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SUMÁRIO
PREFÁCIO .................................................................................................................. 2
UNIDADE 1 – GRAMÁTICA E SUAS DEFINIÇÕES .................................................. 3
1.1– ESTUDOS DA LINGUAGEM ........................................................................................ 7
1.2– DIFERENÇAS NA FORMAÇÃO DE PALAVRAS NA LÍNGUA ESCRITA E NA LÍNGUA FALADA .... 8
UNIDADE 2 – UMA NOVA VERTENTE: ANÁLISE DO DISCURSO ....................... 12
2.1 – OS SUJEITOS FALAM DE UM LUGAR SOCIAL ............................................................. 12
2.2 – A LINGUAGEM E O SENTIDO .................................................................................. 14
2.3 – O SUJEITO DO DISCURSO E A SUBJETIVAÇÃO .......................................................... 16
UNIDADE 3 – PRAGMÁTICA, ARGUMENTAÇÃO E FIGURAS DE RETÓRICA .... 21
UNIDADE 4 – SIGNO, SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO......................................... 25
4.1- A ARBITRARIEDADE DO SIGNO ................................................................................ 27
UNIDADE 5 – NOÇÕES DE SINTAXE ..................................................................... 30
5.1 – A NOÇÃO DE CONSTITUINTE .................................................................................. 30
5.2 – A TEORIA X-BARRA .............................................................................................. 30
UNIDADE 6 - TEORIAS LINGÜÍSTICAS E A PRÁTICA DE ENSINO ..................... 35
UNIDADE 7 – CONCLUSÃO .................................................................................... 43
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 45
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PREFÁCIO
Os estudos aqui apresentados objetivam rastrear, num sentido amplo, as
principais vertentes teóricas da Linguística e da Gramática e suas ramificações.
Ainda que pareça uma ciência recente, com base na História, o estudo da
língua foi inaugurado pelos gregos e desenvolvido, principalmente, pelos franceses,
com o foco não exatamente em uma visão científica, mas em uma maneira de criar
regras para diferenciar as formas corretas e incorretas de usar a língua, o que julga-
se uma visão bastante estreita dessas (futuras) ciências e áreas de conhecimento,
que vieram a se formar Linguística e Gramática.
Muitos foram os estudos que buscaram reconhecer a língua como objeto
único de pesquisa, o qual passou por três sucessivas fases antes de fazê-lo de fato.
Os gregos chamaram de Gramática – de uma maneira não muito diferente da que
conhecemos hoje: conjunto de regras que servia para normatizar, para dizer se a
estrutura é certa ou errada.
A fase posterior, a Filologia (1777), apresentou uma possível ciência na
época, que prossegue até os dias atuais, cujo estudo não tinha como foco apenas a
língua, mas também a interpretação de textos; todavia um estudo que pretendia usar
um método próprio: a crítica. Sem dúvida essas pesquisas deram início à Linguística
Histórica, porém não sendo a única trabalhar as hipóteses que abordavam as
questões da Língua, falha no sentido de que se preocupou apenas com a língua
escrita, não explorando de igual modo a língua falada – o que os gregos faziam
quase completamente.
Em 1816 teve início a terceira fase, cujos estudos descobriram que “as
línguas podiam ser separadas entre si [...]: a Gramática comparada” (BOPP, 1816).
Após traçar essa linha cronológica de avanços nos estudos referentes ao que
compõem este material, vale ressaltar que este oferece aos alunos de Pós
Graduação Latu Sensu em Língua Portuguesa um amplo painel de contribuições
teóricas e aplicadas dos estudos referentes à Língua e à Linguagem.
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UNIDADE 1 – GRAMÁTICA E SUAS DEFINIÇÕES
É comum observar que poucos são os que não dizem que a gramática é um
livro grosso, chato, difícil de decorar, repleto de regras de difícil compreensão. O
objetivo aqui é apresentar, portanto, alguns dos conceitos dados a este temido livro.
É válido dizer que muitas das regras apresentadas nas gramáticas têm uma
conexão distante com a língua que falamos, o que não exclui a necessidade de
conhecê-las para, ao menos, sabermos adaptá-las ao uso diário da língua materna.
A gramática, por sua vez, como um conjunto de regras para escrever e falar
bem. Essa concepção apenas engloba uma variação da língua: a norma culta ou
padrão, o qual conduz o julgamento do certo e errado no que tange ao uso da
língua.
Partindo dessa idéia, a priori, chega-se, então, à definição da GT1 – o
exemplo maior do conceito apresentado acima, o que explica o seu caráter
normativo: “escreve-se assim e não assim, porque é considerado errado pelos
padrões determinantes pela GT ou GN2, a qual estabelece um emaranhado de
regras que devem ser seguidas; quando não o fazemos estamos “empobrecendo a
língua”, maltratando o idioma”.
Qualquer forma que fuja à Gramática Tradicional ou Normativa é
considerada errada, visto que a mesma pretende ser um ideal de correção
lingüística.
Mesmo com todas as regras e não aceitação de quaisquer outras maneiras
de uso da língua, a GT apresenta deficiências, uma delas a de não ser explícita, de
não basear-se em contextos. Como toda teoria, deve definir os termos que pretende
estudar com precisão, o que na maioria das vezes não acontece. Em muitas partes,
para efeito, a GT ou GN contradiz a si mesma, exatamente por considerar que suas
terminologias só serão empregadas nos contextos sintáticos por ela usados.
Observe-se o conjunto de sentenças:
1 Sigla correspondente à Gramática Tradicional.
2 Sigla correspondente à Gramática Normativa, nomenclatura que é usada também para a GT.
(HP)
Realce
(HP)
Realce
(HP)
Realce
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(1) a. [Provavelmente a Liz]3 comprou as frutas do supermercado (não a Maria)
b. A Liz [provavelmente comprou] as frutas do supermercado (não comeu)
c. A Liz comprou [provavelmente as frutas] do supermercado (não os legumes)
d. A Liz comprou as frutas [provavelmente do supermercado] (não da feira)
Ressalta-se de início que estamos falando de sentenças bem construídas em
português. Vale lembrar, também, que provavelmente pode aparecer em diferentes
lugares da sentença, com a esperada alteração de seu significado. Entretanto o
objetivo com os exemplos acima é mostrar a possibilidade de este advérbio
(provavelmente) modificar constituintes diversos, não somente o verbo ou o adjetivo.
A conclusão à qual se pretende chegar é que a GT ou GN, ao contrário
daquilo se propõe a nos ensinar,
(...) não se constitui em um corpo coeso de conhecimentos; e ampliando a
crítica: o conjunto de observações que a GT faz não dá conta nem de longeressaltar que, na atividade concreta de fala, esses conteúdos
bem como os saberes que permitem sua manifestação ocorrem sempre juntos,
cabendo ao estudioso identificá-los e examiná-los, a fim de que possa perceber suas
peculiaridades e, desta forma, interferir de forma mais coerente e segura no que
realmente possa constituir as dificuldades dos alunos.
É bastante freqüente entre os professores de todas as disciplinas, não apenas
o professor de língua portuguesa, a queixa de que os alunos não sabem português,
ou escrevem mal ou apresentam dificuldades gigantescas no momento em que
precisam interpretar textos. Tais reclamações aparecem com freqüência não apenas
entre os professores de ensino médio, mas também entre os docentes de terceiro
grau, nas mais diferentes áreas.
O conceito que a comunidade faz da língua leva em consideração os vínculos
históricos e culturais compreendidos no que se costuma chamar de tradição e, por
tal razão, a língua existe na consciência do sujeito como um objeto unitário e
homogêneo. Só na condição de observador é que se pode perceber a variação
apresentada por uma língua. E em virtude de tal diversidade é que se costuma fazer
uma oposição entre língua culta ou norma padrão (modo de falar característico de
pessoas com alto grau de instrução) e língua não-padrão (modo de falar
característico das pessoas analfabetas ou com baixo índice de escolaridade). A
primeira é a norma prestigiada pelo conjunto da sociedade, vale dizer, valorizada
tanto por aqueles que utilizam a norma padrão quanto por aqueles que utilizam a
norma não padrão. Por isso é a norma padrão aquela considerada como objeto
privilegiado do ensino, condição de prestígio no seio da comunidade e modelo de
correção lingüística.
A forma como vemos a linguagem define os caminhos de ser aluno e
professor de língua portuguesa; por isso há de se buscar coerência entre a
concepção de linguagem e a de mundo. O professor e suas atitudes e concepções
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são decisivos, no processo de aprendizagem, para se configurar o tipo de
intervenção nesse processo. A concepção de linguagem e a de língua altera em
muito o modo de estruturar o trabalho com a língua em termos de ensino e considera
essa questão tão importante quanto a postura que se tem em relação à educação.
Percebe-se três diferentes modos de se conceber a linguagem na história dos
estudos lingüísticos. Essas três concepções são: (1) a linguagem é a expressão do
pensamento; (2) a linguagem é instrumento de comunicação e; (3) a linguagem é
uma forma ou processo de interação.
Para a concepção de linguagem enquanto expressão do pensamento, o não
saber pensar é a causa de as pessoas não saberem se expressar. Pensar
logicamente é um requisito básico para se escrever, já que a linguagem traduz a
expressão que se constrói no interior da mente, é o “espelho” do pensamento.
Nessa tendência, o fenômeno lingüístico é reduzido a um ato racional, um ato
individual, que não é afetado pelo outro nem pelas circunstâncias que constituem a
situação social em que a enunciação acontece. O fato lingüístico, a exteriorização do
pensamento por meio de uma linguagem articulada e organizada, é explicado como
sendo um ato de criação individual. A expressão exterior depende apenas do
conteúdo interior, do pensamento da pessoa e de sua capacidade de organizá-lo de
maneira lógica. Por isso, acredita-se que o pensar logicamente, resultando na lógica
da linguagem, deve ser incorporado por regras a serem seguidas, sendo que essas
regras situam-se dentro do domínio do estudo gramatical normativo ou tradicional
que defende que saber língua é saber teoria gramatical. Dessa forma, acredita-se
que quem fala ou escreve bem, seguindo e dominando as normas que compõem a
gramática da língua, é um indivíduo que organiza logicamente o seu pensamento.
Nesta tendência, observa-se a relação psíquica entre linguagem e
pensamento, caracterizando a linguagem como algo individual, centrada na
capacidade mental do indivíduo. As dificuldades de expressão, o discurso que se
materializa no texto, então, independem da situação de interação comunicativa, do
interlocutor, dos objetivos, dos fenômenos sociais, culturais e históricos. Se há
algum desvio quanto às regras que organizam o pensamento e a linguagem, ele só
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pode ser explicado pela incapacidade de o ser humano pensar e raciocinar
logicamente.
A concepção de linguagem que relaciona essa à necessidade de
comunicação prediz que a língua é um sistema organizado de sinais (signos) que
serve como meio de comunicação entre os indivíduos. Em outras palavras, a língua
é um código, um conjunto de signos, combinados através de regras, que possibilita
ao emissor transmitir uma certa mensagem ao receptor. A comunicação, no entanto,
só é estabelecida quando emissor e receptor conhecem e dominam o código que é
utilizado de maneira preestabelecida e convencionada.
Nessa visão, o sistema lingüístico é completamente independente de todo ato
de criação individual, de toda intenção e a língua opõe-se ao indivíduo enquanto
uma norma irremediável, que o indivíduo só pode aceitar como tal. O sistema
lingüístico é acabado, no sentido da totalidade das formas fonéticas, gramaticais e
lexicais da língua, garantindo a sua compreensão pelos locutores de uma
comunidade.
Nessa vertente, os estudos da linguagem ficam restritos ao processo interno
de organização do código. Privilegia-se, então, a forma, o aspecto material da
língua, e as relações que constituem o seu sistema total, em detrimento do
conteúdo, da significação e dos elementos extralingüísticos. Essa é a concepção de
linguagem agregada aos modelos teóricos estruturalista e gerativista. A concepção
de linguagem enquanto um processo de interação tem como base a crença de o que
o indivíduo faz ao usar a língua não é tão-somente traduzir e exteriorizar um
pensamento ou transmitir informações a outrem, mas sim realizar ações, agir, atuar
sobre o interlocutor. Nesse enfoque, a concepção interacionista da linguagem
contrapõe-se às visões conservadoras da língua, que a tem como um objeto
autônomo, sem história e sem interferência do social, já que não enfatizar esses
aspectos não é condizente com a realidade na qual estamos inseridos.
Ao contrário das concepções anteriores, esta terceira concepção situa a
linguagem como um lugar de interação humana, como o lugar de constituição de
relações sociais. Dessa forma, ela representa as correntes e teorias de estudo da
língua correspondentes à Lingüística da Enunciação (Lingüística Textual, Teoria do
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Discurso, Análise do Discurso, Análise da Conversação, Semântica Argumentativa e
todos os estudos ligados à Pragmática), que colocam no centro da reflexão o sujeito
da linguagem, as condições de produção do discurso, o social,as relações de
sentido estabelecidas entre os interlocutores.
A língua, nesse caso, é o reflexo das relações sociais, ou seja, o locutor
constrói o seu discurso mediante as suas necessidades enunciativas concretas,
escolhendo formas lingüísticas que permitam que seu discurso figure num dado
contexto e seja adequado a ele.
Decorre daí que, numa visão sociointeracionista da linguagem, a percepção
das variedades lingüísticas não se faz, como se observa no interior da primeira
concepção de linguagem, com explicações simplistas que refletem o “certo” e o
“errado”, o “aceitável” e o “inaceitável” ou porque uma linguagem é mais rica do que
a outra.
Penetrando mais fundo na essência da linguagem e entendendo que a língua
está em constante evolução, entende-se também que todas as variedades
existentes em nossa sociedade pertencem à nossa língua e que, embora a língua
padrão possua maior prestígio social, as demais variedades possuem, como a
variedade culta, a mesma expressividade e comunicatividade. Do ponto de vista
interacionista da linguagem, a norma culta é vista como uma variante, uma
possibilidade a mais de uso e não exclusivamente como o único uso linguisticamente
correto e a única linguagem representante de uma cultura.
Nessa nova moldura teórica, o texto passa a ser considerado o próprio lugar
de interação. Desta forma, há lugar, no texto, para todo o conjunto de implícitos, dos
mais variados tipos, somente identificáveis quando se tem, como pano de fundo, o
contexto sócio-cognitivo dos participantes da interação. E a compreensão deixa de
ser entendida como simples “captação” de uma representação mental ou como a
decodificação de mensagem resultante de uma codificação de um emissor. Ela
passa a ser vista como uma atividade interativa altamente complexa de produção de
sentidos, que se realiza, evidentemente, com base nos elementos linguísticos
presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas que requer a
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mobilização de um vasto conjunto de saberes (enciclopédia) e sua reconstrução
deste no interior do evento comunicativo.
Se optarmos por adotar uma prática pedagógica com a produção de textos,
por exemplo, e resolvemos mudar essa prática, adotando uma nova metodologia de
trabalho, não o fazemos simplesmente porque julgamos que a prática anterior é
antiquada e queremos mostrar que somos modernos. É necessário saber o que
estávamos fazendo, porque mudamos, qual o objetivo que queremos alcançar com
essa nova prática e, principalmente, qual a teoria e concepção de linguagem que a
ela subjaz. Isso é fundamental para que fixemos os nossos objetivos de ensino em
bases sólidas e para que nos coloquemos como sujeitos participantes da construção
do conhecimento. Teoria e prática, portanto, estão intimamente relacionadas e
configuram-se na viabilidade do processo didático.
Com base no conjunto de fundamentos acima explicitados podemos
compreender melhor algumas questões sobre o nosso objeto de estudo e sua
relação com a prática pedagógica escolar. O ensino de Língua Portuguesa se
constituiu durante muito tempo em fazer os alunos decorarem uma mera listagem de
regras da gramática normativa. As classes gramaticais e as regras ortográficas, por
exemplo, eram expostas ao estudante de forma desvinculada da realidade
quotidiana do uso da língua.
Nessa postura, ignorava-se que o ensino e a aprendizagem são dois lados
dos processos diferentes de uma mesma unidade, ou seja, que o fato de estar
ensinando algo nem sempre significa que o aluno esteja aprendendo, pois reproduzir
o conhecimento é muito diferente de construí-lo e de produzi-lo.
Deste modo, os conteúdos trabalhados eram ditados pelo livro didático e o
texto servia como pretexto para ensinar teoria gramatical; as questões de leitura,
consequentemente, restringiam-se à mera decodificação ou repetição do que o autor
disse, o que interessava era a gramática normativa; a redação servia apenas para
que se avaliasse a ortografia. O resultado foi que as avaliações dos textos
produzidos pelos alunos restringiam-se também à mera correção de problemas
ortográficos e de outras questões gramaticais e de critérios totalmente subjetivos no
que diz respeito ao conteúdo. Não eram oferecidas possibilidades de revisão e re-
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elaboração do texto, pois este era visto como um produto fechado em si mesmo,
servindo apenas para correção e nota.
O exercício de redação era artificial, pois o texto não possuía interlocutor e,
portanto, não se configurava por uma relação dialógica. Era uma atividade isolada
em que se privilegiava a forma em detrimento do conteúdo. O aluno devia mostrar
que sabia escrever, e, por isso, preenchia a folha em branco com palavras bonitas,
agradáveis aos olhos do professor. Apareciam, aí, os chavões, as frases feitas, os
lugares comuns, os clichês e as expressões metafóricas consagradas. A voz do
aluno era calada, para em seu lugar, emergir a linguagem institucionalizada, já que
havia controle e diretividade das idéias, levando-o a uma só interpretação dos fatos
valorizados socialmente e que reproduziam a palavra dita pela escola ou as palavras
alheias.
Na abordagem tradicional, a aprendizagem é receptiva e automática,
prevalecendo a produção correta do código escrito culto, visto como a única variável
valorizada para todas as atividades em sala de aula. Privilegia-se, ainda, a forma, o
aspecto material da língua, em detrimento do conteúdo e da significação. A
aprendizagem da forma das expressões, então, se dá com conteúdos totalmente
alheios ao grupo social, dando-se ênfase a modelos a serem reproduzidos e
exercitados dentro da escola, preparando o aluno para usar essas expressões fora
dela.
Os comentários acima explicitados em torno desse processo de ensino,
deixam evidente uma concepção que vê na aprendizagem da teoria gramatical a
garantia de se chegar ao domínio da língua escrita e uma outra, que vê, no trabalho
com as estruturas isoladas da língua, a possibilidade de se desenvolver a expressão
escrita. Refere-se aqui às duas primeiras concepções de linguagem, que foram
descritas anteriormente, e que levam às práticas pedagógicas do ensino tradicional.
O ensino da língua era limitado ao estudo da língua em si mesma e por si mesma.
Logo, não auxiliava a aprendizagem de seus usos em contextos sociais. Novas
proposições de alternativas e práticas diferenciadas, influenciadas pela concepção
interacionista começaram a tomar espaço nas pesquisas linguísticas. Contrapondo-
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se às visões conservadoras da língua, essa abordagem direciona a prática
pedagógica a encarar a pluralidade dos discursos.
A prática pedagógica, nessa perspectiva, procura dar oportunidades ao aluno
de domínio das habilidades de uso da língua em situações concretas de interação,
de forma aentender e produzir textos e a perceber as diferenças entre uma forma de
expressão e outra.
A partir de tudo o que foi apresentado no decorrer dessa unidade, chega-se à
conclusão de que cabe ao professor desenvolver uma forma de ensino que
realmente lhe pareça produtiva para atender à consecução dos objetivos de língua
portuguesa que se tem em mente. A reflexão sobre o seu fazer pedagógico, no
entanto, deve ser consciente e, caso pretenda operar uma mudança de atitude, deve
ter claro que, para haver mudanças, não basta mudar a prática, a metodologia.
Há uma questão mais séria a ser resolvida antes de se adotar uma nova linha
metodológica, antes de se pensar em novos procedimentos de ação. Trata-se de
aderir a uma nova concepção de língua/linguagem, sem a qual não conseguirá
ultrapassar a insegurança de uma alteração de atitude, de refletir sobre os
pressupostos da metodologia que adotará em sala de aula.
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UNIDADE 7 – CONCLUSÃO
Vimos, durante nosso estudo sobre o percurso dos estudos da linguagem,
que o interesse por essa é bastante antigo, remontando ao século V a.C. com a
preocupação dos gregos em definir as relações entre o conceito e as palavras que o
designa. Vimos, ainda, o surgimento das primeiras gramáticas e o tratamento
acurado que essas receberam na Idade Média com os modistas.
A consideração da lingüística enquanto ciência, porém, só foi possível a partir
das idéias de Saussure, no século XX. A autonomia da lingüística só ocorreu com a
homogeneização do objeto de estudo, proposta por Saussure: a língua, sistema
abstrato, social e virtual. Os seguidores dos princípios saussurianos esforçaram-se
por explicar a língua por ela própria, considerando-a uma estrutura constituída por
uma rede de elementos, em que cada elemento tem um valor funcional determinado.
Essa teoria ficou conhecida como Estruturalismo.
As idéias estruturalistas causaram uma profunda modificação na forma de se
conceber a linguagem. E, apesar de, num primeiro momento, ter havido uma maior
preocupação com a porção abstrata da linguagem, surgiram estudiosos que se
interessaram pelo uso concreto da língua e partiram para estudos mais voltados
para a questão funcional da linguagem. Apareceram, então, no cenário lingüístico,
os primeiros estudos de abordagem funcionalista, vertente teórica ainda presente.
Observamos, ainda, em meados do século XX, uma modificação nos estudos
lingüísticos a partir da consideração da gramática como um sistema gerativo, um
conjunto infinito de sentenças constituído a partir de um conjunto finito de elementos.
Essa inovação proposta pelo norte-americano Noam Chomsky apresentou, do
mesmo modo que Saussure, a homogeneidade no tratamento do fato lingüístico
como ponto fundamental da teoria. Assim, excluem-se novamente as questões
subjetivas e sociais dos estudos lingüísticos.
Como se pôde observar, a partir da apresentação do desenvolvimento das
teorias lingüísticas, há muitos caminhos possíveis quando se trata do estudo da
linguagem humana. A complexidade do fenômeno lingüístico fez com que surgissem
inúmeras abordagens teóricas, cada uma com diferentes objetivos e métodos. Cabe,
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portanto, ao profissional que deseje se aventurar por essa área de estudos que
escolha a abordagem que considere mais adequada à forma como concebe a
linguagem.
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REFERÊNCIAS
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Contexto, 1985.da riqueza da língua, nem mesmo do registro que ela se propõe a
descrever. (MIOTO, 2000, p. 19)
Ao contrário da GT, que descreve regras que devem ser seguidas, há a
Gramática Descritiva, a qual apresenta um conjunto de regras de são de fato
seguidas; são explícitas e se preocupam com a fala.
Há várias formas de se estudar a língua e a linguagem. Por isso, mais adiante
surgiu a Gramática Gerativa4, uma teoria que se ocupa das línguas e da linguagem.
O que existe, na verdade, são homens que falam, numa sociedade que se
organiza através da linguagem. Vamos chamar isto de mundo de
aparências, das coisas que existem concretamente. Para tornar inteligível
esse mundo das aparências, o espírito humano constrói modelos abstratos,
teorias, que levam em conta normalmente apenas partes desse mundo.
Está-se falando então que cada modelo abstrato, cada teoria, escolhe um
aspecto da linguagem para estudar e que não existe um modelo bem
sucedido que contemple todo o fenômeno da linguagem. (VITRAL, 1998, p.
119)
3 Os colchetes aqui, e nas sentenças de (1), servem para esclarecer qual é o foco do advérbio.
4 Teoria desenvolvida por Noam Chomsky, em 1957.
(HP)
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5
A Gramática Gerativa se ocupa da sintaxe das línguas, embora não seja este
o seu objeto de estudo, e sim um meio para descrever uma entidade teórica
chamada Gramática Universal, que é de fato o objeto de estudo da Gramática
Gerativa.
A Gramática Universal pode ser definida como os aspectos sintáticos que são
comuns a todas as línguas do mundo. A GU5 contém princípios que serão fixados
pela experiência e que determinam as possibilidades de variação gramatical das
línguas.
Segundo Chomsky (1979), a Gramática Universal é uma teoria sobre
mecanismos inatos; uma matriz biológica dentro da qual se dá o desenvolvimento da
linguagem.
Existe, ainda, outra gramática: a Gramática Subjacente ou Internalizada.
Todos os seres humanos ao nascerem, trazem consigo um conjunto de normas que
dizem respeito à sua língua materna; um léxico mental, que os permitem a falar
desde crianças o português correto6.
Como exemplo, quando a criança começa a emitir os primeiros sons, e logo
após as primeiras palavras, ainda que com alguma dificuldade, ela usa a sintaxe,
genuinamente, da língua materna, neste caso a língua portuguesa:
S – V – O = SUJEITO – VERBO – OBJETO
Cabe ressaltar que nessa fase ainda não é apresentado à criança todas as
terminologias adotadas pelas gramáticas. Isto prova que existe e é funcional uma
gramática intrínseca ao ser humano: a que chamamos aqui de Subjacente ou
Internalizada, que é composta de regras, sim, mas essas que o falante domina
desde o início do processo de aquisição da linguagem.
5 Gramática Universal
6 Chamo de correto aqui, o português que é dito e compreendido da melhor maneira, visto que a principal função
da língua é permitir a efetiva comunicação (grifo meu).
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6
Justifica-se, em partes, o uso da expressão norma padrão na área da
Linguística, pelo fato de existirem algumas variações da palavra norma. Dentre as
quais, citam-se:
VARIAÇÃO DIASTRÁTICA Variações de patamar social
VARIAÇÃO DIACRÔNICA Variações por período de tempo
VARIAÇÃO DIATÓPICA Variações por lugares ou regiões
Com base nas concepções existentes em relação ao uso da língua em uma
sociedade, fica evidenciado o problema que afeta os falantes nativos da Língua
Portuguesa: o preconceito linguístico, o qual existe devido a alguns fatores que se
relacionam com as variações acima citadas e as que seguem:
• A relação das concepções da língua com a sociedade se desloca para a
discriminação, de maneira que torna o sujeito estigmatizado, sendo ele falante
da língua materna, embora não siga as normas exigidas pela sociedade.
• A sociedade estabelece valorização, positiva ou negativa, de uma
determinada variação de registro de fala.
• O uso da língua é considerado critério para que se apliquem juízos de valor
a respeito dos falantes perante a sociedade, a qual estabelece um padrão
desejável, a concepção mais convencional, sustentado sempre por uma
autoridade.
Ao usarmos a língua, há mais de uma maneira de dizer a mesma coisa. Nós
sabemos, por exemplo, que podemos dizer algo de modo mais formal ou informal ou
que uma pessoa é da Bahia, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Minas Gerais
apenas observando a maneira como ela fala. Em outras palavras, a língua sofre
variação, que é condicionada por vários fatores, como já dito.
O uso da língua depende, sobretudo, de fatores geográficos,
socioeconômicos, de faixa etária, do maior ou menor grau de formalidade do
discurso e mesmo do sexo dos falantes. Esses fatores determinarão as variantes de
uma língua.
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1.1– Estudos da linguagem
Os estudos da linguagem, mesmo depois de tantas discussões, apenas foram
consolidados como ciência no século XX, com a publicação póstuma do Cours de
linguistique générale7, do suíço Ferdinand de Saussure, em 1916.
O linguista Saussure tinha o objetivo de tornar a linguística, efetivamente,
uma ciência. Em Curso de Linguística Geral, o autor desenvolve a teoria dos signos
no campo da linguagem, numa concepção psíquica, mental, e não física, dentre as
quais se destacam o valor, tomado em seu aspecto conceitual, o qual constitui, sem
dúvida, um elemento da significação; a idéia de que tudo se passa entre a imagem
auditiva e o conceito, nos limites da palavra considerada como um domínio fechado
existente por si próprio. Saussure conceitua a língua como um “sistema de signos”,
ou seja, um conjunto de unidades significativas que estão organizadas formando o
todo, sendo signo a associação entre significante (imagem auditiva) e significado
(conceito)
A Ciência de Ferdinand de Saussure pautou-se na noção de estrutura, mais
tarde conhecida como Estruturalismo, que tem como principais características:
• Apresenta diferentes concepções de estrutura, o que resultou em ramificar
a noção de valor.
• Abordar qualquer língua como um sistema no qual cada um dos elementos
só pode ser definido pelas relações de equivalência ou de oposição que
mantém com os demais elementos.
• Um elemento linguístico só adquire valor na medida em que se relaciona
com o todo do sistema da língua.
O Funcionalismo e o Formalismo são duas correntes de pensamento que se
destacam na linguística contemporânea. A respeito do Funcionalismo, pode-se dizer
que se dedica às categorias semântico/ pragmáticas. Nessa estrutura, a língua é7 Curso de Linguística Geral
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determinada pelo seu uso; vê a linguagem humana como um instrumento de
interação social entre os seres humanos.
Em meio a todos os estudos já citados, era objetivo de Chomsky priorizar a
competência nos estudos da linguagem, sem tratá-la de forma homogênea; tornar as
estruturas profundas cada vez mais abstratas, suprimindo o nível sintático
intermediário da chamada estrutura de base, e tornar as transformações diretamente
aplicáveis às estruturas semânticas, as quais gerariam as estruturas superficiais.
Ainda será apresentado mais à frente, mas diante das discussões acerca das
gramáticas desenvolvidas com seus respectivos objetivos, cabe ressaltar uma
vertente da Linguística que atende a muitos requisitos, com base em grandes
referenciais teóricos, no que diz respeito à linguagem e a tudo que a envolve: a
Análise do Discurso8.
A AD é uma disciplina que surgiu na França, na década de 60, e é pautada,
principalmente, na noção de materialismo histórico; é um tipo de análise criada para
chegar à ideologia codificada implicitamente por detrás das proposições abertas,
para examiná-la em particular no contexto das formações sociais. De acordo com
essa vertente, o discurso é conceituado como um conjunto de afirmações
sistematicamente organizadas, que dão expressão aos significados e aos valores de
uma instituição; é uma prática, uma ação do sujeito sobre o mundo; uma dispersão
de textos, cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de
regularidades enunciativas.
1.2– Diferenças na formação de palavras na língua escrita e na língua falada
É gradativamente importante, como já foi dito acima, traçar as diferenças
entre língua escrita e língua falada. Aquela, de caráter secundário, tem acima de
tudo o objetivo de superar os limites inerentes à língua falada em termos de tempo e
espaço. Tendo, portanto, o objetivo de permanência e não de apresentar
necessariamente pressão de tempo para sua produção; a língua escrita tende a ser
8 Também será chamada neste material de AD.
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mais cuidada, isto é, mais tensa e formal que a língua falada, assim como mais
conservadora.
Na sociedade em que vivemos, o papel da língua escrita acentua a tendência
formalizante, de acordo com os padrões da GT. Por um lado, o valor do bem
escrever é importante em muitos setores da sociedade, sendo estigmatizado,
contudo, o não domínio da língua escrita padrão. Por outro lado, as alternativas de
transmissão de mensagem por outros meios de comunicação colocam a língua
escrita numa utilização cada vez mais restrita ao necessariamente formal.
A tudo o que foi exposto até aqui se soma a importância crescente da língua
escrita como veículo de informação científica e tecnológica (BASÍLIO, 2007). Dessa
forma quando se fala em língua escrita a referência é a língua escrita formal
padronizada, embora haja situações de uso de língua escrita em que esta aparece
num menor grau de formalização.
De igual modo, visto que o papel principal da língua falada é promover a
comunicação direta no cotidiano, esta é a referência natural quando se reporta à ela,
embora exista situações e contextos de falas mais formalizadas.
Há um texto que discute com clareza a questão do saber língua e saber
gramática, a qual atende as formalidades da língua escrita e a funcionalidade do
ensino das mesmas. Segue este texto:
O gigolô das palavras
Luís Fernando Veríssimo
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa
numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava
o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra
língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da
pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor
lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e
aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às
pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o
equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem
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entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos
em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que
deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da
Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é
uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não
necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo?
O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas
aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A
Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse
restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela
sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia
Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão
esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever
sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada,
como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As
múmias conversam entre si em Gramática pura.
Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha
implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre
fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática
é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na
matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar
conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as
desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço
delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E
jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa
seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que
não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com
isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de
baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria
tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonassepelo seu plantel. Acabaria tratando-as
com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a
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sua patroa ! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com
elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas.
Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias
pra saber quem é que manda.
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UNIDADE 2 – UMA NOVA VERTENTE: ANÁLISE DO
DISCURSO
Como o discurso encontra-se na exterioridade, no seio da vida social, o
analista/estudioso necessita romper as estruturas lingüísticas para chegar a ele. É
preciso sair do especificamente lingüístico, dirigir-se a outros espaços, para procurar
descobrir, descortinar, o que está entre a língua e a fala (FERNANDES, 2005, p. 24).
Para a Análise do Discurso, o discurso é uma prática, uma ação do sujeito
sobre o mundo. Por isso sua aparição deve ser contextualizada como um
acontecimento, pois funda uma interpretação e constrói uma vontade de verdade.
Quando pronunciamos um discurso agimos sobre o mundo, marcamos uma posição
- ora selecionando sentidos, ora excluindo-os no processo interlocutório.
Para Maingueneau, o discurso é “uma dispersão de textos cujo modo de
inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas”
(2005, p. 15). Já Foucault diz:
Chamaremos discurso um conjunto de enunciados na medida em que se
apóia na mesma formação discursiva... ele é constituído de um número
limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de
condições de existência (2005).
2.1 – Os sujeitos falam de um lugar social
Este lugar no discurso é governado por regras anônimas que definem o que
pode e deve ser dito. Somente nesse lugar constituinte o discurso vai ter um dado
efeito de sentido. Se for pronunciado em outra situação que remeta a outras
condições de produção, seu sentido, conseqüentemente, será outro.
Na medida em que retiramos de um discurso fragmentos e inserimos em outro
discurso, fazemos uma transposição de suas condições de produção. Mudadas as
condições de produção, a significação desses fragmentos ganha nova configuração
semântica (BRANDÃO, 1993).
A unidade do discurso é um efeito de sentido, como Orlandi explica: “a
palavra discurso, etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de percurso, de
correr por, de movimento” (1999, p. 15). Os discursos se movem em direção a
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outros. Nunca está só, sempre está atravessado por vozes que o antecederam e que
mantêm com ele constante duelo, ora o legitimando, ora o confrontando. A formação
de um discurso está baseada nesse princípio constitutivo – o dialogismo. Os
discursos vêm ao mundo povoado por outros discursos, com os quais dialogam.
Esses discursos podem estar dispersos pelo tempo e pelo espaço, mas se unem por
que são atravessadas por uma mesma regra de aparição: uma mesma escolha
temática, mesmos conceitos, objetos, modalidades ou um acontecimento. Por isso
que o discurso é uma unidade na dispersão.
O discurso político, por exemplo, pode ser um campo onde vários discursos
semelhantes se alojam. Esses discursos se assemelham pelo objeto de suas
análises, embora possam ter divergências quanto à interpretação do mesmo. Dentro
desse campo, podemos fazer recortes menores, a fim de abstrairmos maiores
semelhanças entre os discursos, como: dentro do discurso político, podemos fazer
uma opção pelo discurso anarquista.
Mas toda identidade do discurso são construções feitas através do próprio
discurso, por isso, permeável e passível de movências de sentido. Quando um
discurso é proferido, ele já nasce filiado a uma rede tecida por outros discursos com
semelhantes escolhas e exclusões. A metáfora da rede é pertinente para explicar o
discurso:
Uma rede, e pensemos numa rede mais simples, como a de pesca, é
composta de fios, de nós e de furos. Os fios que se encontram e se
sustentam nos nós são tão relevantes para o processo de fazer sentido,
como os furos, por onde a falta, a falha se deixam escolar. Se não houvesse
furos, estaríamos confrontados com a completude do dizer, não havendo
espaço para novos e outros sentidos se formarem. A rede, como um
sistema, é um todo organizado, mas não fechado, por que tem os furos, e
não estável, por que os sentidos podem passar e chegar por essas brechas
a cada momento. Diríamos que o discurso seria uma rede e como tal
representaria o todo; só que esse todo comporta em si o não-todo, esse
sistema abre lugar para o não sistêmico, o não representável. (FERREIRA.
In INDURSKY, 2005, p. 20).
É por isso que o sentido do discurso não é dado a priori, pois a unidade é
construída pela interação verbal, que é histórica e que mantém relação com uma
ideologia. Somente nesse espaço o discurso consegue esconder sua polissemia.
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Não se trata, aqui, de neutralizar o discurso, transformá-lo em signo de outra
coisa e atravessar-lhe a espessura para encontrar o que permanece silenciosamente
aquém dele, e sim, pelo contrário, mantê-lo em sua consistência, fazê-lo surgir na
complexidade que lhe é própria (Foucault, 2005).
2.2 – A linguagem e o Sentido
Na ótica da Análise do Discurso, a linguagem não é um simples instrumento
de comunicação ou de transmissão de informação. Ela é mais do que isso, pois
também serve para não comunicar. A linguagem é o lugar de conflitos e confrontos,
pois ela só pode ser apanhada no processo de interação social. Não há nela um
repouso confortante do sentido estabilizado.
O signo é uma arena privilegiada da luta de classe. Não se pode dizer o que
quer quando se ocupa um determinado lugar social, pois este exige o emprego de
certas representações e a exclusão de outras. Gregolin diz, “se temos hoje um
sentido para dada coisa é porque houve um processo que o cimentou e organizou a
exclusão do sem-sentido” (2001, p. 10).
O sentido está inscrito na Ordem do Discurso. Basta descobrir as regras de
sua formação para tornar evidente a polifonia que fez dela um nó de significância.
Mas a polissemia afronta os sentidos oficiais, àquele que é desejado e prestigiado,
rasgando a máscara que esconde a heterogeneidade reinante. Por isso, todo
sentido cristalizado deixa entrever um rastro da história do jogo de poder que o
instaurou nas malhas da linguagem.
É por isso que o estudo da linguagem não pode estar apartado das condições
sociais que a produziram,pois são essas condições que criam a evidência do
sentido. Foucault (1999) esclarece que a produção do discurso é controlada,
selecionada, organizada e distribuída, a fim de que seus “perigos e poderes” sejam
conjurados.
A Análise do Discurso é contra a idéia de imanência do sentido. Não pode
haver um núcleo de significância inerente à palavra, pois a linguagem da qual o
signo lingüístico faz parte é polissêmica e heteróclita. O signo não pode estar
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alienado de outros signos que com ele interagem. A linguagem está na confluência
entre a história e a ideologia.
Essa visão da linguagem como interação social, em que o Outro desempenha
papel fundamental na constituição do significado, integra todo ato de enunciação
individual num contexto mais amplo, revelando as relações intrínsecas entre o
lingüístico e o social.
O percurso que o indivíduo faz da elaboração mental do conteúdo, a ser
expresso à objetivação externa – a enunciação – desse conteúdo, é orientado
socialmente, buscando adaptar-se ao contexto imediato do ato da fala e, sobretudo,
a interlocutores concretos (BRANDÃO, 1993).
A Análise do Discurso não toma o sentido em si mesmo, ou seja, em sua
imanência. Não se acredita na existência de uma essência da palavra - um
significado primeiro, original, imaculado e fixo capaz de ser localizado no interior do
significante. Nesse sentido, podemos dizer que foi uma grande ilusão de Saussure
achar que se poderia encontrar na palavra alguma pureza de sentido.
Como alçapões, os textos capturam e transformam a infinitude dos sentidos
em uma momentânea completude. Inserido na história e na memória, cada texto
nasce de um permanente diálogo com outros textos; por isso, não havendo como
encontrar a palavra fundadora, a origem, a fonte, os sujeitos só podem enxergar os
sentidos no seu pleno vôo (GREGOLIN, 2001).
A constituição do sentido é socialmente construída. A aparente monossemia
de uma palavra ou enunciado é fruto de um processo de sedimentação ou
cristalização que apaga ou silencia a disputa que houve para dicionarizá-la. “O
sentido não existe em si mesmo. Ele é determinado pelas posições ideológicas
colocadas em jogo no processo histórico no qual as palavras são produzidas”
(PECHÊUX, apud BRANDÃO, 1993, p. 62).
A incompletude é constitutiva de qualquer signo - qualquer ato de nomeação
é um ato falho, um mero efeito discursivo. O discurso diz muito mais do que seu
enunciador pretendia. “A multiplicidade de sentido é inerente à linguagem”
(ORLANDI, 1988, p. 20).
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Por isso o sentido é alvo do exercício do poder, principalmente em
sociedades cujos governos são autoritários. Nos discursos oficiais, o sentido é
atravessado por paráfrases, o mesmo é dito de várias formas para garantir que a
monossemia se naturalize.
A Análise do Discurso mostra a relação que existe entre a produção do saber
que naturaliza o sentido, com o poder que estabelece as regras da formação do
referido saber. Ou seja, revela toda a trama feita no transcurso da história para que o
sentido pudesse ganhar uma forma monossêmica, um status de natural.
2.3 – O sujeito do discurso e a subjetivação
O sujeito da Análise do Discurso não é o cartesiano dos tempos áureos do
iluminismo. Descartes (1596-1650) projetou um homem dono de si, senhor de seu
próprio destino, consciente de suas ações e desejos, capaz de conhecer a verdade
e alcançar a felicidade através da razão.
O sujeito da Análise do Discurso não é o sujeito das Ciências Exatas, que se
diz capaz de explicar o objeto através de um conhecimento imparcial. Um sujeito que
está no exterior da realidade pesquisada e que observa o fenômeno com a distância
suficiente para assumir um comportamento neutro diante do fato.
O sujeito da Análise do Discurso também não é o da Lingüística Clássica, que
o concebe ora como idealizado, ora como mero falante. O sujeito idealizado
baseado na crença de que todos os falantes de uma mesma comunidade falam a
mesma língua. O sujeito falante é o empírico, o individualizado, que “tem a
capacidade para aquisição da língua e a utiliza em conformidade com o contexto
sociocultural no qual tem existência” (FERNANDES, 2005, p. 35). Muito menos é o
sujeito da Gramática Normativa que o classifica em simples, composto,
indeterminado, oculto e inexiste. O sujeito do discurso não pode estar reduzido aos
elementos gramaticais, pois ele é historicamente determinado.
Na Análise do Discurso, para compreendermos a noção de sujeito, devemos
considerar, logo de início, que não se trata de indivíduos compreendidos
como seres que têm uma existência particular no mundo; isto é, sujeito, na
perspectiva em discussão, não é um ser humano individualizado... um
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sujeito discursivo deve ser considerado sempre como um ser social,
apreendido em um espaço coletivo (FERNANDES, 2005, p. 33).
Para a Análise do Discurso, o sujeito do discurso é histórico, social e
descentrado. Descentrado, pois é cindido pela ideologia e pelo inconsciente.
Histórico, por que não está alienado do mundo que o cerca. Social, por que não é o
indivíduo, mas àquele apreendido num espaço coletivo. “O sujeito de linguagem é
descentrado, pois é afetado pelo real da língua e também pelo real da história, não
tendo o controle sobre o modo como elas o afetam” (ORLANDI, 2005, p. 20).
A Análise do Discurso defende uma teoria não-subjetiva do sujeito. Como
explica Fernandes, “a constituição do sujeito discursivo é marcada por uma
heterogeneidade decorrente de sua interação social em diferentes segmentos da
sociedade” (2005, p. 41). Isso implica três coisas: o sujeito não ocupa uma posição
central na formação do discurso; ele não é fonte do que diz; muito menos tem uma
identidade fixa e estável.
Na perspectiva da Análise do Discurso, a noção de sujeito deixa de ser uma
noção idealista, imanente; o sujeito da linguagem não é o sujeito em si, mas tal
como existe socialmente, interpelado pela ideologia. Dessa forma, o sujeito não é a
origem, a fonte absoluta do sentido, por que na sua fala outras falas se dizem.
(BRANDÃO, 1993).
O que define de fato o sujeito é o lugar de onde fala. Foucault diz que “não
importa quem fala, mas o que ele diz não é dito de qualquer lugar” (BRANDÃO op.
cit.). Esse lugar é um espaço de representação social (ex: médico, pai, professor,
motorista etc.), que é uma unidade apenas abstratamente, pois, na prática, é
atravessada pela dispersão.
A unidade é uma criação ideologia, é uma coação da ordem do discurso. Por
isso, podemos dizer que o sujeito é um acontecimento simbólico. “Se não sofrer os
efeitos do simbólico, ou seja, se ele não se submeter à língua e à história, ele não se
constitui, ele não fala, ele não produz sentidos” (ORLANDI, 2005, p. 49).
O dolo da unidade pode ser desmascarado pela polifoniainerente a todo
sujeito. O sujeito é constituído por vários “eus”. Não há centro em seu ser, pois o seu
interior está saturado por várias vozes, de modo que, quando fala, o seu dizer não
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mais lhe pertence: “Ele é polifônico, uma vez que é portador de várias vozes
enunciativas. Ele é dividido, pois carrega consigo vários tipos de saberes, dos quais
uns são conscientes, outros são não-conscientes, outros ainda inconscientes”
(CHARAUDEAU, 2004, p. 458).
O sujeito pode ocupar várias posições no texto. Um único indivíduo pode
assumir o papel de diferentes sujeitos. O sujeito é caracterizado pela incompletude.
Mas essa marca vai se apagando de acordo com a função enunciativa que o sujeito
assume. Hierarquicamente esse apagamento acontece da seguinte maneira: locutor
enunciador autor.
O sujeito é um eu pluralizado, pois se constitui na e pela interação verbal. “É
múltiplo porque atravessa e é atravessado por vários discursos, por que não se
relaciona mecanicamente com a ordem social da qual faz parte, por que representa
vários papéis, etc.” (ORLANDI, 1988b, p. 11).
Não existe o sujeito sem o discurso, pois é este quem cria um espaço
representacional para aquele. Talvez a grande contradição do sujeito seja o fato dele
produzir o discurso e ao mesmo tempo ser produzido por ele. “O sujeito tem acesso
a si a partir de saberes que são sustentados por técnicas” (SARGENTINI, 2004, p.
93).
O sujeito é inventado pelo discurso através do processo de subjetivação. E
Miriani nos alerta “... falar de subjetividade é falar de algo que é puro movimento,
apreensível apenas num só-depois...” (2006, p. 8). O sujeito não aparece
individualizado naturalmente. É preciso que o poder o disciplinarize e molde o seu
comportamento conforme a ordem desejada. O sujeito se relaciona consigo mesmo
através do discurso, discurso esse que não lhe pertence completamente, mas que é
devassado pelo outro.
É o olhar de um outro que permite a constituição de uma imagem unitária do
eu. O eu só tem sentido quando o outro lhe atravessa. Não existe subjetividade sem
a intersubjetividade. Não existe uma alteridade que esteja fora do eu, os dois não
estão separados por uma fronteira bem definida, pelo contrário, ambos são um
mosaico de vozes, que formam um saber sobre si e sobre o outro recalcado pelos
jogos de poder.
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19
O discurso não é fruto de um sujeito que pensa e sabe o que quer. É o
discurso que determina o que o sujeito deve falar, é ele que estipula as modalidades
enunciativas. Logo, o sujeito não preexiste ao discurso, ele é uma construção no
discurso, sendo este um feixe de relações que irá determinar o que dizer quando e
de que modo. (NAVARRO-BARBOSA, in: SARGENTINI, 2004).
Somos acostumados a ligar um indivíduo a uma identidade, a nomear para
familiarizar, generalizar para domesticar. Sem darmos conta, somos conseqüência
da atuação de poderes múltiplos (família, escola, patronato etc.) que agem sobre
nossas vidas para forjar representações de subjetividades e impor formas de
individualidades. Foi o que Foucault chamou de Técnicas de Si, ou seja,
procedimentos que fixam, mantêm e transformam a identidade, em função de
determinados fins.
Mas todo processo de subjetivação é falho, é lacunar, conseqüentemente,
abre brechas para resistências. Pois não existem protótipos humanos
biologicamente determinados a serem iguais uns aos outros. A subjetivação é
instrumentalizada pela linguagem que, como já vimos, é opaca, não consegue
nomear nada, sem que haja falha.
A identidade do sujeito é um efeito do poder. “A identidade, assim como o
sujeito, não é fixa, ela está sempre em produção, encontra-se em um processo
ininterrupto de construção e é caracterizada por mutações” (FERNANDES, 2005, p.
43).
Impossível é moldar uma forma que defina o sujeito sem essa relação que
trava com o outro. Fernandes afirma que “compreender o sujeito discursivo requer
compreender quais são as vozes sociais que se fazem presente em sua voz” (2005,
p. 35).
O poder é quem administra os saberes sobre o indivíduo de modo a traçar-
lhes um perfil ideal e condicioná-los a serem passivos politicamente e ativos
economicamente. A formação de um estilo de vida igual para todos os indivíduos de
uma comunidade é uma tática para melhor controlá-los, de modo a fazê-los
responder de forma previsível aos comandos emanados do poder. É isso que a
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20
Análise do Discurso chama de processo de subjetivação - a verdade que o poder
cria sobre o sujeito para regulá-lo.
O conceito de discurso é, geralmente, apontado da seguinte maneira:
discursos são conjuntos de afirmações sistematicamente organizadas que dão
expressão aos significados e aos valores de uma instituição. Um discurso fornece
uma série de asserções possíveis sobre uma certa área, e organiza e estrutura a
forma pela qual um tópico, objeto, ou processo em particular deve ser discutido
numa determinada condição de produção.
O falante, o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social
(ideológico) são algumas das condições de produção observadas pelos analistas do
discurso. Essas condições são representadas por formações imaginárias, a imagem
que o falante tem de si, a imagem que tem do seu ouvinte, etc.
Dessa forma, tem-se que a análise do discurso procura mostrar o
funcionamento dos textos, observando sua articulação com as formações
ideológicas. Assim, a análise do discurso produz um deslocamento em direção às
ciências sociais e um distanciamento em relação às concepções lingüísticas que
desconsideram o historicismo e subjetivismo social. Para os teóricos dessa área, a
linguagem é produzida pelo sujeito, em condições determinadas, e para se analisá-
la deve-se mostrar o seu processo de produção, considerando, assim,
conhecimentos sócio-históricos e ideológicos.
A análise do discurso é um tipo de análise criada para chegar à ideologia
codificada implicitamente por detrás das proposições abertas, para examiná-la em
particular no contexto das formações sociais. As ferramentas para essa análise
foram uma seleção de categorias descritivas apropriadas ao propósito,
especialmente aquelas estruturas identificadas como ideacionais e interpessoais, é
claro, mas nós também usamos outras tradições lingüísticas.
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UNIDADE 3 – PRAGMÁTICA, ARGUMENTAÇÃO E FIGURAS
DE RETÓRICA
Faz-se agora uma abordagem teórica do conceito de Retórica, juntamente
com o de argumentação. Para os antigos,o objetivo da arte retórica era o mesmo de
qualquer processo argumentativo.
Por ser limitada, porém, à classificação de figuras de estilo, a retórica foi
desacreditada. Ressurgiu, por sua vez, com o aparecimento da Pragmática. Isto
quando o discurso e a argumentação passaram a ocupar lugar de destaque nos
estudos sobre a linguagem.
Em 1973, Perelman9 propõe um encontro da teoria da argumentação com a
retórica. Esse autor caracteriza a argumentação como “o emprego de técnicas
discursivas”10 e como um ato de persuasão.
O autor belga apresenta elementos que lhe permitem definir a linguagem
como um instrumento de ação sobre os indivíduos, ou seja, um meio de persuasão.
Diz Kock (1996), em coerência com Perelman, que “a função básica da linguagem é
argumentar e o ato de argumentar é um ato de persuadir”.
Podem ser considerados os elementos básicos da retórica tradicional, por sua
vez, uma técnica discursiva que compreenda um estrato linguístico e as
circunstâncias que possibilitam defender uma tese para a qual se busca a adesão de
um público.
Perelman (1973) defende que não há discurso neutro, objetivo, imparcial. Isto,
portanto, o leva a afirmar que a linguagem é a produção de um ato de persuasão.
Ducrot11 se apresenta com proposições que dizem que a argumentatividade
não constitui apenas algo acrescentado ao uso linguístico, mas está inscrita na
própria língua, permitindo-nos dizer que o uso da linguagem é inerente
9 Autor belga
10 PERELMAN, Ch. E OLBRECHTS, L. Tratado de la argumentación. La Nueva Retórica. Trad. Española de Júlia
Muñoz. Madrid, Ed. Gredos, 1973.
11 DUCROT, O. Provar e dizer. Trad. Brás. Global Universitária, São Paulo, 1981.
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22
argumenativo, quer dizer, a linguagem está ligada, inseparavelmente, à
argumentação.
Na argumentatividade , argumentação intrínseca à língua, postula-se:
Figura 112
Austin (1962) e Beveniste (1966) consideram a noção de linguagem forma de
ação dotada de intencionalidade e a concepção de argumentação, atividade
internalizada, subjacente (toda vez que se faz uso da linguagem, faz-se o uso da
argumentatividade).
O discurso é subjetivo parcial e é a semântica argumentativa que dá conta
dessa relação intersubjetiva entre os interlocutores no uso da linguagem. Segundo
Ducrot (1981), há sempre um conteúdo sobre o qual se dá a relação dialógica, e
inerente a este há outros conteúdos (inferências) que se relacionam com aquele que
12 Desenvolvida por mim, com base em GUIMARÃES (2001).
ARGUMENTATIVIDADE
SEMÂNTICA DA
ENUNCIAÇÃO
SEMÂNTICA
ARGUMENTATIVA
VERTENTES DA
PRAGMÁTICA
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é a base do diálogo – a interpretação destes servirão de fundamento aos fatos
discursivos.
A frase tem o seu valor argumentativo. Por exemplo, além de seu conteúdo
informativo, a frase traz expressões ou termos que servem para dar uma orientação
argumentativa ao enunciado para conduzir o destinatário à direção pretendida.
Não menos, a gramática também tem o seu valor argumentativo. Isto se
evidencia quando se observa a natureza dos elementos coesivos, que aqui são
chamados de operadores argumentativos13.
Argumentar é um ato linguístico fundamental, visto que está inscrito na língua;
é, ainda, responsável pela estruturação de todo e qualquer discurso. Não obstante a
retórica está subjacente a todo discurso.
Não é lícito dizer que a argumentação é sobreposta à língua, antes é prevista
na organização interna da língua. As noções de linguístico e retórico não são
diferentes, apenas há níveis distintos de significação.
É válido dizer que os mecanismos retóricos se manifestam tanto ao nível
linguístico quanto em outros, pois esses constituem manobras discursivas, tal como
a ironia, a sátira, a insinuação.
A única razão para os tropeços ligados ao processo argumentativo é,
portanto, as divergências de pontos de vista entre retórica e gramática. Com base
nesta idéia, cabe ressaltar as conhecidas operações essenciais da arte retórica,
conhecidas como inventio, atividade que consiste na busca daquilo que se quer
dizer; dispositio, operação que coloca em ordem a matéria a ser apresentada;
elocutio, exercício de burilamento da forma de dizer; actio, representação do
discurso por meio de gestos e imposições da dicção; memoria, recurso à memória
para dominar os conteúdos mentais. Sendo assim, o processo argumentativo
representa a atividade estruturante do discurso.
13 Por GUIMARÃES, Elisa. Figuras de Retórica e Argumentação. São Paulo: Humanitas Editora/ FFLCH/ USP,
2001.
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24
Decorre do apresentado a conclusão de que a progressão do discurso efetiva-
se nas articulações da argumentação, esta, que por sua vez é considerada um
elemento coesivo do discurso.
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UNIDADE 4 – SIGNO, SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO
Nos estudos de Saussure (1907), encontram-se detalhes relativos à
linguagem, de modo que, no conjunto da mesma, o que corresponde à língua, faz-se
necessária uma simulação para tratar com hipóteses as teses posteriormente
defendidas pelo autor. Imagina-se, então, dois indivíduos envolvidos num circuito da
fala, o mínimo para que o circuito seja completo.
Figura 214
O ponto de partida do circuito, assim chamado por Saussure15, situa-se no
cérebro de uma das partes envolvidas. Por exemplo, em A, os fatos de consciência
(pelo autor chamado de conceitos) se acham associados às representações dos
signos lingüísticos ou imagens acústicas que servem para exprimi-los. Se um
determinado conceito solicita do cérebro uma imagem acústica correspondente,
considera-se um fenômeno propriamente linguístico. Este, por sua vez, é seguido de
um processo fisiológico, visto que o cérebro transmite aos órgãos da fonação um
impulso correlativo da imagem, após as ondas sonoras se propagam da boca de A
para o ouvido de B. Em seguida o circuito se prolonga em B numa ordem inversa: do
ouvido ao cérebro, uma associação psíquica dessa imagem com o conceito
correspondente. Se B falar, o ato seguirá o mesmo curso do primeiro e passará elas
mesmas fases sucessivas.
14 SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 27 Ed. São Paulo: Cultrix, 2006. (Adaptação)
15 SAUSSURE. op. cit.
A B
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26
C = Conceito
D = Imagem Acústica16
Figura 317
Pode-se concluir dessa representação que os termos envolvidos no signo
linguístico são psíquicos e se mantêm ligados, no cérebro do indivíduo, por um
vínculo de associação. Nas palavras de Saussure (2006), “o signo linguístico une
não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica”.
A expressão imagem acústica pode parecer muito estreito, pois ao lado da
representação dos sons de uma palavra, existe também a de uma articulação, a
imagem muscular do ato fonatório. Para Saussure, entretanto, a língua é
essencialmente um depósito, uma coisa recebida de fora. A imagem acústica é, por
excelência, a representação natural da palavra enquanto fato de língua virtual, fora
de toda realização pela fala. O aspecto motor pode, então, ficar subentendido ou,
em todo caso, não ocupar mais que um lugar subordinado em relação à imagem
acústica.
O signo linguístico, por sua vez, é entendido como uma entidade psíquica de duas
faces, que pode ser representada pela figura abaixo:
16 Reperesentada pelo “i” nos círculos da figura.
17 SAUSSURE. op.cit.
c i
c i
Audição Fonação
Fonação Audição
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27
Figura 418
Diante do apresentado, pode-se, contudo, dizer que somente as vinculações
consagradas pela língua nos parecem conformes à realidade, e abandonamos,
então, toda e qualquer outra que se possa imaginar.
Saussure (2006) propõe substituir os termos conceito e imagem acústica por
significado e significante, visto que estes mostrarão de maneira mais clara as
oposições que os separam, quer seja entre si, quer seja do total que fazem parte.
4.1- A arbitrariedade do signo
A relação que existe entre significante e significado é arbitrária, pois
entendemos signo como o resultado da associação dos mesmos, o que constata
que o próprio signo linguístico é arbitrário.
Dessa maneira, a idéia de “flor” não está ligada por laço nenhum à junção das
letras f – l – o – r, que é apenas uma sequência de som, matéria, o que chamamos
de significante; enquanto a idéia que nos vem à mente quando lemos aquela
sequência de letras ou ouvimos aquela sequência sonora é a representação
psíquica da mesma, é o sentido que damos a elas, sem que haja nenhuma relação,
a priori, o que chamamos de significado.
18 SAUSSURE. op. cit.
Conceito
Imagem acústica
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28
De modo que fique ainda mais evidente a arbitrariedade da relação entre
significante e significado, imagine uma situação em que ouvimos uma palavra que
em nosso dialeto tem outro sentido, se o falante não explica o que quer dizer,
ficamos a imaginar qualquer coisa, visto que a nossa mente está pronta para dar
sentido ao que vemos e ouvimos, mas não necessariamente vamos criar a
representação real de tal palavra no contexto em que foi usada. Isto acontece
porque, por ser arbitrária a relação, não é necessário que conheçamos o significante
para darmos conta do significado e vice-versa. Não relação de dependência.
Cabe, ainda, uma observação relevante a respeito do termo arbitrário. Dizer
que a relação entre significante e significado é arbitrária não significa em absoluto
que o significado depende da livre escolha do falante, até porque não é possível o
indivíduo alterar, trocar coisa alguma num signo, uma vez que esteja ele
estabelecido num grupo linguístico. O que se pretende dizer é que o significante é
imotivado19, ou seja, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem
nenhum laço.
Pensar, no entanto, que a significação é um processo infinito – não
possuindo uma origem, nem um fim – torna possível que se opere com uma
concepção não-realista de linguagem: trabalha-se com a idéia de que toda
linguagem já é uma formulação, uma transformação da realidade. Segundo
essa perspectiva, o real não é prévio em relação à linguagem, mas
simultaneamente constituído por ela e dela constituinte. (SANTOS, 1998, p.
83)
O signo é uma arena privilegiada da luta de classe. Não se pode dizer o que
quer quando se ocupa um determinado lugar social, pois este exige o emprego de
certas representações e a exclusão de outras. De acordo com Gregolin (2001, p.
10), “se temos hoje um sentido para dada coisa é porque houve um processo que o
cimentou e organizou a exclusão do sem-sentido”.
A constituição do sentido é socialmente construída, assim apresenta a Análise
do Discurso. A aparente monossemia de uma palavra ou enunciado é fruto de um
processo de sedimentação ou cristalização que apaga ou silencia a disputa que
19 Arbitrário
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29
houve para dicionarizá-la. “O sentido não existe em si mesmo. Ele é determinado
pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo histórico no qual as
palavras são produzidas” (PECHÊUX, apud BRANDÃO, 1993, p. 62).
Diante do exposto, apesar de não sabermos muito sobre a relação entre o
funcionamento físico do cérebro e as sentenças que produzimos, inclusive porque a
biologia ainda não sabe muito sobre a relação entre o funcionamento neurológico e
as habilidades cognitivas humanas, é plausível supor que algo tem realidade ali de
tal modo que a mente humana é capaz de processar um sistema complexo e
sofisticado como uma língua natural e a natureza do signo linguístico.
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30
UNIDADE 5 – NOÇÕES DE SINTAXE
5.1 – A noção de constituinte
De acordo com Mioto (2000, p. 45), “Um constituinte é uma unidade sintática
construída hierarquicamente, embora se apresente aos olhos como uma sequência
de letras ou aos ouvidos como uma sequência de sons”. A sintaxe procura delimitar
o constituinte a partir de um núcleo. Como o núcleo determina certas funções, sabe-
se que o constituinte compreende, além do próprio núcleo, o conjunto de intens qe
desempenham aquelas funções. Um constituinte sintático, por sua vez, recebe o
nome de sintagma.
5.2 – A teoria X-barra
A teoria X-barra é o módulo da gramática que permite representar um
constituinte.Sua importância se deve ao fato de que é função dela explicitar a
natureza do constituinte, as relações que se estabelecem dentro dele e o modo os
constituintes se hierarquizam para formar a sentença.
Como um constituinte se constrói a partir de um núcleo, será usada aqui uma
variável X para representá-lo, e vai tomar seu valor dependendo da categoria do
constituinte. Se a categoria for um nome, o valor de X será N; se for um verbo, será
V; se for preposição, será P e assim por diante. Esse núcleo X irá determinar as
relações internas ao constituinte que são marcadas em dois níveis: o nível X’ e o
nível XP20, como representado em (2):
20 P abrevia Phrase do Inglês.
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31
(2)
XP
X’
X
X é uma categoria mínima às vezes também representada como X°. Chama-se X’ ao
nível intermediário ou à projeção intermediária de X; e XP ao nível sintagmático ou à
projeção máxima de X.
Na projeção intermediária o núcleo pode estar relacionado com
complementos (Compl) e na projeção máxima pode estar relacionado com no
máximo um especificador (Spec). Com esses elementos, o esquema X-barra será
uma árvore, como representado em (3):
(3)
XP
Spec X’
X Compl
Seguirá um exemplo que é entendido como um constituinte, pois há nele um
núcleo: um verbo. Consideremos:
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32
(4)
[menino amar a menina]
XP
Spec X’
o menino
X Compl
amar a menina
Tem-se um verbo amar com dois argumentos: o menino, o argumento
externo, e a menina, argumento interno. O núcleo desse constituinte, portanto, é o
verbo amar, o qual determina a relação de amor e que são dois os argumentos
dessa história.
VP
DP21 V’
o menino
V DP
amar a menina
Os vários itens que fazem parte dessa representação em árvore podem ser
classificados num número finito de categorias gramaticais. Considera-se (VITRAL,
2002) que itens pertencentes a uma mesma classe compartilham propriedades
gramaticais, ou seja, propriedades morfológicas, sintáticas e semânticas. As
categorias sintáticas, por sua vez, são:
a) As categorias lexicais
21 Sigla para Determiner Phrase.
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33
b) As categorias gramaticais
As categorias lexicais são: Nome (N); Adjetivo (A); Verbo (V); Preposição (P)
e Advérbio (Adv). As categorias gramaticais são: Flexão (F), Complementizador (C),
Negação (Neg), Determinante (D).
As categorias arroladas foram constituintes que são chamados de Sintagmas.
Este é entendido como um constituinte intermediário entre a oração e a palavra, que
se dividem nas categorias:
• Sintagmas nominais
• Sintagmas adjetivais
• Sintagmas verbais
• Sintagmas preposicionais
Segue uma representação arbórea para exemplificar o exposto acima.
(5) O chefe acredita que ele vai conseguir um emprego.
Com base no que foi apresentado nesta unidade, pode-se constatar a
complexidade dos sistemas que objetivam descrever, representar e discutir os ideais
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da GT. A teoria X-barra, por sua vez, é funcional, aplicável a qualquer língua,
levando em consideração as variações lingüísticas. Conclui-se o exposto, contendo
acima dados importantes sobre a noção de constituinte. Indica-se para maior
abrangência e domínio dessa teoria a leitura de obras de um dos idealizadores do
esquema acima representado, Noam Chomsky.
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UNIDADE 6 - TEORIAS LINGÜÍSTICAS E A PRÁTICA DE
ENSINO
Até aqui foi o objetivo tratar da descrição de algumas das teorias lingüísticas e
gramaticais mais presentes nos estudos contemporâneos da linguagem, no entanto,
pouco se tratou da relação entre essas teorias e o ensino de gramática. Assim opta-
se por apresentar nessa seção alguns questionamentos relacionados à aplicação
dessas teorias ao ensino de gramática. Procurou-se também selecionar os pontos
que mais controvérsia têm suscitado entre os que se ocupam do ensino de língua
materna.
Como ponto de partida apresenta-se as indagações mais freqüentemente
apresentadas pelos professores de língua portuguesa aos professores de lingüística,
verificando, de qualquer modo, os pontos chave de cada uma delas.
As dúvidas mais comuns com relação ao ensino de língua materna podem
ser, de uma forma ou de outra, sintetizadas nas quatro perguntas seguintes:
1) Que devo ensinar, na disciplina de Língua Portuguesa, tendo em vista que, de
acordo com as teorias lingüísticas, o aluno já conhece a língua ao chegar à escola?
2) Como tornar o aluno um efetivo produtor/intérprete de textos?
3) Devo ensinar gramática?
4) Caso a resposta seja positiva, como devo ensinar gramática?
Tratar-se-á, inicialmente, de alguns conceitos básicos estabelecidos por
Coseriu. Segundo esse autor, a linguagem é uma atividade humana universal que se
realiza individualmente, mas sempre segundo técnicas historicamente determinadas
e, por isso, pode e deve ser investigada em três diferentes dimensões: universal,
histórica e individual. Na primeira, apresenta-se como linguagem, na segunda, como
língua e, na terceira, como fala. A cada um desses planos correspondem também
um tipo de conteúdo e um saber específico: ao plano universal concernem o
designado e o saber elocucional, ao plano histórico, o significado e o saber
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idiomático e ao plano individual, o sentido e o saber expressivo. O saber elocucional
diz respeito ao conhecimento das coisas, o saber idiomático se refere ao
conhecimento das regras, formas e conteúdos de uma língua determinada e o saber
expressivo refere-se ao conhecimento de uma situação de fala determinada.
É necessário