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INOVAÇÃO E NOVAS TECNOLOGIAS Geiza Caruline Costa E-book 3 Neste E-Book: INTRODUÇÃO ����������������������������������������������������������� 3 DISRUPÇÃO ���������������������������������������������������������������4 OS QUATRO PS DA INOVAÇÃO �������������������������12 INTENÇÃO ESTRATÉGICA ����������������������������������� 14 CAPACIDADE DE INOVAÇÃO �����������������������������18 IMPLEMENTAÇÃO E APLICAÇÃO DA TECNOLOGIA ��������������������������������������������������������� 22 CONSIDERAÇÕES FINAIS �����������������������������������30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & CONSULTADAS ��������������������������������������������������������31 2 INTRODUÇÃO Você já pensou que a maioria das empresas não nasce com uma identidade realmente inovadora, e que a cultura da inovação pode ser desenvolvida a partir de um processo estruturado? Neste capítulo você vai perceber como um negócio pode adotar uma estratégia de inovação, determinar sua capacidade inovadora e avaliar as oportunidades de melhorias internas e as oportunidades a serem aproveitadas no ambiente externo. 3 DISRUPÇÃO A organizações de caráter iminentemente inovadoras são aquelas que já conseguiram estabelecer uma cultura de inovação entre seus colaboradores, de modo que até seus próprios clientes já sabem dis- so. A maioria de nós – consumidores de tecnologia e usuários de smartphones –, quando pensamos em marcas inovadoras, lembramos algumas, como Apple, Samsung e Xiaomi. A disrupção é um termo muito utilizado, principal- mente a partir dos anos 2000, e frequentemente as- sociado à inovação. A competição entre as empresas inovadoras está dividida basicamente em duas ca- tegorias: circunstâncias de sustentação e de disrup- ção. Segundo Christensen (2019), as situações de sustentação são aquelas em que existe uma corrida para lançar novos produtos ou serviços de alto valor, que possam ser vendidos mais caros do que os que vêm sendo oferecidos no mercado. Em circunstância disruptivas, o desafio é oferecer um produto mais simples, de menor valor que atinja um público não restrito às pessoas que sempre procuram por ino- vações. Nesses dois tipos de competição, qualquer empresa fabricante de software ou hardware pode competir. Entretanto, na competição por sustenta- ção, geralmente levam vantagem as empresas já estabelecidas; mas, na circunstância de disrupção, as concorrentes entrantes têm mais chances de se destacar com seus novos e mais simples produtos. 4 No mercado atual, as empresas entrantes, que ofe- recem serviços e produtos considerados disruptivos, são geralmente chamadas de startups. No modelo de inovação disruptiva, há três fatores marcantes. O primeiro fator está associado à taxa de absorção das inovações pelo público consumidor. Entre os usuários de tecnologias da informação, a maioria nunca irá desfrutar da maior capacidade de proces- samento dos melhores processadores do mercado, simplesmente pelo fato de nunca precisar, ou não utilizar aplicações que demandem altíssimo poder de processamento. É importante considerar que existem clientes que habitualmente preferem a tecnologia de ponta, se atraem pelo que há de melhor e mais moderno, e preferem comprar esses tipos de tecno- logias. Essas pessoas dificilmente se sentem satis- feitas com produtos que não sejam “os melhores”. Outro ponto importante do modelo de inovação dis- ruptiva se relaciona com as tecnologias que não são “de ponta”, mas são suficientemente boas. Essas tec- nologias atendem as necessidades atuais e futuras da maioria dos clientes. Nesse contexto, o progresso tecnológico resulta tanto em produtos novos como em produtos aprimorados. O terceiro ponto diferencia a inovação disruptiva da inovação sustentadora. Por meio da inovação dis- ruptiva os concorrentes podem trazer ao mercado tecnologias um pouco inferiores – em desempenho ou em funcionalidades – do que aquelas já presentes nas prateleiras de lojas, ou lojas de aplicativos, mas são capazes de atrair mais clientes em função dos 5 benefícios que oferecem e pelo preço competitivo. Quando seus produtos se estabelecem no mercado, começa um processo de melhoria até que esses pro- dutos superem as necessidades de desempenho, ca- pacidade, funcionalidade ou outras características e despertem o interesse até mesmo daqueles clientes mais exigentes. Em geral, os concorrentes não se pre- ocupam muito quando uma empresa nova chega no mercado com produtos de funcionalidades não tão boas quanto os seus, de preço, capacidade e funcio- nalidades inferiores. Quando as inovações disruptivas desenvolvidas pelos novos concorrentes assumem uma posição de destaque, uma parte expressiva dos clientes já foram cativados. Nesse momento, as em- presas estabelecidas há muito tempo no mercado precisam rever sua estratégia de inovação, uma vez que grande parte dos seus investimentos está dire- cionada às melhorias dos produtos de sustentação, os quais vêm sofrendo com a perda dos clientes que migraram para as tecnologias disruptivas. O modelo da inovação disruptiva é apresentado na figura 1. O gráfico consiste na progressão do de- sempenho das tecnologias em função do tempo. A primeira seta contínua representa as inovações sus- tentadoras, seguidas pelas tecnologias disruptivas, representadas pela seta abaixo, de cor um pouco mais clara. Note que as duas setas tanto das inova- ções sustentadoras como das tecnologias disrupti- vas ultrapassam a marca tracejada que se refere ao desempenho que os clientes conseguem absorver. Para entender essa situação, observe que as tecno- 6 logias disruptivas surgem depois das tecnologias sustentadoras e que, após um tempo no mercado, oferecem recursos que superam as necessidades dos compradores, se configurando, portanto, como um produto de grande risco às empresas já consoli- dadas. Nesse momento, os produtos inovadores dos concorrentes entrantes já estabeleceram um forte embate com os produtos mais inovadores e mais caros das empresas nº 1 em vendas. D es em pe nh o Tempo Inovações sustentadoras Desempenho que os clientes conseguem absorver Tecnologias distrutivas Figura 1: Modelo da inovação disruptiva Fonte: Adaptado de Christensen (2019) Como exemplo de aplicação do modelo da inovação disruptiva considere a posição atual da marca Xiaomi no mercado de smartphones na Índia. A tabela abai- xo apresenta as principais companhias do mercado indiano em relação ao volume de vendas e sua fatia de mercado nos anos de 2018 e 2019. 7 Companhia V o l u m e de vendas 2019 F a t i a d e m e rc a d o 2019 V o l u m e de vendas 2018 F a t i a d e m e rc a d o 2018 Acumulado entre 2018 e 2019 Xiaomi 43,6 28,6% 39,9 28,3% 9,2% Samsung 31,0 20,3% 31,9 22,6% -2,8% Vivo 23,8 15,6% 14,2 10,1% 67,0% OPPO 16,3 10,7% 10,2 7,2% 60,5% Realme 16,2 10,6% 4,4 3,2% 263,5% Outros 21,3 14,2% 40,5 28,6% -46,6% Tabela 1: As cinco principais concorrentes do mercado de smartphones na Índia Fonte: IDC (2020) Na última década, a liderança do mercado de smar- tphones na Índia era assumida pela fabricante sul-co- reana Samsung. Com a chegada da Xiaomi, trazendo produtos inovadores e de baixo custo (comparados aos principais dispositivos da Samsung), em 2018, a empresa chinesa assumiu 28,3% de fatia de mer- cado – o que, em termos gerais, corresponde a di- zer que, a cada 10 smartphones entre os indianos, aproximadamente três deles são da marca Xiaomi. O volume de vendas em 2019 da Xiaomi alcançou a marca singular de 43,6 milhões de unidades vendi- das, quantidade nunca vendida por qualquer um dos concorrentes naquele país. Comparando a evolução entre Samsung e Xiaomi na Índia entre 2018 e 2019, o resultado é positivo para a empresa chinesa, que teve um aumento acumulado de 9,2%. O cenário da Samsung já não é tão bom, uma vez que regrediu em 2,8% no acumulado entre os dois anos. O desempenho periódico das maiores empresas de smartphones do mercado indiano é apresentado na figuraabaixo. 8 Fa lta d e m er ca do 4T18 1T19 2T19 3T19 4T19 35.0% 30.0% 25.0% 20.0% 15.0% 5.0% 0.0% 10.0% Xiaomi Vivo Samsung OPPO Realme Figura 2: Desempenho trimestral dos cinco principais con- correntes do mercado indiano de smartphones Fonte: IDC (2020) Na figura 2 são apresentados os retratos da fatia de mercado das marcas Xiaomi, Vivo, Samsung, OPPO e Realme, entre o último trimestre de 2018 e o último trimestre de 2019. Apesar de a oscilação nesse pe- ríodo não ser muito grande, demonstram acentuada queda da Samsung e uma relativa estabilidade da Xiaomi. Note que as linhas das concorrentes Realme, Vivo e OPPO apresentam uma subida expressiva, todas elas com potencial de assumir a segunda posi- ção do mercado, pressionando a Xiaomi e a Samsung por preços competitivos e inovações em produtos e serviços. O que a tabela 1 e a figura 2 não podem respon- der é se o avanço dos concorrentes sobre a fatia de mercado da Samsung é efeito de uma disrupção. De acordo com Christensen (2019), para saber se algo 9 inovador faz parte do conceito disruptivo é preciso fazer um teste que responda a algumas questões. O primeiro conjunto de questões consiste em: a) Há muitas pessoas que historicamente não tive- ram acesso a esse produto ou serviço por razões de falta de dinheiro ou habilidade? b) Para usar o produto ou serviço, os clientes preci- sam estar em um local pouco conveniente? As respostas afirmativas podem indicar que o pro- duto ou serviço poderá ser acessado por um público que, até então, não tinha condições de usufrui-lo. Isso não reflete necessariamente a melhoria das condições financeiras dos clientes, mas indica que as classes sociais de menor poder aquisitivo con- seguem ter acesso ao produto ou serviço de modo menos centralizado. O segundo conjunto de questões explora ainda mais a oportunidade de atingir um público mais carente em termos de acesso a tecnologia: c) Há clientes que ficariam satisfeitos em ter um produto bom, mesmo que não seja o melhor de todos, a um preço acessível? d) É possível criar um modelo de negócios que per- mita a geração de lucros expressivos mesmo com preços baixos, alcançando os clientes acostumados a consumir as tecnologias dos concorrentes? 10 Respondendo afirmativamente às questões do se- gundo grupo, o negócio está mais próximo de atingir o máximo potencial do seu produto, tanto para o público que até então tinha pouco acesso a essas tecnologias como para o público de classe mais alta, acostumado com as tecnologias já ofertadas no mercado. A última e decisiva questão avalia se a inovação é disruptiva frente a todos os concorrentes já estabe- lecidos. Se sim, existem chances significativas de a proposta em curso alavancar um novo negócio, produto ou serviço entrante na competição entre os concorrentes já estabelecidos. 11 OS QUATRO PS DA INOVAÇÃO Na busca por se manterem competitivas e atingirem patamares altos de inovação, as empresas podem adotar uma abordagem multifacetada da inovação. A figura 3 apresenta essa abordagem, chamada de os 4 Ps da Inovação. Paradigma Posição InovaçãoProcesso Produto Figura 3: Os 4 Ps da inovação Fonte: Carstens e Fonseca (2019) Os quatro elementos que circundam a inovação são apresentados acima. O produto corresponde ao primeiro P. A inovação de produto corresponde às melhorias feitas sobre um produto, mantendo suas principais características ou sobre a mesma arqui- tetura, provendo novas funcionalidades. A inovação de processo corresponde ao segundo P, que versa sobre as melhorias do processo de produção ou o modo de entregar e oferecer o serviço ou produto ao consumidor. O terceiro P se relaciona à posição e consiste em considerar o produto ou serviço em um contexto diferente do usual, oferecendo-o ao cliente em um lugar ou circunstância não usual. Por fim, o P de paradigma é o mais abrangente, consiste em considerar a oferta ou o consumo do serviço de uma 12 forma totalmente diferente da realidade atual, que- brando barreiras em relação aos aspectos sociais ou organizacionais. Os 4 Ps estão relacionados e podem ser aplicados de forma combinada. Vamos utilizar os 4 Ps da inovação nas telecomunicações. Considere como partida as comunicações remotas que eram feitas por conexões físicas ponto a ponto; quando uma pessoa desejava falar com outra, era preciso acionar uma central tele- fônica para efetuar a interconexão entre duas casas ligadas por cabos. O advento das redes celulares estabeleceu um paradigma totalmente novo, permi- tindo a combinação de mobilidade e comunicação (P de paradigma). A oferta de linhas telefônicas por meio de chips (SIM cards) representou um grande avanço na popularização e no barateamento das co- municações remotas, de modo que hoje uma pessoa pode ter várias linhas telefônicas, sem gastar muito, alternando entre os chips para efetuar chamadas, na- vegar na internet e enviar mensagens (P de produto). Com o aumento significativo da cobertura da rede de telefonia celular, além, é claro, do aumento da largura de banda, foi possível consolidar o 4G como um dos principais protocolos de redes de comunicação de dados, permitindo que, através de uma linha telefôni- ca móvel, seja disponibilizado acesso à internet por meio de roteadores dentro de lugares como ônibus e aviões (P de posição). Por fim, os processos de venda e cobrança pelos serviços de telefonia móvel passaram por uma grande mudança relacionada aos planos pré e pós-pagos e, mais recentemente, com a criação de planos “de controle” (P de processo). 13 INTENÇÃO ESTRATÉGICA A competitividade agressiva e a entrada de concor- rentes cada vez mais audaciosos afetam a forma como as organizações se posicionam no mercado e reagem aos seus oponentes. As empresas visioná- rias se valem de um conceito chamado por Hamel e Prahalad (2005) de intenção estratégica. A intenção estratégica pode fazer parte de uma estra- tégia de posicionamento tecnológico da organização, só que muito mais flexível do que um planejamento estratégico. Isso porque este não tem um caráter dinâmico, ao contrário disso, ele pretende indicar os meios para atingir uma finalidade específica, como o alcance de uma fatia de mercado mais expressiva a partir dos recursos disponíveis. Em vez de definir um plano, tanto empresas jovens como empresas maduras adotam a intenção estra- tégica para dominar os mercados futuros, valendo- -se da ambição além de seus próprios recursos e capacidades, obsessão pela vitória e manutenção dos desafios internos. A cultura de inovação é disseminada entre todas as equipes e membros de uma organização por meio de desafios e da obsessão pela vitória. Os executivos e a alta gestão da empresa devem criar um senso de urgência entre os colaboradores que os motive a trabalhar com excelência, perseguindo um alvo definido, quer seja manter-se no topo, quer seja atin- 14 gir o topo do mercado, desbancando as empresas concorrentes. Para motivar as equipes a perseguirem o sucesso, segundo Hamel e Prahalad (2005), é necessário que sejam reservados espaços para as contribuições individuais e das equipes. Os profissionais devem estar engajados e pessoalmente comprometidos com a vitória, portanto, devem ser escolhidas me- tas que proporcionem o atingimento da posição de liderança da empresa. A intenção estratégica é estável ao longo do tempo, pois estimula o progresso contínuo por meio de me- tas audaciosas que superam os recursos disponíveis e a própria capacidade da empresa. Para tanto, a organização deve prover aos colaboradores as habi- lidades necessárias para que eles superem o próprio desempenho, valorizando o aprendizado. Collins e Porras (1995) indicam as medidas que as empresas visionárias adotam para disseminar a ide- ologia da intenção estratégia. Uma destas medidas é a “doutrinação” dos funcionários, pois eles são treinados em relação a ideologia da organização, de forma que seu modo de trabalhoseja resultado de uma certa devoção pela ideologia da empresa, como a busca contínua pela liderança de mercado. Outra medida é a seleção meticulosa dos membros da alta gestão que definem os motivos fundamentais pelos quais a organização existe. Apesar de o lucro ser um dos principais objetivos da empresa, este não deve ser o único objetivo. Devem ser definidos 15 os valores centrais da organização, traduzidos em metas, estratégia, tática e projetos. Além das metas audaciosas, o estímulo ao progresso é convertido em tentativas variadas que produzam caminhos diferentes para alcançar resultados exi- tosos. Collins e Porras (1995) explicam que, dessa forma, as empresas visionárias passam por um pro- cesso de evolução comparável à evolução das espé- cies de Charles Darwin. Nesse sentido, o estímulo incondicional ao progresso conduz a um processo de autoaperfeiçoamento. Ao adotar essas medidas, as empresas se distanciam da imitação competitiva e assumem a inovação com- petitiva, ou seja, em vez de manterem-se imitando os competidores, à medida que sejam lançados produ- tos ou serviços inovadores – na tentativa de ganhar em preço, em vez de inovar –, as organizações traba- lham com foco no sucesso, de modo praticamente obsessivo, buscando uma posição de destaque entre os concorrentes. SAIBA MAIS Vijay Govindarajan explica que inovar é uma ques- tão de sobrevivência para as empresas, e não uma opção. Leia o pequeno artigo Não inova? Então, não tem estratégia, diz guru de gestão, que tra- ta da visão do autor sobre a estratégia de inova- ção. Disponível em: https://exame.com/negocios/ empresa-que-nao-inova-nao-tem-estrategia-diz. 16 Hamel e Prahalad (2005) sugerem algumas aborda- gens para a inovação competitiva, como a criação de camadas de vantagens, a procura por “tijolos soltos”, e a concorrência por meio da colaboração. As camadas de vantagens constituem pequenos ganhos ou vantagens que uma organização detém sobre as demais. Quanto mais numerosas forem essas vantagens, maior a expressividade das vitórias sobre os oponentes. Essas vantagens vão desde menores custos nos processos produtivos, maior confiabilidade de determinado público até a maior qualidade de seus produtos. A procura por “tijolos soltos” consiste em demarcar um território pouco explorado, como um público con- sumidor que não é atendido pelos principais concor- rentes. Essa busca passa por uma pesquisa sobre os concorrentes e pelo mercado consumidor, incluindo regiões geográficas onde ainda não foi estabelecido um embate entre concorrentes expressivos. A concorrência por meio da colaboração se baseia no clássico princípio “inimigo do meu inimigo é meu ami- go”. Na luta com a concorrência globalizada, agentes regionais podem cooperar para combater um rival internacional, como é o caso de várias companhias japonesas, combatendo em conjunto contra entran- tes rivais americanos. 17 CAPACIDADE DE INOVAÇÃO Além de se apropriar da intenção estratégica, a so- brevivência das organizações em uma concorrência acirrada depende de sua capacidade de inovação, definida por Peng, Schroeder e Shah (2008) como a força do conjunto de práticas organizacionais para o desenvolvimento de novos produtos ou processos. Não existe uma receita mágica, mas recomenda-se adotar um amplo conjunto de estratégias adotadas pelas organizações para se manterem tecnologica- mente competitivas, mas para Tang (1998), a inova- ção depende de começar e ir tocando um projeto com o objetivo de comercializar um produto ou serviço inovador. A figura abaixo apresenta um esquema do modelo de inovação das organizações proposto pelo autor. Informação e Comunicação Começar e ir fazendo os projetos Comportamento e Integração Conhecimentos e habilidades Produtos, processos e serviços Figura 4: Modelo de inovação nas organizações Fonte: Adaptado de Tang (1998) 18 O modelo de inovação nas organizações relaciona seis fundamentos, e o primeiro deles é o ambiente externo. Uma empresa se relaciona com o ambiente por meio da troca de informações e ideias, bem como as saídas do processo de inovação, que podem ser produtos, processos ou serviços. O ambiente externo envolve os agentes econômicos como o próprio go- verno, as políticas de incentivo à inovação, o mercado e a cultura da sociedade. O elemento que oferece suporte e guia para as ações ligadas à inovação é definido pela missão, tarefas, valores, estratégias e recursos que a organização lança mão para aplicar aos projetos. As informações e comunicações podem ser consi- deradas um estímulo à inovação, por isso, assume um papel de conexão entre todos os outros elemen- tos. O uso das tecnologias da informação pode pro- porcionar alta disponibilidade das informações que subsidiam a capacidade de inovação das empresas. O comportamento e a integração estão relacionados à forma de trabalho das equipes e como os membros estão integrados aos projetos. O estímulo ao com- portamento criativo é um fator determinante para o aumento da capacidade de inovação das equipes, bem como a integração multifuncional, incluindo profissionais de áreas diferentes trabalhando em conjunto no mesmo projeto. O elemento compor- tamento e integração também está associado ao chamado ambiente interno da empresa, o qual apre- senta a estrutura, a cultura e o clima organizacionais. É certo dizer que a inovação só acontece se existi- 19 rem condições suficientes para isso, entre os quais o comportamento e a integração das pessoas são pontos fundamentais. Os conhecimentos e as habilidades envolvidos no processo de inovação incluem a criatividade, a inteli- gência, os insights, o domínio técnico, o conhecimen- to tácito e o conhecimento explícito, o treinamento e a capacidade de aprendizagem. Por fim, o ponto central é começar os projetos e ir fazendo acontecer. Tang (1998) explica que é pre- ciso buscar ativamente e localizar oportunidades e problemas a serem resolvidos, necessidades dos clientes e do mercado a serem atendidas e a redu- ção das incertezas, por meio da condução de pro- jetos. A conclusão dos projetos, por intermédio do atingimento de suas metas, resulta em produtos, processos e serviços inovadores para o público do ambiente externo. A partir de uma revisão sistemática da bibliografia, um tipo de estudo no qual é feita uma ampla pes- quisa sobre determinado conhecimento, Valladares et al. (2014) conseguiram propor uma síntese dos fatores determinantes e resultantes da capacidade de inovação. Um dos pilares consiste no tratamento com os colaboradores e na persuasão das equipes em prol da inovação. A liderança transformadora induz as equipes a superarem seus interesses pes- soais para colaborar ainda mais com o sucesso da organização. Além disso, o uso de metas e desafios dá aos funcionários autonomia e liberdade para tra- 20 balhar, ao passo que cada indivíduo decide os meios pelos quais chegará ao objetivo. O conhecimento do cliente e do mercado (alinhado ao modelo de inovação de Tang) está relacionado à habilidade para identificar as necessidades dos clientes, às vezes, por mudanças significativas e ten- dências, permite que a organização saia na frente para satisfazer novos nichos de mercado. Outro ponto importante é a estrutura organizacional flexível, valorizando a informalidade, o conhecimento e a experiência das pessoas. Desse modo, com uma comunicação horizontal mais fluida ou um “desape- go hierárquico” as respostas aos problemas surgem mais facilmente do que em empresas estruturadas de maneira mais mecanicista. As habilidades ligadas à gestão de projetos também são um ponto de destaque para determinar a capaci- dade de inovação de uma empresa. O planejamento, a provisão de recursos, o controle (não rígido) do processo de inovação e o compromisso com os re- sultados dos projetos também são elementos que contribuem para um bom desempenho das organi- zações em relação à cultura de inovação.21 IMPLEMENTAÇÃO E APLICAÇÃO DA TECNOLOGIA Uma avaliação multidisciplinar da inovação tecnoló- gica analisa a temática sob diversos aspectos, com o intuito não somente de definir, conceituar, apresentar etapas, barreiras, mas como aplicar a inovação nas empresas. Pensando nisso, o diagrama da figura 5 apresenta o processo de inovação sob várias pers- pectivas: os estágios, o aspecto social, o significado, a natureza da inovação, o tipo e o objetivo. Estágios • Criação • Geração • Implementação • Desenvolvimento • Adoção Significado • Tecnologia • Ideias • Invenções • Criatividade • Mercado Tipo • Produto • Serviço • Processo • Técnica Natureza • Novo • Melhoria • Mudança Objetivo • Sucesso • Diferenciação • Competição Social • Organizações • Empresas • Clientes • Sistemas sociais • Colaboradores • Desenvolvedores Figura 5: A inovação sob várias perspectivas Fonte: Adaptado de Baregheh et al. (2009) Para Baregheh et al. (2009), o processo de inovação passa pelos estágios de criação, geração, implemen- tação, desenvolvimento e adoção. Desse modo, a 22 inovação não pode ser vista como um ponto isolado dentro de uma organização, nem binária (a empresa é ou não inovadora). Apesar de a inovação prevalecer no contexto empre- sarial, o aspecto social revela que a inovação aconte- ce em um contexto de relacionamento entre agentes sociais, ou seja, o intercâmbio de informações entre o mercado consumidor, clientes em potencial e as organizações, com seus funcionários, desenvolve- dores, gestores e equipes. Em relação ao significado, a inovação pode assumir muitos conceitos, dependendo do autor, da abor- dagem ou do enfoque, no entanto, Baregheh et al. (2009) explicam que a inovação conecta as tecnolo- gias, as ideias, as invenções por meio da criatividade e das demandas do mercado, assim como a defini- ção de novos mercados – exemplo: um público que não consumia determinada tecnologia pode passar a comprar e ter acesso a um novo grupo de produtos e serviços. A natureza da inovação está intimamente ligada ao seu conceito. Em linhas gerais, a inovação se rela- ciona ao novo para o mercado, para as empresas e para a sociedade, transformando as ideias em novos produtos e serviços, ou em resultados melhores de produtos e serviços existentes. O tipo da inovação dentro de um processo pode estar associado a um produto, a um serviço, a um proces- so produtivo, de entrega ou, ainda, de oferta do que há de inovador a um público consumidor. Para isso, 23 podem ser criadas técnicas diferentes ou utilizadas técnicas já estabelecidas em um contexto totalmen- te diferente. Nesse ponto, você pode perceber que existe uma relação ainda com os 4 Ps da Inovação. No contexto do processo de inovação, invariavel- mente é estabelecida uma competição entre os concorrentes, na qual todos pretendem obter uma vantagem, estabelecendo a liderança no mercado a partir do sucesso dos resultados de seus projetos. Como parte fundamental da criação e aplicação de novas tecnologias, a Pesquisa e o Desenvolvimento (P&D) divididos em três etapas são apresentados na figura 6. Parcerias entre empresas e fornecedores Novos produtos e serviços Novos processos Etapa 1 Pesquisa básica Etapa 2 Pesquisa aplicada Etapa 3 Desenvolvimento Figura 6: Fases da pesquisa e desenvolvimento da inovação. Fonte: Adaptado de Mattos e Guimarães (2012) 24 Para a implementação do processo de inovação em uma organização a primeira etapa é a da pesquisa básica. A pesquisa está intimamente ligada ao de- senvolvimento industrial e busca explorar o potencial das teorias e sua aplicação nas tecnologias. Em ge- ral, a pesquisa básica não é focada em um produto ou processo particular, mas seus desdobramentos incidem na etapa 2, pesquisa aplicada. A pesquisa aplicada parte da pesquisa básica para a geração de invenções que avancem o conhecimento científico e tecnológico para potenciais aplicações. Os resultados da pesquisa aplicada resolvem proble- mas práticos e podem resultar em novos produtos ou serviços. A etapa 3, desenvolvimento, consiste na utilização dos conhecimentos produzidos pelas pesquisas para obtenção de melhorias expressivas, incrementos, ou inovações em produtos e serviços. Os resultados dessa etapa podem ser protótipos, experimentos, aplicações de engenharia, novos materiais, fórmulas, algoritmos, componentes, entre outros. Segundo Mattos e Guimarães (2012), tanto nas três primeiras etapas quanto nos resultados do processo de inovação pode haver a efetiva participação de empresas parceiras e fornecedores, seja promoven- do a fusão de várias tecnologias existentes, sem ter que desenvolver algo totalmente do zero, além do compartilhamento de conhecimento técnico e divisão de custos. 25 As parcerias também podem ser concretizadas entre clientes e fornecedores, com a terceirização, com a colaboração da iniciativa de software de código aberto, por intermédio de incubadoras, investimentos de terceiros, e outras iniciativas. O Brasil é um país que, frequentemente, se vale da transferência de tecnologia de mercados com pro- cessos de inovação vistos como “maduros”, especial- mente da Europa e dos Estados Unidos. Isso diminui o risco e os custos de P&D das empresas brasileiras e segue uma série de normas que regulam a cessão de marca, cessão de patentes ou licenças de uso. A transferência de tecnologia significa transferir o re- sultado de novas descobertas, por meio de patentes ou autorização do uso, por terceiros. Mais um fator importante em relação ao processo de inovação é uma análise criteriosa a respeito dos custos ocultos da tecnologia. A transferência de tec- nologia de uma empresa que já desenvolveu uma pesquisa e compartilha os resultados de P&D com outra organização pode parecer econômica, no en- tanto, existem muitos outros custos relacionados à operação, softwares, distribuição, manutenção, treinamento, suprimento e documentação (MATTOS; GUIMARÃES, 2012). Quando é definida a intenção estratégica, ou um pla- no de inovação, os gestores devem verificar como a mudança tecnológica pode contribuir para os objeti- vos da empresa, seja em termos de melhoria do pro- cesso produtivo, reduzindo insumos, tempo ou força 26 de trabalho, como também é necessário mensurar o impacto dessas tecnologias para a obtenção de vantagens frente aos concorrentes. Uma tecnologia facilmente imitável pode colocar uma organização em posição de liderança que dificilmente se sustenta por muito tempo, já que os concorrentes podem, sem muito esforço e investimento, alterar as propriedades dos produtos, provendo soluções melhoradas a um custo baixíssimo, se comparado ao investimento da ideia precursora. Para apoiar a estratégia tecnológica de uma empresa pode ser utilizada a matriz SWOT, conforme exemplo apresentado na figura abaixo. Ambiente externo Ambiente interno Forças • Equipe comprometida com melhorias • Boa capacidade técnica • Boa carteira de clientes Fraquezas • Baixa capacidade de investimento • Limitações de salários Ameaças • Concorrência • Defasagem tecnológica • Alto turnover Oportunidades • Produtos comuns para setores diferentes • Utilização de recursos de formento do governo para criação de projetos de valor tecnológicos Figura 7: Exemplo de matriz SWOT Fonte: Adaptado de Mattos e Guimarães (2012) 27 A matriz SWOT é utilizada para avaliar o cenário in- terno e externo da organização em relação a uma proposta. O acrônimo SWOT corresponde às forças (Strengths), fraquezas (Weaknesses), oportunidades (Opportunities) e ameaças (Threats). Na parte su- perior são destacadas as forças e as fraquezas da organização, considerando o ambiente interno. Na parte inferior da matriz são destacadas as ameaças e as oportunidades, em relação ao ambiente externo. Na análise da adoção de um processo de inovação são verificados os aspectos positivos da organização que podem colaborar para a disseminaçãoda cultura de inovação e trazer resultados positivos, entre eles, no campo das Forças como exemplo foram elen- cados: equipe comprometida com melhorias, boa capacidade técnica e boa carteira de clientes. Como fraquezas é preciso verificar quais são os fatores críticos que podem prejudicar a inovação, como a baixa capacidade de investimento e a limitação de salários. Os itens elencados nessa seção são pontos muito críticos às políticas de P&D. Em relação ao ambiente externo é feita uma avalia- ção sobre as ameaças que a organização sofre ou poderá sofrer, bem como a identificação de oportu- nidades a serem exploradas. No exemplo da figura 7 foram identificadas como ameaças: a concorrência, a defasagem tecnológica e o alto turnover (rotatividade de pessoal). Como exemplos de oportunidades foram selecionados produtos comuns para setores diferen- tes e a utilização de recursos de fomento do governo para a criação de projetos de valor tecnológico. 28 A aplicação da matriz SWOT na definição do pro- cesso de implementação e aplicação da tecnologia deve ser conduzida por meio de um brainstorming, em que todos os participantes podem contribuir na identificação do potencial da empresa, de riscos, pro- porcionando uma visão abrangente e multidisciplinar, incluindo não somente membros da alta gestão. Segundo Mattos e Guimarães (2012), o cruzamen- to dos dados dos diferentes quadrantes da matriz SWOT permite à empresa avaliar sua estratégia para obtenção da vantagem competitiva, analisar formas de explorar as oportunidades do mercado, investir na modificação do ambiente no qual está inserida, além de promover mudanças no ambiente interno do negócio. 29 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, você aprendeu como a inovação pode estar baseada em processos de melhorias incrementais, de sustentação ou disrupção. Você percebeu como os 4 Ps da inovação têm interface com a intenção estratégica e como uma organização pode analisar sua própria capacidade de inovação, promovendo mudanças significativas sobre o ne- gócio, para conseguir responder as demandas do mercado, implementando e aplicando a tecnologia nos processos de negócio. 30 Referências Bibliográficas & Consultadas ALBUQUERQUE, E. da M. e. A apropriabilidade dos frutos do progresso técnico. In: Economia da ino- vação tecnológica. 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