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MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE Nicolas Lavor de Albuquerque 10 2 RESÍDUOS Apresentação Neste segundo bloco, estudaremos sobre “resíduos”. Para isso, primeiramente, vamos entender a definição do termo e como classificaremos cada um dos tipos de resíduos. Em seguida, veremos sobre uma ferramenta muito importante na decomposição dos resíduos orgânicos, que os transformam em fertilizante orgânico, rico em micro e macronutrientes. Vamos estudar sobre a compostagem, que é uma ferramenta de baixo custo e é uma das formas de destinação ambientalmente adequadas para os resíduos orgânicos. Por fim, veremos como é feita a gestão de resíduos, por meio de descarte em lixões e aterros sanitários e a relevância e o impacto da reciclagem. 2.1 Definições de resíduos Lei Federal nº 12.305/2010, a qual regulamenta a política nacional de resíduos sólidos (PNRS), dispõe sobre princípios, objetivos e instrumentos, bem como as diretrizes relativas à gestão integrada e ao gerenciamento de resíduos sólidos, incluídos os resíduos perigosos. Além disso, determina as responsabilidades dos geradores e do poder público, e os instrumentos econômicos aplicáveis. Com o objetivo de reduzir a quantidade de resíduos direcionada para aterros e lixões, a PNRS tem oferecido um conjunto de diretrizes para adequarmos o nosso presente a um futuro melhor, em um cenário de escassez. Para além de uma questão exclusivamente ambiental, a PNRS aborda questões políticas, sociais e de saúde pública, desencadeando um conhecimento que pode sugerir uma posição vantajosa e competitiva no mercado. Certamente um ponto fundamental é a descrição de alguns conceitos que são fundamentais neste tema. Muitas pessoas acabam acreditando que tudo aquilo que não serve mais, deveria ser lançado como lixo. Porém podemos refinar em várias definições mais úteis para a sustentabilidade: O rejeito, segundo o capítulo II da lei Federal nº 12.305/2010, “Resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e 11 economicamente viáveis, não apresentem outra possibilidade que não a disposição final ambientalmente adequada”; por esta mesma lei o resíduo sólido é “Material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade, a cuja destinação final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado a proceder, nos estados sólido ou semissólido, bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnica ou economicamente inviável em face da melhor tecnologia disponível” (Brasil, 2010). A PNRS (no seu artigo 13) classifica os resíduos da seguinte maneira: I. Quanto à Origem: a) Resíduos Domiciliares: os originários de atividades domésticas em residências urbanas; b) Resíduos de Limpeza Urbana: os originários da varrição, limpeza de logradouros e vias públicas e outros serviços de limpeza urbana; c) Resíduos Sólidos Urbanos: os englobados nas alíneas “a” e “b”; d) Resíduos de Estabelecimentos Comerciais e Prestadores de Serviços: os gerados nessas atividades, excetuados os referidos nas alíneas “b”, “e”, “g”, “h” e “j”; e) Resíduos dos serviços Públicos de Saneamento Básico: os gerados nessas atividades, excetuados os referidos na alínea “c”; f) Resíduos Industriais: os gerados nos processos produtivos e instalações industriais; g) Resíduos de Serviços de Saúde: os gerados nos serviços de saúde, conforme definido em regulamento ou em normas estabelecidas pelos órgãos do Sisnama (Sistema Nacional de Meio Ambiente) e do SNVS (Sistema Nacional de Vigilância Sanitária. Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999); h) Resíduos da Construção Civil: os gerados nas construções, reformas, reparos e demolições de obras de construção civil, incluídos os resultantes da preparação e escavação de terrenos para obras civis; 12 i) Resíduos Agrossilvopastoris: os gerados nas atividades agropecuárias e silviculturais, incluídos os relacionados a insumos utilizados nessas atividades; j) Resíduos de Serviços de Transportes: os originários de portos, aeroportos, terminais alfandegários, rodoviários e ferroviários e passagens de fronteira; k) Resíduos de Mineração: os gerados na atividade de pesquisa, extração ou beneficiamento de minérios. II. Quanto à Periculosidade: a) Resíduos Perigosos: aqueles que, em razão de suas características de inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade, patogenicidade, carcinogenicidade, teratogenicidade e mutagenicidade, apresentam significativo risco à saúde pública ou à qualidade ambiental, de acordo com lei, regulamento ou norma técnica; b) Resíduos Não Perigosos: aqueles não enquadrados na alínea “a”. Por outro lado, a norma técnica ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) NBR 10004, que foi editada em 2004, de forma mais detalhada, define a classificação dos resíduos perigosos (Classe I) e não perigosos (Classe II). Esta mesma norma define o potencial nocivo, com parâmetros como inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade e patogenicidade. Fonte: Shutterstock by elenabsl. Figura 2.1 – A segregação de resíduos. 13 No Brasil, a Resolução CONAMA nº 275, de 25 de abril de 2001, define o padrão de cores que deve ser utilizado para regulamentar os materiais que devem ser adicionado a cada recipiente: AZUL: papel/papelão; VERMELHO: plástico; VERDE: vidro; AMARELO: metal; PRETO: madeira; LARANJA: resíduos perigosos; BRANCO: resíduos ambulatoriais e de serviços de saúde; ROXO: resíduos radioativos; MARROM: resíduos orgânicos; CINZA: resíduo geral não reciclável ou misturado, ou contaminado não passível de separação. 2.2 Gestão de Resíduos 2.2.1 Reciclagem e produtos O artigo 225 da Constituição Federal do Brasil descreve: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (Brasil, 1988). A Sustentabilidade procura suprir as necessidades do presente sem afetar as gerações futuras, relacionando aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Sendo assim, nossas atividades do dia a dia estão diretamente ligadas à sustentabilidade e, consequentemente, ao futuro do planeta. Neste sentido, foram concebidos os 5 Rs da reciclagem: • Repensar: deve-se refletir sobre os processos socioambientais de produção, desde a extração das matérias primas, passando pelas condições de trabalho, distribuição, até o descarte. Repensar a real necessidade de consumo aos nossos hábitos. • Recusar: deve-se evitar o consumo exagerado e desnecessário, adquirindo apenas produtos essenciais, e com matérias primas, embalagens e possibilidade de reciclagem mais sustentável possível. • Reduzir: deve-se fomentar a diminuição da criação de lixo. Desperdiçando menos produtos e matéria-prima, consumo somente do necessário, redução no uso e fabricação de embalagens. 14 • Reutilizar: deve-se procurar uma maior utilidade para produtos que seriam descartados, jogados fora. Se não utilizado pelo indivíduo pode ser por outras pessoas ao invés de serem jogados fora, poderia ser muito bem ocupado por outra pessoa em um período longo de tempo. • Reciclar: Deve-se transformar algo usado em algo totalmente novo, com a mesma característica do velho ou mesmo sendo feito outro produto, sendo assim usado apenas o material para confeccionar o produto reciclado. Deve-se fomentar então uma coleta seletiva, para buscar uma continuidade maior para o último dos Rs acima. Para isso, deve-se embalar os resíduos de acordo com o padrão de cores definidopela resolução CONAMA nº 275, de 25 de abril de 2001, e que regulamenta os materiais que devem ser adicionados a cada recipiente. As formas mais comuns de coleta seletiva referem-se ao modo coleta porta-porta e a coleta nos pontos de entrega voluntária presentes nas cidades, podendo ser de domínio público ou particular (ou de cooperativados). Após a coleta, os resíduos são levados a galpões de triagem, em grande parte realizado por cooperativas de catadores, e, por fim, comercializados para empresas de reciclagem. Infelizmente, nem todas as embalagens possuem reciclagem possível, por isso, repense antes de comprá-las. Os resíduos orgânicos devem ser encaminhados para compostagem. Os óleos (na maioria das vezes vegetal) são muito utilizados para frituras, e não podem ter como destino a pia, o bueiro, o ralo ou guia da calçada porque impactam negativamente o encanamento da sua casa e também poluem a água, além de contribuírem para a morte de plantas e animais. Esse óleo pode ser embalado e transportado para a sua reciclagem, e virar sabão ou virar biodiesel, por exemplo. Pilhas e baterias devem ser coletadas separadamente e não descartadas com o lixo comum, pois contém elementos tóxicos, e no meio ambiente podem gerar contaminação do solo e da água. Se possível, utilize pilhas recarregáveis e também procure, nesses casos, a logística reversa, isto é, o conjunto de ações que envolve sistema de coleta, transporte, armazenamento, reciclagem e tratamento de resíduos produzidos pelo descarte de produtos e embalagens no pós-consumo. O objetivo na logística reversa é recuperar os materiais recicláveis para que possam ser 15 reaproveitados dentro dos ciclos da cadeia produtiva própria, ou tenham outra destinação ambientalmente apropriada. O descarte incorreto de medicamentos pode fazer com que as substâncias químicas contidas neles cheguem aos rios e córregos, podendo contaminar a água e assim causar efeitos adversos para a saúde humana e animal. Os medicamentos devem ser descartados em coletores específicos e devidamente identificados. Entre os medicamentos estão incluídos: comprimidos, cápsulas, frascos de vidro, pomadas, ampolas e seringas (os quais também devem utilizar coletores específicos de perfurocortantes modelo Descarpack). A bula e a caixa devem ser colocadas em um coletor de resíduos recicláveis. No Brasil, menos de 20% dos copos descartáveis são reciclados, devido ao seu baixo valor de mercado. Podemos reduzir o uso de copos descartáveis de plástico substituindo-o por um copo, caneca ou garrafa durável. Se estiver sem copo, caneca ou garrafa durável utilize o mesmo copo ao longo do dia. Um copo descartável de plástico pode levar até 450 anos para se decompor, e dependendo do plástico, pode ainda contaminar o solo ou a atmosfera com substâncias químicas tóxicas. Em relação ao papel, deve-se incentivar a redução de impressão, imprimindo apenas o que for necessário; usar ao máximo tecnologias disponíveis para evitar impressões desnecessárias (arquivos digitais ou digitalizados com computadores, tablets, celulares etc); ou ainda utilizar impressão em frente e verso; fazer reuso de papel, sempre que não for utilizado frente e verso. Por exemplos, pode-se confeccionar blocos de anotações, lembretes, utilização como rascunho etc. Além disso, procurar utilizar papel reciclado. A cada 1000 quilos de papel, 12 árvores foram utilizadas, ou a cada 1000 quilos reciclados, 12 árvores deixaram de ser derrubadas. O vidro reciclado, um aliado poderoso na promoção de práticas sustentáveis, desempenha um papel essencial na conservação do meio ambiente e na economia. Sua reciclagem apresenta uma série de benefícios que vão muito além do mero reaproveitamento de materiais. Ao reciclar vidro, impedimos que esse material acabe em aterros sanitários ou na natureza, onde pode permanecer inalterado por aproximadamente dez mil anos. Importante ressaltar que, ao separar os vidros, 16 especialmente garrafas para reciclagem, eles devem ser lavados para retirada de resíduos orgânicos, o que facilita o processo, especialmente pelos cooperativados, que, muitas vezes, não possuem recursos para essa etapa. Um dos produtos de maior destaque (com recorde de reciclagem no mundo) são as latas de alumínio. Pela possibilidade de reciclagem, muitas vezes, o alumínio é visto como uma “opção mais sustentável” em relação ao plástico, por exemplo. No entanto, é preciso considerar que ele pode gerar grandes impactos ambientais e que, na maioria das vezes, mundialmente utiliza-se matéria-prima virgem e não alumínio reciclado (o que consume demasiada energia e matéria prima – principalmente bauxita, cuja extração é bastante nociva ao meio ambiente). Em geral, a reciclagem de latas de alumínio possui um papel importante na economia brasileira. A indústria brasileira de alumínio tem participação significativa no PIB do país, representando cerca de 4,9 % do PIB Industrial. O Brasil é recordista mundial no recolhimento e reciclagem de latas de alumínio. Em 2021, 98,7% das latas comercializadas em todo o país foram reutilizadas, o maior volume da história. Para se ter uma ideia da grandiosidade dos números, das mais de 414 mil toneladas de latas comercializadas, 409 mil toneladas foram recicladas. O Brasil, em 2021, reciclou 23,4% dos resíduos plásticos pós-consumo. Neste período, também há um aumento de 14,7% na produção de plástico reciclado pós-consumo, chegando a mais de 1 milhão de toneladas. Esses dados são da pesquisa sobre a reciclagem mecânica do material para o ano de 2021, encomendado pelo Plano de Incentivo à Cadeia do Plástico (PICPlast), parceria entre a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST), representante do setor de transformados plásticos e reciclagem, e a petroquímica Braskem. De qualquer forma, os plásticos são muito diversos, e devem ser repensados, quanto à possibilidade de substituição por outros materiais, como em relação aos copos descartáveis ou canudos descartáveis, grandes geradores de microplásticos que já foram encontrados em diversos animais no mundo, e até mesmo em placentas humanas. 17 Fonte: Shutterstock by Rawpixel.com Figura 2.2 – Reciclagem. A reciclagem deve ser uma alternativa, após ser repensado o consumo, após a recusa de materiais menos adequados, ou da redução do uso, ou ainda da reutilização destes materiais. 2.2.2 Lixões e Aterros Sanitários O rejeito trata-se de um resíduo específico, no qual já se esgotaram as possibilidades de reciclagem, indo direto para aterro sanitário. O processo de urbanização sem planejamento, bem como a ausência de sistemas efetivos de gestão de resíduos, resultaram os lixões como um dos maiores problemas ambientais do mundo. Segundo a Abrelpe (2019), cerca de 40% dos resíduos sólidos do planeta vão para essas áreas, prejudicando a vida de cerca de 4 bilhões de pessoas. Uma das soluções é a criação de aterros sanitários, estratégia do governo brasileiro desde 2010 para desativar os lixões e promover uma melhor gestão daquilo que é descartado. O secretário de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), André França, indica que primeiro é preciso entender que existem lixões e aterros controlados, que se encontram na mesma categoria, e aterros sanitários, estruturas com infraestrutura controlada mais adequadas. Segundo o secretário André França: O lixão e o aterro controlado são muito parecidos e ambos não têm a ver com o aterro sanitário. O lixão não tem controle nenhum e o aterro controlado, como diz o nome, tem até um certo controle, mas sem garantia de adequação ambiental. Para não confundir, colocamos de um lado o lixão e o aterro controlado, que é a destinação irregular, e do outro o aterro sanitário, que é uma obra de engenharia preparada para isso. (BRASIL, 2020) 18 O Fundo Mundial para a Natureza(WWF) mostra que o Brasil é o quarto país no mundo que mais produz lixo. São mais de 11 milhões de toneladas por ano. Nosso país está atrás apenas de Estados Unidos (1º lugar), da China (2º) e da Índia (3º). Por outro lado, a Abrelpe mostra que o impacto dos lixões aqui no Brasil ocasiona um custo de mais de R$ 3 bilhões por ano para o sistema de saúde. Antes da criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída em agosto de 2010, todo o lixo brasileiro era descartado em lixões, áreas a céu aberto e sem o menor planejamento ou medidas de proteção ao meio ambiente e à saúde pública. Para desativar um lixão, porém, é necessário que outro destino ambientalmente preparado para os descartes esteja em pleno funcionamento, como é o caso dos aterros sanitários. Os aterros sanitários devem ser verdadeiras obras de engenharia para a proteção dos solos e lençóis freáticos. O solo que receberá o rejeito deve ser nivelado e todo o solo é impermeabilizado para que nenhuma substância possa contaminá-lo ou atingir os lençóis freáticos. E todo o processo de decomposição é monitorado (inclusive a drenagem do chorume, e canalização de gases metano produzidos). Mas, como o espaço é limitado, devemos voltar ao item anterior e repensar ao máximo, promover os 5 Rs da reciclagem para diminuir significativamente a necessidade de utilizar estes aterros sanitários, de maneira mais sustentável possível. Fonte: Shutterstock by AU USAnakul. Figura 2.3 – Aterro sanitário. Os aterros sanitários devem ser verdadeiras obras de engenharia para a proteção dos solos e lençóis freáticos. 19 2.3 Compostagem O Brasil gerou, no ano de 2018, aproximadamente 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, dos quais 92% foram coletados. Dos resíduos coletados apenas 59,5% foram encaminhados para os aterros sanitários, ao passo que 40,5% foram direcionados para lixões. Os resíduos sólidos urbanos depositados nos aterros sanitários são compostos por 51,4% de resíduos orgânicos. Entretanto, de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos apenas os rejeitos deveriam ser dispostos em aterro sanitário. Portanto, é possível afirmar que o encaminhamento dos resíduos orgânicos gerados no Brasil não é ambientalmente adequado. Portanto, de acordo com a PNRS a compostagem é uma das formas de destinação ambientalmente adequadas para os resíduos orgânicos. Contudo, apenas 1,6% dos resíduos orgânicos gerados no Brasil são destinados a processos de compostagem. A compostagem, segundo a Norma ABNT NBR 13591 (1996), pode ser definida como sendo o processo de decomposição biológica dos resíduos orgânicos, realizado em condições aeróbias, por meio da ação de um conjunto diversificado de organismos (principalmente fungos e bactérias). Ela tem vantagens por ser uma ferramenta de baixo custo e tem como principal objetivo a conversão de resíduos orgânicos em um fertilizante orgânico rico em micro e macronutrientes. Esses nutrientes podem ser aplicados em pequenas quantidades diretamente no solo, como adubo, melhorando suas características físicas, químicas e biológicas. Também pode ser utiliza-lo como substrato, acompanhado de outros componentes, para a produção de mudas ou plantio de qualquer espécie vegetal. A sociedade produz resíduos orgânicos, como, por exemplo: restos de alimentos, varrição de praças, podas de árvores, resíduos industriais etc. Esses possuem grande quantidade de nutrientes, que são perdidos diariamente quando despejados em lixões ou aterros sanitários. De forma paralela, a produção agrícola utiliza grande quantidade de fertilizantes para suprir as perdas de nutrientes pelo uso intensivo do solo. Quando os resíduos orgânicos são utilizados para a compostagem, e seu produto for útil na produção de alimentos, completa-se um ciclo virtuoso da matéria orgânica. Nesta utopia, toda a sociedade seria beneficiada, pois o solo recuperaria os nutrientes 20 perdidos a cada ciclo produtivo e os aterros sanitários têm sua longevidade aumentada. Neste contexto, resíduos orgânicos são de origem biológica (provenientes de animais, vegetais, fungos, ou partes destes), e, entre eles, diversos são possivelmente utilizados em composteiras. Por exemplo: cascas de frutas, legumes e verduras descartados no preparo de comidas; restos de pães, salgados e bolachas que possam ter passado da validade e terem estragado; filtros e borra de café e saquinhos e erva de chá usados; restos de comida cozida ou estragada; além de todos os tipos de papel sem tinta (uma vez que estas possuem elementos tóxicos como chumbo); também podem ser incluídos os restos de podas dos jardins (galhos, folhas secas, grama cortada), além de dejetos de animais em ambientes rurais. A compostagem pode ser definida como a reciclagem do resíduo orgânico. Este processo é um ciclo fechado (muito parecido com a economia circular). Isto é, um determinado alimento foi produzido na terra, ele foi cultivado, colhido e, posteriormente, apresentado em algum tipo de mercado, ele foi adquirido e foi possível utilizá-lo para fazer o almoço, mas, durante o preparo, sobraram resíduos (a casca de alguns legumes, por exemplo), esses resíduos podem ser separados e destinados para algum lugar que realize a compostagem, após esse processo, o composto orgânico pode ser retornado à terra, que produz o alimento. Existem algumas formas diferentes para destinar os resíduos orgânicos de forma correta. Aqui serão apresentadas três maneiras, de certa forma, bem práticas para compreensão, e até mesmo execução, inclusive em pequenas residências ou apartamentos. A primeira delas seria o enterramento, o qual deve ser planejado e executado em residências ou espaços com boa disponibilidade de áreas de terra, e com pequenas quantidades de resíduos orgânicos. Após cavar uma vala, os resíduos devem ser depositados em camadas (metaforicamente comparadas as camadas de uma lasanha), uma de matéria orgânica, como ele foi coletado, alternado por camadas de matéria orgânica seca (resíduos castanhos-marrons: restos de poda, resto de folha seca, serragem, os quais após secos geralmente tem a cor marrom ou castanha). Após esta 21 deposição, a vala deve ser fechada, com terra mesmo, de forma que não escape nenhum cheiro, para evitar possíveis vetores (ratos, baratas, moscas, pombos etc.). Outro método de compostagem seria uma deposição externa à terra. Seria também uma deposição em camadas, mas para cima do nível do solo. Em escalas municipais estas compostagens seriam feitas em leiras (amontoado em formato trapezoide) ou em pilhas. Deve-se delimitar a área a ser utilizada, e ela deve ser isolada, para evitar, novamente, a presença de vetores. Neste método, a base pode ser de terra, ou de concreto, uma vez que seja acima do solo. A altura deve ser viável, para que estas camadas sejam possivelmente reviradas de tempos em tempos (aproximadamente a cada 20 dias, até que o processo finalize em aproximadamente 90 dias). A terceira e última ideia de técnica de compostagem, é a vermicompostagem ou minhocário (feita com a presença de minhocas). Esta técnica foi pensada para uso em apartamentos. São caixas fechadas (preferencialmente de plástico duro – PVC, uma vez que facilita bastante a sua manutenção) com minhocas. As minhocas promovem a aeração e parte de decomposição, uma vez que, na natureza, elas se alimentam de vegetais em decomposição. Elas também se reproduzem rapidamente, gerando um ciclo bem satisfatório de compostagem. Três produtos desta compostagem serão: o húmus (composto produzido pelas minhocas); um biofertilizante líquido (o qual pode ser diluído, em até dez vezes, e que será muito bem-vindo como substrato de irrigação, rico em nutrientes – especialmente o nitrogênio), e, finalmente, a minhoca (que pode ser utilizada como isca para pesca, ou atividades educativastambém). Em alguns municípios, e até mesmo em alguns centros comunitários, existem programas de compostagem coletiva, e que promovem benefícios para toda a comunidade, e que pode arrecadar valores, para que, as pessoas que não tenham tempo, possam recolher os componentes orgânicos produzidos, e direcioná-los para quem possa realizar a compostagem e que contribua para fortalecer significativamente a sustentabilidade. 22 Fonte: Shutterstock by m.malinika. Figura 2.4 – Composteira doméstica: vermicompostagem. A minhocultura ou vermicompostagem é o processo de reciclagem de resíduos orgânicos por meio da criação de minhocas, podendo ser planejada e executada em espaços bem reduzidos, sendo uma importante alternativa para resolver economicamente e ambientalmente os problemas dos dejetos orgânicos. Conclusão Portanto, conclui-se que os resíduos podem representar um dos elementos da economia circular, podem fomentar a produção de biofertilizantes, ou ser minimizado com os 5 Rs da reciclagem, ou ainda serem destinados para aterros sanitários. REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMPRESAS DE LIMPEZA PÚBLICA E RESÍDUOS ESPECIAIS. Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil. São Paulo: ABRELPE, 2019. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT. NBR 10.004/2004: Resíduos sólidos – Classificação. Rio de Janeiro: ABNT, 2004. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT. NBR 13591: Compostagem. Rio de Janeiro: ABNT, 1996. 23 BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº. 9.782, de 26 de janeiro de 1999. 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