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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 2
CAPÍTULO 1 – TRABALHANDO OS CONCEITOS: A PALAVRA E O LÉXICO ...... 3
CAPÍTULO 2 – GRAMÁTICA E SUAS DEFINIÇÕES ................................................ 9
2.1– ESTUDOS DA LINGUAGEM ...................................................................................... 13
CAPÍTULO 3 – A LINGUAGEM, O LÉXICO E O TEXO ........................................... 16
3.1 – A PRODUÇÃO E A LEITURA DE TEXTOS ....................................................... 20
3.1.1 – As condições de produção de um texto ................................................. 20
3.1.2 – Objetivo .................................................................................................. 20
3.1.3 – A situação concreta de interação ........................................................... 20
3.1.4 – Conhecimentos prévios .......................................................................... 20
3.2 – COESÃO E COERÊNCIA TEXTUAIS .......................................................................... 22
3.2.1 – A coesão textual ..................................................................................... 23
3.2.2 – Coerência textual ................................................................................... 26
CAPÍTULO 4 – DISCUTINDO O LÉXICO NO NÍVEL DOS GÊNEROS TEXTUAIS . 27
4.1- TIPOS TEXTUAIS .................................................................................................... 29
4.1.1 – O lugar da narrativa ................................................................................ 29
4.1.2 – Descrição ............................................................................................... 32
4.1.3 – Argumentação ........................................................................................ 32
4.1.4 – Exposição ............................................................................................... 34
4.1.5 – Injunção .................................................................................................. 34
CAPÍTULO 5 – TEORIA DA LINGUAGEM: SEMÂNTICA ....................................... 35
5.1. A SEMÂNTICA FORMAL .......................................................................................... 38
5.2. A SEMÂNTICA DA ENUNCIAÇÃO .............................................................................. 44
5.3. A SEMÂNTICA COGNITIVA ...................................................................................... 47
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 53
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 55
Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de
direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios
eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e
recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.
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INTRODUÇÃO
É comum ao ser humano atribuir sentido às coisas que o rodeiam, sobretudo
às que fazem parte ou estão de alguma forma relacionadas à linguagem. Ao
pensarmos nessa atividade que nos é peculiar, percebemos que ela não acontece
de maneira simples, como pode parecer à primeira vista, nem possui um padrão ou
forma fixa para acontecer. Os estudos mais recentes sobre a questão do sentido
apresentam uma análise segundo a qual o sentido é resultante de um processo. Ou
seja, o sentido não é uma coisa pronta, acabada e colocada sobre algo, e sim
elaborado a partir de um processo de construção.
Como todo ato processual, a produção do sentido demanda uma sucessão de
situações/ condições. Especificamente no caso do sentido são três as condições
básicas para seu processo de produção, as quais apesar de analisadas
separadamente acontecem numa situação real, de modo simultâneo.
Em suma, sabe-se que as palavras são elementos dos quais dispomos
permanentemente para formar enunciados e, consequentemente, produzir sentido
para os mesmos (relação arbitrária entre os signos). Na maioria das vezes usamos
de modo automático essas palavras sem nos dar conta de como e porque o
fazemos. Essas unidades não estavam disponíveis para uso, no entanto nós a
formamos no momento em que há necessidade de usá-las. Isto se devido à
utilização da ideia de uma palavra em uma outra classe gramatical e à necessidade
de acréscimo semântico numa significação lexical básica.
O objetivo principal deste material, portanto, é verificar como o léxico pode ser
analisado a partir de vários ângulos, no nível da língua, do texto, do gênero e do
discurso. Num segundo momento, explorar vários aspectos relacionados ao uso do
vocabulário, na escrita e na fala. Faremos, também, um panorama dos estudos do
léxico do ponto de vista de várias vertentes (elemento transdisciplinar da lingüística
aplicada).
Esperamos que esta obra possa contribuir para alimentar esse intercâmbio e
fazer com que se expanda cada vez mais o interesse pelo estudo da linguagem e as
vertentes que são desencadeadas a partir dele.
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CAPÍTULO 1 – TRABALHANDO OS CONCEITOS: A
PALAVRA E O LÉXICO
A palavra é uma dessas unidades linguísticas que são muito fáceis de
reconhecer, mas bastante difíceis de definir, se tomarmos como base de definição a
língua falada. Isto porque na língua falada não fazemos pausas sistemáticas entre
cada palavra pronunciada.
Na língua escrita, no entanto, não temos problemas de definição: podemos
definir a palavra como qualquer sequência que ocorra entre espaços e/ ou sinais de
pontuação. Referimos agora às sequências possíveis na língua; uma sequência
como pqgnr seria interpretada provavelmente como um erro de digitação, nunca
como uma palavra da língua portuguesa.
Há, porém, outro eixo em que encontramos dificuldade para definir o que é
palavra: a distinção que normalmente estabelecemos entre duas palavras distintas e
duas formas da mesma palavra.
Todavia, nos seus diferentes eixos, o conceito de palavra sempre constitui um
problema para gramáticos e lingüistas, mas vale ressaltar que a palavra é uma
unidade linguística básica, facilmente reconhecida por falantes em sua língua nativa.
Sendo assim seguimos com a discussão acerca da palavra e seus múltiplos
sentidos. Para isto, é gradativamente importante, como já foi dito acima, traçar as
diferenças entre língua escrita e língua falada. Aquela, de caráter secundário, tem
acima de tudo o objetivo de superar os limites inerentes à língua falada em termos
de tempo e espaço. Tendo, portanto, o objetivo de permanência e não de apresentar
necessariamente pressão de tempo para sua produção; a língua escrita tende a ser
mais cuidada, isto é, mais tensa e formal que a língua falada, assim como mais
conservadora.
Na sociedade em que vivemos, o papel da língua escrita acentua a tendência
formalizante, de acordo com os padrões da GT. Por um lado, o valor do bem
escrever é importante em muitos setores da sociedade, sendo estigmatizado,
contudo, o não domínio da língua escrita padrão. Por outro lado, as alternativas de
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gramática tradicional
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Nota
Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de
direitos autorais. Nenhuma(no caso, fala do
narrador), ele é posterior à história contada, que, por conseguinte, é anterior a ele;
por isso o subsistema do pretérito (pretérito perfeito, pretérito imperfeito, pretérito
mais-que-perfeito e futuro do pretérito) é o conjunto de tempos por excelência da
narração.” (Platão & Fiorin, 1996)
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4.1.2 – Descrição
Um texto descritivo é aquele em se expõe as características de um ser – seja
pessoa, objeto, situação etc. - considerando-o fora da relação de anterioridade e
posterioridade. Ao contrário do texto narrativo, a descrição não relata propriamente
mudanças de situação, mas propriedades e aspectos simultâneos dos elementos
descritos, considerados, pois, numa única situação. (Platão & Fiorin, 1996)
O texto de base descritiva está presente tanto na ficção (romances,
no(romances, novelas, contos, poemas) como em outros gêneros textuais (textos
científicos, enciclopédias, propagandas, jornais, revistas etc.) e objetiva a
visualização do cenário onde uma ação se desenvolve e das personagens que dela
participam: trata-se do plano de fundo que explica e situa a ação, em uma narrativa,
ou que comenta e justifica a argumentação.
Existem características lingüísticas específica do texto descritivo: freqüência
de figuras (metáforas, metonímias, comparações, sinestesia), adjetivos, formas
adjetivas, uso de verbos de estado, situação ou indicadores de propriedades,
atitudes, qualidade, usados principalmente no presente e no imperfeito do indicativo
(ser, estar, haver, situar-se, existir, ficar etc), uso de advérbios de localização
espacial.
4.1.3 – Argumentação
O texto argumentativo caracteriza-se pela presença de um argumento que,
diante de um tema polêmico, apresenta uma tese, apoiada em argumentos, com o
propósito de convencer um público alvo. Cabe ressaltar que argumentar é o
processo de chegar a conclusões e persuadir é o ato de convencer os demais a
aceitarem essas conclusões.
O argumentador
A eficácia de um texto argumentativo está parcialmente ligada à figura do
argumentador. Nesse aspecto o texto dissertativo se mostra distinto do narrativo e
do descritivo, em que narrador e observador têm menor destaque. O argumentador
é a pessoa responsável pelos argumentos apresentados no texto e só tem direito à
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fala em quatro situações: quando possui credibilidade, quando tem autoridade ou
está em exercício de um direito ou de um dever. (CARNEIRO, 2001)
Uma pessoa pode atribuir-se autoridade, mesmo que não a possua, assim
como pode simular situações de direito de fala, atribuir-se credibilidade ou
considerar-se em situação de dever de argumentar.
É lícito que aqui se ressalte o fato de que o argumentador deve ocupar a
posição de autoridade quando o tema se tratar de seu provável campo de
conhecimento, com o propósito de ser irrefutável.
Em um texto argumentativo, distinguem-se três
componentes: a tese, os argumentos e as estratégias argumentativas.
• A tese, ou proposição: representa uma tomada de posição diante do tema e
pode ser apresentada de acordo com uma posição já tomada ou em oposição a ela.
Em síntese, é a idéia que se pretende defender.
• Os argumentos: podem ser fruto da experiência pessoal do argumentador, à
qual se atribui valor indiscutível; são sustentados por dados que se referem ao tema.
• As estratégias argumentativas: são os recursos (verbais e não-verbais)
utilizados para envolver o leitor/ouvinte de forma a convencê-lo, ou persuadi-lo e
gerar mais credibilidade ao texto.
A atividade comunicativa não pressupõe apenas que, simplesmente, o
receptor entenda a mensagem transmitida pelo emissor, mas, considerando que
comunicar é agir sobre o outro, então a função daquele que envia uma mensagem é,
também, fazer com o que o receptor aceite-a: tem-se a argumentação como
instrumento lingüístico que visa a persuadir, a fazer com que o leitor/ouvinte aceite o
que lhe foi comunicado. São diversos os gêneros textuais que utilizam esse recuso
argumentativo: o texto acadêmico, científico, uma propaganda etc.
Os argumentos usados para convencer aquele que ler/ ouve o texto podem
ser de diferentes tipos: argumento de autoridade, argumento baseado no consenso,
argumento baseado em provas concretas, argumento com base no raciocínio lógico
e argumento da competência lingüística. (Platão & Fiorin, 1996)
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É importante ressaltar que nem sempre o texto argumentativo obedece às
exigências prescritas pela norma culta da língua. Muitas vezes para se alcançar a
persuasão pretendida é preciso levar em consideração o contexto em que o texto é
produzido.
4.1.4 – Exposição
Um texto expositivo apresenta, de maneira geral, a explicação de um
determinado tema. São textos expositivos: reportagens, textos didáticos, instruções
de uso, artigos científicos, monografias e todos os gêneros textuais que apresentam
a finalidade de transmitir informações.
A partir desse propósito comunicativo, exigem-se, nesse tipo de texto, clareza
na construção dos parágrafos e das orações, objetividade, vocabulário apropriado e
ordenação das idéias.
4.1.5 – Injunção
Uma injunção indica como realizar uma ação, estabelece um conselho a
respeito de determinado assunto ou fato. É também utilizado para predizer
acontecimentos e comportamentos. Um texto desse tipo utiliza uma linguagem
objetiva e simples, desprovida de ironias, e os verbos empregados são, em sua
maioria, do modo imperativo, embora também possa ser encontrado verbo no futuro
do presente. Gêneros textuais como instruções, receitas, regulamentos, regras de
jogo são do tipo injuntivo.
A injunção pressupõe um emissor e um receptor parceiros no processo de
transmissão/compreensão da mensagem: o ato comunicativo é composto por
enunciador e enunciatário em um universo discursivo no qual o primeiro é
conhecedor da competência do segundo e, por isso, reconhecedor do saber e
poder-fazer deste. Assim, a comunicação não se torna conflituosa, já que é
transmitida e interpretada de forma consensual.
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CAPÍTULO 5 – TEORIA DA LINGUAGEM: SEMÂNTICA
A Semântica e a Linguística Textual são dois campos de estudo da linguística
que se aproximam em muitos aspectos. A Semântica é a ciência do sentido e a
Linguística Textual é o ramo da Linguística que trata da construção do sentido no
texto. Daí a possibilidade de se apresentar em um mesmo material de estudo esses
dois campos do conhecimento.
Com relação à Semântica, podemos dizer que a preocupação com o sentido
das palavras e sua relação com o mundo datam da antiguidade. Os filósofos gregos
já manifestavam uma certa curiosidade com relação à motivação do sentido das
palavras e travavam longas discussões nas quais alguns defendiam que a relação
entre a palavra e seu significado não era arbitrária, que tinha razão de ser, outros
acreditavam que o sentido dado a uma sequência sonora que configurava uma
determinada palavra era convencional, e arbitrária, portanto.
A Linguística Textual, por outro lado, é uma ciência bastante nova tendo seus
desenvolvimentos iniciais já na segunda metade da década de 60 e primeira metade
dos anos 70. Durante seus primeiros anos, essa ciência ocupava um lugar marginal
nos estudos linguísticos, que nessa época estavam voltados para a configuração
geral da linguagem. A preocupação com a questão do texto recebeu um maior
destaque somente nos 80 e, ainda nessa época, apareceram estudiosos
interessados no processamento cognitivo do texto, o que arranjou o cenário para o
surgimento de uma tendência que dominaria a década de 90, o sócio-cognitivismo.
O que se verifica ao estudar a história desses dois campos do conhecimento
linguístico é que desde o seu aparecimento até a sua consolidação, a Semântica e a
Linguística Textual percorreram um longo caminho e nesse percurso acabaram por
ampliar e modificar a forma com a qual os fenômenos linguísticos eram tratados.
Sua contribuição para o desenvolvimento do conhecimento linguístico foi tão
importante que fez com que elas se estabelecessem definitivamente no cenário dos
estudos da linguagem.
Pode-se dizer que a Semântica é a ciência do significado. No entanto, para se
definir o objeto de estudos da semântica é preciso, antes, definir o conceito de
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significado. Uma tarefa frequentemente complicada, uma vez que o termo se aplica
a várias e variadas situações de fala: Se questionamos qual o significado de mesa,
queremos saber o significado de um termo; por outro lado, se a pergunta é “Qual o
significado de sua atitude?”, nossa questão perpassa pela intenção não-linguística
do nosso interlocutor; questionamos-nos ainda sobre o significado de um filme,
sobre o significado da vida ou sobre o significado de uma pichação na parede.
Enfim, há uma ampla gama de aplicação do termo “significado” em sentidos tão
dispersos que se torna praticamente impossível abarcar todas essas situações sem
que isso comprometa a validade de uma teoria científica sobre o significado.
Uma outra dificuldade relacionado a formulação de uma ciência do significado
está no fato de o tratamento da significação extrapolar as fronteiras da linguística
indo se ancorar em questões relativas ao conhecimento. Na tentativa de responder a
de que forma atribuímos significado a uma sequência de sons, chega-se a um ponto
fundamental que é a necessidade de se adotar um ponto de vista sobre a aquisição
de conhecimento. É justamente nesse campo, muitas vezes espinhoso, que os
semanticistas se debruçam na busca de uma resposta que esclareça a relação entre
linguagem e mundo, ou, sobre como é possível o conhecimento.
Se, como anteriormente afirmado, há várias formas de se conceber o
significado, há também várias semânticas, cada uma elegendo a sua noção
particular de significado. Cada uma dessas semânticas responde diferentemente à
questão da relação entre linguagem e mundo. O estruturalismo saussureano, por
exemplo, definia o significado como uma unidade de diferença, o significado se dá
numa estrutura de diferenças com relação a outros significados – a cadeira se define
por não ser sofá, nem mesa, nem banco. Assim, para esse ponto de vista, o
significado não tem nada a ver com o mundo, cadeira não é o nome de um objeto no
mundo, mas a estrutura de diferença com sofá, mesa, banco.
Ao estabelecer sua teoria, Saussure logo encontraria diversos seguidores que
fariam ecoar suas tendências no seio da sociedade cientifica, sofrendo um confronto
por volta da década de 1930, com o surgimento das tendências da Sintaxe
Estrutural, de Martinet, na Escola de Paris. Nesse período, surgem, então, grandes
nomes e movimentos de estruturalistas da linguagem, dando suas contribuições
para um melhor entendimento da linguística no período saussuriano. Por volta de
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1914 na Escola de Genebra, encontramos Bally e, aproximadamente, em 1923, na
Escola de Moscou, temos como exemplo Propp, um estruturalista russo, cujos
estudos deram ênfase nos textos literários. Bally teve um papel de destaque nos
estudos semânticos ao propor conhecimentos voltados à estilística. Bally a definiria
como estudo dos elementos afetivos da linguagem, situada na sincronia e integrada
no problema da distinção entre a língua e a fala. Bally e seus seguidores procuraram
classificar o valor estilístico dos meios de expressão e determinar as razões da
escolha a empregar esta ou aquela opção. E assim, muitos nomes com
preocupações semelhantes no campo linguístico assumem seus papéis de destaque
nos estudos que norteariam a consolidação da história da Semântica Geral.
Já para a Semântica Formal o significado é um termo complexo que se
compõe de duas partes, o sentido e a referência; o sentido de um nome é o modo de
apresentação do objeto/referência. Assim, nessa perspectiva, a relação da
linguagem com o mundo é fundamental.
Outra perspectiva, herdeira do estruturalismo, a chamada Semântica da
Enunciação, vê o significado como o resultado do jogo argumentativo criado na
linguagem e por ela. A principal diferença com relação ao estruturalismo é que na
Semântica da Enunciação, a palavra cadeira, por exemplo, significa as diversas
possibilidades de encadeamentos argumentativos das quais a palavra pode
participar. Seu significado é o somatório das suas contribuições em inúmeros
fragmentos do discurso. Já para a Semântica Cognitiva, cadeira é a superfície
linguística de um conceito adquirido por meio de nossas manipulações sensório-
motoras com o mundo. É tocando objetos que são cadeiras que formamos o
conceito pré-linguístico cadeira que aparece nas práticas linguísticas como ‘cadeira’.
Esse conceito teria uma estrutura prototípica, ou seja, se definiria por um conjunto
de traços partilhados por todos os membros do conjunto – um objeto de quatro
pernas, por exemplo.
Como se vê, a semântica é tratada dentro de mais de uma corrente teórica,
sendo a Semântica Formal, a Semântica da Enunciação e a Semântica Cognitiva as
três vertentes que compõe o atual quadro dos estudos do significadono Brasil.
Assim, buscaremos nas próximas seções apresentar uma descrição de cada uma
dessas perspectivas.
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5.1. A Semântica Formal
A Semântica Formal foi um dos primeiros referenciais teóricos e partiu da
consideração de que as sentenças se estruturam logicamente. As bases para esta
forma de tratamento do significado estão nas relações lógicas desenvolvidas por
Aristóteles.
Aristóteles desenvolve um tipo de raciocínio dedutivo em que se evidencia a
existência de relações de significado que se dão independentemente do conteúdo
das expressões. Esse raciocínio, conhecido como silogismo, consistia no seguinte
processo: se formos capazes de garantir a validade de duas premissas, poderíamos
concluir a terceira. Um exemplo clássico de silogismo pode ser assim descrito:
(1) Premissa 1 – Todo homem é mortal;
Premissa 2 – Platão é um homem;
Premissa 3 – Logo, Platão é mortal.
A relação lógica (ou formal) expressa no exemplo acima está inserida, na
verdade, numa relação de conjuntos. O conjunto dos homens está contido no
conjunto dos mortais; se Platão é um componente do conjunto dos homens, então
ele é necessariamente um componente do conjunto dos mortais. Assim, estabelece-
se relações entre termos (homem/mortal) sem que se atente para o seu significado,
o que implica que independente das expressões que compõem as relações, o
raciocínio será sempre válido.
A Semântica Formal, tal como é concebida hoje, deve muito a um matemático
e lógico alemão chamado Gottlob Frege (1848-1925). As maiores contribuições de
Frege à semântica foram o estabelecimento da distinção entre sentido e referência e
do conceito de quantificador. De acordo com esse autor, o estudo científico do
significado só é possível se diferenciarmos os seus diversos aspectos para reter
apenas aqueles que são objetivos. É com esse raciocínio que ele exclui da
semântica o estudo das representações individuais que uma dada palavra pode
provocar. Quando ouço a palavra árvore, por exemplo, formo uma ideia de árvore
que é apenas minha, pois tem a ver com minha experiência subjetiva no mundo;
minha árvore pode ser uma jaboticabeira, como a de uma outra pessoa pode ser a
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de um ipê ou simplesmente a de uma árvore seca. Essas representações
individuais, não passíveis de inspeção, portanto, são transferidas à Psicologia e a
Semântica acaba por restringir seus estudos aos aspectos objetivos do significado.
O sentido de um nome próprio como ‘rainha dos baixinhos’ é o que nos
possibilita chegar a um certo objeto no mundo de conhecimento público, a Xuxa - a
referência. Dessa forma, tem-se que o sentido é o que nos permite chegar a uma
referência no mundo. É a partir dessa distinção apresentada por Frege que podemos
explicar a diferença entre:
(2) A rainha dos baixinhos é a rainha dos baixinhos.
(3) A rainha dos baixinhos é a estrela da globo.
Enquanto a sentença expressa em (2) é uma verdade óbvia que independe
dos fatos no mundo, a sentença (3) apresenta uma relação de igualdade que
necessita ser verificada no mundo. Assim, se pudermos, de fato, estabelecer que
‘rainha dos baixinhos’ é o mesmo objeto que ‘estrela da globo’, aprendemos, então,
uma verdade sobre o mundo: que podemos nos referir à Xuxa de pelo menos duas
maneiras diferentes. A sentença (3) expressa uma verdade sintética, isto é, uma
verdade que só pode ser apreendida pela inspeção de fatos no mundo, por isso,
diferentemente da verdade expressa em (2) cujo grau de informatividade é zero, ela
pode nos proporcionar um ganho real de conhecimento.
É somente com a distinção entre sentido e referência que somos capazes de
explicar a diferença entre as sentenças (2) e (3), pois embora ambas tenham a
mesma referência, elas expressam pensamentos diferentes. Se o sentido é o
caminho que nos permite chegar à referência, quando descobrimos que dois
caminhos levam à mesma referência, aprendemos algo sobre esse objeto,
adquirimos conhecimento sobre o mundo. Quando tomamos consciência da
igualdade, descobrimos dois sentidos para alcançar a mesma referência. Uma
mesma referência pode, pois, ser recuperada por meio de vários caminhos.
Considere, por exemplo, a cidade do Rio de Janeiro. Podemos nos referir a ela por
meio de diferentes sentidos: a cidade do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, Rio
de Janeiro, a capital do Estado do Rio de Janeiro.
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Frege, ao apresentar a sua proposta sobre a distinção entre sentido e
referência, recorre a uma analogia que consistia num telescópio apontando para a
lua. A lua é a referência uma vez que sua existência e propriedades independem
daquele que a observa, no entanto, ela pode ser olhada a partir de diferentes
perspectivas e a cada ângulo de observação pode-se apreender algo novo sobre
ela. A imagem da lua alcançada pelas lentes do telescópio é comum a qualquer
pessoa, é a essa imagem compartilhada que é chamada sentido. Se, por outro lado,
mudamos o telescópio de posição, vemos uma face diferente da mesma lua,
alcançamos o mesmo objeto a partir de outro sentido.
É o sentido o que nos permite chegar a um objeto no mundo (uma referência),
mas é esse objeto no mundo que nos permite estabelecer um juízo de valor, ou seja,
avaliar se o que dizemos é verdadeiro ou falso. Assim, o que torna uma dada
premissa verdadeira não está na linguagem, mas nos fatos do mundo.
Para Frege, um nome próprio deve ter sentido e referência. Rio de Janeiro e
Capital do Estado do Rio de Janeiro são dois nomes próprios, porque têm sentido e
nos permitem falar sobre um objeto no mundo, a cidade do Rio de Janeiro. Os
nomes próprios são saturados porque expressam um pensamento completo e
podemos, a partir deles, identificar uma referência. No entanto, há expressões que
são incompletas e que, portanto, não nos permite chegar a uma referência. Esse é o
caso da expressão ‘ser capital de’. Esse termo, por não expressar um pensamento
completo, não serve para alcançarmos uma referência. Veja os exemplos abaixo:
(4) Belo Horizonte é a capital de Minas Gerais.
(5) Florianópolis é a capital de Santa Catarina.
Essas duas sentenças são nomes próprios porque expressam um
pensamento completo e têm referência. Já o termo ‘a capital de’, que se repete nas
duas sentenças, é uma expressão insaturada. Para expressar um pensamento
completo, a oração deve ser preenchida tanto no espaço que a antecede quanto no
que a sucede. Esses lugares vazios são chamados argumentos e a expressão
insaturada chama-se predicado. Nesse caso, especificamente, tem-se um predicado
de dois lugares, porquehá dois lugares a serem preenchidos por argumentos:
argumento 1 é a capital de argumento2.
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Esse contraste entre funções incompletas, que precisam ser preenchidas por
argumentos, e funções completas diz respeito à capacidade de referenciação. Isso
quer dizer que uma oração insaturada precisa ser completada por argumentos para
ser um nome próprio e, com isso, ter como referência um valor de verdade.
O predicado pode ser preenchido por um nome próprio como ocorre nos
exemplos apresentados como pode também ser preenchido por um outro tipo de
argumento, a expressão quantificada ou quantificador. Uma oração quantificada é
aquele que apresenta uma expressão quantificada que indica certo número de
elementos, é o caso de:
(6) Todos os homens são mortais.
(7) Há uma garrafa dentro da geladeira.
As palavras grifadas exercem um papel de quantificação, isto é, traçam limites
à aplicação das propriedades expressas pelas demais palavras.
Um quantificador age sobre a informação aplicada a um predicado. Assim, em
(6), a sentença seria interpretada como uma informação de que a propriedade “se é
homem é mortal” tem uma aplicação universal, ou seja, o predicado ‘ser mortal’ se
aplica a todos os elementos que compõem o predicado ‘ser homem’. Por sua vez, a
sentença (7) seria interpretada como significando que há exatamente um objeto que
realiza a propriedade de ser garrafa e estar dentro da geladeira.
A interação dos quantificadores entre si, com a negação e com o plural, dá
origem a ambiguidades de um tipo particular, conhecidas como ambiguidades de
escopo. Considere a sentença: “O João não convidou só a Maria”. Essa sentença
possui duas interpretações possíveis: (1) o João só não convidou a Maria ou (2) o
João não só convidou a Maria, mas também outras pessoas. A diferença entre as
duas interpretações ocorre devido a combinação dos operadores não e só: ou o não
tem escopo sobre o só, gerando não só, ou o só é que tem escopo sobre o não,
produzindo só não.
Um outro elemento importante com relação ao papel dos nomes próprios, diz
respeito às descrições definidas e indefinidas. As descrições são sintagmas
nominais que tem por núcleo um substantivo comum. Da mesma forma que os
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nomes próprios, as descrições servem para constituir os objetos do mundo em
referentes. Muitos objetos não têm nome próprio, aí, frequentemente, optamos por
utilizar as descrições. Também quando o objeto possui um nome próprio podemos
optar por usar as descrições, já que essas têm a vantagem de apontar
características relevantes dos próprios objetos.
A maneira mais comum de se fazer referência a algum objeto consiste
justamente em se usar uma descrição indefinida na primeira referência e descrições
definidas (ou pronomes anafóricos) nas referências seguintes. Veja o exemplo:
(8) Era uma vez um rei1 que tinha uma bela filha2. Certo dia, o rei1
chamou a filha2 e falou...
Uma descrição se compõe, como pode se observar nos exemplos, de um
artigo (definido ou indefinido) e um substantivo comum. As descrições definidas são
aquelas que se iniciam por artigo definido, enquanto que as descrições indefinidas
são aquelas que começam com o artigo indefinido. O artigo definido carrega uma
marca de dêixis, o que significa dizer que ele remete à situação em que a sentença
é proferida.
Outra relação de sentido da qual tratou Frege, diz respeito à pressuposição.
Observe as orações abaixo:
(9) Pedro parou de bater na mulher.
(10) Pedro batia na mulher, no passado.
(11) Pedro não bate na mulher, atualmente.
As orações (10) e (11) apresentam, separadamente, duas informações que
aparecem juntas na oração (9) e representam uma situação que ocorreu no passado
(Pedro batia na mulher) e outra situação que ocorre no presente (Pedro não bate na
mulher). Esses desdobramentos de interpretação da oração (9) são possíveis devido
à presença do verbo parar de, que acompanhado do verbo bater indica que num
dado momento do passado Pedro batia na mulher e que no momento atual isso não
ocorre.
Para Frege, essa pressuposição de existência faz parte das condições de
verdade da sentença, mas não do seu sentido. Isso quer dizer que uma sentença
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como em (9) expressa um pensamento completo, mas para atribuirmos a ela um
valor de verdade pressupomos a existência de uma entidade da qual pressupomos
algo. Essa pressuposição existencial não é semântica, e como forma de defender
essa ideia, Frege levanta que se a pressuposição fosse semântica, a negação da
sentença seria ambígua. Então, uma sentença como “Pedro não parou de bater na
mulher” significaria, caso a pressuposição fosse semântica, que ou não existe um
Pedro ou o Pedro não parou de bater na mulher. No entanto, a negação não tem
escopo sobre o sujeito, isto é, não negamos a existência de alguém que é o Pedro,
mas negamos a afirmação de que ele parou de bater na mulher. Ou seja, a
pressuposição de que existe alguém que se chama Pedro se mantém inalterada na
negação, o que evidencia que essa não se confunde com o conteúdo da sentença.
Pensando, no entanto, na possibilidade da não-existência de um sujeito
(Pedro, no exemplo acima), Frege apresenta a seguinte solução: sentenças que se
referem a seres ou coisas que não têm existência real, ou seja, sentenças cuja
pressuposição de existência é falsa, têm sentido, mas não têm referência. Dessa
forma, elas não são nem verdadeiras e nem falsas.
Um outro estudioso, conhecido como Bertrand Russell, propôs uma outra
solução, a partir da consideração do artigo definido o enquanto quantificador.
Partindo da afirmação de que os quantificadores podem se combinar, ao se
considerar que o artigo definido é um quantificador, pode-se inferir que o operador
não incide sobre a proposição ou sobre parte da proposição, alterando-lhe o valor de
verdade, estabelecendo-se, então, relações de escopo.
A noção de escopo ajuda-nos a compreender a negação como uma operação
significativa que não afeta necessariamente todos os conteúdos da oração em que
ocorre.
Apesar das diferentes formas de se abordar o fenômeno, a Semântica Formal
considera que há pressuposição quando tanto o valor de verdade quanto a falsidade
da sentença dependem da verdade da sentença pressuposta.
O estabelecimento do conceito de pressuposição foi marcante, principalmente
no que tange aos estudos do significado, o que levou, na década de 70, a uma
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ampla gama de estudos sobre o tema. E, posteriormente, ao surgimento de um outro
modelo, a Semântica da Enunciação.
5.2. A Semântica da Enunciação
Segundo Ducrot, um dos maiores estudiosos da Semântica da Enunciação, a
forma de tratamento da linguagem pela Semântica Formal é inadequada, porque se
baseia num modelo informacional em que o conceito de verdade é externo à
linguagem. Na Semântica Formal, a linguagem é um meio para chegarmos a uma
verdade que está fora da linguagem, o que nos permitiria tratar de questões relativas
ao mundo e, com isso, adquirir um conhecimento sobre ele. Ducrot não acredita que
o conceito de referência em Frege esteja realmente cercado de realismo. Para ele, é
o nosso conhecimento de lua que depende do sentido. Fazendo uso da metáfora do
telescópio de Frege, Ducrot apresenta sua crítica dizendo que quando vemos a
mesma lua a partir de pontos de vista diferentes, não vemos luas diferentes. Embora
sutil, essa diferença é necessária para a distinção entre semânticas objetivas, que
postulam uma ordem no mundo que dá conteúdo à linguagem, e as semânticas
relativistas, que acreditam que não há uma ordem no mundo que seja dada
independentemente da linguagem e da história. A Semântica da Enunciação
acredita que a linguagem constitui o mundo e, por isso, se insere na perspectiva
relativista.
Para a Semântica da Enunciação, a referência não é mais do que uma ilusão
criada pela linguagem. Para essa perspectiva, estamos sempre inseridos na
linguagem e se há elementos, como os dêiticos, termos referenciais (pronomes,
artigo definido), que nos dão a sensação de estar fora da língua, essa sensação é
apenas ilusória. Para Ducrot, a linguagem é um jogo de argumentação enredado em
si mesmo; não falamos sobre o mundo, falamos para construir um mundo e a partir
dele tentar convencer nosso interlocutor da nossa verdade. Dessa forma, a verdade,
que na Semântica Formal era tida como um atributo do mundo, passa a ser relativa
à comunidade que se forma na argumentação. A linguagem, dessa forma, adquiri
um caráter dialógico ou argumentativo, uma vez essa passa a funcionar como um
jogo discursivo construído para convencer o outro de nossa verdade.
Artur
Realce
Artur
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A Semântica da Enunciação, como descrito, apresenta uma concepção de
linguagem que a distancia sobremaneira da Semântica Formal. Essa diferença de
concepção tem consequências importantes quando se observa a forma como o
fenômeno linguístico é tratado em uma e outra abordagem. Com relação à
pressuposição, por exemplo, a Semântica da Enunciação por considerar que a
linguagem não se refere, acredita que a pressuposição é criada pelo e no próprio
jogo de encenação que a linguagem constrói. É porque falamos de algo que esse
algo passa a ter a sua existência no quadro criado pelo próprio discurso, e é por isso
que atualmente o conceito de pressuposição é substituído no interior da abordagem
enunciativa pelo conceito de enunciador.
Na Semântica da Enunciação, um enunciado se constitui de vários
enunciadores que formam o quadro institucional que referenda o espaço discursivo
em que o diálogo vai se desenvolver. Um enunciador presente no enunciado situa o
diálogo no comprometimento de que o ouvinte aceite esse conteúdo pressuposto de
forma que negá-lo seria o mesmo que romper o diálogo.
Como forma de exemplificar a atuação da Semântica Enunciativa,
apresentamos novamente a sentença apresentada em (8) Pedro parou de bater na
mulher. O que foi descrito como pressuposição passa a ser chamado de enunciador.
Assim temos:
(12) Pedro parou de bater na mulher.
E1: Pedro batia na mulher, no passado.
E2: Pedro não bate na mulher, atualmente.
Nessa enunciação, o locutor põe em cena um diálogo entre dois
enunciadores, apresentados acima como E1 e E2, o que dá um caráter polifônico ao
enunciado. É como se duas vozes falassem: um enunciador que afirma que Pedro
batia na mulher, o que constitui o pressuposto, e, outro, que diz que ele não bate
mais na mulher, o posto.
Para a Semântica Formal, a negação de (12) não seria ambígua, porque não
há duas formas lógicas. Já para a Semântica da Enunciação, o problema da
ambiguidade estrutural pode ser tratada a partir do conceito de polissemia. O que
significa dizer que há diferentes tipos de negação, expressos por uma série de
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enunciadores. No exemplo acima, pode-se dizer que se negamos a fala do primeiro
enunciador, o pressuposto, realizamos uma negação polêmica; já se negamos o
posto, a negação ganha outro caráter, passando a ser considerada uma negação
metalinguística. Há assim, a presença de uma série de enunciadores e diferentes
tipos de negação. Veja:
(13) O presidente do Brasil não é sociólogo.
(13’) E1: Há um presidente do Brasil.
E2: Ele é sociólogo.
E3: E1 é falsa.
(13”) E1: Há um presidente do Brasil.
E2: Ele é sociólogo.
E3: E2 é falsa.
A hipótese da Semântica da Enunciação é a de que entre as pressuposições
não há uma diferença estrutural, mas uma diferença entre tipos de negação. Assim,
a pressuposição passa a ser tratada tendo como base a hipótese da polifonia e,
portanto, da existência de diferentes enunciadores, e a ambiguidade se desfaz pela
determinação de diferenças de uso das palavras: o não-polêmico e o não-
metalinguístico.
Além da negação polêmica e da negação metalinguística apontadas acima,
Ducrot distingue um terceiro tipo de negação, a negação descritiva. Nesse tipo de
negação, o locutor descreve um estado no mundo negativamente; portanto, na sua
enunciação não há um enunciador que retoma a fala de um outro enunciador
negando-a. Um dado de negação descritiva ocorre quando se descreve um estado
do mundo utilizando a negação: Não há um único pássaro no céu.
A negação fica, então, entendida como um fenômeno de polissemia que se
defini por identificar usos distintos que não relacionados.
Um dos pontos chave da Semântica da Enunciação está no fato de esta
possibilitar a descrição de fenômenos que envolvem gradação, os quais resistem ao
tratamento formal. Exemplos como:
(14) João comeu pouco.
(15) João comeu um pouco.
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Não são passíveis de receber uma análise formal, por outro lado, percebemos
que as orações não se equivalem. Para a Semântica da Enunciação, a diferença
entre as duas orações ocorre devido a um encadeamento discursivo distinto. A
hipótese é a de que os dois operadores, pouco e um pouco, direcionam
diferentemente uma mesma escala de comer que vai de comer muito a não comer.
5.3. A Semântica Cognitiva
A SemânticaCognitiva é um modelo teórico bastante recente, tendo seus
primeiros desenvolvimentos datados da década de 1980. Foi a partir de então que
tomou-se consciência de que todo fazer é necessariamente acompanhado de
processos de ordem cognitiva.
Para esse modelo, o significado é central na investigação sobre a linguagem.
Assim, acredita-se que a forma deriva da significação, uma vez que é a partir da
construção de significados que aprendemos. Tal concepção acaba por inserir a
Semântica Cognitiva entre os estudos funcionalistas da linguagem.
A Semântica Cognitiva, da mesma forma que a Semântica da Enunciação, se
opõe à Semântica Formal, a qual prega que o significado se baseia na referência e
no entendimento da verdade como correspondência com o mundo. A Semântica
Cognitiva acredita que o significado não tem nada a ver com a relação entre
linguagem e mundo, ao contrário, ela acredita que o significado é motivado. A
significação linguística, nesse sentido, emerge de nossas significações corpóreas,
dos movimentos de nossos corpos em interação com o meio que nos circunda.
A Semântica Cognitiva, por não considerar a hipótese da referência, se
aproxima muito da abordagem proposta pela Semântica da Enunciação. No entanto,
a Semântica Cognitiva se distancia da abordagem enunciativa por não considerar
que a referência é constituída pela própria linguagem e que esta trata-se de um jogo
de argumentação.
George Lankoff, o criador e maior pesquisador dos aspectos cognitivos da
significação, define essa abordagem como realismo experiencialista, levantando
assim a hipótese de que o significado é natural e experencial. Ele sustenta essa
proposta através da constatação de que o significado se constrói a partir de nossas
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interações físicas, corpóreas com o meio ambiente em que vivemos. Dessa forma, o
significado deixa de ter um caráter exclusivamente linguístico.
Dentro desse referencial teórico, são nossas ações no mundo que nos
permitem apreender esquemas de imagem e espaço e são esses esquemas que
dão significado às nossas expressões linguísticas. Assim, a criança, durante o
processo de aquisição, aprenderia primeiramente esquemas de movimento, isso
ocorreria quando, por exemplo, a criança se move várias vezes em direção a certos
alvos. Com esse esquema, surgido de nossa experiência corpórea com o mundo,
aporta o significado de nossas expressões linguísticas sobre o espaço.
Nossos deslocamentos de um lugar para outro (ponto de partida – percurso –
chegada) que ocorrem ainda antes de aprendermos a falar estruturam um esquema
de imagem ou imagético. Esse esquema denominado por Lankoff de CAMINHO,
pode ser representado da seguinte forma:
A (fonte do movimento) B (alvo do movimento)
Além do esquema CAMINHO, muitos outros esquemas seriam derivados
diretamente de nossas experiências corpóreas com o mundo. Por exemplo, o
RECIPIENTE, esquema de estar dentro e fora de algum lugar; o BALANÇO,
esquema aprendido durante nossos ensaios de estar de pé. Veja algumas
sentenças instanciadas por esquemas de CAMINHO e de RECIPIENTE:
(16) Fui da portaria à cobertura.
(17) Estou em São Paulo.
Para a abordagem cognitiva, o que dá sentido à sentença (16) é a presença
de um esquema imagético CAMINHO, e da mesma forma, o que daria sentido à
sentença (17) seria a presença do esquema imagético RECIPIENTE. Esses
esquemas guardariam uma memória de movimentação ou de experiência e seria
justamente essa memória o que ampararia nosso falar e pensar. Assim, o significado
deixaria de ser um fenômeno puramente linguístico para ser tratado como uma
questão de cognição.
Os esquemas passam a ocupar um lugar central nos estudos da Semântica
Cognitiva, no entanto, nem todos os nossos conceitos seriam apreendidos a partir
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de esquemas imagéticos. Haveria, ainda, certos conceitos de domínio da
experiência que dependeriam de mecanismos de abstração. Dentre esses
mecanismos, dois seriam prioritários: a metáfora e a metonímia. A metáfora
funcionaria como um mapa entre o domínio da experiência e outro domínio, como o
tempo, por exemplo. Assim em uma sentença como “De ontem pra hoje, esfriou
muito”, percebe-se um conceito de tempo que se estrutura a partir de um esquema
espacial de CAMINHO. Essa sentença seria metafórica porque nelas o tempo é
conceituado a partir de correspondências com o esquema espacial.
A metáfora, para a Semântica Cognitiva, é o processo cognitivo que nos
permite mapear esquemas, aprendidos diretamente pelo nosso corpo, em domínios
mais abstratos, cuja experimentação é indireta.
A propriedade fundamental da metáfora é preservar as inferências do domínio
fonte sobre o domínio alvo, desde que não haja violação da estrutura inerente ao
domínio alvo. Se mapearmos o esquema CAMINHO no tempo, podemos esperar
que neste domínio se estabeleça uma organização espacial em que as inferências
do espaço se mantêm. Isso é tratado como Hipótese de Invariância.
Além de explicar as inferências, a Hipótese de Invariância procura justificar o
fato de que há aspectos que não são mapeados. Isso quer dizer que podemos
mapear o espaço no tempo, mas certas relações espaciais serão bloqueadas por
causa da própria estrutura do tempo. É por isso que não podemos dizer, por
exemplo, “chegou embaixo da hora”.
Um exemplo de análise a partir da Semântica Cognitiva, apresentado por
Oliveira (2004), é a descrição do conectivo mas. Essa descrição se inicia realizando-
se um levantamento das várias possibilidades de uso do termo. O passo seguinte é
fazer uma pesquisa etimológica com vistas à recuperação da história do conectivo.
Repare na sentença “Pedro não está triste, mas ensimesmado”. Etimologicamente,
mas deriva da expressão latina magis quam que estabelecia a comparação de
superioridade: isso é mais do que aquilo. Acreditando-se que os usos mais antigos
são mais próximos do físico, seria, então, o esquema corporal de BALANÇO que dá
sustentação ao mas: pesamos duas coisas e a balança pende para uma delas. No
exemplo a balança tenderia ao ensimesmado mais do que ao triste.
Artur
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Além dos esquemas imagéticos, há outros elementos fundamentais aos
estudos semânticos de base cognitiva, são esses as categorias de nível básico.
Essa noção de categorias básicas é também cara a Semântica Formal. Para
esse modelo, um termo genérico, como homem, por exemplo, não se refere a um
indivíduo em particular, mas a todos os indivíduos que possam ser alcançados por
meio de certas propriedades. Assim, sabemos que Platão pertence à classe dos
humanos porque ele tem propriedades que só os humanos têm. Essas propriedades
recebem o nome de intensão e é o que nos permite chegar a uma classe deobjetos
do mundo, a essa classe denominamos extensão. No exemplo (1), repetido abaixo:
Todo homem é mortal;
Platão é um homem;
Logo, Platão é mortal.
O termo homem tem como extensão os vários seres humanos no mundo, as
entidades extralinguísticas. Quanto à intensão, ou seja, as propriedades essenciais,
no entanto, surgem controvérsias. Afinal, quais seriam as características essenciais,
comuns, a todos os indivíduos que compõe a classe dos seres humanos? A
Semântica Formal apresenta as características ‘ser bípede’ e ‘ser implume’ como as
propriedades distintivas dos seres humanos. Essas propriedades realmente
parecem abarcar todos os seres humanos, mas, no entanto, a universalidade dessas
propriedades pode ser discutida, tendo em vista a possibilidade de existirem
humanos de apenas uma perna.
Quem tratou mais profundamente da questão das categorias foi o filósofo
Ludwig wittgenstein em um livro chamado Investigações Filosóficas. Esse filósofo
demonstra, a partir das inúmeras possíveis propriedades do conceito de jogo, que
uma única propriedade não é suficiente para delimitar uma classe. Foi com essa
constatação que ele propôs que as categorias se organizam por relações de
semelhanças de família. Os usos de uma mesma palavra se assemelham da mesma
forma que os membros de uma família, não é necessário, pois, que os membros de
uma mesma família, partilhem uma mesma propriedade.
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Levando em conta essas constatações de Wittgenstein, a Semântica
Cognitiva se distancia da noção clássica de categoria e, então, aponta evidências
psicológicas que levam á conclusão de que não categorizamos por meio do
estabelecimento de propriedades necessárias e suficientes.
Para a Semântica Cognitiva, os conceitos se estruturam por protótipos. Isso
quer dizer que quando fazemos classificações, nos escoramos em casos que são
exemplares, ou seja, nos ancoramos naqueles casos que são mais reveladores de
categorias. É por isso que se pedirmos que alguém nos dê um exemplo de pássaro,
dificilmente alguém dirá pinguim. Dessa forma, tem-se que as categorias se
estruturam por meio de um caso mais prototípico que se relaciona via semelhanças
com os outros membros. O pinguim estaria, pois numa posição mais periférica
enquanto membro da categoria PÁSSARO e na posição central estaria
provavelmente o pardal ou o beija-flor.
A aquisição de categorias ocorreria, de acordo com a perspectiva cognitiva,
com as crianças adquirindo primeiro as categorias de nível médio, já que é com esse
tipo de categoria que temos contato físico direto. As categorias de nível básico,
diferentemente, são aprendidas diretamente por não indicarem categorias mais
abstratas e nem mais específicas. É por isso que adquirimos primeiro e diretamente
categorias como mesa e gato e, apenas mais tarde, adquirimos, através do processo
de metonímia, as genéricas como móvel e animal e as particulares como mesa de
centro e siamês.
Como vimos, a metáfora tem o importante papel de criar mapas sobre o
domínio da experiência e um outro domínio. Também a metonímia, exerce uma
função importante no processo cognitivo. É a metonímia o processo cognitivo que
permite criar relações de hierarquias entre conceitos. Assim, a metáfora e a
metonímia ocupam um lugar central na teoria, sendo responsáveis pela extensão
dos esquemas em direção à abstração.
Com relação à abordagem cognitiva das pressuposições, a hipótese é a de
que na interpretação formamos espaços mentais, estruturas conceituais que
descrevem como os falantes atribuem e manipulam a referência. Assim, na
sentença:
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(18) A Rainha da França teve a cabeça cortada.
Criamos um espaço mental em que a Rainha da França se refere ao
personagem histórico. Se, por outro lado, a sentença é acrescida do termo ‘Em os
Três Mosqueteiro’, abrimos um novo espaço mental em que Rainha da França não
se refere ao personagem histórico, mas ao ficcional:
(19) Em os três Mosqueteiros, a Rainha da França teve a cabeça cortada.
Para Semântica Cognitiva a pressuposição não estabelece referência com
entidades no mundo e também não são procedimentos argumentativos. Para esse
modelo, as pressuposições são, antes, entidades mentais ou, ainda, significados
que se transferem de um espaço mental para outro. Assim, na sentença (9) Pedro
parou de bater na mulher, haveria dois espaços mentais: um em que está a
pressuposição de que Pedro batia na mulher e um outro em que ele parou de bater
na mulher. Nessa concepção, a negação agiria sobre a transferência ou não de um
espaço mental para outro: se negamos o primeiro espaço mental construindo, assim,
uma sentença como Pedro nunca bateu na mulher, a pressuposição não é
transportada para o segundo espaço mental. Por outro lado, se Pedro bateu na
mulher um dia, a pressuposição é carregada para o segundo espaço mental e a
negação incide sobre o fato de Pedro ter parado de bater na mulher.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vimos no decorrer deste estudo que (retomando), durante muito tempo a
análise gramatical considerou a palavra como unidade mínima de análise linguística.
Isto é, as palavras eram consideradas como elementos indivisíveis, embora
pudessem apresentar variações de forma, tais como as flexões nominais e verbais.
É essa a ideia geral que está por trás das conjunções verbais.
Mas na medida em que podemos formar palavras a partir de outras palavras,
é forçoso reconhecer que as palavras podem ser unidades complexas, constituídas
de mais de um elemento.
As palavras não são formadas apenas por uma simples sequência de
elementos constitutivos; elas são também estruturadas em camadas que podem
atingir vários níveis.
Os membros de cada comunidade, todavia, partilhassem, de uma gramática
natural (assim chamada por Chomsky), de um bem comum em outras tantas cópias
pessoais. Ninguém possui cópia exaustiva, completa, e nunca haverá duas cópias
exatamente iguais. A gramática completa da língua sobreexcede a soma de todas
essas cópias: corresponde antes à competência plena de algum hipotético “falante-
ouvinte ideal” (expressão de Chomsky, 1981), onisciente da língua, de suas regras
do passado, do presente e virtualidades de futuro.
Como se pode observar, a partir da apresentação do desenvolvimento das
teorias lingüísticas, há muitos caminhos possíveis quando se trata do estudo
da linguagem humana. A complexidade do fenômeno lingüístico fez com que
surgissem inúmeras abordagens teóricas, cada uma com diferentes objetivos e
métodos. Cabe, portanto, ao profissional que deseje se aventurar por essa área de
estudos que escolha a abordagem que considere mais adequada à forma como
concebe a linguagem.
Pode-se concluir dizendo, também, que o trabalho com gêneros textuais é
uma extraordinária oportunidade de lidar com a língua em seusmais diversos usos
autênticos no dia-a-dia. Pois nada mais do que foi apresentado linguisticamente
estará de fora de ser feito em algum gênero.
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Dessa forma, tudo o que aqui se expôs pode ser tratado em um ou outro
gênero. E há muitos gêneros produzidos de maneira sistemática e com grande
incidência na vida diária, merecedores de nossa atenção. Inclusive e talvez de
maneira fundamental, os que aparecem nas diversas mídias hoje existentes, sem
excluir a mídia virtual, tão bem conhecida dos internautas ou navegadores da
internet; esta que é hoje uma ferramenta de grande importância para o trabalho com
a Linguística Textual, e para a Educação de maneira ampla.
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REFERÊNCIAS
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transmissão de mensagem por outros meios de comunicação colocam a língua
escrita numa utilização cada vez mais restrita ao necessariamente formal.
A tudo o que foi exposto até aqui se soma a importância crescente da língua
escrita como veículo de informação científica e tecnológica (BASÍLIO, 2007). Dessa
forma quando se fala em língua escrita a referência é a língua escrita formal
padronizada, embora haja situações de uso de língua escrita em que esta aparece
num menor grau de formalização.
De igual modo, visto que o papel principal da língua falada é promover a
comunicação direta no cotidiano, esta é a referência natural quando se reporta a ela,
embora existam situações e contextos de falas mais formalizadas.
Retomaremos, em primeiro lugar, as principais diferenças que têm sido
apresentadas entre linguagem falada e linguagem escrita.
FALA ESCRITA
1- Não planejada;
2- fragmentária;
3- incompleta;
4- pouco elaborada
5- predominância de frases curtas,
simples ou coordenadas;
6- pouco uso de passivas, etc.
Ocorre, porém, que estas diferenças nem sempre distinguem as duas
modalidades, mesmo porque existe uma escrita informal que se aproxima da fala e
uma fala formal que se aproxima da escrita.
Em outras palavras, ao contrário do que acontece com o texto escrito, em
que o produtor tem maios tempo de planejamento, podendo fazer um
rascunho, proceder a revisões, “copidescagem” etc., o texto falado emerge
no próprio momento da interação: ele é o seu próprio rascunho. Além disso,
em situações de interação face a face, o locutor não é o único responsável
pela produção do seu discurso: trata-se, como diz Marcuschi, de uma
atividade de co-produção discursiva, visto que os interlocutores estão
1- Planejada;
2- não fragmentária;
3- completa;
4- elaborada;
5- predominância de frases complexas,
com subordinação abundante;
6- emprego frequente de passivas, etc.
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juntamente empenhados na produção do texto: eles não só colaboram um
com o outro, como “co-negociam”, “co-argumentam”, a tal ponto que não
teria sentido analisar separadamente as produções individuais. (KOCH,
2000, p. 69)
Durante muito tempo a análise gramatical considerou a palavra como unidade
mínima de análise linguística. Isto é, as palavras eram consideradas como
elementos indivisíveis, embora pudessem apresentar variações de forma, tais como
as flexões nominais e verbais. É essa a ideia geral que está por trás das conjunções
verbais.
Mas na medida em que podemos formar palavras a partir de outras palavras,
é forçoso reconhecer que as palavras podem ser unidades complexas, constituídas
de mais de um elemento.
Isto não quer dizer que não existam palavras indivisíveis: substantivos como
boi, sal, mar, etc. são monomorfêmicos, ou seja, constituídos de apenas um
elemento.
Outras palavras, no entanto, são constituídas de vários elementos. Por
exemplo, o adjetivo infeliz é constituído de dois elementos, o adjetivo feliz e o prefixo
negativo in-; o substantivo oralidade é constituído do adjetivo oral acrescido do
sufixo –idade; o substantivo guarda-chuva é constituído pelos dois elementos
guarda e chuva; e assim por diante.
Temos na língua portuguesa basicamente dois tipos de morfema: afixo e raiz.
Este é um morfema que pode, por si só, construir a base de uma palavra. Por
exemplo, em luzir, luz é raiz. Os elementos que se apresentam à raiz para formar
uma palavra são chamados de afixos, os quais se subdividem em dois tipos, de
acordo com a posição de ocorrência: prefixo e sufixo. O primeiro se apresenta antes
da base para formar uma palavra, e o segundo se apresenta depois da base. Como
no exemplo:
• O elemento in- de infeliz é um prefixo.
• O elemento - idade em felicidade é um sufixo.
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As palavras não são formadas apenas por uma simples sequência de
elementos constitutivos; elas são também estruturadas em camadas que podem
atingir vários níveis.
Mais especificamente, a palavra morfologicamente complexa, ou seja, a
palavra que contém mais de um elemento é estruturada basicamente como a
combinação de uma base com um afixo. Esta base pode, por sua vez, ser também
complexa, isto é, também estruturada em termos de base e afixo. Assim podemos
ter vários níveis ou camadas na estrutura de uma palavra. A base, no entanto, pode
ter vários graus de complexidade. Ou seja, a palavra não é formada de uma
sequência de morfemas, mas constituída estruturalmente de uma base acrescida de
afixo.
Do ponto de vista morfológico, a base de uma construção é tradicionalmente
chamada de “radical”. Dá-se o nome de “tema” ao radical seguido por uma vogal
temática, mas, via de regra, este termo só é utilizado na estruturação de formas
flexionadas.
Noam Chomsky, americano nascido em 1928, linguista pesquisador do MIT
(Massachusetts Institute of Technology), onde são realizados estudos dos mais
avançados sobre problemas da aquisição da linguagem, é talvez o teórico que
melhor aborda a questão.
Chomsky faz uma distinção fundamental entre competência/ performace ou
competência/ desempenho, semelhante à do franco suíço Ferdinand de Saussure
(1857 – 1919), que falava em língua/ fala ou língua/ discurso (langue/ parole). Por
competência entende-se a capacidade de se comunicar por meio de sistemas de
sinais vocais (línguas); desempenho, por sua vez, é o comportamento linguístico, os
efetivos atos de fala, as utilizações circunstanciadas das virtualidades desses
sistemas.
Pode-se distinguir entre uma competência universal, domínio de um complexo
de princípios gerais inatos que subjazem às gramáticas de todas as línguas, e
competência particular, domínio do sistema de regras específicas de uma língua,
internalizado pelos falantes graças à convivência linguística, e que vem a constituir
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seu saber linguístico, o saber sua língua nativa e, eventualmente, outras línguas que
forem adquirindo. Competência de linguagem e competência de língua (s).
Isso nos permite falar em competência lexical, visto que, em outras palavras,
é o que a competência particular quer dizer: que todo falante (de sua língua nativa e
outras que forem adquirindo) tem em seu espaço cognitivoum “dicionário mental” ou
“léxico mental”, o conjunto de sinais, palavras, signos, que o permite ser produtor e
receptor de textos e/ ou discursos, sem ter conhecimento técnico gramatical –
competência universal.
Ao sistema de regras internalizado pelos falantes pode-se chamar gramática
natural (LUFT, 1994). É como se os membros de cada comunidade partilhassem, ao
natural, de um bem comum em outras tantas cópias pessoais. Ninguém possui cópia
exaustiva, completa, e nunca haverá duas cópias exatamente iguais. A gramática
completa da língua sobreexcede a soma de todas essas cópias: corresponde antes
à competência plena de algum hipotético “falante-ouvinte ideal” (expressão de
Chomsky, 1981), onisciente da língua, de suas regras do passado, do presente e
virtualidades de futuro.
As regras estabelecem também a devida relação entre significado (o conteúdo
da mensagem) e significante (pronúncia das frases). É por saberem as regras
semânticas que os falantes escolhem palavras adequadas para se expressar. Não
diriam, por exemplo, *a maçã comeu o menino, *o pato cantou ópera, *a frase foi à
praia. E, por dominarem as regras fonológico-fonéticas, sabem pronunciar frases e
palavras como devem ser.
Em termos formais [...] podemos descrever a aquisição da língua pela
criança como uma variedade de construção de teoria. A criança descobre a
teoria da sua língua como uma pequena quantidade de dados dessa língua.
[...] o que a criança aprende é a teoria subjacente ideal. É este um fato
notável. Devemos ter em mente também que a criança constrói essa teoria
ideal sem instrução explícita, que adquire esse conhecimento numa fase em
que não é capaz de grandes desempenhos intelectuais em muitas outras
áreas, e que essa realização é relativamente independente da inteligência.
(CHOMSKY, 1970, p. 35-36)
Naturalmente, há variantes de gramática natural, conforme a origem, a idade,
o grau de cultura ou nível sociocultural do falante; mas todas elas, mesmo as de
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nível mais baixo, são completas em si, dispõem de todos os elementos necessários
para fazer frases e comunicar-se.
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CAPÍTULO 2 – GRAMÁTICA E SUAS DEFINIÇÕES
É comum observar que poucos são os que não dizem que a gramática é um
livro grosso, chato, difícil de decorar, repleto de regras de difícil compreensão. O
objetivo aqui é apresentar, portanto, alguns dos conceitos dados a este temido livro.
É válido dizer que muitas das regras apresentadas nas gramáticas têm uma
conexão distante com a língua que falamos, o que não exclui a necessidade de
conhecê-las para, ao menos, sabermos adaptá-las ao uso diário da língua materna.
A gramática, por sua vez, como um conjunto de regras para escrever e falar
bem. Essa concepção apenas engloba uma variação da língua: a norma culta ou
padrão, o qual conduz o julgamento do certo e errado no que tange ao uso da
língua.
Partindo dessa idéia, a priori, chega-se, então, à definição da GT1 – o
exemplo maior do conceito apresentado acima, o que explica o seu caráter
normativo: “escreve-se assim e não assim, porque é considerado errado pelos
padrões determinantes pela GT ou GN2, a qual estabelece um emaranhado de
regras que devem ser seguidas; quando não o fazemos estamos “empobrecendo a
língua”, maltratando o idioma”.
Qualquer forma que fuja à Gramática Tradicional ou Normativa é considerada
errada, visto que a mesma pretende ser um ideal de correção lingüística.
Mesmo com todas as regras e não aceitação de quaisquer outras maneiras de
uso da língua, a GT apresenta deficiências, uma delas a de não ser explícita, de não
basear-se em contextos. Como toda teoria, deve definir os termos que pretende
estudar com precisão, o que na maioria das vezes não acontece. Em muitas partes,
para efeito, a GT ou GN contradiz a si mesma, exatamente por considerar que suas
terminologias só serão empregadas nos contextos sintáticos por ela usados.
Observe-se o conjunto de sentenças:
(1) a. [Provavelmente a Liz]3 comprou as frutas do supermercado (não a Maria)
1 Sigla correspondente à Gramática Tradicional.
2 Sigla correspondente à Gramática Normativa, nomenclatura que é usada também para a GT.
3 Os colchetes aqui, e nas sentenças de (1), servem para esclarecer qual é o foco do advérbio.
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b. A Liz [provavelmente comprou] as frutas do supermercado (não comeu)
c. A Liz comprou [provavelmente as frutas] do supermercado (não os legumes)
d. A Liz comprou as frutas [provavelmente do supermercado] (não da feira)
Ressalta-se de início que estamos falando de sentenças bem construídas em
português. Vale lembrar, também, que provavelmente pode aparecer em diferentes
lugares da sentença, com a esperada alteração de seu significado. Entretanto o
objetivo com os exemplos acima é mostrar a possibilidade de este advérbio
(provavelmente) modificar constituintes diversos, não somente o verbo ou o adjetivo.
A conclusão à qual se pretende chegar é que a GT ou GN, ao contrário
daquilo se propõe a nos ensinar,
(...) não se constitui em um corpo coeso de conhecimentos; e ampliando a
crítica: o conjunto de observações que a GT faz não dá conta nem de longe
da riqueza da língua, nem mesmo do registro que ela se propõe a
descrever. (MIOTO, 2000, p. 19)
Ao contrário da GT, que descreve regras que devem ser seguidas, há a
Gramática Descritiva, a qual apresenta um conjunto de regras de são de fato
seguidas; são explícitas e se preocupam com a fala.
Há várias formas de se estudar a língua e a linguagem. Por isso, mais adiante
surgiu a Gramática Gerativa4, uma teoria que se ocupa das línguas e da linguagem.
O que existe, na verdade, são homens que falam, numa sociedade que se
organiza através da linguagem. Vamos chamar isto de mundo de
aparências, das coisas que existem concretamente. Para tornar inteligível
esse mundo das aparências, o espírito humano constrói modelos abstratos,
teorias, que levam em conta normalmente apenas partes desse mundo.
Está-se falando então que cada modelo abstrato, cada teoria, escolhe um
aspecto da linguagem para estudar e que não existe um modelo bem
sucedido que contemple todo o fenômeno da linguagem. (VITRAL, 1998, p.
119)
A Gramática Gerativa se ocupa da sintaxe das línguas, embora não seja este
o seu objeto de estudo, e sim um meio para descrever uma entidade teórica
4 Teoria desenvolvida por Noam Chomsky, em 1957.
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chamada Gramática Universal, que é de fato o objeto de estudo da Gramática
Gerativa.
A Gramática Universal pode ser definida como os aspectos sintáticos que são
comuns a todas as línguas do mundo. A GU5 contém princípios que serão fixados
pela experiência e que determinam as possibilidades de variação gramatical das
línguas.
Segundo Chomsky (1979), a Gramática Universal é uma teoria sobre
mecanismos inatos; uma matriz biológica dentro da qual se dá o desenvolvimento da
linguagem.
Existe, ainda, outra gramática: a Gramática Subjacente ou Internalizada.
Todos os seres humanos ao nascerem, trazem consigo um conjunto de normas que
dizem respeito à sua língua materna; um léxico mental, que os permitem a falar
desde crianças o português correto6.
Como exemplo, quando a criança começa a emitir os primeiros sons, e logo
após as primeiras palavras, ainda que com alguma dificuldade, ela usa a sintaxe,
genuinamente, da língua materna, neste caso a língua portuguesa:
S – V – O = SUJEITO – VERBO – OBJETO
Cabe ressaltar que nessa fase ainda não é apresentado à criança todas as
terminologias adotadas pelas gramáticas. Isto prova que existe e é funcional uma
gramática intrínseca ao ser humano: a que chamamos aqui de Subjacente ou
Internalizada, que é composta de regras, sim, mas essas que o falante domina
desde o início do processo de aquisição da linguagem.
Justifica-se, em partes, o uso da expressão norma padrão na área da
Linguística, pelo fato de existirem algumas variações da palavra norma. Dentre as
quais, citam-se:
VARIAÇÃO DIASTRÁTICA Variações de patamar social
VARIAÇÃO DIACRÔNICA Variações por período de tempo
5 Gramática Universal
6 Chamo de correto aqui, o português que é dito e compreendido da melhor maneira, visto que a principal função
da língua é permitir a efetiva comunicação (grifo meu).
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VARIAÇÃO DIATÓPICA Variações por lugares ou regiões
Com base nas concepções existentes em relação ao uso da língua em uma
sociedade, fica evidenciado o problema que afeta os falantes nativos da Língua
Portuguesa: o preconceito linguístico, o qual existe devido a alguns fatores que se
relacionam com as variações acima citadas e as que seguem:
• A relação das concepções da língua com a sociedade se desloca para a
discriminação, de maneira que torna o sujeito estigmatizado, sendo ele falante da
língua materna, embora não siga as normas exigidas pela sociedade.
• A sociedade estabelece valorização, positiva ou negativa, de uma determinada
variação de registro de fala.
• O uso da língua é considerado critério para que se apliquem juízos de valor a
respeito dos falantes perante a sociedade, a qual estabelece um padrão desejável, a
concepção mais convencional, sustentado sempre por uma autoridade.
Ao usarmos a língua, há mais de uma maneira de dizer a mesma coisa. Nós
sabemos, por exemplo, que podemos dizer algo de modo mais formal ou informal ou
que uma pessoa é da Bahia, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Minas Gerais
apenas observando a maneira como ela fala. Em outras palavras, a língua sofre
variação, que é condicionada por vários fatores, como já dito.
O uso da língua depende, sobretudo, de fatores geográficos,
socioeconômicos, de faixa etária, do maior ou menor grau de formalidade do
discurso e mesmo do sexo dos falantes. Esses fatores determinarão as variantes de
uma língua.
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2.1– Estudos da linguagem
Os estudos da linguagem, mesmo depois de tantas discussões, apenas foram
consolidados como ciência no século XX, com a publicação póstuma do Cours de
linguistique générale7, do suíço Ferdinand de Saussure, em 1916.
O linguista Saussure tinha o objetivo de tornar a linguística, efetivamente,
uma ciência. Em Curso de Linguística Geral, o autor desenvolve a teoria dos signos
no campo da linguagem, numa concepção psíquica, mental, e não física, dentre as
quais se destacam o valor, tomado em seu aspecto conceitual, o qual constitui, sem
dúvida, um elemento da significação; a idéia de que tudo se passa entre a imagem
auditiva e o conceito, nos limites da palavra considerada como um domínio fechado
existente por si próprio. Saussure conceitua a língua como um “sistema de signos”,
ou seja, um conjunto de unidades significativas que estão organizadas formando o
todo, sendo signo a associação entre significante (imagem auditiva) e significado
(conceito)
A Ciência de Ferdinand de Saussure pautou-se na noção de estrutura, mais
tarde conhecida como Estruturalismo, que tem como principais características:
• Apresenta diferentes concepções de estrutura, o que resultou em ramificar a
noção de valor.
• Abordar qualquer língua como um sistema no qual cada um dos elementos só
pode ser definido pelas relações de equivalência ou de oposição que mantém com
os demais elementos.
• Um elemento linguístico só adquire valor na medida em que se relaciona com
o todo do sistema da língua.
O Funcionalismo e o Formalismo são duas correntes de pensamento que se
destacam na linguística contemporânea. A respeito do Funcionalismo, pode-se dizer
que se dedica às categorias semântico/ pragmáticas. Nessa estrutura, a língua é
determinada pelo seu uso; vê a linguagem humana como um instrumento de
interação social entre os seres humanos.
7 Curso de Linguística Geral
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Em meio a todos os estudos já citados, era objetivo de Chomsky priorizar a
competência nos estudos da linguagem, sem tratá-la de forma homogênea; tornar as
estruturas profundas cada vez mais abstratas, suprimindo o nível sintático
intermediário da chamada estrutura de base, e tornar as transformações diretamente
aplicáveis às estruturas semânticas, as quais gerariam as estruturas superficiais.
De igual modo, visto que o papel principal da língua falada é promover a
comunicação direta no cotidiano, esta é a referência natural quando se reporta à ela,
embora exista situações e contextos de falas mais formalizadas.
Há um texto que discute com clareza a questão do saber língua e saber
gramática, a qual atende as formalidades da língua escrita e a funcionalidade do
ensino das mesmas. Segue este texto:
Artur
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O gigolô das palavras
Luís Fernando Veríssimo
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa
mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo
da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada
grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e
andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se
descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela
oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa
("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele
se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm
certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser
julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para
evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de
uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por
exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E
quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento,
que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só
predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de
Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas
fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo
Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para
poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de
pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha
não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância
com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo
em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão
indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria.
Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um
cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas
e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para
satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas.
Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família
nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-
las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do
povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão
ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a
deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua
patroa ! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas
em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria
impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber
quem é que manda.
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eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e
recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.
16
CAPÍTULO 3 – A LINGUAGEM, O LÉXICO E O TEXO
Ler não é decifrar, como jogo de adivinhações, o sentido de um texto. É a
partir do texto, ser capaz de atribuir-lhe significação, conseguir relacioná-lo
a todos os outros textos significativos para cada um reconhecer nele o tipo
de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se a
esta leitura ou rebelar-se contra ela, propondo outra não prevista. (LAJOLO
apud CERTEAU, p. 91)
Há quatro fatores que influenciam diretamente no processo da leitura:
• Conhecimento prévio
• Inferências
• Raciocínio
• Texto
Antes de especificá-los, vale ressaltar que nesse desenovelar de significados
– refiro-me à leitura e sua interpretação – há o que chamamos de pistas linguísticas:
• Palavras
• Estruturas
• Grafia
• Pronúncia/ Sotaque
Há três fatores principais em que se ancora a habilidade de ler um texto:
• Conhecimento prévio: Conhecimento que o leitor traz para o texto antes de
lê-lo.
• Compreensão do co-texto, a ligação interna de um texto: Refere-se à
habilidade do leitor perceber as ligações internas do texto.
• Habilidades de raciocínio: Bem menos palpáveis e envolvem pelo menos os
seguintes pontos:
1. Fornecimento de informações não dadas;
2. Percepção de semelhanças e diferenças;
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
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Artur
Realce
Artur
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Realce
Artur
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3. Percepção de relações de causa e efeito;
4. Flexibilidade de arranjo mental;
5. Percepção de funções não explícitas;
6. Percepção de comentários de ironia;
7. Habilidade de distanciamento do texto.
Quanto à organização mental, podemos chamá-la de esquema, este que é
representado por alguma experiência acumulada, por isso chamado de organização
mental.
Ao ler um texto, as pessoas complementam a informação disponível,
utilizando o conhecimento conceptual e linguístico, além dos esquemas que já
possuem. Essa complementação é entendida aqui como inferência.
Em relação ao conhecimento prévio, pode-se dizer que é a informação visual;
é o conhecimento que já temos em nosso cérebro, relevante para a linguagem e
para o tema que está sendo tratado; esse conhecimento se subdivide em:
• Conhecimento de mundo
• Conhecimento linguístico
• Conhecimento sobre os interlocutores.
Existe um modelo tradicional de estruturação do texto:
8
E um modelo interacionista:
• O leitor tem uma história que possibilita diferentes graus de compreensão.
• “Não há grau zero assim como não há grau dez (...). Assim como não se pára
de aprender a ler num momento dado (grau dez), também não há
possibilidade de reconhecer um momento em que se começa do nada (grau
zero)”. (ORLANDI, 1988)
8 Ensino Classificatório e Sintático
TEXTO PALAVRAS ORAÇÕES
PERÍODOS
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
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Artur
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Artur
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RealceTodos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de
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• O texto é polissêmico, atravessado pela ideologia do autor e do leitor.
• Existem aspectos que estão fora do texto (extralinguísticos) que determinam a
sua produção e que, se explicitados para o leitor, poderão lhe possibilitar um
grau maior de compreensão.
• Os textos não são neutros. A palavra é dialógica, quando se diz algo num
texto essa informação é dita em resposta a outra que já foi dita em outros
textos. Um texto é sempre decorrente de outros textos, sejam eles reais ou
imaginários, escritos ou orais.
A leitura em si, num sentido amplo, conta com alguns modelos, os quais se
classificam de acordo com a direção do fluxo da informação no ato da leitura; os
modelos serão citados a seguir:
• Modelo ascendente: o fluxo da informação parte do texto impresso para o
leitor: o autor utiliza os dados apresentados no texto com o intuito de compreender o
texto escrito. É um processo de perceptivo e de decodificação.
• Modelo descendente: o foco é colocado na contribuição do leitor para o ato
de ler: a informação flui do leitor para o texto, e este serve como base para suscitar
o conhecimento prévio. É um processo em que o significado é criado no decorrer da
leitura enquanto o leitor aciona os conhecimentos lingüísticos e esquemáticos: o
significado do texto parte do leitor.
• Modelo ascendente/ descendente: diz respeito às propostas interacionistas
para o fenômeno de compreensão escrita. Nele, o ato de ler envolve tanto a
informação impressa (o texto) quanto a informação que o leitor traz consigo (o
SUJEITOS DO PROCESSO
LEITOR
AUTOR
AUTOR
LEITOR
PROFESSOR
ELO ENTRE OS SUJEITOS
DO PROCESSO
Artur
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Artur
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Artur
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Artur
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conhecimento prévio). Sendo assim o significado surge a partir da interação entre o
leitor e o autor, através do texto.
Os modelos processuais da escrita, por sua vez, é também um ato de
resolução de problemas, visto que a escrita é caracterizada como um ato que
envolve uma meta, um objetivo e um plano. Pode-se citar três tipos das metas aqui
relacionadas:
• Ideacional (ou de conteúdo proposicional): o autor planeja por onde começar,
em que diração prosseguir, que pontos ressaltar e como terminar o texto.
• Textual (ou da conexão das idéias em um todo coerente): o autor planeja e
executa o caminho necessário para atingir a coesão e a coerência do texto. Esse
planejamento também ocorre no nível sentencial.
• Interpessoal (ou relação emissor – receptor e problemas atitudinais): o autor
planeja o tipo de leitor para quem ele vai escrever e que efeito quer causar nesse
leitor. Existe, aqui, a preocupação não somente com o que escrever, mas como se
escreve.
Segundo Hosenfeld, pesquisador inglês na área da leitura, existem algumas
estratégias que conduzem o leitor a uma leitura compreensiva. A partir do momento
que o leitor desenvolve estas estratégias, ele se torna um leitor maduro, de modo
que é capaz de:
• Reter significado do texto enquanto lê;
• Ler em grandes blocos;
• Usar fontes de informações variadas: ilustrações, sinais gráficos, etc.;
• Fazer inferências a partir do título, subtítulo, etc.;
• “Adivinhar” o significado das palavras a partir do contexto;
• Avaliar suas próprias “adivinhações”;
• Utilizar o dicionário como último recurso;
• Utilizar o seu conhecimento de mundo na decodificação do significado de
palavras, frases e expressões;
Artur
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Artur
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Artur
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Artur
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Artur
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• Conceituar positivamente a si próprio como leitor;
• Interagir com os diversos níveis de conhecimento, como: conhecimento
linguístico (da língua materna), textual (da estrutura do texto) e conhecimento de
mundo (armazenado através de experiências de vida e escolares);
• Construir o sentido do texto.
3.1 – A PRODUÇÃO E A LEITURA DE TEXTOS
3.1.1 – As condições de produção de um texto
Esta noção se refere aos elementos que condicionam o processo que os
interlocutores desenvolvem, isto é, suas estratégias de recepção e produção de
textos orais e escritos. Alguns desses elementos são discriminados abaixo:
3.1.2 – Objetivo
Na produção de textos orais e escritos, o objetivo é aquilo que o autor de um
texto pretende alcançar, no leitor, através de seu texto. Pode ou não ser consciente.
Mesmo que um autor não tenha consciência de suas motivações, há algo que, com
certeza, deseja alcançar escrevendo ou falando: informar, persuadir, polemizar,
convencer, refletir, lembrar, emocionar, divertir, etc. Dependendo da perspectiva
teórica, o objetivo do autor é também denominado “intenção” ou “efeito buscado”.
Os termos também são utilizados em estudos sobre a recepção de textos
orais ou escritos para designar aquilo que o leitor busca ao interagir com o outro.
3.1.3 – A situação concreta de interação
A expressão se refere ao contexto concreto da interação e a seus elementos:
aos interlocutores e suas relações, o contexto social e histórico da interlocução, os
objetos e os eventos que compõem o seu trono, o discurso anterior, o suporte no
qual o texto foi produzido ou lido, o processo de circulação desse texto, etc.
3.1.4 – Conhecimentos prévios
A noção é usada para designar o conhecimento que possuímos em nossas
mentes e que nos possibilita compreender o mundo e a linguagem. Também é
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Artur
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Artur
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designada através de termos como “estrutura cognitiva”, “memória de longo termo”
ou, num sentido um pouco mais restrito, “enciclopédia”.
Esse fator possui vários componentes relacionados entre si de modo
intricado, dentre eles o nosso conhecimento de mundo e nosso conhecimento
linguístico. Embora o nosso conhecimento sobre os interlocutores da interação
linguística seja um aspecto de nossos conhecimentos de mundo e linguísticos, ele
também será detalhado aqui, a seguir.
Conhecimento de mundo
Trata-se dos conhecimentos que possuímos a respeito do mundo que nos
rodeia, de seus objetos e eventos, organizados em categorias relacionadas. É ele
que está na base de toda nossa compreensão e que nos permite receber e produzir
textos. No entantoé ele, também, que é alterado quando aprendemos algo, através
ou não da escrita.
Conhecimento linguístico
Assim como nosso conhecimento de mundo, o termo recobre um conjunto de
categorias e “regras”. São essas categorias que nos permitem produzir e receber
textos orais ou escritos, funcionando como uma espécie de decodificador ou
codificador de estímulos visuais (na escrita) ou sonoros (na fala). Possui dois
elementos mais gerais: nosso conhecimento pragmático e nosso conhecimento
gramatical.
O componente pragmático se refere ao saber que possuímos a respeito da
situação concreta em que produzimos ou compreendemos textos (como, por
exemplo, a respeito da relação entre os interlocutores) e, ainda, ao saber que
possuímos sobre a relação entre os recursos gramaticais de uma língua e a situação
de seu uso.
O componente gramatical se refere aos recursos formais da língua que
utilizamos em seus vários níveis: fonológico, morfossintático, textual. A sua utilização
é determinada pelo componente pragmático. Todos os falantes de uma língua
possuem esses conhecimentos, antes mesmo de entrar para a escola.
Artur
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eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e
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Isso se deve ao fato de que todos nós possuímos uma competência
lingüística que nos permite construir esses conhecimentos, com base nas novas
interações que experimentamos.
Conhecimento sobre os interlocutores
É um aspecto do nosso conhecimento pragmático e, portanto, de nosso
conhecimento linguístico. Na língua oral, refere-se ao conhecimento que possuímos
a respeito de nós mesmos e a respeito das pessoas com as quais interagimos e,
ainda, ao conhecimento que desejamos dar de nós mesmos a nossos leitores e
ouvintes.
Na linguagem escrita de caráter público (livros, jornais, artigos, etc.), refere-se
não propriamente às pessoas concretas que lêem ou escrevem, mas a uma hipótese
de leitor ou de autor que construímos através, enquanto lemos, de nosso
conhecimento prévio sobre outros textos do autor e através da imagem que dele
construímos por meio do texto que lemos; através, enquanto escrevemos, dos
conhecimentos e disposições que esperamos que nossos leitores possuam para
entender o texto que estamos produzindo.
Pode-se perceber que, através dos expostos acerca dos diferentes
conhecimentos que empregamos na leitura e na recepção de textos, eles podem ser
separados apenas didaticamente, pois estão relacionados entre si de maneira
intricada.
3.2 – Coesão e coerência textuais
Há mais de dez anos existe a reflexão sobre os fenômenos textuais da
coesão e da coerência, portanto inicia-se aqui uma ponderação a respeito
desses fenômenos, com base em autores que trabalham nesse campo atualmente,
como: BEAUGRANDE & DRESSLER (1981), CHAROLLES (1987), HEINEMANN &
VIEHWEGER (1991), VAN DIJK (1981), KOCH (1994), MARCUSCHI (1983) – para
citar apenas alguns.
Artur
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3.2.1 – A coesão textual
Pode-se conceituar coesão como o fenômeno que diz respeito ao modo como
os elementos lingüísticos presentes na superfície textual se encontram interligados
entre si, formando sequências veiculadoras de sentidos.
Segundo MARCUSCHI (1983), os fatores de coesão são aqueles que dão
conta da sequenciação superficial do texto, ou seja, os mecanismos formais de uma
língua que permitem estabelecer, entre os elementos lingüísticos do texto, relações
de sentido.
Em obra que se tornou clássica sobre o assunto, Halliday & Hasan (1976)
apresentam o conceito de coesão textual como um conceito semântico que se refere
às relações de sentido existentes no interior do texto e que o definem como um
texto.
A coesão ocorre quando a interpretação de algum elemento no discurso é
dependente da de um outro. Um pressupõe o outro, no sentido de que não
pode ser efetivamente decodificado a não ser por recurso ao outro.
(HALLIDAY & HASAN, 1976, p. 4)
Os autores consideram a coesão como parte do sistema de uma língua,
embora se trate de uma relação semântica, ela é realizada – como ocorre com todos
os componentes do sistema semântico, através do sistema léxico-gramatical. Há,
portanto, formas de coesão realizadas através da gramática e outras, através do
léxico.
Ainda de acordo com Halliday & Hasan (op. cit.), a coesão é, contudo, uma
relação semântica entre um elemento do texto e algum outro elemento crucial para a
sua interpretação. Esse fenômeno, por estabelecer relações de sentido, diz respeito
ao conjunto de recursos semânticos por meio dos quais uma sentença se liga com a
que veio antes, aos recursos semânticos mobilizados com o propósito de criar
textos. A cada ocorrência de um recurso coesivo no texto, chama-se “laço”, “elo
coesivo”, segundo Koch (1994).
Podem-se distinguir dois tipos de coesão: referencial e seqüencial. “A coesão
referencial é aquela em que um componente da superfície do texto faz remissão a
outro(s) elemento(s) nela presentes ou inferíveis a partir do universo textual” (Koch,
1991).
Artur
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Quando se fala em coesão é necessário apresentar alguns elementos que,
juntamente com outros já relacionados, trabalham para que o leitor (ou escritor)
construa sentido lógico para o todo textual, como as conjunções, que aqui serão
também citadas como: conectivos, elementos coesivos ou, ainda, articuladores.
A conjunção é o conectivo oracional, ou seja, a palavra que liga orações.
Pode-se entender, também, que a conjunção é uma palavra variável que serve para
juntar/ unir e colocar em relação as orações, ou termos da oração (palavras ou
grupos de palavras de mesma função numa oração.
Há, contudo, dois tipos de conjunção: as que estabelecem um elo de
coordenação e as que estabelecem um elo de subordinação. As conjunções
coordenam quando ligam orações da mesma espécie, da mesma ordem, e chamam-
se, neste caso, conjunções coordenativas. Entretanto as conjunções subordinam
quando ligam orações diferentes de espécie, e se chamam, pois, conjunções
subordinativas.
O período composto por coordenação é formado por duas ou mais orações de
sentido completo, as quais, então, se chamam independentes. Quando uma oração
necessita de outra para que tenha sentido completo, dá-se o nome de subordinada,
porquanto se subordina a outra, depende da outra. A oração da qual a subordinada
depende chama-se oração principal.
As conjunções que ligam uma oração independente a outra independente,
ou uma subordinada a outra subordinada, ou, generalizando, as conjunções
que ligam orações da mesma função, da mesma ordem, chamam-se
coordenativas. As conjunções que ligam a subordinada à principal chamam-
se conjunções subordinativas. (ALMEIDA, 1983, p. 345 – 348)
Há cinco espécies de conjunções coordenativas:• Aditivas – ligam duas orações, aproximando-as meramente;
• Adversativas – ligam orações de sentido adverso ou contrário;
• Alternativas – ligam orações que indicam idéias incompatíveis ou alternadas;
• Conclusivas – ligam orações, exprimindo a segunda conclusão ou ilação da
primeira;
Artur
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• Explicativas – ligam orações, explanando ou continuando na segunda o
sentido da primeira. (ALMEIDA, op. cit.)
As conjunções subordinativas distribuem-se em dez grupos, de conformidade
com a idéia que trazem à subordinada, com exceção das integrantes, umas
subordinativas podem indicar tempo, modo, causa, fim, conseqüência, concessão,
etc. Abrangem as seguintes classes (grupos): causais, comparativas, concessivas,
condicionais, conformativas, consecutivas, finais, proposicionais, temporais e
integrantes.
Há, entretanto, uma crítica lingüística à abordagem tradicional:
Os mecanismos de coordenação e subordinação também operam em nível
inferior ao período (palavras, sintagmas, morfemas, fonemas);
Explica-se a oração coordenada usando-se o conceito de independência;
O estudo da coordenação antecede o da subordinação.
A subordinação constitui etapa necessária para a compreensão da
coordenação. Se não se entende antes o que é coordenação, não se pode
interpretar o que seja independência.
A coordenação é consequência do desdobramento de um termo: Ana e Joana
emprestam e dão roupas novas e velhas às colegas. Ela se instaura pela conjunção
e pela pausa. Os elementos coordenados têm a mesma função sintática e
pertencem a um mesmo paradigma. A coordenação forma sequências abertas (à
qual se pode agregar mais um elemento) e não sintagmas.
A subordinação, por sua vez, é um recurso para relacionar ou fundir orações
entre as quais se percebem pontos de contato (relação de tempo ou de causa e
efeito entre dois fatos ou de condição ou de consequência, etc.).
As conjunções subordinativas são instrumentos, portanto, de inserção de uma
oração em determinado ponto da outra. As conjunções (e o pronome relativo) podem
impor a uma oração o comportamento de um advérbio, um adjetivo ou um
substantivo. (CARONE, 1993)
Artur
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Vale ressaltar que o pronome relativo é uma conjunção subordinativa de tipo
especial – além de operar a inserção de uma oração em outra, representa
anaforicamente a palavra com a qual a oração se relaciona.
3.2.2 – Coerência textual
A coerência diz respeito ao modo como os elementos presentes no texto,
aliados àqueles subjacentes à superfície textual vêm a construir, em virtude de uma
construção dos interlocutores, numa situação específica de interação, uma
configuração veiculadora de sentido (KOCH, 1996).
De acordo com Beaugrande & Dressler (1981), a base da coerência textual é
a continuidade de sentidos entre os conhecimentos ativados pelas expressões
linguísticas do texto e que deve ser percebida tanto na codificação (produção)
quanto na decodificação (compreensão) dos textos.
Texto incoerente é aquele em que o receptor (leitor ou ouvinte) não consegue
descobrir qualquer continuidade de sentido, seja pela discrepância entre os
conhecimentos ativados, seja pela inadequação entre esses conhecimentos e o seu
universo cognitivo. No entanto texto coerente é o que faz sentido para seus
usuários, o que torna necessária a incorporação de elementos cognitivos e
pragmáticos ao estudo da coerência textual.
Os conceitos de coesão e coerência constituem um par, em que a coerência
estaria relacionada à boa formação do texto, nas não no sentido da gramaticalidade
usada no nível da frase (coesão), mas sim em termos da interlocução comunicativa.
A coerência é o que faz com que uma seqüência lingüística seja vista como um
texto, porque permite o estabelecimento de relações – sintático-gramaticais,
semânticas e pragmáticas – entre os elementos da seqüência (morfema, palavras,
expressões, frases, parágrafos, capítulos etc.), possibilitando construí-las e percebê-
las como constituindo uma unidade significativa global.
Artur
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CAPÍTULO 4 – DISCUTINDO O LÉXICO NO NÍVEL DOS
GÊNEROS TEXTUAIS
Os gêneros textuais contribuem para ordenar e estabilizar as atividades
comunicativas do dia-a-dia. São entidades sócio-discursivas e formas de ação social
incontornáveis em qualquer situação comunicativa. Entretanto, mesmo
apresentando alto poder preditivo e interpretativo das ações humanas em qualquer
contexto discursivo, os gêneros não são instrumentos estanques e enrijecedores da
ação criativa.
Os gêneros se caracterizam, segundo Marcuschi (2002), como eventos
textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos. Surgem emparelhados a
necessidades e atividades sócio-culturais, bem como na relação com inovações
tecnológicas, o que é facilmente perceptível ao se considerar a quantidade de
gêneros textuais hoje existentes em relação a sociedades anteriores à comunicação
escrita.
Há que se ressaltar a distinção entre tipo textual e gênero textual. A
comunicação verbal só é possível por algum gênero textual, idéia defendida por
Bakhtin (1997) e Bronckart (1999). Essa distinção é fundamental em todo o trabalho
com a produção e a compreensão textual.
Tipo textual é a expressão usada para designar uma espécie de sequência
teoricamente definida pela natureza lingüística de sua composição (aspectos
lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas). Em geral, os tipos textuais
abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração,
argumentação, exposição, descrição, injunção, cujos conceitos e características
serão apresentados adiante.
Em contrapartida, usa-se a expressão gênero textual como uma noção
propositalmente vaga para referir os textos materializados que encontramos em
nossa vida diária e que apresentam características sócio-comunicativas definidas
por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica.
Para melhor visibilidade, pode-se elaborar aqui o quadro sinóptico9:
9 Em Marcuschi (2002)
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
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recuperaçãode dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.
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TIPOS TEXTUAIS GÊNEROS TEXTUAIS
1- Constructos teóricos definidos por
propriedades lingüísticas intrínsecas;
1- Realizações lingüísticas concretas
definidas por propriedades sócio-
comunicativas;
2- Constituem sequências lingüísticas
ou sequências de enunciados no
interior dos gêneros e não são textos
empíricos;
2- Constituem textos empiricamente
realizados cumprindo funções em
situações comunicativas;
3- Sua nomeação abrange um
conjunto limitado de categorias
teóricas determinadas por aspectos
lexicais, sintáticos, relações lógicas,
tempo verbal;
3- Sua nomeação abrange um
conjunto aberto e praticamente
ilimitado de designações concretas
determinadas pelo canal, estilo,
conteúdo, composição e função;
4- Designações teóricas dos tipos:
narração, argumentação, descrição,
injunção e exposição.
4- Exemplos de gêneros: telefonema,
sermão, carta comercial, carta
pessoal, romance, bilhete, aula
expositiva, reunião de condomínio,
horóscopo, receita culinária, bate
papo virtual, edital de concursos, etc.
Existe, para maior efeito, uma expressão que é usada para designar o
aspecto da hibridização ou mescla de gêneros: a intertextualidade inter-gêneros10,
em que um gênero assume a função de outro, o que pode ser visualizado num
diagrama tal como este:
10 Ursula Fix, 1997, p. 97 apud Marcuschi, 2002, p. 31
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
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INTERTEXTUALIDADE TIPOLÓGICA
A questão da intertextualidade inter-gêneros evidencia-se como uma mescla
de funções e formas de gêneros diversos num dado gênero e deve ser distinguida
da questão da heterogeneidade tipológica do gênero, que diz respeito ao fato de um
gênero realizar várias sequências de tipos textuais.
4.1- Tipos textuais
4.1.1 – O lugar da narrativa
A narrativa parece ser apenas um sistema conotativo transfrásico, uma
mitologia, entre as diversas que podem se misturar para formar um texto (ou
discurso). Não é, portanto, um tipo de discurso como afirma a retórica. A narrativa é
um caso privilegiado: mesmo que os modelos já propostos por teóricos e teorias
antes desenvolvidas careçam ainda de aperfeiçoamento, constituem um corpo de
teoria e metodologia em nada negligenciável, e aqui acredita-se que ela pode
desempenhar, em relação à teoria da interpretação semântica do texto (ou discurso),
papel semelhante ao que a lingüística vem desempenhando no âmbito das ciências
humanas há algum tempo.
É importante lembrar que o que se discute a respeito da narrativa nesse
contexto refere-se exclusivamente a uma situação lingüística: o código é, em última
Função do gênero A
Forma do
gênero A Forma do
gênero B
Artigo de opinião
Função de um artigo
de opinião no formato
de um poema
Poema
Função do
gênero B
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
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análise, um dicionário em que determinados lexemas narrativos estão definidos por
um semema (conjunto de semas). Esses dois componentes podem ser considerados
universais metodológicos11. A instância gramatical da teoria comporta dois níveis de
profundidade: um conceitual, de caráter genérico, em que determinados lexemas-
valores são afirmados ou negado em operações sucessivas que formam um
algoritmo dialético, a partir do modelo teórico básico que parece presidir qualquer
manifestação significativa12, que se pode exprimir por uma correlação de
contraditórios:
Assim as ações se agrupam, elas próprias, em sintagmas narrativos.
Uma narrativa não é apenas a descrição de uma seqüência de ações ou de
eventos:
Na semana anterior, após ter trabalhado exaustivamente e ter saído em seguida
para cumprir tarefas domésticas, Lana se levantou bem cedo, saiu de sua casa e, ao
encontrar pessoas que nunca tinha visto, disse que acordar é uma dádiva, e sorriu.
A passagem acima é uma descrição de ações, mas não necessariamente
uma narrativa. Para que haja uma narrativa é preciso um narrador (aquele que conta
a história, uma testemunha etc.), que seja provido de uma intencionalidade, uma
vontade de transmitir alguma coisa - uma certa representação da experiência do
mundo - a alguém, um destinatário que, de uma certa maneira, dará um sentido
particular a sua narrativa. Para que uma seqüência de eventos contados se
transforme em narrativa, é preciso, ainda, inventar-lhe um contexto.
O texto narrativo, segundo Platão & Fiorin (1996), é composto por mudança(s)
de situação operada(s) pelas ações da(s) personagem(ns). Existem dois tipos de
mudança:
1- Alguém passa a ter alguma coisa que não tinha (narrativa de aquisição);
2- Alguém deixa de ter alguma coisa que tinha (narrativa de perda).
11 PINTO, M. J. “Por uma teoria da interpretação semântica dos discursos”. In: Estruturalismo e teoria da
linguagem. Petrópolis: Vozes
12 GREIMAS, A. J. Sémantique estructurale. Paris: Larousse, 1996, p. 135 – 155 e 160 – 162.
S2
S2 =
SI
SI
Artur
Realce
Artur
Realce
Artur
Realce
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Uma narrativa típica apresenta, implícita ou explicitamente, quatro mudanças
de situação, sejam elas mudanças de aquisição ou de perda:
“a) uma em que uma personagem passa a ter um querer ou um dever, um desejo ou
uma necessidade de fazer algo. (...)
b) uma em que ela adquire um saber e um poder, isto é, a competência necessária
para fazer algo. (...)
c) uma que é a mudança principal da narrativa, a realização daquilo que se quer ou
se deve fazer. (...)
d) uma em que se constata que a transformação principal ocorreu e em que se
podem atribuir prêmios ou castigos às personagens.” (Platão & Fiorin, 1996)
Sendo assim, é possível apontar quatro características básicas do texto
narrativo:
• “é um conjunto de transformações de situações referentes à personagens
determinadas, mesmo que sejam coletivas (por exemplo, o povo brasileiro), ou a
coisas particulares, num tempo preciso e num espaço bem configurado (...);
• Como a narração opera com personagens, situações, tempos e espaços bem
determinados, trabalha predominantemente com termos concretos, sendo, portanto,
um texto figurativo;
• No interior do texto narrativo, há sempre uma progressão temporal entre os
acontecimentos relatados, isto é, conta ele eventos concomitantes, anteriores ou
posteriores uns aos outros (observe, no entanto, que o narrador pode dispor os
acontecimentos no texto na ordem em que quiser, desde que deixe claro qual é o
anterior, o concomitante e o posterior (...));
• Já que o ato de narrar ocorre, por definição, no presente, dado que (...) o
presente indica uma concomitância em relação ao momento da fala