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Questões Comentadas 212 Gabarito: Errado. Em nenhum momento o texto afirma que ter dinheiro é mais importante do que votar. O que defende é que: “Dos dois — o voto e o dinheiro —, o dinheiro, devo admitir, pareceu-me infini- tamente mais importante”. Nessa fala, a narradora usa o verbo “parecer”, o que expressa no texto ideia de particularidade, ou seja, para o momento em que ela vivia. 468. (Cespe) Somente após receber a herança da tia, a narradora tornou-se uma mulher independente, capaz de governar-se pelos próprios meios. Gabarito: Errado. Conforme o texto, a narradora já era independente, havia trabalhado em diversas funções di- ferentes, como se entende pelo trecho: “eu ganhara a vida mendigando trabalhos esporádicos nos jornais, fazendo reportagens sobre um espetáculo de burros aqui ou um casamento ali; ganhara algumas libras endereçando envelopes, lendo para senhoras idosas, fazendo flores artificiais, ensinando o alfabeto a crianças pequenas num jardim de infância”. 469. (Cespe) A conquista da “liberdade de pensar nas coisas em si” (l.19) resultou em sentimentos de pie- dade e tolerância em relação aos homens, sentimentos esses que substituíram o ódio e a amargura nutridos inicialmente pela narradora. Gabarito: Errado. Segundo o texto, a liberdade de pensar nas coisas em si não é a causa para que resultasse piedade e tolerância; pelo contrário, a piedade e a tolerância substituíram ódio e amargura, isso é o que resultou na liberdade, ou seja, a liberdade é a consequência. O trecho de refe- rência para essa análise é: “Assim, imperceptivelmente, descobri-me adotando uma nova atitude em relação à outra metade da raça humana. E, ao reconhecer tais obstáculos, medo e amargura convertem-se gradativamente em piedade e tolerância; e depois, passados um ou dois anos, a piedade e a tolerância se foram, e chegou a maior de todas as liberações, que é a liberdade de pensar nas coisas em si”. 470. (Cespe) Depreende-se do trecho “ganhara algumas libras endereçando envelopes (...) jardim de in- fância” (l. 7 a 9) que as diversas ocupações da narradora garantiam-lhe uma renda fixa. Gabarito: Errado. A narradora não teve ocupações que lhe garantiam uma renda fixa. A maior alegria da nar- radora foi justamente conseguir uma renda fixa com a herança deixada pela tia. Por não ter renda fixa é que ela tinha passado por tantos trabalhos, em busca de alguma remuneração, nos trabalhos destinados às mulheres da época em que vivia. 471. (Cespe) Sem alterar o sentido original do texto, o verbo “admitir” (l. 5) poderia ser substituído por reconhecer. Gabarito: Certo. No trecho “Dos dois — o voto e o dinheiro —, o dinheiro, devo admitir, pareceu-me infinitamen- te mais importante”, o verbo “admitir” tem como significado: aceitar, reconhecer. No contexto em que é empregado, pode ser substituído pelo verbo “reconhecer” sem qualquer prejuízo. 213 Giancarla Bombonato 472. (Cespe) A narradora utiliza a expressão “outra metade da raça humana” (l.16) para se referir ao gênero masculino. Gabarito: Certo. Para entender essa expressão, deve-se ficar atento ao contexto. A narradora faz uso dessa ex- pressão no contexto: “Não preciso bajular homem algum: ele nada tem a dar-me. Assim, im- perceptivelmente, descobri-me adotando uma nova atitude em relação à outra metade da raça humana”. Portanto, a narradora falava sobre sua satisfação com relação a sua independência, como mulher, ela não precisaria mais da outra metade, dos homens. O europeu tem a respeito da mulher brasileira uma noção falsíssima. Para ele nós só nas- cemos para o amor e a idolatria dos homens, sendo para tudo mais o protótipo da nulidade. Dir-se-ia que a existência para nós desliza como um rio de rosas sem espinhos e que recebemos do céu o dom escultural da formosura, que impõe a adoração... Nem uma nem outra coisa. Nem a mulher brasileira é bonita, senão nos curtos anos da primeira mocidade, nem a sociedade lhe alcatifa a vida de facilidades. Ela é exatamente digna de observação elogiosa pelo seu caráter independente, pela presteza com que se submete aos sacrifícios, a bem dos seus, e pela sua virtu- de. A brasileira não se contenta com o ser amada: ama; não se resigna a ser inútil: age, vibrando à felicidade ou à dor, sem ofender os tristes com a sua alegria e sabendo subjugar o sofrimento. Pa- recerá por isso indiferente ou sossegada, a quem não a conhecer senão pelas exterioridades. Mas não tivesse ela capacidade para a luta e ainda as portas das academias não se lhe teriam aberto, nem teria ela conseguido lecionar em colégios superiores. A esses lugares de responsabilidade ninguém vai por fantasia nem chega sem sacrifícios e coragem. Apesar da antipatia do homem pela mulher intelectual, que ele agride e ridiculariza, a brasileira de hoje procura enriquecer a sua inteligência frequentando cursos que lhe ilustrem o espírito e lhe proporcionem um escudo para a vida, tão sujeita a mutabilidades. Júlia Lopes de Almeida. A mulher brasileira. In: Livro das donas e donzelas. Rio de Janeiro: Editora Livraria Francisco Alves e Cia., 1906 (com adaptações). 473. (Cespe) Segundo a autora, ao homem europeu a mulher brasileira parece ser “indiferente ou sosse- gada” (l.10) porque sua alegria não diminui frente à dor de outrem. Gabarito: Errado. Segundo o que o texto aponta, “A brasileira não se contenta com o ser amada: ama; não se resigna a ser inútil: age, vibrando à felicidade ou à dor, sem ofender os tristes com a sua alegria e sabendo subjugar o sofrimento. Parecerá por isso indiferente ou sossegada, a quem não a conhecer senão pelas exterioridades.”. A questão faz uma afirmação de que “indiferente e sossegada” é o que a mulher brasileira pare- ce para o homem europeu, mas o texto afirma que essa é a impressão de quem não a conhece e não especificamente o homem europeu. Outro ponto, a causa dessa aparência “indiferente ou sossegada” não está embasada em uma informação verdadeira no comando da questão, pois o texto afirma que a mulher brasileira vibra à felicidade e à dor e domina o sofrimento. 474. (Cespe) Infere-se do trecho “Mas não tivesse ela capacidade para a luta (...) nem teria ela conseguido lecionar em colégios superiores” (l. 11 a 12) que as mulheres brasileiras conquistaram, com “sacrifícios e coragem” (l.13), o direito do acesso irrestrito às universidades tanto como estudantes quanto como professoras. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Questões Comentadas 214 Gabarito: Errado. Ao afirmar que as mulheres brasileiras conquistaram, com “sacrifícios e coragem”, o direito do acesso irrestrito às universidades tanto como estudantes quanto como professoras, extra- pola-se o que o texto coloca, pois o uso do termo “irrestrito” é um radicalismo para as ideias contidas no texto. Outro ponto importante é a menção de “estudantes”, o texto afirma que as mulheres passaram a lecionar em colégios superiores, mas não traz a ideia de que as estudan- tes também passaram a fazer parte dessa quebra de paradigma. 475. (Cespe) A partir do trecho “Nem uma nem outra coisa” (l. 4), a autora apresenta ideias antagônicas para desconstruir estereótipos associados à mulher brasileira. Gabarito: Certo. Realmente, a autora apresenta ideias antagônicas para desconstruir estereótipos associados à mulher brasileira. A expressão “nem uma nem outra coisa” está explicada pelo próprio texto no trecho: “Nem a mulher brasileira é bonita, senão nos curtos anos da primeira mocidade, nem a sociedade lhe alcatifa a vida de facilidades”. Trata-se de uma oposição entre a beleza e as facilidades da vida feminina. 476. (Cespe) A autora refuta, no texto, a ideia de que a beleza da mulher brasileira limita-se à juventude. Gabarito: Errado. Refutar significa não aceitar, não dar aprovação; rejeitar. A autora apresenta a ideia de que a beleza da mulher brasileira está atrelada aos primeiros anos da mocidade, como é possível perceber no trecho: “Nem a mulher brasileira é bonita, senãonos curtos anos da primeira mo- cidade”. A autora assevera, sem refutar essa ideia. 477. (Cespe) O sentido original e a correção gramatical do texto seriam preservados caso o primeiro período fosse reescrito da seguinte maneira: A concepção do europeu acerca da mulher brasileira é demasiado falsa. Gabarito: Certo. O trecho original é “O europeu tem a respeito da mulher brasileira uma noção falsíssima”. Com- parando-se com a reescrita, percebe-se que noção e concepção são sinônimos, pois apresen- tam o sentido de “julgamento de valor”. A construção “demasiado falsa” funciona também como sinonímia de “falsíssima”, pois o termo “demasiado” é um agravante de “falsa”. 478. (Cespe) A correção gramatical e o sentido do texto seriam preservados caso o vocábulo “amada” (l.8) fosse empregado no masculino: amado. Gabarito: Errado. No trecho “A brasileira não se contenta com o ser amada”, a correção gramatical seria preser- vada no caso da substituição, mas o sentido seria alterado. O original apresenta a ideia de que a brasileira não se contenta com o sentimento de ser amada por alguém. Caso ocorra a substitui- ção, o sentido seria de que a brasileira não se contenta com alguém, esse alguém seria o ser que ela ama. Assim, o sentido seria modificado. 215 Giancarla Bombonato No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verda- deiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera. Sua preocupação reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arre- pendidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera. Clarice Lispector. Amor. In: Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 20-1. 479. (Cespe) Ana dissimula as suas inquietações com afazeres domésticos. Gabarito: Certo. Um dos trechos que justifica essa afirmação é: Mas na sua vida não havia lugar para que sentis- se ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. 480. (Cespe) Com um lar, com a vida que “quisera e escolhera”, a única preocupação de Ana era ser uma exímia dona de casa. Gabarito: Errado. Conforme a narrativa apresentada, Ana carregava uma inquietação que tinha hora certa para a aparecer, no final da tarde. Todo o texto apresenta Ana como alguém inquieta com relação a sua condição de mulher e seus afazeres domésticos. O ar apresentado pela personagem parece ser de conformismo, mas não apenas com os afazeres domésticos que se preocupava, a inquie- tação no peito é exemplo disso. 481. (Cespe) Infere-se do primeiro parágrafo do texto que, desde a juventude, Ana considerava o casa- mento e a maternidade sua vocação inata, ou seja, seu destino de mulher. Gabarito: Errado. Conforme as informações do início do texto, Ana, por caminhos tortos, viera a cair num des- tino de mulher, surpresa disso. Todo o primeiro parágrafo do texto não mostra Ana como 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21