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História do Brasil 
Colonial: Consolidação 
e Tensões Sociais
A Crise do Sistema Colonial
Material Teórico
Responsável pelo Conteúdo:
Prof. Esp. Pietro Henrique Fernandes 
Delallibera Sant’Anna 
Revisão Textual:
Prof. Ms. Claudio Brites
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Começaremos a estudar nesta unidade a crise do sistema colonial português.
Acesse a pasta de Materiais Didáticos para encontrar o conteúdo teórico e as atividades 
propostas para esta unidade. Se surgirem dúvidas, elas podem ser postadas no fórum 
de discussão Sanando Dúvidas, onde procuraremos constantemente responder aos 
seus questionamentos.
 · Analisar a conjuntura econômica, política e cultural que explica a falência 
do sistema colonial no Brasil;
 · Analisar as respostas da administração portuguesa à crise;
 · Conhecer algumas das revoltas que eclodiram no período colonial.
A Crise do Sistema Colonial
 · Introdução
 · Conjuntura Mundial: Aspectos Econômicos
 · Revoltas Coloniais
 · Considerações Finais
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Unidade: A Crise do Sistema Colonial
Contextualização
Leia as seguintes citações:
“[os clubes políticos] estabelecidos em França procuram propagar os abomináveis e destrutivos 
princípios de liberdade.”
(ministro Martinho de Melo e Castro ao governador de São Paulo Bernardo José de Lorena, 
em carta de 21 de fevereiro de 1792)
“a substância da nação [portuguesa] e sua riqueza vemos por largo tempo passar aos 
estrangeiros, em troca de gêneros que ou de si cresciam em nossas terras ou pouca indústria 
precisava para naturalizá-los.”
(Abade Correia da Silva, em 1780, nas “Memórias econômicas” da Academia Real das 
Ciências de Lisboa)
“(...) é demonstrativamente certo que, sem o Brasil, Portugal é uma insignificante potência.”
(ministro Martinho de Melo e Castro ao Vice-Rei Luís de Vasconcelos e Sousa, séc. XVIII)
Todas elas expressam a percepção de homens da época colonial a respeito da crise que se 
agigantava em diferentes frentes. Tente preencher as entrelinhas destes documentos, refletindo 
sobre que acontecimentos ou processos históricos, nacionais ou mundiais, seus autores estão 
falando. Atenção às datas. Suas conclusões serão pistas de quais foram as forças econômicas, 
culturais, políticas e sociais que contribuíram para o declínio do mundo colonial, e deverão 
acompanhá-los na leitura do material teórico, quando tentaremos ligar esses pontos.
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Introdução
Este material inicia uma série de três unidades que devem ser lidas como parte de um 
mesmo tema geral: o longo processo de declínio do mundo colonial e de formação das bases 
sobre as quais ocorreu a emancipação política do Brasil. Essa visão de conjunto é necessária 
para perceber como os eventos estudados nestas três aulas compõem uma totalidade, uma 
articulação histórica que explica o fim da colonização. Nosso esforço deve ser, portanto, o de 
abandonar narrativas históricas simplistas, unilaterais, que elegem um único fator como decisivo 
para a independência, procurando, ao contrário, estabelecer conexões entre diferentes assuntos 
e esferas da sociedade colonial tardia.
Nesta unidade, trataremos da chamada crise do Antigo Regime, examinando, nos planos 
nacional e internacional, suas dimensões econômica, cultural e política. Também mapearemos 
algumas das revoltas coloniais que antecedem os movimentos separatistas, procurando relações 
entre elas e a conjuntura de crise. É recomendável dedicar atenção especial para as datas 
mencionadas aqui e no restante do curso. Isso porque organizamos essas aulas de maneira 
temática, o que significa que falaremos de eventos dos séculos XVII, XVIII e XIX sem respeitar 
necessariamente a sequência cronológica em que eles ocorreram.
Conjuntura Mundial: Aspectos Econômicos
Por volta da década de 1750, ocorreu na Inglaterra a chamada Revolução Industrial. Seria 
errado imaginá-la como um movimento deliberado de modernização da manufatura, fruto 
de alguma vontade política. A Revolução Industrial foi, na verdade, a resultante de uma teia 
de processos históricos, alguns conscientes, outros não, que de algum modo se entrecruzaram 
naquele período e culminaram nessa alterção profunda da dinâmica econômica mundial. 
Alguns desses fatores foram: a facilidade de crédito para a indústria inglesa, dada a profusão 
de instituições bancárias fundadas no período; as inovações tecnológicas introduzidas na 
produção – como a máquina a vapor e, mais tarde, o uso de combustíveis fósseis; a melhoria 
da infra-estrutura para o transporte de matéria-prima e bens manufaturados (canalização de 
rios, por exemplo); e a abundância de mão-de-obra barata nas cidades, resultado da política 
de cercamento dos campos comunitários que forçou a saída das massas camponesas de suas 
terras de origem.
As colônias americanas, incluindo o Brasil, também deram sua parcela de contribuição 
para esse quadro: delas vieram boa parte do capital que irrigou os mercados europeus e pôde 
financiar a industrialização inglesa – o que já abordamos na aula sobre o sistema colonial.
A revolução britânica abarcou também fenômenos de natureza não industrial. Um deles é a 
recuperação da economia global por volta da década de 1730, depois da crise do século XVII. 
Outro é a chamada “revolução agrícola”, isto é, o aumento espetacular da produtividade do 
campo pela introdução de novas técnicas de cultivo. Esse processo desencadeou ainda um 
crescimento da população inglesa, uma “revolução demográfica”, ligada à queda das taxas de 
mortalidade infantil por conta da maior abundância dos alimentos.
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Unidade: A Crise do Sistema Colonial
Por fim, é importante entender que a Revolução Industrial, embora capitaneada pelos 
britânicos, não foi um fenômeno exclusivamente nacional. No século XVIII, formaram-
se bolsões industriais ou de produção agrícola modernizada na França, na Alemanha e na 
Espanha. Portugal também tentou consolidar sua manufatura no fim do século, mas o processo 
foi abortado após as invasões napoleônicas e a fuga da família real em 1808.
Esse panorama permite captar três consequências fundamentais da revolução: o aumento 
irreversível na produtividade média da indústria; a nova hegemonia global, transferida para a 
Inglaterra; e, finalmente, a necessidade sentida por todos os países de reorganizarem seus modelos 
econômicos para enfrentarem os desafios impostos pela nova dinâmica mundial. Esses três 
elementos são fundamentais para compreender a natureza da crise da colonização portuguesa.
Dessa conjuntura emergiram, no plano das ideias, a doutrina fisiocrática e, principalmente, 
o liberalismo econômico, sintetizado por Adam Smith na obra A riqueza das nações, de 1776. 
A diferença fundamental entre as duas escolas diz respeito à opinião de seus autores sobre a 
fonte primeira da riqueza: para os fisiocratas franceses, era a terra; para os liberais ingleses, a 
manufatura. À parte dessa divergência, todos eram unânimes na defesa do livre mercado e da 
ideia de que a lei natural de oferta e procura deveria regular os preços das mercadorias. Com 
o novo protagonismo britânico, essas ideias anti-intervencionistas passaram a exercer enorme 
importância sobre a economia mundial.
É evidente que essa crítica ao mercantilismo se dirigia também a um dos mais importantes 
mecanismos protecionistas do Antigo Regime: o pacto colonial. Havia razões bastante concretas 
por trás dessa defesa doutrinária: a Inglaterra precisava cada vez mais de novos mercados para 
poder escoar sua impressionante produção industrial. Assim, a partir das últimas décadas do 
século XVIII, os ingleses pressionaram os países europeus a adotar o livre comércio em seus 
domínios de ultramar e abandonar a proteção alfandegária. Firmaram acordos comerciais com 
as américas portguesa e espanhola, intensificaram o contrabando e se aliaram aos comerciantes 
locais interessados em driblar leis de exclusividade impostas pelas metrópoles. Em Portugal, que 
no período era extremamente dependente dos britânicos, o impacto dessas políticas foi enorme.
Outro golpe desferido no sistemacolonial português foi a pressão mundial pelo fim da 
escravidão, base da produção brasileira. Embora sustentado pela retórica iluminista (o que 
veremos adiante), a causa econômica do movimento foi a necessidade inglesa de criar novos 
mercados consumidores, o que não poderia existir em regiões sem uma massa trabalhadora 
assalariada. A França, em plena revolução, abandonou o trabalho compulsório em 1794 (o que 
seria revogado em 1802, já sob Napoleão), e a Inglaterra fez o mesmo em 1807. A campanha 
anti-escravista internacional se associava no Brasil à intelectualidade abolicionista e aos próprios 
movimentos de resistência negra, embora só fôssemos assistir ao apogeu desses conflitos no 
período imperial.
Conjuntura Mundial: Aspectos Políticos
Os dois acontecimentos políticos mais importantes do século XVIII foram a independência dos 
Estados Unidos em 1776 e a Revolução Francesa de 1789. Ambos tiveram impacto profundo 
sobre o curso da história mundial e significaram, dentre outras coisas, a vitória concreta de 
ideias antagônicas àquelas que pautavam o pacto colonial.
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Por conta da conjuntura econômica das décadas precedentes, a Europa assistiu no final do 
século XVIII à consolidação de uma imensa classe burguesa cada vez mais importante política 
e economicamente. Por meio dos impostos, ela sustentava, junto com o restante do chamado 
Terceiro Estado, isto é, do povo, a aristocracia tradicional que, por sua vez, gozava de privilégios 
políticos exclusivos e via-se ameaçada pelo avanço de reformas que beneficiassem a nova elite 
empreendedoda. Assim se formou a contradição básica entre nobreza de sangue e burguesia.
Países como a Inglaterra conseguiram acomodar esse conflito, mas não a França, onde eclodiu 
em 1789 a revolução. Vale a pena elencar seus resultados políticos diretamente ligados à crise 
que estamos estudando: declaração da igualdade perante a lei de todos os membros da nação; 
fim dos privilégio de nascimento; eliminação do que restava do ordenamento jurídico feudal; 
instituição da representação política dos cidadãos, não dos três Estados, por meio de eleições 
(a princípio censitárias); formulação de um conceito inovador de legitimidade dos governos, 
baseado na vontade do povo, não no direito de nascença do rei – uma legitimidade que podia, 
portanto, ser revogada por esse mesmo povo.
Guardadas as inúmeras diferenças entre cada processo histórico, a Revolução Americana 
de 1776 foi inspirada por esse mesmo ideário político geral. Sua singularidade, especialmente 
importante para entender seu impacto na relação entre Portugal e Brasil, é a de ser a primeira 
independência bem sucedida de uma colônia europeia nas Américas.
Outra emancipação política extremamente importante para o nosso continente, embora não 
tanto em escala global, foi a do Haiti, colônia francesa nas Antilhas. A guerra revolucionária, 
que durou de 1792 a 1804 e também foi chamada de Revolta de São Domingos, teve impacto 
profundo sobre as elites coloniais por três principais motivos: em primeiro lugar, a proximidade 
do Haiti com as demais colônias americanas; em segundo, a enorme violência da revolta contra 
a antiga elite do país; em terceiro, o fato de ser uma revolução protagonizada pela massa de 
escravos, o que explica o temor causado pela independência haitiana num país como o nosso, 
com milhões de negros cativos espalhados pelos campos e cidades.
Todos esses elementos compuseram a longa transição de uma sociedade de ordens para uma 
sociedade de classes. Os últimos anos do século XVIII foram, portanto, o cenário do fim do Estado 
absolutista e do Antigo Regime, modelo político que dava sentido à existência do pacto colonial.
As elites de Portugal e Brasil acompanharam de perto todos esses eventos. Assistiam, portanto, 
à infiltração de ideias políticas novas e extremamente sedutoras, que aqui se chocavam com uma 
sociedade pré-industrial e atrelada a um ordenamento social arcaico e em franca decadência.
Conjuntura Mundial: Aspectos Intelectuais
A crise do sistema colonial é um fenômeno do século XVIII, precisamente o século do 
“pensamento ilustrado” na Europa, e é evidente que esse conjunto de novas ideias teve impacto 
sobre as relações entre Portugal e Brasil.
Embora o rótulo de “iluminista” se refira a filósofos de diversas correntes de pensamento, por 
vezes antagônicas, há alguns elementos unificadores. Um deles é o racionalismo, a crença na 
capacidade do intelecto humano de decifrar o emaranhado confuso de dados que a realidade 
concreta oferece e desvendar, assim, as leis gerais de funcionamento da natureza, da sociedade 
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Unidade: A Crise do Sistema Colonial
e da própria história. Os iluministas acreditavam, portanto, nas ideias de evolução e progresso 
das civilizações. Outro elemento é o laicismo e a oposição à Igreja Católica, cujas explicações 
“supersticiosas” foram consideradas um empecilho ao desenvolvimento da razão.
O projeto racionalista teve vários desdobramentos. Nos planos político e econômico, ele 
sustentou o surgimento do liberalismo. O cerne dessa doutrina é a defesa da liberdade individual. 
Cada cidadão deveria, portanto, ser livre para aprimorar suas aptidões e perseguir a felicidade 
como julgasse melhor, não cabendo ao Estado interferir nessa iniciativa. Disso decorre, como 
vimos, a defesa do livre mercado.
As ideias liberais estão na origem de importantes bandeiras políticas do século XVIII: o direito 
à representação por meio de eleições, o constitucionalismo, o combate à interferência do Estado 
na vida dos cidadãos, a condenação das relações servis e da escravidão, e muitas outras, todas 
antagônicas ao modelo de sociedade do Antigo Regime.
Do ponto de vista estritamente econômico, a nova doutrina liberal combatia frontalmente 
vários elementos do modelo de exploração da América Portuguesa. A colonização se baseava, 
por exemplo, no metalismo, na crença de que se mede a riqueza de uma nação pelo seu lastro 
de metais preciosos. Para os liberais, a indústria e a produtividade do trabalho social são as 
origens da riqueza. O pacto colonial se baseava no “exclusivo metropolitano”, enquanto os 
liberais combatiam o protecionismo, a intervenção estatal e as barreiras ao livre-mercado. O 
modelo econômico brasileiro se apoiava na mão-de-obra escrava, incompatível com a defesa 
da liberdade individual e do trabalho assalariado.
Esse quadro de antagonismos ainda está incompleto – veremos na próxima unidade outros 
elementos da revolução cultural do século XVIII, ligados mais à luta pela soberania nacional 
e pela autodeterminação –, mas já vimos o suficiente para perceber uma das principais 
funções das ideias liberais naquele período: justificar teoricamente as tentativas de reforma e o 
direito à insurreição.
Conjuntura Local: A Situação de Portugal e Brasil 
Portugal mergulhou no século XVIII numa grave crise econômica. Suas raízes históricas são 
antigas: remetem ao período que vai de 1580 a 1640, quando o reino juntou-se à Espanha e 
formou com ela uma unidade política. Esse arranjo, chamado de União Ibérica, significou na 
prática a submissão temporária de Portugal à nação vizinha. A época coincide com a perda de 
boa parte das colônias lusitanas na África e na Ásia, tornando o Brasil sua única fonte significativa 
de riquezas. Somados à depressão da economia mundial no alvorecer do século XVIII, esses 
elementos explicam a condição particularmente delicada do país. Fatores circunstanciais 
também contribuíram com a crise: em 1755, Lisboa foi destruída por um terremoto e precisou 
ser reerguida, drenando maisainda os já escassos recursos públicos.
A conjuntura da crise também afetava o Brasil, a começar pelo declínio da economia 
açucareira. Pernambuco, um dos maiores centros produtores, foi invadido pelos holandeses 
entre as décadas de 1620 e 1650, sendo que a época de ouro dos engenhos do nordeste 
coincide justamente com as primeiras cinco décadas do século XVII. Quando os holandeses 
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deixaram o país, a lucratividade da venda do açúcar já havia atingido um patamar estável 
e parado de crescer. A partir do século seguinte, o preço do produto entrou em queda, só 
interrompida durante uma recuperação curta e passageira nas últimas décadas do século XVIII. 
O declínio do ciclo do ouro ocorreu no mesmo período, sem contar as invasões espanholas que 
precisaram ser combatidas na região do rio da Prata.
A Coroa precisou responder a esse quadro preocupante. As soluções são conhecidas: aumento 
de impostos, controle direto sobre a arrecadação, regulação ainda mais restritiva do comércio 
com nações estrangeiras; mas não somente isso, também surgiram medidas politicamente mais 
sofisticadas, que buscavam reestruturar e “curar” o sistema colonial desde dentro: as reformas 
do período pombalino.
A nomenclatura faz referência a Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de 
Pombal, ministro do rei Dom José I. Entre 1750 e 1777, ele introduziu (ou tentou introduzir) 
elementos modernizantes no esqueleto arcaico do sistema colonial, conduzindo um programa 
essencialmente centralizador e voltado a melhorar a eficácia da máquina de exploração colonial 
frente à nova conjuntura política e econômica.
O cerne das reformas pombalinas foi a racionalização do Estado colonial. Sua principal 
arma, foi a criação de uma burocracia bem treinada e especializada, oposta à aristocracia que 
dominava os cargos públicos. Na esteira desse processo, veio a reforma do sistema judiciário, 
cuja principal conquista foi a revisão da lei portuguesa para eliminar privilégios típicos da 
sociedade estamentária (não todos, mas somente aqueles que se chocavam com os interesses 
do Estado) e aproximar o Direito luso ao modelo das nações liberais.
Do ponto de vista econômico, o período pombalino foi marcado pelas políticas de incentivo. 
Elas atingiram, num primeiro momento, os setores de exportação, principalmente os agrícolas, 
com a garantia de linhas de crédito, isenção fiscal, regras monopolistas e tudo o mais que ajudasse 
a reaquecer esse ramo importante do comércio colonial. Mais tarde, entre 1769 e 1777, essas 
políticas incluíram também os setores industriais, com o Estado protegendo financeiramente as 
poucas manufaturas da colônia e estimulando a criação de novas. As Companhias Gerais do 
Comércio do Grão-Pará e Maranhão, de 1755, e de Pernambuco e Paraíba, de 1759, foram 
instrumentos criados justamente para viabilizar esse amplo programa de incentivos. Durante seus 
vinte anos de existência, e apesar de muitas controvérsias, elas conseguiram de fato recuperar 
parte da pujança econômica daquelas regiões, dominadas no período por comerciantes ingleses.
Por uma série de motivos, a estratégia do Marques de Pombal não surtiu o efeito desejado. 
O principal desses motivos é o protagonismo excessivo da burocracia estatal na condução 
das reformas de cima para baixo. Uma verdadeira modernização necessitava da participação 
ativa da burguesia, classe ainda incipiente tanto em Portugal como no Brasil. Os partidários de 
Pombal caíram, assim, na armadilha de fomentar um ensaio de modernização no interior de 
uma sociedade presa aos quadros do Antigo Regime. Essa contradição essencial paralisou sua 
agenda reformadora.
Portugal não conseguiu, portanto, solucionar a miríade de problemas que enfrentava. Suas 
estruturas eram enfraquecidas pela acentuação da crise econômica entre 1766 e 1769 (pior 
momento da história econômica do país desde o século XVII), pelo colapso da mineração, pelo 
declínio dos preços do açúcar, por conta de gastos com a reforma da burocracia, do combate 
às invasões estrangeiras na porção da América que lhe pertencia, entre tantos outros fatores.
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Unidade: A Crise do Sistema Colonial
Da segunda metade do século XVIII até 1808, a história do império foi condicionada a três 
problemas sem solução aparente: a dependência em relação à Inglaterra, a dependência cada 
vez maior das rendas provenientes do Brasil e os impactos da crise econômica. 
Revoltas Coloniais
O último elemento deste panorama são os conflitos que eclodiram na América Portuguesa 
ao longo dos séculos XVII e XVIII. Eles contribuíram para o agravamento geral da crise de 
várias formas: criaram instabilidades regionais, prejudicaram setores produtivos importantes da 
economia colonial, geraram gastos para a Coroa quando precisaram ser reprimidos militarmente.
As causas desses levantes são diversas, e é preciso cuidado para não interpretá-los pela ótica 
do conceito contemporâneo de “revolução”. Tratamos aqui de movimentos inseridos no quadro 
de relações sociais e de mentalidades do Antigo Regime, cuja especificidade é justamente o 
consenso a respeito da natural desigualdade entre pessoas e grupos. Assim, o intuito dessas lutas 
era o de corrigir distorções, combater o “mal governo” ou repor uma antiga ordem tida como 
mais justa, mas nunca o de defender um ideal iluminista de igualdade. A palavra revolução 
equivalia no período a “retornar a um ponto inicial”, em consonância com seu significado na 
astronomia. Nesse contexto, a marca do “bom governo” era dar a cada um o que lhe era de 
direito, preservando as desigualdades essenciais.
Os próprios métodos adotados acompanhavam essa divisão entre ordens. Os motins e 
comoções eram revoltas típicas das camadas baixas. Eram descentralizados, tumultuados, 
por vezes violentos, ocasionados por crises de abastecimento, aumento de impostos, isto é, 
pelos problemas que sempre afetam mais diretamente os pobres. Outra característica é que se 
direcionavam contra administradores locais, já que o rei continuava sendo a encarnação da 
nação e da justiça no imaginário popular. Na outra ponta, a elite lançava mão de estratégias 
mais adequadas ao ambiente da corte: dissimulação, convencimento, formação de alianças, 
aproximação junto ao rei ou figuras importantes do governo. Esse é um tipo de resistência 
mais caro a Portugal, já que não houve sociedade cortesã expressiva na colônia. Entre os dois 
pólos estava a “conjura”: conspiração planejada nos bastidores, capitaneada por uma elite 
cujas intenções permaneciam ocultas até o último minuto, e consumada em revolta de fato 
envolvendo setores da população comum.
Examinemos alguns desses movimentos na América Portuguesa.
No Maranhão, em 1684, estourou a chamada Revolta de Beckman. A Coroa portuguesa 
instituíra, quatro anos antes, a proibição da escravização dos nativos, o que gerou um grave 
problema de falta de mão-de-obra. Para ter uma ideia da importância do trabalho indígena 
para o Maranhão, os jesuítas chegaram a ser expulsos de lá em 1661 por conta da sua defesa da 
liberdade dos povos autóctones. A Coroa criou em 1682 uma Companhia de Comércio visando 
a conseguir bons preços na importação de alimentos para a província e garantir a entrada de 
escravos africanos, resolvendo o problema da mão-de-obra e fomentando o desenvolvimento 
local. Nenhum desses objetivos foi cumprido a contento e os colonos reagiram.
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Liderada por Manuel Beckman, fazendeiro abastado e liderança política regional, a revolta 
uniu membros do clero,parte da elite econômica e a população comum para expulsar 
novamente os jesuítas, extinguir a Companhia de Comércio e, finalmente, depor o governador-
geral, fazendo do Maranhão uma província independente, governada por Beckman. A revolta 
durou um ano e terminou com a chegada de uma frota portuguesa que retomou o controle do 
estado e reinseriu os jesuítas, embora não tenha conseguido refundar a companhia de comércio. 
Beckman foi capturado e enforcado.
Décadas depois, já no século XVIII, eclodia em São Paulo um dos conflitos mais importantes 
da época colonial: a Guerra dos Emboabas (1708-1709). Essa é uma das lutas ligadas 
diretamente ao ciclo do ouro na região de Minas Gerais. Por terem descoberto as primeiras 
jazidas, que estavam em terras da sua capitania (as capitanias ocupavam faixas territoriais 
enormes que iam do litoral até o extremo oeste da colônia), os paulistas queriam exclusividade 
no controle da exploração. Com o afluxo intenso de forasteiros para as zonas mineradoras e a 
consequente disputa pelo espaço, começaram as agressões. Esses estrangeiros eram chamados 
pejorativamente de “emboabas”, palavra indígena para se referir às aves com as patas cobertas 
de penas. Como os recém-chegados protegiam seus pés com botas ou panos enrolados, os 
paulistas, acostumados a andar descalços, deram-lhes o apelido.
A guerra foi aplacada com a criação de normas para regular a conceção de minas a paulistas 
e emboabas. Os primeiros saíram bastante prejudicados: perderam várias jazidas e precisaram 
lançar novas marchas para o sertão que culminaram com a descoberta de ouro no Mato Grosso 
em 1718. De um modo geral, a metrópole resolveu o conflito centralizando o controle sobre a 
produção aurífera, o que se fez pela instituição da cobrança do quinto, pela criação da capitania 
das Minas de Ouro, ligada diretamente à Coroa e independente de São Paulo, e pela fiscalização 
direta das terras auríferas. O modelo econômico resultante dessas medidas já foi estudado nas 
unidades anteriores do curso.
Um ano mais tarde, em Pernambuco, começava a Guerra dos Mascates (1710). No bojo da 
crise do açúcar do século XVII, as lavouras canavieiras do nordeste estavam em decadência e a 
elite agrária de Olinda, a mais tradicional da região, viu-se enfraquecida politicamente e coberta 
de dívidas. Os comerciantes do Recife, por outro lado, colhiam os frutos das três décadas de 
presença holandesa no nordeste e viam seu povoado crescer espetacularmente, passando, 
inclusive, à posição de credotes dos fazendeiros olindenses.
A disputa se tornou pública em 1709, quando D. João V elevou o Recife à categoria de vila. 
Olinda, a mais antiga e mais importante vila da capitania, protestou, e a guerra explodiu um ano 
depois por conta dos impasses a respeito da demarcação das novas fronteiras. A luta armada 
durou meses, mas as tensões só foram aplacadas em 1714, com a anistia aos presos políticos 
de ambos os lados. O nome do conflito vem do apelido pejorativo dado pelos senhores de 
engenho de Olinda aos mercadores recifenses.
Há uma série de outros levantes coloniais documentados. Em 1720, Filipe dos Santos 
comandava em Vila Rica (atual Ouro Preto), Minas Gerais, uma revolta contra as recém-criadas 
Casas de Fundição reais, instituição por onde deveria passar todo o ouro descoberto a fim de 
ser derretido, transformado em barras e devolvido a seu dono com o quinto já devidamente 
descontado. Uma década antes, em 1711, ocorriam na Bahia os dois Motins do Maneta – 
o primeiro contra um aumento de impostos e o segundo, meses depois, cobrando ações do 
governo contra uma ameaça de invasão francesa. Sem contar sublevações mais desconhecidas 
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Unidade: A Crise do Sistema Colonial
do século XVII, como a Conjuração de Nosso Pai de 1666, em Pernambuco, a revolta contra 
Salvador Correia de Sá e Benevides em 1660, no Rio de Janeiro, ou a Aclamação de Amador 
Bueno de 1641, em São Paulo, intimamente relacionada ao fim do período de União Ibérica 
e de forte caráter religioso ou messiânico. Além, é claro, das incontáveis batalhas dos colonos 
contra a resistência negra nos quilombos.
O importante aqui é salientar que nenhum desses acontecimentos tinha uma agenda separatista, 
e tampouco podem ser considerados “precursores” dos movimentos de independência do final 
do século XVIII e início do XIX. Não são, sob esse aspecto, consequências do quadro geral de 
crise que descrevemos ao longo da unidade, mas sim partes constituintes dele, elementos que 
se somaram aos demais para desgastar as relações coloniais e enfraquecer o poderio português, 
preparando terreno para levantes posteriores que, aí sim, buscavam a emancipação.
A verdadeira articulação entre essas revoltas e a crise do Antigo Regime está no fato de 
que elas expressam no plano concreto, dos acontecimentos imediatos, a falência gradual e 
oculta das grandes estruturas político-econômicas de uma época, ou simplesmente acusam a 
existência de contradições latentes no interior de um sistema social mesmo durante seu apogeu. 
Podem ser vistas, portanto, como espécies de “sintomas” da doença que acometia o corpo das 
relações coloniais.
Considerações Finais
Vimos nesta unidade um panorama da crise do Antigo Regime e da falência do modelo 
colonial, com suas principais consequências para o Brasil. Esperamos ter deixado claro que 
é impossível compreender esse período rico da nossa história sem levar em conta um grande 
número de causas de diferentes naturezas e sem encaixar esses elementos num contexto 
internacional, já que estamos tratando de mudanças profundas que atingiram todo o mundo 
ocidental.
Se, conforme anunciado no início deste material, vamos prosseguir no curso explorando as 
bases históricas sobre as quais a independência foi possível, então precisamos abordar ainda 
três assuntos: a formação do sentimento nacionalista no Brasil, a importação das ideias de 
soberania nacional e autodeterminação (intimamente atreladas à conjuntura cultural que já 
tateamos nesta aula) e, finalmente, as revoltas propriamente independentistas dos séculos XVIII 
e XIX. Estes serão os temas da próxima unidade. 
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Material Complementar
Ao longo desta unidade, nós negligenciamos um aspecto fundamental da crise do sistema 
colonial no Brasil: as revoltas escravas e a resistência dos quilombos. A população negra 
protagonizou, afinal, alguns dos mais importantes levantes da América Portuguesa.
Para preencher essa última lacuna, sugerimos a leitura do artigo Quilombos e revoltas 
escravas no Brasil, do historiador João José Reis, um dos maiores especialistas do país sobre o 
assunto. O texto ultrapassa os limites da época colonial, o que é interessante para demonstrar as 
articulações entre eventos de diferentes períodos que nós, historiadores, dividimos artificialmente 
com marcos temporais.
 
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A referência completa para o texto é:
REIS, João José. Quilombos e revoltas escravas no Brasil. Revista USP. São Paulo, n.28, dez./fev., 
1995/1996, p. 14-39. Disponível em: http://www.usp.br/revistausp/28/02-jreis.pdf 
http://www.usp.br/revistausp/28/02-jreis.pdf
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Unidade: A Crise do Sistema Colonial
Referências
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 13. ed. São Paulo: Edusp, 2009.
HESPANHA, Antonio Manuel. Caleidoscópio do Antigo Regime. São Paulo: Alameda, 2012.
HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções: Europa, 1789-1848. 22. ed. São Paulo: Paz e 
Terra, 2007. 
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História geral da civilização brasileira: a época 
colonial. t.1, v.1, 8.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
NOVAIS, Fernando A. O Brasil nos quadros do Antigo Sistema Colonial. In: MOTA, Carlos 
Guilherme (org.). Brasil em perspectiva. 6. ed. São Paulo: Difel, 1975.
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