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SUMÁRIO 
 
PREFÁCIO .................................................................................................................. 2 
UNIDADE 1 – GRAMÁTICA E SUAS DEFINIÇÕES .................................................. 3 
1.1– ESTUDOS DA LINGUAGEM ........................................................................................ 7 
1.2– DIFERENÇAS NA FORMAÇÃO DE PALAVRAS NA LÍNGUA ESCRITA E NA LÍNGUA FALADA .... 8 
UNIDADE 2 – UMA NOVA VERTENTE: ANÁLISE DO DISCURSO ....................... 12 
2.1 – OS SUJEITOS FALAM DE UM LUGAR SOCIAL ............................................................. 12 
2.2 – A LINGUAGEM E O SENTIDO .................................................................................. 14 
2.3 – O SUJEITO DO DISCURSO E A SUBJETIVAÇÃO .......................................................... 16 
UNIDADE 3 – PRAGMÁTICA, ARGUMENTAÇÃO E FIGURAS DE RETÓRICA .... 21 
UNIDADE 4 – SIGNO, SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO......................................... 25 
4.1- A ARBITRARIEDADE DO SIGNO ................................................................................ 27 
UNIDADE 5 – NOÇÕES DE SINTAXE ..................................................................... 30 
5.1 – A NOÇÃO DE CONSTITUINTE .................................................................................. 30 
5.2 – A TEORIA X-BARRA .............................................................................................. 30 
UNIDADE 6 - TEORIAS LINGÜÍSTICAS E A PRÁTICA DE ENSINO ..................... 35 
UNIDADE 7 – CONCLUSÃO .................................................................................... 43 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 45 
 
 
 
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PREFÁCIO 
 
Os estudos aqui apresentados objetivam rastrear, num sentido amplo, as 
principais vertentes teóricas da Linguística e da Gramática e suas ramificações. 
Ainda que pareça uma ciência recente, com base na História, o estudo da 
língua foi inaugurado pelos gregos e desenvolvido, principalmente, pelos franceses, 
com o foco não exatamente em uma visão científica, mas em uma maneira de criar 
regras para diferenciar as formas corretas e incorretas de usar a língua, o que julga-
se uma visão bastante estreita dessas (futuras) ciências e áreas de conhecimento, 
que vieram a se formar Linguística e Gramática. 
Muitos foram os estudos que buscaram reconhecer a língua como objeto 
único de pesquisa, o qual passou por três sucessivas fases antes de fazê-lo de fato. 
Os gregos chamaram de Gramática – de uma maneira não muito diferente da que 
conhecemos hoje: conjunto de regras que servia para normatizar, para dizer se a 
estrutura é certa ou errada. 
A fase posterior, a Filologia (1777), apresentou uma possível ciência na 
época, que prossegue até os dias atuais, cujo estudo não tinha como foco apenas a 
língua, mas também a interpretação de textos; todavia um estudo que pretendia usar 
um método próprio: a crítica. Sem dúvida essas pesquisas deram início à Linguística 
Histórica, porém não sendo a única trabalhar as hipóteses que abordavam as 
questões da Língua, falha no sentido de que se preocupou apenas com a língua 
escrita, não explorando de igual modo a língua falada – o que os gregos faziam 
quase completamente. 
Em 1816 teve início a terceira fase, cujos estudos descobriram que “as 
línguas podiam ser separadas entre si [...]: a Gramática comparada” (BOPP, 1816). 
Após traçar essa linha cronológica de avanços nos estudos referentes ao que 
compõem este material, vale ressaltar que este oferece aos alunos de Pós 
Graduação Latu Sensu em Língua Portuguesa um amplo painel de contribuições 
teóricas e aplicadas dos estudos referentes à Língua e à Linguagem. 
 
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UNIDADE 1 – GRAMÁTICA E SUAS DEFINIÇÕES 
 
É comum observar que poucos são os que não dizem que a gramática é um 
livro grosso, chato, difícil de decorar, repleto de regras de difícil compreensão. O 
objetivo aqui é apresentar, portanto, alguns dos conceitos dados a este temido livro. 
É válido dizer que muitas das regras apresentadas nas gramáticas têm uma 
conexão distante com a língua que falamos, o que não exclui a necessidade de 
conhecê-las para, ao menos, sabermos adaptá-las ao uso diário da língua materna. 
A gramática, por sua vez, como um conjunto de regras para escrever e falar 
bem. Essa concepção apenas engloba uma variação da língua: a norma culta ou 
padrão, o qual conduz o julgamento do certo e errado no que tange ao uso da 
língua. 
Partindo dessa idéia, a priori, chega-se, então, à definição da GT1 – o 
exemplo maior do conceito apresentado acima, o que explica o seu caráter 
normativo: “escreve-se assim e não assim, porque é considerado errado pelos 
padrões determinantes pela GT ou GN2, a qual estabelece um emaranhado de 
regras que devem ser seguidas; quando não o fazemos estamos “empobrecendo a 
língua”, maltratando o idioma”. 
Qualquer forma que fuja à Gramática Tradicional ou Normativa é 
considerada errada, visto que a mesma pretende ser um ideal de correção 
lingüística. 
Mesmo com todas as regras e não aceitação de quaisquer outras maneiras 
de uso da língua, a GT apresenta deficiências, uma delas a de não ser explícita, de 
não basear-se em contextos. Como toda teoria, deve definir os termos que pretende 
estudar com precisão, o que na maioria das vezes não acontece. Em muitas partes, 
para efeito, a GT ou GN contradiz a si mesma, exatamente por considerar que suas 
terminologias só serão empregadas nos contextos sintáticos por ela usados. 
Observe-se o conjunto de sentenças: 
 
1 Sigla correspondente à Gramática Tradicional. 
2 Sigla correspondente à Gramática Normativa, nomenclatura que é usada também para a GT. 
(HP)
Realce
(HP)
Realce
(HP)
Realce
 
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(1) a. [Provavelmente a Liz]3 comprou as frutas do supermercado (não a Maria) 
 b. A Liz [provavelmente comprou] as frutas do supermercado (não comeu) 
 c. A Liz comprou [provavelmente as frutas] do supermercado (não os legumes) 
 d. A Liz comprou as frutas [provavelmente do supermercado] (não da feira) 
 
Ressalta-se de início que estamos falando de sentenças bem construídas em 
português. Vale lembrar, também, que provavelmente pode aparecer em diferentes 
lugares da sentença, com a esperada alteração de seu significado. Entretanto o 
objetivo com os exemplos acima é mostrar a possibilidade de este advérbio 
(provavelmente) modificar constituintes diversos, não somente o verbo ou o adjetivo. 
A conclusão à qual se pretende chegar é que a GT ou GN, ao contrário 
daquilo se propõe a nos ensinar, 
 
(...) não se constitui em um corpo coeso de conhecimentos; e ampliando a 
crítica: o conjunto de observações que a GT faz não dá conta nem de longeressaltar que, na atividade concreta de fala, esses conteúdos 
bem como os saberes que permitem sua manifestação ocorrem sempre juntos, 
cabendo ao estudioso identificá-los e examiná-los, a fim de que possa perceber suas 
peculiaridades e, desta forma, interferir de forma mais coerente e segura no que 
realmente possa constituir as dificuldades dos alunos. 
É bastante freqüente entre os professores de todas as disciplinas, não apenas 
o professor de língua portuguesa, a queixa de que os alunos não sabem português, 
ou escrevem mal ou apresentam dificuldades gigantescas no momento em que 
precisam interpretar textos. Tais reclamações aparecem com freqüência não apenas 
entre os professores de ensino médio, mas também entre os docentes de terceiro 
grau, nas mais diferentes áreas. 
O conceito que a comunidade faz da língua leva em consideração os vínculos 
históricos e culturais compreendidos no que se costuma chamar de tradição e, por 
tal razão, a língua existe na consciência do sujeito como um objeto unitário e 
homogêneo. Só na condição de observador é que se pode perceber a variação 
apresentada por uma língua. E em virtude de tal diversidade é que se costuma fazer 
uma oposição entre língua culta ou norma padrão (modo de falar característico de 
pessoas com alto grau de instrução) e língua não-padrão (modo de falar 
característico das pessoas analfabetas ou com baixo índice de escolaridade). A 
primeira é a norma prestigiada pelo conjunto da sociedade, vale dizer, valorizada 
tanto por aqueles que utilizam a norma padrão quanto por aqueles que utilizam a 
norma não padrão. Por isso é a norma padrão aquela considerada como objeto 
privilegiado do ensino, condição de prestígio no seio da comunidade e modelo de 
correção lingüística. 
A forma como vemos a linguagem define os caminhos de ser aluno e 
professor de língua portuguesa; por isso há de se buscar coerência entre a 
concepção de linguagem e a de mundo. O professor e suas atitudes e concepções 
 
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são decisivos, no processo de aprendizagem, para se configurar o tipo de 
intervenção nesse processo. A concepção de linguagem e a de língua altera em 
muito o modo de estruturar o trabalho com a língua em termos de ensino e considera 
essa questão tão importante quanto a postura que se tem em relação à educação. 
Percebe-se três diferentes modos de se conceber a linguagem na história dos 
estudos lingüísticos. Essas três concepções são: (1) a linguagem é a expressão do 
pensamento; (2) a linguagem é instrumento de comunicação e; (3) a linguagem é 
uma forma ou processo de interação. 
Para a concepção de linguagem enquanto expressão do pensamento, o não 
saber pensar é a causa de as pessoas não saberem se expressar. Pensar 
logicamente é um requisito básico para se escrever, já que a linguagem traduz a 
expressão que se constrói no interior da mente, é o “espelho” do pensamento. 
 Nessa tendência, o fenômeno lingüístico é reduzido a um ato racional, um ato 
individual, que não é afetado pelo outro nem pelas circunstâncias que constituem a 
situação social em que a enunciação acontece. O fato lingüístico, a exteriorização do 
pensamento por meio de uma linguagem articulada e organizada, é explicado como 
sendo um ato de criação individual. A expressão exterior depende apenas do 
conteúdo interior, do pensamento da pessoa e de sua capacidade de organizá-lo de 
maneira lógica. Por isso, acredita-se que o pensar logicamente, resultando na lógica 
da linguagem, deve ser incorporado por regras a serem seguidas, sendo que essas 
regras situam-se dentro do domínio do estudo gramatical normativo ou tradicional 
que defende que saber língua é saber teoria gramatical. Dessa forma, acredita-se 
que quem fala ou escreve bem, seguindo e dominando as normas que compõem a 
gramática da língua, é um indivíduo que organiza logicamente o seu pensamento. 
Nesta tendência, observa-se a relação psíquica entre linguagem e 
pensamento, caracterizando a linguagem como algo individual, centrada na 
capacidade mental do indivíduo. As dificuldades de expressão, o discurso que se 
materializa no texto, então, independem da situação de interação comunicativa, do 
interlocutor, dos objetivos, dos fenômenos sociais, culturais e históricos. Se há 
algum desvio quanto às regras que organizam o pensamento e a linguagem, ele só 
 
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pode ser explicado pela incapacidade de o ser humano pensar e raciocinar 
logicamente. 
A concepção de linguagem que relaciona essa à necessidade de 
comunicação prediz que a língua é um sistema organizado de sinais (signos) que 
serve como meio de comunicação entre os indivíduos. Em outras palavras, a língua 
é um código, um conjunto de signos, combinados através de regras, que possibilita 
ao emissor transmitir uma certa mensagem ao receptor. A comunicação, no entanto, 
só é estabelecida quando emissor e receptor conhecem e dominam o código que é 
utilizado de maneira preestabelecida e convencionada. 
Nessa visão, o sistema lingüístico é completamente independente de todo ato 
de criação individual, de toda intenção e a língua opõe-se ao indivíduo enquanto 
uma norma irremediável, que o indivíduo só pode aceitar como tal. O sistema 
lingüístico é acabado, no sentido da totalidade das formas fonéticas, gramaticais e 
lexicais da língua, garantindo a sua compreensão pelos locutores de uma 
comunidade. 
Nessa vertente, os estudos da linguagem ficam restritos ao processo interno 
de organização do código. Privilegia-se, então, a forma, o aspecto material da 
língua, e as relações que constituem o seu sistema total, em detrimento do 
conteúdo, da significação e dos elementos extralingüísticos. Essa é a concepção de 
linguagem agregada aos modelos teóricos estruturalista e gerativista. A concepção 
de linguagem enquanto um processo de interação tem como base a crença de o que 
o indivíduo faz ao usar a língua não é tão-somente traduzir e exteriorizar um 
pensamento ou transmitir informações a outrem, mas sim realizar ações, agir, atuar 
sobre o interlocutor. Nesse enfoque, a concepção interacionista da linguagem 
contrapõe-se às visões conservadoras da língua, que a tem como um objeto 
autônomo, sem história e sem interferência do social, já que não enfatizar esses 
aspectos não é condizente com a realidade na qual estamos inseridos. 
Ao contrário das concepções anteriores, esta terceira concepção situa a 
linguagem como um lugar de interação humana, como o lugar de constituição de 
relações sociais. Dessa forma, ela representa as correntes e teorias de estudo da 
língua correspondentes à Lingüística da Enunciação (Lingüística Textual, Teoria do 
 
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Discurso, Análise do Discurso, Análise da Conversação, Semântica Argumentativa e 
todos os estudos ligados à Pragmática), que colocam no centro da reflexão o sujeito 
da linguagem, as condições de produção do discurso, o social,as relações de 
sentido estabelecidas entre os interlocutores. 
A língua, nesse caso, é o reflexo das relações sociais, ou seja, o locutor 
constrói o seu discurso mediante as suas necessidades enunciativas concretas, 
escolhendo formas lingüísticas que permitam que seu discurso figure num dado 
contexto e seja adequado a ele. 
Decorre daí que, numa visão sociointeracionista da linguagem, a percepção 
das variedades lingüísticas não se faz, como se observa no interior da primeira 
concepção de linguagem, com explicações simplistas que refletem o “certo” e o 
“errado”, o “aceitável” e o “inaceitável” ou porque uma linguagem é mais rica do que 
a outra. 
Penetrando mais fundo na essência da linguagem e entendendo que a língua 
está em constante evolução, entende-se também que todas as variedades 
existentes em nossa sociedade pertencem à nossa língua e que, embora a língua 
padrão possua maior prestígio social, as demais variedades possuem, como a 
variedade culta, a mesma expressividade e comunicatividade. Do ponto de vista 
interacionista da linguagem, a norma culta é vista como uma variante, uma 
possibilidade a mais de uso e não exclusivamente como o único uso linguisticamente 
correto e a única linguagem representante de uma cultura. 
Nessa nova moldura teórica, o texto passa a ser considerado o próprio lugar 
de interação. Desta forma, há lugar, no texto, para todo o conjunto de implícitos, dos 
mais variados tipos, somente identificáveis quando se tem, como pano de fundo, o 
contexto sócio-cognitivo dos participantes da interação. E a compreensão deixa de 
ser entendida como simples “captação” de uma representação mental ou como a 
decodificação de mensagem resultante de uma codificação de um emissor. Ela 
passa a ser vista como uma atividade interativa altamente complexa de produção de 
sentidos, que se realiza, evidentemente, com base nos elementos linguísticos 
presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas que requer a 
 
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mobilização de um vasto conjunto de saberes (enciclopédia) e sua reconstrução 
deste no interior do evento comunicativo. 
Se optarmos por adotar uma prática pedagógica com a produção de textos, 
por exemplo, e resolvemos mudar essa prática, adotando uma nova metodologia de 
trabalho, não o fazemos simplesmente porque julgamos que a prática anterior é 
antiquada e queremos mostrar que somos modernos. É necessário saber o que 
estávamos fazendo, porque mudamos, qual o objetivo que queremos alcançar com 
essa nova prática e, principalmente, qual a teoria e concepção de linguagem que a 
ela subjaz. Isso é fundamental para que fixemos os nossos objetivos de ensino em 
bases sólidas e para que nos coloquemos como sujeitos participantes da construção 
do conhecimento. Teoria e prática, portanto, estão intimamente relacionadas e 
configuram-se na viabilidade do processo didático. 
Com base no conjunto de fundamentos acima explicitados podemos 
compreender melhor algumas questões sobre o nosso objeto de estudo e sua 
relação com a prática pedagógica escolar. O ensino de Língua Portuguesa se 
constituiu durante muito tempo em fazer os alunos decorarem uma mera listagem de 
regras da gramática normativa. As classes gramaticais e as regras ortográficas, por 
exemplo, eram expostas ao estudante de forma desvinculada da realidade 
quotidiana do uso da língua. 
Nessa postura, ignorava-se que o ensino e a aprendizagem são dois lados 
dos processos diferentes de uma mesma unidade, ou seja, que o fato de estar 
ensinando algo nem sempre significa que o aluno esteja aprendendo, pois reproduzir 
o conhecimento é muito diferente de construí-lo e de produzi-lo. 
Deste modo, os conteúdos trabalhados eram ditados pelo livro didático e o 
texto servia como pretexto para ensinar teoria gramatical; as questões de leitura, 
consequentemente, restringiam-se à mera decodificação ou repetição do que o autor 
disse, o que interessava era a gramática normativa; a redação servia apenas para 
que se avaliasse a ortografia. O resultado foi que as avaliações dos textos 
produzidos pelos alunos restringiam-se também à mera correção de problemas 
ortográficos e de outras questões gramaticais e de critérios totalmente subjetivos no 
que diz respeito ao conteúdo. Não eram oferecidas possibilidades de revisão e re-
 
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elaboração do texto, pois este era visto como um produto fechado em si mesmo, 
servindo apenas para correção e nota. 
O exercício de redação era artificial, pois o texto não possuía interlocutor e, 
portanto, não se configurava por uma relação dialógica. Era uma atividade isolada 
em que se privilegiava a forma em detrimento do conteúdo. O aluno devia mostrar 
que sabia escrever, e, por isso, preenchia a folha em branco com palavras bonitas, 
agradáveis aos olhos do professor. Apareciam, aí, os chavões, as frases feitas, os 
lugares comuns, os clichês e as expressões metafóricas consagradas. A voz do 
aluno era calada, para em seu lugar, emergir a linguagem institucionalizada, já que 
havia controle e diretividade das idéias, levando-o a uma só interpretação dos fatos 
valorizados socialmente e que reproduziam a palavra dita pela escola ou as palavras 
alheias. 
Na abordagem tradicional, a aprendizagem é receptiva e automática, 
prevalecendo a produção correta do código escrito culto, visto como a única variável 
valorizada para todas as atividades em sala de aula. Privilegia-se, ainda, a forma, o 
aspecto material da língua, em detrimento do conteúdo e da significação. A 
aprendizagem da forma das expressões, então, se dá com conteúdos totalmente 
alheios ao grupo social, dando-se ênfase a modelos a serem reproduzidos e 
exercitados dentro da escola, preparando o aluno para usar essas expressões fora 
dela. 
Os comentários acima explicitados em torno desse processo de ensino, 
deixam evidente uma concepção que vê na aprendizagem da teoria gramatical a 
garantia de se chegar ao domínio da língua escrita e uma outra, que vê, no trabalho 
com as estruturas isoladas da língua, a possibilidade de se desenvolver a expressão 
escrita. Refere-se aqui às duas primeiras concepções de linguagem, que foram 
descritas anteriormente, e que levam às práticas pedagógicas do ensino tradicional. 
O ensino da língua era limitado ao estudo da língua em si mesma e por si mesma. 
Logo, não auxiliava a aprendizagem de seus usos em contextos sociais. Novas 
proposições de alternativas e práticas diferenciadas, influenciadas pela concepção 
interacionista começaram a tomar espaço nas pesquisas linguísticas. Contrapondo-
 
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se às visões conservadoras da língua, essa abordagem direciona a prática 
pedagógica a encarar a pluralidade dos discursos. 
A prática pedagógica, nessa perspectiva, procura dar oportunidades ao aluno 
de domínio das habilidades de uso da língua em situações concretas de interação, 
de forma aentender e produzir textos e a perceber as diferenças entre uma forma de 
expressão e outra. 
A partir de tudo o que foi apresentado no decorrer dessa unidade, chega-se à 
conclusão de que cabe ao professor desenvolver uma forma de ensino que 
realmente lhe pareça produtiva para atender à consecução dos objetivos de língua 
portuguesa que se tem em mente. A reflexão sobre o seu fazer pedagógico, no 
entanto, deve ser consciente e, caso pretenda operar uma mudança de atitude, deve 
ter claro que, para haver mudanças, não basta mudar a prática, a metodologia. 
Há uma questão mais séria a ser resolvida antes de se adotar uma nova linha 
metodológica, antes de se pensar em novos procedimentos de ação. Trata-se de 
aderir a uma nova concepção de língua/linguagem, sem a qual não conseguirá 
ultrapassar a insegurança de uma alteração de atitude, de refletir sobre os 
pressupostos da metodologia que adotará em sala de aula. 
 
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UNIDADE 7 – CONCLUSÃO 
 
Vimos, durante nosso estudo sobre o percurso dos estudos da linguagem, 
que o interesse por essa é bastante antigo, remontando ao século V a.C. com a 
preocupação dos gregos em definir as relações entre o conceito e as palavras que o 
designa. Vimos, ainda, o surgimento das primeiras gramáticas e o tratamento 
acurado que essas receberam na Idade Média com os modistas. 
A consideração da lingüística enquanto ciência, porém, só foi possível a partir 
das idéias de Saussure, no século XX. A autonomia da lingüística só ocorreu com a 
homogeneização do objeto de estudo, proposta por Saussure: a língua, sistema 
abstrato, social e virtual. Os seguidores dos princípios saussurianos esforçaram-se 
por explicar a língua por ela própria, considerando-a uma estrutura constituída por 
uma rede de elementos, em que cada elemento tem um valor funcional determinado. 
Essa teoria ficou conhecida como Estruturalismo. 
As idéias estruturalistas causaram uma profunda modificação na forma de se 
conceber a linguagem. E, apesar de, num primeiro momento, ter havido uma maior 
preocupação com a porção abstrata da linguagem, surgiram estudiosos que se 
interessaram pelo uso concreto da língua e partiram para estudos mais voltados 
para a questão funcional da linguagem. Apareceram, então, no cenário lingüístico, 
os primeiros estudos de abordagem funcionalista, vertente teórica ainda presente. 
Observamos, ainda, em meados do século XX, uma modificação nos estudos 
lingüísticos a partir da consideração da gramática como um sistema gerativo, um 
conjunto infinito de sentenças constituído a partir de um conjunto finito de elementos. 
Essa inovação proposta pelo norte-americano Noam Chomsky apresentou, do 
mesmo modo que Saussure, a homogeneidade no tratamento do fato lingüístico 
como ponto fundamental da teoria. Assim, excluem-se novamente as questões 
subjetivas e sociais dos estudos lingüísticos. 
Como se pôde observar, a partir da apresentação do desenvolvimento das 
teorias lingüísticas, há muitos caminhos possíveis quando se trata do estudo da 
linguagem humana. A complexidade do fenômeno lingüístico fez com que surgissem 
inúmeras abordagens teóricas, cada uma com diferentes objetivos e métodos. Cabe, 
 
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portanto, ao profissional que deseje se aventurar por essa área de estudos que 
escolha a abordagem que considere mais adequada à forma como concebe a 
linguagem. 
 
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REFERÊNCIAS 
 
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SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2006. 
VERÍSSIMO, L. F. O gigolô das palavras. In: LUFT, Celso Pedro. Língua e 
Liberdade: Por uma concepção da Língua Materna e seu ensino. 5ª ed. São Paulo: 
Contexto, 1985.da riqueza da língua, nem mesmo do registro que ela se propõe a 
descrever. (MIOTO, 2000, p. 19) 
 
 Ao contrário da GT, que descreve regras que devem ser seguidas, há a 
Gramática Descritiva, a qual apresenta um conjunto de regras de são de fato 
seguidas; são explícitas e se preocupam com a fala. 
Há várias formas de se estudar a língua e a linguagem. Por isso, mais adiante 
surgiu a Gramática Gerativa4, uma teoria que se ocupa das línguas e da linguagem. 
 
O que existe, na verdade, são homens que falam, numa sociedade que se 
organiza através da linguagem. Vamos chamar isto de mundo de 
aparências, das coisas que existem concretamente. Para tornar inteligível 
esse mundo das aparências, o espírito humano constrói modelos abstratos, 
teorias, que levam em conta normalmente apenas partes desse mundo. 
Está-se falando então que cada modelo abstrato, cada teoria, escolhe um 
aspecto da linguagem para estudar e que não existe um modelo bem 
sucedido que contemple todo o fenômeno da linguagem. (VITRAL, 1998, p. 
119) 
 
 
3 Os colchetes aqui, e nas sentenças de (1), servem para esclarecer qual é o foco do advérbio. 
4 Teoria desenvolvida por Noam Chomsky, em 1957. 
(HP)
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5
 
A Gramática Gerativa se ocupa da sintaxe das línguas, embora não seja este 
o seu objeto de estudo, e sim um meio para descrever uma entidade teórica 
chamada Gramática Universal, que é de fato o objeto de estudo da Gramática 
Gerativa. 
A Gramática Universal pode ser definida como os aspectos sintáticos que são 
comuns a todas as línguas do mundo. A GU5 contém princípios que serão fixados 
pela experiência e que determinam as possibilidades de variação gramatical das 
línguas. 
Segundo Chomsky (1979), a Gramática Universal é uma teoria sobre 
mecanismos inatos; uma matriz biológica dentro da qual se dá o desenvolvimento da 
linguagem. 
Existe, ainda, outra gramática: a Gramática Subjacente ou Internalizada. 
Todos os seres humanos ao nascerem, trazem consigo um conjunto de normas que 
dizem respeito à sua língua materna; um léxico mental, que os permitem a falar 
desde crianças o português correto6. 
Como exemplo, quando a criança começa a emitir os primeiros sons, e logo 
após as primeiras palavras, ainda que com alguma dificuldade, ela usa a sintaxe, 
genuinamente, da língua materna, neste caso a língua portuguesa: 
S – V – O = SUJEITO – VERBO – OBJETO 
 
Cabe ressaltar que nessa fase ainda não é apresentado à criança todas as 
terminologias adotadas pelas gramáticas. Isto prova que existe e é funcional uma 
gramática intrínseca ao ser humano: a que chamamos aqui de Subjacente ou 
Internalizada, que é composta de regras, sim, mas essas que o falante domina 
desde o início do processo de aquisição da linguagem. 
 
5 Gramática Universal 
6 Chamo de correto aqui, o português que é dito e compreendido da melhor maneira, visto que a principal função 
da língua é permitir a efetiva comunicação (grifo meu). 
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6
 
Justifica-se, em partes, o uso da expressão norma padrão na área da 
Linguística, pelo fato de existirem algumas variações da palavra norma. Dentre as 
quais, citam-se: 
VARIAÇÃO DIASTRÁTICA Variações de patamar social 
VARIAÇÃO DIACRÔNICA Variações por período de tempo 
VARIAÇÃO DIATÓPICA Variações por lugares ou regiões 
 
 Com base nas concepções existentes em relação ao uso da língua em uma 
sociedade, fica evidenciado o problema que afeta os falantes nativos da Língua 
Portuguesa: o preconceito linguístico, o qual existe devido a alguns fatores que se 
relacionam com as variações acima citadas e as que seguem: 
• A relação das concepções da língua com a sociedade se desloca para a 
discriminação, de maneira que torna o sujeito estigmatizado, sendo ele falante 
da língua materna, embora não siga as normas exigidas pela sociedade. 
• A sociedade estabelece valorização, positiva ou negativa, de uma 
determinada variação de registro de fala. 
• O uso da língua é considerado critério para que se apliquem juízos de valor 
a respeito dos falantes perante a sociedade, a qual estabelece um padrão 
desejável, a concepção mais convencional, sustentado sempre por uma 
autoridade. 
 
 Ao usarmos a língua, há mais de uma maneira de dizer a mesma coisa. Nós 
sabemos, por exemplo, que podemos dizer algo de modo mais formal ou informal ou 
que uma pessoa é da Bahia, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Minas Gerais 
apenas observando a maneira como ela fala. Em outras palavras, a língua sofre 
variação, que é condicionada por vários fatores, como já dito. 
 O uso da língua depende, sobretudo, de fatores geográficos, 
socioeconômicos, de faixa etária, do maior ou menor grau de formalidade do 
discurso e mesmo do sexo dos falantes. Esses fatores determinarão as variantes de 
uma língua. 
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1.1– Estudos da linguagem 
 Os estudos da linguagem, mesmo depois de tantas discussões, apenas foram 
consolidados como ciência no século XX, com a publicação póstuma do Cours de 
linguistique générale7, do suíço Ferdinand de Saussure, em 1916. 
 O linguista Saussure tinha o objetivo de tornar a linguística, efetivamente, 
uma ciência. Em Curso de Linguística Geral, o autor desenvolve a teoria dos signos 
no campo da linguagem, numa concepção psíquica, mental, e não física, dentre as 
quais se destacam o valor, tomado em seu aspecto conceitual, o qual constitui, sem 
dúvida, um elemento da significação; a idéia de que tudo se passa entre a imagem 
auditiva e o conceito, nos limites da palavra considerada como um domínio fechado 
existente por si próprio. Saussure conceitua a língua como um “sistema de signos”, 
ou seja, um conjunto de unidades significativas que estão organizadas formando o 
todo, sendo signo a associação entre significante (imagem auditiva) e significado 
(conceito) 
 A Ciência de Ferdinand de Saussure pautou-se na noção de estrutura, mais 
tarde conhecida como Estruturalismo, que tem como principais características: 
• Apresenta diferentes concepções de estrutura, o que resultou em ramificar 
a noção de valor. 
• Abordar qualquer língua como um sistema no qual cada um dos elementos 
só pode ser definido pelas relações de equivalência ou de oposição que 
mantém com os demais elementos. 
• Um elemento linguístico só adquire valor na medida em que se relaciona 
com o todo do sistema da língua. 
 
 O Funcionalismo e o Formalismo são duas correntes de pensamento que se 
destacam na linguística contemporânea. A respeito do Funcionalismo, pode-se dizer 
que se dedica às categorias semântico/ pragmáticas. Nessa estrutura, a língua é7 Curso de Linguística Geral 
 
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determinada pelo seu uso; vê a linguagem humana como um instrumento de 
interação social entre os seres humanos. 
 Em meio a todos os estudos já citados, era objetivo de Chomsky priorizar a 
competência nos estudos da linguagem, sem tratá-la de forma homogênea; tornar as 
estruturas profundas cada vez mais abstratas, suprimindo o nível sintático 
intermediário da chamada estrutura de base, e tornar as transformações diretamente 
aplicáveis às estruturas semânticas, as quais gerariam as estruturas superficiais. 
 Ainda será apresentado mais à frente, mas diante das discussões acerca das 
gramáticas desenvolvidas com seus respectivos objetivos, cabe ressaltar uma 
vertente da Linguística que atende a muitos requisitos, com base em grandes 
referenciais teóricos, no que diz respeito à linguagem e a tudo que a envolve: a 
Análise do Discurso8. 
 A AD é uma disciplina que surgiu na França, na década de 60, e é pautada, 
principalmente, na noção de materialismo histórico; é um tipo de análise criada para 
chegar à ideologia codificada implicitamente por detrás das proposições abertas, 
para examiná-la em particular no contexto das formações sociais. De acordo com 
essa vertente, o discurso é conceituado como um conjunto de afirmações 
sistematicamente organizadas, que dão expressão aos significados e aos valores de 
uma instituição; é uma prática, uma ação do sujeito sobre o mundo; uma dispersão 
de textos, cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de 
regularidades enunciativas. 
 
1.2– Diferenças na formação de palavras na língua escrita e na língua falada 
 É gradativamente importante, como já foi dito acima, traçar as diferenças 
entre língua escrita e língua falada. Aquela, de caráter secundário, tem acima de 
tudo o objetivo de superar os limites inerentes à língua falada em termos de tempo e 
espaço. Tendo, portanto, o objetivo de permanência e não de apresentar 
necessariamente pressão de tempo para sua produção; a língua escrita tende a ser 
 
8 Também será chamada neste material de AD. 
 
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mais cuidada, isto é, mais tensa e formal que a língua falada, assim como mais 
conservadora. 
 Na sociedade em que vivemos, o papel da língua escrita acentua a tendência 
formalizante, de acordo com os padrões da GT. Por um lado, o valor do bem 
escrever é importante em muitos setores da sociedade, sendo estigmatizado, 
contudo, o não domínio da língua escrita padrão. Por outro lado, as alternativas de 
transmissão de mensagem por outros meios de comunicação colocam a língua 
escrita numa utilização cada vez mais restrita ao necessariamente formal. 
 A tudo o que foi exposto até aqui se soma a importância crescente da língua 
escrita como veículo de informação científica e tecnológica (BASÍLIO, 2007). Dessa 
forma quando se fala em língua escrita a referência é a língua escrita formal 
padronizada, embora haja situações de uso de língua escrita em que esta aparece 
num menor grau de formalização. 
 De igual modo, visto que o papel principal da língua falada é promover a 
comunicação direta no cotidiano, esta é a referência natural quando se reporta à ela, 
embora exista situações e contextos de falas mais formalizadas. 
 Há um texto que discute com clareza a questão do saber língua e saber 
gramática, a qual atende as formalidades da língua escrita e a funcionalidade do 
ensino das mesmas. Segue este texto: 
 
O gigolô das palavras 
Luís Fernando Veríssimo 
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa 
numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava 
o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra 
língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da 
pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor 
lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e 
aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às 
pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o 
equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem 
 
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entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos 
em frente. 
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que 
deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da 
Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é 
uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não 
necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? 
O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas 
aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A 
Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse 
restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela 
sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia 
Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão 
esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever 
sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, 
como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As 
múmias conversam entre si em Gramática pura. 
Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha 
implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre 
fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática 
é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na 
matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar 
conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as 
desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço 
delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E 
jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa 
seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que 
não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com 
isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de 
baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito. 
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria 
tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonassepelo seu plantel. Acabaria tratando-as 
com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a 
 
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sua patroa ! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com 
elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. 
Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias 
pra saber quem é que manda. 
 
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UNIDADE 2 – UMA NOVA VERTENTE: ANÁLISE DO 
DISCURSO 
 
Como o discurso encontra-se na exterioridade, no seio da vida social, o 
analista/estudioso necessita romper as estruturas lingüísticas para chegar a ele. É 
preciso sair do especificamente lingüístico, dirigir-se a outros espaços, para procurar 
descobrir, descortinar, o que está entre a língua e a fala (FERNANDES, 2005, p. 24). 
 Para a Análise do Discurso, o discurso é uma prática, uma ação do sujeito 
sobre o mundo. Por isso sua aparição deve ser contextualizada como um 
acontecimento, pois funda uma interpretação e constrói uma vontade de verdade. 
Quando pronunciamos um discurso agimos sobre o mundo, marcamos uma posição 
- ora selecionando sentidos, ora excluindo-os no processo interlocutório. 
Para Maingueneau, o discurso é “uma dispersão de textos cujo modo de 
inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas” 
(2005, p. 15). Já Foucault diz: 
 
Chamaremos discurso um conjunto de enunciados na medida em que se 
apóia na mesma formação discursiva... ele é constituído de um número 
limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de 
condições de existência (2005). 
 
2.1 – Os sujeitos falam de um lugar social 
Este lugar no discurso é governado por regras anônimas que definem o que 
pode e deve ser dito. Somente nesse lugar constituinte o discurso vai ter um dado 
efeito de sentido. Se for pronunciado em outra situação que remeta a outras 
condições de produção, seu sentido, conseqüentemente, será outro. 
Na medida em que retiramos de um discurso fragmentos e inserimos em outro 
discurso, fazemos uma transposição de suas condições de produção. Mudadas as 
condições de produção, a significação desses fragmentos ganha nova configuração 
semântica (BRANDÃO, 1993). 
A unidade do discurso é um efeito de sentido, como Orlandi explica: “a 
palavra discurso, etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de percurso, de 
correr por, de movimento” (1999, p. 15). Os discursos se movem em direção a 
 
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outros. Nunca está só, sempre está atravessado por vozes que o antecederam e que 
mantêm com ele constante duelo, ora o legitimando, ora o confrontando. A formação 
de um discurso está baseada nesse princípio constitutivo – o dialogismo. Os 
discursos vêm ao mundo povoado por outros discursos, com os quais dialogam. 
Esses discursos podem estar dispersos pelo tempo e pelo espaço, mas se unem por 
que são atravessadas por uma mesma regra de aparição: uma mesma escolha 
temática, mesmos conceitos, objetos, modalidades ou um acontecimento. Por isso 
que o discurso é uma unidade na dispersão. 
O discurso político, por exemplo, pode ser um campo onde vários discursos 
semelhantes se alojam. Esses discursos se assemelham pelo objeto de suas 
análises, embora possam ter divergências quanto à interpretação do mesmo. Dentro 
desse campo, podemos fazer recortes menores, a fim de abstrairmos maiores 
semelhanças entre os discursos, como: dentro do discurso político, podemos fazer 
uma opção pelo discurso anarquista. 
Mas toda identidade do discurso são construções feitas através do próprio 
discurso, por isso, permeável e passível de movências de sentido. Quando um 
discurso é proferido, ele já nasce filiado a uma rede tecida por outros discursos com 
semelhantes escolhas e exclusões. A metáfora da rede é pertinente para explicar o 
discurso: 
 
Uma rede, e pensemos numa rede mais simples, como a de pesca, é 
composta de fios, de nós e de furos. Os fios que se encontram e se 
sustentam nos nós são tão relevantes para o processo de fazer sentido, 
como os furos, por onde a falta, a falha se deixam escolar. Se não houvesse 
furos, estaríamos confrontados com a completude do dizer, não havendo 
espaço para novos e outros sentidos se formarem. A rede, como um 
sistema, é um todo organizado, mas não fechado, por que tem os furos, e 
não estável, por que os sentidos podem passar e chegar por essas brechas 
a cada momento. Diríamos que o discurso seria uma rede e como tal 
representaria o todo; só que esse todo comporta em si o não-todo, esse 
sistema abre lugar para o não sistêmico, o não representável. (FERREIRA. 
In INDURSKY, 2005, p. 20). 
 
É por isso que o sentido do discurso não é dado a priori, pois a unidade é 
construída pela interação verbal, que é histórica e que mantém relação com uma 
ideologia. Somente nesse espaço o discurso consegue esconder sua polissemia. 
 
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Não se trata, aqui, de neutralizar o discurso, transformá-lo em signo de outra 
coisa e atravessar-lhe a espessura para encontrar o que permanece silenciosamente 
aquém dele, e sim, pelo contrário, mantê-lo em sua consistência, fazê-lo surgir na 
complexidade que lhe é própria (Foucault, 2005). 
 
2.2 – A linguagem e o Sentido 
Na ótica da Análise do Discurso, a linguagem não é um simples instrumento 
de comunicação ou de transmissão de informação. Ela é mais do que isso, pois 
também serve para não comunicar. A linguagem é o lugar de conflitos e confrontos, 
pois ela só pode ser apanhada no processo de interação social. Não há nela um 
repouso confortante do sentido estabilizado. 
O signo é uma arena privilegiada da luta de classe. Não se pode dizer o que 
quer quando se ocupa um determinado lugar social, pois este exige o emprego de 
certas representações e a exclusão de outras. Gregolin diz, “se temos hoje um 
sentido para dada coisa é porque houve um processo que o cimentou e organizou a 
exclusão do sem-sentido” (2001, p. 10). 
O sentido está inscrito na Ordem do Discurso. Basta descobrir as regras de 
sua formação para tornar evidente a polifonia que fez dela um nó de significância. 
Mas a polissemia afronta os sentidos oficiais, àquele que é desejado e prestigiado, 
rasgando a máscara que esconde a heterogeneidade reinante. Por isso, todo 
sentido cristalizado deixa entrever um rastro da história do jogo de poder que o 
instaurou nas malhas da linguagem. 
É por isso que o estudo da linguagem não pode estar apartado das condições 
sociais que a produziram,pois são essas condições que criam a evidência do 
sentido. Foucault (1999) esclarece que a produção do discurso é controlada, 
selecionada, organizada e distribuída, a fim de que seus “perigos e poderes” sejam 
conjurados. 
A Análise do Discurso é contra a idéia de imanência do sentido. Não pode 
haver um núcleo de significância inerente à palavra, pois a linguagem da qual o 
signo lingüístico faz parte é polissêmica e heteróclita. O signo não pode estar 
 
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alienado de outros signos que com ele interagem. A linguagem está na confluência 
entre a história e a ideologia. 
Essa visão da linguagem como interação social, em que o Outro desempenha 
papel fundamental na constituição do significado, integra todo ato de enunciação 
individual num contexto mais amplo, revelando as relações intrínsecas entre o 
lingüístico e o social. 
O percurso que o indivíduo faz da elaboração mental do conteúdo, a ser 
expresso à objetivação externa – a enunciação – desse conteúdo, é orientado 
socialmente, buscando adaptar-se ao contexto imediato do ato da fala e, sobretudo, 
a interlocutores concretos (BRANDÃO, 1993). 
 A Análise do Discurso não toma o sentido em si mesmo, ou seja, em sua 
imanência. Não se acredita na existência de uma essência da palavra - um 
significado primeiro, original, imaculado e fixo capaz de ser localizado no interior do 
significante. Nesse sentido, podemos dizer que foi uma grande ilusão de Saussure 
achar que se poderia encontrar na palavra alguma pureza de sentido. 
Como alçapões, os textos capturam e transformam a infinitude dos sentidos 
em uma momentânea completude. Inserido na história e na memória, cada texto 
nasce de um permanente diálogo com outros textos; por isso, não havendo como 
encontrar a palavra fundadora, a origem, a fonte, os sujeitos só podem enxergar os 
sentidos no seu pleno vôo (GREGOLIN, 2001). 
A constituição do sentido é socialmente construída. A aparente monossemia 
de uma palavra ou enunciado é fruto de um processo de sedimentação ou 
cristalização que apaga ou silencia a disputa que houve para dicionarizá-la. “O 
sentido não existe em si mesmo. Ele é determinado pelas posições ideológicas 
colocadas em jogo no processo histórico no qual as palavras são produzidas” 
(PECHÊUX, apud BRANDÃO, 1993, p. 62). 
A incompletude é constitutiva de qualquer signo - qualquer ato de nomeação 
é um ato falho, um mero efeito discursivo. O discurso diz muito mais do que seu 
enunciador pretendia. “A multiplicidade de sentido é inerente à linguagem” 
(ORLANDI, 1988, p. 20). 
 
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Por isso o sentido é alvo do exercício do poder, principalmente em 
sociedades cujos governos são autoritários. Nos discursos oficiais, o sentido é 
atravessado por paráfrases, o mesmo é dito de várias formas para garantir que a 
monossemia se naturalize. 
A Análise do Discurso mostra a relação que existe entre a produção do saber 
que naturaliza o sentido, com o poder que estabelece as regras da formação do 
referido saber. Ou seja, revela toda a trama feita no transcurso da história para que o 
sentido pudesse ganhar uma forma monossêmica, um status de natural. 
 
2.3 – O sujeito do discurso e a subjetivação 
O sujeito da Análise do Discurso não é o cartesiano dos tempos áureos do 
iluminismo. Descartes (1596-1650) projetou um homem dono de si, senhor de seu 
próprio destino, consciente de suas ações e desejos, capaz de conhecer a verdade 
e alcançar a felicidade através da razão. 
O sujeito da Análise do Discurso não é o sujeito das Ciências Exatas, que se 
diz capaz de explicar o objeto através de um conhecimento imparcial. Um sujeito que 
está no exterior da realidade pesquisada e que observa o fenômeno com a distância 
suficiente para assumir um comportamento neutro diante do fato. 
O sujeito da Análise do Discurso também não é o da Lingüística Clássica, que 
o concebe ora como idealizado, ora como mero falante. O sujeito idealizado 
baseado na crença de que todos os falantes de uma mesma comunidade falam a 
mesma língua. O sujeito falante é o empírico, o individualizado, que “tem a 
capacidade para aquisição da língua e a utiliza em conformidade com o contexto 
sociocultural no qual tem existência” (FERNANDES, 2005, p. 35). Muito menos é o 
sujeito da Gramática Normativa que o classifica em simples, composto, 
indeterminado, oculto e inexiste. O sujeito do discurso não pode estar reduzido aos 
elementos gramaticais, pois ele é historicamente determinado. 
 
Na Análise do Discurso, para compreendermos a noção de sujeito, devemos 
considerar, logo de início, que não se trata de indivíduos compreendidos 
como seres que têm uma existência particular no mundo; isto é, sujeito, na 
perspectiva em discussão, não é um ser humano individualizado... um 
 
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sujeito discursivo deve ser considerado sempre como um ser social, 
apreendido em um espaço coletivo (FERNANDES, 2005, p. 33). 
 
Para a Análise do Discurso, o sujeito do discurso é histórico, social e 
descentrado. Descentrado, pois é cindido pela ideologia e pelo inconsciente. 
Histórico, por que não está alienado do mundo que o cerca. Social, por que não é o 
indivíduo, mas àquele apreendido num espaço coletivo. “O sujeito de linguagem é 
descentrado, pois é afetado pelo real da língua e também pelo real da história, não 
tendo o controle sobre o modo como elas o afetam” (ORLANDI, 2005, p. 20). 
A Análise do Discurso defende uma teoria não-subjetiva do sujeito. Como 
explica Fernandes, “a constituição do sujeito discursivo é marcada por uma 
heterogeneidade decorrente de sua interação social em diferentes segmentos da 
sociedade” (2005, p. 41). Isso implica três coisas: o sujeito não ocupa uma posição 
central na formação do discurso; ele não é fonte do que diz; muito menos tem uma 
identidade fixa e estável. 
Na perspectiva da Análise do Discurso, a noção de sujeito deixa de ser uma 
noção idealista, imanente; o sujeito da linguagem não é o sujeito em si, mas tal 
como existe socialmente, interpelado pela ideologia. Dessa forma, o sujeito não é a 
origem, a fonte absoluta do sentido, por que na sua fala outras falas se dizem. 
(BRANDÃO, 1993). 
O que define de fato o sujeito é o lugar de onde fala. Foucault diz que “não 
importa quem fala, mas o que ele diz não é dito de qualquer lugar” (BRANDÃO op. 
cit.). Esse lugar é um espaço de representação social (ex: médico, pai, professor, 
motorista etc.), que é uma unidade apenas abstratamente, pois, na prática, é 
atravessada pela dispersão. 
A unidade é uma criação ideologia, é uma coação da ordem do discurso. Por 
isso, podemos dizer que o sujeito é um acontecimento simbólico. “Se não sofrer os 
efeitos do simbólico, ou seja, se ele não se submeter à língua e à história, ele não se 
constitui, ele não fala, ele não produz sentidos” (ORLANDI, 2005, p. 49). 
O dolo da unidade pode ser desmascarado pela polifoniainerente a todo 
sujeito. O sujeito é constituído por vários “eus”. Não há centro em seu ser, pois o seu 
interior está saturado por várias vozes, de modo que, quando fala, o seu dizer não 
 
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18 
 
mais lhe pertence: “Ele é polifônico, uma vez que é portador de várias vozes 
enunciativas. Ele é dividido, pois carrega consigo vários tipos de saberes, dos quais 
uns são conscientes, outros são não-conscientes, outros ainda inconscientes” 
(CHARAUDEAU, 2004, p. 458). 
O sujeito pode ocupar várias posições no texto. Um único indivíduo pode 
assumir o papel de diferentes sujeitos. O sujeito é caracterizado pela incompletude. 
Mas essa marca vai se apagando de acordo com a função enunciativa que o sujeito 
assume. Hierarquicamente esse apagamento acontece da seguinte maneira: locutor 
enunciador autor. 
O sujeito é um eu pluralizado, pois se constitui na e pela interação verbal. “É 
múltiplo porque atravessa e é atravessado por vários discursos, por que não se 
relaciona mecanicamente com a ordem social da qual faz parte, por que representa 
vários papéis, etc.” (ORLANDI, 1988b, p. 11). 
Não existe o sujeito sem o discurso, pois é este quem cria um espaço 
representacional para aquele. Talvez a grande contradição do sujeito seja o fato dele 
produzir o discurso e ao mesmo tempo ser produzido por ele. “O sujeito tem acesso 
a si a partir de saberes que são sustentados por técnicas” (SARGENTINI, 2004, p. 
93). 
O sujeito é inventado pelo discurso através do processo de subjetivação. E 
Miriani nos alerta “... falar de subjetividade é falar de algo que é puro movimento, 
apreensível apenas num só-depois...” (2006, p. 8). O sujeito não aparece 
individualizado naturalmente. É preciso que o poder o disciplinarize e molde o seu 
comportamento conforme a ordem desejada. O sujeito se relaciona consigo mesmo 
através do discurso, discurso esse que não lhe pertence completamente, mas que é 
devassado pelo outro. 
É o olhar de um outro que permite a constituição de uma imagem unitária do 
eu. O eu só tem sentido quando o outro lhe atravessa. Não existe subjetividade sem 
a intersubjetividade. Não existe uma alteridade que esteja fora do eu, os dois não 
estão separados por uma fronteira bem definida, pelo contrário, ambos são um 
mosaico de vozes, que formam um saber sobre si e sobre o outro recalcado pelos 
jogos de poder. 
 
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19 
 
O discurso não é fruto de um sujeito que pensa e sabe o que quer. É o 
discurso que determina o que o sujeito deve falar, é ele que estipula as modalidades 
enunciativas. Logo, o sujeito não preexiste ao discurso, ele é uma construção no 
discurso, sendo este um feixe de relações que irá determinar o que dizer quando e 
de que modo. (NAVARRO-BARBOSA, in: SARGENTINI, 2004). 
Somos acostumados a ligar um indivíduo a uma identidade, a nomear para 
familiarizar, generalizar para domesticar. Sem darmos conta, somos conseqüência 
da atuação de poderes múltiplos (família, escola, patronato etc.) que agem sobre 
nossas vidas para forjar representações de subjetividades e impor formas de 
individualidades. Foi o que Foucault chamou de Técnicas de Si, ou seja, 
procedimentos que fixam, mantêm e transformam a identidade, em função de 
determinados fins. 
Mas todo processo de subjetivação é falho, é lacunar, conseqüentemente, 
abre brechas para resistências. Pois não existem protótipos humanos 
biologicamente determinados a serem iguais uns aos outros. A subjetivação é 
instrumentalizada pela linguagem que, como já vimos, é opaca, não consegue 
nomear nada, sem que haja falha. 
A identidade do sujeito é um efeito do poder. “A identidade, assim como o 
sujeito, não é fixa, ela está sempre em produção, encontra-se em um processo 
ininterrupto de construção e é caracterizada por mutações” (FERNANDES, 2005, p. 
43). 
Impossível é moldar uma forma que defina o sujeito sem essa relação que 
trava com o outro. Fernandes afirma que “compreender o sujeito discursivo requer 
compreender quais são as vozes sociais que se fazem presente em sua voz” (2005, 
p. 35). 
O poder é quem administra os saberes sobre o indivíduo de modo a traçar-
lhes um perfil ideal e condicioná-los a serem passivos politicamente e ativos 
economicamente. A formação de um estilo de vida igual para todos os indivíduos de 
uma comunidade é uma tática para melhor controlá-los, de modo a fazê-los 
responder de forma previsível aos comandos emanados do poder. É isso que a 
 
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20 
 
Análise do Discurso chama de processo de subjetivação - a verdade que o poder 
cria sobre o sujeito para regulá-lo. 
O conceito de discurso é, geralmente, apontado da seguinte maneira: 
discursos são conjuntos de afirmações sistematicamente organizadas que dão 
expressão aos significados e aos valores de uma instituição. Um discurso fornece 
uma série de asserções possíveis sobre uma certa área, e organiza e estrutura a 
forma pela qual um tópico, objeto, ou processo em particular deve ser discutido 
numa determinada condição de produção. 
O falante, o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social 
(ideológico) são algumas das condições de produção observadas pelos analistas do 
discurso. Essas condições são representadas por formações imaginárias, a imagem 
que o falante tem de si, a imagem que tem do seu ouvinte, etc. 
Dessa forma, tem-se que a análise do discurso procura mostrar o 
funcionamento dos textos, observando sua articulação com as formações 
ideológicas. Assim, a análise do discurso produz um deslocamento em direção às 
ciências sociais e um distanciamento em relação às concepções lingüísticas que 
desconsideram o historicismo e subjetivismo social. Para os teóricos dessa área, a 
linguagem é produzida pelo sujeito, em condições determinadas, e para se analisá-
la deve-se mostrar o seu processo de produção, considerando, assim, 
conhecimentos sócio-históricos e ideológicos. 
A análise do discurso é um tipo de análise criada para chegar à ideologia 
codificada implicitamente por detrás das proposições abertas, para examiná-la em 
particular no contexto das formações sociais. As ferramentas para essa análise 
foram uma seleção de categorias descritivas apropriadas ao propósito, 
especialmente aquelas estruturas identificadas como ideacionais e interpessoais, é 
claro, mas nós também usamos outras tradições lingüísticas. 
 
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21 
 
UNIDADE 3 – PRAGMÁTICA, ARGUMENTAÇÃO E FIGURAS 
DE RETÓRICA 
 
Faz-se agora uma abordagem teórica do conceito de Retórica, juntamente 
com o de argumentação. Para os antigos,o objetivo da arte retórica era o mesmo de 
qualquer processo argumentativo. 
 Por ser limitada, porém, à classificação de figuras de estilo, a retórica foi 
desacreditada. Ressurgiu, por sua vez, com o aparecimento da Pragmática. Isto 
quando o discurso e a argumentação passaram a ocupar lugar de destaque nos 
estudos sobre a linguagem. 
Em 1973, Perelman9 propõe um encontro da teoria da argumentação com a 
retórica. Esse autor caracteriza a argumentação como “o emprego de técnicas 
discursivas”10 e como um ato de persuasão. 
O autor belga apresenta elementos que lhe permitem definir a linguagem 
como um instrumento de ação sobre os indivíduos, ou seja, um meio de persuasão. 
Diz Kock (1996), em coerência com Perelman, que “a função básica da linguagem é 
argumentar e o ato de argumentar é um ato de persuadir”. 
 Podem ser considerados os elementos básicos da retórica tradicional, por sua 
vez, uma técnica discursiva que compreenda um estrato linguístico e as 
circunstâncias que possibilitam defender uma tese para a qual se busca a adesão de 
um público. 
 Perelman (1973) defende que não há discurso neutro, objetivo, imparcial. Isto, 
portanto, o leva a afirmar que a linguagem é a produção de um ato de persuasão. 
 Ducrot11 se apresenta com proposições que dizem que a argumentatividade 
não constitui apenas algo acrescentado ao uso linguístico, mas está inscrita na 
própria língua, permitindo-nos dizer que o uso da linguagem é inerente 
 
9 Autor belga 
10 PERELMAN, Ch. E OLBRECHTS, L. Tratado de la argumentación. La Nueva Retórica. Trad. Española de Júlia 
Muñoz. Madrid, Ed. Gredos, 1973. 
11 DUCROT, O. Provar e dizer. Trad. Brás. Global Universitária, São Paulo, 1981. 
 
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22 
 
argumenativo, quer dizer, a linguagem está ligada, inseparavelmente, à 
argumentação. 
Na argumentatividade , argumentação intrínseca à língua, postula-se: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Figura 112 
 
Austin (1962) e Beveniste (1966) consideram a noção de linguagem forma de 
ação dotada de intencionalidade e a concepção de argumentação, atividade 
internalizada, subjacente (toda vez que se faz uso da linguagem, faz-se o uso da 
argumentatividade). 
 O discurso é subjetivo parcial e é a semântica argumentativa que dá conta 
dessa relação intersubjetiva entre os interlocutores no uso da linguagem. Segundo 
Ducrot (1981), há sempre um conteúdo sobre o qual se dá a relação dialógica, e 
inerente a este há outros conteúdos (inferências) que se relacionam com aquele que 
 
12 Desenvolvida por mim, com base em GUIMARÃES (2001). 
ARGUMENTATIVIDADE 
SEMÂNTICA DA 
ENUNCIAÇÃO 
SEMÂNTICA 
ARGUMENTATIVA 
VERTENTES DA 
PRAGMÁTICA 
 
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23 
 
é a base do diálogo – a interpretação destes servirão de fundamento aos fatos 
discursivos. 
 A frase tem o seu valor argumentativo. Por exemplo, além de seu conteúdo 
informativo, a frase traz expressões ou termos que servem para dar uma orientação 
argumentativa ao enunciado para conduzir o destinatário à direção pretendida. 
 Não menos, a gramática também tem o seu valor argumentativo. Isto se 
evidencia quando se observa a natureza dos elementos coesivos, que aqui são 
chamados de operadores argumentativos13. 
 Argumentar é um ato linguístico fundamental, visto que está inscrito na língua; 
é, ainda, responsável pela estruturação de todo e qualquer discurso. Não obstante a 
retórica está subjacente a todo discurso. 
 Não é lícito dizer que a argumentação é sobreposta à língua, antes é prevista 
na organização interna da língua. As noções de linguístico e retórico não são 
diferentes, apenas há níveis distintos de significação. 
 É válido dizer que os mecanismos retóricos se manifestam tanto ao nível 
linguístico quanto em outros, pois esses constituem manobras discursivas, tal como 
a ironia, a sátira, a insinuação. 
 A única razão para os tropeços ligados ao processo argumentativo é, 
portanto, as divergências de pontos de vista entre retórica e gramática. Com base 
nesta idéia, cabe ressaltar as conhecidas operações essenciais da arte retórica, 
conhecidas como inventio, atividade que consiste na busca daquilo que se quer 
dizer; dispositio, operação que coloca em ordem a matéria a ser apresentada; 
elocutio, exercício de burilamento da forma de dizer; actio, representação do 
discurso por meio de gestos e imposições da dicção; memoria, recurso à memória 
para dominar os conteúdos mentais. Sendo assim, o processo argumentativo 
representa a atividade estruturante do discurso. 
 
13 Por GUIMARÃES, Elisa. Figuras de Retórica e Argumentação. São Paulo: Humanitas Editora/ FFLCH/ USP, 
2001. 
 
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24 
 
 Decorre do apresentado a conclusão de que a progressão do discurso efetiva-
se nas articulações da argumentação, esta, que por sua vez é considerada um 
elemento coesivo do discurso. 
 
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25 
 
UNIDADE 4 – SIGNO, SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO 
 
 Nos estudos de Saussure (1907), encontram-se detalhes relativos à 
linguagem, de modo que, no conjunto da mesma, o que corresponde à língua, faz-se 
necessária uma simulação para tratar com hipóteses as teses posteriormente 
defendidas pelo autor. Imagina-se, então, dois indivíduos envolvidos num circuito da 
fala, o mínimo para que o circuito seja completo. 
 
 
 
 
Figura 214 
 
 
O ponto de partida do circuito, assim chamado por Saussure15, situa-se no 
cérebro de uma das partes envolvidas. Por exemplo, em A, os fatos de consciência 
(pelo autor chamado de conceitos) se acham associados às representações dos 
signos lingüísticos ou imagens acústicas que servem para exprimi-los. Se um 
determinado conceito solicita do cérebro uma imagem acústica correspondente, 
considera-se um fenômeno propriamente linguístico. Este, por sua vez, é seguido de 
um processo fisiológico, visto que o cérebro transmite aos órgãos da fonação um 
impulso correlativo da imagem, após as ondas sonoras se propagam da boca de A 
para o ouvido de B. Em seguida o circuito se prolonga em B numa ordem inversa: do 
ouvido ao cérebro, uma associação psíquica dessa imagem com o conceito 
correspondente. Se B falar, o ato seguirá o mesmo curso do primeiro e passará elas 
mesmas fases sucessivas. 
 
14 SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 27 Ed. São Paulo: Cultrix, 2006. (Adaptação) 
15 SAUSSURE. op. cit. 
 
 
 
 
 A B 
 
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26 
 
 
 
 C = Conceito 
 D = Imagem Acústica16 
 
 
 
Figura 317 
 
 Pode-se concluir dessa representação que os termos envolvidos no signo 
linguístico são psíquicos e se mantêm ligados, no cérebro do indivíduo, por um 
vínculo de associação. Nas palavras de Saussure (2006), “o signo linguístico une 
não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica”. 
 A expressão imagem acústica pode parecer muito estreito, pois ao lado da 
representação dos sons de uma palavra, existe também a de uma articulação, a 
imagem muscular do ato fonatório. Para Saussure, entretanto, a língua é 
essencialmente um depósito, uma coisa recebida de fora. A imagem acústica é, por 
excelência, a representação natural da palavra enquanto fato de língua virtual, fora 
de toda realização pela fala. O aspecto motor pode, então, ficar subentendido ou, 
em todo caso, não ocupar mais que um lugar subordinado em relação à imagem 
acústica. 
O signo linguístico, por sua vez, é entendido como uma entidade psíquica de duas 
faces, que pode ser representada pela figura abaixo: 
 
16 Reperesentada pelo “i” nos círculos da figura. 
17 SAUSSURE. op.cit. 
 
c i 
c i 
Audição Fonação 
Fonação Audição 
 
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27 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 418 
 
 Diante do apresentado, pode-se, contudo, dizer que somente as vinculações 
consagradas pela língua nos parecem conformes à realidade, e abandonamos, 
então, toda e qualquer outra que se possa imaginar. 
 Saussure (2006) propõe substituir os termos conceito e imagem acústica por 
significado e significante, visto que estes mostrarão de maneira mais clara as 
oposições que os separam, quer seja entre si, quer seja do total que fazem parte. 
 
4.1- A arbitrariedade do signo 
 A relação que existe entre significante e significado é arbitrária, pois 
entendemos signo como o resultado da associação dos mesmos, o que constata 
que o próprio signo linguístico é arbitrário. 
 Dessa maneira, a idéia de “flor” não está ligada por laço nenhum à junção das 
letras f – l – o – r, que é apenas uma sequência de som, matéria, o que chamamos 
de significante; enquanto a idéia que nos vem à mente quando lemos aquela 
sequência de letras ou ouvimos aquela sequência sonora é a representação 
psíquica da mesma, é o sentido que damos a elas, sem que haja nenhuma relação, 
a priori, o que chamamos de significado. 
 
18 SAUSSURE. op. cit. 
 
Conceito 
 
Imagem acústica 
 
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28 
 
 De modo que fique ainda mais evidente a arbitrariedade da relação entre 
significante e significado, imagine uma situação em que ouvimos uma palavra que 
em nosso dialeto tem outro sentido, se o falante não explica o que quer dizer, 
ficamos a imaginar qualquer coisa, visto que a nossa mente está pronta para dar 
sentido ao que vemos e ouvimos, mas não necessariamente vamos criar a 
representação real de tal palavra no contexto em que foi usada. Isto acontece 
porque, por ser arbitrária a relação, não é necessário que conheçamos o significante 
para darmos conta do significado e vice-versa. Não relação de dependência. 
 Cabe, ainda, uma observação relevante a respeito do termo arbitrário. Dizer 
que a relação entre significante e significado é arbitrária não significa em absoluto 
que o significado depende da livre escolha do falante, até porque não é possível o 
indivíduo alterar, trocar coisa alguma num signo, uma vez que esteja ele 
estabelecido num grupo linguístico. O que se pretende dizer é que o significante é 
imotivado19, ou seja, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem 
nenhum laço. 
 
Pensar, no entanto, que a significação é um processo infinito – não 
possuindo uma origem, nem um fim – torna possível que se opere com uma 
concepção não-realista de linguagem: trabalha-se com a idéia de que toda 
linguagem já é uma formulação, uma transformação da realidade. Segundo 
essa perspectiva, o real não é prévio em relação à linguagem, mas 
simultaneamente constituído por ela e dela constituinte. (SANTOS, 1998, p. 
83) 
 
O signo é uma arena privilegiada da luta de classe. Não se pode dizer o que 
quer quando se ocupa um determinado lugar social, pois este exige o emprego de 
certas representações e a exclusão de outras. De acordo com Gregolin (2001, p. 
10), “se temos hoje um sentido para dada coisa é porque houve um processo que o 
cimentou e organizou a exclusão do sem-sentido”. 
A constituição do sentido é socialmente construída, assim apresenta a Análise 
do Discurso. A aparente monossemia de uma palavra ou enunciado é fruto de um 
processo de sedimentação ou cristalização que apaga ou silencia a disputa que 
 
19 Arbitrário 
 
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29 
 
houve para dicionarizá-la. “O sentido não existe em si mesmo. Ele é determinado 
pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo histórico no qual as 
palavras são produzidas” (PECHÊUX, apud BRANDÃO, 1993, p. 62). 
 Diante do exposto, apesar de não sabermos muito sobre a relação entre o 
funcionamento físico do cérebro e as sentenças que produzimos, inclusive porque a 
biologia ainda não sabe muito sobre a relação entre o funcionamento neurológico e 
as habilidades cognitivas humanas, é plausível supor que algo tem realidade ali de 
tal modo que a mente humana é capaz de processar um sistema complexo e 
sofisticado como uma língua natural e a natureza do signo linguístico. 
 
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30 
 
UNIDADE 5 – NOÇÕES DE SINTAXE 
 
5.1 – A noção de constituinte 
 De acordo com Mioto (2000, p. 45), “Um constituinte é uma unidade sintática 
construída hierarquicamente, embora se apresente aos olhos como uma sequência 
de letras ou aos ouvidos como uma sequência de sons”. A sintaxe procura delimitar 
o constituinte a partir de um núcleo. Como o núcleo determina certas funções, sabe-
se que o constituinte compreende, além do próprio núcleo, o conjunto de intens qe 
desempenham aquelas funções. Um constituinte sintático, por sua vez, recebe o 
nome de sintagma. 
 
5.2 – A teoria X-barra 
 A teoria X-barra é o módulo da gramática que permite representar um 
constituinte.Sua importância se deve ao fato de que é função dela explicitar a 
natureza do constituinte, as relações que se estabelecem dentro dele e o modo os 
constituintes se hierarquizam para formar a sentença. 
 Como um constituinte se constrói a partir de um núcleo, será usada aqui uma 
variável X para representá-lo, e vai tomar seu valor dependendo da categoria do 
constituinte. Se a categoria for um nome, o valor de X será N; se for um verbo, será 
V; se for preposição, será P e assim por diante. Esse núcleo X irá determinar as 
relações internas ao constituinte que são marcadas em dois níveis: o nível X’ e o 
nível XP20, como representado em (2): 
 
20 P abrevia Phrase do Inglês. 
 
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31 
 
 (2) 
XP 
 
X’ 
 
X 
 
X é uma categoria mínima às vezes também representada como X°. Chama-se X’ ao 
nível intermediário ou à projeção intermediária de X; e XP ao nível sintagmático ou à 
projeção máxima de X. 
 Na projeção intermediária o núcleo pode estar relacionado com 
complementos (Compl) e na projeção máxima pode estar relacionado com no 
máximo um especificador (Spec). Com esses elementos, o esquema X-barra será 
uma árvore, como representado em (3): 
(3) 
XP 
 
 Spec X’ 
 
 X Compl 
 
 Seguirá um exemplo que é entendido como um constituinte, pois há nele um 
núcleo: um verbo. Consideremos: 
 
 
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32 
 
(4) 
[menino amar a menina] 
XP 
 
 Spec X’ 
 o menino 
 X Compl 
 amar a menina 
 
Tem-se um verbo amar com dois argumentos: o menino, o argumento 
externo, e a menina, argumento interno. O núcleo desse constituinte, portanto, é o 
verbo amar, o qual determina a relação de amor e que são dois os argumentos 
dessa história. 
VP 
 
 DP21 V’ 
 o menino 
 V DP 
 amar a menina 
 
Os vários itens que fazem parte dessa representação em árvore podem ser 
classificados num número finito de categorias gramaticais. Considera-se (VITRAL, 
2002) que itens pertencentes a uma mesma classe compartilham propriedades 
gramaticais, ou seja, propriedades morfológicas, sintáticas e semânticas. As 
categorias sintáticas, por sua vez, são: 
a) As categorias lexicais 
 
21 Sigla para Determiner Phrase. 
 
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33 
 
b) As categorias gramaticais 
As categorias lexicais são: Nome (N); Adjetivo (A); Verbo (V); Preposição (P) 
e Advérbio (Adv). As categorias gramaticais são: Flexão (F), Complementizador (C), 
Negação (Neg), Determinante (D). 
 As categorias arroladas foram constituintes que são chamados de Sintagmas. 
Este é entendido como um constituinte intermediário entre a oração e a palavra, que 
se dividem nas categorias: 
• Sintagmas nominais 
• Sintagmas adjetivais 
• Sintagmas verbais 
• Sintagmas preposicionais 
Segue uma representação arbórea para exemplificar o exposto acima. 
(5) O chefe acredita que ele vai conseguir um emprego. 
 
Com base no que foi apresentado nesta unidade, pode-se constatar a 
complexidade dos sistemas que objetivam descrever, representar e discutir os ideais 
 
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da GT. A teoria X-barra, por sua vez, é funcional, aplicável a qualquer língua, 
levando em consideração as variações lingüísticas. Conclui-se o exposto, contendo 
acima dados importantes sobre a noção de constituinte. Indica-se para maior 
abrangência e domínio dessa teoria a leitura de obras de um dos idealizadores do 
esquema acima representado, Noam Chomsky. 
 
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UNIDADE 6 - TEORIAS LINGÜÍSTICAS E A PRÁTICA DE 
ENSINO 
 
Até aqui foi o objetivo tratar da descrição de algumas das teorias lingüísticas e 
gramaticais mais presentes nos estudos contemporâneos da linguagem, no entanto, 
pouco se tratou da relação entre essas teorias e o ensino de gramática. Assim opta-
se por apresentar nessa seção alguns questionamentos relacionados à aplicação 
dessas teorias ao ensino de gramática. Procurou-se também selecionar os pontos 
que mais controvérsia têm suscitado entre os que se ocupam do ensino de língua 
materna. 
Como ponto de partida apresenta-se as indagações mais freqüentemente 
apresentadas pelos professores de língua portuguesa aos professores de lingüística, 
verificando, de qualquer modo, os pontos chave de cada uma delas. 
As dúvidas mais comuns com relação ao ensino de língua materna podem 
ser, de uma forma ou de outra, sintetizadas nas quatro perguntas seguintes: 
 
1) Que devo ensinar, na disciplina de Língua Portuguesa, tendo em vista que, de 
acordo com as teorias lingüísticas, o aluno já conhece a língua ao chegar à escola? 
2) Como tornar o aluno um efetivo produtor/intérprete de textos? 
3) Devo ensinar gramática? 
4) Caso a resposta seja positiva, como devo ensinar gramática? 
 
Tratar-se-á, inicialmente, de alguns conceitos básicos estabelecidos por 
Coseriu. Segundo esse autor, a linguagem é uma atividade humana universal que se 
realiza individualmente, mas sempre segundo técnicas historicamente determinadas 
e, por isso, pode e deve ser investigada em três diferentes dimensões: universal, 
histórica e individual. Na primeira, apresenta-se como linguagem, na segunda, como 
língua e, na terceira, como fala. A cada um desses planos correspondem também 
um tipo de conteúdo e um saber específico: ao plano universal concernem o 
designado e o saber elocucional, ao plano histórico, o significado e o saber 
 
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idiomático e ao plano individual, o sentido e o saber expressivo. O saber elocucional 
diz respeito ao conhecimento das coisas, o saber idiomático se refere ao 
conhecimento das regras, formas e conteúdos de uma língua determinada e o saber 
expressivo refere-se ao conhecimento de uma situação de fala determinada. 
É necessário

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