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As principais cidades desse período de transição localizavam-se na Itália, e seus habitantes comerciantes estabeleceram relações comerciais com Império Bizantino e com as grandes cidades muçulmanas de Bagdá, Damasco e Cairo. Os produtos tinham grande procura não somente na Itália, mas também no território do que hoje é Alemanha, França e Inglaterra. Porém, havia alguns problemas para o desenvolvimento pleno das relações comerciais. O comércio com moedas se tornou mais frequente, mas havia uma pluralidade de moedas diferentes, com valores distintos. Isso fez com que sur- gissem os cambistas, também chamados de banqueiros, porque analisavam as moedas em cima de um banco. A partir dessas atividades, os banqueiros passaram a emprestar dinheiro, cobrando juros, e enriquecendo a partir dessa atividade. Esse processo fez com que Le Goff e Schmidt (2006, p. 223) assim defi- nissem a cidade na Baixa Idade Média: A cidade medieval é, antes de mais nada, uma sociedade da abundância, con- centrada em um pequeno espaço em meio a vastas regiões pouco povoadas. Em seguida, é um lugar de produção e de trocas, onde se articulam o artesanato e o comércio, sustentados por uma economia monetária. É também o centro de um sistema de valores particular, do qual emerge a prática laboriosa e criativa do trabalho, o gosto pelo negócio e pelo dinheiro, a inclinação para o luxo, o senso da beleza. É ainda um sistema de organização de um espaço fechado com muralhas, onde se penetra por portas e se caminha por ruas e praças, e que é guarnecido por torres. Mas também é um organismo social e político baseado na vizinhança, no qual os mais ricos não formam uma hierarquia, e sim um grupo de iguais — sentados lado a lado — que governa uma massa unânime e solidária. [...] Essa sociedade laica urbana conquistou um tempo comunitário, em que sinos laicos indicam a irregularidade das chamadas à revolta, à defesa, à ajuda. Contudo, esse processo de “urbanização” da sociedade não ocorreu sem conflitos. Nas cidades, houve um processo de exploração dos trabalhadores nas próprias corporações de ofício que levou à sua extinção, e, no campo, uma série de revoltas camponesas em função da exploração realizada pelos senhores feudais, além do descontentamento com as limitações impostas pelas relações vassálicas. A valorização das atividades comerciais, somada à ascensão dos centros urbanos, e as possibilidades de unificação da moeda e do sistema de medidas levariam ao desenvolvimento de relações capitalistas de trabalho e produção e ao surgimento de novos estratos sociais, como a burguesia, com interesses próprios. As relações sociais, os estratos dessa sociedade citadina e suas sociabilidades são resultados de mudanças culturais, econômicas, políticas e sociais. 7Idade Moderna E quem era o burguês? O burguês era o habitante do burgo, um homem livre (no sentido de não submetido às relações de poder que envolviam suseranos, vassalos e servos), que exercia profissões liberais como artesão ou comerciante. Os burgueses foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento das cida- des, um processo que foi impulsionado com a abertura de rotas comerciais que ligavam o Ocidente ao Oriente e a retomada do comércio marítimo pelo Mar Mediterrâneo a partir do movimento das Cruzadas. Aos poucos, tornaram-se numerosos e, então, estabeleceu-se uma hierarquia entre os próprios burgueses de acordo com o tamanho de seus comércios e sua capacidade produtiva. O esquema da Figura 1, a seguir, representa uma síntese do fortalecimento das cidades e das mudanças ocorridas que levariam à modernidade. Figura 1. As cidades e a modernidade. Em resumo, podemos estabelecer o seguinte encadeamento de eventos para explicar a relação dos burgos com a modernidade: a produção de artigos no Oriente (especiarias, tapeçarias e tecidos finos) desperta o interesse da nobreza feudal no Ocidente; o comércio com o Oriente exige a utilização de moedas, que também desperta a busca por metais preciosos; as mercadorias do Oriente levam a um processo de “sedentarização” dos mercadores nos burgos, rompendo com o caráter local do comércio e estabelecendo rotas comerciais; há um processo de enriquecimento dos mercadores; as mudanças nas atividades comerciais afetam a produção agrícola e artesanal, levando a críticas nas estruturas feudais. Idade Moderna8 Todo esse processo ocorre nas cidades, ainda que a maioria da população europeia fosse rural. Esse é um alerta que faz o historiador Fernand Braudel (1985, p. 13) e que demonstra, mais uma vez, os traços de continuidade e ruptura presentes durante a Idade Moderna: [...] por um lado, os camponeses nas aldeias, vivendo de uma forma quase autônoma, quase autárquica; por outro lado, uma economia de mercado e um capitalismo em expansão [...]. O perigo reside, evidentemente, em vermos somente a economia de mercado, em a descrevermos com tal exuberância de detalhes que denote uma presença avassaladora, persistente, não sendo ela afinal senão um fragmento de um vasto conjunto. Do teocentrismo ao antropocentrismo Antes de nos dedicarmos ao estudo das novas formas de pensamento surgidas na modernidade e seu refl exo nas práticas e nos valores da sociedade moderna, é necessário lembrar quais eram as bases da sociedade medieval no que diz respeito à sua visão de mundo. Durante a Idade Média, a religião era estruturante dos âmbitos cultural, econômico, político e social das sociedades da Europa Ocidental, e não havia uma nítida distinção entre essas esferas e a religiosa, que permeava todo o social. Em outras palavras, pode-se afirmar que a visão de mundo dos europeus durante a Idade Média é religiosa, mesmo que houvesse diferenças entre algumas concepções e práticas, de acordo com o local ou o tempo, o que também faria com que a Igreja Católica se esforce para a normatização e unificação de cultos, dogmas, práticas e rituais. A marcação do tempo do calendário e do relógio vincula-se a essa visão de mundo religiosa, ou seja, a organização da vida cotidiana se faz a partir da relação do homem com o sagrado, assim como as explicações para os fenômenos naturais e sociais eram encontradas nos dogmas religiosos. Nessa sociedade, em que todo o conhecimento se dava a partir da fé, refletir sobre o mundo a partir de outros parâmetros, como outras crenças ou por meio da natureza, era considerado heresia. Entretanto, essa situação começa a se modificar a partir do século XI, quando se inicia uma aproximação das formas de se conhecer o mundo a partir da lógica, do estudo de observação e da investigação. 9Idade Moderna A Igreja Católica era a instituição mais importante da Idade Média, regu- lando todas as esferas da vida em sociedade, funcionando como um agente unificador e forjando ou mediando a relação dos homens e das mulheres com o mundo. Como afirma Bedin (2012, p. 25), “[...] a Igreja passou a exercer uma dupla função: a de instituição oficial do mundo medieval e a de instituição guardiã e intérprete autorizada do conhecimento”. Assim, uma das marcas da “modernidade” no que diz respeito à autocom- preensão de homens e mulheres e sua compreensão em relação ao mundo será um rompimento com essa visão unívoca e a existência de outras formas de se compreender e compreender o mundo. Isso, no entanto, não significa um movimento de rompimento com a percepção religiosa do ser humano e da sociedade. É importante destacar a continuidade dos valores e visões de mundo religiosos paralelamente a mudanças e rupturas. Não podemos, dessa forma, dizer que houve um processo de laicização, e, sim, uma progressiva separação entre os componentes religiosos e seculares das sociedades. Há, sem dúvida, uma diminuição do poder da Igreja Católica frente à emergência de outros saberes, principalmente os científicos, mas esses não implicam um total rompimento com certas interpretações religiosas. Essa abordagem, que implica continuidades e rupturas, ou seja,a com- preensão da Idade Moderna como uma transição, é muito importante para compreendermos a progressiva valorização do homem e do indivíduo, o cha- mado antropocentrismo, em detrimento de uma visão de mundo teocêntrica, característica do medievo. Nesse sentido, a universidade enquanto instituição terá um papel bastante importante. De acordo com Burns (1957, p. 464-465), Ainda que as universidades modernas tenham copiado muito dos seus pro- tótipos medievais, o programa de estudos mudou radicalmente. Nenhum dos currículos da Idade Média incluía um número razoável de aulas de história ou de ciências naturais, e pouca coisa continham de matemática e literatura clássica. O educador tradicionalista moderno, que acredita formarem a espinha dorsal do ensino universitário a matemática e os clássicos, não encontrará base para os seus argumentos na história das universidades medievais. Da mesma forma, o movimento ao qual se vincula a ascensão do antropo- centrismo, o Renascimento, não pode ser visto apenas como um movimento de elites letradas, mas como um fenômeno que abrange os diferentes estratos da sociedade, com características específicas. Em relação ao Renascimento, cabe destacar, neste momento, que esse “mo- vimento” não se tratou apenas do acúmulo de obras científicas, filosóficas ou Idade Moderna10 literárias nem de mudanças estéticas e técnicas nas artes plásticas, mas significou uma transformação muito mais ampla, com a difusão da escrita e da leitura para além dos espaços religiosos ou das elites, da alfabetização vinculada às necessidades do comércio e das cidades, da releitura dos textos da Antiguidade Clássica a partir desses próprios textos, e não das interpretações religiosas a eles atribuídas. Vejamos, resumidamente, nas considerações de Burns (1957), quais foram as causas da renovação artística e intelectual ocorrida nos séculos XII e XIII que gerariam o Renascimento: influência das culturas bizantina e sarracena; desenvolvimento do comércio; crescimento das cidades; renovação do interesse pelo estudo dos textos da Antiguidade Clássica greco-romana; desenvolvimento de um pensamento cético e crítico; abandono progressivo do asceticismo e do misticismo característicos da Alta Idade Média; retomada do estudo do direito romano; surgimento das universidades; influência do aristotelismo; presença do naturalismo nas artes plásticas e na literatura; desenvolvimento da observação e da pesquisa científica. Em relação à religião, esse aspecto de continuidade do medievo, mas sujeito a transformações, uma das marcas da “modernidade” é a reivindicação da livre interpretação das escrituras, sem negar o valor e a verdade da Bíblia, mas questionando o privilégio de apenas os clérigos poderem comentá-la. Durante a Idade Média, a leitura das escrituras era orientada pela escolástica por meio da hermenêutica (SILVA; SILVA, 2009). Há outra visão de ser humano e de religião em disputa, e aqui se apresenta uma distância menor entre homens e mulheres e Deus. Juntamente ao antropocentrismo, haverá o desenvolvimento de outras formas de pensamento, todas vinculadas entre si, como o humanismo, o individualismo e o racionalismo. Vejamos como Silva e Silva (2009, p. 193) definem o humanismo, esse grupo heterogêneo de intelectuais que compartilhavam o entusiasmo pelo estudo dos escritos da Antiguidade Clássica: 11Idade Moderna