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1 
 
 
INTEGRAÇÃO REGIONAL E DEFESA COMERCIAL 
 
 
 
2 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, 
em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Gradua-
ção. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educa-
cionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conheci-
mento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desen-
volvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de pro-
mover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem 
patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou ou-
tras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiá-
vel e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e 
ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na 
oferta decursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento 
e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
Sumário 
INTEGRAÇÃO REGIONAL E DEFESA COMERCIAL ........................................... 1 
NOSSA HISTÓRIA ................................................................................................ 2 
INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 4 
REGIÃO, FRAGMENTAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO ................................................. 5 
INTEGRAÇÃO REGIONAL .................................................................................... 8 
FORMAS DE INTEGRAÇÃO REGIONAL ........................................................... 10 
DEFESA COMERCIAL ........................................................................................ 14 
PRÁTICAS DESLEAIS (DUMPING E SUBSÍDIOS ACIONÁVEIS) ..................... 16 
SALVAGUARDAS GLOBAIS ............................................................................... 18 
Salvaguardas preferenciais ou bilaterais .......................................................... 19 
Condições para aplicação ............................................................................ 19 
Processo de investigação ............................................................................. 19 
Aplicação e vigência ..................................................................................... 20 
Transparência ............................................................................................... 22 
Outras medidas emergenciais ...................................................................... 23 
O “DUMPING” E A DEFESA COMERCIAL NO BRASIL ..................................... 26 
REFERÊNCIAS ................................................................................................... 33 
 
 
 
 
 
 
 
 
file://192.168.40.10/O/Pedagogico/MBA/MBA%20EXECUTIVO%20EM%20GESTÃO%20ESTRATÉGICA%20DE%20INOVAÇÃO%20TECNOLÓGICA%20E%20PROPRIEDADE%20INTELECTUAL%20-%20MARCAS%20E%20PATENTES/INTEGRAÇÃO%20REGIONAL%20E%20DEFESA%20COMERCIAL/INTEGRAÇÃO%20REGIONAL%20E%20DEFESA%20COMERCIAL.docx%23_Toc91683502
 
 
 
4 
 
 
INTRODUÇÃO 
A história dos acordos internacionais de comércio pode ser contada sob vários 
enfoques: do Direito Internacional, da Economia Internacional, das Relações Internacio-
nais, da História da Política externa brasileira. 
Independentemente do enfoque escolhido, a questão central que permeia um 
acordo de comércio é os benefícios que trará ao país, tentando identificar os interesses 
que o beneficiam e os que são contrários aos acordos. Dizer que um acordo é bom ou 
ruim, em essência, não acrescenta nada de produtivo. O que é relevante é identificar se 
haverá maiores interessados em determinado acordo, beneficiando a sociedade como 
um todo, ou se o acordo trará prejuízos à maioria. 
Um acordo de comércio significa, necessariamente, um aumento do fluxo comer-
cial entre as partes, seja pela facilitação do fluxo comercial, seja pela rebaixa tarifária dos 
impostos de importação incidentes. O aumento do fluxo comercial significa maiores ex-
portações ou importações, de um setor ou de outro. Fazer mais comércio não é um indi-
cador por si só positivo, mas se trouxer aumento da diversidade de produtos ofertados, 
aumento da concorrência com consequente redução de preços, aumento do nível do em-
prego, consumo de produtos não-naturais em determinados países, podemos dizer que 
o acordo é útil e positivo. 
Se, por outro lado, o acordo beneficiar somente uma parte da população, contri-
buindo para o aumento de desemprego e quebra de empresas nacionais que não conse-
guem enfrentar a concorrência, o acordo não é útil e não é positivo para a sociedade 
daquele país. 
O papel do governo, que é a entidade jurídica que assina os acordos, é considerar 
os impactos positivos e negativos que um acordo trará para a economia de um país. Não 
podemos falar, em essência, que quanto mais acordos um país assina e ratifica, melhores 
são as condições de vida neste país. O que podemos dizer é que, quanto mais um país 
faz acordos, maior volume de comércio haverá entre as partes, com um desempenho 
maior na corrente de comércio (exportações mais importações). 
 
 
 
5 
 
No entanto, há países que praticamente não fizeram acordos comerciais e assu-
miram essa política como opção. São países que, claramente, geram um ambiente de 
menor competição nos mercados, com atraso tecnológico em vários setores, mas não 
podemos entrar no mérito das condições sociais e da diferença de classes. As condições 
sociais nesses países muitas vezes são melhores que naqueles que fizeram muitos acor-
dos com muitos países. Não vamos entrar nesta discussão. Vamos esclarecer que exis-
tem acordos que estimulam negócios de exportação e internacionalização de empresas, 
sem questionar o aspecto social envolvido. 
REGIÃO, FRAGMENTAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO 
É imprescindível considerarmos que, embora a globalização tenha sugerido, de 
acordo com a opinião de alguns autores, uma espécie de padronização espacial, suas 
implicações em níveis locais, nacionais e continentais são ainda recentes e devem ser 
entendidas à luz das peculiaridades das forças sociais, econômicas, políticas e culturais 
próprias de cada parcela da superfície terrestre. 
Podemos afirmar que, na etapa da globalização, um dos conceitos que mais sofreu 
o seu impacto, foi o de região, tanto pelo lado da escala em que o processo passa a se 
realizar, como pelo lado de sua operacionalização ou, mais particularmente, no sentido 
do grau de autonomia regional face aos processos políticos mais abrangentes. Nesse 
contexto, destacamos as seguintes indagações: Como a região pode se manter no con-
flito entre o local e o global? 
Como ela persiste aos efeitos dos atores hegemônicos que tentam forjar a homo-
geneidade espacial, mediatizados pelo capital? Freqüentemente identificamos afirma-
ções de que a região existe e persiste com um objeto que dá sustentabilidade à unidade 
geográfica. Mas como essa questão pode ser relativizada? A resposta não é simples e 
tem desafiado muitos geógrafos. 
É preciso que entendamos que a diferenciação dos recortes regionais atuais se 
insere na crise resultante das mudanças na organização espacial que a economia mun-
dial primeiramente provocou e que foram aceleradas pela globalização da economia. Na 
medida em que o capitalismo é responsável pelo recrudescimento da globalização, emer-
 
 
 
6 
 
gem relações, processos e estruturas próprias desse mundo multifacetado. É na dinâ-
mica, desse movimento interdependente e integrativo, bem como de fragmentação e an-
tagonismos, que a região se insere. 
O desenvolvimento do capitalismo é, sem dúvida, o principal agente modelador doespaço. É ele que corta e recorta a superfície terrestre, ou seja, absorve ou reabsorve os 
mais diversos espaços, modos de vida e de trabalho, culturas. Podemos dizer, então, que 
a reprodução ampliada do capital, em escala global, continua a ocupar e reocupar o 
mundo nos mais diversos e distantes lugares. Simultaneamente, a globalização leva à 
fragmentação, pois articula e desarticula espaços e regiões. Como entender um mundo 
que se processa, de um lado, pelas forças integrativas da globalização e, de outro, pelas 
forças da fragmentação? 
Essas reflexões perpassam os estudos de região, pois o surgimento ou ressurgi-
mento de novos recortes regionais implica a organização ou reorganização de outros. Ao 
considerarmos a questão regional hoje, podemos afirmar que a dinâmica do todo não se 
distribui similarmente pelas partes. As partes, enquanto distintas totalidades também no-
táveis, consistentes, tanto produzem e reproduzem seus próprios dinamismos como as-
similam, diferencialmente, os dinamismos provenientes da sociedade global, enquanto 
totalidade mais abrangente. 
É no nível do desenvolvimento desigual, combinado e contraditório, que se expres-
sam diversidades, localismos, singularidades e particularismos. Verificamos, portanto, 
que a globalização pode não significar homogeneização total, mas sim diferenciação de 
partes. Essa diversidade ocorre em virtude das distintas potencialidades regionais e dos 
diversos atores hegemônicos que atuam com forças desiguais, organizando ou desorga-
nizando os quadros regionais. 
Ou seja, são novos recortes do mundo sob o padrão econômico do capital. Em 
primeiro lugar, devemos ter claro que os recortes regionais atualmente são múltiplos, 
dinâmicos, complexos e instáveis, sob a ótica espacial. Em segundo lugar, convém res-
saltarmos que os recortes regionais possuem aspectos distintos. Tal distinção é resul-
tante da diversidade de aspectos que estruturam uma região: ambientais, humanos, 
 
 
 
7 
 
econômicos, históricos, sociais, políticos e culturais. Em terceiro lugar, faz-se mister re-
fletirmos sobre a dimensão política, como um dos fatores determinantes no conceito de 
região. 
A região está subjugada a um poder central, tendo o Estado um papel não mais 
planejador, mas provedor. O Estado-Nação soberano tem mudado a sua face, encon-
trando-se em crise desde os finais do século passado, quando emergiu, com maior ên-
fase, a globalização. A globalização, conduzida pelos grandes bancos e corporações 
transnacionais (capital financeiro), retirou do Estado o controle sobre o conjunto do pro-
cesso produtivo, afetando a integridade do território nacional e a autonomia do Estado, 
repercutindo, assim, nas regiões. Acreditamos que, nessa nova forma de estruturação do 
Estado, as regiões terão novo papel, requerendo uma organização social e uma política 
flexível, que favoreça a competição. 
Assim sendo, o Estado, embora não deixe de ter a função de coordenação e re-
gulação, passa a não ser mais o executor exclusivo dos processos econômicos e políticos 
para dividir o poder com as regiões. Nesse rearranjo político, as regiões, possuindo um 
desenvolvimento científico-tecnológico e informacional, poderão ter muito a barganhar. 
Somente sob essas condições, a região oferecerá aos agentes da economia e da política 
a certeza do resultado de sua ação. Em quarto lugar, salientamos que a globalização 
parece concretamente não ter logrado suprimir a diversidade espacial e, possivelmente, 
não a tenha diminuído. 
Ponderamos que a identidade cultural persiste e, portanto, a globalização não a 
destrói, pelo contrário, até a reforça. Em quinto lugar, teremos que levar em consideração 
a problemática da escala. Embora fundamental, a delimitação da região jamais poderá 
ser rígida, uma vez que a dinâmica do espaço não admite cortes bruscos na definição de 
suas fronteiras. 
A região é, portanto, uma dimensão escalar do espaço, que se concretiza medi-
ante a funcionalização do poder no território. A partir dessas reflexões, nos propomos 
entender a região como um recorte espacial (subespaço) dinâmico, que se estrutura e se 
reestrutura em um determinado tempo, considerando as transformações ambientais, hu-
manas/sociais, históricas/políticas e culturais nele engendradas. 
 
 
 
8 
 
INTEGRAÇÃO REGIONAL 
A expressão integração regional designa o processo pelo qual os territórios 
pouco ou nada conectados uns aos outros formam pouco a pouco um conjunto regional 
distinto do resto do mundo. Esse conjunto é mais do que a simples soma de suas partes. 
Muitos especialistas admitem dois tipos de integração regional: 
A integração dita ″formal″ é a menos difícil de definir. Os países podem entrar em 
um acordo regional e formar um espaço comum: podemos dizer, por exemplo, que os 
seis países fundadores da Comunidade Econômica Europeia se integraram no espaço 
comunitário em 1958. Podemos assim dizer que o NAFTA, o MERCOSUL, a UNASUL, o 
CAFTA-RD, a ASEAN são exemplos de integração regional, pois os países membros 
fazem parte de um acordo regional. Entrar no acordo significa integrar uma parcela do 
espaço mundial definida por esse acordo, sem prejuízo daquilo que ocorre no seu interior. 
Trata-se de um processo top down (de cima para baixo) controlado pelos governos. 
Existe também uma integração regional ″funcional″, chamada por vezes de 
″real″ ou ″aprofundada″. Trata-se do processo pelo qual as interações entre os territó-
rios contíguos crescem a tal ponto que elas terminam por ser mais intensas no interior do 
que com os territórios situados no exterior. O crescimento das interações é perceptível 
na geografia das práticas dos atores em todos os níveis (indivíduo, empresas, institui-
ções, etc.). Os conjuntos regionais integrados são lidos, assim, na geografia das práticas 
sociais, econômicas e políticas e não necessariamente nos limites dos grandes conjuntos 
fundados sobre os acordos. São as práticas que fazem a região e permitem a leitura dos 
seus contornos. 
Se formos rígidos, é melhor não falar de integração no primeiro caso. A expressão 
integração superficial ou formal é complicada, pois a assinatura de um acordo regional 
não se traduz necessariamente pelo aumento das trocas e das interações entre as uni-
dades espaciais que o compõem. Dito de outra forma, o acordo não produz necessaria-
mente o espaço regional no sentido pleno da palavra. Os exemplos não são raros: nós 
constatamos, por exemplo, que o comércio internacional interno do MERCOSUL e da 
ASEAN permanecem minoritários. 
 
 
 
9 
 
A expressão integração regional deve ser reservada no segundo caso, à condição 
de eliminar uma ambiguidade. É preciso distinguir o processo e o estado das coisas e 
dizer a partir de qual limiar um conjunto pode ser considerado como integrado. No en-
tanto, a definição de integração regional como processo é um pouco problemática. Ela 
designa, por exemplo, a ascensão nos níveis da escala do regionalismo (controlada pelos 
governos) definidos por Bela Balassa: fórum regional, área de livre comércio, união 
aduaneira, mercado comum, união monetária, união política (Balassa, 1961). Passar 
de um nível a outro pressupõe um aprofundamento das interações entre as unidades 
espaciais componentes do conjunto considerado. 
Encontramos essa abordagem dinâmica, nos trabalhos de B. Hettne e F. Söder-
baum, que se reportam ao construtivismo social e ao new regionalism approach. Eles 
definiram níveis de integração regional (os níveis de regionness) observando os compor-
tamentos de todos os atores. Sua abordagem dá atenção tanto ao processo top down 
quanto ao bottom up. Eles observaram assim a formação de regiões funcionais constru-
ídas pelas práticas sociais como também pelas instituições públicas. 
A integração regional é portanto, definida como o processo pelo qual uma parcela 
do espaço, pouco importa seu tamanho, é pouco a pouco ″preenchida″ porbastante subs-
tância social, econômica, institucional política, cultural, identitária, etc. para tornar um sis-
tema distinto dos outros e ser finalmente percebido como tal. 47. Embora esteja implícito, 
podemos pensar que esses atores estimam que um conjunto é considerado como inte-
grado quando se é atingida a última fase do processo: a união econômica e política de 
Balassa; o estado regional ou a sociedade regional, segundo B. Hettne et F. Söderbaum 
(Hettne e Söderbaum, 1998; 2000). Essa abordagem apresenta diversas vantagens: 
Ela é dinâmica. A região definida pode ter limites imprecisos e instáveis que são 
definidos tanto pelas práticas sociais como pela ação das instituições públicas (governos, 
etc.). A ideia de limites imprecisos e móveis faz aqui eco à noção de fuzzy borders apli-
cada pelos especialistas em Relações Internacionais aos limites externos da UE. Eles 
admitem assim que a região UE é cercada de territórios periféricos que apresentam níveis 
de integração desiguais, segundo uma lógica de tipo centro-periferia (Christiansen, Pe-
tito, Tonra, 2000). 
 
 
 
10 
 
Ela é abrangente, pois não se limita apenas a um setor. No entanto, esse ponto 
não é decisivo se considerarmos a região como um conjunto funcional, ou seja, um sis-
tema: podemos falar de região econômica, por exemplo. Nesse caso, podemos qualificar 
a expressão falando de uma integração regional econômica ou mesmo de uma integra-
ção regional parcial. Ela não pressupõe que a região seja necessariamente um agregado 
de Estados. 
A região pode ser um território transfronteiriço que cobre todo ou somente uma 
parte do território de diversos países contíguos. Ela não pressupõe um determinado ta-
manho de região. Isso implica em um aperfeiçoamento do vocabulário para se distinguir 
os tipos de regiões integradas. Podemos assim distinguir diversos níveis geográficos de 
integração. 
A integração regional se aplica aos conjuntos infraestatais, a integração mesore-
gional aos territórios transfronteiriços que cobrem totalmente ou parcialmente dois países 
contíguos. 
A integração macroregional designa, enfim, a formação de uma região integrada 
a partir de diversos Estados contíguos. Falar de ″macroregiões″ para conjuntos multies-
tatais como a UE ou o NAFTA é problemático, pois esse conceito ambíguo já é utilizado 
por diversos autores com significados um pouco diferentes (Ferrier, 2002 ; Racine, 1984 ; 
Skinner, 1977). 
FORMAS DE INTEGRAÇÃO REGIONAL 
 
 
 
 
11 
 
 
Neste contexto, primordial discorrermos, em forma de definições, sobre as etapas 
ou formas de integração, pois, como veremos, existem diferentes tipos ou etapas de in-
tegração, que variam segundo a intensidade da união econômica dos membros de um 
Bloco. Os principais são a Área de Livre Comércio, a União Aduaneira, o Mercado Co-
mum e a União Econômica e Monetária 
Dessa forma, inicialmente, fala-se em Área de Livre Comércio, como no caso do 
NAFTA, quando as barreiras visíveis (impostos de importação e exportação, por exem-
plo) aplicadas ao comércio entre países sócios são eliminadas. Em princípio, o comércio 
entre os países membros de uma Área de Livre Comércio deve ser tão livre como se 
fosse um só país. Em uma Área de Livre de Comércio há, entre os países membros, 
liberdade de movimentos da generalidade dos produtos, mantendo, todavia, cada um 
deles a possibilidade de seguir uma política comercial própria em relação ao exterior. 
A seu turno, em sequência, uma União Aduaneira é parecida a uma Área de Livre 
Comércio, com a diferença que, além de terem o comércio livre entre eles, os Estados-
Membros decidem cobrar tributos iguais para o comércio com países que não são sócios 
do Grupo. Esses tributos são chamados de Tarifa Externa Comum, ou TEC. 
Portanto, a União Aduaneira é criada para eliminar restrições aduaneiras ao inter-
câmbio de mercadorias entre países Partes e para estabelecer uma política tarifária uni-
forme (ou política comercial) com relação a países não Partes do Bloco. Dentro deste 
contexto, ainda pressupõe a negociação conjunta de qualquer acordo com países tercei-
ros, para que se denote a conclusão desta etapa. 
Neste passo, a seguir, o Mercado Comum vai ainda mais longe. Além da Tarifa 
Externa Comum e do livre comércio entre sócios, ele permite que pessoas de um país 
membro do Grupo trabalhem no outro, como se fossem nascidas ali. Em geral, isso não 
é permitido, e é preciso criar regras especiais para essa situação, como ocorre no caso 
da União Européia. 
Além disso, no Mercado Comum as empresas podem se instalar ou investir indis-
criminadamente em qualquer dos países sócios. Em linguagem econômica, isto se 
 
 
 
12 
 
chama "livre circulação de mão de obra, capital e serviços". Outro ponto, ainda mais im-
portante, diz respeito ao estabelecimento de Políticas Comunitárias, ou políticas comuns 
aos países membros do bloco. 
No mesmo sentido, esta etapa de integração é caracterizada pelo afastamento não 
só das barreiras alfandegárias ao comércio como também pelo afastamento das barreiras 
não visíveis (invisible ou non-tariff barriers) que impedem a concorrência plena entre as 
economias. 
Finalmente, a União Econômica e Monetária é o tipo mais avançado de integra-
ção, quando, além de todas as características descritas anteriormente, os países têm a 
mesma moeda, proporcionada pela integração de suas políticas econômicas em nível 
avançado. O único exemplo de uma União Econômica e Monetária no mundo é a União 
Européia, que criou, recentemente, sua moeda única, o EURO. Já se falou muito de o 
Mercosul vir a ter uma moeda única, que tomaria o lugar do Real, do Peso (a Argentina 
e o Uruguai tem moedas diferentes mas com o mesmo nome) e do Guarani (moeda do 
Paraguai). 
Contudo, como podemos observar pelas fases necessárias para se atingir a inte-
gração econômica e monetária o referido objetivo encontra-se distante, tendo em vista 
que o Mercosul ainda não atingiu, plenamente e na prática, sequer a fase de União Adu-
aneira. Em síntese, pois, uma Zona de Livre Comércio é a etapa ou tipo de integração 
em que são eliminadas todas as barreiras ao comércio entre os membros do grupo. 
Por sua vez, a União Aduaneira é a etapa ou tipo de integração em que, além do 
livre comércio entre os países membros do grupo, existe a aplicação de uma Tarifa Ex-
terna Comum (TEC) ao comércio com terceiros países. Já no Mercado Comum, além da 
TEC e do livre comércio de bens, existe a livre circulação de fatores de produção (capital 
e trabalho) e o estabelecimento de políticas comunitárias. Finalmente, a União Econô-
mica e Monetária é o tipo mais avançado de integração, quando, além de todas as ca-
racterísticas descritas anteriormente, os países têm a mesma moeda. 
Como exemplo destas etapas de integração, os cidadãos europeus podem viajar 
pela maior parte da União Européia (EU) sem passaporte e sem controles nas fronteiras. 
 
 
 
13 
 
Podem fazer compras em outro país onde as mercadorias sejam mais baratas sem pagar 
quaisquer impostos adicionais. 
A moeda única, o euro, permite que os compradores comparem diretamente os 
preços nos países que a utilizam. Consequentemente, os fabricantes e varejistas toma-
ram medidas para reduzir preços injustificadamente elevados. Viajar para fazer compras, 
em turismo ou em negócios de um país euro para outro tornou-se mais barato porque 
não é necessário trocar moeda nem pagar comissões. A concorrência criada pelo mer-
cado único sem fronteiras da UE conduziu a um aumento da qualidade e a uma redução 
dos preços. As chamadas telefônicas, o acesso à Internet e as viagens aéreas tornaram-
se mais baratos. 
No mesmo sentido, os cidadãos da UE podem viver, trabalhar, estudar e aposen-
tar-se noutro país da UE se assim o desejarem. 
Comumente, como destacam Herz e Hoffmann (2004), emprega-se uma espécie 
de escala ou gradação para definir as características ou aprofundidade de uma integra-
ção econômica regional. 
O primeiro passo é um acordo preferencial de tarifas entre seus integrantes, por 
intermédio do desenvolvimento de uma zona de livre comércio, onde as taxações entre 
os membros envolvidos seriam menores do que as cobradas de outros países não parti-
cipantes do processo integrativo, assim haveria redução ou eliminação de barreiras al-
fandegárias para o comércio intrarregional. O segundo passo é a união aduaneira onde, 
além da eliminação de entraves alfandegários para o comércio entre os participantes, 
também existe uma tarifa externa comum aos países integrados a ser aplicada de forma 
igual a países de fora da região, denotando o início real de uma integração econômica 
regional. Prosseguindo nessa evolução, conforme Herz e Hoffmann (2004), o terceiro 
passo é o mercado comum onde se eliminam as barreiras ao comércio, adota-se uma 
tarifa externa comum e acrescenta-se a livre circulação de capital, serviços e até mão de 
obra. O quarto passo é a união econômica e monetária, esta deve contemplar o livre 
comércio, uma tarifa externa idêntica, a circulação de fatores produtivos, a harmonização 
das políticas fiscais e monetárias e a criação de uma moeda comum. E, por fim, o último 
 
 
 
14 
 
passo seria a união política onde existe uma autoridade ou governo central que é supe-
rior, em muitos aspectos, aos próprios governos nacionais; além disso, contemplaria a 
eliminação de barreiras comerciais, uma tarifa externa comum, a livre circulação de mão 
de obra, capital e serviços, a unidade nas políticas fiscais, monetárias, industriais e soci-
ais, e ainda um órgão controlador unificado investido de poderes para fazer funcionar a 
entidade integrada, agora em seu estágio máximo. 
Esses distintos níveis de integração ou graus de aprofundamento da integração 
permitem distinguir a integração da cooperação. Enquanto um bloco regional de integra-
ção possui objetivos ambiciosos que implicam a unificação, a uniformização e a harmo-
nização de políticas comerciais, econômicas e monetárias com delegação de parcelas 
significativas de soberania para instituições de caráter supranacional, um bloco regional 
de cooperação tem metas mais modestas, cuja implantação não requer a abdicação por 
parte dos Estados de grandes parcelas de soberania (Siste, 2006). 
Nesse sentido, tendo em vista a natureza complexa dos objetivos e metas de um 
processo de integração regional, esclarece Gomes (2010), pode-se afirmar que, a princí-
pio, apenas a União Européia atingiu aquele estágio de integração e dessa forma pode-
se qualificá-la como um processo de integração stricto sensu. Por outro lado, prossegue 
Gomes (2010), o MERCOSUL, aproxima-se muito mais de um modelo de caráter coope-
rativo e consensual, podendo-se, assim, considerá-lo um processo de integração lato 
sensu. 
DEFESA COMERCIAL 
Um sistema de Defesa Comercial eficiente e assentado em regras e boas práticas 
internacionais é condição essencial do processo de integração comercial. Por conta da 
garantia de instrumentos que permitem a adoção de medidas contra importações consi-
deradas desleais, ou contra surtos de importação que desorganizam o mercado domés-
tico, foi possível o apoio dos governos e dos setores produtivos no processo de liberali-
zação comercial verificado nas últimas décadas no mundo. 
As medidas de Defesa Comercial são instrumentos legítimos, estabelecidos por 
meio das normas multilaterais de comércio, e não podem ser confundidas com prática 
 
 
 
15 
 
protecionista. No âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), estão estabeleci-
das as regras sobre a aplicação de medidas de Defesa Comercial (Acordo Antidumping, 
Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias e Acordo sobre Salvaguardas). 
Com base nesses compromissos assumidos pelos países-membros, são adotadas 
normas domésticas que regulamentam a aplicação das medidas em questão. Os instru-
mentos de Defesa Comercial ganham ainda mais relevância no momento atual de enga-
jamento do Brasil em negociações de acordos comerciais. A maior integração do Brasil 
ao comércio internacional permite às empresas acessar novos mercados, estimula a 
competição interna e a busca pela eficiência e contribui para a maior participação do País 
nas cadeias globais de valor. 
A aplicação de medidas de Defesa Comercial no Brasil não é excessiva. Entre 
1995 e 2016, 60% das investigações de Defesa Comercial levaram à aplicação de medi-
das no Brasil. Essa proporção é menor que a observada, por exemplo, na China (82%), 
na Índia (72%) e nos Estados Unidos (63%). Outro dado mostra que, em 2016, apenas 
1% das importações brasileiras foi alvo de medidas de Defesa Comercial. Além disso, a 
proporção de medidas antidumping em setores fornecedores de insumos, como siderur-
gia e química, é menor no Brasil (42,3% contra 75,1% nos Estados Unidos, 68,6% na 
União Europeia e 75,1% no Canadá). 
Apesar da modernização do sistema brasileiro de Defesa Comercial nos últimos 
anos, há falhas na atuação dos órgãos e no cumprimento de regras, o que gera insegu-
rança jurídica. Foram feitos progressos como a implementação de consultas públicas e a 
atualização das normas de Defesa Comercial. No entanto, têm ocorrido problemas 
quanto à garantia do processo de avaliação de interesse público em Defesa Comercial, 
sem o cumprimento de procedimentos previstos pelas normas sobre o tema, com prejuízo 
à garantia da ampla defesa. 
 
Figura 1: Parcipação do Brasil na Abertura de Investigações ANTIDUMPING Oiriginais 
do Mundo 
 
 
 
16 
 
 
PRÁTICAS DESLEAIS (DUMPING E SUBSÍDIOS ACIONÁVEIS) 
Medidas antidumping e compensatórias. Verificou-se que a maioria dos acordos 
trata dumping e subsídios como práticas desleais de comércio que podem ensejar a apli-
cação de seus respectivos remédios, sendo agrupados conjuntamente (ex.: capítulo, ar-
tigo etc.): dos 23 textos analisados, apenas seis (26%) não possuem disposições espe-
cíficas. Três foram assinados antes da constituição da OMC e são intrarregionais (APTR-
4, AR-7 e AG-2), enquanto os outros três foram celebrados já nos anos 2000 com países 
da América Latina (Guiana e São Cristóvão e Névis em 2001, Suriname em 2004 e Pa-
raguai em 2020). 
Entre os acordos comerciais que possuem disposições específicas sobre dumping 
e subsídios, apenas o ACE-2 (entre Brasil e Uruguai) e o ACE-14 (entre Brasil e Argen-
tina) não fazem menção aos Acordos temáticos da OMC (Acordo Antidumping e Acordo 
sobre Subsídios e Medidas Compensatórias). Isso se deve ao fato de que os acordos 
foram assinados em 1983 e 1990, respectivamente, antes da constituição da Organiza-
ção. 
A partir de 1990, os textos originais dos acordos (isto é, desconsiderando-se as 
modificações promovidas por meio de protocolos adicionais) passaram a incorporar dis-
 
 
 
17 
 
positivos sobre práticas desleais de comércio. Apenas o ACE-2, anterior àquele ano, pas-
sou a tratar do tema por meio de protocolo adicional negociado a posteriori. Para além 
da referência aos Acordos da OMC, disposições adicionais nas cláusulas referentes a 
práticas desleais tratam, na maioria dos acordos, do tema transparência. No que diz res-
peito a notificações, quatro determinam a sua realização no caso de investigações envol-
vendo o(s) parceiro(s), sete no caso de aplicação de medidas contra terceiros países 
(que não fazem parte do acordo) e quatro no caso de alterações na legislação doméstica 
relativa ao tema. 
Além disso, em sete acordos, foram identificados mecanismos de consultas entre 
as partes para lidar com o tema de dumping e subsídios. Finalmente, o processo de inte-
gração regional no âmbito do MERCOSUL e a recente conclusão das negociações entre 
o bloco e a UE, após 20 anos de tratativas, apresentam características próprias ao trata-
rem de práticas desleais e serão discutidos em seção específica deste documento. Além 
disso, atéagosto de 2020, nenhum dos acordos assinados pelo Brasil dispunha de cláu-
sula proibindo a aplicação de medidas contra práticas comerciais consideradas desleais 
por alguma de suas contrapartes. 
Outras disposições sobre subsídios. Complementarmente, em onze acordos, fo-
ram identificadas disposições que tratam de subsídios distintos daqueles que poderiam 
ensejar, em outras circunstâncias, a aplicação de medidas compensatórias. São disposi-
ções que endereçam, de maneira específica, incentivos voltados para a exportação e que 
reforçam as regras da OMC como um marco referencial para a conformidade das políti-
cas públicas de incentivo – com exceção das regras relacionadas ao setor automotivo18. 
Além disso, a maioria desses textos (sete) trata os incentivos de forma horizontal (sem 
especificar setores), enquanto três se concentram em bens agrícolas e outros três pos-
suem disposições específicas para o setor automotivo. 
É mencionada também a possibilidade de realização de consultas entre as partes 
para tratar de subsídios relacionados à exportação, com ênfase na troca de informações 
ou na coordenação de posições em negociações internacionais sobre o tema. 
 
 
 
18 
 
Em sete casos, a constatação da existência de incentivos à exportação de bens 
pode ensejar a não extensão das preferências negociadas no acordo às operações iden-
tificadas como beneficiadas pelos subsídios. 
SALVAGUARDAS GLOBAIS 
Embora menos frequentes que as disposições sobre dumping e subsídios, a men-
ção ao instrumento de salvaguardas globais é feita em 14 dos 23 acordos analisados. Os 
textos que não fazem menção ao dispositivo (nove) foram todos celebrados no âmbito da 
ALADI. Cumpre destacar, no entanto, que a omissão sobre o tema não deve ser enten-
dida como a renúncia pelas partes do eventual recurso ao mecanismo, uma vez que o 
Brasil, assim como a maioria dos países e blocos com os quais ele possui acordos, é 
membro da OMC e parte do Acordo sobre Salvaguardas – internalizado no ordenamento 
jurídico brasileiro. 
Dessa forma, na ausência de referência específica às salvaguardas globais no 
âmbito dos acordos comerciais celebrados pelo Brasil, deve-se recorrer ao entendimento 
previsto na legislação brasileira sobre o tema, a qual dispõe que “as medidas de salva-
guarda serão aplicadas ao produto importado independentemente de sua origem [...]”. 
Em investigações de salvaguardas, tal entendimento é refletido na exclusão de origens 
apenas nos casos em que o Brasil é signatário de acordo que prevê o tratamento dife-
renciado para o parceiro, conforme discutido nos casos do MERCOSUL e de Israel, ou 
ainda nas situações previstas pelo próprio Acordo de Salvaguardas da OMC. 
Todos os 14 textos com disposições específicas sobre salvaguardas globais refe-
renciam os Acordos da OMC, invocando suas disposições e reforçando os direitos pre-
vistos neles. O acordo entre MERCOSUL e UE reforça disposições sobre transparência 
no uso desse instrumento, enquanto em apenas dois casos foram identificados dispositi-
vos que possibilitam a exclusão de determinados parceiros quando do recurso a esse 
mecanismo: são os acordos de constituição e consolidação do MERCOSUL e o acordo 
de livre comércio MERCOSUL-Israel, discutidos em seção própria. 
 
 
 
19 
 
Salvaguardas preferenciais ou bilaterais 
A maioria dos acordos (20 de 23) aborda o tema de salvaguardas preferenciais, 
que corresponde ao instrumento mais frequente nos textos examinados. Embora não se-
jam reguladas pelos acordos multilaterais, tais disposições podem ser analisadas em ter-
mos de condições de aplicação, processo de investigação, aplicação e vigência e trans-
parência, oferecendo espaço para exame comparativo com as regras sobre salvaguardas 
globais – sempre que oportuno. 
Condições para aplicação 
De modo geral, salvaguardas preferenciais podem ser aplicadas quando, após a 
conclusão de uma investigação, forem verificadas situações em que aumentos nas im-
portações de produtos com preferência tarifária, em termos absolutos ou relativos à pro-
dução nacional, causem ou ameacem causar dano ou prejuízo grave à produção nacional 
de produtos similares ou diretamente concorrentes (a terminologia relativa a dano ou a 
prejuízo pode variar em função do acordo). 
Na análise dos acordos, observaram-se poucas inovações com relação a essas 
condições. Dos 20 acordos que possuem dispositivos sobre salvaguardas preferenciais, 
apenas seis não mencionam restrições temporais ao uso do mecanismo – todos negoci-
ados com países da América Latina. Essas restrições são sempre indicadas com relação 
aos cronogramas de liberalização, seja (i) proibindo o recurso às salvaguardas no pri-
meiro ano de vigência das preferências, (ii) permitindo o seu uso apenas até a conclusão 
das desgravações acordadas ou (iii) permitindo a sua adoção até determinado período 
após tal conclusão36. O texto preliminar do acordo MERCOSUL-UE, cujas negociações 
foram recentemente finalizadas, permite o uso do mecanismo, a depender do bem, em 
até 18 anos a partir da entrada em vigor do acordo. 
Processo de investigação 
No que diz respeito ao procedimento de investigação que pode ensejar a aplicação 
de salvaguardas preferenciais, apenas uma parcela dos acordos mapeados não possui 
indicações acerca de quem estaria autorizado a solicitar a abertura desse tipo de pro-
cesso (8 de 20)37. Nos textos em que há essa indicação, a indústria doméstica produtora 
 
 
 
20 
 
de bens similares ou de bens que concorram diretamente com os importados é conside-
rada como ente com direito de peticionar a instauração desse tipo de investigação. 
Nesse sentido, cumpre destacar que, apenas nos acordos com o México (no âm-
bito do ACE-54) e com a UE, há menção expressa de que as empresas ou entidades 
representativas deverão responder por pelo menos 50% da produção doméstica do bem 
em questão, enquanto os demais textos indicam que as petições serão aceitas quando 
apresentadas pela totalidade/conjunto de produtores do bem similar ou diretamente con-
corrente, ou por aqueles que representem parcela “importante” da produção no território 
da parte importadora. 
Adicionalmente, em seis textos, foi estabelecida a possibilidade de peticionamento 
de uma salvaguarda preferencial pelo governo (de ofício), em caráter excepcional. A 
única hipótese mencionada como justificável para a apresentação espontânea de uma 
petição por autoridades públicas, prevista em três dos seis textos, diz respeito à existên-
cia de indústrias com elevado número de produtores (fragmentada). Os prazos máximos 
acordados para a conclusão de investigações, por sua vez, variaram entre oito meses 
(MERCOSUL-Egito) e 18 meses (MERCOSUL-UE). Os prazos de um ano e de 15 meses 
são os mais frequentes, aparecendo em seis44 e quatro45 textos, respectivamente. 
Aplicação e vigência 
As duas principais formas de aplicação de salvaguardas preferenciais incluídas 
nos acordos consistem na (i) suspensão de reduções futuras da tarifa de importação e/ou 
no (ii) aumento efetivo da tarifa aplicada – ambas em caráter temporário. Tais tipos de 
previsão estão presentes em 18 textos. O ACE-14 e o ACE-18 não indicam as formas de 
aplicação. A indicação expressa da forma de aplicação da salvaguarda preferencial 
(como o aumento da tarifa aplicada e/ou a suspensão de incrementos futuros da prefe-
rência negociada) garante menos liberdade às partes em comparação com as disposi-
ções previstas pelo Acordo de Salvaguardas da OMC. 
Segundo as regras multilaterais, em se tratando de salvaguardas globais, não ha-
veria limitação na forma de adoção de restrições para remediar o prejuízo grave (ou ame-
 
 
 
21 
 
aça de prejuízo grave) causado por surtos de importações – apesar de os Estados ado-
tarem, usualmente, medidas de salvaguarda globais sob a forma de sobretaxas e restri-
ções quantitativas. 
Na hipótese de diminuição da margem de preferênciavigente (e consequente au-
mento da tarifa aplicada), todos os acordos determinam a criação de cotas em relação 
às quais seria preservada a incidência da tarifa preferencial – com exceção do acordo 
MERCOSUL-UE. De modo geral, essa cota deverá basear-se na média de importações 
dos três anos imediatamente anteriores à aplicação da medida de salvaguarda preferen-
cial. Com exceção do acordo entre Brasil e Uruguai (ACE-2), todos os demais 19 acordos 
indicam um período de referência para duração de salvaguardas preferenciais definitivas, 
com possibilidade ou não de prorrogação. Esse período pode variar entre um e quatro 
anos (considerando-se a aplicação original e a extensão), embora a duração de dois anos 
seja a previsão mais frequente (sete acordos). 
Os únicos dois acordos que preveem vigência de um ano foram celebrados no 
âmbito da ALADI e não indicam restrição a prorrogações, desde que estas sejam nego-
ciadas entre as partes. Ademais, os acordos MERCOSUL-Israel e MERCOSUL-Palestina 
possuem disposição específica para bens perecíveis (duração de quatro anos no total, 
enquanto que, para os demais bens, a previsão é de dois anos). Assim, a duração má-
xima prevista nos acordos analisados é menor do que aquela negociada para salvaguar-
das globais no âmbito da OMC (até dez anos). 
A maioria dos acordos (13 de 20) ainda menciona a possibilidade de aplicação de 
salvaguardas provisórias após determinações preliminares positivas de prejuízo grave à 
indústria doméstica como resultado de aumentos nas importações preferenciais. Desta 
relação, cinco acordos (todos extrarregionais) preveem um prazo máximo de vigência de 
200 dias para as salvaguardas provisórias, em consonância com o mecanismo previsto 
no Acordo sobre Salvaguardas da OMC. Os oito acordos restantes, celebrados no âmbito 
da ALADI, determinam o limite máximo de 180 dias de duração da salvaguarda provisó-
ria. 
 
 
 
22 
 
Ademais, mais da metade dos acordos (11 de 20) dispõe sobre a reaplicação de 
salvaguardas preferenciais a produtos que já foram submetidos a esse instrumento, es-
tabelecendo, no entanto, um conjunto de condições para que a medida seja novamente 
imposta. Com relação aos demais acordos, o ACE-14 e o ACE-18, bem como os acordos 
MERCOSUL-Israel e MERCOSUL-Palestina, limitam a reaplicação de medidas para pro-
dutos que já foram objeto de salvaguardas (a uma vez, no caso dos ACE-14 e ACE-18, 
e a duas vezes, no caso dos acordos com Israel e Palestina), enquanto os cinco acordos 
restantes não fazem menção à possibilidade ou não de reaplicação. 
O tratamento das operações de importação em andamento, cujos bens sejam ob-
jeto de aplicação posterior de medidas de salvaguardas, é endereçado nas disposições 
sobre mercadorias embarcadas – tema não abordado pelas regras nacionais ou multila-
terais sobre o instrumento. A esse respeito, o único padrão observado relaciona-se à 
presença desse tipo de disposição em acordos celebrados no âmbito da ALADI. 
Nesse sentido, em nove acordos há previsão expressa de que essas mercadorias 
sejam isentas da salvaguarda se embarcadas até a data de adoção da medida. Destes 
nove, em quatro acordos mais recentes essa disposição é mais prescritiva: a isenção se 
aplica às mercadorias embarcadas ou que se encontrem em zona aduaneira primária até 
a data de adoção da medida, desde que despachadas para consumo em até 20 dias 
contados da aplicação da salvaguarda. Finalmente, a previsão de retomada expressa do 
programa de liberalização após a extinção da medida de salvaguarda também está pre-
sente em mais da metade dos acordos (12 dos 2061). Nesses casos, uma vez encerrada 
a vigência da medida, as margens de preferência deverão ser tais como se a aplicação 
da salvaguarda não tivesse ocorrido. 
Transparência 
No que diz respeito à transparência, em todos os acordos analisados com dispo-
sições de salvaguardas preferenciais, foram identificados mecanismos como o de notifi-
cação e o de consultas entre as partes. As notificações usualmente ocorrem ao menos 
em dois momentos: (i) quando da abertura da investigação; e (ii) na aplicação de medi-
 
 
 
23 
 
das. Por sua vez, as consultas podem ter por objetivo a promoção da troca de informa-
ções, a eliminação da prática que cause o prejuízo grave ou, ainda, a negociação do nível 
de concessões mútuas entre as partes. 
A linguagem dessas disposições é variada: acordos mais antigos previam consul-
tas posteriores à aplicação da salvaguarda, enquanto mais recentemente tem prevalecido 
a redação de disposições que encorajam a realização de diálogos – seja estabelecendo 
que a parte importadora oferecerá oportunidades para que as consultas ocorram (cinco 
casos), seja determinando que as consultas ocorrerão quando a parte exportadora requi-
sitá-las após o recebimento de notificação sobre a decisão de aplicação da salvaguarda 
definitiva pela parte importadora (seis casos). Por fim, as compensações são entendidas 
como mecanismos orientados à manutenção do equilíbrio no nível de concessões entre 
as partes (seja de forma negociada ou unilateral) nos casos em que a negociação não 
surtir efeito. Conforme o mapeamento realizado, apenas cinco acordos fazem menção a 
esse tipo de instrumento. 
Outras medidas emergenciais 
Durante a análise dos acordos mapeados, foram identificadas outras disposições 
relacionadas à aplicação de medidas que, assim como os instrumentos convencionais de 
defesa comercial, têm como objetivo amparar a indústria doméstica contra surtos repen-
tinos e/ou temporários de importação, ou mesmo lidar com distorções temporárias no 
mercado internacional. 
O dispositivo mais frequente nos acordos (presente em nove dos 23 textos anali-
sados) diz respeito à possibilidade de impor medidas para salvaguardar o balanço de 
pagamentos e as finanças externas contra dificuldades (ou a ameaça destas). Em cinco 
casos, são previstos mecanismos tarifários para remediar tais situações, como a institui-
ção de sobretaxas e a imposição de restrições quantitativas. Os quatro demais textos não 
mencionam tarifas, prevendo somente “medidas restritivas temporárias” para lidar com 
as dificuldades mencionadas. 
Tais ações podem envolver, por exemplo, a adoção de medida monetária ou cam-
bial (ACE-2) ou ainda restrições a pagamentos e transferências para transações de conta 
 
 
 
24 
 
corrente ou relativas a movimentos de capital (ACE-58). Em comum, apesar de consta-
rem nos acordos preferenciais, as disposições sobre medidas para lidar com dificuldades 
no balanço de pagamentos e nas finanças externas aplicam-se tanto às origens prefe-
renciais quanto aos países não contemplados pelo acordo – dispondo de caráter não 
discriminatório na eventualidade de sua aplicação. 
A expressão “medidas especiais”, por sua vez, corresponde à nomenclatura ado-
tada nos acordos com alguns países-membros e ex-membros da Comunidade Andina 
(CAN) para tratar de mecanismo semelhante ao de salvaguardas preferenciais. Contudo, 
tais medidas especiais guardam diferenças em relação a condições e procedimentos 
usuais de uma salvaguarda preferencial, não podendo ser aplicadas simultaneamente a 
esta. Em primeiro lugar, as linhas tarifárias cujas importações podem ser objeto das me-
didas especiais não representam todo o conjunto de itens negociados e contemplam, 
especificamente, produtos agropecuários. O gatilho para a aplicação das medidas segue 
sendo a ocorrência de importações preferenciais de produtos que causem ou ameacem 
causar prejuízo à indústria doméstica da parte importadora, o que pode ensejar a sus-
pensão de incrementos futuros da preferência negociada ou mesmo a redução temporá-
ria da desgravação tarifária. 
Entretanto, ainda no que diz respeito a essas medidas especiais, a comprovação 
quanto ao aumento das importações em condições preferenciais e quanto à subsequente 
existência de dano segue regras e ritos processuais diversosdaqueles aplicáveis às sal-
vaguardas preferenciais. 
O crescimento de pelo menos 20% no volume das importações nos últimos 12 
meses, com relação aos três anos antecedentes, ou a redução no preço médio das im-
portações em pelo menos 15% no último mês, tomando-se como referência o “preço de 
ativação” estimado anualmente, pode autorizar a aplicação da medida de restrição. A 
parte signatária demandante da medida disporá, nesse caso, de 90 dias para comprovar 
a existência do prejuízo ou ameaça de prejuízo à indústria doméstica ou, caso contrário, 
deverá reembolsar os valores recolhidos a título da “medida especial”. Outro instrumento 
identificado é o mecanismo de estabilização de preços, desenvolvido no âmbito da CAN 
e incorporado ao acordo do bloco com o MERCOSUL. 
 
 
 
25 
 
O intitulado Sistema Andino de Franjas de Precios Agropecuarios permite que os 
países da CAN alterem as alíquotas do imposto de importação incidentes sobre produtos 
cujos preços sejam marcados por volatilidades no mercado internacional. Preveem-se, 
assim, sobretaxas às importações que estejam sendo praticadas abaixo de níveis de 
preço estipulados ou, de maneira alternativa, a redução tarifária quando o preço do item 
importado superar o nível de preço estipulado para um determinado produto. 
No âmbito do MERCOSUL, foram identificados três mecanismos de emergência 
para lidar com situações em que importações preferenciais possam causar ou ameaçar 
causar prejuízo à produção doméstica do país importador. Nas discussões sobre a con-
solidação do bloco, ao Paraguai foi concedido um tratamento diferenciado no que diz 
respeito aos produtos incluídos em sua lista de exceções à Tarifa Externa Comum (TEC), 
que gozaram de um prazo maior para enquadramento no âmbito do Regime de Origem 
do MERCOSUL. 
No entanto, a disposição foi acompanhada pela possibilidade de adoção de salva-
guardas, até 1º de janeiro de 2001, pelos outros sócios do bloco afetados por surtos de 
importações (desses produtos) que implicassem dano ou ameaça de dano grave. Os pa-
íses-membros também foram autorizados a aplicar salvaguardas contra exportações in-
trazona originárias de zonas francas e zonas de processamento de exportações. 
O regime de referência para utilização do mecanismo é o do GATT e tem como 
condição a ocorrência de aumentos imprevistos nas importações que causem ou amea-
cem causar dano ao país importador. Já nas relações entre Brasil e Argentina, destaca-
se a criação do Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC), vinculado ao ACE-14. O 
instrumento autoriza a aplicação de “medidas que contribuam para a adaptação compe-
titiva, a integração produtiva e a expansão equilibrada e dinâmica do comércio” quando 
se verificar que aumentos substanciais nas importações de produtos originárias do par-
ceiro, durante um período relevante, causaram dano ou ameaça de dano à indústria do-
méstica do produto similar ou concorrente no país importador. 
Entre os principais aspectos e características relacionados ao MAC, destacam-se: 
o papel de protagonismo outorgado ao setor privado na resolução das situações que 
ensejem o recurso ao mecanismo; e a possibilidade de estabelecimento de cotas, com 
 
 
 
26 
 
preferência tarifária integral (100%), prevendo-se, ainda, a autorização para que a parte 
importadora aplique a tarifa regular da TEC com preferência de 10% para as importações 
extraquota. 
Por fim, merece menção a única disposição identificada que trata de medidas para 
o desenvolvimento de indústrias nascentes, presente no acordo entre o MERCOSUL e a 
União Aduaneira da África Austral (SACU, na sigla em inglês). Tal dispositivo, que reflete 
aspectos normativos previstos no âmbito do arcabouço normativo da própria SACU, au-
toriza Botsuana, Lesoto, Namíbia e Essuatíni a aplicarem direitos adicionais na importa-
ção de bens similares para aumentar a competitividade de suas indústrias nascentes 
(com menos de oito anos). 
Essas sobretaxas não são consideradas direitos alfandegários no acordo entre 
MERCOSUL e SACU, de modo que as preferências negociadas não deverão afetar o 
eventual recolhimento dessas tarifas adicionais. No entanto, é prevista a realização de 
notificações sobre a intenção de recurso ao instrumento, sendo possível, ainda, nos ca-
sos em que tais direitos adicionais impactarem as exportações de Paraguai e Uruguai, 
serem promovidas consultas visando-se alcançar soluções satisfatórias. 
O “DUMPING” E A DEFESA COMERCIAL NO BRASIL 
No final da década de 80 verificou-se no Brasil o fim da política protecionista diri-
gida às importações que por longo tempo caracterizou as relações comerciais internaci-
onais e foi objeto de constantes críticas dos principais parceiros comerciais brasileiros. 
Intensificada em 1994 mediante a redução tarifária e a desregulamentação das opera-
ções de comércio exterior, a abertura econômica contribuiu para inserir o país no cenário 
do comércio internacional de forma definitiva, submetendo-o aos efeitos da concorrência 
internacional e proporcionando uma verdadeira revolução produtiva na economia brasi-
leira. 
A exposição à concorrência externa tem obrigado as empresas nacionais a reduzir 
custos, investir no processo de inovação e realizar alianças estratégicas. Essa busca de 
adequação aos padrões internacionais contribuiu para gerar ganhos de qualidade e de 
produtividade com reflexos na queda do nível geral de preços dos produtos. A concor-
rência internacional incentivou o desenvolvimento das empresas, proporcionando nova 
 
 
 
27 
 
dinamicidade às relações empresariais. Os resultados alcançados são evidenciados pela 
patente melhoria da qualidade dos produtos nacionais e diante da sensível redução dos 
preços, constatados nos vários setores do mercado brasileiro, demonstrando as vanta-
gens apresentadas pelo processo de abertura econômica. 
No atual processo de integração econômica, as empresas que não se propõem a 
desenvolver seus produtos conforme os padrões mundiais deixam de ser competitivas e 
têm a existência ameaçada. As restrições impostas aos produtos importados na fase pro-
tecionista retardaram o desenvolvimento empresarial no país. Os empresários encontra-
vam-se desestimulados em aplicar grandes investimentos no desenvolvimento da quali-
dade dos produtos em decorrência da ausência de grandes competidores. Na fase pro-
tecionista, muitos dos produtos vendidos aos consumidores caracterizavam-se pelo alto 
preço e pela qualidade inferior em relação aos similares importados. 
Essa fase de reestruturação das empresas e consolidação dos benefícios resul-
tantes da concorrência internacional exige do governo atenção constante quanto às con-
dições em que os produtos estrangeiros ingressam no país, pois eventuais práticas des-
leais de comércio podem causar efeitos danosos a uma indústria que precisa ajustar-se 
rapidamente a um novo paradigma tecnológico e cuja proteção repousa praticamente na 
tarifa aduaneira. A atuação da defesa comercial mostra-se fundamental para assegurar 
a sobrevivência das empresas nacionais, principalmente em decorrência do importante 
papel econômico, político e social que desempenham. Nesse contexto, a defesa comer-
cial tem por finalidade acompanhar e interferir nas importações, restringindo apenas 
aquelas que se destinam a prejudicar o desenvolvimento normal do comércio por meio 
de práticas desleais. 
Entre as práticas desleais existentes no comércio internacional, destaca-se aquela 
que se caracteriza pela introdução de um bem no mercado internacional com preço de 
exportação inferior ao valor normal praticado no mercado interno do país exportador (CA-
SELLA, 1998, p.299). Geralmente, essa prática desleal conhecida por dumping causa 
prejuízo material a uma indústria estabelecida no território do país importador, podendo 
também retardar o estabelecimento de uma indústria nacional, prejudicando a livre con-
corrência.28 
 
O dumping existe desde o início do século e sempre representou uma prática des-
leal prejudicial ao livre desenvolvimento do comércio, motivando a reação dos países, 
que passaram a elaborar leis para coibi-lo. A primeira lei antidumping foi adotada pelo 
Canadá em 1904, seguindo-se a lei da Nova Zelândia em 1905 e a lei da Austrália em 
1906. Os Estados Unidos e o Reino Unido criaram suas leis antidumping antes da Pri-
meira Guerra Mundial, enquanto que as primeiras regulamentações européias de prote-
ção às indústrias locais surgiram após a Primeira Guerra Mundial, iniciando-se na Ale-
manha (JOHANNPETER, 1996, p.62). 
Além das legislações internas dos países, o dumping ganhou tratamento especial 
no âmbito do General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) 1947 e nas Rodadas Ken-
nedy (1967), Tóquio (1979) e Uruguai (1994). A Rodada Uruguai destaca-se pela criação 
da Organização Mundial do Comércio (OMC) e pela sensível evolução que proporcionou 
à legislação antidumping, adaptando-a às atuais exigências do comércio internacional 
(COSTA, 1996, p.3). 
O atual Código Antidumping, aprovado em 1994 na Rodada Uruguai, regula a ma-
téria no âmbito mundial e os países membros da OMC devem adequar suas legislações 
internas aos princípios vigentes nas normas da Organização. O Brasil incorporou os no-
vos conceitos relativos ao Código Antidumping da OMC por meio do Decreto nº 1.355, 
de 30 de dezembro de 1994, que juntamente com a Lei nº 9.019, de 30 de março de 1995 
e o Decreto nº 1.602, de 23 de agosto de 1995 (JURIS SÍNTESE, 1999, n.19), constituem 
a legislação brasileira vigente sobre dumping. 
De acordo com a OMC, a mera exportação de produtos a preços mais baixos que 
aqueles praticados no mercado interno do país exportador não justifica a aplicação de 
direitos antidumping. É imprescindível a prova do prejuízo ou de uma ameaça de prejuízo 
para autorizar a aplicação desses direitos, além da comprovação do nexo causal entre 
o alegado dumping e o prejuízo (THORSTENSEN, 1999, p.108). Essa relação existente 
entre as importações a preços de dumping e o dano causado à indústria nacional é de 
extrema importância, pois a constatação do dano determina todo o processo que decidirá 
sobre a aplicação ou não de um direito antidumping. 
 
 
 
29 
 
Assim, pode-se dizer que a simples prática de dumping não configura necessaria-
mente uma prática desleal. É preciso que ele seja condenável, quer seja no plano inter-
nacional ou no âmbito doméstico. Nesse sentido, mostra-se de extrema relevância a re-
lação causal entre preço do produto e dano à indústria nacional do país importador, visto 
que a importação de pequena quantidade de mercadoria, pelo seu inexpressivo valor e 
quantidade, não chega a causar dano à indústria instalada ou em vias de instalação, 
razão que afasta a aplicação de medidas antidumping. 
Uma das razões de caráter intrínseco da prática de dumping é a eliminação da 
concorrência do fabricante de produto similar. O princípio é o mesmo da competição pre-
dadora no âmbito do mercado doméstico. Uma empresa com práticas comerciais agres-
sivas, visando a conquistar aquele segmento de mercado, vende seus produtos por pre-
ços extremamente baixos, pretendendo, em curto espaço de tempo, aniquilar os concor-
rentes, ficando, em última instância, sozinha no mercado para, posteriormente, gozando 
de situação privilegiada, aumentar os preços e atingir lucros decorrentes de uma ativi-
dade sem concorrentes. 
Ressalta-se que a doutrina dominante entende que a ocorrência de dumping so-
mente é possível no mercado internacional. A introdução de produto no mercado interno 
do produtor com preço inferior àquele normalmente praticado em circunstâncias normais 
de competição, ou seja, a venda injustificada de mercadoria abaixo do preço de custo, 
não corresponde a prática de dumping. Equivale, isto sim, à conduta caracterizadora de 
infração contra a ordem econômica prevista no Brasil pelo art. 21, XVIII, da Lei nº 
8.884/94, Lei Antitruste Brasileira (JURIS SÍNTESE, 1999, n.19), conhecida como preço 
predatório ou underselling, destinada a tentativa de domínio de mercado. 
No Brasil, o procedimento administrativo relativo à aplicação de medidas antidum-
ping é disciplinado pelo Decreto nº 1.602/95 (JURIS SÍNTESE, 1999, n.19), estando, de 
forma genérica, em consonância com as normas da OMC. Os órgãos diretamente envol-
vidos nas investigações antidumping são a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), o 
Departamento de Defesa Comercial (DECOM) e o Comitê Consultivo de Defesa Comer-
cial (CCDC), integrantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exte-
rior. Além desses órgãos, atuam na aplicação de medidas antidumping a Secretaria da 
 
 
 
30 
 
Receita Federal do Ministério da Fazenda e os Ministros de Estado do Desenvolvimento, 
Indústria e Comércio Exterior e da Fazenda. 
Em termos genéricos, o procedimento antidumping abrange um processo de in-
vestigação para a determinação da existência, do grau e do efeito da prática de dumping, 
tendo início por meio de petição encaminhada pela indústria doméstica à SECEX ou, 
ainda, em casos excepcionais, de ofício pelas autoridades encarregadas da defesa co-
mercial no país importador. Se a SECEX chegar a uma determinação final da existência 
de dumping, de dano e de nexo causal entre eles, a investigação poderá ser encerrada 
com aplicação de direitos antidumping, conforme a decisão dos Ministros de Estado do 
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Fazenda. 
O direito antidumping significa um montante em dinheiro igual ou inferior à margem 
de dumping apurada e tem por finalidade exclusiva neutralizar os efeitos danosos das 
importações caracterizadoras da prática desleal, restabelecendo o equilíbrio de competi-
tividade rompido no mercado interno. O direito antidumping é aplicado às importações, 
sendo adicionado ao Imposto de Importação já existente, resultando em um preço mais 
elevado de aquisição da mercadoria estrangeira pelo importador. Ressalta-se que o di-
reito antidumping não apresenta natureza tributária, constituindo conteúdo de norma de 
direito internacional que impõe ao produto importado condições de acesso ao mercado 
do país importador, objetivando a comercialização condizente com o interesse global da 
economia (FERRAZ JÚNIOR, 1994, p.96). 
Os mecanismos utilizados para combater os efeitos do dumping no mercado in-
terno do país importador, além da aplicação de direitos antidumping, abrangem também 
medidas antidumping provisórias e compromissos de preços, encontrando-se submeti-
dos a uma série de requisitos disciplinados no Decreto nº 1.602/95. Medidas antidum-
ping provisórias têm por finalidade antecipar a correção de uma situação irregular, cor-
respondendo a uma proteção temporária e cautelar, diante do longo tempo demandado 
no julgamento em decorrência da complexidade do procedimento, que pode prejudicar 
definitivamente as empresas vítimas dos danos. Os compromissos de preços são firma-
dos pelas partes interessadas nas investigações antidumping, podendo suspender o 
prosseguimento da investigação sem a aplicação de medidas se o exportador assumir 
 
 
 
31 
 
voluntariamente compromissos satisfatórios de revisão dos preços ou de cessação das 
exportações a preços de dumping. 
 A primeira aplicação de medidas antidumping no Brasil ocorreu em 1988 e, desde 
1991, o país vem ampliando a utilização desses instrumentos (MEZIAT, 1999, p.55). Atu-
almente, de acordo com as informações divulgadas pela SECEX em 30 de abril de 2000 
(http://www.mdic.gov.br/publica/secex, obtido na internet em 20/06/2000), existem no 
Brasil vinte e seis medidas de proteção comercial em vigor, das quais vinte e três corres-
pondem a medidas antidumping. Duas referem-se a direitos compensatórios e uma cor-
responde a aplicação de salvaguarda. No tocante às investigações antidumping realiza-
das pelo Brasil,existem sete em curso. A cobertura das ações antidumping iniciadas no 
país é variada, já envolveram mais de quarenta países, entre os quais destacam-se a 
China, Estados Unidos, Rússia, Argentina, Romênia, Taiwan, Tailândia, Chile, México, 
entre outros (NAIDIN, 1999, p.57). 
O Brasil também é vítima de ações antidumping iniciadas contra suas exporta-
ções. Na Argentina, entre 1992 e 1996, o Brasil foi o país mais afetado pelas ações anti-
dumping (ARAÚJO JÚNIOR, 1997, p.248). Recentemente, o Canadá iniciou pro-
cesso antidumping contra as exportações de chapas grossas de aço provenientes no 
Brasil. Em 1999, o aço carbono laminado a frio brasileiro sofreu sérias restrições nos 
Estados Unidos. As empresas norte-americanas alegavam que as siderúrgicas brasilei-
ras praticavam no mercado norte-americano preços inferiores aos praticados no Brasil e 
que ainda se beneficiavam dos subsídios recebidos na época em que eram estatais. No 
entanto, em março de 2000, a International Trade Comission, órgão do governo dos Es-
tados Unidos, decidiu pela inexistência de dano à indústria norte-americana causado pe-
las importações do aço brasileiro, permitindo que o produto encontre novamente condi-
ções de venda no mercado norte-americano, já que as exportações desse tipo de aço 
estão livres das taxas antidumping aplicadas pelos Estados Unidos, que variavam de 
46,6% a 63,2% (Gazeta Mercantil Latino Americana, 18/10/1999). 
Considerando a evolução da legislação antidumping no âmbito mundial e o trata-
mento à referida legislação no Brasil, conclui-se que o país vem cumprindo seu papel no 
desenvolvimento de mecanismos de defesa comercial capazes de assegurar a proteção 
 
 
 
32 
 
das empresas contra a concorrência externa predatória. Os efeitos da globalização eco-
nômica impedem que um país apresente desenvolvimento paralelo e indiferente aos efei-
tos resultantes da economia mundial, não se podendo negar ou mesmo ignorar essa 
realidade. O país que pretende alcançar repercussão no comércio internacional, além de 
aplicar os mecanismos internos de defesa comercial existentes contra as práticas desle-
ais, deve desenvolver eficiente estrutura que possibilite aos seus representantes defen-
der seus interesses no âmbito da Organização Mundial do Comércio, a quem compete a 
supervisão da aplicação de medidas de defesa comercial pelos países membros e a so-
lução de controvérsias resultantes da aplicação inadequada dessas medidas, objetivando 
assegurar o recíproco respeito e atendimento às normas que regem o comércio interna-
cional. 
Por fim, cumpre ressaltar o aspecto social relacionado às leis de defesa comercial. 
Objetivando a proteção das empresas em atividade no país, referidas leis têm por finali-
dade impedir que práticas empresariais condenáveis decorrentes da concorrência inter-
nacional produzam seus efeitos, prejudicando os interesses existentes em torno da em-
presa, como são os dos sócios, empregados, consumidores e de toda a comunidade cuja 
atividade encontra-se vinculada à vida das empresas. A preservação e manutenção das 
empresas existentes constitui preocupação constante dos dirigentes estatais dos países 
industrializados e em fase de industrialização diante de sua importância econômica, tec-
nológica e social. 
As leis de defesa comercial são aplicadas com a finalidade precípua de defender 
a atividade empresarial desenvolvida no país, assegurando, em consequência, os inte-
resses sociais relacionados à existência das empresas. Assim, pode-se dizer que a le-
gislação de defesa comercial, ao proteger a atividade empresarial, também se destaca 
como importante meio de garantir o nível de emprego no país e os interesses sociais 
diretamente envolvidos nas atividades desenvolvidas pelos empresários, o que evidencia 
a relevância dessas leis no quadro legislativo dos países participantes do comércio inter-
nacional. 
 
 
 
 
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