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LIGA DO TRAUMA E EMERGÊNCIAS MÉDICAS monitoria MEDD78 GUIA DE ESTUDO XI Mobile User APRESENTAÇÃO O presente Guia de Estudo é destinado aos alunos do primeiro semestre de Medicina da Universidade Federal da Bahia, sendo parte das atividades da Disciplina URGÊNCIA E EMERGÊNCIA I (MEDD78). Seu uso faz parte do projeto de implementação do Módulo de Urgência e Emergência na grade curricular da Faculdade de Medicina da Bahia, visando oferecer aos estudantes, desde o primeiro semestre do curso, o conhecimento necessário para atuar na área de Urgência e Emergência. A LAEME (Liga Acadêmica do Trauma e Emergências Médicas), desde 2004, busca promover maior contato entre os acadêmicos de medicina e o dia a dia de um médico emergencista, sendo este o profissional capaz de fazer a diferença em situações que oferecem risco à vida. Este guia foi escrito pelos membros da LAEME, usando referencial teórico consistente e atualizado nos assuntos. Entretanto, não substitui o uso de livros- texto já consagrados. 2024 Elaborado por: Lucy Rodrigues e Tássylla Cafezeiro Revisado por: Ana Carolina Cintra INTRODUÇÃO Atender pacientes em situações de emergência requer calma, conhecimento, treinamento e experiência. Nessas situações, a mais importante habilidade é a de reconhecer prioridades, desde saber priorizar corretamente quem deve ser atendido primeiro, passando por quais dados da história e do exame físico devem ser procurados antes, até qual conduta deve ser feita inicialmente. Entretanto, quando falamos em emergências, existem dois grandes grupos: os PACIENTES VÍTIMAS DE TRAUMA e as EMERGÊNCIAS CLÍNICAS. Sendo essencial que você, desde já, saiba reconhecer como o atendimento inicial deve se seguir em cada um desses cenários. Neste capítulo, procuraremos relembrar aquilo que o ATLS traz como atendimento inicial ao paciente traumatizado e, depois, discutiremos sobre como o identificar uma emergência clínica e como o seu atendimento inicial deve ser realizado. ATENDIMENTO INICIAL AO POLITRAUMATIZADO De acordo com o Comitê de Trauma do Colégio Americano de Cirurgiões, TRAUMA é todo dano ou lesão provocados ao organismo pelas mais variadas formas de energia – térmica, mecânica ou elétrica. Sendo considerado então uma doença, o trauma possui fisiopatologia, características clínicas e, assim, meios de prevenção, controle, cuidado e cura. Nesse sentido, entender o atendimento inicial e saber aplicá-lo é fundamental para reconhecer lesões potencialmente fatais e evitar um desfecho favorável. As mortes decorrentes do trauma se enquadram no seguinte padrão: Mobile User DIVISÃO TRIMODAL DAS MORTES Figura 1. Curva trimodal das mortes no trauma. ● PRIMEIRO PICO: Mortes inevitáveis, decorrentes de lesões incompatíveis à vida. Nesses casos, a atuação dos socorristas é improdutiva e incapaz de evitar a morte. A única forma de combate é a prevenção. ● SEGUNDO PICO: Mortes que ocorrem de minutos a horas após o incidente. É aqui que o atendimento inicial ao paciente politraumatizado deve focar. Nesse intervalo, acontecem as mortes por consequência de lesões graves, porém não letais se rapidamente tratadas. o “Golden Hour” – Momento no qual a ativação e intervenção do médico e do sistema médico de maneira ágil fazem TODA a diferença. ● TERCEIRO PICO: Mortes que ocorrem dias depois do trauma, decorrentes da falência múltipla de órgãos e/ou complicações de procedimentos, muitas vezes por consequência de uma inadequada abordagem na “Golden Hour”. Diante dessa divisão, podemos perceber que as medidas iniciais ao trauma são de suma importância na mudança de prognóstico. Portanto, a avaliação do doente traumatizado requer objetividade e sistematização, de maneira que seja facilmente aplicada e revista. Sendo assim, podemos seguir as seguintes fases: Mobile User PREPARAÇÃO No cenário pré-hospitalar, esse momento da preparação também é essencial para checar a segurança da cena. Caso haja sinais de violência (facada, tiro, briga), a Polícia 190 deve ser chamada e ela irá escoltar o SAMU 192 ao longo do seu atendimento. Caso a cena tenha sinais de explosão ou incêndio, estejam eles ocorrendo no momento ou não, o Corpo de Bombeiros 193 deve ser acionado para avaliar a cena e averiguar a segurança do local. Uma parte fundamental da preparação é a comunicação entre a equipe pré-hospitalar e o médico que irá receber o doente no ambiente intra-hospitalar. Esse deve estar ciente das condições do paciente, do mecanismo do trauma e das medidas adotadas na cena, a fim de preparar a equipe para a chegada do paciente ao hospital. Em um sistema de saúde ideal, o intra-hospitalar estará com o leito liberado, com todos os materiais testados e com a equipe pronta, esperando o doente chegar. Para tornar essa passagem do caso mais “protocolar”, temos o mnemônico MIST, em que M significa mecanismo do trauma, I se refere às injúrias, S se refere aos sinais e sintomas e T se refere aos tratamentos que foram realizados no cenário extra-hospitalar. TRIAGEM Consiste na avaliação do doente com a sua respectiva classificação de risco para melhor direcionamento e gerenciamento dos recursos do serviço, de acordo com as suas Mobile User necessidades, mesmo que isso inclua a transferência do paciente para um centro de maior complexidade. Nos casos de incidentes com múltiplas vítimas ou eventos com vítimas em massa, utilizamos o protocolo START para triar os pacientes distribuídos na cena, categorizando- os por cores. VERMELHO – Vítimas com ferimentos graves, porém com chance de sobrevida. Possuem prioridade elevada para atendimento, retirada de cena e transporte. AMARELO – Vítimas com ferimentos moderados. Podem aguardar um tempo na cena até o tratamento definitivo. VERDE – Vítimas com ferimentos mínimos, que podem deambular e até ajudar outras vítimas mais debilitadas. PRETO/CINZA – Vítimas que não respondem a procedimentos simples, como abertura das vias aéreas, e com ferimentos críticos que indicam morte iminente. AVALIAÇÃO INICIAL É nesse momento que os doentes são avaliados e as prioridades de tratamento são estabelecidas de acordo com suas lesões, seus sinais vitais e mecanismos de lesão. Nos doentes com lesões graves, deve ser estabelecida uma sequência lógica de tratamento de acordo com as prioridades e baseada na avaliação geral do doente. As funções vitais do doente devem ser avaliadas rápida e eficientemente. O tratamento do doente deve consistir de uma avaliação primária rápida, reanimação das funções vitais, uma avaliação secundária mais pormenorizada e, finalmente, o início do tratamento definitivo. Esse processo constitui o ABCDE dos cuidados do doente traumatizado e identifica as condições que implicam risco de morte através da seguinte sequência: Lembrando que, caso você esteja no cenário extra-hospitalar, ou caso a vítima tenha sido trazida por transeuntes ou familiares, o algoritmo a ser utilizado é o XABCDE, Respiration (FRgaze sobre a ferida e prendendo-a ao local com uma bandagem elástica). Caso nenhuma dessas medidas seja eficaz no controle do sangramento, utilize o torniquete. Quanto ao uso do torniquete, vamos lembrar de: ● Apertar o torniquete até que a hemorragia pare; ● Anotar o horário em que ele foi aplicado; ● Não removê-lo! (O torniquete só deve ser retirado dentro da sala de cirurgia). A – VIA AÉREA Aqui, o objetivo é garantir a permeabilidade das vias aéreas superiores, bem como garantir a proteção e a imobilização da coluna cervical. Nesta etapa, todos os esforços devem focar-se na identificação e na resolução de qualquer possível obstrução das vias aéreas. O médico líder da equipe deve sempre abordar o paciente por trás de sua cabeça, enquanto imobiliza manualmente sua cervical. Devemos realizar a avaliação do pescoço nesse momento: vamos inspecionar por desvio de traqueia, turgência de jugular e possíveis lesões traumáticas; além disso, vamos realizar a palpação para identificar a presença de crepitações na coluna cervical ou de enfisema subcutâneo (indicativo de lesões pulmonares ou de árvore traqueobrônquica). Caso o paciente não esteja em uso de um colar cervical, a colocação deste deve ser o próximo passo a ser dado. A proteção da coluna cervical é primordial e a movimentação excessiva deve ser evitada a todo custo. A imobilização manual deve continuar durante toda a avaliação, mesmo após a colocação do colar, uma vez que não priva o paciente de todos os movimentos. Mobile User Passagem do Colar Cervical A verificação da perviedade das vias aéreas deve ser feita observando a cavidade oral, buscando por sangue, corpos estranhos, secreções, restos alimentares e edema, além de se atentar aos ruídos respiratórios. Um paciente que consegue falar claramente tem uma via aérea patente, e é pouco provável a existência de alguma obstrução significativa. Contudo, a reavaliação deve ser constante, uma vez que as condições podem, rapidamente, deteriorar a permeabilidade desta via aérea. I) O primeiro socorrista fornece estabilização manual neutra e alinhada da cabeça e do pescoço, enquanto o segundo utiliza os dedos para medir a distância entre a parte inferior da mandíbula e o ombro. II) Essa medida será usada para selecionar um colar de tamanho adequado ou regular um colar ajustável. Lembre-se de travar na posição correta após a regulação. III) O segundo socorrista passa o colar e o fecha adequadamente, enquanto a estabilização manual é mantida até que o paciente esteja fixado a um dispositivo de imobilização. SINAIS DE ALERTA: Ruídos ou estridores durante a respiração sugerem obstrução de VA. A presença de corpos estranhos e fraturas faciais, ou tráqueo-laríngeas, devem ser investigadas e solucionadas o mais breve possível. O comportamento inquieto e agitado também são indicativos de hipóxia. Algumas manobras simples podem ser executadas para garantir a permeabilidade da VA: elevação do mento (Chin Lift) e a tração da mandíbula (Jaw Thrust). Lembre- se: Para pacientes politraumatizados, a manobra de escolha é o Jaw Thrust, tendo em vista que o Chin Lift exige movimentação extensa da coluna cervical e pode deteriorar um possível trauma raquimedular. Muitas vezes, a obstrução pode ser causada pela presença de líquidos ou secreções na orofaringe, sendo de extrema importância ter um aspirador de ponta rígida preparado para uso. Caso as manobras não sejam suficientes para assegurar a permeabilidade da via aérea, técnicas mais elaboradas, como o estabelecimento de uma via aérea definitiva ou cirúrgica, podem ser utilizadas. Essas devem fazer parte do arsenal de todo médico socorrista, que deve estar capacitado a realizar tais tarefas. Ainda no “A” devemos MOVer o paciente, isto é, realizar a Monitorização, a Oximetria de pulso e a Venóclise. B – RESPIRAÇÃO Nesse momento, temos como objetivo fornecer um adequado suprimento de oxigênio e garantir a troca gasosa. Uma via aérea pérvia não necessariamente significa uma boa troca gasosa. Uma boa ventilação exige o funcionamento adequado dos pulmões, da parede torácica e do diafragma. Por isso, nesta segunda etapa, deve-se focar na avaliação de cada um desses componentes! MNEMÔNICO IPAP Inspeção de todo o tórax e investigação de quaisquer anormalidades, feridas, hematomas, deformidades ou movimentos assimétricos. TODO PACIENTE POLITRAUMATIZADO MERECE UMA OFERTA SUPLEMENTAR DE OXIGÊNIO. Para isso, deve ser utilizada a MNR 15L/min. Mobile User Palpação da caixa torácica à procura de fraturas, dor e sangramento. Ausculta pulmonar em ambos os hemitóraces, do ápice até a base. O murmúrio vesicular é o som da normalidade. Caso ele esteja ausente, ou diminuído, é um indício de pneumotórax ou hemotórax. Percussão de ambos os hemitóraces em toda sua extensão. O som claro atimpânico é o esperado. Caso haja timpanismo exacerbado (som mais ecoado), deve-se suspeitar da presença de ar entre os pulmões e a parede torácica (pneumotórax); caso o som seja mais maciço (abafado), é um indicativo de líquido na cavidade (possível hemotórax). Durante a avaliação da respiração, quatro lesões possivelmente fatais devem ser investigadas e tratadas, cada uma delas com as suas especificidades: pneumotórax hipertensivo, pneumotórax aberto, hemotórax maciço ou lesão da árvore traqueobrônquica. O pneumotórax hipertensivo ocorre quando é criado um mecanismo de passagem unidirecional do ar para a cavidade pleural. Seja por lesão pulmonar, na qual o ar contido dentro do pulmão é extravasado para a cavidade, seja por lesão da parede torácica (que pode ter esse mecanismo de válvula unidirecional ou pode ser uma lesão de pneumotórax aberto coberta erroneamente com um curativo oclusivo). Em ambos os casos, o acúmulo de ar na cavidade gera uma pressão no respectivo hemitórax, resultando em colapso do pulmão e desvio do mediastino. Dessa maneira, à inspeção, a traqueia estará desviada e o tórax assimétrico (a elevação do hemitórax lesado vai estar dissociada do movimento respiratório); e, à ausculta, os murmúrios vesiculares estarão ausentes no lado lesado. Além disso, há uma queda significativa do retorno venoso, diminuindo o débito cardíaco e, consequentemente, levando a um choque obstrutivo. Por isso, o paciente vai apresentar sinais de choque (taquicardia, hipotensão) e, também, turgência de jugular. Frequentemente, esses doentes vão apresentar sensação de “fome de ar”. O tratamento do pneumotórax hipertensivo deve ser imediato com punção de alívio (inserção de cateter sobre agulha no espaço pleural) seguido da drenagem torácica em selo d’água. O pneumotórax aberto se desenvolve a partir de grandes ferimentos na parede torácica que permanecem abertos e permitem a passagem de ar (ferimentos aspirativos). Na medida em que o paciente faz movimentos de inspiratórios, o ar entra por esse orifício, acumulando-se na cavidade pleural e gerando, portanto, o pneumotórax. O doente apresenta Mobile User dor, dificuldade respiratória, taquipneia e diminuição dos murmúrios vesiculares do lado afetado. Para o tratamento, o ferimento deve ser coberto com qualquer curativo oclusivo (gaze vaselinada, lâmina de plástico, etc.). O material escolhido deve ser fixado à pele (com micropore, por exemplo) em apenas 3 lados, essa estratégia irá produzir um mecanismo de válvula unidirecional (quando o paciente inspira, o curativo oclui a ferida e impede a entrada de ar; quando o paciente expira, o lado não fixado do curativo permite a saída do ar). Posteriormente, a drenagem torácica precisa ser realizada. O hemotórax maciço é o acúmulo de mais de 1.500 ml ou de ⅓ (ou mais) do volume sanguíneodo doente na cavidade pleural. O diagnóstico é dado pela presença de choque (hipovolêmico) associado à ausência de murmúrio vesicular à ausculta (graças ao sangue presente entre a parede torácica e o pulmão) e/ou macicez à percussão do hemitórax lesado. Nesses pacientes, ao contrário daqueles com pneumotórax hipertensivo, as veias do pescoço podem estar colapsadas pela hipovolemia. O tratamento é feito com reposição do volume sanguíneo e descompressão da cavidade torácica. Em alguns casos, uma toracotomia de urgência pode ser necessária. A lesão de árvore traquebrôquica é rara, mas potencialmente fatal. Os pacientes podem apresentar hemoptise (tosse com sangue), enfisema subcutâneo cervical (acúmulo de ar nos tecidos abaixo da pele), pneumotórax hipertensivo e cianose. Esses doentes podem ser manejados inicialmente com o estabelecimento de uma via aérea definitiva, mas todos irão precisar de tratamento cirúrgico. C – CIRCULAÇÃO Aqui, o nosso objetivo é investigar e conter hemorragias, já que essa é a principal causa de morte em pacientes politraumatizados. O primeiro passo deve ser a identificação de tal situação. A observação dos sinais vitais é de grande valia para o diagnóstico de instabilidade hemodinâmica, taquicardia, taquipneia, sudorese e cianose, que são os clássicos sinais de choque. RECONHECENDO O CHOQUE É fundamental o seu reconhecimento precoce para que haja a correção das disfunções e tratamento da causa base. De maneira prática, podemos buscar o 1H e 4Ps para identificar as principais alterações/sintomas devido à disfunção em órgãos-alvo: Mobile User No trauma, todo choque é HIPOVOLÊMICO até que se prove o contrário, mas não podemos deixar de lembrar dos outros tipos de choque possíveis nesse cenário: HIPOVOLÊMICO A depleção de volume intravascular leva à hipoperfusão tecidual. O mais comum no trauma é que essa perda ocorra às custas de um foco hemorrágico. OBSTRUTIVO – Restrição mecânica O coração sofre restrições à sua dilatação, reduzindo o seu enchimento e, por consequência, seu volume ejetado. EX: Tamponamento cardíaco, Pneumotórax hipertensivo... DISTRIBUTIVO – Falha no sistema vascular condutor Ocorre por vasodilatação patológica e consequente hipotensão. Envolve diversas etiologias, mas no trauma, pensamos principalmente no neurogênico. EX: Trauma raquimedular com abolição do tônus simpático. CARDIOGÊNICO – Bomba cardíaca Quando a insuficiência da contratilidade do coração não permite vencer a resistência vascular. Causado, sobretudo, por condições clínicas como IAM e ICC. Para sistematizar o atendimento, é importante ter em mente as possíveis causas de instabilidade hemodinâmica do paciente. O choque hipovolêmico é a principal delas e deve ser colocada sempre como primeira opção de diagnóstico. A perda de sangue ameaçadora a vida é considerável e não deve passar despercebida. Apenas cinco “compartimentos” suportam o volume extraviado de sangue suficiente para tal efeito: Tórax: Já investigado e tratado anteriormente (Lembre que você avaliou o tórax no “B”). Abdome: Sinais de irritação peritoneal e dor à palpação estarão presentes. A utilização de métodos de imagem como o protocolo E-FAST é recomendada. (O E-FAST é Mobile User um protocolo do point-of-care ultrasound, que investiga a presença de líquido livre - no trauma, sangue - na cavidade abdominal) Pelve: Testar a estabilidade da pelve e, caso seja verificada instabilidade, imobilizá-la com uma cinta ou lençol comprimindo a região do trocânter. Essa manobra é imprescindível para conter o sangramento pélvico (se limite a apenas um teste em toda a avaliação). Ossos longos: Fraturas de ossos longos (destaque para o fêmur) podem resultar em grandes perdas sanguíneas. A redução da fratura e imobilização do membro são medidas fundamentais nessas situações. Exterior: Feridas sangrentas devem ser tratadas com curativos compressivos. Em casos extremos em que a hemorragia não consegue ser controlada, a utilização de torniquetes deve ser considerada. MANEJO DO CHOQUE Para balancear o volume de sangue perdido, uma reposição volêmica efetiva deve ser adotada. Para tal, dois acessos venosos jelco 16-18 devem ser obtidos rapidamente, permitindo a infusão rápida de grandes volumes de líquidos. Nesse momento, é importante que amostras de sangue sejam colhidas para que sejam realizadas tipagem sanguínea, prova cruzada, exames laboratoriais, incluindo toxicológico, e teste de gravidez para todas as mulheres em idade fértil. Atualmente, a ideia de reposição volêmica agressiva tem sido abandonada e o conceito de hipotensão permissiva deve ser colocado em prática, com a ideia de reduzir pressão hidrostática intravascular para diminuir a quantidade de sangue perdida pelo local em que ocorreu a lesão vascular. Em quem adotar a hipotensão permissiva? Em todo paciente vítima de trauma com choque hipovolêmico hemorrágico. De acordo com as referências mais recentes, as metas pressóricas são de PAS 80-90mmHg no trauma e 100mmHg caso exista lesão de SNC. A utilização excessiva de soluções isotônicas, associada a outros fatores de resposta metabólica no trauma, pode levar à hemodiluição e consequente coagulopatia, podendo aumentar a hemorragia. Quanto de volume fazer inicialmente? O ATLS traz que se deve administrar 1 litro de cristaloides na avaliação primária do paciente com sinais de choque. O novo guideline da Sociedade Europeia do Trauma já traz que podemos infundir 1,5L de cristaloides. Então, indicamos que se atente para as metas pressóricas e faça uma quantidade entre 500-1500mL. Mobile User Lembrando que o cristaloide de escolha é o Ringer Lactato. Fique atento porque a pressão 120x80mmHg pode matar seu paciente! Em pacientes graves, é essencial a infusão de hemocomponentes precocemente! Os produtos derivados do sangue (hemácias, plasma [fatores de coagulação] e plaquetas) devem ser administrados em quantidades equivalentes – na proporção de 1:1:1. O tromboelastograma, ou avaliação comparativa rápida do ponto de tratamento da coagulação, deve ser usada para orientar a ressuscitação do trauma sempre que disponível. O ácido tranexâmico pode ser administrado a pacientes traumatizados com sinais de hemorragia significativa que se apresentam dentro de 3h após a lesão. Os vasopressores não devem ser administrados de rotina no choque hipovolêmico, uma vez que não corrigem o problema primário e tendem a reduzir ainda mais a perfusão tecidual. D – DISFUNÇÃO NEUROLÓGICA Nessa etapa, deve-se fazer apenas uma rápida avaliação neurológica. Para isso, utilizamos a Escala de Coma de Glasgow (ECG) e pupilas. Exames mais minuciosos e direcionados são deixados para a avaliação secundária. A ECG é usada como um importante escore de gravidade, pois é uma ferramenta extremamente útil para avaliar o nível de consciência e gravidade da lesão neurológica. Pacientes traumatizados, com ECG ≤ 8, devido à gravidade de sua lesão neurológica, são considerados incapazes de manter a proteção da sua via aérea e possuem uma chance consideravelmente maior de fazer broncoaspiração. Devido a isso, eles têm indicação formal de intubação. Adicionalmente, perda de 2 pontos ou mais na ECG dentro de 2 horas também indica IOT. A ECG deve ser monitorada constantemente e qualquer rápida alteração deve ser acompanhada por uma reavaliação do paciente. Deve-se estar atento a fatores confundidores como hipoglicemia, ingestão de álcool e outras drogas, que podem atrapalhar o exame neurológico. Mobile User *Na flexão normal, a mão do paciente não alcança a fonte do estímulo, mas há uma flexão rápida do braço no nível do cotovelo e na direção externa ao corpo. Na flexão anormal, a flexão feita pelo paciente é lenta e na direção interna do corpo. Mobile User E – EXPOSIÇÃO Por fim, vamosfocar em procurar outras lesões e prevenir hipotermia, sendo importante fazer uma avaliação geral “da cabeça aos pés”. O paciente deve ser despido e examinado por completo. A inspeção e palpação de todos os membros objetivam a procura de feridas e lesões que passaram despercebidas. Caso não haja contraindicações, o paciente deve ser lateralizado para se observar o dorso, com objetivo de palpar toda a coluna vertebral. Para isso, devemos utilizar o rolamento em bloco. Nessa etapa, o controle da hipotermia é imperativo! O paciente politraumatizado é vulnerável ao frio e, mesmo em uma temperatura ambiente “agradável”, a perda de calor para o meio é considerável. Depois de despido, o paciente deve ser aquecido e protegido com mantas térmicas ou cobertas, pois a hipotermia infringe um péssimo prognóstico e deve ser evitada. Lembre-se: ao fazer infusão de líquidos AQUECIDOS (no “C”), estamos também prevenindo hipotermia! Rolamento em Bloco I) Estica-se os braços do paciente com as palmas das mãos voltadas para dentro, e as pernas colocadas em alinhamento neutro. II) O líder permanece estabilizando a cabeça do paciente, enquanto os outros dois socorristas entrelaçam os braços, segurando o paciente ao nível de ombros e qudris. III) Ao comando do líder, o rolamento é realizado e um dos socorristas palpa o dorso buscando por possíveis lesões. IV) Ao comando do líder, o rolamento é desfeito. Mobile User Obs: O comando do líder é feito na forma de contagem (Ex: “No 3, 1 2 3”). AVALIAÇÃO SECUNDÁRIA O atendimento secundário do paciente politraumatizado consiste, basicamente, de um exame físico completo, no sentido crânio-caudal, além de colher uma história básica sobre o indivíduo com informações relevantes para o tratamento. Neste momento, deve ser questionada a necessidade de exames de imagem e a “série trauma” (radiografia de coluna cervical, radiografia de tórax e radiografia de pelve) deve ser pedida para todos os pacientes com uma história de acidente com cinemática importante. Com relação à história a ser colhida, costuma-se utilizar o mnemônico SAMPLA em relação aos tópicos a serem abordados durante a breve anamnese: Como mencionado, o exame deve começar pela cabeça à procura de lesões em couro cabeludo e em face. Seguindo, observa-se o pescoço, o tórax, abdômen e membros superiores à procura de fraturas ou lesões pérfuro-cortantes que necessitem de tratamento. Continuando o exame secundário, observa-se a região de períneo à procura de algum sinal de sangramento que leve a suspeita de trauma em vias urinárias. Caso não haja contraindicação, deve ser introduzida uma sonda vesical para monitorar o débito urinário, importante indicador de volemia e perfusão tecidual. O exame secundário termina com uma observação dos membros inferiores, mais uma vez à procura de fraturas e cortes que necessitem de tratamento. Após a busca ativa pelas informações do paciente, deve-se decidir quais os tratamentos definitivos para os tipos de lesões apresentadas por cada paciente. Caso haja necessidade de intervenção cirúrgica, o centro deve ser avisado o mais rápido possível para que a equipe se prepare. Em pacientes menos graves, medidas conservadoras e menos invasivas devem ser adotadas. Mobile User REFERÊNCIAS E LITERATURA SUGERIDA AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. COMMITTEE ON TRAUMA. ATLS : student course manual. 10. ed. Chicago, Ill.: American College Of Surgeons, 2018. NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS (U.S.). PRE- HOSPITAL TRAUMA LIFE SUPPORT COMMITTEE. PHTLS : prehospital trauma life support. 10th edition.