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PSICANÁLISE, CIÊNCIA E PROFISSÃO AULA 5 Prof. Giovana Madrucci 2 CONVERSA INICIAL Anteriormente, pudemos trabalhar um pouco sobre as origens da psicologia e de sua profunda relação com os mais diversos tipos de psicoterapia. Nesse interim, encontra-se a psicanálise. Tendo em mente que a psicanálise não se pretende um fazer e nem uma ciência que busca inserção e adequação às metodologias que são tidas como científicas, devemos entender que o que a sustenta é uma posição ética. O que quer dizer isso? A psicanálise tem uma concepção de homem e uma ética muito específicas, que seria a do desejo e a do sujeito do Inconsciente. Isso a torna paralela aos fazeres da psicologia e aos outros tipos de psicoterapia, pois, com isso, devemos entender que o objetivo principal da análise não é a cura e o bem-estar, mesmo que essas sejam consequências que possam ocorrer ao longo do tratamento analítico. Como analistas, devemos nos ocupar com o fato de que o sujeito do inconsciente e o desejo devem vir à tona. Freud percebeu que os sintomas só poderiam ser tratados com base no momento em que os impulsos insuportáveis provenientes do Inconsciente pudessem vir à tona (normalmente carregados de fantasias) para serem trabalhados. Somente fazendo emergir os conteúdos do Inconsciente é que o sujeito pode se haver com aquilo que há de mais particular nele, e, assim, haver-se com seu desejo, diminuindo a "divisão subjetiva" que o faz sofrer. Essa deve ser a ética que guiará o fazer do analista: a escuta da singularidade e do desejo de cada sujeito, sem normatizações, sem enquadramentos, sem moralismos e adequações sociais. Considerando a questão ética da psicanálise, podemos dizer que o fazer do psicanalista é um fazer laico, que não possui vínculo com nenhum tipo de prática ou crença religiosa. Portanto, isso não deve estar em pauta na postura que deve ser assumida pelo psicanalista. Considerando todos esses aspectos éticos que estão sendo e que foram levantados na discussão da psicanálise enquanto ciência, nesta aula, pretendemos seguir com as distinções entre psicanálise e outros tipos de psicologia ou ciências. Em um primeiro momento, seguiremos estabelecendo as distinções que existem tanto na concepção de homem (que, na psicanálise, tira o foco da consciência e leva para o inconsciente) quanto na de ética, que guia os fazeres da psicologia e das psicoterapias, bem como o da psicanálise. 3 Veremos, também, o motivo pela qual essas concepções devem ser consideradas tão distintas. Para tanto, retornaremos a dois textos seminais de Freud, os quais versam sobre a técnica psicanalítica e dão instruções àqueles que querem exercê-la. No momento final da aula, trataremos sobre como foi difundida e estruturada a psicanálise desde Freud. Esse aspecto historiográfico nos dará subsídios para que, em conteúdo posterior, possamos tratar da questão do fazer analítico como um ofício, verificando como se forma um analista. É importante frisar que a psicanálise, por mais que se veja um tanto quanto “de fora” quanto a normativas e regulamentações, não deve ser praticada à revelia. Um analista não se forma apenas com estudo teórico, pois é necessário haver um outro fator em sua formação, fator esse que tentaremos deixar bem claro em nosso percurso. A psicanálise também não se abstém de posições políticas, seja num quadro político mais geral (da sociedade em si), seja uma política própria que rege as instituições de psicanalistas e a relação da psicanálise com a sociedade. TEMA 1 – A PSICANÁLISE E AS PSICOTERAPIAS: UM POUCO MAIS De acordo com Silva, Gasparetto e Campezatto (2015), o período em que se formulam os primeiros tipos de psicoterapias propriamente ditas se dá entre 1880 e 1900. As autoras afirmam ainda que, de um lado, surgiram os laboratórios de psicologia experimental, com W. Wundt e W. James. Por outro, durante esse mesmo período, surgiram as psicoterapias sugestivas e a psicanálise. Inicialmente, Freud não fazia distinção entre os termos “psicoterapia” e “psicanálise”; a necessidade mais premente parecia ser distingui-la da medicina. Ilustra esta indiferenciação a conferência proferida por Freud em 1904 no Colégio de Médicos de Viena, a qual abordou a especificidade da psicanálise frente a outros métodos de tratamento, que recebeu o título: ‘Sobre a Psicoterapia’ (Über Psychotherapie). Em 1919, Freud sentiu a necessidade de diferenciar seu método das técnicas que empregavam a sugestão direta. Ele acreditava que a psicanálise era a forma ideal de tratamento psicológico [...]. (p. 40) A psicanálise, portanto, é absorvida pela psicologia e vai se afastando da medicina. E, assim, torna-se uma ciência “aplicada” e que pode ser ensinada nos cursos de psicologia. Silva, Gasparetto e Campezatto (2015) afirmam que esse é um ponto de bastante controvérsia. Com a inclusão da psicanálise nos cursos de psicologia, muitos psicanalistas passaram a discordar de sua identificação enquanto uma psicoterapia. 4 Tal distinção se deve a uma tentativa de diferenciação da “psicanálise pura” do conjunto de práticas que compunham o arsenal mais amplo das psicoterapias. Mesmo assim, há alguma dificuldade dos psicanalistas em manterem tal distanciamento. Um exemplo disso é o fato de que “[...] uma das primeiras práticas psicoterápicas instituídas após a Segunda Grande Guerra, o humanismo criado por Rogers, estava carregada de elementos psicanalíticos” (Silva; Gasparetto; Campezatto, 2015, p. 41). Contudo, as psicoterapias surgidas depois da guerra não foram herdeiras somente da psicanálise. Elas foram formadas por uma convergência de várias práticas realizadas nos EUA desde o século XIX. Silva, Gasparetto e Campezatto (2015), citando Zimerman (1999), afirmam que grande parte da confusão que ocorre acerca do que é psicanálise e do que é psicoterapia se deve ao fato de que a palavra psicoterapia engloba uma série de possibilidades terapêuticas, psicanalíticas ou não, tanto nas suas concepções teóricas quanto nas suas aplicações práticas. Entretanto, seus fundamentos éticos as distanciam deste rol maior. Por quê? Que fundamentos seriam esses? De acordo com Tanis (2006), citando Birman (2000), a psicanálise nasceu principalmente fundamentada como um tipo de consciência crítica da modernidade. Por meio dela, os reinos vigentes do eu e da razão soberana são destronados para que, assim, possa ascender uma concepção de homem que o vê como um sujeito do inconsciente. O que a psicanálise colocou e, a meu ver, ainda coloca em evidência inquestionável é a limitação do discurso médico para dar conta do mal- estar moderno enquanto produção subjetiva e cultural. O desejo, o conflito e o sofrimento psíquico nas suas múltiplas expressões são irredutíveis a motivações de natureza exclusivamente biológica. Freud aponta o descentramento do sujeito frente ao próprio desejo inconsciente, tematizado na primeira descrição do psiquismo. Posteriormente, amplia sua visão e a complementa. (Tanis, 2006, p. 311) Ainda segundo o autor, a psicanálise não se visa um tipo de correção, adequação e normalização (que ele chama de ortopedia psíquica) como tratamento, mas sim uma transformação do sofrimento do sujeito por meio de um fazer-saber sobre o inconsciente. Com isso, pode-se promover a desalienação deste sujeito, condenado, até então, à repetição. Um trecho bastante importante do texto Sobre o início do tratamento (1913) nos dá o tom de tais distinções e da ética que propõe Freud acerca do sofrimento psíquico: 5 A estranha conduta dos pacientes, por serem capazes de combinar um conhecimento consciente com o desconhecimento, permanece inexplicável pela chamada psicologia normal. Para a psicanálise, entretanto, que reconhece a existência do inconsciente, ela não apresenta dificuldade. [...] Os pacientesconhecem agora a experiência reprimida em seu pensamento consciente, mas falta a este pensamento qualquer vinculação com o lugar em que a lembrança reprimida [...] está contida. Nenhuma mudança é possível até que o processo consciente de pensamento tenha penetrado esse lugar e lá superado as resistências da repressão. (Freud, 1913, p. 156) TEMA 2 – O QUE POSTULOU FREUD ACERCA DO EXERCÍCIO DA PSICANÁLISE Há, na obra de Freud, uma série de artigos que versam sobre a técnica psicanalítica e sua ética, são os artigos sobre a técnica. Em Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912), Freud expõe diversas questões que devem ser postas em prática no exercício da psicanálise para que a experiência do Inconsciente seja a mais legítima possível e sua ética sustentada. A primeira delas é a “atenção uniformemente suspensa” ou atenção flutuante. O que seria essa atenção flutuante? De acordo com Laplanche e Pontalis (2001), na atenção flutuante não se deve privilegiar a priori qualquer elemento do discurso do paciente, assim, a emergência do Inconsciente é facilitada. Aquilo que o Inconsciente do próprio analista capta e prioriza do discurso do paciente (que está em associação livre) é o que precisa ser trabalhado em análise. Com isso, percebe-se que a prioridade na experiência do Inconsciente não é a produção de sentido, mas sim a captação daquilo que não faz sentido num primeiro momento. É justamente na falta de sentido que se mostra o Inconsciente com o qual trabalha a psicanálise. A tomada de notas integrais, por exemplo, é algo ao qual Freud (1912) se mostra contrário, justamente pela questão da produção de sentido que pode ocorrer com base nisso, e, com isso, perder-se-ia uma parte importante da experiência Inconsciente. Nenhuma objeção pode ser levantada a fazerem-se exceções a essa regra no caso de datas, [...] ou eventos específicos dignos de nota que podem ser facilmente desligados de seu contexto e são apropriados para uso independente [...]. (Freud, 1912, p. 127) Outro ponto importante no que concerne à experiência analítica, diz Freud (1912), é que, em psicanálise, tratamento e pesquisa ocorrem ao mesmo tempo e até mesmo se confundem. Ao se investigar os fenômenos inconscientes, também se tratará deles. 6 Aqui, é de fundamental importância visualizarmos o fato de que, em um tratamento psicanalítico, o que se prioriza o tempo todo é a emergência dos aspectos inconscientes que precisam ser trabalhados. A técnica é toda estruturada para a facilitação desse processo (seja pela via da associação livre, seja pela atenção flutuante, seja pela investigação que se confunde com tratamento). Uma outra observação importante que faz Freud, e aí entramos no plano daquilo que distingue a psicanálise de outros tipos de psicoterapia, é que, segundo ele, o médico (ou para nós, o analista) não deve possuir um furor de cura. Ele trata a questão dessa ambição terapêutica de produzir algo que gere algum efeito convincente sobre as outras pessoas como um tipo de perigo, pois pode tornar o tratamento impotente frente a determinadas resistências do paciente. O foco do trabalho deve ser investigar e trazer à tona os conteúdos provenientes do inconsciente, e, com base nisso, será possível realizar algum trabalho. É fácil perceber para que objetivo as diferentes regras que apresentei convergem. Todas elas se destinam a criar, para o médico, uma contrapartida à ‘regra fundamental da psicanálise’ estabelecida para o paciente. Assim como o paciente deve revelar tudo o que sua auto- observação possa detectar, e impedir todas as objeções lógicas e afetivas que procuram induzi-lo a fazer uma seleção entre elas, também o médico deve colocar-se em posição de fazer uso de tudo o que lhe é dito para fins de interpretação e identificar o material inconsciente oculto [...] ele deve voltar seu próprio inconsciente, como um órgão receptor na direção do Inconsciente transmissor do paciente. (Freud, 1912, p. 129) Nesse ponto, podemos perceber o quanto é necessário que o próprio analista tenha trabalhadas suas próprias questões inconscientes e o quanto o Inconsciente do analista é importante para o trabalho de análise (seja pela questão da transferência, seja pelo fato de que é no ponto de encontro entre o inconsciente do analista e o do paciente que é possível que ocorra algum trabalho). Passemos, então, às recomendações de Freud quanto à questão da formação do analista e à posição que este deve assumir. 7 TEMA 3 – O QUE DIZ FREUD ACERCA DA POSIÇÃO E DA FORMAÇÃO DO ANALISTA Uma das pontuações mais relevantes de Freud no que diz respeito ao inconsciente do analista e ao modo como ele atua em um processo de análise é que ele não pode tolerar quaisquer resistências em si próprio que ocultem de sua consciência o que foi percebido pelo inconsciente, doutra maneira, introduziria na análise nova espécie de seleção e deformação que seria muito mais prejudicial [...]. (Freud, 1912, p. 129) O que ele quer dizer com isso? Que a resistência do analista pode causar prejuízos no trabalho realizado, pois, devido a tais resistências, o analista pode não perceber, não levar em conta e/ou não suportar não trabalhar aspectos importantes do material inconsciente do paciente. Ao analista, há, portanto, que trabalhar seu próprio inconsciente. Todo aquele que possa apreciar o alto valor do autoconhecimento e aumento de controle assim adquiridos, continuará, quando ela terminar, o exame analítico de sua personalidade sob a forma de autoanálise e ficará contente em compreender que [tanto] dentro de si quanto no mundo externo, deve esperar descobrir algo de novo. Mas quem não tiver dignado a tomar precaução de ser analisado não só será punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relação a seus pacientes, mas correrá também perigo mais sério, que pode se tornar perigo também para os outros. Cairá facilmente na tentação de projetar para fora algumas das peculiaridades de sua própria personalidade [...]. (Freud, 1912, p. 130) O que fica evidente nessa passagem é que o analista deve se analisar tanto para que não caia em pressuposições e deixe de escutar seu paciente quanto para que não projete questões próprias para fora enquanto estiver escutando alguém, ou seja, o inconsciente do próprio analista precisa estar trabalhado. Assim, para que seja possível ter a experiência do inconsciente, é necessário ter essa experiência na própria pele por meio da vivência e da análise do próprio inconsciente. Entretanto, Freud (1912) observa que mesmo que o analista tenha trabalhado seu próprio inconsciente, sua personalidade e questões particulares devem ficar de fora do tratamento analítico. Segundo o autor, uma exposição da figura no analista em nada contribui para o avanço do paciente, podendo piorar por facilitar que se ergam resistências que dificultem o manejo da transferência, tão essencial para o setting analítico. 8 Portanto, “o médico deve ser opaco aos seus pacientes, e como um espelho, não mostrar-lhes nada exceto o que lhe é mostrado” (Freud, 1912, p. 131). Uma outra observação importante de Freud, que vai ao encontro da posição da psicanálise, segundo a qual não se deve buscar o bem-estar nem a cura, mas sim a ética que guiará o analista, é a de que não se deve dar “dicas” nem “indicações do que fazer”. Segundo Freud (1912), há que se respeitar a limitação e o tempo de cada paciente, portanto, dar “conselhos” não é efetivo com aquilo que se busca numa análise. Como médico, tem-se acima de tudo de ser tolerante com a fraqueza do paciente, e contentar-se em ter reconquistado certo grau de capacidade para o trabalho e divertimento para uma pessoa mesmo de valor moderado. (Freud, 1912, p. 132) TEMA 4 – O QUE O ANALISTA DEVE SABER SOBRE O INÍCIO DO TRATAMENTO PSICANALÍTICO SEGUNDO FREUD Neste ponto de nossaaula, já nos vemos advertidos pelo próprio Freud de que a prática analítica só se dá por meio da experiência com o Inconsciente (tanto por parte do analista, que deve ter passado pela experiência particular de investigar seu próprio inconsciente pela via da análise pessoal; quanto por parte do paciente, que viverá o contato com seu próprio Inconsciente via análise). Sendo assim, algumas medidas devem ser tomadas logo de início para que o tratamento seja levado a cabo e se mostre eficaz no sentido de trabalhar com os conteúdos inconscientes que estão adoecendo o sujeito. Tais advertências são também uma forma de manter a ética que se propõe num processo de análise: a do sujeito do inconsciente e a do desejo. Em seu texto Sobre o Início do tratamento (1913), Freud nos ensina que, em um tratamento psicanalítico, há um período preliminar em que o “médico” ou o analista deve decidir se vai ser possível levar em frente o tratamento, seja pelas possibilidades que se apresentam em termos de diagnóstico, seja em função da possibilidade de se estabelecer uma relação transferencial que possibilite o trabalho analítico. Para Freud, pontos de extrema relevância no início do tratamento são acordos que se estabelecem com relação ao tempo e ao dinheiro. 9 Para o autor, com relação aos acordos de tempo, não se deve estabelecer com o paciente promessa de cura nem prazos de trabalho predeterminados. O que quer dizer isso? Não há uma resposta certa e firme sobre quanto tempo o tratamento poderá durar, pois isso depende das possibilidades de cada sujeito que procura uma análise: suas defesas, suas possibilidades subjetivas, seu objetivo ao procurar a análise etc. Freud estabelece que o ritmo de tratamento deve ser intenso para que os conteúdos a serem trabalhados não se percam com os espaços entre as sessões, nem se submetam a defesas que tais espaços possam facilitar, dificultando, assim, o trabalho. Já com relação aos acordos relativos ao dinheiro em um processo de análise, tem-se que a análise deve ter um custo suficientemente alto, na qual o sujeito entenda que deve trabalhar e que está despendendo recursos tanto de tempo quanto de dinheiro para tal. Não se recomendam os atendimentos gratuitos, pois, com isso, entende-se que o paciente não se motivaria ao trabalho. No que tange ao conteúdo com o qual se deve iniciar o tratamento, Freud é bastante persistente na ideia de que a fluição de ideias dever ser o mais livre possível. Quando o paciente é demasiadamente organizado em seu discurso, ou quando são pedidas “tarefas de casa”, impede-se a livre circulação do conteúdo inconsciente, facilitando, assim, que a resistência atue para manter o conteúdo inconsciente recalcado. “O material com que se inicia o tratamento é, em geral, indiferente, [...] em todos os casos, deve-se deixar que o paciente fale e ele deve ser livre para escolher em que ponto começará” (Freud, 1913, p. 149). Há que se tomar relativo cuidado para não acelerar também as interpretações, pois isso pode também acabar afastando o paciente do tratamento. Enquanto as comunicações e ideias do paciente fluírem sem qualquer obstrução, o tema da transferência não deve ser aflorado. Deve-se esperar até que a transferência, que é o mais delicado dos procedimentos, tenha-se tornado resistência. (Freud, 1913, p. 154) 10 O que fica claro no discurso de Freud em seu texto sobre o início do tratamento é que ao mesmo tempo em que se deve trabalhar com as resistências que venham a surgir no decorrer do tempo (o que torna a resistência também um material de trabalho), é necessário que a espontaneidade do paciente seja a maior possível, pois, assim, as resistências não se tornem tão grandes e tão atuantes a ponto de impedir o trabalho analítico e a emergência do material inconsciente. TEMA 5 – A DIFUSÃO DA PRÁTICA PSICANALÍTICA E A PSICANÁLISE COMO UMA PRÁTICA LEIGA De acordo com Robert (2016), a difusão da prática psicanalítica e a história do movimento psicanalítico se iniciam com a reunião de Freud e mais quatro colegas às quartas-feiras. Essas reuniões se tornaram a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras. Compunham o grupo Wilhelm Stekel, que foi o idealizador; Max Kahane; Rudolf Reitler e Alfred Adler. “O encontro destes cinco homens judeus marca o início da configuração do campo psicanalítico” (p. 39). Robert (2016) ainda nos reitera que tais reuniões aos poucos foram recebendo outros interessados em discutir a teoria psicanalítica. Citando Gay (1989), Robert (2016) afirma que não eram apenas médicos que frequentavam essas reuniões. Freud apreciava particularmente os leigos, temendo que a psicanálise pudesse virar um monopólio de médicos. A configuração do campo psicanalítico, iniciada através da Sociedade das Quartas-Feiras, indubitavelmente, uma associação singular para a reflexão científica, parece refletir nos primórdios institucionais a complexa relação que a psicanálise, desde antes da institucionalização, sempre manteve entre o sujeito que pesquisa e o objeto pesquisado e também entre o normal e o patológico. (Robert, p. 40) Esse grupo das quartas-feiras segue seu trabalho, mas não sem algum nível de desentendimento entre Freud e seus membros. Segundo Zacharewicz e Formigoni (2015), não havia consenso em muitas discussões, e conflitos instalavam-se. Tais desentendimentos geraram consequências para o campo psicanalítico, especialmente no que se refere às dissidências e ao surgimento de ramificações da teoria freudiana (sabemos que a teoria psicanalítica é razoavelmente ampla no que tange aos seus autores e leituras da obra de Freud). 11 [...] tal aspecto talvez tenha contribuído para que, na última reunião antes do recesso de verão de 1907, Freud anunciasse a dissolução da Sociedade e sua imediata refundação, com aqueles que manifestassem interesse [...]. (Zacharewicz; Formigoni, 2015, p. 311) Tendo acesso a esses aspectos importantes da história do movimento psicanalítico e da difusão da prática psicanalítica, podemos ter em mente como seu corpo teórico e clínico se constrói, sobretudo fora do âmbito universitário formal. “As reuniões de pessoas interessadas na psicanálise marcam o estilo da transmissão freudiana desde os primeiros tempos” (Zacharewicz; Formigoni, 2015, p. 311). Zacharewicz e Formigoni (2015) afirmam que uma interlocução entre aqueles que se ocupavam do exercício da psicanálise era de grande relevância para Freud. Destaca-se, ao longo da leitura dos documentos da Sociedade, outra relevante preocupação freudiana: a transmissão da psicanálise. A iniciativa de reunir diferentes interessados por sua ainda incipiente teoria, pelo comportamento humano e pelas diversas manifestações culturais é, por si só, um reflexo de tal preocupação. A postura e o comportamento de Freud ao longo das reuniões e na condução da Sociedade também têm marcas de seu interesse pela transmissão da psicanálise. Além disso, diversas pessoas, também de fora de Viena, foram convidadas a participar dessas reuniões. (Zacharewicz; Formigoni, 2015, p. 312) Em 1908, a Sociedade das Quartas-feiras seria transformada por Freud na Sociedade Psicanalítica de Viena, a Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV). Robert (2016, p. 44) afirma que uma das estratégias mais curiosas de legitimação do poder, da definição da hierarquia e das relações entre os agentes atuantes na configuração do campo psicanalítico é a formação do Comitê Secreto, em 1912. Esse comitê teria sido criado por iniciativa de Ernest Jones e Sándor Ferenczi. Ainda segundo o autor, citando Kupperman (1996), o que se via por trás das cortinas para a criação do Comitê Secreto, criado para defender secretamente a causa psicanalítica (tendo por compromisso não se afastar dos princípios fundamentais da teoria psicanalítica), era a relação desgastada entre Freud e Jung,que sinalizava inclusive sua ruptura. Jung era então presidente da IPA, a Associação Internacional de Psicanálise, criada em 1910 no Congresso de Nuremberg. Na história da psicanálise narrada por Freud, a complexidade das relações entre os agentes do processo é substituída pelo acento dado a uma narrativa linear de um herói contra um mundo não receptivo, 12 inóspito e incapaz de aceitar uma verdade que lhe é dolorosa. Freud, pelo menos no campo institucional, parece saber que não é somente isso. Por isso, não se resignou ao destino que seria obter reconhecimento científico em um momento posterior em que o mundo enfim estivesse preparado para lhe dar este reconhecimento. (Robert, 2016, p. 49) O que se percebe com base nessa breve narrativa histórica acerca do início do movimento psicanalítico no mundo é que desde seus primórdios existem divergências acerca de como deve ser a formação, a transmissão e até mesmo de como devem sem compreendidos e tratados determinados conceitos dentro do campo psicanalítico. No movimento psicanalítico, houve a necessidade de centralização de poder nas mãos de Freud, inclusive como uma forma de assegurar seus princípios, sua ética e suas bases teóricas e filosóficas. Por fim, Robert (2016, p. 51) ainda chama a atenção para a “[...] advertência de ficar atento às forças que agem sobre o campo psicanalítico”. NA PRÁTICA No percurso desta aula, a pretensão foi que se pudesse dar conta dos aspectos éticos e técnicos que atravessam o fazer do psicanalista. Sua ética não deve ser a da cura, mas sim a do desejo. E é por isso que o fazer do psicanalista por vezes acaba ganhando essa característica de “estar de fora” do que se entende como normativas e expectativas sociais. Entretanto, um outro aspecto ético é o de levar em consideração a singularidade do sujeito que se escuta. Mas o que isso quer dizer? Que todo tipo de ruído deve ser evitado para que se emerja apenas o sujeito que está sendo escutado. Esses ruídos são evitados principalmente por meio de uma postura ética do psicanalista, o qual trabalha o seu próprio inconsciente. Essa postura ética nos coloca num lugar diferente dos outros tipos de psicologia, um lugar até mesmo muito menos normativo. Mas a grande questão é que deve ser um fazer ético. O que se visa em um processo de análise? A emergência do sujeito do inconsciente e de seu desejo. Entretanto, essa é uma experiência que não se obtém a menos que se passe por ela e que se trate do próprio inconsciente. É preciso que fique bem claro que o que forma um analista é sua experiência pessoal com o Inconsciente, experiência essa que só pode ser obtida por meio de uma análise pessoal. 13 As recomendações de Freud trabalhadas nesta aula vão no sentido de mostrar àquele que se pretende um psicanalista a importância de se ter o maior cuidado possível em termos éticos e técnicos para que se priorize a singularidade e o inconsciente do sujeito que se escuta. Na prática, se deixamos emergir nossa própria singularidade e não nos colocamos como um tipo de tela em branco para o paciente, o tratamento corre um sério risco de não ser bem- sucedido. Quanto mais tomamos atitudes que podem fazer erguer resistências no sujeito, menos bem-sucedido será o tratamento que propomos a esse sujeito. Se levamos o tratamento de uma pessoa que apresenta compulsão em termos de educá-la a não repetir mais o comportamento indesejado, maior propensão essa pessoa apresentará a se apegar em seu sintoma devido às resistências. Por isso, nosso objetivo não deve ser o de educar nem o de tornar o sujeito socialmente adaptado, mas sim verificar com ele o que faz com que essa seja a única solução encontrada para manejar com a angústia. A (re)construção da singularidade do sujeito e a (re)construção da narrativa acerca daquilo que o faz sofrer é o que deve objetivar o psicanalista. Não se deve arrancar o sintoma do sujeito, mas sim investigar como ele foi construído. É por meio dessa investigação que algum efeito mais duradouro poderá surgir em termos de bem-estar e qualidade de vida para o sujeito. FINALIZANDO Eis os conteúdos a serem absorvidos nesta aula: 1. A psicanálise não deve ser inserida no rol maior das psicoterapias, mesmo que tenha coisas em comum. O que a diferencia da psicologia em geral é sua ética; 2. A ética da psicanálise não visa à cura nem adequações ou normatizações, mas sim o desejo. Ela trabalha com o sujeito do Inconsciente e não com o Eu ou a consciência; 3. Freud, em seu texto Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, de 1912, afirma o tempo todo que a posição do analista deve ser a mais neutra possível (no sentido de se tornar um tipo de ‘tela em branco’ para o paciente), para que, assim, possam emergir os aspectos inconscientes a serem trabalhados; 14 4. Outro ponto que Freud aponta como crucial para um tratamento bem- sucedido é que o analista não deve ter um furor de cura, mas sim priorizar os aspectos inconscientes que causam os sintomas. Quanto maior o furor de cura, mais resistências que impedem que o paciente se confronte com o conteúdo inconsciente que o está adoecendo podem vir à tona; 5. O analista deve o tempo todo estar atento àquilo que pode erguer resistências no paciente. Mesmo que a resistência seja material de trabalho, é preciso não contribuir para aumentá-las, mas sim reduzi-las, e, assim, o material inconsciente pode vir à tona; 6. O setting deve ser organizado de maneira que o paciente entenda que está se dispondo a um trabalho e que isso vai exigir investimento tanto de tempo quanto de dinheiro. A análise deve ter um custo, somente assim o paciente poderá entender que deve se colocar a trabalho; 7. Freud deixa claro que o que torna alguém apto para a prática da psicanálise é a experiência com o próprio inconsciente, portanto, não deve praticar a psicanálise quem não colocar seu próprio inconsciente a trabalho; 8. O movimento psicanalítico tem início com as reuniões das quartas-feiras. Nessas reuniões, tratava-se de assuntos relativos à prática analítica e sua estrutura enquanto uma ciência e um fazer; 9. Houve grandes cisões e rompimentos durante a história do movimento psicanalítico (seja no que tange à sua difusão, seja no que tange à sua estruturação ou transmissão), o que nos leva a visualizar que há um aspecto político que atravessa a psicanálise em termos de sua historiografia. 15 REFERÊNCIAS FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006. ______. Sobre o início do tratamento. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006. LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ROBERT, M. R. Histórias da psicanálise em Curitiba: surgimento e difusão de uma cultura psicanalítica entre clínica, teoria e política. 147 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: . Acesso em: 1 jan. 2021. SILVA, M. R.; GASPARETTO, L.; CAMPEZATTO, P. M. Psicanálise e psicoterapia psicanalítica: tangências e superposições. Rev. Psicol. Saúde, Campo Grande, v. 7, n. 1, p. 39-46, jun. 2015. Disponível em: . Acesso em: 1 jan. 2021. TANIS, B. Formação – pesquisa; sociedades de psicanálise – universidade: a delicada questão das fronteiras. J. psicanal., São Paulo, v. 39, n. 70, p. 309- 325, jun. 2006. Disponível em: . Acesso em: 1 jan. 2021. ZACHAREWICZ, F.; FORMIGONI,M. C. Os primeiros psicanalistas: Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena 1906-1908. J. psicanal., São Paulo, v. 48, n. 89, p. 309-312, dez. 2015. Disponível em: . Acesso em: 1 jan. 2021. Conversa inicial Na prática FINALIZANDO