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Evolução histórica do Direito Comercial Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a evolução normativa do Direito Comercial brasileiro. Analisar a teoria da empresa como novo paradigma do Direito Comercial. Apresentar as fontes do Direito Empresarial. Introdução A troca de produtos entre os seres humanos ocorre desde os tempos mais remotos da nossa história. No entanto, a necessidade de constituir uma legislação que disciplinasse esse instituto tornou-se cada vez mais evidente ao longo dos anos. Inicialmente, o Código Comercial de 1850 foi estabelecido para disciplinar as relações mercantis entre os cidadãos. Mais tarde, já em 2002, o Código Civil apresentou um livro que disciplina os atos empresarial e empresário. Neste capítulo, estudaremos a evolução e as fases do Direito Comercial brasileiro, bem como o surgimento e as fontes da teoria da empresa. Evolução do Direito Comercial brasileiro O ato de trocar produtos e serviços sempre existiu entre os seres humanos, antes mesmo de ser denominado comércio. Ao longo da história da humanidade, inúmeros grupos cultivavam produtos e, caso a colheita fosse bem-sucedida e sufi ciente para prover o sustento de todos os seus integrantes, o restante era usado como moeda de troca para que obtivessem provisões, alimentos e ferramentas que facilitassem as tarefas diárias. Inicialmente, as trocas se estabeleceram em função da necessidade imediata de subsistência, mas, mais tarde, percebeu-se a vantagem de produzir uma quantidade excedente que servisse como futuro escambo. Nesse primeiro período, caracterizado pela permuta de mercadorias e pela inexistência de uma moeda semelhante às que conhecemos hoje, sucedeu o que identificamos como troca direta (PORTO, 2014). Nessa fase, não havia a real presença do comércio categoricamente estabelecido, pois os produtos se reservavam apenas para o sustento, de modo que os contingentes ainda não cultivavam com vistas a trocas remanescentes, como sucederia com o transcorrer do tempo. Conforme leciona Martins (2000, p. 1): No início da civilização, os grupos sociais procuravam bastar-se a si mesmos, produzindo material de que tinham necessidade ou se utilizando daquilo do que poderiam obter facilmente da natureza para a sua sobrevivência alimentos, armas rudimentares, utensílios. O natural crescimento das populações, com o passar dos tempos, logo mostrou a impossibilidade desse sistema, viável apenas nos pequenos aglomerados humanos. Passou-se, então, à troca dos bens desnecessários, excedentes ou supérfluos para certos grupos, mas necessários a outros [...]. Inegavelmente, a troca melhorou bastante a situação de vida de vários agrupamentos humanos. Nos tempos primitivos, os seres humanos viviam em grupos, sendo a maioria nômade e pertencente à mesma família. Eles viviam afastados uns dos outros, fator que exigia a autossuficiência do grupo. Todavia, com o decurso do avizinhamento, iniciou-se a primeira forma de comércio propriamente dita: a troca, que ocasionou melhor aproveitamento das riquezas e maior dedicação do homem ao desenvolvimento das culturas, como cereais, gado, ferramentas, etc. O Direito Comercial se divide em quatro períodos. O primeiro se situa entre meados do século XII e fins do XVI, momento em que o Direito era aplicado somente a integrantes da corporação dos comerciantes, seguindo, portanto, um critério subjetivo para a sua aplicação (TRABALLI, 2016). Nesse período, cada país adotava um modo particular de desenvolver o comércio. A Grécia se baseava nos costumes e foi responsável pelos primeiros contratos relativos à comercialização marítima, assim como pela lei escrita. Já em Roma, o comércio se fundamentava no jus gentium (do latim “direito das gentes” ou “direito do povo”) e compunha-se de normas que eram aplicáveis aos estrangeiros, visto que a prática do comércio não era bem aceita pela aristocracia, pois era apontado como degradante (MEDEIROS, 2011). Evolução histórica do Direito Comercial2 Etimologicamente, o vocábulo comércio advém do latim commercium, que podemos traduzir como “tráfico de mercadorias”. Na acepção do termo, indica o câmbio espon- tâneo de mercadorias ou serviços por produtos diversos ou valores (MEDEIROS, 2011). No segundo período, entre os séculos XVI e XVIII, destacou-se o aperfei- çoamento do critério subjetivo, uma vez que surgiu o instituto da sociedade anônima, adequado aos empreendimentos da expansão colonial que ocorriam no momento. Já no terceiro período, entre o século XIX e a primeira metade do XX, fixou-se o critério objetivo sob a influência dos ideais iluministas da Revolução Francesa, quando enfim o Direito dos comerciantes se tornou o Direito dos atos do comércio, adotando o sistema francês. Em meados do século XX, aconteceu a unificação das normas do Direito Privado, de forma que o Direito Comercial deixava de indicar “atos de comércio” e passava a referir “empresa”, adotando o sistema italiano (TRABALLI, 2016). No que tange ao Brasil, ainda que o comércio desenvolvido no período colonial fosse intenso, o País submetia-se às regras da Coroa Portuguesa, sob regência do Rei Felipe II. Em 1603, ele editou as Ordenações Filipinas, em alusão ao seu nome, o que vigorou até determinado momento após a chegada de Dom João VI ao Brasil, em 1808. Pressionada por Napoleão, que ameaçou invadir Portugal, a Corte Lusitana refugiou-se no Brasil, então sob a condição de sede provisória da Coroa, e produziu profundas mudanças de caráter eco- nômico para a colônia, medidas que incontestavelmente contribuíram para o desenvolvimento da atividade mercantil (MORAES, 2011). A respeito desse momento histórico, é importante destacarmos o Decreto da Abertura dos Portos às Nações Amigas, promulgado em Salvador em 1808. Esse decreto determinava a reinstituição do Tribunal da Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação no Rio de Janeiro, bem como a criação do Banco do Brasil, medidas que foram tomadas no mesmo ano da promulgação do docu- mento (MORAES, 2011). Em 1832, José Lino Coutinho, que ocupava o cargo de Ministro da Re- gência do Império, compôs uma comissão e nomeou José Antonio Lisboa, Inácio Ratton, Guilherme Midosi e Lourenço Westin, considerados os ne- gociadores, para, sob a presidência do magistrado Antonio Limpo Abreu, posteriormente substituído por José Clemente Pereira, apresentar um projeto 3Evolução histórica do Direito Comercial de código comercial. Tal projeto foi apresentado em 1834 e encaminhado à Câmara dos Deputados. Após os trâmites, o Código Comercial foi aprovado em 1845 e remetido ao Senado, de onde retornou com emendas. O texto final foi aprovado em 6 de março de 1850, sancionado em 25 de abril desse ano e promulgado pouco tempo depois, em 25 de junho, transformando-se na Lei Federal nº. 556, que formalmente instituía o Código Comercial do Império do Brasil (FRANÇA, 1977-1982). Na Figura 1, você pode conferir uma reprodução do Código Comercial de 1850. Figura 1. Reprodução da imagem original do Código Comercial do Império do Brasil, de 1850. Fonte: Ança (1977–1982). Regido por uma forte influência francesa, o Código Comercial brasileiro acolheu a teoria dos atos de comércio, que considerava como comerciante todo o indivíduo que realizasse compra e venda de mercadorias e de algumas classes Evolução histórica do Direito Comercial4 de serviços de forma profissional. Para que os comerciantes desfrutassem das benesses da legislação comercial, havia a obrigatoriedade disposta no art. 4°, que solicitava a inscrição nos tribunais do comércio, mais tarde denominados juntas comerciais (MORAES, 2011). Surpreendentemente, mesmo com todas as mudanças, não houve enume- ração dos chamados atos do comércio, diferentemente do que se encontrava no Código francês da época, que enumerava todos esses atos. Assim, somente após a edição do Regulamento nº. 737, em 25 de novembro de 1850,se tratando da sua capacidade, individual ou conjunta, o art. 977 do Código Civil possibilita aos cônjuges contratar sociedade entre si ou com terceiros se não tiverem casado sob o regime da comunhão universal de bens ou no de separação obrigatória. Logo, se forem casados em regime da comunhão parcial de bens, podem ser sócios entre si, com ou sem a presença de terceiros na sociedade, pois estão isentos de qualquer impedimento (BRASIL, 2002). Por fim, é lícito que exerçam a atividade de empresário os que estiverem em plena posse da sua faculdade mental e não forem legalmente impedidos. Por outro lado, a pessoa legalmente vedada de exercer atividade privativa de empresário que ainda assim a exerça responde pelos encargos contraídos, não havendo limitação para essa responsabilidade nem o benefício de ordem quanto a eventuais execuções dos bens da empresa, que podem, portanto, alcançar diretamente os bens pessoais. ALVES, I. M. S. A personalidade jurídica no direito civil. Revista Jus Navigandi, nov. 2017. Disponível em: . Acesso em: 16 ago. 2018. BORGES, J. E. Curso de Direito Comercial terrestre. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: . Acesso em: 16 ago. 2018. BRASIL. Decreto nº. 21.981, de 19 de outubro de 1932. Regula a profissão de Leiloeiro ao território da República. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 22 out. 1932. Disponível em: . Acesso em: 16 ago. 2018. BRASIL. Departamento Nacional de Registro de Comércio. 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Empresário18 C06_Empresario.indd 18 23/08/2018 10:16:37 http://www.cjf.jus.br/enunciados/enunciado/382 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LCP/Lcp35.htm http://www.planalto.gov.br/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6015original.htm http://planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8112cons.htm http://www.planalto.gov.br/cci- http://planalto.gov.br/cciviL_03/LEIS/L6880.htm http://www2.camara.leg.br/legin/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8625.htm http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/ BUZANELI, F. Entenda as diferenças: sociedade empresária, sociedade simples e em- presas individuais. Flávio Buzaneli serviços contábeis, Jundiaí, SP, 16 abr. 2017. Disponível em: . Acesso em: 16 ago. 2018. COELHO, F. U. Curso de Direito Civil: parte geral. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. v. 1. COELHO, F. U. Manual de Direito Comercial. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. COELHO, F. U. Manual de Direito Comercial. 17. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. COELHO, F. U. 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Introdução Quando uma pessoa pretende empreender, a escolha da formatação jurídica é de fundamental importância, pois isso pode definir as responsabilidades e os riscos inerentes à atividade empresarial. Nesse sentido, optar pela melhor forma de exercer a empresa é uma medida de prudência e profissionalismo do empreendedor. Neste capítulo, você vai ler sobre o conceito de empresário e como se dá a atividade empresarial, ou seja, quais os requisitos necessários para se constituir a empresa, visto que há elementos imprescindíveis, tanto para ser classificado como empresário quanto para o exercício da atividade econômica. Você também vai estudar as características dos empreendedores e dos empresários e entender como eles diferem entre si. Ainda, irá entender como ocorre o registro das empresas, quais órgãos são competentes, como obter a inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), a escolha do nome empresarial, entre outros elementos. Empresário e atividade empresarial A defi nição de empresário pode ser encontrada no Código Civil, art. 966, o qual dispõe que: “Art. 966 Considera-se empresário quem exerce profi ssionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (BRASIL, 2002, documento on-line). Assim, dessa conceituação, já se exprimem os requisitos básicos inerentes ao desenvolvimento da atividade empresarial. Para ser caracterizado como tal, o empresário deve ter profissionalismo, exercer uma atividade econômica organizada e que esta tenha o intuito de produzir ou fazer circular bens e/ou serviços. Assim, vamos entender cada um desses elementos. Profissionalismo O profi ssionalismo é um quesito composto por três ordens para o desempenho de uma atividade. Em primeiro lugar, a habitualidade. Alguém que exerce uma atividade de forma esporádica, mesmo que haja exploração comercial, não é considerado empresário. Logo, é necessário que seja de forma habitual. O segundo item trata da pessoalidade. Um empresário deve ter empregados. O empresário, sendo um profissional, exercerá a atividade empresarial pessoalmente, enquanto os empregados irão produzir e circular os bens e serviços em nome do empregador. Em terceiro lugar, e o mais importante, é o monopólio das informações. O empresário detém todas as informações sobre o produto ou serviço que é objeto de sua empresa. Ou seja, como leciona Coelho (2014), o empresário precisa conhecer bem os produtos e serviços que fornece, como as informações de uso, qualidade, insumos empregados, defeitos de fabricação que podem ocorrer, potenciais riscos à saúde, tanto dos funcionários quanto de seus compradores, entre outros. Atividade A empresa é uma atividade pela qual são produzidos e circulados os bens ou serviços. Destacamos que, muitas vezes, a palavra empresa é empregada erroneamente, inclusive no meio jurídico. Coelho (2014, p. 95) menciona algumas formas: “[...] a empresa faliu” e “[...] a empresa importou essas mercadorias”. Nesse sentido, a empresa não pode ser confundida com o sujeito de direito, que é o empresário, o qual fale ou seja responsável pela importação das mercadorias. A empresa deve ser entendida como um sinônimo de empreendimento. Ainda, as expressões como “[...] a empresa está pegando fogo” e “[...] a empresa foi reformada” também entram no rol de equívoco, uma vez que aqui Caracterização do empresário2 há relação entre empresa e local em que a atividade se desenvolve. O correto seria nominar como estabelecimento empresarial, visto que este pode pegar fogo, ser embelezado, mas não a atividade (COELHO, 2014, p. 96). Econômica A atividade é considerada econômica, uma vez que busca lucro para o empresário que a explora. O lucro é fundamental para manter o funcionamento da empresa, visto que, se as despesas superarem os rendimentos, fi ca insustentável. Assim, o lucro pode ser tanto o objetivo da produção ou circulação de bens ou serviços quanto pode servir de instrumento para alcançar outras fi nalidades. Organizada A empresa é considerada uma atividade organizada, uma vez que o empresário articula quatro fatores de produção: “[...] capital, tecnologia, insumos e mão de obra” (COELHO, 2014, p. 102). Para ser consideradoempresário, é necessário que explore esses fatores. Vejamos um exemplo: pense em um comerciante que vende perfumes. Se ele mesmo leva os produtos até os seus consumidores, ele realiza a circulação de bens, com o intuito de lucro e possui habitualidade. Ele será considerado empresário mesmo não possuindo empregado, pois o fato de não ter subordinados com vínculo empregatício é irrelevante para a caracterização de empresário No que tange à tecnologia, esta não precisa ser necessariamente de ponta, apenas precisa estar inserida no contexto da organização econômica. Produção de bens ou serviços A produção de bens ou serviços consiste na fabricação dos produtos ou das mercadorias. Como disciplina Coelho (2014), toda atividade industrial é uma atividade empresarial. Como exemplos, citamos: 3Caracterização do empresário montadoras de automóveis; fábricas de eletrodomésticos; confecções de roupas. A produção de serviços nada mais é do que a prestação de serviços. Nesse contexto, podemos listar como exemplos de produtores de serviços: bancos; hospitais; escolas; seguradoras; estacionamentos. Circulação de bens ou serviços A circulação de bens refere-se à forma originária do comércio, a qual consiste em buscar diretamente no produtor o bem e levá-lo até o consumidor. É a atividade de intermediar. Estão inseridos nesse contexto os supermercados, as lojas de roupas, as concessionárias de veículos, entre outros. Já a circulação de serviços diz respeito ao ato de intermediar, mas, nesse caso, também os serviços, como o trabalho realizado pelas agências de turismo ao montarem um pacote de viagem com passagem aérea, hospedagem, entre outros. Bens e serviços Até o fi m de 1990, sem a presença da internet, a distinção entre serviços e bens não gerava tanta difi culdade. Os bens eram considerados corpóreos, enquanto os serviços não possuíam materialidade. “A prestação de serviços consistia sempre numa obrigação de fazer” (COELHO, 2014, p. 107). Com a intensa utilização do ambiente virtual para a realização de negócios, restaram dúvidas sobre como defi nir. Os bens virtuais, como um jornal virtual ou os programas de computador, seriam incluídos em qual categoria? Bem ou serviço? No entanto, no que diz respeito à caracterização de empresário, o comércio eletrônico, mesmo com todas as suas variações, é considerado sim uma atividade empresarial (COELHO, 2014). Caracterização do empresário4 Segundo o art. 972 do Código Civil, “[...] podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos”. Para entendermos no que consiste a capacidade civil, é necessário analisar o art. 5º do Código Civil: “[...] a menoridade cessa aos 18 anos completos, quando a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil”. Logo, para exercer a atividade empresarial, a pessoa precisa ser maior de 18 anos ou ser emancipada, não importando se é homem ou mulher, natural ou estrangeiro (BRASIL, 2002, documento on-line). Empreendedor versus empresário Ao contrário do que muitos pensam, empreendedor e empresário estão longe de serem sinônimos. Ambos possuem papéis distintos e necessitam de competências diferentes. Assim, nem todo empresário é um empreendedor e nem todo empreendedor é um empresário. Tal confusão ocorre pelo desconhecimento das características que devem ser inerentes a cada um. Conforme Demetrio (2017), muitos empreendedores falham justamente pelo fato de não serem empresários. Os empreendedores normalmente possuem a ideia, chegam a abrir o negócio, mas, por não apresentarem as características necessárias para consolidar seu projeto, acabam frustrados. O empreendedor é aquele que consegue identificar as oportunidades e, a partir delas, gerar riqueza. É aquela pessoa que, com uma simples ideia, consegue vislumbrar um negócio e criar uma empresa. Já o empresário é o indivíduo que tem a capacidade e competência para fazer essa mesma empresa ou negócio se perpetuar no tempo. A partir do que foi concebido, ele faz crescer e prosperar (MOREIRA, 2014). Assim, entendemos que empresário é uma profissão. Como explica Marques (2017, documento on-line), o empresário nada mais é do que uma pessoa física ou jurídica que, por meio de capital e trabalho, “[...] produz e gerencia bens/ serviços ao mercado, fazendo com que a empresa cresça e tenha lucro”. No entanto, para colocar em prática esse papel, é necessário contar com mão de obra, dinheiro, equipe qualificada, materiais e equipamento. Há dois tipos de empresários (MARQUES, 2017): 5Caracterização do empresário individual, que é quando a pessoa física estrutura a empresa de maneira individual; coletivo, quando uma pessoa jurídica se une a pessoas com o mesmo objetivo para explorar uma atividade econômica. Para tanto, o empresário precisa apresentar algumas características, como: ter vontade de solucionar os problemas das outras pessoas; manter um controle financeiro e saber empregar os recursos; compreender as mudanças do mercado e adaptar-se a elas; ter conhecimento administrativo e de gestão de pessoal; possuir espírito de liderança para cooperar com o desenvolvimento do projeto e com os resultados. Os empresários podem ser tanto individuais quanto coletivos. Entre os individuais, temos: empresário individual, que exerce em nome próprio uma atividade empresarial (por exemplo, médicos); microempreendedor individual (MEI), que consiste no empresário individual com receita bruta anual de até R$ 81 mil; empresa individual de responsabilidade limitada (Eireli), que é a atuação individual, sem sócios. Já no molde coletivo, temos: sociedade empresarial limitada; anônima; em nome coletivo; em comandita simples e em comandita por ações. Já o empreendedor não está relacionado diretamente com o quesito profissão, mas sim com o comportamento. Os profissionais que possuem essa característica são mais valorizados pelas empresas, devido à alta concorrência existente no mercado. O empreendedor está mais ligado “[...] à identificação de oportunidades, proatividade, criatividade e vontade de agregar valor por meio da entrega de produtos/serviços inovadores” (MARQUES, 2017, documento on-line). Esse perfil empreendedor está atrelado à motivação. “Não basta ter uma ideia Caracterização do empresário6 excepcional, é necessário [...] assumir responsabilidades, trabalhar, estudar, assumir riscos, ter iniciativa e construir um networking para auxiliar o alcance do sucesso” (MARQUES, 2017, documento on-line). Para tanto, há três perfis de empreendedores: o individual — aquele que atua com uma empresa própria; o digital — a pessoa que se utiliza da internet para disponibilizar um produto/serviço, que seria o perfil do e-commerce; o social — aquele que se preocupa com os problemas da sociedade e trabalha em prol de soluções e mudanças; este perfil está mais associado a organizações não governamentais e instituições integrantes do terceiro setor. Assim, o empreendedor precisa contar com algumas características para ter destaque no mercado, quais sejam: ser organizado e possuir habilidade de planejamento; ter conhecimento e apreço pela área em que irá atuar; estar sempre em busca de novidades e soluções para o projeto que está desenvolvendo; ter facilidade de comunicação; ser um visionário. Registro do empresário Entre as obrigações do empresário para exercer uma atividade econômica organizada, com o intuito de produzir ou circular bens/serviços, o registro perante os órgãos competentes é fundamental para dar início ao seu negócio, pois, para uma empresa entrar em funcionamento, ela precisa estar legalmente registrada (COELHO, 2014): na prefeitura; na administração regional da cidade; no Estado; na Receita Federal; na Previdência Social. O objetivo do registro é “[...] tornar públicoos atos jurídicos, o estado e a capacidade das pessoas, estabelecendo a autenticidade, a segurança e a validade 7Caracterização do empresário das obrigações e de certas relações de direito passíveis de tutela legal e sujeita à transferência, modificação ou extinção” (SILVA, 2002, p. 1). No entanto, o registro não é essencial para se caracterizar um empresário, visto que tal caracterização ocorre por meio do exercício da atividade empresarial, independentemente de registro, como dispõe o art. 966 do Código Civil. Contudo, é necessário que haja inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis na cidade onde desenvolve a atividade, como preconiza o art. 967 do Código Civil (BRASIL, 2002). Órgãos de registro das empresas O Sistema Nacional de Registro de Empresas Mercantis (Sinrem) é formado por dois órgãos: o Departamento de Registro Empresarial e Integração (Drei); as Juntas Comerciais. O Drei, órgão federal, é o responsável por normatizar e fi scalizar os atos de registro. Entre suas funções, quatro merecem destaque (BRASIL, 1994, documento on-line): define com exclusividade as normas do registro; fiscaliza as Juntas Comerciais; soluciona as dúvidas sobre a interpretação das leis e normas administrativas no que se refere ao registro público; organiza o cadastro nacional das empresas mercantis, que funcionam no País, em conjunto com as Juntas Comerciais. Já as Juntas Comerciais são órgãos estaduais, que realizam o registro das empresas mercantis e as atividades afins. Como disciplina o art. 32, II, da Lei nº. 8.934, de 18 de novembro de 1994, uma das principais atividades das Juntas Comerciais é arquivar: Documentos relativos à constituição, alteração, dissolução e extinção de firmas mercantis individuais, sociedades mercantis e cooperativas; dos atos relativos a consórcio e grupo de sociedade de que trata a Lei nº. 6.404, de 15 de dezembro de 1976; dos atos concernentes a empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil; das declarações de microempresa; e) de atos ou documentos que, por determinação legal, sejam atribuídos ao Caracterização do empresário8 Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins ou daqueles que possam interessar ao empresário e às empresas mercantis (BRASIL, 1994, documento on-line). A inscrição empresarial será feita mediante requerimento, a qual conterá sua qualificação (nome, nacionalidade, domicílio, estado civil e, se casado, o regime de bens, o capital, o objeto e a sede da empresa — conforme art. 968 do Código Civil) (BRASIL, 2002). Ainda, se, por ventura, o empresário individual constituir sociedade, ele poderá solicitar ao Registro Público de Empresas Mercantis a transformação de seu registro de empresário, atentando para as normas existentes no § 3º do referido artigo. O empresário também pode constituir filial em Estado diverso ao que atua. Para isso, há necessidade de registro e averbação do estabelecimento secundário no registro público local, como preconiza o art. 969 do Código Civil: Art. 969 O empresário que instituir sucursal, filial ou agência, em lugar sujeito à jurisdição de outro Registro Público de Empresas Mercantis, neste deverá também inscrevê-la, com a prova da inscrição originária. Parágrafo único. Em qualquer caso, a constituição do estabelecimento secundário deverá ser averbada no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede (BRASIL, 2002, documento on-line). A Lei nº. 8.934/1994 traz, em seu rol de disposições, a estruturação para o Registro Público de Empresas Mercantis e atividades afins. Como dispõe seu art. 1º, o registro é exercido em todo o território nacional, por órgãos estaduais e federais, com a finalidade de: Art. 1º [...] I — dar garantia, publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos das empresas mercantis, submetidos a registro na forma desta lei; II — cadastrar as empresas nacionais e estrangeiras em funcionamento no País e manter atualizadas as informações pertinentes; III — proceder à matrícula dos agentes auxiliares do comércio, bem como ao seu cancelamento (BRASIL, 1994, documento on-line). A referida lei dispõe que o Número de Identificação do Registro de Empresas (Nire) da empresa será atribuído a todo ato constitutivo de empresa, bem como deve ser compatibilizado com os demais números constantes nos cadastros federais. O Nire possui o número adotado no ato de registro da empresa, o qual é feito pela Junta Comercial ou pelo cartório. 9Caracterização do empresário Em posse do Nire, a empresa deve regular sua atividade com o registro do CNPJ na Receita Federal, passando ao status de contribuinte — a não ser que tenha aderido ao sistema do Simples Nacional. Com o CNPJ, a empresa está apta a adquirir seu alvará de funcionamento, que é fundamental para seu funcionamento. Ainda, em até 30 dias, a empresa precisa realizar seu cadastro na Previdência Social, bem como no seu aparato fiscal na Secretaria da Fazenda do Estado em que está localizado seu estabelecimento. Atos de registro das empresas Os atos de registro de empresa são compostos por três etapas: Matrícula — “A matrícula é o nome do ato de inscrição dos tradutores públicos, intérpretes comerciais, leiloeiros, trapicheiros e administradores de armazéns-gerais” (COELHO, 2014, p. 219). Arquivamento — o arquivamento é o nome de registro levado à Junta Comercial para que a empresa possa ser constituída, alterada, dissolvida ou extinta. Autenticação — consiste no registro dos instrumentos de escrituração do empresário, ou seja, o registro dos livros empresariais e das fichas escriturais. Nome empresarial O nome empresarial nada mais é do que a fi rma ou a denominação adotada para a atividade empresarial. Como dispõem os arts. 1.155 e 1.163 do Código Civil, deve ser equiparada à denominação das sociedades simples, associações e fundações e, ainda, distinguindo-se de outra empresa inscrita no mesmo registro. São nomes empresariais (BRASIL, 2002, documento on-line): Empresário individual — a firma será constituída por seu nome, seja completo ou abreviado, inserindo a designação de sua pessoa ou ramo de atividade, se quiser (art. 1.156 do Código Civil). Eireli — nesse caso, é obrigatória a inclusão da expressão Eireli após a firma ou denominação social (art. 980-A, § 1º, do Código Civil). Sociedade limitada — a firma deve ser composta pelo nome de um ou mais sócios, a denominação precisa descrever o objeto da sociedade, Caracterização do empresário10 sendo acompanhada, ao final, da palavra limitada ou de sua abreviação (art. 1.158, §§ 1º a 3º, do Código Civil). Sociedade anônima — a firma pode conter ou não o nome do fundador ou acionista, a denominação do objeto social, junto com a expressão sociedade anônima ou companhia, também aceitas em suas formas abreviadas (art. 1.160 do Código Civil). Sociedade cooperativa — a firma deve ser acompanhada pelo vocábulo cooperativa (art. 1.159 do Código Civil). Sociedade em comandita por ações — “a sociedade em comandita por ações pode, em lugar de firma, adotar denominação designativa do objeto social, aditada da expressão ‘comandita por ações’” (art. 1.161 do Código Civil). Sociedade em conta de participação — uma vez que não possui personalidade jurídica, “a sociedade em conta de participação não pode ter firma ou denominação” (art. 1.162 do Código Civil). Microempresas, empresas de pequeno porte e MEI — o nome empresarial deverá vir acompanhado das expressões microempresa ou ME; empresa de pequeno porte ou EPP; e microempreendedor individual ou MEI. BRASIL. Lei Federal nº. 8.934, 18 de novembro de 1994. Dispõe sobre o Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 nov. 1994. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/ leis/L8934.htm. Acesso em: 24 jun. 2019. BRASIL. Lei no. 10.406, de 10 de janeirode 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ Leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 24 jun. 2019. COELHO, F. U. Manual de Direito Comercial: direito de empresa. 26. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. DEMETRIO, D. W. Qual a diferença entre empreendedor e empresário? Sebrae-SC, Florianópolis, 13 jun. 2017. Disponível em: https://blog.sebrae-sc.com.br/empreendedor- e-empresario/. Acesso em: 24 jun. 2019. MARQUES, J. R. Qual a diferença entre empreendedor e empresário? Portal IBC, [s. l.], 16 mar. 2017. Disponível em: https://www.ibccoaching.com.br/portal/qual-diferenca- entre-empreendedor-e-empresario/. Acesso em: 24 jun. 2019. 11Caracterização do empresário MOREIRA, W. Diferenças entre empreendedor e empresário. Administradores, João Pessoa, 4 nov. 2014. Disponível em: https://administradores.com.br/artigos/diferencas- entre-empreendedor-e-empresario. Acesso em: 24 jun. 2019. SILVA, A. L. M. Registro público da atividade empresarial. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2002. Leitura recomendada SEBRAE. Quais são os tipos de empresas? Sebrae São Paulo, São Paulo, 7 jun. 2018. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ufs/sp/conteudo_uf/ quais-sao-os-tipos-de-empresas,af3db28a582a0610VgnVCM1000004c00210aRCRD. Acesso em: 24 jun. 2019. Caracterização do empresário12 1a 1b 1cque o art. 19 disciplinou as diversas operações de câmbio, seguros, banco e corretagem, bem como a compra com o objetivo de posterior revenda de bens móveis ou semoventes, transporte de mercadorias, entre outros, como podemos verificar: Art. 19 Considera-se mercancia: § 1º A compra e venda ou troca de bens móveis ou semoventes, para os ven- der por grosso ou a retalho, na mesma espécie ou manufaturados, ou para alugar o seu uso. § 2º As operações de câmbio, banco e corretagem. § 3º As empresas de fábricas, de comissões, de depósito, de expedição, con- signação e transporte de mercadorias, de espetáculos públicos. § 4º Os seguros, fretamentos, riscos; e quaisquer contratos relativos ao co- mércio marítimo. § 5º A armação e expedição de navios (BRASIL, 1850, documento on-line). No decorrer dos anos, inúmeros dispositivos do Código Comercial foram suprimidos por novas regras, isto é, por leis que se adequassem melhor à evo- lução do comércio. Como exemplos, temos a Lei de Falências e Concordatas, de 1945, a Lei das Sociedades Anônimas, de 1976, etc. Igualmente impor- tante foi a edição da Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que instituiu o Código Civil e suprimiu quase todos os artigos que ainda regulavam os atos comerciais datados de 1850. Subsistiram apenas os que faziam referência ao comércio marítimo. A nossa legislação civil contemporânea foi influenciada pelo modelo do Código Civil italiano de 1942, que motivou a combinação legislativa entre o Direito Privado, agregando regras básicas dos Direitos Civil e Comercial. Com isso, o Código adveio para regular matérias específicas do Direito Comercial, como empresários, empresas, livros empresariais, registro público de empresas, nome empresarial, entre outras matérias (MORAES, 2011). 5Evolução histórica do Direito Comercial Teoria da empresa Juridicamente, a empresa surgiu na Europa no século XVII. No entanto, o Código Civil italiano de 1942 foi o verdadeiro marco no âmbito legislativo, sobretudo para os países que utilizavam o sistema da comercialidade, como o Brasil. Desde então, contemplava-se empresa mediante a adoção de leis esparsas que se adequassem ao caso concreto. Portanto, o Código italiano foi o instrumento que validou, de fato, o sistema normativo da empresa, visto que trouxe o estatuto jurídico qualifi cador do empresário, assim como o conceito de azienda (“empresa” em italiano). Dessa forma, ele organizou as atividades desenvolvidas e regulou as relações interpessoais de trabalho frente à empresa e em torno dela, todas as partes integradas de um único sistema de unifi cação obrigacional, suplementado por uma lei de falências independente (BULGARELLI, 1985). Logo, o Código Civil italiano associou a teoria da empresa à indispen- sabilidade de uma figura que se aplicasse a diversos moldes de atividades econômicas. A empresa foi inserida nessa circunstância como uma associação entre atividade econômica e organização. O legislador italiano não se ateve aos conceitos e particularidades, além de haver preterido a doutrina e a juris- prudência à atribuição de investigar esses elementos na esfera jurídica, nivelar princípios tradicionais em prol do lucro e da habitualidade, que são elementos determinantes do conceito de empresa (PACIELLO, 1978). Inúmeros jurisconsultos italianos se aplicaram ao estudo do conceito da empresa. Cesar Vivante (1932) defendia a ideia de que empresa é um organismo econômico que, por seu próprio risco, recolhe e põe em atuação sistemati- camente os elementos necessários para obter um produto destinado à troca. O doutrinador Waldírio Bulgarelli (1985), por sua vez, acrescenta que essa combinação dos fatores, sejam eles naturais, capitais ou trabalhistas, produ- ziriam resultados impossíveis de serem alcançados de maneira individual. Juntamente com o risco que o empresário assumiria para produzir uma nova riqueza, eles se tornariam requisitos indispensáveis à empresa. Atualmente, para conceituarmos empresa, é necessário atentarmos a quatro subdivisões que objetivam facilitar a administração e, ao mesmo tempo, evitar prejuízo. Como explica Coelho (2012), a persecução do lucro, a atividade econômica, o método do labor e a profissionalidade, aplicados de forma simul- tânea e harmônica, reduzem a probabilidade de eventuais perdas financeiras. Rubens Requião (2012) cita o parecer do professor Fábio Asquini ao explicar que a empresa não apresenta um único conceito devido à sua mutabilidade, de modo que é necessário pensarmos nela como um evento poliédrico, isto é, dividido em quatro formas (REQUIÃO, 2012): Evolução histórica do Direito Comercial6 1. Perfil subjetivo — a empresa é analisada perante a figura do seu administrador. 2. Perfil funcional — a instituição é analisada como investimento. 3. Perfil objetivo ou patrimonial — estuda a função dos bens da empresa, o que não engloba o estabelecimento empresarial, diferenciando, assim, o que é patrimônio individual do empresário. 4. Perfil corporativo — a empresa é analisada enquanto instituição, o que inclui o seu administrador e os funcionários. De acordo com Requião (2012), a lição elaborada por Asquini demonstra que a empresa é compreendida como uma atividade organizada sem fins lucrativos, de forma que não há confusão entre a figura da empresa e a do estabelecimento. Como lecionam Valente, Castro Neto e Dias (2013), devemos lembrar que ela apresenta como foco principal produzir determinado bem ou serviço, além de obter lucro sobre o que foi investido inicialmente. Por outro lado, o estabele- cimento é o espaço para o funcionamento da empresa e, consequentemente, é fundamental na elaboração do produto ou na execução do serviço em questão. No século XIX, a doutrina passou a reconhecer a importância da relação existente entre as pessoas jurídicas do comércio, de modo a envolvê-las em parcerias que proporcionassem produtividade em larga escala, otimizassem a produção e reduzissem os custos. No século XX, no entanto, como explica Mamede (2008), torna-se essencial atentar às organizações com fins lucrativos, visto que objetivavam suprir as diversas exigências do público-alvo. Dessa forma, ocorre a transposição da teoria do comércio para a teoria da empresa. Notemos que a teoria da empresa transferiu a ocorrência do Direito Co- mercial de uma atividade (a prática de atos de comércio) para um indivíduo (o empresário), seja ela natural ou jurídica. A essência dessa teoria fundamenta- -se justamente nesse indivíduo economicamente estabelecido e determinado à produção e ou à circulação de bens e serviços que se denomina empresa. No Brasil, a reforma do Código Civil (BRASIL, 2002) permitiu a inserção de um livro específico para tratar do Direito de Empresa. Durante o processo de reforma do Código, o doutrinador Miguel Reale, que era supervisor da comissão elaborada para estabelecer o novo código, afirmou: O Código mantém, com efeito, a estrutura do Código anterior, porém com as modificações fundamentais, entre elas, a inserção de uma parte relativa ao Direito de Empresa, o qual veio dar colorido novo ao Direito Comercial. O Direito Comercial que teve no Brasil e tem ainda desde Mendonça até agora, grandes cultores, o Código Comercial mudou de significado e de represen- tatividade no momento em que surgiram atividades outras iguais senão su- 7Evolução histórica do Direito Comercial periores ao do próprio comércio. A indústria e o poderoso ramo dos serviços tornaram indispensável levar em consideração o conceito de empresa, para estabelecer a unidade das obrigações civis e comerciais que já se tornara uma realidade no Brasil em virtude do obsoletismo do Código Comercial de 1850. Os juristas não faziam mais referência ao Código, de 1850, mas em matéria de Direito Obrigacional tinham presente especificamente o Código Civil. A unidade das obrigações civis e comerciais já era, portanto, uma realidade vigente nos Tribunais e na doutrina quando eu assumi a responsabilidade deelaborar uma nova codificação. Este ponto de partida é fundamental para a noção daquilo que se entende por Código Civil de 2002. É que na realidade, nós não pretendemos fazer a codificação toda do Direito Privado, mas pura e simplesmente a unificação das obrigações civis e comerciais (Tribunal de Contas do Município de São Paulo [TCMSP], 2003, documento on-line). Assim, sob a responsabilidade do comercialista brasileiro Sylvio Marcon- des, o Direito de Empresa encontra-se disciplinado no Livro II do Código Civil de 2002. O seu art. 966 disciplina o que o termo “empresário” refere: “[...] considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade eco- nômica organizada para produção ou circulação de bens ou de serviços” (BRASIL, 2002, documento on-line). Segundo Nery Júnior e Nery (2008), a definição de empresário dá-se a partir da tarefa organizada com a finalidade de produzir lucro, ao gerar a disponibilidade de bens no mercado, combinando- -se ou não com os serviços prestados. Nesse sentido, o caráter de administrar os recursos disponíveis concede ao empresário um dos fatores inerentes ao bom desempenho da instituição, visto que a boa administração garante um menor índice de prejuízos aos investidores (VALENTE; CASTRO NETO; DIAS, 2013). Miranda (2009) defende que a empresa é o evento criado pelo ser humano como resultado do desenvolvimento instrumental e da evolução ideológica da sociedade, cuja finalidade é buscar os resultados esperados pelo empreen- dedor. Assim, o empresário coordena as funções exercidas na empresa com o objetivo de alcançar a meta definida. Podemos concluir, então, que a empresa é a instituição administrada pelo empresário com o intuito de produzir bens e serviços, enfocando o lucro (VALENTE; CASTRO NETO; DIAS, 2013). Fontes do Direito Empresarial As fontes do Direito Empresarial são os meios pelos quais as normas jurídicas se manifestam externamente e podem ser divididas em diretas ou primárias e indiretas ou secundárias. As fontes diretas, ou primárias, englobam as leis Evolução histórica do Direito Comercial8 comerciais, como o próprio Livro I do Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002), que dispõe acerca dos contratos mercantis e dos títulos de crédito, ou o seu Livro II, que estabelece o Direito de Empresa. Ademais, há leis autônomas, de cunho comercial, como a Lei das Sociedades Anônimas (Lei nº. 6.404, de 15 de dezembro de 1976); a Lei do Registro de Empresas (Lei nº. 8.934, de 18 de novembro de 1994); a Lei da Propriedade Industrial (Lei nº. 9.279, de 14 de maio de 1996); a Lei sobre o Sistema Financeiro Nacional (Lei nº. 4.595, de 31 de dezembro de 1964); o Código de Defesa do Consumidor (CPC) (Lei nº. 8.078, de 11 de setembro de 1990), entre tantas outras. Já as fontes indiretas, ou secundárias, consistem nas analogias, nos costumes e nos princípios gerais do Direito. Elas são utilizadas para preencher eventuais lacunas legislativas que possam surgir, complementando o sistema normativo. Fontes na época das corporações de ofício No século X, a atenção se voltou ao comércio, que ganhava força e se expandia pelo mundo por meio das vias marítimas, o que fez com que a agricultura deixasse de ser a atividade econômica principal. Em virtude da tendência volante do ofício dos comerciantes desse período, a maior parte da população se instalava às margens dos feudos, movimento que originou as vilas e os burgos, desenvolvendo uma ligação entre os núcleos urbanos e a economia (MACHADO, 2005). Na época, não havia sistema regulamentar para ordenar a dinâmica mercantil em fase de desenvolvimento. Em consequência disso, as fontes adotadas no Direito do Comércio eram os usos e costumes dos próprios mercadores. É relevante salientarmos que, a partir da necessidade de ordem nas relações mercantis, surgiu o Direito, então conhecido pela expressão latina ius mercatorum. Dessa forma, os mercadores criaram as corporações de ofício. Havia in- tegrantes de cada uma das especialidades de comerciantes: carpinteiros, tecelões, ferreiros, artesãos, etc., todos ordenados e obedientes ao rito que regia o período, ou seja, os já mencionados usos e costumes. Tais regras eram manipuladas por um cônsul, que atuava como juiz ao julgar na esfera dos tribunais consulares de cada corporação. Contudo, além dos usos e costumes, a jurisprudência elaborada pelos cônsules e os estatutos das corporações mercantis também integravam o ius mercatorum (BARREIRA, 2017). Essa fase inicial do Direito Comercial seguia os regramentos advindos das fontes anteriormente citadas. Todavia, eles se aplicavam somente aos comer- ciantes associados a uma corporação, o que configurava, portanto, um direito subjetivo. Afinal, a regra era aplicada com base na interpretação individual, 9Evolução histórica do Direito Comercial logo, valia para o indivíduo, mas poderia não ser válida para todos. Porém, alterações nesse cenário não tardam, uma vez que as monarquias absolutistas se encontravam em ascendência, gerando tamanha insatisfação ao ponto de se extinguirem ao fim do século XVII. Em meio à Revolução Francesa, inicia-se a próxima fase de desenvolvimento do Direito Empresarial (BARREIRA, 2017). Fontes na época dos atos de comércio Com o Absolutismo em declínio e a Revolução Francesa em ebulição, no ano de 1804, Napoleão Bonaparte coroou-se imperador e implementou um novo sistema de governo, com novas regras. As fontes advindas da primeira fase, como os usos e costumes, os estatutos das corporações mercantis e a jurisprudência dos tribunais consulares, serviram como base para a elaboração do Código Comercial de 1808 na França, que passou a ser a fonte direta desse ramo do Direito (BARREIRA, 2017). Assim, o Estado criava leis, corporificadas pelos códigos, e se tornava a fonte principal do Direito. A teoria dos atos do comércio foi utilizada como critério objetivo de incidência do Direito Comercial e listava os atos costu- meiros praticados pelos comerciantes, sendo que os demais atos ficavam a cargo do Código Civil. A edição do Código francês trouxe o objetivismo e a segunda fase, que substitui o subjetivismo do sistema corporativista vigente na primeira fase de andamento do Direito Empresarial. Fontes na época da teoria da empresa Em decorrência da decadência da segunda fase, a teoria da empresa conquistou espaço e suprimiu a prática dos atos de comércio, de modo a se articular em direção ao desenvolvimento da atividade econômica organizada para reco- nhecer, na fi gura do empresário, o sujeito do ordenamento empresarial. Eis que se instaurou a terceira fase (BARREIRA, 2017), cujas fontes diretas ou primárias englobam as leis comerciais. Dessa forma, a lei é a principal fonte do Direito Comercial, que se fragmenta hierarquicamente em Constituição, Código Civil e legislação comercial extravagante, compreendendo regras que não estavam elencadas nos códigos. As fontes indiretas ou secundárias apresentam-se como ferramentas aces- sórias utilizadas na falta de uma lei que regule a matéria. Fazem parte desse rol os costumes, a analogia, a doutrina, a jurisprudência, a equidade e os princípios gerais do Direito. Tais fontes têm a função de se incorporar ao Direito para auxiliar em prol da melhor resolução do caso concreto. Evolução histórica do Direito Comercial10 Costume É a prática reiterada de hábitos sociais que, ao longo do tempo, tornam-se arraigados no espírito social, de forma que passa a transitar como se fosse lei. A aplicação frequente de atos ou hábitos incorpora-se ao costume e eles passam a ser percebidos como obrigatórios, momento em que a conduta repetitiva de uma ação ou hábito assume caráter de costume. Entre as diversas fontes subsidiárias, o costume alcança singular importância no âmbito empresarial e pode inclusive ser levado a registro na junta comercial. No entanto, esse registro não é necessário para ser levado a juízo, embora facilite a prova (ALBANO, 2012). Analogia Consiste em um método de interpretaçãojurídica empregado mediante a verifi cação de uma lacuna na lei, ou seja, em função da ausência de previsão específi ca. Nesse caso, adota-se uma norma que disciplina casos semelhantes. O CPC de 2015 contempla essa importante fonte secundária, estabelecendo que o juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuri- dade da lei. No julgamento da lide, cabe a ele aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia, aos costumes e aos princípios gerais de Direito. Doutrina Segundo a perspectiva dos especialistas no assunto, a doutrina resulta do estudo dos mestres, fi lósofos, estudiosos do Direito e operadores do sistema que, nas suas obras, retratam o verdadeiro sentido das normas. Jurisprudência É o agrupamento de deliberações judiciais cujos veredictos constantemente versam sobre casos semelhantes. Trata-se da resolução reiterada dos júris a respeito de casos de igual nexo fático. Equidade Compreende o exercício do bom senso ao se exercer a coerência e a adequação da regra ao caso concreto. 11Evolução histórica do Direito Comercial Princípios gerais do Direito São convicções normativas de valor generalizado que adéquam e guiam o entendimento do ordenamento jurídico, de maneira a auxiliar a aplicação e a composição ou atualização das normas. Assim, os princípios gerais do Direito são convicções essenciais dessa faculdade do conhecimento humano. É o Direito que lhe confere embasamento e coesão com o respaldo da justiça, da liberdade, da igualdade, da democracia, da dignidade, e de toda e qualquer fonte de proteção fundamental em caráter geral incorporado ao seu âmbito de atuação. De acordo com Reale (2003, p. 37): Princípios são enunciações normativas de valor genérico, que condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico, a aplicação e integração ou mesmo para a elaboração de novas normas. São verdades fundantes de um sistema de conhecimento, como tais admitidas, por serem evidentes ou por terem sido comprovadas, mas também por motivos de ordem prática de caráter operacional, isto é, como pressupostos exigidos pelas necessidades da pesquisa e da práxis. No mesmo sentido, ao elucidar o significado de princípios, o doutrinador Delgado (2011, p. 180) leciona: “[...] princípio traduz, de maneira geral, a noção de proposições fundamentais que se formam na consciência das pessoas e grupos sociais, a partir de certa realidade, e que, após formadas, direcionam-se à compreensão, reprodução ou recriação dessa realidade”. ALBANO, C. J. Direito Empresarial. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná, Curitiba, 2012. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2018. ANÇA, R. L. Projecto do Codigo commercial do Imperio do Brazil. In: FRANÇA, R. L. Enciclopédia Saraiva do Direito. São Paulo: Saraiva, 1977-1982. v. 15, p. 396. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2018. BARREIRA, R. R. Teoria das fontes do Direito Empresarial: análise e releitura a partir do paradigma constitucional contemporâneo. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 22, n. 5162, 2017. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2018. BRASIL. Decreto nº. 737, de 25 de novembro de 1850. Determina a ordem do Juizo no processo Commercial. Imprensa Nacional, Coleção de Leis do Império do Brasil Evolução histórica do Direito Comercial12 http://redeetec.mec.gov.br/images/stories/ http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/227302 https://jus.com.br/artigos/59719 de 1850, p. 271, 1850. v. 1. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2018. BRASIL. Lei Federal nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2018. BULGARELLI, W. A teoria jurídica da empresa: análise jurídica da empresarialidade. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1985. COELHO, F. U. Manual de Direito Comercial. São Paulo: Saraiva, 2012. DELGADO, M. G. Curso de Direito do Trabalho. 10. ed. São Paulo: LTr, 2011. FRANÇA, R. L. Enciclopédia Saraiva de Direito. São Paulo: Saraiva, 1977-1982. v. 15. MACHADO, F. Renascimento comercial e urbano: surgem os burgos e a burguesia. 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No entanto, na sociedade civil organizada, isso não ocorre somente de uma maneira, visto que encontramos tanto a figura do empresário individual quanto a das sociedades empresárias. O empresário individual se materializa a partir da pessoa natural que desenvolve uma atividade empresarial, enquanto que a sociedade empresária é a associação de pessoas naturais ou jurídicas que unem esforços com o intuito de desenvolver alguma atividade econômica formalmente lavrada em cartório. Contudo, nem todas as pessoas podem ser empresárias, uma vez que há certos impedimentos nesse processo. Neste capítulo, estudaremos as formações da pessoa jurídica e da sociedade, bem como quais são os indivíduos que podem exercer a atividade empresária e quais são os possíveis impedimentos e as hipóteses de incapacidade previstas no ordenamento jurídico brasileiro. Pessoa jurídica e sociedade O homem é um ser sociável por natureza e se associa a outros indivíduos com o intuito de agregar forças para a efetivação de algum propósito, con- forme leciona o sociólogo Machado Neto (1987). Nesse contexto, também o C06_Empresario.indd 1 23/08/2018 10:16:35 jurisconsulto Pereira (2011, p. 247), ao aduzir ao teórico alemão Enneccerus Kipp Wolf, dispõe: [...] em todos os povos, a necessidade sugeriu uniões e instituições perma- nentes, para a obtenção de fins comuns, desde as de raio de ação mais amplo, com o Estado, o Município, a Igreja, até as mais restritas como as associações particulares. O ímpeto humano de agrupamento motivou a necessidade de um regu- lamento que protegesse esse tipo de relação. A partir dessa necessidade, foi concebida, por meio do Direito, outra forma de tratamento diversa da pessoa humana: a pessoa detentora de direitos e obrigações. Conforme instrui o doutrinador Gonçalves (2012, p. 183), “[...] surge, assim, a necessidade de personalizar o grupo, para que possa proceder como uma unidade, participando do comércio jurídico com individualidade”. Criada a sociedade, que passa a obedecer ao regramento instituído para a sua constituição, os membros que investem capital e trabalho conferem existência a uma figura dotada de personalidade jurídica, assumindo direitos e obrigações particulares de forma autônoma em relação aos demais sócios. Desse modo, pode- mos sintetizar que sociedade é a reunião de indivíduos que potencializam os seus esforços e dividem funções para aportar patrimônio e compartilhar os rendimentos entre os seus sócios. Nesse sistema, tais indivíduos visam alcançar um objetivo comum e que não alcançariam sozinhos ou, então, cuja concretização demandaria um período maior. Integrar uma sociedade confere ao sujeito a responsabilidade de assumir o ônus caso o negócio não obtenha êxito, bem como a de dividir os ganhos e as perdas resultantes dele. Assim, compartilhar as obrigações e os direitos de um empreendimento é um ato que fomenta a formação de novas sociedades. Pessoa jurídica As pessoas jurídicas estão descritas no nosso ordenamento como indivíduos dotados de personalidade, que os permite avocar encargos e direitos na condi- ção de pessoa. Embora haja outras nomeações para esse indivíduo no Direito Comparado, a terminologia de pessoa jurídica abarca termos como: nomea- damente, pessoa moral, pessoa coletiva, ente de existência ideal, entre outros. Fiuza (2012, p. 145) define as pessoas jurídicas como “[...] entidades criadas à realização de um fim e reconhecidas pela ordem jurídica como pessoas, sujeitos de direitos e deveres”. Já Coelho (2012) oferece uma concepção genérica, segundo a qual a pessoa jurídica é o sujeito de direito personificado não humano, também Empresário2 C06_Empresario.indd 2 23/08/2018 10:16:35 chamada de pessoa moral. Como sujeito de direito, tem aptidão para titularizar direitos e obrigações. Por ser personificada, está autorizada a praticar atos gerais da vida civil, como, por exemplo, comprar, vender, tomar emprestado, locar, independentemente de autorizações específicas da lei. Finalmente, como entidade não humana, está excluída da prática dos atos para os quais o atributo da humanidade é pressuposto, como casar, adotar, doar órgãos e outros. A pessoa jurídica é apta a fruir de obrigações e direitos no ordenamento jurídico, capacidade que se torna possível somente quando aliada à vontade humana via ato constitutivo e mediante a inscrição do referido ato no registro público. Dessa forma, passa a ser provida de personalidade, isto é, a partir do registro, a pessoa está capacitada a fruir de direitos, bem como a ter a sua responsabilidade convocada pelas obrigações provenientes de tal tipo societário. Essa capacidade se estende aos diversos campos do Direito, de forma que a pessoa pode usufruir de direitos particulares, o que não se resume ao âmbito patrimonial, pois assegura o direito a identificação, denominação, domicílio e nacionalidade também (ALVES, 2017). Gonçalves (2012) preconiza que a personalidade jurídica é um atributo que o Estado defere a certas entidades merecedoras dessa benesse por observarem determinados requisitos por ele estabelecidos. No seu art. 52, o Código Civil de 2002, instituído pela Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002, regula a proteção dos direitos da personalidade das pessoas jurídicas (BRASIL, 2002). A esse respeito, é importante destacarmos que, tratando-se de pessoas jurídicas, tais direitos não abrangem todos aqueles que são inerentes à pessoa natural. O rol de garantias engloba o direito à marca, ao nome, à liberdade, à imagem, à privacidade, ao segredo, à honra objetiva e à própria existência. Autonomia patrimonial Segundo Coelho (2014), a autonomia patrimonial é uma técnica de desmembra- mento de risco, bem como a afetação de condomínio e bens. Por meio desse sistema, o patrimônio da sociedade, que é personifi cada, é desassociado do patrimônio dos demais sócios. Logo, entendemos que, no tocante a obrigações comerciais, o patrimônio da pessoa jurídica responde pelas obrigações contraídas por ela, não alcançando o patrimônio pessoal do sócio. No discurso de Coelho (2014, p. 66): 3Empresário C06_Empresario.indd 3 23/08/2018 10:16:35 Pelo princípio da autonomia patrimonial, considera-se a sociedade empresá- ria, por ser pessoa jurídica, um sujeito de direito diferente dos sócios que a compõem. Entre outras consequências, este princípio implica que a responsa- bilização pelas obrigações sociais cabe à sociedade, e não aos sócios. Apenas depois de executados os bens da sociedade, e mesmo assim observando-se eventuais limitações impostas por lei, os credores podem pretender a res- ponsabilização dos sócios. É válido mencionarmos que há previsão na teoria da desconsideração da personalidade jurídica, positivada no ordenamento brasileiro pelo art. 50 do Código Civil, juntamente com dispositivos do Código de Defesa do Consumidor (CDC). Tal possibilidade é permitida na ocorrência de excesso da personalidade jurídica, ou seja, caso a personalidade seja desviada da sua finalidadeou suceda alguma confusão patrimonial entre sócio e sociedade. Se ocorrer a suspensão da autonomia patrimonial, é lícito o alcance do patrimônio dos sócios (CORRÊA, 2014). Registro A junta comercial é o local onde deve ser realizado o registro da sociedade empresária. Nos termos do preceito jurídico básico abordado no art. 967 do Código Civil, é obrigatória a inscrição do empresário no registro público de empresas mercantis da respectiva sede antes do início das suas atividades, ao que há previsão para situação excepcional caso esse registro se dê até 30 dias a partir da assinatura do ato constitutivo (BRASIL, 2002). Assim, a inscrição retroage à data dessa assinatura e emprega o efeito ex tunc, que considera a sociedade regular desde a assinatura do ato constitutivo. O contrário ocorre quando a assinatura do ato é registrada após 30 dias da assinatura de fato. Para esse evento, o efeito é ex nunc e o seu registro é considerado com base na data do arquivamento do ato constitutivo na junta comercial. Tal regra está disciplinada no art. 1º da Lei nº. 8.934, de 18 de novembro de 1994, ao dispor sobre as finalidades do registro na junta comercial: Art. 1º O Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins, su- bordinado às normas gerais prescritas nesta lei, será exercido em todo o território nacional, de forma sistêmica, por órgãos federais e estaduais, com as seguintes finalidades: I — dar garantia, publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos das empresas mercantis, submetidos a registro na forma desta lei; II — cadastrar as empresas nacionais e estrangeiras em funcionamento no País e manter atualizadas as informações pertinentes; III — proceder à matrícula dos agentes auxiliares do comércio, bem como ao seu cancelamento (BRASIL, 1994). Empresário4 C06_Empresario.indd 4 23/08/2018 10:16:36 Por meio desse registro, formaliza-se a constituição da pessoa jurídica e a sociedade adquire personalidade, o que configura o efeito principal desse ato. Ainda assim, o registro não confere o título de empresário, uma vez que se trata somente de um requisito de regularidade. Ademais, é entendido como empresário quem pratica atividade tida como empresária nas formas do art. 966 do Código Civil, ainda que isso aconteça de forma irregular. Fundamentados nesse entendimento, vale conferirmos o enunciado do Conselho da Justiça Federal (CJF) nº. 198, também disposto no art. 967 do Código Civil: A inscrição do empresário na Junta Comercial não é requisito para a sua caracterização, admitindo-se o exercício da empresa sem tal providência. O empresário irregular reúne os requisitos do art. 966, sujeitando-se às normas do Código Civil e da legislação comercial, salvo naquilo em que forem incom- patíveis com a sua condição ou diante de expressa disposição em contrário (BRASIL, 2016, documento on-line). Da mesma forma que o procedimento de registro das sociedades empresá- rias, o registro das sociedades simples possui os efeitos iguais, apesar de que o seu processo registral é mais simples. Atentemos que a finalidade do registro possui a sua regra explicitada no art. 1º da Lei nº. 6.015, de 31 de dezembro de 1973: “Os serviços concernentes aos Registros Públicos, estabelecidos pela legislação civil para autenticidade, segurança e eficácia dos atos jurídicos, ficam sujeitos ao regime estabelecido nesta Lei” (BRASIL, 1973, documento on-line). Ex nunc: expressão de origem latina que significa “desde agora”. Assim, no meio jurídico, quando se diz que algo tem efeito ex nunc, significa que os seus efeitos não retroagem, valendo somente a partir da data da decisão tomada. Um exemplo é a revogação de um ato administrativo, que opera efeitos ex nunc. Ex tunc: de origem igual à anterior, essa expressão significa “desde então”, “desde a época”. Dessa forma, no meio jurídico, quando se diz que algo possui efeito ex tunc, significa que os seus efeitos são retroativos à época da origem dos fatos a ele relacionados. A título de exemplificação, podemos pensar nas decisões definitivas no controle concentrado (QUAL…, 2017). 5Empresário C06_Empresario.indd 5 23/08/2018 10:16:36 Empresário individual A associação de pessoas naturais a uma sociedade empresária com vistas a desenvolver uma atividade econômica com fi nalidade de lucro não lhes con- fere o título de empresários, visto que são consideradas empreendedores ou investidores, de acordo com a coparticipação empreendida. Nesse sentido, os empreendedores contribuem com o capital social e, em alguns casos, atuam como gestores da empresa. Os investidores, por sua vez, apenas injetam capital. Salientemos que as normas que regem o empresário individual não são as mesmas empregadas em relação aos integrantes da sociedade empresária (COELHO, 2016). O empresário individual se materializa a partir da pessoa natural que desenvolve uma atividade empresarial e, para fins tributários, dispõe de registro no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). Contudo, em conformidade com o Código Civil, tal inscrição não lhe confere a consi- deração de pessoa jurídica de direito privado. Dentre as particularidades que regram o empresário individual, está o fato de não possuir um teto máximo de faturamento; contar com responsabilidade ilimitada enquanto titular da empresa; e, logo, não correr o risco de cisão entre o patrimônio da empresa e o seu montante de pessoa física. Para a composição da empresa, não há requisito mínimo de capital a ser integralizado. Com relação ao nome, é obrigatória a adoção do nome completo do empresário, embora haja a possibilidade de abreviação do prenome, assim como a descrição da espécie de negócio em conformidade com a atividade desenvolvida (BUZANELI, 2017). Sociedade empresária No art. 966 do Código Civil, estão disciplinadas as características necessárias para que uma sociedade seja compreendida como empresária: “Considera-se empresário quem exerce profi ssionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (BRASIL, 2002, documento on-line). Ainda que o artigo seja breve, pressupõe vários requisitos no seu texto, conforme preleciona Ramos (2012): profi ssionalismo, atividade econômica organizada e produção ou circulação de bens ou serviços. Por profissionalismo, entendemos que existe certa habitualidade no exercí- cio da atividade, de modo que ela se configura como a atividade principal. No que tange à atividade econômica, apoia-se na ideia de lucro como propósito básico a ser auferido pela sociedade, cujo termo em latim para tal finalidade de lucro que move a sociedade é animus lucrandi (BORGES, 1991). Já quando Empresário6 C06_Empresario.indd 6 23/08/2018 10:16:36 falamos em atividade organizada, referimo-nos ao fato de que tal exercício de atuação perante a sociedade opera com elementos de formação, tais como patrimônio, ofício, insumos e tecnologia. Por fim, a produção ou circulação de bens ou serviços se configura pela elaboração de bens para facilitar a sua circulação. Dessa maneira, as atividades que se enquadram em tais requisitos são conceituadas como atividades empresárias. Assim, sociedade empresária é a associação de pessoas naturais ou jurídicas que unem esforços com o intuito de desenvolver alguma atividade econômica formalmente lavrada em cartório. Essa organização é regulamentada pela legislação e as suas regras versam sobre a responsabilidade e as deliberações da sociedade, de modo a orientar cada tipo empresarial conforme as suas especificidades, como participação dos sócios, responsabilidades, proventos, grupos, entre tantas outras providências. Nesse contexto, temos cinco tipos principais de sociedades empresariais, sem contar a sociedade simples: sociedade limitada (LTDA), sociedade anô- nima (S.A.), sociedade em nome coletivo (& Cia./Companhia), sociedade em comandita simples e sociedade em comandita por ações. As sociedades estabe- lecidas pela legislaçãosão agrupadas em empresariais e não empresariais. As sociedades empresariais se caracterizam em função da execução de alguma atividade que seja privativa de empresário e compelida a registro, havendo várias espécies de sociedade empresarial (FORTES ADVOGADOS, 2018). Coelho (2016, p. 19) esclarece o contraste entre o empresário individual e a sociedade empresária nos seguintes termos: Deve-se desde logo acentuar que os sócios da sociedade empresária não são empresários. Quando pessoas (naturais) unem seus esforços para, em socie- dade, ganhar dinheiro com a exploração empresarial de uma atividade econô- mica, elas não se tornam empresárias. A sociedade por elas constituída, uma pessoa jurídica com personalidade autônoma, sujeito de direito independente, é que será empresária, para todos os efeitos legais. Os sócios da sociedade empresária são empreendedores ou investidores, de acordo com a colaboração dada à sociedade (os empreendedores, além de capital, costumam devotar também trabalho à pessoa jurídica, na condição de seus administradores, ou as controlam; os investidores limitam-se a aportar capital). As regras que são aplicáveis ao empresário individual não se aplicam aos sócios da sociedade empresária — é muito importante apreender isto. Portanto, a principal distinção entre o empresário individual e a sociedade empresária é que, na sociedade, por se tratar de uma pessoa jurídica, há patri- mônio próprio isolado do patrimônio dos sócios que a integram. Dessa forma, os patrimônios dos sócios a princípio não podem ser alcançados por dívidas da 7Empresário C06_Empresario.indd 7 23/08/2018 10:16:36 sociedade sem que antes se executem os bens sociais, conforme determina o art. 1.024 do Código Civil (BRASIL, 2002). Já o empresário individual não possui essa separação patrimonial, uma vez que todos os seus bens se comunicam, inclusive os pessoais, em nome do risco do negócio. Desse modo, a responsa- bilidade dos associados a uma sociedade empresária é subsidiária, pois, caso haja execução, ela recai sobre os bens da devida sociedade, ao passo que, na hipótese do empresário individual, a responsabilidade é direta (RAMOS, 2016). Servidor público e atividade empresária No Brasil, dentre outras normas, o desenvolvimento da atividade empresarial é pautado pelo Código Civil de 2002, mais especifi camente no seu Livro II, nomeado “Do Direito de Empresa”, que abrange os arts. 966 a 1.195. Ao regrar a competência para o exercício de empresa, o Código Civil regula de modo genérico no seu art. 972, dispondo nos seguintes termos: “Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos” (BRASIL, 2002, documento on-line). Portanto, para que o indivíduo seja considerado capaz, exige-se a verificação da possibilidade de impedimento legal ou não no exercício regular da atividade. As normas disciplinadoras se propõem a proteger a coletividade, inibindo as negociações que envolvam o servidor público em função incompatível com a sua classe, isto é, que o insiram no exercício da atividade empresarial. A vedação por incompatibilidade do servidor ao exercício empresarial inclui os magistrados (art. 36, I, da Lei Complementar nº. 35, de 14 de março de 1979), os membros do Ministério Público (art. 44, III, da Lei nº. 8.625, de 12 de fevereiro de 1993) e os militares (art. 29 da Lei nº. 6.880, de 9 de dezembro de 1980) (BRASIL, 1979; BRASIL, 1989; BRASIL, 1993; PEREIRA, 2016), como estudaremos na última seção deste capítulo. A Lei nº. 8.112, de 11 de dezembro de 1990, disciplina o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, das fundações públicas federais e das autarquias; veda a atuação como parte da gerência ou gestor de empresa privada ou sociedade civil; e veda o desempenho no comércio, seja na condição de acio- nista, comanditário ou cotista. A respeito das proibições impostas aos servidores públicos em função do seu cargo, assim dispõe o art. 117, X, da referida lei: “[...] participar de gerência ou administração de empresa privada, de sociedade civil, ou exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou coman- ditário” (BRASIL, 1990, documento on-line). Dessa forma, entendemos que o servidor público civil da União é vedado de participar de qualquer atividade Empresário8 C06_Empresario.indd 8 23/08/2018 10:16:36 que envolva a gerência ou a administração de sociedade privada ou, ainda, de exercer comércio. No entanto, se o servidor figurar como sócio acionista, cotista ou comanditário, isto é, sócio alheio à administração da empresa e que colabora apenas com capital, torna-se possível a sua participação (MAIDL, 2016). Em caso de descumprimento do estabelecido na Lei nº. 8.112/1990, o art. 132 estabelece que deve suceder a demissão do infrator e, ainda, se for caso de cargo de comissão, o ex-servidor fica incompatibilizado de nova investidura em qualquer cargo público federal pelo prazo de cinco anos. Logo, dadas as penalidades possíveis aos servidores públicos, há de se considerar que não vale a pena se arriscar no terreno empresarial (FREIRE, 2016). No que tange às esferas estaduais e municipais, para que um servidor público possa figurar como dono ou sócio de uma empresa, ou até mesmo exercer atividade de comércio, é necessária a análise da previsão contida na lei estatutária de cada um dos entes federativos, pois cada estado ou município disciplina legalmente sobre essas hipóteses (MAIDL, 2016). Em Minas Gerais, por exemplo, os servidores têm o seu impedimento regrado pelo Estatuto dos Servidores Públicos do Estado, conforme a Lei Estadual nº. 869, de 5 de julho de 1952. O estado de São Paulo também proíbe tal prática. É o que estabelece a Lei nº. 10.261, de 28 de outubro de 1968, da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALSP), que disciplina o Estatuto dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo. Assim, no seu art. 243, II, é vedado ao funcionário: Participar da gerência ou administração de empresas bancárias ou indus- triais, ou de sociedades comerciais, que mantenham relações comerciais ou administrativas com o Governo do Estado, sejam por este subvencionadas ou estejam diretamente relacionadas com a finalidade da repartição ou serviço em que esteja lotado (SÃO PAULO, 1968, documento on-line). Notemos que, se a conduta do servidor público de São Paulo não se enqua- drar no que dispõe o diploma anteriormente referido, a atuação é legal e, logo, é permitido que o funcionário seja dono ou sócio de uma empresa privada. Essa situação também se aplica ao cargo em comissão, conforme a definição do art. 3º da mesma lei. É válido destacarmos que a vedação se refere ao servidor com pretensão ao exercício de empresa. Assim, autoriza que o mesmo servidor figure sob outras hipóteses, como sócio de sociedade empresária, ao passo que o sujeito que desempenha a atividade é a própria pessoa jurídica e não os demais sócios. Portanto, ainda que exista a exceção à legislação específica citada, permanece a vedação que impede ao servidor público estadual exercer diretamente a 9Empresário C06_Empresario.indd 9 23/08/2018 10:16:36 atividade empresarial ou até mesmo operar como gestor ou administrador de empresa. O servidor pode figurar como cotista ou acionista de sociedades empresárias, contanto que não atue como gerente ou administrador. Ademais, tratando-se de registro na junta comercial, é defeso ao servidor público o registro como empresário individual ou titular de empresa individual de responsabilidade limitada (PEREIRA, 2016). Já no tocante à esfera municipal, ao analisarmos a Lei nº. 1.318, de 5 de dezembro de 2002, do município de Rio Negro, no Paraná, fica evidente a proibição trazida pelo seu art. 182, VI: “[...] participar da gerência ou admi- nistração de empresa privada, de sociedade civil, ou de exercer comércio e, nessa qualidade transacionar com o Município, exceto como acionista, quotista ou comanditário”(RIO NEGRO, 2002, documento on-line). Impedimentos e incapacidade do empresário A própria legislação vigente impede ou incapacita a atividade empresária do indivíduo, como podemos verifi car no art. 5º, XIII, da Constituição Federal de 1988: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabi- lidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XIII — é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, aten- didas as qualificações profissionais que a lei estabelecer (BRASIL, 1988, documento on-line). Capacidade civil para ser empresário O art. 972 do Código Civil especifi ca que todos os indivíduos maiores de 18 anos de idade em posse dos seus direitos civis; os maiores de 16 e menores de 18 anos, desde que independentes, ou seja, emancipados e que não estejam legalmente impedidos podem ser empresários (BRASIL, 2002). Nesse contexto, o incapaz pode figurar como empresário desde que isso ocorra por intermédio de um representante ou, então, desde que ele seja ade- quadamente assistido. É cabível em herança dar seguimento à empresa por ele enquanto incapaz, pelos seus pais ou pelo doador da herança. Nos casos em que o assistente ou representante se mostrar impedido, o juiz pode nomear um sujeito para gerenciar a firma, sem qualquer prejuízo ao que compete à Empresário10 C06_Empresario.indd 10 23/08/2018 10:16:36 responsabilidade do representante ou do assistente. Dessa maneira, assim que a incapacidade cessar, o negócio passa a ser gerido pelo herdeiro. Cabe destacarmos que a autorização, bem como a emancipação, carece de averbação no registro do comércio, na junta comercial (FORTES, 2016). Sócio incapaz Na situação de sócio incapaz, o registro público de empresas mercantis, a ofício das juntas comerciais, deve registrar os contratos ou as alterações contratuais da sociedade integrada por esse indivíduo, seguindo a regra do art. 974 do Código Civil. Por meio de representante ou devidamente assistido, o incapaz pode continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, pelos seus pais ou pelo autor de herança. Vejamos o que prevê o texto do art. 974, § 3º, I a III: § 3º O Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comer- ciais deverá registrar contratos ou alterações contratuais de sociedade que envolva sócio incapaz, desde que atendidos, de forma conjunta, os seguintes pressupostos: I — o sócio incapaz não pode exercer a administração da sociedade; II — o capital social deve ser totalmente integralizado; III — o sócio relativamente incapaz deve ser assistido e o absolutamente incapaz deve ser representado por seus representantes legais (BRASIL, 2002, documento on-line). Indivíduos impedidos por lei específica Alguns indivíduos, mesmo dotados de capacidade para a vida civil por força de lei, não poderão praticar atos como empresário ou administradores de sociedade empresaria, independentemente do âmbito de atuação. São eles: Militares A Lei nº. 6.880/1980, que disciplina o Estatuto dos Militares, estabelece que os militares em atividade e que integram as Forças Armadas e as Polícias Militares são vedados de atuação em atividades empresariais. Observemos o seu art. 29, transcrito a seguir: Art. 29 Ao militar da ativa é vedado comerciar ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou quotista, em sociedade anônima ou por quotas de responsabilidade limitada. 11Empresário C06_Empresario.indd 11 23/08/2018 10:16:36 § 1º Os integrantes da reserva, quando convocados, ficam proibidos de tratar, nas organizações militares e nas repartições públicas civis, de interesse de organizações ou empresas privadas de qualquer natureza. § 2º Os militares da ativa podem exercer, diretamente, a gestão de seus bens, desde que não infrinjam o disposto no presente artigo. § 3º No intuito de desenvolver a prática profissional, é permitido aos oficiais titulares dos Quadros ou Serviços de Saúde e de Veterinária o exercício de atividade técnico-profissional no meio civil, desde que tal prática não prejudique o serviço e não infrinja o disposto neste artigo (BRASIL, 1980, documento on-line). Magistrados Nos termos da Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº. 35/1979), aos magistrados fi cam ressalvadas as atividades ligadas à educação e é vedado o exercício empresarial. O seu art. 35 assim estabelece: Art. 36 É vedado ao magistrado: I — exercer o comércio ou participar de sociedade comercial, inclusive de economia mista, exceto como acionista ou quotista; II — exercer cargo de direção ou técnico de sociedade civil, associação ou fundação, de qualquer natureza ou finalidade, salvo de associação de classe, e sem remuneração; III — manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre proces- so pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças, de órgãos judiciais, ressalvada a crítica nos autos e em obras técnicas ou no exercício do magistério (BRASIL, 1979, documento on-line). Membros do Ministério Público O regramento para membros do Ministério Público está defi nido na Lei nº. 8.625/1993, que institui a Lei Orgânica do Ministério Público. O seu art. 44 disciplina o seguinte: Art. 44 Aos membros do Ministério Público se aplicam as seguintes vedações: I — receber, a qualquer título e sob qualquer pretexto, honorários, percenta- gens ou custas processuais; II — exercer advocacia; III — exercer o comércio ou participar de sociedade comercial, exceto como cotista ou acionista; IV — exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública, salvo uma de Magistério; Empresário12 C06_Empresario.indd 12 23/08/2018 10:16:36 V — exercer atividade político-partidária, ressalvada a filiação e as exceções previstas em lei. Parágrafo único. Não constituem acumulação, para os efeitos do inciso IV deste artigo, as atividades exercidas em organismos estatais afetos à área de atuação do Ministério Público, em Centro de Estudo e Aperfeiçoamento de Ministério Público, em entidades de representação de classe e o exercício de cargos de confiança na sua administração e nos órgãos auxiliares (BRASIL, 1993, documento on-line). Servidores públicos civis federais, estaduais e municipais O servidor tem obrigação de estar atento à sua profi ssão, como menciona Rocha Filho (2004, p. 141): [...] é a necessidade de não se distrair dos deveres de seu cargo, a conveni- ência de manter o prestígio e a dignidade de certas autoridades — que uma declaração de falência, por exemplo, poderia comprometer seriamente — e os perigos do abuso e do monopólio que orientam, em suma, a incompatibilidade. A Lei nº. 8.112/1990 regula a conduta dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais. Consta no art. 117, X, referente a essa questão, em observância ao parágrafo único, que os impe- dimentos aos servidores públicos não se aplicam a alguns casos: Art. 117 Ao servidor é proibido: X — participar de gerência ou administração de sociedade privada, perso- nificada ou não personificada, exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comanditário; Parágrafo único. A vedação de que trata o inciso X do caput deste artigo não se aplica nos seguintes casos: I — participação nos conselhos de administração e fiscal de empresas ou entidades em que a União detenha, direta ou indiretamente, participação no capital social ou em sociedade cooperativa constituída para prestar serviços a seus membros; II — gozo de licença para o trato de interesses particulares, na forma do art. 91 desta Lei, observada a legislação sobre conflito de interesses (BRASIL, 1990, documento on-line). Os servidores públicos, como o Presidente da República, os ministros, os governadores, os prefeitos e demais indivíduosque ocupam cargos comissio- nados, são absolutamente impedidos de desenvolver atividade empresarial, tendo como uma das justificativas para tal restrição o prazo estabelecido 13Empresário C06_Empresario.indd 13 23/08/2018 10:16:37 para os seus mandatos. Já para senadores, deputados e vereadores em geral, o impedimento é parcial, à exceção de que “a empresa goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada”, como disciplina a art. 54, II, a, da Constituição Federal. No caso desses últimos entes citados, podem ser empresários em simultâneo com o exercício da função legislativa, desde que observados os requisitos do art. 55 da Constituição Federal, que acarreta a perda de mandato em caso de violação da proibição. A decisão a respeito do julgamento acerca da perda de mandato fica a cargo da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal (REQUIÃO, 2013). Médicos relacionados ao ramo farmacêutico O Código de Ética Médica, atualizado e aprovado pela Resolução nº. 1.246, de 8 de janeiro de 1988, do Conselho Federal de Medicina, dispõe, no seu art. 98, que fi ca impedido o profi ssional médico que: [...] exercer a profissão com interação ou dependência de farmácia, laboratório farmacêutico, ótica ou qualquer organização destinada à fabricação, manipula- ção ou comercialização de produtos de prescrição médica de qualquer natureza, exceto quando se tratar de exercício da medicina do trabalho (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 1988, documento on-line). Para tanto, a vedação é expressa no seu art. 99: “[...] exercer simultaneamente a Medicina e a Farmácia, bem como obter vantagem pela comercialização de medicamentos, órteses ou próteses, cuja compra decorra de influência direta em virtude da sua atividade profissional” (CONSELHO FEDERAL DE ME- DICINA, 1988, documento on-line). Todavia, essa proibição é parcial, uma vez que abrange apenas os profissionais pertencentes aos ramos anteriormente citados (ROCHA FILHO, 2004). Estrangeiros não residentes no Brasil No que diz respeito aos estrangeiros residentes no País, podem desenvolver ativi- dade empresarial nos limites da lei ordinária mediante a devida autorização com visto permanente ao ingressar e residir no Brasil, conforme dispõe a Constituição Federal no seu art. 5º, XIII. Antes da Constituição de 1988, havia muitas limitações, diferente de hoje, e não era permitido aos estrangeiros serem proprietários ou administradores de empresas jornalísticas, de radiodifusão ou de televisão. Atu- almente, a regra constante no art. 222 da Constituição concede essa possibilidade: Empresário14 C06_Empresario.indd 14 23/08/2018 10:16:37 A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sede no País” (BRASIL, 1988; ROCHA FILHO, 2004, p. 105). Quanto aos estrangeiros não residentes em território nacional, há diversas opiniões que remetem desde a legislação do imposto de renda até o Estatuto do Estrangeiro. A primeira detém preceitos aos estrangeiros não residentes no Brasil, instituindo o pagamento de impostos conforme rendimentos oriundos no País. Já a segunda, de acordo com a Lei nº. 6.815, de 19 de agosto de 1980, no seu art. 99, veda tanto aos estrangeiros residentes no País a atividade empresarial como aos que não residem. Porém, é permitido aos estrangeiros que não residentes se tornarem sócios de empresas com sede em solo brasileiro, sempre em observância à lei que rege a sua participação (ROCHA FILHO, 2004). Falidos não reabilitados A Lei nº. 11.101, de 9 de fevereiro de 2005, regula as recuperações judicial, extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária. Dessa forma, todo o indivíduo falido e não reabilitado é apontado como parte da massa falida por não alcançar a recuperação judicial ou extrajudicial, posto que perdeu os seus bens e a administração deles. Esse é o motivo que veda a execução da atividade empresarial até a sua reabilitação, a ser decretada pelo juiz competente (BRASIL, 2005) Quando a falência é decretada por condenação de fraude ou, ainda, por resposta a crime falimentar, conforme disposto nos arts. 138 e 197 da referida lei e no Decreto Lei nº. 7.661, de 21 de junho de 1945, não basta a declaração de extinção das obrigações para se tornar reabilitado, uma vez que é necessário a reabilitação penal após o decurso do prazo legal (COELHO, 2000). Art. 197 A reabilitação extingue a interdição do exercício do comercio, mas somente pode ser concedida após o decurso de três ou de cinco anos, contados do dia em que termine a execução, respectivamente, das penas de detenção ou de reclusão, desde que o condenado prove estarem extintas por sentença suas obrigações (BRASIL, 2005, documento on-line). O art. 181 da Lei nº. 11.101/2005 antevê condenação por crime como con- sequência dos casos previstos: “a inabilitação para o exercício da atividade empresarial, o impedimento para o exercício de cargo ou de função em conselho 15Empresário C06_Empresario.indd 15 23/08/2018 10:16:37 administrativo, diretoria ou gerência das sociedades sujeitas a esta Lei e a impossibilidade de gerir empresa por mandato ou por gestão de negócio” (BRA- SIL, 2005). Assim, caso viole as normas impostas, o inabilitado é condenado por crime. Todavia, o falido tem o direito de pedir ao juiz uma autorização para prosseguir com a sua atividade, sendo ela controlada. Nesses termos, é impossível iniciar um novo negócio (ROCHA FILHO, 2004). Leiloeiros O Decreto nº. 21.981, de 19 de outubro de 1932, regula a profi ssão de leiloeiro no seu art. 36 e, novamente, tal atividade é confi rmada pelo Departamento Nacional de Registro de Comércio mediante o art. 12 da Instrução Normativa nº. 113, de 28 de abril de 2010. Esse último artigo prevê as seguintes proibições ao leiloeiro: “[...] I — sob pena de destituição e consequente cancelamento de sua matrícula: a) exercer atividade empresária, ou participar da administração e/ou de fi scalização em sociedade de qualquer espécie, no seu ou em alheio nome” (BRASIL, 1932; BRASIL, 2010). Desse modo, a violação da proibição acarreta consequência relacionada à sua matricula, como disciplina o art. 16 da mesma normativa: “[...] constituem-se infrações disciplinares: II — manter sociedade empresária” (BRASIL, 2010, documento on-line). Por gozarem da fé pública, cabe a esses profissionais exercer apenas as funções competentes à sua profissão. Eles devem estar matriculados no re- gistro públicos de empresas mercantis, de acordo com o art. 32, I, da Lei nº. 8.934/1994. Antigamente, quando se tratava dos leiloeiros, havia a previsão dos impedimentos presentes no Código Comercial e que hoje já se encontram em parte revogados, vigorando a legislação particular (REQUIÃO, 2013). Devedores do Instituto Nacional de Seguro Social É devedor do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) o indivíduo que não recolhe as contribuições durante o seu tempo de trabalho, conforme ex- plicação da própria Previdência Social. Frente a isso, o indivíduo fi ca vedado de comercializar pela falta de comprometimento com o recolhimento e a sua dívida pode ser executada a qualquer momento, tendo a Previdência o prazo de até cinco anos para a cobrança. O art. 95, § 2º, da Lei Orgânica de Seguridade Social (Lei nº. 8.212, de 24 de julho de 1991) estabelece que “[...] a empresa que transgredir as normas desta Lei, além das outras sanções previstas, sujeitar-se-á, nas condições em que dispuser o regulamento: [...] d) à interdição para o exercício do comércio, se for sociedade Empresário16 C06_Empresario.indd 16 23/08/2018 10:16:37 mercantil ou comerciante individual” (BRASIL, 1991, documento on-line). Cabe ao Direito Previdenciário regular esse tipo de proibição (COELHO, 2000). Sociedade entre cônjuges e terceiros Em