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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de graduação em Psicologia da Faculdade de Psicologia - FAPSI ANA PAULA FERREIRA GOMES, BÁRBARA VOLPINI RIBEIRO, ESTER NASCIMENTO DE JESUS, LUIZA NAVES RODRIGUES, RAFAEL PIMENTA NÓBREGA E RICARDO SANTOS SOARES ANDRADE. Seminário- Clínica Psicanalítica Clínica das Psicoses Belo Horizonte 2023 1 1. A estrutura psicótica fora da crise A clínica psicanalítica, por ser estrutural, ou seja fundada na transferência, permite o diagnóstico da psicose mesmo na ausência de fenômenos classicamente psicóticos. A organização de um sujeito estruturado na psicose é a de um horizonte sem uma significação central - que organizaria todas as outras. É importante ressaltar, ainda, que isso não quer dizer que o sujeito não seja sujeito. 1.1 Diagnóstico da estrutura psicótica Em primeira instância, é preciso frisar que qualquer estrutura, seja ela neurótica ou psicótica, é estruturação de defesa contra o que seria imaginariamente seu destino: o objeto de uma demanda imaginária do outro. O escolher psicótico não passa pela referência a um sujeito suposto saber, embora passe por um saber de defesa, quer dizer, apesar de não ser como o neurótico, ele também possui defesa. Na prática, a psicose inclui a construção de um sintoma a partir do trabalho com o que ele traz, sintoma capaz de organizar e regular minimamente seu mundo. 1.2 Saber e significação na estrutura psicótica Em um modelo simplificado de como se produz a significação, o sujeito neurótico habita um mundo orientado, organizado ao redor de um polo central ao qual se medem as significações. Já para o sujeito psicótico, não há o que o autor chama de “amarragem”, tampouco organização centralizada do seu saber e seu mundo. Sua compreensão corresponde a uma figura não orientada, onde nenhum ponto decide o valor do outro. Assim, o saber e a significação para o sujeito psicótico nunca são interpelados da mesma forma que o neurótico. Tem-se, por vezes, a ideia de um paciente perverso, mas que, na realidade, é interpelado como saber e não sujeito suposto saber. No encontro com o paciente psicótico fora de crise, há pouca razão para o analista fazer mais do que acompanhá-lo em seu caminho de errância. 2. O Desencadeamento da Crise Uma das especificidades da Psicose, tema do presente trabalho, é a crença do sujeito na não separação da mãe na fase edípica, de forma que o significante chamado Nome do pai, que deveria ser formado nesse momento, é vazio de 2 significado, como se não estivesse lá. Isso faz com que o saber do sujeito psicótico seja organizado de uma forma específica, que não passa por uma amarragem central semelhante ao que seria a função paterna na neurose: por essa falta de significação, falta ao sujeito uma função que é estruturante e organizadora. Há um significante que não cumpre sua função como nas outras estruturas (neurose e perversão). O desencadeamento da crise, portanto, se dá a partir de uma injunção, que seria uma chamada imperiosa, por uma situação ou contexto específicos, a se referir a uma função paterna. É uma chamada que exige que o indivíduo se organize como sujeito e obtenha sua significação em relação a uma amarragem fixa central que organizaria seu saber. No caso da neurose, aqui se enquadraria a função paterna, mas não há amarragem fixa central na psicose. Por não ter significação dessa estrutura, o sujeito não encontra a que se referir no seu mundo simbólico, e é forçado a buscar esta estruturação no mundo real: o que ele não consegue processar no mundo Simbólico, precisa processar no Real. Este processo se chama Forclusão. A partir da Forclusão, temos a construção da metáfora delirante: o delírio tenta suprir os processos não realizados no simbólico. Em suma, o Delírio é a tentativa de produzir uma metáfora, constituir um saber, se orientar e estruturar O autor faz referência à transexualidade como um delírio bem logrado. Seguindo o modelo do desencadeamento da crise, o sujeito passa pela injunção, a chamada à referenciação paterna, onde ele deveria ser capaz de se organizar no processo de Sexuação, o tornar-se homem ou mulher. Como Psicótico, o sujeito não encontra em seu mundo simbólico essa função estruturante, e passa para a forclusão, onde estrutura o seu saber no Real, já que não tem uma amarragem simbólica que permita a organização do saber no mundo Simbólico. No campo do real, o sujeito teria um comportamento específico, passaria por uma cirurgia de mudança de sexo, entre outros. Nesse sentido, a transexualidade seria um delírio bem logrado, segundo o autor, seria a construção do sujeito no campo do real como uma forma de suprir uma falta de estruturação simbólica. Hoje em dia, a transexualidade não é mais interpretada pela Psicanálise como um delírio, como parte da estruturação psicótica, mas sim como uma parte da própria estruturação do sujeito na Sexuação. 3.Diferenciação das Psicoses 3 3.1 Foraclusão ou Forclusão O conceito utilizado por Lacan para falar de Psicose foi o de Forclusão ou Foraclusão. No campo jurídico este termo significa o vencimento de um direito não exercido nos prazos prescritos. Segundo Jacques Lacan, foraclusão é um mecanismo da psicose responsável pela rejeição de um significante do simbolismo de uma pessoa. Em vez de ser integrado ao inconsciente do indivíduo como acontece no recalque, essa rejeição retorna em forma de alucinação no mundo real. No caso da Psicose o que está foracluído é a função paterna e não os significantes dessa função. O que volta no real são os significantes e não o real em si. O que volta no real é um conjunto simbólico; uma constelação paterna/edípica. O que está foracluído é a função; por isso trata-se de um saber organizado de outra forma, mas os significantes edípicos e paternos estão em algum lugar neste saber. Sendo evidente que qualquer sujeito psicótico pode falar de sua constelação edípica, isto não é algo inacessível para ele. O que é inacessível é a organização do seu saber ao redor dessa função. Assim, o Psicótico não consegue comunicar, pois não encontra uma simetria com o saber neurótico que é um saber dominante. O delírio é uma tentativa de produzir um saber análogo ao neurótico, mas com o polo central desligado, pois na psicose a função organizadora está forcluída, ou seja não está simbolizada e assim o sujeito entra em uma deriva psicótica ao tentar produzir algo que não sabe como é organizado. 3.2 Injunção Diferentemente de Lacan que utiliza o termo ‘invocação’, Calligaris vai utilizar o termo injunção,essa escolha se dá ao fato de que a palavra injunção também é um termo jurídico e possui uma conotação mais negativa em relação à invocação. Injunção no contexto jurídico diz respeito a algo que é implantado quando a norma se mostra insuficiente. Embora, Calligari não tenha definido exatamente o conceito de injunção, de acordo com o que ele desenvolveu, é algo próximo a um acontecimento que desencadeia a crise e como consequência acontece o crepúsculo do saber psicótico, ou seja a perda do saber psicótico. No trabalho com psicótico em crise, facilitar a constituição de um delírio viável é o caminho terapêutico mais imediatamente acessível, dado que um delírio não é 4 necessariamente algo pouco verossímil ou louco. Um delírio pode ser perfeitamente normal. 3.3 Psicose-esquizofrenia A esquizofrenia é um tipo de psicose que caracteriza-se pela dificuldade de constituição de delírio, a pobreza de alucinações auditivas e a riqueza de alucinações não auditivas (cinestésicas e visuais). Na esquizofrenia, o pai que retorna no real é um pai enfraquecido. 3.4 Psicose-paranoia A paranoia é um tipo de psicose que caracteriza-se pela facilidade de constituição do delírio, pela presença de alucinações auditivas e a pobreza de alucinações não auditivas. Na paranoia, o pai que retorna no real é um pai incastrado. 3.5 Psicose: maníaco-depressiva Esta é um tipo de psicose que caracteriza-se pelo abandonoobjetal à demanda do outro (depressão) em que o individuo entrega-se a demanda imaginária. Podendo ocorrer também, um excesso de significação (mania) em que ocorre uma tentativa de proteger-se da demanda imaginária. Na psicose: maníaco-depressiva, o pai que retorna no Real é um pai insuficiente ou terrificante. 3.6 Sujeito aquém da crise Calligari aponta a importância em manter uma diferença radical entre Neurose e Psicose, pois são estruturas completamente diferentes. Além disso, ainda que o sujeito não esteja em crise, ele está refém de uma maioria neurótica, tanto quantitativamente quanto qualitativamente e portanto, vive constantemente sob uma injunção do outro (mundo neurótico que convoca a crise). Sendo assim, a psicose é um outro modo de se constituir, logo um bom tratamento analítico não é a transformação da psicose em neurose. Havendo então a possiibilidade de um sujeito psicótico fora da crise ou que não apresenta crises, o diagnóstico deve considerar quatro tempos. 5 Sendo estes, haja uma disposição já escrita no campo do outro(1); Algo relativo a uma primeira relação com outro dito materno(2); Como se atravessa o Édipo(3); Como se dá o período de latência e a saída para puberdade(4); 4. A Transferência Psicótica A psicose apresenta uma nítida distinção em relação à neurose, o que é um passo importante para a formulação de seu tratamento. Ao determinar uma barreira entre esses dois campos, Freud delimita o acesso ao processo analítico à neurose. A teoria da libido desenvolvida por Freud foi de grande importância para a indicação da maneira como a psicose se endereça em um tratamento.Freud indica um ponto fundamental: a diferenciação da libido da neurose e da psicose mostra que é necessário se pensar a particularidade do estabelecimento da transferência na psicose. O que Freud descreve em seus textos sobre a transferência diz respeito ao seu manejo em um processo analítico, o que será diferente em um tratamento psicanalítico da psicose.A retomada de Freud e do conceito de transferência é o que permite a Lacan inaugurar uma clínica psicanalítica da psicose e designar considerações preliminares que diferenciam a clínica da psicose da clínica da neurose. Este momento inicial de uma possibilidade de tratamento da psicose pela Psicanálise tem sustentação freudiana e indica a necessidade de uma fidelidade aos fundamentos da Psicanálise. Para entendermos a transferência na Psicose, é importante primeiro entender o significado de cada um desses conceitos separadamente. A transferência, é o grande instrumento da psicanálise, ela acontece a todo momento em todas as relações e em todas as circunstâncias. Quando estamos acordados estamos o tempo inteiro transferindo os nossos conteúdos psíquicos para os objetos externos. Basicamente, podemos relacionar a transferência com o conceito da repetição, acabamos repetindo através das transferências aquilo que nos já aconteceu em outros momentos da vida. Dessa forma, a transferência na clínica é a leitura que o analista faz da situação, na análise nós lemos/entendemos aquele meu paciente, aquilo que ele precisa que eu seja e em que lugar ele está me colocando. 6 Quando a gente fala de transferência, estamos acostumados com a transferência na neurose. Mas e a transferência psicótica? O que é o psicótico? Uma pessoa comum, projeta e se defende, ela tem um mecanismo de defesa muito interessante chamado “eu” a identidade é como se fosse um “contorno” em volta desse ser que separa eu, do mundo em que meu visto. Imagine que no psicótico esse contorno falhou, e essa separação não se fez e o mundo se desabou para dentro dele. O psicótico ele vê, e se relaciona com a Gênesis do Real, já os neuróticos se relacionam com as fantasias, com projeção, com o passado, todas as histórias contadas são muito bem articuladas com as fantasias, com os desejos e os medos. No psicótico isso desabou, e ao desabar essa identidade foi reconstruída, a identidade nesse caso é o “ser no mundo”, e quem faz isso na psicose? O delírio. Como você trata um psicótico? Qual o lugar que você está ocupando e o que o psicótico espera de você? A relação do psicótico com o campo do Outro é desde o início peculiar, não há uma barreira simbólica, permanecendo então uma relação especular, imaginária. É na medida em que ele não conseguiu, ou perdeu esse Outro, que ele encontra o outro puramente imaginário (LACAN, 1988, p. 238). E é nesse lugar que o analista será colocado por seu paciente psicótico. Não há outra posição em que se situar. Cabe ao analista manejar essa relação imaginária que será instaurada. Ele espera que você acredite nele, o psicótico percebe o real de um jeito que nós não percebemos, a defesa que nós temos, ele não tem. Quando você está falando com o psicótico, ele quer um lugar onde ele seja acreditado, porque ele está falando a verdade, e quando você mergulha no delírio e entra nessa verdade e acaba de alguma forma mostrando para ele o que é o delírio, você vai dando ao psicótico essa possibilidade de percepção de criar pequenos núcleos neuróticos para dar uma organização para permitir uma qualidade melhor de vida. 5 Caso Irmãs Papin 5.1 Contexto 1933, Le Mans, interior da França. Trata-se de um ssassinato brutal com circunstâncias muito estranhas. Lacan publica sua interpretação na forma do artigo "Motivos do crime paranóico: o crime das irmãs Papin", onde expõe sua teoria a respeito do psiquismo das autoras do crime. 7 As irmãs Christine e Léa Papin trabalham como empregadas para a família Lancelin, composta por pai, mãe e filha. As jovens saem pouco de casa, não interagem com muitas pessoas e não trocam palavras com a família Lancellin, os olhares da patroa dizem tudo. Elas são empregadas exemplares e estão sempre juntas, Christine, a mais velha, assume um papel de proteger Léa, a mais nova. 5.2 O crime No dia fatídico, o ferro de passar roupa tem um defeito e a luz da casa acaba. As irmãs estão sozinhas. Quando a patroa e a filha chegam, dizem (com palavras ou o olhar?) que as empregadas são imprestáveis. Em resposta, Christine e Léa assassinam brutalmente as duas, utilizando utensílios de cozinha. Alguns pontos importantes sobre o crime: os olhos das vítimas são arrancados; os rostos ficaram desfigurados; inúmeras incisões e cortes foram feitos nas coxas e nádegas. Ao terminarem, lavam os instrumentos e os guardam de volta, tomam banho e esperam em seu quarto até a polícia chegar. 5.3 Consequências Ambas são presas e permanecem em celas separadas. Quando interrogadas, os depoimentos são idênticos. A irmã mais velha tem uma alucinação da irmã pendurada numa árvore com as pernas cortadas, grita clamando por vê-la e tenta arrancar os próprios olhos. Uma carcereira compadece do sofrimento dela e permite que as duas se encontrem. Christine abraça a irmã de maneira violenta e não a solta, ao ponto de Léa se debater e desmaiar, e o chefe da carceragem as separa à força. Após esse episódio, Christine nunca mais menciona o nome da irmã, parece que a descartou. Ela desenvolveu um delírio místico e se entregou a Deus, tomada por uma indiferença radical diante da vida. Foi sentenciada à morte, mas faleceu no manicômio judiciário de Rennes por não se alimentar. Léa foi condenada a 10 anos de trabalho forçado. Cumpriu sua pena e viveu o resto de seus dias com a mãe. 5.4 História da família Papin Clemence, a mãe, teve primeiro Emilia, depois Christine e, por fim, Léa. Ela cedeu as filhas quando bebês para parentes cuidarem, depois as colocou em um convento e as pegou de volta. Uma relação de apropriação na criação das meninas. 8 Emília voltou para o convento, na tentativa de fugir da mãe, que era extremamente controladora. Ela desenvolveu um delírio de ciúmes que envolvia as filhas, haviam "eles", que ameaçavam a família, e isso se intensificou após cortar relações com a filha que a "traiu". Ela confiscava o dinheiro das filhas e as criticavam duramente. "Em síntese, estavade olho nas filhas e as segurava com mão de ferro." Após algum tempo, as filhas cortaram o contato com a mãe e posteriormente pararam de enviar a ela seus salários. 5.5 Teorização sobre o caso Trata-se de um caso de loucura a dois, caracterizado pela presença do delirante e do fraco que o segue. O delirante é Christine, que impôs seu delírio à Léa, que foi absorvida por ele. Esse fenômeno explica o porquê dos depoimentos das duas serem idênticos e surpreender os investigadores. Para que ocorra esse vínculo, as pessoas devem ser próximas e compartilhar intimidade, estarem a par das inseguranças, esperanças e crenças uma da outra e, por fim, o delírio precisa ser crível, os elementos não podem ser muito fora da realidade, caso contrário a pessoa rejeitará o delírio da outro, não “o compra”. A origem do delírio de Christine está na loucura da própria mãe, Clémence. O eixo autêntico do crime está nesse par, enquanto o par das irmãs é o efeito secundário. A relação de apropriação que tem com as filhas, junto com as cartas que escreveu após elas romperem com ela demonstram um delírio de ciúmes. “…era através das filhas que se sentia perseguida. Suas filhas estavam afastadas dela. Clémence o disse em suas cartas a Christine e Léa. Citemos suas palavras: “Conto com vocês 2, apesar da minha dor sofrida porque me disseram que eles fez de tudo pra fazer vocês entrarem num convento.” Nessa mesma carta, ela chegou a denunciar os eclesiásticos, bem como as patroas de suas meninas, por afastarem dela suas filhas: “Afastaram vocês da sua mãe (...) eles vão derrubar vocês pra ser donos de vocês (...) vão fazer o que quiser com vocês. Partam, não dêem os 8 dias de aviso aos patrões, vão embora!” Num outro momento, ela predisse: “Na vida nunca se sabe o que espera a gente (...) têm inveja de vocês e de mim (...). Desconfiem, a gente pensa que tem amigos e muitas vezes são grandes inimigos, incrusive aqueles que cerca a gente mais de perto.” E escreveu ainda: “Afastaram vocês da sua mãe pra vocês não verem nada do que eles fez com vocês (...) Deus nunca vai admitir de encerrar 2 moças. Quanto 9 mais a gente é onestos, mais a gente sofre com os católicos.” (VIALET-BINE, CORIAT, 2001. p. 206) Após anos convivendo com a mãe, tendo que aturar suas críticas e sua loucura, Christine desenvolveu um delírio de perseguição e reivindicação, na busca de escapar desse controle e cobrança. As tentativas de romper o vínculo materno ocorreram quando ela cessou o contato com a mãe, depois parou de dar seu salário a ela e chamou a patroa de mamãe quando conversava com a irmã. Inclusive, a irmã mais nova passou a ser uma extensão de si, uma parte frágil de si, e quando cuidava dela estava cuidando de si mesma, ao mesmo tempo entrando no papel de mãe. Esse isolamento das irmãs junto do delírio de perseguição formaram uma realidade singular para elas, externa à realidade neurótica. A linguagem na psicose é muito importante para que se possa entender a transferência psicótica escancarada no caso. As palavras cortam o corpo do psicótico, sem a presença de uma barreira de significado para manter a palavra no campo léxico e significante. Ou seja, as palavras atingem diretamente a construção da realidade delirante do sujeito. A perseguição da mãe para Christine era dito como uma pessoa “de olho”, as críticas feitas por ela eram “observações”, todas as menções relacionadas a essa perseguição o aparelho ocular sempre é presente, seja na gramática ou na própria percepção. Os olhos são o mecanismo para se observar o perigo e também é o mecanismo para os outros te perseguirem, ou, no caso de Christine, realizar as “observações”. A linguagem se mostra profundamente em diversos momentos, o “jogo” gramatical para tentar desvendar o sofrimento presente no delírio paranóico é evidente. Por exemplo na conversa com o prefeito, na qual Christine pede a emancipação de Léa. Com o pedido negado, ela fala que o prefeito a estava perseguindo. Nesse momento, deve-se entender a aproximação das palavras mãe (mère) e prefeito (maire), compreendendo então que ela estava pedindo socorro quanto à própria mãe, Clémence. No último exemplo do efeito da linguagem, deslumbra-se o momento do crime, no qual a patroa, que ocupava a posição de mãe na nova realidade delirante, 10 adotaria um “olhar” crítico, ou melhor, “observações” insuportáveis, e para conter esse sofrimento, era necessário arrancá-los. Além disso, a frase dita pela Sra. Lancelin, “vocês não prestam para nada”, entende-se na realidade delirante que esse “nada” como algo concreto e universal, então só lhe restava a morte. Christine entendeu então que ela deveria matar a patroa e acabar com o “olhar” para que ela não morresse, e a irmã, Léa, imersa no delírio da irmã, a acompanhou. No ato final, pode-se perceber o efeito drástico da separação das irmãs. Para Christine, o afastamento de Léa significava como um pedaço de si se separando do corpo, atiçando o delírio e o deixando ainda mais insuportável. Essa insuportabilidade gerou as alucinações de Christine, que via sua irmã com a parte inferior do corpo cheio de cortes. As alucinações, em acordo com a forclusão de Lacan, surgiram devido a quebra da realidade delirante e a ausência de uma barreira significante, ou recalque, projetando o inconsciente. A parte inferior do corpo da irmã era uma representação de si mesma, já que sua irmã era seu reflexo. Ou seja, Christine via seu processo de castração, tardio e forçado, que não se juntaria novamente mesmo com o reencontro com a irmã, que não suportaria a nova versão do delírio da irmã; Após esse último momento, a realidade de Christine foi fragmentada, a única coisa que lhe restou foi seu delírio místico, embasado no que aprendeu no convento. Encontrou em Deus a figura do Pai dentro da realidade delirante, e se entregou a ele como última opção, assim foi marcado a forclusão do Nome do Pai. Um pai que estava ausente e não realizou a castração, que apareceria de forma brusca e incompreensível posteriormente. Em seus momentos finais, Christine se entregou a Deus, “morrendo” antes de sua execução, com sua realidade já quebrada brutalmente, só lhe restava a morte. REFERÊNCIAS 11 CALLIGARIS Contardo; Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses. Porto Alegre, Artes Médicas, 1989. LACAN Jacques [1954-1955] FERREIRA, André Félix. A injunção como acontecimento: sobre o desencadeamento de crises psicóticas. 2012. 99 f., Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura)—Universidade de Brasília, Brasília, 2012. NASIO, J.-D. Os grandes casos de psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 12