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1 INTEGRAÇÃO REGIONAL E DEFESA COMERCIAL 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Gradua- ção. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educa- cionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conheci- mento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desen- volvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de pro- mover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou ou- tras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiá- vel e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta decursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 Sumário INTEGRAÇÃO REGIONAL E DEFESA COMERCIAL ........................................... 1 NOSSA HISTÓRIA ................................................................................................ 2 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 4 REGIÃO, FRAGMENTAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO ................................................. 5 INTEGRAÇÃO REGIONAL .................................................................................... 8 FORMAS DE INTEGRAÇÃO REGIONAL ........................................................... 10 DEFESA COMERCIAL ........................................................................................ 14 PRÁTICAS DESLEAIS (DUMPING E SUBSÍDIOS ACIONÁVEIS) ..................... 16 SALVAGUARDAS GLOBAIS ............................................................................... 18 Salvaguardas preferenciais ou bilaterais .......................................................... 19 Condições para aplicação ............................................................................ 19 Processo de investigação ............................................................................. 19 Aplicação e vigência ..................................................................................... 20 Transparência ............................................................................................... 22 Outras medidas emergenciais ...................................................................... 23 O “DUMPING” E A DEFESA COMERCIAL NO BRASIL ..................................... 26 REFERÊNCIAS ................................................................................................... 33 file://192.168.40.10/O/Pedagogico/MBA/MBA%20EXECUTIVO%20EM%20GESTÃO%20ESTRATÉGICA%20DE%20INOVAÇÃO%20TECNOLÓGICA%20E%20PROPRIEDADE%20INTELECTUAL%20-%20MARCAS%20E%20PATENTES/INTEGRAÇÃO%20REGIONAL%20E%20DEFESA%20COMERCIAL/INTEGRAÇÃO%20REGIONAL%20E%20DEFESA%20COMERCIAL.docx%23_Toc91683502 4 INTRODUÇÃO A história dos acordos internacionais de comércio pode ser contada sob vários enfoques: do Direito Internacional, da Economia Internacional, das Relações Internacio- nais, da História da Política externa brasileira. Independentemente do enfoque escolhido, a questão central que permeia um acordo de comércio é os benefícios que trará ao país, tentando identificar os interesses que o beneficiam e os que são contrários aos acordos. Dizer que um acordo é bom ou ruim, em essência, não acrescenta nada de produtivo. O que é relevante é identificar se haverá maiores interessados em determinado acordo, beneficiando a sociedade como um todo, ou se o acordo trará prejuízos à maioria. Um acordo de comércio significa, necessariamente, um aumento do fluxo comer- cial entre as partes, seja pela facilitação do fluxo comercial, seja pela rebaixa tarifária dos impostos de importação incidentes. O aumento do fluxo comercial significa maiores ex- portações ou importações, de um setor ou de outro. Fazer mais comércio não é um indi- cador por si só positivo, mas se trouxer aumento da diversidade de produtos ofertados, aumento da concorrência com consequente redução de preços, aumento do nível do em- prego, consumo de produtos não-naturais em determinados países, podemos dizer que o acordo é útil e positivo. Se, por outro lado, o acordo beneficiar somente uma parte da população, contri- buindo para o aumento de desemprego e quebra de empresas nacionais que não conse- guem enfrentar a concorrência, o acordo não é útil e não é positivo para a sociedade daquele país. O papel do governo, que é a entidade jurídica que assina os acordos, é considerar os impactos positivos e negativos que um acordo trará para a economia de um país. Não podemos falar, em essência, que quanto mais acordos um país assina e ratifica, melhores são as condições de vida neste país. O que podemos dizer é que, quanto mais um país faz acordos, maior volume de comércio haverá entre as partes, com um desempenho maior na corrente de comércio (exportações mais importações). 5 No entanto, há países que praticamente não fizeram acordos comerciais e assu- miram essa política como opção. São países que, claramente, geram um ambiente de menor competição nos mercados, com atraso tecnológico em vários setores, mas não podemos entrar no mérito das condições sociais e da diferença de classes. As condições sociais nesses países muitas vezes são melhores que naqueles que fizeram muitos acor- dos com muitos países. Não vamos entrar nesta discussão. Vamos esclarecer que exis- tem acordos que estimulam negócios de exportação e internacionalização de empresas, sem questionar o aspecto social envolvido. REGIÃO, FRAGMENTAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO É imprescindível considerarmos que, embora a globalização tenha sugerido, de acordo com a opinião de alguns autores, uma espécie de padronização espacial, suas implicações em níveis locais, nacionais e continentais são ainda recentes e devem ser entendidas à luz das peculiaridades das forças sociais, econômicas, políticas e culturais próprias de cada parcela da superfície terrestre. Podemos afirmar que, na etapa da globalização, um dos conceitos que mais sofreu o seu impacto, foi o de região, tanto pelo lado da escala em que o processo passa a se realizar, como pelo lado de sua operacionalização ou, mais particularmente, no sentido do grau de autonomia regional face aos processos políticos mais abrangentes. Nesse contexto, destacamos as seguintes indagações: Como a região pode se manter no con- flito entre o local e o global? Como ela persiste aos efeitos dos atores hegemônicos que tentam forjar a homo- geneidade espacial, mediatizados pelo capital? Freqüentemente identificamos afirma- ções de que a região existe e persiste com um objeto que dá sustentabilidade à unidade geográfica. Mas como essa questão pode ser relativizada? A resposta não é simples e tem desafiado muitos geógrafos. É preciso que entendamos que a diferenciação dos recortes regionais atuais se insere na crise resultante das mudanças na organização espacial que a economia mun- dial primeiramente provocou e que foram aceleradas pela globalização da economia. Na medida em que o capitalismo é responsável pelo recrudescimento da globalização, emer- 6 gem relações, processos e estruturas próprias desse mundo multifacetado. É na dinâ- mica, desse movimento interdependente e integrativo, bem como de fragmentação e an- tagonismos, que a região se insere. O desenvolvimento do capitalismo é, sem dúvida, o principal agente modelador doespaço. É ele que corta e recorta a superfície terrestre, ou seja, absorve ou reabsorve os mais diversos espaços, modos de vida e de trabalho, culturas. Podemos dizer, então, que a reprodução ampliada do capital, em escala global, continua a ocupar e reocupar o mundo nos mais diversos e distantes lugares. Simultaneamente, a globalização leva à fragmentação, pois articula e desarticula espaços e regiões. Como entender um mundo que se processa, de um lado, pelas forças integrativas da globalização e, de outro, pelas forças da fragmentação? Essas reflexões perpassam os estudos de região, pois o surgimento ou ressurgi- mento de novos recortes regionais implica a organização ou reorganização de outros. Ao considerarmos a questão regional hoje, podemos afirmar que a dinâmica do todo não se distribui similarmente pelas partes. As partes, enquanto distintas totalidades também no- táveis, consistentes, tanto produzem e reproduzem seus próprios dinamismos como as- similam, diferencialmente, os dinamismos provenientes da sociedade global, enquanto totalidade mais abrangente. É no nível do desenvolvimento desigual, combinado e contraditório, que se expres- sam diversidades, localismos, singularidades e particularismos. Verificamos, portanto, que a globalização pode não significar homogeneização total, mas sim diferenciação de partes. Essa diversidade ocorre em virtude das distintas potencialidades regionais e dos diversos atores hegemônicos que atuam com forças desiguais, organizando ou desorga- nizando os quadros regionais. Ou seja, são novos recortes do mundo sob o padrão econômico do capital. Em primeiro lugar, devemos ter claro que os recortes regionais atualmente são múltiplos, dinâmicos, complexos e instáveis, sob a ótica espacial. Em segundo lugar, convém res- saltarmos que os recortes regionais possuem aspectos distintos. Tal distinção é resul- tante da diversidade de aspectos que estruturam uma região: ambientais, humanos, 7 econômicos, históricos, sociais, políticos e culturais. Em terceiro lugar, faz-se mister re- fletirmos sobre a dimensão política, como um dos fatores determinantes no conceito de região. A região está subjugada a um poder central, tendo o Estado um papel não mais planejador, mas provedor. O Estado-Nação soberano tem mudado a sua face, encon- trando-se em crise desde os finais do século passado, quando emergiu, com maior ên- fase, a globalização. A globalização, conduzida pelos grandes bancos e corporações transnacionais (capital financeiro), retirou do Estado o controle sobre o conjunto do pro- cesso produtivo, afetando a integridade do território nacional e a autonomia do Estado, repercutindo, assim, nas regiões. Acreditamos que, nessa nova forma de estruturação do Estado, as regiões terão novo papel, requerendo uma organização social e uma política flexível, que favoreça a competição. Assim sendo, o Estado, embora não deixe de ter a função de coordenação e re- gulação, passa a não ser mais o executor exclusivo dos processos econômicos e políticos para dividir o poder com as regiões. Nesse rearranjo político, as regiões, possuindo um desenvolvimento científico-tecnológico e informacional, poderão ter muito a barganhar. Somente sob essas condições, a região oferecerá aos agentes da economia e da política a certeza do resultado de sua ação. Em quarto lugar, salientamos que a globalização parece concretamente não ter logrado suprimir a diversidade espacial e, possivelmente, não a tenha diminuído. Ponderamos que a identidade cultural persiste e, portanto, a globalização não a destrói, pelo contrário, até a reforça. Em quinto lugar, teremos que levar em consideração a problemática da escala. Embora fundamental, a delimitação da região jamais poderá ser rígida, uma vez que a dinâmica do espaço não admite cortes bruscos na definição de suas fronteiras. A região é, portanto, uma dimensão escalar do espaço, que se concretiza medi- ante a funcionalização do poder no território. A partir dessas reflexões, nos propomos entender a região como um recorte espacial (subespaço) dinâmico, que se estrutura e se reestrutura em um determinado tempo, considerando as transformações ambientais, hu- manas/sociais, históricas/políticas e culturais nele engendradas. 8 INTEGRAÇÃO REGIONAL A expressão integração regional designa o processo pelo qual os territórios pouco ou nada conectados uns aos outros formam pouco a pouco um conjunto regional distinto do resto do mundo. Esse conjunto é mais do que a simples soma de suas partes. Muitos especialistas admitem dois tipos de integração regional: A integração dita ″formal″ é a menos difícil de definir. Os países podem entrar em um acordo regional e formar um espaço comum: podemos dizer, por exemplo, que os seis países fundadores da Comunidade Econômica Europeia se integraram no espaço comunitário em 1958. Podemos assim dizer que o NAFTA, o MERCOSUL, a UNASUL, o CAFTA-RD, a ASEAN são exemplos de integração regional, pois os países membros fazem parte de um acordo regional. Entrar no acordo significa integrar uma parcela do espaço mundial definida por esse acordo, sem prejuízo daquilo que ocorre no seu interior. Trata-se de um processo top down (de cima para baixo) controlado pelos governos. Existe também uma integração regional ″funcional″, chamada por vezes de ″real″ ou ″aprofundada″. Trata-se do processo pelo qual as interações entre os territó- rios contíguos crescem a tal ponto que elas terminam por ser mais intensas no interior do que com os territórios situados no exterior. O crescimento das interações é perceptível na geografia das práticas dos atores em todos os níveis (indivíduo, empresas, institui- ções, etc.). Os conjuntos regionais integrados são lidos, assim, na geografia das práticas sociais, econômicas e políticas e não necessariamente nos limites dos grandes conjuntos fundados sobre os acordos. São as práticas que fazem a região e permitem a leitura dos seus contornos. Se formos rígidos, é melhor não falar de integração no primeiro caso. A expressão integração superficial ou formal é complicada, pois a assinatura de um acordo regional não se traduz necessariamente pelo aumento das trocas e das interações entre as uni- dades espaciais que o compõem. Dito de outra forma, o acordo não produz necessaria- mente o espaço regional no sentido pleno da palavra. Os exemplos não são raros: nós constatamos, por exemplo, que o comércio internacional interno do MERCOSUL e da ASEAN permanecem minoritários. 9 A expressão integração regional deve ser reservada no segundo caso, à condição de eliminar uma ambiguidade. É preciso distinguir o processo e o estado das coisas e dizer a partir de qual limiar um conjunto pode ser considerado como integrado. No en- tanto, a definição de integração regional como processo é um pouco problemática. Ela designa, por exemplo, a ascensão nos níveis da escala do regionalismo (controlada pelos governos) definidos por Bela Balassa: fórum regional, área de livre comércio, união aduaneira, mercado comum, união monetária, união política (Balassa, 1961). Passar de um nível a outro pressupõe um aprofundamento das interações entre as unidades espaciais componentes do conjunto considerado. Encontramos essa abordagem dinâmica, nos trabalhos de B. Hettne e F. Söder- baum, que se reportam ao construtivismo social e ao new regionalism approach. Eles definiram níveis de integração regional (os níveis de regionness) observando os compor- tamentos de todos os atores. Sua abordagem dá atenção tanto ao processo top down quanto ao bottom up. Eles observaram assim a formação de regiões funcionais constru- ídas pelas práticas sociais como também pelas instituições públicas. A integração regional é portanto, definida como o processo pelo qual uma parcela do espaço, pouco importa seu tamanho, é pouco a pouco ″preenchida″ porbastante subs- tância social, econômica, institucional política, cultural, identitária, etc. para tornar um sis- tema distinto dos outros e ser finalmente percebido como tal. 47. Embora esteja implícito, podemos pensar que esses atores estimam que um conjunto é considerado como inte- grado quando se é atingida a última fase do processo: a união econômica e política de Balassa; o estado regional ou a sociedade regional, segundo B. Hettne et F. Söderbaum (Hettne e Söderbaum, 1998; 2000). Essa abordagem apresenta diversas vantagens: Ela é dinâmica. A região definida pode ter limites imprecisos e instáveis que são definidos tanto pelas práticas sociais como pela ação das instituições públicas (governos, etc.). A ideia de limites imprecisos e móveis faz aqui eco à noção de fuzzy borders apli- cada pelos especialistas em Relações Internacionais aos limites externos da UE. Eles admitem assim que a região UE é cercada de territórios periféricos que apresentam níveis de integração desiguais, segundo uma lógica de tipo centro-periferia (Christiansen, Pe- tito, Tonra, 2000). 10 Ela é abrangente, pois não se limita apenas a um setor. No entanto, esse ponto não é decisivo se considerarmos a região como um conjunto funcional, ou seja, um sis- tema: podemos falar de região econômica, por exemplo. Nesse caso, podemos qualificar a expressão falando de uma integração regional econômica ou mesmo de uma integra- ção regional parcial. Ela não pressupõe que a região seja necessariamente um agregado de Estados. A região pode ser um território transfronteiriço que cobre todo ou somente uma parte do território de diversos países contíguos. Ela não pressupõe um determinado ta- manho de região. Isso implica em um aperfeiçoamento do vocabulário para se distinguir os tipos de regiões integradas. Podemos assim distinguir diversos níveis geográficos de integração. A integração regional se aplica aos conjuntos infraestatais, a integração mesore- gional aos territórios transfronteiriços que cobrem totalmente ou parcialmente dois países contíguos. A integração macroregional designa, enfim, a formação de uma região integrada a partir de diversos Estados contíguos. Falar de ″macroregiões″ para conjuntos multies- tatais como a UE ou o NAFTA é problemático, pois esse conceito ambíguo já é utilizado por diversos autores com significados um pouco diferentes (Ferrier, 2002 ; Racine, 1984 ; Skinner, 1977). FORMAS DE INTEGRAÇÃO REGIONAL 11 Neste contexto, primordial discorrermos, em forma de definições, sobre as etapas ou formas de integração, pois, como veremos, existem diferentes tipos ou etapas de in- tegração, que variam segundo a intensidade da união econômica dos membros de um Bloco. Os principais são a Área de Livre Comércio, a União Aduaneira, o Mercado Co- mum e a União Econômica e Monetária Dessa forma, inicialmente, fala-se em Área de Livre Comércio, como no caso do NAFTA, quando as barreiras visíveis (impostos de importação e exportação, por exem- plo) aplicadas ao comércio entre países sócios são eliminadas. Em princípio, o comércio entre os países membros de uma Área de Livre Comércio deve ser tão livre como se fosse um só país. Em uma Área de Livre de Comércio há, entre os países membros, liberdade de movimentos da generalidade dos produtos, mantendo, todavia, cada um deles a possibilidade de seguir uma política comercial própria em relação ao exterior. A seu turno, em sequência, uma União Aduaneira é parecida a uma Área de Livre Comércio, com a diferença que, além de terem o comércio livre entre eles, os Estados- Membros decidem cobrar tributos iguais para o comércio com países que não são sócios do Grupo. Esses tributos são chamados de Tarifa Externa Comum, ou TEC. Portanto, a União Aduaneira é criada para eliminar restrições aduaneiras ao inter- câmbio de mercadorias entre países Partes e para estabelecer uma política tarifária uni- forme (ou política comercial) com relação a países não Partes do Bloco. Dentro deste contexto, ainda pressupõe a negociação conjunta de qualquer acordo com países tercei- ros, para que se denote a conclusão desta etapa. Neste passo, a seguir, o Mercado Comum vai ainda mais longe. Além da Tarifa Externa Comum e do livre comércio entre sócios, ele permite que pessoas de um país membro do Grupo trabalhem no outro, como se fossem nascidas ali. Em geral, isso não é permitido, e é preciso criar regras especiais para essa situação, como ocorre no caso da União Européia. Além disso, no Mercado Comum as empresas podem se instalar ou investir indis- criminadamente em qualquer dos países sócios. Em linguagem econômica, isto se 12 chama "livre circulação de mão de obra, capital e serviços". Outro ponto, ainda mais im- portante, diz respeito ao estabelecimento de Políticas Comunitárias, ou políticas comuns aos países membros do bloco. No mesmo sentido, esta etapa de integração é caracterizada pelo afastamento não só das barreiras alfandegárias ao comércio como também pelo afastamento das barreiras não visíveis (invisible ou non-tariff barriers) que impedem a concorrência plena entre as economias. Finalmente, a União Econômica e Monetária é o tipo mais avançado de integra- ção, quando, além de todas as características descritas anteriormente, os países têm a mesma moeda, proporcionada pela integração de suas políticas econômicas em nível avançado. O único exemplo de uma União Econômica e Monetária no mundo é a União Européia, que criou, recentemente, sua moeda única, o EURO. Já se falou muito de o Mercosul vir a ter uma moeda única, que tomaria o lugar do Real, do Peso (a Argentina e o Uruguai tem moedas diferentes mas com o mesmo nome) e do Guarani (moeda do Paraguai). Contudo, como podemos observar pelas fases necessárias para se atingir a inte- gração econômica e monetária o referido objetivo encontra-se distante, tendo em vista que o Mercosul ainda não atingiu, plenamente e na prática, sequer a fase de União Adu- aneira. Em síntese, pois, uma Zona de Livre Comércio é a etapa ou tipo de integração em que são eliminadas todas as barreiras ao comércio entre os membros do grupo. Por sua vez, a União Aduaneira é a etapa ou tipo de integração em que, além do livre comércio entre os países membros do grupo, existe a aplicação de uma Tarifa Ex- terna Comum (TEC) ao comércio com terceiros países. Já no Mercado Comum, além da TEC e do livre comércio de bens, existe a livre circulação de fatores de produção (capital e trabalho) e o estabelecimento de políticas comunitárias. Finalmente, a União Econô- mica e Monetária é o tipo mais avançado de integração, quando, além de todas as ca- racterísticas descritas anteriormente, os países têm a mesma moeda. Como exemplo destas etapas de integração, os cidadãos europeus podem viajar pela maior parte da União Européia (EU) sem passaporte e sem controles nas fronteiras. 13 Podem fazer compras em outro país onde as mercadorias sejam mais baratas sem pagar quaisquer impostos adicionais. A moeda única, o euro, permite que os compradores comparem diretamente os preços nos países que a utilizam. Consequentemente, os fabricantes e varejistas toma- ram medidas para reduzir preços injustificadamente elevados. Viajar para fazer compras, em turismo ou em negócios de um país euro para outro tornou-se mais barato porque não é necessário trocar moeda nem pagar comissões. A concorrência criada pelo mer- cado único sem fronteiras da UE conduziu a um aumento da qualidade e a uma redução dos preços. As chamadas telefônicas, o acesso à Internet e as viagens aéreas tornaram- se mais baratos. No mesmo sentido, os cidadãos da UE podem viver, trabalhar, estudar e aposen- tar-se noutro país da UE se assim o desejarem. Comumente, como destacam Herz e Hoffmann (2004), emprega-se uma espécie de escala ou gradação para definir as características ou aprofundidade de uma integra- ção econômica regional. O primeiro passo é um acordo preferencial de tarifas entre seus integrantes, por intermédio do desenvolvimento de uma zona de livre comércio, onde as taxações entre os membros envolvidos seriam menores do que as cobradas de outros países não parti- cipantes do processo integrativo, assim haveria redução ou eliminação de barreiras al- fandegárias para o comércio intrarregional. O segundo passo é a união aduaneira onde, além da eliminação de entraves alfandegários para o comércio entre os participantes, também existe uma tarifa externa comum aos países integrados a ser aplicada de forma igual a países de fora da região, denotando o início real de uma integração econômica regional. Prosseguindo nessa evolução, conforme Herz e Hoffmann (2004), o terceiro passo é o mercado comum onde se eliminam as barreiras ao comércio, adota-se uma tarifa externa comum e acrescenta-se a livre circulação de capital, serviços e até mão de obra. O quarto passo é a união econômica e monetária, esta deve contemplar o livre comércio, uma tarifa externa idêntica, a circulação de fatores produtivos, a harmonização das políticas fiscais e monetárias e a criação de uma moeda comum. E, por fim, o último 14 passo seria a união política onde existe uma autoridade ou governo central que é supe- rior, em muitos aspectos, aos próprios governos nacionais; além disso, contemplaria a eliminação de barreiras comerciais, uma tarifa externa comum, a livre circulação de mão de obra, capital e serviços, a unidade nas políticas fiscais, monetárias, industriais e soci- ais, e ainda um órgão controlador unificado investido de poderes para fazer funcionar a entidade integrada, agora em seu estágio máximo. Esses distintos níveis de integração ou graus de aprofundamento da integração permitem distinguir a integração da cooperação. Enquanto um bloco regional de integra- ção possui objetivos ambiciosos que implicam a unificação, a uniformização e a harmo- nização de políticas comerciais, econômicas e monetárias com delegação de parcelas significativas de soberania para instituições de caráter supranacional, um bloco regional de cooperação tem metas mais modestas, cuja implantação não requer a abdicação por parte dos Estados de grandes parcelas de soberania (Siste, 2006). Nesse sentido, tendo em vista a natureza complexa dos objetivos e metas de um processo de integração regional, esclarece Gomes (2010), pode-se afirmar que, a princí- pio, apenas a União Européia atingiu aquele estágio de integração e dessa forma pode- se qualificá-la como um processo de integração stricto sensu. Por outro lado, prossegue Gomes (2010), o MERCOSUL, aproxima-se muito mais de um modelo de caráter coope- rativo e consensual, podendo-se, assim, considerá-lo um processo de integração lato sensu. DEFESA COMERCIAL Um sistema de Defesa Comercial eficiente e assentado em regras e boas práticas internacionais é condição essencial do processo de integração comercial. Por conta da garantia de instrumentos que permitem a adoção de medidas contra importações consi- deradas desleais, ou contra surtos de importação que desorganizam o mercado domés- tico, foi possível o apoio dos governos e dos setores produtivos no processo de liberali- zação comercial verificado nas últimas décadas no mundo. As medidas de Defesa Comercial são instrumentos legítimos, estabelecidos por meio das normas multilaterais de comércio, e não podem ser confundidas com prática 15 protecionista. No âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), estão estabeleci- das as regras sobre a aplicação de medidas de Defesa Comercial (Acordo Antidumping, Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias e Acordo sobre Salvaguardas). Com base nesses compromissos assumidos pelos países-membros, são adotadas normas domésticas que regulamentam a aplicação das medidas em questão. Os instru- mentos de Defesa Comercial ganham ainda mais relevância no momento atual de enga- jamento do Brasil em negociações de acordos comerciais. A maior integração do Brasil ao comércio internacional permite às empresas acessar novos mercados, estimula a competição interna e a busca pela eficiência e contribui para a maior participação do País nas cadeias globais de valor. A aplicação de medidas de Defesa Comercial no Brasil não é excessiva. Entre 1995 e 2016, 60% das investigações de Defesa Comercial levaram à aplicação de medi- das no Brasil. Essa proporção é menor que a observada, por exemplo, na China (82%), na Índia (72%) e nos Estados Unidos (63%). Outro dado mostra que, em 2016, apenas 1% das importações brasileiras foi alvo de medidas de Defesa Comercial. Além disso, a proporção de medidas antidumping em setores fornecedores de insumos, como siderur- gia e química, é menor no Brasil (42,3% contra 75,1% nos Estados Unidos, 68,6% na União Europeia e 75,1% no Canadá). Apesar da modernização do sistema brasileiro de Defesa Comercial nos últimos anos, há falhas na atuação dos órgãos e no cumprimento de regras, o que gera insegu- rança jurídica. Foram feitos progressos como a implementação de consultas públicas e a atualização das normas de Defesa Comercial. No entanto, têm ocorrido problemas quanto à garantia do processo de avaliação de interesse público em Defesa Comercial, sem o cumprimento de procedimentos previstos pelas normas sobre o tema, com prejuízo à garantia da ampla defesa. Figura 1: Parcipação do Brasil na Abertura de Investigações ANTIDUMPING Oiriginais do Mundo 16 PRÁTICAS DESLEAIS (DUMPING E SUBSÍDIOS ACIONÁVEIS) Medidas antidumping e compensatórias. Verificou-se que a maioria dos acordos trata dumping e subsídios como práticas desleais de comércio que podem ensejar a apli- cação de seus respectivos remédios, sendo agrupados conjuntamente (ex.: capítulo, ar- tigo etc.): dos 23 textos analisados, apenas seis (26%) não possuem disposições espe- cíficas. Três foram assinados antes da constituição da OMC e são intrarregionais (APTR- 4, AR-7 e AG-2), enquanto os outros três foram celebrados já nos anos 2000 com países da América Latina (Guiana e São Cristóvão e Névis em 2001, Suriname em 2004 e Pa- raguai em 2020). Entre os acordos comerciais que possuem disposições específicas sobre dumping e subsídios, apenas o ACE-2 (entre Brasil e Uruguai) e o ACE-14 (entre Brasil e Argen- tina) não fazem menção aos Acordos temáticos da OMC (Acordo Antidumping e Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias). Isso se deve ao fato de que os acordos foram assinados em 1983 e 1990, respectivamente, antes da constituição da Organiza- ção. A partir de 1990, os textos originais dos acordos (isto é, desconsiderando-se as modificações promovidas por meio de protocolos adicionais) passaram a incorporar dis- 17 positivos sobre práticas desleais de comércio. Apenas o ACE-2, anterior àquele ano, pas- sou a tratar do tema por meio de protocolo adicional negociado a posteriori. Para além da referência aos Acordos da OMC, disposições adicionais nas cláusulas referentes a práticas desleais tratam, na maioria dos acordos, do tema transparência. No que diz res- peito a notificações, quatro determinam a sua realização no caso de investigações envol- vendo o(s) parceiro(s), sete no caso de aplicação de medidas contra terceiros países (que não fazem parte do acordo) e quatro no caso de alterações na legislação doméstica relativa ao tema. Além disso, em sete acordos, foram identificados mecanismos de consultas entre as partes para lidar com o tema de dumping e subsídios. Finalmente, o processo de inte- gração regional no âmbito do MERCOSUL e a recente conclusão das negociações entre o bloco e a UE, após 20 anos de tratativas, apresentam características próprias ao trata- rem de práticas desleais e serão discutidos em seção específica deste documento. Além disso, atéagosto de 2020, nenhum dos acordos assinados pelo Brasil dispunha de cláu- sula proibindo a aplicação de medidas contra práticas comerciais consideradas desleais por alguma de suas contrapartes. Outras disposições sobre subsídios. Complementarmente, em onze acordos, fo- ram identificadas disposições que tratam de subsídios distintos daqueles que poderiam ensejar, em outras circunstâncias, a aplicação de medidas compensatórias. São disposi- ções que endereçam, de maneira específica, incentivos voltados para a exportação e que reforçam as regras da OMC como um marco referencial para a conformidade das políti- cas públicas de incentivo – com exceção das regras relacionadas ao setor automotivo18. Além disso, a maioria desses textos (sete) trata os incentivos de forma horizontal (sem especificar setores), enquanto três se concentram em bens agrícolas e outros três pos- suem disposições específicas para o setor automotivo. É mencionada também a possibilidade de realização de consultas entre as partes para tratar de subsídios relacionados à exportação, com ênfase na troca de informações ou na coordenação de posições em negociações internacionais sobre o tema. 18 Em sete casos, a constatação da existência de incentivos à exportação de bens pode ensejar a não extensão das preferências negociadas no acordo às operações iden- tificadas como beneficiadas pelos subsídios. SALVAGUARDAS GLOBAIS Embora menos frequentes que as disposições sobre dumping e subsídios, a men- ção ao instrumento de salvaguardas globais é feita em 14 dos 23 acordos analisados. Os textos que não fazem menção ao dispositivo (nove) foram todos celebrados no âmbito da ALADI. Cumpre destacar, no entanto, que a omissão sobre o tema não deve ser enten- dida como a renúncia pelas partes do eventual recurso ao mecanismo, uma vez que o Brasil, assim como a maioria dos países e blocos com os quais ele possui acordos, é membro da OMC e parte do Acordo sobre Salvaguardas – internalizado no ordenamento jurídico brasileiro. Dessa forma, na ausência de referência específica às salvaguardas globais no âmbito dos acordos comerciais celebrados pelo Brasil, deve-se recorrer ao entendimento previsto na legislação brasileira sobre o tema, a qual dispõe que “as medidas de salva- guarda serão aplicadas ao produto importado independentemente de sua origem [...]”. Em investigações de salvaguardas, tal entendimento é refletido na exclusão de origens apenas nos casos em que o Brasil é signatário de acordo que prevê o tratamento dife- renciado para o parceiro, conforme discutido nos casos do MERCOSUL e de Israel, ou ainda nas situações previstas pelo próprio Acordo de Salvaguardas da OMC. Todos os 14 textos com disposições específicas sobre salvaguardas globais refe- renciam os Acordos da OMC, invocando suas disposições e reforçando os direitos pre- vistos neles. O acordo entre MERCOSUL e UE reforça disposições sobre transparência no uso desse instrumento, enquanto em apenas dois casos foram identificados dispositi- vos que possibilitam a exclusão de determinados parceiros quando do recurso a esse mecanismo: são os acordos de constituição e consolidação do MERCOSUL e o acordo de livre comércio MERCOSUL-Israel, discutidos em seção própria. 19 Salvaguardas preferenciais ou bilaterais A maioria dos acordos (20 de 23) aborda o tema de salvaguardas preferenciais, que corresponde ao instrumento mais frequente nos textos examinados. Embora não se- jam reguladas pelos acordos multilaterais, tais disposições podem ser analisadas em ter- mos de condições de aplicação, processo de investigação, aplicação e vigência e trans- parência, oferecendo espaço para exame comparativo com as regras sobre salvaguardas globais – sempre que oportuno. Condições para aplicação De modo geral, salvaguardas preferenciais podem ser aplicadas quando, após a conclusão de uma investigação, forem verificadas situações em que aumentos nas im- portações de produtos com preferência tarifária, em termos absolutos ou relativos à pro- dução nacional, causem ou ameacem causar dano ou prejuízo grave à produção nacional de produtos similares ou diretamente concorrentes (a terminologia relativa a dano ou a prejuízo pode variar em função do acordo). Na análise dos acordos, observaram-se poucas inovações com relação a essas condições. Dos 20 acordos que possuem dispositivos sobre salvaguardas preferenciais, apenas seis não mencionam restrições temporais ao uso do mecanismo – todos negoci- ados com países da América Latina. Essas restrições são sempre indicadas com relação aos cronogramas de liberalização, seja (i) proibindo o recurso às salvaguardas no pri- meiro ano de vigência das preferências, (ii) permitindo o seu uso apenas até a conclusão das desgravações acordadas ou (iii) permitindo a sua adoção até determinado período após tal conclusão36. O texto preliminar do acordo MERCOSUL-UE, cujas negociações foram recentemente finalizadas, permite o uso do mecanismo, a depender do bem, em até 18 anos a partir da entrada em vigor do acordo. Processo de investigação No que diz respeito ao procedimento de investigação que pode ensejar a aplicação de salvaguardas preferenciais, apenas uma parcela dos acordos mapeados não possui indicações acerca de quem estaria autorizado a solicitar a abertura desse tipo de pro- cesso (8 de 20)37. Nos textos em que há essa indicação, a indústria doméstica produtora 20 de bens similares ou de bens que concorram diretamente com os importados é conside- rada como ente com direito de peticionar a instauração desse tipo de investigação. Nesse sentido, cumpre destacar que, apenas nos acordos com o México (no âm- bito do ACE-54) e com a UE, há menção expressa de que as empresas ou entidades representativas deverão responder por pelo menos 50% da produção doméstica do bem em questão, enquanto os demais textos indicam que as petições serão aceitas quando apresentadas pela totalidade/conjunto de produtores do bem similar ou diretamente con- corrente, ou por aqueles que representem parcela “importante” da produção no território da parte importadora. Adicionalmente, em seis textos, foi estabelecida a possibilidade de peticionamento de uma salvaguarda preferencial pelo governo (de ofício), em caráter excepcional. A única hipótese mencionada como justificável para a apresentação espontânea de uma petição por autoridades públicas, prevista em três dos seis textos, diz respeito à existên- cia de indústrias com elevado número de produtores (fragmentada). Os prazos máximos acordados para a conclusão de investigações, por sua vez, variaram entre oito meses (MERCOSUL-Egito) e 18 meses (MERCOSUL-UE). Os prazos de um ano e de 15 meses são os mais frequentes, aparecendo em seis44 e quatro45 textos, respectivamente. Aplicação e vigência As duas principais formas de aplicação de salvaguardas preferenciais incluídas nos acordos consistem na (i) suspensão de reduções futuras da tarifa de importação e/ou no (ii) aumento efetivo da tarifa aplicada – ambas em caráter temporário. Tais tipos de previsão estão presentes em 18 textos. O ACE-14 e o ACE-18 não indicam as formas de aplicação. A indicação expressa da forma de aplicação da salvaguarda preferencial (como o aumento da tarifa aplicada e/ou a suspensão de incrementos futuros da prefe- rência negociada) garante menos liberdade às partes em comparação com as disposi- ções previstas pelo Acordo de Salvaguardas da OMC. Segundo as regras multilaterais, em se tratando de salvaguardas globais, não ha- veria limitação na forma de adoção de restrições para remediar o prejuízo grave (ou ame- 21 aça de prejuízo grave) causado por surtos de importações – apesar de os Estados ado- tarem, usualmente, medidas de salvaguarda globais sob a forma de sobretaxas e restri- ções quantitativas. Na hipótese de diminuição da margem de preferênciavigente (e consequente au- mento da tarifa aplicada), todos os acordos determinam a criação de cotas em relação às quais seria preservada a incidência da tarifa preferencial – com exceção do acordo MERCOSUL-UE. De modo geral, essa cota deverá basear-se na média de importações dos três anos imediatamente anteriores à aplicação da medida de salvaguarda preferen- cial. Com exceção do acordo entre Brasil e Uruguai (ACE-2), todos os demais 19 acordos indicam um período de referência para duração de salvaguardas preferenciais definitivas, com possibilidade ou não de prorrogação. Esse período pode variar entre um e quatro anos (considerando-se a aplicação original e a extensão), embora a duração de dois anos seja a previsão mais frequente (sete acordos). Os únicos dois acordos que preveem vigência de um ano foram celebrados no âmbito da ALADI e não indicam restrição a prorrogações, desde que estas sejam nego- ciadas entre as partes. Ademais, os acordos MERCOSUL-Israel e MERCOSUL-Palestina possuem disposição específica para bens perecíveis (duração de quatro anos no total, enquanto que, para os demais bens, a previsão é de dois anos). Assim, a duração má- xima prevista nos acordos analisados é menor do que aquela negociada para salvaguar- das globais no âmbito da OMC (até dez anos). A maioria dos acordos (13 de 20) ainda menciona a possibilidade de aplicação de salvaguardas provisórias após determinações preliminares positivas de prejuízo grave à indústria doméstica como resultado de aumentos nas importações preferenciais. Desta relação, cinco acordos (todos extrarregionais) preveem um prazo máximo de vigência de 200 dias para as salvaguardas provisórias, em consonância com o mecanismo previsto no Acordo sobre Salvaguardas da OMC. Os oito acordos restantes, celebrados no âmbito da ALADI, determinam o limite máximo de 180 dias de duração da salvaguarda provisó- ria. 22 Ademais, mais da metade dos acordos (11 de 20) dispõe sobre a reaplicação de salvaguardas preferenciais a produtos que já foram submetidos a esse instrumento, es- tabelecendo, no entanto, um conjunto de condições para que a medida seja novamente imposta. Com relação aos demais acordos, o ACE-14 e o ACE-18, bem como os acordos MERCOSUL-Israel e MERCOSUL-Palestina, limitam a reaplicação de medidas para pro- dutos que já foram objeto de salvaguardas (a uma vez, no caso dos ACE-14 e ACE-18, e a duas vezes, no caso dos acordos com Israel e Palestina), enquanto os cinco acordos restantes não fazem menção à possibilidade ou não de reaplicação. O tratamento das operações de importação em andamento, cujos bens sejam ob- jeto de aplicação posterior de medidas de salvaguardas, é endereçado nas disposições sobre mercadorias embarcadas – tema não abordado pelas regras nacionais ou multila- terais sobre o instrumento. A esse respeito, o único padrão observado relaciona-se à presença desse tipo de disposição em acordos celebrados no âmbito da ALADI. Nesse sentido, em nove acordos há previsão expressa de que essas mercadorias sejam isentas da salvaguarda se embarcadas até a data de adoção da medida. Destes nove, em quatro acordos mais recentes essa disposição é mais prescritiva: a isenção se aplica às mercadorias embarcadas ou que se encontrem em zona aduaneira primária até a data de adoção da medida, desde que despachadas para consumo em até 20 dias contados da aplicação da salvaguarda. Finalmente, a previsão de retomada expressa do programa de liberalização após a extinção da medida de salvaguarda também está pre- sente em mais da metade dos acordos (12 dos 2061). Nesses casos, uma vez encerrada a vigência da medida, as margens de preferência deverão ser tais como se a aplicação da salvaguarda não tivesse ocorrido. Transparência No que diz respeito à transparência, em todos os acordos analisados com dispo- sições de salvaguardas preferenciais, foram identificados mecanismos como o de notifi- cação e o de consultas entre as partes. As notificações usualmente ocorrem ao menos em dois momentos: (i) quando da abertura da investigação; e (ii) na aplicação de medi- 23 das. Por sua vez, as consultas podem ter por objetivo a promoção da troca de informa- ções, a eliminação da prática que cause o prejuízo grave ou, ainda, a negociação do nível de concessões mútuas entre as partes. A linguagem dessas disposições é variada: acordos mais antigos previam consul- tas posteriores à aplicação da salvaguarda, enquanto mais recentemente tem prevalecido a redação de disposições que encorajam a realização de diálogos – seja estabelecendo que a parte importadora oferecerá oportunidades para que as consultas ocorram (cinco casos), seja determinando que as consultas ocorrerão quando a parte exportadora requi- sitá-las após o recebimento de notificação sobre a decisão de aplicação da salvaguarda definitiva pela parte importadora (seis casos). Por fim, as compensações são entendidas como mecanismos orientados à manutenção do equilíbrio no nível de concessões entre as partes (seja de forma negociada ou unilateral) nos casos em que a negociação não surtir efeito. Conforme o mapeamento realizado, apenas cinco acordos fazem menção a esse tipo de instrumento. Outras medidas emergenciais Durante a análise dos acordos mapeados, foram identificadas outras disposições relacionadas à aplicação de medidas que, assim como os instrumentos convencionais de defesa comercial, têm como objetivo amparar a indústria doméstica contra surtos repen- tinos e/ou temporários de importação, ou mesmo lidar com distorções temporárias no mercado internacional. O dispositivo mais frequente nos acordos (presente em nove dos 23 textos anali- sados) diz respeito à possibilidade de impor medidas para salvaguardar o balanço de pagamentos e as finanças externas contra dificuldades (ou a ameaça destas). Em cinco casos, são previstos mecanismos tarifários para remediar tais situações, como a institui- ção de sobretaxas e a imposição de restrições quantitativas. Os quatro demais textos não mencionam tarifas, prevendo somente “medidas restritivas temporárias” para lidar com as dificuldades mencionadas. Tais ações podem envolver, por exemplo, a adoção de medida monetária ou cam- bial (ACE-2) ou ainda restrições a pagamentos e transferências para transações de conta 24 corrente ou relativas a movimentos de capital (ACE-58). Em comum, apesar de consta- rem nos acordos preferenciais, as disposições sobre medidas para lidar com dificuldades no balanço de pagamentos e nas finanças externas aplicam-se tanto às origens prefe- renciais quanto aos países não contemplados pelo acordo – dispondo de caráter não discriminatório na eventualidade de sua aplicação. A expressão “medidas especiais”, por sua vez, corresponde à nomenclatura ado- tada nos acordos com alguns países-membros e ex-membros da Comunidade Andina (CAN) para tratar de mecanismo semelhante ao de salvaguardas preferenciais. Contudo, tais medidas especiais guardam diferenças em relação a condições e procedimentos usuais de uma salvaguarda preferencial, não podendo ser aplicadas simultaneamente a esta. Em primeiro lugar, as linhas tarifárias cujas importações podem ser objeto das me- didas especiais não representam todo o conjunto de itens negociados e contemplam, especificamente, produtos agropecuários. O gatilho para a aplicação das medidas segue sendo a ocorrência de importações preferenciais de produtos que causem ou ameacem causar prejuízo à indústria doméstica da parte importadora, o que pode ensejar a sus- pensão de incrementos futuros da preferência negociada ou mesmo a redução temporá- ria da desgravação tarifária. Entretanto, ainda no que diz respeito a essas medidas especiais, a comprovação quanto ao aumento das importações em condições preferenciais e quanto à subsequente existência de dano segue regras e ritos processuais diversosdaqueles aplicáveis às sal- vaguardas preferenciais. O crescimento de pelo menos 20% no volume das importações nos últimos 12 meses, com relação aos três anos antecedentes, ou a redução no preço médio das im- portações em pelo menos 15% no último mês, tomando-se como referência o “preço de ativação” estimado anualmente, pode autorizar a aplicação da medida de restrição. A parte signatária demandante da medida disporá, nesse caso, de 90 dias para comprovar a existência do prejuízo ou ameaça de prejuízo à indústria doméstica ou, caso contrário, deverá reembolsar os valores recolhidos a título da “medida especial”. Outro instrumento identificado é o mecanismo de estabilização de preços, desenvolvido no âmbito da CAN e incorporado ao acordo do bloco com o MERCOSUL. 25 O intitulado Sistema Andino de Franjas de Precios Agropecuarios permite que os países da CAN alterem as alíquotas do imposto de importação incidentes sobre produtos cujos preços sejam marcados por volatilidades no mercado internacional. Preveem-se, assim, sobretaxas às importações que estejam sendo praticadas abaixo de níveis de preço estipulados ou, de maneira alternativa, a redução tarifária quando o preço do item importado superar o nível de preço estipulado para um determinado produto. No âmbito do MERCOSUL, foram identificados três mecanismos de emergência para lidar com situações em que importações preferenciais possam causar ou ameaçar causar prejuízo à produção doméstica do país importador. Nas discussões sobre a con- solidação do bloco, ao Paraguai foi concedido um tratamento diferenciado no que diz respeito aos produtos incluídos em sua lista de exceções à Tarifa Externa Comum (TEC), que gozaram de um prazo maior para enquadramento no âmbito do Regime de Origem do MERCOSUL. No entanto, a disposição foi acompanhada pela possibilidade de adoção de salva- guardas, até 1º de janeiro de 2001, pelos outros sócios do bloco afetados por surtos de importações (desses produtos) que implicassem dano ou ameaça de dano grave. Os pa- íses-membros também foram autorizados a aplicar salvaguardas contra exportações in- trazona originárias de zonas francas e zonas de processamento de exportações. O regime de referência para utilização do mecanismo é o do GATT e tem como condição a ocorrência de aumentos imprevistos nas importações que causem ou amea- cem causar dano ao país importador. Já nas relações entre Brasil e Argentina, destaca- se a criação do Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC), vinculado ao ACE-14. O instrumento autoriza a aplicação de “medidas que contribuam para a adaptação compe- titiva, a integração produtiva e a expansão equilibrada e dinâmica do comércio” quando se verificar que aumentos substanciais nas importações de produtos originárias do par- ceiro, durante um período relevante, causaram dano ou ameaça de dano à indústria do- méstica do produto similar ou concorrente no país importador. Entre os principais aspectos e características relacionados ao MAC, destacam-se: o papel de protagonismo outorgado ao setor privado na resolução das situações que ensejem o recurso ao mecanismo; e a possibilidade de estabelecimento de cotas, com 26 preferência tarifária integral (100%), prevendo-se, ainda, a autorização para que a parte importadora aplique a tarifa regular da TEC com preferência de 10% para as importações extraquota. Por fim, merece menção a única disposição identificada que trata de medidas para o desenvolvimento de indústrias nascentes, presente no acordo entre o MERCOSUL e a União Aduaneira da África Austral (SACU, na sigla em inglês). Tal dispositivo, que reflete aspectos normativos previstos no âmbito do arcabouço normativo da própria SACU, au- toriza Botsuana, Lesoto, Namíbia e Essuatíni a aplicarem direitos adicionais na importa- ção de bens similares para aumentar a competitividade de suas indústrias nascentes (com menos de oito anos). Essas sobretaxas não são consideradas direitos alfandegários no acordo entre MERCOSUL e SACU, de modo que as preferências negociadas não deverão afetar o eventual recolhimento dessas tarifas adicionais. No entanto, é prevista a realização de notificações sobre a intenção de recurso ao instrumento, sendo possível, ainda, nos ca- sos em que tais direitos adicionais impactarem as exportações de Paraguai e Uruguai, serem promovidas consultas visando-se alcançar soluções satisfatórias. O “DUMPING” E A DEFESA COMERCIAL NO BRASIL No final da década de 80 verificou-se no Brasil o fim da política protecionista diri- gida às importações que por longo tempo caracterizou as relações comerciais internaci- onais e foi objeto de constantes críticas dos principais parceiros comerciais brasileiros. Intensificada em 1994 mediante a redução tarifária e a desregulamentação das opera- ções de comércio exterior, a abertura econômica contribuiu para inserir o país no cenário do comércio internacional de forma definitiva, submetendo-o aos efeitos da concorrência internacional e proporcionando uma verdadeira revolução produtiva na economia brasi- leira. A exposição à concorrência externa tem obrigado as empresas nacionais a reduzir custos, investir no processo de inovação e realizar alianças estratégicas. Essa busca de adequação aos padrões internacionais contribuiu para gerar ganhos de qualidade e de produtividade com reflexos na queda do nível geral de preços dos produtos. A concor- rência internacional incentivou o desenvolvimento das empresas, proporcionando nova 27 dinamicidade às relações empresariais. Os resultados alcançados são evidenciados pela patente melhoria da qualidade dos produtos nacionais e diante da sensível redução dos preços, constatados nos vários setores do mercado brasileiro, demonstrando as vanta- gens apresentadas pelo processo de abertura econômica. No atual processo de integração econômica, as empresas que não se propõem a desenvolver seus produtos conforme os padrões mundiais deixam de ser competitivas e têm a existência ameaçada. As restrições impostas aos produtos importados na fase pro- tecionista retardaram o desenvolvimento empresarial no país. Os empresários encontra- vam-se desestimulados em aplicar grandes investimentos no desenvolvimento da quali- dade dos produtos em decorrência da ausência de grandes competidores. Na fase pro- tecionista, muitos dos produtos vendidos aos consumidores caracterizavam-se pelo alto preço e pela qualidade inferior em relação aos similares importados. Essa fase de reestruturação das empresas e consolidação dos benefícios resul- tantes da concorrência internacional exige do governo atenção constante quanto às con- dições em que os produtos estrangeiros ingressam no país, pois eventuais práticas des- leais de comércio podem causar efeitos danosos a uma indústria que precisa ajustar-se rapidamente a um novo paradigma tecnológico e cuja proteção repousa praticamente na tarifa aduaneira. A atuação da defesa comercial mostra-se fundamental para assegurar a sobrevivência das empresas nacionais, principalmente em decorrência do importante papel econômico, político e social que desempenham. Nesse contexto, a defesa comer- cial tem por finalidade acompanhar e interferir nas importações, restringindo apenas aquelas que se destinam a prejudicar o desenvolvimento normal do comércio por meio de práticas desleais. Entre as práticas desleais existentes no comércio internacional, destaca-se aquela que se caracteriza pela introdução de um bem no mercado internacional com preço de exportação inferior ao valor normal praticado no mercado interno do país exportador (CA- SELLA, 1998, p.299). Geralmente, essa prática desleal conhecida por dumping causa prejuízo material a uma indústria estabelecida no território do país importador, podendo também retardar o estabelecimento de uma indústria nacional, prejudicando a livre con- corrência.28 O dumping existe desde o início do século e sempre representou uma prática des- leal prejudicial ao livre desenvolvimento do comércio, motivando a reação dos países, que passaram a elaborar leis para coibi-lo. A primeira lei antidumping foi adotada pelo Canadá em 1904, seguindo-se a lei da Nova Zelândia em 1905 e a lei da Austrália em 1906. Os Estados Unidos e o Reino Unido criaram suas leis antidumping antes da Pri- meira Guerra Mundial, enquanto que as primeiras regulamentações européias de prote- ção às indústrias locais surgiram após a Primeira Guerra Mundial, iniciando-se na Ale- manha (JOHANNPETER, 1996, p.62). Além das legislações internas dos países, o dumping ganhou tratamento especial no âmbito do General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) 1947 e nas Rodadas Ken- nedy (1967), Tóquio (1979) e Uruguai (1994). A Rodada Uruguai destaca-se pela criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e pela sensível evolução que proporcionou à legislação antidumping, adaptando-a às atuais exigências do comércio internacional (COSTA, 1996, p.3). O atual Código Antidumping, aprovado em 1994 na Rodada Uruguai, regula a ma- téria no âmbito mundial e os países membros da OMC devem adequar suas legislações internas aos princípios vigentes nas normas da Organização. O Brasil incorporou os no- vos conceitos relativos ao Código Antidumping da OMC por meio do Decreto nº 1.355, de 30 de dezembro de 1994, que juntamente com a Lei nº 9.019, de 30 de março de 1995 e o Decreto nº 1.602, de 23 de agosto de 1995 (JURIS SÍNTESE, 1999, n.19), constituem a legislação brasileira vigente sobre dumping. De acordo com a OMC, a mera exportação de produtos a preços mais baixos que aqueles praticados no mercado interno do país exportador não justifica a aplicação de direitos antidumping. É imprescindível a prova do prejuízo ou de uma ameaça de prejuízo para autorizar a aplicação desses direitos, além da comprovação do nexo causal entre o alegado dumping e o prejuízo (THORSTENSEN, 1999, p.108). Essa relação existente entre as importações a preços de dumping e o dano causado à indústria nacional é de extrema importância, pois a constatação do dano determina todo o processo que decidirá sobre a aplicação ou não de um direito antidumping. 29 Assim, pode-se dizer que a simples prática de dumping não configura necessaria- mente uma prática desleal. É preciso que ele seja condenável, quer seja no plano inter- nacional ou no âmbito doméstico. Nesse sentido, mostra-se de extrema relevância a re- lação causal entre preço do produto e dano à indústria nacional do país importador, visto que a importação de pequena quantidade de mercadoria, pelo seu inexpressivo valor e quantidade, não chega a causar dano à indústria instalada ou em vias de instalação, razão que afasta a aplicação de medidas antidumping. Uma das razões de caráter intrínseco da prática de dumping é a eliminação da concorrência do fabricante de produto similar. O princípio é o mesmo da competição pre- dadora no âmbito do mercado doméstico. Uma empresa com práticas comerciais agres- sivas, visando a conquistar aquele segmento de mercado, vende seus produtos por pre- ços extremamente baixos, pretendendo, em curto espaço de tempo, aniquilar os concor- rentes, ficando, em última instância, sozinha no mercado para, posteriormente, gozando de situação privilegiada, aumentar os preços e atingir lucros decorrentes de uma ativi- dade sem concorrentes. Ressalta-se que a doutrina dominante entende que a ocorrência de dumping so- mente é possível no mercado internacional. A introdução de produto no mercado interno do produtor com preço inferior àquele normalmente praticado em circunstâncias normais de competição, ou seja, a venda injustificada de mercadoria abaixo do preço de custo, não corresponde a prática de dumping. Equivale, isto sim, à conduta caracterizadora de infração contra a ordem econômica prevista no Brasil pelo art. 21, XVIII, da Lei nº 8.884/94, Lei Antitruste Brasileira (JURIS SÍNTESE, 1999, n.19), conhecida como preço predatório ou underselling, destinada a tentativa de domínio de mercado. No Brasil, o procedimento administrativo relativo à aplicação de medidas antidum- ping é disciplinado pelo Decreto nº 1.602/95 (JURIS SÍNTESE, 1999, n.19), estando, de forma genérica, em consonância com as normas da OMC. Os órgãos diretamente envol- vidos nas investigações antidumping são a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), o Departamento de Defesa Comercial (DECOM) e o Comitê Consultivo de Defesa Comer- cial (CCDC), integrantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exte- rior. Além desses órgãos, atuam na aplicação de medidas antidumping a Secretaria da 30 Receita Federal do Ministério da Fazenda e os Ministros de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Fazenda. Em termos genéricos, o procedimento antidumping abrange um processo de in- vestigação para a determinação da existência, do grau e do efeito da prática de dumping, tendo início por meio de petição encaminhada pela indústria doméstica à SECEX ou, ainda, em casos excepcionais, de ofício pelas autoridades encarregadas da defesa co- mercial no país importador. Se a SECEX chegar a uma determinação final da existência de dumping, de dano e de nexo causal entre eles, a investigação poderá ser encerrada com aplicação de direitos antidumping, conforme a decisão dos Ministros de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Fazenda. O direito antidumping significa um montante em dinheiro igual ou inferior à margem de dumping apurada e tem por finalidade exclusiva neutralizar os efeitos danosos das importações caracterizadoras da prática desleal, restabelecendo o equilíbrio de competi- tividade rompido no mercado interno. O direito antidumping é aplicado às importações, sendo adicionado ao Imposto de Importação já existente, resultando em um preço mais elevado de aquisição da mercadoria estrangeira pelo importador. Ressalta-se que o di- reito antidumping não apresenta natureza tributária, constituindo conteúdo de norma de direito internacional que impõe ao produto importado condições de acesso ao mercado do país importador, objetivando a comercialização condizente com o interesse global da economia (FERRAZ JÚNIOR, 1994, p.96). Os mecanismos utilizados para combater os efeitos do dumping no mercado in- terno do país importador, além da aplicação de direitos antidumping, abrangem também medidas antidumping provisórias e compromissos de preços, encontrando-se submeti- dos a uma série de requisitos disciplinados no Decreto nº 1.602/95. Medidas antidum- ping provisórias têm por finalidade antecipar a correção de uma situação irregular, cor- respondendo a uma proteção temporária e cautelar, diante do longo tempo demandado no julgamento em decorrência da complexidade do procedimento, que pode prejudicar definitivamente as empresas vítimas dos danos. Os compromissos de preços são firma- dos pelas partes interessadas nas investigações antidumping, podendo suspender o prosseguimento da investigação sem a aplicação de medidas se o exportador assumir 31 voluntariamente compromissos satisfatórios de revisão dos preços ou de cessação das exportações a preços de dumping. A primeira aplicação de medidas antidumping no Brasil ocorreu em 1988 e, desde 1991, o país vem ampliando a utilização desses instrumentos (MEZIAT, 1999, p.55). Atu- almente, de acordo com as informações divulgadas pela SECEX em 30 de abril de 2000 (http://www.mdic.gov.br/publica/secex, obtido na internet em 20/06/2000), existem no Brasil vinte e seis medidas de proteção comercial em vigor, das quais vinte e três corres- pondem a medidas antidumping. Duas referem-se a direitos compensatórios e uma cor- responde a aplicação de salvaguarda. No tocante às investigações antidumping realiza- das pelo Brasil,existem sete em curso. A cobertura das ações antidumping iniciadas no país é variada, já envolveram mais de quarenta países, entre os quais destacam-se a China, Estados Unidos, Rússia, Argentina, Romênia, Taiwan, Tailândia, Chile, México, entre outros (NAIDIN, 1999, p.57). O Brasil também é vítima de ações antidumping iniciadas contra suas exporta- ções. Na Argentina, entre 1992 e 1996, o Brasil foi o país mais afetado pelas ações anti- dumping (ARAÚJO JÚNIOR, 1997, p.248). Recentemente, o Canadá iniciou pro- cesso antidumping contra as exportações de chapas grossas de aço provenientes no Brasil. Em 1999, o aço carbono laminado a frio brasileiro sofreu sérias restrições nos Estados Unidos. As empresas norte-americanas alegavam que as siderúrgicas brasilei- ras praticavam no mercado norte-americano preços inferiores aos praticados no Brasil e que ainda se beneficiavam dos subsídios recebidos na época em que eram estatais. No entanto, em março de 2000, a International Trade Comission, órgão do governo dos Es- tados Unidos, decidiu pela inexistência de dano à indústria norte-americana causado pe- las importações do aço brasileiro, permitindo que o produto encontre novamente condi- ções de venda no mercado norte-americano, já que as exportações desse tipo de aço estão livres das taxas antidumping aplicadas pelos Estados Unidos, que variavam de 46,6% a 63,2% (Gazeta Mercantil Latino Americana, 18/10/1999). Considerando a evolução da legislação antidumping no âmbito mundial e o trata- mento à referida legislação no Brasil, conclui-se que o país vem cumprindo seu papel no desenvolvimento de mecanismos de defesa comercial capazes de assegurar a proteção 32 das empresas contra a concorrência externa predatória. Os efeitos da globalização eco- nômica impedem que um país apresente desenvolvimento paralelo e indiferente aos efei- tos resultantes da economia mundial, não se podendo negar ou mesmo ignorar essa realidade. O país que pretende alcançar repercussão no comércio internacional, além de aplicar os mecanismos internos de defesa comercial existentes contra as práticas desle- ais, deve desenvolver eficiente estrutura que possibilite aos seus representantes defen- der seus interesses no âmbito da Organização Mundial do Comércio, a quem compete a supervisão da aplicação de medidas de defesa comercial pelos países membros e a so- lução de controvérsias resultantes da aplicação inadequada dessas medidas, objetivando assegurar o recíproco respeito e atendimento às normas que regem o comércio interna- cional. Por fim, cumpre ressaltar o aspecto social relacionado às leis de defesa comercial. Objetivando a proteção das empresas em atividade no país, referidas leis têm por finali- dade impedir que práticas empresariais condenáveis decorrentes da concorrência inter- nacional produzam seus efeitos, prejudicando os interesses existentes em torno da em- presa, como são os dos sócios, empregados, consumidores e de toda a comunidade cuja atividade encontra-se vinculada à vida das empresas. A preservação e manutenção das empresas existentes constitui preocupação constante dos dirigentes estatais dos países industrializados e em fase de industrialização diante de sua importância econômica, tec- nológica e social. As leis de defesa comercial são aplicadas com a finalidade precípua de defender a atividade empresarial desenvolvida no país, assegurando, em consequência, os inte- resses sociais relacionados à existência das empresas. Assim, pode-se dizer que a le- gislação de defesa comercial, ao proteger a atividade empresarial, também se destaca como importante meio de garantir o nível de emprego no país e os interesses sociais diretamente envolvidos nas atividades desenvolvidas pelos empresários, o que evidencia a relevância dessas leis no quadro legislativo dos países participantes do comércio inter- nacional. 33 REFERÊNCIAS ARAÚJO JR., José Tavares, TINEO, Luis. Integração Regional e Política da Concorrên- cia. Revista do IBRAC, v.4, n.6, p. 245-261, 1997. BULGACOV, Sergio. PREDEBON, Eduardo Angonesi. Processos de Integração Regio- nal e Internacionalização: O Caso da Weg Autoria. V Encontro de estudos em estraté- gia. Porto Alegre/RS. 15 a 17 de maio de 2011. Disponível em:. Acessado em: 15 de dezembro de 2021. CASELLA, Paulo Borba, MERCADANTE, Araminta de Azevedo (Coord.). Guerra Co- mercial ou Integração Mundial pelo Comércio?: A OMC e o Brasil, São Paulo : Ltr, 1998, 854 p. EUROPEAN UNION. 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