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Magistratura e MP CARREIRAS JURÍDICAS Damásio Educacional MATERIAL DE APOIO Disciplina: Direito Penal Professor: Andre Estefam Aulas: 07 e 08 | Data: 15/02/2016 ANOTAÇÃO DE AULA SUMÁRIO FATO TÍPICO (cont.) 1. Conduta 2. Tipicidade 3. Resultado 4. Nexo causal FATO TÍPICO (cont.) 1. Conduta Em nossa última aula falamos sobre a conduta. Daremos continuidade ao nosso estudo hoje a partir da tipicidade. 2. Tipicidade O princípio da legalidade exige uma perfeita correspondência entre o fato concreto e o fato descrito na lei penal. A tipicidade é o que exige essa absoluta correspondência entre o fato e o previsto no tipo penal. Tipicidade consiste na relação de subsunção entre o fato concreto e o tipo penal somada à lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico. Essa relação de correspondência que deve haver entre o fato e a previsão legal, chamamos de “tipicidade formal”. A lesão ou perigo de lesão ao bem juridicamente protegido é a “tipicidade material”. Ex.: Princípio da insignificância, princípio da adequação social são casos de atipicidade material. Obs.: Sobre o princípio da insignificância (STF e STJ): Exige a presença de 4 vetores/diretrizes: Periculosidade social Fato Típico Conduta dolo culpa Tipicidade C.R Materal Resultado Nexo causal Imputação objetiva Página 2 de 7 Reprovabilidade do ato/conduta Ofensibilidade Lesão jurídica (PROL - palavrinha par nos lembrarmos). Cada um destes vetores devem indicar a quase inexistência destes elementos, ou seja Ausência de Periculosidade social Reduzida Reprovabilidade do ato/conduta Mínima Ofensibilidade Ínfima Lesão jurídica Exemplos de aplicação destes vetores: - a despeito do ínfimo valor, o princípio da insignificância não deve ser aplicado para reincidentes. - delitos praticados com violência ou grave ameaça – são condutas reprováveis - furto qualificado Agora se a insignificância for aplicada, a conduta será materialmente atípica. Tipicidade conglobante Zaffaroni desenvolveu essa ideia. Mas que é tipicidade conglobante? Para entender, precisamos rememorar as premissas que ele adotava: 1ª premissa: o ordenamento jurídico é um todo unitário divido em ramos para efeitos didáticos. 2ª premissa: O aplicador da lei deve adotar uma visão conglobada do ordenamento jurídico, ou seja, enxergá-lo como um todo. No âmbito da tipicidade, Zaffaroni entende que na avaliação da tipicidade penal, deve se verificar a chamada tipicidade legal (verificar se a conduta se encaixa no tipo penal) Note que se parássemos a análise aqui, só se estaria avaliando a visão do direito sob o enfoque penal. Portanto, o intérprete também deve verificar se a conduta é incentivada ou autorizada por outra norma jurídica fora do direito penal. Se a conduta não é autorizada pelos demais ramos do direito, daí ocorre a tipicidade conglobante. Resulta na análise da conduta à luz de normas extrapenais – se houver uma norma extrapenal autorizando/incentivando aquele comportamento, haverá atipicidade conglobante. Ex.: intervenções médico-cirúrgicas ou violências desportivas. Ex.: boxeadores que praticam lesões constantes, mas que, por seguirem regras de esporte, respeitando normas extrapenais. Nesses casos de violência desportiva ou intervenções médico cirúrgicas temos situações de atipicidade conglobante, das quais decorrerá atipicidade penal. A conglobante é elemento da penal. Página 3 de 7 Para as novas provas devemos acolher a tese de tipicidade conglobante? Professor sugere que em provas ressaltemos que no direito penal positivo brasileiro, temos uma solução diversa dada pelo legislador. Para os casos de normas extrapenais que autorizam/incentivam, se reconhece uma excludente de ilicitude (art. 23, III, CP) exercício regular de direito. Há fato penalmente típico, contudo não é antijurídico, sendo um comportamento lícito diante da figura da excludente. CP - Art. 23 - Não há crime quando o agente pratica o fato: (Redação I - em estado de necessidade; (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) II - em legítima defesa;(Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Parágrafo único - O agente, em qualquer das hipóteses deste artigo, responderá pelo excesso doloso ou culposo. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Adequação típica Procedimento pelo qual se da o adequação do fato à norma. Há 2 procedimentos de adequação típica: a) Adequação típica direta/imediata O fato se encaixa direitamente no tipo incriminador. b) Adequação típica indireta/mediata O enquadramento legal exige a combinação do tipo com uma nora de extensão. Ex.: casos de tentativa e de participação. Tentativa= CP 121, caput + art. 14, II Partícipe = CPC, 121, caput + art.29, caput. CP - Art. 121. Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a vinte anos. Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) § 1º - Se a participação for de menor importância, a pena pode ser diminuída de um sexto a um terço. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Tipicidade legal Tipicidade conglobante Tipicidade Penal Página 4 de 7 § 2º - Se algum dos concorrentes quis participar de crime menos grave, ser-lhe-á aplicada a pena deste; essa pena será aumentada até metade, na hipótese de ter sido previsível o resultado mais grave. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Quando usar, no enquadramento legal, usar o art. 29, caput? Este dispositivo é fundamental para enquadrar o partícipe. A partícipe e B mata. A= art. 121 caput, cc com 29 B = art. 121, caput CP A norma de extensão só é aplicada quando necessário! Atenção nas peças práticas. 3. Resultado Resultado é um termo equívoco, pois tem 2 significados: a) Naturalístico ou natural Modificação o mundo exterior provocado pela conduta. b) Resultado jurídico ou normativo É a lesão ou perigo ao bem jurídico. Existe crime sem resultado? Depende. Todo crime possui resultado jurídico, seja a lesão ou perigo de lesão ao bem juridicamente protegido. Resultado naturalístico, no entanto, só é exigido em crimes materiais. Classificação dos crimes segundo resultado naturalístico a) Crime material ou de resultado: Aquele cujo tipo penal descreve conduta e resultado, exigindo ambos para a consumação. Ex.: Furto; roubo. Subtração (ou subtração com violência/grave ameaça) + inversão da posse. b) Crime formal ou de consumação antecipada O tipo descreve conduta ou resultado, mas se contenta com a conduta para consumação. Todo crime formal possui um elemento subjetivo específico. Ex.: “com o fim de”, “para o fim”. Ex.: extorsão ou extorsão mediante sequestro, corrupção passiva. Basta a prática da conduta. - extorsão ou extorsão mediante sequestro é dispensada a vantagem. - corrupção mesmo sem receber o valor, já resta configurado o crime. Quanto á extorsão súmula 96, STJ. Súmula 96, STJ. O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida. Página 5 de 7 c) Crime de mera conduta ou simples atividade O tipo se limita a descrever a conduta sem fazer qualquer alusão a resultado. Ex.: omissão de socorro (135); injuria praticada pelo meio verbal (art. 140). CP - Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa. Parágrafoúnico - A pena é aumentada de metade, se da omissão resulta lesão corporal de natureza grave, e triplicada, se resulta a morte. Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa. § 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria. § 2º - Se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência. § 3o Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: (Redação dada pela Lei nº 10.741, de 2003) Pena - reclusão de um a três anos e multa. (Incluído pela Lei nº 9.459, de 1997) 4. Nexo Causal O nexo de causalidade é uma ferramenta utilizada para solucionar a questão da imputação do resultado à conduta. O resultado deve ser aplicado a uma conduta quando entre eles houver um nexo. No Brasil, o art. 13 caput, 1ª parte, CP, expressamente aponta que o resultado só pode ser atribuído a quem lhe deu causa. O que permite atribuir o resultado à conduta pelo nexo causal. CP - Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) § 1º - A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Página 6 de 7 § 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem:(Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Teorias sobre o nexo causal: a) Teoria da Causalidade adequada Causa é somente o antecedente adequado à produção do resultado, segundo o quod plerunque accidit. Se aquele antecedente é um comportamento que tende a causar aquele resultado. Na verificação do nexo de causalidade segundo essa teoria se utiliza como ferramenta o chamada “juízo de prognose póstuma objetiva” volta-se ao passado, ao momento em que a conduta foi praticada, e questiona-se se era possível antever o resultado no momento da conduta. Essa não foi a teoria adotada. b) Teoria da equivalência dos antecedentes (ou Teoria da conditio sine qua non) Segundo esta, considera-se causa todo antecedente que exerceu influência sobre o resultado. Para essa teoria não importa o grau de influência. Essa teoria, apesar de mais ampla, é mais fácil de ser constatada. Juízo de eliminação hipotética: quando quisermos confirmar se o antecedente é causa, basta eliminarmos aquela conduta, ou seja, se eliminar aquele antecedente, o resultado teria ocorrido ou teria ocorrido daquela maneira? Se a conclusão for que sem aquele antecedente o resultado não muda em nada, não há relação de causalidade. Características marcantes dessa teoria: - fácil de ser manejada (teoria da eliminação hipotética) - é ampla, abrangendo todas as condutas que influenciaram no resultado. A crítica é que por vezes acaba sendo muito abrangente. Excesso da Teoria da equivalência dos antecedentes: Regresso ao infinito ou regressus ad infinitus Ex.: homicídio praticado por arma de fogo. Entre tiro e morte o nexo é evidente. Contudo, podemos abranger também ao fato da arma ter sido fabricada, já que se não houvesse aquela arma específica o crime não teria ocorrido da mesmíssima forma. Seria justo que o fabricante da arma ou munição seja também responsabilizado? Para evitar esse exagero, a doutrina utiliza a Teoria da Ausência do dolo ou culpa. Quem fabricou a arma/munição não agiu com dolo e culpa, daí desconfigurar o nexo. Cursos causais extraordinários/ hipotético/ Causas supervenientes relativamente independentes Ex.: X atropela B, ferindo-lhe a perna. Ambulância leva B. Motorista da ambulância, faz uma curva, ambulância capota e a ambulância explode e todos morrem. Deve A responder pela morte de B, visto que se não tivesse atropelado B ele não teria morrido na ambulância? Note o exagero. Para se corrigir o exagero, o CP coloca o limite na própria lei. O CP exclui essa imputação (art. 13, parágrafo 1º). Página 7 de 7 O que são as causas independentes? Causas independentes são fatores inusitados ou surpreendentes que conduzem à produção do resultado. Causas independentes são fatores que refogem ao desdobramento causal natural ou esperado da conduta. Existem 2 grupos de causas independentes: a) Causas absolutamente independentes b) Causas relativamente independentes Causas absolutamente independentes Causas relativamente independentes São fatores que não tem qualquer relação com a conduta e que, por si só, produzem o resultado, São fatores que, somados à conduta, conduzem à produção do resultado. Sem a conduta, o resultado seria outro. Podem ser: a) Preexistentes à conduta Ex.: A invade a casa de B para mata-lo e dispara contra ele. Ocorre que B já estava morto, visto que havia infartado 2 horas antes. b) Concomitantes A atira em B. Na hora que o projétil atinge o corpo de B, uma bigorna de 300 kgs lhe cai sobre a cabeça. c) Supervenientes Mulher envenena o marido, mas enquanto o veneno fazia efeito, o teto cai e o mata antes do veneno. Podem ser: a) preexistentes e b) concomitante O agente só responde pelo resultado se a causa relativamente independente era conhecida ou previsível. Ex.: A dá um golpe leve de canivete na vítima, que morre pois era hemofílica. Se a sabia ou tinha como saber. Responderá! c) superveniente O CP exclui a imputação. Há nexo entre conduta e resultado? Não, em todos os casos não há nexo entre morte e conduta. Nestes casos o agente não responderá pela morte. Há crime? Sim! Responderão pelos atos cometidos. Nos exemplos B e C responderiam por tentativa de homicídio. No exemplo A, temos um crime impossível (não é possível matar quem já está morto) Há nexo entre conduta e resultado? Sim! Encerramos aqui o exame de nexo de causalidade.