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Direito Criminal Teoria do Crime Professora: Esp. Carolina Zemuner CONCEITO ANALÍTICO DE CRIME CONCEITO DE CRIME Introdução: O crime pode ser conceituado levando em consideração 3 aspectos: material, legal e formal (analítico). ● CONCEITO MATERIAL OU SUBSTANCIAL Crime é toda ação ou omissão humana que leva ou expõe a perigo de lesão bens jurídicos penalmente tutelados. Essa conceituação leva em conta a relevância do mal produzido, servindo como fator de legitimação do Direito Penal em um Estado Democrático de Direito, ou seja, não basta uma lei para qualquer conduta ser considerada penalmente ilícita. ● CONCEITO LEGISLATIVO Crime é aquilo que a lei define como tal, vejamos a Lei de Introdução ao Código Penal e da Lei de Contravenções Penais: Art. 1º Considera-se crime a infração penal a que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente. Ou seja, quando existir pena de reclusão ou detenção, existirá crime. Se existir pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, existirá contravenção penal. CONCEITO DE CRIME Introdução: CONCEITO LEGAL DO CRIME E ART. 28 DA LEI N. 11/343/2006 (LEI DE DROGAS) Se todo crime exige a cominação de uma pena de detenção ou reclusão, como fica a conduta de porte de droga para uso pessoal? Art.28 (Lei de Drogas). Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I - advertência sobre os efeitos das drogas; II - prestação de serviços à comunidade; III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. Para o STF não houve descriminalização da conduta prevista no art. 28, mas sim, a despenalização em face da supressão da pena privativa de liberdade. Concluindo que, a Lei de Introdução ao Código Penal criou um conceito genérico de crime aplicável sempre que não existir disposição especial em sentido contrário, como é o caso do art. 28, da Lei de Drogas, que criou uma nova definição exclusivamente para o crime de posse de droga para consumo pessoal (conceito específico). CONCEITO ANALÍTICO DE CRIME Introdução: CONCEITO FORMAL, ANALÍTICO OU DOGMÁTICO Esse conceito baseia-se nos elementos que compõem a estrutura do crime. Basileu Garcia adotava a posição quadripartida, ou seja, que o crime seria composto por quatro elementos: fato típico, conduta, ilicitude, culpabilidade e punibilidade. Contudo, essa posição é minoritária, tendo em vista que, a punibilidade não é elemento do crime e sim, consequência. Já a posição tripartida sustenta que o crime é composto por três elementos, quais sejam: fato típico, ilicitude e culpabilidade. Posição essa adotada por Nelson Hungria, por exemplo. Por sua vez, Damásio E. de Jesus e Mirabete entendem que o crime é composto por fato típico e ilícito, sendo essa, a posição bipartida, pois entendem que a culpabilidade é um pressuposto da aplicação da pena. Mas qual seria o critério adotado pelo Código Penal? Não há uma resposta segura, mas adotaremos a teoria tripartida. DIFERENÇA Introdução: INFRAÇÃO PENAL, DELITO, CRIME E CONTRAVENÇÃO PENAL Crime e contravenção penal são espécies do gênero infração penal, que ainda se divide em delito. Crime e delito se equivalem, contudo, em algumas situações a Constituição Federal e a legislação ordinária utilizam a palavra delito, de forma inapropriada, como sinônimo de infração penal, como acontece no art. 5º, XI, da CF e nos arts. 301 e 302, do Código de Processo Penal. Crime Contravenção Penal Penas de reclusão ou detenção, cumuladas ou não com multa Pena de Prisão simples, multa ou ambas Admite extraterritorialidade Punição apenas de condutas praticadas no Brasil (art. 2º) Ação Penal Pública incondicionada, condicionada ou privada Ação penal é pública, devendo a autoridade proceder de ofício (Art. 17, LCP) Admite tentativa Não admite tentativa (art. 4º) Punição em caso de dolo ou culpa do agente Permite, em tese, a punição por simples violação de um dever de conduta, mesmo sem dolo ou culpa (art. 3º). Mas há quem acredite que não foi recepcionado pela CF. TEORIA TRIPARTITE TEORIA TRIPARTITE - TIPICIDADE Conceito: TeoriaTripartida Para alguém sofrer uma pena, existirá a necessidade de um processo penal que apure a prática de uma infração penal. Na corrente majoritária da doutrina e pelo modo como o Código Penal é estruturado, crime é fato típico, ilícito e culpável. TIPICIDADE Tipicidade é elemento do fato típico, dividindo-se em formal e material. A presença da tipicidade formal e da tipicidade material caracteriza TIPICIDADE FORMAL: é o juízo de subsunção entre a conduta praticada pelo agente e o modelo descrito pelo tipo penal. Por exemplo, o ato de matar alguém tem amparo no crime previsto no art. 121, do Código Penal. TIPICIDADE MATERIAL (substancial): é a lesão ou o perigo de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado em razão da prática da conduta legalmente prevista. Por exemplo, roubar lesiona o patrimônio, bem jurídico tutelado penalmente. CAUSAS EXCLUDENTES DE TIPICIDADE Exemplos: princípio da insignificância, erro de tipo, violência física irresistível, adequação social e outros. TEORIA TRIPARTITE - ILICITUDE Conceito: A ilicitude é a contrariedade entre o fato típico praticado por alguém e o ordenamento jurídico, capaz de lesionar ou expor a perigo de lesão bens jurídicos penalmente tutelados. O ilícito pode ser formal ou material. A ilicitude formal: é a mera contradição entre o fato praticado pelo agente e o sistema jurídico em vigor. A ilicitude material: contrariedade do fato em relação aos sentimentos comuns de justiça (injusto). O comportamento afronta o que o homem médio tem por justo, correto. Trata-se de requisito da tipicidade, daí a impropriedade de ser denominada “ilicitude” material. EXCLUDENTE DE ILICITUDE Conceito: CAUSAS EXCLUDENTES GENÉRICAS DA ILICITUDE As causas excludentes genéricas da ilicitude estão previstas na Parte Geral do Código Penal, aplicando-se para qualquer infração penal. Art. 23. Não há crime quando o agente pratica o fato: I - em estado de necessidade II - em legítima defesa; III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. EXCLUDENTE DE ILICITUDE Conceito: CAUSAS EXCLUDENTES ESPECÍFICAS DA ILICITUDE (CÓDIGO PENAL E LEGISLAÇÃO EXTRAVAGANTE) As causas excludentes específicas de ilicitude podem ser definidas como aquelas previstas na Parte Especial do Código Penal e na Legislação Especial, com a aplicação unicamente a determinados crimes, como é o caso do exemplo a seguir: Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: Aborto necessário I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; Aborto no caso de gravidez resultante de estupro II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. CULPABILIDADE Conceito: Culpabilidade é o juízo de censura, o juízo de reprovabilidade que incide sobre a formação e a exteriorização da vontade do responsável por um fato típico e ilícito, com o propósito de aferir a necessidade de imposição da pena. o que exclui a culpabilidade: Excludentes Potencial consciência da ilicitude Inexigibilidade de conduta diversa Exigibilidade de Conduta Diversa - Coação moral irresistível - Obediência hierárquica de ordem não manifestamente legal Imputabilidade - Menoridade - Alguns casos de doença mental - Embriaguez completa causa por caso fortuito ou força maior TIPICIDADE ELEMENTOS: Elementos do fato típico São elementos do fato típico: 1. Conduta 2. Resultado naturalístico 3. Relação de causalidade 4. TipicidadeCRIMES MATERIAIS E ELEMENTOS São chamados materiais aqueles crimes que têm resultado naturalístico. Dessa forma, são crimes que apresentam os quatro elementos. TIPICIDADE ELEMENTOS: CRIMES TENTADOS, FORMAIS OU DE MERA CONDUTA E ELEMENTOS Para os crimes tentados, formais ou de mera conduta, o fato típico somente terá presente a conduta e a tipicidade. Nos crimes formais, o tipo penal contém a conduta e resultado naturalístico, mas dispensa este último para a sua consumação. Exemplo: extorsão mediante sequestro. Nos crimes de mera conduta, o tipo penal se limita a descrever uma simples conduta, não havendo resultado naturalístico. Exemplo: crime de ato obsceno. No crime tentado, iniciada a execução, não se consuma por razões alheias à vontade do agente. Art. 14. Diz-se o crime: (...) II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. TIPICIDADE PERGUNTA Questão 1. I - O fato típico é composto por conduta, resultado, nexo causal e tipicidade; II - A imputabilidade diz respeito às causas excludentes da ilicitude; III - A culpabilidade é composta pela antijuridicidade, exigibilidade de conduta diversa e potencial consciência da ilicitude. Assinale a alternativa correta: A) I está correta B) I e II estão corretas C) I e III estão corretas D) Todas as alternativas estão corretas TIPICIDADE RESPOSTA Questão 1. I - O fato típico é composto por conduta, resultado, nexo causal e tipicidade; II - A imputabilidade diz respeito às causas excludentes da ilicitude; III - A culpabilidade é composta pela antijuridicidade, exigibilidade de conduta diversa e potencial consciência da ilicitude. Assinale a alternativa correta: A) I está correta B) I e II estão corretas C) I e III estão corretas D) Todas as alternativas estão corretas TIPICIDADE RESPOSTA Questão 2. Acerca do fato típico, da teoria e da classificação dos crimes, julgue o item subsecutivo. Suponha que Maria, servidora pública do Distrito Federal, tenha-se apropriado ilicitamente de um computador portátil usado no seu local de trabalho e, em seguida, efetuado a venda desse equipamento. Nesse caso, a conduta de Maria pode ser classificada como crime de dano, comissivo, próprio e instantâneo. A) Certo B) Errado TIPICIDADE RESPOSTA Questão 2. Acerca do fato típico, da teoria e da classificação dos crimes, julgue o item subsecutivo. Suponha que Maria, servidora pública do Distrito Federal, tenha-se apropriado ilicitamente de um computador portátil usado no seu local de trabalho e, em seguida, efetuado a venda desse equipamento. Nesse caso, a conduta de Maria pode ser classificada como crime de dano, comissivo, próprio e instantâneo. A) Certo B) Errado Justificativa. O crime é o do art. 312 do Código Penal brasileiro (peculato). É considerado um crime de dano (aquele que se consuma com a efetiva lesão do bem jurídico protegido); comissivo (mediante ação humana); próprio (aquele que só pode ser cometido por uma determinada categoria de pessoas); e instantâneo (aquele que a consumação se dá em um determinado momento, sem continuidade temporal). TIPICIDADE PERGUNTA Questão 3. Majoritariamente entende-se que, de acordo com o conceito analítico, crime é um: A) Fato típico e antijurídico. B) Fato antijurídico e culpável. C) Fato típico, antijurídico e culpável. D) Fato típico, antijurídico, culpável e punível. TIPICIDADE RESPOSTA Questão 3. Majoritariamente entende-se que, de acordo com o conceito analítico, crime é um: A) Fato típico e antijurídico. B) Fato antijurídico e culpável. C) Fato típico, antijurídico e culpável. D) Fato típico, antijurídico, culpável e punível. Justificativa. A Teoria Tripartite define o crime como a prática de uma conduta típica, antijurídica e culpável. Uma vez que esses elementos são necessariamente cumulativos para a configuração do delito, entende-se que qualquer circunstância que elimine um desses aspectos torna o crime inexistente. CONDUTA Introdução: CONCEITO Segundo a posição finalista, conduta é a ação ou omissão humana, consciente e voluntária, dirigida a um fim, consistente em produzir um resultado tipificado em lei como crime ou contravenção penal. Consequências QUEM PODE PRATICAR A CONDUTA? Apenas seres humanos podem praticar condutas penalmente relevantes. É possível contudo admitir a prática de crimes no caso de crimes ambientais, por previsão expressa da lei de crimes ambientais. Por isso, estão excluídas condutas de outros seres vivos que não são humanos, como animais, por exemplo. É possível contudo que o animal seja utilizado como instrumento do crime, como é o caso de um ataque de cão provocado por um humano. CONDUTA DOLOSA E CULPOSA A conduta penalmente relevante deve ser aquela produzida por um ser humano, agindo com dolo ou culpa. CONDUTA Formas de conduta O Código Penal, quando tipifica os crimes, faz isso por uma importante razão: para proteger bens jurídicos (vida, integridade física, patrimônio, coisa pública, etc). Existem bens jurídicos que são protegidos através de tipos penais proibitivos, onde o legislador lança o comando de não fazer. Por exemplo, o tipo do crime de homicídio traz o comando "não matar". A conduta que infringe essa vedação, portanto, é uma conduta comissiva, isto é, uma ação. Por outro lado, existem tipos que exigem a proteção de bens jurídicos por meio de ações. São chamados tipos mandamentais, pois eles literalmente "mandam o indivíduo agir para evitar a lesão ao bem jurídico". Esses são crimes chamados de omissivos, pois a inação do indivíduo gera uma lesão punível. Por exemplo, na omissão de socorro, o comando geral da norma é "preste socorro, ou aja de algum modo para tentar impedir o resultado". A omissão, a não ação, podendo o indivíduo agir, gera a responsabilização penal. CONDUTA Formas de conduta O crime omissivo se divide em dois: Crime omissivo próprio e crime omissivo impróprio. A professora Patrícia Vanzolini faz as diferenciações em seu livro, conforme tabela abaixo: Crime Omissivo Próprio Crime Omissivo Impróprio Violação de normas mandamentais. Violação de normas proibitivas. Tipificação expressa no CP Construção doutrinária realizada a partir da combinação de um tipo comissivo com a regra da parte geral (posição de garante). Violação de um dever geral de atuar Violação de um dever especial de evitar o resultado. Não exige posição de garante Exige a posição de garante CONDUTA Na Omissão Própria, a inação está descrita como crime no próprio tipo penal. O descumprimento do dever, portanto, faz a pessoa incorrer em um crime próprio (no sentido de "independente", e não de crime somente praticável por um tipo de agente). Exemplo: Omissão de socorro. (Art. 135 CP) Na Omissão Imprópria, por sua vez, o agente guarda íntima relação com a vítima, e um dever de garantir sua integridade. A omissão do agente descumpre o dever jurídico de agir, acarretando sua responsabilidade penal em razão da produção do resultado naturalístico. Por exemplo, no caso de um pai que deixa de alimentar seu filho. (Art. 244 CP) NEXO DE CAUSALIDADE Só é possível imputar um crime a uma pessoa se o resultado decorreu da ação ou omissão do agente. Esse é o chamado nexo de causalidade, ou relação de causalidade. Art. 13. O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. (Leitura do Artigo e seus parágrafos) PERGUNTA Defensor Público (FCC) - 2009 Questão 1. Para formação do nexo de causalidade, no sistema legal brasileiro, a superveniência de causa relativamente independente A) não exclui a imputação do resultado superveniente. B) exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado, imputando-se os fatos anteriores a quem os praticou. C) exclui a imputação quando em concurso com outra concausa produz o resultado, atenuando-se a responsabilidade doautor pelo fato anterior. D) exclui a imputação quando produz o resultado com restrição da responsabilidade de quem praticou o fato subjacente ao limite de sua responsabilidade material. E) exclui parcialmente a imputação, tornando os autores responsáveis pelo fato subjacente no limite de suas responsabilidades. PERGUNTA Defensor Público (FCC) - 2009 Questão 1. Para formação do nexo de causalidade, no sistema legal brasileiro, a superveniência de causa relativamente independente A) não exclui a imputação do resultado superveniente. B) exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado, imputando-se os fatos anteriores a quem os praticou. C) exclui a imputação quando em concurso com outra concausa produz o resultado, atenuando-se a responsabilidade do autor pelo fato anterior. D) exclui a imputação quando produz o resultado com restrição da responsabilidade de quem praticou o fato subjacente ao limite de sua responsabilidade material. E) exclui parcialmente a imputação, tornando os autores responsáveis pelo fato subjacente no limite de suas responsabilidades. Justificativa. Art. 13, CP. O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. §1º A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. [...] Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Resultado O Resultado pode ser entendido como a consequência provocada pela conduta do agente, que pode ser dividido em: ● Resultado Jurídico: É a violação da norma penal, que ofende o bem jurídico tutelado. Todo crime necessariamente tem resultado jurídico. ● Resultado Naturalístico: É a modificação do mundo exterior. Aqui, nem todo crime tem, pois é possível que ele seja de mera conduta. Um exemplo de crime de mera conduta é o porte ilegal de armas, pois o mero ato de portar a arma em si não gera nenhuma consequência, nenhum resultado material, porém a Lei o repudia pela potencialidade de que esse ato tem de gerar maiores danos, como o disparo da arma contra outra pessoa. Relação de causalidade A relação de causalidade, ou nexo de causalidade, é a ligação entre a conduta e o resultado naturalístico. Várias teorias surgiram com o intuito de elucidar o problema de relação de causalidade. Dentre elas, as três que mais se destacaram foram as seguintes: ● Teoria da causalidade adequada - (Excepcionalmente - art. 13, §1º, CP) ● Teoria da relevância jurídica ● Teoria da equivalência dos antecedentes causais (ou da conditio sine qua non). Resultado, Nexo Causal e Tipicidade TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DOS ANTECEDENTES CAUSAIS (conditio sine qua non) Pela teoria da equivalência dos antecedentes causais, de von Buri, adotada pelo nosso código Penal, considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. Isso significa que todos os fatos que antecedem o resultado se equivalem, desde que indispensáveis à sua ocorrência. Verifica-se se o fato antecedente é causa do resultado a partir de uma eliminação hipotética. Se, suprimido mentalmente o fato, vier a ocorrer uma modificação no resultado, é sinal de que aquele é causa deste último. Essa teoria é limitada pela causalidade psíquica (imputatio delicti), ou seja, não basta que o elemento tenha dado causa ao que levou ao crime, mas é preciso que o elemento tenha a intenção psíquica de causar a conduta, que nada mais é do que a exigência de dolo ou culpa do agente para a produção do resultado Ex.: O vendedor de armas legalizadas não dá causa se vender a arma a quem tem a licença, a não ser que saiba que o indivíduo quer cometer o crime e venda com a intenção de que ele alcance o resultado. Assim, o fabricante da arma sequer age com culpa em um eventual homicídio; porém o agente que dispara contra a vítima age dolosamente. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade CONCAUSAS Quando temos essa figura do agente que concorre para a causa, falamos que sobre a situação houve interferência de "concausas", ou seja, causas que concorrem para o atingimento do resultado. E como esse agente que concorre é punido? Para sabermos como ocorre a punição, precisamos analisar se a causa externa ao agente ocorreu antes, durante ou depois da prática do ato típico. Além disso, precisamos analisar se o resultado se deu por causa dessa concausa ou se ele se deu, por si só, em razão da prática criminosa do agente, que considera causa como sendo uma conduta adequada à produção do resultado. Ou seja, não basta que o comportamento do agente seja indispensável para o desdobramento do crime (como na conditio sine qua non); ele precisa ser adequado. Sendo assim, seguindo tal linha de raciocínio, faz-se necessária a definição do termo "concausa", que nada mais é do que o concurso de fatores (preexistentes, concomitantes ou supervenientes) que, paralelamente ao comportamento do agente, são capazes de modificar o curso natural do resultado. Ou seja, são fatores externos à vontade do agente, mas que se unem a sua conduta. Assim, têm-se duas causas: a do agente e esses fatores que com a dele convergem. Desta feita, em relação a esses fatores, pode-se afirmar que existem duas modalidades de causas: as dependentes e as independentes. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Cumpre então destacar que as causas independentes, isto é, aquelas cujo aparecimento não é desejado e nem previsto pelo agente e produzem por si só o resultado, são divididas em duas: (a) as absolutamente independentes e (b) as relativamente independentes, a depender da sua origem. As absolutamente independentes não possuem qualquer vínculo com a conduta do agente, ou seja, possuem uma origem totalmente divorciada da conduta delitiva e ocorreriam ainda que o agente jamais tivesse agido. Por isso, trazem uma solução mais simples e não podem, jamais, ser confundidas pelo intérprete, até porque seus exemplos são clássicos e trazidos pela mais ampla doutrina. Possuem três modalidades, a saber: 1) Preexistente: é a causa que existe anteriormente à conduta do agente. Ex: "A" deseja matar a vítima "B" e para tanto a espanca, atingindo-a em diversas regiões vitais. A vítima é socorrida, mas vem a falecer. O laudo necroscópico, no entanto, evidencia como causa mortis envenenamento anterior, causado por "C", cujo veneno ministrado demorou mais de 10 horas para fazer efeito1; 2) Concomitante: é a causa que surge no mesmo instante em que o agente realiza a conduta. Ex: "A" efetua disparos de arma de fogo contra "B", que vem a falecer em razão de um súbito colapso cardíaco (cuidado, não se trata de doença cardíaca preexistente, mas sim de um colapso ocorrido no mesmo instante da conduta do agente!); 3) Superveniente: é a causa que atua após a conduta do agente. "A" administra dose letal de veneno para "B". Enquanto este último ainda está vivo, desprende-se um lustre da casa, que acaba por acertar qualquer região vital de "B" e vem a ser sua causa mortis. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Assim sendo, percebe-se que nos três itens acima citados o resultado naturalístico ocorreu de maneira totalmente independente da conduta do agente e que as causas atuaram de forma independente foram responsáveis pela produção do resultado. Então, por não haver relação de causalidade (nexo causal) entre resultado e conduta do agente, este responde apenas pelos atos já praticados, isto é, por tentativa de homicídio, desde que comprovado o animus necandi (intento de matar). Conclui-se, assim, que nas causas absolutamente independentes (quaisquer de suas modalidades - preexistentes, concomitantes ou supervenientes) o agente responderá somente pelos atos já praticados, mas jamais pelo resultado, ante a falta de relação de causalidade. Aplica-se, então, a Teoria da Equivalência dos Antecedentes Causais (conditio sine qua non), prevista no artigo 13, caput, CP.Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Já as causas relativamente independentes, por sua vez, têm origem na conduta do agente e, por isso, são relativas: dependem da atuação do agente para existir. Também possuem três modalidades: 1) Preexistente: a causa existe antes da prática da conduta, embora seja dela dependente. O clássico exemplo é o agente que dispara arma de fogo contra a vítima, causando-lhe ferimentos não fatais. Porém, ela vem a falecer em virtude do agravamento das lesões pela hemofilia. 2) Concomitante: ocorre simultaneamente à conduta do agente. Outro clássico exemplo é o do agente que dispara arma de fogo contra a vítima, que foge correndo em via pública e morre atropelada por algum veículo que ali trafegava. Nessas duas hipóteses, por expressa previsão legal (art. 13, caput, CP), aplica-se a teoria da equivalência dos antecedentes causais e o agente responde pelo resultado naturalístico, já que se suprimindo mentalmente sua conduta, o crime não teria ocorrido como e quando ocorreu. Assim, responde por homicídio consumado. A grande e essencial diferença aparece na terceira causa relativamente independente: 3) Superveniente: aquela que ocorre posteriormente à conduta do agente. Neste específico caso, torna-se necessário fazer uma distinção, em virtude do comando expresso ao artigo 13, §1º, CP: A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. Logo, depreende-se que existem as causas relativamente independentes que, por si só, excluem o resultado e as que não excluem. Sendo assim, novamente pelo expresso comando legislativo, apenas as que produzem por si só o resultado naturalístico terão tratamento diverso. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Concausas absolutamente independentes São aquelas que geram o resultado independente da ação do agente, sendo totalmente desvinculadas dessa conduta. Ex.: atirar em alguém que teve uma parada cardíaca segundos antes. Responde pelo crime tentado Concausas relativamente independentes São aquelas que não têm capacidade de gerar por si só o resultado, mantendo alguma relação com a conduta. Ex.: atirar em alguém em partes não vitais, motivo pelo qual a pessoa vai ao hospital e momentos antes da alta pega uma infecção hospitalar e morre. Se essa causa externa for anterior ou concomitante à conduta criminosa, o agente responde pelo crime tentado. Se a causa externa for posterior, é preciso avaliar se ela causou por si só o resultado ou não. Se sim, responderá por crime tentado. Se não, responderá por crime consumado. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Para resumir: 1) Causa Superveniente Relativamente Independente que não produz por si só o resultado: aplica-se a teoria da conditio sine qua non - regra geral - por não se enquadrar na exceção do §1º do artigo 13. Outro exemplo clássico: tem-se a vítima que é alvejada por disparos não fatais, mas vem a falecer em virtude de imperícia médica na oportunidade da cirurgia a qual teve que ser submetida em virtude dos ferimentos. Resta claro que a imperícia médica não mata qualquer pessoa, mas somente aquela que enseja a intervenção médica. Como a lei manda aplicar a teoria da equivalência dos antecedentes, constata-se que a vítima somente faleceu em virtude da intervenção cirúrgica necessária em razão dos ferimentos causados por disparos de arma de fogo (suprimindo-se os disparos, a cirurgia não seria necessária e, portanto, temos a causa do homicídio). Logo, neste caso, o agente responde por homicídio consumado. 2) Causa Superveniente Relativamente Independente que produz por si só o resultado: é a situação excepcional, que se amolda ao artigo 13, §1º, CP. Aqui, aplica-se a teoria da Causalidade Adequada. Outro exemplo: a vítima que é atingida por disparos de arma de fogo não fatais, mas vem a falecer em virtude do acidente automobilístico de sua ambulância e a vítima que, também alvejada, vem a falecer em razão de um incêndio na ala de feridos do hospital. Neste preciso ponto, demanda-se máxima atenção do estudioso do Direito Penal eis que, caso houvesse apenas o caput do artigo 13, CP, nesse último item teríamos a imputação de homicídio consumado ao agente, vez que, pela teoria da equivalência dos antecedentes, sua conduta é causa do homicídio. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Destarte, a lei não contém palavras inúteis e a previsão do §1º, artigo 13, tem sua razão de existir. Por expressa determinação, deve-se aplicar a teoria da Causalidade Adequada nos casos do item 2 supra, o que enseja entendimento diverso. Por essa teoria, entende-se como causa uma contribuição adequada do agente. Assim, naqueles exemplos da ambulância e do hospital em chamas, qualquer pessoa que ali estivesse fatalmente iria morrer e não apenas a vítima alvejada por disparos. Como o disparo não fatal não é adequado para configuração do homicídio, o resultado naturalístico morte (em razão do acidente ou do incêndio) não pode ser imputado ao agente. Por isso, nestes casos do item 2, o agente responde por homicídio tentado. Percebe-se, deste modo, a grande diferença. Nosso Código Penal determina em quais situações deve o intérprete se valer da regra geral (conditio sine qua non) e em quais situações se valer da exceção (causalidade adequada). Assim, a imputação ao agente é completamente distinta, a depender da teoria aplicada. Portanto, recomenda-se demasiada atenção para caracterizar qual modalidade de concausa incide no caso concreto, para optar pela teoria correspondente e, assim, atribuir o resultado naturalístico ao agente. Mesmo com tal zelo, não se pode perder de vista que a diferenciação decorre única e exclusivamente do comando legal. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade TIPICIDADE A tipicidade é a adequação do fato com o tipo penal descrito na lei. A tipicidade pode ser formal ou material. ● Formal: A tipicidade formal é o juízo de subsunção entre a conduta praticada pelo agente e o modelo descrito pelo tipo penal. Por exemplo, o ato de matar alguém tem amparo no crime previsto no art. 121, do Código Penal. ● Material: A tipicidade material (substancial) é a lesão ou o perigo de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado em razão da prática da conduta legalmente prevista. Por exemplo, roubar lesiona o patrimônio, bem jurídico tutelado penalmente. Existe a possibilidade de uma conduta típica não ser considerada crime por não haver tipicidade material? Sim. É o caso do Princípio da Insignificância, que exclui justamente a tipicidade material. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade PERGUNTA Analista Judiciário - Área Administrativa (FCC) - 2007 Questão 1. Tipicidade é: A) descrição do fato no texto legal. B) adequação da conduta ao tipo. C) comparação da conduta particular com a culpabilidade concreta e descrita no tipo. D) ação ilícita ou contrária ao direito. E) juízo de reprovação social. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade PERGUNTA Analista Judiciário - Área Administrativa (FCC) - 2007 Questão 1. Tipicidade é: A) descrição do fato no texto legal. B) adequação da conduta ao tipo. C) comparação da conduta particular com a culpabilidade concreta e descrita no tipo. D) ação ilícita ou contrária ao direito. E) juízo de reprovação social. Justificativa. A tipicidade é, justamente, a identificação do fato praticado pelo agente com a hipótese disposta em lei. Trata-se do enquadramento de uma conduta ao tipo legal. Vale pontuar que a tipicidade é a adequação da conduta ao tipo, enquanto o tipo é a descrição do fato no texto legal, havendo portanto uma diferença de conceitos. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade PERGUNTA Analista Legislativo - Consultor Legislativo Área XXI (CESPE) - 2014 Questão 2.Quanto às penas, à tipicidade, à ilicitude e aos elementos e espécies da infração penal, julgue o item a seguir. O princípio da insignificância, com previsão legal expressa na parte geraldo Código Penal (CP), é causa excludente da ilicitude do crime e exige, nos termos da jurisprudência do STF, mínima ofensividade da conduta do agente, nenhuma periculosidade social da ação, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão jurídica provocada. A) Certo B) Errado Resultado, Nexo Causal e Tipicidade PERGUNTA Analista Legislativo - Consultor Legislativo Área XXI (CESPE) - 2014 Questão 2.Quanto às penas, à tipicidade, à ilicitude e aos elementos e espécies da infração penal, julgue o item a seguir. O princípio da insignificância, com previsão legal expressa na parte geral do Código Penal (CP), é causa excludente da ilicitude do crime e exige, nos termos da jurisprudência do STF, mínima ofensividade da conduta do agente, nenhuma periculosidade social da ação, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão jurídica provocada. A) Certo B) Errado Justificativa. Os erros da afirmativa são: o princípio da insignificância não está previsto no Código Penal e trata-se de uma causa excludente de tipicidade material, e não de ilicitude. Ademais, vale lembrar os pressupostos de aplicação adotados pelo STF: (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada (exemplo: o furto de algo de baixo valor). PRÓXIMA AULA DOLO E CULPA