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TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 1
O nascimento da Psicanálise e a constituição de seu objeto de estudo.
A insuficiência do modelo médico no tratamento da histeria.
Os primórdios da psicanálise – do trauma à fantasia, da hipnose à associação livre e da catarse à elaboração
psíquica.
Bibligrafia:
BRENNER, C. Duas hipóteses fundamentais. In: Noções Básicas de Psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1975.
FREUD, S. História do Movimento Psicanalítico (1914). In: Obras Completas de S. Freud. (volume XIV) Rio de Janeiro:
Imago Editora Ltda, 1969.
______. Cinco Lições de Psicanálise: Primeira Lição (1912). In: Obras Completas de S. Freud (volume XI), Rio de Janeiro:
Imago Editora Ltda.GAY, P. Freud, uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
QUINODOZ, J. M. Ler Freud: guia de leitura da obra de S. Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1998.
______. A sociedade depressiva. In: Por que a psicanálise? São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2000.
A Psicanálise constitui-se como um método de investigação dos processos inconscientes e foi criada no final do
século XIX por Sigmund Freud. A construção, história e percurso desta teoria se mantêm ligada à vida de Freud,
já que foi este neurologista austríaco o responsável por sua invenção e desenvolvimento (QUINODOZ, 2007).
Sua origem é decorrente de um momento histórico e social em que as circunstâncias permitiram o surgimento de
uma teoria e de uma prática que tentasse abarcar os aspectos especificamente psicológicos de determinados
fenômenos, dada a insuficiência de outras tentativas para explicá-los, ou seja, os fenômenos da conversão
histérica representavam um desafio à ciência, já que a medicina não conseguia explicar sua origem, sendo de
extrema importância compreender e tratar os fenômenos psicopatológicos.
E, se estamos aqui fazendo uma constante ligação entre fenômenos históricos, sociais, culturais e psicológicos,
há que se tomar como ponto pacífico o fato de a histeria, ou mesmo qualquer afecção, não ser considerada
como um suposto mau funcionamento de um organismo, tomado isoladamente (é justamente de uma
perspectiva organicista que se pretende distanciar-se). As oposições ou divergências entre um mundo interno
(objeto de estudo da Psicanálise) e um externo não se restringem a buscar um argumento que justifique e
comprove a supremacia de um sobre o outro, como em certas disputas estéreis sobre o que determinaria a vida
humana: o dado objetivo ou o subjetivo.
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O que se propõe aqui para pensar a questão da constituição de um conhecimento (investigação e tratamento)
que tem como objeto o mundo interno será talvez algo mais próximo de uma constante reflexão, dado que no
que diz respeito à condição humana o objeto, ao ser apreendido pela percepção, é transformado em realidade
vivida subjetivamente e seria necessário elucidar que processos e elementos psíquicos estão em jogo nesta
transformação. O que se coloca como ponto de partida para as investigações psicanalíticas é a ausência de uma
compreensão dos aspectos especificamente psíquicos que permeiam a relação sujeito/objeto (ROUDINESCO,
2000).
A histeria faz parte de um grupo de acepções que estão diretamente ligadas ao nascimento da Psicanálise, pois
a investigação e o tratamento deste tipo de neurose, a partir de uma compreensão dos fatores psíquicos, foi o
ponto de partida de Freud na construção de um arcabouço teórico que permitisse escutar as histéricas para além
dos sintomas que tanto alarde causavam. Pela escuta das histéricas, Freud criou a psicanálise e desenvolveu a
teoria que a sustenta, por meio de uma prática clínica que vai delineando seu método terapêutico e, assim,
define sua ética.
Ao pensar a questão do mundo interno estamos às voltas com o problema da dicotomia sujeito/objeto, que é
tema ainda de discussões em diversas disciplinas, desde o século XVI com Descartes.
A perspectiva científica que pretende colocar seus objetos de estudo como tendo uma realidade em si mesmos,
constituídos como objetos da natureza, pensará o sujeito como aquele que é dotado de uma consciência e de
uma razão que lhe conferem o poder de dominar e controlar (consciente e racionalmente) a Natureza e seus
objetos e inclusive a si mesmo.
No entanto, como explicar quando este sujeito mostra falhas, justamente, nesta capacidade de dominar e
controlar a realidade externa e a si mesmo? E mais: o que fazer quando os recursos científicos disponíveis
(físico-químicos e anátomo-patológicos) não conseguem nem oferecer uma explicação, nem uma ação
condizente com os problemas surgidos da relação de um dado sujeito com o mundo externo?
Será a partir de uma preocupação com os conflitos e sofrimentos que adquiriram uma conotação patológica que
surgirá a Psicanálise, enquanto uma terapêutica e uma teorização capazes de oferecer uma nova visão sobre o
homem, seu psiquismo e suas relações com o mundo externo.
A Psicanálise se colocará como um campo de conhecimento dedicado exclusivamente aos fenômenos psíquicos
(o que não exclui as relações deste com o mundo externo), asseverando sempre a importância de se buscar
uma explicação para aquelas manifestações propriamente humanas – comportamentos, afetos e pensamentos –
que pareciam contradizer certa noção de homem como ser racional, capaz de dominar a si mesmo e ao mundo
única e exclusivamente através da consciência (ROUDINESCO, 2000).
É deste confronto entre uma concepção de homem dono e senhor de si mesmo e o que a experiência clínica
com as histéricas mostrava sobre a fragilidade da condição humana, que tem origem o primeiro dos alicerces da
teoria psicanalítica: o conceito de inconsciente.
Com isto, Freud lança uma das primeiras polêmicas que a Psicanálise terá com o mundo científico e filosófico,
pois aquilo sobre o que se julgava ter domínio, os próprios pensamentos, idéias e comportamentos e que
serviam como instrumento para controlar o incontrolável – os afetos, afinal de contas, estaria determinado pelo
inconsciente, por algo fora do controle consciente.
Assim o psíquico não coincide, para a Psicanálise, com o consciente; a vida mental ou o mundo interno ganham
uma nova acepção e uma nova dimensão, que exigiu uma teorização e abordagem dos fenômenos psicológicos
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específicas.
As idéias de Freud, desenvolvidas entre final do século 19 e início do século 20 marcaram o pensamento
contemporâneo.
EXERCÍCIO
O trecho abaixo foi retirado do livro “Por que a Psicanálise?” de Elisabeth Roudinesco (2000):
“Os cientistas sempre consideraram a psicanálise uma hermenêutica. Longe de
construir um modelo do comportamento humano, a doutrina freudiana seria, a
acreditarmos neles, apenas um sistema de interpretação literária dos afetos e dos
desejos. Conviria, portanto, quer excluí-la do campo da ciência, junto com as outras
disciplinas que não dependem da experimentação, quer repensar a organização de
todos esses campos (antropologia, sociologia, história, lingüística, etc.) em função de
uma “ciência cognitiva”, a única capaz de fazê-los entrar na categoria de “ciência
verdadeira” (ROUDINESCO, 2000; P. 113)
Podemos dizer que a psicanálise:
A. É uma especialidade da medicina, uma vez que surgiu como tratamento alternativo para a cura da
histeria.
B. É uma especialidade da psicologia, uma vez que surgiu como uma das técnicas possíveis de psicoterapia
na área da psicologia clínica.
C. É uma teoria e uma prática sem caráter científico, uma vez que seus pressupostos não são comprováveis
por pesquisas.
4. É uma teoria e uma prática que só poderá ser confiável quando seus pressupostos forem comprovados
por pesquisasque incluam um número significativo de sujeitos.
5. É uma teoria construída a partir da experiência clínica e, ao mesmo tempo, uma prática de investigação e
uma terapêutica, que encontra também um lugar como um saber que pode ser útil na leitura do social.
Resposta E.
A Psicanálise é a primeira teoria sobre o psiquismo que se originou diretamente da prática clínica, fazendo
coincidir investigação e tratamento. Foi com a descoberta da linguagem como instrumento primordial para a
abordagem dos conflitos psíquicos e seus sintomas que dá à Psicanálise mais este caráter inovador na
compreensão dos fenômenos psíquicos: ao oferecer a possibilidade de dar palavras ao afeto e, com isto,
propondo que os sintomas poderiam ser substituídos por outras saídas, a Psicanálise propicia o surgimento de
um novo objeto e campo de atuação para a Psicologia: o mundo interno e o trato com sofrimento psicológico, a
partir de uma perspectiva estritamente psicológica sem intermediação de quaisquer recursos objetivos, contando
explicitamente com as interações psíquicas humanas (GAY, 1989).
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Isto ocorre a partir de 1882 quando Freud estimulado pelo trabalho de Breuer interessa-se pela sugestão e
hipnose no tratamento da sintomatologia atribuída à histeria. Joseph Breuer teve um papel fundamental no
nascimento da psicanálise e forneceu a Freud a técnica que este utilizaria em sua clientela. Contudo, o espírito
investigativo de Freud, fez com que logo se afastasse desta técnica, bem como do método catártico,
substituindo-as pela técnica de associação livre.
Os “Estudos sobre a histeria” (1895) é o resultado de 10 anos de trabalhos clínicos desenvolvidos de Freud e
Breuer; neste trabalho os autores fazem descrição detalhada do tratamento de cinco pacientes. Com esta
publicação encerra-se colaboração entre estes autores, em que o fator precipitante para o encerramento da
parceria foi a discordância de Breuer em relação a Freud, já que este último insistia na importância de fatores
sexuais na etiologia da histeria (QUINODOZ, 2007).
O que contribuiu, em grande parte para que a Psicanálise pudesse ser compreendida como um instrumento que
pode explicar fenômenos psicológicos ditos normais foi o trabalho de análise dos sonhos. É com a “Interpretação
dos sonhos”, publicada em 1900, que Freud com a sua Psicanálise pode pensar em chamar a atenção de
pessoas interessadas não mais só em tratar neuroses, mas de todos que tivessem algum interesse na alma
humana, agora vista sob uma perspectiva dos fenômenos psíquicos enquanto um campo aberto à investigação
científica. Nesta obra Freud promove uma grande ruptura na forma de abordar e compreender o homem, pois a
ciência apenas se preocupava com o homem em sua dimensão consciente. O próprio Freud refere o conceito de
inconsciente e a formulação de que “o homem não é senhor em sua própria morada” equiparando-a às quebras
paradigmáticas decorrentes da mudança do teocentrismo ao heliocentrismo e ao choque da teoria evolucionista
darwiniana.
Um conceito central e seu correlato no campo da prática clínica - a transferência - junto com o conceito
psicanalítico que articula num só termo o psíquico e o somático - a pulsão - formam as bases do pensamento
freudiano que se construiu ao longo de quarenta anos de produção e sempre reconhecendo a necessidade de
constantes revisões e ampliações. Podemos dizer que Freud descortinou um horizonte a partir do qual puderam
surgir outras teorias psicológicas que, em diferentes graus, procuraram rever, ampliar e mesmo modificar
radicalmente (a ponto de não mais poderem ser designadas como psicanálise) os pressupostos teóricos e as
técnicas que deles podem surgir. Os oponentes ou dissidentes da Psicanálise podem ser agrupados como
aqueles que romperam formalmente com um ou mais dos alicerces da Psicanálise (inconsciente, transferência e
pulsão), no entanto buscavam e ainda buscam confirmar a existência de um mundo interno, passível de
investigação e intervenção.
Como podemos depreender de nossas afirmações, ao tomarmos o enfoque teórico psicanalítico enveredamos à
investigação do fenômeno psicológico em profundidade, indo além das explicações físico-químicas ou anátomo-
patológicas para os fenômenos psíquicos, pelo reconhecimento de uma dimensão específica - a de mundo
interno – desconhecido do próprio homem e não idêntica a si mesmo, em constante interação com o mundo
externo, de forma que sujeito e objeto não mais se constituem isolados, mas suplementares.
EXERCÍCIO
Anna O. era uma jovem de 21 anos, com altos dotes intelectuais, manifestou no curso de sua doença, que durou
mais de dois anos, uma série de perturbações físicas e psíquicas mais ou menos graves, entre eles:- paralisia
espástica de ambas as extremidades do lado direito; perturbações dos movimentos oculares e várias alterações
da visão; tosse nervosa intensa; repugnância pelos alimentos e impossibilidade de beber durante várias
semanas; redução da faculdade de expressão verbal, que chegou a impedi-la de falar ou entender a língua
materna; e estados de “absence” (ausência), estados confusionais, delírios e alteração total da personalidade.
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O quadro histérico de Anna O. (Breuer, 1895) abriu caminhos para uma nova compreensão da histeria, pois por
meio de seu quadro observou-se que:-
I. O quadro mórbido encontrado em Anna O. revelava que os órgãos vitais internos (coração, rins etc.)
tinham um funcionamento anormal, conseguindo ser detectados em exames objetivos.
II. A sintomatologia apresentada por Anna O. não mantinha correspondência a qualquer anormalidade
orgânica, mas relacionava-se aos violentos abalos emocionais que vivera.
III. Breuer observa que depois de relatar certo número de fantasias a paciente experimentara sentimentos de
alívio e se reconduzia à vida normal.
IV. A hipnose e o método catártico impediram Breuer de melhorar sua compreensão a cerca do quadro de
Anna O.
V. O saber médico torna-se fundamental na compreensão e estudo das lesões cerebrais orgânicas, mas
diante da histeria o médico não sabe o que fazer, pois seu método objetivo, assentado em bases biológicas,
carece de recursos para compreender e tratar tais quadros.
ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA
A. São corretas as afirmações I, II e IV.
B. São corretas as afirmações I, II, III e IV.
C. São corretas as afirmações II, III e V.
D. São corretas as afirmações II, III e IV.
E. São corretas as afirmações I, II, III e V.
Resposta C.
Apesar de sua evolução, a psicanálise tinha em sua construção e desenvolvimento uma tendência
transgressora, que comportava em sua natureza uma inevitável e sofrida oposição, já que feria os preconceitos
da humanidade civilizada em alguns pontos especificamente sensíveis. (FREUD, 1924)
Em termos geográficos, a Psicanálise expandiu seus domínios e isto não se faz sem que, ao mesmo tempo em
que produza modificações na concepção de homem, de relações e de tratamento para males psíquicos nos
lugares onde é (ou parece ser) aceita, também “sofre” modificações, pois é um conhecimento dependente das
possibilidades que cada cultura oferece em termos de assimilação de uma teoria que toca num dos pontos
nevrálgicos da imagem “ilibada” que a humanidade pretende ter de si mesma: a sexualidade. Este ponto de
apoio da teoria psicanalítica é tanto mal compreendido quanto rejeitado.
Mal compreendido porque se toma o termo sexual como sinônimo de genital, dando importância e ênfase ao
aspecto puramente biológico, como se para o homem a sexualidade estivesse presa à anatomia, sendo que esta
é justamente a subversão fundamental da Psicanálise: o sexual é redefinido como uma disposição psíquica
propriamente humana, desligada de seu fundamentobiológico ou anatômico. E, para pensar esta nova
concepção de sexualidade, e de toda atividade humana a ela ligada, são construídos conceitos e teorias que irão
representar esta realidade: a pulsão, a libido, o apoio e a bissexualidade.
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Freud não inventou uma terminologia particular para distinguir os dois grandes campos da sexualidade: a
determinação anatômica, por um lado, e a representação social ou subjetiva, por outro. Não obstante, por sua
nova concepção, ele mostrou que a sexualidade tanto era uma representação ou uma construção mental, quanto
o lugar de uma diferença anatômica. Em conseqüência disso, sua doutrina transformou totalmente a visão que a
sociedade ocidental tinha da sexualidade e da história da sexualidade em geral. (ROUDINESCO, 1998).
A rejeição tanto produziu movimentos dissidentes dentro da Psicanálise (Adler, Jung), quanto produziu uma
infinidade de leituras distorcidas pelos preconceitos que tentavam minimizar a importância do conceito-chave – o
inconsciente, supervalorizando o ego em função de seu papel de mediador entre o mundo externo e o interno,
em detrimento das outras regiões do psiquismo (id e superego). É uma leitura da teoria psicanalítica que se
mantém fiel às necessidades do homem de controle dos próprios conflitos, buscando meios de adaptá-lo à
realidade externa. O mais curioso é buscar isto numa teoria que tem como objetivo expresso a confrontação do
sujeito (do inconsciente) com seu desejo, com sua falta, com a necessidade imposta a cada um de resolver a
interdição do incesto, tema representado na conceituação do complexo de Édipo.
Se, num primeiro momento, o inconsciente surge como uma abertura para as ciências psicológicas, encabeçada
pela Psicanálise, a partir das décadas de 30-40 do século XX, com sua expansão geográfica, principalmente
para os Estados Unidos, este mesmo conceito passará a ser um divisor de águas entre a Psicanálise e as
Psicologias da Consciência. Estas, mobilizadas pela necessidade de fortalecer o “pobre” ego diante das
exigências do mundo externo e do mundo interno, colocando como meta do tratamento a busca de uma relação
harmônica, não conflituosa com o meio, do qual o terapeuta/analista seria a figura exemplar, criaram um novo
campo de conhecimento, com novas teorias sobre o mundo interno, já não mais vinculado à idéia de
inconsciente, com novas técnicas, agora mais atentos ao trabalho com os afetos, com a comunicação não-
verbal, através de uma prática clínica em que a relação dual, interpessoal (não mais transferencial) entre
paciente e terapeuta seria o norte do trabalho, o terapeuta buscando sempre uma aliança com o lado saudável
do paciente para ajudá-lo a integrar-se psíquica e socialmente.
Lembrando que, se para a Psicanálise o psíquico só ganha consistência de mundo interno a partir da noção de
inconsciente, que mantém relação com as três instâncias – id, ego e superego – em maior ou menor grau; para
as Psicologias da Consciência o importante será como a pessoa, identificada ao seu ego, centro de
sua personalidade, já destituído de qualquer conotação inconsciente, enfrentará a luta pelo controle e dissolução
de seus conflitos. A Psicanálise também espera que o ego possa ser um aliado na luta contra a neurose, no
entanto isto não estaria a serviço de uma adaptação ao contexto social, só porque este coloca a “doença mental”
como um desvio que não coincide com seus desígnios. A idéia principal é recolocar a noção de doença mental
no âmago da condição humana e não fora dela, buscando responder antes quem é este que sofre e adoece, e
esperando que a noção de mundo interno, que não precisa ser psicanalítica, possa oferecer um espaço de
liberdade para o homem na sua relação com o mundo externo.
EXERCÍCIO
Freud ao dissertar sobre a História do Movimento Psicanalítico comenta:-
“Considerava minhas descobertas contribuições normais à ciência e esperava que
fossem recebidas com esse mesmo espírito. Mas o silêncio provocado pelas minhas
comunicações, o vazio que se formou em torno de mim, as insinuações que me foram
dirigidas, pouco a pouco me fizeram compreender que as afirmações sobre o papel da
sexualidade na etiologia das neuroses não podem contar com o mesmo tipo de
tratamento dado ao comum das comunicações. Compreendi que daquele momento
em diante eu passara a fazer parte do grupo daqueles que “perturbaram o sono
do mundo”, como diz Hebbel e que não poderia contar com objetividade e tolerância.”
(FREUD, 1914; p.31)
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A frase destacada em negrito, representa que:
A. O autor ficou isolado por muito tempo, e as reações às suas descobertas estavam permeadas por pré-
conceitos.
B. Os opositores do autor ergueram severas resistências internas ao contato com as ideias apresentadas.
C. O autor tem consciência da força de suas palavras, leva em consideração a opinião externa,
adequando-se ao meio no qual se encontrava.
D. O autor estaria sendo punido por ousar contradizer aquilo que, até então, era inquestionável.
E. O autor sempre foi apoiado por ousar contradizer aquilo que, até então, era inquestionável.
Resposta C.
A hipnose teve grande importância no início da psicanálise, pois pelo uso da hipnose Breuer favorecia a
revivência de algumas cenas que estavam esquecidas pelo paciente, esta revivência provoca a "ab-reação", que
consistia numa descarga afetiva emocional (reações com expressão de grande comoção, choro, lágrimas e
sentimentos intensos) e desta forma inaugura o método catártico ou catarse.
Para condução do método catártico Breuer supõe a ideia da ocorrência de um evento de grande força e impacto
emocional, não manifesto em ações ou comportamentos verbais, que por fim eclodiria no trauma psíquico, este
trauma desencadeia o mal psíquico (sintoma), originando-se da emoção reprimida, presente no inconsciente,
sem o conhecimento consciente do sujeito sobre o evento traumático e, para lembrá-lo, conduz-se o paciente à
hipnose.
Anna O. a famosa paciente de Breuer denominou este método de trabalho como chimney sweeping ("limpeza de
chaminé") ou talking cure ("cura pela fala"). Resumidamente, método catártico ou catarse é o processo em que o
paciente em estado hipnótico, fala tudo que lhe vem à mente e obtém grande alívio emocional.
A hipnose desperta o interesse de Freud por meio de um relato de Breuer, mas é com Charcot que busca
melhorar seu aprendizado. Sua incredulidade com os métodos científicos o impulsionaram ao emprego da
hipnose com suas pacientes histéricas, considerando a hipótese da sedução sexual. Pelo fato de ser um mau
hipnotizador resolveu experimentar que a mesma liberdade em associar ideias, obtidas pela hipnose
acontecesse com os pacientes despertos. A paciente Elizabeth Von R. foi a paciente que solicitou a Freud a
liberdade para associar livremente, sem pressão, permitindo-lhe compreender que as barreiras contra o recordar
provinham de forças mais profundas.
Freud no início da construção da psicanálise concebe a ocorrência do trauma sexual real acontecendo nos
primórdios da infância, como uma forma de abuso sexual e que se mantinha reprimido no inconsciente. Aos
poucos o autor vai se convencendo de que havia distorções importantes no relato de suas histéricas, que seriam
decorrentes de suas “fantasias inconscientes”. Desta forma, na medida em que a “teoria do trauma” não dava
conta de explicar a complexidade do sofrimento neurótico, Freud envereda para a teoria inicial da sedução e da
importância das fantasias na produção do adoecimento psíquico.
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O questionamento de Freudàs dificuldades decorrentes da hipnose e método catártico faz entrar em cena a
elaboração psíquica. Elaboração psíquica consiste no trabalho de integração das experiências vividas,
independente de sua origem (excitações somáticas, estímulos externos ou informações, aspectos do mundo
mental). O trabalho de elaboração possibilita a transformação da energia livre em energia ligada, abrindo
caminho para o processo secundário e, consequentemente, o adiamento da descarga da tensão. Se o evento
traumático supera a capacidade de assimilação e integração deste à mente, o processo de elaboração possibilita
a “compreensão” interna que integra à vida do sujeito, contribuindo para integrar o que antes se mantinha
dissociado, fora da consciência.
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