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41UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado Já nos Estados Unidos, ocorre o oposto, as restrições que são impostas aos negros são mais amplas e aceitas, independentemente das condições pessoais como nível esco- lar, econômico e cultural. O preconceito racial nos Estados Unidos se apresenta da mesma forma a um operário e a um doutor. O negro naquele país será escanteado para bairros exclusivos para negros, mesmo que hoje não haja uma lei que determine isso, é cultural aceitar que a população negra não deva morar no bairro de brancos. Até há algumas déca- das os negros não poderiam frequentar as mesmas escolas, faculdades, hospitais, ônibus, que os brancos. Também não poderiam aguardar na mesma sala de espera que os brancos e aeroportos, não poderiam beber no mesmo bebedouro ou utilizar o mesmo banheiro. Até mesmo igrejas que não aceitavam negros era comum por lá. O preconceito de marca varia subjetivamente, a relação entre quem pratica e sofre preconceito é sempre subjetiva. O brasileiro olha o indivíduo negro e através da tonalidade de sua pele exerce seu preconceito. Pessoas de pele mais escura sofre mais preconceito que as pessoas de pele menos escura, desta forma, frases como “você não é negro, mas sim moreno” são comuns, pois, tenta-se clarear a pessoa, como se ser negro com uma pele mais escura não fosse bom. É bom lembrarmos que isso acontece largamente no Brasil de forma inconsciente, pois as pessoas que dizem tais frases não se percebem como racistas, e, portanto, não percebem que tal frase apresenta a tonalidade da pele do negro como algo que prioriza tons de pele mais claros. Quando o preconceito é de marca podemos perceber que quando alguém que se gosta é negro (amigo ou familiar) o julgamento sobre essa pessoa sofre variação e frases como “ele é negro, mas é um cara legal”, “é negro, mas é inteligente” ou ainda “é negro de alma branca” mostram subjetividade do julgamento. Talvez a frase mais emblemática seja “negro de alma branca”, pois a palavra “negro” foi há muito utilizada como sinônimo para algo ruim: “peste negra”, “alma negra”, “livro negro”, etc., logo, o negro que se tem afeição teria “alma branca”, pois a cor branca é associada a coisas boas, mas, negro não. Com o racismo de origem isso não ocorre, pois, não importa ao preconceituoso a tonalidade da pele do mesmo, frases como “ele não é negro, ele é moreno” não fazem sentido, pois o que importa é a ascendência do indivíduo. Nos Estados Unidos o grupo sofre preconceito por questões hereditárias. Nos Estados Unidos [...] o branqueamento, pela miscigenação, por mais com- pleto que seja, não implica incorporação do mestiço ao grupo branco. Mesmo de cabelos sedosos e loiros, pele [branca], nariz afilado, lábios finos, olhos verdes, sem nenhum [traço] característico que se possa considerar como ne- groide e, mesmo, lhe sendo impossível, biologicamente, produzir uma des- cendência negroide, ‘por mais esforço que faça, para todos os efeitos sociais, o mestiço continuará sendo um ‘negro’. (NOGUEIRA: 1998). 42UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado Se você for descendente de negros, você sofrerá preconceito. Se você for filho de um pai negro e uma mãe branca e nascer com a pele branca, sofrerá com o racismo, pois, o que importa ao racismo de origem é, como o nome sugere, sua origem negra, e não somente a cor de sua pele. É assim que, nos Estados Unidos, o negro é definido. No Brasil essa ideia é inconcebível, pois, mesmo sendo filho de negros, se a pessoa é branca, se os traços são de pessoas brancas, essa pessoa não passa por preconceitos referentes à sua cor. O racismo no brasil está ligado à cor da pele, nos Estados Unidos, à sua origem. Nogueira cita uma situação de uma mulher branca de ascendência negra que foi, através de um anúncio, empregada como secretária. Durante seis meses trabalhou e havia sido considerada uma funcionária eficiente, então, resolveu revelar sua verdadeira identi- dade como descendente de negros, acreditando que seria aceita por sua eficiência. Sua confissão poderia contribuir para que o patrão redefinisse, favoravelmente, sua atitude em relação aos negros. Foi, porém, despedida. Da parte do grupo branco, as sanções podem ir desde a simples perda de emprego e o rompimento das relações que, como branco, o indivíduo teve ensejo de estabelecer, até a depredação de bens, a agressão física e o lin- chamento; da parte do grupo negro, o indivíduo estará exposto à censura moral, por falta de lealdade, ao ridículo e ao boicote. (NOGUEIRA: 1998). Essa realidade do racismo de origem é inexplicável para o brasileiro. Se um brasi- leiro completamente branco e que, como branco, sempre viveu no Brasil, indo aos Estados Unidos, terá a surpresa de ser considerado e tratado como negro. Nogueira cita ainda um intelectual brasileiro, seu amigo, que mora em Chicago, mestiço, pele clara, cuja identifi- cação como branco nunca fora posta em dúvida no Brasil, mas estava passando por uma crise emocional por ter sofrido discriminação no hotel a que fora recomendado. No outro extremo, um negro norte-americano, em viagem ao Brasil, com poucos traços negroides, pode ser visto e tratado como branco, mulato claro, mulato escuro. O simples fato de ser norte-americano e falar inglês faz com que muitos brasileiros não o discriminem como faria com um negro brasileiro de classe baixa. Mais inconcebível ainda aos brasileiros a respeito do racismo de origem pode ser visto em um caso onde estudantes universitários frequentavam uma instituição que proibia a discriminação racial e estudantes brasileiros se irritaram com a atitude de uma garota americana, loira, que, provavelmente namorava o rapaz negro com quem andava, se apresentava como sendo negra. Todos se assustaram com a informação de que nos Estados Unidos, devido à definição de “negro”, há indivíduos completamente brancos que são considerados “negros” por se envolverem com pessoas negras, ou por amizade ou por 43UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado relações afetivas. São chamados de nigger-lover, isto é, os que amam ou gostam de negros e sofrem preconceito racial igualmente. No Brasil o racismo de marca faz com que se tenha preconceito com o negro desconhecido, mas afetividade com os negros próximos. Entretanto, Isso não reduz as brincadeiras sobre o negro que “quando não suja na entrada, suja na saída”, “negro urubu” ou “negro macaco”. As crianças fazem isso com frequência. Reproduzem o que vivenciam no dia-a-dia. Reproduzem inconscientemente a falta de negros nos desenhos, nos filmes, novelas, jornais, etc. Os adultos transmitem o que lhes foi passado também de forma in- consciente. Isso não elimina o racismo, ele continua latente e implícito. Desta forma, como o racismo de marca é implícito, disfarçado, mascarado de tolerância, pois, se tem um amigo negro, um vizinho negro que se gosta muito, etc., acredita-se que no Brasil o racismo fora eliminado, entretanto, além de existir camuflado, o racismo de marca contribui para a não união da população negra no Brasil contra o preconceito de raça. Um brasileiro nos EUA sofreria com o estranhamento dos negros de lá, uma vez que o negro brasileiro não se organiza para lutar contra o preconceito, assim como ocorre nos Estados Unidos. O negro norte-americano o consideraria um párea, uma vez que o racismo de origem, uma vez que ele decreta como inimigo a população branca que o escravizou e limitou seus direitos. Por isso mesmo, por lá, existem grupos organizados de negros, suas manifestações são organizadas e realizam uma segregação intencional de sua população em relação aos brancos. Acreditam que como foram segregados pelos brancos, não devem se aproximar deles. Os negros nos Estados Unidos não lutam para serem aceitos pelos brancos, pelo fim do racismo, lutam para terem direitos iguais. O ódio destilado aos negros nos Estados Unidos, levou aoódio do negro aos brancos naquele país. Uma situação bem complexa. Também é possível destacar que no preconceito de marca, a ideologia é, ao mes- mo tempo, assimilacionista e miscigenascionista e onde o preconceito é de origem, ela é segregacionista e racista. No Brasil, espera-se um embranquecimento da raça como resultado inevitável da miscigenação racial, é largamente difundido no Brasil a teoria da miscigenação das três raças: indígenas, brancos e negros. Não é uma mentira, entretanto muito se reduziu a discussão étnica a miscigenação desses grupos. A noção geral é de que o processo de branqueamento constituirá a melhor solução possível para a heterogeneidade étnica do povo brasileiro. Exemplo é que diante do casamento entre uma pessoa branca e uma negra, não são poucos que afirmam que a pessoa negra teve sorte por ter se casado com uma pessoa branca, já para a pessoa branca afirmarão que a pessoa “teve azar” ou que os dois não combinam. Quando o filho de um casal misto nasce branco, também se diz que o 44UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado casal “teve sorte”, mas quando nasce negro, a impressão é de pesar. Cada vez mais esse pensamento é deixado de lado no Brasil, existindo, porém, com maior força entre os mais velhos, mas ainda existindo entre os mais jovens, entretanto, com menor força, é verdade. O brasileiro é miscigenascionista, não despreza a miscigenação racial, na verdade a vê como algo inevitável nessa terra. Também é assimilacionista, pois assimila os traços culturais nas relações étnico-raciais. Assimila no sentido incorpora os traços culturais de outra cultura aos traços culturais brasileiros. Em geral, espera-se que o indivíduo de uma determinada cultura africana, por exemplo, abandone, aos poucos, sua herança cultural, em proveito da “cultura nacional”. Basta ver as religiões africanas que foram assimiladas, incorporadas pela cultura brasileira, como o candomblé e a umbanda, o mesmo pode-se afirmar a respeito do samba e capoeira, que, criados por negros, hoje é algo considerado totalmente brasileiro, ou seja, assimilado. Isso acontece não somente com a cultura africana no Brasil, mas também com a indígena e até mesmo com a cultura do imigrante europeu. No Brasil, a ideologia de relações inter-raciais, como parte do modo de ser nacio- nal, envolve uma valorização do igualitarismo racial e condena a manifestação intencional de preconceito. Isso acoberta um racismo velado por aqui. Essa ideia é disseminada pela teoria do sociólogo da “Democracia Racial” de Gilberto Freire, que afirma boa convivência entre negros, brancos e indígenas. Teoria, a propósito bastante combatida na academia. Nos Estados Unidos os brancos querem se ver longe dos negros mantendo-os em seus núcleos separados com seu modo de vida à parte. Também essa realidade americana vem diminuindo bem lentamente. Pelo menos as leis proíbem qualquer tipo de segregação racial, mas a cultura norte-americana continua discriminando o afro-americano. No Brasil ainda, onde o preconceito é de marca, a etiqueta de relações inter-raciais põe ênfase no controle do comportamento de indivíduos do grupo discriminador, de modo a evitar a humilhação dos membros do grupo discriminado. Assim, por aqui, não é bem visto puxar assunto sobre cor de pele diante de uma pessoa negra. Evita-se referência à cor, da mesma maneira que se evitaria a referência a qualquer outro assunto capaz de ferir o interlocutor. Em contrapartida, em uma briga com uma pessoa negra, a ofensa é direcionada à sua origem étnica, isto é, ofende-se a pessoa destacando a sua cor de pele. Por exemplo em uma “fechada” no trânsito, se a pessoa que “fechou” for negra pode-se esperar do indivíduo no automóvel que foi “fechado” que, a perder a paciência com a situa- ção e resolver ofendê-la o faça destacando a cor de sua pele, e não sua pouca habilidade em dirigir, em outras palavras, a pessoa não irá ofender dizendo “comprou a carteira”, ou “volta para autoescola”, aquele que ofende, ao ver que o motorista é negro, é provável que diga “tinha que ser negro” ou “negros deveriam ser proibidos de dirigir”, como se a cor da 45UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado pessoa tivesse algum tipo de relação com sua pouca habilidade no trânsito. Desta forma, o negro no Brasil, toma consciência da própria negritude em momentos de conflito, quando o adversário procura humilhá-lo lembrando-lhe a cor da pele. Assim funciona a etiqueta no preconceito de marca. As coisas são diferentes nos Estados unidos, pois, tendo lá um preconceito de origem a etiqueta expressa a diferença entre negros e brancos. Assim, o branco exige que o negro o chame de mister e a ele se dirija mencionando-lhe o sobrenome. Todavia, o negro deve se conformar em ser chamado pelo branco pelo primeiro nome, sem o uso da expressão mister. Em alguns lugares ainda no século XXI, sobretudo nos estados do sul do país somente atendem pessoas negras após atender todas as brancas antes, e em alguns lugares, os negros não são atendidos. Esse tipo de comportamento vem diminuído nos Estados Unidos, mas ainda vive. E, ao contrário do Brasil, a consciência da própria identifi- cação racial, por parte do negro, é contínua envolvendo uma preocupação permanente de autoafirmação e uma constante atitude ofensiva. Quanto à estrutura social, onde o preconceito é de marca, a probabilidade de ascensão social diminui, ficando o preconceito de raça disfarçado sobre o preconceito de classe. Isso é usado para negar o preconceito racial no Brasil. Já nos Estados Unidos, onde o preconceito é de origem, brancos e negros vivem separados, como se fossem duas sociedades paralelas. No Brasil, onde o preconceito é de marca, a luta do discriminado tende a se confundir com a lutas que envolvem a classe social. Muitos negros no Brasil não lutam para conquistar direitos negados aos negros, mas lutam por direitos sociais e, assim, sem perceber confundem os dois direitos e negam que os negros tiveram seus direitos negados em privilégio dos brancos. Mas, onde o preconceito é de origem, o grupo discriminado atua politicamente como minoria[1] organizada, coesa e, portanto, capaz e propensa à ação política. O branco e o negro no Brasil convivem, se admitem, o preconceito por aqui está disfarçado, não se discrimina explicitamente no Brasil, a etiqueta não permite. Seus pares irão achar estranho que fale sobre cor na presença de um negro. O racismo de marca é camuflado. Aparece somente nos momentos de conflito. Aparece da forma mais cruel. O negro ofendido até aquele momento não percebia que era discriminado, mas no conflito percebe o desprezo que parte da sociedade branco nutre por ele. Ser negro, no racismo de marca é o problema. Quanto mais negro se é, mais racismo sofrerá. Já o branco e o negro nos Estados Unidos não se admitem, não convivem, não dialogam, sendo um racismo explícito, na etiqueta por lá é normal se desprezar alguém pela cor da pele. O racismo de 46UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado origem é evidente e se faz questão que seja evidente. Aparece em todos os momentos. Não importa ao racismo ao racismo de origem sua cor da pele somente, ser negro é um problema, mas se relacionar com negros também é. Conceito sociológico que se refere à um grupo que possui minoria de direitos e não minoria numérica, em alguns casos, por exemplo, uma maioria numérica pode ser considerada “minoria”, por possuir menos direitos, é o caso das mulheres no Brasil que representam 52% da população, porém, não possuem os privilégio masculinos. [1] [1] NOGUEIRA, Oracy. 1998. [2] Características observáveis de um organismo ou população. 47UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado SAIBA MAIS De 1890 a 1937 a Capoeira foi “proibida” por lei por ser uma manifestação de resistência negra. Seguem os dados da lei de proibição: Lei de Proibição da CapoeiraCódigo Penal da República dos Estados Unidos do Brasil (Decreto número 847, de 11 de outubro de 1890) Capítulo XIII -- Dos vadios e capoeiras Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal co- nhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumen- tos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal; [...] Art. 403. No caso de reincidência será aplicada à capoeira, no grau máximo, a pena do art. 400. Com a pena de um a três anos. Parágrafo único. Se for estrangeiro, será deportado depois de cumprida a pena. Em 1935 a capoeira deixou de constar como arte proibida com a queda do Decreto de 11 de outubro de 1890. Posteriormente, em l937, a então Secretaria da Educação con- seguia um registro oficial que qualificava seu curso de capoeira como Curso de Educa- ção Física. Em 26 de dezembro de 1972 a capoeira foi homologada pelo Ministério da Educação e Cultura como modalidade desportiva. 48UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado REFLITA “Não sou descendente de escravos. Eu descendo de seres humanos que foram escra- vizados” (Makota Valdina). Fonte: MATA, Lídice. Pronunciamento de Lídice da Mata em 24/11/2016. Discponível em: . Acesso em 19 jun. 2019. “O quilombo [...] constituía-se ‘em polo de resistência que fazia convergir para o seu centro os diversos níveis de descontentamento e opressão de uma sociedade que tinha como forma de trabalho fundamental a escravidão’ e por estar ‘dentro da situação de negação à ordem escravista, tinha de se defender constantemente da repressão dos senhores’ (Moura, 1987, p.44). Fonte: MOURA, Clóvis. Os quilombos e a rebelião negra. São Paulo, Brasiliense, 1987. 49UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado Mais uma Unidade chega ao fim. A abolição fora contemplada não pelos olhos de princesas, mas a partir dos olhos dos negros brasileiros que foram escravizados ou tiveram ancestrais escravizados para que através dessa abolição percebêssemos que nossos espíritos não haviam sido emancipados junto com os negros. A abolição deu fim à escravatura, mas, não ao racismo. O racismo existe e está presente entre nós brasileiros. Herança da escravidão. Ele permanece sorrateiro no Brasil. Se esconde, se camufla, se espreita, dentro da mentalidade do Brasileiro que acredita que racismo é o que existe nos Estados Unidos, um racismo explícito. O brasileiro não vê o preconceito racial explícito, portanto, considera-o não existente ou de pouca relevância por aqui. Engana-se. Para mostrar o equívoco do brasileiro à respeito das questões raciais, Oracy Nogueira fora evocado para apresentar a diferença do preconceito racial nos EUA e Brasil para que venhamos perceber, que, não importa se o racismo é de marca ou origem, é tudo racismo. CONSIDERAÇÕES FINAIS 50UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado Leitura Complementar ANJOS, Rafael Sanzio Araújo dos. “As geografias oficial e invisível do Brasil: algumas refe- rências”. Geousp – Espaço e Tempo (Online), v. 19, n. 2, p. 375-391, 2015. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/geousp/article/viewFile/102810/105686 Material Complementar LIVRO Título: Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na sociabilidade brasileira Autora: Lilia Moritz Schwarcz Editora: Claro Enigma Ano: 2013 Sinopse: No Brasil, a questão do preconceito racial é tão complexa que parece desafiar a própria objetividade dos números. Em uma pesquisa realizada em 1988, 97% dos entrevistados afirmaram não serem racistas, mas 98% deles declararam conhecer alguém que fosse. E nem mesmo as análises mais biológicas, que apostam num DNA fixo para a nossa pele parecem resistir à ambiguidade das relações sociais brasileiras, já que, como se diz popularmente, “preto rico no Brasil é branco, assim como branco pobre é preto”. Nesse contexto, a determinação da própria cor se torna critério tão subjetivo que em questionário recente do IBGE, pautado na autoavaliação, foram detectadas mais de uma centena de colorações diferentes de pele. Em “Nem preto nem branco, muito pelo contrário”, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz revela um país marcado por um tipo de racismo muito peculiar - negado publicamente, praticado na intimidade. Para isso, volta às origens de um Brasil recém-descoberto e apresenta ao leitor os primeiros relatos dos viajantes e as principais teorias a respeito dos “bárbaros gentis”, desse povo sem “F, sem L e sem R: sem fé, sem lei, sem rei”, teorias estas fundamentais para o leitor moderno entender a complexidade de uma nação miscigenada e com tantas nuances. Passando pelos modelos deterministas raciais de finais do XIX, pelas teorias de branqueamento do início do século XX, depois pelas ideias da mestiçagem dos anos 1930, ou de estudos que datam da década de 1950, que queriam usar o “caso brasileiro” como propa- ganda, pois acreditava-se que o Brasil seria um exemplo de democracia racial, a autora nos mostra que, por trás do mito da convivência pacífica e da exaltação da miscigenação como fator determinante para a cons- trução da identidade nacional, na prática, a velha máxima do “quanto mais branco melhor” nunca foi totalmente deixada de lado. Se por um lado a autora traça um panorama histórico, por outro joga luz sobre as sutilezas perversas do cotidiano. Seja na literatura, como no conto de fadas “A princesa negrina”, em que os pais desejam ver a sua filha negra transformada em garota branca, seja na boneca loira como modelo de beleza, é também nos detalhes que a ideia de uma nação destituída de preconceitos raciais cai por terra. Com um texto engenhoso e claro, este ensaio, mais do que propor análises conclusivas, convida o leitor para uma grande reflexão sobre a questão racial no país. http://www.revistas.usp.br/geousp/article/viewFile/102810/105686