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DIREITO DAS OBRIGAÇÕES -AULA 2 
1 Transmissão da obrigação 
Em uma mesma obrigação, é possível que ocorra alteração de seu elemento 
subjetivo, ou seja, de seus sujeitos. Quando isso acontece, tem-se a transmissão 
das obrigações, disciplinada nos artigos 286 a 303 do Código Civil. Existem dois 
tipos principais de transmissão da obrigação: 
 
a transmissão, não ocorre a extinção da obrigação, pois, apesar da alteração 
dos sujeitos, há a preservação da substância da relação jurídica. Nas palavras 
de Carlos Gonçalves (2019, p. 217), 
A relação obrigacional é passível, portanto, de alteração na composição de seu 
elemento pessoal, sem que esse fato atinja sua individualidade, de tal sorte que 
o vínculo subsistirá na sua identidade, apesar das modificações operadas pela 
sucessão singular ativa ou passiva. Com a substituição de um dos sujeitos da 
relação obrigacional, não deixa de ser esta ela mesma, continuando, portanto, a 
existir como se não houvesse sofrido qualquer alteração. 
Assim, definido o conceito de transmissão da obrigação, passa-se para a análise 
de suas três espécies. A cessão de crédito e a assunção da dívida são previstas 
expressamente no Código Civil, enquanto a cessão de contrato trata-se de uma 
construção doutrinária. 
1.1 Cessão de crédito 
Cessão de crédito é um negócio jurídico bilateral entre credor e um terceiro 
estranho ao negócio original, por meio do qual o credor transfere seu crédito a 
este. O credor que transfere seu crédito é denominado cedente, enquanto o 
terceiro que assume seu lugar na obrigação é 
denominado cessionário (GONÇALVES, 2019). A cessão de crédito pode 
ocorrer de forma gratuita ou onerosa, de forma total ou parcial. Abrange todos 
os acessórios do crédito, como juros e direitos de garantia (art. 287, CC). Em 
regra, ocorre independentemente da anuência do devedor, desde que as 
partes não tenham convencionado em sentido contrário (art. 286, CC). 
O artigo 286 do Código Civil contem hipóteses de impossibilidade de cessão de 
crédito: “O credor pode ceder o seu crédito, se a isso não se opuser à natureza 
da obrigação, à lei, ou à convenção com o devedor; a cláusula proibitiva da 
cessão não poderá ser oposta ao cessionário de boa-fé, se não constar do 
instrumento da obrigação” (BRASIL, 2002). Analisando o referido artigo, tem-se 
hipóteses em que a própria natureza da obrigação impede a ocorrência de 
cessão de crédito. Primeiramente, tem-se o caso dos créditos de caráter 
personalíssimo e os de direito de família (como direito a nome e alimentos). Há 
também a proibição de cessão em decorrência de lei, citando-se como exemplo 
o exercício de usufruto (art. 1.393, CC) e o direito à herança de pessoa viva (art. 
426, CC). Ainda, aponta-se que, na hipótese em que os cessionários sejam 
tutores, curadores ou pais do cedente, a cessão só poderá ocorrer se houver 
permissão judicial para tanto (art. 497, I e 1.691, CC) (GONÇALVES, 
2019). Veja, a seguir, um resumo das hipóteses aqui citadas: 
 
Quando ocorrer a cessão, é dever do credor notificar o devedor para que este 
possa solver a obrigação ao sujeito correto. Só assim a cessão de crédito terá 
eficácia em relação ao devedor (art. 290, CC). Caso o devedor pague ao credor 
primitivo (ou seja, ao credor antigo), a obrigação considera-se cumprida. Assim, 
diz-se que a cessão só é eficaz em relação ao devedor quando este for 
cientificado). Contudo, ressalta-se que mesmo que seja inoponível por ausência 
de notificação, não significa que a cessão de crédito seja nula, então, caso o 
devedor pague ao credor primitivo, cabe ao credor primitivo restituir ao 
cessionário tudo que recebeu do devedor indevidamente (art. 292 e 293, CC) 
(GONÇALVES, 2019). 
Quanto à oponibilidade da cessão de crédito perante terceiros (pessoas 
estranhas tanto a obrigação, quanto a cessão), o artigo 288 do Código Civil 
exige forma especial para esta modalidade de transmissão de crédito: deve ser 
celebrada mediante instrumento público, ou instrumento particular revestido das 
solenidades previstas no artigo 654, §1º. Ainda quanto à forma, o artigo 289 
preceitua que, tratando-se de cessão de crédito hipotecário, o cessionário tem o 
direito de averbá-la no registro do imóvel. Quando o credor, que tem a pretensão 
de ser pago, exige o pagamento do devedor, este deve assim proceder, ou então 
opor uma exceção que o exime da prestação. O Código Civil, em seu artigo 294, 
além de esclarecer a possibilidade de opor exceções do devedor para com seu 
novo credor, preservou as exceções que o devedor tinha contra o cedente, então 
estas também poderão ser opostas contra o cessionário. 
Ressalta-se que as exceções que o devedor tinha com cedente devem ser 
opostas assim que for notificado na ocorrência da cessão de crédito. Caso não 
tenha sido notificado, o devedor poderá opor ao cessionário as exceções que 
tinha contra o cedente, a qualquer tempo, desde que antes do pagamento 
(GONÇALVES, 2019). 
O crédito cedido pode ser de difícil cobrança, tendo isso em vista, o artigo 295 
do Código Civil estipula responsabilidade do cedente pelo crédito transferido, a 
depender se a cessão de crédito ocorreu de forma onerosa ou gratuita. Se 
ocorrer a título oneroso, o cedente fica responsável pela existência e titularidade 
do crédito no momento da transferência. Se ocorrer a título gratuito, não fica 
responsável, a menos que tenha agido em má fé. Contudo, mister destacar que 
o artigo 295 não se refere à solvência do devedor, pela qual o cedente não é 
responsável e, assim, os riscos por esta são do cessionário, salvo estipulação 
em sentido contrário (art. 296, CC). 
Ainda quanto ao artigo 295, Caio Mário Pereira (2018) pontua que tal artigo se 
refere apenas aos casos de cessão convencional, ou seja, da cessão fruto da 
vontade das partes. Essa distinção é necessária, pois em caso de cessão de 
crédito por força da lei, o cedente não tem nenhuma responsabilidade pelo 
crédito. O artigo 297 do Código Civil, por sua vez, trata da hipótese em que as 
partes tenham convencionado que o cedente é responsável pela solvência do 
devedor. Se assim determinar-se, o cedente poderá responder pelo equivalente 
que tiver recebido do cessionário ao realizar a cessão de crédito, com os 
respectivos juros e eventuais despesas que o cessionário teve com a cessão. 
Então, o cedente responsável pela solvência do devedor se compromete não em 
gerar enriquecimento ao cessionário, mas em não deixar que este tenha 
prejuízos com a eventual inadimplência da prestação (PEREIRA, 2018). O artigo 
298 do mesmo diploma trata da hipótese em que o crédito que possa ser cedido 
seja objeto de penhora e, caso isso ocorra, determina que este não poderá ser 
cedido, afinal, a penhora faz com que o crédito deixe de fazer parte do patrimônio 
do credor. Então, caso o credor tenha feito transferência de crédito penhorado, 
esta será ineficaz. Na segunda parte do mesmo artigo, observa-se a 
consequência da penhora do crédito para o devedor. Caso este não seja 
notificado da penhora e faça o pagamento, fica exonerado da obrigação. Caso 
seja notificado e realize o pagamento mesmo assim, seja ao cedente, seja ao 
cessionário, responderá por novo pagamento perante o terceiro exequente. 
Dessa forma, o credor que cedeu o crédito que não podia ceder, responde 
perante o terceiro prejudicado (PEREIRA, 2018). 
Por fim, trata-se da hipótese de múltiplas cessões do mesmo crédito. Caso isso 
ocorra e o devedor não seja notificado (PEREIRA, 2018), conforme o artigo 291 
do Código Civil, basta que o devedor pague àquele cessionário que primeiro 
apresentar o título do crédito cedido. 
1.2 Assunção de dívida 
Assunção de dívida, também chamada de cessão de débito, ocorre quando 
o devedor transfere sua posição para um terceiro, estranho à relação jurídica. 
Trata-se de um negócio jurídico bilateral que requer anuência expressa do 
credor para acontecer. O terceiro que assume a posição do devedor é 
chamado assuntor e se torna responsável pelos encargosobrigacionais, 
subsistindo também os acessórios (GONÇALVES, 2019). Nesse seguimento, 
prescreve o Código Civil, em seu artigo 299: “É facultado a terceiro assumir a 
obrigação do devedor, com o consentimento expresso do credor, ficando 
exonerado o devedor primitivo, salvo se aquele, ao tempo da assunção, era 
insolvente e o credor o ignorava” (BRASIL, 2002). A parte deste artigo que trata 
da exoneração do devedor primitivo, discorre sobre a possibilidade da assunção 
ocorrer de forma liberatória ou cumulativa. 
 
Por esta definição, percebe-se que, uma grande diferença entre a assunção de 
dívida e a cessão de crédito reside no fato da necessidade obrigatória de 
consentimento da outra parte. Se na cessão de crédito a concordância do 
devedor é dispensável, na assunção da dívida a anuência do credor é requisito 
necessário, devendo, inclusive, se dar de modo expresso (art. 299, parágrafo 
único, CC). 
Existe apenas uma hipótese em que o Código Civil admite aceitação tácita do 
credor, qual seja, a do artigo 303, que determina: “O adquirente de imóvel 
hipotecado pode tomar a seu cargo o pagamento do crédito garantido; se o 
credor, notificado, não impugnar em trinta dias a transferência do débito, 
entender-se-á dado o assentimento” (BRASIL, 2002). Quanto ao objeto da 
assunção da dívida, Gonçalves (2019, p. 232) aponta que é possível transferir 
“todas as dívidas, presentes e futuras, salvo as que devem ser pessoalmente 
cumpridas pelo devedor.” Apesar da redação do Código Civil não trazer essa 
distinção de forma expressa, existem duas espécies de assunção de dívida, 
segundo a doutrina. A primeira é denominada expromissão e ocorre quando o 
débito é cedido mediante contrato entre o credor e terceiro, sem necessidade de 
anuência do devedor. A segunda espécie chama-se delegação, que, por sua 
vez, ocorre quando o próprio devedor transfere seu débito, com a concordância 
do credor (DINIZ, 2007). 
Um dos efeitos da assunção de débito é a cessação dos privilégios e garantias 
pessoais do devedor primitivo, assim, não pode o assuntor opor exceções do 
antigo devedor contra o credor (art. 302, CC). No mesmo sentido, as garantias 
especiais dadas pelo credor ao antigo devedor não serão aproveitadas pelo novo 
devedor (art. 300, CC). Por fim, analisa-se o conteúdo do artigo 301 do Código 
Civil, que trata da hipótese de ocorrer anulação da substituição do devedor, ou 
seja, da assunção da dívida. Se ocorrer, haverá restauração da dívida e a 
obrigação volta a ser exatamente como era antes da assunção acontecer. Da 
frustrada substituição do devedor, apenas subsistem eventuais garantias reais 
dadas pelo assuntor ao credor antes da assunção da dívida ser anulada. Diniz 
exemplifica (2007, p. 455): 
“A” deve a “B”, sendo “C” e “D” seus fiadores. “A e “C” forçam “E” a assumir o 
débito. “B” e “D” desconhecem a coação sofrida por “E”. “B” aceita a cessão de 
débito feita a “E”, com isso “A”, “C” e “D” liberar-se-ão. “E” consegue anular a 
assunção de dívida, alegando vício de consentimento. Com isso revigorar-se-á 
o débito de “A” e todas as garantias, menos a fiança dada por “D”, já que não 
tinha ciência daquela coação. 
1.3 Cessão de contrato 
A cessão de contrato é a única modalidade de transmissão da obrigação não 
regulamentada pelo direito brasileiro. Contudo, segundo Diniz (2007, p. 457): 
a cessão de contrato tem existência jurídica como negócio jurídico inominado 
por decorrer do princípio da autonomia negocial, pois, desde que os contraentes 
tenham capacidade, sendo lícito e possível o objeto e não recorrendo a forma 
proibida legalmente, as partes poderão estipular o que quiserem. Além disso, é 
preciso lembrar que, se a cessão de crédito e a de débito são permitidas, não há 
por que vedar a cessão do contrato, já que se do contrato defluem créditos e 
débitos para os interessados, que os podem transmitir separadamente, não há 
razão para que não tenham o direito de os transferir no todo. Portanto, na cessão 
de contrato transmitem-se ao cessionário não só os direitos, mas também as 
obrigações do cedente. 
Assim, define-se cessão de contrato como a transmissão de obrigação em que 
ocorre transferência da inteira posição ativa e passiva em um contrato. Em outras 
palavras, trata-se de um instituto que permite que um sujeito transfira de uma só 
vez seus débitos e créditos para terceiro. É o que a doutrina denomina de cessão 
de posição contratual, que Gonçalves define da seguinte maneira (2019, p. 241): 
O contrato, como bem jurídico, possui valor material e integra o patrimônio dos 
contratantes, podendo por isso ser objeto de negócio. Esse valor não se limita 
ao bem da vida sobre o qual incide a manifestação de vontade das partes, mas 
abrange um conjunto de atividades representado por estudos preliminares, 
tratativas, expectativas, viagens, consultas a especialistas, desgaste psicológico, 
despesas etc., que não pode ser desconsiderado. Esse complexo, que inclui os 
direitos e as obrigações, os créditos e os débitos emergentes da avença, 
denomina-se posição contratual, de valor econômico autônomo, passível, 
portanto, de circular como qualquer outro bem econômico. 
A cessão de contrato, então, possui natureza contratual e é composta por três 
sujeitos: o cedente (transfere sua posição contratual), o cessionário (assume a 
posição contratual do cedente) e o cedido (o contraente que consente com a 
realização da cessão) (GONÇALVES, 2019). 
A doutrina brasileira estabeleceu três requisitos para que a cessão de contrato 
possa ocorrer, além das demais regras que se aplicam a qualquer negócio 
jurídico bilateral: 
 deve haver celebração de contrato entre cedente e cessionário; 
 a cessão deve ser integral; 
 anuência expressa do cedido (PEREIRA, 2018). 
Quanto aos efeitos da cessão de contrato entre cedente e contraente cedido, 
existem duas categorias de cessão de contrato, a cessão de contrato com 
liberação do cedente e a cessão de contrato sem liberação do cedente. Na 
primeira, o cedente se exime, completamente, da obrigação, enquanto na 
segunda, transfere sua posição contratual, mas permanece na obrigação como 
principal pagador. Trata-se de hipótese em que o cedido não autoriza que o 
cedente seja liberado (GONÇALVES, 2019). Quanto aos efeitos entre cedente e 
cessionário, tem-se a transferência ao cessionário de todos os direitos e 
obrigações do cedente. Por analogia, a doutrina defende que se apliquem aqui 
as disposições do Código Civil relativas à cessão de crédito, em destaque os 
artigos 295 e 296 (GONÇALVES, 2019). 
Por fim, quanto aos efeitos da cessão de contrato entre cessionário e contraente 
cedido, a doutrina estabeleceu que as exceções que o cedente possuía não 
podem ser alegadas pelo cessionário contra o contraente cedido. Também não 
se transmitem ao cessionário os direitos potestativos do cedente. Para ilustrar, 
Gonçalves apresenta o seguinte exemplo (2019, p. 249): 
Assim, quando o locatário, por exemplo, cede a locação a um terceiro, quem 
passa a ser locatório perante o proprietário é esse último. É dele que o locador 
passará a exigir alugueis que se venceram e contra quem poderá promover a 
resolução ou denúncia do contrato. Por outro lado, é o cessionário quem passa 
a ter todos os direitos que resultam da locação, podendo opô-los ao locador. 
Todavia, a aludia transmissão só se produz a partir da data da cessão, não 
respondendo o novo locatário pelos alugueis vencidos anteriormente. 
2 Cumprimento da obrigação 
Ao se constituir uma obrigação, o seu principal objetivo, ou melhor, o efeito que 
se espera desta, é o cumprimento da obrigação, denominado pelo Código Civil 
de “adimplemento da obrigação”, também, por vezes, chamado apenas de 
“pagamento”, em sentindo amplo. As obrigações possuem um ciclo vital, 
composto por três etapas: seu nascimento, suas transformações e, finalmente, 
seu cumprimento. Além de etapa final da obrigação, o cumprimento trata-se do 
objetivo final das demais etapas, pois estas só existem para que eleocorra, 
justamente. (FARIAS; ROSENVALD, 2017) 
O Código Civil prevê o cumprimento da obrigação em seu Título III do Livro 1, 
intitulado “Do Adimplemento e Extinção das Obrigações”. Os termos 
“adimplemento das obrigações” e “extinção das obrigações” encontram-se 
diferenciados pelo ordenamento pátrio. Segundo Gonçalves (2019), o Código 
Civil utiliza “adimplemento” como sinônimo de cumprimento da obrigação, ou 
ainda de pagamento. Assim, define-se cumprimento de obrigação da seguinte 
maneira (GONÇALVES, 2019, p. 253): 
realização voluntária da prestação debitória, tanto quando procede do devedor 
como quando provêm de terceiro, interessado ou não da extinção do vínculo 
obrigacional, pois “qualquer interessado da extinção da dívida pode pagá-la” 
(CC, art. 304) e “igual direito cabe ao terceiro não interessado, se o fizer em 
nome e à conta do devedor” (parágrafo único). 
Assim, o cumprimento da obrigação é um modo de extinção da obrigação, 
através do qual ocorre o cumprimento da prestação devida. Para fins didáticos, 
para que esta análise do cumprimento da obrigação se dê conforme a 
nomenclatura utilizada com o Código Civil de 2002, adotar-se-á aqui o termo 
“pagamento”. Segundo Pereira (2018), este vocábulo tem o sentido de 
cumprimento voluntário da obrigação, seja por iniciativa do próprio devedor, seja 
por solicitação do credor. Nesse sentido, mister destacar que o termo 
“pagamento” adotado pelo Código Civil não é sinônimo de pagamento em 
dinheiro. O pagamento aqui carrega o significado de forma de liberação do 
devedor, mediante o cumprimento da prestação. Tendo esta definição de 
“pagamento” em vista, Pereira (2018) divide as formas de cumprimento da 
obrigação em três grupos: 1) pagamento; 2) pagamentos especiais; e 3) extinção 
das obrigações sem pagamento. 
Para melhor compreensão do estudo de direito das obrigações daqui para frente, 
destaca-se a estruturação do título III do Código Civil (FARIAS; ROSENVALD, 
2017, p. 413-414): o título III é fracionado em nove capítulos, que se resumem 
em dois grandes seguimentos: o pagamento (capítulo I) e os demais modos 
extintivos (capítulos II a IX). 
O primeiro grupo, que também é chamado pela doutrina pátria de “pagamento 
direto” trata do conteúdo disciplinado no Código Civil em seus artigos 304 a 333. 
Por sua vez, o segundo grupo, engloba as seguintes espécies de pagamento: a 
sub-rogação (art. 346 a 351); consignação (art. 334 a 345); imputação (art. 352 
a 355) e dação (art. 356 a 359). Por fim, o terceiro grupo, trata da novação (art. 
360 a 367); compensação (art. 368 a 380); confusão (art. 381 a 384); e remissão 
(art. 385 a 388). 
Assim, nesta unidade, analisa-se o pagamento conforme disciplinado pelo 
Código Civil, examinando-se seus princípios, sujeitos aptos a participar do 
cumprimento da obrigação, lugar e tempo do pagamento, objeto do pagamento, 
pagamento em dinheiro e a prova do pagamento. Em seguida, estudam-se os 
pagamentos especiais, ou seja, sub-rogação, consignação, imputação e dação. 
2.1 Cumprimento da obrigação: princípios gerais 
O cumprimento das obrigações é presidido por dois princípios gerais: o princípio 
da pontualidade e o princípio da boa-fé. O princípio da pontualidade trata da 
exigência que a prestação da obrigação seja cumprida em tempo, no momento 
ajustado, de forma integral, no lugar e modo devidos. Trata-se então da 
determinação que a prestação deve ser cumprida em sua integralidade, para que 
sempre se siga exatamente o que foi convencionado entre as partes. Farias e 
Rosenvald (2017) afirmam que o termo vem da noção de cumprimento “ponto 
por ponto” do estipulado, muito além do mero aspecto temporal. De acordo com 
os mesmos doutrinadores, seguindo o entendimento da Jurista Judith Martins-
Costa, este princípio pode ser decomposto nos princípios 
da correspondência, exatidão e integridade. 
 
 
2.2 Condições subjetivas do pagamento: capacidade e legitimidade para 
cumprir ou receber a prestação 
As condições subjetivas do pagamento são dividias pelo Código Civil em dois 
escopos: a de quem deve pagar (arts. 304 a 307, CC) e a daqueles a quem se 
deve pagar (arts. 308 a 312,CC). Primeiro, analisa-se o escopo de quem deve 
pagar. Segundo Pereira (2018), existem três sujeitos que podem realizar o 
pagamento: 1) o próprio devedor; b) o terceiro interessado; e c) o terceiro 
não-interessado. 
 
 
 
Mesmo que ocorra oposição do devedor, o credor pode aceitar o pagamento e 
ter seu crédito satisfeito. Também pode negá-lo, pois trata-se de fundamento 
válido para recusa. Neste sentido, acrescenta Gonçalves (2019, p. 262): 
é inoperante a oposição do devedor ao pagamento de sua dívida por terceiro 
não interessado, se o credor desejar receber. Só há um meio de evitar o 
pagamento: é o próprio devedor antecipar-se. Mas se o credor e devedor 
acordaram em não admitir pagamento por terceiro não interessado, não poderá 
este pretender fazer desaparecer a dívida, por sua iniciativa. 
Por fim, quanto às condições subjetivas de pagamento de quem deve pagar, 
analisa-se o artigo 307 do Código Civil, que trata do pagamento efetuado 
mediante transmissão de propriedade. “Art. 307. Só terá eficácia o pagamento 
que importar transmissão da propriedade, quando feito por quem possa alienar 
o objeto em que ele consistiu. Parágrafo único. Se se der em pagamento coisa 
fungível, não se poderá mais reclamar do credor que, de boa-fé, a recebeu e 
consumiu, ainda que o solvente não tivesse o direito de aliená-la” (BRASIL, 
2002). Segundo o referido dispositivo, a propriedade de um bem só poderá ser 
transmitida por quem tinha capacidade de alienar, ou seja, pelo titular do direito 
real. Caso o pagamento seja efetuado por quem não tinha essa capacidade, este 
será considerado inválido. Por exemplo, Gabriela furta a bicicleta de Douglas 
para pagar Jonas, que aceita o pagamento. O pagamento é considerado inválido. 
Então, Jonas deverá devolver a bicicleta a Douglas, legítimo proprietário, 
devendo Gabriela responder por perdas e danos a Jonas. 
Contudo, o parágrafo único do artigo 307 excepciona essa regra: caso o 
pagamento seja através de bem fungível, que venha a ser consumido de boa-fé 
pelo credor, o pagamento será considerado válido, cabendo ao sujeito 
prejudicado exigir pagamento de quem efetuou pagamento mediante 
transmissão de propriedade sem ter capacidade de o fazer. Ilustra-se mediante 
o seguinte exemplo: Roberta furta dinheiro de Amanda para pagar Ana. Ana, de 
boa-fé, aceita o pagamento e gasta o dinheiro. O pagamento será considerado 
válido, Ana não se responsabiliza pelo feito de Roberta e restará à Amanda exigir 
perdas e danos de Roberta. 
Passa-se agora à análise das condições subjetivas do cumprimento da 
obrigação sob a esfera daqueles a quem se deve pagar. Conforme preceitua o 
artigo 308 do Código Civil, “O pagamento deve ser feito ao credor ou a quem de 
direito o represente, sob pena de só valer depois de por ele ratificado, ou tanto 
quanto reverter em seu proveito” (BRASIL, 2002). Pela redação deste 
dispositivo, é possível então identificar dois sujeitos capazes de receber 
pagamento: 
1. o próprio credor; ou 
2. a pessoa que o represente. 
No caso de pagamento realizado ao representante do credor, existem três 
possíveis representantes, segundo Gonçalves (2019): o legal, judicial ou 
convencional. 
 O representante legal é o que decorre de lei (como pais, tutores e 
curadores). 
 O representante judicial é o nomeado por juiz. 
 O representante convencional é o nomeado pelo próprio credor, através 
de procuração outorgada ao credor, com poderes especiais específicos 
para a quitação da obrigação. 
Ainda segundo o mesmo doutrinador, frisa-se que, no caso do representante 
legal ou judicial, o pagamento da obrigação só poderá ser feito ao representante, 
a princípio. Já no caso do representante convencional, a obrigação poderá ser 
paga tanto ao próprio credor quanto ao seu representante (GONÇALVES, 
2019). 
Há ainda, segundo o artigo 311do Código Civil, a possibilidade de pagar à 
pessoa diversa do credor ou de seu representante, qual seja, a pessoa 
autorizada a receber. Aqui, assim como nas hipóteses supra elencadas, garante-
se que o pagamento foi feito para a pessoa certa. 
Analisa-se agora o caso de pagamento ao credor putativo, expresso no artigo 
309, in verbis: “O pagamento feito de boa-fé ao credor putativo é válido, ainda 
provado depois que não era credor” (BRASIL, 2002). Credor putativo, é aquele 
que aparenta ser o verdadeiro credor, mas não o é. Mesmo não o sendo, a lei 
determina que o pagamento feito a este “credor aparente” será válido sob dois 
requisitos: deve o credor putativo ter aparência de credor, no sentido de o 
pagamento a ele ser um erro escusável, e estar o devedor de boa-fé (PEREIRA, 
2018). Caso estes requisitos não estejam presentes, não há proteção para o erro 
do devedor (GONÇALVES, 2019). Quanto ao pagamento feito ao credor 
incapaz, o artigo 310 do Código Civil preceitua que, se este for feito pelo devedor 
que tinha ciência da incapacidade do sujeito ativo, o pagamento será inválido, 
salvo se o devedor demonstrar que o pagamento foi revertido em proveito do 
incapaz. Ainda, se o credor for relativamente incapaz e sua incapacidade cessar, 
pode este quitar o pagamento, tornando-o válido (PEREIRA, 2018). 
Finalmente, analisa-se a redação do artigo 312 do Código Civil, que trata de duas 
hipóteses em que o pagamento é feito ao credor real e, mesmo assim, será 
ineficaz, quais sejam: o pagamento efetuado ao credor cujo crédito foi 
penhorado e também da hipótese de impugnação oposta por terceiro. Em ambos 
os casos o devedor foi, previamente, cientificado dos fatos. 
Quando a penhora recai sobre um crédito, o devedor não deve pagar ao credor, 
mas sim depositar em juízo o valor devido. Se mesmo assim pagar ao credor, o 
pagamento será considerado como inválido e o devedor pode ser constrangido 
a pagar novamente, de modo correto. Exemplifica-se com o seguinte caso: 
 
 
 
 
Por fim, o artigo 312 ainda prevê a hipótese de impugnação feita por terceiro, 
que tem os mesmos efeitos do pagamento errôneo em caso de ciência de 
penhora de crédito. Ou seja, se, mesmo assim, o devedor proceder com o 
pagamento do credor originário, o pagamento será inválido, podendo o devedor 
ser constrangido a pagar de novo (GONÇALVES, 2019). 
2.3 Condições objetivas do pagamento: do objeto do pagamento 
Conforme preceitua o artigo 313 do Código Civil, “O credor não é obrigado a 
receber prestação diversa da que lhe é devida, ainda que mais valiosa” (BRASIL, 
2002). Por sua vez, o artigo 314 do mesmo diploma legal afirma que o credor 
não é obrigado a receber, nem o devedor a pagar a prestação por partes, se 
assim não convencionaram. Ambos artigos evidenciam a valorização do Código 
Civil do princípio da pontualidade, já explanado anteriormente. 
O artigo 315 do Código Civil trata especificamente das dívidas em dinheiro. 
São as dívidas em moeda considerando seu valor nominal, ou seja, seu valor 
econômico. O objeto da prestação, aqui, é o próprio dinheiro. Dívidas em dinheiro 
são diferentes das dívidas de valor, pois nessas últimas o dinheiro apenas 
representa o valor do objeto, não sendo o objeto propriamente dito 
(GONÇALVES, 2019). 
Na sequência, os artigos 316 e 317 do Código Civil, ainda se referindo às dívidas 
em dinheiro, determinam que é lícito convencionar aumento progressivo de 
prestações sucessivas, admitindo-se intervenção judicial para a correção do 
pagamento em casos em que, por motivos imprevisíveis, o valor da prestação 
se tornar manifestamente desproporcional no momento da execução. Nessa 
temática, faz-se remissão ao artigo 478 do mesmo diploma legal, que oferece 
outra saída para os casos em que a prestação se torna excessivamente onerosa. 
Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das 
partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, 
em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor 
pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroagirão 
à data da citação (BRASIL, 2002). 
Conforme preceitua Pereira (2018), o artigo 318 demonstra a adoção pelo 
ordenamento pátrio do chamado regime nominalista do papel-moeda, no qual o 
devedor fica obrigado pela quantia em dinheiro que consta no título da dívida, 
vedando-se estipulação de pagamento em ouro ou moeda estrangeira, a menos 
no caso de exceções expressamente previstas em lei, como é o caso das 
importações de mercadorias do estrangeiro (Lei n. 28, 1935). 
Por fim, analisa-se o disposto no artigo 326 do Código Civil, que trata dos pesos 
e medidas do objeto do pagamento. Pesos e medidas podem variar 
geograficamente, então, podem ser convencionadas pelas partes e, se não o 
forem, adotar-se-ão as medidas do local da execução. Por exemplo, a medida 
agrária chamada “alqueire” varia conforme região do Brasil. 
2.4 Modos de prova do cumprimento da obrigação 
Segundo o artigo 319 do Código Civil, “O devedor que paga tem direito à 
quitação regular, e pode reter o pagamento, enquanto não lhe seja dada” 
(BRASIL, 2002). A quitação é uma declaração unilateral emitida pelo credor 
para liberar o devedor da obrigação. É o popular “recibo”. Se o credor recusar e 
emitir a quitação, o devedor pode, legitimamente, reter o objeto da obrigação e 
ainda consigná-lo (art. 335, I, CC). Assim, diz-se que a quitação muito mais que 
um meio de prova, é um direito do devedor (DINIZ, 2007). 
O artigo 320, em seu caput, apresenta os requisitos que a quitação deve ter para 
ser válida. Contudo, conforme preceitua o parágrafo único do referido artigo, 
ainda que a quitação não cumpra estes requisitos, poderá ser considerada válida 
se analisando-se o caso concreto, for possível concluir que de fato o pagamento 
ocorreu (DINIZ, 2007). 
Art. 320. A quitação, que sempre poderá ser dada por instrumento particular, 
designará o valor e a espécie da dívida quitada, o nome do devedor, ou quem 
por este pagou, o tempo e o lugar do pagamento, com a assinatura do credor, 
ou do seu representante. 
Parágrafo único. Ainda sem os requisitos estabelecidos neste artigo valerá a 
quitação, se de seus termos ou das circunstâncias resultar haver sido paga a 
dívida. 
Os artigos 321 a 325 do Código civil tratam de hipóteses em que a quitação 
tradicional não é suficiente para comprovar o pagamento da dívida. Muitas 
vezes, a dívida encontra-se incorporada em um título, que tradicionalmente deve 
ser entregue ao devedor quando ocorre o pagamento (art. 324, CC). Contudo, 
em certos casos pode ocorrer que o título se perca, situação em que o devedor 
poderá reter o pagamento e exigir que o título se torne inutilizável (art. 321, 
CC). Em caso de uma obrigação que possui pagamento em parcelas, a quitação 
de uma delas faz com que ocorra a presunção que todas as parcelas anteriores 
a ela também foram quitadas. Se o credor quiser quitar apenas uma parcela de 
modo isolado, deve fazer uma ressalva expressa na própria quitação (art. 322, 
CC). Por sua vez, o artigo 323 trata da questão dos juros, que são uma espécie 
de obrigação acessória. Se a obrigação principal for quitada, presume-se que os 
juros foram, igualmente, quitados. Caso não tenham sido, novamente, o devedor 
deve fazer uma ressalva expressa na própria quitação. 
Finalmente, o artigo 325 do Código Civil trata das despesas, que, em geral, 
correm por conta do devedor. Contudo, caso as despesas aumentem no 
cumprimento da obrigação, ou seja, nas despesas com o pagamento e com a 
quitação, o adicional será de responsabilidade do credor. 
2.5 Lugar do pagamento 
Primeiramente, é necessário distinguir dois tipos de prestação: a prestação 
quesível e prestação portável. Prestação quesível é a que é paga no domicílio 
do devedor, enquanto prestação portável é a paga no domicílio do credor. Em 
regra, tratando-se da tradição de um bem móvel, o pagamento ocorrerá 
no domicílio do devedor,salvo convenção das partes e previsão legal em 
sentido contrário, ou ainda em casos que a natureza da obrigação faça com que 
a tradição se dê um lugar diverso (art. 327, CC). Então, percebe-se que, em 
geral, as prestações são quesíveis. 
Quanto à possibilidade de as prestações serem pagas em local diverso do 
domicílio dos sujeitos da obrigação, são as chamadas dívidas mistas, pela 
doutrina (FARIAS; ROSENVALD, 2017). Primeiramente, observa-se a redação 
do artigo 329 do Código Civil: “Ocorrendo motivo grave para que não se efetue 
o pagamento no lugar determinado, poderá o devedor fazê-lo em outro, sem 
prejuízo para o credor” (BRASIL, 2002). O artigo 328 do Código Civil determina 
que, tratando-se de bens imóveis, as prestações serão pagas no local onde se 
encontra o bem. Por fim, o artigo 330 do Código Civil trata das hipóteses em 
que o devedor, reiteradamente, efetua o pagamento em um dado local, sem que 
ocorra oposição do credor, o que faz o devedor acreditar que está realizando 
pagamento no local devido. Se isso ocorrer, presume-se que o credor renunciou 
à determinação que o pagamento deveria ocorrer em local diverso. 
2.6 Tempo do pagamento 
Primeiramente, o Código Civil trata do tempo do pagamento das obrigações 
sem termo, ou seja, das obrigações pagas sem uma data de vencimento 
determinada, que deverá ser paga quando o credor demandar, a qualquer 
momento (art. 331, CC). Aqui, faz-se remissão ao artigo 397, parágrafo único, 
do Código Civil, que determina que não havendo termo, a mora se constitui 
através de interpelação judicial ou extrajudicial. Nas obrigações com termo, 
também chamadas de obrigações puras, a mora se constitui a partir da data do 
vencimento estipulada, não sendo necessário que haja interpelação judicial ou 
extrajudicial (art. 397, caput, CC). 
O Código Civil traz, de forma apartada, o tempo do pagamento das obrigações 
condicionais, que são aquelas que, como o próprio nome diz, possuem uma 
condição para seu implemento. Nestas, seu cumprimento se dá justamente na 
data do implemento da condição, cabendo ao credor provar que o devedor teve 
ciência da sua ocorrência (art. 332, CC). Finalmente, o artigo 333 do Código 
Civil - cuja leitura deve ser realizada em conjunto com o artigo 1.425 do mesmo 
diploma legal - cuida das hipóteses de vencimento antecipado, em que o credor 
pode exigir o pagamento antes da data de vencimento estipulada (GONÇALVES, 
2002). As hipóteses em que isso pode ocorrer estão previstas nos incisos deste 
artigo (BRASIL, 2002): 
I - no caso de falência do devedor, ou de concurso de credores; 
II - se os bens, hipotecados ou empenhados, forem penhorados em execução 
por outro credor; 
III - se cessarem, ou se se tornarem insuficientes, as garantias do débito, 
fidejussórias, ou reais, e o devedor, intimado, se negar a reforçá-las. 
3 Modalidades de pagamento especial 
Conforme aludido anteriormente, “pagamento” nada mais é do que uma forma 
de extinção das obrigações. Além do pagamento comum, existem as 
modalidades de pagamento especial, quais sejam: a consignação, pagamento 
com sub-rogação, imputação de pagamento e dação em pagamento, que serão 
aqui analisadas. 
3.1 Consignação de pagamento 
O pagamento em consignação encontra-se previsto no Código Civil nos artigos 
334 a 345 e é classificado pela doutrina como uma espécie de pagamento 
indireto. Para entender a consignação de pagamento, deve-se ter em vista que 
o pagamento da obrigação não interessa só o credor, mas também ao devedor, 
que se libera do vínculo obrigacional. Trata-se da compreensão que o devedor 
não tem apenas o dever de pagar, mas também direito de pagar (PEREIRA, 
2018). 
Por vezes, pode o credor se negar a receber o pagamento, obstaculizando o 
cumprimento da obrigação e a sua devida quitação. É justamente pensando no 
cenário em que ocorre a recusa indevida do pagamento que o Código Civil prevê 
a consignação de pagamento, que nada mais é do que um modo de satisfazer o 
interesse de pagar do devedor, sem cooperação do credor, para liberar-se do 
vínculo obrigacional (PEREIRA, 2018). 
Quando o credor recusa-se a receber o pagamento sem justa causa, o devedor 
poderá optar pelo depósito extrajudicial, ou pode ajuizar uma ação de 
consignação em pagamento (art. 334, CC). Apesar do pagamento em 
consignação ser um direito do devedor, este só pode ocorrer nas hipóteses 
legais, previstas no artigo 335 do Código Civil, quais sejam (BRASIL, 2002): 
I - se o credor não puder, ou, sem justa causa, recusar receber o pagamento, ou 
dar quitação na devida forma; 
II - se o credor não for, nem mandar receber a coisa no lugar, tempo e condição 
devidos; 
III - se o credor for incapaz de receber, for desconhecido, declarado ausente, ou 
residir em lugar incerto ou de acesso perigoso ou difícil; 
IV - se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o objeto do 
pagamento; 
V - se pender litígio sobre o objeto do pagamento. 
Os incisos I e II do artigo 335 tratam de hipóteses de mora do credor, enquanto 
que os incisos III, IV e V tratam de circunstâncias inerentes ao credor que 
impedem o devedor de satisfazer sua pretensão e exonerar-se da 
obrigação. Os requisitos para a validade da consignação encontram-se 
previstos no artigo 336 do Código Civil, que determina que estes são os mesmos 
do pagamento comum, previstos nos artigos 304 a 333, analisados 
anteriormente. Ainda, além de preencher estes requisitos gerais, deve preencher 
os requisitos específicos disciplinados nos artigos 341 a 343 do mesmo diploma 
legal (GONÇALVES, 2019). 
Quanto ao objeto da consignação, este pode ser de dinheiro, bens móveis ou 
imóveis. Contudo, tratando-se de consignação extrajudicial, que é aquela que 
acontece via depósito em instituição bancária da coisa devida, observa-se que 
esta hipótese só é passível de utilização nas obrigações pecuniárias. Aqui, o 
devedor se dirige à instituição financeira, realiza o depósito do valor da dívida e, 
então, o banco expede uma carta ao credor, notificando-o do 
depósito. Conforme previsão do artigo 539 do Código de Processo Civil, o 
credor terá 10 dias para responder, podendo proceder de três maneiras: 
 
Caso o credor recuse o pagamento expressamente, o devedor poderá, no prazo 
de 1 mês, propor ação judicial de consignação, aproveitando o depósito já 
efetuado extrajudicialmente (art. 539, §3º, CPC). Também poderá aguardar o fim 
deste prazo e levantar o depósito, não obtendo quitação da dívida (art. 539, §4º, 
CPC). 
Por sua vez, no procedimento da consignação judicial, deve o devedor, em sua 
petição inicial da ação de consignação de pagamento, narrar uma das hipóteses 
prescritas no artigo 335 do Código Civil. Os requisitos da petição inicial 
encontram-se previstos no artigo 542 do Código de Processo Civil. 
Assim que ocorre o depósito, seja ela extrajudicial ou judicial, cessam para o 
devedor depositante os juros da dívida e os riscos, a menos que a ação de 
consignação de pagamento venha a ser julgada improcedente (art. 337, CC). 
Enquanto o credor não aceitar o depósito, este poderá ser levantado pelo 
devedor, que não terá sua dívida quitada. Contudo, quando for julgada 
procedente a eventual ação de consignação, cessa o poder do devedor de 
levantar o depósito (art. 338 e 339, CC). Observar-se ainda que as despesas do 
processo correm por conta de quem não tem sua pretensão satisfeita na ação 
(art. 343, CC e art. 546, CPC). 
Quanto aos efeitos da consignação, cita-se a já mencionada suspensão da mora 
do artigo 337, observando-se que, caso o devedor tenha sua ação de 
consignação julgada improcedente, os efeitos da mora retroagirão até a data de 
vencimento da dívida. Por fim, pontua-se o previsto no artigo 340 do Código Civil, 
que determina que, caso o credor conteste o depósito ou o aceite, mas consentir 
expressamente com o levantamento do depósito pelo devedor, o credor perderá 
suas garantias em relação à coisa consignada, e os co-devedores serão 
perdoados (art. 340, CC). 
mportantefrisar que para estudar a modalidade de pagamento especial, 
denominada consignação, deve-se realizar um estudo interdisciplinar do 
instituto, atentando-se não apenas para as previsões do Código Civil, como para 
as disposições do Código de Processo Civil, que trata da ação de pagamento 
em consignação nos seus artigos 539 a 549. Tal ação possui procedimento 
especial de jurisdição contenciosa (FARIAS; ROSENVALD, 2017). A leitura de 
ambos os diplomas legais deve ser realizada concomitantemente. 
3.2 Sub-rogação de pagamento 
A sub-rogação se traduz tanto na substituição de uma pessoa na obrigação (sub-
rogação pessoal), quanto na substituição de uma coisa (sub-rogação real). 
Na sub-rogação real, “a coisa que toma o lugar da outra fica com os mesmos 
ônus da primeira” (GONÇALVES, 2019, p. 307). Em outras palavras, o valor de 
uma coisa substitui o valor de outra, adquirindo a mesma condição e regime 
jurídico. Por exemplo, “no regime de comunhão parcial de bens entram na 
comunhão os bens adquiridos na constância do casamento por título oneroso 
(CC, art. 1.660, I).” (GONÇALVES, 2019, p. 307). Por sua vez, na sub-rogação 
pessoal, os direitos do credor são transferidos para terceiro que solveu a 
obrigação. Por exemplo, no caso em que, havendo pluralidade de devedores em 
uma obrigação indivisível, apenas um paga sozinho a integralidade da 
prestação, sub-rogando-se no direito do credor em relação aos demais co-
devedores (art. 259, CC). Ainda, a sub-rogação é classificada em legal e 
convencional. A sub-rogação legal é aquela prevista no artigo 346 do Código 
Civil, que preceitua as seguintes hipóteses (BRASIL, 2002): 
Art. 346. A sub-rogação opera-se, de pleno direito, em favor: 
I - do credor que paga a dívida do devedor comum; 
II - do adquirente do imóvel hipotecado, que paga a credor hipotecário, bem 
como do terceiro que efetiva o pagamento para não ser privado de direito sobre 
imóvel; 
III - do terceiro interessado, que paga a dívida pela qual era ou podia ser 
obrigado, no todo ou em parte. 
O inciso II do referido artigo, engloba duas situações distintas. Na primeira, o 
adquirente de imóvel hipotecado, para evitar a execução deste bem, efetua o 
pagamento da hipoteca, sub-rogando-se no direito de cobrar do verdadeiro 
responsável pela hipoteca, ou seja, do antigo proprietário do imóvel. Ainda, 
existe a situação que o Código Civil protege do terceiro que também tenha 
interesse nas consequências da hipoteca por direito diverso, como, por exemplo, 
o locatório do imóvel hipotecado, visando à manutenção da sua posse. Como 
exemplo do inciso III, cita-se o caso de fiador, terceiro interessado, por poder 
sofrer com as consequências da dívida. Vale ressaltar aqui, que terceiro não 
interessado não se sub-roga nos direitos do credor, salvo hipótese de sub-
rogação convencional (GONÇALVES, 2019). Por sua vez, o artigo 347 trata da 
sub-rogação convencional. 
Art. 347. A sub-rogação é convencional: 
I - quando o credor recebe o pagamento de terceiro e expressamente lhe 
transfere todos os seus direitos; 
II - quando terceira pessoa empresta ao devedor a quantia precisa para solver a 
dívida, sob a condição expressa de ficar o mutuante sub-rogado nos direitos do 
credor satisfeito. 
Da redação do supra dispositivo, apreende-se que a sub-rogação convencional 
pode se dar tanto por declaração do devedor quanto por declaração do credor, 
não aplicando-se a sub-rogação legal em nenhuma dessas situações. 
O artigo 349 prevê os efeitos da sub-rogação, que “transfere ao novo credor 
todos os direitos, ações, privilégios e garantias do primitivo, em relação à dívida, 
contra o devedor principal e os fiadores” (BRASIL, 2002). A única exceção a 
estes efeitos é o caso da sub-rogação legal, onde sub-rogado exerce os direitos 
e ações do credor primitivo apenas proporcionalmente ao que tiver 
desembolsado para desobrigar o devedor. Em outras palavras, o sub-rogado 
está limitado a cobrar o que ele pagou (art. 350, CC). 
Por fim, analisa-se a redação do artigo 351 do Código Civil que afirma que, em 
caso de sub-rogação parcial, onde o sub-rogado não assume completamente a 
posição do credor originário, permanecendo ambos na obrigação, o credor 
originário terá direito de preferência em relação ao sub-rogado na cobrança da 
dívida restante. 
 
O pagamento com sub-rogação possui proximidade com o instituto da cessão 
de crédito. Desta forma, o próprio artigo 348 do Código Civil dispõe que no 
caso de sub-rogação convencional, em que o credor recebe o pagamento de 
terceiro, expressamente, transferindo-lhe seus direitos, deve-se aplicar as 
regras da cessão de crédito. Contudo, os dois institutos não se confundem, 
pois possuem finalidades muito diversas: enquanto a cessão de crédito visa à 
circulação do crédito e eventual lucro, a sub-rogação objetiva, em regra, na 
exata proporção do pagamento, focando, normalmente, em proteger a situação 
de terceiro que paga dívida que não é sua (GONÇALVES, 2019). 
3.3 Imputação de pagamento 
A imputação de pagamento encontra-se prevista no Código Civil, nos artigos 352 
a 355. Esta modalidade de cumprimento da obrigação através de pagamento 
especial se aplica aos casos em que, havendo multiplicidade de débitos da 
mesma natureza entre um devedor e um credor, o pagamento realizado pelo 
devedor é insuficiente para saldar a totalidade das dívidas deste para com o 
credor. Assim, quando surge a dúvida sobre a qual dívida se aplicará o 
pagamento, usa-se a imputação de pagamento, que levará a extinção de uma 
ou mais dívidas (GONÇALVES, 2019). 
Nesta perspectiva, observa-se a redação do artigo 352 do Código Civil: “A 
pessoa obrigada por dois ou mais débitos da mesma natureza, a um só credor, 
tem o direito de indicar a qual deles oferece pagamento, se todos forem líquidos 
e vencidos” (BRASIL, 2002). 
Reconhecida a imputação de pagamento ao devedor, o Código Civil confere 
algumas faculdades ao credor. O artigo 353 determina que, caso o devedor 
efetue o pagamento sem definir qual das dívidas está saldando, a escolha ficará 
imputada ao credor. Já o artigo 354 determina que, se o débito for de capital e 
juros, o pagamento será destinado, primeiramente, aos juros e, posteriormente, 
ao capital, salvo disposição em sentido contrário convencionada pelas partes, ou 
ainda se o credor passar a quitação por conta do capital (PEREIRA, 2018). 
Por fim, o Código Civil prevê, em seu artigo 355, a possibilidade em que o 
devedor efetua o pagamento e, além deste não indicar qual dívida será saldada, 
o credor também não o faz. Quando isso ocorrer, seguir-se-á a imputação em 
virtude de lei, que determina: “esta se fará nas dívidas líquidas e vencidas em 
primeiro lugar. Se as dívidas forem todas líquidas e vencidas ao mesmo tempo, 
a imputação far-se-á na mais onerosa” (BRASIL, 2002). 
 
3.4 Dação em pagamento 
O artigo 356 do Código Civil preceitua que na dação em pagamento, que também 
é uma forma de pagamento indireto, ocorre na hipótese em que “o credor pode 
consentir em receber prestação diversa da que lhe é devida”. Em outras 
palavras, dação em pagamento é um acordo de vontades entre credor e devedor, 
por meio da qual o credor concorda em receber prestação diversa da que lhe é 
devida, para assim exonerar o devedor da dívida. 
Depreende-se deste conceito, os elementos constitutivos da dação. Nas 
palavras de Gonçalves (2019, p. 330-331), são estes: “a) existência de uma 
dívida, b) a concordância do credor, verbal ou escrita, tácita ou expressa; c) a 
diversidade da prestação oferecida em relação à dívida originária.” 
Para que a obrigação se extinga na dação, basta que a prestação distinta da 
devida seja executada. Essa substituição de prestações, segundo Gonçalves 
(2019), pode ocorrer mediante acordo, com substituição de dinheiro por um bem, 
de coisa por outra, de uma coisa pela prestação de fato, de coisa por obrigação 
de fazer etc. 
Segundo Pereira (2018), o bem dado não precisa ter o mesmo valor da obrigação 
original, podendo ter tantoum valor superior quanto inferior, basta haver acordo 
entre as partes. Neste sentido, mister salientar que a estipulação de um valor na 
dação não é sequer um requisito obrigatório. Contudo, conforme preceitua o 
artigo 357 do Código Civil, no caso específico da valor da coisa dada em 
pagamento, valerão as normas de contrato de compra e venda para regular as 
relações. 
Observa-se que, caso a coisa dada em pagamento seja título de crédito, a 
transferência operar-se-á como cessão de crédito (art. 358, CC). Por fim, o artigo 
359 preceitua que o alienante responde pela evicção. “Se o credor for evicto da 
coisa recebida em pagamento, restabelecer-se-á a obrigação primitiva, ficando 
sem efeito a quitação dada, ressalvados os direitos de terceiros” (BRASIL, 
2002, on-line).

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