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Todos os direitos são reservados ao Grupo Prominas, de acordo com a convenção internacional de 
direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios 
eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e 
recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
SUMÁRIO 
 
APRESENTAÇÃO ...................................................................................................... 2 
UNIDADE 1 - GÊNESE DA DISCIPLINA.................................................................... 4 
UNIDADE 2 - CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO ............................................................ 9 
UNIDADE 3 - AS FASES DA ANÁLISE DO DISCURSO: PROCEDIMENTOS E 
DEFINIÇÃO DO OBJETO......................................................................................... 12 
UNIDADE 4 - CONCEITO DE DISCURSO ............................................................... 15 
UNIDADE 5 - CONCEITOS-CHAVE: SENTIDO E SUJEITO ................................... 20 
UNIDADE 6 - A TEORIA CRÍTICA DO DISCURSO ................................................. 25 
UNIDADE 7 - GÊNEROS DO DISCURSO ................................................................ 31 
UNIDADE 8 - PASSOS PARA UMA ANÁLISE ........................................................ 36 
UNIDADE 9 - OUTROS CONCEITOS FUNDAMENTAIS ......................................... 39 
UNIDADE 10 - CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................. 42 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 43 
 
 
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APRESENTAÇÃO 
 
Dada a complexidade das atividades linguísticas, cada vez mais se percebe 
uma nova área de conhecimentos dentro do amplo campo de estudos dessa área do 
conhecimento. Há subáreas da Linguística voltadas para o entendimento de sua 
“estrutura”, que considera o falante como ideal, há vertentes que se dedicam ao 
estudo do texto, como também há também estudos linguísticos que relacionam 
produção e uso da língua. A Análise do Discurso (AD), no entanto, refere-se a uma 
disciplina que estuda a posição ideológica por trás de um discurso, sendo esse 
entendido como qualquer produção linguística. 
A Análise do Discurso surgiu na França na década de 60. Essa época ficou 
marcada por vários eventos políticos, talvez o mais importante tenha sido o 
movimento estudantil de 1968 pela reforma universitária. Como forma de tentar 
entender esse momento político, vários intelectuais da época passaram a analisar os 
discursos produzidos. Foi então que, pautada na noção de materialismo histórico, 
amplamente difundida por Marx, surgiu a Análise do Discurso. 
O Brasil passava também nesse período por grandes transformações político- 
culturais. Era a época dos festivais da MPB e da efervescência das manifestações 
contrarias à ditadura militar. E os intelectuais brasileiros engajados politicamente se 
interessaram pelos estudos desenvolvidos pelos franceses, principalmente pelas 
origens marxistas da teoria da Análise do Discurso. 
 Os adeptos do materialismo acreditam que as ideologias têm existência 
material, ou seja, devem ser estudadas não como idéias, mas como um conjunto de 
práticas materiais que reproduzem as relações de produção. Isso, para a linguística, 
foi interpretado da seguinte forma: já que a ideologia deve ser estudada em sua 
materialidade, a linguagem se apresenta como o lugar privilegiado para a 
manifestação da ideologia. Assim a linguagem passou a ser vista como a via pela 
qual se pode depreender o funcionamento da ideologia. 
Os primeiros teóricos da AD, retornando à dicotomia Língua/fala, 
estabeleceram que a significação não era sistematicamente apreendida por ser da 
ordem da fala e nem por ser da ordem da língua; por sofrer alterações de acordo 
com as posições ocupadas pelos sujeitos que enunciam, os processos de 
significação deveriam ser inscritos como ideológicos, históricos. 
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 A AD, da forma como foi inscrita, apresentou como proposta básica: 
considerar como primordial a relação da linguagem com a exterioridade, ou seja, 
com as chamadas condições de produção. 
Os discursos são conjuntos de afirmações sistematicamente organizadas que 
dão expressão aos significados e aos valores de uma instituição. Um discurso 
fornece uma série de asserções possíveis sobre certo campo de conhecimento, e 
organiza e estrutura a forma pela qual um tópico, objeto, ou processo em particular 
deve ser discutido numa determinada condição de produção. 
A análise do discurso procura mostrar o funcionamento dos textos, 
observando sua articulação com as formações ideológicas. Assim a análise do 
discurso, embora circunscrita no campo da linguística, produz um deslocamento em 
direção às ciências sociais. Para os teóricos dessa área, a linguagem é produzida 
pelo sujeito, em condições determinadas, e para se analisá-la deve-se mostrar o seu 
processo de produção, considerando, assim, conhecimentos sócio-históricos e 
ideológicos. 
A análise do discurso é um tipo de análise criada para chegar à ideologia 
codificada implicitamente por detrás das proposições abertas, para examiná-la em 
particular no contexto das formações sociais. As ferramentas para essa análise 
foram uma seleção de categorias descritivas apropriadas ao entendimento de um 
propósito. 
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UNIDADE 1 - GÊNESE DA DISCIPLINA 
 
Quando se trata da origem da disciplina da Análise do Discurso (AD), dois 
nomes são freqüentemente citados: o linguista Jean Dubois e o filósofo Michel 
Pêcheux. Embora de áreas distintas, esse dois estudiosos compartilhavam a 
ideologia política do marxismo. Ambos acreditavam na aposta marxista de que as 
ideologias têm existência material, o que significava dizer que as ideologias não 
deveriam ser estudadas como idéias, mas sim como um conjunto de práticas 
materiais que reproduzem as relações de produção. Segundo Pêcheux (1988, p. 
74), para o materialismo histórico: 
 
o objeto real (tanto no domínio das ciências da natureza como no da 
história) existe independentemente do fato de que seja conhecido ou não, 
isto é, independentemente da produção ou não produção do objeto do 
conhecimento que lhes responde. 
 
A Linguística, conforme entendida por Dubois, aparecia como um campo 
promissor no estudo das ideologias, uma vez que é através da linguagem que a 
materialidade da ideologia se apresenta de forma privilegiada. É, então, a partir da 
noção de materialismo histórico e da lingüística estruturalista que nasce a disciplinaprelo, p. 14): 
 
A língua usada no dia a dia, a língua usada no trabalho, nas narrações 
literárias, no tribunal, nos textos políticos etc. são modalidades diferentes de 
uso da linguagem e mostram a necessidade de um falante versátil que 
tenha múltiplos conhecimentos: conhecimento gramatical da língua, do 
gênero adequado à situação, do nível de linguagem (formal ou informal) 
apropriado. Isto é, para dar conta das diferentes situações, é necessário 
que os falantes dominem a língua nas suas diferentes variedades de uso. 
 
Dessa forma, se, por exemplo, um cidadão for requisitar ao prefeito de sua 
cidade a pavimentação de sua rua usando uma linguagem informal, cheia de gírias, 
sem concordância, esse cidadão provavelmente não vai ser atendido. 
Quando nos dirigimos a um interlocutor através da linguagem, nós o fazemos 
dentro de um gênero do discurso adequado àquela situação. Em cada esfera de 
atividade social, os falantes utilizam a língua de acordo com gêneros de discurso 
específicos. 
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Marcuschi (2002) ressalta ainda que o falante, muitas vezes, especifica em 
sua fala o gênero de texto que está produzindo ou a que está se referindo. Isso 
acontece quando dizemos, por exemplo, “Na aula de ontem...”, “Na conversa que 
tivemos...” ou “Na entrevista do deputado...”. Aula, conversa e entrevista constituem 
gêneros discursivos muito comuns e apresentam peculiaridades que os delimita e 
define, e é assim com muitos outros gêneros. No gênero discursivo telefonema, por 
exemplo, espera-se certas marcas lingüísticas como um Alô. Quem está falando? 
Agora, observe o seguinte texto: 
 
Bacalhau com broa 
 
Ingredientes: Mulher, bacalhau, espinafres, broa de milho, azeite, alho, 
cebola, batata e sal. 
Modo de preparação: Coloque a mulher na cozinha com os ingredientes e 
feche a porta. 
Espere duas horas e seja servido. 
 
O texto acima, embora apresente o formato do gênero discursivo receita, 
trata-se, na verdade de uma piada, e servirá de ilustração ao que estamos tratando. 
O formato do texto imita a formula lingüística de uma receita, como dissemos. 
Insere-se os tópicos Ingredientes e Modo de preparação tal como ocorre em uma 
receita, mas ao se acrescentar o “ingrediente” mulher e pela forma como é descrita a 
preparação, percebe-se que trata-se na verdade de um outro gênero, a piada. O 
efeito cômico do texto surge, principalmente, da mistura dos gêneros, que quebra a 
expectativa do ouvinte/ leitor. 
Se os gêneros podem ser misturados e com isso apresentar um formato 
diferenciado, conforme observado na piada acima, como reconhecemos um certo 
gênero do discurso? Embora os gêneros possam variar em certos momentos, há 
pelos menos três características estáveis que permitem a sua classificação, são 
elas: o tema, que diz respeito ao conteúdo; as estruturas proposicionais específicas; 
e o estilo, os recursos lingüísticos utilizados. 
 Segundo Bakhtin (1992, apud BRANDÃO, no prelo, p.16), existem 
basicamente dois tipos de gêneros do discurso: 
a) Gênero de discursos primários (ou livres) – são aqueles da vida cotidiana quem 
mantém uma relação imediata com as situações nas quais são produzidos; não 
precisamos passar por uma escola para aprender como eles funcionam, uma vez 
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que são adquiridos nas nossas relações e experiências do dia a dia. São exemplos o 
telefonema, o bilhete, uma conversa, etc. 
b) Gênero de discursos segundos (seguem modelos construídos socialmente) – 
são os que aparecem em situações de “troca cultural (principalmente escrita) mais 
complexa e relativamente mais evoluída” como as que se dão nas manifestações 
artísticas, científicas, políticas, jurídicas, etc. Esses discursos segundos (textos 
literários, peças teatrais, discursos políticos, etc.) podem explorar, recuperar ou 
incorporar os discursos primários, que perdem desde então sua relação direta com o 
real, passando a ser uma representação de uma situação concreta de comunicação 
(numa obra literária, numa novela temos personagens não numa situação real, mas 
numa representação dessa). Para dominar os gêneros segundos, geralmente 
precisamos de uma educação formal. 
Um gênero, como afirmamos anteriormente, possui algumas características 
estáveis, no entanto, ele não é uma forma fixa. Por estar intrinsecamente 
relacionado a uma dada atividade humana, o gênero está sujeito a alterações de 
ordem cultural e histórica. Ele evolui na mesma medida em que a atividade humana 
evolui. Um currículo, por exemplo, há alguns anos atrás era composto de muitas 
páginas em que se detalhavam todo tipo de informação com relação à atividade 
profissional de uma pessoa; nos dias de hoje, em que as ações são mais dinâmicas, 
passou-se a valorizar não mais um currículo extenso, mas uma forma mais sucinta 
em que estejam descritas informações profissionais que sejam realmente relevantes 
ao cargo que o candidato deseja ocupar. Assim, o gênero currículo passou por 
alterações e evoluções que tiveram sua origem em alterações e evoluções histórico-
culturais. 
Há, ainda, que se ressaltar que da mesma forma que gêneros sofrem 
alterações, eles podem também cair em desuso ou serem criados. A carta é um 
exemplo de gênero que caiu em desuso e, concomitantemente, o e-mail é um 
exemplo de gênero novo. Os gêneros novos, no entanto, não surgem do nada. 
Geralmente, eles nascem ancorados em outros gêneros já existentes – como o e-
mail que tem sua raiz no gênero carta. 
Segundo Brandão (no prelo, p. 18): 
 
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(...) no gênero sempre existe um duplo movimento: repetição e mudança, 
isto é, uma tensão entre aspectos que permanecem e, portanto, nos 
possibilitam a reconhecer o gênero e aspectos que forçam a incorporar 
elementos novos, variáveis que provocam a mudança. Em relação ao 
gênero carta e suas variantes lembrete, memorando, telegrama (...) ao lado 
das mudanças ocorridas, um ou outro aspecto sempre permanece, como 
indicação de local e data, vocativo, forma de iniciar, forma de despedir, 
assinatura, possibilitando o reconhecimento de qual modalidade de gênero 
se trata. 
 
Assim, entendemos que há gêneros que apresentam maior possibilidade de 
variação, enquanto que há outros que pouco variam. Brandão apresenta alguns 
exemplos: 
1. As cartas comerciais, requerimentos, lista telefônica, textos cartoriais e 
administrativos são fórmulas e esquemas composicionais pré-estabelecidos, 
pouco ou nada sujeitos a variações; 
2. Um jornal televisionado, uma reportagem, um guia de viagem seguem 
também esquemas pré-estabelecidos, mas toleram desvios, permitindo 
recurso a estratégias mais originais, a variações mais particulares. Um guia 
de viagem pode desviar-se da forma habitual do gênero e apresentar-se por 
meio deuma narrativa de aventuras, ou um diálogo entre amigos; 
3. Certos tipos de anúncios publicitários, letras de música, textos literários 
constituem gêneros que buscam a inovação, provocam rupturas em relação 
ao esperado, revelando-se diferentes em relação ao gênero original. 
 
Retornando aos pressupostos da ACD, segundo Fairclough (2003), há 
dificuldades na conceituação de gênero discursivo devido ao processo 
contemporâneo de desencaixe de gêneros das práticas sociais tradicionais atribuído 
ao capitalismo globalizado. Nas palavras do autor, “O desencaixe de gêneros é uma 
parte da reestruturação e do reescalonamento do capitalismo.” (Fairclough, 2003: 
69). 
A tendência à mudança nos gêneros discursivos atuais se deve, segundo a 
ACD, às relações interdiscursivas, bastante comuns nas práticas sociais 
globalizadas, como é o caso da publicidade, por exemplo. O efeito da 
interdiscursividade nas identidades sociais é o hibridismo genérico que contribui 
para o hibridismo de identidades. Isso ocorre nas relações de gênero social. Ou 
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seja, nas práticas sociais capitalistas é comum se perceber a “influência” ou mesmo 
o diálogo entre campos diferentes – o que define a interdiscursividade – e, a partir 
disso, é possível se perceber a mescla de identidades no interior de discursos. 
Assim, os textos corresponderiam a espaços de luta constituídos de diferentes 
discursos e ideologias que buscam uma hegemonia. 
Os gêneros discursivos, como dissemos, manifestam-se através de textos. Os 
textos por sua vez se subdividem, de acordo com sua organização enunciativa, em 
tipos. Os tipos textuais referem-se à organização do texto e podem ser classificados 
em narrativa, descrição, argumentação e explicação. A cada um desses tipos 
textuais são relacionados gêneros do discurso. À narração, por exemplo, são 
integrados os contos, as fábulas, as lendas, dentre outras; já à descrição são 
inventariados os manuais de instrução de uso ou de montagem, as receitas, os 
regulamentos, as regras do jogo, etc. 
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UNIDADE 8 - PASSOS PARA UMA ANÁLISE 
 
Durante a descrição do que vem a ser a Análise do Discurso, apresentamos 
conceitos, explicações e pequenas análises com o objetivo de aproximar o leitor de 
uma metodologia de trabalho em análise do discurso. Nessa seção, no entanto, não 
apresentaremos uma análise pronta, mas sim uma proposta de análise. Leia, então, 
a crônica abaixo e tente responder às perguntas indicadas no fim do texto e realize a 
sua análise. Bom trabalho! 
 
Como o rei de um país chuvoso 
 Um espectro ronda o mundo atual: o espectro do tédio. Ele se manifesta de diversas 
maneiras. Algumas de suas vítimas invadem o “shopping center” e, empunhando um cartão 
de crédito, comprometem o futuro do marido ou da mulher e dos filhos. A maioria opta por 
ficar horas diante da TV, assistindo a “reality shows”, os quais, por razões que me escapam, 
tornam interessante para seu público a vida comum de estranhos, ou seja, algo idêntico à 
própria rotina considerada vazia, claustrofóbica. 
O mal ataca hoje em dia faixas etárias que, uma ou duas gerações atrás, julgávamos 
naturalmente imunizadas a seu contágio. Crianças sempre foram capazes de se divertir 
umas com as outras ou até sozinhas. Dotadas de cérebros que, como esponjas, tudo 
absorvem e de um ambiente, qualquer um, no qual tudo é novo, tudo é infinito, nunca lhes 
faltam informação e dados a processar. Elas não precisam ser entretidas pelos adultos, pois 
o que quer que estes façam ou deixem de fazer lhes desperta, por definição, a curiosidade 
natural e aguça seus instintos analíticos. E, todavia, os pais se vêem cada vez mais 
compelidos a inventar maneiras de distrair seus filhos durante as horas ociosas destes, um 
conceito que, na minha infância, não existia. É a idéia de que, se a família os ocupar com 
atividades, os filhos terão mais facilidades na vida. 
Sendo assim, os pais, simplesmente, não deixam os filhos pararem. 
Se o mal em si nada tem de original e, ao que tudo indica, surgiu, assim como 
o medo, o nojo e a raiva, junto com nossa espécie ou, quem sabe, antes, também é 
verdade que, por milênios, somente uma minoria dispunha das precondições 
necessárias para sofrer dele. Falamos do homem cujas refeições da semana 
dependiam do que conseguiria caçar na segunda-feira, antes de, na terça, estar 
fraco o bastante para se converter em caça e de uma mulher que, de sol a sol, 
trabalhava com a enxada ou o pilão. Nenhum deles tinha tempo de sentir o tédio, 
 
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que pressupõe ócio abundante e sistemático para se manifestar em grande escala. 
Ninguém lhe oferecia facilidades. Por isso é que, até onde a memória coletiva 
alcança, o problema quase sempre se restringia ao topo da pirâmide social, a reis, 
nobres, magnatas, aos membros privilegiados de sociedades que, organizadas e 
avançadas, transformavam a faina abusiva da maioria no luxo de pouquíssimos 
eleitos. 
O tédio, portanto, foi um produto de luxo, e isso até tão recentemente que 
Baudelaire, para, há século e meio, descrevê-lo, comparou-se ao rei de um país 
chuvoso, como se experimentar delicadeza tão refinada elevasse socialmente quem 
não passava de “aristocrata de espírito”. 
Coube à Revolução Industrial a produção em massa daquilo que, 
previamente, eram raridades reservadas a uma elite mínima. E, se houve um 
produto que se difundiu com sucesso notável pelos mais inesperados andares e 
recantos do edifício social, esse produto foi o tédio. Nem se requer uma fartura de 
Primeiro Mundo para se chegar à sua massificação. Basta, a rigor, que à satisfação 
do biologicamente básico se associe o cerceamento de outras possibilidades (como, 
inclusive, a da fuga ou da emigração), para que o tempo ocioso ou inútil se 
encarregue do resto. Foi assim que, após as emoções fornecidas por Stalin e Hitler, 
os países socialistas se revelaram exímios fabricantes de tédio, único bem em cuja 
produção competiram à altura com seus rivais capitalistas. O tédio não é piada, nem 
um problema menor. Ele é central. Se não existisse o tédio, não haveria, por 
exemplo, tantas empresas de entretenimento e tantas fortunas decorrentes delas. 
Seja como for, nem esta nem soluções tradicionais (a alta cultura, a religião 
organizada) resolverão seus impasses. Que fazer com essa novidade histórica, as 
massas de crianças e jovens perpetuamente desempregados, funcionários, gente 
aposentada e cidadãos em geral ameaçados não pela fome, guerra ou epidemias, 
mas pelo tédio, algo que ainda ontem afetava apenas alguns monarcas? 
ASCHER, Nélson, Folha de S. Paulo, 9 abr. 2007, Ilustrada. (Texto adaptado) 
 
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- O Sujeito: 
Quem é o autor do texto? 
O que o mobilizou a escrevê-lo? 
Qual o seu lugar social? Profissão, ocupação, engajamento. 
 
- O Contexto: 
A que gênero do discurso pertence o texto? 
Qual o sentido histórico-social desse gênero discursivo? Em que circunstâncias e 
com que objetivos ele é frequentemente utilizado? 
Qual o assunto do texto? 
 
- Analisando... 
Há conflito entre diferentes discursos ou trata-se da exposição de um único 
discurso? 
Como o autor se coloca frente o tema? 
Em que consiste a posição ideológica do autor? 
O que se pode inferir a partir do posicionamento ideológico do autor? 
 
- Checando a metodologia? 
De que forma você chegou ao posicionamento do autor com relação ao tema? Que 
recursos ele usou? 
Em que corrente teórica você se baseou? 
Artur
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UNIDADE 9 - OUTROS CONCEITOS FUNDAMENTAIS 
 
A partir do que vimos tratando, chega-se à noção de discurso como toda 
atividade comunicativa, produtora de sentidos, entre interlocutores. É uma atividade 
de construção de sentidos entre falantes na qual o que se diz significa em relação ao 
que é dito, ao efeito que se pretende atingir; significa em relação ao lugar social de 
onde se diz, a quem se diz; significa em relação a outros discursos que circulam na 
sociedade. Os conceitos de sentido e sujeito são, dessa forma, fundamentais à 
disciplina. No entanto, há ainda outros tantos conceitos que são caros à AD e os 
quais apresentamos abaixo: 
 
Dialogismo – todo discurso tem uma dimensão dialógica, isto é, uma espécie de 
diálogo na medida em que quando falamos ou escrevemos, temos em mente a 
pessoa que nos escuta ou nos lê e também na medida em que trazemos ao nosso 
discurso as falas de outros usando a citação (discurso direto, indireto, aspas) de 
forma clara ou não (implícito). (BRANDÃO, no prelo, p.25). 
 
Enunciado – é uma noção discursiva que se opõe à noção de frase gramatical. Ou 
seja, uma frase é abstrata, não é produto de um sujeito concreto, tem um sentido 
neutro ao passo que o enunciado é produzido por um sujeito concreto (de carne e 
osso), por isso é concreto, expressa as atitudes desse sujeito (suas idéias, 
preconceitos, crenças emoções, etc.). (BRANDÃO, no prelo, p.25). 
 
Formação discursiva – conjunto de enunciados ou textos marcados por certas 
características comuns em relação à linguagem usada ou aos temas discutidos ou 
às posições ideológicas. Uma formação discursiva remete a uma mesma formação 
ideológica, mas uma formação discursiva não é homogênea, isto é, pelo caráter 
dialógico da linguagem, uma formação discursiva tem dentro de si outras formações 
discursivas com as quais dialoga, quer para contestá-las quer para a elas unir sua 
voz. (BRANDÃO, no prelo, p.25). 
 
Formação ideológica – conjunto de atitudes e representações que os falantes têm 
sobre si mesmos e sobre o interlocutor e o assunto em pauta; essas atitudes e 
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representações estão relacionadas com a posição social de onde falam ou 
escrevem, com as relações de poder (muitas vezes contraditórias, conflituosas) que 
se estabelecem entre eles. (BRANDÃO, no prelo, p.25). 
 
Implícito – do ponto de vista da comunicação, dependendo do contexto em que um 
enunciado é dito, por detrás de seu sentido explícito pode estar um sentido oculto ou 
implícito que o ouvinte ou leitor deve construir (ou inferir, deduzir) levando em conta 
os fatores extralingüísticos. Por exemplo, “Faz calor” pode significar simplesmente 
que faz calor ou pode significar também, em outros contextos, “Abra a janela” ou 
“Desligue o aquecedor”. (BRANDÃO, no prelo, p.26). 
 
Interdiscurso – a relação de diálogo que um discurso trava com outros discursos: 
todo discurso nasce de um trabalho sobre outros discursos, isto é, ao falar citamos, 
discutimos, polemizamos com outros discursos situados no presente ou no passado. 
A interdiscursividade é própria de todo discurso e é conseqüência do principio do 
dialogismo que caracteriza a linguagem humana. (BRANDÃO, no prelo, p.26). 
 
Interlocutor – é a pessoa que dialoga, discute, conversa com o outro. No plural, 
interlocutores, pode significar ainda as pessoas envolvidas numa situação de 
interação comunicativa, um sendo o interlocutor do outro. (BRANDÃO, no prelo, 
p.26). 
 
Polifonia – esse conceito foi elaborado inicialmente pelo teórico russo Mikhail 
Bakhtin que o aplicou à literatura; foi retomado posteriormente pelo lingüista francês 
Oswald Ducrot que lhe deu um enfoque lingüístico. Refere-se à qualidade de todo 
discurso estar tecido pelo discurso do outro, de toda fala estar atravessada pela fala 
do outro, criando um efeito de entrecruzamento de vozes em relação de aliança ou 
de polêmica. (BRANDÃO, no prelo, p.26). 
 
Semiótica - é a ciência geral dos signos, estuda todos os fenômenos culturais como 
se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ocupa-se do estudo 
do processo de significação ou representação. Tem diversas aplicações, uma das 
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quais é servir como ferramenta para o estudo de Comunicação e de Lingüística. 
Teve suas bases lançadas entre o final do século XIX e o início do século XX. Os 
princípios fundamentais foram estabelecidos por dois cientistas: o americano 
Charles S. Peirce e o suíço Ferdinand de Saussure. Dada a sua natureza, a 
Semiótica é muito útil no estudo de qualquer fenômeno relacionado à transmissão e 
retenção de informação: a Linguagem, as Artes, a própria Comunicação. 
 
Texto – é constituído pelos falantes em suas relações interacionais, constituindo-se 
num todo significativo com começo, meio e fim. Como unidade complexa de 
significação, sua produção e compreensão deve levar em conatas as condições de 
sua produção (situação de enunciação, interlocutores, contexto histórico social), 
exigindo de seus participantes conhecimentos não só lingüísticos como 
conhecimentos extra-lingüísticos (conhecimento de mundo, saber enciclopédico, 
determinações sócio-culturais, ideológicas, etc.). (BRANDÃO, no prelo, p.27). 
 
Tipo textual – a maneira como um gênero discursivo (notícia, carta, etc.) se organiza 
(por narração, descrição, argumentação ou explicação); construção feita pelo falante 
que escolhe os recursos da língua e expressa sua atitude (certeza, dúvida, opinião, 
ironia, etc.) em relação ao assunto que está tratando e em relaçãoao seu 
interlocutor. (BRANDÃO, no prelo, p.27). 
 
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UNIDADE 10 - CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Durante essa exposição, buscamos abordar os temas que consideramos mais 
importantes dentro do quadro teórico da Análise do Discurso. Pensando em um leitor 
que esteja ainda iniciando seu percurso nos estudos do discurso, descrevemos o 
nascimento da teoria, suas bases epistemológicas; apresentamos os principais 
conceitos; e apontamos as ramificações presentes na teoria. 
Assim espera-se que o leitor tenha compreendido a posição que a Análise do 
Discurso ocupa dentro dos estudos lingUísticos, bem como assimilado os conceitos 
que embasam a teoria, a saber: o discurso, o sentido, o sujeito, as condições de 
produção. Considerando, principalmente, que a AD não se limita à análise das 
estruturas lingUísticas, mas se situa num campo interdisciplinar em que se observa 
efeitos histórico- ideológicos. 
Estudar a língua do ponto de vista discursivo é se enveredar pelos caminhos 
e processos presentes nas diversas atividades humanas. Abre-se mão de um estudo 
puramente gramatical para se abordar a História, a Sociologia, a Psicanálise numa 
análise dialógica e interdisciplinar. 
Espera-se que o conteúdo tenha sido suficiente para despertar o interesse do 
leitor pelo tema. 
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43
 
REFERÊNCIAS 
 
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prelo. 
 
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3 (1), 1997, p. 66-103. 
 
FAIRCLOUGH, norman. Discurso e mudança social, Brasília: Editora Universidade 
de Brasília, 1994. 
 
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York: Routledge, 2003 
 
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language in a social-semiotic perspective. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 
1989. 
 
LACAN, Jacques. O seminário. O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. 
Jorge Zahar Editor. Livro 2, Rio de Janeiro, 1985. 
 
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros Textuais: definição e funcionalidade. In.: 
DIONÍSIO, A.P.; MACHADO, A.R.; BEZERRA, M.A. (orgs.). Gêneros Textuais e 
Ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. 
 
MUSSALIM, F. Análise do Discurso. In.: MUSSALIM, Fernanda & BENTES, Anna 
Christina. (Orgs.) Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras, v. 2. São Paulo: 
Cortez, 2004. 
 
ORLANDI, E. P. Análise do Discurso: Princípios e Procedimentos. Campinas, 
Pontes, 1999. 
 
PÊCHEUX, M. A. Análise automática do discurso. Trad. E. P. Orlandi. In.: 
GADET,F. & HAK, T. (orgs.) Por uma análise automática do texto: uma introdução à 
obra de Michel Pêcheux, 1969. 
 
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44
 
 
______. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. E. P. Orlandi 
et al. Campinas, Editora da Unicamp,1988. 
 
POSSENTI, S. Teoria do Discurso: Um caso de múltiplas rupturas. In.: MUSSALIM, 
Fernanda & BENTES, Anna Christina. (Orgs) Introdução à Lingüística: fundamentos 
epistemológicos, v.3. São Paulo: Cortez, 2004. 
 
Indicação de leitura 
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Ed. Hucitec, 1979. 
 
BRAIT, B. (org.) Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da 
Unicamp, 1997. 
 
BRANDÃO, H. Introdução à Análise do Discurso. Campinas: Ed. Unicamp, 2004. 
 
DUCROT, O. & SCHAEFFER, J-M. Nouveau dictionnaire encyclopédique des 
sciences du langage. Paris: Éditions du Seuil, 1995. 
 
MARINHO, Janice Helena Chaves. Situação Atual do Pronome Sujeito no Discurso 
Coloquial Espontâneo. Belo Horizonte. Dissertação de Mestrado - FALE/UFMG, 
1990. 
 
MINGUENEAU, M. Novas Tendências em Análise Do Discurso. Campinas: Ponte, 
1989. 
 
ORLANDI, E. P. A linguagem e seu funcionamento. As formas do discurso. São 
Paulo: Ed. Brasiliense, 1983.de Analise do Discurso, cujo propósito era abordar a política através da 
materialidade lingüística. 
Para entendermos o papel da Linguística no desenvolvimento dos estudos do 
discurso, basta considerar que a lingüística que contribuiu para o surgimento da AD 
foi a estruturalista de vertente saussureana. Segundo o estruturalismo, as estruturas 
da língua se definem em função da relação que estabelecem entre si no interior de 
um sistema linguístico. Essa relação é sempre binária e estabelece um valor positivo 
e outro negativo aos itens relacionados. Assim homem se define com relação à 
mulher por ser [-feminino], e com relação a cachorro por ser [-quadrúpede], e assim 
por diante (MUSSALIM, 2004, p.102). São, então, os valores dos itens que 
determinam sua escolha quando da produção de um texto, no entanto nem toda 
escolha parte de um valor meramente linguístico, pode-se, por exemplo, escolher 
entre dois elementos de valor extralinguístico, como os itens garota e menina ambos 
carregando o valor [+feminino], o que representaria a escolha de um desses itens, 
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segundo os pressupostos da AD, não seria, como na proposta de Saussure, de 
natureza sistêmica, mas de ordem ideológica, histórica. É a partir dessa 
consideração que Pêcheux propõe uma semântica do discurso. 
O discurso para Pêcheux constitui o lugar para onde convergem componentes 
linguísticos e sócio-ideológicos, seriam as condições sócio-históricas de produção 
de um discurso que constituiria as suas significações. A partir daí, o autor formalizou 
o que ficou conhecido como análise automática do discurso (AAD), essa análise 
permitia um procedimento de leitura que relacionava determinadas condições de 
produção com os processos de produção do discurso. A proposta de Pêcheux 
acabou por se articular com o projeto de Althusser, um estudioso do materialismo 
histórico, de formalizar o discurso. Para Althusser, a AAD poderia corresponder a 
seu desejo de definir uma teoria de ideologia em geral que permitisse evidenciar o 
mecanismo responsável pela reprodução das relações de produção comum a todas 
as ideologias particulares. Dessa forma as idéias de Althusser ajudaram compor a 
gênese da AD. 
Tratadas aqui as principais teorias que contribuíram para o surgimento da AD, 
resta-nos tecer alguns comentários sobre outra teoria que também influenciou 
sobremaneira o momento inicial da Análise do Discurso. Referimo-nos à psicanálise 
lacaniana. 
Segundo Mussalim (2004, p. 107): 
 
A partir da descoberta do inconsciente por Freud, o conceito de sujeito sofre 
uma alteração substancial, pois seu estatuto de entidade homogênea passa 
a ser questionado diante da concepção freudiana de sujeito clivado, dividido 
entre o consciente e o inconsciente. Lacan faz uma releitura de Freud 
recorrendo ao estruturalismo lingüístico, mais especificamente a Saussure e 
a Jakobson, numa tentativa de abordar com mais precisão o inconsciente, 
muitas vezes tomado como uma entidade misteriosa, abissal. 
 
Para Lacan, o inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma 
cadeia de significantes latente que se repete e interfere no discurso efetivo, é como 
se sob as palavras, conscientemente ditas, houvesse outras palavras, vindas do 
inconsciente. Nesse sentido a tarefa do analista seria a de tornar as palavras ou o 
“discurso” do inconsciente consciente, através de um trabalho na palavra. O 
inconsciente representa, para essa teoria, o lugar de onde emana o discurso do 
Outro (do pai, da família, da lei, etc.) e em relação ao qual o sujeito se define, ganha 
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identidade. O sujeito passa a ser considerado, então, uma representação, sendo, 
portanto, da ordem da linguagem. Somando a essa noção de inconsciente alguns 
critérios do estruturalismo lingüístico, Lacan se posiciona em favor da existência de 
uma estrutura discursiva que é regida por leis. Dentre as implicações dessa 
constatação de Lacan para a psicanálise, a que interessa à AD é a que define 
sujeito, relacionando-o ao inconsciente, à linguagem. 
Com relação ao conceito lacaniano de sujeito, percebe-se o papel da 
lingüística no que se refere a certos critérios a partir dos quais se define o sistema 
lingüístico: (1) o critério diferencial, apropriado por Saussure, considera que na 
língua só há diferenças; segundo esse critério, os elementos do sistema não podem 
ser definidos por eles mesmos, sem que suas características sejam comparadas às 
de outros elementos. (2) o critério relacional que delimita a função do Outro no 
interior do sistema. (3) o critério do lugar vazio, seguindo a ótica estruturalista, 
considera que cada elemento adquire sua identidade fora de si. (4) o critério 
posicional, esse critério considera que a identidade resulta sempre dos lugares de 
onde são tomados os elementos na relação binária no interior do sistema. 
Os critérios, diferencial e relacional, implicam na consideração de que o 
sujeito é dessubstancializado, uma vez que ele só se define em relação ao Outro. O 
sujeito dessubstancializado não está, porém, no consciente onde predomina a noção 
de “sujeito centro”, aquele que acredita saber o que diz e o que é, mas sim no 
inconsciente, no lugar onde está o Outro – o discurso do pai, da mãe, da família, etc. 
– que lhe imprime identidade, aí o critério do lugar vazio. Segundo Santiago (apud 
MUSSALIM, 2004, p.108), “o pai e a mãe deixam de ser meros semelhantes com os 
quais o sujeito se relacionou numa dimensão de rivalidade ou amor, para se 
tornarem lugares na estrutura”. Assim, a mãe pode ocupar lugares diferentes no 
imaginário – mãe cuidadosa, mãe displicente, etc. –; é assim que se percebe o 
critério posicional. 
Essa relação entre o sujeito e o Outro se apóia na oposição binária de 
Jakobson1, segundo a qual um remetente passa dessa posição inicial para ocupar a 
posição de destinatário no sistema de comunicação. Assim, Lacan se aproxima do 
 
1 Lingüista pertencente à Escola de Praga, embora considerado estruturalista, se distancia de Saussure ao 
considerar os interlocutores no processo comunicativo. É autor do texto Lingüística e poética In.: Lingüística e 
Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1960. 
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estruturalismoao adaptar as teorias de Saussure e Jakobson a sua teoria 
psicanalítica, mas se distancia ao inserir o sujeito na estrutura e ao estabelecer a 
relação do sujeito com o Outro. 
Na teoria lacaniana, o sujeito, por definir-se através do discurso do Outro, 
nada mais é do que um significante do Outro. No entanto, sendo um sujeito clivado, 
dividido entre o consciente e o inconsciente, inscreve-se na estrutura, definida por 
relações binárias, mas que, diferentemente do sentido estruturalista, é descontínua. 
Em outras palavras, Lacan se afasta do estruturalismo no momento em que assume 
a incompletude do sistema, representada pelo sujeito, pela descontinuidade na 
cadeia significante. 
Na teoria de Jakobson, não há supremacia entre os interlocutores numa 
relação de comunicação. Já para Lacan, o Outro ocupa uma posição de domínio 
com relação ao sujeito, é uma ordem anterior e exterior a ele, com relação à qual o 
sujeito se define, ganha identidade. E é nessa posição com relação ao sujeito que a 
psicanálise lacaniana influencia na teoria da Análise do Discurso. 
 
 
 1 
 
 
 (o eu1) a Outro 
 2 
 
 1 Relação Imaginária 2 Inconsciente 
Esquema proposto por J. Lacan (1985): representação do eu, do outro e da linguagem 
Como afirmamos anteriormente, a AD trata de questões relativas à ideologia e 
ao sujeito. E é justamente esse “sujeito de Lacan”, clivado, mas estruturado na 
linguagem que permitiu que a AD concebesse os textos como produtos de um 
trabalho ideológico não-consciente. 
Sumariamente, pode-se dizer que a AD, através do materialismo histórico, 
considera o discurso como a materialização da ideologia decorrente do modo de 
(Es) S a
 
A
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organização dos modos de produção social e o sujeito, considerado como aquele 
que não decide sobre os sentidos e as possibilidades enunciativas do próprio 
discurso, mas enuncia o lugar social que ocupa, sempre inserido no processo 
histórico que lhe permite determinadas colocações e não outras. Segundo Mussalim 
(2004, p.110): 
 
O sujeito não é livre para dizer o que quer, mas é levado, sem que tenha 
consciência disso (e aqui reconhecemos a propriedade do conceito 
lacaniano de sujeito para a AD), a ocupar um lugar em determinada 
formação social e enunciar o que lhe é possível a partir do lugar que ocupa. 
 
Tem-se, por fim, que a Análise do Discurso pertence não ao campo da 
lingüística formal, mas sim a um núcleo de estudos da linguagem que a considera 
apenas na medida em que esta faz sentido para sujeitos inscritos em estratégias de 
interlocução, em posições sociais ou em conjunturas históricas. 
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UNIDADE 2 - CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO 
 
Segundo Pêcheux (1969), o estudo dos processos discursivos pressupõe a 
análise das condições de produção do discurso. Tal fato tem a ver, principalmente, 
com o papel atribuído ao contexto ou situação pela lingüística atual, que considera o 
contexto como pano de fundo específico dos discursos, sendo o que torna possível 
sua formulação e sua compreensão. 
De acordo com os pressupostos da Análise do Discurso, cada um enuncia a 
partir de posições que são historicamente constituídas. O que garante o sentido ao 
que o enunciador diz não é o contexto imediato em que está situado e ao qual se 
ligariam certos elementos da língua ou certas características do enunciado, mas as 
posições ideológicas a que está submetido e as relações ao que diz e o que já foi 
dito da mesma posição, considerando, eventualmente que ela não se opõe a uma a 
que lhe seja contrária. Veja a tirinha abaixo, de Luis Fernando Veríssimo: 
 
 
A tirinha serve de exemplo para o que acabamos de dizer. Em cada conjunto de 
quadros, o que vai definir o sentido dos comentários será o tema indicado por um 
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dos participantes da interlocução. Assim, no primeiro conjunto de quadros, como se 
trata de um concurso de cortesia, as falas dos interlocutores são marcadas por 
palavras de gentileza; no segundo, as condições de produção se referem a mal-
entendidos e, novamente, são utilizadas frases comuns em situações de mal-
entendidos; e o mesmo ocorre com o último conjunto de quadros. 
Pêcheux parte do famoso esquema de Jakobson2 para explicar o quadro das 
condições de produção. Segundo o autor, enunciar responde a perguntas implícitas 
como “Quem sou eu para lhe falar assim?”, “Quem é ele para eu lhe falar assim?”, e 
também revela o “Ponto de vista de A sobre R”, o “Ponto de vista de B sobre R”, etc. 
E, ainda, ao quadro são acrescentadas as representações imaginárias, que 
correspondem à imagem que o destinador faz da imagem que o destinatário faz do 
destinador. Dessa forma, se um candidato se dirige a eleitores, o candidato e os 
eleitores não devem ser entendidos como se tratando de uma pessoa (fulano de tal) 
diante de certas outras pessoas (moradores do bairro X), envolvidas em uma 
relação de interlocução, mas como posições historicamente constituídas em 
sociedades em que essas funções se circunscrevem a certas regras e às quais se 
chega através de um conjunto de procedimentos. (PÊCHEUX, 1969, p.81-87). 
Tornando ao raciocínio das representações imaginárias, podemos 
exemplificar a hipótese da seguinte forma: o candidato X à prefeitura do município Y 
enuncia seu discurso partindo da imagem que ele acredita que a população do 
município tem dele, não enquanto cidadão civil, mas como candidato à prefeitura da 
cidade. Estão aqui envolvidas não pessoas strito senso, mas funções historicamente 
constituídas, a de um candidato a prefeito e a dos eleitores. Dessa forma, pode-se 
considerar que esse mesmo candidato, sendo eleito, pode estar envolvido numa 
nova situação de interlocução com novas condições de produção, aí, se analisará a 
posição de um prefeito frente aos cidadãos da cidade. 
Há, ainda, que se ressaltar que essa “imagem” que o destinador faz da 
imagem que o destinatário faz do destinador resulta de um processo social, 
ideológico; daí a importância do “contexto”: situações diferentes geram produtos 
diferenciados. 
 
2 O famoso esquema de Jakobson é aquele em que o autor diferencia seis funções da linguagem 
verbal: expressiva, conotativa, referencial, fática, metalinguística e poética. 
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Um exemplo interessante é apresentado por Orlandi (1999, p. 63), a partir da 
seguinte frase retirada de uma pichação em um muro: NEOCID neles, parasitas. 
Segundo a autora, se o texto foi produzido por operários, a palavra parasitas se 
refere, provavelmente, a patrão. Já se, pelo contrário, quem escreveu o texto foi um 
pequeno burguês contrário à juventude rebelde, parasitas poderiam ser darks ou 
hippies. Isso mostra, de acordo com a autora, que os significados que se podem 
atribuir são vários e têm a ver com o confronto de forças no contexto da sociedade. 
Por fim, a principal questão relacionada às condições de produção para a 
Análise do Discurso é que, para a disciplina, esse conceito exclui de forma definitiva 
um caráter “psicossociológico”. Para a AD, os contextos fazem parte de uma história, 
uma vez que nessas instâncias de enunciação, os enunciadores se assujeitam à sua 
função discursiva. As condições de produção são, nesse sentido, um elemento 
dominante. Do conjunto de elementos envolvidos num processo de interlocução 
(destinador, destinatário, referente, etc.), o elemento dominante (condições de 
produção) pode variar de caso a caso, mesmo que outros elementos se repitam. 
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UNIDADE 3 - AS FASES DA ANÁLISE DO DISCURSO: 
PROCEDIMENTOS E DEFINIÇÃO DO OBJETO 
 
A Análise do Discurso, assim como outras teorias, passou, desde o seu 
surgimento, por alterações nos seus procedimentos de análise e na definição do 
objeto, sendo que são consideradas três fases principais. 
Na primeira fase da AD, conhecida como análise automática do discurso, 
procurava-se explorar a análise de discursos pouco polêmicos, que, por terem uma 
carga polissêmica menor, permitiam uma menor abertura para variação de sentido 
por se perceber um maior silenciamento do outro. A “estabilidade” dos discursos 
analisados nesse período se devia às condições de produção mais estáveis e 
homogêneas, ou seja, os discursos analisados eram produzidos no interior de 
posições ideológicas e de lugares sociais menos conflitantes. Um exemplo sempre 
citado de discurso analisado nesse período é o Manifesto Comunista, que era 
enunciado no interior do Partido Comunista e representa seus possíveis 
interlocutores inscritos nesse mesmo espaço discursivo. De forma contrária, 
discursos produzidos em situações conflitantes, em debates entre diferentes 
conjunturas políticas, por exemplo, não eram abordados nesse período. 
Com relação aos procedimentos adotados nessa fase, a AD-1, geralmente 
eram realizados em etapas, segundo Mussalim (2004, p.118): 
a) Primeiramente se seleciona um corpus fechado de seqüências discursivas; 
b) Em seguida faz-se a análise lingüística de cada seqüência, considerando-se 
as construções sintáticas (de que maneira são estabelecidas as relações 
entre os enunciados) e o léxico (levantamento de vocabulário); 
c) Passa-se depois à análise discursiva, que consiste basicamente em construir 
sítios de identidades a partir da percepção da relação de sinonímia 
(substituição de uma palavra por outra no contexto) e de paráfrase 
(seqüências substituíveis entre si no contexto); 
d) Por fim, procura-se mostrar que tais relações de sinonímia e paráfrase são 
decorrentes de uma mesma estrutura geradora do processo discursivo. 
Essas condições de produção estáveis eram responsáveis pela geração de 
um processo discursivo a partir de um conjunto de argumentos e de operadores 
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responsáveis pela construção e transformação das proposições, entendidas como 
princípios semânticos que definem e delimitam um discurso. Toda essa estrutura 
ficou conhecida como “máquina discursiva”. (MUSSALIM, 2004, p.118). 
 A AD-1 considerava cada processo discursivo como uma máquina discursiva. 
Dessa forma, num debate em que haveria dois processos discursivos, haveria 
também duas máquinas discursivas e, por isso, não seriam analisados. 
Quando a AD alcança sua segunda fase, a noção de máquina estrutural 
fechada eclode. Apreende-se, então, do trabalho do filósofo Michel Foucault, o 
conceito de formação discursiva, que se referia ao dispositivo que desencadeia o 
processo de transformação na concepção do objeto de análise da Análise do 
Discurso. Segundo Foucault (1969, apud Mussalim, 2004, p.119), a formação 
discursiva pode ser definida como: 
 
um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no 
tempo e no espaço que definiram em uma época dada, e para uma área 
social, econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições de exercício 
da função enunciativa. 
 
Uma formação discursiva (FD), segundo a perspectiva, determina o que 
pode/deve ser dito a partir de um determinado lugar social. Dito de outra forma, uma 
FD é marcada por “regras de formação”, concebidas como mecanismos de controle 
que determinam o interno, o que pertence, e o externo, o que não pertence, de uma 
formação discursiva. Ao se considerar o externo na formação discursiva, deixa-se de 
conceber a FD como uma estrutura fechada para se perceber que ela será sempre 
invadida por elementos que vêm de outro lugar, de outras formações discursivas. 
 
O discurso é o caminho de uma contradição a outra: se dá lugar às 
que vemos, é que obedecem à que oculta. Analisar o discurso é 
fazer com que desapareçam e reapareçam as contradições, é 
mostrar o jogo que nele elas desempenham; é manifestar como ele 
pode exprimi-las, dar-lhes corpo, ou emprestar-lhes uma fugidia 
aparência. (FOUCAULT, 2005, p. 171) 
 
Assim discordando da AD-1, os estudiosos que seguiam a perspectiva de 
Foucault acreditavam que para se analisar um discurso é necessário se recusar as 
explicações unívocas, de fáceis interpretações, e a busca pelo sentido último numa 
única formação discursiva. Para Foucault, há enunciados e relações que o próprio 
(HP)
Realce
(HP)
Realce
(HP)
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
 
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direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada, seja por meios 
eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e 
recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
14
 
discurso põe em funcionamento e analisar o discurso seria dar conta das relações 
históricas, de práticas concretas. Uma análise eficiente não se concentraria apenas 
numa máquina discursiva, mas nas relações entre as máquinas discursivas. E é 
essa relação entre máquinas discursivas que passa a ocupar o lugar de objeto de 
análise da AD-2. 
Quanto aos procedimentos de análise, a AD-2 inova apenas na fase de 
seleção do corpus, uma vez que os discursos menos estabilizados tomam lugar por 
serem produzidos a partir de condições de produção menos homogêneas.Um 
debate político é um exemplo de objeto de análise. 
Na fase 3 da AD, ocorrerá a desconstrução da máquina discursiva, 
possibilitada pelo deslocamento percebido através da relação de uma FD com as 
outras. Na AD-2, as outras FD’s são incorporadas pela FD em questão, que mantém 
uma identidade, mesmo sendo atravessada por outros discursos. Assim, passou-se 
a considerar que é possível, através de uma análise discursiva, determinar o que 
pertence a outras FD’s que atravessam uma FD em análise. 
Na AD-3, apreende-se que os diversos discursos que atravessam uma FD 
não se constituem independentemente uns dos outros para serem, em seguida, 
postos em relação, mas se formam de maneira regulada no interior de um 
interdiscurso. Assim, tem-se que será a relação interdiscursiva que estruturará a 
identidade das FD’s em questão. O objeto de análise passa, então, a ser o 
interdiscurso e o procedimento de análise por etapas fixas se estabiliza. 
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
 
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15
 
UNIDADE 4 - CONCEITO DE DISCURSO 
 
Discurso é uma palavra que tem amplos sentidos. Segundo Brandão (no 
prelo), “no sentido comum, na linguagem cotidiana, discurso é simplesmente fala, 
exposição oral, às vezes tem o sentido pejorativo de fala vazia, ou cheia de 
palavreado ostentoso, ‘bonito’.” No entanto é preciso se analisar o sentido científico 
da palavra discurso. 
A linguagem é uma atividade exercida entre interlocutores: um falante e um 
ouvinte, um escritor e um leitor. É essa uma atividade rotineira e até automática, mas 
que nos exige mais do que o simples conhecimento de um conjunto de palavras e 
regras sintáticas. Na atividade linguística, conhecimentos de ordem extralingüística 
como saber para quem me dirijo quando falo ou escrevo, ou em que situação, mais 
ou menos formal, me encontro são também fundamentais para a atividade da 
linguagem. 
Ao produzir linguagem, os falantes produzem também discursos. Assim, 
podemos definir discurso como toda atividade comunicativa entre interlocutores, 
como uma atividade produtora de sentidos que se dá na interação entre falantes. 
Segundo Brandão (Op. Cit.): 
 
O falante/ouvinte, escritor/leitor são seres situados num tempo histórico, 
num espaço geográfico; pertencem a uma comunidade, a um grupo e por 
isso carregam crenças, valores culturais, sociais, enfim a ideologia do 
grupo, da comunidade que fazem parte. Essas crenças, ideologias são 
veiculadas, isto é, aparecem nos discursos. É por isso que dizemos que não 
há discurso neutro, todo discurso produz sentidos que expressam as 
posições sociais, culturais, ideológicas dos sujeitos da linguagem. Às vezes, 
esses sentidos são produzidos de forma explícita, mas na maioria das 
vezes não. Nem sempre digo tudo que penso, deixo nas entrelinhas 
significados que não quero tornar claros ou porque a situação não permite 
que eu o faça ou porque não quero me responsabilizar por eles, deixando 
por conta do interlocutor o trabalho de construir, buscar os sentidos 
implícitos, subentendidos. Isso é muito comum, por exemplo, nos discursos 
políticos, no discurso jornalístico, e mesmo nas nossas conversas 
cotidianas. 
 
Artur
Realce
 
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16
 
 
Na charge acima, por exemplo, na fala da personagem feminina está implícito 
que Hagar, o personagem masculino, deveria se preparar no sentido de evitar que a 
casa deles fosse alagada. No entanto, no entendimento de Hagar planejar com 
antecedência não quer dizer se planejar para “evitar” um problema, mas se planejar 
para “contornar” um problema. O que imprime o sentido cômico da charge está na 
diferença de valores e, consequentemente, de atitudes entre os dois personagens. 
Dessa forma, percebe-se que quando se trata da noção de discurso, estão 
implicados, além de questões lingüísticas, elementos sociais, históricos, culturais, 
ideológicos que cercam a produção e se refletem no discurso. Também o espaço 
que esse discurso ocupa em relação a outros discursos que circulam na comunidade 
são tomados. Assim, segundo os pressupostos da AD, a linguagem deve ser 
estudada não só em relação a seu aspecto gramatical, exigindo saber lingüístico, 
como também em relação aos aspectos ideológicos, sociais que se manifestam 
através de um saber sócio-histórico. 
 Ainda segundo Brandão (Op. cit.): 
 
o discurso é o espaço em que saber e poder se unem, se articulam, pois 
quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito que lhe é reconhecido 
socialmente. Falar, por ex., do lugar do presidente (da República, do 
Congresso, de uma associação qualquer) é veicular um conhecimento 
reconhecido como verdadeiro (pelo posto que ocupa) e, por isso, gerador 
de poder; uma relação de poder se estabelece (de forma clara ou sutil) 
entre patrão-empregado, entre professor-aluno e mesmo entre amigos ou 
pares e que se manifesta na forma como um fala com o outro. 
 
O discurso pode ser assim entendido como um jogo de estratégias que 
implica em ações e reações, num jogo de poder cujo resultado pode ser dominação 
ou aliança, submissão ou resistência, etc. 
As principais características do discurso segundo Maingueneau (2004, apud 
BRANDÃO, no prelo, p.2-5) são: 
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
 
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17
 
1. O discurso deve ser compreendido como algo que ultrapassa o nível 
puramente gramatical, lingüístico. O nível discursivo apóia-se sobre a 
gramática da língua (o fonema, a palavra, a frase), mas nele é importante 
levar em conta também (e, sobretudo) os interlocutores (com suas crenças, 
valores), a situação (lugar e tempo geográfico, histórico) em que o discurso é 
produzido. 
2. No nível do discurso, os falantes/ouvintes, escritor/leitor devem ter 
conhecimentos não só do ponto de vista lingüístico (dominar a língua, as 
regras de organização de uma narrativa, de uma argumentação, etc.), mas 
também de conhecimentos extralingüísticos: conhecimento para produzir 
discursos adequados às diferentes situações em que atuamos na nossa vida; 
conhecimentos de assuntos, temas que circulam na sociedade; conhecimento 
das finalidades da troca verbal e para isso são importantes a imagem que 
faço de mim, da minha posição, a imagem que tenho das pessoas com quem 
falo, imagens que vão determinar a maneira como devo falar com essas 
pessoas. 
3. O discurso é contextualizado. Isto é, do ponto de vista discursivo, toda frase 
(ou melhor, enunciado) só tem sentido no contexto em que é produzido. 
Assim, um mesmo enunciado, produzido em momentos diferentes (quer seja 
pelo mesmo sujeito ou por sujeitos diferentes) vai ter sentidos diferentes e, 
portanto, pode corresponder a discursos diferentes. 
4. O discurso é produzido por um sujeito – um EU que se coloca como o 
responsável pelo que se diz (de forma explícita como num diário de 
adolescente ou implícita como no discursoda ciência) e é em torno desse 
sujeito que se organizam as referências de tempo e de espaço. Ex: no 
enunciado: “Hoje meu depoimento será sobre a infância vivida na casa da 
minha avó”, os termos “hoje”, “meu”, “minha” devem ser entendidos em 
relação ao sujeito que fala e que se coloca como eu do discurso. E esse 
sujeito que fala, assume uma atitude, um determinado comportamento (de 
firmeza, dúvida, opinião) em relação àquilo que diz (usa para isso recursos da 
língua como: infelizmente, talvez, certamente, na verdade, eu acho) em 
relação àquele com quem fala (explicitamente por expressões do tipo Você, 
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
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Artur
Realce
Artur
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Artur
Realce
Artur
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Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
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caro leitor, ou escolhendo os termos adequados ao nível sócio-cultural, 
usando uma linguagem mais formal, gírias ou linguagem mais formal de 
acordo com a situação). 
5. O discurso é interativo, pois é uma atividade que se desenvolve, no mínimo 
entre parceiros (marcados linguisticamente pelo binômio Eu- Você). A 
conversação é o exemplo mais evidente dessa interatividade: os parceiros 
monitoram a sua fala de acordo com a relação do outro. Mas, no discurso 
escrito, o locutor está bem preocupado com o seu leitor, a ele dirigindo-se 
explicitamente (como em “meu caro leitor”) ou procurando uma linguagem 
adequada a ele (um livro de literatura infantil, um guia médico para pais leigos 
em assuntos médicos têm toda uma linguagem voltada para o público que se 
quer atingir) ou utilizando-se de estratégias de discurso para se defender, 
antecipar a contra argumentação do leitor. 
6. O discurso é uma forma de atuar, de agir sobre o outro. Quando prometemos, 
ordenamos, perguntamos, etc, praticamos uma ação pela linguagem (um ato 
de fala) que tem por objetivo modificar uma situação. Por ex., o “eu te batizo 
X” pronunciado pelo padre numa cerimônia de batismo muda a situação da 
pessoa no quadro da religião católica; numa passeata, um cartaz com o 
enunciado “Não à corrupção” visa modificar comportamentos de pessoas 
envolvidas nesse ato e mostra a atitude de indignação daqueles que levam 
esse cartaz. 
7. O discurso trabalha com enunciados concretos, falas/escritas realmente 
produzidas (e não idealizadas, abstratas, como as frases da gramática) e os 
estudos que se fazem deles visam descrever suas normas, isto é, como 
funciona a língua no seu uso efetivo. Por ex., se alguém faz uma pergunta, 
pressupõe-se que ele ignore a resposta e tem interesse nessa resposta; e, 
ainda, que aquele a quem é feita a pergunta tem condições de responder-lhe. 
Se essas regras não são obedecidas, por ex., se ele sabe a resposta, mas 
pergunta assim mesmo, é porque o locutor tem intenções implícitas. O 
interlocutor se pergunta então “por que razão, sabendo a resposta, ele me fez 
a pergunta assim mesmo?”, e por uma série de raciocínios (inferências) vai 
procurar o sentido que está por trás. 
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
 
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8. Um princípio geral rege o discurso: o princípio do dialogismo. A palavra 
dialogismo vem de diálogo – conversa, interação verbal que supõe pelo 
menos dois falantes. Quando falamos nos dirigimos sempre a um interlocutor; 
mesmo num monólogo (quando falamos com nós mesmos), num diário, 
criamos uma personagem (um outro eu) com quem imaginariamente 
dialogamos. 
9. Mas o discurso é também dialógico porque quando falamos ou escrevemos, 
dialogamos com outros discursos, trazendo a fala do outro para nosso 
discurso. Isso se faz de forma explícita usando, por ex., o discurso direto, 
indireto, indireto livre ou colocando palavras, enunciados (do outro) entre 
aspas ou itálico. Mas podemos fazer isso de forma implícita, sem dizer quem 
falou (e aquele que ouve ou lê, tem o mesmo conhecimento de quem escreve 
ou fala vai entender, daí a importância da leitura, da ampliação do 
conhecimento de mundo, do conhecimento enciclopédico). Isso acontece, por 
ex., quando usamos um provérbio, um dito popular, nas paródias, nas 
imitações, nas ironias, etc. 
10. Por causa desse caráter dialógico da linguagem, dizemos que o discurso tem 
um efeito polifônico. Isto é, porque meu discurso dialoga com outros 
discursos, outras vozes nele presentes, vozes com as quais concordo (e vêm 
reforçar o que eu digo) ou vozes das quais discordo total ou parcialmente. 
Outra palavra usada para expressar esse caráter polifônico da linguagem é 
heterogêneo. O discurso é heterogêneo (polifônico) porque sempre é 
atravessado, habitado por várias outras vozes. 
11. Todo discurso se constrói numa rede de outros discursos; em outras 
palavras, numa rede interdiscursiva. Nenhum discurso é único, singular, mas 
está em constante interação com os discursos que já foram produzidos e 
estão sendo produzidos. Nessa relação interdiscursiva (com outros 
discursos), quer citando, quer comentando, parodiando esses discursos, 
disputa-se a verdade pela palavra numa relação de aliança, de polêmica ou 
de oposição. É nesse sentido que se diz que o discurso é uma arena de lutas 
em que os locutores, vozes falando de posições ideológicas, sociais, culturais 
diferentes procuram interagir e atuar uns sobre os outros. 
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
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Realce
 
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UNIDADE 5 - CONCEITOS-CHAVE: SENTIDO E SUJEITO 
 
Para a AD, o caráter dialógico do discurso é constitutivo de seu sentido. Isso 
significa que o sentido de uma formação discursiva depende da relação que ela 
estabelece com as formações discursivas no interior do espaço interdiscursivo. 
Dessa forma, tem-se que o sentido é um efeito de possibilidade de substituição das 
expressões, sendo que o conjunto delas produz um efeito de referência, isto é, tem o 
efeito de identificar objetos do mundo a partir de uma visão entre outras. 
Segundo Mussalim (2004, p. 131), “uma formação discursiva, apesar de 
heterogênea, sofre as coerções da formação ideológica em que está inserida”. 
Assim, as seqüências lingüísticas possíveis de serem enunciadas pelo sujeito já 
estão previstas. 
Pêcheux (1969) trata do sentido a partir de uma teoria do efeito metafórico: 
sejam os termos x e y pertencentes a uma mesma categoria de uma língua L. Existe 
pelo menos um discurso no qual x e y possam ser substituídos um pelo outro, sem 
mudar a interpretação desse discurso? Três casos são logicamente possíveis 
(POSSENTI, 2004, p.372): 
(1) x e y nunca são substituíveis um pelo outro; 
(2) x e y são substituíveis às vezes, mas não sempre; 
(3) x e y são sempre substituíveis um pelo outro. 
 
Aqui,os itens que importam são (2) e (3), em que há a possibilidade de 
substituição. Em (2), x e y são substituíveis apenas em um dado contexto. Por 
exemplo, temos as palavras brilhante (x) e inteligente (y), pode-se dizer Esse 
professor é x/y, bem como A sua hipótese é x/y. Ambos são casos de substituição 
contextual, no entanto, um termo não pode ser substituído pelo outro em A Luz 
fluorescente é mais brilhante que a luz incandescente, sem que o sentido seja 
alterado. Já (3) representa o caso em que x e y seriam intercambiáveis em qualquer 
contexto, o que é extremamente raro, uma vez que as sinonímias são contextuais. 
Assim, segundo Pêcheux (1969 apud POSSENTI, 2004, p.372): 
 
Chamaremos efeito metafórico o fenômeno semântico produzido por uma 
substituição contextual, para lembrar que esse “deslizamento de sentido” 
entre x e y é constitutivo do “sentido” designado por x e y; esse efeito é 
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
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Artur
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21
 
característico dos sistemas lingüísticos “naturais”, por oposição aos códigos 
e às “línguas artificiais”, em que o sentido é fixado em relação a uma 
metalíngua “natural”. 
 
 Daí se conclui que o sentido não é função de um significante/palavra, mas de 
uma dupla de significantes/palavras em relação de mútua substituibilidade, mas 
apenas em cada discurso historicamente dado. Segundo Possenti (2004, p. 373), 
“isso se sustenta, nesta teoria, pelo fato de que o sentido das palavras em um 
discurso remete sempre a ocorrências anteriores”. E, ainda, acrescenta: 
 
Qualquer uma dessas posições3 implica uma memória discursiva, de modo 
que as formulações não nascem de um sujeito que apenas segue as regras 
de uma língua, mas do interdiscurso, vale dizer, as formulações estão 
sempre relacionadas a outras formulações, sendo que a relação metafórica 
que funciona como matriz do sentido é historicamente dada. 
 
Assim, tem-se que o sentido possui caráter necessariamente histórico. Isso 
explica o porquê da importância das determinadas condições de produção para a 
compreensão da posição ideológica em relação ao discurso. Não há, dessa forma, 
sentido a priori, o sentido não existe antes do discurso. O sentido vai se constituindo 
à medida que se constitui o próprio discurso. Segundo Mussalim (2004, p. 132), “não 
existe, portanto, sentido em si, ele vai sendo determinado simultaneamente às 
posições ideológicas que vão sendo colocadas em jogo na relação entre as 
formações discursivas que compõem o interdiscurso”. 
 
3 Qualquer enunciação pressupõe uma posição e é a partir dessa posição que os enunciados 
recebem seu sentido. 
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
 
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Um exemplo do que foi dito pode ser observado na charge que segue: 
 
Nessa charge, temos o mesmo enunciado Vamos invadir o McDonald 
produzido, porém, em diferentes contextos e por diferentes sujeitos. O fato de as 
condições de produção serem diferentes faz com que o sentido também seja 
diferente. Observe que no primeiro quadro os sujeitos que enunciam são 
participantes do Fórum Social Mundial que são contrários à globalização e ao 
neoliberalismo dos países ricos, enquanto que no segundo quadro os sujeitos 
enunciadores são participantes do Fórum Econômico Mundial que reúne 
representantes dos países mais ricos do mundo. Dessa forma, verifica-se que os 
dois quadros representam formações discursivas divergentes em que os sujeitos 
que falam representam posições políticas, sociais e ideológicas diferentes e é por 
 
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23
 
isso que os enunciados, apesar de gramaticalmente idênticos, têm sentidos 
diferentes. 
Em nossa análise, apresentamos um outro conceito que, conforme tratamos, 
tem um importante papel na construção do sentido de um discurso, o sujeito. 
Para abordagem o conceito de sujeito para a AD, buscaremos tratar de sua 
evolução para a teoria, a partir das três fases fundamentais. Na AD-1, o sujeito é 
concebido como assujeitado à maquinaria discursiva, já que estaria submetido às 
regras específicas que delimitam o discurso que enuncia. Dessa forma, nesse 
período quem de fato enuncia não seria o sujeito, mas uma instituição, uma teoria ou 
uma ideologia. Assim, por exemplo, independente de que padre rezasse a missa, o 
sermão carregaria o mesmo discurso, o discurso da igreja católica. 
Na AD-2, com a noção de formação discursiva de Foucault, a noção de 
sujeito sofre alterações e, da mesma forma que a formação discursiva, passa a ser 
concebido como uma dispersão, isto é, o sujeito seria entendido como se formado 
por elementos ligados entre si por um princípio de unidade. A partir de então, o 
sujeito deixa de ser marcado pela unidade. Segundo Mussalim (2004, p.133), “o 
sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes papéis de 
acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo. 
Outra peculiaridade com relação a essa fase é que o sujeito do discurso é 
considerado como ocupando um lugar de onde enuncia, e é este lugar, 
representativo de traços de determinado lugar social (o lugar do político, do 
publicitário, do juiz, por exemplo), que determina o que ele pode ou não dizer a partir 
dali. Isso significa dizer que o sujeito, nessa fase, é dominado por determinada 
formação ideológica que preestabelece as possibilidades de sentido de seu 
discurso. (MUSSALIM, 2004, p. 133). 
Até as fases 1 e 2 da AD, não se reconhecia aspectos de individualidade no 
sujeito, a crença era a de que a ideologia se manifestava através dele. Já na AD-3, a 
noção de sujeito sofre um deslocamento que deu início à vertente atual da Análise 
do Discurso. 
A partir dessa terceira fase, a idéia de heterogeneidade provoca profundas 
modificações na noção de discurso e, consequentemente, no conceito de sujeito, 
Artur
Realce
Artur
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que começa a ser considerado essencialmente heterogêneo, clivado, ou seja, não é 
uno. 
As alterações mais importantes no conceito de sujeito nesse período da AD-3 
surgiram principalmente a partir da criação da noção de inconsciente. Com essa 
teoria, o sujeito deixa de ser entendido em sua forma consciente para ser tido como 
um sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente. O sujeito da AD se 
movimenta entre esses dois “espaços”, sem poder ser definido de forma alguma 
como inteiramenteconsciente de seu discurso. A identidade do sujeito é, então, 
definida também pelo discurso do inconsciente, o discurso do “outro”. Assim, o 
sujeito perde a sua centralidade passando a ser encarado como essencialmente 
heterogêneo, da mesma forma que o discurso o é. Segundo Authier-Revuz (1982, 
apud MUSSALIM, 2004:134), a heterogeneidade mostrada é uma tentativa do 
sujeito de explicitar a presença do outro no fio discursivo, numa tentativa de 
harmonizar as diferentes vozes que atravessam seu discurso, numa busca pela 
unidade, mesmo que ilusória. 
Para Brandão (no prelo, p.8), o sujeito que produz o discurso, de acordo com 
os princípios da AD, apresenta as seguintes características: 
a) o sujeito do discurso é essencialmente marcado pela historicidade. Isto é, não 
é o sujeito abstrato da gramática, mas um sujeito situado na história da sua 
comunidade, num tempo e num espaço concreto; 
b) o sujeito do discurso é um sujeito ideológico, isto é, sua fala reflete os valores, 
as crenças de um momento histórico e de um grupo social; 
c) o sujeito do discurso não é único, mas divide o espaço do seu discurso com o 
outro na medida em que orienta, planeja, ajusta sua fala tendo em vista seu 
interlocutor e também porque dialoga com a fala de outros sujeitos (nível 
interdiscursivo); 
d) porque na sua fala outras vozes também falam, o sujeito do discurso se 
forma, se constitui nessa relação com o outro, com a alteridade. Isto é, da 
mesma forma que tomo consciência de mim mesmo na relação que tenho 
com os outros, o sujeito do discurso se constitui, se reconhece como tendo 
uma determinada identidade na relação com outros discursos produzidos, 
com eles dialogando, comparando pontos de vista, divergindo, etc. 
Artur
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Artur
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Artur
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UNIDADE 6 - A TEORIA CRÍTICA DO DISCURSO 
 
Até agora tratamos apenas da Análise do Discurso de vertente francesa, no 
entanto, há outras teorias que também se dedicam aos estudos do discurso, uma 
delas a Análise Crítica do Discurso - ACD. 
Tendo sua origem no mundo anglo-saxão, essa teoria tem um maior apreço 
pelo empirismo e pela questão textual. A maior distinção com relação à Análise do 
Discurso de linha francesa, AD, refere-se, porém, à sua filiação teórica e histórica. 
Os trabalhos teóricos que falam da distinção entre a AD e ACD buscam 
responder a um determinado conjunto de pressupostos que autorizam a construção 
e a operacionalização do discurso como objeto de análise: trata-se do chamado 
lugar de onde se fala e da chamada vigilância epistemológica. Pêcheux, principal 
teórico da AD, e Fairclough, estudioso da ACD, partem de lugares diferentes e isto 
acarreta ênfases e prioridades distintas. 
Fairclough (1994) propôs a chamada teoria social do discurso e com isso 
assumiu múltiplos deslocamentos: em relação a Saussure, à Sociolingüística e ao 
que ele chama de abordagem estruturalista do analista de discurso francês, corrente 
defendida por Michel Pêcheux. Segundo a proposta de Fairclough, para o real 
entendimento do discurso é necessário se considerar o uso da linguagem como 
forma de prática social e não como atividade puramente individual ou como reflexo 
de variáveis situacionais. O discurso deve ser visto como um modo de ação, como 
uma prática que altera o mundo e altera os outros indivíduos no mundo. Essa 
dimensão do discurso, constituída no social, possuiria três efeitos: 1) o discurso 
contribui para a construção do que é referido como "identidades sociais" e posições 
de sujeito, para o sujeito social e os tipos de EU; 2) O discurso contribui para a 
construção das relações sociais; 3) o discurso contribui para a construção de 
sistemas de conhecimento e crença. Seriam essas as três funções da linguagem, 
segundo o autor. 
Nos termos em que é apresentada a noção de discurso dentro da moldura 
teórica da ACD, a idéia de sujeito ganha divergências com relação a esse conceito 
para a AD. Para a ACD, o processo de interpelação ideológica, tal como é descrito 
na AD, é muito rígido e faz com que o sujeito desapareça ao estilo estruturalista. 
Para Fairclough, o agente-sujeito é uma posição intermediária, situada entre a 
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determinação estrutural e a ação consciente. Ao mesmo tempo em que sofre uma 
determinação inconsciente, ele trabalha sobre as estruturas no sentido de modificá-
las conscientemente, em um espaço que se afirma muito mais amplo que na AD. É 
como se a estrutura estivesse em constante risco material em função de práticas 
cotidianas de agentes conscientes. 
O discurso é ainda proposto como uma noção tri-dimensional como uma 
tentativa de reunir três domínios: a teoria lingüística, a macro-sociologia e a micro-
sociologia. Esses três níveis compreendem a dimensão textual, que incorpora as 
técnicas da lingüística sistêmica de Halliday, a dimensão da prática discursiva como 
uma prática social de produção, distribuição e consumo de textos - uma prática de 
atores ativos que atribuem sentido - e a dimensão social que trata das práticas 
discursivas em relação à estrutura social. 
Para Halliday (1989), o estudo da lingüística instrumental leva, ao mesmo 
tempo, à compreensão da natureza da linguagem como um fenômeno integral. A 
lingüística sistêmico-funcional, vertente seguida pelo autor, defende a idéia de que 
os sistemas lingüísticos são abertos à vida social, pois se constroem na interseção 
das macrofunções da linguagem: deacional – a construção e a representação da 
experiência; interpessoal – a construção e a representação das relações sociais e 
das identidades sociais; e textual – o estabelecimento de elos coesivos (textura). 
O texto na perspectiva de Fairclough, embasado nas teorias de Halliday, é 
definido de duas maneiras: a) como dimensão semiótica da prática social; e b) como 
contribuição discursiva produzida em um contexto social para ser retomada, 
incorporada, questionada, ecoada, ironizada ou transformada em outros contextos 
espaciais e temporais. Assim, a análise lingüística e a semiótica passam a ser um 
dos pilares da teoria, juntamente com a análise interdiscursiva. Os textos são, então, 
considerados em suas múltiplas formas, incluindo elementos orais, escritos e 
visuais. 
A partir da noção de semiótica, ciência geral dos signos, passou-se a 
considerar como objeto de análise não somente o texto expresso em forma de 
estruturas lingüísticas, mas também qualquer outro sistema de signos - Artes 
visuais, Música, Fotografia, Cinema, Culinária, Vestuário, Gestos, etc. Objetos de 
estudo, como um filme ou uma estrutura de mitos, são encarados, a partir de então, 
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como textos que transmitem significados, sendo esses significados tomados como 
derivações da interação ordenada de elementos portadores de sentido, os signos, 
encaixados num sistema estruturado, de maneira parcialmente análoga aos 
elementos portadores de significado numa língua. A partir, então, da noção de 
semiótica, uma ilustração, por exemplo, mesmo que não contenha nenhum texto 
escrito, como a que se segue abaixo, é vista como portadora de sentido e passa a 
constituir objeto de análise discursiva. 
 
 
Também é possível se perceber a diferença entre as duas abordagens - AD e 
ACD - no que diz respeito à relação estrutura/acontecimento. Esses termos se 
entrecruzam e encontram tratamento tanto de um lado como de outro, seja em 
função de seu vasto leque de possibilidades metodológicas, seja em função da 
dialética constitutiva da proposta de caracterização do discurso de Fairclough. O 
acontecimento discursivo apresenta práticas discursivas e não-discursivas 
motivadas estruturalmente, mas por outro lado, os sujeitos é que estão a todo o 
momento ressignificando, colocando as estruturas em jogo em suas práticas 
discursivas. As estruturas e as práticas revelam-se fluidas, e essa mobilidade que 
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recoloca o sujeito, agora ator motivado seja intencional ou ideologicamente, 
novamente no centro. O que é fundamental na AD, e ignorado na ACD, é a 
sofisticação na definição da estrutura da língua, ou da materialidade lingüística - 
expressão que fornece uma idéia mais completa do que se trata a língua: uma 
estrutura atravessada por eventos sócio-históricos. 
Os textos multimodais, como tratados pela ACD, são analisados, de um lado, 
através de objetos tradicionais como o vocabulário, os aspectos semânticos e a 
gramática; e de outro, aspectos como as formas de ligação frasal (coesão/textura) e 
a estrutura global dos textos. 
A gramática é analisada em três dimensões: a transitividade, a modalidade e 
o tema, correspondendo às funções ideacional, interpessoal e textual. A 
transitividade é estudada nos processos lingüísticos de apassivação, em que a 
posição do agente na ordem da frase é alterada. O agente pode, também, ser 
omitido, desconsiderando-se a responsabilidade pela ação. Outro processo ligado à 
transitividade é a nominalização, caso em que se omitem o agente e o objeto, como 
no exemplo “as invasões do Distrito Federal”, que é um sintagma nominal derivado 
da oração “grupos de imigrantes/sem terra invadiram áreas do Distrito Federal”. 
Como a apassivação, a nominalização é um processo ideológico, pois é naturalizada 
e manipulada a idéia de invasão da terra pública. É sabido que outros grupos fazem 
“grilagem” de áreas públicas no Distrito Federal, mas o ato ilegal é atribuído aos 
imigrantes/sem terra. (COSTA et al., 1997). 
O tema é analisado com relação aos elementos lingüísticos que ocorrem em 
posição inicial (tema) e final (rema) na oração. A mudança desses elementos na 
estrutura frasal está associada à ideologia. Geralmente, se movimenta para a parte 
inicial a informação que é considerada mais relevante. Assim, em um período como 
Mais uma vez, o presidente não sabe de nada, o autor enfoca a questão da 
repetição ao mover a expressão mais uma vez para o início da sentença. O período, 
que se refere ao desconhecimento do presidente Lula de atos de corrupção 
ocorridos em seu governo, evidencia a posição do autor com relação à política 
brasileira em que freqüentemente há um político afirmando ignorar estratégias de 
corrupção em sua gestão. 
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No quadro apresentado abaixo, é possível perceber a interação dos níveis de 
produção que constituem o texto na perspectiva de Halliday adotada por Faircoulgh. 
 
 
 
Resumindo: na produção textual, há a interação de diversos níveis 
(experiencial, interpessoal e textual) como forma de análise gramatical das frases 
que produzem um texto, em conexão com o gênero discursivo, com as ideologias 
(elemento cultural) e com o registro (elemento situacional). 
Na perspectiva de Fairclough, o discurso se apresenta de três formas: como 
ação, representação e identificação. Esses são os principais sentidos construídos 
nos textos; a ação corresponde aos gêneros discursivos, a representação, aos 
discursos e a identificação, aos estilos. Os gêneros discursivos são (inter)ações, 
caracterizadas como formas textuais e sentidos derivados dos propósitos das 
situações sociais, determinando os textos falados, escritos e visuais. 
Para Faircoulgh, o foco dos estudos atuais deve estar na mudança social e 
nas práticas discursivas que lutam por hegemonia, pois é dentro das práticas 
discursivas que os conceitos são construídos, mas é também dentro delas que ele 
pode ser desafiado, podendo, em alguns casos, levar a mudança. 
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UNIDADE 7 - GÊNEROS DO DISCURSO 
 
Por sua relação intrínseca, discurso e texto são frequentemente tratados 
como uma mesma coisa, no entanto, há uma diferença sutil entre essas duas idéias. 
O discurso, como dito anteriormente, carrega um conjunto de crenças e valores e se 
manifesta linguisticamente através de textos. Dessa forma, a análise de um discurso 
parte da análise de um texto, que pode ser oral, escrito ou visual. O texto, por sua 
vez, é fruto de qualquer interação humana mediada pela língua, assim, pode ser 
tanto escrito quanto oral. 
Tudo que o homem faz e produz em termos de linguagem corresponde a um 
discurso. Há o discurso político, o discurso científico, o religioso, o jornalístico, 
dentre outros, e, uma vez que o discurso se realiza através do texto, para cada um 
desses discursos há diferentes formatos de texto: discurso ou debate para o 
discurso político, sermão ou oração para o discurso religioso e assim por diante. 
Cada discurso corresponde, ainda, a uma esfera de atividade do homem que exige 
do falante um uso diferente da linguagem, cada um desses “usos” representa um 
gênero do discurso: um recado, uma reunião, uma aula, etc. Os gêneros do discurso 
podem ser definidos, dessa forma, como diferentes formas de uso da linguagem 
conforme as esferas de atividade em que está inserido o falante/escritor. 
Segundo Brandão (no