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UMA INSPIRAÇÃO LATINO-AMERICANA ALBERTO PETRINA condição de impulsionador e mestre definição moderna que adquire mais tar- de 1931 passará à história como o "Salão do Movimento Moderno de Lúcio Costa de a obra de Costa. Em seu caso particu- Revolucionário" ou "Salão dos Tenentes" está hoje fora de discussão e sua classifi- lar, o interesse pela arquitetura do perío- (os expositores, "tenentes da arte mo- cação dentro de tal categoria coloca do de dominação portuguesa leva a derna contra os generais da arte acadê- no mais alto nível de excelência e de trabalhar em estreita relação com o mica"). Essa atitude decisiva provoca a notoriedade internacional. Por isso, me desde sua fundação em 1936. Sua violenta oposição dos professores mais refiro apenas de passagein a esse aspecto, primeira tarefa seria salvar Sete Povos das reacionários e termina com o afastamen- sua qualidade mais visível (e por muitos Missões, pertencente à antiga província to de Costa após seis meses de greve. anos quase a única reconhecida). Prefiro jesuítica espanhola do Paraguai e que Suas idéias e propostas, porém, tinham- analisar aqui a importância que teve sua abrangia parte do atual Estado do Rio se mostrado vitoriosas, e este escândalo precoce atitude de independência cria- Grande do Sul. Para essa ocasião projeta final contribuirá para a renovação do tiva em face dessa mesma Modernidade um pequeno museu, construído depois pensamento artístico no país. para o posterior desenvolvimento de por Lucas uma modalidade própria dentro da ar- Rumo a uma Modernidade própria quitetura ibero-americana. A vertigem da vanguarda Mergulho no passado Quando em 35 protesta contra a vitória Lúcio Costa, porém, abandonará aos de projetos acadêmicos no concurso des- Suas primeiras buscas já o encontrarão, poucos essa "coexistência ideológica" tinado à construção do novo Ministério na década de 20 e em companhia de José identificando-se seriamente com as novas de Educação e Saúde, já está preparado Mariano Filho, dedicado à implantação propostas de Gropius e Le Corbusier, de- o terreno para que, apoiado por um gru- da corrente neocolonial, teorizando fendidas inicialmente no Brasil pelo imi- po de intelectuais, possa convencer o mi- bre a necessidade de uma arquitetura de grante russo Gregori Warchavchik, com nistro Gustavo Capanema e o próprio caráter brasileiro, oposta ao ecleticismo quem se associa entre 1931 e 1933. Poste- presidente Vargas a convidar Le Corbu- sobrecarregado de estilos importados riormente fará com Carlos Leão sier para elaborar, sob sua orientação, predominantes na época. Assim e se- (1933-35). Mais tarde, Pietro Maria Bardi um novo projeto. A equipe escolhida e gundo o arquiteto e crítico chileno Enri- interpretará sem duvidar seu destacado dirigida pelo mesmo Lúcio Costa era for- que Browne "Lúcio Costa no Brasil papel naquele momento: "(...) na arran- mada por Carlos Leão, Jorge Moreira, Os- afirmava que 'a arquitetura moderna não cada da nova arquitetura, ele deve ser car Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e podia consistir na ruptura pura e simples considerado o condutor vitorioso: fato Ernâni Vasconcelos. Ao falar mais tarde com o passado'. Por isso aderiu aos postu- que todos sabem, pleno de projetos e dessa obra magnífica, ele diz que "sua lados funcionalistas sem deixar de apre- realizações, de chamadas à ordem, de ges- serena beleza surpreendeu quando, ter- ciar a tradição colonial luso-brasileira, tos singulares de independência e julga- minada a guerra, o mundo tomou conhe- que resolvia com simplicidade os proble- (o grifo é meu). cimento da sua insólita presença. Marco mas do lugar" Em algumas residências Dessa forma, quando em 30 o governo definitivo da nova arquitetura brasileira, construídas anos depois no Rio de Janei- revolucionário de Getúlio Vargas o no- revelou-se igualmente apenas construí- ro como a casa Marinho (1937) meia diretor da Escola Nacional de Belas da, padrão internacional da reformulação os ditos "problemas do lugar" serão deci- Artes do Rio de Janeiro, com plenos po- arquitetônica, e demonstrou que o enge- didamente encarados através da utiliza- deres para realizar a total reestruturação nho nativo já está apto a apreender a ex- ção de telhas, persianas e terraços cober- dos métodos e programas de ensino, Cos- periência estrangeira, não mais somente tos com madeira entrelaçada, elementos ta começa o caminho em direção a seu como eterno caudatário ideológico, mas apropriados ao clima tropical. Estamos, reconhecimento como líder do Movi- antecipando-se na própria pois, ante uma natural confluência com mento Moderno. Convoca imediatamen- (o grifo é de minha autoria). o pensamento de Mário de Andrade, que te Warchavchik para dirigir os cursos de Essa é toda uma definição. desafio preconizava "a busca ao redor dos ele- Arquitetura e cria o Salão Livre de Artes igualitário de quem possui a fé e a convic- mentos constantes da arquitetura brasi- Plásticas, apoiando assim oficialmente a ção de que sua arte é pelo menos tão leira (...) Será através deles que a arquite- arte experimental. Os nomes que figu- vigorosa e transcendente como a do mo- tura moderna dará, no Brasil, a contri- ram na mostra, como convidados de hon- delo inspirador. que supõe, então, que buição correspondente". ra ou simples inscritos, serão os mais des- se trata precisamente de inspiração e não Uma relação de similar e simultâneo tacados da arte moderna brasileira: os de mera imposição. De adaptação antes interesse pelo passado artístico colonial arquitetos Affonso Eduardo Reidy e Mar- que adoção. De reformulação, de recria- e a abertura ao apelo da Modernidade celo Roberto (além do próprio Warchav- ção, de renascimento ou, melhor ainda, floresce também, na mesma época, em chik); os pintores Anita Malfatti, Emiliano de uma nova maneira de interpretar a outros países da América Latina. É o caso Di Cavalcanti, Lasar Segall, Tarsila do Ou, segundo a correta fór- do mexicano Luis Barragán, do chileno Amaral, Cândido Portinari, Antonio Go- mula de Enrique Browne6, nos encon- Roberto Dávila e do argentino Martín mide, Ismael Nery; o escultor Víctor Bre- tramos ante o intransferível mandato do Noel, embora nenhum dos dois últimos cheret, praticamente todos os modernis- lugar coincidindo com o avassalador dita- e sobretudo Noel alcançaria a clara tas do Por tudo isso, a exposição me da época. 38 out/nov 61Lúcio Costa tem plena consciência des- sa fusão, compreende, desde princípio, que é na sua geração e no seu país que ela deve ocorrer e acompanhado nisso como em quase todo seu caminho criativo pelo formidável ímpeto de Os- car Niemeyer, oferece em espetáculo ao mundo o nascimento de um modo pró- prio de revelar seu tempo e sua terra através da Arquitetura. Para isso escolhe- rá cenários e circunstâncias privilegiados: o imponente perfil do Ministério abrin- do-se ao deslumbramento da baía de Guanabara, projetado num momento único de esplendor da vida cultural brasi- leira; o efeito propagandístico explosivo do Pavilhão do Brasil, brilhando como uma flor exótica na Feira Mundial de No- va York de Costa experimentará diretamente na prática toda essa intencionalidade teórica bastante explícita, embora ainda vel". Fará por meio de sua obra - talvez a de mais definido caráter neovernacular - o Parque Hotel de Nova Friburgo (1944) e do excelente conjunto residen- cial do Parque Guinle, no Rio de Janeiro Conjunto residencial do Parque Guinle. Grande Prêmio da Bienal de Arte de São Paulo (1955) (1948-54). Esse último incorpora, com definitiva maestria, a linguagem do Movi- mento Moderno à arquitetura da moradia coletiva no Brasil: o térreo libertado pe- los pilotis, os janelões contínuos e, sobre- tudo, a correta decisão dos brises-soleil das fachadas tão indicados para as zo- nas tropicais influem para que lhe peito: "As críticas a Brasília são de vários seja outorgado Grande Prêmio da tipos: críticas preconcebidas; críticas de Bienal de Arte de São Paulo (1951). Na pessoas que foram para lá a contragosto época seu nome já era célebre fora das burocratas, políticos, diplomatas fronteiras de sua pátria, e é chamado a críticas de visitantes flâneurs que se sen- Paris para integrar a comissão de cinco tem meio perdidos; críticas à concepção membros ao lado de Le Corbusier, mesma da cidade. Assim acossado, pre- Walter Gropius, Sven Markelius e Ernesto firo me refugiar na opinião dos que, mo- Rogers que orientarão a Unesco na rando lá, dão-se bem, gostam do verde, construção da sua sede. da serenidade, do estilo diferente de vida que ela Quanto à acusação de monumentalismo simbólico feita por vá- A hora de Brasília rios críticos da geração atual, "Compreendo o ponto de vista daqueles Depois vem Brasília. Ao ganhar con- que pensam que uma sociedade evoluída curso nacional para Plano Piloto, em prescinde de símbolos e gostariam que & 57, Lúcio Costa enfrenta o maior desafio as capitais fossem cidades diluídas e vul- da sua vida. A ele dedica seus maiores gares, desprovidas de qualquer vislum- esforços e, ainda depois de construída bre de grandeza. Mas me permito discor- a cidade, continua se interessando por dar. Imanente ou transcendente, existe seus problemas funcionais e combatendo uma grandeza intrínseca no homem e as medidas que desvirtuavam projeto em sua obra, mesmo quando se pretenda inicial. Porém, essa tardia realização física da utopia urbana moderna não se realiza Ao mesmo tempo em que se erege de- sem traumas. Ao contrário, Brasília nasce fensor apaixonado das idéias urbano-ar- e vive em meio a duras polêmicas, situan- quitetônicas do Movimento Moderno, de do-se durante anos no centro do Brasília e da obra de Oscar Niemeyer, não da discussão arquitetônica. Numa carta pode evitar o demônio contraditório que que me escreveu em 1982 por motivo parecia governar sua personalidade, e as- de uma entrevista que tivemos no Rio sim outro lado de sua opinião, ironica- publicada integralmente no ano seguinte mente autocrítica, se revela nas declara- na revista afirmava a esse res- ções feitas durante uma "Bra- 62 arquiteturaMas essa era a saída: ignorar os mestres, deixá-los em seus altares e partir para as áreas Os oráculos estrangeiros Com Brasília, o "modo brasileiro" de interpretar a Modernidade atinge seu êx- tase e também seu limite final. E, num sentido mais amplo, pressupõe fim de toda uma etapa do Movimento Construída a utopia, esta se revelará em toda sua glória possível e, ao mesmo tem- po, em toda sua miséria. A teoria urbana corbusiana mostrará assim profundas marcas das suas contradições e, antes que a seus intérpretes tropicais, se deve- riam atribuir a seu contrá- rio do que se propõe Bruno Zevi: "Bra- sília é uma metrópole kafkiana, surrea- lista, que reflete um diktat, um autorita- rismo que urbanismo e a arquitetura transcrevem sem tratar de modificar seus significados. Não parece legítimo compa- rá-la a Chandigarh, pois isso acentuaria mais ainda seus num ambiente subdesenvolvido, em presença de um Pavilhão do Brasil (38/39), Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, "uma flor exótica" na Feira Mundial de Nova York panorama desprovido que necessita se articular com brutal veemência, Le Cor- busier aceita a dimensão monumental, embora em código democrático, para as massas que desfrutam dela e que a conta- minam, enquanto Brasília é uma "cidade ideal" aristocrática e sofisticada, lúgubre sília é um exemplo de como não projetar sítio de exposição universal, sem lugar uma cidade no Brasil (...) Assim como para o kitsch da vida a morte de Le Corbusier foi um alívio para Na realidade, não se sabe do que se todo mundo, fato de que Brasília fora assombrar mais: se da falácia insolente construída constituiu um alívio para todos de todo raciocínio ou da frivolidade arquitetos que finalmente se libertaram insustentável de alguma de suas argu- daquele pesadelo, daquela arquitetura mo- mentações. Claro que "não parece lícito" derna que vinha de 1936 até ela". E conti- comparar Brasília a Chandigarh. Para CO- nua, referindo-se a "O movi- meçar, a escala da capital de um grande mento da arquitetura denominada brasi- país não pode se igualar ao limitado cen- leira contemporânea é, no fundo, Oscar tro cívico de uma cidade provinciana. Mas Os demais eram arquitetos que certamente o que quer impedir Zevi, evi- seguiam mais ou menos que ele fazia". tando a referência, é que sustentávamos Mas acrescenta em seguida: "(...) arqui- antes: a previsível transferência de res- tetos brasileiros afinal muitos hoje têm ponsabilidades por conta de Le Corbu- capacidade e estão produzindo já se sier. Quanto à afirmação de que Corbu libertaram da arquitetura de Oscar, e não consegue em Chandigarh uma dimensão apenas se libertaram, mas a consideram monumental "em código democrático", algo que não desejam fazer. Hoje (...) já assim, sem mais profundidade, nos con- se sentem com autonomia para não ter fessamos francamente rendidos ante a que render homenagem a Oscar, pedir-lhe clara arbitrariedade do crítico italiano. Os consentimento para tal ou qual coisa, como como e os porquês não são, evidente- se fossem vassalos, já estão saturados e não mente, uma das suas virtudes Se estão Talvez sem saber, Costa acrescentarmos a isso suas considerações coincide com um dos mais lúcidos críticos a respeito do caráter contaminante das de Brasília, Carlos Nélson Ferreira dos San- massas hindus ou da condição kitsch do tos, que se expressa sobre assunto em comunitário, resta perguntar se autori- termos muito semelhantes: "Se a arquite- tarismo a que Zevi se refere não constitui, tura que nos serviam em bandeja não era enfim, uma das facetas ocultas da sua pró- a que queríamos, não havia mais remédio pria personalidade. que reinventá-la. Não é fácil entrar em por- Mais justo em suas apreciações, Kenneth tos desconhecidos sem farol nem pilotos. Frampton reconhece o papel "cismático" urbanismo 38 out/nov 91 63de Brasília. Tal reconhecimento leva a estabelecer com toda naturalidade aquele paralelismo que tão hipocritamente dissi- mulou Zevi: "Brasília, planejada por Costa em meados da década de 50, levou pro- gressivo desenvolvimento da arquitetura brasileira a um ponto de crise. Essa crise, que acabaria finalmente provocando uma reação global contra os preceitos do Movi- mento Moderno, invadiu inteiramente projeto, não só a nível do edifício como objeto, mas também o próprio plano. cisma conceitual que já se havia produzido em Chandigarh em 1951, entre a monu- mentalidade isolada do centro governa- mental desenhado por Le Corbusier e resto da cidade, se repetirá em Brasília(...) Era como se os princípios míticos do nismo europeu, tal como foram reinter- pretados através da obra posterior de Le Corbusier, determinassem a estrutura de Brasília com funestas grifo meu). O desprezo típico da crítica européia pela nossa arte e arquitetura, mal conhe- cidas e pior compreendidas, não cons- titui patrimônio exclusivo de Bruno Zevi. Um dos primeiros a iniciar esse triste ranking foi Max Bill: "(...) Vi ali coisas escandalosas: a arquitetura moderna sub- mersa nas profundidades (...) pilotis gros- SOS, pilotis finos, pilotis de formas volú- veis, carentes de todo ritmo estrutural ou razão, dispostos ao acaso... Não sabe- por com outra opinião um pouco mais mos como justificar tal barbarismo num favorável aos brasileiros. Vejamos: "A acu- país onde existe um grupo CIAM, num sação de formalismo (por parte de Max país onde se realizam congressos interna- Bill) tem justificação, sobretudo para os cionais de arquitetura moderna (...) e on- arquitetos mais originais, como Nie- de há uma bienal de arquitetura (...)". meyer, mas não deve levar a uma posição Max Bill se refere, na sua investida, a Os- car Niemeyer e, em especial, a um de de negação tão rígida; ao contrário, deve- seus edifícios paulistas. No fundo, o ata- ria analisar, aprofundar as causas e os que envolve a escola brasileira em seu possíveis progressos da experiência bra- Mas antes assinalara: "A Gro- conjunto e, como era inevitável em al- guém tão preocupado com a moderação, pius, com sua costumeira postura com- suas críticas mais ferozes recairão sobre preensiva, lhe agrada a originalidade do Pampulha e seu "barroquismo" provo- movimento brasileiro na adaptação das cador. Lúcio Costa fim à insolência contribuições internacionais ao clima e do quando, defendendo seu amigo, costumes do lugar Ao lado de Zevi, lhe explica didaticamente que sem Pam- Benévolo é, sem dúvida, um diplomata pulha a "arquitetura brasileira, na sua for- do ma atual, não existiria". E, como recor- A reivindicação regionalista dando sua idiossincrasia nacional, termi- na a frase "Quanto à cape- Da ignorância à dissecação preconcei- la, obra-prima onde tudo é engenho e tuosa, irá abrindo caminho pouco a pou- graça (...), foi como era de prever CO uma visão crítica mais elaborada e au- qualificada de barroca com a habitual in- tônoma, capaz de discernir entre as com- tenção pejorativa. Ora graças, pois se trata, plexas circunstâncias culturais periféricas no caso, de um barroquismo de legítima e a atmosfera fechada e auto-suficiente e pura filiação nativa, que bem mostra da ortodoxia moderna central. Esse novo Ministério da Educação e Rio de Janeiro (36/45), Lúcio não descendermos de relojoeiros, mas de matiz, como mostramos, foi cultivado por Carlos Jorge Moreira, fabricantes de igrejas barrocas uns poucos europeus, mas será, em defi- Oscar Niemeyer, Affonso E. Re A polêmica se converte, com tempo, nitivo, a atual corrente de renovação ar- Vasconcellos, sob orientação num ponto de referência. Leonardo Be- quitetônica ibero-americana que assumi- névolo a retoma, embora com cuidado rá, como uma de suas tarefas essenciais, conciliador de relativizá-la e de a contra- a construção de uma estrutura teórica 64desenvolvida no Brasil por Costa, Nie- meyer e seus companheiros: "Os jovens seguidores de Le Corbusier transforma- ram imediatamente esses componentes puristas numa expressão nativa altamente sensitiva que, com sua plástica exuberan- te, lembrava Barroco brasileiro do sé- culo (dessa vez e opondo-se a Max Bill a analogia barroca é utiliza- da com clara intenção laudatória). A mes- ma que se pode advertir numa obser- vação pontual de Benévolo sobre a escola brasileira: "O repertório internacional não se aplica em absoluto textualmente; ao contrário, se transforma poderosa- mente, sobretudo nas relações entre for- ma geométrica e escala (...)"18 Por sua vez, Banister Fletcher dedica ao assun- to poucas, embora apreciativas, linhas na sua monumental História da Arquitetura: "Entre os mais interessantes exemplos da arquitetura doméstica na América do Sul pode-se citar os apartamentos do Par- que Guinle (...)". E referindo-se ao Minis- tério, descreve: "Um arranha-céu de con- creto armado sustentado por pilotis, re- velando claramente seu sistema estrutu- ral vertical auxiliado por elementos hori- zontais para controle da luz solar, exemplo da influência do climana arqui- tetura A contribuição da arquitetura brasilei- ra em geral e a de Costa em particular possível de definir um campo de pensa- não pode se limitar de modo algum mento adequado à realidade do nosso a uma benevolente coincidência no lugar habitat, como também uma reflexão his- comum da adequação climática como tórica baseada na própria experiência da "cor local" Além desse indiscutível méri- to, ela propôs um salto de escala inédito região. Assim, tema da modernidade no Movimento Moderno, que em alguns conta na atualidade com importantes casos, como no Ministério, chegará a si- contribuições de destacados pesquisado- tuar-se com vantagem nessa estreita res, os quais estabelecem a tese e desen- franja de equilíbrio que nivela a gran- volvem linhas analíticas especialmente deza com a Algo se- aplicáveis ao caso americano. Humberto melhante adverte Benévolo quando, no Eliash e Manuel Moreno no Chile, Anto- texto já citado, insinua a mudança que nio Toca Fernández no México, Carlos esta arquitetura produziu nas relações Eduardo Comas no Brasil e María Isabel de Larrañaga na Argentina representam entre forma e escala; também Frampton claramente a nova orientação. Esta se CO- assinala a distância que a versão final do necta no movimento continental mencio- mencionado edifício alcança em relação nado que, precisamente, começou a re- aos croquis originais: "(...) foi ocasião pa- ver prioritariamente a obra de todos ra a primeira utilização monumental de aqueles que, como Lúcio Costa, se preo- muitos dos elementos característicos cor- cuparam, em seu momento, por estabe- busianos Porém, suas conclusões lecer um horizonte de independência se detêm aqui, que resulta lógico. Para criativa e de forte caracterização regional desenvolvê-las seria necessária uma ex- para a sua arquitetura. periência do espaço americano que não Certamente a teoria regionalista elabo- possuem, e que só pode outorgar a ins- rada há anos por Keneth Frampton sofre tância mesma de vivê-lo e de responder de invisíveis e inquietantes flancos frá- culturalmente à sua influência. Em sínte- geis. Afinal, representa a imagem algo pa- se, tema não tem sido suficientemente ternalista e romântica de um homem do analisado, mas talvez seja aí onde pode- centro a respeito do fenômeno artístico ríamos encontrar as razões ocultas da re- tal qual se dá na periferia do mundo. pugnância visceral que tal arquitetura Apesar disso, este autor é um dos raros produz naqueles que, à semelhança de europeus que reconhecem valor intrín- Bruno Zevi e Max Bill. aderiram veemen- seco dos inícios da arquitetura moderna temente ao único modelo da Moderni- out/nov 91 65dade tolerado por eles Racionalismo europeu - atribuindo implícita ou ex- plicitamente ao monumental um caráter acadêmico, quando não francamente rea- cionário ou autoritário. A impossibilidade de captar a profunda divergência que a "dimensão americana" introduzirá nas leis canônicas da arquite- tura moderna invalida tais juízos onde a mesquinharia intelectual procura se disfarçar em severidade ortodoxa. Ao contrário, a compreensão cabal dessa cir- cunstância ilumina as indagações da mais recente crítica do continente. Enrique Browne toca num dos pontos corretos quando, referindo-se à obra dessa gera- ção, destaca a tensão que a animara: "O desejo de incorporar-se ao mundo con- temporâneo e, simultaneamente, respon- Parque Guinle, Rio de Janeiro (48/54), Lúcio Adaptação brasileira da linguagem der aos requerimentos de um mundo tão do Movimento térreo "libertado" pelos pilotis, janelões contínuos, brise-soleils distante geográfica e te, dilacera o pensamento e a prática de muitos de seus Por sua vez, Carlos Eduardo Comas in- siste em utilizar o Barroco como unidade de medida da "americanidade" da pro- posta arquitetônica de seus compatriotas: "A disposição de pilotis, azule- jos e curvas abundantes justificavam con- siderar estes como um corolário exuberante e barroco das descobertas de Corbusier. Suas lajes e suas paredes mos- travam geometrias curvilíneas com uma teatralidade Pancho Liernur, por sua parte, ressalta sua dupla condição de arquitetura regional e universal: "Com efeito, por volta dos anos 40 e 50 a América Latina produziu um notável conjunto de obras que se incorpo- rou ao debate arquitetônico internacional com uma personalidade própria (...) Refi- ro-me especialmente àqueles trabalhos de que constituem um excelente exemplo a obra de Lúcio Costa no Brasil, Raúl Villa- nueva na Venezuela e Enrique Del Moral no México. Em consonância com a reivin- dicação das particularidades regionalistas, essas arquiteturas combinaram a recupe- ração dos materiais locais com uma, em certos casos, exuberante liberdade formal. Mais ainda, se levarmos em conta as carac- terísticas de obras como Ministério da Educação do Rio de Janeiro, de 1936, pode- se afirmar que o exploit criativo adquire uma determinante dimensão (grifo meu). A uma conclusão semelhante havia chegado Francisco Bullrich 20 anos antes, quando afirmava a respeito do célebre edifício: "É verdade que boa parte das imagens arquitetônicas tem uma precisa origem corbusiana, tanto a idéia do volu- me sobre pilotis quanto a do pano contí- nuo de vidro e próprio brise soleil. Mas a forma concreta em que estes ele- mentos foram é mérito dire- 66to de Lúcio Costa e seus colaboradores. A esse respeito não bá mais que compa- rar Ministério com qualquer dos traba- lbos anteriores de Le Corbusier para veri- ficar a medida da contribuição brasi- leira a uma obra que, pela ousadia de sua proposta, a limpidez de suas solu- ções, a riqueza de sua plástica, equili- brio de suas massas assimetricamente dis- postas e a perfeição de suas proporções ocupa um lugar de exceção no domínio da arquitetura (grifo meu). Conclusões Apenas se analise a atitude artística de Lúcio Costa, pode-se perceber nela um sentido que supera meramente pessoal. Na verdade, nota-se o élan de toda uma época, esse espírito que anima a obra de outros grandes arquitetos americanos: Oscar Niemeyer, Juan O'Gorman, Luis Barragán, Carlos Raúl Villanueva, Eduar- do Sacriste, Sergio Larraín, Julio Todos assinalaram inequivocamente que, entre nós, as exigências da Modernidade incluíam como ingredientes indispensá- veis resgate das tradições espaciais e construtivas locais, a adequação geocli- mática e, mais ainda, a incorporação da intransferível poética do lugar e sua po- pulação. Se quisermos dizer de outra ma- neira, não fizeram objeção alguma em alterar quando necessário os termos da ortodoxia internacional moderna para adaptá-la sabiamente às necessidades de sua circunstância cultural. Contra a opi- nião sustentada durante os últimos 30 anos por boa parte da historiografia au- tóctone, reivindicamos, mais que papel de pioneiros do Movimento Moder- no que ela lbes reservara com a segunda intenção de canonizá-los (e assim neu- tralizá-los), sua qualidade de transgres- sores dos axiomas do mesmo. Em tal cará- ter reside, fundamentalmente, seu mérito excepcional como arquitetos de linha- gem americana, no sentido da grande tra- dição "mestiça" que a disciplina adota do século XVI em diante. É nessa e nessa síntese que a obra de homens como Costa atinge seu maior impulso original. Também em tais virtudes reside a mensagem de univesa- lidade com que devolve ao mundo sím- bolos gerados pelo exclusivista centro europeu que, passados pelo filtro sincré- tico de sua inventiva, se transformaram até converter-se em gestos inéditos. Sua modernidade se submete, assim, às impo- sições evidentes da sua terra, de seu cli- ma, dos seus costumes, enfim, de todo seu contexto vital brasileiro. Daí, e SO- mente daí, provém a poderosa força da sua arquitetura, a atração da sua pródiga beleza, a persistência de seu mito. A ela como a poucas, a lúcida definição- 67Park Hotel São Clemente, Nova Friburgo, Rio de Janeiro (44), talvez a obra mais definida de caráter neovernacular de Lúcio Costa premonição que arquiteto e teórico ar- NOTAS meyer", Oscar Niemeyer, Editora Ahmed, São gentino Claudio Caveri cunhara sobre Paulo, 1985, p. 27. Ver também Alberto produto cultural de fronteiras tão longín- 1. Enrique Browne, Otra Arquitectura en Amé- op. cit. (8). qüas quanto Ter- rica Latina, Ediciones Gustavo Gili, México, 15. Leonardo Benévolo, Historia de la arquitec- ceiro Mundo, com suas incons- 1988. p. 16. tura moderna, Volumen II, Capítulo XIX ("El cientes de si como as batizou 2. Sphan, criado em 1936 por Gustavo Capanema, nuevo ambiente internacional"), Taurus Edicio- Christopher Alexander espera que a então ministro de Educação e nes, Madrid, 1963, p. 919. 3. Pietro M. Bardi, Lembrança de Le 'racionalidade' as desperte da sua letar- Leonardo Benévolo, op. cit. (15), p. 917. Atenas, Itália, Brasil, Livraria Nobel, São Paulo, 17. Kenneth Frampton, op. cit. (13), p. 258. gia. Talvez suceda contrário: que Ter- 1984. p. 68. 18. Leonardo Benévolo, op. cit (15), p. 919. ceiro Mundo desperte de seu sonho utó- 4. A Semana de Arte Moderna de 1922, organi- 19. Sir Banister A History of Arqui- pico a esse mundo dos e zada por um grupo de artistas e poetas de van- tecture (Eighteenth Edition), Charles Scribner's guarda no Teatro Municipal de São Paulo, cons- Sons, New York, 1975, pp. 1.271 e Lúcio Costa dota universo da Moder- tituiu o batismo da arte moderna brasileira. 20. Kenneth Frampton, op. cit. (13), p. 258. nidade européia de uma dimensão ex- 5. Lúcio Costa, Arquitetura, Biblioteca Educação 21. Enrique Browne, op. cit. (1), p. 16. é Cultura, volume 10, Rio 22. Carlos Eduardo Dias Comas, "Teoría acadé- pressiva que não possuía e que ele havia de Janeiro, 1980, p. 47. mica, arquitectura moderna y corolario brasile- extraído de sua enraizada origem ameri- 6. Enrique Browne, "Espíritu de la época y espí- Anales del Instituto de Arte Americano e cana. Esse processo será irreversível. A ritu del lugar", Summa 232, Buenos Aires, Investigaciones Estéticas "Mario Buschiazzo" monomania racionalista das origens con- 1986. 26, Facultad de Arquitectura y Urbanismo, Uni- tamina-se pelo envenenamento dos senti- 7. Cabe acrescentar que Pavilhão Brasileiro versidad de Buenos Aires, Buenos Aires, p. 86. dos, pelos acentos mágicos de um pensa- se constituiu num dos sucessos da Exposição junto com da Finlândia, obra de Alvar Francisco Liernur, "América Latina: cien años mento aberto a outros horizontes per- 8. Alberto Petrina, "Lúcio Costa: apuntes para de Summa n° 280, Buenos Aires, ceptivos, por uma escala de proporções una biografía revolucionaria". Summa n° 186, 1990, p. 38. de inédita grandeza. Lúcio e sua poesia Buenos Aires, 1983, p. 22. 24. Francisco Bullrich, Arquitectura são algo nosso: do seu Brasil, da nossa 9. Lúcio Costa, "Lúcio Costa por ele mesmo". ricana, 1930/1970, Editorial Sudamericana, América. Para entendê-lo cabalmente é Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Buenos Aires, 1969, p. 20. 10. Frederico Morais, "Lúcio Costa, 80 anos", O 25. Claudio Caveri, Los sistemas sociales a través preciso ter nascido, vivido, amado, sofri- Globo, Rio de Janeiro, 1982. de la arquitectura. Organización popular y ar- do, criado na América. Sua linguagem tra- 11. Carlos Nélson Ferreira dos Santos, "Entre quitectura Cooperativa Tierra, duz o esplendor monstruoso do Amazo- Río de Janeiro y Brasilia, la arquitectura de siem- Buenos Aires. 1976. nas, dos Andes e das Pampas. Não é para pre", Summa n° 142, Buenos Aires, 1979. No Além da bibliografia acima mencionada, tomou- estômagos delicados nem para cérebros mesmo número, ver Alberto Petrina, "Otra Ar- se como referência Modern Architecture in Bra- limitados por uma tranqüilizadora or- 31) e "Introducción a zil, de Henrique Mindlin (Colibris Editora, Rio dem preestabelecida. Sua arquitetura su- de Janeiro/Amsterdä, 1956), cujo prefácio foi es- 12. Bruno Zevi, Historia de la arquitectura mo- crito por Sigfried Giedion. certos riscos, que ele correu em sua Editorial Poseidón, Barcelona, 1980, p. vida. Ou seja, os de interpretar orgulho- 386 ALBERTO PETRINA, arquiteto, professor, ex-di- samente a selvagem sedução da terra e 13. Kenneth Frampton, Historia crítica de la ar- retor da revista Summa, é co-autor dos livros do homem americano. quitectura Editorial Gustavo Bar- "Nueva Arquitectura en América Latina: presente celona, 1981, p. 260. LAILA MASSUH, de Buenos Aires y futuro" e "Otra arquitectura argentina. Un ca- 14. Lúcio Costa, "Depoimentos sobre Oscar Nie- miño 68 arquiteturaCasa Ernesto Gomes "Casa sem dono", 1931 Casa Chamberland, RJ, 1922 "projeto acadêmico", RJ, 1930 com Evaristo Juliano de Sá 1: projeto de Lúcio Costa Casa Ernesto Gomes Fontes "projeto moderno", RJ, 1930 D D D D C D D D Casa Schwartz, RJ, 1932 Vila operária da Gamboa, RJ, 1931 com Gregori Warchavchik com Gregori Warchavchik Casa Ronan Borges, RJ, 1934 Vila Monlevade, MG, 1934Museu Rústico das Missões de São Miguel, RS, 1937 da Educação e Saúde, RJ, 1936 com Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Jorge Moreira, Affonso Eduardo Reidy e Ernani Vasconcellos consultoria de Le Corbusier Cidade Universitária, Quinta da Boa Vista, RJ, 1937 com Affonso Eduardo Reidy, Oscar Niemeyer, Firmino Saldanha, José de Souza Reis, Jorge Moreira e Angelo Bruhns Casa Barão de Saavedra, Correias, RJ, 1940 Pavilhão do Brasil, Nova York, 1938 com Oscar Niemeyer arquiteturaPark Hotel São Clemente, Nova Friburgo, RJ, 1944 Casa Argemiro Hungria Machado, RJ, 1942 Casa do Brasil, Cidade Universitária, Paris, 1952 Parque RJ, 1948 Entorno da igreja Altar XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, RJ, 1954 da Glória, RJ, 1959 risco original Jockey Club, RJ, 1956 Banco Aliança, RJ, 19561 2 Brasília, plano-piloto, 1957 Barra da Tijuca e Baixada de Jacarepaguá, RJ, plano-piloto, 1968 Pavilhão do Brasil, XIII Triena! de Milão, 1964 Casa Helena Costa, Casa Thiago de Mello, Casa Olivia Byington, RJ, 1984 Amazônia, 1984 RJ, 1987