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Anamnese (aná = trazer de novo e mnesis = memória) significa trazer de volta à mente todos os fatos relacionados com a doença e com a pessoa doente. A anamnese é um instrumento para a avaliação de sintomas, problemas de saúde e preocupações, e registra a maneira como a pessoa responde a essas situações, abrindo espaço para a promoção de saúde. ELEMENTOS COMPONENTES DA ANAMNESE A anamnese é classicamente desdobrada nas seguintes partes: . Identificação; . Queixa principal; . História da doença atual (HDA); . Interrogatório sintomatológico (IS); . Antecedentes pessoais e familiares; . Hábitos de vida; . Condições socioeconômicas e culturais. IDENTIFICAÇÃO Nome: primeiro dado da identificação. “Paciente do leito 5” ou “aquele caso de cirrose hepática da enfermaria 7” são expressões que jamais devem ser usadas para caracterizar uma pessoa. Idade: cada grupo etário tem sua própria doença e bastaria essa assertiva para tornar clara a importância da idade. Sexo/gênero: não se falando nas diferenças fisiológicas, sempre importantes do ponto de vista clinico, há enfermidades que só ocorrem em determinado sexo. ANAMNESE Cor/etnia: a influência da etnia no processo do adoecimento conta com muitos exemplos, o mais conhecido é o da anemia falciforme, uma alteração sanguínea específica dos negros, mas que, em virtude da miscigenação, pode ocorrer em pessoas de outra cor. Estado civil: não só os aspectos sociais referentes ao estado civil podem ser úteis ao examinador. Aspectos médico-trabalhistas e periciais podem estar envolvidos. Profissão: é um dado de crescente importância na prática médica. Naturalidade: local onde o paciente nasceu. Procedência: esse item geralmente se refere à residência anterior do paciente. Residência: quanto a esse item, anota-se a residência atual. Nome da mãe: anotar o nome da mãe do paciente é, hoje, uma regra bastante comum nos hospitais no sentido de diferenciar os pacientes homônimos. Religião: a religião à qual o paciente se filia tem relevância no processo saúde-doença. QUEIXA PRINCIPAL Nesse item, registra-se a queixa principal ou o motivo que levou o paciente a procurar o médico, repetindo, se possível, as expressões por ele utilizadas. É uma afirmação breve e espontânea, geralmente um sinal ou um sintoma, suscitador nas próprias palavras da pessoa, que descreve o motivo da consulta. Geralmente, é uma anotação entre aspas para indicar que se trata das palavras exatas do paciente. HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL A história da doença atual (HDA) é um registro cronológico e detalhado do motivo que levou o paciente a procurar assistência médica, desde o seu início até a data atual. Início: deve ser caracterizado com relação à época de aparecimento. Se foi de início súbito ou gradativo, se teve fator desencadeante ou não. Características do sintoma: definir localização, duração, intensidade, frequência, tipo, ou seja, características próprias a depender do sintoma. Fatores de melhora ou piora: definir quais fatores melhoram e pioram o sintoma, como, por exemplo, fatores ambientais, posição, atividade física ou repouso, alimentos ou uso de medicamentos. Relação com outras queixas: registrar se existe alguma manifestação ou queixa que acompanhe o sintoma, geralmente relacionado com o segmento anatômico ou funcional acometido pelo sintoma. Evolução: registrar o comportamento do sintoma ao longo do tempo, relatando modificações das características e influencia de tratamentos efetuados. Situação atual: registrar como o sintoma está no momento da anamnese também é importante. “Qual o motivo da consulta?” “Por que o (a) senhor(a) me procurou?” “O que o (a) senhor(a) está sentindo?” “O que o (a) está incomodando?” INTERROGATÓRIO SINTOMATOLÓGICO . Sintomas gerais; . Pele e fâneros; . Cabeça e pescoço; . Tórax; . Abdome; . Sistema geniturinário; . Sistema hemolinfopoético; . Sistema endócrino; . Coluna vertebral, ossos, articulações e extremidades; . Músculos; . Artérias, veias, vasos linfáticos e microcirculação; . Sistema nervoso; . Exame psíquico e avaliação das condições emocionais. ANTECEDENTES PESSOAIS FISIOLÓGICOS . Gestação e nascimento; . Desenvolvimento psicomotor e neural; . Desenvolvimento sexual. Permita ao paciente falar de sua doença. Determine o sintoma-guia. Descreva o sintoma-guia com suas características e analise-o. Use o sintoma-guia como condutor da história e estabeleça as relações das outras queixas com ele em ordem cronológica. Verifique se a história obtida tem começo, meio e fim. Não induza respostas. Apure evolução, exames e tratamentos realizados em relação à doença atual. Leia a história escrita por você para o paciente para que ele possa confirmar ou corrigir algum dado relatado, ou mesmo acrescentar alguma queixa esquecida. Sintomas Gerais Febre: sensação de aumento da temperatura corporal acompanhada ou não de outros sintomas, quando, então, caracteriza-se a síndrome febril (cefaleia, calafrios, sede, etc). Astenia: sensação de fraqueza. Alterações do peso: especificar perda ou ganho de peso, quantos quilos, intervalo de tempo e motivo (dieta, estresse, outros fatores). Sudorese: eliminação abundante de suor, generalizada ou predominante nas mãos e nos pés. Calafrios: sensação momentânea de frio com ereção de pêlos e arrepiamento da pele. Cãibras: contrações involuntárias de um músculo ou grupo muscular. ANTECEDENTES PESSOAIS PATOLÓGICOS . Doenças sofridas pelo paciente; . Alergias; . Cirurgias; . Traumatismo; . Transfusão sanguínea; . História obstétrica; . Imunizações; . Medicamentos em uso. ANTECEDENTES FAMILIARES Os antecedentes começam com a menção ao estado de saúde (quando vivos) dos pais e irmãos do paciente. Se for casado, inclui-se o cônjuge e, se tiver filhos, estes são referidos. Não se esquecer dos avós, tios e primos paternos e maternos do paciente. Se tiver algum doente na família, esclarecer a natureza da enfermidade. Em caso de falecimento, indagar a causa do óbito e a idade em que ocorreu. Pergunta-se sistematicamente sobre a existência de enxaqueca, diabetes, tuberculose, hipertensão arterial, câncer, doenças alérgicas, doença arterial coronariana (infarto agudo do miocárdio, angina), acidente vascular cerebral, dislipidemias, úlceras pépticas, colelitíase e varizes, que são as doenças com caráter familiar mais comuns. HÁBITOS DE VIDA . Alimentação; . Ocupações anteriores; . Atividades físicas; . Uso de drogas lícitas e ilícitas. CONDIÇÕES SOCIOECONÔMICAS E CULTURAIS . Condições econômicas; . Condições culturais; . Vida conjugal e relacionamento familiar. O sigilo médico é de suma importância, afinal, proporciona mais credibilidade para a relação médico-paciente. Permite, também, que os pacientes atendidos possam expor seus problemas e confiar no tratamento indicado, pois tudo o que eles disserem no consultório estará seguro pelo poder da lei. Por ser um assunto de extrema importância, o sigilo médico não é tratado apenas pelo Código de Ética Profissional, mas também pelo Código Penal Brasileiro e recordado no Juramento de Hipócrates – que todo formando faz durante a cerimônia de diplomação. No capítulo IX, o tema é tratado no Código de Ética Médica, que impede que o médico revele qualquer fato a que ele teve acesso em virtude do exercício profissional, a não ser por causa justa, dever legal ou em casos em que há o consentimento por escrito do paciente. Há situações bastante específicas que permitem que o sigiloseja quebrado, os principais casos são: SIGILO MÉDICO . Autorização expressa do paciente ou de seus responsáveis legais; . Notificação compulsória de determinadas doenças transmissíveis; . Suspeita de abuso a idosos ou ao cônjuge; . Suspeita de abuso ou agressão infantil; . Suspeita de que o ferimento foi causado por ato criminoso; . Abortos criminosos; . Ocorrência de ferimentos por arma de fogo ou similares. Todos os princípios são igualmente importantes, não havendo hierarquia entre eles. BENEFICÊNCIA O Princípio da Beneficência nos leva a buscar maximizar o beneficio e minimizar o risco e/ou o dano ao paciente. NÃO MALEFICÊNCIA O Principio da Não Maleficência nos faz buscar minimizar o risco e/ou o dano ao paciente, ou seja, o axioma hipocrático “Primum non nocere”. AUTONOMIA O Principio da Autonomia nos ensina que, fora em situação de risco de morte, cabe ao paciente decidir sobre as práticas diagnósticas e terapêuticas a que quer se submeter. JUSTIÇA O Principio da Justiça é o dever de agir com equidade, oferecendo mais a quem tem menos e menos a quem tem mais. Devemos tratar os desiguais, desigualmente. Beauchamp TL, Childress JF. Principles of Biomedical Ethics. 1st ed. Oxford: Oxford University Press: 1979. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM – Brasil). Código de ética médica. Resolução nº 1.246/88. Brasília: Tablóide, 1990. Exame clínico / Celmo Celeno Porto, Arnaldo Lemos Porto. 8. ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2017. Semiologia Médica – Celmo Celeno Porto – 7ª Edição. 2014. Editora Guanabara Koogan. PRINCÍPIOS BIOÉTICOS