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A RELAÇÃO DE TRABALHO AULA 1 Profª Karla Knihs 2 CONVERSA INICIAL Olá! Seja bem-vindo(a). Em nossa disciplina, vamos estudar os principais aspectos no que se refere ao Direito do Trabalho e às relações de trabalho e de emprego. O Direito do Trabalho pode ser conceituado como o ramo da ciência jurídica dotado de um conjunto de princípios, regras, instituições e institutos próprios que disciplinam a relação de emprego e algumas relações de trabalho semelhantes. A finalidade do Direito do Trabalho é estabelecer normas protetivas ao empregado, para a proteção das condições de trabalho e melhoria da condição social do trabalhador. Nesta aula, estudaremos o histórico do Direito do Trabalho, tanto em âmbito mundial quanto no Brasil; a Organização Internacional do Trabalho (OIT); o Direito do Trabalho na União Europeia; e o Direito do Trabalho no Mercosul. Começaremos nosso estudo com um panorama de Direito Internacional, estudando o Direito Internacional do Trabalho, tendo em vista que especialmente a OIT publica recomendações e convenções que impactam diretamente no Direito do Trabalho brasileiro. A União Europeia também será objeto de estudo, em especial, POR sua característica de supranacionalidade e a forma como o Direito do Trabalho é tratado dentro do bloco e em cada um dos países-membros. Por fim, estudaremos o funcionamento do Mercosul em relação aos trabalhadores, tendo em vista que há a previsão de livre circulação de trabalhadores nos países-membros do bloco. Bons estudos! CONTEXTUALIZANDO Imagine a seguinte situação: uma empresa de confecção de roupas do Rio Grande do Sul, a fim de baratear seus custos, terceiriza a produção para trabalhadores uruguaios. Os uruguaios atravessam a fronteira, recebem as peças de roupas para serem costuradas e voltam ao país de origem, onde fazem todo o trabalho. Após finalizarem o trabalho, eles devolvem as peças prontas, recebendo pagamento por peça. 3 A empresa alega que a prática é legal, tendo em vista que no Mercosul há a livre circulação de trabalhadores, por força do Tratado de Assunção, promulgado pelo Decreto n. 350, de 21 de novembro de 1991. Como você entende a situação descrita? A empresa está correta? Por quê? Não precisa responder agora. Vá para o conteúdo teórico desse tema e, ao final, retomaremos essa questão. TEMA 1 – DIREITO DO TRABALHO: HISTÓRICO, IDADE ANTIGA, IDADE MÉDIA E IDADE MODERNA 1.1 Idade Antiga, Idade Média e Idade Moderna Segundo Romar (2019, p. 30) “trabalho é toda atividade desenvolvida pelo homem para prover o seu sustento e para produzir riquezas. Ao longo do tempo, diversas foram as suas formas, que variavam conforme as condições históricas”. Assim, segundo a autora, a história do trabalho começa quando o homem percebe que é possível utilizar mão de obra alheia em proveito próprio e para produzir riquezas. Romar (2019, p. 30) afirma que “o trabalho se desenvolve e torna-se dependente e ligado às relações sociais e econômicas vigentes em cada período histórico específico”. Temos, portanto, três marcos históricos principais, quais sejam: escravismo; feudalismo; capitalismo. Vejamos, primeiramente, como era o trabalho na sociedade pré-industrial. Dos primórdios da humanidade até o final do século XVIII, quando tem início a Revolução Industrial, podemos encontrar diversas formas de trabalho, tais como a escravidão, a servidão e as corporações de ofício. Contudo, ainda não existia proteção jurídica ao trabalhador. Na escravidão, por exemplo, o trabalhador sequer tinha personalidade jurídica, sendo considerado coisa ou bem. Assim, o escravo era considerado um ser inferior aos demais membros da sociedade (Romar, 2019). A Idade Média, por sua vez, trouxe uma nova forma de prestação de trabalho, chamada de servidão. Ocorrida na época do feudalismo, os senhores 4 feudais ofereciam proteção militar e política aos servos, que não eram livres, e deveriam prestar serviços na terra do senhor feudal. Assim, os servos entregavam parte da produção rural aos senhores feudais para receber não só a permissão de uso da terra, mas também proteção militar (Martins, 2017). Ainda, existiam as chamadas corporações de ofício, formadas por artesãos, em que trabalhavam as figuras dos mestres, dos companheiros de dos aprendizes. Os mestres eram os proprietários das oficinas, e os companheiros recebiam salários dos mestres. Os aprendizes, por sua vez, eram os menores a partir de 12 anos, que recebiam dos mestres o ensino do ofício ou da profissão. Nessas corporações existia um estatuto próprio, mas a jornada de trabalho poderia chegar a 18 horas por dia. Em todas as cidades havia uma corporação para cada tipo de atividade. As corporações de ofício foram suprimidas com a Revolução Francesa, em 1789 (Martins, 2017). A Lei de Le Chapelier, à época, foi um marco ao defender a liberdade do homem no exercício do seu trabalho. Por outro lado, impossibilitou a existência de qualquer tipo de organização. Pode-se dizer que, com a Revolução Industrial, surge um tímido Direito do Trabalho, mas segundo Delgado (2015), o Direito do Trabalho é fruto do capitalismo. A sociedade industrial começa a despontar em meados do século XVIII com o declínio da sociedade feudal. Segundo Romar (2019, p. 32), “a Revolução Industrial fez surgir o trabalho humano livre, por conta alheia e subordinado, e significou uma cisão clara e definitiva entre os detentores dos meios de produção e os trabalhadores”. Contudo, pagava-se o menor salário possível e o trabalhador era explorado ao máximo, o que acabou criando uma grande tensão social e, consequentemente, uma crise social. Em razão disso, o debate surgido em torno dessa realidade levou à publicação do Manifesto Comunista, em 1848, por Marx e Engels. A Igreja também teve um papel de destaque nas relações trabalhistas nesse período, havendo a expedição de várias encíclicas, como a Encíclica Rerum Novarum, de 1891. As ideias contidas nesses dois documentos influenciaram profundamente o Direito do Trabalho. Assim, a partir desse debate, o Estado percebe a necessidade de intervir e de regulamentar as relações de trabalho, a fim de garantir condições mínimas de proteção ao trabalhador. Surge, então, o Direito do Trabalho, como estrutura 5 de proteção do trabalhador, e sua evolução acompanha a evolução das relações e sociais e econômicas. Esquematicamente, podemos dividir esse histórico da seguinte forma: Sociedade pré-industrial: o escravidão; o servidão; o corporações de ofício. Sociedade pós-Revolução Industrial: o Sociedade industrial – trabalho assalariado e subordinado. 1.2 Constitucionalismo social A Constituição é a norma mais importante de todo o ordenamento jurídico. O constitucionalismo social tem início em 1917. Segundo Vale (2019), A Constituição mexicana de 1917 foi a primeira a incluir um catálogo de direitos sociais. A positivação de uma série de reivindicações sociais (condições de trabalho, educação, saúde etc.), as quais marcaram o período histórico do início do século XX, tornou-se uma das principais características desse importante documento constitucional, sem nenhuma dúvida a sua mais relevante contribuição para o constitucionalismo em perspectiva universal. Assim, a Constituição Mexicana foi pioneira em inserir direitos trabalhistas e sociais fundamentais no texto da Constituição, servindo de inspiração para outros países. A Alemanha, em 1919, adotou a Constituição de Weimar, também optando pela constitucionalização de direitos sociais. Assim, se reservou capítulo específico nessa Carta para regular a ordem econômica e social e prever a participação dos trabalhadores nas empresas, bem como a liberdade sindical, com a proteção do trabalhador pelo governo. Além disso, em 1919, como Tratado de Versalhes, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, houve a criação da Organização Internacional do Trabalho 9 OIT), órgão que estudaremos com mais detalhes no Tema 3 desta aula. Em 1927, temos a edição da Carta del Lavoro, a carta de trabalho italiana, que serviu de inspiração posterior ao Brasil e adotou o constitucionalismo social, intervenção do Estado na Economia, ampla legislação de viés paternalista e controle do direito coletivo do trabalho. 6 Por fim, a partir da Constituição Mexicana, da Constituição de Weimar e do Tratado de Versalhes, outras constituições modernas passaram a adotar o constitucionalismo social, especialmente após a Declaração da Filadélfia, de 1944, e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. TEMA 2 – CONSTRUÇÃO DO DIREITO DO TRABALHO NO BRASIL: CONSTITUIÇÕES E LEIS ESPARSAS No Brasil, podemos dividir a história do Direito do Trabalho em três fases: 1. do descobrimento à abolição da escravatura; 2. da proclamação da república à campanha política da Aliança Liberal; 3. da Revolução de Trinta aos nossos dias. Já no final do século XIX, havia esforços para tentar conquistar direitos trabalhistas, como a Fundação da Liga Operária, no Rio de Janeiro, e até mesmo uma lei que proibia o trabalho para menores de 12 anos. Contudo, pode-se dizer que o Direito do Trabalho no Brasil só inicia com a Revolução de 1930, sendo que apenas a partir de Getúlio Vargas a política trabalhista começa a surgir. Segundo Martins (2017, p. 33), “o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio foi criado em 1930, passando a expedir decretos, a partir dessa época, sobre profissões, trabalho das mulheres (1931), salário mínimo (1936), Justiça do Trabalho (1939) etc.” As Constituições de 1824 e 1891 não continham qualquer disposição quando à proteção ao trabalho. A primeira Constituição a tratar de Direito do Trabalho foi a de 1934. Nela se garantiu, entre outros direitos, a liberdade sindical, a isonomia salarial, o salário mínimo, a jornada de trabalho, a proteção do trabalho das mulheres e dos menores, o repouso semanal e as férias anuais remuneradas. Logo em seguida, em 1937, temos a Constituição decorrente do golpe de Getúlio Vargas, que, inspirada na Carta del Lavoro e na Constituição Polonesa, tratou de diversos termos do Direito do Trabalho. Instituiu-se, por exemplo, sindicato único, imposto sindical, competência normativa dos tribunais do trabalho, entre outras disposições. 7 A Constituição de 1946 previu a participação dos trabalhadores nos lucros, repouso semanal remunerado, estabilidade, direito de greve, bem como manteve outros direitos que já constavam da norma constitucional anterior. Mas o Direito do Trabalho não apenas se viu florescer em âmbito constitucional. Diversas legislações esparsas foram editadas a partir da década de 1930, a saber: Decreto n. 19.671-A/1931, que dispunha sobre a organização do Departamento Nacional de Trabalho; Decreto n. 19.770/1931, que regulava a sindicalização; Decreto n. 21.186/1932, que regulava o horário de trabalho dos empregados no comércio; Decreto 21.364/1932, que regulava o horário de trabalho dos empregados na indústria, entre outros. O ingresso do Brasil na OIT foi importante, tendo em vista que o país se obrigou a observar normas trabalhistas. Por fim, em 1º de maio de 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi aprovada pelo Decreto-Lei n. 5.452/1943), entrando em vigor em 10 de novembro de 1943. A CLT, apesar das diversas alterações e reformas, está em vigor até hoje, sendo o grande marco para o desenvolvimento do Direito do Trabalho no Brasil. Posteriormente, tivemos a Lei n. 605/1949, sobre o repouso semanal remunerado; a Lei n. 3.207/57, sobre as atividades de empregados vendedores, viajantes e pracistas; e Lei n. 4.090/1962, que instituiu o 13º salário. A Constituição de 1967 manteve os direitos trabalhistas previstos nas legislações anteriores. Após a Constituição de 1967, outras normas trabalhistas merecem destaque, a saber: Lei n. 5.889/73, sobre o trabalhador rural; Lei n. 6.019/74, sobre o trabalho temporário; Decreto-Lei n. 1.535/77, sobre férias; Lei Complementar n. 150/2015, sobre o trabalhador doméstico, entre outras. Por fim, a Constituição Federal de 1988 trouxe um forte conteúdo social, tratando, por exemplo, dos direitos trabalhistas nos arts. 7 a 11. Destacamos alguns deles a seguir: I - relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos; II - seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário; 8 III - fundo de garantia do tempo de serviço; IV - salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim; V - piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho; VI - irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo; VII - garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável; VIII - décimo terceiro salário com base na remuneração integral ou no valor da aposentadoria; IX - remuneração do trabalho noturno superior à do diurno; X - proteção do salário na forma da lei, constituindo crime sua retenção dolosa; XI - participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; XII - salário-família pago em razão do dependente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei; XIII - duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho; XV - repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos; XVI - remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em cinquenta por cento à do normal; XVII - gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal; XVIII - licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias; XIX - licença-paternidade, nos termos fixados em lei; XX - proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; XXI - aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei; XXIV - aposentadoria; XXVI - reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho; 9 XXVII - proteção em face da automação, na forma da lei; XXVIII - seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa. (Brasil, 1988) Os direitos trabalhistas também foram incluídos no Capítulo II, “Dos Direitos Sociais”, do Título II, “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, sendo que nas constituições anteriores o Direito do Trabalho era tratado no âmbito da ordem econômica e social. TEMA 3 – ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT) A Organização Internacional do Trabalho (International Labour Organization) é uma agência multilateral da Organização das Nações Unidas, especializada nas questões do trabalho, especialmente no que se refere ao cumprimento das normas (convenções e recomendações) internacionais. Foi fundada em 1919, como parte do Tratado de Versalhes, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. A OIT tem sede em Genebra, Suíça, e mantém cerca de 40 escritórios pelo mundo com o fim de promover a justiça social, sendo a única agência das Nações Unidasque tem estrutura tripartite, na qual representantes de governos, de organizações de empregadores e de trabalhadores de 187 Estados-membros participam em situação de igualdade das diversas instâncias da organização (OIT, 2020). Assim, temos os seguintes órgãos: o Conselho de Administração; a Conferência Internacional do Trabalho; a Repartição Internacional do Trabalho. A Conferência ou Assembleia Geral é o órgão de deliberação da OIT, e se reúne em sessões uma vez por ano. O Conselho de Administração exerce função executiva, administrando a OIT. A Repartição Internacional do Trabalho é a secretaria da OIT (Martins, 2017). Segundo o site da OIT (2020), sua missão é “promover oportunidades para que homens e mulheres possam ter acesso a um trabalho decente e produtivo, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade”. A OIT considera o trabalho decente como condição fundamental para a superação da 10 pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável. O Brasil está entre os membros fundadores da OIT e participa da Conferência Internacional do Trabalho desde sua primeira reunião. No Brasil, a OIT possui representação desde 1950. A OIT possui uma representação no Brasil desde a década de 1950, com programas e atividades que refletem os objetivos da Organização ao longo de sua história. Além da promoção permanente das normas internacionais do trabalho, do emprego, da melhoria das condições de trabalho e da ampliação da proteção social, a atuação da OIT no Brasil se caracteriza pelo apoio ao esforço nacional de promoção do trabalho decente, que envolve temas como o combate ao trabalho forçado, ao trabalho infantil e ao tráfico de pessoas, assim como a promoção do trabalho decente para jovens e migrantes e da igualdade de oportunidades e tratamento, entre outros. (OIT, 2020) É de sua responsabilidade a formulação e a aplicação das normas internacionais do trabalho, tais como convenções, resoluções e recomendações. Ressalte-se que as convenções passam a fazer parte do ordenamento jurídico do Estado, caso sejam ratificadas por decisão soberana, ou seja, elas não têm aplicação automática e imediata no ordenamento jurídico interno, devendo ser recepcionadas por nosso sistema normativo. Além de não poderem contrariar a nossa Lei Maior, elas devem passar pelo procedimento previsto no art. 5º, parágrafos 2º e 3º, da CF/88. As convenções da OIT são normas jurídicas oriundas da conferência, e determinam regras obrigatórias para os Estados que as ratificarem, passando a fazer parte dos ordenamentos internos dos países. As recomendações, por sua vez, servem como indicação e surgem quando não há um número suficiente de países que proceda a retificação. Daí porque ela não é obrigatória, sendo apenas fonte material de Direito. As declarações internacionais são atos que indicam regras genéricas, e servem de base, pelo critério da justiça, a um determinado sistema jurídico. A denúncia é o aviso prévio dado pelo Estado, no sentido de que não tem interesse em continuar aplicando uma determinada norma internacional. No âmbito da OIT, só é possível denunciar uma convenção no decurso do décimo ano, havendo prorrogação. 11 Importante ressaltar que as normas internacionais do trabalho procuram proporcionar os seguintes benefícios: melhores condições de trabalho e trabalho decente; globalização justa e estável; condições de igualdade; melhora de resultados econômicos; redução da pobreza; união e cooperação entre os países para a resolução de problemas trabalhistas existentes nas diversas realidades de cada um. O Conselho de Administração da OIT estabeleceu que dentre todas as convenções adotadas, oito delas são fundamentais, pois tratam de: liberdade de associação e liberdade sindical e reconhecimento efetivo do direito à negociação coletiva (Convenções 87 e 98); eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório (Convenções 29 e 105); eliminação da discriminação em matéria de emprego e ocupação (Convenções 100 e 111); combate ao trabalho infantil (Convenções 138 e 182). TEMA 4 – DIREITO DO TRABALHO NA UNIÃO EUROPEIA A União Europeia (EU) é uma união econômica e política, um bloco econômico criado em 1992, que tem como objetivos melhorar as condições de livre comércio entre os países membros, reduzir as desigualdades sociais e econômicas entre as regiões, fomentar o desenvolvimento econômico dos países, bem como a paz, o equilíbrio e a harmonia entre os países na Europa. Para tanto, há a permissão de livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas entre os países que compõem o bloco. Segundo Gomes (2005, p. 106), o ordenamento jurídico europeu tem existência autônoma em relação às ordens jurídicas internas dos Estados- membros, que consentem em delegar determinadas competências soberanas aos órgãos comunitários. Para Gomes (2005, p. 108), 12 Um dos principais suportes ao Direito Comunitário é o instituto da supranacionalidade, que contribuiu decisivamente para a consolidação dos objetivos da União Europeia, possibilitando a adoção de políticas comunitárias compatíveis com a legislação dos Estados-membros e unidade direta das normas comunitárias. Além disso, a supranacionalidade dá condições para que as normas produzidas pelos órgãos comunitários possam ser aplicadas de forma homogênea e imediata no ordenamento jurídico dos Estados-membros. Todos os trabalhadores da União Europeia gozam de alguns direitos mínimos, tais como saúde e segurança no trabalho, igualdade de oportunidade entre homens e mulheres, proteção à gestante, licença-maternidade e licença- paternidade, proteção contra a discriminação em razão de sexo, raça, religião, idade, deficiência ou orientação sexual (Comissão Europeia, 2020). Além disso, todos os países que fazem parte da UE devem se atentar às diretivas em matéria laboral, de tal forma que cada país deve assegurar que a legislação nacional proteja os direitos previstos na legislação laboral da UE. Caso o trabalhador considere que seus direitos não estão sendo respeitados, ele poderá procurar um organismo de inspeção do trabalho, ou um tribunal do trabalho de seu país. No que diz respeito ao contrato de trabalho, aplica-se a lei do país onde o trabalhador presta normalmente o seu trabalho, a lei do país onde se encontra o estabelecimento que o contratou ou a lei do país com o qual o contrato de trabalho apresente uma conexão mais estreita. Podem as partes escolher qual a regra a ser aplicada ao contrato de trabalho, desde que sejam respeitadas as normas de proteção ao trabalhador. Contudo, em decorrência da liberdade de locomoção dos trabalhadores, podem acontecer conflitos sobre qual a lei aplicável ao contrato de trabalho. O Tribunal de Justiça da União Europeia definiu que a legislação trabalhista que protege o empregado que desenvolve atividade em mais de um país é daquele em que o empregado exerce maior parte das atividades, em observância à Convenção de Roma. Um dos principais documentos de proteção ao trabalhador é a Carta de Direitos Fundamentais, que trata, em seu art. 15, sobre a liberdade profissional e o direito de trabalhar: Liberdade profissional e o direito de trabalhar: 1. Todas as pessoas têm o direito de trabalhar e de exercer uma profissão livremente escolhida ou aceite. 13 2. Todos os cidadãos da União têm a liberdade de procurar emprego, de trabalhar, de se estabelecer ou de prestar serviços em qualquer Estado-membro. 3. Os nacionais de países terceiros que sejam autorizados a trabalhar no território dos Estados-membros têm direito a condições de trabalho equivalentes àquelas de que beneficiam os cidadãos da União Europeia. (Carta Comunitária de Direitos Sociais, 1989) Além da cartaacima transcrita, frise-se a importância do Tratado de Roma e das diretrizes e regulamentos comunitários como fontes do direito trabalhista. Assim, os Estados-membros possuem sua própria legislação trabalhista, devendo transpor o direito comunitário para o direito nacional, assegurando a proteção ao trabalhador e garantindo equilíbrio nas relações de trabalho em toda a comunidade europeia. TEMA 5 – DIREITO DO TRABALHO NO MERCOSUL Conforme percebemos estudando o histórico do Direito do Trabalho, a globalização tem imposto novos desafios, não só no âmbito econômico, mas também nos âmbitos político e social. Assim, em decorrência da liberação comercial, do aumento da competitividade, da necessidade de melhoria da comunicação e da integração, houve a criação de blocos econômicos. Na América do Sul, destacamos o Mercado Comum do Sul (Mercosul). O Tratado de Assunção instituiu um mercado comum entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai em 1991. Hoje, o Mercosul tem como membros associados Chile, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. Entretanto, a criação de blocos econômicos não se presta apenas a fomentar a economia e a circulação de riquezas, mas deve garantir aos trabalhadores, também, os benefícios do processo de integração, com a devida garantia dos direitos fundamentais dos trabalhadores. No Mercosul, a referência da busca desse objetivo é a Declaração Sociolaboral do Mercosul. O texto da declaração divide os direitos dos trabalhadores em individuais e coletivos. No que concerne aos direitos princípios gerais, os Estados-partes se comprometem a: formular e pôr em prática políticas ativas de trabalho decente e pleno emprego; favorecer as oportunidades de ocupação e renda; 14 elevar as condições de vida dos cidadãos; promover o desenvolvimento sustentável da região; desenvolver medidas de proteção social; promover o diálogo social e o tripartismo; respeito, difusão e aplicação dos princípios e direitos fundamentais do trabalho; estimular a criação e o desenvolvimento de empresas sustentáveis. Quanto aos direitos individuais, o texto traz, em síntese: garantia de não discriminação; igualdade de oportunidades de tratamento entre homens e mulheres; igualdade de oportunidade de tratamento para trabalhadores com deficiência; garantia de direitos aos trabalhadores migrantes e fronteiriços; livre circulação de trabalhadores; eliminação do trabalho forçado ou obrigatório; prevenção e erradicação do trabalho infantil e proteção ao trabalhador adolescente; direito dos empregadores de criar, organizar e dirigir econômica e tecnicamente a empresa; descanso, férias e dias de feriados; licenças; remuneração; proteção contra a demissão. Quanto aos direitos coletivos, o texto traz o seguinte: liberdade sindical; negociação coletiva; greve; promoção e desenvolvimento de procedimentos preventivos e de autocomposição de conflitos; fomento ao diálogo social. Além disso, a Declaração Sociolaboral do Mercosul garante o direito dos trabalhadores à educação, à orientação e à formação profissional sistemática e 15 contínua ao longo de sua vida laboral. Ela também traz disposições acerca da proteção à saúde e segurança do trabalho, e à seguridade social. Apesar dessas disposições, uma das maiores preocupações no âmbito do Mercosul diz respeito ao dumping social. Tal prática gera a precarização dos direitos trabalhistas, com consequências negativas a toda a sociedade. Podemos conceituar o dumping como a prática de comercializar produtos abaixo do preço de mercado. Logo, o dumping social é uma forma de explorar trabalhadores com o pagamento de salários mais baixos e o desrespeito aos direitos trabalhistas, a fim de se reduzir os custos de produção. Dessa forma, é a exploração de mão de obra nos países menos desenvolvidos, para que o produto final seja mais barato e garanta maior margem de lucro. Assim, no âmbito do Mercosul, embora nós já tenhamos caminhado para a livre circulação de trabalhadores, com a criação de políticas de proteção ao trabalhador, temos enfrentado diversos desafios decorrentes da globalização, razão pela qual é necessária a observância dos preceitos de Direito do Trabalho, em especial, para a eliminação das práticas de dumping e fomento às boas práticas comerciais, sociais e trabalhistas. FINALIZANDO Chegou a hora de retomarmos a problemática apresentada no início deste tema. Então, agora, sobre o caso apresentado: Você entende que a situação descrita afronta direitos trabalhistas? Por sua compreensão, pela leitura do caso e com fundamento no seu conhecimento sobre o tema, você identifica direitos específicos do Direito do Trabalho que foram violados? Você compreende, a partir do caso analisado, a ocorrência de dumping social? 16 REFERÊNCIAS DELGADO, M. G. Curso de Direito do Trabalho. 14. ed. São Paulo: RT, 2015. GUIMARÃES, R. P. F. Manual de direito individual do trabalho. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. MANUS, P. P. T. Direito do Trabalho. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2003. MARQUES, F.; ABUD, C. J. Direito do trabalho. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2010. MARTINS, S. P. Manual de Direito do Trabalho. 12. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. MARTINS FILHO, I. G. S. Manual de Direito e Processo do Trabalho. 19. ed., rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2010. MERCOSUL. Declaração Sociolaboral do Mercosul. Disponível em: . Acesso em: 13 maio 2020. OIT. Organização Internacional do Trabalho. Disponível em: . Acesso em: 13 maio 2020. PEREIRA, L. Direito do trabalho. 3. ed., revista, atualizada e ampliada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. ROMAR, C. T. M. Direito do Trabalho esquematizado. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2019. UNIÃO EUROPEIA. Comissão Europeia. Disponível em: . Acesso em: 13 maio 2020. VALE, A. R. Constitucionalismo completa 100 anos nesse fevereiro. CONJUR. Disponível em: . Acesso em: 13 maio 2020.