância. Por empatia, entendemos “a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma Metodologia do Ensino de História38 situação vivenciada por ela” e tolerância como sendo “o ato de agir com condescendência e aceitação perante algo que não se quer ou que não se pode impedir”. Fonte: https://bit.ly/2QqrQWn e https://bit. ly/366H8WY. Cidadão critico, consciente e tolerante Sendo assim, os anos iniciais do primeiro segmento se tornam fundamentais para a criança desenvolver capacidades que serão importantíssimas para ela se tornar um cidadão crítico. Empatia e tolerância são fundamentais para a boa convivência. Como sendo uma fase onde a criança está tomando contato pela primeira com diversas situações que são diferentes da sua realidade. Esse contato com o diferente vai ser fundamental para que a criança aprenda a se colocar no lugar dos outros e se solidarizar com outras pessoas. Lembremos que os Parâmetros Curriculares Nacionais destacam a importância da formação do senso crítico e da consciência da sua realidade histórica esocial como seus objetivos. Estas capacidades acima ditadas são de grande importância para a tomada da consciência histórica e social tem a ver com alinhar os conteúdos aprendidos da disciplina com o desenvolvimento de habilidades ligadas à empatia e à tolerância. Um ensino meramente bancário (para adotar uma terminologia mais cara ao nosso patrono da educação) se concentraria apenas na pura e simples repetição e memorização de conteúdos, o que quase invariavelmente seria uma sequência de fatos organizados de forma cronológica. Isso não basta para que se desenvolva no indivíduo a compreensão do seu papel como agente da História. Para este objetivo ser alcançado, mais do que o aluno ter conhecimento do processo de desenvolvimento do seu país e do mundo, é necessário que o aluno se veja como parte dessa engrenagem. Para que este objetivo seja alcançado, é importante que desde os anos iniciais o professor deve trabalhar com o aluno a noção de que ele também é um ator da História. https://bit.ly/2QqrQWn https://bit.ly/366H8WY https://bit.ly/366H8WY Metodologia do Ensino de História 39 Então, o trabalho do professor deve ser focado neste misto de socializar e ajudar ao aluno a adquirir conhecimentos básicos relativos à disciplina. É importante que ao se trabalhar com as séries iniciais estes conceitos sejam introduzidos de forma lúdica, pois estamos falando de crianças em tenra idade. Brincadeiras, rodas de contação de estórias e diversas outras atividades podem ser ótimas formas para fazer as crianças a refletirem sobre estes assuntos, mais do que qualquer livro que você possa escolher. Outra boa saída é criar espaços onde as crianças podem falar de suas experiências. Rodas de conversa, desenhos, brincadeiras do estilo “mostre e conte” podem servir como forma das crianças expressarem suas visões de mundo e trocarem as suas experiências umas com as outras. É importante que tudo seja feito com a devida mediação e orientação do professor. Em escolas que tenham realidades muito diversas (alunos de classes sociais muito díspares ou moradores de comunidades rivais) isto pode virar um momento para conflitos como exteriorização de preconceitos, por exemplo. Nesta hora que vai entrar o papel do docente como árbitro de conflitos e alguém que vai desconstruir concepções equivocadas e convidar o aluno para a reflexão, com a intenção de desenvolver nele justamente a empatia e a tolerância. Por mais que estes momentos possam ser espinhosos e até mesmo estressantes, são oportunidades excelentes para que se comece a construção de um cidadão crítico, consciente e tolerante. Sendo assim, meu caro futuro colega, não se furte a tentar desenvolver este tipo de trabalho. Lembre que mais do que passar conteúdos, nós temos uma responsabilidade legal de auxiliar na construção de cidadãos. Com isso, é fundamental que nós auxiliemos as crianças a aprenderem a conviver com o diferente e a se colocar no lugar do outro. No próximo item, começaremos a colocar o como o professor pode construir seu próprio material com a finalidade de atingir estes objetivos. Como já disse em outras oportunidades, Metodologia do Ensino de História40 Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: “O ensino de história através de atividades lúdicas na educação infantil da escola municipal Mariano Rocha em Bocaina-PI (2011 –2013) ” (SOUSA & MOTA), acessível pelo link: https://bit.ly/39hRNjE. SAIBA MAIS E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que há diferentes propostas de livros didáticos, mas que podemos basicamente dividi-las em dois grandes grupos: aqueles livros que defendem uma pedagogia mais tradicional, onde o aluno é visto como uma espécie de “folha em branco”, onde o professor vai depositar seu conhecimento, e aqueles que vêm com uma proposta mais moderna reconhecendo que o aluno já traz toda uma bagagem de vivência fora da escola. Vimos também que esse movimento tem a ver tanto como uma mudança promovida tanto pelo contexto da redemocratização, quanto de certas correntes teóricas que ganhavam força no meio acadêmico e ressoavam no meio escolar como a pedagogia crítico-social dos conteúdos e a escola dos Annales. Outro fator de grande importância foi o boom da certas necessidades não haverá manual, material ou livro que supra. Então, sempre será útil que você mais do que saber selecionar o seu material, você aprenda a confeccionar o seu próprio material. Então, no próximo item serão abordadas possíveis estratégias que você possa utilizar para criar seu próprio material de trabalho, afim de que você consiga dar conta dos seus objetivos. https://bit.ly/39hRNjE Metodologia do Ensino de História 41 internet, a crise do mercado editorial e o Programa Nacional do Livro Didático. Você também viu que a atuação do professor nos anos iniciais do ensino fundamental para estimular a criança a desenvolver empatia e tolerância, que são características fundamentais para se construir um cidadão crítico e consciente da sua realidade histórica e social. Elaborando seu próprios materiais Ao término deste capítulo você será capaz de desenvolver metodologias para elaborar seus próprios. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. É de suma importância que você seja capaz de desenvolver materiais que se adequem às necessidades da sua turma. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO Por que o professor deve saber desenvolver seus materiais? Como já discutido anteriormente, livros didáticos são produtos da indústria cultural. Isso os torna inúteis para a sala de aula? De forma alguma! Como também dito anteriormente, nestes tempos de explosão de informação sem nenhuma checagem, o livro pode ser um excelente fonte de conhecimento seguro para o aluno, pois passou por toda uma equipe de especialistas até ser publicado, além de servir como uma ótima ferramenta de trabalho para o professor. Porém, sendo eles um produto em série e feito em escala para ser vendido no país inteiro, ele tende a uniformizar conteúdo, Metodologia do Ensino de História42 não se atentando aos conteúdos regionais, salve aqueles livros que são produzidos para atender uma demanda específica de algum estado. Além do mais, o contexto da sala de aula tem uma variedade que não há editora que dê conta! Em uma país extremamente desigual e de dimensões continentais como o nosso, os contextos variam muito até mesmo dentro de um município ou bairro. Com uma variedade como essa tão enorme, que outra saída tem o docente além de confeccionar parte do material? Há também um outro bom motivo para se confeccionar o seu próprio que é de se criar um elo com a turma. O processo de se realizar um esforço coletivo com os alunos para desenvolver seu próprio material pode ser uma excelente ferramenta para se criar estreitar laços com a turma. Eu mesmo já relatei na primeira unidade uma experiência que tive que, ao dar liberdade de criação para um grupo de alunos indisciplinados, fui alegremente surpreendido com um dos melhores trabalhos da minha carreira docente. Outro fator importante de se levar em conta é de que para as crianças a experiência de uma atividade mais prática pode ajudar. Como já falado anteriormente, os anos iniciais estão em uma fase que estão adquirindo habilidades sendo assim. Atividades que explorem de forma mais lúdica conceitos ligados ao conhecimento histórico, podem ser mais interessante para as crianças. Além de elas não ficarem simplesmente paradas atrás de uma mesa com uma folha escrevendo (o que pode ser bastante enfadonho para crianças com pouca idade), a experiência de eles participarem ativamente na construção do conhecimento propicia um momento únicopara eles, além de ser uma oportunidade se trabalhar habilidades motoras e de socialização junto com leitura e interpretação. Metodologia do Ensino de História 43 Por atividades lúdicas entenda-se atividade relacionadas com jogos e com o ato de brincar. Na educação Infantil podemos comprovar a influência positiva das atividades lúdicas em um ambiente aconchegante, desafiador, rico em oportunidades e experiências para o crescimento sadio das crianças. Para maiores informações, veja Queiroz et ali (2006), disponível em https://bit.ly/2F00cdC. SAIBA MAIS Figura 5: Organograma resumindo as etapas envolvidas no planejamento de uma atividade Fonte: O Autor É de grande importância ter esses elementos claros para se planejar uma atividade, principalmente se ela tem como um objetivo mais geral produzir um material final. Esse material final pode ser algo que vai ser exposto para a escola, que a https://bit.ly/2F00cdC Metodologia do Ensino de História44 circulação ficará dentro da turma mesmo. Independente de qual seja a circulação desse material, uma atividade que terá este tipo de produto necessita de maior atenção, pois pode vir a mobilizar muitos recursos, além de ser necessário uma cautela extra, já que estamos falando de crianças. Então vamos começar com o nosso alvo primário, ou seja, os objetivos Delimitando os objetivos Antes do primeiro passo de toda caminhada, sempre se pensa em qual o destino, ou seja qual o objetivo dessa caminhada. a mesma coisa pode se dizer de quando planejamos alguma atividade ou curso. Qual a meta que eu quero alcançar com essa atividade? Que competências que eu quero que sejam desenvolvidas ao longo desse curso? Todos estes exemplos acimas citados são objetivos que se desejam alcançar no processo de ensino-aprendizagem. Eles são parte importante do nosso trabalho porque é a partir deles que iniciaremos a nossa jornada. Tendo um destino em mente é que apontamos a nossa bússola e planejamos a nossa viagem. A mesma coisa vale para o nosso processo de ensino- aprendizagem. Uma atividade que tem por objetivo avaliar os alunos vai ser pensada de uma forma, uma atividade que tenha por objetivo integrar alunos, família e comunidade será pensada de outra forma e assim por diante. Os objetivos são metas a serem alcançadas e que demandaram estratégias diversas. Uma mesma atividade, pode ter mais de um objetivo. Particularmente, eu gosto de pensar em objetivos gerais e objetivos específicos. Os objetivos gerais tem uma definição mais ampla, genérica. Os objetivos específicos já carregam um grau maior detalhismo. Por exemplo, ao se organizar uma festa junina poderíamos citar como objetivo geral integrar a comunidade escolar (responsáveis, alunos, professores e funcionários) e como objetivos específicos sobre a importância do meio rural na nossa sociedade. Metodologia do Ensino de História 45 Mas se toda caminhada precisa de um destino, ela também precisa de condições mínimas para que ocorra. Ou seja, ela precisa de recursos, que será o próximo assunto. Analisando e disponibilizando os recursos Uma parte importante de todo o planejando é analisar as ferramentas e materiais disponíveis que você tem para trabalhar, para que você saiba o como aquele objetivo que você almeja será alcançado. Ou seja, você precisa ver os recursos disponíveis. Mais do que ver os recursos disponíveis, você também deve ver os recursos necessários. Uma vez que você esteja ciente dos recursos disponíveis e dos recursos necessários, você poderá fazer os devidos ajustes necessários. Este ajustes podem ser desde ir buscar recursos para suprir as deficiências, quanto reajustar a sua atividade para se encaixar aos recursos disponíveis. Voltemos ao exemplo da festa junina. Vamos dizer que você queira juntar todas as turmas da escola na quadra para se apresentarem para todos os responsáveis. Porém, a escola não possui um sistema de som com potência suficiente para dar vazão a todos os pais. Duas possíveis saídas seriam arrumar um sistema de som mais ponto (alugando um, pedindo emprestado de algum membro da comunidade escolar ou de uma escola vizinha, por exemplo) ou realizar apresentações menores apenas das turmas com seus responsáveis. Administrando o tempo e analisando o perfil da turma Dois outros pontos importantíssimos para se levar em conta é o tempo disponível e o perfil da turma. Junto com os recursos estes dois fatores tem que ser levados em conta. O perfil da turma e o tempo disponível vão ser dois fatores que terão muita influência para alcançar o objetivo. Uma turma com um perfil mais disperso (ou mais tímida), por exemplo, pode demandar uma pouco mais tempo para se organizar numa dança, voltando ao nosso exemplo da festa junina. Porém, por ser uma atividade que toda a escola participe, Metodologia do Ensino de História46 talvez fique inviável ceder mais tempo. Uma saída pode ser uma coreografia simples e com orientação da professora. Construindo exemplos Para ficar mais claro o que falei no item anterior, construí um exemplo de ficha de planejamento e vou preenchê-la com exemplos de atividades. Pretendo com isso tornar mais claro o como isto pode funcionar na prática. Figura 6: Exemplo de ficha de planejamento de atividades Fonte: O Autor Metodologia do Ensino de História 47 Fonte: O Autor Fique bem claro que , não importa o quanto você planeja, esteja sempre preparado para imprevistos. Sempre acontecerá algum problema que não estava previsto. Então, acostume-se a improvisar. Planeje, mas sempre esteja com o espírito pronto para lidar com acontecimentos alheios à sua vontade. Passemos agora aos estudos de caso. A batalha do passinho Por volta de 2008 estourou no meio funk carioca o passinho. Este fenômeno cultural que ganhou até um documentário (“A Batalha do Passinho”, ver https://bit.ly/2t6QfZe) era uma verdadeira febre entre os meus alunos em 2014 (a maioria moradores das comunidades do Morra do Dendê, Parque Royal, Praia da Rosa e Tubiacanga). Em um dia de atividades lúdicas que a escola organizou resolvi promover uma batalha do passinho, com os seguintes objetivos abaixo. Tabela 4: Objetivos da batalha do passinho Objetivos gerais Objetivos específicos Promover a integração entre os alunos Dar protagonismo dos alunos Promover um espírito de competividade de forma saudável Estimular representatividade entre eles Aliviar as tensões antes das provas finais de dezembro Valorizar a cultura local Com este objetivos em mente fui ver os recursos e tempos que eu teria disponíveis. O evento foi planejado com quinze dias de antecedência, tempo que os alunos poderiam se inscrever. https://bit.ly/2t6QfZe Metodologia do Ensino de História48 A escola disponibilizaria uma caixa de som, microfone e um computador, além de ceder o auditório na meia hora final do dia. Sendo assim, redigi um pequeno regulamento com limites de tempo, prazos de inscrição e limites de temas para as músicas que eles deveriam trazer (nada de palavrões, apologia ao crime e menções explícitas sobre sexo), além de colocar como prêmio a divulgação do vídeo da apresentação no meu blog https:// rockehistoria.blogspot.com/. Comecei a divulgar nas minhas turmas e alguns colegas divulgaram nas turmas deles e em pouco tempo a notícia correu a escola como um rastilho de pólvora. Quando chegou no dia, dos dez inscritos, só um veio e outros quatro não inscritos queriam participar. Outro problema que aconteceu foi que ninguém trouxe um arquivo com música e meu celular estava descarregado. Como já estava com um arquivo de música em minha posse, esta parte já estava resolvida. Pedi para uma aluna filmar o vencedor e depois editei o arquivo que estava com ela. Avaliando os resultados No geral, eu diria que os objetivos foram alcançados com sucesso. Os alunos se divertiram muito e ficaram empolgados desde o anúncio do evento. Era comovente ver o como eles estavam felizes de ver uma manifestaçãocultural surgida no meio deles e de grande relevância para eles estava presente na escola. Me lembro que durante o período de inscrições fui procurado por vários alunos. Mesmo no ano seguinte alunos vinham me procurar para saber se teria uma outra edição e comentavam sobre o desempenho o vencedor. Da minha parte o que eu mudaria, seria ter mais atenção com o video. Tentar ver se a escola disponibilizaria um câmera, pegar uma câmera emprestada ou estar com o meu celular carregado e um aluno responsabilizado de filmar seriam estratégias que eu utilizaria. https://rockehistoria.blogspot.com/ https://rockehistoria.blogspot.com/ Metodologia do Ensino de História 49 Passemos agora ao nosso próximo estudo de caso: a avaliação digital de História e geografia. A Avaliação digital de História e Geografia Como já mencionei anteriormente, gosto de utilizar recursos multimídias nas minhas avaliações como filmes, vídeos do YouTube, clipes musicais, etc. Na escola que leciono atualmente vi que existem vários notebooks ã disposição. Sendo assim, resolvi fazer uma quinzena de avaliação digital em História. Com isso eu precisaria de cerca de quinze computadores e no mínimo uma hora de tempo disponível e cada aluno teria que ter seu próprio fone de ouvido. Após dois meses de conversa com direção e alunos resolvi por realizar a atividade tendo estes objetivos em mente. Fonte: O Autor Tabela 5: Objetivos da avaliação digital de História e geografia Objetivos gerais Objetivos específicos Avaliar conteúdos de História e geografia Dar oportunidade do aluno realizar a sua avaliação dentro do seu próprio tempo utilizar recursos que se encontravam sub aproveitados na escola Estimular o uso educativo da tecnologia entre os alunos Um dos maiores problemas que sempre vi nas minhas avaliações de vídeo é a dificuldade que certos alunos tinham de acompanhar o ritmo dos demais, me pedindo constantemente para voltar. Sendo assim, resolvi essa prova para dar uma oportunidade destes alunos pararem e voltarem os vídeos quantas vezes quisessem, dentro do limite de tempo de uma hora. Metodologia do Ensino de História50 Nas duas semanas das avaliações cheguei com cerca de quatro horas de antecedência para carregar todos os computadores e colocar os arquivos de vídeo neles. Qual a minha surpresa ao descobrir no processo que algumas máquinas estavam com vírus ou com a parte de áudio comprometida, isso sem falar de máquinas que sequer ligavam, o que me limitou a um repertório de dez máquinas por dia. A estratégia adotada foi de usar as dez máquinas e a medida que fossem acabando, o aluno cedia a vez para o próximo. Outra consequência dessa estratégia foi ter que transferir a avaliação para o início da aula, pois com três horas de duração, haveria mais tempo hábil para o rodízio de alunos. Outro imprevisto que tive que lidar foi com a falta de fones de ouvidos. Apesar dos repetidos avisos em diferentes momentos ao longo de dois meses, ocorreram de (a bem da verdade, uma minoria) alguns alunos não virem com fones de ouvido porque ou se esqueceram ou havia quebrado no dia seguinte. A solução para o problema foi separar alguns alunos em salas ou pedir fones emprestados para outros alunos, além de eu ter emprestado o meu pr’prio fone. Avaliando os resultados Os resultados desta avaliação foram bem positivos também. As médias giraram em torno de 80% de acerto e os alunos com maior dificuldade me deram um feedback muito positivo de como ajudou poder parar, voltar e avançar o vídeo. Outro motivo que me levou a fazer a prova foi a empolgação que eu vi em alguns alunos de ter a oportunidade de operarem um computador. Mesmo eles tendo facilidade para usar a tecnologia (são adolescentes entre 15 a 19 anos de idade), muitos não têm computadores em casa (atualmente, os meus alunos são oriundos de comunidades de Bangu como Vila Aliança, Vila Kennedy, Sapo, etc). Então, vários se mostraram empolgados com esta oportunidade. Metodologia do Ensino de História 51 Algo que pretendo manter para o ano que vem é a ordem da prova. Dados os imprevistos que aconteceram, a realização da prova no início da aula se torna mais proveitosa. Curioso para saber quem ganhou a batalha do passinho que eu organizei? Veja o post no meu blog “Rock e História”, acessível pelo link https://bit.ly/2SsGCi9. SAIBA MAIS E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que mesmo sendo uma fonte de informação confiável, se comparada com a Internet, os livros didáticos por serem produtos da indústria cultural não dão conta da multiplicidade da sala de aula. Sendo assim, o ideal é que o professor também construa seus materiais didáticos com os seus alunos. Você deve ter aprendido que este tipo de atividade tanto auxilia a construir maiores laços do professor com a turma, como também auxilia os alunos a se enxergarem como protagonistas nos eu processo de ensino-aprendizagem. Mas que para você realizar este processo é necessário planejar e ao planejar você tem que ter em mente seus objetivos, recursos e tempos disponíveis e necessários, e após realizado é necessário avaliar os resultados. https://bit.ly/2SsGCi9 Metodologia do Ensino de História52 REFERÊNCIAS AZEVEDO, Prof Dr Antulio José de; BELGAMO, Taiz Cavalcanti; BORANGA, M. C. & MARTINS, B. M. Contribuições da pedagogia crítico social dos conteúdos na prática docente: um estudo de caso. Revista científica eletrônica de pedagogia Ano XI – Número 21 – Janeiro de 2013. Acesso em 08 de dez de 2019, disponível em https://bit.ly/2t4rsoH. BITTENCOURT, C. M. F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2009 BARROS, J. C. D. Os historiadores e o tempo: a contribuição dos Annales. Cadernos de História, Belo Horizonte, v. 19, n. 30, 1º sem. 2018. Disponível em https://bit.ly/352w1gz, acesso 09 de dez 2019. CABRAL, M. A. 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Delimitando os objetivos Analisando e disponibilizando os recursos Administrando o tempo e analisando o perfil da turma Construindo exemplos A batalha do passinho Avaliando os resultados A Avaliação digital de História e Geografia Avaliando os resultados