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Comércio de gente: debate sobre a
exploração do indivíduo no trabalho
A escravização como prática de comércio de pessoas, como uso dos indígenas e africanos no Brasil
Colonial, demonstrando as formas de resistir e a manutenção das práticas na história nacional.
Prof.ª Renata Morares, Prof.ª Vanessa Melo
1. Itens iniciais
Propósito
Ao tratarmos da escravidão no Brasil, conseguimos compreender as diversas formas de exploração do
trabalho existentes desde o Período Colonial e que atingiu indígenas, africanos e seus descendentes,
imigrantes e mulheres negras.
Preparação
Consulte as seguintes obras de referência:Dicionário da Escravidão e Liberdadee aEnciclopédia Negra
Objetivos
Discutir o uso da mão de obra indígena pelos europeus na colonização do Brasil.
Identificar a escravização africana como um grande comércio de gente.
Exemplificar as diferentes formas de resistência à escravidão no Período Colonial e Imperial.
Identificar ações de venda de mão de obra imigrante e dos corpos das mulheres.
Introdução
Ao contarmos a história do Brasil, não podemos deixar de mencionar um sistema que foi predominante por
mais de três séculos: a escravidão. A predominância desse sistema, que atravessou o Período Colonial e foi
quase até o final do Império, estava baseada na comercialização de homens e mulheres, os escravizados,
muitos vindos de várias regiões da África e seus descendentes nascidos no Brasil. 
No entanto, os portugueses quando chegaram ao Brasil utilizaram inicialmente outro tipo de mão de obra para
o trabalho, os indígenas, que continuaram sendo comercializados a despeito da proteção que tinham da Igreja
Católica. Além de africanos e indígenas, homens e mulheres de diferentes nacionalidades atuaram como
trabalhadores no Brasil, vendendo a sua força de trabalho para os mais diferentes ofícios. De fato, desde
1500, o trabalho introduzido no Brasil por meio dos portugueses foi o da exploração do corpo alheio, que
passava por uma lógica comercial, necessário para a produção de grandes riquezas. Logo, gente virou
mercadoria, com geração de trabalho e riquezas para alguns poucos, que estavam fora dessa dinâmica
comercial. 
Este texto pensa nesse comércio de gente a partir de várias perspectivas, passando pela história do Brasil
vista sob um ponto de vista social e humano, seja da parte do explorador ou do explorado. Nesse caso, os
indígenas constituem o primeiro grupo a ser explorado como mão de obra nos primeiros momentos da
colonização. Os africanos foram escravizados a partir de uma lógica comercial que foi iniciada nos primeiros
contatos entre portugueses e povos africanos. Após esses contatos, há a maior migração de pessoas
registrada na história, todos para a escravização nas Américas e uma grande parte para o Brasil. 
Porém, essa escravização não foi realizada sem a constante resistência de homens e mulheres, que
promoveram revoltas, fugas, quilombos e negociação. Outros explorados foram os imigrantes, principalmente
europeus, que foram atraídos para o trabalho no Brasil, sendo submetidos a condições precárias de trabalho,
ainda durante a vigência da escravidão. Por fim, vale ressaltar o quanto as mulheres, principalmente as
escravizadas e negras, foram exploradas por diferentes formas, sejam como amas de leite, ou no trabalho
doméstico, no comércio de rua e na prostituição. Este texto mostra as diferentes formas de comercializar
gente existentes no Brasil Colonial e Imperial, e que podem ter deixado ressonâncias até hoje. 
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1. A venda da mão de obra indígena
Organização local
Aldeamentos
Os primeiros trabalhadores do Brasil foram os povos nativos, escravizados pelos portugueses desde os
primeiros contatos. Se em primeiro momento a ideia era estabelecer relações a fim de que pudessem melhor
explorar a região, no momento seguinte, os portugueses aprofundaram o contato por meio da exploração
dessa mão de obra, tornando os indígenas indispensáveis para o projeto da colonização.
Família indígena, tela de Jean-Baptiste Debret.
Nesse caso, é importante identificar os diferentes tipos de relacionamento entre indígenas e portugueses e
demais povos estrangeiros a fim de compreender como esse grupo social foi explorado nos primeiros séculos
da colonização portuguesa no Brasil.
Um primeiro ponto de destaque dos contatos iniciais entre portugueses e indígenas diz respeito à organização
desse grupo social e como ela seria modificada a partir da presença dos portugueses.
Algo crucial para os colonos era interferir na lógica de organização dos diferentes grupos étnicos
que viviam na região hoje conhecida como Brasil.
Estabelecimento de aldeias
A primeira modificação foi o estabelecimento de
aldeias, tipo de organização introduzida pelos
colonizadores, com apoio dos jesuítas, que
submetia os indígenas a uma nova forma de
viver em comunidade e, consequentemente, de
realizar seus trabalhos.
Projeto de colonização 
Os aldeamentos fizeram parte do projeto de
colonização portuguesa, sendo decisivos para a
inserção dos indígenas na ordem colonial, tendo
diferentes significados para os envolvidos.
Nas aldeias houve o compartilhamento de culturas e histórias entre diferentes etnias e, em alguns casos,
entre outros grupos, como mestiços, colonos e missionários. Por meio desse contato, ocorreu também uma
reelaboração de comportamentos, atitudes e valores por parte dos indígenas, evidenciando que eram um
grupo em constante movimento, principalmente na reelaboração da identidade, processo presente em todo
grupo social. 
Aldeia de indígenas cristãos.
As aldeias eram unidades locais sem serem autossuficientes, precisando de uma articulação com grupos
locais ou unidades maiores. Sua criação permitiu que houvesse o fim da peregrinação missionária, fazendo
com que os indígenas fossem deslocados para as proximidades dos núcleos portugueses, favorecendo,
assim, o seu controle, tanto por parte dos religiosos como dos colonos. Ao mesmo tempo que as aldeias
faziam parte de um projeto pedagógico de cristianização dos indígenas e de transformação desse grupo em
súditos do rei, elas também se tornaram redutos para os colonos interessados nesse tipo de mão de obra,
atendendo, desse modo, aos interesses dos moradores de algumas regiões. No entanto, pesquisas indicam
que alguns grupos indígenas estiveram envolvidos na dinâmica dos aldeamentos como sujeitos ativos desse
processo de construção das aldeias, tendo alguns dos seus líderes papel de destaque dos aldeamentos. 
Mudança das dinâmicas indígenas
Conflitos
A presença dos portugueses também alterou a dinâmica das guerras entre os povos nativos, uma vez que o
contato entre europeus e indígenas poderia favorecer grupos específicos e subjugar outros, principalmente
por meio das relações de escambo de artefatos para a guerra. Nas relações comerciais existentes entre
europeus e indígenas, os objetos trocados possuíam diferentes valores e significados para os envolvidos. 
A partir dessa lógica, ferramentas e armas europeias aumentaram a competitividade entre os grupos
indígenas que lutavam entre si, sendo esses conflitos favoráveis aos portugueses que poderiam escravizar os
perdedores dessas guerras ou aprofundar as trocas de armas por mercadorias ou mão de obra. Ou seja,
segundo historiadores, a divisão dos grupos étnicos e a rivalidade entre eles foram parte de um mesmo jogo
de conflitos e interesses em que os europeus eram um dos agentes. 
No entanto, a aliança e as relações de troca e escambo existentes entre indígenas e portugueses tornaram-se
inadequadas diante das novas exigências da Colônia em crescimento, alimentando, assim, a prática da
escravização indígena em larga escala. De acordo com Maria Regina Celestino de Almeida:
Colônia em crescimento
Como exemplos do crescimento da Colônia temos aumento populacional, novas construções, produção
de alimentos e atividades agrícolas. 
Paralelo a isso, o caráter destruidor da aliança com os portugueses se revelava cada vez mais por meio
de doenças contagiosas, de atitudes traiçoeirase, principalmente, de sua voracidade em obter escravos
que, além de intensificar as guerras intertribais, contrariava sua principal motivação – a captura de
prisioneiros para o sacrifício, descontentando os índios. A consequência direta dessa situação foi o
incremento assustador das guerras indígenas contra os portugueses em toda a costa do Brasil.
(ALMEIDA, 2013, p. 63)
O litoral do Rio de Janeiro foi um bom exemplo da guerra de domínio existente nas primeiras décadas da
colonização e provocou, segundo essa mesma autora, uma alteração no quadro de alianças e hostilidades
entre os grupos indígenas (ALMEIDA, 2013, p. 73). 
Importante lembrar que a fundação da cidade do Rio de
Janeiro foi realizada a partir de um conflito entre
portugueses e franceses pelo domínio da região. No
entanto, esse conflito só pôde ocorrer a partir também do
apoio e das hostilidades existentes entre os diferentes
grupos de indígenas que ocupavam a região. 
Alimentar essas hostilidades e conflitos favoreceu os
colonos portugueses. 
Desse modo, criou-se categorias de indígenas a partir das relações que mantinham com os colonos. Os
“aliados” teriam um papel especial nessas relações porque eram súditos do rei e garantiam a ocupação e
manutenção da terra. Além disso, os vistos como aliados poderiam oferecer sua força de trabalho a
autoridades, missionários e colonos a partir de uma troca de valores. Em oposição a esses aliados, existiam os
“inimigos”, que poderiam ser escravizados e violentados na sua identidade. 
Ninguém ouviu Um soluçar de dor No canto do Brasil Um lamento
triste Sempre ecoou Desde que o índio guerreiro Foi pro cativeiro E de lá
cantou ...
(Canto das Três Raças - Clara Nunes)
Formas de escravismo indígena
Escravização
Os portugueses introduziram várias formas de “aquisição” dessa mão de obra nos primeiros anos da
colonização. As expedições de descimento foram uma dessas formas e eram realizadas por meio da retirada
dos índios dos seus locais de origem para as aldeias criadas nos núcleos portugueses. Alguns desses
indígenas que iam para as aldeias aceitavam de forma voluntária por temer a escravização, a redução das
terras livres, a falta de alimentos ou outras dificuldades que poderiam colocá-los em risco, tornando a aldeia
uma proteção nesse processo de negociação das perdas e nas estratégias de sobrevivência. 
Indígenas soldados da província de Curitiba escoltando prisioneiros nativos, tela de
Jean-Baptiste Debret.
Em paralelo a isso, existiram as chamadas “guerras justas” que se tornaram um procedimento legítimo de
escravização dos indígenas hostis aos portugueses e que se recusassem à evangelização. 
Por meio das guerras justas, o processo de escravização desse grupo se aprofundou. 
O cenário inicial da escravização indígena é o das primeiras expedições portuguesas, principalmente após as
cartas de doação das capitanias hereditárias e em um ambiente de escassez de mão de obra. A disputa entre
colonos e jesuítas, esses últimos desejosos de catequizar os indígenas, marcou os primeiros séculos da
colonização. No entanto, de acordo com Jacob Gorender (2010, p. 524), se os jesuítas salvaram em parte a
população indígena da escravização, principalmente salvando-os do extermínio dos colonos leigos, os jesuítas
também estimularam alguns processos violentos de sujeição desses indígenas sob pretexto de viabilizar a
catequese. 
Comentário
Para esse autor, o protesto contra a escravização injusta tinha, no seu reverso, o reconhecimento da
escravização considerada justa aos olhos da lei. 
Mesmo com uma estrutura montada para controlar o “uso” dos indígenas para o trabalho por parte das
autoridades portuguesas e dos jesuítas, esse grupo não deixou de ser escravizado por particulares. Essa
escravização pôde ser identificada em pesquisas que analisaram testamentos e que encontraram as heranças
Justificativa para escravização 
A Coroa portuguesa autorizava esse tipo de
guerra, usando como justificativa a ideia de
que os indígenas eram selvagens e por isso
permitia sua escravização.
Expedições de apresamento 
Com o avanço da colonização, as
expedições de apressamento foram
realizadas pelos bandeirantes paulistas
que, ao desbravarem o sertão,
capturavam os indígenas para a
escravização.
com as seguintes expressões: moços de serviço forros, gente forra, gente do Brasil, peças forras serviçais,
administrados ou servos de administração (GORENDER, 2010, p. 519).
Importante ressaltar que a introdução de africanos para a escravização não preservou os indígenas e nem
substituiu esse tipo de mão de obra que continuou a ser usada em regiões mais pobres. Durante o século XVII,
o trabalho indígena foi predominante em algumas áreas da Colônia, a despeito da presença dos africanos
escravizados. Durante a presença dos jesuítas na Colônia, antes de sua expulsão por parte do Marques de
Pombal, houve um apoio sistemático no uso dos africanos como escravos a fim de preservar os indígenas,
sendo as ações dos jesuítas apoiadas pelos interessados na venda dos africanos.
Proibição legal do escravismo
O fim?
A escravização indígena foi abolida pelas leis pombalinas de 1755 e 1758, apesar de deixarem brechas para a
escravização em caso de prisão dos indígenas por “vagabundagem”. Desse modo, permaneceu um comércio
de indígenas no estilo dos descimentos e a escravização em regiões afastadas do litoral. 
Impacto do café nos indígenas
Nos tempos do Império, principalmente na
região do cultivo do café no Vale do Paraíba,
outros grupos indígenas foram afetados. Os que
viviam na região de Valença, os Coroados,
desapareceram na medida em que houve a
fundação das vilas e o avanço da produção do
café.
Violência e desaparecimento indígena
A violência sobre os grupos indígenas, dessa
vez, não foi apenas para o uso da sua mão de
obra, mas sim sobre a sua presença física e
política na região disputada por grandes
fazendeiros. Nessa violência que causou o
desaparecimento do indígena, criou-se a ideia
de que, no século XIX, ele já não mais existia no
Brasil.
A comercialização da mão de obra indígena serviu a inúmeros interesses e permaneceu sendo feita até
meados do século XIX. O uso desse grupo para o trabalho na Colônia e no Império foi reduzido diante do
aumento do número de africanos para a escravização e na pressão política e econômica que os interessados
no comércio com a África fizeram para que os africanos fossem privilegiados na escravização. Ainda assim, é
preciso ver a história do Brasil Colônia e Império sendo feita a partir do trabalho indígena, apesar da sua
resistência e negociação para preservar suas identidades e a própria vida. 
Escravidão indígena
Neste bate-papo, o professor Rodrigo Rainha entrevista a doutora em História Beatriz Libano Bastos, que
aprofunda o debate no tema escravidão indígena.
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Formas de escravidão indígena
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A proibição da escravidão indígena
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Verificando o aprendizado
Questão 1
O uso da mão de obra indígena é cheio de mitos na história do Brasil. Foi discutida desde uma relação
amistosa até o fato de indígenas fugirem por conhecerem a terra e não se adaptarem ao trabalho. As
premissas falsas podem ser observadas quando
A
os indígenas eram escravizados irregularmente, mesmo com a proibição da Colônia portuguesa, desde o
século XVI.
B
a Colônia brasileira buscava se estabelecer e precisava de aliados, por isso não escravizava indígenas.
C
os indígenas foram escravizados e trocados como mercadorias nos portos de São Vicente e Desterro para
fazendas do Recife e Salvador.
D
as tribos lutaram bravamente e faziam rituais de morte coletiva para não se entregarem ao escravismo.
E
foi montado um modelo em que os jesuítas teriam o principal direito à força detrabalho indígena, por isso,
muitas vezes, o escravismo foi negado.
A alternativa E está correta.
Os indígenas tiveram relações diversas com os portugueses. A lógica de trabalho compulsório sempre
esteve presente como possibilidade. Seu modelo de escravidão não foi de grande comércio de costa a
costa, mas sim com mais dinâmicas locais e por terra. Os indígenas eram vistos como força de trabalho e
almas a serem salvas. Pela proximidade com a Coroa, os jesuítas eram os principais articuladores, que se
beneficiavam de uma forma de escravismo e criticavam outras no espaço colonial.
Questão 2
A escravidão indígena muitas vezes é apresentada na escola como algo que não existe ou era secundário. No
entanto, uma investigação nas fontes acabam por indicar processos diferentes. Escolha, entre as alternativas
abaixo, a que serve de exemplo de um processo de escravidão indígena.
A
Durante a Guerra dos Bárbaros, em que os índios invadiram Salvador.
B
No levante na cidade do Rio de Janeiro, para expulsar os franceses da Baía de Guanabara.
C
Nas lutas dos jesuítas contra os bandeirantes, pela proteção dos indígenas.
D
Nas ações do governo, que tentava de toda forma evitar que os indígenas fossem escravizados.
E
Nos relatos do Vale do Paraíba, já nas plantações de café, sobre o escravismo indígena mantido.
A alternativa E está correta.
A construção dos indígenas como foco de escravismo não está só no padrão jurídico, mas no lidar com o
outro na formulação do Brasil. Os relatos de escravismo indígena não se mostram na resistência, que
sempre houve, ou na proteção de um grupo, o princípio é que a dinâmica de escravismo, mesmo com a
proibição, continuou viva e recorrente.
2. A escravização de africanos nas Américas
Tráfico de africanos pelo Atlântico
Tráfico Atlântico
O Brasil recebeu o maior volume de africanos para a escravização nas Américas. Esse grande comércio de
gente foi introduzido pelos portugueses nas primeiras décadas da colonização, perdurando a escravidão até
1888. Entender o complexo processo desse comércio é fundamental para compreendermos a estrutura do
trabalho no Brasil, principalmente diante da constante exploração de homens e mulheres em suas atividades
laborais mediante baixos salários.
A comercialização de africanos para as Américas começou com a chegada dos portugueses ao continente em
meados do século XV. Essa chegada foi impulsionada por diferentes motivos, entre eles o religioso, no qual a
presença portuguesa no continente africano iria espalhar a fé cristã e salvar algumas almas.
Quadro “Primeira Missa no Brasil”.
Novas rotas comerciais
As condições econômicas de Portugal
permitiram a aventura dos portugueses se
lançarem ao mar em busca de novas rotas
comerciais e da expansão da fé.
Exploração africana
A costa do continente africano parecia ideal
para esse empreendimento, sendo alguns
nativos capturados e enviados a Portugal,
iniciando uma guerra justa aos moldes daquela
que promoveriam no Brasil nas décadas
seguintes.
Nessa guerra, a conversão ao cristianismo seria a senha para escapar da escravização, sendo uma
ação legítima e providencial apoiada pela Igreja Católica e pela Coroa. 
De acordo com alguns cronistas do período, a escravidão permitiria aos nativos africanos a conversão ao
cristianismo e depois libertos estariam abertos à civilização, servindo a escravização como uma salvação
(COSTA, 2014, p. 62). 
Nesse processo de conquista da África, que passava pela negociação e cristianização, é importante chamar a
atenção para a sedução que alguns reis africanos caíram no contato com os portugueses, que, em primeiro
momento, tratavam-nos como iguais. 
Os reis portugueses tinham o poder de decidir quem proteger e quem atacar, e suas decisões
dependiam da boa vontade dos chefes em respeitar os acordos com a Coroa. Quando os chefes
africanos se deram conta das trágicas consequências do tráfico de escravos – seus povos divididos e
em guerra uns contra os outros, vassalos leais subitamente rebelados contra a autoridade dos
soberanos, todos seduzidos pela ilusão de riqueza e poder trazida à África, e os portugueses
demandando sempre mais mão de obra por meio do tráfico e expandindo a infraestrutura colonial –, já
era tarde demais para voltar atrás e redefinir a relação com o rei português. Os chefes e seus povos
haviam caído na armadilha de um processo que já não podiam controlar.
(COSTA, 2014, p. 70)
Já tendo introduzido a escravização africana no Brasil, os portugueses conquistaram no final do século XVI a
região de Angola, o que serviu para o aprimoramento do tráfico negreiro. Dentre alguns números sobre a
chegada de homens e mulheres da África ao Brasil, em primeiro momento, entre 1576 e 1600, entraram
aproximadamente 40 mil escravos africanos; entre os anos de 1601 e 1625 esse número triplicou, provocado
pela demanda da mineração. Nesse último período, houve um forte envolvimento de negociantes ingleses e
holandeses, havendo pelo menos cinco sistemas transatlânticos: britânico, francês, holandês, espanhol e
português. 
Africanos no Brasil
O Brasil recebeu 1/3 dos africanos trazidos para as Américas, de lugares como:
Justificativa dos cronistas 
Ainda de acordo com esses cronistas, os
nativos africanos deveriam ser forçados a
trabalhar porque eram afeitos ao ócio e,
sendo superiores religiosa e culturalmente, os
portugueses acreditavam que tinham direitos
sobre as terras, os bens e os povos (COSTA,
2014, p. 65).
Feitorias africanas 
Ao estabelecer feitorias pela costa
africana, os portugueses foram
estabelecendo contato com diferentes
povos, negociando mercadorias,
pessoas, convertendo alguns ao
cristianismo e empreendendo guerras
justas que renderiam mais pessoas para
a escravização de outras regiões,
principalmente as Américas.
Centro-ocidental (Angola, Congo) Costa Ocidental (Costa da Mina,
principalmente)
Costa Oriental (Moçambique)
A identificação étnica desses grupos que vieram para o Brasil poderia responder sobre a experiência da
escravidão e como viveram a diáspora. No entanto, muitos registros de nação, encontrados nas
documentações, são apenas categorias criadas por senhores ou comerciantes ou identidades adotadas pelos
próprios africanos ao se reagruparem ou ressocializarem sob a escravidão.
Um dos exemplos das trocas de mercadorias que geraram o
comércio de africanos está na Bahia. Nessa região, era
produzido um tipo de tabaco de grande interesse dos
comerciantes da região da Costa da Mina, sendo esse um
local de origem dos africanos que foram para a Bahia diante
da profícua troca entre os comerciantes de ambos os lados
do Atlântico. Esses povos seriam os Jejes, Ussás, Nagôs,
considerados pelos homens da época as nações mais
guerreiras da África, segundo Pierre Verger.
Até o final do século XVII, não havia escravizados em Minas
Gerais e os que começaram a entrar na região, por conta da
exploração do ouro, vinham de Angola para o Rio de
Janeiro, sendo vendidos diretamente para os mineradores. 
Em 1730, cresceu em 40% o volume de entrada de cativos no Rio de Janeiro com destino às minas. 
A mineração causou um impacto no caráter da escravidão, fazendo com que ela fosse difundida social e
espacialmente, disseminando também a posse do escravo e a criação de hierarquias étnicas e culturais mais
complexas. 
Algumas pesquisas realizadas sobre a região mineradora revelaram uma sociedade heterogênea e múltipla,
paradoxal em relação a uma administração, que procurava ser repressora e excludente, mas que nem sempre
conseguia moldar essa sociedade conforme seu intento.
Ao contrário do que usualmente se pensava, os
indivíduos escravizados foram capazes de
estabelecer níveis significativos de organização
familiar e de luta por seus direitos. A instituição
escrava, em toda a região da Colônia e do
Império, serviu para estragar as relações
sociais que o escravizado e o ex-escravizado
pudessem estabelecer mais tarde no mundo
branco.
O legado da escravidão seria eterno para quem
vivesse em uma sociedade escravista, não
sendo a liberdadeum fator de igualdade entre livres, ou seja, um ex-escravizado não estaria no mesmo pé de
igualdade que um homem branco, mesmo que pobre. A comercialização do corpo negro para o trabalho não
poderia ser apagada com a liberdade enquanto durasse a sociedade escravista. 
A cidade do Rio de Janeiro foi afetada pela forte demanda de escravizados para a região de Minas Gerais,
estando esse comércio consolidado na cidade no século XVIII, por haver também capital para o investimento
nesse tipo de mercadoria por parte dos negociantes locais. Para o empreendimento, foi realizada uma grande
manobra que envolvia diferentes setores. Vejamos!
Comércio de mercadorias
Os que forneceriam as mercadorias a serem
negociadas na África em troca de homens e
mulheres para a escravização.
Comandantes das frotas
Os que comandavam as frotas dos navios, de
diferentes tamanhos e que incluía experientes
mestres e capitães, e de origem do Rio de
Janeiro, da Bahia, de Pernambuco e de
Portugal.
Havia também médicos e cirurgiões capazes de tratar das doenças originárias dos navios que traziam os
africanos para o Brasil. Além disso, era preciso a figura dos intérpretes e professores que pudessem ensinar
um palavreado básico para os recém-desembarcados, a fim de que fossem capazes de se comunicar. Toda
essa estrutura foi alimentada por aqueles que queriam comprar essas “mercadorias” e enviá-las para
diferentes tipos de atividades, seja para o campo ou para as cidades. Importante ressaltar as palavras do
pesquisador Nireu Cavalcanti sobre o comércio desses africanos no Brasil. Vamos conferir!
Como era natural, os consumidores de escravos novos desejavam
abundância deles no mercado, a preços baixos, que estivessem saudáveis,
prontos para produzirem, e pertencessem às etnias preferidas. Além disso,
queriam desfrutar o privilégio de escolha dos melhores. Já os fornecedores
obtinham no mercado africano o que lhes era possível, e a situação desses
escravos era ainda agravada com o rigor da viagem. Por isso a oferta de
escravos novos apresentava um quadro bastante diverso do desejado
pelos consumidores.
(CAVALCANTI, 2005, p. 37)
Esses consumidores de homens e mulheres escravizados eram diversos. De acordo ainda com Cavalcanti,
havia os comerciantes que queriam revender esses sujeitos novos, ou os ricos que os queriam para o trabalho
e por isso preferiam os mais sadios, mas havia também aqueles mais pobres que adquiriam os africanos
doentes a preços módicos, e que poderiam estar aleijados ou velhos e que eram chamados de “refugo”
(CAVALCANTI, 2005, p. 41). Alguns investiam no tratamento desses doentes para que pudessem ser vendidos
e assim terem seus investimentos recuperados. Ou seja, o comércio de africanos para a escravização abrangia
diversos interesses em uma cidade escravista.
Navio negreiro.
Quando o Rio de Janeiro se tornou sede da Corte em 1808, houve um aumento da demanda por escravizados
artesãos, encarecendo o aluguel desses indivíduos. Além da possibilidade de alugar o serviço, havia também
os “negros de ganho”, presentes nas cidades escravistas.
Licença de escravização
Essa modalidade da escravização consistia em
uma licença tirada pelo seu senhor que permitia
que o escravizado oferecesse seus serviços em
troca de uma quantia, que seria dada ao senhor
e combinada entre eles.
Renda das famílias
Esse tipo de atividade exercida por esses
escravizados permitiu até que famílias pobres
tivessem alguma renda em caso de possuírem
algum sujeito escravizado.
Custos de moradia
Em alguns casos, o senhor não oferecia
moradia, restando ao escravizado pagar com a
renda adquirida no trabalho o valor da sua
moradia e alimentação.
Uma das atividades realizadas pelos chamados “escravos de ganho” era a de transporte de mercadorias. No
tempo da Colônia e do Império, os animais ou outros dispositivos mecânicos não eram utilizados para o
transporte de grandes mercadorias, restando aos escravizados essa atividade, usando suas cabeças, braços
e toda sua força física para carregar todos os tipos de mercadorias, das mais leves às mais pesadas.
Velho africano com berimbau
As mulheres também eram responsáveis pela realização do ganho nas cidades. Elas realizavam diferentes
atividades, desde serviços de cozinheiras, costureiras e lavadeiras. Além dessas atividades, também
comercializavam gêneros alimentícios ou comidas preparadas por elas. O uso de sujeitos esravizados para
esse carregamento era disseminado em várias cidades, desde as mais planas, como o Rio de Janeiro, até as
com grandes ladeiras, como Salvador. 
Escravidão no Império
Escravismo no tempo do Império
O tempo do Império do Brasil foi de auge da escravidão. Entre 1822 e 1888, o Brasil tornou-se a maior
sociedade escravista e o último país a libertar seus homens e mulheres escravizados. Ainda durante a primeira
metade do século XIX, entraram no Brasil mais de 42% dos africanos, a maioria destinada à atual Região
Sudeste. 
No entanto, concomitante ao aprofundamento da escravização africana e dos seus descendentes,
ocorreu também uma movimentação legislativa a fim de diminuir essa dependência e eliminar
gradativamente a escravidão. 
Essa era a realidade da escravidão no Brasil logo após a independência e que teria pouca alteração na década
seguinte. 
A lei de 1831 foi resultado de uma pressão internacional e um acordo feito entre D. Pedro I e a Inglaterra em
1826, ferindo os interesses dos setores conservadores do Estado. Assinada em 1831, a proibição de entrada
de africanos para a escravização alterou os rumos da escravidão no Brasil. Houve um decréscimo temporário
nas entradas de africanos durante a primeira metade da década de 1830, mas, nos anos seguintes, assumiu
grandes proporções. 
Proibição do comércio transatlântico 
Um primeiro momento dessa tentativa de
reduzir a influência da escravidão foi atacar a
entrada de africanos no Brasil. Esse comércio
transatlântico foi proibido por meio de uma
lei assinada em 7 de novembro de 1831, já no
Período Regencial, uma vez que o Imperador
Pedro I havia abdicado do seu trono no dia 7
de abril do mesmo ano.
Contexto da proibição 
A lei que proibiu o tráfico de “escravos
transatlântico” está dentro de um
contexto internacional de repressão do
tráfico e numa conjuntura doméstica
que colocava o Brasil no topo dos países
das Américas com maior número de
população escravizada, tendo também a
maior população de africanos fora da
África e a maior população de
descendentes livres de africanos.
Homens e mulheres capturados.
Uma das mudanças foi a respeito do perfil de quem operava esse comércio. Em diversas regiões do Império, o
antigo comércio virara tráfico com novas roupagens e esquemas, o que tornava a atividade mais lucrativa e
mais violenta. A atividade atrairia profissionais especializados, não sendo possível a participação de amadores
nesse comércio. Com a ilegalidade, perdia-se uma estrutura de chegada dos homens e mulheres para a
escravização, em que teriam cuidados iniciais para a recuperação da viagem e imediata venda. 
Após 1831, o desembarque passou a ser uma questão de oportunidade, quando não houvesse perigo da
descoberta do tráfico, fazendo com que muitos cativos esperassem nos navios por horas ou dias para serem
desembarcados, deteriorando ainda mais suas condições físicas. Outras regiões para esse desembarque se
desenvolveram, não sendo possível ter registros desses homens e mulheres que chegaram ao Brasil de forma
ilegal.
As leis que trataram do fim do tráfico foram elaboradas em contextos distintos e previam mais a preservação
da propriedade escrava do que o fim do tráfico propriamente dito. A lei de 1850 teve um apoio diferenciado
diante da iminência de uma revolta comandada pelo elevado número de africanos e por não responsabilizar o
proprietário desses escravizados pela entrada ilegal dos africanos. Ainda assim, o contexto tenso da
escravidão, entre temor de insurreições e sua realização propriamente dita, abriu brechas para a negociação
de liberdade ou de “direitos” no mundo da escravidão.Entre o período das duas leis, houve o estabelecimento e a expansão da produção do café na região
do Vale do Paraíba. 
Lei para inglês ver 
Chamada de “lei para inglês ver”, a primeira
lei que interrompeu o tráfico foi fundamental
para a produção de fortunas e para o
aprofundamento da escravização, apesar da
ilegalidade desse comércio.
Impacto da lei de 1831 
Por ter dado um novo rumo ao
comércio de africanos no Brasil, a lei de
1831 tem um impacto profundo,
durando até 1850, quando ocorreu a
aprovação da segunda lei contra o
tráfico desses indivíduos.
Economia de Plantation
A implantação efetiva de uma economia agrária
de plantation, a partir da década de 1830,
favoreceu o crescimento, a acumulação e a
concentração da população escravizada nas
mãos dos proprietários rurais, principalmente na
região do Vale do Paraíba, causando mudanças
nos espaços de negociação nas relações
senhor e escravizado.
Cafeicultura de Vassouras
Os anos entre 1865-1880 representaram anos
de grandeza da cafeicultura de Vassouras, com
alteração no padrão das relações de força entre
senhores e escravizados, havendo um
crescente protagonismo desses últimos por
seus direitos e ampliação dos espaços de
negociação.
A expansão do café no Vale do Paraíba se confunde com a história da expansão da própria classe senhorial no
Império, dependente da escravidão. A elite imperial compartilhava e expressava um estilo de vida e uma visão
de mundo a partir do ponto de vista delimitado pela Corte e pela escravidão. Tornavam-se dependentes da
escravidão, desse comércio, tanto econômica quanto socialmente. 
Tráfico de viventes e formas do escravismo no Brasil
Neste bate-papo, o professor Rodrigo Rainha entrevista a doutora em História Beatriz Libano Bastos,
aprofundando o debate no tema tráfico atlântico.
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Africanos no Brasil
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As leis e o fim do tráfico de gente
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Verificando o aprendizado
Questão 1
O tráfico atlântico foi um grande negócio. A sua estrutura econômica foi marcada pela construção de uma
rede ampla que pode ser caracterizada pela
A
superioridade europeia e que domina todo o mundo.
B
poderio militar que permite que os portugueses dominem o mundo.
C
prática de escravismo na África que facilitou a aceitação da escravidão.
D
organização religiosa que gerava o interesse na conversão e justificou a escravidão.
E
estrutura de feitorias e a inserção nas disputas locais que permitiram um lento e contínuo processo de uso da
mão de obra escrava.
A alternativa E está correta.
O tráfico é marcado por discursos de poder e superioridade, mas de fato é uma dinâmica social que
transformou o estabelecimento e a conquista de entrepostos em espaços de trocas, transformando, na
dinâmica mercantil, pessoas em produtos.
Questão 2
O trabalho como um produto e que tem suporte governamental para a sua legalização ou proibição é algo
recorrente nas sociedades modernas e contemporâneas. Durante a modernidade, essa exploração teve um
capítulo terrível com o escravismo como modelo econômico e que tem seu auge no século XIX. Ao mesmo
tempo que é seu auge, devemos salientar também que é
A
o período em que o comércio começa a falir com a valorização do trabalho assalariado imigrante.
B
o período em que a religião muda o discurso e se torna inimiga da escravidão.
C
o período em que os grupos contra o escravismo defendem o retorno de todos os africanos ao continente de
origem.
D
o período em que os governos independentes das Américas mais lutaram pelo seu direito de escravizar.
E
o período em que as contestações cresceram e as legislações, por pressão de ingleses, por exemplo, passam
a restringir as práticas escravistas.
A alternativa E está correta.
O tráfico é controverso ao longo de todo seu período, no entanto, a aceleração do comércio nos séculos
XVIII e XIX ampliou as trocas, assim como as leis do XIX ampliaram os valores e, por isso, a resistência
acaba por apontar o enriquecimento de traficantes.
3. A resistência à escravização no Brasil
Quilombo
Formação dos quilombos
As formas de escravização que tratamos até aqui não foram feitas sem a resistência dos homens e mulheres
escravizados. Durante todo o Período Colonial e Imperial, houve resistência por parte dos africanos e seus
descendentes, que não aceitaram suas condições de mercadoria. Desse modo, é importante pontuar também
as diferentes formas de resistência dessa população.
O quilombo de Palmares foi o primórdio desse
tipo de ação, sendo classificado como
“quilombo-rompimento” por ter como princípio
a prática do esconderijo e do segredo de
guerra, sendo necessário preservar o cotidiano
e a organização interna contra curiosos e,
consequentemente, autoridades coloniais. Esse
tipo de prática assustou autoridades e causou
mudanças na legislação após o fim de
Palmares, que durou aproximadamente 80
anos, a fim de evitar a repetição da
grandiosidade desse quilombo.
Após o fim de Palmares, a legislação e a
repressão não permitiram que outro Palmares
existisse. No entanto, a prática do aquilombamento não desapareceu, sendo identificados quilombos em
algumas cidades.
Nas últimas décadas da escravidão surgiram os “quilombos abolicionistas”. 
Diferentemente do segredo existente no modelo tradicional, suas lideranças eram conhecidas, com boas
articulações políticas, sendo essencial a articulação mais profunda com a sociedade e sendo parte de um jogo
político daqueles últimos anos da escravidão. Dois quilombos abolicionistas são conhecidos e fortemente
pesquisados pela historiografia.
Formação de Quilombos 
Uma delas foi por meio da fuga e formação
de quilombos, criados a partir de grupos de
homens e mulheres fugidos que estavam
organizados econômica e socialmente em
comunidade, tendo um tipo de autonomia e
agenciando estratégias de resistência diante
de outros sujeitos perigosos.
Resistência dos Quilombos 
Os quilombos foram uma forte
expressão de resistência à escravidão e
são caracterizados pela sua condição
radical diante do escravismo. Além de
escravizados fugidos, os quilombos
agregavam também indígenas
perseguidos, multados e outros grupos
sociais oprimidos e em risco.
Jabaquara
Jabaquara foi o maior deles. Ficava na região de Santos, São Paulo, e suas terras foram cedidas por
um abolicionista da elite e os quilombolas lá ergueram suas casas com ajuda do dinheiro recolhido
entre comerciantes da região e de outros doadores.
Leblon
Outro exemplo é o quilombo do Leblon, no Rio de Janeiro, que teve como idealizador um comerciante
português. Os fugitivos acolhidos no Lebon eram protegidos por outros abolicionistas, cientes da
existência desse tipo de refúgio em plena cidade.
Os quilombos do Jabaquara e do Leblon se comunicaram e ambos eram exemplos de uma nova forma de
resistir à escravidão, ampliando, assim, aqueles que aderiram a liberdade dos escravizados. 
De fato, os quilombos desafiaram as autoridades escravistas, que tentaram encontrar meios para diminuir a
atração da escravaria para esse tipo de prática. As alforrias eram uma forma de diminuir a tensão e serviam de
mecanismo de segurança para garantir a permanente entrada de africanos, numa espécie de constante
mobilidade da escravaria. Por outro lado, as fugas e as revoltas eram desmobilizadas por meio da negociação
entre senhor e escravizado e a concessão de alguns direitos, como a realização de festas, permissão para
constituir famílias, pedaços de terra e outras medidas que poderiam aliviar a pressão sobre esses homens e
mulheres. Quando essas medidas não funcionavam, estouravam as revoltas.
Movimentação e resistência
Levantes e revoltas
Durante todo o período da escravidão, as revoltas escravas foram constantes. Algumas com maior impacto e
repercussão e outrasque foram inibidas pelas autoridades ou por senhores. 
O século XIX, principalmente após a
independência do Brasil, teve nas revoltas o
grande temor de que uma grande rebelião
pudesse agregar todos os indivíduos
escravizados e causar uma convulsão social,
nos moldes do que ocorreu no Haiti (colônia
francesa que por meio de uma revolução negra
se tornou independente e acabou com a
escravidão).
Muitos senhores temiam um “transplante”
da África para o Brasil na continuidade do tráfico. 
O ideal seria a promoção de reformas a fim de evitar o mal maior: uma grande revolta. Apesar do temor das
autoridades e dos senhores, a grande revolta nos moldes da ocorrida no Haiti não foi testemunhada no Brasil.
No entanto, podemos afirmar que as rebeliões aqui existentes foram grandes “ensaios” para algo maior e
causaram preocupação sobre o destino da escravidão no Império. Entre as mobilizações estudadas pela
historiografia, destacam-se as ocorridas na década de 1830, após a primeira lei do fim do tráfico.
1833
Revolta de Carrancas
Em maio, ocorreu na região de Carrancas, da comarca de Rio das Mortes, em Minas Gerais, uma
revolta promovida pela escravaria de um deputado que resultou na morte de nove membros da família
do senhor. A região tinha uma forte concentração de escravizados africanos, tendo como atividade
econômica a pecuária e o cultivo do tabaco. A revolta espalhou-se por outras propriedades do senhor
e na repressão cinco escravizados foram mortos. A penalidade caiu sobre outros 12 que foram
condenados à morte.
1835 
Revolta dos Malês
Em Salvador, Bahia, escravizados muçulmanos tinham como objetivo atacar a região produtora de
cana e programaram a revolta para o dia 25 de janeiro, dia de Nossa Senhora da Guia e de
festividades na cidade. A repressão matou 70 escravizados e mais de 500 foram condenados a
diferentes penas, morte, tortura, deportação. A Revolta dos Malês, como ficou conhecida, foi a maior
rebelião escrava do Império.
1838 
Fuga de Paty dos Alferes
Na região de Paty dos Alferes, no Rio de Janeiro, houve a fuga de escravizados de duas fazendas,
que tinham como objetivo formar quilombos. A fuga não teve sucesso e esses homens foram
recuperados, sendo condenados à morte e Manoel Congo enforcado em praça pública para servir de
exemplo. A fuga ocorreu numa região com grande concentração de escravizados para as fazendas de
café e está dentro de um contexto de redução da entrada de africanos via tráfico transatlântico.
Apesar dessas revoltas terem sido realizadas em regiões e contextos diferentes, chamou a atenção dos
pesquisadores uma interessante característica: a presença de um grande número de africanos. Essa condição
das revoltas preocupou as autoridades que temiam, conforme já foi dito, um predomínio de africanos no Brasil,
podendo alimentar revoltas e mais instabilidade para a instituição escravista. Essa característica também deu
argumentos para aqueles que eram contra a continuidade do contrabando de africanos. No entanto, no final
da década de 1830, o volume do tráfico aumentou, só cessando em 1850 com a segunda lei. 
Comentário
Entre quilombos e revoltas, os escravizados tinham uma autonomia de ação, não podendo ser vistos
nem como heróis nem como apenas vítimas. Esses papéis não podem ser tão facilmente definidos num
contexto de escravização em que tanto a rebeldia quanto a negociação tinham o seu valor. 
Para alguns autores que pesquisaram contextos específicos, os escravos no Brasil foram mais negociadores
do que rebeldes, uma vez que negociar era uma chave para sobreviver no sistema. Por conta disso, é errado
ver o período da resistência à escravização e a continuidade do comércio de gente seguindo uma lógica de
ação. Na verdade, todas as ações escravas possuíram lógicas próprias dependentes do contexto em que
homens e mulheres viviam, dependentes da margem de negociação que encontravam. 
Estratégias e lutas contra o escravismo
Lutas pessoais e resistência ao controle
Outras formas de resistência à escravidão existiram, além das revoltas e formação dos quilombos. Alguns
realizavam roubos, suicídios e abortos, dentre outras ações. Todas essas formas de resistência serviam para
ou abrir margens de negociação para alcançar algum tipo de liberdade ou interromper de imediato a
escravização. No entanto, havia também algumas revoltas que serviam para a negociação, ou seja, não
significariam o rompimento definitivo com o sistema e talvez servissem para evitar a venda de algum
escravizado, separação da família ou negociar folgas.
Movimento de greve
O movimento de greve que conhecemos hoje
feito por trabalhadores livres era chamado de
“paredes” quando realizado por escravizados e
servia para alertar o senhor, iniciar uma
negociação ou buscar um direito, apesar da
escravidão.
Direito de permanência
Esse direito talvez fosse permanecer num lugar
específico e evitar sair do campo para a cidade
ou vice-versa, por exemplo.
Motivos de Fuga
Outro motivo para as fugas poderia ser também
uma reação aos castigos físicos ou a quebra de
costumes anteriormente aceitos, entre eles, a
redução dos dias santos, ou o impedimento de
festas e atividades religiosas.
Importante ressaltar a diferença entre a escravidão no campo e na cidade: em ambos os lugares, a violência
era fundamental nesse comércio de gente. O campo e a cidade possuíram ideias próprias para a repressão às
fugas e revoltas. Porém, é importante ressaltar o quanto que o escravizado, homem e mulher, são distintos e
não constituem um bloco que possa ser facilmente coordenado para a realização de uma grande fuga ou
revoltas.
Esses sujeitos operavam a partir de lógicas próprias que eram determinantes para a sobrevivência
no sistema escravista ou para a realização de alguma ação mais violenta de fuga ou de conquista de
liberdade. 
Nas cidades escravistas, esse sujeito também estava submetido a outras vigílias, não apenas do seu senhor,
mas das autoridades locais que seguiam códigos de conduta e que prezavam pela harmonia da cidade, para
isso reprimindo ajuntamentos e outras ações coletivas de homens e mulheres escravizados. A chamada “boa
sociedade” também servia de vigília contra esses sujeitos em fuga ou em desordem. Logo, a vida escrava nas
cidades seguia uma lógica de violência diferente da existente no campo, não sendo amena por ser na cidade.
Ethos escravista
Neste bate-papo, o professor Rodrigo Rainha entrevista a doutora em História Beatriz Libano Bastos,
aprofundando o debate no tema tráfico atlântico.
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Definição de Quilombo
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Revoltas e levantes de escravizados
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Verificando o aprendizado
Questão 1
O trabalho é parte do processo social. Seja compulsório ou por escolha do trabalhador, ele estabelece uma
relação entre quem usa o trabalho e quem o executa. A relação homem com o trabalho ao longo do tempo traz
formas de resistência. Exemplifique uma forma de luta vinculada ao trabalho na história do Brasil.
A
O quilombo, por tornar-se uma zona política independente politicamente.
B
A batalha do Haiti, que toma o poder em um país para os ex-escravizados.
C
Revoltas, como Malês e Sabinada, que tentavam tomar o poder político e pôr fim à escravidão.
D
Suicídios coletivos dos “escravos de ganho”, quando tinham oportunidade de trabalhar na rua.
E
Revoltas com a queima das fazendas, destruindo a produção, gerando prejuízo financeiro ao senhor.
A alternativa E está correta.
A lógica de exemplificar tem que ter sentido. Apesar de poder ser político, o foco sobre o trabalho é
produção. Nesse ponto, a única questão que se concentra sobre disputa de trabalho e produção
decorrente das fazendas é a letra E.
Questão 2
A discussão sobre o que representava o quilombo dentro da sociedadebrasileira é histórica e relevante. Em
sua retirada social, não deve ser entendida como isolamento. De fato, o quilombo representava
A
uma forma de organizar um exército para lutar contra a escravidão.
B
uma associação religiosa que visava proteger os escravizados.
C
uma cidade fortificada que tinha plena autonomia.
D
uma favela onde um estilo de vida próprio era organizado, apartado da sociedade.
E
um centro de resistência, que mantinha trocas econômicas e recebia núcleos de populações diversas.
A alternativa E está correta.
O quilombo mantinha um sistema econômico, com trocas, produção, mesmo sendo espaço de resistência e
muitas vezes palco de lutas ferrenhas contra o poder instituído.
4. O comércio de imigrantes e de mulheres
Imigração e trabalho
Mão de obra imigrante
No Brasil escravista, não eram explorados apenas os escravizados. Havia também uma gama de trabalhadores
de diferentes origens que exerciam atividades variadas. Esses trabalhadores, homens e mulheres,
comercializavam sua mão de obra e, em alguns casos, o próprio corpo, em troca de dinheiro, moradia,
alimentação e outros valores. 
A vinda de imigrantes europeus para o trabalho no Brasil também fazia parte de um projeto civilizatório que
tinha outros propósitos. Vejamos!
Incorporar à sociedade brasileira uma
ética do trabalho.
Estabelecer o projeto de branqueamento
da população.
Eliminar vestígios indexados da presença
indígena e negra.
No entanto, esses imigrantes eram de origens variadas e não necessariamente dispostos para algumas
atividades laborais em condições precárias, como as que existiam no Brasil no período. 
1
1830
Antes mesmo do fim do tráfico de africanos, em 1831, houve a promulgação da Lei de Locação de
Serviços, no ano anterior, que regulou por escrito o contrato sobre prestação de serviços por
brasileiros e estrangeiros. No entanto, essa lei não foi suficiente.
2
1837
Em 1837, novas providências foram anunciadas para a contratação de colonos. Entre as condições
estabelecidas na nova lei, estavam a possibilidade de demissões por justa causa, a intermediação de
sociedades de colonização para a contratação inclusive de crianças e órfãos e os direitos e deveres
de locatários e locadores.
Essa lei poderia ser a garantia para a falta de braços para o trabalho por conta do fim do tráfico em 1831. No
entanto, o que se viu nos anos seguintes foi não apenas a intensificação do tráfico ilegal de africanos, mas da
própria força da escravidão. 
Uma das formas de garantir que os imigrantes trabalhassem no Brasil era dificultar a aquisição de terras por
parte deles. Essa foi uma proposta do Conselho do Estado do Império, em 1842, e que foi efetivada em 1850
por meio da Lei de Terras. 
Assim, muitos que vieram para o Brasil foram destinados ao trabalho na construção de estradas,
pontes e demais obras públicas.
• 
A política imigrantista do Império parece ter sido vitoriosa quando temos acesso aos números.
Entre 1861 e 1870, havia cerca de 95 mil estrangeiros no Brasil.
O censo de 1872, o primeiro a fazer uma contagem geral da população, identificou que os imigrantes
livres correspondiam a 3,8% da população, que nesse censo foi totalizada como sendo de 10 milhões.
Imigrantes europeus.
Em 1879, outra lei reajustava as normas para a locação dos serviços aplicados à agricultura e estabelecia
prazos diferentes para os contratos exercidos por brasileiros ou estrangeiros e revogava as anteriores – 1830
e 1837. Entre 1880 e 1889, há um aumento do número de imigrantes e que se acentua nas décadas seguintes,
principalmente nos primeiros anos republicanos. 
Maneiras diversas de exploração
Escravos de aluguel
Enquanto alguns imigrantes ocupavam os postos de trabalho, a escravização de homens e mulheres
continuava.
Seja por simples venda de escravo. Seja por meio do aluguel.
Nesse último caso, o acordo seria entre o contratante e o senhor do escravizado a ser alugado, diferente do
“escravo de ganho”, já visto anteriormente. 
Uma das formas de exploração das mulheres escravizadas foi por meio da prática conhecida como “ama de
leite”, ocupação feminina naturalizada em todas as sociedades escravistas das Américas e presente no Brasil,
sendo vista nos diversos anúncios de “aluga-se” e de oferecimento dessas mulheres por parte dos seus
senhores em jornais das grandes cidades do Império. Algumas escravizadas eram alugadas ou pertenciam à
família e dentre a função exercida estava a de amamentar a criança do senhor. Tal “ofício” aparecia na ocasião
que essas mulheres ficavam grávidas, podendo ser oferecidas por seus senhores para um aluguel como “amas
de leite” ou exercer a atividade para os filhos do senhor. As “amas secas” também eram exercidas por essas
mulheres, às vezes de forma complementar, e seria destinado aos cuidados das crianças. 
• 
• 
• 
No entanto, um aspecto cruel dessa prática é
que, para ser ama de leite, era preciso ser mãe
primeiramente. Desse modo, onde estavam as
crianças geradas por essas mulheres que se
tornaram amas de leite? O destino desses filhos
é pouco investigado pela historiografia, talvez
devido à falta de fontes sobre o paradeiro
deles, que sequer aparecem nas fotografias de
mulheres negras amamentando crianças
brancas. Imagens essas realizadas por
fotógrafos profissionais nos últimos anos da
escravidão. Certamente, os filhos dessas amas
de leite, se vivos, estavam entregues à
escravização, disputando com as crianças
brancas o leite da sua mãe.
O serviço doméstico também era o destino das mulheres
escravizadas ou negras libertas e livres, representando um
forte aspecto da escravidão urbana e que serviu de
crônicas para viajantes que visitavam o Brasil,
principalmente a Corte, e que identificavam no serviço
doméstico uma atividade quase essencialmente escrava.
Essa atividade doméstica era iniciada cedo pelas mulheres,
às vezes, ainda crianças. No entanto, muitas atuavam, tanto
no trabalho doméstico quanto no comércio ambulante, nas
ruas, vendendo todo o tipo de coisa.
Trabalho escravo e trabalho
sexual
Prostituição
Outra forma de venda do corpo foi por meio da prostituição. Prática antiga em todos os lugares do mundo, no
Brasil escravista não foi diferente. Essa foi uma prática existente entre as mulheres escravizadas, imigrantes,
libertas, livres, ou seja, um perfil social diversificado. A respeito da prostituição, temos dois perfis. 
Mulheres escravizadas e imigrantes
Esta foi uma prática existente entre as mulheres escravizadas,
imigrantes, libertas, livres, ou seja, um perfil social diversificado. A
respeito da prostituição, temos dois perfis. O primeiro perfil é o das
mulheres brancas, imigrantes, que vieram para o Brasil por conta do forte
fluxo imigratório do século XIX e que, por diversas razões, entraram no
mundo da prostituição. A Corte foi o ambiente que agregou muitas
dessas mulheres que vieram de várias partes da Europa, que na maioria
das vezes eram exploradas por terceiros que controlavam suas ações ou
as abrigavam em prostíbulos e outros tipos de residência, em alguns
casos eram os responsáveis pela vinda delas ao Brasil.
O sistema conhecido como “tráfico de brancas”, que consistia na vinda
de mulheres para a prostituição no Brasil (principalmente de moças judias
da Europa Oriental), foi uma consequência da forte imigração europeia
para as Américas, na maioria de homens, fazendo com que houvesse um
desequilíbrio de sexos e assim uma demanda por mulheres. Importante
ressaltar que grande parte das mulheres estrangeiras que se prostituíam
no Brasil eram enganadas e acreditavam que na América exerceriam
outra atividade. A entrada na prostituição se dava por meio da violência
sexual e física que enfrentavam desses homens responsáveis por seu
translado. Em alguns casos, as mulheres recém-chegadas eram
“ensinadas” por prostitutas mais velhas e experientes. Essas informações
constam em denúncias feitas às autoridades da Corte que, mesmo
condenando tal prática, eram benevolentes com os estrangeiros
acusados por tais ações.
Mulheres escravizadas e negras
Osegundo perfil é o das mulheres escravizadas e negras, podendo as
primeiras estarem no mundo da prostituição por uma imposição do
senhor. Tal prática foi condenada pelas autoridades jurídicas, que, a
partir da década de 1870, empreenderam ações para pôr fim à prática da
prostituição das escravizadas pelos seus senhores. O motivo da
campanha era uma demanda de uma parte da sociedade, que, por meio
de um discurso moralizador e de higiene, considera a prática da
prostituição das escravizadas um momento de degradação.
No entanto, algumas pesquisas mostram que a prática da prostituição
das escravizadas nem sempre era uma imposição dos seus senhores,
podendo ser também uma possibilidade por parte dessas mulheres a fim
de se afastar da proteção senhorial ou ter chances de acumular dinheiro
para a liberdade. No entanto, vale destacar como são distintas as
histórias da prostituição no Império, principalmente na Corte, não
deixando, porém, de ser a mulher, branca ou negra, imigrante ou
escravizada, a maior vítima desse comércio.
Formas de exploração do corpo
Neste bate-papo, o professor Rodrigo Rainha entrevista a doutora em História Beatriz Libano Bastos,
aprofundando o debate sobre imigrantes e a exploração dos corpos.
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Prostituição e exploração do trabalho feminino
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Exploração do corpo feminino
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Comércio de gente é um termo muito duro, mas necessário, quando falamos das formas de exploração do
trabalho. Quando falamos sobre os imigrantes, podemos detectar no Brasil Imperial
A
que vieram como escravos, mas somente para pagar a passagem.
B
que organizaram espaços autônomos no Brasil para fugir do escravismo.
C
que as práticas do trabalho escravo foram rompidas e abandonadas por eles.
D
que as relações de imigrantes eram de que sua superioridade lhes dava posição destacada nas condições de
trabalho.
E
que foram impactados pela tradição escravista no mercado de trabalho do Brasil Império.
A alternativa E está correta.
A tradição de exploração e de uma diferença econômica marcaram os traços de exploração do trabalho no
Brasil e foram uma dificuldade aos grupos imigrantes que aqui chegaram.
Questão 2
A discussão sobre o escravismo brasileiro não ser identificado como trabalho, mas como troca de mercadorias
é importante. Quando traçamos a discussão, notamos que mesmo os escravizados alforriados – que
compravam sua liberdade – tinham dificuldades com a forma de exploração. Os chamados “escravos de
aluguel” são um exemplo importante de uso do indivíduo como mercadoria e de manutenção de seu valor em
nossa sociedade. São funções que se enquadram neste contexto: 
I – Prostituição 
II – Amas de leite 
III – Domésticas e arrumadeiras 
Estão corretas:
A
Somente I e II.
B
Somente I e III.
C
Somente II e III.
D
I, II e III.
E
Somente a I.
A alternativa D está correta.
As três formas podem se enquadrar no serviço de escravos de aluguel, sendo marcante a exploração do
corpo feminino como uma peça, como algo que o senhor tinha direito a usar conforme desejasse.
5. Conclusão
Considerações finais
O comércio de gente no Brasil e nas Américas foi iniciado com a chegada dos colonizadores europeus. Os
indígenas foram os primeiros grupos a sofrerem essas ações que desconsideram suas identidades étnicas e
suas práticas culturais, principalmente as voltadas para o trabalho. Algo semelhante ocorreu com a chegada
dos portugueses ao continente africano, interferindo significativamente na forma de escravização existente,
introduzindo um novo tipo de comércio de homens e mulheres, retirando-os do seu continente e os levando
para regiões longínquas. 
Ao chegarem no Brasil, homens e mulheres africanos foram comercializados como se fossem simples
mercadorias, com valores diferentes a partir das suas características. Essa prática da escravização não existiu
sem as resistências dos escravizados. Logo, ao mesmo tempo que os senhores escravizavam, tinham também
que conviver com o perigo de uma grande revolta por parte desses homens. Algumas revoltas ocorreram em
diferentes regiões, mas nenhum grande movimento que pudesse abalar as estruturas da escravidão no Brasil.
Por outro lado, temendo a redução da mão de obra escravizada, a vinda de imigrantes foi incentivada pelas
autoridades do Império que, além de visar à exploração do seu trabalho, acreditavam que poderiam moralizar
a população, tão afetada pela escravidão. 
Além de homens imigrantes para a lavoura e outras atividades, muitas mulheres vieram para o Brasil e foram
obrigadas ou tiveram a opção de se prostituir. A prostituição afetou, além das mulheres brancas e imigrantes,
as negras e escravizadas, muitas sendo obrigadas por seus senhores a exercerem tal prática. Desse modo, é
fácil concluir o quanto que os anos da Colônia e do Império foram marcados por uma atividade comercial
específica: o comércio de gente e a exploração dos corpos de homens e mulheres de diferentes origens. 
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Alguns artigos são imprescindíveis para aprender mais sobre o assunto, confira!
FREITAS, F. V. As negras quitandeiras no Rio de Janeiro do século XIX pré-republicano: modernização urbana e
conflito em torno do pequeno comércio de rua. Tempos históricos, vol. 20, 1º semestre de 2016, p.189-2017.
MARTINS, B. C. R. Reconstruindo a memória de um ofício: as amas de leite no mercado de trabalho urbano do
Rio de Janeiro (1820-1880). Revista de História Comparada, Rio de Janeiro, 6-2: 138-167, 2012.
PRECHET, B. do N. O imoral escândalo da prostituição de escravas: pensando a prostituição a partir das
mulheres negras no Rio de Janeiro (1871), Revista Transversos, Rio de Janeiro, n. 20, dez. 2020.
SILVA, M. dos S. O tráfico e a exploração de mulheres na prostituição no Rio de Janeiro na segunda metade do
século XIX, Ler História [On-line], 68 | 2015.
Dois livros são muito especiais sobre o assunto, confira!
LEMOS, M. S. O índio virou pó de café? Resistência indígena frente à expansão cafeeira no Vale do Paraíba.
Jundiaí: Paco Editorial. 2016.
REIS, J. J.; SILVA, E. Negociação e conflito. A resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das
letras, 1988.
Referências
ALMEIDA, M. R. C. de. Metamorfoses indígenas. Identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro: FGV, 2013.
CAVALCANTI, N. O. O comércio de escravos novos no Rio setecentista. In: FLORENTINO, M. (Org). Tráfico,
cativeiro e liberdade. Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 15-77.
COSTA, E. V. A dialética invertida e outros ensaios. São Paulo: Unesp, 2014.
GOMES, F.; LAURIANO, J.; SCHWARCZ, L. M. (Org.) Enciclopédia Negra. São Paulo: Companhia das Letras,
2021.
GOMES, F.; SCHWARCZ, L. M. (Orgs). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras,
2018.
GORENDER, J. O escravismo colonial. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2010.
	Comércio de gente: debate sobre a exploração do indivíduo no trabalho
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Preparação
	Objetivos
	Introdução
	1. A venda da mão de obra indígena
	Organização local
	Aldeamentos
	Estabelecimento de aldeias
	Projeto de colonização
	Mudança das dinâmicas indígenas
	Conflitos
	Formas de escravismo indígena
	Escravização
	Comentário
	Proibição legal do escravismo
	O fim?
	Impacto do café nos indígenas
	Violência e desaparecimento indígena
	Escravidão indígena
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	Formas de escravidão indígena
	Conteúdo interativo
	A proibição da escravidão indígena
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado2. A escravização de africanos nas Américas
	Tráfico de africanos pelo Atlântico
	Tráfico Atlântico
	Novas rotas comerciais
	Exploração africana
	Africanos no Brasil
	Centro-ocidental (Angola, Congo)
	Costa Ocidental (Costa da Mina, principalmente)
	Costa Oriental (Moçambique)
	Comércio de mercadorias
	Comandantes das frotas
	Licença de escravização
	Renda das famílias
	Custos de moradia
	Escravidão no Império
	Escravismo no tempo do Império
	Economia de Plantation
	Cafeicultura de Vassouras
	Tráfico de viventes e formas do escravismo no Brasil
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	Africanos no Brasil
	Conteúdo interativo
	As leis e o fim do tráfico de gente
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. A resistência à escravização no Brasil
	Quilombo
	Formação dos quilombos
	Jabaquara
	Leblon
	Movimentação e resistência
	Levantes e revoltas
	Revolta de Carrancas
	Revolta dos Malês
	Fuga de Paty dos Alferes
	Comentário
	Estratégias e lutas contra o escravismo
	Lutas pessoais e resistência ao controle
	Movimento de greve
	Direito de permanência
	Motivos de Fuga
	Ethos escravista
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	Definição de Quilombo
	Conteúdo interativo
	Revoltas e levantes de escravizados
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. O comércio de imigrantes e de mulheres
	Imigração e trabalho
	Mão de obra imigrante
	Incorporar à sociedade brasileira uma ética do trabalho.
	Estabelecer o projeto de branqueamento da população.
	Eliminar vestígios indexados da presença indígena e negra.
	1830
	1837
	Maneiras diversas de exploração
	Escravos de aluguel
	Seja por simples venda de escravo.
	Seja por meio do aluguel.
	Trabalho escravo e trabalho sexual
	Prostituição
	Mulheres escravizadas e imigrantes
	Mulheres escravizadas e negras
	Formas de exploração do corpo
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	Prostituição e exploração do trabalho feminino
	Conteúdo interativo
	Exploração do corpo feminino
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	5. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore +
	Referências

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