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Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................................... 2 UNIDADE 1 - GÊNESE DA DISCIPLINA.................................................................... 4 UNIDADE 2 - CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO ............................................................ 9 UNIDADE 3 - AS FASES DA ANÁLISE DO DISCURSO: PROCEDIMENTOS E DEFINIÇÃO DO OBJETO......................................................................................... 12 UNIDADE 4 - CONCEITO DE DISCURSO ............................................................... 15 UNIDADE 5 - CONCEITOS-CHAVE: SENTIDO E SUJEITO ................................... 20 UNIDADE 6 - A TEORIA CRÍTICA DO DISCURSO ................................................. 25 UNIDADE 7 - GÊNEROS DO DISCURSO ................................................................ 31 UNIDADE 8 - PASSOS PARA UMA ANÁLISE ........................................................ 36 UNIDADE 9 - OUTROS CONCEITOS FUNDAMENTAIS ......................................... 39 UNIDADE 10 - CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................. 42 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 43 Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 2 APRESENTAÇÃO Dada a complexidade das atividades linguísticas, cada vez mais se percebe uma nova área de conhecimentos dentro do amplo campo de estudos dessa área do conhecimento. Há subáreas da Linguística voltadas para o entendimento de sua “estrutura”, que considera o falante como ideal, há vertentes que se dedicam ao estudo do texto, como também há também estudos linguísticos que relacionam produção e uso da língua. A Análise do Discurso (AD), no entanto, refere-se a uma disciplina que estuda a posição ideológica por trás de um discurso, sendo esse entendido como qualquer produção linguística. A Análise do Discurso surgiu na França na década de 60. Essa época ficou marcada por vários eventos políticos, talvez o mais importante tenha sido o movimento estudantil de 1968 pela reforma universitária. Como forma de tentar entender esse momento político, vários intelectuais da época passaram a analisar os discursos produzidos. Foi então que, pautada na noção de materialismo histórico, amplamente difundida por Marx, surgiu a Análise do Discurso. O Brasil passava também nesse período por grandes transformações político- culturais. Era a época dos festivais da MPB e da efervescência das manifestações contrarias à ditadura militar. E os intelectuais brasileiros engajados politicamente se interessaram pelos estudos desenvolvidos pelos franceses, principalmente pelas origens marxistas da teoria da Análise do Discurso. Os adeptos do materialismo acreditam que as ideologias têm existência material, ou seja, devem ser estudadas não como idéias, mas como um conjunto de práticas materiais que reproduzem as relações de produção. Isso, para a linguística, foi interpretado da seguinte forma: já que a ideologia deve ser estudada em sua materialidade, a linguagem se apresenta como o lugar privilegiado para a manifestação da ideologia. Assim a linguagem passou a ser vista como a via pela qual se pode depreender o funcionamento da ideologia. Os primeiros teóricos da AD, retornando à dicotomia Língua/fala, estabeleceram que a significação não era sistematicamente apreendida por ser da ordem da fala e nem por ser da ordem da língua; por sofrer alterações de acordo com as posições ocupadas pelos sujeitos que enunciam, os processos de significação deveriam ser inscritos como ideológicos, históricos. (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 3 A AD, da forma como foi inscrita, apresentou como proposta básica: considerar como primordial a relação da linguagem com a exterioridade, ou seja, com as chamadas condições de produção. Os discursos são conjuntos de afirmações sistematicamente organizadas que dão expressão aos significados e aos valores de uma instituição. Um discurso fornece uma série de asserções possíveis sobre certo campo de conhecimento, e organiza e estrutura a forma pela qual um tópico, objeto, ou processo em particular deve ser discutido numa determinada condição de produção. A análise do discurso procura mostrar o funcionamento dos textos, observando sua articulação com as formações ideológicas. Assim a análise do discurso, embora circunscrita no campo da linguística, produz um deslocamento em direção às ciências sociais. Para os teóricos dessa área, a linguagem é produzida pelo sujeito, em condições determinadas, e para se analisá-la deve-se mostrar o seu processo de produção, considerando, assim, conhecimentos sócio-históricos e ideológicos. A análise do discurso é um tipo de análise criada para chegar à ideologia codificada implicitamente por detrás das proposições abertas, para examiná-la em particular no contexto das formações sociais. As ferramentas para essa análise foram uma seleção de categorias descritivas apropriadas ao entendimento de um propósito. (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 4 UNIDADE 1 - GÊNESE DA DISCIPLINA Quando se trata da origem da disciplina da Análise do Discurso (AD), dois nomes são freqüentemente citados: o linguista Jean Dubois e o filósofo Michel Pêcheux. Embora de áreas distintas, esse dois estudiosos compartilhavam a ideologia política do marxismo. Ambos acreditavam na aposta marxista de que as ideologias têm existência material, o que significava dizer que as ideologias não deveriam ser estudadas como idéias, mas sim como um conjunto de práticas materiais que reproduzem as relações de produção. Segundo Pêcheux (1988, p. 74), para o materialismo histórico: o objeto real (tanto no domínio das ciências da natureza como no da história) existe independentemente do fato de que seja conhecido ou não, isto é, independentemente da produção ou não produção do objeto do conhecimento que lhes responde. A Linguística, conforme entendida por Dubois, aparecia como um campo promissor no estudo das ideologias, uma vez que é através da linguagem que a materialidade da ideologia se apresenta de forma privilegiada. É, então, a partir da noção de materialismo histórico e da lingüística estruturalista que nasce a disciplinaprelo, p. 14): A língua usada no dia a dia, a língua usada no trabalho, nas narrações literárias, no tribunal, nos textos políticos etc. são modalidades diferentes de uso da linguagem e mostram a necessidade de um falante versátil que tenha múltiplos conhecimentos: conhecimento gramatical da língua, do gênero adequado à situação, do nível de linguagem (formal ou informal) apropriado. Isto é, para dar conta das diferentes situações, é necessário que os falantes dominem a língua nas suas diferentes variedades de uso. Dessa forma, se, por exemplo, um cidadão for requisitar ao prefeito de sua cidade a pavimentação de sua rua usando uma linguagem informal, cheia de gírias, sem concordância, esse cidadão provavelmente não vai ser atendido. Quando nos dirigimos a um interlocutor através da linguagem, nós o fazemos dentro de um gênero do discurso adequado àquela situação. Em cada esfera de atividade social, os falantes utilizam a língua de acordo com gêneros de discurso específicos. Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 32 Marcuschi (2002) ressalta ainda que o falante, muitas vezes, especifica em sua fala o gênero de texto que está produzindo ou a que está se referindo. Isso acontece quando dizemos, por exemplo, “Na aula de ontem...”, “Na conversa que tivemos...” ou “Na entrevista do deputado...”. Aula, conversa e entrevista constituem gêneros discursivos muito comuns e apresentam peculiaridades que os delimita e define, e é assim com muitos outros gêneros. No gênero discursivo telefonema, por exemplo, espera-se certas marcas lingüísticas como um Alô. Quem está falando? Agora, observe o seguinte texto: Bacalhau com broa Ingredientes: Mulher, bacalhau, espinafres, broa de milho, azeite, alho, cebola, batata e sal. Modo de preparação: Coloque a mulher na cozinha com os ingredientes e feche a porta. Espere duas horas e seja servido. O texto acima, embora apresente o formato do gênero discursivo receita, trata-se, na verdade de uma piada, e servirá de ilustração ao que estamos tratando. O formato do texto imita a formula lingüística de uma receita, como dissemos. Insere-se os tópicos Ingredientes e Modo de preparação tal como ocorre em uma receita, mas ao se acrescentar o “ingrediente” mulher e pela forma como é descrita a preparação, percebe-se que trata-se na verdade de um outro gênero, a piada. O efeito cômico do texto surge, principalmente, da mistura dos gêneros, que quebra a expectativa do ouvinte/ leitor. Se os gêneros podem ser misturados e com isso apresentar um formato diferenciado, conforme observado na piada acima, como reconhecemos um certo gênero do discurso? Embora os gêneros possam variar em certos momentos, há pelos menos três características estáveis que permitem a sua classificação, são elas: o tema, que diz respeito ao conteúdo; as estruturas proposicionais específicas; e o estilo, os recursos lingüísticos utilizados. Segundo Bakhtin (1992, apud BRANDÃO, no prelo, p.16), existem basicamente dois tipos de gêneros do discurso: a) Gênero de discursos primários (ou livres) – são aqueles da vida cotidiana quem mantém uma relação imediata com as situações nas quais são produzidos; não precisamos passar por uma escola para aprender como eles funcionam, uma vez Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 33 que são adquiridos nas nossas relações e experiências do dia a dia. São exemplos o telefonema, o bilhete, uma conversa, etc. b) Gênero de discursos segundos (seguem modelos construídos socialmente) – são os que aparecem em situações de “troca cultural (principalmente escrita) mais complexa e relativamente mais evoluída” como as que se dão nas manifestações artísticas, científicas, políticas, jurídicas, etc. Esses discursos segundos (textos literários, peças teatrais, discursos políticos, etc.) podem explorar, recuperar ou incorporar os discursos primários, que perdem desde então sua relação direta com o real, passando a ser uma representação de uma situação concreta de comunicação (numa obra literária, numa novela temos personagens não numa situação real, mas numa representação dessa). Para dominar os gêneros segundos, geralmente precisamos de uma educação formal. Um gênero, como afirmamos anteriormente, possui algumas características estáveis, no entanto, ele não é uma forma fixa. Por estar intrinsecamente relacionado a uma dada atividade humana, o gênero está sujeito a alterações de ordem cultural e histórica. Ele evolui na mesma medida em que a atividade humana evolui. Um currículo, por exemplo, há alguns anos atrás era composto de muitas páginas em que se detalhavam todo tipo de informação com relação à atividade profissional de uma pessoa; nos dias de hoje, em que as ações são mais dinâmicas, passou-se a valorizar não mais um currículo extenso, mas uma forma mais sucinta em que estejam descritas informações profissionais que sejam realmente relevantes ao cargo que o candidato deseja ocupar. Assim, o gênero currículo passou por alterações e evoluções que tiveram sua origem em alterações e evoluções histórico- culturais. Há, ainda, que se ressaltar que da mesma forma que gêneros sofrem alterações, eles podem também cair em desuso ou serem criados. A carta é um exemplo de gênero que caiu em desuso e, concomitantemente, o e-mail é um exemplo de gênero novo. Os gêneros novos, no entanto, não surgem do nada. Geralmente, eles nascem ancorados em outros gêneros já existentes – como o e- mail que tem sua raiz no gênero carta. Segundo Brandão (no prelo, p. 18): Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 34 (...) no gênero sempre existe um duplo movimento: repetição e mudança, isto é, uma tensão entre aspectos que permanecem e, portanto, nos possibilitam a reconhecer o gênero e aspectos que forçam a incorporar elementos novos, variáveis que provocam a mudança. Em relação ao gênero carta e suas variantes lembrete, memorando, telegrama (...) ao lado das mudanças ocorridas, um ou outro aspecto sempre permanece, como indicação de local e data, vocativo, forma de iniciar, forma de despedir, assinatura, possibilitando o reconhecimento de qual modalidade de gênero se trata. Assim, entendemos que há gêneros que apresentam maior possibilidade de variação, enquanto que há outros que pouco variam. Brandão apresenta alguns exemplos: 1. As cartas comerciais, requerimentos, lista telefônica, textos cartoriais e administrativos são fórmulas e esquemas composicionais pré-estabelecidos, pouco ou nada sujeitos a variações; 2. Um jornal televisionado, uma reportagem, um guia de viagem seguem também esquemas pré-estabelecidos, mas toleram desvios, permitindo recurso a estratégias mais originais, a variações mais particulares. Um guia de viagem pode desviar-se da forma habitual do gênero e apresentar-se por meio deuma narrativa de aventuras, ou um diálogo entre amigos; 3. Certos tipos de anúncios publicitários, letras de música, textos literários constituem gêneros que buscam a inovação, provocam rupturas em relação ao esperado, revelando-se diferentes em relação ao gênero original. Retornando aos pressupostos da ACD, segundo Fairclough (2003), há dificuldades na conceituação de gênero discursivo devido ao processo contemporâneo de desencaixe de gêneros das práticas sociais tradicionais atribuído ao capitalismo globalizado. Nas palavras do autor, “O desencaixe de gêneros é uma parte da reestruturação e do reescalonamento do capitalismo.” (Fairclough, 2003: 69). A tendência à mudança nos gêneros discursivos atuais se deve, segundo a ACD, às relações interdiscursivas, bastante comuns nas práticas sociais globalizadas, como é o caso da publicidade, por exemplo. O efeito da interdiscursividade nas identidades sociais é o hibridismo genérico que contribui para o hibridismo de identidades. Isso ocorre nas relações de gênero social. Ou Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 35 seja, nas práticas sociais capitalistas é comum se perceber a “influência” ou mesmo o diálogo entre campos diferentes – o que define a interdiscursividade – e, a partir disso, é possível se perceber a mescla de identidades no interior de discursos. Assim, os textos corresponderiam a espaços de luta constituídos de diferentes discursos e ideologias que buscam uma hegemonia. Os gêneros discursivos, como dissemos, manifestam-se através de textos. Os textos por sua vez se subdividem, de acordo com sua organização enunciativa, em tipos. Os tipos textuais referem-se à organização do texto e podem ser classificados em narrativa, descrição, argumentação e explicação. A cada um desses tipos textuais são relacionados gêneros do discurso. À narração, por exemplo, são integrados os contos, as fábulas, as lendas, dentre outras; já à descrição são inventariados os manuais de instrução de uso ou de montagem, as receitas, os regulamentos, as regras do jogo, etc. Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 36 UNIDADE 8 - PASSOS PARA UMA ANÁLISE Durante a descrição do que vem a ser a Análise do Discurso, apresentamos conceitos, explicações e pequenas análises com o objetivo de aproximar o leitor de uma metodologia de trabalho em análise do discurso. Nessa seção, no entanto, não apresentaremos uma análise pronta, mas sim uma proposta de análise. Leia, então, a crônica abaixo e tente responder às perguntas indicadas no fim do texto e realize a sua análise. Bom trabalho! Como o rei de um país chuvoso Um espectro ronda o mundo atual: o espectro do tédio. Ele se manifesta de diversas maneiras. Algumas de suas vítimas invadem o “shopping center” e, empunhando um cartão de crédito, comprometem o futuro do marido ou da mulher e dos filhos. A maioria opta por ficar horas diante da TV, assistindo a “reality shows”, os quais, por razões que me escapam, tornam interessante para seu público a vida comum de estranhos, ou seja, algo idêntico à própria rotina considerada vazia, claustrofóbica. O mal ataca hoje em dia faixas etárias que, uma ou duas gerações atrás, julgávamos naturalmente imunizadas a seu contágio. Crianças sempre foram capazes de se divertir umas com as outras ou até sozinhas. Dotadas de cérebros que, como esponjas, tudo absorvem e de um ambiente, qualquer um, no qual tudo é novo, tudo é infinito, nunca lhes faltam informação e dados a processar. Elas não precisam ser entretidas pelos adultos, pois o que quer que estes façam ou deixem de fazer lhes desperta, por definição, a curiosidade natural e aguça seus instintos analíticos. E, todavia, os pais se vêem cada vez mais compelidos a inventar maneiras de distrair seus filhos durante as horas ociosas destes, um conceito que, na minha infância, não existia. É a idéia de que, se a família os ocupar com atividades, os filhos terão mais facilidades na vida. Sendo assim, os pais, simplesmente, não deixam os filhos pararem. Se o mal em si nada tem de original e, ao que tudo indica, surgiu, assim como o medo, o nojo e a raiva, junto com nossa espécie ou, quem sabe, antes, também é verdade que, por milênios, somente uma minoria dispunha das precondições necessárias para sofrer dele. Falamos do homem cujas refeições da semana dependiam do que conseguiria caçar na segunda-feira, antes de, na terça, estar fraco o bastante para se converter em caça e de uma mulher que, de sol a sol, trabalhava com a enxada ou o pilão. Nenhum deles tinha tempo de sentir o tédio, Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 37 que pressupõe ócio abundante e sistemático para se manifestar em grande escala. Ninguém lhe oferecia facilidades. Por isso é que, até onde a memória coletiva alcança, o problema quase sempre se restringia ao topo da pirâmide social, a reis, nobres, magnatas, aos membros privilegiados de sociedades que, organizadas e avançadas, transformavam a faina abusiva da maioria no luxo de pouquíssimos eleitos. O tédio, portanto, foi um produto de luxo, e isso até tão recentemente que Baudelaire, para, há século e meio, descrevê-lo, comparou-se ao rei de um país chuvoso, como se experimentar delicadeza tão refinada elevasse socialmente quem não passava de “aristocrata de espírito”. Coube à Revolução Industrial a produção em massa daquilo que, previamente, eram raridades reservadas a uma elite mínima. E, se houve um produto que se difundiu com sucesso notável pelos mais inesperados andares e recantos do edifício social, esse produto foi o tédio. Nem se requer uma fartura de Primeiro Mundo para se chegar à sua massificação. Basta, a rigor, que à satisfação do biologicamente básico se associe o cerceamento de outras possibilidades (como, inclusive, a da fuga ou da emigração), para que o tempo ocioso ou inútil se encarregue do resto. Foi assim que, após as emoções fornecidas por Stalin e Hitler, os países socialistas se revelaram exímios fabricantes de tédio, único bem em cuja produção competiram à altura com seus rivais capitalistas. O tédio não é piada, nem um problema menor. Ele é central. Se não existisse o tédio, não haveria, por exemplo, tantas empresas de entretenimento e tantas fortunas decorrentes delas. Seja como for, nem esta nem soluções tradicionais (a alta cultura, a religião organizada) resolverão seus impasses. Que fazer com essa novidade histórica, as massas de crianças e jovens perpetuamente desempregados, funcionários, gente aposentada e cidadãos em geral ameaçados não pela fome, guerra ou epidemias, mas pelo tédio, algo que ainda ontem afetava apenas alguns monarcas? ASCHER, Nélson, Folha de S. Paulo, 9 abr. 2007, Ilustrada. (Texto adaptado) Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacionalde direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 38 - O Sujeito: Quem é o autor do texto? O que o mobilizou a escrevê-lo? Qual o seu lugar social? Profissão, ocupação, engajamento. - O Contexto: A que gênero do discurso pertence o texto? Qual o sentido histórico-social desse gênero discursivo? Em que circunstâncias e com que objetivos ele é frequentemente utilizado? Qual o assunto do texto? - Analisando... Há conflito entre diferentes discursos ou trata-se da exposição de um único discurso? Como o autor se coloca frente o tema? Em que consiste a posição ideológica do autor? O que se pode inferir a partir do posicionamento ideológico do autor? - Checando a metodologia? De que forma você chegou ao posicionamento do autor com relação ao tema? Que recursos ele usou? Em que corrente teórica você se baseou? Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 39 UNIDADE 9 - OUTROS CONCEITOS FUNDAMENTAIS A partir do que vimos tratando, chega-se à noção de discurso como toda atividade comunicativa, produtora de sentidos, entre interlocutores. É uma atividade de construção de sentidos entre falantes na qual o que se diz significa em relação ao que é dito, ao efeito que se pretende atingir; significa em relação ao lugar social de onde se diz, a quem se diz; significa em relação a outros discursos que circulam na sociedade. Os conceitos de sentido e sujeito são, dessa forma, fundamentais à disciplina. No entanto, há ainda outros tantos conceitos que são caros à AD e os quais apresentamos abaixo: Dialogismo – todo discurso tem uma dimensão dialógica, isto é, uma espécie de diálogo na medida em que quando falamos ou escrevemos, temos em mente a pessoa que nos escuta ou nos lê e também na medida em que trazemos ao nosso discurso as falas de outros usando a citação (discurso direto, indireto, aspas) de forma clara ou não (implícito). (BRANDÃO, no prelo, p.25). Enunciado – é uma noção discursiva que se opõe à noção de frase gramatical. Ou seja, uma frase é abstrata, não é produto de um sujeito concreto, tem um sentido neutro ao passo que o enunciado é produzido por um sujeito concreto (de carne e osso), por isso é concreto, expressa as atitudes desse sujeito (suas idéias, preconceitos, crenças emoções, etc.). (BRANDÃO, no prelo, p.25). Formação discursiva – conjunto de enunciados ou textos marcados por certas características comuns em relação à linguagem usada ou aos temas discutidos ou às posições ideológicas. Uma formação discursiva remete a uma mesma formação ideológica, mas uma formação discursiva não é homogênea, isto é, pelo caráter dialógico da linguagem, uma formação discursiva tem dentro de si outras formações discursivas com as quais dialoga, quer para contestá-las quer para a elas unir sua voz. (BRANDÃO, no prelo, p.25). Formação ideológica – conjunto de atitudes e representações que os falantes têm sobre si mesmos e sobre o interlocutor e o assunto em pauta; essas atitudes e Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 40 representações estão relacionadas com a posição social de onde falam ou escrevem, com as relações de poder (muitas vezes contraditórias, conflituosas) que se estabelecem entre eles. (BRANDÃO, no prelo, p.25). Implícito – do ponto de vista da comunicação, dependendo do contexto em que um enunciado é dito, por detrás de seu sentido explícito pode estar um sentido oculto ou implícito que o ouvinte ou leitor deve construir (ou inferir, deduzir) levando em conta os fatores extralingüísticos. Por exemplo, “Faz calor” pode significar simplesmente que faz calor ou pode significar também, em outros contextos, “Abra a janela” ou “Desligue o aquecedor”. (BRANDÃO, no prelo, p.26). Interdiscurso – a relação de diálogo que um discurso trava com outros discursos: todo discurso nasce de um trabalho sobre outros discursos, isto é, ao falar citamos, discutimos, polemizamos com outros discursos situados no presente ou no passado. A interdiscursividade é própria de todo discurso e é conseqüência do principio do dialogismo que caracteriza a linguagem humana. (BRANDÃO, no prelo, p.26). Interlocutor – é a pessoa que dialoga, discute, conversa com o outro. No plural, interlocutores, pode significar ainda as pessoas envolvidas numa situação de interação comunicativa, um sendo o interlocutor do outro. (BRANDÃO, no prelo, p.26). Polifonia – esse conceito foi elaborado inicialmente pelo teórico russo Mikhail Bakhtin que o aplicou à literatura; foi retomado posteriormente pelo lingüista francês Oswald Ducrot que lhe deu um enfoque lingüístico. Refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso do outro, de toda fala estar atravessada pela fala do outro, criando um efeito de entrecruzamento de vozes em relação de aliança ou de polêmica. (BRANDÃO, no prelo, p.26). Semiótica - é a ciência geral dos signos, estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ocupa-se do estudo do processo de significação ou representação. Tem diversas aplicações, uma das Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 41 quais é servir como ferramenta para o estudo de Comunicação e de Lingüística. Teve suas bases lançadas entre o final do século XIX e o início do século XX. Os princípios fundamentais foram estabelecidos por dois cientistas: o americano Charles S. Peirce e o suíço Ferdinand de Saussure. Dada a sua natureza, a Semiótica é muito útil no estudo de qualquer fenômeno relacionado à transmissão e retenção de informação: a Linguagem, as Artes, a própria Comunicação. Texto – é constituído pelos falantes em suas relações interacionais, constituindo-se num todo significativo com começo, meio e fim. Como unidade complexa de significação, sua produção e compreensão deve levar em conatas as condições de sua produção (situação de enunciação, interlocutores, contexto histórico social), exigindo de seus participantes conhecimentos não só lingüísticos como conhecimentos extra-lingüísticos (conhecimento de mundo, saber enciclopédico, determinações sócio-culturais, ideológicas, etc.). (BRANDÃO, no prelo, p.27). Tipo textual – a maneira como um gênero discursivo (notícia, carta, etc.) se organiza (por narração, descrição, argumentação ou explicação); construção feita pelo falante que escolhe os recursos da língua e expressa sua atitude (certeza, dúvida, opinião, ironia, etc.) em relação ao assunto que está tratando e em relaçãoao seu interlocutor. (BRANDÃO, no prelo, p.27). Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 42 UNIDADE 10 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Durante essa exposição, buscamos abordar os temas que consideramos mais importantes dentro do quadro teórico da Análise do Discurso. Pensando em um leitor que esteja ainda iniciando seu percurso nos estudos do discurso, descrevemos o nascimento da teoria, suas bases epistemológicas; apresentamos os principais conceitos; e apontamos as ramificações presentes na teoria. Assim espera-se que o leitor tenha compreendido a posição que a Análise do Discurso ocupa dentro dos estudos lingUísticos, bem como assimilado os conceitos que embasam a teoria, a saber: o discurso, o sentido, o sujeito, as condições de produção. Considerando, principalmente, que a AD não se limita à análise das estruturas lingUísticas, mas se situa num campo interdisciplinar em que se observa efeitos histórico- ideológicos. Estudar a língua do ponto de vista discursivo é se enveredar pelos caminhos e processos presentes nas diversas atividades humanas. Abre-se mão de um estudo puramente gramatical para se abordar a História, a Sociologia, a Psicanálise numa análise dialógica e interdisciplinar. Espera-se que o conteúdo tenha sido suficiente para despertar o interesse do leitor pelo tema. Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 43 REFERÊNCIAS BRANDÃO, Helena H. N. Analisando o Discurso. Portal da Língua Portuguesa, no prelo. COSTA, Pedro H. da et al. Linguagem, letramento e ideologia na comunidade. Análise de discurso crítica e mudança social. Cadernos de Linguagem e Sociedade, 3 (1), 1997, p. 66-103. FAIRCLOUGH, norman. Discurso e mudança social, Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1994. _____. Analysing discourse. Textual analysis for social research. Londres; nova York: Routledge, 2003 HALLIDAY, Michael; HASAN, Ruqaiya. 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Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 44 ______. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. E. P. Orlandi et al. Campinas, Editora da Unicamp,1988. POSSENTI, S. Teoria do Discurso: Um caso de múltiplas rupturas. In.: MUSSALIM, Fernanda & BENTES, Anna Christina. (Orgs) Introdução à Lingüística: fundamentos epistemológicos, v.3. São Paulo: Cortez, 2004. Indicação de leitura BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Ed. Hucitec, 1979. BRAIT, B. (org.) Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da Unicamp, 1997. BRANDÃO, H. Introdução à Análise do Discurso. Campinas: Ed. Unicamp, 2004. DUCROT, O. & SCHAEFFER, J-M. 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Assim homem se define com relação à mulher por ser [-feminino], e com relação a cachorro por ser [-quadrúpede], e assim por diante (MUSSALIM, 2004, p.102). São, então, os valores dos itens que determinam sua escolha quando da produção de um texto, no entanto nem toda escolha parte de um valor meramente linguístico, pode-se, por exemplo, escolher entre dois elementos de valor extralinguístico, como os itens garota e menina ambos carregando o valor [+feminino], o que representaria a escolha de um desses itens, (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 5 segundo os pressupostos da AD, não seria, como na proposta de Saussure, de natureza sistêmica, mas de ordem ideológica, histórica. É a partir dessa consideração que Pêcheux propõe uma semântica do discurso. O discurso para Pêcheux constitui o lugar para onde convergem componentes linguísticos e sócio-ideológicos, seriam as condições sócio-históricas de produção de um discurso que constituiria as suas significações. A partir daí, o autor formalizou o que ficou conhecido como análise automática do discurso (AAD), essa análise permitia um procedimento de leitura que relacionava determinadas condições de produção com os processos de produção do discurso. A proposta de Pêcheux acabou por se articular com o projeto de Althusser, um estudioso do materialismo histórico, de formalizar o discurso. Para Althusser, a AAD poderia corresponder a seu desejo de definir uma teoria de ideologia em geral que permitisse evidenciar o mecanismo responsável pela reprodução das relações de produção comum a todas as ideologias particulares. Dessa forma as idéias de Althusser ajudaram compor a gênese da AD. Tratadas aqui as principais teorias que contribuíram para o surgimento da AD, resta-nos tecer alguns comentários sobre outra teoria que também influenciou sobremaneira o momento inicial da Análise do Discurso. Referimo-nos à psicanálise lacaniana. Segundo Mussalim (2004, p. 107): A partir da descoberta do inconsciente por Freud, o conceito de sujeito sofre uma alteração substancial, pois seu estatuto de entidade homogênea passa a ser questionado diante da concepção freudiana de sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente. Lacan faz uma releitura de Freud recorrendo ao estruturalismo lingüístico, mais especificamente a Saussure e a Jakobson, numa tentativa de abordar com mais precisão o inconsciente, muitas vezes tomado como uma entidade misteriosa, abissal. Para Lacan, o inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significantes latente que se repete e interfere no discurso efetivo, é como se sob as palavras, conscientemente ditas, houvesse outras palavras, vindas do inconsciente. Nesse sentido a tarefa do analista seria a de tornar as palavras ou o “discurso” do inconsciente consciente, através de um trabalho na palavra. O inconsciente representa, para essa teoria, o lugar de onde emana o discurso do Outro (do pai, da família, da lei, etc.) e em relação ao qual o sujeito se define, ganha (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 6 identidade. O sujeito passa a ser considerado, então, uma representação, sendo, portanto, da ordem da linguagem. Somando a essa noção de inconsciente alguns critérios do estruturalismo lingüístico, Lacan se posiciona em favor da existência de uma estrutura discursiva que é regida por leis. Dentre as implicações dessa constatação de Lacan para a psicanálise, a que interessa à AD é a que define sujeito, relacionando-o ao inconsciente, à linguagem. Com relação ao conceito lacaniano de sujeito, percebe-se o papel da lingüística no que se refere a certos critérios a partir dos quais se define o sistema lingüístico: (1) o critério diferencial, apropriado por Saussure, considera que na língua só há diferenças; segundo esse critério, os elementos do sistema não podem ser definidos por eles mesmos, sem que suas características sejam comparadas às de outros elementos. (2) o critério relacional que delimita a função do Outro no interior do sistema. (3) o critério do lugar vazio, seguindo a ótica estruturalista, considera que cada elemento adquire sua identidade fora de si. (4) o critério posicional, esse critério considera que a identidade resulta sempre dos lugares de onde são tomados os elementos na relação binária no interior do sistema. Os critérios, diferencial e relacional, implicam na consideração de que o sujeito é dessubstancializado, uma vez que ele só se define em relação ao Outro. O sujeito dessubstancializado não está, porém, no consciente onde predomina a noção de “sujeito centro”, aquele que acredita saber o que diz e o que é, mas sim no inconsciente, no lugar onde está o Outro – o discurso do pai, da mãe, da família, etc. – que lhe imprime identidade, aí o critério do lugar vazio. Segundo Santiago (apud MUSSALIM, 2004, p.108), “o pai e a mãe deixam de ser meros semelhantes com os quais o sujeito se relacionou numa dimensão de rivalidade ou amor, para se tornarem lugares na estrutura”. Assim, a mãe pode ocupar lugares diferentes no imaginário – mãe cuidadosa, mãe displicente, etc. –; é assim que se percebe o critério posicional. Essa relação entre o sujeito e o Outro se apóia na oposição binária de Jakobson1, segundo a qual um remetente passa dessa posição inicial para ocupar a posição de destinatário no sistema de comunicação. Assim, Lacan se aproxima do 1 Lingüista pertencente à Escola de Praga, embora considerado estruturalista, se distancia de Saussure ao considerar os interlocutores no processo comunicativo. É autor do texto Lingüística e poética In.: Lingüística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1960. (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 7 estruturalismoao adaptar as teorias de Saussure e Jakobson a sua teoria psicanalítica, mas se distancia ao inserir o sujeito na estrutura e ao estabelecer a relação do sujeito com o Outro. Na teoria lacaniana, o sujeito, por definir-se através do discurso do Outro, nada mais é do que um significante do Outro. No entanto, sendo um sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente, inscreve-se na estrutura, definida por relações binárias, mas que, diferentemente do sentido estruturalista, é descontínua. Em outras palavras, Lacan se afasta do estruturalismo no momento em que assume a incompletude do sistema, representada pelo sujeito, pela descontinuidade na cadeia significante. Na teoria de Jakobson, não há supremacia entre os interlocutores numa relação de comunicação. Já para Lacan, o Outro ocupa uma posição de domínio com relação ao sujeito, é uma ordem anterior e exterior a ele, com relação à qual o sujeito se define, ganha identidade. E é nessa posição com relação ao sujeito que a psicanálise lacaniana influencia na teoria da Análise do Discurso. 1 (o eu1) a Outro 2 1 Relação Imaginária 2 Inconsciente Esquema proposto por J. Lacan (1985): representação do eu, do outro e da linguagem Como afirmamos anteriormente, a AD trata de questões relativas à ideologia e ao sujeito. E é justamente esse “sujeito de Lacan”, clivado, mas estruturado na linguagem que permitiu que a AD concebesse os textos como produtos de um trabalho ideológico não-consciente. Sumariamente, pode-se dizer que a AD, através do materialismo histórico, considera o discurso como a materialização da ideologia decorrente do modo de (Es) S a A (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 8 organização dos modos de produção social e o sujeito, considerado como aquele que não decide sobre os sentidos e as possibilidades enunciativas do próprio discurso, mas enuncia o lugar social que ocupa, sempre inserido no processo histórico que lhe permite determinadas colocações e não outras. Segundo Mussalim (2004, p.110): O sujeito não é livre para dizer o que quer, mas é levado, sem que tenha consciência disso (e aqui reconhecemos a propriedade do conceito lacaniano de sujeito para a AD), a ocupar um lugar em determinada formação social e enunciar o que lhe é possível a partir do lugar que ocupa. Tem-se, por fim, que a Análise do Discurso pertence não ao campo da lingüística formal, mas sim a um núcleo de estudos da linguagem que a considera apenas na medida em que esta faz sentido para sujeitos inscritos em estratégias de interlocução, em posições sociais ou em conjunturas históricas. (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 9 UNIDADE 2 - CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO Segundo Pêcheux (1969), o estudo dos processos discursivos pressupõe a análise das condições de produção do discurso. Tal fato tem a ver, principalmente, com o papel atribuído ao contexto ou situação pela lingüística atual, que considera o contexto como pano de fundo específico dos discursos, sendo o que torna possível sua formulação e sua compreensão. De acordo com os pressupostos da Análise do Discurso, cada um enuncia a partir de posições que são historicamente constituídas. O que garante o sentido ao que o enunciador diz não é o contexto imediato em que está situado e ao qual se ligariam certos elementos da língua ou certas características do enunciado, mas as posições ideológicas a que está submetido e as relações ao que diz e o que já foi dito da mesma posição, considerando, eventualmente que ela não se opõe a uma a que lhe seja contrária. Veja a tirinha abaixo, de Luis Fernando Veríssimo: A tirinha serve de exemplo para o que acabamos de dizer. Em cada conjunto de quadros, o que vai definir o sentido dos comentários será o tema indicado por um (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 10 dos participantes da interlocução. Assim, no primeiro conjunto de quadros, como se trata de um concurso de cortesia, as falas dos interlocutores são marcadas por palavras de gentileza; no segundo, as condições de produção se referem a mal- entendidos e, novamente, são utilizadas frases comuns em situações de mal- entendidos; e o mesmo ocorre com o último conjunto de quadros. Pêcheux parte do famoso esquema de Jakobson2 para explicar o quadro das condições de produção. Segundo o autor, enunciar responde a perguntas implícitas como “Quem sou eu para lhe falar assim?”, “Quem é ele para eu lhe falar assim?”, e também revela o “Ponto de vista de A sobre R”, o “Ponto de vista de B sobre R”, etc. E, ainda, ao quadro são acrescentadas as representações imaginárias, que correspondem à imagem que o destinador faz da imagem que o destinatário faz do destinador. Dessa forma, se um candidato se dirige a eleitores, o candidato e os eleitores não devem ser entendidos como se tratando de uma pessoa (fulano de tal) diante de certas outras pessoas (moradores do bairro X), envolvidas em uma relação de interlocução, mas como posições historicamente constituídas em sociedades em que essas funções se circunscrevem a certas regras e às quais se chega através de um conjunto de procedimentos. (PÊCHEUX, 1969, p.81-87). Tornando ao raciocínio das representações imaginárias, podemos exemplificar a hipótese da seguinte forma: o candidato X à prefeitura do município Y enuncia seu discurso partindo da imagem que ele acredita que a população do município tem dele, não enquanto cidadão civil, mas como candidato à prefeitura da cidade. Estão aqui envolvidas não pessoas strito senso, mas funções historicamente constituídas, a de um candidato a prefeito e a dos eleitores. Dessa forma, pode-se considerar que esse mesmo candidato, sendo eleito, pode estar envolvido numa nova situação de interlocução com novas condições de produção, aí, se analisará a posição de um prefeito frente aos cidadãos da cidade. Há, ainda, que se ressaltar que essa “imagem” que o destinador faz da imagem que o destinatário faz do destinador resulta de um processo social, ideológico; daí a importância do “contexto”: situações diferentes geram produtos diferenciados. 2 O famoso esquema de Jakobson é aquele em que o autor diferencia seis funções da linguagem verbal: expressiva, conotativa, referencial, fática, metalinguística e poética. (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste materialpode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 11 Um exemplo interessante é apresentado por Orlandi (1999, p. 63), a partir da seguinte frase retirada de uma pichação em um muro: NEOCID neles, parasitas. Segundo a autora, se o texto foi produzido por operários, a palavra parasitas se refere, provavelmente, a patrão. Já se, pelo contrário, quem escreveu o texto foi um pequeno burguês contrário à juventude rebelde, parasitas poderiam ser darks ou hippies. Isso mostra, de acordo com a autora, que os significados que se podem atribuir são vários e têm a ver com o confronto de forças no contexto da sociedade. Por fim, a principal questão relacionada às condições de produção para a Análise do Discurso é que, para a disciplina, esse conceito exclui de forma definitiva um caráter “psicossociológico”. Para a AD, os contextos fazem parte de uma história, uma vez que nessas instâncias de enunciação, os enunciadores se assujeitam à sua função discursiva. As condições de produção são, nesse sentido, um elemento dominante. Do conjunto de elementos envolvidos num processo de interlocução (destinador, destinatário, referente, etc.), o elemento dominante (condições de produção) pode variar de caso a caso, mesmo que outros elementos se repitam. (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 12 UNIDADE 3 - AS FASES DA ANÁLISE DO DISCURSO: PROCEDIMENTOS E DEFINIÇÃO DO OBJETO A Análise do Discurso, assim como outras teorias, passou, desde o seu surgimento, por alterações nos seus procedimentos de análise e na definição do objeto, sendo que são consideradas três fases principais. Na primeira fase da AD, conhecida como análise automática do discurso, procurava-se explorar a análise de discursos pouco polêmicos, que, por terem uma carga polissêmica menor, permitiam uma menor abertura para variação de sentido por se perceber um maior silenciamento do outro. A “estabilidade” dos discursos analisados nesse período se devia às condições de produção mais estáveis e homogêneas, ou seja, os discursos analisados eram produzidos no interior de posições ideológicas e de lugares sociais menos conflitantes. Um exemplo sempre citado de discurso analisado nesse período é o Manifesto Comunista, que era enunciado no interior do Partido Comunista e representa seus possíveis interlocutores inscritos nesse mesmo espaço discursivo. De forma contrária, discursos produzidos em situações conflitantes, em debates entre diferentes conjunturas políticas, por exemplo, não eram abordados nesse período. Com relação aos procedimentos adotados nessa fase, a AD-1, geralmente eram realizados em etapas, segundo Mussalim (2004, p.118): a) Primeiramente se seleciona um corpus fechado de seqüências discursivas; b) Em seguida faz-se a análise lingüística de cada seqüência, considerando-se as construções sintáticas (de que maneira são estabelecidas as relações entre os enunciados) e o léxico (levantamento de vocabulário); c) Passa-se depois à análise discursiva, que consiste basicamente em construir sítios de identidades a partir da percepção da relação de sinonímia (substituição de uma palavra por outra no contexto) e de paráfrase (seqüências substituíveis entre si no contexto); d) Por fim, procura-se mostrar que tais relações de sinonímia e paráfrase são decorrentes de uma mesma estrutura geradora do processo discursivo. Essas condições de produção estáveis eram responsáveis pela geração de um processo discursivo a partir de um conjunto de argumentos e de operadores (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 13 responsáveis pela construção e transformação das proposições, entendidas como princípios semânticos que definem e delimitam um discurso. Toda essa estrutura ficou conhecida como “máquina discursiva”. (MUSSALIM, 2004, p.118). A AD-1 considerava cada processo discursivo como uma máquina discursiva. Dessa forma, num debate em que haveria dois processos discursivos, haveria também duas máquinas discursivas e, por isso, não seriam analisados. Quando a AD alcança sua segunda fase, a noção de máquina estrutural fechada eclode. Apreende-se, então, do trabalho do filósofo Michel Foucault, o conceito de formação discursiva, que se referia ao dispositivo que desencadeia o processo de transformação na concepção do objeto de análise da Análise do Discurso. Segundo Foucault (1969, apud Mussalim, 2004, p.119), a formação discursiva pode ser definida como: um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições de exercício da função enunciativa. Uma formação discursiva (FD), segundo a perspectiva, determina o que pode/deve ser dito a partir de um determinado lugar social. Dito de outra forma, uma FD é marcada por “regras de formação”, concebidas como mecanismos de controle que determinam o interno, o que pertence, e o externo, o que não pertence, de uma formação discursiva. Ao se considerar o externo na formação discursiva, deixa-se de conceber a FD como uma estrutura fechada para se perceber que ela será sempre invadida por elementos que vêm de outro lugar, de outras formações discursivas. O discurso é o caminho de uma contradição a outra: se dá lugar às que vemos, é que obedecem à que oculta. Analisar o discurso é fazer com que desapareçam e reapareçam as contradições, é mostrar o jogo que nele elas desempenham; é manifestar como ele pode exprimi-las, dar-lhes corpo, ou emprestar-lhes uma fugidia aparência. (FOUCAULT, 2005, p. 171) Assim discordando da AD-1, os estudiosos que seguiam a perspectiva de Foucault acreditavam que para se analisar um discurso é necessário se recusar as explicações unívocas, de fáceis interpretações, e a busca pelo sentido último numa única formação discursiva. Para Foucault, há enunciados e relações que o próprio (HP) Realce (HP) Realce (HP) Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 14 discurso põe em funcionamento e analisar o discurso seria dar conta das relações históricas, de práticas concretas. Uma análise eficiente não se concentraria apenas numa máquina discursiva, mas nas relações entre as máquinas discursivas. E é essa relação entre máquinas discursivas que passa a ocupar o lugar de objeto de análise da AD-2. Quanto aos procedimentos de análise, a AD-2 inova apenas na fase de seleção do corpus, uma vez que os discursos menos estabilizados tomam lugar por serem produzidos a partir de condições de produção menos homogêneas.Um debate político é um exemplo de objeto de análise. Na fase 3 da AD, ocorrerá a desconstrução da máquina discursiva, possibilitada pelo deslocamento percebido através da relação de uma FD com as outras. Na AD-2, as outras FD’s são incorporadas pela FD em questão, que mantém uma identidade, mesmo sendo atravessada por outros discursos. Assim, passou-se a considerar que é possível, através de uma análise discursiva, determinar o que pertence a outras FD’s que atravessam uma FD em análise. Na AD-3, apreende-se que os diversos discursos que atravessam uma FD não se constituem independentemente uns dos outros para serem, em seguida, postos em relação, mas se formam de maneira regulada no interior de um interdiscurso. Assim, tem-se que será a relação interdiscursiva que estruturará a identidade das FD’s em questão. O objeto de análise passa, então, a ser o interdiscurso e o procedimento de análise por etapas fixas se estabiliza. Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 15 UNIDADE 4 - CONCEITO DE DISCURSO Discurso é uma palavra que tem amplos sentidos. Segundo Brandão (no prelo), “no sentido comum, na linguagem cotidiana, discurso é simplesmente fala, exposição oral, às vezes tem o sentido pejorativo de fala vazia, ou cheia de palavreado ostentoso, ‘bonito’.” No entanto é preciso se analisar o sentido científico da palavra discurso. A linguagem é uma atividade exercida entre interlocutores: um falante e um ouvinte, um escritor e um leitor. É essa uma atividade rotineira e até automática, mas que nos exige mais do que o simples conhecimento de um conjunto de palavras e regras sintáticas. Na atividade linguística, conhecimentos de ordem extralingüística como saber para quem me dirijo quando falo ou escrevo, ou em que situação, mais ou menos formal, me encontro são também fundamentais para a atividade da linguagem. Ao produzir linguagem, os falantes produzem também discursos. Assim, podemos definir discurso como toda atividade comunicativa entre interlocutores, como uma atividade produtora de sentidos que se dá na interação entre falantes. Segundo Brandão (Op. Cit.): O falante/ouvinte, escritor/leitor são seres situados num tempo histórico, num espaço geográfico; pertencem a uma comunidade, a um grupo e por isso carregam crenças, valores culturais, sociais, enfim a ideologia do grupo, da comunidade que fazem parte. Essas crenças, ideologias são veiculadas, isto é, aparecem nos discursos. É por isso que dizemos que não há discurso neutro, todo discurso produz sentidos que expressam as posições sociais, culturais, ideológicas dos sujeitos da linguagem. Às vezes, esses sentidos são produzidos de forma explícita, mas na maioria das vezes não. Nem sempre digo tudo que penso, deixo nas entrelinhas significados que não quero tornar claros ou porque a situação não permite que eu o faça ou porque não quero me responsabilizar por eles, deixando por conta do interlocutor o trabalho de construir, buscar os sentidos implícitos, subentendidos. Isso é muito comum, por exemplo, nos discursos políticos, no discurso jornalístico, e mesmo nas nossas conversas cotidianas. Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 16 Na charge acima, por exemplo, na fala da personagem feminina está implícito que Hagar, o personagem masculino, deveria se preparar no sentido de evitar que a casa deles fosse alagada. No entanto, no entendimento de Hagar planejar com antecedência não quer dizer se planejar para “evitar” um problema, mas se planejar para “contornar” um problema. O que imprime o sentido cômico da charge está na diferença de valores e, consequentemente, de atitudes entre os dois personagens. Dessa forma, percebe-se que quando se trata da noção de discurso, estão implicados, além de questões lingüísticas, elementos sociais, históricos, culturais, ideológicos que cercam a produção e se refletem no discurso. Também o espaço que esse discurso ocupa em relação a outros discursos que circulam na comunidade são tomados. Assim, segundo os pressupostos da AD, a linguagem deve ser estudada não só em relação a seu aspecto gramatical, exigindo saber lingüístico, como também em relação aos aspectos ideológicos, sociais que se manifestam através de um saber sócio-histórico. Ainda segundo Brandão (Op. cit.): o discurso é o espaço em que saber e poder se unem, se articulam, pois quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito que lhe é reconhecido socialmente. Falar, por ex., do lugar do presidente (da República, do Congresso, de uma associação qualquer) é veicular um conhecimento reconhecido como verdadeiro (pelo posto que ocupa) e, por isso, gerador de poder; uma relação de poder se estabelece (de forma clara ou sutil) entre patrão-empregado, entre professor-aluno e mesmo entre amigos ou pares e que se manifesta na forma como um fala com o outro. O discurso pode ser assim entendido como um jogo de estratégias que implica em ações e reações, num jogo de poder cujo resultado pode ser dominação ou aliança, submissão ou resistência, etc. As principais características do discurso segundo Maingueneau (2004, apud BRANDÃO, no prelo, p.2-5) são: Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 17 1. O discurso deve ser compreendido como algo que ultrapassa o nível puramente gramatical, lingüístico. O nível discursivo apóia-se sobre a gramática da língua (o fonema, a palavra, a frase), mas nele é importante levar em conta também (e, sobretudo) os interlocutores (com suas crenças, valores), a situação (lugar e tempo geográfico, histórico) em que o discurso é produzido. 2. No nível do discurso, os falantes/ouvintes, escritor/leitor devem ter conhecimentos não só do ponto de vista lingüístico (dominar a língua, as regras de organização de uma narrativa, de uma argumentação, etc.), mas também de conhecimentos extralingüísticos: conhecimento para produzir discursos adequados às diferentes situações em que atuamos na nossa vida; conhecimentos de assuntos, temas que circulam na sociedade; conhecimento das finalidades da troca verbal e para isso são importantes a imagem que faço de mim, da minha posição, a imagem que tenho das pessoas com quem falo, imagens que vão determinar a maneira como devo falar com essas pessoas. 3. O discurso é contextualizado. Isto é, do ponto de vista discursivo, toda frase (ou melhor, enunciado) só tem sentido no contexto em que é produzido. Assim, um mesmo enunciado, produzido em momentos diferentes (quer seja pelo mesmo sujeito ou por sujeitos diferentes) vai ter sentidos diferentes e, portanto, pode corresponder a discursos diferentes. 4. O discurso é produzido por um sujeito – um EU que se coloca como o responsável pelo que se diz (de forma explícita como num diário de adolescente ou implícita como no discursoda ciência) e é em torno desse sujeito que se organizam as referências de tempo e de espaço. Ex: no enunciado: “Hoje meu depoimento será sobre a infância vivida na casa da minha avó”, os termos “hoje”, “meu”, “minha” devem ser entendidos em relação ao sujeito que fala e que se coloca como eu do discurso. E esse sujeito que fala, assume uma atitude, um determinado comportamento (de firmeza, dúvida, opinião) em relação àquilo que diz (usa para isso recursos da língua como: infelizmente, talvez, certamente, na verdade, eu acho) em relação àquele com quem fala (explicitamente por expressões do tipo Você, Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 18 caro leitor, ou escolhendo os termos adequados ao nível sócio-cultural, usando uma linguagem mais formal, gírias ou linguagem mais formal de acordo com a situação). 5. O discurso é interativo, pois é uma atividade que se desenvolve, no mínimo entre parceiros (marcados linguisticamente pelo binômio Eu- Você). A conversação é o exemplo mais evidente dessa interatividade: os parceiros monitoram a sua fala de acordo com a relação do outro. Mas, no discurso escrito, o locutor está bem preocupado com o seu leitor, a ele dirigindo-se explicitamente (como em “meu caro leitor”) ou procurando uma linguagem adequada a ele (um livro de literatura infantil, um guia médico para pais leigos em assuntos médicos têm toda uma linguagem voltada para o público que se quer atingir) ou utilizando-se de estratégias de discurso para se defender, antecipar a contra argumentação do leitor. 6. O discurso é uma forma de atuar, de agir sobre o outro. Quando prometemos, ordenamos, perguntamos, etc, praticamos uma ação pela linguagem (um ato de fala) que tem por objetivo modificar uma situação. Por ex., o “eu te batizo X” pronunciado pelo padre numa cerimônia de batismo muda a situação da pessoa no quadro da religião católica; numa passeata, um cartaz com o enunciado “Não à corrupção” visa modificar comportamentos de pessoas envolvidas nesse ato e mostra a atitude de indignação daqueles que levam esse cartaz. 7. O discurso trabalha com enunciados concretos, falas/escritas realmente produzidas (e não idealizadas, abstratas, como as frases da gramática) e os estudos que se fazem deles visam descrever suas normas, isto é, como funciona a língua no seu uso efetivo. Por ex., se alguém faz uma pergunta, pressupõe-se que ele ignore a resposta e tem interesse nessa resposta; e, ainda, que aquele a quem é feita a pergunta tem condições de responder-lhe. Se essas regras não são obedecidas, por ex., se ele sabe a resposta, mas pergunta assim mesmo, é porque o locutor tem intenções implícitas. O interlocutor se pergunta então “por que razão, sabendo a resposta, ele me fez a pergunta assim mesmo?”, e por uma série de raciocínios (inferências) vai procurar o sentido que está por trás. Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 19 8. Um princípio geral rege o discurso: o princípio do dialogismo. A palavra dialogismo vem de diálogo – conversa, interação verbal que supõe pelo menos dois falantes. Quando falamos nos dirigimos sempre a um interlocutor; mesmo num monólogo (quando falamos com nós mesmos), num diário, criamos uma personagem (um outro eu) com quem imaginariamente dialogamos. 9. Mas o discurso é também dialógico porque quando falamos ou escrevemos, dialogamos com outros discursos, trazendo a fala do outro para nosso discurso. Isso se faz de forma explícita usando, por ex., o discurso direto, indireto, indireto livre ou colocando palavras, enunciados (do outro) entre aspas ou itálico. Mas podemos fazer isso de forma implícita, sem dizer quem falou (e aquele que ouve ou lê, tem o mesmo conhecimento de quem escreve ou fala vai entender, daí a importância da leitura, da ampliação do conhecimento de mundo, do conhecimento enciclopédico). Isso acontece, por ex., quando usamos um provérbio, um dito popular, nas paródias, nas imitações, nas ironias, etc. 10. Por causa desse caráter dialógico da linguagem, dizemos que o discurso tem um efeito polifônico. Isto é, porque meu discurso dialoga com outros discursos, outras vozes nele presentes, vozes com as quais concordo (e vêm reforçar o que eu digo) ou vozes das quais discordo total ou parcialmente. Outra palavra usada para expressar esse caráter polifônico da linguagem é heterogêneo. O discurso é heterogêneo (polifônico) porque sempre é atravessado, habitado por várias outras vozes. 11. Todo discurso se constrói numa rede de outros discursos; em outras palavras, numa rede interdiscursiva. Nenhum discurso é único, singular, mas está em constante interação com os discursos que já foram produzidos e estão sendo produzidos. Nessa relação interdiscursiva (com outros discursos), quer citando, quer comentando, parodiando esses discursos, disputa-se a verdade pela palavra numa relação de aliança, de polêmica ou de oposição. É nesse sentido que se diz que o discurso é uma arena de lutas em que os locutores, vozes falando de posições ideológicas, sociais, culturais diferentes procuram interagir e atuar uns sobre os outros. Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 20 UNIDADE 5 - CONCEITOS-CHAVE: SENTIDO E SUJEITO Para a AD, o caráter dialógico do discurso é constitutivo de seu sentido. Isso significa que o sentido de uma formação discursiva depende da relação que ela estabelece com as formações discursivas no interior do espaço interdiscursivo. Dessa forma, tem-se que o sentido é um efeito de possibilidade de substituição das expressões, sendo que o conjunto delas produz um efeito de referência, isto é, tem o efeito de identificar objetos do mundo a partir de uma visão entre outras. Segundo Mussalim (2004, p. 131), “uma formação discursiva, apesar de heterogênea, sofre as coerções da formação ideológica em que está inserida”. Assim, as seqüências lingüísticas possíveis de serem enunciadas pelo sujeito já estão previstas. Pêcheux (1969) trata do sentido a partir de uma teoria do efeito metafórico: sejam os termos x e y pertencentes a uma mesma categoria de uma língua L. Existe pelo menos um discurso no qual x e y possam ser substituídos um pelo outro, sem mudar a interpretação desse discurso? Três casos são logicamente possíveis (POSSENTI, 2004, p.372): (1) x e y nunca são substituíveis um pelo outro; (2) x e y são substituíveis às vezes, mas não sempre; (3) x e y são sempre substituíveis um pelo outro. Aqui,os itens que importam são (2) e (3), em que há a possibilidade de substituição. Em (2), x e y são substituíveis apenas em um dado contexto. Por exemplo, temos as palavras brilhante (x) e inteligente (y), pode-se dizer Esse professor é x/y, bem como A sua hipótese é x/y. Ambos são casos de substituição contextual, no entanto, um termo não pode ser substituído pelo outro em A Luz fluorescente é mais brilhante que a luz incandescente, sem que o sentido seja alterado. Já (3) representa o caso em que x e y seriam intercambiáveis em qualquer contexto, o que é extremamente raro, uma vez que as sinonímias são contextuais. Assim, segundo Pêcheux (1969 apud POSSENTI, 2004, p.372): Chamaremos efeito metafórico o fenômeno semântico produzido por uma substituição contextual, para lembrar que esse “deslizamento de sentido” entre x e y é constitutivo do “sentido” designado por x e y; esse efeito é Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 21 característico dos sistemas lingüísticos “naturais”, por oposição aos códigos e às “línguas artificiais”, em que o sentido é fixado em relação a uma metalíngua “natural”. Daí se conclui que o sentido não é função de um significante/palavra, mas de uma dupla de significantes/palavras em relação de mútua substituibilidade, mas apenas em cada discurso historicamente dado. Segundo Possenti (2004, p. 373), “isso se sustenta, nesta teoria, pelo fato de que o sentido das palavras em um discurso remete sempre a ocorrências anteriores”. E, ainda, acrescenta: Qualquer uma dessas posições3 implica uma memória discursiva, de modo que as formulações não nascem de um sujeito que apenas segue as regras de uma língua, mas do interdiscurso, vale dizer, as formulações estão sempre relacionadas a outras formulações, sendo que a relação metafórica que funciona como matriz do sentido é historicamente dada. Assim, tem-se que o sentido possui caráter necessariamente histórico. Isso explica o porquê da importância das determinadas condições de produção para a compreensão da posição ideológica em relação ao discurso. Não há, dessa forma, sentido a priori, o sentido não existe antes do discurso. O sentido vai se constituindo à medida que se constitui o próprio discurso. Segundo Mussalim (2004, p. 132), “não existe, portanto, sentido em si, ele vai sendo determinado simultaneamente às posições ideológicas que vão sendo colocadas em jogo na relação entre as formações discursivas que compõem o interdiscurso”. 3 Qualquer enunciação pressupõe uma posição e é a partir dessa posição que os enunciados recebem seu sentido. Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 22 Um exemplo do que foi dito pode ser observado na charge que segue: Nessa charge, temos o mesmo enunciado Vamos invadir o McDonald produzido, porém, em diferentes contextos e por diferentes sujeitos. O fato de as condições de produção serem diferentes faz com que o sentido também seja diferente. Observe que no primeiro quadro os sujeitos que enunciam são participantes do Fórum Social Mundial que são contrários à globalização e ao neoliberalismo dos países ricos, enquanto que no segundo quadro os sujeitos enunciadores são participantes do Fórum Econômico Mundial que reúne representantes dos países mais ricos do mundo. Dessa forma, verifica-se que os dois quadros representam formações discursivas divergentes em que os sujeitos que falam representam posições políticas, sociais e ideológicas diferentes e é por Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 23 isso que os enunciados, apesar de gramaticalmente idênticos, têm sentidos diferentes. Em nossa análise, apresentamos um outro conceito que, conforme tratamos, tem um importante papel na construção do sentido de um discurso, o sujeito. Para abordagem o conceito de sujeito para a AD, buscaremos tratar de sua evolução para a teoria, a partir das três fases fundamentais. Na AD-1, o sujeito é concebido como assujeitado à maquinaria discursiva, já que estaria submetido às regras específicas que delimitam o discurso que enuncia. Dessa forma, nesse período quem de fato enuncia não seria o sujeito, mas uma instituição, uma teoria ou uma ideologia. Assim, por exemplo, independente de que padre rezasse a missa, o sermão carregaria o mesmo discurso, o discurso da igreja católica. Na AD-2, com a noção de formação discursiva de Foucault, a noção de sujeito sofre alterações e, da mesma forma que a formação discursiva, passa a ser concebido como uma dispersão, isto é, o sujeito seria entendido como se formado por elementos ligados entre si por um princípio de unidade. A partir de então, o sujeito deixa de ser marcado pela unidade. Segundo Mussalim (2004, p.133), “o sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes papéis de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo. Outra peculiaridade com relação a essa fase é que o sujeito do discurso é considerado como ocupando um lugar de onde enuncia, e é este lugar, representativo de traços de determinado lugar social (o lugar do político, do publicitário, do juiz, por exemplo), que determina o que ele pode ou não dizer a partir dali. Isso significa dizer que o sujeito, nessa fase, é dominado por determinada formação ideológica que preestabelece as possibilidades de sentido de seu discurso. (MUSSALIM, 2004, p. 133). Até as fases 1 e 2 da AD, não se reconhecia aspectos de individualidade no sujeito, a crença era a de que a ideologia se manifestava através dele. Já na AD-3, a noção de sujeito sofre um deslocamento que deu início à vertente atual da Análise do Discurso. A partir dessa terceira fase, a idéia de heterogeneidade provoca profundas modificações na noção de discurso e, consequentemente, no conceito de sujeito, Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 24 que começa a ser considerado essencialmente heterogêneo, clivado, ou seja, não é uno. As alterações mais importantes no conceito de sujeito nesse período da AD-3 surgiram principalmente a partir da criação da noção de inconsciente. Com essa teoria, o sujeito deixa de ser entendido em sua forma consciente para ser tido como um sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente. O sujeito da AD se movimenta entre esses dois “espaços”, sem poder ser definido de forma alguma como inteiramenteconsciente de seu discurso. A identidade do sujeito é, então, definida também pelo discurso do inconsciente, o discurso do “outro”. Assim, o sujeito perde a sua centralidade passando a ser encarado como essencialmente heterogêneo, da mesma forma que o discurso o é. Segundo Authier-Revuz (1982, apud MUSSALIM, 2004:134), a heterogeneidade mostrada é uma tentativa do sujeito de explicitar a presença do outro no fio discursivo, numa tentativa de harmonizar as diferentes vozes que atravessam seu discurso, numa busca pela unidade, mesmo que ilusória. Para Brandão (no prelo, p.8), o sujeito que produz o discurso, de acordo com os princípios da AD, apresenta as seguintes características: a) o sujeito do discurso é essencialmente marcado pela historicidade. Isto é, não é o sujeito abstrato da gramática, mas um sujeito situado na história da sua comunidade, num tempo e num espaço concreto; b) o sujeito do discurso é um sujeito ideológico, isto é, sua fala reflete os valores, as crenças de um momento histórico e de um grupo social; c) o sujeito do discurso não é único, mas divide o espaço do seu discurso com o outro na medida em que orienta, planeja, ajusta sua fala tendo em vista seu interlocutor e também porque dialoga com a fala de outros sujeitos (nível interdiscursivo); d) porque na sua fala outras vozes também falam, o sujeito do discurso se forma, se constitui nessa relação com o outro, com a alteridade. Isto é, da mesma forma que tomo consciência de mim mesmo na relação que tenho com os outros, o sujeito do discurso se constitui, se reconhece como tendo uma determinada identidade na relação com outros discursos produzidos, com eles dialogando, comparando pontos de vista, divergindo, etc. Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 25 UNIDADE 6 - A TEORIA CRÍTICA DO DISCURSO Até agora tratamos apenas da Análise do Discurso de vertente francesa, no entanto, há outras teorias que também se dedicam aos estudos do discurso, uma delas a Análise Crítica do Discurso - ACD. Tendo sua origem no mundo anglo-saxão, essa teoria tem um maior apreço pelo empirismo e pela questão textual. A maior distinção com relação à Análise do Discurso de linha francesa, AD, refere-se, porém, à sua filiação teórica e histórica. Os trabalhos teóricos que falam da distinção entre a AD e ACD buscam responder a um determinado conjunto de pressupostos que autorizam a construção e a operacionalização do discurso como objeto de análise: trata-se do chamado lugar de onde se fala e da chamada vigilância epistemológica. Pêcheux, principal teórico da AD, e Fairclough, estudioso da ACD, partem de lugares diferentes e isto acarreta ênfases e prioridades distintas. Fairclough (1994) propôs a chamada teoria social do discurso e com isso assumiu múltiplos deslocamentos: em relação a Saussure, à Sociolingüística e ao que ele chama de abordagem estruturalista do analista de discurso francês, corrente defendida por Michel Pêcheux. Segundo a proposta de Fairclough, para o real entendimento do discurso é necessário se considerar o uso da linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou como reflexo de variáveis situacionais. O discurso deve ser visto como um modo de ação, como uma prática que altera o mundo e altera os outros indivíduos no mundo. Essa dimensão do discurso, constituída no social, possuiria três efeitos: 1) o discurso contribui para a construção do que é referido como "identidades sociais" e posições de sujeito, para o sujeito social e os tipos de EU; 2) O discurso contribui para a construção das relações sociais; 3) o discurso contribui para a construção de sistemas de conhecimento e crença. Seriam essas as três funções da linguagem, segundo o autor. Nos termos em que é apresentada a noção de discurso dentro da moldura teórica da ACD, a idéia de sujeito ganha divergências com relação a esse conceito para a AD. Para a ACD, o processo de interpelação ideológica, tal como é descrito na AD, é muito rígido e faz com que o sujeito desapareça ao estilo estruturalista. Para Fairclough, o agente-sujeito é uma posição intermediária, situada entre a Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 26 determinação estrutural e a ação consciente. Ao mesmo tempo em que sofre uma determinação inconsciente, ele trabalha sobre as estruturas no sentido de modificá- las conscientemente, em um espaço que se afirma muito mais amplo que na AD. É como se a estrutura estivesse em constante risco material em função de práticas cotidianas de agentes conscientes. O discurso é ainda proposto como uma noção tri-dimensional como uma tentativa de reunir três domínios: a teoria lingüística, a macro-sociologia e a micro- sociologia. Esses três níveis compreendem a dimensão textual, que incorpora as técnicas da lingüística sistêmica de Halliday, a dimensão da prática discursiva como uma prática social de produção, distribuição e consumo de textos - uma prática de atores ativos que atribuem sentido - e a dimensão social que trata das práticas discursivas em relação à estrutura social. Para Halliday (1989), o estudo da lingüística instrumental leva, ao mesmo tempo, à compreensão da natureza da linguagem como um fenômeno integral. A lingüística sistêmico-funcional, vertente seguida pelo autor, defende a idéia de que os sistemas lingüísticos são abertos à vida social, pois se constroem na interseção das macrofunções da linguagem: deacional – a construção e a representação da experiência; interpessoal – a construção e a representação das relações sociais e das identidades sociais; e textual – o estabelecimento de elos coesivos (textura). O texto na perspectiva de Fairclough, embasado nas teorias de Halliday, é definido de duas maneiras: a) como dimensão semiótica da prática social; e b) como contribuição discursiva produzida em um contexto social para ser retomada, incorporada, questionada, ecoada, ironizada ou transformada em outros contextos espaciais e temporais. Assim, a análise lingüística e a semiótica passam a ser um dos pilares da teoria, juntamente com a análise interdiscursiva. Os textos são, então, considerados em suas múltiplas formas, incluindo elementos orais, escritos e visuais. A partir da noção de semiótica, ciência geral dos signos, passou-se a considerar como objeto de análise não somente o texto expresso em forma de estruturas lingüísticas, mas também qualquer outro sistema de signos - Artes visuais, Música, Fotografia, Cinema, Culinária, Vestuário, Gestos, etc. Objetos de estudo, como um filme ou uma estrutura de mitos, são encarados, a partir de então, Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópiasou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 27 como textos que transmitem significados, sendo esses significados tomados como derivações da interação ordenada de elementos portadores de sentido, os signos, encaixados num sistema estruturado, de maneira parcialmente análoga aos elementos portadores de significado numa língua. A partir, então, da noção de semiótica, uma ilustração, por exemplo, mesmo que não contenha nenhum texto escrito, como a que se segue abaixo, é vista como portadora de sentido e passa a constituir objeto de análise discursiva. Também é possível se perceber a diferença entre as duas abordagens - AD e ACD - no que diz respeito à relação estrutura/acontecimento. Esses termos se entrecruzam e encontram tratamento tanto de um lado como de outro, seja em função de seu vasto leque de possibilidades metodológicas, seja em função da dialética constitutiva da proposta de caracterização do discurso de Fairclough. O acontecimento discursivo apresenta práticas discursivas e não-discursivas motivadas estruturalmente, mas por outro lado, os sujeitos é que estão a todo o momento ressignificando, colocando as estruturas em jogo em suas práticas discursivas. As estruturas e as práticas revelam-se fluidas, e essa mobilidade que Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 28 recoloca o sujeito, agora ator motivado seja intencional ou ideologicamente, novamente no centro. O que é fundamental na AD, e ignorado na ACD, é a sofisticação na definição da estrutura da língua, ou da materialidade lingüística - expressão que fornece uma idéia mais completa do que se trata a língua: uma estrutura atravessada por eventos sócio-históricos. Os textos multimodais, como tratados pela ACD, são analisados, de um lado, através de objetos tradicionais como o vocabulário, os aspectos semânticos e a gramática; e de outro, aspectos como as formas de ligação frasal (coesão/textura) e a estrutura global dos textos. A gramática é analisada em três dimensões: a transitividade, a modalidade e o tema, correspondendo às funções ideacional, interpessoal e textual. A transitividade é estudada nos processos lingüísticos de apassivação, em que a posição do agente na ordem da frase é alterada. O agente pode, também, ser omitido, desconsiderando-se a responsabilidade pela ação. Outro processo ligado à transitividade é a nominalização, caso em que se omitem o agente e o objeto, como no exemplo “as invasões do Distrito Federal”, que é um sintagma nominal derivado da oração “grupos de imigrantes/sem terra invadiram áreas do Distrito Federal”. Como a apassivação, a nominalização é um processo ideológico, pois é naturalizada e manipulada a idéia de invasão da terra pública. É sabido que outros grupos fazem “grilagem” de áreas públicas no Distrito Federal, mas o ato ilegal é atribuído aos imigrantes/sem terra. (COSTA et al., 1997). O tema é analisado com relação aos elementos lingüísticos que ocorrem em posição inicial (tema) e final (rema) na oração. A mudança desses elementos na estrutura frasal está associada à ideologia. Geralmente, se movimenta para a parte inicial a informação que é considerada mais relevante. Assim, em um período como Mais uma vez, o presidente não sabe de nada, o autor enfoca a questão da repetição ao mover a expressão mais uma vez para o início da sentença. O período, que se refere ao desconhecimento do presidente Lula de atos de corrupção ocorridos em seu governo, evidencia a posição do autor com relação à política brasileira em que freqüentemente há um político afirmando ignorar estratégias de corrupção em sua gestão. Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 29 No quadro apresentado abaixo, é possível perceber a interação dos níveis de produção que constituem o texto na perspectiva de Halliday adotada por Faircoulgh. Resumindo: na produção textual, há a interação de diversos níveis (experiencial, interpessoal e textual) como forma de análise gramatical das frases que produzem um texto, em conexão com o gênero discursivo, com as ideologias (elemento cultural) e com o registro (elemento situacional). Na perspectiva de Fairclough, o discurso se apresenta de três formas: como ação, representação e identificação. Esses são os principais sentidos construídos nos textos; a ação corresponde aos gêneros discursivos, a representação, aos discursos e a identificação, aos estilos. Os gêneros discursivos são (inter)ações, caracterizadas como formas textuais e sentidos derivados dos propósitos das situações sociais, determinando os textos falados, escritos e visuais. Para Faircoulgh, o foco dos estudos atuais deve estar na mudança social e nas práticas discursivas que lutam por hegemonia, pois é dentro das práticas discursivas que os conceitos são construídos, mas é também dentro delas que ele pode ser desafiado, podendo, em alguns casos, levar a mudança. Artur Realce Artur Realce Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 30 Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 31 UNIDADE 7 - GÊNEROS DO DISCURSO Por sua relação intrínseca, discurso e texto são frequentemente tratados como uma mesma coisa, no entanto, há uma diferença sutil entre essas duas idéias. O discurso, como dito anteriormente, carrega um conjunto de crenças e valores e se manifesta linguisticamente através de textos. Dessa forma, a análise de um discurso parte da análise de um texto, que pode ser oral, escrito ou visual. O texto, por sua vez, é fruto de qualquer interação humana mediada pela língua, assim, pode ser tanto escrito quanto oral. Tudo que o homem faz e produz em termos de linguagem corresponde a um discurso. Há o discurso político, o discurso científico, o religioso, o jornalístico, dentre outros, e, uma vez que o discurso se realiza através do texto, para cada um desses discursos há diferentes formatos de texto: discurso ou debate para o discurso político, sermão ou oração para o discurso religioso e assim por diante. Cada discurso corresponde, ainda, a uma esfera de atividade do homem que exige do falante um uso diferente da linguagem, cada um desses “usos” representa um gênero do discurso: um recado, uma reunião, uma aula, etc. Os gêneros do discurso podem ser definidos, dessa forma, como diferentes formas de uso da linguagem conforme as esferas de atividade em que está inserido o falante/escritor. Segundo Brandão (no