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1 2 Cuidados Paliativos: da Clínica à Bioética volume 2 Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Elio Barbosa Raimondi Belfiore José Helio Zen Júnior Vanessa Souza Santana Concília Ortona organizadores editora executiva Cuidados Paliativos: da Clínica à Bioética São Paulo, 2023 volume 2 CUIDADOS PALIATIVOS: DA CLÍNICA À BIOÉTICA - VOLUME 2 Publicação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo Rua Frei Caneca, 1282 – São Paulo – SP – CEP: 01301-910 Tel: (11) 4349-9900 – www.cremesp.org.br Presidente do Cremesp Irene Abramovich FICHA CATALOGRÁFICA Cuidados paliativos : da clínica à bioética : volume 2 / organizadores Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo...[et al.] ; editora executiva Concilia Ortona. -- São Paulo : Cremesp, 2023. Vários autores. Outros organizadores: Elio Barbosa Raimondi Belfiore, José Helio Zen Junior, Vanessa Souza Santana. ISBN 978-65-88267-03-5 1. Bioética 2. Cuidados de saúde 3. Cuidados paliativos 4. Pacientes - Cuidados 5. Pessoal da área médica e pacientes 6. Tratamento palia- tivo I. Vattimo, Edoardo Filippo de Queiroz. II. Belfiore, Elio Barbosa Raimondi. III. Zen Junior, José Helio. IV. Santana, Vanessa Souza. V. Ortona, Concilia. 23-141431 CDD-616.029 Diretor do Departamento de Comunicação Wagmar Barbosa de Souza ORGANIZAÇÃO Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Elio Barbosa Raimondi Belfiore José Helio Zen Júnior Vanessa Souza Santana PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Jade Longo EDIÇÃO EXECUTIVA Concília Ortona APOIO BIBLIOGRÁFICO Câmara Brasileira do Livro REVISÃO Tikinet https://www.cremesp.org.br/ Prefácio Angelo Vattimo Diretor 1o secretário do Cremesp i É com muito orgulho que o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) publica a obra Cuidados Paliativos: da Clínica à Bioética, fruto de um trabalho incessante de mais de três anos dos autores. E é com igual orgulho, em minha gestão como primeiro-secretário da Casa, que escrevo o prefácio deste livro, que traz uma abor- dagem inovadora à literatura sobre o tema. A obra faz jus, portanto, à vocação institu- cional do Cremesp como centro difusor da Bioética no Brasil. Traz também uma visão moderna e científica de uma área da Medicina que se faz tão necessária nos dias de hoje. Com um crescente número de pessoas vivendo com doenças que ameaçam a vida, em um contexto demográfico de envelhecimento da população, os cuidados paliativos deixaram de ser vistos como uma forma de assistência exclusiva a pacientes em seus momentos finais. Ao contrário, são indicados já no diagnóstico da doença que ameaça a vida, podendo também ser oferecidos em conjunto com tratamentos modificadores do curso da enfermidade. Seus objetivos são o alívio dos sintomas e a promoção do conforto e da qualidade de vida do paciente. A prática clínica nos cuidados paliativos também evoluiu, com a incorporação de pro- tocolos baseados em evidências e com modelos assistenciais pautados por boas práticas de gestão em saúde, temas que também são aqui destacados. O emprego de condutas e procedimentos pautados na Ciência é condição sine qua non para a prática da boa Medi- cina, fazendo-se mister que isso se torne uma realidade também em cuidados paliativos. Em paralelo, é fundamental que as equipes de saúde também associem a tal rigor técni- co abordagens humanas e centradas no paciente. Para isso, é preciso envidar esforços para que todo o sofrimento da pessoa doente, incluindo as esferas social, psíquica e espiritual, seja abarcado pelo cuidado. Entre os pacientes que necessitam de cuidados paliativos, a maioria se encontra em situações de extrema fragilidade e angústia. O mesmo ocorre com seus familiares e cui- dadores, que, nesse contexto, vivenciam diversas dúvidas, medos e dificuldades. Essas de- licadas situações exigem de médicos e demais profissionais atenção à comunicação, que deve ser empática, compassiva e individualizada, pois, se deficiente, coloca em risco os outros aspectos do cuidado, levando ao desgaste da relação médico-paciente e a piores desfechos clínicos. Aqui, auxiliam técnicas específicas, aliadas a valores e conhecimentos humanísticos do médico, temas que também recebem grande atenção nesta obra. Um contexto de tamanha complexidade torna necessário que o médico atue com uma equipe multiprofissional capacitada, também pautada por esses valores. Áreas como en- fermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, serviço social, psicologia e nutrição, além de apoio religioso, são a essência de cuidados paliativos de excelência junto ao atendido, seus familiares e amigos, até, se for o caso, no período após a morte do doente. Isso por- que, embora o luto seja uma resposta normal frente à perda, um suporte adequado que se inicia antes mesmo do óbito reflete-se em desfechos mais saudáveis. Em momentos de fim de vida, importantes dilemas morais podem emergir. A bioéti- ca é a área que associa conceitos derivados das ciências humanas àqueles advindos das ciências biológicas, para esboçar possíveis respostas e argumentos aos dilemas. Ignorar esse tipo de reflexão é fechar os olhos a questões capazes de gerar impacto direto no aten- dimento clínico e influenciar desfechos importantes, como a qualidade do processo de morte, de forma a promover a denominada ortotanásia sem, no entanto, abreviar a vida. O conhecimento da boa prática dos cuidados paliativos também envolve as ciências ju- rídicas, uma vez que aspectos legais permeiam as mais diversas situações vivenciadas por profissionais e por pacientes e seus familiares, caso das diretivas antecipadas de vontade e de outros mecanismos de preservação da autonomia do paciente. Todos esses conceitos demonstram como o profissional que lida com cuidados paliativos deve ser versátil e multifacetado, dominando conhecimentos e habilidades das mais diver- sas áreas, com o objetivo maior de oferecer os melhores cuidados a seus pacientes. Só assim será possível que o conforto e a dignidade prevaleçam nesses momentos tão vulneráveis da vida de nossos pacientes, e, consequentemente, de seus familiares e cuidadores. ii Apresentação Irene Abramovich Presidente do Cremesp O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) apresenta o livro Cuidados Paliativos: da Clínica à Bioética, voltado a todos os colegas médicos. Em especial àqueles que atendem pacientes não mais inseridos no âmbito curativo, mas que, tanto quanto os demais, têm direito às terapias e condutas mais eficazes em um momento tão frágil e especial de suas existências. Aliás, partindo-se das particularidades desses assistidos e suas demandas específicas – ao lado de seus familiares e amigos, essenciais no contexto – e, ainda, do imprescindível caráter multidisciplinar do campo, o livro acabou se transformando, ao longo dos anos, em um verdadeiro compêndio, com extensão e detalhamento sem precedentes nesta Casa. Ele inclui temas que vão dos princípios gerais às discussões de casos em bioética e implicações jurídicas, passando por aspectos, procedimentos e situações clínicas. Por motivos diversos abrangendo desde prioridades em Saúde na esfera das políticas públicas a dificuldades institucionais capazes de levar a carências variadas nos serviços, em nosso país, a fase final da vida – pela qual passa boa parte dos pacientes elegíveis aos cuidados paliativos – ainda é enfrentada de maneira insegura e, por vezes, assustadora pelos envolvidos. Estimativas apontam que, no Brasil, ainda morre-se mal, o que é ina- ceitável em um lugar onde se dispõem de tantas mentes brilhantes e tecnologia de ponta. Soma-se a tais adversidades o despreparo não intencional (pois se deve à formação deficitária em muitas escolas médicas) de colegas e demais membros das equipes sani- tárias quanto à abordagem ede atingir a libertação permanente. Assim, segundo a perspectiva hindu, nesses sucessivos ciclos de nascimentos mortes, o karma é o princípio cósmico que determina consequências éticas de acordo com a ava- liação moral para todas as atitudes em vida. Dessa forma, o hindu que realmente com- preende os ensinamentos de sua religião não costuma temer a morte, uma vez que isso representaria a não aceitação do karma e da própria dinâmica de encarnação e morte41. Apesar disso, o evento da morte em si tem uma grande importância no hinduísmo. Isso porque a forma como ocorre determina se a morte é boa ou ruim, em termos religiosos. Uma boa morte – necessária para uma boa reencarnação e para o moksha – ocorre quan- do o indivíduo está devidamente preparado para morrer e os rituais adequados são re- alizados. Em contrapartida, uma morte ruim pode ter consequências permanentes nas vidas subsequentes, como a possibilidade de renascer em uma situação pior ou perma- necer vagando, incapaz de reencarnar, mas sem ser libertado. Além disso, uma morte ruim pode ter consequências infelizes para a família – por exemplo, má sorte, pesadelos e infertilidade. Morte súbita, morte com excesso de fluidos corporais ou morte acompa- nhada de rituais mal executados são exemplos de mortes ruins36. A importância do evento da morte também se reflete nas decisões de fim de vida para os hindus, incluindo a limitação e a descontinuação de tratamentos. Assim, muitas famí- lias evitam o suporte de vida artificial ou decidem interrompê-lo assim que sua futilida- de se torna evidente. Ademais, a suspensão da nutrição e hidratação artificiais às vezes é suportada, uma vez que reduz a quantidade de fluidos corporais durante a morte, o que configura uma morte boa36. Budismo Os budistas, assim como os hindus, acreditam no fluxo incessante de mortes e renas- cimentos através dos mundos, denominado samsara. A vida mundana é permeada por sofrimento, principalmente envolvendo ansiedade, descontentamento e medo, o que se 546 denomina dukkha, que ocorre em grande parte porque não conseguimos nos desapegar de nosso passado. A doutrina budista prega, então, um caminho que leva à libertação desse sofrimento, ou seja, um estado em que o dukkha cessa e o samsara se encerra, que se de- nomina nirvana (análogo ao moksha no hinduísmo). Assim, a morte é entendida como um processo natural, que será sucedido pela reencarnação, sendo apenas um momento de transição nesse ciclo de renascimentos pelo qual o indivíduo passa até atingir o nirvana42. Uma das principais correntes do budismo no Leste Asiático (China, Japão e Coreia) é denominada budismo da Terra Pura, ou budismo amidista, devido a Amida (ou Amita- bha, em sânscrito), seu Buda principal. A corrente prega que o objetivo da vida é renas- cer em um paraíso chamado Terra Pura, juntando-se ao Buda Amida. Para isso, rituais específicos devem ser realizados para auxiliar o falecido a chegar com segurança à Terra Pura. Ademais, na China, existe grande influência de princípios do confucionismo que incluem obrigações dos filhos para com seus pais idosos e que estão próximos à morte. Entre essas obrigações filiais está o dever de proteger os pais da ansiedade de um prog- nóstico ruim, omitindo informações e usando todos os meios necessários para prolon- gar sua vida o máximo possível36. Muitas vezes, contudo, isso pode gerar conflito com os médicos, pois a omissão de informações do paciente, em princípio, viola sua autonomia. No budismo, a morte se caracteriza pela ausência de vitalidade, calor e consciência. Na China, o budismo sofreu influência sincrética de outras correntes espirituais tradi- cionais daquele país, como o taoísmo. Segundo essa filosofia, a morte ocorre quando a força vital – denominada chi ou qi – deixa o corpo. Como o chi é algo abstrato e que não está localizado em nenhum órgão do corpo, é difícil entendê-lo como compatível com critérios neurológicos de morte. Da mesma forma, a morte encefálica também encontra obstáculos na espiritualidade tradicional japonesa, o xintoísmo, embora sua definição tenha se tornado o padrão legal, em 1997, no Japão36,42. Em relação aos cuidados de fim de vida, os budistas acreditam que interromper o corpo antes de se configurar a morte real interfere no renascimento ou na liberação do samsara. Nesses casos, a pessoa recém-falecida, seus ancestrais que já estão na Terra Pura e sua família podem sofrer consequências negativas. Assim, em geral, eles são con- trários à prática de eutanásia e preferem não iniciar meios artificiais de suporte à vida, assim como medidas agressivas e/ou desnecessárias. Algumas correntes de pensamento recomendam não iniciar o suporte artificial no final da vida, pois o desconforto associa- do poderia impedir a tranquilidade durante o processo de morrer, que é essencial para uma boa morte, segundo o budismo. Já em relação à prática da ortotanásia, os budistas aceitam interromper o tratamento caso se conclua que o processo de morte já se concre- 547 tizou e a família sinta que suas obrigações para com o indivíduo já foram cumpridas36,42. Espiritismo O espiritismo, também denominado kardecismo, é uma doutrina espiritualista e re- encarnacionista que surgiu na França, em grande parte pelos trabalhos de Allan Kar- dec, em meados do século XIX. A doutrina busca explicar o ciclo pelo qual um espírito reencarna em um novo corpo e, assim, retorna ao plano material após a morte do anti- go corpo em que habitava. Nesse processo, após a morte, o espírito retorna ao mundo espiritual, do qual havia se ausentado por um período momentâneo durante a última encarnação. De lá, o espírito poderá sair novamente para mais uma reencarnação, em um processo necessário para sua purificação e sua busca pela perfeição. Assim, a morte representa uma transição entre esses dois mundos, em um processo infinito de reencar- nações, deixando de lado seu caráter mórbido e finito. A vida verdadeira, por sua vez, é eterna e ocorre no mundo espiritual43. Os rituais espíritas incluem uma cerimônia de velório dedicada ao espírito em que se realizam preces em um clima positivo que busca favorecer a transição do espírito para o mundo espiritual. Para isso, pode incluir música, mas não são utilizadas velas e tampou- co é adotada a prática do luto ou realizada qualquer cerimônia após o enterro43. Religiões afro-brasileiras As religiões afro-brasileiras consideram que a morte faz parte do ciclo espiritual do indivíduo. No candomblé, a religião dos orixás – os deuses supremos –, morrer repre- senta uma transição para outra dimensão em que estão espíritos como os orixás e guias, denominada órun. Assim, quando idosos morrem, o evento é bem-visto, pois representa a concretização dessa transição para órun, completando um ciclo vital que tem início, meio e fim. No entanto, a morte de jovens não tem a mesma conotação e é vista como tragédia, sendo uma forma de punição por uma ofensa contra os orixás ou por um des- cumprimento das obrigações com a comunidade43. O axexê é um ritual fúnebre do candomblé que dura sete dias e tem como objetivo preparar a passagem do falecido para órun e reequilibrar as relações daquilo e daque- les que foram deixados no plano material, denominado àiyé. Os rituais são importantes para garantir que não reste nada no plano material que acabe por impedir a transição do falecido para órun. Assim, praticantes de maior posição social e religiosa na comuni- dade possuem mais vínculos com o plano material e necessitarão de maiores esforços para serem liberados43. Nessa linha, quando, por exemplo, um babalorixá – o sacerdote 548 do candomblé – falece, o terreiro permanece um ano sem atividades litúrgicas. Também é importante ressaltar que os praticantes do candomblé não podem ser cremados, pois seus corpos devem retornar à Terra para completar o ciclo da vida. A umbanda é uma religião de matriz africana essencialmente brasileira, pois apresenta fortes elementos de sincretismo religiosocom o catolicismo, religiões indígenas e espiri- tismo. Assim, incorpora a visão católica de que a vida após a morte será condizente com os atos praticados no plano terreno. Porém, também sofre influência kardecista ao existir a possibilidade de continuidade da vida pela reencarnação. Os rituais umbandistas come- çam com a purificação do corpo realizada por um sacerdote, um ajudante e um familiar, seguida por uma cerimônia de velório, que deve ser marcada não por tristeza, mas por alegria, uma vez que se considera que o falecido está retornando para o plano eterno43. Papel do médico prestador de cuidados paliativos no cuidado espiritual O médico paliativista tem a responsabilidade de discutir com o paciente, seus familiares e a equipe os valores apresentados por eles ao lidarem com decisões difíceis envolvendo a fase terminal da vida. Da mesma forma, os aspectos espirituais devem ser abordados no contexto da relação médico-paciente, que inclui atos simples, mas muitas vezes negli- genciados no ambiente hospitalar, como estar disponível e presente para compartilhar, acolher e ouvir as angústias do paciente, tendo empatia e fornecendo apoio emocional. Tal postura é denominada por alguns autores como “presença compassiva”44. A relação médico-paciente pautada pela presença compassiva e atenta à espirituali- dade deve ser centrada no paciente, e não no médico. Da mesma forma que a imposição dos valores do médico quanto a aspectos do tratamento resulta em uma relação médi- co-paciente paternalista (para mais detalhes, ver Capítulo 37), a análoga imposição dos valores espirituais configura proselitismo. Não considerar a diversidade de crença (in- cluindo sua ausência) dos pacientes e adotar uma postura proselitista, além de ser uma atitude antiética, compromete a relação médico-paciente e a confiança na medicina. Contudo, tal como é com os conceitos de autonomia do médico e de objeção de cons- ciência, o profissional não é obrigado a compartilhar práticas religiosas de seus pacien- tes. Por exemplo, um paciente em fim de vida pode solicitar ao médico que participe de uma oração em seu quarto com demais familiares. Em situações como essa, o médico pode aderir à prática, caso seja compatível com seus valores espirituais e religiosos, ou, caso contrário, pode declinar o convite, preferencialmente de forma respeitosa e educada. Uma forma de manter a empatia, preservar a relação médico-paciente e mostrar-se “com- passivamente presente” é testemunhar a prática e convocar outro membro da equipe, que 549 dela compartilhe, ou o serviço de capelania hospitalar, caso disponível, para participar do ato. Muitas vezes, apenas estar presente já é suficiente para dar conforto espiritual, ao pas- so que, dessa forma, o profissional pode evitar uma situação que lhe seja desconfortável. Além de exercer uma “presença compassiva”, também é papel do médico, assim como de toda a equipe envolvida em cuidados paliativos, identificar as situações de angústia espiritual e traçar estratégias para abordá-las. Assim, todos os profissionais envolvidos devem ser treinados para abordar os aspectos espirituais do cuidado, inserindo-os nas suas avaliações do paciente durante seu seguimento longitudinal45. Da mesma forma que o sofrimento espiritual deve ser identificado, os fatores espirituais que conferem resiliência ao paciente também devem ser46, para que assim sejam reforçados e incenti- vados, sem, contudo, oferecer falsos reasseguramentos. Outro objetivo importante da atuação do médico no aspecto espiritual do cuidado é identificar as crenças e valores do paciente – especialmente os que podem influenciar decisões de fim de vida – e adequar a eles o seu plano de cuidado. Assim, o médico deve propor medidas pautadas no que for identificado como espiritualmente importante para o paciente. Por exemplo, uma paciente com câncer de mama terminal pode revelar que, para ela, é importante viajar para uma localidade distante, em que reside sua filha, com quem brigou e não se comunica há anos, para buscar uma reconciliação antes de sua morte. Nesse caso, o médico deve validar a preocupação da paciente e seu sentido espi- ritual para ela, propondo um plano de cuidado que se adeque a seu desejo, assim como aos aspectos médicos, como seu diagnóstico, prognóstico e segurança. Detalhes dos mo- delos de relação médico-paciente, em termos gerais, são descritos no Capítulo 40. Em aspectos práticos, um modelo de implementação de cuidados espirituais foi cria- do pela National Consensus Conference (NCC) visando incorporá-los à medicina palia- tiva. Esse modelo integra cuidados centrados na dignidade e compaixão aos fatores psi- cossociais e biológicos do paciente. Assim, estabelece como dever de todos os médicos atender a todas as dimensões do sofrimento de um paciente e de sua família, o que pressupõe abordar as necessidades espirituais do paciente, respeitando suas crenças e lutas44,47. Da mesma forma, diretrizes que norteiam a prática dos cuidados paliativos, publicadas pelo National Consensus Project for Quality Palliative Care, identificaram o aspecto espiritual e religioso como um dos oito domínios fundamentais para a prestação de cuidados paliativos de qualidade. Assim, a atenção espiritual deve ser fornecida em qualquer ambiente em que o atendimento ao paciente for realizado48. Muitas diretrizes apoiam, ainda, que a equipe interdisciplinar paliativa deve incluir, tam- bém, profissionais com treinamento especializado em cuidados espirituais, com habilida- 550 des de acesso a respostas a problemas dessa ordem. Pacientes em que sejam identificados sinais de angústia espiritual devem ser encaminhados para esse profissional6,44. Nos Estados Unidos, por exemplo, um profissional especializado, o capelão, realiza a avaliação clínica e o tratamento do sofrimento espiritual dos pacientes que apresentam quadros de angústia espiritual ou outras necessidades maiores. Naquele país, tais profissionais são treinados e certificados especialmente para esse tipo de função, que não se restringe a uma religião específica. Em contrapartida, necessidades espirituais mais básicas são abordadas pela pró- pria equipe clínica, de forma mais generalista49,50. No Brasil, a área da capelania hospitalar, como serviço profissionalizado, ainda é incipiente e mais vinculada a iniciativas religiosas se comparada aos Estados Unidos, embora iniciativas tenham surgido para consolidar a área51. A avaliação espiritual Pelos motivos expostos, avaliar os aspectos espirituais do paciente em cuidados pa- liativos é fundamental para desenvolver o melhor plano de cuidado. Essa avaliação deve começar com uma triagem logo que o paciente dá entrada no serviço. Uma avaliação mais pormenorizada pode se seguir, atentando-se aos casos mais suspeitos para angús- tia espiritual identificados pela triagem52. Muitos pacientes podem ter dificuldade em revelar de forma espontânea esse tipo de sofrimento, diferentemente de quadros de dor física, por exemplo. Pela natureza subje- tiva do sofrimento espiritual, alguns pacientes podem ter dificuldade de descrevê-lo53. Outros, ainda, podem ter vergonha ou constrangimento, por medo de julgamentos, por considerarem o assunto como de foro íntimo ou por pensarem que as equipes de saúde não têm a função ou interesse em abordar esse tipo de queixas. Da parte dos médicos, por sua vez, muitos se sentem desconfortáveis em discutir so- bre espiritualidade com seus pacientes. Muitas são as possíveis barreiras, como o con- ceito de que esses assuntos são privativos e que tentar abordá-los seria intrusivo. Outros acreditam não ser seu papel lidar com esse tipo de questão – ou que outros profissionais lidariam melhor com o assunto. Alguns podem se sentir desconfortáveis por não terem crenças, práticas espirituais ou religiosas próprias. Ou então, caso tenham, suas crenças podem diferir das do paciente, possivelmente levando ao desconforto de atender a essas necessidades em seus pacientes. Outraimportante barreira identificada por estudos foi a falta de treinamento dessa habilidade, reconhecida por muitos médicos54. Apesar das possíveis dificuldades, porém, é fundamental que o médico e os demais membros da equipe assistencial estimulem e convidem o paciente a compartilhar suas demandas, valores e crenças de natureza espiritual. Essa abordagem também possibilita 551 fortalecer a relação médico-paciente e assumir uma “presença compassiva”16. Ouvir o paciente quanto a esses aspectos favorece a identificação de possíveis recursos de resi- liência no domínio espiritual, de valores que afetem a tomada de decisões e de conflitos que possam ter efeito negativo sobre a saúde do paciente46. A avaliação espiritual pormenorizada também permite realizar um diagnóstico diferen- cial entre sofrimento espiritual e sofrimento psicológico/transtornos psiquiátricos, como quadros depressivos29. A partir disso, é possível adaptar o plano de cuidados, por exemplo, incluindo o referenciamento, no primeiro caso, a um recurso de apoio espiritual, e, no segundo caso, à equipe de psiquiatria. Ademais, essa compreensão mais aprofundada do paciente, incluindo a avaliação de seus valores e espiritualidade, permite entender suas decisões em fim de vida, que apresentam forte influência desses aspectos29,55. Uma vez entendidas suas razões, é menos difícil para o médico lidar com possíveis dilemas fre- quentes nesse contexto. Por exemplo, a vontade de abreviar a vida pode representar um valor e uma crença do paciente, mas também pode compor a apresentação de um quadro depressivo em outro. A diferença entre ambas as situações tem implicações bioéticas im- portantes, como o conceito de autonomia em cada uma delas, o qual será refletido pela conduta médica. Tais aspectos são discutidos em maiores detalhes nos Capítulos 37 e 38. Algumas ferramentas validadas foram desenvolvidas para auxiliar a traçar a história espiritual do paciente. São exemplos: a ferramenta HOPE20, reproduzida no Quadro 3, que abrange as necessidades espirituais dos doentes; e a FICA, demonstrada no Quadro 4, criada por Puchalski et al.26, que faz o papel de guia para incorporação de perguntas aber- tas sobre espiritualidade. Há ainda o mnemônico SPIRIT, reproduzido no Quadro 5, que também auxilia na obtenção da história espiritual do paciente, guiando o avaliador no processo56. Outro mecanismo é a MMRS (do inglês “multidimensional measures of religiou- sness and spirituality”), idealizada pelo Fetzer Institute e pelo National Institute on Aging, que identifica 12 domínios de espiritualidade/religiosidade, com seções específicas para domínios como perdão e experiências espirituais diárias57. No entanto, é imprescindível saber que o cuidado espiritual não deve se limitar ape- nas ao uso dessas ferramentas. De fato, elas representam importantes instrumentos que viabilizam a operacionalização da avaliação de um aspecto complexo do sofrimento do paciente. Porém, o cuidado espiritual deve envolver também a escuta ativa do paciente e o desenvolvimento de uma presença compassiva, como já descrito anteriormente. Os quadros a seguir foram adaptados e traduzidos livremente de seus originais em inglês e ilustram algumas das principais ferramentas utilizadas para avaliar a espiritua- lidade de pacientes no contexto dos cuidados paliativos. 552 Componente Perguntas Há esperança, força, conforto, significado, paz, amor e conexão? Identificar as fontes de esperança e conforto do paciente, a quem ele se apega nos momentos difíceis e o que permite que continue seguindo adiante. Papel da religião organizada Investigar se o paciente pertence a alguma religião organizada e/ou a alguma comunidade religiosa. Se sim, avaliar se isso o ajuda e de que forma. Espiritualidade e prática pessoal Investigar se o paciente mantém alguma crença ou práticas espirituais (ex.: oração, meditação, leituras) que sejam independentes de sua religião organizada; investigar se o paciente crê em deus e sua relação com ele; e quais aspectos da espiritualidade são mais úteis. Efeitos dos cuidados médicos e decisões de término da vida Investigar se há alguma restrição para o tratamento gerada pelas crenças do paciente e se ele sente falta de algum recurso espiritual. H O P E QUADRO 3. HOPE – INSTRUMENTO PARA AVALIAÇÃO ESPIRITUAL ADAPTADO E TRADUZIDO DE: ANANDARAJAH G ET AL., AM FAM PHYSICIAN 200120. TRADUÇÃO LIVRE. Componente Perguntas Fé e crenças Quais são suas crenças espirituais ou religiosas? Você se considera espiritualista ou religioso? Em que coisas você acredita que dão sentido à sua vida? F I QUADRO 4. FICA – INSTRUMENTO PARA AVALIAÇÃO ESPIRITUAL Importância e influência A espiritualidade é importante em sua vida? Como isso afeta a maneira como você vê seus problemas? Como sua religião/ espiritualidade influenciou seu comportamento e humor durante essa doença? Que papel sua religião/espiritualidade pode desempenhar na resolução de seus problemas? Comunidade Você faz parte de uma comunidade espiritual ou religiosa? Isso dá suporte a você? Se sim, como? Existe uma pessoa ou grupo de pessoas que você realmente ama ou que é realmente importante para você? Alvo Como você gostaria que eu resolvesse esses problemas em seu tratamento? C A ADAPTADO E TRADUZIDO DE: BORNEMAN T ET AL., J PAIN SYMPTOM MANAGE 201026. TRADUÇÃO LIVRE. 553 Componente Perguntas Sistema de crenças espirituais • Você tem uma afiliação religiosa? Você pode descrever isso? • Você tem uma vida espiritual que é importante para você? • Qual é o sentido mais claro da sua vida neste momento? Espiritualidade pessoal • Descreva as crenças e práticas de sua religião que você pessoalmente aceita. • Descreva as crenças e práticas que você não aceita ou que não segue. • De que maneira sua espiritualidade/religião é significativa para você? • Como sua espiritualidade é importante para você na vida cotidiana? Integração com uma comunidade espiritual • Você pertence a algum grupo ou comunidade religiosa ou espiritual? • Como você participa deste grupo/comunidade? Qual é o seu papel? • Que importância esse grupo tem para você? • De que maneira esse grupo é uma fonte de apoio para você? • Que tipo de apoio e ajuda esse grupo oferece para você lidar com problemas de saúde? S P I QUADRO 5. SPIRIT – INSTRUMENTO PARA AVALIAÇÃO ESPIRITUAL Práticas ritualizadas e restrições • Quais as práticas específicas que você realiza na sua vida religiosa e espiritual (por exemplo, oração, meditação, cultos, missas, etc.)? • Que atividades, estilo de vida ou práticas sua religião incentiva, desencoraja ou proíbe? • Que significado essas práticas e restrições têm para você? Até que ponto você tem seguido essas diretrizes? R Implicações para cuidados médicos Planejamento de eventos do terminal • Existem elementos específicos de assistência médica que sua religião desencoraja ou proíba? Até que ponto você tem seguido essas diretrizes? • Que aspectos de sua religião/espiritualidade você gostaria que eu tivesse em mente enquanto cuido de você? • Que conhecimento ou entendimento fortaleceria nossa relação como médico e paciente? • Existem barreiras ao nosso relacionamento baseadas em questões espirituais ou religiosas? • Você gostaria de discutir as implicações religiosas ou espirituais dos cuidados de saúde? • Existem aspectos particulares dos cuidados médicos aos quais você deseja renunciar ou que quer limitar por causa de sua religião/espiritualidade? • Existem práticas ou rituais religiosos ou espirituais que você gostaria de ter disponíveis no hospital ou em casa? • Existem práticas religiosas ou espirituais que você deseja planejar para o momento da morte ou após ela? • De quais fontes você obtém forças para lidar com a doença? • Pelo que, em sua vida, você ainda sente gratidão mesmo doente? • Quando você está com medo ou com dor, como encontra conforto? • Ao planejarmos seus cuidados médicos no final da vida, de que maneira sua religiãoou espiritualidade influenciarão suas decisões? I T ADAPTADO E TRADUZIDO DE: MAUGANS TA, ARCH FAM MED 199656. TRADUÇÃO LIVRE. 554 Intervenções específicas Muitas das necessidades espirituais apresentadas pelos pacientes podem carecer de intervenções específicas que estejam ao alcance do médico ou de outros membros da equipe de saúde. Muitas vezes, diante disso, esses profissionais podem se sentir impo- tentes e, como forma de aliviar o sentimento negativo decorrente disso, podem justificar a si mesmos que não é sua atribuição interferir nesse campo. Contudo, apesar da difi- culdade, muitas vezes existente, de se implementar uma intervenção específica para o sofrimento espiritual do paciente, o simples ato de ouvir e estar presente de forma com- passiva pode ser uma intervenção em si. Estudos demonstram que tal suporte espiritual se associou à melhora da qualidade de vida e, em grau mais moderado, a decisões com maior enfoque na qualidade de vida em sua fase final58. Casos mais simples de angústia espiritual podem evoluir favoravelmente com a sim- ples possibilidade de o paciente ter como e com quem compartilhar esse sofrimento. Casos mais complexos, contudo, podem requerer cuidados espirituais mais especializa- dos, como o de capelania, os quais, infelizmente, ainda são pouco disponíveis no Brasil51. Intervenções mais práticas e específicas também podem ser úteis. Algumas delas en- volvem atividades como arte, musicoterapia, ioga e mindfulness, que permitem ao pa- ciente se expressar e buscar maior paz espiritual59. A despeito de não serem difundidas e disponíveis no Brasil, as seguintes intervenções específicas foram avaliadas por meio de estudos experimentais, apresentando resultados interessantes: • Psicoterapia focada no significado da vida: em um estudo piloto randomizado con- trolado, foram observadas melhorias modestas na qualidade de vida e no bem-estar espiritual do grupo de pacientes submetidos à intervenção60. Trata-se de técnica que envolve oito sessões de psicoterapia voltada à espiritualidade; • Outlook de Steinhauser: demonstrou melhorias na preparação para a morte e no bem- -estar social em amostra de 221 participantes de um estudo controlado randomizado de três braços. Trata-se de uma intervenção focada sequencialmente em três áreas: narração da história de vida, perdão e herança e legado. A intervenção é realizada em um total de três sessões61; • Terapia da dignidade de Chochinov: resultou em melhorias significativas na qualidade de vida e no bem-estar espiritual do paciente quando comparada aos cuidados paliativos padrão e aos cuidados centrados no paciente. Contudo, o objetivo principal do estudo, 555 que era a diminuição dos níveis de sofrimento, não foi atingido. A intervenção consiste em uma única sessão voltada à construção da dignidade (independência e controle), incluindo elementos espirituais, psicossociais e existenciais. Seu conteúdo é gravado, resultando em um documento que os entes queridos podem guardar para o futuro62. Uma categoria final de intervenções espirituais oferecidas no ambiente médico são aquelas com base na mente e no corpo, como redução do estresse baseada na atenção plena (Mindfulness-Based Stress Reduction ou MBSR, na sigla em inglês) e massagem. No entanto, existem dados mistos sobre os benefícios dessas intervenções63,64. Mais evidên- cias estão disponíveis sobre o impacto das intervenções mente-corpo para os cuidado- res, indicando potenciais benefícios à sua qualidade de vida65. Considerações finais Os aspectos espirituais têm grande importância para o cuidado adequado de pacien- tes em fim de vida. Devem, portanto, ser avaliados pelo médico e demais membros da equipe ao longo de todo o seguimento do paciente. Essa abordagem deve ser feita de forma empática e centrada no paciente, evitando-se julgamentos e imposição de crenças sobre ele. Assim, o médico deve manter seu aspecto técnico, mas também permitir que o paciente se sinta confortável para compartilhar seus valores, questionamentos e confli- tos espirituais, uma vez que estes são fundamentais para a compreensão de seu quadro como um todo. A partir desse entendimento profundo, o médico deve se pautar também pelos aspectos espirituais ao propor o plano de cuidado mais adequado para o paciente, que respeite e honre seus valores e crenças. O médico também deve, ao mesmo tempo, auxiliar o paciente a compreender os aspectos médicos de sua condição para que possa buscar conciliá-los aos demais domínios. Essa abordagem ajuda a lidar com eventuais dilemas e fortalece a confiança da relação médico-paciente. Referências 1. Marcucci F, Cabrera M, Rosenberg J, Yates P. Trends in place of death in Brazil and analysis of associa- 556 ted factors in elderly populations from 2002 to 2013. Geriatrics, Gerontology and Aging. 2017; 11(1):10-17. 2. Richardson P. 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São perdas que podem variar desde a capacidade de sentir o sabor de um alimento que re- lembra a infância até a capacidade de se alimentar sozinho, por exemplo. Diante desse cenário, todos os profissionais que lidam com pacientes em cuidados paliativos devem estar cientes de que irão se deparar com indivíduos enlutados no dia a dia de sua prática, e não apenas diante da morte de seus pacientes. É preciso, portanto, conhecer essa resposta à doença e ter sensibilida- de e empatia para identificar as perdas pelas quais o paciente e seus familiares estão passando. O conhecimento sobre o tema é fundamental para esse profissional porque será seu papel fornecer apoio ao paciente e a seus familiares durante esse processo dinâmico e longitudinal. Também é fundamental que o profissional consiga diferenciar o que é uma resposta normal de uma resposta desadaptativa, uma vez que esta última pode ser fonte de grande sofrimento e ter impacto negativo na qualidade de vida. Esse trabalho é multidisciplinar e complexo, devendo abordar diferentes aspectos, como os espirituais, sociais, psicológicos e biológicos. Adotar intervenções necessárias de forma adequada e tempestiva também permite prevenir situações disfuncionais e patológicas, especialmente nos indivíduos com maior risco. Neste capítulo, portanto, serão discutidos os diferentes conceitos e modelos propostos para descrever e explicar a resposta de luto normal. Serão expostos também os critérios diag- nósticos e fatores de risco para o luto patológico, de forma a munir o profissional de cuidados paliativos dos conhecimentos necessários para a correta identificação desses casos. Luto Capítulo 29 Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Conceitos e definições O luto é um fenômeno complexo, que envolve conceitos também complexos e com termos que muitas vezes se confundem. São conceitos que envolvem as- 564 pectos sociais, culturais, espirituais, religiosos e psicológicos, utilizados para descrever uma vivência extremamente subjetiva e individual. Portanto, é fun- damental que o profissional de cuidados paliativos domine tais conceitos para poder entender a experiência do luto nos pacientes e em seus familiares. Os principais a serem explorados neste capítulo são: • Perda: mesmo em outras situações que não a de doença, os seres humanos vi- venciam diversas perdas ao longo de suas vidas: o término de um relacionamento afetivo, o distanciamento de amigos, a perda de um emprego, entre outras. Pode- -se considerar, portanto, a perda como um fenômeno inerente à vida. No caso de pacientes em cuidados paliativos, embora a morte possa ser considerada a “perda final”, até se chegar ao desfecho do óbito, muitas outras perdas como essas são vi- vidas. A esse tipo de evento dá-se o nome de “perda não finita”, definida como uma perda duradoura que geralmente é impulsionada por um evento ou episódio nega- tivo da vida que mantém presença física ou psicológica em um indivíduo de forma contínua1. A definição é, portanto, ampla, e é difícil determinar o que produz esse tipo de sensação. Os primeiros estudiosos do luto, como Freud, propuseram que, além da morte de um ente querido, outras perdas envolvendo alguma abstração, como o país, a liberdade ou um ideal, também poderiam gerar resposta de luto2. Quinodoz, por sua vez, acrescentou perdas como a diminuição das capacidades físicas, das faculdades mentais, do emprego, da moradia e do bem-estar geral3. No entanto, é impossível determinar de forma genérica o que pode representar uma perda para um paciente. Isso porque não apenas elementos simbólicos e sub- jetivos estão envolvidos, mas também fatores físicos, financeiros, sociais, cultu- rais e religiosos influenciam a relação do paciente com aquilo que foi perdido1,4,5. Ademais, a perda não finita pode não ser evidente inicialmente, sendo percebida somente ao longo do tempo, quando fica claro que sua ocorrência impede que as expectativas originais de desenvolvimento sejam atingidas pelo indivíduo, que passa a vivenciar uma sensação de incerteza, desamparo e impotência contínua, necessitando de repetidas respostas de adaptação à nova realidade1. • Luto: na língua inglesa, utilizada por boa parte da literatura sobre luto e ci- ências da saúde, diferentes termos são usados para descrever a reação de um 565 indivíduo diante de uma perda. O termo bereavement, em geral, é utilizado para descrever o estado de perda diante da morte. Contudo, como exposto, as perdas vão muito além disso, e, para descrever a resposta – não apenas emocional, mas também física, comportamental, psicológica, social e espiritual – associada às perdas em geral, em língua inglesa, é utilizado o termo grief. Já o termo mour- ning se refere ao processo de adaptação, incluindo rituais culturais e sociais que o acompanham. Tal processo envolve repostas adaptativas intrapsíquicas e in- terpsíquicas –envolvendo dois ou mais indivíduos, por exemplo, em uma família – que resultam da necessidade de aprender a viver diante da perda. Em portu- guês, contudo, não existem traduções específicas para esses diferentes termos; portanto, utiliza-se o termo “luto” de forma genérica para todas essas situações. No entanto, isso pode gerar certa confusão, sendo necessário salientar que o luto, em português, é abrangente, não se restringindo, como é comumente imaginado, a situações de morte ou a rituais culturais (como vestir roupas pretas). Diversos desfechos são possíveis como resposta de luto, tais como recuperar o equilíbrio, desenvolver um “novo normal”, reencontrar sentido na vida e restabelecer a fun- cionalidade em uma vida saudável. Contudo, alguns termos utilizados para des- crever esse processo – como “recuperação” e “resolução” – não são adequados, pois pressupõem um objetivo, um desfecho fixo com o qual o enlutado deve se comprometer. Pelo contrário, o luto não é um processo linear, constante e previ- sível, não existindo uma resposta “típica” que se aplique a todos. Embora existam modelos para descrevê-lo, nem todos os indivíduos apresentam uma resposta de luto que segue exatamente o que tais modelos descrevem, pois essa resposta é algo tão individual quanto é a vida de cada um6. • Perdas e luto não autorizados e/ou não reconhecidos: conforme exposto, é im- possível definir o que representa uma perda para um indivíduo, pois fatores psi- cológicos, sociais, culturais e espirituais estão envolvidos. Quando a perda que desencadeia uma resposta de luto não é reconhecida pela sociedade, não pode ser publicamente lamentada e socialmente apoiada, configura-se a situação de luto não autorizado ou não reconhecido. Relacionamentosque não são socialmente reco- nhecidos são exemplos desse tipo de luto e podem incluir – a depender do contexto social – a perda de um cônjuge do mesmo sexo, de um amante em um relaciona- 566 mento extraconjugal, de um feto abortado, de um ex-cônjuge, de um filho biológico que foi adotado por outros pais. O segundo tipo de luto não reconhecido envolve perdas não reconhecidas, principalmente porque não envolvem a morte biológica, como a perda da cognição em pacientes com demência que, apesar de estarem ain- da biologicamente vivos, já não mais mantêm suas faculdades mentais. O familiar, portanto, sofre uma perda desse indivíduo da forma como era conhecido, passando a percebê-lo como “psicossocialmente morto”6,7. Já outras perdas, como a de partes do corpo, podem ser minimizadas com falas como “fique feliz por você ainda es- tar vivo!”6. Uma terceira forma de luto não reconhecido envolve enlutados que não são reconhecidos como tais. São exemplos: crianças pequenas, pessoas com déficits cognitivos e/ou deficiências intelectuais e pacientes psiquiátricos. Nesses casos, os indivíduos podem ser privados do contato com a realidade por familiares, por serem considerados vulneráveis demais para lidar com a situação. Embora a intenção seja boa nesses cenários, a tentativa condescendente de poupar esses indivíduos do so- frimento pela perda os priva de sua resposta de luto – como se fossem incapazes de desenvolvê-la – e, assim, de exercer sua autonomia6,8. Ainda, alguns tipos de morte são estigmatizados pela sociedade, principalmente devido à complexidade que os circunda – como o suicídio – ou por conta do grande preconceito associado, como a morte por consequências da AIDS6. Nessas situações, o enlutado tende a se sentir estigmatizado pela sociedade, apresentando sentimentos de culpa e vergonha, se retraindo socialmente e sendo impedido de abertamente expressar seu luto8. • Luto antecipatório: trata-se de um conceito introduzido inicialmente por Lin- demann, em 1944, para descrever as experiências vivenciadas antes de uma perda significativa, mas a ela associadas. É, por exemplo, a vivência de luto que um pa- ciente diagnosticado com uma doença neurodegenerativa, como a esclerose lateral amiotrófica (ELA), pode ter diante da perspectiva de perda de seus movimentos e, eventualmente, de sua morte, ambos eventos que ocorrerão com a progressão da doença. Assim, para que se caracterize esse tipo de luto, é necessário que o pa- ciente tenha o conhecimento de que a morte se aproxima e de que seu luto é uma reação à perda que ainda não ocorreu. Essa resposta também pode incluir, além de reações emocionais, a adaptação, o planejamento e a reorganização psicossocial, que são desencadeadas em resposta à consciência da perda iminente. Tal processo 567 pode envolver tanto o paciente, mudando-o dinamicamente conforme a perda se aproxima, quanto seus familiares. Por se tratar de um processo dinâmico e longi- tudinal, que se estende desde o momento em que o indivíduo toma conhecimento de que a morte se aproxima até o momento em que ela realmente ocorre, o luto antecipatório envolve, com o decorrer da evolução da doença, perdas não apenas futuras, mas também passadas e presentes. Por exemplo, o paciente com ELA pode vivenciar a perda da capacidade de aproveitar uma corrida no parque, atividade de que tanto gostava no passado, ou seja, antes do início da doença. Também pode vivenciar a perda no presente de, com a evolução da doença, não mais conseguir se levantar da cama. E, por fim, sofrer com a expectativa de perdas futuras, como saber que a doença, com sua progressão, o tornará dependente de um respirador e, em seguida, culminará em sua morte. Cada uma dessas diferentes perdas pode re- sultar em uma reação e respostas de luto diferentes, o que reforça a complexidade e a natureza dinâmica do luto antecipatório6. • Resiliência: trata-se da capacidade de manter níveis relativamente estáveis e saudáveis de funcionalidade física e psicológica diante da perda e do trauma6. Isso contrasta com modelos teóricos do luto que pressupõem que toda resposta normal à perda passa necessariamente por dor e sofrimento. Como consequên- cia, ao contrariar tal pressuposto, a ausência de tal resposta seria um indício de psicopatologia – uma forma de negação ou repressão do luto – ou então de falta de apego ao falecido. Contudo, pesquisas apontam números consideráveis de en- lutados que perderam seus cônjuges e não apresentam sofrimento ou depressão significativa após a perda, nem mesmo disforia leve9. Esse achado levou muitos autores a questionarem se, de fato, esse tipo de resposta seria algo patológico, visto sua prevalência maior do que se imaginava. Passou-se, então, a propor o conceito de resiliência para explicar esse tipo de resposta, que deixou de ser vista como uma forma disfuncional ou patológica de “luto ausente”, além de tampouco apresentar o risco de ser seguida por um “luto retardado”. Ao contrário, os indiví- duos que apresentam essa resposta possuem traços de personalidade que promo- vem maior resiliência inerente à perda, levando a uma rápida adaptação diante da nova realidade, marcada por emoções positivas. Assim, é possível entender que o luto não deve necessariamente ser atordoante para muitas pessoas6. 568 • Luto complicado ou prolongado: trata-se de uma resposta de luto anormal, ca- racterizada por morbidade psicológica, social e física. Em linhas gerais, o sofri- mento do enlutado é tão extremo que leva à incapacidade do indivíduo de atuar em diversos domínios da vida, como o social e o ocupacional, por um período longo o suficiente6. Diversos critérios foram propostos ao longo do tempo para identificar a minoria de indivíduos que evolui com esse tipo de resposta de luto. A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM- 5) da Associação Psiquiátrica Americana (APA) introduziu o construto diagnóstico experimental de transtorno do luto complexo persistente na seção “Condições para estudos posteriores”. Estudos estimaram uma prevalência desse construto experimental entre 2,4 a 4,8% dos enlutados, com maior frequência na população do sexo feminino10. No entanto, o DSM-5 inicialmente relutou em considerar essa complicação do luto como uma categoria diagnóstica independente devido à po- lêmica quanto ao risco de medicalizar e estigmatizar um sentimento humano que pode ser uma resposta normal de afeto e amor. Porém, estudos posteriores, apre- sentados em um comitê de revisão do DSM-5, em 2019, levaram a APA a propor a inclusão do diagnóstico, agora renomeado como transtorno do luto prolongado (TLP), entre os transtornos psiquiátricos reconhecidos11. Antes da publicação de uma nova edição revista do DSM, a APA abriu um período para comentários pú- blicos entre abril e maio de 2020. Depois de revisar dados de pesquisas e avaliar os comentários, a entidade divulgou os critérios propostos para o diagnóstico do TLP e, em 7 de novembro de 2020, a Assembleia Geral da APA aprovou a inclusão do transtorno no DSM-5-TR, a versão revista do DSM-5, publicada em março de 202211,12. Neste capítulo, usaremos os termos “luto complicado” para descrever respostas de luto desadaptativas no geral, enquanto o termo “luto prolongado” será usado como referência ao construto diagnóstico do TLP. Perdas nas doenças crônicas Perdas são inerentes às doenças crônicas, uma vez que a maioria delas resulta em mudanças importantes na vida dos pacientes e daqueles ao seu redor. Tais perdas podem envolver desde atos que, para a maior parte das pessoas, podem parecer corriqueiros – como abotoar uma camisa em um paciente com doença de Parkinson – até incapaci- 569 dades extremas, como não conseguir mais reconhecer um filho devido a um quadro de- mencial. Como exposto, a vivência da perda sofre influência dos mais variados fatores, incluindo questões socioculturais e políticas de um determinado local e momento. Por exemplo, a morte de um pacientecom câncer em um centro de excelência em um país desenvolvido pode desencadear uma resposta de luto muito diferente da observada em um país em guerra, onde os recursos são escassos. Embora a morte seja um destino ine- xorável de todos os seres humanos e haja elementos em comum na vivência de enlutados pertencentes a diferentes culturas e cenários, a maneira como cada um vivencia a morte é extremamente individual. Assim, é fundamental identificar e considerar as influências culturais, espirituais e sociais sobre cada resposta de luto de forma individual13. Um paciente com doença crônica pode sofrer perdas nos mais variados domínios de sua vida, incluindo a sua segurança financeira sua e de família; seu sono; seus relacionamentos (ou como eram antes da doença); a coesão e a harmonia familiar; seus planos para o futuro; e suas expectativas para seus filhos, netos, entre outros. Por exemplo, um paciente diagnos- ticado com glioblastoma multiforme em estágio avançado com 45 anos terá perdas que irão muito além de sua morte. Esse paciente, de quem a família depende em grande parte para prover sua renda, não mais poderá custear os estudos de seus filhos como antes planejava. São perdas que vão além do material, pois perde-se o futuro como havia sido planejado. Nessa linha, além de domínios da vida, as perdas também podem incluir conceitos abstratos, como a liberdade e a independência (por exemplo, pacientes acamados ou mesmo alguém que dependerá de auxílios financeiros externos para sobreviver por não mais conseguir trabalhar); a dignidade (como um paciente que necessita de auxílio para sua higiene pessoal); e o controle sobre a própria vida (por exemplo, um paciente com uma doença que pode piorar a qualquer momento). O paciente pode perder papéis que antes desempenhava, como no caso de um empreendedor responsável por gerir uma empresa com milhares de funcionários, mas que agora se encontra incapaz de desempe- nhar suas funções por conta de um quadro demencial. Em termos mais abstratos, essas perdas podem tirar do indivíduo o senso de valor e de significado da vida quando afetam justamente aquilo que era o sustentáculo da existência da pessoa, de sua visão de mundo e de seu norte existencial. Uma situação com características especiais é a observada nos quadros demenciais e em outras doenças que afetam a cognição. Nesses casos, as perdas podem ter caráter ambí- guo. Enquanto o paciente ainda está presente, vivo e muitas vezes até mesmo fisicamente saudável, ele ao mesmo tempo “não está lá”. Perde-se o paciente como ele era, com seus traços únicos de personalidade, sua capacidade de interagir com o mundo e até mesmo 570 de reconhecer seus entes queridos. Caso apresente momentos curtos de lucidez, a perda se torna ainda mais ambígua, pois o familiar pode achar difícil não pensar que, existindo tais momentos, o paciente poderia ser capaz de manter sua cognição preservada por todo o tempo. Quando a lucidez acaba e o paciente “deixa de estar presente”, o familiar sente, então, enorme frustração e decepção. Esse luto, justamente pelo fato de o paciente ainda estar fisicamente presente, como exposto, pode não ser reconhecido pela sociedade, o que pode agravar ainda mais o sofrimento do familiar, culminando inclusive em situações patológicas de estresse do cuidador, tópico abordado em maiores detalhes no Capítulo 33. Dinâmicas familiares diante da perda nas doenças crônicas A relação do paciente e de seus familiares com a perda, como exposto, é extremamente complexa. Assim, mesmo perdas consideradas “desejadas”, como o divórcio em um casa- mento abusivo, podem gerar resposta de luto. Isso ocorre porque, nesse exemplo, embora a pessoa deseje o término do casamento por questões psicológicas e afetivas, a perda da es- trutura social – ou da instituição representada pelo casamento – pode alterar o modo como se vive a vida e se percebe o presente e o futuro4. Assim como o casamento, para muitos, a estrutura familiar tem papel integrante e fundamental na forma como construímos nossa visão de mundo sob o aspecto social. Contudo, diferentes dinâmicas interpessoais dentro da mesma família podem in- fluenciar esse fenômeno. Assim, o luto de cada membro da família terá características próprias, influenciadas pela relação do familiar com a pessoa que faleceu. Como resul- tado, alguns familiares podem ver a perda como devastadora; outros podem conside- rá-la perturbadora; mas outros, em contrapartida, podem considerá-la um alívio14. Em particular, quando se perde um familiar que foi tão importante na definição do sujeito e do seu mundo, o luto pode assumir características especiais e resultar em sensações no enlutado de desorganização, confusão, incerteza sobre si mesmo, incerteza sobre o que fazer com o que aconteceu, falta de confiança e perda de significado na vida4. Em linhas gerais, na maior parte das vezes, a doença obriga cuidadores e familiares a se ajustarem à nova realidade, incluindo as novas necessidades do seu ente querido que pas- sa a necessitar de cuidados especiais15. Alguns pacientes, antes provedores e dos quais os demais familiares eram dependentes, se veem, durante o curso da doença, dependentes de seus entes queridos. Essa inversão de papéis, com perdas de antigas funções e a necessi- dade de adquirir novas atribuições, pode causar grande turbulência na dinâmica familiar. Em alguns casos, mesmo mudanças menos drásticas aos olhos da maioria, como a perda de alguém com quem se compartilhavam tarefas corriqueiras, ou simplesmente a perda 571 de alguém com quem conversar, podem gerar grande impacto em uma família. Do ponto de vista do familiar, as novas demandas associadas ao cuidar podem resultar em restrições à autonomia pessoal e supressão das necessidades pessoais. Como resulta- do, o familiar precisa abrir mão de seus próprios planos – como uma família que precisa usar suas economias, que estavam reservadas para a compra de uma casa própria, para custear um tratamento dispendioso. Essas implicações profundas na dinâmica familiar podem gerar atritos e impactar ne- gativamente a comunicação com a equipe de cuidados paliativos, tópico discutido em detalhes no Capítulo 32 deste livro. É fundamental, portanto, que os médicos das varia- das especialidades, incluindo a atenção primária, assim como outros profissionais da saúde, entendam essas dinâmicas para ter sensibilidade e habilidades técnicas que os tornem capazes de identificá-las. Assim, é possível não apenas evitar interferências na relação com os familiares, como também exercer o papel fundamental que todos esses profissionais têm no manejo do luto, o que inclui fornecer suporte diariamente e identi- ficar situações de risco para respostas disfuncionais e patológicas. Luto antecipatório nas doenças crônicas Justamente por terem curso clínico arrastado, evoluindo ao longo de grandes perío- dos de tempo, as doenças crônicas frequentemente se associam ao luto antecipatório. Ao longo de sua evolução, são várias as perdas sofridas, que podem gerar sofrimento antecipado que acompanha o decorrer da doença desde o momento de seu diagnóstico. Isso resulta em uma vivência extremamente perturbadora, caracterizada por um inten- so sentimento de ambivalência. Isso porque enquanto o paciente e seus familiares vi- venciam, no presente, uma realidade ainda sem a perda, convivem com o sentimento constante de estresse diante da consciência de que ela é inevitável, sendo apenas uma questão de tempo até que ocorra. Esse sentimento pode gerar um sofrimento adicional em relação àquele que decorre da morte, pois o ente querido ainda está fisicamente presente e muitas vezes necessita de cuidados cada vez maiores, exigindo-se da família cada vez mais esforços de adapta- ção a essas novas necessidades e a esse novo contexto. Para manter sua funcionalidade e suprir essas novas demandas, muitas vezes os familiares se veem obrigados a inibir suas expressões de luto. Como resultado, surgem diferençasimportantes em relação ao luto que sucede a perda, pois o luto antecipatório tende a se associar à intensifica- ção do vínculo com o ente querido, já que este se torna mais dependente com o passar do tempo. Assim, a preocupação com a pessoa aumenta progressivamente, ao passo 572 que, no luto que sucede a perda, o sofrimento tende a diminuir conforme se vai apren- dendo a viver sem a presença do ente querido16. As demandas crescentes que a doença gera sobre o cuidador podem resultar em um estres- se cada vez maior, dando origem a pensamentos e desejos de que “tudo acabe logo”. Como resultado, o cuidador pode ter sentimentos de culpa ou vergonha por ter esse tipo de pen- samento. Contudo, é necessário entender que esse tipo de reação é normal em um contexto como esse15. O profissional de cuidados paliativos deve, portanto, atentar-se para evitar jul- gamentos, de forma a validar os sentimentos do cuidador e apoiá-lo ao longo desse processo. Outra situação que pode ocorrer é uma atitude generalizada de esquiva, muitas vezes influenciada pelo contexto sociocultural, em que se evita falar e pensar sobre a morte, mesmo que se tenha conhecimento de que ela é um evento inexorável ao fim da evolução da doença. Essa também pode ser uma tentativa de se blindar do sofrimento emocional, de forma a buscar seguir adiante enquanto se enfrentam os novos desafios impostos pela doença. O cuidador deve suprimir sua dor para manter a capacidade de cuidar, muitas ve- zes se protegendo com uma atitude positiva de fachada, mas que, na verdade, se caracteri- za pela alienação e negação de um desfecho que é inevitável: a morte de seu ente querido17. O luto é, assim, inibido e deixa de ser reconhecido18. Por conta disso, muitos cuidadores relatam que o período de evolução da doença até o óbito é um tempo de espera durante o qual apenas sobrevivem, abrindo mão de atividades pelas quais anteriormente se interessavam e privando-se de contatos sociais. O mundo pode passar a ser monótono, a vida passa a ser limitada e o futuro se torna nebuloso17. O período que antecede a morte não deve necessariamente ser marcado por respostas disfuncionais e inibição das respostas de luto. Ao contrário, pode servir de oportunidade para respostas adaptativas e desenvolvimento da resiliência, pois permite que tanto o paciente como seus familiares se preparem emocionalmente para o desfecho inevitável. Surge a oportunidade de esclarecer questões não resolvidas, readequar planos de vida, completar tarefas e adaptar-se ao novo futuro. É o caso, por exemplo, de um pacien- te diagnosticado com câncer avançado que terá tempo para realizar um planejamento sucessório mais adequado ao novo cenário. Com isso, o indivíduo conseguirá evitar en- traves legais que poderiam resultar no bloqueio de seu patrimônio para os familiares, privando-os de, por exemplo, financiar seus estudos ou outros projetos. Perdas abruptas, por outro lado, dificultam esse tipo de adaptação. A Escala de Luto Antecipatório (Anticipatory Grief Scale), com 13 itens (AGS-13)19, avalia as reações comportamentais e emocionais do luto em cuidadores e familiares em cuida- dos paliativos, podendo ser uma ferramenta de pesquisa útil para o luto antecipatório. 573 Seu uso clínico ainda é limitado, pois não foi validada em português, sendo necessários mais estudos com a ferramenta. Modelos de enfrentamento ao luto Como exposto, embora a morte seja parte da condição natural da vida humana, não existe apenas uma forma de responder a ela. Ao contrário, a forma como enfrentamos o luto é uma expressão de nossa individualidade. Apesar disso, ao longo da história, foram propostos modelos teóricos para explicar as reações emocionais e comportamentais diante da perda. Os principais modelos serão discutidos a seguir. Teoria psicanalítica freudiana Sigmund Freud foi um dos primeiros a estudar o luto e propor modelos teóricos para explicá-lo em uma de suas principais obras, Luto e Melancolia2,6. Nela, descreveu o luto como reação à perda de um objeto (que pode ser uma pessoa ou um conceito abstrato) ao qual o indivíduo direcionou grande investimento de “energia psíquica”, conhecida na teoria freudiana pelo termo “libido”2. Esse processo de investimento de libido em um ob- jeto foi denominado por Freud como “catexia objetal”, que pode atingir níveis extremos, por exemplo, quando o indivíduo desiste até mesmo de sua própria personalidade em favor do objeto ao qual está dirigindo sua libido20. Após a perda, Freud propôs que o indivíduo deve realizar o que chamou de “trabalho de luto”, que consiste no esforço de deixar de direcionar a libido ao objeto perdido, reconhecen- do que ele já não mais faz parte da realidade. Esse trabalho é normal, saudável, mas pode en- contrar resistência e oposição por parte do “ego”, resultando em dor psíquica. Essa oposição à exigência com a qual agora o ego se depara, ou seja, de retirar a libido do objeto perdido, pode ser tão intensa a ponto de distorcer a percepção da realidade, levando o ego a uma busca in- cansável pelo objeto perdido na tentativa de recriá-lo e de salvá-lo. Predomina a ambivalência entre a realidade da perda e essa resistência em desapegar do que foi perdido. Isso ocorreria porque, segundo Freud, o ego resiste o abandono de posições prazerosas já experimentadas, ou seja, se opõe a retirar a libido de um objeto ao qual dedicou grande investimento psíquico2. No entanto, apesar da resistência e das dificuldades inerentes ao processo, a ausência do objeto se faz presente no dia a dia da realidade do indivíduo, se impondo ao ego, que, exaus- to, desiste dessa busca incansável pelo objeto perdido. O trabalho de luto normal resulta no respeito à realidade, quando o ego finalmente aceita a ausência do objeto perdido, ainda que isso leve tempo e consuma grande energia psíquica. A libido passa, então, a ser direcionada a outros objetos. Inicialmente, contudo, isso também não é aceito pelo ego, nele produzindo 574 sentimentos de ambivalência e de culpa. Porém, quando o trabalho de luto se conclui, o ego se vê novamente livre para novos investimentos, agora sem culpa ou inibições2. Segundo Freud, o trabalho de luto também é uma busca por autoconhecimento, pois, dada a subjetividade inerente à perda, apesar de se saber o que ou quem foi perdido – o objeto –, raramente o significado dessa perda é evidente logo de início. É no trabalho de luto, portanto, que o ego significará e ressignificará o vínculo com o objeto perdido. Após concluído o trabalho de luto, as experiências vividas na realidade externa com o objeto perdido são internalizadas, passando a compor a realidade psíquica interna do indivíduo2. Freud também descreveu a situação em que esse processo se desvia da normalidade, gerando grande sofrimento à pessoa. Chamou esse cenário de “melancolia”, que hoje se entende por depressão clínica6. Teoria do Apego e estágios do luto segundo Bowlby Baseando-se em parte no trabalho do psiquiatra britânico Colin Murray Parkes21, o também psiquiatra e psicólogo britânico John Bowlby desenvolveu a Teoria do Apego ao rever conceitos psicanalíticos e estudar o desenvolvimento de laços afetivos – ou o apego – entre bebês e seus genitores para explicar a relação entre seres humanos. Para Bowlby, o vínculo entre a criança e a figura materna ou do cuidador era instintivo, sendo necessário, portanto, diferenciá-lo dos comportamentos que são aprendidos22. O luto, da mesma forma, seria uma resposta instintiva, adaptativa e valiosa para a sobrevivência6. Tanto Bowlby quanto Parkes eram teóricos que enxergavam o luto dividido em está- gios, que progridem linearmente até que o enlutado atinja a resolução. Para descrever a resposta de luto, Bowlby propôs quatro estágios gerais observados em quadros normais, com respostas não complicadas6. São eles23: • Entorpecimento: trata-se de uma reação imediata à perda, na qual o indivíduo apre- senta uma resposta inicial de torpor e negação. O enlutado ficaconfuso e “não sabe” o que sentir, parecendo não sentir nada. Pode ter rápida duração ou se prolongar por dias; • Anseio e busca: o indivíduo apresenta grande inquietação e aflição em uma busca intensa para recuperar o ente perdido. Ele chora e chama pela pessoa perdida, em um desejo persistente e obsessivo pela pessoa que morreu. Pode durar até mesmo meses ou anos, apesar de se atenuar com o tempo; 575 • Desorganização e desespero: estágio de intensa dor no qual se começa a assimilar a realidade da perda, pois fica mais claro o vazio deixado por ela. O enlutado pode se retrair e se isolar socialmente, absorto em suas memórias do falecido. Podem sur- gir sintomas como desmotivação, apatia, humor deprimido, insônia e perda de peso, bem como o sentimento de perda de sentido da vida; • Reorganização e reelaboração: nessa fase, o enlutado termina de assimilar a perda, a reconhece e começa a se adaptar à nova realidade. Em média, ocorre dois anos após a perda, embora haja grande variabilidade. Retomando a teoria psicanalítica, nesta fase o enlutado está pronto para investir em outros objetos. Surgem, assim, novos víncu- los, novos papéis, novos projetos e uma nova realidade na vida do enlutado. Para Bowlby, o luto complicado se origina de desvios da normalidade envolvendo o mo- mento de início, a intensidade e/ou a duração de cada estágio. Ou seja, os sentimentos de desespero, raiva, saudade, ansiedade e entorpecimento, além do protesto pela perda, da busca incessante pelo falecido e do desejo de juntar-se a ele, não são patológicos por si só, mas partem do processo de assimilar a perda na realidade psíquica interna do indivíduo. Porém, o luto normal pressupõe a aceitação da perda com o tempo. Caso isso não ocorra, o processo se desviou da normalidade, caracterizando-se como luto complicado6. Críticos ao modelo de estágios argumentam que, nele, o enlutado é visto como um agen- te passivo no processo de luto. Também apontam que são limitadas as evidências empíri- cas que apoiam a existência de tais estágios e que os primeiros estudos nos quais o modelo se baseou, como os de Parkes, apresentam vieses importantes. Entre eles está o domínio de viúvas jovens, brancas e de classe média na amostra estudada. Além disso, o modelo seria muito rígido, o que iria contra a diversidade e individualidade das reações de luto23. Modelo do Processo Dual de Luto, de Stroebe e Schut O Modelo do Processo Dual de Luto foi publicado por Stroebe e Schut em 1999 e tem como princípio central o conceito de oscilação, que é parte do luto saudável. Trata-se de um processo dinâmico de alternância estressante entre dois estados: um orientado para a perda e outro orientado para a restauração. Assim, o modelo se diferencia dos demais ao não propor estágios fixos e bem delimitados para a resposta de luto, mas um curso fluido e alternante. Os dois polos são assim definidos6,24: • Orientação para a perda: ocorre a intrusão do luto na vida do enlutado e um intenso 576 trabalho de luto, marcado por resistência à restauração na forma de negação ou evita- ção da perda. Há uma busca dolorosa pela pessoa perdida, mas também ocorre uma quebra de vínculos ou laços com o falecido; • Orientação para a restauração: o enlutado busca seguir em frente com uma vida saudá- vel, aceitando as mudanças que nela ocorreram e buscando novos planos e interesses, adaptando-se à nova realidade. Assim, o enlutado passa a negar, evitar ou afastar o luto. Tanto os processos orientados para a perda quanto os orientados para a restauração envolvem o enfrentamento da perda. A diferença entre os dois está no significado ou no foco que se dá a esse enfrentamento6. A Figura 1 é uma representação esquemática do Modelo do Processo Dual de Luto conforme proposto por Stroebe e Schut. Orientadas à perda - Trabalho de luto; - Intrusões do luto; - Quebra de vínculos e laços; - Negação e evitação de mudanças associadas à restauração. Experiências da vida cotidiana Orientadas à restauração - Atentar-se às mudanças na vida; - Fazer novas coisas; - Distrações do luto; - Negação/evitação do luto; - Novos papéis, identidades e relacionamentos. FIGURA 1. REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DO MODELO DO PROCESSO DUAL DE LUTO CONFORME PROPOSTO POR STROEBE E SCHUT ADAPTADO E TRADUZIDO DE: STROEBE ET AL., DEATH STUD 199924. É importante salientar que o termo restauração, como proposto pelo Modelo do Pro- cesso Dual de Luto, não se refere a uma busca por restaurar o mundo como era antes da perda. Ao contrário, faz referência aos esforços de adaptação à nova realidade. Assim, o que se restaura é a capacidade de viver de forma saudável e funcional no presente e no futuro6. Isso não significa esquecer o passado, pois pressupõe o entendimento de que o passado e a pessoa perdida, embora não existam mais, continuam a ter importância no planejamento do futuro. O modelo também entende que a ênfase no enfrentamento do luto pode diferir entre grupos culturais, indivíduos e momentos no tempo. 577 Estágios do luto segundo Elisabeth Kübler-Ross A psiquiatra norte-americana Elisabeth Kübler-Ross propôs um modelo de luto com cinco estágios, publicado em seu famoso livro Sobre a Morte e o Morrer (On Death and Dying), de 1969. Seu trabalho originalmente se baseou na observação de pacientes ter- minais que se aproximavam da morte, ou seja, vivenciavam um luto antecipatório. No entanto, o modelo é também aplicado com frequência ao luto que ocorre após a perda23. O trabalho de Kübler-Ross é importante por trazer um olhar mais humanístico ao pro- cesso da morte, chamando a atenção para a necessidade de se reforçarem os vínculos com o paciente. Kübler-Ross jogou, portanto, os holofotes da opinião pública sobre os pacientes terminais, antes muitas vezes negligenciados. Ela argumentou que muitos de- les ainda têm “negócios inacabados” que desejam e precisam resolver. Portanto, devem ser ouvidos para que tais tarefas e necessidades sejam corretamente identificadas, de forma a ser possível prestar um cuidado eficaz no fim da vida. Os cinco estágios não são fixos, podendo ser vividos fora da ordem descrita ou até mesmo simultaneamente. David Kessler, seu coautor em trabalhos anteriores, deu se- guimento ao trabalho de Kübler-Ross após sua morte e acrescentou um sexto estágio do luto26. Os seis estágios são os seguintes25,26: • Choque e negação: trata-se de uma reação inicial de incredulidade, em que o paciente fica “adormecido”. A negação da situação é uma forma de o paciente se proteger da- quilo com o que não consegue lidar. Conforme a realidade da ameaça à vida se impõe, o paciente busca uma maneira de seguir em frente e, inconscientemente, inicia o pro- cesso de aceitação. Conforme ele progride, a negação vai desaparecendo, mas os sen- timentos que estavam sendo evitados começam a emergir. Alguns pacientes podem, contudo, nunca progredir para além desse estágio. Como resultado, podem buscar outras opiniões médicas, exames, procedimentos, entre outras fontes de reassegura- mento, para sustentar sua negação. O paciente também pode tentar racionalizar sua condição ou focar em detalhes da rotina como forma de evitar o sofrimento; • Raiva: neste estágio, emergem sentimentos de frustração e de raiva. O paciente fica irritado com sua condição e questiona “por que eu?”. É um estágio delicado na relação com familiares, cuidadores e com a equipe de saúde, pois essa raiva pode ser deslo- cada para eles. A raiva também pode ser deslocada para o próprio paciente, que ques- tiona se fez algo errado na vida e se culpa por isso. Além disso, pode gerar conflitos espirituais importantes se for deslocada para Deus, por exemplo, quando o paciente 578 pergunta: “por que Deus me abandonou?”. A raiva é acompanhada de dor, o que gera grande sofrimento ao paciente. Pessoas próximas, que poderiam prover conforto e cuidados, podem se afastar por terem sido alvo da irritabilidade, que geralmente re- pele as pessoas. Isso gera ainda mais dor ao enlutado;comunicação de notícias difíceis. Ainda que façam parte do dia a dia deste campo de atuação, os obstáculos para se trans- mitirem, de forma tranquila e compassiva, informações sobre tratamento e demais estra- tégias de cuidados configuram-se em uma importante fragilidade na relação médico-pa- ciente-familiar nessa fase, bem como a ausência de carga horária suficiente em bioética, essencial para entregarmos médicos humanos e sensíveis, não apenas técnicos. Entendo, portanto, que a obra Cuidados Paliativos: da Clínica à Bioética chega em boa hora, como robusta ferramenta de consulta aos abnegados médicos que já enfrentam os desafios de trabalhar em uma área com tantas exigências intelectual, técnica e em ha- bilidades de comunicação. E também àqueles que ainda buscam sua vocação no amplo mundo da Medicina e que podem passar a ver, em cuidados paliativos, a possibilidade de profunda satisfação pessoal e profissional. A todos, desejo que desfrutem desta publicação, da melhor maneira possível. iii iv Quando propusemos a ideia de organizar a obra Cuidados Paliativos: da Clínica à Bioética, já tínhamos em mente que seria um projeto desafiador. Isso porque precisaríamos inte- grar conhecimentos técnicos de uma área tão importante da Medicina e conceitos bioéticos complexos, aplicados a situações clínicas extremamente delicadas. Porém, não imaginá- vamos as proporções (e a complexidade) que o projeto atingiria, envolvendo mais de 60 autores, que dedicaram suas expertises e três anos de seu tempo em nome de informações de qualidade, e baseadas em robusta literatura científica. É então com grande satisfação que ora introduzimos esta obra em nome de todos. O livro aborda tanto os aspectos clínicos do tema, guiados pelos conceitos mais modernos e baseados em evidências, quanto o âmbito bioético, que permeia o cotidiano dos cuidados paliativos. O enfoque é aplicar diversas concepções consideradas, por vezes, complexas, a situações práticas com as quais o profissional frequentemente se depara. É, portanto, uma publicação densa, mas que subsidia o leitor com conhecimentos técnicos e humanísticos, possibilitando que desempenhe suas funções clínicas seguindo as melhores práticas, ao mesmo tempo em que desenvolve uma visão crítica sobre os dilemas de seu cotidiano. A primeira seção aborda os princípios gerais dos cuidados paliativos, suas indicações e métodos de determinação do prognóstico, muito importantes, uma vez que o campo, infelizmente, ainda se cerca de mitos e preconceitos, combatidos com a correta educa- ção. Nesse sentido, a perspectiva de cuidados paliativos precoces é constante na obra, deixando claro que a indicação desse cuidado não significa o abandono de tratamentos direcionados à modificação do curso da doença. A segunda seção versa sobre o tratamento dos sintomas mais prevalentes nos pacientes em cuidados paliativos. Para isso, agrega definições clínicas trazidas pela recente literatura sobre o tema, com enfoque baseado em evidências, possibilitando o exercício dos cuida- dos paliativos segundo as melhores práticas clínicas. Já a terceira seção fornece ao leitor subsídio para a realização de procedimentos que perfazem a prática integral dos cuidados paliativos, sendo muitas vezes fundamentais para atingir o objetivo de alívio dos sintomas e melhora da qualidade de vida. A quarta seção, por sua vez, foca situações clínicas especí- ficas, como quadros demenciais, insuficiências de órgãos e sistemas e doenças infecciosas, em especial, HIV/AIDS. Aqui se incluem ainda tópicos em cuidados paliativos pediátricos Introdução Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Elio Barbosa Raimondi Belfiore José Helio Zen Jr. Vanessa Souza Santana v e perinatais, que, por suas características particulares, necessitam de especial destaque, haja vista o grande desconhecimento ainda prevalente no meio médico. A quinta seção vai ao encontro do conceito de Dor Total, cunhado em 1967 pela pio- neira dos cuidados paliativos, a britânica Cicely Saunders. Assim, a dor de um câncer, por exemplo, não é causada apenas pela compressão do tumor sobre um nervo ou pela liberação de citocinas inflamatórias que provocam irritação tecidual. O sofrimento do paciente também advém de questões emocionais, sociais e espirituais. Ademais, também são apresentadas técnicas fundamentais de comunicação, que é uma das habilidades mais importantes de todo médico. Isso porque, perante fragilidade, medo e angústia, emergem importantes obstáculos à comunicação que, muitas vezes, acabam por truncá-la. Habilidades especiais, portanto, são necessárias para navegar nesse mar revolto encontrado na prática clínica diária do paliativista, evitando ruídos e desenten- dimentos que podem comprometer a relação médico-paciente. Por fim, a quinta seção também discorre sobre educação em cuidados paliativos e sobre o luto, temas primordiais para as práticas desses profissionais. A sexta seção traz uma perspectiva inovadora em bioética, que reforça a importância do Cremesp como centro difusor dessa área do conhecimento no Brasil. Inicialmente, a obra delineia as principais teorias morais que fundamentam o raciocínio bioético moderno, co- nhecimento básico que pode ser aplicado nos mais diversos casos da prática clínica. Neles, dilemas como paternalismo médico, eutanásia e tomada de decisão em fim de vida são abor- dados segundo a bioética descritiva, ou seja, os diferentes argumentos sobre cada tópico são apresentados, incluindo visões contrárias e favoráveis, assim como questionamentos. A intenção é fornecer ao leitor uma visão ampla e instigá-lo a tirar suas próprias conclusões. Para isso, também são citados casos emblemáticos da bioética, incluindo alguns ocor- ridos em outros países, discutidos à luz da cultura e da realidade do Brasil e, ainda, na ótica da relação médico-paciente, essencial para o desempenho ético da medicina. Os mesmos temas são apresentados do ponto de vista legal, segundo a legislação brasileira, e da deontologia médica aplicável às situações de fim de vida, ilustrada com discussão de sindicância ético-profissional em cuidados paliativos, que ocorreu no Cremesp. Por fim, é trazido o fenômeno da judicialização da saúde, ressaltando as controvérsias que vêm se acumulando nos tribunais brasileiros acerca de tratamentos médicos, algo que adquire dimensões ainda maiores em situações de fim de vida. Esse conteúdo, que se propõe abrangente, denso, rico e inovador, faz da obra Cuidados Paliativos: da Clínica à Bioética um marco da literatura médica em cuidados paliativos no Brasil. Acima de tudo, o Cremesp busca a disseminação do conhecimento, resultando no fortalecimento da boa Medicina e na consolidação das melhores práticas clínicas na área. Como resultado, espera-se que nossos pacientes tenham acesso cada vez mais amplo aos cuidados paliativos de excelência, e encontrem alento para o alívio de seu sofrimento, diante de situações tão árduas, quanto o diagnóstico de uma doença ameaçadora à vida. vi Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Médico graduado e com residência médica em Psiquiatria pela Faculdade de Medi- cina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Conselheiro do Conselho Regional de Me- dicina do Estado de São Paulo (Cremesp) na gestão 2018-2023 e diretor da Assessoria de Comunicação do Cremesp de outubro de 2018 a julho de 2021. Elio Barbosa Raimondi Belfiore Médico graduado e com residência médica em Anestesiologista pela Universidade Es- tadual de Campinas (Unicamp), Título Superior em Anestesia pela Sociedade Brasileira Anestesiologia (SBA), clinical fellowship em simulação e educação em Anestesiologia pela Universidade de Toronto, fellowship em Point-of-Care Ultrasound (POCUS) em Anestesia pela Universidade de Toronto, certificado em POCUS pela American Society of Anesthe- siology, mestrado em Translational Research Program (c) pela Universidade de Toronto. José Helio Zen Jr Médico graduado e com residência médica em Anestesiologista pela Unicamp.• Barganha: o paciente pode recorrer à fé em uma tentativa de se redimir de seus ar- rependimentos e dos erros que acredita ter cometido. Passa a repensar como seria se tivesse tomado outras decisões. Pode recorrer a promessas, penitências, sacrifícios e doações em troca do milagre da cura. Também pode tentar barganhar com médicos e amigos pela cura; • Depressão: o paciente passa a apresentar sinais e sintomas que são associados à de- pressão, como humor constrito, diminuição da psicomotricidade, alterações do sono, sentimentos de desesperança e, em alguns casos, ideação suicida; • Aceitação: o paciente finalmente aceita que a morte é algo inevitável e um destino universal; • Ressignificação: sexto estágio adicionado a posteriori, no qual o paciente busca res- significar sua vida, agora no contexto do término que se aproxima, tentando encon- trar um sentido. Apesar de muito populares, a Teoria dos Estágios de Kübler-Ross é alvo de muitas crí- ticas, como o fato de a psiquiatra nunca ter documentado seu material e nunca ter es- clarecido como coletou seus dados ou quantos pacientes vivenciaram cada reação como foi descrito. Além disso, apesar de Kübler-Ross tentar reforçar que os estágios não são lineares, seu livro deixa a impressão de que eles devem ser seguidos linearmente, o que pode ignorar a individualidade da resposta de luto. Também não fica claro se os pacien- tes devem se enquadrar nesses estágios, o que incluiria necessariamente evoluir para a aceitação, ou se devem realmente abandonar a negação, pois muitas vezes ela permite que o paciente mantenha a esperança e se envolva mais com seu cuidado27. Tarefas de luto William Worden identificou quatro categorias de reações emocionais que são comuns no luto agudo: sentimentos, sensações físicas, cognições e comportamentos. Todas são 579 consideradas normais, a menos que continuem por um longo período de tempo ou se- jam muito intensas. Um indivíduo pode ter uma das reações, várias ou todas. Elas podem ser muito fortes por algum tempo e depois diminuir, ou podem não ser tão fortes, mas durar muito tempo28. Worden também propôs um modelo baseado em “tarefas” de luto, em que o indivíduo deve trabalhar, de forma proativa, para elaborar seu processo de luto, retomando o con- trole sobre a própria vida. Segundo o pesquisador, o processo de luto é fluido, ou seja, o enlutado pode trabalhar simultaneamente em várias tarefas, que também podem ser revisitadas e retrabalhadas ao longo do tempo. As quatro tarefas que devem ser comple- tadas para que o luto seja elaborado são as seguintes6,28: • Aceitar a realidade da perda: envolve superar a negação ao reconhecer e aceitar a realidade da perda; • Elaborar a dor: sentir dor é reconhecido como algo normal, a menos que seja incapa- citante. Ela deve ser validada e reconhecida; • Adaptar-se ao ambiente sem o ente perdido: o enlutado deve buscar entender o signi- ficado da relação em sua vida, os papéis desempenhados por cada um, ajustando-se ao fato de que o falecido não mais os cumprirá. Pode ser necessário que o enlutado desen- volva novas habilidades para assumir esses papéis antes desempenhados pelo falecido; • Encontrar uma conexão com o indivíduo enquanto se continua com a vida: envolve res- significar a relação com o falecido para que permaneça algo prazeroso, mas agora no contexto de uma nova realidade após a morte. Isso necessita que a identidade pessoal do enlutado seja revista, de forma a evitar uma sobrecarga pelo passado que se foi e a aumentar a qualidade de vida no futuro, que prevê abertura a novos relacionamentos. O processo de luto dos “Seis Rs” A psicóloga norte-americana Therese Rando propôs o modelo dos “seis Rs” para a resposta de luto saudável. Eles são6: • Reconhecer a perda: entender e admitir a perda; • Reagir à separação: vivenciar a dor da perda, sentindo e expressando as reações emo- 580 cionais a ela e a perdas secundárias; • Relembrar e reviver sentimentos, o ente perdido e o relacionamento com ele de for- ma realística; • Renunciar: abrir mão de antigos vínculos com o falecido e da realidade anterior; • Reajustar-se à nova realidade, sem esquecer do passado, estabelecendo uma nova relação com o falecido e adotando novas formas de estar no mundo, além de uma nova identidade; • Reinvestir: procurar novos interesses, planos e realidades. Os “seis Rs”, segundo Rando, seguem um ao outro e estão relacionados entre si, mas também podem ocorrer simultaneamente. A sequência em que ocorrem também pode variar, e os enlutados podem iniciar um processo e depois voltar para o anterior e vice- -versa, em movimento não linear e oscilante6. Controvérsias envolvendo os modelos teóricos de luto e novas abordagens: fluidez, resiliência, vínculo contínuo, busca por significado e aspectos sociais Os modelos teóricos da resposta de luto descritos até aqui vêm sendo repensados re- centemente, à luz de críticas a seus conceitos e novos estudos sobre o tema. Estudos longi- tudinais de longo prazo falharam em demonstrar que a resposta adaptativa de luto segue estágios29. Novas teorias, como o Modelo do Processo Dual de Luto, de Stroebe e Schut, romperam com esse conceito, propondo, ao contrário, um modelo em que a resposta de luto é mais fluida e cíclica, na qual o vínculo com o falecido é frequentemente revisto6. Além disso, estudos também demonstram que a negação e a raiva não são tão fre- quentes como sugerido pelos modelos teóricos, que parecem subestimar a capacidade de resiliência dos seres humanos. De fato, em muitos estudos, a aceitação da morte se mostrou a resposta mais comum do luto adaptativo, já estando presente logo no início em muitos casos, enquanto a dor e a depressão foram preditoras de sofrimento de lon- go prazo29. Esses achados corroboram a teoria sobre resiliência, que defende que a au- sência de sofrimento não indica patologia e é, inclusive, predominante nos enlutados6. Ademais, estudos também mostram que a maioria deles tende a se adaptar após alguns meses, com ou sem aconselhamento. Aparentemente, porém, quando a morte se deve 581 a causas violentas (acidentes, suicídio e homicídio), a negação predomina inicialmente, enquanto a raiva e a depressão persistem por longos períodos6,29. Outro grande alvo de críticas desses modelos é o fato de que boa parte deles se baseia no conceito de “descatexia”, ou seja, o contrário da catexia objetal, que envolve o “de- sinvestimento da energia psíquica” do objeto perdido. A manutenção de algum tipo de vínculo continuado com o falecido, por sua vez, é considerada por alguns teóricos como algo negligenciado ou desvalorizado na maioria dos modelos teóricos de luto. Assim, atualmente, alguns trabalhos propõem o fortalecimento do vínculo com o falecido, o que seria algo mais saudável e comum em diversas culturas humanas. Esse vínculo con- tínuo poderia ser uma representação interna ou uma conexão contínua e de caracterís- ticas dinâmicas com o ente perdido, de forma que o falecido permaneça exercendo uma presença na vida do enlutado que, embora transformada ou alterada, é perene. Para isso, é necessário negociar e renegociar o significado da perda ao longo do tempo. Em linhas gerais, portanto, não é mais unanimidade a crença de que o luto saudável envolve a renúncia a esse vínculo afetivo, embora ainda não haja consenso sobre quais de suas características definiriam se o processo é normal ou patológico6,29. Outros teóricos vêm colocando ênfase na busca por um sentido durante o processo de luto. Estudos mostram que encontrar um significado diante da perda prevê maior bem-estar e resiliência a longo prazo, o que pode ser especialmente crítico nos casos de morte violenta. Uma busca dolorosa, incapaz de encontrar sentido, pode, em contrapar- tida, causar grande sofrimento6. A busca por sentido pode ter dois componentes. O primeiro é a busca por um significa- do propriamente dito, ou seja, a capacidade de entender a perda e/ou encontrar alguma explicação para ela,que pode ser filosófica ou espiritual. Já o segundo envolve a busca por benefícios, ou seja, algum lado “bom” da perda, sejam consequências positivas sociais ou pessoais. Exemplos de benefícios incluem novas prioridades de vida e conexão mais próxima com outras pessoas. Aparentemente, a busca por um significado parece ser mais importante para melhores desfechos do luto do que a busca por benefícios6. O papel do meio social também é outro aspecto que é alvo de debate. A maioria dos modelos de luto coloca a responsabilidade por um luto “de sucesso” quase inteiramente sobre o enlutado, sem considerar o meio social que o circunda. No entanto, maior foco vem sendo dado ao papel dos processos familiares e da influência cultural sobre o luto, conferindo-lhe um elemento de natureza transacional. Assim, segundo essa visão, o sig- nificado da perda para um indivíduo seria indissociável dos significados familiares, co- munitários e sociais atribuídos a ela. Além da nova realidade intrapsíquica e individual, 582 agora sem a presença do ente querido, o enlutado deve se adaptar também a uma nova realidade de relações interpessoais que surge. Esse processo depende da relação com outras pessoas, que envolve elementos como a aprovação, o apoio, a desaprovação e o afastamento do enlutado, conforme as características de seu luto29. Destarte, depreende-se que, embora úteis, muitos dos modelos teóricos do luto até então dominantes apresentam lacunas que limitam a compreensão da resposta à perda. Em especial, conceitos como resiliência, vínculos contínuos, busca por um sentido e o papel do meio social não são adequadamente abordados por muitos dos modelos vigen- tes. A estrutura baseada em estágios também é limitante e “engessada”, dificultando uma compreensão individual do luto, e, por conta disso, vem dando lugar a novas teorias que propõem um processo mais dinâmico e fluido. Acima de tudo, deve-se buscar um enten- dimento do luto que considere sua heterogeneidade, o que também é importante para guiar a intervenção nos casos que não evoluem como o esperado29. Luto complicado ou prolongado O luto é uma resposta normal à perda, mas, em alguns casos, pode evoluir para um estado de disfuncionalidade, com grande sofrimento ao enlutado e prejuízo a sua quali- dade de vida. O conceito diagnóstico mais recente é o do TLP, proposto pelo DSM-5-TR12 e publicado pela APA em 2022, como já conceituado neste capítulo. Em seu site oficial, a APA ressaltou as peculiaridades do momento em que o TLP foi reconhecido como um transtorno específico, marcado pelas mais de 675 mil mortes de- correntes da covid-19 à época registradas nos Estados Unidos, que, segundo a entidade, podem ter tornado o TLP mais prevalente30. Fatores de risco para o luto complicado ou prolongado Já na década de 1970, Parkes identificou fatores de risco para respostas de luto disfun- cionais em pesquisas longitudinais com viúvas inglesas. Os fatores de risco identificados foram: status socioeconômico mais desfavorável, pouco tempo para se preparar para a morte do cônjuge, saudade intensa e prolongada do marido morto e a coexistência de outros estressores, incluindo dificuldades conjugais31. Como exposto, no entanto, os es- tudos de Parkes com viúvas inglesas são criticados pelo risco de vieses, como o fato de a amostra ser composta predominantemente por viúvas jovens, brancas e de classe média. O luto não autorizado ou não reconhecido é outro fator de risco também descrito para respostas desadaptativas. Isso porque a própria natureza desse tipo de luto cria proble- mas adicionais, ao mesmo tempo em que priva o enlutado de fontes de apoio. A for- 583 ma de expressar o luto também é afetada, incluindo reações emocionais intensificadas (por exemplo, raiva, culpa ou impotência), relacionamentos ambivalentes e problemas causados por perdas secundárias (como aquelas envolvendo questões legais e financei- ras). Ademais, o enlutado pode ter direitos tolhidos, acabando por ser privado de fatores que, em situações normais, facilitariam o luto (como a possibilidade de planejar ritu- ais fúnebres e deles participar). Nessas situações, a obtenção de apoio social também é dificultada, já que ao enlutado não é permitido, por exemplo, faltar ao trabalho, falar sobre a perda, receber expressões de conforto ou encontrar consolo em alguma tradição religiosa6. Isso fica evidente, por exemplo, nas grandes catástrofes, acidentes naturais e pandemias, pois o enlutado, além de sofrer perdas primárias (a morte do ente querido em si), também pode sofrer perdas secundárias, como emprego, casa e documentos. É o caso da pandemia da covid-19, em que muitos enlutados foram privados de rituais de passagem e de apoio social por conta de medidas sanitárias protetivas impostas devido ao risco de contaminação, como o isolamento social e a proibição de enterros. Fatores de risco descritos para o TLP pelo DSM-5-TR incluem mortes com as seguintes características: súbitas e/ou violentas (suicídio ou assassinato, por exemplo); que não representem a ordem natural (por exemplo, a morte de um filho); que envolvem um cônjuge/parceiro; e que se associa a estressores de ordem financeira. Enlutados que apresentavam grande dependência do ente querido falecido também apresentam maior risco, assim como crianças que são privadas do cuidador e de apoio12. Quadro clínico do transtorno do luto prolongado Segundo o DSM-5-TR, o TLP é marcado por um sentimento de saudades intensas do falecido e/ou preocupação envolvendo pensamentos sobre o falecido ou, em crianças e adolescentes, as circunstâncias em torno da morte. Essas reações de luto ocorrem na maior parte do dia, quase todos os dias, durante ao menos o último mês. O indivíduo ex- perimenta sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida. Ademais, devem estar presentes ao menos três dos seguintes sintomas: perturbação da identidade (por exemplo, sentir como se parte de si tivesse morrido); sensação intensa de incredulidade quanto à morte; evitação de lembranças de que a pessoa faleceu (em crianças e adolescentes, pode ser caracterizada por esforços para evitar tais lembranças); dor emocional intensa (por exemplo, raiva, amargura e tristeza) relacionada à morte; difi- culdade de seguir em frente após a morte do ente querido (por exemplo, problemas para se relacionar com amigos, seguir seus próprios interesses e planejar o futuro); anestesia 584 emocional (ou seja, ausência ou redução acentuada na intensidade da emoção, sentir-se atordoado) como resultado da morte; e solidão intensa (ou seja, sentir-se sozinho ou dis- tante dos outros) como resultado da morte. Ainda, tal quadro de luto deve exceder, em intensidade e duração, as normas sociais, culturais e religiosas que seriam esperadas para a cultura e contexto do paciente. Por fim, os sintomas não podem ser melhor explicados pelo transtorno depressivo maior ou outro transtorno psiquiátrico12,30. O diagnóstico do TLP exige que o quadro se prolongue por mais de 12 meses após a mor- te da pessoa querida, período que contrasta com o exigido pela CID-11, conforme será dis- cutido a seguir neste capítulo. Dados mostram, no entanto, que pacientes que preenchem os critérios para o TLP antes de preencher o critério temporal, ou seja, mais precocemen- te, apresentam mais risco de progressão para TLP ao se completar o período de tempo necessário para o diagnóstico. Outros fatores de risco serão discutidos adiante32. O Quadro 1 elenca os critérios diagnósticos do TLP, conforme propostos pelo DSM-5-TR. A. Morte, há ao menos 12 meses, de uma pessoa que era próxima ao enlutado (para crianças e adolescentes, ao menos seis meses antes). B. Desde a morte, houve resposta de luto caracterizada por um ou ambos dos seguintes achados, em grau clinicamente significativo, quase todos os dias ou mais frequentemente, durante ao menos o último mês: 1. Saudade/anseio intenso pelapessoa falecida; 2. Preocupação com pensamentos ou lembranças envolvendo a pessoa falecida (em crianças e adolescentes, a preocupação pode se concentrar nas circunstâncias da morte). C. Como resultado da morte, ao menos três dos oito sintomas a seguir foram experimentados em grau clinicamente significativo, na maioria dos dias ou mais frequentemente, durante ao menos o último mês: 1. Perturbação da identidade (por exemplo, sentir como se parte de si tivesse morrido); 2. Sensação intensa de incredulidade quanto à morte; 3. Evitação de lembranças de que a pessoa faleceu (em crianças e adolescentes, pode ser caracterizada por esforços para evitar tais lembranças); 4. Dor emocional intensa (por exemplo, raiva, amargura e tristeza) relacionada à morte; 5. Dificuldade de reintegração à vida após a morte da pessoa querida (por exemplo, problemas para se relacionar com amigos, seguir seus próprios interesses e planejar o futuro); 6. Anestesia emocional (ou seja, ausência ou redução acentuada na intensidade da emoção, sentir-se atordoado) como resultado da morte; 7. Sentir que a vida não tem sentido como resultado da morte; 8. Solidão intensa (ou seja, sentir-se sozinho ou distante dos outros) como resultado da morte. D. A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. E. A duração e a intensidade da reação de luto claramente excede as normas sociais, culturais ou religiosas esperadas QUADRO 1. TRANSTORNO DO LUTO PROLONGADO, SEGUNDO O DSM-5-TR 585 ADAPTADO E TRADUZIDO DE (SEM TRADUÇÃO OFICIAL PARA O PORTUGUÊS ATÉ O MOMENTO): AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DIAGNOSTIC AND STATISTICAL MANUAL OF MENTAL DISORDERS, FIFTH EDITION, TEXT REVISION. WASHINGTON, DC: AMERICAN PSY- CHIATRIC ASSOCIATION; 202212. TRADUÇÃO LIVRE. para a cultura e o contexto do indivíduo. F. Os sintomas não são melhor explicados por transtorno depressivo maior, transtorno de estresse pós-traumático ou outro transtorno mental, ou não são atribuíveis aos efeitos fisiológicos de uma substância (medicamentos, álcool etc.) ou outra condição médica. Outros sintomas que não estão incluídos nos critérios diagnósticos também podem estar presentes no TLP. Sintomas somáticos, por exemplo, são comuns e podem levar ao aumento do uso dos serviços de saúde. Esses sintomas podem emular aqueles ex- perimentados pelo falecido durante a doença que levou ao óbito, tais como perda de apetite e fadiga. Outros sintomas que podem ocorrer são: diminuição do autocuidado, podendo colocar em risco a própria saúde; sentimentos de culpa pela morte (culpar a si e a outros); sentimentos excessivos de raiva; inquietação; diminuição da quantidade e da qualidade do sono. Alucinações auditivas (por exemplo, ouvir a voz do falecido), visuais (como ver o falecido em seus lugares favoritos) e/ou sensações táteis (por exem- plo, sentir o toque do falecido) podem ocorrer no luto normal em diferentes culturas, mas podem ser mais frequentes no TLP. Geralmente ocorrem quando o indivíduo está adormecendo (alucinações que são denominadas hipnagógicas). Assim, a presença de alucinações em pacientes enlutados não necessariamente configura um quadro de psi- cose, especialmente se apresentarem essas características12. Nas crianças, algumas características do luto podem chamar atenção. Nessa faixa etária, certos comportamentos e brincadeiras podem ser a forma de manifestar o luto, incluindo regressões no desenvolvimento, ansiedade ou contrariedade em situações de separação (especialmente em crianças menores) ou de união. Deve-se atentar para os casos em que a perda envolve o cuidador, situação na qual a reposta de enlutamento da criança pode ser mais difícil. Crianças pequenas tendem a manifestar sintomas somáti- cos e neurovegetativos, como alterações de apetite, de sono e em níveis de energia. Em crianças, os critérios para TLP também podem ser preenchidos por preocupações exces- sivas envolvendo as circunstâncias da morte da pessoa querida, como focar em aspectos perturbadores da deterioração física observada ao longo do curso da doença que levou ao óbito. É importante ressaltar que, segundo o DSM-5-TR, diferentemente dos casos em adultos, o TLP já pode ser diagnosticado se os sintomas persistirem por mais do que seis meses em crianças maiores de 1 ano12. 586 Luto patológico segundo a 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças da Organi- zação Mundial de Saúde A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, em sua décima primeira edição (CID-11), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como inovação em relação à edição anterior (CID-10), também propõe o reconhecimento do diagnóstico de luto prolongado, cujos critérios diagnósticos podem ser vistos no Quadro 2. Para configurar o TLP, os sintomas precisam persistir além de seis meses após a morte e devem causar desequilíbrio funcional ao enlutado33. Ao contrário do DSM-5-TR12 e da CID- 10, a CID-11 usa uma abordagem tipológica, o que implica descrições diagnósticas simples, sem exigência estrita do número de sintomas necessários para atingir o limiar diagnóstico34. Os critérios da CID-11 são importantes, pois têm (ou terão) implicações práticas, como codificação de despesas e reembolsos médicos, assim como uso no âmbito jurídico. A. Pelo menos um dos seguintes: • Anseio persistente e generalizado pelo falecido(a); • Preocupação persistente e generalizada sobre o(a) falecido(a). B. Acompanhado de intensa dor emocional, manifestada como: • Exemplos de dor emocional intensa: sentimento de tristeza, culpa, raiva e negação; • Dificuldade de aceitar a morte; • Sentimento de que perdeu uma parte de si; • Incapacidade de experimentar humor positivo; • “Anestesia” emocional; • Dificuldade de se envolver com atividades sociais ou de outro tipo. C. O quadro causa prejuízo funcional significativo nas áreas pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento do indivíduo. O tempo do prejuízo funcional persiste por um período anormalmente longo (mais de seis meses) após a perda, claramente excedendo as normas sociais, culturais ou religiosas esperadas para a cultura e o contexto do indivíduo. QUADRO 2. CRITÉRIOS PROPOSTOS PELA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL, NA CID-11 PARA O DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO DO LUTO PROLONGADO ADAPTADO DE E TRADUZIDO DE: WORLD HEALTH ORGANIZATION. ICD-11: BETA DRAFT WEBSITE [INTERNET]. 11a ED. GENEBRA, SUÍÇA: ORGANI- ZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE; 2018 [CITADO EM 24/10/2022]. DISPONÍVEL EM: HTTPS://ICD.WHO.INT/BROWSE11/L-M/EN33. TRADUÇÃO LIVRE. Diagnóstico diferencial do transtorno do luto prolongado Em primeiro lugar, o TLP deve ser diferenciado do luto normal. Uma característica im- portante que reforça a presença de um transtorno em enlutados é o prejuízo funcional decorrente do quadro, como queda de desempenho no trabalho, além de aumento do uso de tabaco e álcool. Esses prejuízos também são incompatíveis com o que é esperado para 587 QUADRO 3. PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE O LUTO NORMAL OU TRANSTORNO DO LUTO PROLONGADO E O TRANSTORNO DEPRESSIVO MAIOR a cultura e religião do indivíduo. A importância desse achado clínico é ressaltada não so- mente pelo DSM-5, mas também pela CID-11. Outro fator objetivo que distingue os dois quadros é a duração, que deve ser maior do que 12 meses, segundo o DSM-5-TR (ou seis meses em crianças), ou seis meses, segundo a CID-1112,32. Em muitos casos, tanto o luto normal quanto o TLP podem ser confundidos com transtornos depressivos, como o transtorno depressivo maior e o transtorno depressivo persistente (antiga distimia). Isso ocorre porque os quadros compartilham sentimentos de tristeza, choro e, possivelmente, pensamentos suicidas. Porém, importantes diferen- ças existem entre o luto normal, o TLP e os transtornos depressivos, como demonstra o Quadro 3. Em especial, no luto, preserva-se a capacidade de ter experiênciaspositivas e está ausente a anedonia. Ademais, no luto, os sentimentos de vazio e perda são mais preponderantes do que um humor global e persistentemente deprimido, como obser- vado nos transtornos depressivos. Nestes, ainda, a tristeza não se associa a um tipo es- pecífico de pensamento ou preocupação, enquanto, nos enlutados, o humor deprimido, que também pode estar presente, geralmente se associa a pensamentos que têm foco na perda. Por fim, no luto, a tristeza também ocorre em “ondas”, que podem se associar a lembranças do ente perdido12. Características esperadas no luto normal ou transtorno do luto prolongado Características que sugerem um transtorno depressivo associado Sentimento predominante de vazio e perda. Disforia/tristeza são intermitentes, piorando com a lembrança da pessoa querida perdida (“ondas” de dores do luto) e diminuindo com o tempo. Pode estar preservada a capacidade de ter experiências positivas. O pensamento associado ao luto geralmente tem como conteúdo preocupação com pensamentos e lembranças do falecido. Autoestima geralmente preservada, mas, quando presente, a autodepreciação costuma envolver percepções de falhas em relação ao falecido, por exemplo, não ter feito tudo o que podia para evitar sua morte. Sentimento predominante de humor deprimido. Disforia/humor deprimido são persistentes e acompanhados de preocupações e ruminações com conteúdo autodepreciativo e de culpa, além de pensamentos com conteúdo negativo sobre o futuro (desesperança). Prejuízo à capacidade de experimentar felicidade ou prazer (capacidade hedônica prejudicada ou anedonia). As ruminações depressivas envolvem autocríticas e conteúdo pessimista, sem um tema específico ou restrito. Baixa autoestima e sentimento de inutilidade estão presentes com frequência. 588 ADAPTADO E TRADUZIDO DE: (SEM TRADUÇÃO OFICIAL PARA O PORTUGUÊS ATÉ O MOMENTO): AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DIAGNOSTIC AND STATISTICAL MANUAL OF MENTAL DISORDERS, FIFTH EDITION, TEXT REVISION. WASHINGTON, DC: AMERICAN PSY- CHIATRIC ASSOCIATION; 202212. TRADUÇÃO LIVRE. Características esperadas no luto normal ou transtorno do luto prolongado Característica que sugerem um transtorno depressivo associado Pensamentos sobre juntar-se à pessoa falecida. Conteúdo dos pensamentos suicida é abandonar a vida. Outros possíveis diagnósticos diferenciais também incluem o transtorno de adaptação e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Estudos de análise fatorial realizados com o construto diagnóstico experimental do transtorno do luto complexo persistente, como proposto inicialmente pelo DSM-5, o diferenciaram não apenas dos quadros de- pressivos, mas também desses outros diagnósticos, o que colaborou para que o TLP fosse posteriormente incorporado ao DSM-5-TR35-40. Dados mais recentes, já com o diagnóstico de TLP, demonstraram que esse novo diag- nóstico se diferenciou do TEPT, embora ambos os transtornos tenham relação entre si41. Isso porque enlutados podem desenvolver tanto TEPT quanto TLP após uma perda decor- rente de morte traumática. Contudo, enquanto os pensamentos e vivências intrusivos no TEPT giram em torno do evento traumático (circunstâncias da morte), as memórias intru- sivas no TLP têm como foco diversos aspectos do relacionamento com o falecido, incluin- do os positivos, gerando sofrimento pela separação. Ainda, tanto o TLP quanto o TEPT podem envolver a evitação de lembranças dos eventos que provocam sofrimento. Porém, enquanto o foco da evitação no TEPT são estímulos internos e externos que lembram a experiência traumática (por exemplo, andar de carro quando a morte foi causada por um acidente automobilístico), no TLP, o foco é a evitação de estímulos que fazem lembrar que o falecido já não está mais presente. Por fim, as sensações de reexperimentação de memó- rias no TEPT são descritas como flashbacks vivenciados no presente, enquanto no TLP as memórias envolvem saudosismo em relação ao passado vivenciado com o falecido12. Como exposto, pacientes com luto normal e TLP podem apresentar algumas alterações da sensopercepção, incluindo, em alguns casos, alucinações. Pacientes com quadro de psicose associado, por sua vez, geralmente apresentam psicopatologia mais florida, incluindo outros sintomas psicóticos, como delírios, desorganização do pensamento e/ou sintomas negativos12. O TLP também não deve ser confundido com o transtorno de ansiedade de separação, que é caracterizado por ansiedade associada à separação de figuras de apego atuais, en- quanto o TLP envolve sofrimento pela separação de um indivíduo falecido12. 589 Por fim, é importante diferenciar o sofrimento associado ao luto da dor espiritual, que pode ter muitas características em comum com o luto. Alguns elementos da angústia espiritual, contudo, são mais específicos, como: revolta e questionamentos envolvendo a fé; sentimentos de abandono por parte da comunidade religiosa e por Deus; sofrimento com o fardo decisó- rio decorrente das consequências que as escolhas próximas da morte podem ter; sentimentos de arrependimento com escolhas passadas e conflitos não resolvidos consigo ou com outros. Nesses casos, as intervenções devem ter uma abordagem mais voltada ao aspecto espiritual, envolvendo, por exemplo, um capelão ou um líder espiritual (padre, pastor, rabino etc.). É importante ressaltar que é possível que o mesmo paciente apresente TLP associado a outras condições comórbidas, como transtornos depressivos, ansiosos e angústia espiritual. Avaliação do luto complicado ou prolongado Identificar corretamente os enlutados que apresentam ou têm risco de apresentar res- postas de luto disfuncionais pode ser um desafio no dia a dia do clínico. Para auxiliar nes- sa tarefa, foram desenvolvidos instrumentos de rastreamento do quadro. O mais utilizado para esse fim é o Texas Revised Inventory of Grief (TRIG), desenvolvido por Faschingbauer, em 198242, traduzido e validado para o português por Alves et al., em 201643. Sugere-se um ponto de corte de 104 pontos nesse instrumento para identificar indivíduos com luto complicado. O Inventory of Complicated Grief (ICG), publicado por Prigerson et al., em 199536, é outro instrumento desenvolvido para auxiliar na identificação de pacientes com luto compli- cado. Consiste em 19 itens e tem como ponto de corte o escore de 25 ou mais pontos para predizer desfechos negativos para a saúde do enlutado. Um estudo que aplicou o ICG em 782 indivíduos enlutados obteve seis grupos de sintomas após análise fatorial: saudade e preocupação com o falecido; raiva e amargura; choque e descrença; distanciamento dos outros; alucinações sobre falecido e mudanças de comportamento, incluindo evitação e busca de proximidade. A presença de pelo menos um sintoma de três grupos diferentes resultou em sensibilidade de 94,8% e especificidade de 98,1%44. Apoio ao luto normal e tratamento do transtorno do luto prolongado Embora o luto seja um processo doloroso, a adaptação a ele geralmente ocorre de forma natural, sendo que a maioria dos enlutados não necessita de tratamento e ficará bem ao recorrer a seus próprios recursos. No entanto, isso não significa que não há nada que possa ser feito em benefício do enlutado, mesmo quando seu luto não for compli- cado e/ou prolongado. Os enlutados se beneficiam, em especial, do apoio e amor de pessoas queridas, sejam familiares, amigos, líderes espirituais ou qualquer outra pessoa 590 ou recurso que ofereça suporte e os acompanhe no processo de luto. Assim, o processo de luto necessita tanto de uma busca por recursos internos de autoajuda quanto de um apoio ofertado por recursos externos, ou seja, que envolve a ajuda de outros6. Esse apoio ao luto não começa apenas com a morte, devendo ser incluído no plano desde o início da oferta de cuidados paliativos, considerando o luto antecipatório que ocorre já antes da morte. O mesmo se aplica ao período após a morte, quando os familia- res e amigos devem receber apoio.Logo após a morte, o enlutado deve receber apoio para realizar tarefas relativas ao fu- neral, que são importantes também do ponto de vista cultural, pois garantem a disposição culturalmente apropriada do corpo6. A impossibilidade de realizar tais tarefas pode ocorrer no luto não reconhecido ou não autorizado, que, conforme discutido anteriormente, se as- socia a piores desfechos. Ademais, o funeral ajuda a tornar mais visível a realidade da morte e auxilia na reintegração social e na busca pelo sentido após a morte do ente querido6. Algumas técnicas gerais podem ser empregadas por todos os profissionais de cuida- dos paliativos na abordagem de indivíduos enlutados, independentemente das caracte- rísticas do luto. Técnicas de psicoterapia, por sua vez, são mais especializadas e são indi- cadas somente quando há o diagnóstico de um transtorno envolvendo o luto, ou seja, em uma minoria dos indivíduos6. Em especial, o profissional deve desenvolver uma escuta empática do enlutado. O Quadro 4 elenca o que o profissional deve e o que não deve fazer na abordagem do indivíduo enlutado. QUADRO 4. ATITUDES QUE O PROFISSIONAL DEVE E NÃO DEVE TER NA ABORDAGEM DO INDIVÍDUO ENLUTADO O que o profissional deve fazer O que o profissional não deve fazer • Pausar o que está fazendo e oferecer atenção plena para a escuta do enlutado, convidando-o a expressar seus sentimentos com frases como “conte-me mais sobre como está sendo”. • Perguntar o nome do falecido. Isso demonstra interesse na pessoa, evitando que a conversa adote um caráter “burocrático”. • Perguntar sobre a relação do enlutado com o falecido e sobre como está sendo o luto. Isso também faz com que o profissional demonstre interesse e que sua abordagem seja mais empática. • Realizar uma abordagem humana ao não julgar e não deslegitimar sentimentos, além de demonstrar interesse genuíno e atitude empática. • Continuar digitando ou escrevendo no prontuário, sem estabelecer contato visual com o enlutado. • Dizer “pelo menos”, por exemplo: “pelo menos ele viveu bastante”. Isso pode deslegitimar o luto. • Utilizar frases com “deveria ter…”, por exemplo: “você deveria ter prestado mais atenção nos sinais iniciais da doença”. Isso aumenta a culpa do enlutado e o julga. • Perguntar “por que”, como: “por que você não aproveitou mais quando tinha ele por perto?”. Isso também aumenta a culpa do enlutado e o julga. 591 O que o profissional deve fazer O que o profissional não deve fazer • Fornecer psicoeducação sobre luto, esclarecendo ao enlutado o que é uma resposta de luto normal quando alguém que amamos morre (mas sem deslegitimá-la). Explicar quando essa resposta pode ser disfuncional e que, nesses casos, é necessária ajuda profissional. • Identificar e validar emoções do enlutado, por exemplo: “vejo que você está sentindo muito remorso”. Isso faz com que o profissional deixe claro que está entendendo o que o enlutado está tentando transmitir e, mais do que tudo, está de fato ouvindo. • Normalizar alguns sentimentos com os quais os enlutados podem se preocupar. Por exemplo, no caso de indivíduos que se questionam se é normal manter conversas com o falecido, o profissional pode dizer “é muito comum que pessoas continuem conversas com um cônjuge falecido. Também é comum que essa pessoa se questione se está enlouquecendo quando essas conversas ocorrem.” Muitas vezes é necessário perguntar ativamente, pois o enlutado pode não relatar espontaneamente. Nesses casos, é preciso citar essa situação hipotética e questionar: “você se identifica com alguma situação como essa?”. • Dizer que “o tempo cura todas as feridas”. Isso também deslegitima o luto. • Dizer que “entende totalmente”. Isso pode ser visto como falso e “forçado”. O profissional pode ter empatia, mas só o enlutado consegue entender totalmente seu próprio luto, pois se trata de uma experiência extremamente individual. • Tentar “consertar a situação”, dizendo, por exemplo: “você não precisa se sentir culpado, pois fez tudo que estava ao seu alcance”. Isso também deslegitima os sentimentos do enlutado. Em linhas gerais, portanto, é fundamental que os enlutados se sintam escutados. Para isso, o profissional deve ter uma aceitação incondicional e evitar julgamentos a todo cus- to. Deve demonstrar interesse genuíno no enlutado, no falecido e na relação entre eles, com vontade de compartilhar a dor. O foco da abordagem deve ser estimular atitudes e comportamentos que promovam a adaptação6. No seguimento longitudinal, o profissio- nal deve monitorar sinais de sofrimento e de prejuízo à funcionalidade, perguntando, por exemplo, a frequência das ondas de tristeza, sua duração, intensidade e se compro- metem o desempenho das atividades do enlutado. Tratamento do transtorno do luto prolongado É fundamental que o TLP seja identificado e tratado, uma vez que é uma condição potencialmente debilitante e persistente, porém tratável45. Uma técnica de psicoterapia desenvolvida especificamente para o TLP foi descrita, a Terapia do Transtorno do Luto Prolongado (TTLP), cujo objetivo é identificar e resolver as complicações do luto e faci- litar a adaptação à perda. Em linhas gerais, a técnica envolve promover a restauração 592 do enlutado (ou seja, restaurar sua funcionalidade e suas perspectivas e planos para o futuro) e elaborar a perda (ou seja, fazer com que o enlutado a vivencie de forma mais saudável, sem associá-la a sofrimento e sentimentos intensos de raiva, culpa ou ansieda- de). Os componentes abordados na TTLP estão elencados no Quadro 5. QUADRO 5. COMPONENTES ABORDADOS NA TERAPIA DO TRANSTORNO DE LUTO PROLONGADO Componente Descrição Estabelecer os fundamentos Promover a autorregulação Construir conexões Estabelecer metas e aspirações Revisitar o mundo Contar histórias Utilizar a memória • Discussões sobre a natureza da perda e do luto e a adaptação a ele; • Descrever as complicações do luto e seus efeitos; • Descrever o tratamento e o racional por trás dele. • Automonitoramento, auto-observação e reflexão; • Reavaliar crenças e pensamentos problemáticos; • Estender a compaixão para si mesmo; • “Dosar” a dor emocional ao confrontá-la e deixá-la de lado. • Desenvolver estratégias para estabelecer conexões significativas com outros; • Compartilhar a dor e permitir que outros ajudem. • Explorar ambições por metas pessoais e atividades que gerem esperança e anseios; • Gerar entusiasmo e outras emoções positivas associadas à vida que continua; • Criar um senso de propósito e possibilidades de felicidade futura. • Desenvolver estratégias para confrontar ou vivenciar de novo situações que passaram a ser evitadas com o luto. • Narrar novamente a história da morte e refletir sobre ela, com o objetivo de criar uma versão aceitável; • Praticar a habilidade de confrontar a dor e deixá-la de lado. • Relembrar memórias positivas envolvendo o falecido e permitir reminiscências de memórias negativas; • Descrever uma conversa imaginária com o falecido. ADAPTADO DE: SHEAR, N ENGL J MED 201545. Evidências apontam para a eficácia da TTLP no tratamento do TLP. Dois ensaios clíni- cos randomizados que compararam a técnica com a terapia interpessoal46,47, que é me- nos estruturada, dedica menos tempo para discutir a morte e para lidar com a esquiva associada a lembranças da perda, não evoca memórias ou conversas imaginárias com a pessoa falecida e tampouco realiza um monitoramento do luto. Esses estudos reporta- 593 ram taxas de respostas de 51% e 71% da TTLP contra 28% e 32% da terapia interpessoal, resultados estatisticamente significativos46,47. Outro ensaio clínico randomizado multicêntrico realizado nos Estados Unidos compa- rou, durante 12 semanas, quatro grupos: TTLP associada a citalopram, TTLP associada a placebo, citalopram apenas e placebo apenas. Os resultados apontaram a superioridade da TTLP associada a placebo em relação ao uso de placebo apenas. A TTLP associada a citalopram também foi melhor do que otratamento apenas com citalopram. Porém, a TTLP associada a citalopram não foi melhor do que quando associada a placebo. O estudo, portanto, apontou para a eficácia da TTLP, com redução importante dos sintomas do TLP e da ideação suicida em pacientes graves, independente do uso concomitante de antidepres- sivo. Ademais, o citalopram não teve efeito relevante no tratamento e não potencializou os efeitos da psicoterapia. O estudo também apontou a eficácia da TTLP em pacientes que apresentavam luto decorrente tanto de mortes violentas quanto de não violentas48. Também se pode concluir, a partir dos estudos publicados, que, de todos os trata- mentos avaliados para o TLP, aparentam ter mais eficácia as intervenções que incluem estratégias para reduzir a evitação de pensamentos sobre a morte e a esquiva envol- vendo atividades e lugares que relembram a perda quando comparadas às técnicas que não incluem esses componentes. Intervenções que têm como base a técnica de ativação comportamental, que envolve estimular o paciente a se engajar em atividades prazero- sas, também apresentaram alguma eficácia em estudos menores. Essa técnica, porém, ao estimular o engajamento dos pacientes em atividades, mesmo que elas relembrem a perda, também promove o enfrentamento da esquiva, o que pode explicar a resposta ob- servada45. Dessa forma, o componente de enfrentamento da esquiva parece ser central no tratamento do TLP, sendo muito enfatizado na TTLP. Diante desses resultados, portanto, a TTLP é considerada o tratamento de primeira linha para o TLP45, devendo ser priorizada em relação a outros tipos de terapias e a antidepressivos. Cabe a ressalva, porém, de que, apesar de aparentemente não terem benefício direto no trata- mento do TLP, os antidepressivos devem ser prescritos quando há depressão comórbida. Da mesma forma, outros aspectos relacionados ao luto, como as perdas secundárias no âmbito social, quando presentes, devem ser adequadamente abordados pela equipe. É o caso de per- das financeiras decorrentes da morte (por exemplo, em uma família em que a pessoa falecida era o provedor). Nesses casos, é importante envolver o profissional de assistência social. Considerações finais O luto é um fenômeno descrito e estudado há séculos por diferentes correntes de 594 pensamento, algumas das quais buscaram criar modelos teóricos que o explicassem. Os modelos mais difundidos e que prevaleceram por muito tempo se basearam nos concei- tos psicanalíticos da necessidade de “desinvestimento” em relação ao ente querido que faleceu. Esses modelos também se basearam na divisão do processo de luto em estágios específicos. Teorias mais modernas, por sua vez, vêm se distanciando desse contexto e buscam descrever o luto como um processo de adaptação à nova realidade e de ressigni- ficação da relação com o falecido. Assim, atualmente, não mais se propõe que o vínculo com o ente querido perdido seja interrompido (ou que haja um “desinvestimento” nele), mas que ele perdure, embora com novas características diante da realidade da perda. Da mesma forma, o luto, antes dividido em estágios, atualmente é melhor explicado como um processo dinâmico cujo foco oscila entre a perda e a restauração. O processo de luto é individual e influenciado por características próprias do enlutado, e aspectos sociais, culturais e espirituais. Não existe uma resposta padronizada ou típica, portanto. Em geral, a maioria dos enlutados evolui para uma adaptação à perda, embora alguns possam evoluir para o que atualmente se descreve como TLP. Certos fatores de risco foram identificados para essa evolução desfavorável, como uma perda por morte violenta. A maioria dos enlutados não necessita de intervenções especializadas, mas o profis- sional de cuidados paliativos pode ajudar no processo de luto ao utilizar técnicas que promovam uma escuta empática. Acima de tudo, o enlutado deve se sentir ouvido e seu luto deve ser validado, por meio de um diálogo aberto, franco e sincero sobre a morte e o morrer. Na minoria dos pacientes que evolui para o TLP, intervenções especializadas como a TTLP encontram evidências na literatura que corroboram sua indicação como tratamento de primeira linha para essa condição. Assim, é fundamental que o profissio- nal identifique corretamente esses pacientes, de forma a propor um tratamento adequa- do e tempestivo e evitar o sofrimento que é associado ao TLP. Referências 1. Harris DL. Counting our losses: Reflecting on change, loss, and transition in everyday life. Nova York: Routledge; 2011. 2. 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Optimizing treatment of complicated grief: A randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2016; 73(7):685-694. 599 Comunicação de Notícias Difíceis Capítulo 30 Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Elio Barbosa Raimondi Belfiore Fundamental para os cuidados paliativos, comunicar notícias difíceis é uma situação com a qual a maioria dos médicos um dia irá se deparar. Para o paciente ou seus familia- res, receber, por exemplo, o diagnóstico de uma doença terminal, pode ser um evento ex- traordinariamente estressante. Por isso, uma comunicação eficaz e centrada no paciente é essencial durante todo o cuidado, pois leva a uma maior confiança no médico e mais satis- fação do paciente, além de desfechos de saúde melhores, como maior adesão ao tratamen- to e melhor controle da dor1-4. Uma estratégia comunicativa proativa também resulta na diminuição dos sintomas ansiosos, depressivos e relacionados ao transtorno do estresse pós-traumático em familiares, após a morte do paciente5,6. Por estimularem a exposição de seus desejos e a expressão de suas emoções, encontros com pacientes e familiares mais longos e mais frequentes também permitem aliviar sentimentos de culpa e favorecer o entendimento dos objetivos do tratamento e de metas realistas de cuidado5. Algumas estratégias de comunicação foram criadas para atingir esses objetivos, uti- lizando estruturas e habilidades em comum. Muitas dessas habilidades são as mesmas necessárias em outros contextos da prática clínica, apesar de particularidades inerentes ao conteúdo de uma notícia difícil. A comunicação eficaz de qualquer informação mé- dica pressupõe que o paciente a entenda, acredite nela, a memorize e a siga (no caso de orientações). Nessa linha, recomenda-se que as notícias difíceis sejam comunicadas de maneira empática, pessoalmente, utilizando linguagem simples, garantindo a privacida- de do paciente, em um encontro com tempo adequado. O médico deve permitir pergun- tas; ser otimista, mas sem deixar de ser honesto e sem oferecer falsos reasseguramen- tos; saber reconhecer as reações e emoções do paciente e ser empático. O paciente deve poder contar com a presença de familiares e/ou pessoas próximas para confortá-lo7,8. A estratégia de comunicação que garanta esses elementos promoverá a confiança do paciente por seu médico e fortalecerá a relação entre ambos1. Criar esses relacionamen- tos, em que os pacientes se sintam ouvidos, reconhecidos e compreendidos, podendo revelar seus medos, preocupações e preferências sobre sua saúde, é reparador por si só. 600 Conceitos e definições • Notícia difícil: a expressão “má notícia” pode ser definida como “qualquer in- formação que possa alterar drasticamente a visão de um paciente sobre seu futu- ro”12 ou que “resulte em um déficit cognitivo, comportamental ou emocional na pessoa que a recebe, que persiste por algum tempo após o recebimento da notí- cia”7. Contudo, o que é considerado ruim depende de fatores subjetivos e próprios do paciente e nem sempre o que o médico imagina ser uma má notícia é visto da mesma forma pelo paciente ou por seus familiares7,8. Por exemplo, enquanto a notícia do achado de uma úlcera benigna pode ter um impacto negativo em um paciente que realizou uma endoscopia de rotina e terá que modificar sua dieta, o mesmo achado pode ter um impacto extremamente positivo em um paciente que realizou o mesmo exame após um quadro de hematêmese e se preocupava com um possível diagnóstico de câncer de estômago. Da mesma forma, notícias que podem ser consideradas mais triviais, como o diagnóstico de hipertensão arte- rial sistêmica, podem ser recebidasde forma neutra por muitos pacientes, mas também podem gerar grande impacto em pacientes que, por exemplo, tenham um ente querido que faleceu por um acidente vascular hemorrágico de etiolo- gia hipertensiva. Assim, fatores como o contexto clínico, valores e experiências pregressas podem definir se uma notícia é ruim ou não, a depender do paciente. Muitos deles, portanto, preferem que não seja o médico a definir se uma notícia é ruim ou não mas que isso seja explorado junto com o paciente13. Por esse motivo, alguns autores preferem outros termos, como “notícia séria” ou “notícia difícil”, em vez de “má notícia” ou “notícia ruim”10. Nesta obra, utilizaremos o termo “no- tícia difícil”, pois julgamos ser um termo mais apropriado na língua portuguesa. Para isso, é possível desenvolver e cultivar as habilidades de comunicação necessárias para criar uma relação médico-paciente de qualidade10,11. Neste capítulo, serão discuti- das estratégias e técnicas que auxiliam a comunicação de qualidade quando é necessário informar pacientes e familiares de notícias difíceis. Percepções e preferências de pacientes e médicos quanto à comunicação de notícias difíceis Nas últimas décadas, conceitos como o consentimento informado e a decisão médica compartilhada passaram a predominar na prática médica, substituindo o paternalismo, 601 antes muito comum. Com essa mudança de paradigma, descrita em maiores detalhes no Capítulo 37, o médico passou a ter o dever de informar ao paciente detalhes de seu quadro. A prática paternalista, antes comum, de omitir informações, “para o bem do paciente”, passou a ser eticamente inapropriada. No passado, o paternalismo se justificava em suposições de que os pacientes não ti- nham desejo de saber sobre informações negativas sobre sua saúde. Possíveis razões para omitir essas informações seriam: causar desespero e sofrimento emocional ao pa- ciente e seus familiares; submetê-lo ao estigma por ter uma doença terminal e correr um risco aumentado de suicídio. Contudo, pesquisas mais recentes apontam que até 87% dos pacientes querem saber todos os detalhes de sua saúde, principalmente infor- mações relativas ao prognóstico e chances de cura14. De fato, existem diferenças culturais quanto a essas percepções e desejos dos pacien- tes. Em culturas orientais, um número maior de pacientes prefere não ser informado e as decisões médicas tendem a ser tomadas em família, em vez de individualmente por quem sofre da doença15. Contudo, o médico não deve pressupor que essa seja a preferên- cia do paciente. Assim, a primeira etapa ao comunicar uma notícia difícil é perguntar ao paciente sobre a quantidade de informação que deseja saber, assim como suas preferên- cias quanto à maneira de ser comunicado e a pessoa que transmitirá a notícia. Em algumas situações, o médico pode se deparar com familiares que requisitam que o paciente não seja informado de uma notícia difícil. Nesse cenário, deve-se primeiramente avaliar as motivações por trás da demanda, oferecendo um contraponto a elas. Em muitas vezes, fatores culturais predominam e a família acredita que essa é uma forma de proteger o paciente e evitar que perca a esperança16. Caso o impasse continue, o médico deve sem- pre perguntar ao paciente que possui capacidade para consentir qual é sua preferência e respeitá-la. É recomendável explicar à família que essa é a preferência do paciente e, mes- mo que não corresponda à dos familiares, deve ser respeitada pelo médico17. Apesar da mudança de paradigma na prática médica, muitos médicos ainda não se veem dispostos a contar notícias difíceis18. Possíveis barreiras incluem o medo de falhar ou de ser inadequado, medo das próprias emoções do profissional, medo de perder o controle da situação e a sensação de falta de conhecimento para responder eventuais perguntas de pacientes e/ou familiares19. Assim como na Ásia, atitudes paternalistas são mais arraigadas em países da América do Sul, como o Brasil, embora o Código de Ética Médica brasileiro tenha passado a valo- rizar mais a autonomia do paciente a partir da década de 2010, se comparado ao Código de 198820. Nessa linha, o artigo 34 do Código de Ética Médica brasileiro atual veda ao 602 médico “deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os obje- tivos do tratamento”. No entanto, o mesmo artigo faz a seguinte ressalva: “salvo quando a comunicação direta possa lhe provocar dano, devendo, nesse caso, fazer a comunicação a seu representante legal”21. O artigo, porém, não define o que poderia ser considerado dano e, apesar de ser um fato que a maioria dos pacientes reage negativamente a notícias difíceis22-25, não é correto o médico presumir que isso obrigatoriamente resulte em um dano ao paciente ou, então, que este deseja ser privado dessas informações. Assim, o princípio da autonomia deve ser aplicado na comunicação de notícias difíceis também por médicos brasileiros, que devem seguir os desejos do paciente que tem capacidade de consentir quanto à quantidade de informação sobre sua saúde que deseja receber. Pressupor que o desejo do paciente é não receber a informação é incorreto, mesmo por- que, até mesmo em culturas em que o paternalismo predomina, muitos pacientes ainda assim desejam saber sobre a totalidade da informação15. Portanto, idealmente, o médico e seu paciente devem ter uma relação de transpa- rência e respeito mútuo, em que objetivos comuns sejam definidos por meio da deli- beração conjunta, conceito explorado em maiores detalhes no Capítulo 40. Ao explorar as preferências do paciente, o médico pode definir com mais precisão aquilo que deve comunicar. Infelizmente, no entanto, muitos pacientes julgam que a comunicação de notícias difíceis por seus médicos deixa a desejar26,27. A seguir, são elencadas estratégias que podem aprimorar essa comunicação. Reações dos pacientes frente a notícias difíceis e seu impacto sobre eles A reação a uma notícia difícil apresenta grande variabilidade entre os pacientes. Fa- tores como a expectativa prévia, experiências de vida e aspectos da personalidade do paciente têm uma influência importante na forma de reagir9. De fato, a maioria dos pacientes reage com sentimentos negativos, como horror, descrença, choque, raiva e tristeza22-25. A forma de elaborar esses sentimentos foi descrita por meio de modelos teó- ricos do luto, abordados em maiores detalhes no Capítulo 29 e cuja compreensão é fun- damental para aprimorar a qualidade da comunicação de notícias difíceis. Conforme exposto, a suposição de que a comunicação de notícias difíceis não é algo desejado pelo paciente, por lhe causar dano, era utilizada como justificativa para a omissão, antes prevalente, de informações ruins. Porém, uma relação médico-paciente adequada pressupõe incentivar a elaboração desses sentimentos negativos e o desen- volvimento de respostas adaptativas saudáveis. Para isso, também são fundamentais os cuidados espirituais e o apoio de familiares e pessoas queridas28. O resultado almejado é 603 justamente o contrário: maior satisfação e menos ansiedade para o paciente, levando a melhores desfechos clínicos. Omitir a informação, ao contrário, privaria o paciente do processo de elaboração do luto e, ao presumir e ignorar seus desejos, o resultado seria impedi-lo de tomar as decisões que julga serem melhores para a sua vida, segundo suas necessidades individuais e valores pessoais. Além disso, a omissão dessas informações viola a autonomia do paciente e pode minar a confiança na profissão médica como um todo, já que a relação médico-paciente se baseia na confiança29. Ademais, mais do que contar ou não, a forma de comunicar a informação parece in- fluenciar a reação emocional1,30. Pesquisas demonstram que essa reação é muito pior em pacientes que recebem esse tipo de informação de forma inadequada, que não obtêm explicações sobre conceitos médicos, que são apressados a tomar decisões importantes e que não têm seus sentimentos considerados24.A visão desses pacientes quanto à equi- pe de saúde também é influenciada pela forma como as notícias difíceis são comunica- das, assim como sua perspectiva de futuro1. Assim, a grande preocupação dos médicos não deveria ser omitir informações ruins sobre a saúde de seus pacientes, mas, sim, buscar aprimorar as técnicas usadas para comunicá-las. O médico deve ter, acima de tudo, sensibilidade, cuidado e empatia ao comunicar notícias difíceis. Para isso, o primeiro passo é determinar quanto o paciente deseja sa- ber, o que promove sua autonomia e o faz estar no controle do processo de comunica- ção da notícia. Em seguida, com base no desejo do paciente, o médico deve explicar as informações sobre sua saúde de forma clara, bem como fornecer apoio e um plano de cuidado30. Além disso, o médico deve explorar os sentimentos do paciente, o que está associado a diminuição de sintomas ansiosos e aumento de sua satisfação e aderência ao tratamento31. Para isso, o médico deve perguntar ao paciente, por exemplo, sobre suas percepções quanto à sua condição e ao impacto da doença em sua vida diária, às quais deve reagir de forma empática. Outro fator importante para a reação do paciente é sua expectativa prévia quanto à informação sobre sua saúde que será comunicada. Dessa forma, uma quebra de expec- tativa pode levar a uma reação mais intensa, para um mesmo conteúdo de uma notícia difícil, por mais negativo que seja, em comparação a situações em que aquela notícia já era esperada. Por exemplo, uma paciente previamente hígida, que procura um pronto- -socorro com dor nas costas após fazer exercícios físicos, reagiria com choque ao diag- nóstico de um câncer de mama com metástase vertebral como causa de sua dor. Essa mesma notícia terá um impacto diferente no paciente que tinha uma expectativa dife- rente e já contemplava essa hipótese, como uma paciente com dor nas costas, que já es- 604 tava em tratamento para câncer de mama, em que é diagnosticada a recidiva da doença na forma de metástase vertebral. Por isso, os protocolos desenvolvidos para auxiliar na comunicação de notícias difíceis incluem etapas que envolvem avaliar as expectativas prévias do paciente antes de comunicar o conteúdo negativo8. O papel da empatia na comunicação de notícias difíceis e sua influência no impacto sobre pacientes A empatia é um componente crucial da experiência emocional humana e da intera- ção social. É a capacidade do ser humano de compartilhar os estados afetivos daqueles com quem se relaciona, o que permite prever e entender seus sentimentos, motiva- ções e ações32. A empatia também é observada em outras espécies, como em ratos, que exibem uma resposta pró-social ao agir de maneira deliberada para acabar com o sofrimento de outro espécime submetido a um estressor psicológico não doloroso. Em um experimento, o rato manifesta esse comportamento, baseado na empatia, ao se esforçar para aprender a abrir a cela do outro animal preso, na tentativa de tirá-lo de uma situação de sofrimento. Ainda, quando ratos livres tinham acesso a chips de chocolate, na maioria das vezes, muitos deles não comiam sua totalidade, deixando alguns para os ratos enjaulados que libertavam33. A maioria dos seres humanos apresenta comportamentos análogos ao ver outros indi- víduos em situação desfavorável, como quando a morte se aproxima. Porém, o uso da lin- guagem na comunicação da resposta empática a torna consideravelmente mais complexa. Não obstante, estudos recentes em neurociência social aumentaram o conhecimento sobre as bases cerebrais da empatia em seres humanos. Por exemplo, a preocupação empática se associa a maiores atividades em determinadas regiões cerebrais, como a ínsula anterior, o córtex cingulado anterior dorsal e o córtex cingulado medial anterior, em indivíduos ex- postos a imagem de pessoas sofrendo dor ou submetidas a outros estressores não álgicos, como exclusão social, repulsa e ansiedade32. Tais respostas empáticas cerebrais não são fi- xas e podem ser moduladas pelo indivíduo ao avaliar o contexto, como a percepção sobre a honestidade do outro ou sua associação a um grupo32,34. Por sua vez, o fenômeno psicopato- lógico denominado alexitimia, caracterizado por dificuldades na identificação e descrição de sentimentos, pode comprometer a manifestação de uma resposta empática32. Quando incorporada à comunicação, a empatia melhora a relação entre a equipe mé- dica, paciente e seus familiares nas doenças ameaçadoras da vida. Um maior nível de empatia por parte do médico também se associa a desfechos clínicos melhores em seus pacientes35,36. Uma interação interpessoal empática e compassiva entre médico e pacien- 605 te influencia positivamente o entendimento deste último sobre questões relativas a sua saúde37, as decisões tomadas quanto a seu tratamento38, sua capacidade de ajustamento a sua nova realidade e seu bem-estar psicológico39. Assim, atentar à empatia e buscar aprimorá-la é algo fundamental para um bom cuidado ao paciente. O impacto das notícias difíceis no médico A prática médica expõe o profissional repetidamente a estímulos adversos vivenciados por outros. Essa exposição pode se associar a grande sofrimento profissional, incluindo quadros como o de burnout, detalhado no Capítulo 3340-42. Diante disso, aventa-se a hipóte- se de que os médicos podem desenvolver uma resposta cerebral involuntária de autopro- teção. Evidências desse mecanismo de regulação emocional foram observadas em estudos eletroencefalográficos que avaliaram, pela análise de potenciais evocados, a resposta de médicos e controles, quando expostos a imagens que remetiam ou não à dor. Os achados mostraram que os controles apresentavam respostas diferentes diante de estímulos que remetiam à dor em relação aos que não remetiam. Essa capacidade de apresentar respos- tas diferentes a cada um desses estímulos não foi observada em médicos, o que indica que os profissionais avaliados modularam sua resposta cerebral, de forma a atenuá-la dian- te da percepção de dor em terceiros. Tal mecanismo regulatório pode ser uma forma de adaptação à constante exposição a estímulos correlatos na prática médica42. Diante desse cenário, é importante que o médico busque cultivar e preservar sua capaci- dade empática. Evidências mostram que uma comunicação centrada no paciente aumenta a sua satisfação, o que se associa a menores taxas de burnout37. Níveis menores de empatia em médicos também se associaram a maiores taxas de burnout43. Assim, o médico precisa estar ciente de suas características individuais que afetam sua capacidade empática, além de barreiras a ela. Da parte do médico, características como compaixão e facilidade com interações interpessoais naturalmente favorecem a incorporação da empatia à prática clí- nica. Uma motivação para se conectar com o paciente e também o próprio treinamento do médico promovem o uso da empatia. Ademais, a forma como o médico entende a empatia também influencia seu uso na prática clínica. Por exemplo, um médico pode limitar as co- nexões empáticas com seus pacientes quando enxerga a empatia apenas como a sensação de compaixão e cuidado. Ao contrário, médicos que vêem a empatia como a capacidade de entender a perspectiva do paciente tendem a não achar necessário se distanciar emocio- nalmente. Por fim, a flexibilidade na avaliação e tratamento dos pacientes, baseada em fa- tores individuais e situacionais, é valorizada por médicos empáticos, permitindo a adoção de condutas individualizadas para cada paciente segundo tais fatores44. 606 Possuir características individuais que favorecem a empatia, contudo, pode não ser suficiente. Em muitos casos, barreiras à empatia surgem na prática clínica, podendo ser internas ou externas. Barreiras internas, por exemplo, podem envolver limites profissio- nais e distanciamento emocional impostos pelo médico por medo de se tornar envolvido demais com o caso. Já outros médicos podem se enxergar como figuras de autoridade, o quefaz com que não ouçam o paciente. Há ainda os que temem críticas e erros no julgamento clínico, evitando ouvir o paciente e demonstrar empatia. Médicos doentes, exaustos e desmotivados também sofrem com esse tipo de barreira à resposta empática. As barreiras externas, por sua vez, envolvem questões do sistema de saúde, como buro- cracia excessiva, questões de honorários e de tempo disponível para a comunicação com o paciente, além de rigidez excessiva a protocolos e checklists. Situações de grande estres- se também dificultam a resposta empática, uma vez que a atenção do médico tende a se voltar a necessidades mais imediatas44. Uma vez existentes as condições e minimizadas as barreiras, é possível pôr em prática a resposta empática na interação com pacientes. O nível inicial de empatia envolve ati- tudes como se atentar ao conforto do paciente, ter limites mais flexíveis de tempo para a interação com ele, sentar-se ao invés de permanecer em pé, praticar a escuta ativa e realizar perguntas abertas. São comportamentos e habilidades básicas que podem ser ensinadas e incorporadas de rotina à prática clínica, mesmo quando o médico não apre- senta uma empatia genuína. Nesse caso, o foco ainda é apenas tratar a doença44. Níveis mais iniciais de empatia podem ajudar na satisfação do paciente, mas ge- ralmente são insuficientes, em especial nos casos em que a demanda emocional é maior. Nesses casos, o médico pode ser visto como robotizado e até mesmo dissimu- lado por alguns pacientes caso limite sua empatia a esses comportamentos. A empa- tia genuína, ao contrário, envolve, além dessas habilidades, uma conexão compassi- va com o paciente. Para que tal conexão se estabeleça, é fundamental que o médico não restrinja a visão sobre o paciente somente à sua doença como, por exemplo, apenas a um “caso de linfoma” ou a um “candidato a transplante cardíaco”. Deve- -se enxergá-lo como um indivíduo e se preocupar em entender sua perspectiva da situação. Para isso, também deve se atentar a fatores não médicos influenciando o cuidado. O médico passa, então, a ver o paciente como uma pessoa, como um todo. Por exemplo, passa a enxergar sua perspectiva na ótica de um pai ou mãe de alguém, uma pessoa com uma profissão, alguém com gostos e uma história própria. Por fim, nesse estágio, o médico é capaz de comunicar o próprio entendimento da situação, utilizando reflexões precisas sobre as manifestações do paciente44. 607 Da mesma forma como a empatia precisa ser cultivada diante de um cenário de cons- tante exposição ao sofrimento de terceiros, também é fundamental promover o autocui- dado do profissional envolvido em cuidados paliativos. O próprio ato de comunicar uma notícia difícil, por si só, se associa a estresse, pensamentos de fracasso e dificuldade para lidar com sentimentos como pena e culpa, que podem perdurar para muito além do fim da interação com o paciente45,46. Uma estratégia para atenuar o estresse é realizar os chamados “grupos Balint”, reuniões periódicas da equipe com um facilitador, que buscam aumentar a habilidade do profissional da saúde em reconhecer suas próprias emoções durante a interação com o paciente e refletir sobre elas, de forma a aprimorar a relação médico-paciente. Nos grupos, os participantes descrevem espontaneamente os encontros com o paciente, que são discutidos pelo grupo com um foco na narrativa e nas emoções que dela surgem47. Algumas evidências mostram que a realização de grupos Balint pode minimizar o burnout, em especial dois de seus componentes: exaustão emo- cional e despersonalização. Também pode diminuir os níveis de alexitimia e melhorar a percepção de suporte social, embora não tenha impactado a percepção quanto ao nível de estresse, tampouco melhorado a falta de sentimento de realização profissional48. O papel do treinamento de habilidades de comunicação e de protocolos para a comu- nicação de notícias difíceis Como exposto, a forma de comunicar uma notícia difícil pode ter um impacto nega- tivo tão grande quanto o conteúdo em si. Da parte do profissional, a tarefa se associa a grandes níveis de estresse e a um importante fardo de responsabilidade. Como resulta- do, pode surgir relutância em realizar essa tarefa, o que foi denominado efeito “MUM” (“MUM” effect)49. O efeito MUM é particularmente forte quando o destinatário da notícia difícil já está se sentindo angustiado50. Assim, para muitos clínicos, um treinamento adi- cional na divulgação de informações desfavoráveis ao paciente pode ser útil para au- mentar sua confiança nessa tarefa e superar barreiras. Isso suscita questionar quanto à possibilidade de se aprimorarem as habilidades de co- municação através de estratégias de treinamento. De fato, estudos vêm demonstrando que é possível aprimorá-las em médicos, por meio de programas de treinamento que promovem o desenvolvimento de habilidades, tais como atentar-se às emoções do paciente, promover que este explore suas percepções, solicitar permissão para dar a notícia e desenvolver em- patia10,11,51-56. Contudo, os dados quanto ao impacto em desfechos clínicos desses programas de treinamento ainda são inconsistentes55,56, apesar das evidências citadas anteriormente neste capítulo que apontam a associação de uma boa comunicação a melhores desfechos. 608 Outra forma de treinar habilidades de comunicação de notícias difíceis por médicos tem sido o uso de técnicas de simulação realística. Para isso, foram desenvolvidos mo- delos que emulam uma variedade de cenários com diferentes respostas culturais e reli- giosas a notícias difíceis, ou mesmo situações potencialmente delicadas e conflituosas, a fim de preparar os médicos para essas situações. Para isso, são utilizados ambientes preparados e atores treinados para reproduzir a sensação da vivência da prática clínica. No entanto, ainda há grande heterogeneidade nas formas em que esse tipo de simulação tem sido usada, enquanto os benefícios das diferentes abordagens e quando e como elas devem ser utilizadas ainda não estão claros57. Não obstante, a simulação com scripts, autorreflexão, briefing, debriefing e feedback ponto a ponto pode ser uma ferramenta edu- cacional útil para preparar o médico para a prática clínica real. Esse modelo de apren- dizado pode ajudar estudantes de medicina no internato a desenvolver as habilidades necessárias para entregar de maneira eficaz e empática as notícias difíceis aos pacientes e familiares quando adentrarem a prática médica58. Como resultado do treino de habilidades de comunicação, incluindo cenários simu- lados, os médicos podem se sentir mais confortáveis e seguros em dar notícias difíceis, além de apresentarem menor exaustão emocional, diminuindo assim o risco de sofre- rem com o estresse associado à tarefa59. Estratégias de comunicação de uma notícia difícil: SPIKES e outros protocolos Apesar de ser uma tarefa de difícil padronização, dadas as particularidades de cada paciente e de cada contexto, tem-se buscado aprimorar a comunicação de notícias di- fíceis. Para isso, foram criadas diversas diretrizes ou modelos que servem como uma estrutura para esse tipo de comunicação. A maioria segue uma abordagem em comum, composta por etapas semelhantes, a saber: • Preparação para a divulgação (acertar o cenário, descobrir o quanto o paciente sabe e deseja saber); • Divulgação (usando linguagem clara e direta, entregue com empatia e verificando a compreensão); e • Acompanhamento (responder às emoções, responder perguntas, identificar os pró- ximos passos, fechar a entrevista). Esse tipo de estrutura se baseia no conceito “pergunta-fala-pergunta” (“ask-tell-ask”, em inglês), que consiste em perguntar aos pacientes sobre sua compreensão atual de 609 um problema (“pergunta”), elaborar uma explicação (“fala”) que seja direcionada ao seu nível de conhecimento e preferências de informação e, finalmente, perguntar no- vamente ao paciente o que entendeu a respeito do que foi comunicado (“pergunta”). Um exemplo de implementaçãoEspe- cialista em Medicina da Dor. Coordenador responsável pelo Centro de Treinamento e Terapêutica da Dor – NSF / Grupo São Paulo credenciado junto à SBA / Associação Médi- ca Brasileira (AMB). Mestre em Ciências Médicas pela Faculdade de ciências médicas da Unicamp (FCM-Unicamp). Vanessa Souza Santana Médica graduada e com residência médica em clínica médica pela Faculdade de Ciên- cias Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP). Editora Executiva Concilia Ortona Jornalista da área da Saúde há mais de 30 anos. Especialista em Bioética pelo Instituto Oscar Freire – Universidade de São Paulo (IOF/USP). Mestre em Saúde Pública, com ênfase em Bioética, pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Organizadores vii Autores Alana Valle Botelho Castelani Médica sanitarista com especialização em Administração em Saúde e Mestrado em Saúde Coletiva pela Unicamp. Atua na assistência e gestão da atenção primária, gestão hospitalar e na vigilância epidemiológica. Aluisio Marçal de Barros Serodio Médico, especialista em Bioética pelo IOF/USP, professor adjunto do Setor de Bioética, Departamento de Cirurgia, da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM), e delegado do Cremesp. Ana Paula de Souza Vieira Santos Médica anestesiologista, com área de atuação em Dor, na SBA/AMB. Mestrado e Dou- torado pela FCMSCSP, pós-graduação em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium Lati- noamerica – Buenos Aires/AR. Pós-Graduação em Psiquiatria pela FCMSCSP. Amir Zeide Charruf Cirurgião do Aparelho Digestivo do Grupo do Estômago do Hospital das Clínicas da FMUSP (HC-FMUSP) e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp – Octávio Frias de Oliveira). Membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva e da Asso- ciação Brasileira de Câncer Gástrico. Augusto Bragança Reis Rosa Médico neurologista pelo Hospital Universitário (HU), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Beatriz Mendes Awni Médica residente de Oncologia Clínica do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo. Bernardo Assumpção de Monaco Médico com residência médica em Neurocirurgia pela FMUSP. Neurocirurgião fun- cional na Clínica de Dor e Funcional. Clinical fellow em neurocirurgia no Jackson Memo- rial Hospital/University of Miami, Flórida, Estados Unidos - 2022/2023. Membro da direto- ria da Sociedade Brasileira de Neuromodulação (SBNM), gestões 2020-21 e 2022-23. Carolina Atallah Pontes da Silva Médica dermatologista pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). viii Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Academia Americana de Dermatologia (AAD). Membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo. Caroline Silveira Enfermeira com especialização em Residência Multiprofissional em Saúde do Idoso e Cuidados Paliativos pelo HC-FMUSP. Especialista em enfermagem em Cuidados Palia- tivos pela Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Mestrado em atenção primária à saúde pela Escola de Enfermagem da USP (EE-USP). Pós-graduanda em Estomatera- pia pelo Centro Universitário São Camilo. Proprietária e Responsável Técnica na Aflorar Saúde. Professora convidada em cursos de pós-graduação lato sensu e organizadora de cursos livres nas áreas de saúde do idoso, cuidados paliativos, estomaterapia, cuidados com feridas e atenção domiciliar. Cristina Bueno Terzi Coelho Médica intensivista com título de especialista na área de atuação em Cuidados Pa- liativos. Mestrado e Doutorado em Ciências Médicas pela FCM-Unicamp. Fellowship em Cuidados Paliativos na Universidade da Carolina do Norte. Atualmente é médica vice-co- ordenadora do serviço de cuidados paliativos do HC-Unicamp e coordenadora da pós- -graduação em cuidados paliativos do Instituto TERZIUS. Daniel Dei Santi Médico graduado pela FCM-Unicamp, residência em Clinica Medica pela FCM-Uni- camp. Especialista em cardiologia pelo Insituto do Coração (InCor). Títulos de especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Terapia Intensiva pela As- sociação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e área de atuação de Medicina Paliativa pela Associação Médica Brasileira (AMB). Doutorando em Cardiologia pelo InCor na área de Cuidados Paliativos. Médico assistente do Núcleo de Cuidados Paliativos do HC-FMUSP. Diego de Araujo Toloi Médico graduado e com residência médica em Clínica Médica e Cancerologia pela FMUSP. Especialista em cuidados paliativos pelo Instituto Sírio Libanês de Ensino e Pesquisa (IEP). Eduardo Hiroshi Tikazawa Médico assistente do HC-FMUSP. Professor voluntário do Departamento de Saúde Coletiva – FCM-Unicamp. Médico da Prefeitura de Vinhedo. Médico do Hospital Nipo- -Brasileiro. MBA de Gestão em Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP); Mestrado profissional em Saúde Coletiva em andamento pela FCM-Unicamp; Residência Médica em Medicina Preventiva e Social pela FCM-Unicamp; Graduação em Medicina pela Fa- culdade de Medicina de Marília / FAMEMA. ix Eduardo Joaquim Lopes Alho Médico formado pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), neurocirurgião pela FMUSP. Doutorado em Estudos Anatômicos Tridimensionais do Diencéfalo Humano pela Universidade de Würzburg, na Alemanha, e pós-doutorado em Correlação de Imagens de Alta Resolução do Encéfalo com Ressonância Magnética de Alta Resolução pela FMUSP. Eliane Haider Técnica de enfermagem e médica formada Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM-Unicamp). Residência de Clínica Médica no SUS Estadual (Hospital Vila Alpina, SP/ SP) e de Cuidados Paliativos no HC/FMUSP. Foi preceptora do Núcleo de Cuidados Paliati- vos do IC-HC/FMUSP e assistente do Hospice do HC/FMUSP. Atualmente é coordenadora da equipe de Cuidados Paliativos do Complexo de Saúde de São Bernardo do Campo. Erica Maria Boteon Zamboni Médica graduada e com residência médica em Clínica Médica e em Geriatria FMUSP. Médica geriatra da equipe de retaguarda do Hospital Sírio-Libanes. Médica colaboradora da Unidade de Cardiogeriatria do InCor. Médica geriatria e clínica geral do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza. Erica Maria Zeni Médica graduada e com residência em clínica médica pela FMC-Unicamp. Pós-gradua- da em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium Latinoamerica, Buenos Aires, Argentina. Fabiana Tomie Becker Chino dos Santos Enfermeira. Mestre em Ensino em Ciências da Saúde pela Unifesp-EPM, especialista em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium/Oxford Palliative Care Center, coordenadora do comitê de enfermagem da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) 2018/2020. Felippe da Silva Afonso Graduado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora (FD-UFJF). Mestrando em Direito e Inovação pela FD-UFJF. Pesquisador na área do Direito Processual Civil e advogado. Fernanda Cunha Capareli Médica. Residência Clínica Médica na Irmandade Santa Casa de São Paulo (ISCMSP); Residência Oncologia Clínica no Hospital Sírio-Libanês; Membro Titular do Centro de Oncologia do Sírio-Libanês. x Flavio César de Sá (in memoriam) Médico graduado, com especialização em Saúde Pública e doutorado em Saúde Cole- tiva pela Unicamp. Pós-doutorado na área de Bioética Clínica na Universidade Cornell, em Nova York, Estados Unidos. Coordenou a área de ética e saúde e exerceu a chefia do departamento de Saúde Coletiva da Unicamp de julho de 2016 a março de 2019. Foi mem- bro da diretoria do Hospital Estadual Sumaré da Unicamp de 2000 a 2013 e coordenou o Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS) da Unicamp. Foi referência brasileira em Bioética e ética médica, atuando principalmente em temas como termina- lidade, cuidados no final de vida, saúde pública e educação médica. Geovanne Pedro Mauro Médico assistente do serviço de radioterapia do Instituto de Radiologia InRad FMUSP. Doutorado pela FMUSP. Henrique Ribeiro Médico graduado pela FCMSCSP. Residência médica em Psiquiatria pela FMUSP. Mé- dico psiquiatrada última etapa é pedir ao paciente que repita os pon- tos-chave do que foi comunicado. Essa técnica pode ser usada repetidamente durante toda a comunicação com pacientes e familiares, o que também evita que ela se torne um monólogo, ao promover continuamente a participação ativa do interlocutor e ga- rantir a compreensão das informações60. Ademais, a técnica abre espaço para identifi- car medos, preferências, experiências prévias e atitudes do paciente frente à notícia. Contudo, cabe a ressalva de que a compreensão deve ser avaliada com uma pergunta aberta, para evitar uma resposta que se limite a “sim” ou “não”, como nos casos em que se pergunta, por exemplo: “entendeu?”61. A estrutura de encontros em que são comunicadas notícias difíceis deve incluir um fechamento antes do encerramento. Nele, deve-se permitir que o paciente expresse pre- ocupações e faça perguntas para, então, se traçar uma estratégia para lidar com o sofri- mento, alinhada a seus valores e desejos8. Segundo esses princípios, foram criados vários guidelines que auxiliam o médico a desenvolver uma forma estruturada de transmitir uma notícia difícil. O modelo mais usado e citado na literatura é o SPIKES, desenvolvido por Walter Baile et al.9 e que é apli- cável a uma ampla variedade de cenários clínicos. A partir dele, surgiram vários outros protocolos para a comunicação de notícias difíceis, como o ABCDE62 e o BREAKS63, além de guidelines específicos para casos pediátricos64. O Quadro 1 detalha todas as etapas do protocolo SPIKES. Nem toda situação de comu- nicação de uma notícia difícil exige todas as etapas do SPIKES, todavia, sua sequência, conforme descrito no Quadro 1, deve ser respeitada. A American Society of Clinical Oncology também faz outras importantes recomendações adicionais, que constam em seu guideline de 201765: • Antes do encontro, revisar o prontuário médico e estabelecer os objetivos da conversa, antecipando necessidades e respostas do paciente e familiares. Essas informações devem estar facilmente acessíveis quando do encontro; • A informação provida deve ser tempestiva, segundo o contexto e as necessidades do paciente, e orientada para suas preocupações e preferências; • Todas as discussões importantes devem ser documentadas em detalhes no prontuário. 610 Etapa 1: S (do inglês Setting up: preparar a entrevista) Etapa 2: P (do inglês Patient’s Perception: assimiliar a percepção do paciente) Etapa 3: I (do inglês Patient’s Invitation: avaliar o desejo por informação do paciente) • Providenciar privacidade: o ambiente deve ser tranquilo, silencioso e privativo. Uma sala de entrevista é ideal. Tenha lenços à mão caso seja necessário. • Envolver outras pessoas significativas: a maioria dos pacientes quer ter mais alguém com eles, mas essa deve ser uma escolha sua, que deve ser perguntada previamente. Quando houver muitos familiares, peça ao paciente que escolha um ou dois representantes da família. • Sentar-se: sentar relaxa o paciente e também é um sinal de que você não se apressará. Se você examinou recentemente o paciente, permita que ele se vista antes da discussão. • Conectar-se com o paciente: manter o contato visual pode ser desconfortável, mas é uma maneira importante de estabelecer relacionamento. Tocar o paciente no braço ou segurar a mão (se o paciente estiver confortável com isso) é outra maneira de conseguir isso. • Gerenciar restrições de tempo e interrupções: deve ser reservado tempo suficiente para garantir um encontro sem interrupções. Informe o paciente sobre quaisquer restrições de tempo existentes ou interrupções esperadas. Interrupções desnecessárias devem ser evitadas, por exemplo, silenciando o celular. • Seguir o axioma "antes que você fale, pergunte": antes de discutir as informações clínicas, devem ser feitas perguntas abertas sobre o que o paciente sabe de sua situação atual – por exemplo, o que acha ser e se a considera grave ou não. Por exemplo, "O que você sabe sobre sua situação médica até agora?" ou "Qual é a sua compreensão do motivo de termos feito a ressonância magnética?". As respostas do paciente podem guiar o restante do encontro, de forma a lidar com as quebras de expectativa, preencher lacunas de conhecimento e corrigir as informações erradas. Essa abordagem também permite prever possíveis perguntas que o paciente e/ou seus familiares podem fazer e antecipar respostas para elas. Ademais, a avaliação da percepção prévia do paciente permite identificar variações de negação da doença, como pensamentos ilusórios, omissão de detalhes médicos essenciais desfavoráveis da doença e expectativas irreais de tratamento. • Perguntar ao paciente o quanto de informação ele deseja: estudos vêm mostrando que os pacientes têm desejo por saber detalhes, mesmo que negativos, sobre sua saúde, ao contrário das suposições do passado, quando era comum omitir notícias difíceis. Contudo, de fato há variações individuais e culturais quanto à preferência por quanto se deseja saber. Cabe ao médico respeitar a autonomia e não pressupor, mas perguntar ativamente ao paciente qual o nível de detalhes que ele deseja, antes de comunicar a notícia. Exemplos de possíveis perguntas são: “Como você gostaria que eu desse as informações sobre os resultados do teste? Gostaria que eu lhe desse todas as informações ou esboçasse os resultados e passasse mais tempo discutindo o plano de tratamento?”. Se o paciente não quiser saber detalhes, é importante avaliar suas razões e aceitá- las, oferecendo outras alternativas, especialmente se essa informação for necessária para, por exemplo, tomar decisões. Nesses casos, deve-se avaliar a preferência do paciente quanto a outras opções, como delegar a um familiar ter o conhecimento e tomar decisões por ele. QUADRO 1. PROTOCOLO SPIKES PARA A COMUNICAÇÃO DE NOTÍCIAS DIFÍCEIS 611 Etapa 4: K (do inglês Knowledge to the Patient: fornecer as informações ao paciente) Etapa 5: E (do inglês Empathic Responses: utilizar empatia para lidar com as emoções do paciente) • Preparar o paciente: alertar que uma notícia difícil deve ser comunicada, antes de informá-la. Isso pode atenuar o choque da informação e facilitar o seu processamento. Exemplos de frases que podem ser usadas incluem: "Infelizmente, tenho notícias difíceis para contar" ou "Lamento dizer que..." • Utilizar linguagem simples e direta: deve-se respeitar o nível de compreensão e vocabulário do paciente, evitando palavras técnicas e jargões. Também deve ser evitado, contudo, o excesso de franqueza. • Realizar pausas periódicas: as informações devem ser fornecidas paulatinamente, permitindo que o paciente as assimile. As pausas devem respeitar as reações do paciente. O entendimento do paciente deve ser verificado periodicamente, de forma a também determinar a necessidade de pausas e repetições. • Preservar a esperança sem dar falsos reasseguramentos: é importante ser honesto com o paciente e não fomentar expectativas irrealistas. Contudo, devem ser evitadas frases como "não há mais nada que possamos fazer por você", ou outras que eliminem totalmente a esperança. No contexto da paliação, também não é correto afirmar que não há mais o que se fazer, pois há sempre objetivos terapêuticos importantes, como bom controle da dor e alívio dos sintomas. Quando há incerteza, podem ser usadas expressões que alternem esperança com preocupação. • Antecipar reações emotivas: reações emotivas são esperadas nesse contexto e o médico deve estar preparado quando ocorrerem. • Observar atentamente as emoções do paciente: é fundamental que o médico reconheça as emoções do paciente que podem ser comunicadas de forma não verbal (lágrimas, um olhar de tristeza, silêncio ou expressão de choque, por exemplo) ou verbal. Na comunicação verbal, as emoções podem se manifestar por meio de perguntas. Por exemplo, o medo pode se manifestar em perguntas como “eu vou morrer?”, ou a raiva, em perguntas como “por que isso foiacontecer comigo?”. As emoções, após reconhecidas, devem ser nomeadas, validadas e respeitadas. O médico deve manifestar que as reconhece e as entende e deve oferecer apoio. Podem ser usadas respostas empáticas como: "Eu também gostaria que as notícias fossem melhores". • Fomentar a confiança no médico e a colaboração do paciente: durante o encontro, os comportamentos e as reações do médico devem transmitir confiança. • Questionar sobre emoções ativamente: muitos pacientes não conseguem expressar suas emoções abertamente. Por exemplo, um paciente pode parecer triste, mas ficar em silêncio. Nesse caso, o médico deve perguntar abertamente ao paciente o que está pensando ou sentindo. Também deve verificar se pode prosseguir com a informação. • Identificar o motivo da emoção: quando o paciente expressa uma emoção, o médico deve buscar entender o contexto associado e as razões por trás desse sentimento (geralmente, mas nem sempre, é relacionado à notícia difícil). • Fornecer tempo ao paciente para que expresse seus sentimentos: o paciente não deve ser “inundado” por informação, sem ter tempo de assimilar o que está sendo comunicado. Assim, o médico deve dar tempo para o paciente expressar sua emoção, antes de continuar com o restante da notícia. 612 Etapa 6: S (do inglês Strategy and Summary: estratégia e síntese) • Apresentar opções de tratamento aos pacientes quando disponíveis: não é apenas um dever ético e legal, mas também estabelece a percepção de que o médico considera os desejos do paciente importantes. Devem ser abordados os prós e os contras de cada opção apresentada. • Discutir os próximos passos: para além das opções de tratamento, o médico deve fornecer uma perspectiva de futuro ao paciente. Isso aumenta a previsibilidade e diminui a visão do futuro como assustadora, pois a maioria dos pacientes quer saber o que vem depois de receber uma notícia ruim. Quando o entendimento do futuro é mais claro, os pacientes são menos suscetíveis a ansiedade e incertezas. Esses passos podem consistir de exames, uma próxima consulta ou qualquer outra conduta. Não significam obrigatoriamente uma necessidade de traçar logo em seguida um plano terapêutico ou discutir sobre decisões clínicas difíceis. • Compartilhar a responsabilidade pela tomada de decisão com o paciente: além de um dever ético, ajuda a atenuar o sentimento de falha por parte do médico quando o tratamento não for bem- sucedido. • Verificar a compreensão do paciente sobre a informação e sobre o plano terapêutico: para evitar a superestimação da eficácia do tratamento ou uma interpretação equivocada de sua finalidade, o médico deve se certificar de que o paciente compreendeu o que foi comunicado de forma correta. Os objetivos do cuidado devem ser bem explorados e ficar explícitos e transparentes. ADAPTADO DE: BAILE ET AL., THE ONCOLOGIST 20008. Considerações finais A relação médico-paciente é aprimorada por vários atributos do clínico, incluindo o res- peito à dignidade e autodeterminação do paciente, curiosidade clínica, atenção às prefe- rências de tomada de decisão e questões culturais, responsabilidade, educação continuada e profissionalismo. Para o desenvolvimento de muitos desses atributos, é fundamental o cultivo de habilidades de comunicação, muitas das quais podem ser treinadas e aprendidas. Uma comunicação eficaz com o paciente envolve elementos cognitivos, afetivos, com- portamentais e sociais. Estratégias cognitivas podem ser empregadas para ampliar a compreensão dos pacientes sobre suas condições e permitir decisões médicas informa- das. Contudo, a comunicação do médico não pode se limitar a monólogos excessiva- mente longos, carregados de detalhes técnicos e conceitos difíceis que podem não ser assimilados por pacientes e familiares. No cenário de cuidados paliativos, boa parte da comunicação pode envolver notícias difí- ceis. Por sua vez, os receptores da informação – pacientes e seus familiares – se encontram em um estado de fragilidade, marcado também por emoções negativas como medo, tristeza e ansiedade. Uma abordagem meramente informativa não atenua (e pode inclusive acentu- 613 ar) essa sobrecarrega emocional. Assim, é fundamental empregar estratégias afetivas ao co- municar notícias difíceis. Em especial, o médico deve reconhecer as emoções de pacientes e familiares, e responder com empatia e apoio. Referências 1. Zwingmann J, Baile WF, Schmier JW, Bernhard J, Keller M. Effects of patient-centered commu- nication on anxiety, negative affect, and trust in the physician in delivering a cancer diagnosis: A randomized, experimental study. Cancer. 2017; 123(16):3167-3175. 2. Zolnierek KB, Dimatteo MR. Physician communication and patient adherence to treatment: a meta-analysis. Med Care. 2009; 47(8):826-834. 3. 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Nos cuidados paliativos, isso pode ser ainda mais frequente, pois muitos dos fatores associados a esse tipo de situação, como pior funciona- lidade do paciente e maior gravidade dos sintomas2, são comuns nessa área da medicina. Além desses, outros fatores individuais dos pacientes contribuem para essas situações, os quais serão abordados em detalhes neste capítulo2. Fatores adicionais, diretamente de- correntes de sua condição clínica, também podem contribuir para a ocorrência de situ- ações de difícil condução, por exemplo, presença de transtornos somáticos funcionais2. Contudo, as causas são multifatoriais. Características do médico também podem agravar uma situação de difícil condução, como falta de experiência, habilidades de comunica- ção insuficientes e incapacidade de demonstrar empatia2,3. A esses fatores se somam li- mitações do sistema de saúde, como redução no tempo disponível para o médico dedicar atenção a seus pacientes, que podem gerar insatisfação no paciente. Este, por sua vez, in- satisfeito, se torna cada vez mais exigente, comprometendo ainda mais a relação médico- -paciente4. Em contrapartida, da parte do médico, limitações do sistema, como excessiva burocracia, falta de controle sobre o cuidado oferecido e pressões de tempo levam a maior frustração com os pacientes5, minando a relação do profissional com seus atendidos. A abordagem dessas situações pelo médico deve seguir princípios gerais, que são deta- lhados a seguir. Contudo, a depender da situação, as particularidades de cada contexto tam- bém devem ser consideradas para guiar a forma como o médico lida com o cenário desa- fiador. Questões familiares também devem ser apreciadas e são abordadas no Capítulo 32. 622 Conceitos e definições • Paciente difícil: o que faz um paciente ser considerado “difícil” varia entre os médicos, devido à sua natureza subjetiva. Em geral, não é a complexidade do problema médico que torna o paciente difícil. Ao contrário, muitos médicos apontam as seguintes características como frequentes nos pacientes que eles consideram particularmente difíceis: aqueles que demandam muito; os que são violentos, rudes e agressivos; além daqueles que buscam ganhos secundários6. Contudo, enquanto esses pacientes são considerados difíceis por uns, outros médicos podem considerar a interação com eles como algo desafiador e uma oportunidade para refinar suas habilidades clínicas e de comunicação. Geral- mente, porém, o termo se associa à frustração na relação médico-paciente. • Situações desafiadoras: variam desde conversas ruins, em que predominam emoções como frustração, raiva, medo, desespero e humilhação, até comporta- mentos agressivos, como ameaças, acessos de raiva, destruição de propriedade e agressão física. Fatores do paciente associados a dificuldades na interação com o médico Pacientes considerados difíceis ou “frustrantes” tendem a ter um histórico de alta uti- lização de serviços de saúde, muitas vezes com frustrações acumuladas em seu passado médico2,4. Em geral, possuem um grande número de sintomas físicos, uma funcionalida- de pior e maior gravidade de sintomas2. Em muitos casos, tais pacientes também podem ser portadores de transtornos psiquiátricos ou, então, traços de personalidade e sintomas subclínicos associados à psicopatologia, que levam a problemas de relacionamento inter- pessoais. Muitos desses pacientes, ademais, apresentam sintomas somáticos na sintoma- tologia de seus quadros, o que não exclui possuírem também causas orgânicas para seus sintomas físicos. Nesses casos, as múltiplas tentativas do médico, sem sucesso, em buscar um diagnóstico clínico para esses sintomas pode ser significativamente frustrante. Ainda, muitos desses pacientes podem não ter crítica sobre sua condição, o que dificulta a abor- dagem por parte do médico, mesmo quando é possível identificar a psicopatologia4. Em 1978, Groves publicou no New England Journal of Medicine um artigo em que pro- 623 punha uma classificação dos pacientes considerados difíceis, de acordo com suas carac- terísticas e comportamentos7. Embora a prática médica tenha mudado significativamen- te desde então, alguns desses conceitos ainda podem ser aproveitados, especialmente para entender melhor alguns gatilhos e fatores que podem explicar o comportamento do paciente, de modo a identificá-los corretamente e planejar uma intervenção mais direcionada. O Quadro 1 elenca os quatro tipos de pacientes propostos por Groves, suas características e sugestões específicas de abordagem3,7. Tipo de paciente e suas características Características do encontro clínico Abordagem Dependente e emocionalmente apegado: inseguro, desesperado por reasseguramento, preocupado com o abandono Demandante que acredita ter mais direitos: geralmente irritado, não quer passar pelos processos necessários para a avaliação adequada ou para o tratamento, podendo estar reagindo ao medo e à perda • O paciente geralmente faz com que o médico simpatize com ele e o elogia, fazendo com que o profissional se sinta especial; • Conforme a relação se desenvolve, o paciente se torna carente, pede ou demanda um tempo individual cada vez maior do médico, que pode se sentir ressentido. • O paciente é agressivo e intimidador, já estabelecendo uma relação negativa com o médico; • O paciente vê o médico e o sistema de saúde como barreiras a suas necessidades; • O médico pode sentir raiva, dúvida ou frustração. • Manter uma postura profissional; • Estabelecer limites precocemente e mantê- los de forma consistente; • Envolver o paciente na tomada de decisão; • Deixar claro para o paciente que ele não será abandonado; • Deixar marcados retornos regulares de forma antecipada. • O médico deve tentar controlar seus julgamentos e identificar seus próprios sentimentos (contratransferência); • Reconhecer que o comportamento hostil do paciente pode ser a forma que ele encontrou para manter sua integridade e dignidade em um momento de uma doença devastadora; • Se uma emoção específica se torna evidente, ela deve ser abordada com o paciente e o médico não deve reagir de forma defensiva quando o paciente manifesta suas preocupações; • Reforçar com o paciente que ele tem direito a um cuidado médico de excelência, mas que sua raiva não pode ser direcionada àqueles que tentam ajudá-lo. QUADRO 1. TIPOS DE PACIENTES DESAFIADORES, SUAS CARACTERÍSTICAS E ABORDAGENS SUGERIDAS 624 ADAPTADO DE: LORENZETTI ET AL., AM FAM PHYSICIAN 20133; E GROVES, N ENGL J MED 19787. Tipo de paciente e suas características Características do encontro clínico Abordagem Manipulador que rejeita o cuidado: deseja atenção, foi rejeitadoanteriormente e tem dificuldade em confiar nos outros. Geralmente tem um quadro depressivo ainda não diagnosticado. Negacionista autodestrutivo: se sente desesperançoso sobre mudar a situação, incapaz de se ajudar, teme falhar, pode ter depressão e/ou ansiedade não diagnosticadas ou tratadas. • O paciente envolve o médico por meio de manipulação inconsciente; • O paciente retorna para buscar cuidado oralmente em ciclos de busca por ajuda e rejeição ao tratamento, não melhorando a despeito do aconselhamento adequado; • O paciente acredita que a sua saúde não melhorará; • O médico pode se sentir preocupado em ignorar uma condição grave. • Os problemas de saúde e/ou sintomas persistem mesmo após aconselhamento e tratamento adequados; • O paciente continua com hábitos autodestrutivos; • O médico pode se sentir incapaz e responsável pela falta de progresso. • Reconhecer que o paciente deseja permanecer conectado com o médico e não necessariamente melhorar; • O paciente deve ser engajado no cuidado ao compartilhar com ele as frustrações sobre desfechos ruins; • Trabalhar com o paciente para estabelecer limites quanto às expectativas; • Focar no alívio dos sintomas. • Reconhecer que a completa resolução dos problemas é limitada; • Estabelecer expectativas realistas; • Identificar causas de não aderência, como problemas financeiros, falta de tempo, dificuldade no acesso aos cuidados de saúde ou ao tratamento adequado; • Celebrar cada pequeno sucesso com o paciente; • Oferecer e/ou providenciar apoio psicológico e/ou psiquiátrico. Fatores do médico associados a dificuldades na interação com o paciente O excesso de trabalho do médico pode estar relacionado ao maior número de pacien- tes considerados difíceis. Os médicos que têm maior necessidade de certeza diagnóstica são mais propensos a considerar os pacientes difíceis nos casos em que estes apresen- tem diagnósticos múltiplos ou vagos, retornem de forma repetida apresentando má res- 625 posta ao tratamento, queixem-se persistentemente de sintomas somáticos ou não sigam repetidamente os planos de tratamento4. Ademais, médicos com postura pior quanto às questões psicossociais2 e os menos experientes2,4 também apresentam maior número de interações com pacientes consideradas difíceis. O Quadro 2 elenca os fatores associados a uma maior frequência desse tipo de situação. ADAPTADO DE: LORENZETTI ET AL., AM FAM PHYSICIAN 20133. Percepções e estados emocionais Condições psicológicas, psiquiátricas e outros problemas de saúde Habilidades e conhecimento • Insegurança; • Esgotamento e exaustão por excesso de trabalho; • Intolerância à incerteza diagnóstica; • Vieses negativos quanto a certas condições de saúde; • Percepção de pressão de tempo; • Estresse por questões situacionais. • Burnout; • Ansiedade; • Depressão; • Privação de sono; • Outras questões de saúde do médico. • Treinamento inadequado em questões psicossociais na medicina; • Conhecimento limitado sobre a condição de saúde do paciente; • Falta de habilidades de empatia; • Frusta-se facilmente; • Habilidades de comunicação deficientes. QUADRO 2. FATORES DO MÉDICO ASSOCIADOS A MAIOR FREQUÊNCIA DE INTERAÇÕES COM PACIENTES CONSIDERADA DIFÍCEIS Princípios gerais da abordagem ao paciente difícil e às situações desafiadoras Alguns princípios são comuns à abordagem a diferentes situações que podem consti- tuir interações difíceis com pacientes. São eles: • Utilizar técnicas de comunicação adequadas (como as descritas no Capítulo 30), sen- do sempre transparente, claro, direto, objetivo e específico. Uma boa comunicação se faz ainda mais relevante quando for necessário comunicar notícias difíceis. Nesse cenário, pode ser usado um protocolo específico, como o SPIKES8. Ademais, sempre certificar-se de evitar uma comunicação truncada, em que mal-entendidos possam aflorar. Para isso, pode-se eleger um membro da equipe como porta-voz, centralizan- do a comunicação. Para evitar mal-entendidos, também é importance checar o enten- 626 dimento do paciente, perguntando se este compreendeu o que foi comunicado antes de passar para o próximo tópico8; • Estabelecer limites bem definidos sobre o que é inaceitável da parte do paciente, como xingamentos, uso de palavras de baixo calão, insultos pessoais, injúria racial, entre ou- tros comportamentos, elencados no Quadro 3. O médico deve ser específico, ao invés de vago, ao determinar qual comportamento é inadequado; • Sempre ter uma postura profissional, demonstrando comportamentos como: ser pontual, sentar-se para falar com o atendido e solicitar permissão para discutir tópi- cos sensíveis8,9; • Evitar quebras de expectativa, deixando expresso de antemão que há limitações na habilidade do médico em prever a resposta ao tratamento e desfechos clínicos; • Fornecer informações sobre o plano de cuidado e alinhar as expectativas do paciente a ele, de forma a evitar expectativas irreais8; • Promover discussões interdisciplinares periódicas, para certificar-se que todos os membros da equipe envolvidos no cuidado estão alinhados. Caso ocorram incidentes, é possível organizar debriefings com a equipe para discutir o ocorrido; • Evitar o emprego de adjetivos e nomes pejorativos para se referir ao paciente, in- cluindo a documentação em prontuário, que deve ser feita de forma técnica e objetiva, não “levando o desentendimento para dentro” do prontuário; • Buscar uniformizar o cuidado do paciente de forma longitudinal, evitando-se quebra nos cuidados, incluindo mudança frequente de profissionais; • Atentar-se à contratransferência, ou seja, reações conscientes e inconscientes por parte do médico diante da interação com o paciente, que podem ser desencadeadas pelo comportamento deste. Para isso, o foco do problema deve estar na relação mé- dico-paciente em si, ao invés de ser levada para o pessoal. É importante não fazer presunções sobre o paciente e buscar entender as causas por trás do mal-entendido. A partir daí, o médico deve identificar o que pode ser mudado na situação e o que está 627 além de seu controle. Na maior parte das vezes, uma mudança no comportamento do paciente foge ao controle do médico, pois só poderá vir do próprio atendido. Contudo, o médico pode controlar a sua reação a ele9,10; • Envolver equipe de psicologia e psiquiatria caso esteja presente um transtorno psi- quiátrico, aspectos psicológicos complexos e/ou transtorno por uso de substâncias. Uma técnica interessante para a abordagem do paciente difícil é o acrônimo CALMER (do inglês): ser um Catalisador da mudança; Alterar pensamentos para mudar sentimen- tos; ouvir (Listen, em inglês) para somente então fazer um diagnóstico; fazer (Make, em inglês) um acordo; Educação e seguimento; ir atrás de ajuda (Reach out, em inglês) e discutir sentimentos11. • Ser um catalisador da mudança: o médico deve identificar em qual estágio de prepa- ração para a mudança o paciente está (pré-contemplação, contemplação, preparação, ação, manutenção e recaída). A partir daí, deve dar recomendações específicas para o paciente progredir em direção à mudança; • Alterar pensamentos para mudar sentimentos: envolve princípios da terapia com- portamental (alterar pensamentos) e da psicodinâmica (identificar contratransfe- rência). O médico deve identificar os sentimentos vivenciados em resposta ao pa- ciente (contratransferência) antes, durante e/ou após a interação. Em seguida, deve se perguntar como esses sentimentos estão influenciando a interação médico-pa- ciente e o plano terapêutico. O médico não deve enxergar comportamento do pa- ciente como algo pessoal. Ao contrário, deve enxergá-lo como algo próprio do aten- dido, que se manifesta em muitas outras interações de sua vida e não apenas diante do médico. Possíveis motivações para esse comportamento devem ser investigadas e, por fim, o médico deve buscar identificar o que pode fazer para se sentir menos impactado pela situação (mudarsentimentos); • Ouvir para somente então fazer um diagnóstico: por conta da interação difícil, o médico pode não identificar corretamente o que o paciente está tentando comunicar, seja de forma verbal ou não verbal. As duas etapas anteriores dão mais recursos ao médico para que ouça e entenda o paciente em maior profundidade, evitando erros de diagnóstico e melhorando a relação médico-paciente; 628 • Fazer um acordo: nesta etapa, o médico deve fazer um acordo com o paciente para que continue na relação médico-paciente, em um compromisso no qual ambos tra- balharão juntos. Isso evitará que o paciente ache que será abandonado e perca sua confiança na relação, aumentando a percepção de controle de ambas as partes, uma vez que os dois lados verbalizam um acordo consciente e voluntário; • Educação e seguimento: nesta etapa, o médico deve discutir com o paciente como o plano do cuidado será implementado, da forma mais específica possível. Nessa fase, o médico deve tentar encontrar algum espaço pra flexibilização, de forma a adequar as metas propostas ao estágio de preparação para a mudança em que o paciente está, conforme identificado na primeira etapa; • Ir atrás de ajuda e discutir sentimentos: muitos médicos se fecham em si mesmos e evitam discutir seus sentimentos e buscar ajuda quando estão sofrendo (mais de- talhes sobre o tema são discutidos no Capítulo 33). Porém, mesmo o mais habilidoso dos médicos poderá sentir o impacto da interação com um paciente difícil. Assim, é importante que o profissional se pergunte como se sente diante dos comportamentos do paciente difícil. A seguir, o médico deve pensar como se protegerá e cuidará de si nas próximas interações em que tais sentimentos vierem à tona. Discutir esses senti- mentos e a experiência vivenciada com um colega de confiança ou um amigo pode ser útil, ao prover suporte social. O médico não deve se sentir sozinho nessas situações. • Atos de agressão física, incluindo tentativas; • Uso ou posse de armas de fogo, armas brancas ou outras armas; • Danos intencionais à propriedade do instituto ou à propriedade de outros pacientes, familiares ou funcionários; • Ações que criem medo razoável em outra pessoa; • Percepção razoável de intenção de prejudicar uma pessoa ou danificar propriedade; • Comportamentos verbais e escritos que podem se manifestar por meio de encontros pessoais, comunicação escrita (e-mail, blogs na internet, redes sociais) e que uma pessoa razoável veria como degradante, depreciativo, assediador ou intimidador (exemplos: ameaças, xingamentos, uso de palavras de baixo calão, insultos pessoais, injúria racial, entre outros); • Gritos repetidos ou grosseria (por exemplo, desligar o telefone, insultar); QUADRO 3. ALGUNS DOS COMPORTAMENTOS CONSIDERADOS INACEITÁVEIS NA INTERAÇÃO ENTRE MÉDICO E PACIENTE 629 Situações desafiadoras específicas Pacientes com transtornos de personalidade Os transtornos de personalidade são definidos como padrões difusos e desadaptativos de experiência interna e de comportamento do indivíduo, causando sofrimento e prejuízos a ele. Esses padrões são duradouros e podem se iniciar já na infância ou fim da adolescên- cia, embora o transtorno seja diagnosticado somente na vida adulta12. Assim, não é pos- sível realizar o diagnóstico de um transtorno de personalidade somente após uma única interação com o paciente, sem avaliar sua história de forma longitudinal. Ademais, alguns indivíduos podem não ter um transtorno de personalidade manifesto, porém, podem ser portadores de alguns traços de personalidade desadaptativos, que se exacerbam em situa- ções de estresse intenso, como pode ocorrer no contexto de uma grave doença. Acima de tudo, é importante não rotular o paciente com um diagnóstico feito somente com base em uma percepção subjetiva negativa (ou seja, decorrente da contratransferência) quanto ao paciente (por exemplo, por “não gostar” dele). Como exposto, permitir que a contratrans- ferência interfira no processo diagnóstico pode levar ao erro, ao não permitir que se ouça a real mensagem que o paciente está tentando comunicar10. As manifestações mais comuns dos transtornos de personalidade podem afetar direta- mente as relações interpessoais e, portanto, a relação médico-paciente, potencialmente prejudicando o cuidado. Pacientes com transtornos de personalidade podem ser exces- sivamente dependentes, exigentes, manipuladores ou teimosos, ou podem recusar tra- tamento de forma autodestrutiva4. Dados mostram que a prevalência de transtornos de personalidade é maior nos pacientes considerados difíceis do que em pacientes-contro- le13. No entanto, não se deve presumir que todo paciente difícil ou que todo conflito que ocorre entre médicos e pacientes se deve a transtornos de personalidade. Para a correta identificação dos casos é importante, portanto, conhecer a psicopatologia desses trans- tornos. Algumas dessas manifestações são: irritabilidade constante, podendo evoluir para hostilidade, agressividade e ameaças (por exemplo, físicas e de processos); desconfiança; ADAPTADO DE: MARSHALL ET AL., AM J GASTROENTEROL 19951O. • Comportamento intrusivo persistente concedido a um membro da equipe (por exemplo, telefonemas desnecessários, presentes, convites para encontros), mesmo após o profissional ter solicitado que o indivíduo cesse tal comportamento; • Pedir emprestado, desviar ou furtar medicações, incluindo falsificação e fraude de prescrições; • Venda de medicamentos receitados. 630 dependência excessiva; habilidades de comunicação ruins; demandas excessivas para cui- dados imediatos ou medicamentos específicos; baixa adesão terapêutica, rejeição ou recu- sa do tratamento recomendado; polarização de opiniões sobre as pessoas como “boas” ou “ruins” (fenômeno denominado splitting); intimidação ou desvalorização dos prestadores de cuidados; expectativas irreais ou inadequadas sobre tratamento ou cuidados; pedido de intervenções desnecessárias; e constante busca por reasseguramento. Além da recorrência de comportamentos como esses, a hipótese de um transtorno de per- sonalidade deve ser suscitada nos casos de pacientes com círculo social prejudicado (maior parte da família e dos amigos se afastou)14, história de trauma e/ou abuso15 e que foram presos no passado16. Os médicos envolvidos no cuidado a esse paciente, por sua vez, podem reagir com sentimentos como raiva, frustração, tédio e com uma percepção negativa quanto ao paciente. Essa reação, denominada contra-transferência segundo as teorias psicodinâmi- cas, deve ser observada pelo médico por meio da autorreflexão. A partir dessa identificação, o médico deve desenvolver uma crítica sobre sua contratransferência, de forma a identificar comportamentos que dela se originem e que possam comprometer seu julgamento clínico e o cuidado do paciente. Uma forma de elaborar as sensações suscitadas por um paciente com transtorno de personalidade é discutir a experiência da interação com ele com membros da equipe e outros colegas, incluindo em atividades como grupos Balint11,17. Assim, embora não seja possível eliminar totalmente a contra-transferência, é possível administrá-la, de forma a evitar consequências negativas para a relação médico-paciente. Independente do transtorno específico, algumas estratégias de abordagem podem ajudar no manejo de pacientes com traços de personalidade desadaptativos e associados a reações negativas em profissionais de saúde. Além de conseguir reconhecer e elaborar a reação emocional que o paciente provoca no médico, outras estratégias interessantes incluem: • Prevenir erros de comunicação entre a equipe, buscando consistência na informa- ção e alinhamento quanto aos objetivos do tratamento e limites para o comportamen- to do paciente, medida que pode ser promovida em reuniões regulares de equipe; • Coordenar precocemente o cuidado com a equipe de interconsulta e apoio psicoló- gico e psiquiátrico17; • Realizar encontros com o paciente na presença de mais deum membro da equipe, de forma a evitar possíveis manipulações; 631 • Ajustar as expectativas quanto ao cuidado, uma vez que esses pacientes podem pre- cisar de mais tempo e recursos despendidos pela equipe; • Obter feedback dos colegas sobre suas habilidades de comunicação, de modo a verifi- car em que ponta da relação pode estar o problema; • Deixar claro aos pacientes que suas consultas devem ser priorizadas e, durante elas, devem se concentrar em suas preocupações mais importantes; • Demonstrar ao paciente que seu sofrimento é reconhecido e nunca invalidá-lo ou minimizá-lo; • Focar em aspectos específicos da história ou apresentação do paciente que provocam empatia, uma vez que a dificuldade imposta por esses pacientes pode comprometer o estabelecimento de uma relação empática, necessária para um bom cuidado a ele; • Conhecer princípios básicos da terapia comportamental dialética, que são úteis no manejo de alguns transtornos de personalidade18; • Registro cuidadoso da interação com o paciente e, se necessário, envolver a equipe de suporte legal e ético da instituição17. Casos graves e incidentes importantes devem ser levados ao conhecimento da dire- ção da entidade assistencial e/ou da comissão de ética local, especialmente quando o comportamento do paciente e/ou a resposta de um ou mais profissionais levar a desvios significativos das práticas recomendadas de cuidados ou ao desrespeito dos limites pre- viamente acordados. Pacientes com transtornos por uso de substâncias Os transtornos por uso de substâncias estão associados a uma ampla gama de com- portamentos, que podem variar de demandas recorrentes por substâncias controladas a comportamentos que colocam em risco a vida do paciente e sua situação legal. Ape- sar de não ser tão frequente no Brasil como é nos Estados Unidos, o abuso de opioides pode ser um problema nos cuidados paliativos, pois prejudica a adesão ao tratamento19, dificulta o manejo farmacológico da dor, piora o sofrimento do paciente e pode causar 632 problemas familiares. Além disso, impõe ao médico paliativista um desafio adicional: diferenciar um quadro de piora e maior dificuldade de controle da dor de uma situação de abuso (problema abordado em detalhes no Capítulo 8). Aos desafios sobre o uso de opioides em cuidados paliativos soma-se o fato de que as ferramentas para rastreio e avaliação de quadros suspeitos de abuso não foram validadas em pacientes nesse contexto, como a Screener and Opioid Assessment for Patients with Pain (SOAPP)20,21 e a Opioid Risk Tool (ORT)22. A essa dificuldade também se somam mitos e falta de conhecimento de muitos médicos sobre o uso de opioides para o tratamento da dor23. Algumas estratégias específicas, contudo, podem auxiliar no combate ao abuso e prescrição inadequada de medicamentos: • Designar apenas um prescritor para fármacos de alto risco de abuso e dependência, como opioides e benzodiazepínicos, já no início do tratamento; • Avaliar ativamente fatores de risco para abuso e dependência de opioides e outros fármacos de risco, como histórico de transtorno por uso de substância prévio; • Estabelecer com o paciente e seus familiares as metas e expectativas sobre o con- trole da dor e do manejo de outros sintomas baseado em uma escala predefinida (es- cala visual de dor – ENV – de 0 a 10, por exemplo), evitando demandas adicionais por medicamentos justificadas por expectativas irreais de tratamento (por exemplo, uma demanda irreal por eliminar completamente a dor); • Fornecer expectativas e limites claros antes de prescrever uma medicação, com es- quemas bem especificados e delimitados para a otimização de doses não preconizadas pela prescrição (por exemplo, doses de resgate); • Identificar as prováveis consequências se os pacientes não cumprirem o que foi acordado com o prescritor; • Marcar consultas ambulatoriais frequentes e prescrever fármacos de risco em inter- valos de uma a duas semanas no máximo; • Maximizar a indicação de tratamentos não farmacológicos e medicamentos que não causem dependência; 633 • Revisar as prescrições feitas e o prontuário com frequência, em busca de possíveis inconsistências; • Consultar especialistas em transtornos por uso de substâncias, caso haja intercor- rências graves e persistentes. Caso seja observado um comportamento suspeito para abuso e/ou dependência du- rante o tratamento, deve-se fazer um seguimento atento, incluindo encaminhamento para psiquiatra e, possivelmente, terapia cognitivo comportamental. O uso de exames toxicológicos de rastreio, contudo, não é indicado. O Quadro 4 elenca alguns comporta- mentos que devem levantar suspeitas de transtorno por uso de substância. ADAPTADO DE: PASSIK ET AL., ONCOLOGY 199824. • Pedir emprestado ou furtar medicações; • Aumentar a dose utilizada, por conta própria, apesar de avisos para não o fazer; • Falsificar e fraudar de prescrições; • Vender de medicamentos receitados; • Resistir à troca de opioide ou descontinuá-lo, apesar de efeitos colaterais; • Apresentar piora do funcionamento social não explicado pela doença ou por fatores sociais a ela associados; • Usar concomitantemente de álcool e/ou drogas ilícitas; • Receber prescrições de diversos médicos, sem informar a cada um deles. QUADRO 4. COMPORTAMENTOS QUE DEVEM LEVANTAR SUSPEITA DE TRANSTORNO POR USO DE SUBSTÂNCIA EM PACIENTES EM CUIDADOS PALIATIVOS Pacientes com ideação suicida Esta pode ser uma das situações mais desafiadoras na prática médica, uma vez que muitos profissionais não são capacitados para lidar com esse tipo de problema. Os com- portamentos suicidas se manifestam em um espectro que varia desde apenas pensa- mentos de morte até planos estruturados com alta intenção. O suicídio em pacientes com doenças graves tem alta prevalência e pode assumir a forma, nessa população, de pedidos de morte assistida ou adiantada para o médico25. Dados apontam que pacientes com câncer, por exemplo, apresentam risco relativo de suicídio de 1,35 (para mulheres) e 1,55 (para homens) em relação à população geral, sendo que o maior risco ocorre logo nos primeiros meses após o diagnóstico26. Nessa linha, dados observacionais da Holanda apontam que até 47% dos pacientes que solicitam e 17% que concluem a eutanásia ativa 634 ou o suicídio assistido por médico apresentam sintomas depressivos27. Detalhes envol- vendo eutanásia e suicídio assistido, assim como sua relação com quadros depressivos, são explorados no Capítulo 38. Para abordar essa situação desafiadora, o médico deve estar sempre atento aos co- mentários do paciente que apontem algum tipo de ideação suicida. Para isso, deve entender que essa é uma possibilidade real nesses pacientes, não devendo minimizar comentários que, muitas vezes, podem ocorrer de forma encoberta. Assim, deve-se per- guntar explicitamente sobre pensamentos suicidas vigentes e acesso a instrumentos le- tais. Caso se revelem fatores de risco, como um plano específico muito letal, intenção muito forte com planejamento, psicose ou fácil acesso a armas de fogo e outros métodos letais, deve ser realizado encaminhamento urgente a um psiquiatra ou pronto-socorro, para verificar a necessidade de internação. Situações de baixa continência familiar, em que se torna menos provável de conseguir impedir um comportamento suicida por parte do paciente, também indicam cuidado especializado. É frequente pacientes com doenças graves e em fim de vida considerarem ser um fardo para seus familiares. Dados apontam que até 65% dos pacientes no contexto dos cuidados paliativos têm sentimentos negativos associados à sensação de se considera- rem um fardo para os familiares. Ademais, tais sentimentos influenciam suas decisões de fim de vida28. Assim, o médico deve explorar as razões que podem estar associadas à ideação suicida, investigando se essas possíveis preocupações estão presentes. Deve, nesses casos, tranquilizar o paciente com relação ao gerenciamento eficaz dos sinto- mas e ao compromisso da equipede saúde com suas preferências e valores. Outras condutas importantes nessas situações também incluem avaliação e cuidado especia- lizado em relação aos aspectos espirituais do paciente, avaliação por assistente social para averiguar possíveis problemas familiares e socioeconômicos e encaminhamento para psiquiatra e/ou psicoterapia. O médico também deve se disponibilizar para ouvir as demandas do paciente, desenvolvendo uma presença compassiva, uma vez que há evidências de menor risco de ideação suicida quando há uma melhor relação médico- -paciente, como observado em adultos jovens com câncer29. Pacientes com comportamentos violentos Estudos realizados com médicos em Israel, Índia, Turquia e China apontam diversas causas para a violência contra médicos. Entre elas, estão expectativas não atendidas de pacientes e familiares, desejos por determinadas prescrições não atendidos, deficiên- cias estruturais do serviço (por exemplo, falta de pessoal), percepção ruim de sua qua- 635 lidade, longos tempos de espera, entre outros. A comunicação deficiente entre médicos e pacientes e seus familiares foi um fator muito prevalente nos vários países pesquisa- dos30-33. Dessa forma, é fundamental cultivar habilidades de comunicação para que o risco de desentendimentos seja minimizado, tópico abordado no Capítulo 30. Além dessas situações, a própria condição clínica do paciente pode se associar a uma alteração de seu estado mental, produzindo comportamentos agressivos. Alguns exem- plos incluem: quadros demenciais, delirium, intoxicação por substâncias, transtornos psiquiátricos descompensados e doenças mentais orgânicas34. Essa situação é denomi- nada síndrome da agitação aguda. Para identificá-la, o médico deve se atentar a altera- ções do comportamento que podem ser inicialmente sutis, como agitação psicomotora, sinais de psicose, aumento do tom de voz e ameaças. Abordagens gerais para quadros de agressividade incluem: garantir pessoal adequado para auxiliar no controle do paciente, caso a situação se agrave; realizar o encontro em um ambiente seguro, mantendo uma distância adequada e uma rota de fuga facilitada; manter a firmeza no contato com o paciente e/ou familiares, mas sem perder o respeito por ele, assim como a calma e a clareza nas respostas; não tolerar ameaças ou abuso verbal, pois po- dem escalar para agressividade mais intensa; deixar bem claro quais comportamentos são considerados inaceitáveis logo de início; solicitar avaliação de psiquiatra para os pacientes que fazem ameaças ou que demonstram comportamentos problemáticos recorrentes e/ou crescentes (como sinais de agitação psicomotora, psicose, comportamento desorganiza- do); e implementar na instituição um “código de resposta comportamental”, que envolva equipe treinada e especializada para o manejo de quadros de agitação psicomotora, com protocolos de manejo e de segurança específicos, segundo normas amplamente aceitas. Abordagens farmacológicas e outras medidas comuns na prática psiquiátrica podem ser necessárias, mas fogem do escopo deste capítulo. Recusa de cuidados Como os pacientes em cuidados paliativos estão gravemente doentes e recebem medi- camentos que afetam o sistema nervoso central, a primeira prioridade é determinar se o paciente tem capacidade de tomada de decisão. Se esta estiver preservada, no Brasil, nos casos em que não há risco de vida, o paciente está legalmente autorizado a recusar atendimento médico, assim como o profissional está legal e eticamente protegido. De- talhes sobre os aspectos bioéticos, de deontologia médica e legais dessa situação são abordados nos Capítulos 37 e 39, enquanto formas de abordá-la no contexto da relação médico-paciente são detalhadas no Capítulo 40. 636 Os pacientes que não têm capacidade de tomada de decisão devem ser tratados de for- ma a restaurar sua capacidade para consentir, sempre que possível. Nesses casos, a deci- são pode ficar a cargo de um terceiro, geralmente um familiar, de acordo com preceitos éticos e legais detalhados no Capítulo 39. Nos casos de fim de vida, em que se decide por limitar o tratamento (ortotanásia), dá-se preferência por medidas que têm como intuito primário diminuir a dor e aumentar o conforto. Considerações finais Cuidar de pacientes com doenças graves já é, por si só, uma tarefa estressante, tanto para profissionais de saúde, quanto para cuidadores. O convívio diário com o sofrimento e os desafios impostos pela condição de saúde, que vão desde angústias espirituais até problemas financeiros, contribuem para que aflorem emoções intensas, muitas vezes, negativas. Assim, o dia a dia de todos os agentes nesse cenário pode ser marcado por sentimentos como raiva, tristeza, ansiedade e medo. Muitos desses sentimentos podem interferir nas interações entre pacientes, familiares e os profissionais de cuidados palia- tivos, criando conflitos e situações desafiadoras de comunicação. Ao cenário causado pela doença se somam fatores prévios, que podem contribuir para esses conflitos e situações desafiadoras. Aspectos da personalidade de pacientes e fami- liares podem interferir na comunicação, enquanto transtornos por uso de substância podem comprometer o cuidado. Por outro lado, fatores do próprio médico também po- dem influenciar a interação. Ademais, a equipe deve ser treinada para lidar com com- portamentos violentos que podem se associar a esses quadros ou à própria condição clínica do paciente, devendo a instituição fornecer estrutura adequada e protocolos para o manejo dessas situações. Ainda, muitos quadros de doenças graves também podem se associar a um maior risco de suicídio. Todos esses fatores requerem que o paliativista tenha conhecimentos de psiquiatria e boas habilidades de comunicação, para poder su- perar esses desafios de seu dia a dia. Por fim, situações de conflito podem ocorrer quando o paciente recusa seguir reco- mendações médicas e tratamentos propostos. Esses casos requerem, além de boas ha- bilidades de comunicação, conhecimentos de bioética e de aspectos legais do cuidado. Neste capítulo, buscamos fornecer conceitos importantes, necessários para que o leitor tenha maior segurança em sua abordagem a esses cenários. 637 Referências 1. Hahn SR, Kroenke K, Spitzer RL, Brody D, Williams JB, Linzer M et al. ”The difficult patient”: prevalence, psychopathology, and functional impairment. J Gen Intern Med. 1996; 11(1):1–8. 2. Hinchey SA, Jackson JL. A cohort study assessing difficult patient encounters in a walk-in pri- mary care clinic, predictors and outcomes. J Gen Intern Med. 2011; 26(6):588-594. 3. 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Muitos também apresentam sintomas ansiosos e depressivos3. Quando a comunicação com a equipe de saúde é vista como ruim por esses familiares, o risco de TEPT aumenta ainda mais1,3. Assim, uma boa comunicação é fundamental para uma assistência médica de exce- lência não apenas ao paciente, mas também aos familiares. As famílias de pacientes com doenças graves necessitam de uma equipe de saúde que se comunique de maneira honesta, que se faça compreender e que os apoie em um momento tão delicado como o que vivem. A grande maioria dos familiares também demanda acesso a informações detalhadas, incluindo dados prognósticos, o que é abordado em maiores detalhes no Capítulo 4. Principalmente, as famílias precisam ser tratadas com empatia. No entanto, dados também apontam que, especialmente no campo das UTI, local em que uma boa parte das mortes ocorre atualmente, é grande a insatisfação de familiares quanto aos aspectos de comunicação da equipe de saúde4,5. Pontos demandados por fa- miliares para melhorar sua satisfação com a assistência em fim de vida incluem: melhor comunicação e maior acesso ao tempo disponibilizado pelos médicos à família6. Uma das soluções possíveis para aprimorar a comunicação entre equipe e familiares é realizar encontros periódicos entre os dois grupos7. Dados também demonstram que uma melhor comunicação facilita a tomada de decisões por parte da família, aumenta sua confiança na equipe e promove sua satisfação6,8. Também promove o bem-estar ge- ral dos familiares e evita desfechos psicológicos negativos9. Algumas técnicas podem ser empregadas pela equipe para facilitar a comunicação de notícias difíceis aos familiares, Abordagem à Família Capítulo 32 Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Elio Barbosa Raimondi Belfiore Mariana Ducatti 642 conforme abordado no Capítulo 30. Contudo, aqui será dado enfoque às particularidades que caracterizam a interação com a família. Conceitos e definições • Família: existem diversas definições sociológicas, religiosas, culturais, his- tóricas e legais, que variam entre diferentes sociedades. Não é escopo deste ca- pítulo versar sobre esses aspectos, mas apresentar uma definição que guie as ações de comunicação no contexto dos cuidados paliativos que permitam uma prática médica de excelência. Aspectos e definições legais são importantes, es- pecialmente quanto à tomada de decisões, mas serão abordados em detalhes no Capítulo 30. Assim, para os fins deste capítulo, entende-se como “o grupo com- posto por quaisquer pessoas importantes para a vida do paciente e que possam participar de discussões envolvendo seu cuidado”. Características de uma boa comunicação com familiares de pacientes com doenças graves Uma boa comunicação, como visto, promove a satisfação de familiares e diversos des- fechos positivos. Mas quais características estão associadas a uma comunicação de qua- lidade? Pesquisas apontam que equipes que se comunicam bem apresentam: bom nível de empatia com os familiares10; membros com papéis conhecidos e bem definidos no cuidado do paciente11; consistência nas informações repassadas12; e tempo disponível para interagir com as famílias e acessibilidade para ouvir as demandas6,11. A satisfação dos familiares com a comunicação também é maior quando os médicos que seguem o paciente longitudinalmente (por exemplo, o médico de família) são envolvidos na dis- cussão e quando percebem que existe uma continuidade no cuidado11,13. Outras quali- dades que tornam virtuosa a comunicação incluem: fornecer mais tempo para ouvir o paciente e familiares nos encontros14,15; encorajar perguntas13;prover suporte emocio- nal e conforto12,13,15; respeitar valores do paciente e familiares13; fornecer informação completa (se assim for a vontade do paciente)16; apoiar o tomador de decisão em sua tarefa16,17; discutir aspectos espirituais do cuidado15,17,18; permitir a expressão da vontade do paciente e o respeito a ela; se mostrar preocupado e zeloso com o cuidado do pacien- te; e permitir que a família tenha a sensação de que mantém o controle13,19. 643 Nos cuidados paliativos, deve haver a preocupação especial em reassegurar a família de que fornecer conforto não significa abandonar o paciente. Quanto ao aspecto tem- poral, promover a interação precoce e frequente, especialmente no contexto hospita- lar e de UTI, permite reconhecer problemas logo em seu início e realizar intervenções de comunicação para corrigir conceitos errados20. Esse tipo de abordagem se associou a menor uso de leitos de terapia intensiva em pacientes que faleceram, sem concomi- tante aumento da mortalidade, o que permite concluir que a comunicação intensiva leva a um menor uso de tais recursos quando não apresentam benefício ao paciente7. Uma interação mais frequente também é importante, pois a maioria dos familiares não consegue assimilar toda a informação em apenas um encontro, especialmente no caso de notícias difíceis e quando decisões importantes são necessárias21. Assim, reco- menda-se uma abordagem de comunicação proativa, em que o contato com a família seja buscado constantemente, ao contrário de uma abordagem reativa, em que as inte- rações com os familiares são motivadas por fatores clínicos apenas20,22. Uma boa comunicação com familiares também pressupõe que eles entendam e sejam capazes de assimilar corretamente aquilo que foi comunicado, o que infelizmente não ocorre em grande parte dos casos. Muitos familiares não percebem que seu conheci- mento a respeito da saúde do paciente é baixo23, enquanto muitos médicos também não percebem essa baixa compreensão da família, pois raramente perguntam se o familiar compreendeu o que foi explicado24. Ademais, muitas vezes, o familiar legalmente res- ponsável pela tomada de decisão não se sente confiante para desempenhar esse papel, o que é agravado por uma comunicação ruim com o médico8. Isso é preocupante, pois es- tudos mostram que os objetivos do tratamento e os valores do paciente, em muitos casos, não são abordados pelo profissional25. Como resultado, há um prejuízo na deliberação sobre as opções de cuidado, o que faz com que a relação médico-paciente se distancie do modelo deliberativo, o qual é discutido em detalhes no Capítulo 40. Mais do que apenas na satisfação, uma comunicação atenciosa às demandas da famí- lia pode ter um impacto positivo no seu bem-estar psíquico, assim como no do paciente. Quando aumenta o envolvimento dos familiares na tomada de decisão, seus sentimentos de impotência e incerteza diminuem, enquanto cresce a sensação de controle13,19. Inter- venções envolvendo encontros programados entre equipe e familiares também podem minimizar o risco de que estes últimos apresentem sintomas depressivos, ansiedade e TEPT9,26,27, o que é frequente nesses casos1-3. Assim, ter um período de tempo reservado para um encontro representa a oportunidade para que os familiares expressem seus sentimentos e preocupações sobre o paciente e sobre o efeito da doença na família. 644 A percepção de uma melhor comunicação com o médico e os outros membros da equipe promove uma maior confiança nas decisões tomadas pelo familiar8. Uma comunicação ruim também se associa a conflitos entre familiares e médicos17,20, o que reforça ainda mais a importância dessa habilidade para a relação entre ambos. Ademais, ao permitir o proces- so de decisão compartilhada, a boa comunicação ajuda os familiares a receberem conforto e entenderem o que está sendo feito pelo paciente, além de fazê-los se sentirem úteis no cuidado, com a garantia de que os valores do paciente e seu conforto estão sendo priori- zados28. É importante frisar, porém, que uma boa comunicação não pode se limitar a en- contros isolados, mas deve ser uma característica que permeia todo o cuidado ao paciente. O encontro familiar Encontros podem ser agendados entre familiares e a equipe para atingir os seguintes objetivos importantes para o cuidado do paciente: conhecer os familiares, informar no- tícias relativas ao quadro, responder questões e incluir, se for o caso, o indivíduo legal- mente responsável por isso no processo de decisão compartilhada. Muitos desses obje- tivos podem ser atingidos utilizando-se técnicas e habilidades que podem ser treinadas. O momento para realizar o encontro Deve ser precoce, assim que possível, após se iniciarem os cuidados ao paciente. No âmbito da UTI, recomenda-se que seja realizado até 72 horas após a admissão do pa- ciente7,29. Encontros precoces estão associados a uma maior satisfação dos familiares, diminuição do tempo de internação e aumento do consenso na tomada de decisão7,20,29. Também se recomenda adotar uma postura proativa quanto à realização de encontros familiares, organizando esses momentos dedicados à comunicação de forma regular e consistente, ao invés de organizá-los somente quando é necessário tomar alguma deci- são difícil20,30. Algumas situações, contudo, tornam mais imperativa a necessidade de encontros, tais como: necessidade de tomada de decisão; mudanças importantes do qua- dro do paciente; situações de conflito entre pacientes e familiares, entre o paciente e membros da equipe, entre familiares e membros da equipe e/ou entre os próprios fami- liares; ou, então, em qualquer momento em que se julgar que um encontro será útil para aprimorar o cuidado ao paciente ou quando for solicitado por familiares. Participantes de um encontro familiar Em primeiro lugar, deve-se valorizar e respeitar o desejo do paciente. Assim, se ele, em algum momento, expressou desejo que alguém não participe do encontro ou que não 645 saiba de parte ou da totalidade das informações relativas à sua saúde, esse desejo deve ser respeitado, incluindo após a perda de sua capacidade para consentir, caso isso ocorra. Caso não haja óbice por parte do paciente, todos os familiares pertinentes podem ser convidados, bem como quaisquer outras pessoas que sejam requisitadas por ele. A presença de múltiplos familiares no mesmo encontro evita uma troca de informação fragmentada e inconsistente com a família, permitindo que todos recebam e processem a mesma informação. No caso de pacientes que não têm capacidade para consentir, o encontro deve incluir o representante que terá o papel de tomada de decisão. Da parte da equipe, recomenda-se que todos os envolvidos no cuidado participem do encontro, incluindo também, por exemplo, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, capelães, entre outros profissionais. Cabe ao médico fornecer informações de diagnós- tico e prognóstico. Contudo, é fundamental que todos os profissionais estejam em sinto- nia e alinhados, de forma a produzir um discurso em uníssono12,31. Em relação aos participantes, ainda, é importante verificar a existência de possíveis conflitos de interesse, o que diminui imparcialidade nas decisões. Caso isso ocorra, deve-se discutir o caso com a equipe de assistência social, psicologia e jurídica da ins- tituição. Porém, em linhas gerais, quanto mais abrangente for o encontro, menor o campo para desentendimentos, como o caso detalhado no Capítulo 43. Antes do encontro É fundamental que, antes do encontro com a família, a equipe inteira se reúna, com o objetivo de alinhar a fala e evitar informações desencontradas e mal-entendidos. Pesquisas demonstram que uma comunicação conflituosa e inconsistente diminui a satisfação da família e compromete a tomada de decisão3,31. Assim, o consenso deve ser buscado entre a equipe. No caso da existência de divergências insanáveis, a equipe deve explorar, entre si, os diferentes pontos de vista para expô-los à família, durante odo Núcleo Técnico-Científico de Cuidados Paliativos do HC-FMUSP e do Hospital Sírio-Libânes de São Paulo. Ivete Zoboli Médica especialista em Dor e Cuidados Paliativos pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEPAE). Especialização em Curso Introdutório e Avanzado de Orientacíon en Cuidados Paliativos y Psico-Sócio-Oncologia. Universidad del Salvador (USAL), Argentina. Título de atuação em dor pela AMB. Médica da Unidade de Dor e Cuidados Paliativos do Instituto da Criança (ICr) do HC-FMUSP. Janete Maria da Silva Fisioterapeuta. Mestre em Ciências da Reabilitação, especialista em Fisioterapia em Ge- rontologia pela Associação Brasileira de Fisioterapia e Gerontologia, do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Abrafige/Coffito), especialista em Fisioterapia em Tera- pia Intensiva Adulto pela Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisio- terapia em Terapia Intensiva (Assobrafir/Coffito). Área de atuação em Cuidados Paliativos e Assistência Domiciliar. Docente do Instituto Paliar e do Centro Universitário São Camilo. João Luiz Chicci Thomé Médico oncologista clínico pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP). Médico paliativista pelo HC-FMUSP. Médico assistente de cuidados paliativos do Instituto do Câncer do Estado xi de São Paulo (Icesp – Octávio Frias de Oliveira). Coordenador da equipe de Cuidados Paliativos do Hospital 9 de Julho. José Carlos dos Santos Junqueira Médico especialista na área de atuação de Cuidados Paliativos, com título pela AMB e mestrado pela FCM-Unicamp. Títulos de especialista em Terapia Intensiva e em Ge- riatria pela AMB. Mestre em Clínica Médica pela FCM-Unicamp. Professor do curso de pós-graduação lato sensu em cuidados paliativos em terapia intensiva AMIB. Membro do Comitê de Terminalidade da Vida e Cuidados Paliativos da AMIB e fundador e atual co- ordenador do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital de Clínicas da FCM-Unicamp. Júlia Drummond de Camargo Enfermeira especialista em Cuidados Paliativos pela Casa do Cuidar e certificada pela ANCP. Especialista em oncologia pelo Programa de Residência Multiprofissional em On- cologia do Hospital Sírio Libanês. Especialista em Gestão em Enfermagem pela Universi- dade Anhembi-Morumbi. Docente da pós-graduação em Cuidados Paliativos do Hospital Sírio Libanês. Mestre em Ciências da Saúde pelo Hospital Sírio Libanês, com linha de pesquisa em cuidados paliativos e bioética. Juliana Takiguti Toma Médica formada pela Unifesp-EPM, com Residência Médica em Dermatologia pela Unifesp-EPM e conselheira da atual gestão do Cremesp. Karina Salvadori Médica graduada pela FCMSCSP, com residência em Clínica Médica pela Unifesp-EPM e em Geriatria pela FMUSP. Título de especialista em geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Letícia Andrade Assistente social, doutora em Serviço Social (PUC-SP), com pós-doutorado na mesma área. Especialista em Gerontologia (SBGG). Coordenadora da Comissão de Treinamento e Ensino em Serviço Social e Assistente Social Chefe (Divisão de Serviço Social do HC-F- MUSP). Experiência de mais de 20 anos em cuidados paliativos. Ligia Marçola Médica e pediatra pela FCM-Unicamp, neonatologista pela FMUSP e Paliativista pelo Instituto Pallium Latinoamerica. Pesquisadora voluntária da Unidade de Dor e Cuidados Paliativos do Instituto da Criança do HC-FMUSP. xii Lucas Freire de Andrade Médico Cardiologista e Arritmologista pelo InCor-FMUSP. Ex-consultor indústria de healthcare da McKinsey&Company. Sócio Fundador e Diretor Executivo da Clínica Flo- rence (Hospital de Transição). Luiza Pinto Simões Médica formada pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos em 2008, com residên- cia médica em Clínica Médica e Nefrologia pela Faculdade de Medicina do ABC. Título de especialista pela Sociedade Brasileira de Nefrologia em 2013. Pós-graduada em Cuida- dos Paliativos pelo Hospital Sírio Libanês em 2014. Luiz Eduardo Castelo Branco Médico formado pela FMUSP com residência médica em neurocirurgia pelo HC-F- MUSP. Mestrado em Saúde Pública pela Harvard University. Research fellow em neuro- modulação no Neuromodulation Center, Spaulding Rehabilitation Hospital, Harvard Medical School – 2018-2022. Mariana Ducatti Psicóloga graduada pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). Mestre e doutora em Ciências, com ênfase em psicobiologia, pela USP. Atualmente é psicóloga no Hos- pital de Amor (Hospital do Câncer de Barretos) e Coordenadora e Docente do Curso de Psicologia da Faculdade Barretos. Marcelo Gomes Cordeiro Valadares Médico Neurocirurgião Funcional no Hospital Albert Einstein. Médico chefe da área de Neurocirurgia Funcional da disciplina de Neurocirurgia da FCM-Unicamp. Mestre em Neurologia, Médico e Neurocirurgiao pela FCM-Unicamp Unicamp Marcello Moro Queiroz Médico clínico geral pelo Hospital Santa Marcelina e oncologista clínico pelo Hospital Sírio-Libanês. Marina Raimondi Belfiore Médica formada pela Unicamp, realizou residência de Pediatria e Neonatologia pela FMUSP e Departmental Fellowship em neonatologia no Sickkids Hospital da Universidade de Toronto. Michelle Uchida Miwa Médica com residência em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ). xiii Mestre em Psicologia e Saúde pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Fa- merp). Doutoranda em Ciências da Saúde pelo Hospital de Amor – Fundação Pio XII. Atu- almente é médica assistente do departamento de Cuidados Paliativos do Hospital de Amor. Milene Derzete da Cunha Escritora, psicóloga e jornalista. Especialista em Neurociência e Comportamento e em Terapias Cognitivas e Comportamentais. É facilitadora do Programa SMART (Stress Mana- gement and Resiliency Training) no Brasil. É aluna especial do programa de pós-gradua- ção em Neurociência na Universidade Federal de Santa Catarina. Mônica Martins Trovo Enfermeira, paliativista. Mestre e Doutora em Ciências da saúde pela EE-USP. Docente em cursos de graduação e pós-graduação, pesquisadora e palestrante sobre Comunica- ção em Cuidados Paliativos. Natan Chehter Médico pela FMUSP. Residência em Clínica médica e em Geriatria pelo HC-FMUSP. Titulado pela SBGG. Pedro Luís Furlam Médico formado pela FMUSP. Residente em Cirurgia Geral no HC-FMUSP. Rafaela Candida Silva Freire de Carvalho Médica com residência em Cuidados Paliativos pela FMUSP e título de especialista pela AMB. Residência médica em Geriatria pelo Hospital do Servidos Público Municipal de São Paulo (HSPM-SP), com título de especialista pela SBGG. Pós-graduação em On- cogeriatria pelo Hospital Sírio-Libanês. Atualmente é médica geriatra e paliativista do Grupo Oncoclínicas – Salvador/BA. Renata Matsuura Endo Médica formada pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Rita Tiziana Verardo Polastrini Enfermeira pediátrica. Especialista em administração hospitalar pela FSP-USP. Diplo- mada em cuidados paliativos pela Universidade del Salvador, Buenos Aires, Argentina, com chancela pela Universidade de Oxford, Reino Unido. Certificado de Capacitador pelo EPEC Latino pelo Boston Children's Hospital e Dana Faber Cancer Institute. Mem- bro do Comitê de pediatria da ANCP. Membro da Rede Brasileira de Cuidados Paliativos Pediátricos (RBCP Pediátricos). Enfermeira da unidade de Dor e Cuidados Paliativos do xiv ICr – HC-FMUSP. Coordenadora administrativa da unidade de pediatria integrativa do Departamento de Pediatria da FMUSP. Rodrigo Alves dos Santos Médico especialista em Medicina Intensiva pela AMIB, com área de atuação em Medi- cina Paliativa pela AMB. Presidente da ANCP – Estadual São Paulo (ANCP-SP) de 2022 a 2023. Membro do Comitê de Medicina Intensiva da ANCP. Membro do Comitê de Cuida- dos Paliativos e Terminalidade da Vida da AMIB. Rodrigo Ramella Munhoz Médico oncologista titular do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês. Diretor do programa de Residência Médicaencontro agendado, de forma harmoniosa e previamente combinada, para evitar desentendimentos perante os familiares32. As reuniões de equipe antes do encontro com os familiares devem discutir fatos mé- dicos relevantes, como o diagnóstico, prognóstico e o plano de cuidado. Os membros da equipe também podem discutir elementos que puderam observar no contato com os familiares, como os mecanismos de enfrentamento, estilos de comunicação, aspectos emocionais, aspectos sociais, dinâmicas familiares e reações a notícias difíceis de cada um deles. Essa troca de informações pode auxiliar os membros da equipe a planejar o encontro de acordo com o que já se conhece da família, uma vez que a dinâmica familiar 646 e os aspectos emocionais de cada familiar influenciam no cuidado com o paciente. Da parte do médico e demais integrantes da equipe, essa reunião prévia também é uma oportunidade para avaliar e discutir as emoções e vieses em relação ao paciente e sua família. Isso pode ajudar a reconhecer e evitar fatores que afetam a comunicação, o encontro e a tomada de decisão. Exemplos de possíveis vieses na tomada de decisão são discutidos no Capítulo 4. Técnicas de comunicação para um encontro familiar bem-sucedido Inicialmente, todos os membros da equipe devem se apresentar, detalhando seu car- go, papel e envolvimento no cuidado do paciente. Isso é particularmente importante, pois a satisfação da família se associa a um maior conhecimento dos papéis de cada um dos membros da equipe3. A seguir, devem-se especificar os objetivos do encontro e veri- ficar as demandas dos familiares. As recomendações para o encontro familiar também seguem o protocolo SPIKES33, descrito no Capítulo 30. Em linhas gerais, incluem garantir um ambiente confortável, privativo e disponibilizar lenços de papel. Antes de comunicar algo, recomenda-se verificar o que os familiares já sabem antes, seu estado emocional e nível de instrução, de forma a planejar como lidar com possíveis quebras de expectativa, conceitos errados que possuam e outras dificuldades que forem identificadas. A comunicação da informação em si também deve seguir o protocolo SPIKES. Inicial- mente, deve-se perguntar aos familiares qual nível de detalhamento gostariam de obter, respeitando o desejo do paciente quanto a isso, sobre informações potencialmente deli- cadas, como diagnóstico e prognóstico33. Pesquisas apontam que as famílias geralmente querem ter conhecimento sobre esses aspectos34, o que também pode melhorar a satisfa- ção com a tomada de decisão16. Quanto à informação propriamente dita, deve ser comuni- cada com linguagem simples, direta, clara e sem utilizar jargões, de forma a garantir seu entendimento por parte dos familiares. Para isso, é fundamental que todos os membros da equipe tenham revisto o prontuário e saibam as informações que serão discutidas em detalhes. Contudo, deve-se evitar o detalhismo técnico excessivo, pois pode comprometer o enfoque no quadro geral, desviando a atenção para detalhes menos relevantes. Como já abordado nos Capítulos 4 e 30, as informações sobre o prognóstico devem ser transparentes quanto à possibilidade de incerteza, o que não é algo inesperado pelos fa- miliares35. O médico deve ser honesto, não deixando de oferecer esperança ao familiar, mas sem fornecer falsos reasseguramentos. A incerteza prognóstica deve ser abordada oferecendo-se uma gama de possíveis desfechos36 e avisando, previamente, da possibi- lidade de mudanças, de forma a evitar surpresas que podem originar eventuais mal-en- 647 tendidos. Nos casos em que não for possível fornecer estimativas à família, é importante ser honesto quanto a isso e tentar estimar quando será possível saber mais. Outro ponto fundamental da técnica de comunicação em um encontro com fami- liares envolve a resposta a suas reações ao que é comunicado. Em primeiro lugar, é importante dar tempo para se manifestarem, valorizar suas falas, reconhecer suas emoções por meio de frases reflexivas, ouvir atenciosamente, buscar compreender o paciente como um todo com perguntas abertas, e estimular perguntas. Abordagens para operacionalizar esses componentes da comunicação foram desenvolvidas, como a estratégia VALUE (acrônimo correspondente ao inglês para cada um desses compo- nentes), proposto para o ambiente de UTI, mas também útil para outros ambientes37. Também, é importante permitir que essas reações se expressem ao não interromper o encontro e garantir o tempo necessário. Por fim, para fortalecer o vínculo e promover a continuidade e consistência da comunicação, recomenda-se designar sempre o mes- mo médico para desempenhar a interação principal com a família11. Ainda, quanto às reações dos familiares, é importante, conforme exposto, manter sua esperança, mas deve-se estar ciente a possíveis situações que podem comprometer o en- tendimento do que foi comunicado. Por exemplo, é possível que um familiar reaja com enfoque excessivo em algum detalhe positivo, de forma a enviesar seu entendimento do quadro. Ou, então, pode ter um “instinto de que o caso de seu familiar doente será dife- rente dos demais, evoluindo positivamente, ao contrário do previsto”. Muitos familiares também podem trazer informações de outras fontes, que julgam ser corretas, com viés mais positivo. Dados mostram que a maioria dos casos de divergência entre as estima- tivas prognósticas de médicos e as expectativas de familiares é produzida tanto por difi- culdades no entendimento por parte dos familiares, quanto por crenças discrepantes38. Muitas dessas reações, que podem representar uma forma de negação, são esperadas no processo de luto, que é detalhado no Capítulo 29. Assim, é importante que o médico esteja ciente de sua possibilidade, antecipe-as e saiba reagir adequadamente a elas. Ao reconhecer uma expectativa irreal, é fundamental que o médico não a invalide. É importante dizer que reconhece essa realidade como desejável, mas que, infelizmente, a informação que necessita comunicar é outra. Uma frase interessante, por exemplo, se- ria: “Adoraria dizer que é possível eliminar completamente as células tumorais do corpo, mas infelizmente o câncer já está disseminado neste momento”. Nesses casos, quando não há perspectiva curativa, o próximo passo é, então, focar nos valores manifestos pelo paciente e ajustar os objetivos do tratamento a eles. Exemplos de objetivos do cuidado seriam, por exemplo: o enfoque em conforto, buscar boa qualidade de vida para permi- 648 tir concretizar algum projeto, ver o nascimento de um neto, entre outros. Também, ao se realizar esse tipo de discussão, deve-se evitar o enfoque excessivo nos detalhes técnicos e priorizar a discussão com os familiares sobre a função do tratamento, recomendando as opções mais fiéis aos desejos e valores do paciente. Em linhas gerais, é preciso dar tempo, condições e espaço para que o familiar processe seu luto, sem julgamentos. Ao longo do encontro, a informação deve ser transmitida de forma pausada, que permita sua assimilação por parte dos familiares. Mostrar exames de imagem e forne- cer panfletos ou outros materiais educativos pode ajudar na compreensão de concei- tos médicos34. Por fim, múltiplos encontros curtos podem ser preferíveis a apenas um encontro longo, pois isso pode permitir dividir os tópicos a serem discutidos em cada momento, de forma a evitar que seja transmitida informação em demasia de uma úni- ca vez, permitindo aos familiares terem tempo para processá-la nos intervalos. Atenção às dinâmicas familiares Uma oportunidade interessante oferecida pelos encontros familiares é entender a dinâmica de grupo da família, ao se observar a interação entre membros de um grupo de pessoas relacionadas entre si. Nesse contexto, deve-se levar em conta que as famí- lias são sistemas únicos, com regras e hierarquias próprias, cujo entendimento ajuda- rá na implementação de uma comunicação de qualidade pela equipe. Uma oportunidade de avaliar esses aspectos, contudo, jápode existir antes do encon- tro com a família propriamente dito. A reunião de equipe prévia pode ser o momento para já se antecipar em alguma dessas questões, por meio da discussão entre membros da equipe, em especial com assistentes sociais, daquilo que já puderam observar durante o contato com a família. Durante o encontro, por sua vez, é possível observar diretamen- te a interação entre os familiares e o papel de cada um na estrutura da família. Podem ser observados aspectos hierárquicos e relacionais, como quem toma as decisões, quais são as ordens de fala e quem senta próximo a quem. Também é possível notar como a comunicação ocorre entre os membros da família; se há respeito nessa interação; se o assunto discutido é pertinente; se há espaço para a exposição ordenada de ideias; ou se as interrupções são frequentes e se há algum membro que se expressa mais ou que se expressa menos. Ainda, é possível observar se há empatia entre os familiares. Se forem identificadas dinâmicas conflituosas na família, não se recomenda tentar corrigi-las. Muitas dessas dinâmicas não surgiram naquele momento, apesar de po- derem ser exacerbadas devido à situação de estresse que os familiares estão vivendo. Dessa forma, seria muito difícil e intrusivo tentar alterá-las. Ademais, o encontro fa- 649 miliar também não tem o objetivo de exercer a função de terapia familiar, embora seja possível realizar um encaminhamento para esse tipo de serviço. Caso sejam identifi- cadas situações conflituosas, deve-se tentar manter o controle e a ordem do encontro e buscar desviar o foco desses conflitos, alertando que tal dinâmica não é benéfica ao paciente. Se ocorrerem situações mais graves, deve-se traçar um limite e reforçar a inadequação dos comportamentos em relação ao cuidado que o paciente necessita. Se houver disputas familiares, o médico deve permanecer neutro, mas atento aos confli- tos, uma vez que seu entendimento pode auxiliar na compreensão do quadro geral. Discussão de questões de fim de vida com as famílias Idealmente, as questões de fim de vida devem ser introduzidas precocemente. Isso permite à família se preparar para possíveis situações difíceis, incluindo a morte, mas sem perder a esperança34,39. Ao mesmo tempo, evita-se que os familiares sejam pegos de surpresa com desfechos indesejados e se vejam diante da necessidade de tomada de decisões sob pressão. Assim, esse tipo de discussão deve ser ativamente promovido, sem se restringir somente a situações que o motivem20,21,30. Contudo, a maioria dos pacientes relata que não tem esse tipo de discussão com seus médicos. Diversas barreiras foram apontadas para isso: incerteza quanto ao prognóstico, receio de causar sofrimento, dúvi- das quanto à prontidão do paciente para ter esse tipo de discussão, além de sentimento de não estar preparado para conduzir esse tipo de conversa39. Apesar das barreiras, a discussão precoce é fundamental, principalmente para pre- servar a autonomia do paciente e evitar que todo o fardo emocional pela tomada de decisão recaia sobre a família. Isso porque, na maior parte das vezes em que as questões de fim de vida precisam ser discutidas, especialmente no ambiente da UTI, o paciente não mais possui capacidade para consentir. É o caso, por exemplo, de pacientes incons- cientes ou em delirium. Quando esse tipo de discussão é conduzido precocemente, os valores e desejos do paciente podem ser conhecidos de forma precoce e registradas em diretivas antecipadas de vontade39. Uma vez perdida a capacidade para consentir, esses valores, uma vez conhecidos, podem ser honrados conforme o que foi determinado pelo paciente, preservando-se sua autonomia e evitando-se a necessidade de decisão substi- tuta. Essa abordagem precoce diminui o tempo na UTI, dá maior confiança ao tomador de decisão e diminui o nível de conflito associado a esse papel7,20,29,40. Um aspecto importante nessas discussões é atentar-se aos impactos do fardo de estar em um papel decisório desse tipo. Muitos familiares podem sofrer com o conflito impos- to por terem que tomar decisões tão delicadas quanto as de fim de vida. Podem surgir 650 sentimentos como culpa, além de desentendimentos entre eles e a equipe e/ou entre a própria família. Esse conflito é amplificado pelo fato de que, como exposto, os valores do paciente muitas vezes não são discutidos, o que dificulta a tomada de decisão pelo fami- liar. Exemplos de situações de insegurança incluem casos em que familiares manifestam preocupações como “não posso deixar minha mãe morrer”, diante de opções como reali- zar a extubação paliativa de um paciente. Nesses casos, o médico deve estar atento ao fato de que o familiar se vê em uma situação de extrema pressão, e deve buscar aliviar o fardo decisório que pesa sobre ele41. Muitos profissionais, no entanto, não reconhecem o sofri- mento emocional e se limitam a informar a parte médica apenas, deixando todo o fardo decisório sobre o familiar. Uma possível alternativa de resposta a situações como essa, por exemplo, seria o médico inicialmente validar o sentimento do familiar e reconhecer que se trata de uma decisão extremamente difícil. Em seguida, é possível dizer: “nin- guém nunca pediria para você tomar uma decisão como essa” e explicar que o objetivo da discussão é decidir por uma conduta que corresponderia àquilo que o próprio paciente decidiria, ao invés de uma decisão entre a vida ou a morte. Por exemplo, uma opção seria perguntar ao familiar “o que sua mãe acharia, caso pudesse manifestar sua opinião?”. São os valores do paciente, portanto, que devem guiar a discussão sobre decisões de fim de vida, de forma que o familiar possa compreender que sua decisão não corresponde ao que ele prefere, mas sim às preferências do paciente, tirando de si o fardo decisório. Contudo, é frequente que muitos familiares nunca tenham tido esse tipo de discussão an- teriormente, mesmo porque, como exposto, é raro que o tema seja introduzido mais pre- cocemente. Dados mostram que são justamente esses os familiares que apresentam menos confiança no desempenho de suas funções de tomador de decisão8. Da mesma forma, pes- quisas com familiares identificaram que discussões prévias com pacientes sobre preferên- cias quanto ao tratamento no fim de vida foram úteis para minimizar o fardo da tomada de decisão39. Uma comunicação eficiente com o médico se associou a uma melhora dessa con- fiança8. Para isso, é fundamental que o médico detalhe os objetivos do cuidado, explicando que, quando o principal objetivo for promover conforto, o sofrimento do paciente será aliviado e a família terá apoio nessa situação. Assim, o familiar não deve ter o sentimento de que seu ente querido doente foi abandonado, uma vez que isso tem impacto extrema- mente negativo sobre a família. Discutir decisões de fim de vida de forma proativa, aberta e precoce, portanto, traz benefícios tanto para o paciente quanto para seus familiares e evita conflitos e outras consequências negativas emocionais para todas as partes envolvidas. Além das discussões iniciais e regulares sobre os cuidados de fim de vida, recomen- da-se que esse tópico sempre seja discutido quando ocorrerem eventos críticos, como 651 diagnóstico, alterações na condição do paciente, existência de expectativas irrealistas, transição para cuidados paliativos exclusivos, desfechos desfavoráveis do tratamento, entre outras39. Tópicos a serem abordados nessas discussões vão além de decisões clí- nicas propriamente ditas. Incluem, também, aspectos sobre a qualidade de vida pré- -mórbida, sobrevida, probabilidade de retornar à qualidade de vida pré-mórbida e dor e sofrimento com cada opção de tratamento. Detalhes sobre a discussão de objetivos do tratamento são abordados no Capítulo 4. Ademais, essa também é uma oportunidade para discutir os aspectos espirituais do paciente e de seus familiares e buscar atender às necessidades que os envolvem, conforme abordado no Capítulo 28. Dados mostram quediscutir esses aspectos também aumenta a satisfação com a comunicação15,17,18. Durante as discussões de questões de vida, também é especialmente importante atentar às dinâmicas familiares e verificar o grau de consenso nas decisões. É funda- mental permitir que todas as opiniões sejam ditas nos encontros e que os familiares conversem entre si de forma privada. Isso permite evitar potenciais mal-entendidos, como o descrito no Capítulo 43. Infelizmente, essa abordagem aqui descrita, envolvendo a busca pela decisão compar- tilhada e por um plano de cuidado mais alinhado aos valores do paciente, ainda é pouco adotada. O Quadro 1 sumariza as estratégias acima recomendadas para discutir questões de fim de vida com familiares. • Questionar o familiar sobre quais seriam as opiniões e valores do paciente diante de sua situação atual, caso pudesse manifestá-los; • Tirar do familiar o fardo de decidir, explicando que a decisão, na verdade, corresponde ao que o paciente decidiria, caso pudesse; • Indagar sobre os aspectos espirituais envolvidos e, caso haja, buscar formas de atender às necessidades observadas; • Reconhecer sempre que o familiar está sob pressão e estresse, não invalidando suas emoções, mas reconhecendo-as; • Oferecer apoio e reagir de forma empática, reforçando positivamente os comportamentos saudáveis (por exemplo, com frases como “você está se saindo muito bem em um momento tão delicado como este”); • Sempre reforçar que todas as decisões devem respeitar os desejos e valores do paciente; • Estar disponível para as demandas dos familiares e se mostrar interessado nelas; • Em casos que envolvam limitar tratamento ou descontinuar suporte à vida, por exemplo, explicar que não se trata de uma decisão de vida ou morte, mas, sim, sobre qual tipo de morte ocorrerá. QUADRO 1. ESTRATÉGIAS RECOMENDADAS PARA DISCUTIR QUESTÕES DE FIM DE VIDA COM FAMILIARES ADAPTADO DE BRIGHTON ET AL., POSTGRAD MED J 201639 E SCHENKER ET AL., J GEN INTERN MED 201241. 652 Estratégias para lidar com emoções em encontros de familiares Os familiares de pacientes gravemente doentes podem reagir de diversas formas, in- cluindo reações fisiológicas, como síncope, descarga adrenérgica (reação de luta e fuga e sensação de morte iminente), manifestações parassimpáticas (como se calar e ficar retraí- do), além de emoções como tristeza, raiva, sentimentos de culpa, medo e ansiedade42. To- das elas podem ser reações normais. Portanto, o médico deve ouvir o familiar, reconhecer suas emoções e validá-las, apoiando-o e mostrando-se presente e, ao mesmo tempo, capaz de manter o controle da situação, inclusive diante de emoções mais intensas. A reação do médico, assim como de toda a equipe de saúde, deve ser, portanto, empática, validando a emoção e deixando explícito que a compreende e que a respeita. Por fim, também deve explorá-la melhor, buscando elucidar as crenças e fatores a ela associados. Alguns profissionais podem pensar que responder de forma empática, ao invés de ignorar ou tentar suprimir as reações emocionais de familiares, resultaria em maiores demandas de tempo em um encontro familiar. Contudo, dados demonstram que encon- tros entre paciente e médicos que reagem com empatia a expressões de emoção tendem a durar menos43. Assim, pode-se inferir que abordar de forma apropriada essas reações, tanto de pacientes quanto de familiares, otimiza o tempo do encontro e evita maior com- prometimento do tempo com eventuais mal-entendidos e conflitos. Ademais, esse tipo de abordagem também pode facilitar a obtenção de informações clínicas44, pois as emo- ções podem ser o ponto de partida para entender melhor os valores e as necessidades do paciente e dos familiares. Isso diminui a ansiedade da família e, como resultado geral, fortalece a relação com ela e aumenta sua satisfação10. Em alguns casos, os familiares podem reagir com uma sensação de impotência, aliada à negação, e pedir para que o médico “faça tudo o que for possível”. Nesses casos, deve-se entender o que o familiar quer dizer com isso, ou seja, explorar sua consciência prognósti- ca (para detalhes, ver Capítulo 4), seus objetivos de tratamento, valores e outros fatores que podem estar motivando esse pedido. Após esclarecer esses pontos, deve-se tentar oferecer uma opção viável do ponto de vista médico que mais se aproxime ao que ele elencar45. Em outros casos, por sua vez, os familiares podem ter dificuldades em assimilar as re- comendações da equipe e manifestar que “esperam um milagre”. Nesses casos, em que também se associam aspectos espirituais e religiosos, deve-se validar a crença dos fami- liares, evitando deslegitimá-la, confrontá-la ou julgá-la. Porém, é importante explorá-la e buscar entender o que representaria um milagre, segundo a visão da família, e o que mais espera acontecer. Também é importante tentar identificar a emoção por trás da crença, por exemplo, medo, ansiedade e incerteza. Outro recurso importante pode ser contar com 653 auxílio espiritual, como o de um capelão46. Em muitos casos, é preciso dar tempo à família para elaborar a situação, estando presente e acessível enquanto isso ocorre. Situações de conflito entre familiares e equipe Conflitos infelizmente são muito comuns entre familiares de pacientes com doenças graves e a equipe de saúde no fim da vida, atingindo até um terço dos casos no contexto de UTI. A maior parte desses conflitos envolve decisões de fim de vida47. Contribuem para esse fenômeno a grande carga emocional e o estresse associados ao cuidado de um paciente gravemente enfermo. Poucas vezes, porém, ambas as partes reconhecem que um conflito, de fato, ocorreu48. Grande parte desses conflitos envolve problemas de comunicação4 e também podem ocorrer entre os membros da própria equipe49. Como resultado de uma comunicação ruim, pode surgir uma sensação de desconfiança da fa- mília, que pode levar ao conflito e comprometer o cuidado ao paciente, além de aumen- tar o fardo psicológico e o estresse da equipe50. Um exemplo de um conflito como esse é o ilustrado no Capítulo 43 deste livro, que resultou em uma sindicância ético-profissional que poderia ter sido evitada com uma melhor comunicação. Infelizmente, é comum a abordagem que consiste em tentar convencer que familiares estão errados por não terem competência para lidar com o assunto. Isso apenas alimenta a discórdia, pois os familiares não se sentem compreendidos e ouvidos, ficando com a impressão de que estão isolados e abandonados. Podem também se sentir pressionados a desistir do tratamento do parente, por não assimilarem conceitos de cuidados paliativos, o que gera frustração e mais desconfiança. Da parte da equipe, esses conflitos podem inter- ferir na prestação dos cuidados e ser uma fonte de frustração e estresse para os profissio- nais, tópico abordado no Capítulo 33. Embora as famílias sejam extremamente heterogêneas, cada uma com sua própria dinâ- mica, há estratégias gerais para lidar com conflitos com familiares. Em primeiro lugar, deve- -se tentar entender as possíveis razões ou causas do conflito, para poder abordá-las. Possíveis causas incluem: desconfiança quanto à assistência médica e o sistema de saúde; falhas de co- municação, como informações desencontradas; questões psicológicas dos familiares, como negação, sentimentos de culpa e estresse; diferenças culturais e religiosas em relação à equi- pe, como acreditar em milagres; e outros fatores como conflitos de interesse e ganhos secun- dários51. É preciso que o médico valide e não julgue o problema identificado, respondendo conforme o caso. O Quadro 2 elenca as principais causas e possíveis respostas para elas. Como abordagem geral a conflitos com familiares, no entanto, recomenda-se reco- nhecer os sentimentos de raiva, tristeza e frustração dos familiares, de forma a não os 654 invalidar, para, então, oferecer um contraponto52. Nos casos de limitação ou desconti- nuação de suporte à vida, devem ser explorados possíveis sentimentos deremorso e culpa, de modo a tirar o fardo do paciente, como já exposto41. Também é importante ex- plorar como era o relacionamento do paciente com seus familiares que estão sofrendo, de modo a permitir que expressem suas emoções e seu luto, muitas vezes encobertos, mas que precisam ser discutidos para serem elaborados. Neste processo também é im- portante contar com o apoio do psicólogo e do assistente social, que permitem auxiliar a família em aspectos que podem ser fonte adicional de estresse53. Em alguns casos, porém, a razão do conflito envolve uma questão legal, muitas vezes mal-entendida – tanto por parte da família, quanto da equipe – e será necessário dis- cutir o caso com a equipe legal da instituição51. Em outros, ainda, crenças religiosas da família podem entrar em conflito com práticas da equipe e da instituição. Nesses casos, é preciso buscar entender a crença, validá-la e verificar se corresponde aos valores e preferências do paciente46,51. Tipos de conflito Causa Possíveis respostas • Reunir família com equipe novamente e rediscutir a informação em conjunto. • Reconhecer a emoção e validá-la; • Fornecer informação novamente; • Mostrar-se disponível e acessível; • Responder com empatia e apoio. • Informar utilizando linguagem simples, direta e sem jargões; • Limitar notícias a pequenas quantidades de informação de cada vez, para permitir sua assimilação; • Verificar entendimento constantemente; • Utilizar materiais explicativos visuais/ escritos, se possível. Informações desconcertadas fornecidas pela equipe Comprometimento da racionalidade devido ao estresse Mal-entendido, baixa compreensão do que foi comunicado Falhas de comunicação Causas emocionais e psicológicas QUADRO 2. PRINCIPAIS CAUSAS DE CONFLITOS ENTRE FAMILIARES E EQUIPE DE CUIDADOS PALIATIVOS E POSSÍVEIS RESPOSTAS PARA ELAS 655 • Confirmar os fatos e confrontar versões com a equipe; • Discussão em equipe e interconsulta psiquiátrica e psicológica. • Consulta com comissão de ética e equipe legal da instituição. • Explorar razões por trás da crença do familiar, validá-la e não julgar; • Oferecer contraponto com opinião médica. • Oferecer segunda opinião; • Oferecer suporte psicológico a fim de compreender as variáveis que mantêm os conflitos e oferecer possibilidade de desenvolvimento de resolução de problemas. Ganho secundário Desrespeito aos desejos e valores do paciente Valorizar mais questões individuais do paciente (por exemplo, boa saúde no passado) do que opinião do médico DesconfiançaConflito persistente Tipos de conflito Causa Possíveis respostas • Reconhecer e explorar a emoção do familiar, buscando auxiliá-lo a elaborar o luto. • Reconhecer e explorar a emoção do familiar, buscando auxiliá-lo a elaborar o luto; • Buscar compreender qual o desejo e a crença do paciente e tentar oferecer contraponto. • Reconhecer e não julgar ou confrontar; • Negociar plano de cuidado, sendo transparente e acessível quanto a informações. Negação Culpa Desconfiança Causas emocionais e psicológicas ADAPTADO DE: HUTCHISON ET AL., CRIT CARE MED 201750 E GOOLD ET AL., JAMA 200051. 656 Situações de conflito entre familiares Em diversos casos, o conflito não se dá entre a família e a equipe, mas entre os pró- prios familiares, situação que pode ser danosa ao paciente e prolongar seu processo de morte54. Também em tais situações, o primeiro passo é identificar as motivações associa- das ao conflito. Possíveis motivações incluem: percepção de que um ou mais familiares estão ajudando pouco em comparação aos demais55; múltiplos familiares envolvidos na tomada de decisão, sendo difícil atingir um consenso55,56; falta de engajamento da fa- mília durante a maior parte do cuidado, com membros que “saem da toca” e passam a se envolver somente próximo à morte, quando a tomada de decisão se faz necessária55; opiniões divergentes de familiares sobre quais seriam os valores do paciente (como no emblemático e extremo caso de Terri Schiavo, discutido no Capítulo 38)55,56; recrudesci- mento de conflitos familiares anteriores e não relacionados à doença do paciente57; en- volvimento recente de um familiar até há pouco tempo distante do cuidado do paciente, que pode estar em outro estágio de elaboração do luto (por exemplo, em negação) e ter menos conhecimento sobre a condição do paciente55; e diferenças culturais e da dinâmi- ca familiar, como relações hierárquicas entre irmãos de diferentes idades57. A primeira etapa ao abordar essas situações é determinar se o paciente ainda tem al- guma capacidade para consentir e, caso tenha, explorar suas preferências quanto ao seu cuidado. Outra medida fundamental é diferenciar os conflitos decorrentes do cuidado de outros problemas familiares, incluindo problemas antigos, os quais devem ser postos de lado nas discussões57. A abordagem específica para essas situações vai depender das ca- racterísticas da família observadas durante o encontro, em especial, a forma de decisão na família (individualmente por um membro de maior hierarquia ou coletiva e consensual- mente) e as formas como cada membro lida com diferenças de opinião dos demais. Familiar tomador de decisões com capacidade questionável A capacidade de tomada de decisão de um familiar também pode ser questionável, devido a diversos motivos, como sua própria situação cognitiva, presença de alguma doença ou, até mesmo, conflitos de interesse. Em alguns casos, por sua vez, o familiar pode tomar decisões com base em seus próprios valores e preferências pessoais, e não aquelas do paciente. Nesses casos, deve-se descartar que o familiar não compreendeu corretamente seu papel na tomada de decisão ou, então, que possui expectativas irreais decorrentes, por exemplo, de dificuldade para elaborar o luto, no caso de demandas por tratamento agressivo e fútil. Nesses casos, o familiar também pode ter ganhos secun- 657 dários inconscientes, como esquivar-se de um medo e evitar entrar em contato com o sofrimento. Para fins de ilustração, tome-se o caso de uma esposa que deseja prolongar a vida do marido a qualquer custo pois tem medo de ter que assumir a responsabilidade pela família de forma integral após sua morte. Nesse caso, o ganho secundário, que se sobrepõe ao desejo do paciente, não é necessariamente percebido pelo familiar, pois pode ser inconsciente51. Caso isso seja observado, deve-se buscar explorar, entender e reconhecer os sentimentos do familiar, de forma a identificar as razões por trás de sua postura. Feito isso, deve-se educar o tomador de decisão sobre seu papel, incluindo as- pectos bioéticos e legais, de forma a orientá-lo sobre a importância de honrar os desejos do paciente, que deve vir acima de motivações individuais do familiar. Em alguns desses casos, pode ser necessário apoio psicológico e/ou psiquiátrico. Em certas situações, o familiar pode tomar uma decisão motivado por conflito de interesse e, deliberadamente, decidir por uma conduta que não seja a melhor para o paciente. É o caso, por exemplo, de um filho que decide prolongar a vida do pai de for- ma artificial, mesmo quando a medida é terapeuticamente fútil, com o único intuito de continuar recebendo os benefícios previdenciários do pai. Nesses casos, é fundamental evitar presunções e rumores. A suspeita deve ser bem fundamentada e ter evidências que a apoiem51. Recomenda-se consultar a equipe legal e a comissão de ética médica da instituição nesses casos. Também é possível solicitar um parecer-consulta ao Conselho Regional de Medicina local para verificar a solução mais apropriada. Fechamento do encontro É importante que o encontro com a família tenha uma conclusão, em que se faça um fechamento do que foi discutido. Assim como proposto pelo protocolo SPIKES33, deve-se fazer um sumário do que foi discutido, verificar o entendimento e elencar os pontos em que se obteve o consenso, bem como aqueles em que ainda restam divergências. Ideal- mente, deve-se elegerum familiar para o papel de porta-voz da família, com o qual serão realizados os contatos mais breves e diretos, no dia-a-dia, entre os próximos encontros. Finaliza-se, então, indagando se há mais perguntas não respondidas e fornecendo uma indicação de quais serão os próximos planos e quando será o próximo encontro. Caso não esteja planejado nenhum encontro posterior, deve-se explicar o motivo, de forma a não provocar a sensação de abandono nos familiares. Caso o encontro tenha sido muito intenso, por exemplo, com conflitos e/ou questões éticas envolvidas, realizar um debrie- fing com equipe pode ser útil para atenuar o impacto emocional; reconhecer e lidar com emoções negativas, de forma a elaborá-las e evitar que impactem no contato futuro com 658 a família e enviesem o cuidado; e compartilhar experiências com os demais membros da equipe e aprender com o caso58. Considerações finais Os familiares de pacientes com doenças graves se veem na difícil e estressante situa- ção de serem cuidadores e terem que tomar decisões difíceis, enquanto testemunham o sofrimento de um ente querido. Muitas vezes, assumem essa posição repentinamente, de forma inesperada e sem preparo prévio. A esse cenário se somam problemas psicos- sociais associados ao quadro, além de possíveis questões financeiras. Diante de tamanho impacto psicológico, conflitos podem surgir devido a falhas de comunicação e distorção da informação, em especial, envolvendo diagnóstico, prognóstico e objetivos do trata- mento. Como resultado, o cuidado pode ser prejudicado e se afastar dos valores do pa- ciente, aumentando ainda mais o estresse da família e dos profissionais envolvidos, bem como o sofrimento do próprio paciente. A melhor abordagem para reduzir o risco de conflitos familiares como esses envolve um cuidado grande da equipe com a qualidade da comunicação com a família. Uma abordagem útil pode ser a promoção, logo após o contato inicial da equipe com a famí- lia, de encontros periódicos entre ambas as partes, em que se possa desenvolver uma comunicação clara, objetiva e transparente. Nesses encontros, os objetivos principais devem incluir, além de discutir informações médicas, conhecer os familiares e elencar os valores e preferências do paciente. Isso permitirá, também, reconhecer o contex- to sociocultural da família e as relações interpessoais entre seus membros, o que pode ajudar na comunicação. Os encontros, contudo, não devem ser motivados apenas pela necessidade de tomada de decisões difíceis, assim como não devem ser utilizados como forma de pressionar a família para realizá-las. A mudança de paradigma, observada nas últimas décadas, que afastou a prática mé- dica do modelo paternalista de tomada de decisão, representou um grande avanço bio- ético. Contudo, com uma maior necessidade de participação e envolvimento do pacien- te e de seus familiares na tomada de decisão, um sentimento de pressão pode surgir, especialmente em decisões como limitar e descontinuar tratamentos. Como forma de atenuar esse fardo decisório que pode pairar sobre a família, o médico deve utilizar os encontros com seus membros para educá-los sobre seu papel na tomada de decisão, que não deve ser o de optar entre deixar o paciente viver ou morrer, mas buscar refletir de forma mais precisa as preferências do próprio paciente. 659 Referências 1. Azoulay E, Pochard F, Kentish-Barnes N, Chevret S, Aboab J, Adrie C et al. Risk of post-trauma- tic stress symptoms in family members of intensive care unit patients. Am J Respir Crit Care Med. 2005; 171(9):987-994. 2. Kross EK, Engelberg RA, Gries CJ, Nielsen EL, Zatzick D, Curtis JR. ICU care associated with symptoms of depression and posttraumatic stress disorder among family members of patients who die in the ICU. Chest. 2011; 139(4):795-801. 3. Pochard F, Azoulay E, Chevret S, Lemaire F, Hubert P, Canoui P et al. 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O cuidado só ocorrerá, de fato, se a pessoa cuidada se sentir bem, reconhecida e aceita como é, conseguindo se expressar de forma autêntica, apesar de suas limitações. Esse cuidado envolve o cuidar de si mesmo (autocuidado), o cuidar dos outros e o cuidar da pessoa que cuida1. Nesse contexto, podemos identificar como cuidadores não apenas os profissionais de saúde como um todo, mas também aqueles que, por necessidade ou de forma solidária e voluntária, se colocam no papel de “cuidadores”. Assim, o Ministério da Saúde define cuidador como “a pessoa, da família ou da comunidade, que presta cuidados a outra pessoa de qualquer idade, que esteja necessitando de cuidados por estar acamada, com limitações físicas ou mentais, com ou sem remuneração”2. Nos casos de pessoas que se veemdiante da necessidade de cuidar de um ente querido, tal decisão é, no entanto, permeada por conflitos, sejam internos (aquele que irá assumir esse papel dentro da família) ou externos (provenientes das discussões e dos desenten- dimentos familiares). Tais conflitos internos se associam à sobrecarga de exigências no cuidado do doente e se somam às dúvidas inerentes à complexidade da situação. Novos problemas emergem, como alterações de papéis familiares, arranjos a serem realizados Saúde Mental dos Profissionais de Cuidados Paliativos e dos Cuidadores Capítulo 33 Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo 666 no domicílio, interrupção da vida profissional e possível abandono da própria família, muitas vezes somados à convivência com outras doenças e problemas já existentes. Por vezes, a dedicação exclusiva ao cuidado do doente leva o cuidador a adiar ou abandonar planos e ainda exige dele um intenso esforço de adaptação a essa nova realidade. O cuidado a familiares muitas vezes envolve assistência do cuidador ao paciente na reali- zação de suas atividades básicas e/ou instrumentais de vida diária (ABVD e/ou AIVD). Con- tudo, também abrange auxílio na assistência médica, como marcar consultas e administrar medicamentos. Também pode incluir a realização de procedimentos médicos mais com- plexos, como troca de sondas e curativos. Muitos dos cuidadores, no entanto, não possuem treinamento para essas atividades, para as quais recebem suporte inadequado do sistema de saúde. Este, entre outros fatores, faz com que se sintam abandonados na função de cuidador. Estudos sobre a qualidade de vida daquele que cuida mostram sentimentos ambíguos, tais como cansaço, estresse e insatisfação por deixar de lado seu cuidado pessoal, para- lelamente ao sentimento de realização, dignidade e gratidão3,4. Cerca de 51% dos fami- liares que cuidam de entes queridos apresentam percepção média ou grave do impacto negativo dessa atividade sobre suas vidas. Em média, a exercem por 20,5 horas por se- mana, mas mais de 20% a exercem por mais de 40 horas por semana, o que representa grande impacto econômico5. Com o aumento da população idosa e de doentes crônicos, tal problema vem se tornando cada vez mais relevante. Nesse contexto, elegemos alguns tópicos e conceitos que julgamos essenciais na compre- ensão dessa complexa relação entre o cuidador e a pessoa cuidada. Conceitos e definições • Empatia: tem origem no termo grego “empatheia” (palavra formada com o prefixo “en-” e o sufixo “-pathos”, emoção, sentimento). Trata-se da capacidade psicológica de sentir o que sentiria uma outra pessoa, caso estivesse na mesma situação vivencia- da por ela. Uma forma de tentar compreender sentimentos e emoções vivenciados por outro indivíduo é se fazer perguntas como: O que é sentir uma dor contínua nas costas? Como me sentiria se soubesse que meu pai tem uma semana de vida? Como receberia o diagnóstico de que sou portador de câncer de pâncreas? Expressões de empatia e afeto na relação com o paciente trazem a certeza de que ele é parte impor- tante e reconhecida, provoca sensação de atenção e consolo, além de paz interior6. 667 • Compaixão: a palavra tem origem latina e significa compadecer, “sofrer com”. Na medicina, em termos gerais, a compaixão consiste em dois elementos: uma grande consciência sobre o sofrimento de outro indivíduo (ou desejo em apro- fundá-la) e um desejo de aliviar tal sofrimento. Apesar de haver definições mais detalhadas, que incluem outros componentes, o elemento central da compai- xão na medicina envolve a motivação para aliviar o sofrimento alheio7. Assim, embora envolva uma resposta empática, a compaixão também necessita desse elemento adicional de proatividade. • Fadiga por compaixão: trata-se de um estado de sofrimento físico ou psicológico em cuidadores que ocorre como consequência de um processo contínuo e cumula- tivo de relação exigente com indivíduos que necessitam de cuidado, que geralmente estão traumatizados ou sofrendo8. Entre médicos que trabalham com doenças gra- ves, se associa à sensação de falta de amparo perante o sofrimento de seus pacientes, ao qual são expostos de forma contínua em sua rotina de trabalho diária. Já estresse traumático secundário é outro termo utilizado muitas vezes de forma equivalente, o que gera certa confusão. Contudo, autores pontuam que, no estresse traumático se- cundário, o quadro resulta de um envolvimento profundo com um evento específico extremamente traumático, tendo início mais abrupto. O burnout (BO), por sua vez, é outra condição em que se vê a fadiga por compaixão em profissionais da saúde, mas com início mais gradual9. Definições homogêneas, contudo, não existem, e há grande confusão entre os diferentes termos8. • Burnout (BO): é uma síndrome psicológica caracterizada pelo comprometimen- to emocional e comportamental resultante da exposição a altos níveis de estresse ocupacional. Embora haja confusão entre os termos, o BO se difere da fadiga por compaixão por se associar mais ao estresse crônico decorrente do ambiente de tra- balho – que envolve elementos como carga horária, sensação de recompensa e au- tonomia – em vez de depender somente das relações interpessoais com o indivíduo que necessita de cuidado10. Embora não haja um diagnóstico padronizado na versão atual do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado pela American Psychiatric Association (APA), o BO foi incluído na 11ª Revisão da Clas- sificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ocupacional. No 668 Exaustão emocional Distanciamento afetivo (ou despersonalização) Falta de sensação de realização pessoal - Sentimento de desesperança, solidão, tristeza, raiva, impaciência, irritabilidade e tensão em um contexto de baixa energia, fraqueza e preocupação excessiva. - Pode se associar a sintomas somáticos, como cefaleia, náuseas, dores lombares ou cervicais, além de distúrbios do sono. - Postura de alienação, que resulta em atitude distante e insensível em relação aos outros e ao próprio trabalho. O indivíduo está desmotivado e se afasta emocionalmente do trabalho. - Inclui sentimentos de inadequação e incompetência, associados à perda da autoconfiança, e sentimentos de que o que é realizado no trabalho não tem valor ou que muito pouco é alcançado. QUADRO 1. MANIFESTAÇÕES PSICOPATOLÓGICAS DO BURNOUT entanto, a CID-11 não o classifica como uma condição médica, mas sim como um dos “fatores que influenciam o estado de saúde ou contato com serviços de saúde” (código QD85). Ou seja, o BO está entre as razões pelas quais as pessoas entram em contato com os serviços de saúde, mas que não são classificadas como doenças ou condições de saúde. Na CID-11, o BO é definido como “uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizada por três dimensões: 1) sentimentos de esgotamento ou exaustão; 2) distanciamento emocional do trabalho, ou sentimentos de negati- vismo ou cinismo relacionados a ele; 3) eficiência profissional reduzida”. A CID-11 ressalta que o BO se refere especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicado para descrever experiências em outras áreas da vida11. Alguns psiquiatras, no entanto, consideram o BO como um subtipo de transtorno de ajus- tamento. As manifestações psicopatológicas do BO são detalhadas no Quadro 112. ADAPTADO DE: TRIGO ET AL., MEDICINA (B AIRES) 201012. • Estresse do cuidador: apesar de a necessidade de prover cuidados a um fami- liar querido poder fortalecer os laços de união familiares, existe o risco de que 669 Fatores de risco para BO e estresse do cuidador BO em profissionais da saúde O BO não pode ser atribuído a um fator isolado, mas sim a uma combinação de ca- racterísticas individuais, sociais, laborais e organizacionais bem definidas, que, quando associadas, culminam na condição12. Os profissionais de saúde, em geral, são afetadosemocionalmente por dilemas de fim de vida, incluindo situações como a necessidade de tomada ética de decisões, o contato contínuo com o sofrimento de seus pacientes, a prescrição de cuidados médicos despro- porcionais ou fúteis, a falta de comunicação entre a equipe e a alta demanda por parte dos familiares e pacientes10. Os fatores de risco para o desenvolvimento de quadros de BO, associados a esse cenário, são elencados no Quadro 212. Estresse do cuidador em familiares Os sentimentos de sobrecarga nos familiares que exercem o papel de cuidador são análogos aos vivenciados pelos profissionais da saúde no contexto ocupacional. Nesses casos, no entanto, são acrescidos também fatores como sentimentos de autocobrança e culpa por se achar insuficiente. Pesquisa sobre atributos do estresse do cuidador fami- liar identificou alterações de natureza física (dores no corpo, modificações no peso cor- poral, alterações de funcionamento intestinal e distúrbios cardiovasculares) e no esta- do emocional (depressão, ansiedade, baixa autoestima, ressentimento e irritabilidade). Ademais, os autores destacaram o comprometimento relacionado aos mecanismos de tal necessidade exerça aspectos negativos sobre o cuidador. Assim, pode surgir o fenômeno denominado estresse do cuidador, incluído na CID-11 com o código QF27. Contudo, não se trata de uma condição médica segundo a classificação, mas, assim como o BO, de um dos “fatores que influenciam o estado de saúde ou contato com serviços de saúde”. Existem, porém, desde a década de 1980, definições teóricas que descrevem o estresse do cuidador como a percepção, por aquele que cuida, dos efeitos adversos que o cuidado por ele provido exerce so- bre seus funcionamentos emocional, social, financeiro, físico e espiritual13. Tal definição reflete o impacto do fenômeno sobre a vida do cuidador, afetada em diversos domínios. Ademais, ao quadro podem se somar outros fatores adversos, como isolamento social e problemas financeiros5. 670 INDIVIDUAIS LABORAIS - Mulheres apresentam maior componente de exaustão emocional, enquanto os homens, de despersonalização - Escolaridade maior - Solteiros, viúvos ou divorciados - Indivíduos competitivos, esforçados, com dificuldade de tolerar frustração e excessiva necessidade de controle das situações - Indivíduos empáticos, sensíveis e com alto grau de envolvimento - Grande expectativa e idealismo em relação à profissão - Indivíduos perfeccionistas - Indivíduos pessimistas - Indivíduos passivos e evitativos - Pessoas com locus de controle externo (termo que define a sensação de que são fatores externos que controlam a vida do indivíduo, tais como a sorte, destino ou o papel de outras pessoas) - Sobrecarga, ultrapassando capacidade de desempenho (insuficiência técnica, de tempo ou de infraestrutura) - Baixa participação nas decisões sobre mudanças organizacionais e baixo nível de controle das atividades - Discrepância entre expectativas profissionais e aspectos reais do trabalho - Sentimento de injustiça e iniquidade nas relações laborais - Trabalho em turnos ou noturno (pior quando é necessário alternar frequentemente entre turno diurno e noturno) - Suporte organizacional precário ou conflito entre colegas (sentimentos de desamparo e de não poder contar com ninguém) - Responsabilidade sobre a vida alheia e relação muito próxima com o indivíduo cuidado - Conflitos de papel (embate entre informações e expectativas sobre o desempenho do trabalho) e ambiguidade de papel (normas, direito, métodos e objetivos pouco delimitados ou claros) QUADRO 2. FATORES DE RISCO ASSOCIADOS AO DESENVOLVIMENTO DE QUADROS DE BURNOUT EM PROFISSIONAIS DA SAÚDE ORGANIZACIONAISSOCIAIS - Excesso de burocracia - Normas institucionais rígidas - Mudanças organizacionais frequentes - Falta de autonomia profissional - Estagnação profissional - Risco do ambiente físico - Falta de confiança, respeito e consideração entre os membros de uma equipe - Comunicação ineficiente - Riscos físicos do ambiente de trabalho (ex.: insegurança, higiene ruim) - Acúmulo de tarefas por um indivíduo - Falta de suporte social e familiar - Manutenção do prestígio social em oposição à redução salarial de determinada profissão (busca por mais empregos e maior sobrecarga de trabalho) - Valores e normas culturais ADAPTADO DE: TRIGO ET AL., MEDICINA (B AIRES). 201012. Demográficos Psicossociais Contexto do cuidador, do paciente e da família Sexo feminino Baixo nível educacional Isolamento social Problemas financeiros Quadros e sintomas depressivos Estratégias de enfrentamento inadequadas Viver no mesmo lar com o paciente Falta de opção em prestar o cuidado Muitas horas destinadas ao cuidado do paciente, especialmente se período contínuo QUADRO 3. FATORES DE RISCO PARA O ESTRESSE DO CUIDADOR EM FAMILIARES ADAPTADO DE: ADELMAN ET AL., JAMA. 20145. enfrentamento individual, como baixo senso de controle sobre a situação, utilização de medi- camentos e pouca aderência às atividades de autocuidado14. Particularidades do contexto familiar, como problemas financeiros – também possíveis conse- quências do cuidado – e viver no mesmo lar do paciente, representam fatores de risco adicionais para o estresse do cuidador. O risco aumenta conforme aumenta o tempo que se necessita dedi- car aos cuidados, sendo que familiares que cuidam de pacientes continuamente apresentam ris- co ainda maior, especialmente pela possibilidade de comprometimento de seu ciclo sono-vigília. Essa situação é muito comum em pacientes com quadros demenciais, que apresentam distúrbios do sono com frequência, além daqueles que apresentam funcionalidade muito diminuída5. As conclusões sobre os fatores de risco para o estresse do cuidador, contudo, permanecem limitadas, uma vez que a maior parte dos estudos que as investigaram avaliou amostras restritas a um diagnóstico específico, como quadros demenciais. Alguns dos achados, como a preponderân- cia do sexo feminino, podem não ser fatores de risco, mas uma variável de confusão, pois o fato de ser mulher pode estar independentemente associado a maior propensão a se tornar cuidado- ra. Além disso, outros fatores de risco, como a presença de quadros depressivos e de problemas financeiros, também foram identificados como possíveis consequências do estresse do cuidador, o que dificulta qualquer conclusão sobre a relação de causalidade desses achados. Não obstante, o Quadro 3 elenca os principais fatores de risco associados ao quadro de estresse do cuidador5. Consequências do BO e do estresse do cuidador BO em profissionais da saúde As consequências do BO vão além da dimensão pessoal do médico e da satisfação do pacien- te com o atendimento. A despersonalização e a exaustão médicas também estão associadas a maior tempo de recuperação do paciente após a hospitalização15. Entre os médicos, por sua vez, o BO se associa a alta incidência de suicídio, depressão e uso/abuso de substâncias16. Estresse do cuidador em familiares O estresse do cuidador foi identificado como fator de risco para desfechos negativos no indiví- duo que provê cuidados a pacientes crônicos. Possíveis impactos do quadro encontrados nesses indivíduos estão elencados no Quadro 45. Alguns dos desfechos apontados, contudo, também foram descritos como fatores de risco, o que dificulta concluir sobre a relação de causalidade. Saúde física Saúde mental e aspectos psicossociais Aspetos econômicos Aumento do risco de morte Perda de peso Menor autocuidado e negligência com a própria saúde Maior risco de suicídio Quadros e sintomas depressivos Sintomas ansiosos (em cuidadores de pacientes com câncer) Isolamento social Problemas financeiros Impossibilidade de trabalhar QUADRO 4. POSSÍVEIS DESFECHOS NEGATIVOS OBSERVADOS EM CUIDADORES DE PACIENTES CRÔNICOS QUE APRESENTAM ESTRESSE DO CUIDADOR ADAPTADO DE: ADELMAN ET AL., JAMA. 20145. Diagnóstico do BO e diferencial com os transtornos depressivos Tanto o BO quantoos transtornos depressivos, como o transtorno depressivo maior, apre- sentam fatores de risco e sintomas similares, dificultando uma clara distinção entre eles. En- 673 tretanto, a literatura sugere que, apesar de compartilharem diversas características, há importantes diferenças entre as duas situações, cuja identificação é fundamental para o correto diagnóstico diferencial. A principal diferença do BO é sua relação com situações específicas referentes ao tra- balho, o que fez com que fosse descrito por alguns autores como “sintomas depressivos resultantes de eventos adversos no trabalho”. Ou seja, segundo tal proposta, o BO poderia ser visto como uma forma de depressão associada ao trabalho17. Por sua vez, os transtor- nos depressivos não dependem de contexto para ocorrer e suas manifestações e repercus- sões são generalizadas, transcendendo diferentes domínios e, inevitavelmente, afetando a maior parte das situações da vida do indivíduo. Para o diagnóstico do transtorno depressivo maior, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua 5a edição, publicado pela APA, cinco das nove características elencadas a seguir devem estar presentes por pelo menos duas semanas, sendo uma delas obrigatoriamente humor depri- mido ou anedonia, causando sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo do funcio- namento “social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”18: • Humor deprimido: relatado pelo paciente ou observado por terceiros, inclui tristeza e choro fácil, ocorrendo na maior parte do dia, quase todos os dias; • Anedonia: ocorrendo na maior parte do dia, quase todos os dias; • Fadiga e anergia: frequentemente referidas como exaustão, cansaço, aumento do tem- po ou dificuldade para iniciar/completar tarefas; • Alteração do sono: insônia inicial, intermediária, terminal ou hipersonia (incluindo so- nolência diurna excessiva); • Alterações de apetite e/ou de peso: são comuns inapetência e perda ponderal não in- tencional, bem como ganho ponderal (ganho maior do que 5% do peso habitual em um mês), hiperfagia ou desejo por alimentos específicos (especialmente carboidratos); • Alteração da psicomotricidade: retardo (manifestado por latência de resposta, lentificação do pensamento, dos movimentos corporais, do discurso, redução do volume, da diversidade e da quantidade de fala ou mutismo) ou agitação (atividade motora repetitiva, sem objetivo – como andar de um lado a outro, esfregar as mãos –, acompanhada de sensação de tensão 674 interna). Essa alteração deve ser observada por terceiros (não apenas relato subjetivo); • Alterações neurocognitivas: os pacientes costumam relatar dificuldades para pensar e/ou para se concentrar; • Ruminações sobre eventos passados, além de sentimentos de culpa, inadequação, menos valia e fracasso: são comuns especialmente os pensamentos com conteúdo desse tipo relacionados ao cumprimento adequado de obrigações laborais, mas também podem assumir proporções delirantes; • Pensamentos de morte, ideação suicida, planejamento suicida e tentativas de suicídio: pensamentos transitórios ou recorrentes de morte, desejo ativo de cometer suicídio, pla- nos sobre a melhor forma de tentar suicídio e tentativas de suicídio são comuns. Tam- bém podem ocorrer comportamentos autolesivos (cortes, queimaduras de cigarro, den- tre outros), que podem indicar depressão grave. Avaliação do risco de estresse do cuidador em familiares Os médicos que cuidam de pacientes crônicos, na maioria das vezes, focam suas atenções e esforços no cuidado de seus pacientes apenas. Dessa forma, a saúde e o bem-estar do cuidador são muitas vezes negligenciados, a despeito de essa figura ser fundamental para a boa evolução de seus pacientes. Assim, a avaliação dos impactos que o cenário da doença gera sobre o cuidador deve ser incorporada à rotina de todos os médicos que cuidam desses pacientes, que devem se manter vigilantes em relação aos fatores de risco e às manifestações do estresse do cuidador. É fundamental identi- ficar os fatores que possam sobrecarregá-lo, como demandas de saúde física e mental do paciente, incluindo problemas comportamentais por ele apresentados, problemas financeiros e conflitos familiares5. Para a abordagem do cuidador, recomenda-se inicialmente mapear qual ou quais são os cuidadores do paciente. Em seguida, deve-se discutir com ele(s), em conjunto com o paciente, as necessidades e preferências de todos, as quais devem ser incorporadas ao plano de cuidados. Possíveis tópicos a serem considerados são: recursos de apoio ao cuidado, encaminhamento para hospice, limitação de tratamentos, entre outras. Deve-se também verificar o entendimento do cuidador sobre seu papel, sobre as dificuldades e tarefas inerentes do cuidado e sobre a doença do paciente. Ademais, deve-se acompa- 675 Relação com o paciente e aspectos do cuidado Aspectos do cuidador Relação do cuidador com o paciente e há quanto tempo está nesse papel Cuidador e paciente vivem no mesmo lar? Aceitação do cuidador quanto ao papel em que se encontra em relação ao paciente Qualidade do cuidado prestado pelo cuidador até o momento Nível educacional do cuidador Ocupação do cuidador e se está empregado Percepção do cuidador quanto à própria saúde QUADRO 5. ASPECTOS RELACIONADOS AO RISCO DE ESTRESSE DO CUIDADOR A SEREM AVALIADOS PELO MÉDICO Comorbidades, condições de saúde e limitações do cuidador que prejudiquem o cuidado Percepção do cuidador quanto à sua qualidade de vida Evidência de sintomas depressivos, ansiosos e/ou ideação suicida no cuidador Nível de estresse reportado pelo cuidador Percepção do cuidador quanto ao impacto do cuidado sobre sua saúde Percepção do cuidador sobre o nível de conhecimento sobre a doença do paciente, o prognóstico e os objetivos do cuidado Conhecimento do cuidador quanto às tarefas necessárias para o cuidado (cuidar de feridas, seguir prescrições complexas, entre outros) Estratégias para lidar com o estresse nhar o caso longitudinalmente, avaliando o bem-estar do cuidador e sua sensação de confiança no desempenho das tarefas, além de indagá-lo ativamente sobre a necessida- de de auxílio5. O Quadro 5 elenca aspectos relacionados ao risco de estresse do cuidador que devem ser avaliados pelo médico, incluindo percepções subjetivas do indivíduo e dados mais objetivos que devem ser obtidos. 676 ADAPTADO DE: ADELMAN ET AL., JAMA. 20145. Aspectos do paciente Grau de dependência, mobilidade e funcionalidade do paciente (por exemplo, se o paciente é acamado) Aceitação do cuidado por parte do paciente Existência de alterações cognitivas no paciente e seu impacto no cuidado Condições médicas do paciente Percepções do cuidador sobre as condições médicas do paciente, seu prognóstico e objetivos do cuidado Objetivos do cuidado na visão do paciente Quantidade de tempo necessário para o cuidado (por exemplo, se o paciente necessita de cuidados contínuos ou se apenas assistência parcial é demandada) Visão, valores e aspectos culturais do paciente quanto ao cuidado (por exemplo, se aceita um cuidador contratado ou uma instituição) Aspectos familiares, sociais e do domicílio Rede de apoio do cuidador e existência de outros cuidadores na família e entre amigos Vida social do cuidador e existência de isolamento social Estrutura do domicílio (ex.: presença de escadas, disponibilidade de recursos que auxiliam a mobilidade, entre outros) Disponibilidade de cuidadores pagos (funcionários, acompanhantes de idosos, entre outros) Aspectos culturais e valores da família quanto ao cuidado (por exemplo, quanto a cuidados paliativos, hospice, limitação de tratamento, entre outros) Conhecimento do cuidador sobre recursos na comunidade (associações de apoio, recursos governamentais e de assistência social, entre outros) Problemas financeiros do cuidador associados ao cuidado e conhecimento sobre programas financeiros de apoio (privados ou públicos,como assistência social e previdenciária), bem como seu acesso a eles 677 Intervenções propostas para diminuir o estresse emocional de profissionais de saúde Há uma gama de estratégias de intervenção para diminuir o estresse emocional de pro- fissionais da saúde que cuidam de pacientes crônicos, graves e em fim de vida. Em es- pecial, estratégias de comunicação ativa sobre cuidados de fim de vida nas unidades de terapia intensiva (mais detalhes sobre o tema são abordados no Capítulo 30) se associaram a menor risco de BO. Além disso, também são estratégias de mitigação os programas edu- cacionais para manejo do estresse emocional, que podem incluir intervenções de enfren- tamento e redução do estresse, como exercícios de relaxamento, ioga e mindfulness10. A importância da comunicação adequada é ressaltada por estudos, demonstrando que a implementação de estratégias de comunicação ativa e intensiva com familiares foi associada à redução de quase 50% e 60% das incidências de BO e depressão, res- pectivamente. Tais estratégias incluíram elementos de organização (como introdução de horários irrestritos de visitas e uma equipe de psicólogos para avaliação sob demanda), de comunicação (reuniões diárias com familiares e discussão de opções de cuidados pa- liativos) e de ética médica (seção dedicada no prontuário do paciente e reuniões éticas)10. Outra estratégia promissora é o treinamento da mente com atenção plena (mindful- ness), que pode ser aplicado a discussões em grupo que incluam reflexão e experiências compartilhadas sobre bem-estar dos médicos. Por último, seminários sobre fadiga por compaixão podem aumentar a conscientização e os recursos para lidar com estresse emocional no futuro. A disponibilização desses recursos para todos os membros da equipe também é recomendada10. Possíveis intervenções para a prevenção do estresse do cuidador entre familiares Em geral, os cuidadores não recebem apoio adequado da equipe assistencial do pacien- te e se sentem abandonados pelo sistema de saúde. Portanto, para diminuir o estresse do cuidador, o médico deve, primariamente, adotar uma postura proativa de aproximação e preocupação com o cuidador, encorajando-o a se sentir parte da equipe assistencial. Assim, temas como aspectos e dificuldades do cuidado devem ser ativamente discutidos com o cuidador, que muitas vezes reluta em falar sobre tais questões espontaneamente. Além disso, suas necessidades devem ser levadas em conta ao se propor um plano de cuidado. Idealmente, cuidador e paciente devem ser avaliados tanto em conjunto quanto separadamente, possibilitando não apenas aprimorar a comunicação, mas também per- mitir que temas potencialmente confidenciais sejam abordados5. Outro aspecto importante no cuidado ao cuidador é a preocupação com sua educação. O médico e a equipe devem educar o cuidador quanto à doença e às necessidades do 678 paciente, assim como ensinar técnicas para a correta mobilização de pacientes acama- dos, evitando lesões musculoesqueléticas no cuidador. Este também deve ser orientado quanto ao risco de estresse, suas consequências e como identificá-lo. Opções e alter- nativas devem ser discutidas com o cuidador, que deve aprender a pedir ajuda, engajar familiares e recorrer a grupos de apoio e outros recursos, públicos e privados5. É necessário que também sejam identificadas e discutidas possíveis barreiras para se pedir auxílio. São exemplos: problemas financeiros, vergonha, relutância em aceitar es- tranhos na casa e ansiedade por possível perda da privacidade5. Ainda, os valores, expec- tativas e objetivos do cuidador devem ser investigados e debatidos, de forma a auxiliar na definição do plano de cuidado e evitar problemas de comunicação e frustrações no futuro. Embora a maioria dos estudos que avaliaram intervenções para reduzir o estresse do cui- dador tenha sido feita em pacientes com quadros demenciais ou com câncer, intervenções como grupos de apoio e atividades de psicoeducação (treinamento de habilidades e aconse- lhamento terapêutico) mostraram um tamanho de efeito que, apesar de modesto, deve en- corajar a adoção dessas medidas, considerando o baixo risco que apresentam. Intervenções farmacológicas direcionadas a sintomas comportamentais associados a quadros demenciais (abordadas em detalhes no Capítulo 27) também demonstraram evidência de reduzir a inci- dência de estresse do cuidador naqueles que cuidam de pacientes com esses quadros5. Poder contar com uma rede de apoio é outro fator importante para prevenir o risco de estresse do cuidador. A equipe de saúde pode auxiliar na tarefa de educar o cuidador e o pa- ciente sobre recursos de apoio disponíveis, que muitas vezes são desconhecidos por eles5. Fundamental também é ajudar na articulação dessa rede, tarefa que envolve o importante papel de assistentes sociais e da enfermagem, que devem trabalhar em sintonia com o restante da equipe. Entre os possíveis recursos estão: associações de pacientes, serviços de assistência domiciliar, transporte especializado, apoio jurídico e auxílio financeiro. In- tervenções para melhoria da infraestrutura do domicílio, visando aumento da segurança e facilitação da mobilidade (por exemplo, instalar barras de apoio nas paredes) também devem ser incentivadas. Recentemente, diversos recursos tecnológicos, como dispositivos de telemonitoramento e aplicativos, vêm sendo desenvolvidos para auxiliar o cuidador5. Hábitos de promoção da saúde devem ser incentivados, e condições para que o cuidador também possa cuidar de si devem ser promovidas, por exemplo, organizar a marcação de suas consultas para o mesmo dia e local em que estão agendadas as do paciente5. Considerações finais Cuidadores são pessoas da família ou da comunidade que prestam cuidados, com ou 679 sem remuneração, a outra pessoa de qualquer idade que demande cuidados por estar acamada, com limitações físicas ou mentais. Porém, na ampla categoria dos que pres- tam cuidados, também podemos incluir os profissionais da saúde, como os médicos, que lidam em seu dia a dia com pacientes com doenças crônicas e ameaçadoras da vida. Como habilidade principal para o desempenho de um bom cuidado, o cuidador deve ser provido de compaixão, atributo que demanda proatividade em aprofundar o próprio grau de consciência sobre o sofrimento de outro indivíduo (ou o desejo de aprofundá-la) e um desejo de aliviar tal sofrimento. Contudo, há enormes obstáculos e fatores estressores associados à prestação do cui- dado, seja por profissionais da saúde ou por cuidadores domésticos, familiares ou não. Como consequência, situações como fadiga por compaixão, BO e estresse do cuidador são uma realidade entre aqueles que se envolvem com os cuidados paliativos, e portanto, devem ser combatidos e prevenidos. Se a compaixão é fator fundamental para o exercício do bom cuidado, o cuidador tam- bém deve buscar a autocompaixão, ou seja, se preocupar também com o seu próprio sofrimento, cuidando de suas necessidades e percebendo suas limitações, da mesma forma como faz com aquele para o qual provê o cuidado. Em suma, é importante que o cuidador não esqueça de si. O mesmo vale para os médicos e demais profissionais da saúde, com o adicional de que também devem direcionar suas atenções ao cuidador, identificando problemas e incentivando seu autocuidado. Referências 1. Pinheiro R, Mattos RA (eds.). Cuidado: as fronteiras da integralidade. São Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec-Abrasco; 2004. 2. Ministério da Saúde do Brasil. Guia Prático do Cuidador. Brasília; 2008. Disponível em: https:// bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_pratico_cuidador.pdf (acessado em 15/09/2021). 3. Pimenta GMF, Costa MASMC, Gonçalves LHT, Alvarez AM. Perfil do familiar cuidador de idoso fragili- zado em convívio doméstico da grande região do Porto, Portugal. Rev Esc Enfermagem. 2009; 43(3):609-614. 4. Castro L, Souza DN, Pereira A, Ferreira MCL, Guimarães CN, Leite AC, Pacheco COC, Alves VM. Cuidador familiar: relaçãoem Oncologia Clínica do Hospital Sírio-Libanês. Pre- sidente-fundador do Grupo Brasileiro de Sarcomas. Ex-clinical fellow do Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), American Society of Clinical Oncology e European Society for Medical Oncology. Samanta Gaertner Mariani Medica formada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), residencia médica em Clínica Médica no Hospital Santa Marcelina e complementação especializada em Cui- dados Paliativos pelo HC-FMUSP. Atualmente é assistente no Icesp – Octávio Frias de Oliveira, na área de cuidados paliativos. Sheilla de Oliveira Faria Nutricionista. Doutora e mestre em Ciências pela FMUSP, com doutorado sanduíche na Universidade de Toronto/Canada. Especialista em Nutrição e Saúde pela Universidade Federal de Viçosa-MG e nutricionista pela Universidade Federal de Alfenas-MG. Sílvia Maria de Macedo Barbosa Médica pediatra. Doutora em Ciências da Saúde- FMUSP. Chefe da Unidade de Dor e Cuidados Paliativos do Instituto da Criança HCFMUSP. Presidente da Comissão de Bio- ética e Cuidados Paliativos do Hospital Médico Universitário – São Bernardo do Campo. Presidente do Departamento de Cuidados Paliativos e Medicina da Dor da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e secretária do departamento de Cuidados Paliativos e Me- dicina da dor da SBP Stephanie Toscano Kasabkojian Médica graduada pela FMUSP. Residência médica em psiquiatria pelo Instituto de Psi- quiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP). xv Tatiane Coelho Pinto Médica pela FMUSP. Residência em Clínica Médica pelo HC-FMUSP. Formação Avan- çada em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium Latinoamérica. Médica Assistente da Equipe de Cuidados Paliativos do Icesp – Octávio Frias de Oliveira. Médica Coordenado- ra da equipe de Cuidados Paliativos no Hospital Nipo-Brasileiro. Thaís Ferreira de Araújo Advogada formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campi- nas), especialista em Direito Médico e hospitalar pela Escola Paulista de Direito (EPD). Professora Convidada do departamento de Saúde Coletiva da FCM-Unicamp, onde lecio- na nas disciplinas de Ética Médica e Bioética para os alunos da graduação em Medicina. Membro do Grupo de Apoio em Bioética, Ética Médica e Terminalidade (GABETE) Co- vid-19, do HC-Unicamp. Thiago Costa Ribeiro Médico Cirurgião do Aparelho Digestivo e Coloprocologista pelo HC-FMUSP. Médico as- sistente da disciplina de cirurgia do aparelho digestivo do Icesp - Octávio Frias de Oliveira. Vanessa Souza Santos Truda Médica pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Residência Médica em infecto- logia pela Unifesp-EPM. Mestranda em infecções fúngicas em pacientes vivendo com HIV/AIDS pela Unifesp-EPM. Yuri Cardoso Rodrigues Beckedorff Bittencourt Médico pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (EMC/UNIRIO), resi- dência médica em Clínica Médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-EPM) e em Oncologia Clínica pelo Hospital Sírio-Libanês. Agradecimentos especiais: Dr. Joseph Savio Jayaraj e Dra Leah Rochel Steinberg por sua colaboração com o tema espiritualidade e religião. xvi Índice VOLUME 1 SEÇÃO I - PRINCÍPIOS GERAIS DOS CUIDADOS PALIATIVOS Capítulo 1 – Introdução aos Cuidados Paliativos: História e Princípios 03 Capítulo 2 – Indicações de Cuidados Paliativos 15 Capítulo 3 – Integralidade em Cuidados Paliativos nos Sistemas de Saúde 27 Capítulo 4 – Estimativa do Prognóstico e Objetivos do Cuidado 35 Capítulo 5 – Modelos Assistenciais em Cuidados Paliativos 59 Capítulo 6 – Abordagem Multidisciplinar em Cuidados Paliativos 73 SEÇÃO II - ASPECTOS CLÍNICOS GERAIS DOS CUIDADOS PALIATIVOS - CONTROLE DE SINTOMAS Capítulo 7 – Sintomas Dermatológicos 89 Capítulo 8 – Dor 127 Capítulo 9 – Síndrome Caquexia-Anorexia e Fadiga 167 Capítulo 10 – Sintomas Respiratórios 181 Capítulo 11 – Sintomas Gastrintestinais 201 Capítulo 12 – Ansiedade e Depressão 225 Capítulo 13 – Delirium 277 SEÇÃO III - PROCEDIMENTOS EM CUIDADOS PALIATIVOS Capítulo 14 – Sedação Paliativa 301 Capítulo 15 – Cuidados com Feridas e Conforto do Paciente 315 Capítulo 16 – Hipodermóclise 337 Capítulo 17 – Extubação Paliativa 351 Capítulo 18 – Cirurgia Paliativa 379 Capítulo 19 – Radioterapia 391 SEÇÃO IV - SITUAÇÕES CLÍNICAS ESPECÍFICAS EM CUIDADOS PALIATIVOS Capítulo 20 – HIV/AIDS 405 Capítulo 21 – Cardiologia 417 xvii xviii Capítulo 22 – Oncologia 433 Capítulo 23 – Neurocirurgia 443 Capítulo 24 – Cuidados Paliativos Pediátricos 453 Capítulo 25 – Cuidados Paliativos Perinatais 473 Capítulo 26 – Doença Renal Crônica e Injúria Renal Aguda 487 Capítulo 27 – Geriatria e Quadros Demenciais 509 VOLUME 2 SEÇÃO V – ENSINO, COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E ASPECTOS PSICOLÓGICOS CULTURAIS, ESPIRITUAIS E DE ASSISTÊNCIA SOCIAL EM CUIDADOS PALIATIVOS Capítulo 28 – Espiritualidade e Religiosidade 533 Capítulo 29 – Luto 563 Capítulo 30 – Comunicação de Notícias Difíceis 599 Capítulo 31 – Desafios na Comunicação e Situações de Difícil Condução 621 Capítulo 32 – Abordagem à Família 641 Capítulo 33 – Saúde Mental dos Profissionais de Cuidados Paliativos e dos Cuidadores 665 Capítulo 34 – Educação em Cuidados Paliativos 683 Capítulo 35 – Serviço Social 711 SEÇÃO VI – BIOÉTICA, ÉTICA MÉDICA E ASPECTOS MÉDICO-LEGAIS EM CUIDADOS PALIATIVOS E SITUAÇÕES DE FIM DE VIDA Capítulo 36 – Bioética e Teorias Morais: Base Teórica para Reflexões Críticas em Situações de Fim de Vida 729 Capítulo 37 – Dilemas Bioéticos em Situações de Fim de Vida: Paternalismo versus Autonomia 749 Capítulo 38 – Dilemas Bioéticos em Fim de Vida: Eutanásia e Suicídio Assistido por Médico 773 Capítulo 39 – Deontologia Médica e Aspectos Legais das Situações de Fim de Vida 825 Capítulo 40 – Relação Médico-Paciente e Dilemas Bioéticos em Fim de Vida 863 Capítulo 41 – Diagnóstico da Morte Encefálica 879 Capítulo 42 – Judicialização da Saúde em Situações de Fim de Vida 891 Capítulo 43 – Discussão de Caso e Sindicância Ético-Profissional: Ética Médica e Cuidados Paliativos 917 Apêndice – Quando o acolhimento abraça o sofrimento humano: sugestão de prática de ninho humano para acolhimento em cuidados paliativos A1 Ensino, Comunicação, Aspectos Psicológicos, Culturais, Espirituais e de Assistência Social em Cuidados Paliativos Seção V 533 Com o avanço da tecnologia, muitos pacientes cujas mortes são inevitáveis passaram a ter sua vida prolongada por meios artificiais pelo máximo de tempo possível. Nesses casos, a morte deixa de ser vista como um fato esperado e passa a ser considerada algo que se deve tentar evitar e postergar ao máximo. Nesse contexto, no Brasil, a maioria das mortes de idosos (66,7%) ocorre no ambiente hospitalar, contra 21,4% no domicílio1. Contudo, os pro- fissionais da saúde, apesar de terem se tornado os novos sentinelas do morrer, muitas vezes deixam de ter um olhar mais atento às necessidades espirituais do fim da vida do paciente2. Com o relativo crescimento das discussões sobre medicina paliativa, ocorreu a am- pliação da prática de diálogos abertos com o paciente em fim de vida e estudos sobre suas preferências. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) sugerem que há uma série de fatores que influenciam no processo de morte, como as crenças culturais, preferências individuais, acesso à saúde, idade, su- porte social e etnia3. Deixar de atentar-se a qualquer um desses componentes pode resultar em falha no cuidado integral do atendimento4,5. Os aspectos espirituais são um componente importante desse cenário, pois afetam a forma como o paciente lida com sua doença e influenciam sua qualidade de vida6. Pa- cientes em fim de vida frequentemente se deparam com sofrimento existencial e espiri- tual, que muitasfamiliar e a satisfação no cuidar. Atas do Congresso Ibero-Americano https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_pratico_cuidador.pdf 680 em Investigação Qualitativa, Aracajú, SE, Brasil. 2015; 1:492-496. 5. Adelman RD, Tmanova LL, Delgado D, Dion S, Lachs MS. Caregiver burden: a clinical review. JAMA. 2014; 311(10):1052-1060. 6. Hawthorne DL, Yurkovich NJ. Human relationship: the forgotten dynamic in palliative care. Palliat Support Care. 2003; 1(3):261-265. 7. Baguley SI, Dev V, Fernando AT, Consedine NS. How Do Health Professionals Maintain Compas- sion Over Time? Insights From a Study of Compassion in Health. Front Psychol. 2020; 11:564554. 8. Day JR, Anderson RA. Compassion fatigue: an application of the concept to informal caregivers of family members with dementia. Nurs Res Pract. 2011; 2011:408024. 9. Bhutani J, Bhutani S, Balhara YPS, Kalra S. Compassion fatigue and burnout amongst clinicians: a medical exploratory study. Indian J Psychol Med. 2012; 34(4):332-337. 10. Van Mol MMC, Kompanje EJO, Benoit DD, Bakker J, Nijkamp MD, Seedat S. The prevalence of compassion fatigue and burnout among healthcare professionals in intensive care units: A syste- matic review. PLoS One. 2015; 10(8):1–22. 11 . World Health Organization. Burn-out an "occupational phenomenon": International Classi- fication of Diseases [Internet]. Genebra, Suíça: Organização Mundial da Saúde; 2019 [citado em 17/06/2022]. Disponível em: https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupatio- nal-phenomenon-international-classification-of-diseases. 12. Trigo TR. Validade fatorial do Maslach Burnout Inventory-Human Services Survey (MBI-HSS) em uma amostra brasileira de auxiliares de enfermagem de um hospital universitário: influência da depressão [dissertação]. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina; 2011. 13. Zarit SH, Todd PA, Zarit JM. Subjective burden of husbands and wives as caregivers: a longitu- dinal study. Gerontologist, 1986; 26(3):260-266. 14. Fernandes MGM, Garcia TR. Atributos de tensão do cuidado familiar de idosos dependents. Rev Esc Enfermagem. 2009; 43(4):818-824. https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupatio- 681 15. Halbesleben JRB, Rathert C. Linking physician burnout and patient outcomes: Exploring the dyadic relationship between physicians and patients. Health Care Manage Rev. 2008; 33(1):29–39. 16. Grupo de Trabalho “Mortalidade dos Médicos”. Estudo da Mortalidade dos Médicos [Internet]. São Paulo: Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo; 2012; [citado em 22/09/2021]. Disponível em: https://www.cremesp.org.br/pdfs/Mortalidade%20v%20220312.pdf. 17. Bianchi R, Schonfeld IS, Laurent E. Burnout-depression overlap: A review. Clin Psychol Rev. 2015; 36:28–41. 18. American Psychiatric Association. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed Editora; 2014. https://www.cremesp.org.br/pdfs/Mortalidade%20v%20220312.pdf. 683 Educação em Cuidados Paliativos Capítulo 34 Eliane Haider Os cuidados paliativos são aplicáveis em diversos contextos de saúde, da atenção pri- mária à terciária, intra-hospitalar, ambulatorial e em domicílio (detalhes dos modelos de assistência em cuidados paliativos são abordados no Capítulo 5). Todo profissional de saú- de deve ser capaz de fornecê-los de maneira adequada, o que requer que todos sejam trei- nados para fazê-lo com presteza (respeitando os diferentes graus de expertise), a fim de atender às necessidades e desafios dos doentes e famílias1. O sofrimento do indivíduo impacta seus familiares, amigos e os profissionais envolvidos em seu cuidado. Imperícia e desconforto moral podem fomentar o sofrimento de membros da equipe de saúde e culminar em situações como a do burnout (detalhado no Capítulo 33). Neste capítulo, serão abordados alguns tópicos envolvendo a educação médica voltada ao ensino de cuidados paliativos, fundamental para suprir essa demanda cada vez mais crescente por profissionais capazes de oferecer os melhores cuidados a seus pacientes. Conceitos e definições Alguns conceitos importantes em educação médica aplicada aos cuidados paliati- vos são importantes para o entendimento deste capítulo: • Domínios da educação em cuidados paliativos: a educação em cuidados paliati- vos deve incluir a educação da população como um todo, o treinamento dos profis- sionais já atuantes (educação continuada), a implementação de formação básica em paliação no conteúdo curricular das graduações da área da saúde2 e o refina- mento da formação de especialistas. Enquanto a população geral tem se apropria- do do tema a partir da literatura, vídeos informativos de qualidade na web, cursos, podcasts, sites e pela teledramaturgia recente, estratégias de educação médica de- vem ser pensadas desde o desenho do currículo de graduação até as estratégias 684 de avaliação da aprendizagem, capazes de direcionar o ensino às necessidades da população atendida. • Currículo baseado em competências: competências são um conjunto de com- portamentos observáveis e mensuráveis que abrangem a combinação de conhe- cimentos, habilidades e atributos pessoais que tornam alguém capaz de resolver determinada tarefa. Os objetivos do currículo devem ser específicos, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e em tempo oportuno (regra mnemônica em inglês SMART para os termos specific, measurable, achievable, relevant e timely). Também é interes- sante explicitar o que se espera que o aprendiz seja capaz de fazer ao término da formação, em que circunstâncias, quão bem feito e quando3. Educação continuada em cuidados paliativos O treinamento de quem já atua fica a critério dos setores de educação continuada, adequando o conteúdo às necessidades do cenário e da rotina clínica. Esse tipo de trei- namento é condição para possibilitar maior acesso às duas dimensões do cuidado: cura- tiva (ou terapia modificadora de doença) e paliativa (cuidados para alívio do sofrimento). No entanto, o estudo SUPPORT (realizado entre 1989 e 1995) demonstrou deficiências no tratamento da dor, na comunicação entre médicos e famílias e na indicação de terapias em mais de 10 mil pacientes em estado grave e hospitalizados4,5. A literatura sugere que médicos no início de sua experiência prática aprendem cuida- dos paliativos experimentalmente. Como os médicos mais antigos têm dificuldade de lidar com necessidades de cuidados paliativos e discutir questões de fim de vida com seus pa- cientes (devido a uma formação deficitária no tema), muitas vezes se reforça o hábito de evitar discutir questões envolvendo cuidados paliativos. Isso leva profissionais a se consi- derarem despreparados para dar notícias difíceis, demonstrar empatia, discutir prognós- tico, controlar sintomas e manejar sofrimento e questões sociais3. Esse contexto reforça a importância do engajamento em educação continuada nos vários cenários de prática. Cuidados paliativos no currículo da graduação no Brasil A necessidade da inclusão dos cuidados paliativos na graduação é descrita na literatura mundial desde a década de 19703,6-9. No Brasil, os primeiros profissionais que se especiali- 685 zaram na área eram autodidatas ou obtiveram especialização fora do país5. O treinamento técnico específico teve início por iniciativas isoladas, cursos vinculados ao movimento es- tudantil, de extensão –como a iniciativa do Dr. Marco Tulio de Figueiredo, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na década de 199010 – ou ligas acadêmicas. Até novembro de 2022, os cuidados paliativos não constavam nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de graduação em medicina11. Durante anos, diversas entidades ligadas aos cuidados paliativos e ao ensino médico atuaram em prol da inclusão da área no currículo da graduação médica no Brasil. Entre elas, a Associação Brasileira de Educa- ção Médica (Abem) – conhecida pelos contínuos trabalhos e pela busca por melhorias no ensino médico no Brasil – vinha propondovezes recebe pouca atenção por parte da equipe assistencial. Tal sofri- mento decorre, por exemplo, da necessidade do paciente de ressignificar seus valores e o próprio sentido que dá à sua vida, uma vez que é obrigado a enfrentar a perspectiva de seu fim7. Devido ao risco de que esse processo seja acompanhado por sofrimento, o cui- dado espiritual é um componente essencial dos cuidados paliativos. Assim, neste capí- tulo, serão abordados os aspectos espirituais, religiosos e culturais da fase final da vida. Espiritualidade e Religiosidade Capítulo 28 Elio Barbosa Raimondi Belfiore Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo Pedro Luis Furlam Conceitos e definições Inicialmente, é necessário delinear alguns critérios e definições necessários para a melhor compreensão dos temas que serão abordados neste capítulo: 534 Espiritualidade e religiosidade nas situações de fim de vida A doença que acomete o paciente em fim de vida não causa apenas danos biológicos, mas o afeta como um todo, incluindo seus domínios psicológico, interpessoal e espiritu- al, que são inter-relacionados. Isso se traduz em diversas experiências vivenciadas por pacientes nessa fase, tais como medo, raiva, desconforto físico, perda de independên- cia, mudanças na autoimagem e nos papéis sociais e familiares desempenhados, bem como em relacionamentos. A angústia espiritual também pode ser parte importante desse sofrimento no final da vida, além de poder impactar negativamente a forma como o indivíduo lida com esses outros problemas10. Assim, o suprimento das necessidades espirituais do paciente também deve ser considerado pelos profissionais de saúde em seu plano de cuidado11. Para isso, toda a equipe de saúde envolvida no cuidado deve es- tar capacitada para abordar aspectos espirituais e, idealmente, o sistema de saúde deve estar preparado para oferecer esse tipo de suporte12, incluindo a disponibilização de es- pecialistas em cuidado espiritual, como os capelães13. • Religião: embora muitas vezes seja usado como sinônimo de espiritualidade, o termo tem significado diferente. Religião se refere principalmente aos sistemas e instituições sociais aos quais aderem os indivíduos com crenças, tradições e ri- tuais compartilhados (ou que por eles são organizados) visando conectar-se com o divino8,9. Ou seja, a religiosidade pressupõe obediência a um conjunto institucio- nalizado e compartilhado de práticas, crenças e tradições, assim como um senti- mento de pertencimento a tal sistema. Assim, embora a religião possa ser uma forma de expressar a espiritualidade, sua definição é mais restrita. • Espiritualidade: trata-se de um conceito mais amplo, cuja abrangência é difí- cil de definir, mas que pode ser entendido como a busca pelo sentido e propósito na vida. A espiritualidade pode envolver crenças preestabelecidas – por exem- plo, em um sistema religioso – ou não8. Assim, é possível que um indivíduo seja provido de grande espiritualidade, mas não seja religioso. Em linhas gerais, a vivência espiritual envolve sentimentos de conexão com outros, com o meio ao redor, com um plano sagrado e transcendental, e consigo mesmo9. 535 Pesquisas vêm demonstrando o impacto que o diagnóstico de uma doença ameaçado- ra à vida tem sobre a religiosidade e a espiritualidade do enfermo. O estudo Coping with Cancer evidenciou isso ao entrevistar 230 pacientes com câncer avançado com expecta- tiva de menos de um ano de vida, tendo como objetivo avaliar a importância da religião e do atendimento com serviço religioso. Desses pacientes, 68% relataram que a religião era muito importante, 20% disseram que era de alguma forma importante e os outros 12% responderam que não achavam importante. Além disso, o estudo observou que as atividades religiosas e/ou espirituais diárias privadas, como oração e meditação, aumen- taram de 47% antes do diagnóstico para 61% após o diagnóstico12. Outro fato que demonstra a importância dos aspectos espirituais e religiosos nos cuida- dos de fim da vida é a sua influência sobre a tomada de decisão do paciente. Por exemplo, muitos pacientes relatam que utilizam a religiosidade como forma de lidar com seus pro- blemas de saúde, ajudando-os a enfrentar as adversidades impostas por sua condição11. Diante da influência desses aspectos no fim da vida, podem emergir dilemas bioéticos importantes, envolvendo, por exemplo, recusa e futilidade terapêuticas, que podem afe- tar o desfecho final do paciente. Um estudo demonstrou que, entre pacientes com câncer avançado, o uso da religiosidade como mecanismo de enfrentamento da doença se asso- ciou positivamente ao recebimento (ou desejo por receber) de suporte intensivo à vida nos momentos que antecederam a morte12-14. Embora os mecanismos dessa associação não es- tejam claros e isso não necessariamente se traduza em maior futilidade terapêutica nesses pacientes, alguns autores sugerem que pacientes mais religiosos podem se submeter a tra- tamentos mais agressivos, movidos por sua crença de que deus poderia curá-los através do tratamento proposto14. Já em uma amostra de pacientes de enfermaria geral em Chicago, Estados Unidos, maiores níveis de religiosidade e/ou espiritualidade se associaram a maior uso de procuração de cuidados de saúde, ou seja, a designação de uma pessoa específica para tomar decisões clínicas pelo paciente quando este estiver incapacitado para tal15. Independente de possíveis conclusões, ainda pouco definidas, sobre como a espirituali- dade e a religiosidade afetam as decisões em fim de vida e o desfecho do paciente, chama atenção o papel do suporte espiritual nesse cenário. Entre os pacientes com câncer avança- do que receberam suporte espiritual, um estudo identificou que há uma chance três vezes maior de receberem cuidados paliativos em hospice ao final da vida13. Evidencia-se ainda a diferença entre religiosidade e espiritualidade: mesmo pacientes com grande religiosidade podem apresentar sofrimento espiritual, o que pode explicar a maior tendência à escolha por tratamentos agressivos e potencialmente fúteis. Nessa linha, o suporte espiritual a pa- cientes com esse perfil se associou a um aumento ainda maior na chance de recebimento 536 de cuidados em hospice ao fim da vida, chegando a cinco vezes mais quando comparado à ausência desse suporte. Independentemente da religiosidade, contudo, o suporte espiritu- al se associou a uma melhor qualidade de vida nos momentos finais do paciente13. Apesar de muitos estudos envolvendo espiritualidade e fim de vida avaliarem a popula- ção de pacientes oncológicos, as necessidades espirituais não se limitam aos que sofrem de câncer, e nem mesmo aos pacientes em estágio terminal. Estudos mostram que a maioria dos pacientes internados em enfermarias médico-cirúrgicas, no geral, apresenta deman- das religiosas e espirituais. Entre idosos internados, 90% utilizam a religião como forma de lidar com seus problemas de saúde, sendo que, para a metade deles, esse é o principal instrumento para tal11. As necessidades espirituais desses pacientes envolvem não ape- nas seus sentimentos de esperança, pertencimento e amor, mas também seus valores e percepções relacionados ao sentido da vida e à fé. Mesmo fora do contexto dos cuidados paliativos, quando os pacientes têm suas necessidades espirituais abordadas e se sentem amparados pelo suporte espiritual, confiam mais em seus médicos, fortalecendo a rela- ção médico-paciente16. Ademais, pacientes com maior bem-estar espiritual apresentam menos sintomas depressivos e ansiosos17 e têm menos desejo de abreviar a vida18. Assim, é fundamental que a equipe de saúde permita que o paciente termine suas “tarefas” espiri- tuais para que possa, por fim, atingir a paz espiritual e ter uma boa morte11. Angústia espiritual Como exposto, a espiritualidade pode ajudar a fornecer recursos para enfrentar as adversidades impostas pela condição de fim de vida. Contudo, alguns pacientes apre- sentam situações de sofrimento que envolvem questões espirituais.Por exemplo, assim como um paciente pode ser capaz de enxergar um novo sentido em sua vida diante de um diagnóstico de uma doença grave, outro paciente pode se sentir abandonado por deus, sentimento que pode lhe causar extremo sofrimento. Essa última situação foi identificada como “angústia espiritual”, cuja definição é: “um estado em que o indivíduo está em risco de vivenciar uma perturbação em seu sistema de crenças ou valores que conferem força, esperança e sentido à vida”19. Não é incomum observar a associação entre a experiência de ameaça de morte e a angústia espiritual. Porém, assim como a dor, a angústia espiritual também se ca- racteriza como um evento difícil de ser descrito ou quantificado. Em uma tentativa de mensurar a angústia espiritual, Anandarajah e Hight desenvolveram a ferramenta HOPE, que será descrita adiante. Para isso, consideraram que a angústia espiritual se dá quando a pessoa fica “desabilitada de achar fontes de significados, esperança, amor, 537 paz, conforto, força e conexão na vida ou quando ocorre conflito entre suas crenças e o que está acontecendo em sua vida”20. A angústia espiritual pode se manifestar como um espectro que inclui desde quadros mais leves a quadros com sintomas depressivos e ansiosos, além de crises espirituais6. Sua manifestação também é extremamente variável por conta de sua natureza subjeti- va. Assim, pode se apresentar associada a sentimentos de raiva, luto, vergonha, culpa, abandono, desesperança e baixa autoestima21. Também pode se manifestar por meio do arrependimento por escolhas pregressas, necessidade de perdoar ou ser perdoado e busca por reconciliação22. A doença ainda pode pôr em xeque o sistema de crenças do paciente, gerando questionamentos que podem comprometer o sentido que vê na vida, resultando em angústia espiritual. Esse choque pode exacerbar o isolamento so- cial, afastando-o de seus familiares e/ou da comunidade religiosa à qual antes pertencia e que poderiam ser fonte de conforto nessa fase23. Consequências negativas podem ocorrer diante da angústia espiritual. Estudos a asso- ciaram a desfechos adversos na saúde como um todo, como maior incidência de dor e fa- diga. A angústia espiritual também se associou a piora na qualidade de vida e aumento da mortalidade24. O oposto da angústia espiritual ocorre quando esse domínio fornece ao pa- ciente a capacidade de encontrar um sentido em sua vida no contexto da enfermidade. O paciente conta, então, com uma força que lhe dá ferramentas para lidar com a adversida- de, como a habilidade de perdoar e ser perdoado25, o envolvimento com sua comunidade e a capacidade de aproveitar a vida26. Manifestações da espiritualidade, tais como meditação e rituais religiosos – como orações e cultos – podem ajudar a desenvolver a força espiritual. Diferenças entre angústia espiritual e quadros depressivos É importante salientar que, pela sua natureza subjetiva, a angústia espiritual pode se confundir com quadros psiquiátricos, como os transtornos depressivos6. Portanto, é fundamental que o médico e os demais profissionais de saúde busquem formas de com- preender da melhor maneira possível a natureza do sofrimento vivenciado pelo pacien- te. Para isso, é necessário abordá-lo utilizando perguntas abertas e tendo uma postura acolhedora. Uma vez compreendida a natureza do sofrimento, é possível guiar a aborda- gem para mitigar aquilo que é prevalecente. Por exemplo, caso o componente espiritual seja mais intenso, o paciente provavelmente se beneficiará mais de suporte espiritual especializado do que de suporte psicológico somente. Embora a diferenciação entre as duas condições seja difícil, o Quadro 1 apresenta alguns elementos de comparação que ajudam a distinguir o sofrimento espiritual de quadros depressivos. 538 Angústia espiritual Transtorno depressivo maior Angústia espiritual envolvendo a morte que se aproxima: percepção de que a morte é inevitável e desejo de continuar vivendo. Sentimentos são de ansiedade com o processo de morte, preocupações em se separar de entes queridos e com o que virá após a morte. Angústia espiritual com o sentido da vida: dificuldade em encontrar um sentido diante da morte e perda de propósito. O paciente questiona o significado de sua doença, seu sofrimento ou sua fé. Angústia espiritual com as escolhas e liberdade: fardo decisório decorrente das consequências que as escolhas próximas da morte podem ter. Sentimentos de arrependimento com escolhas passadas e conflitos não resolvidos consigo ou com outros. Angústia espiritual com o isolamento: o paciente se afasta da comunidade (igreja, família) e tem sentimentos de abandono por ela e por deus. Sente-se desconectado. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio. Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por estar doente). Sintomas neurovegetativos (insônia/hipersonia, agitação/lentificação, anorexia/hiperfagia). QUADRO 1. COMPARAÇÃO ENTRE MANIFESTAÇÕES FREQUENTES (E NÃO MUTUAMENTE EXCLUDENTES) OBSERVADAS NA ANGÚSTIA ESPIRITUAL E NO TRANSTORNO DEPRESSIVO MAIOR ADAPTADO DE: GRECH A ET AL., PALLIAT MED 201727; E AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 201428. Como característica principal, os quadros depressivos apresentam impacto negativo pervasivo no humor do paciente, que manifesta humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias28. Em comparação, a angústia espiritual se manifesta mais pelo conteúdo da vivência subjetiva do paciente do que meramente na polaridade de seu hu- mor, embora ambos os elementos possam estar presentes simultaneamente. Ademais, os quadros depressivos apresentam sintomas neurovegetativos mais objetivos, como insônia/hipersonia, agitação/lentificação psicomotora, dificuldade de concentração, fa- diga, anorexia/hiperfagia e/ou perda/ganho de peso. O Quadro 2 ilustra um caso cujas particularidades permitem diferenciar a angústia espiritual de um quadro depressivo. 539 QUADRO 2. CASO CLÍNICO DE ANGÚSTIA ESPIRITUAL ADAPTADO DE: PUCHALSKI C, J PALLIAT MED 200029. O caso da paciente C. M., 42 anos, com diagnóstico de câncer de mama com metástase cerebral e prognóstico estimado de seis meses de vida, em cuidados paliativos exclusivos, ilustra bem o fato de que um paciente pode estar emocionalmente saudável, mas apresentar grande sofrimento espiritual. Muitas vezes, o sofrimento espiritual é inteiramente interpretado como psicológico ou diagnosticado como depressão ou ansiedade. Contudo, essa não é a resposta completa para o sofrimento quando se ignora o componente espiritual. C. M. foi diagnosticada com depressão e adequadamente tratada para esse diagnóstico. Porém, não apresentava outros sintomas típicos de depressão, como os neurovegetativos, abulia ou ideação suicida. Tampouco apresentou melhora significativa de humor ou dos sintomas ansiosos. C.M. possuía três filhos ainda crianças (3, 9 e 10 anos) e, após uma avaliação espiritual em que pôde verbalizar suas angústias, ela revelou que sentia que sua vida não tinha propósito. C.M. sentia que nada mais tinha a fazer até seu momento de partir. Diante disso, indagava-se quanto àquilo que se tornou sua maior preocupação: “meu filho de 2 anos não vai se lembrar de mim”. Esta era a real fonte de seu estado de sofrimento. A equipe então resolveu aprofundar-se na questão e discutir formas de suprir essa necessidade espiritual de C. M. Foi debatido o que poderia ser feito para fazer com que seus filhos, especialmente o mais novo, se lembrassem dela. A equipe propôs então que C. M escrevesse suas memórias ou um documento em que articulasse seus valores, aquilo que considerasse importantepara ela e o que esperava de seus filhos para o futuro. C. M. escreveu palavras para seus filhos que incluíam tópicos como suas esperanças e sonhos para eles. Além disso, um dos membros da equipe a filmou dizendo suas palavras direcionadas a seus filhos, de forma que o vídeo se tornasse um legado que pudesse ser assistido por eles conforme crescessem. Essas atividades abordando as preocupações de C. M. sobre o significado de sua vida resultaram em evidente melhora de seu sofrimento. A paciente passou a tolerar melhor as consultas e suas passagens pelo hospital e pôde viver seus últimos meses de forma mais serena ao lado de sua família. Preocupações de cunho espiritual, como as de C. M., são frequentemente ignoradas na prática diária da medicina. É comum que pacientes tenham questionamentos como “eu realmente acredito em Deus, eu acreditei Nele por toda a minha vida, mas eu realmente me pergunto se Ele está aqui por mim agora”. São pensamentos assim, associados a um sentimento de abandono por Deus, que podem representar intenso sofrimento espiritual para o paciente. Tal sofrimento, no entanto, pode, mas não necessariamente, se associar à depressão ou à ansiedade. É importante, portanto, estar presente de forma compassiva ao lado do paciente e ouvi-lo melhor para entender seu sofrimento de forma integral. Não há solução mágica para o sofrimento espiritual, tampouco uma intervenção farmacológica. O profissional não pode responder a um questionamento dessa ordem feito pelo paciente com frases padronizadas como “oh, claro, Deus está lá por você. Não se preocupe mais com isso”. Na realidade, nem mesmo há resposta para um questionamento assim. Porém, é possível estar presente, ouvir e apoiar o paciente. Ou, então, contar com o auxílio de um profissional especializado, como um capelão hospitalar. Essa simples atitude já pode representar muito para o paciente. 540 Um mesmo paciente pode apresentar tanto sofrimento espiritual quanto psicológi- co, além da dor física causada pela doença, no mesmo momento. Por conta disso, foi cunhado o conceito de “dor total” pela pioneira dos cuidados paliativos, Cicely Saunders, em 1964. O termo reúne as aflições social, psicológica, física e espiritual que podem ser vivenciadas simultaneamente pelo mesmo paciente30. Esse conceito pode explicar dores de difícil manejo em alguns pacientes em comparação com outros, como visto em um estudo que demonstrou menores níveis de dor e menor necessidade de morfina nos pacientes com câncer avançado que receberam melhor suporte espiritual31. Assim, levanta-se a possibilidade de que a angústia espiritual superajuntada à dor física pode promover a sensação de elevação dos níveis álgicos31. Na Figura 1, o conceito de dor total é esquematicamente representado, em conjunto com seus componentes. DOR TOTAL física socialespiritual psicológica A morte na perspectiva das diferentes religiões Não apenas a espiritualidade, mas também a religiosidade, para muitos pacientes, de- sempenha um importante papel nas doenças ameaçadoras da vida. Como a religião se refere a um sistema de crenças e tradições compartilhado por um grupo de pessoas vol- tado ao contato com o divino, há uma grande interface com a terminalidade da vida. Por exemplo, em muitas religiões, como as abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), a passagem da vida para a morte integra grande parte das discussões doutrinárias. Assim, cada religião apresenta particularidades envolvendo os conceitos relacionados à morte, embora também existam questões que são universais para todos os pacientes. A seguir, são detalhadas as visões da morte em algumas das principais religiões. Cristianismo O cristianismo, apesar de ter inúmeras vertentes dogmáticas, possui um entendimento único sobre a morte física: a passagem para uma vida eterna para os eleitos, que se unem a FIGURA 1. DOR TOTAL E SEUS COMPONENTES ADAPTADO DE: SAUNDERS NURSING MIRROR 196430. 541 Cristo. Assim, a morte representa a separação do corpo, que é mortal, da alma, que é imortal. É fundamental destacar o entendimento cristão em relação ao sofrimento e à dor, uma vez que, para eles, Jesus Cristo representa um modelo de resignação ao sofrimento, oferecendo sua penitência como sacrifício para a salvação da humanidade. Assim, para os cristãos, o sofrimento pode ser encarado como um teste de fé, que os aproxima de seu Salvador32. No caso dos católicos, no período imediatamente anterior à morte, é comum a aplicação da Extrema Unção, que é o sacramento fornecido como sinal da presença de Deus na vida desse indivíduo e da remissão de seus pecados33. Após a morte, os cristãos velam o corpo durante o velório e os rituais podem variar conforme a denominação cristã. Pela ortodoxia cristã, são absolutamente proibidas a eutanásia ou condutas médicas que visam a interrupção da vida para o abreviar o sofrimento do paciente. Contudo, o catolicismo reconhece os cuidados paliativos, a importância do alívio do sofrimento do paciente e a possibilidade de renúncia a métodos extraordinários ou desproporcionais para prolongar a vida. Algumas diferenças, contudo, existem entre as denominações cristãs quanto à limitação e/ou descontinuação de hidratação e nutrição. Detalhes sobre esse tópico são abordados no Capítulo 38. Segundo a Doutrina do Duplo Efeito, muito influente no catolicismo, é justificável prescrever fármacos com o intuito primário de aliviar a dor e o sofrimento do paciente, mesmo que exista o risco associado de abreviar sua vida, o que seria um efeito secun- dário. No entanto, não é permitido prescrever os mesmos fármacos tendo como intuito primário abreviar a vida – ou seja, para a prática da eutanásia34. Detalhes desse conceito são abordados nos Capítulos 36 e 38. Judaísmo Para as principais vertentes do judaísmo, a morte representa a separação do corpo e da alma em duas entidades. A alma é eterna e indestrutível, enquanto a vida terrena precede a vida eterna, sendo a morte o caminho para essa nova fase de eternidade. No judaísmo, mesmo após a morte, o indivíduo continua recebendo o amor e as aspirações de seus pares vivos. Faz parte da crença judaica a ideia de que, no futuro, com a chegada do Messias, as almas serão restabelecidas em corpos ressuscitados para aproveitar as conquistas da vida pregressa de méritos e virtudes. O judaísmo possui diversas vertentes que contrastam quanto à forma de lidar com a morte, mas é comum a visão de que ela é algo que Deus deu aos homens juntamente com a vida, como parte da Criação, não sendo, portanto, necessariamente ruim. Ainda, o próprio fato de os seres humanos serem mortais aumentaria a capacidade da huma- 542 nidade de servir a Deus. Isso porque a realidade da morte propicia aos seres humanos a oportunidade de ser grato por suas próprias vidas. O fato de que o tempo pode acabar a qualquer momento também motiva a humanidade a viver bem a vida, todos os dias35. Vertentes ditas ortodoxas seguem a lei judaica – a Halachá – que acreditam vir de Deus, como regras imutáveis contidas na Torá e no Talmud. Um certo grau de interpre- tação é possível, o que se dá geralmente por decisões rabínicas denominadas Responsa. Tais decisões, que poderiam ser comparadas aos precedentes do mundo jurídico, permi- tem encontrar respostas para problemas que não são mencionados nas escrituras. Isso é extremamente relevante para a medicina, pois muitas das situações atualmente vivi- das nesse contexto não existiam quando a Torá ou o Talmud foram escritos. O judaísmo reformista, por sua vez, é a vertente mais liberal da religião e favorece a autonomia e a adaptação à realidade contemporânea. Embora também possam contar com interpreta- ções rabínicas, os judeus reformistas não seguem a Halachá de forma rígida e permitem a influência de outras fontes teóricas para determinar a moralidade de atos36. O enterro e o luto apresentam rituais específicos. O falecido deve ser sepultado assim que possível – geralmente em até 24horas –, exceto no Shabat e no Yom Kipur. Isso porque uma demora maior representaria um desrespeito ao falecido, que deve ser honrado se- gundo o conceito de kevod hamet37. A doação de órgãos, a cremação e a mutilação do corpo não são permitidas entre as vertentes mais ortodoxas, devido à crença de que o falecido ressuscitará nesse corpo quando o Messias retornar. Antes do funeral, o corpo é lavado em um ritual denominado tahará e, em seguida, é vestido com uma mortalha branca de linho denominada tachrichim, sobre a qual se coloca o xale de oração (talit), no caso de homens38. A cerimônia é simples e não há flores expostas, não é tocada música, o caixão é sim- ples e o corpo não é exposto. A família mais próxima realiza um ritual denominado keriá, que consiste em realizar um rasgo na própria roupa para representar o rasgo que a morte causa no coração do enlutado ( judeus não ortodoxos geralmente usam um laço de tecido preto que representa o fragmento rasgado, em vez de rasgar suas próprias rou- pas). Os filhos homens – ou o parente mais próximo do sexo masculino, quando o faleci- do não tiver filhos – recitam uma versão especial da oração Kadish, um hino de louvor a Deus. Por ser tradicionalmente recitado nos enterros e nos serviços comemorativos dos finados, ele é popularmente considerado como uma oração pelos mortos. Após o sepul- tamento, inicia-se o shivá (sete, em hebraico), que consiste em um período de sete dias em que os enlutados ficam reclusos em casa, se abstendo de atividades profissionais e de lazer. Nesse período, recebem visitas em casa e realizam orações37,38. Em relação aos cuidados paliativos, é importante conhecer o grau de adesão do paciente 543 à doutrina religiosa judaica, uma vez que os indivíduos podem ter visões distintas quanto ao tratamento a ser realizado. Algumas comunidades e famílias ortodoxas podem se sentir desconfortáveis com a ideia de que poderiam estar “desistindo” do paciente ao optar por cuidados paliativos exclusivos, o que poderia representar falta de fé em Deus, segundo alguns. Contudo, muitos rabinos consideram a ideia de que é possível manter a fé e a es- perança de que Deus promoverá a cura do paciente e, ao mesmo tempo, agir tendo em mente que a morte pode ser inevitável. Nesse sentido, o ideal seria fazer o melhor para o momento, entendendo a situação de forma realística, enquanto se mantém a esperança de haver mudança para melhor. Caso contrário, isso poderia causar mais dor e sofrimento ao paciente, o que contraria o que o judaísmo propõe35. Assim, judeus reformistas e muitos rabinos importantes não endossam automatica- mente a continuação de tratamentos que buscam prolongar a vida a qualquer custo, a menos que o paciente solicite. Já os cuidados paliativos são vistos como benéficos por eles, pois reduzem o sofrimento do paciente. Algumas vertentes inclusive propõem que, mais do que maximizar o tempo na vida terrena, os judeus devem buscar aproveitar ao máximo suas vidas servindo a Deus, cumprindo os mandamentos e crescendo religiosa e espiritualmente. Segundo essa lógica, os cuidados paliativos, muitas vezes, podem ser mais propícios ao cumprimento dessas tarefas, ao aumentar a qualidade de vida do pa- ciente, se comparados a tratamentos que podem até mesmo prolongar o tempo de vida, mas à custa de efeitos colaterais intensos que levam à redução de sua qualidade. Por exemplo, a abordagem paliativa pode deixar o paciente com mais força para fazer boas ações, enquanto uma abordagem mais agressiva pode significar que toda a sua energia é dedicada apenas para passar pelo tratamento35. O judaísmo também tem visões diversas sobre a definição de morte e sobre a continuida- de de suporte artificial da vida. Os judeus reformistas aceitam o conceito de morte encefá- lica, assim como alguns ortodoxos, porém muitos destes acreditam que a morte, segundo a Halachá, só ocorre quando a respiração cessa. Isso gera um dilema especialmente impor- tante envolvendo a ventilação mecânica, pois muitos dos ortodoxos não aceitam que o equi- pamento seja desligado, pois isso poderia resultar na morte do paciente. Judeus reformistas, por sua vez, permitem que a decisão seja compartilhada entre a família e o médico, pois acreditam que, “quando o tratamento deixa de ser eficaz, ele deixa de ser um tratamento”36. Islamismo O paciente muçulmano em processo de morte pode receber diversos visitantes, pois a religião prega que se deve visitar o indivíduo que esteja morrendo, mesmo que o vínculo 544 seja mais distante, uma vez que tal ato é considerado uma forma de demonstrar compai- xão. O paciente, por sua vez, é encorajado a recitar versos do Alcorão e a redeclarar sua fé. A religião também reprova o prolongamento artificial da vida, a menos que resulte em adequada qualidade de vida para o paciente39. Os muçulmanos preferem morrer em suas próprias casas. Eles acreditam no dia do juí- zo final e, como no cristianismo, creem que a morte é algo inerente à vida, representando não um fim, mas uma passagem para a vida eterna, em que o indivíduo será punido ou recompensado de acordo com seus atos durante a vida terrena. Assim, ao se aproximar da morte, é importante pedir perdão a outras pessoas por quaisquer atos ou erros contra elas, antes de pedir perdão a Deus pelos pecados cometidos39. O islã também prega alguns rituais imediatamente posteriores à morte. Idealmente, o rosto do falecido deve ser virado em direção a Meca, enquanto os braços e pernas devem ser esticados e a boca e olhos, fechados. Todas as roupas e adornos devem ser retirados por uma pessoa do mesmo sexo e o corpo deve ser lavado e coberto com um lençol branco antes do sepultamento. Para os muçulmanos, o corpo é considerado inviolável e, por isso, exames post-mortem também não devem ser realizados. Nessa mesma lógica, os transplan- tes são proibidos por certos teólogos e em certos países islâmicos, embora outros sejam mais liberais quanto a esse tema, pois reconhecem o benefício do procedimento para a sociedade, permitindo-o em determinadas condições39. A cremação, assim como no juda- ísmo, é proibida. Em correntes mais ortodoxas, as mulheres não comparecem ao enterro. Como a morte é vista como algo natural, inerente à vida, não há rituais de luto, embora se realizem orações pela alma do falecido. A prática da eutanásia é condenada pelo islamismo, segundo as interpretações do Alco- rão, que não reconhece o direito de uma pessoa morrer por sua própria vontade. Segundo a doutrina islâmica, a vida é uma dádiva divina que não pode ser interrompida por nenhu- ma forma de intervenção ativa ou passiva. Contudo, há dois casos que eventualmente são admitidos no islamismo. O primeiro é similar à lógica da doutrina do duplo efeito descrita anteriormente, quando se administram analgésicos com o intuito primário de aliviar a dor, mesmo que haja risco secundário de resultar em morte. A segunda situação é a limi- tação e descontinuação de tratamentos considerados terapeuticamente fúteis, permitindo que a morte siga seu curso natural40. Hinduísmo Hinduísmo é o termo dado a um grupo de religiões originárias da Índia que possui im- portantes variações regionais e culturais naquele país36. Em geral, os hindus entendem 545 que o verdadeiro ser não é o corpo que morre, mas sim o atman, que é imutável. Segundo essa crença, o mundo em que vivemos é apenas ilusório, sendo a “realidade última” de- nominada brahman. Assim, o hindu acredita que existe um constante ciclo entre morte e nascimento, determinando diferentes “vidas” (encarnações) para o mesmo atman. Por consequência, a vida futura será determinada pelas atitudes e por aprendizados da vida an- terior, o karma41. O objetivo final é obter a “libertação permanente”, denominada moksha, desse ciclo de mortes e renascimentos e experimentar a unidade com o brahman. Objetivos temporários nesse percurso incluem viver uma vida bem-aventurada para reencarnar em uma situação melhor, o que pode aumentar a chance