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Sonia Maria Lima de Gusmão COMP ARANDO Freud e Rogers EDITORA1 COMPARANDO FREUD E ROGERS 27 No colégio, muito tímido, manteve encontro com apenas duas moças. Percebia-se como um rapaz solitário e de pensamentos es- quisitos que teve a felicidade de nunca ter sido encaminhado para uma avaliação psicológica. Compensava sua timidez, talvez, sendo um excelente aluno, que se destacava pelo seu.grande interesse científico. Na Universidade vivenciou experiências consideradas por como muito significativas. Pois, nas discussões que mantivera com alguns colegas a respeito de religião, teve a oportunidade de experimentar, pela primeira vez, fora do convívio familiar, uma re- lação próxima e profunda, o que o fez desistir da agricultura para se dedicar ao sacerdócio; fato que o levou a transferir-se, do curso anterior para o curso de história, por julgar que assim estaria mais Carl Ranson Rogers bem preparado. Rogers nasceu no dia oito de janeiro de 1902, em Oak Park, Escolhido entre alguns estudantes, viajou para a China a fim Illinois, no de uma família unida e afetuosa, mas de princípios de participar de um Congresso Internacional da Federação Mundial morais e religiosos muito rígidos, o que de certo modo o transfor- dos Estudantes Cristãos, em Pequim. Durante a viagem aprofundou mou numa criança solitária. os laços com uma jovem chamada Helen, que conhecera há algum Quando contava doze anos, sua família mudou-se para uma tempo e que viria a tornar-se sua esposa. A partir daí, desenvolveu fazenda, pois seu pai estava preocupado com as tentações que a uma maior liberdade interior, mudando, desta forma, seus referen- cidade poderia exercer sobre seus filhos, na época, adolescentes. ciais anteriores. Em decorrência, transfere-se do curso de gradu- contato com a natureza fez com que seu espírito científico fosse ação em Teologia no Union Theological Seminary para o curso de aguçado e passou a dedicar-se, de uma maneira sistemática ao es- Psicologia, no Teachers College, na Universidade de Colúmbia. tudo das borboletas noturnas e da agricultura científica, pondo em Uma vez concluído seu curso, empregou-se no "Child Study prática seus conhecimentos. Essa época marcou o início do respeito Departament" da Associação para a Proteção à Infância de Roches- que viria a ter pelos métodos científicos. ter, Nova York, onde permaneceu por doze anos. o salário era in- suficiente, mas o trabalho era gratificante. Durante o tempo em que trabalhou em Rochester, viu-se isolado dos meios acadêmicos, 11 May, Rollo, 1982, p.42 () que contribuiu para que sua compreensão do processo psicote- 12 Ekstein, in Burton, 1979, p.28. rapêutico mudasse radicalmente, caminhando de uma abordagem28 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO COMPARANDO FREUD E ROGERS 29 formal e diretiva para uma abordagem cujo centro era a pessoa do Em 1963, Rogers deixou as suas atividades de magistério e próprio cliente. fol trabalhar no Instituto Ocidental de Ciência do Comportamen- Ainda em Rochester escreveu o livro The Clinical Treatment to, em La Jolla, California. Algum tempo depois fundou o Centro de of the Problem Child (1939). Por conta da aceitação do seu livro, foi Estudos da Pessoa, também em La Jolla. Em 1967, publicou em co- convidado para lecionar na Universidade de Ohio, onde permane- com Barry Stevens, De Pessoa para Pessoa; em 1969, Li- ceu até 1945, quando resolveu aceitar a proposta da Universidade berdade para Aprender; em 1970, Grupos de Encontro; em 1972, de Chicago para criar um novo centro de aconselhamento baseado publicou Novas Formas do Amor; em 1977, Sobre o Poder Pessoal, em suas idéias, permanecendo como diretor deste Centro até 1957. A Pessoa como Centro, em co-autoria com Rachel L. Rosenberg; Em 1951, publicou Terapia Centrada no Cliente. Neste livro conjuntamente com G. Marian Kinget, publicou Psicoterapia e Rela- ele coloca a ênfase da orientação psicoterápica no cliente, ferindo ções Humanas; em 1980, Um Jeito de Ser; 1983, Em Busca de Vida, o posicionamento vigente e angariando, para si, muitas críticas, so- em co-autoria com Afonso H. Lisboa da Fonseca, Maureen Muller e bretudo, das autoridades psicoterapêuticas da época. Em 1961, seu John Wood; após sua morte, é publicado em co-autoria com Maria livro Tornar-se Pessoa, explicita melhor às implicações do novo po- Howen e Antonio Monteiro dos Santos, Quando Fala o Coração. sicionamento e da própria psicoterapia. Lecionou, ainda, por algum tempo, na Universidade Interna- Profissionalmente, sua experiência em Chicago foi considera- cional dos Estados Unidos, de onde pediu demissão por discordar da, por ele, muito rica. Não obstante, o envolvimento que teve com de seu presidente. o motivo, mais uma vez, foi o cerceamento dos uma de suas clientes, muito perturbada, o que obrigou a se afastar direitos dos alunos. por algum tempo, pois estava à beira de um esgotamento, e a se Nos últimos anos de sua vida Rogers passou a cuidar mais de submeter à psicoterapia com um de seus colegas. mesmo, por exemplo, nos Workshops de Ashland, Oregon, e no de Em 1957, passou a desenvolver suas atividades na Universi- Arcozelo, Brasil, quando não se sentia bem, fisicamente, delegava a dade de Winsconsin, em Madison. Essa época foi muito conturbada, condução do empreendimento aos demais. Ser responsável por si profissionalmente. Sentia que a sua liberdade e a dos alunos era mesmo, sem culpas lhe parecia um sentimento novo e agradável. constantemente tolhida pelo Departamento de Psicologia, transfor- Do ponto de vista psicológico, agia com igual cuidado. Desco- mando a sua experiência em algo pouco gratificante. Seu descon- brlu num dos grupos de workshop, quanto era exigido e, de certo tentamento foi expresso no artigo "Pressupostos Correntes sobre modo, comandado por necessidades externas. Ficou dez dias numa a Educação Universitária: Uma Exposição Apaixonada", publicado casa de praia refazendo-se e pôde confirmar, comesta experiência, no seu livro Liberdade para Aprender (1973, p.163). Vale ressaltar 0 prazer de estar só e o quanto gostava de que, antes, o The American Psychologist havia recusado a sua pu- Tornou-se mais fácil para ele pedir ajuda e não só ajudar como blicação, o que não o impediu de divulgá-lo, amplamente, entre os era de costume. Aprendendo, portanto, a conviver melhor com seus estudantes graduados. limites, não tanto de si mesmo. Apesar deste fato e da sua3 30 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO COMPARANDO FREUD E ROGERS 31 idade, seus últimos anos não foram nada serenos: tornou-se um ob- muita dor, mas também uma possibilidade muito maior de servador mais objetivo; uma pessoa mais sensível, que vivia suas compartilhar a emoções de modo intenso e inconstante. Seu estilo de vida, até o final de sua existência entre nós, foi Rogers viveu como poucos, de uma maneira excepcionalmen- o que caracterizaríamos de um "estilo arriscado de viver". Na- ver- to rica. Sentia-se como ele mesmo disse: "como alguém que enve- dade, parece que, viver assim, era o que dava sentido à sua vida. A crescendo". 16 ousadia de realizar workshops com cerca de 800 pessoas ou mais, Richard Farson, Diretor do Instituto Esalen, São Francisco, e de realizar grupos de encontro e palestras em vários examinando o conjunto do trabalho desenvolvido por Rogers, acre- mundo, é um exemplo do que acabamos de afirmar. "Descobri cada dita que ele se "tornou um dos revolucionários mais importante vez mais que estar vivo envolve riscos, significa agir com pouca certe- do nosso za, significa compromisso com a vida". 13 Após destacar alguns pontos da abordagem centrada na pes- Tornou-se mais aberto às novas idéias. Para ele "somos, na considerados, por ele, revolucionários, expõe a sua tese: "Mi- verdade, mais sábios do que nossos intelectos, (...) lamentavelmente tese é que a maior contribuição de Rogers não dar-nos uma temos negligenciado as possibilidades 'da mente não ra- técnica para consertar pessoas, mas criar uma nova forma, uma nova cional, criativa o lado direito do cérebro". A telepatia, a premoni- definição do relacionamento, na qual as pessoas podem funcionar ção, e a clarividência, foram alguns de seus empolgantes interesses. completamente e serem Ficou mais aberto em relação aos toques físico e psicológico, Finalmente, conclui sua exposição, colocando o seguinte pen- pois sentia que se tornara mais fácil para ele tocar e ser tocado fisi- camente, como também perceber o seu desejo de um maior contato À medida que nos tornarmos conscientes das consequências psicológico com as pessoas. sociais e políticas desses movimentos acredi- to que serão substituídos por uma nova insistência sobre a Posso dizer abertamente o que sempre percebi de maneira dignidade e o valor da pessoa e o direito de autodetermina- vaga: que meu profundo envolvimento com a psicoterapia ção. Eu diria, portanto, que talvez vejamos, num futuro não era na verdade um modo cauteloso de atender a essa neces- sidade de intimidade, sem me arriscar muito. Agora quero estar mais próximo das pessoas e arriscar a me dar mais. É p. 26. como se uma nova e profunda capacidade de intimidade ti- vesse sido descoberta em mim. Esta capacidade trouxe-me 16 Idem, p.33. 17 Parson, in Evans, 1979, p. 25. 18 Idem, p. 33. 13 Rogers, 1983, p.29. 19 Parson refere-se, sobretudo, as abordagem terapêuticas, que usam todo tipo de no sentido de provocar a expressão de sentimentos no cliente, chegando, às 14 25 e 26. vezes, a fazer uso de e4 32 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO COMPARANDO FREUD E ROGERS I 33 muito distante, um notável ressurgimento do interesse da Com a evolução da teoria, a ênfase deixa de recair sobre a psicologia rogeriana. Não porque seus métodos sejam mais técnica para recair nos aspectos fenomenológicos internos do cliente. eficazes, intensivos ou emocionantes. Não o são. Mas porque anos 50 foi um período muito produtivo para a abordagem: pes- nos dignificam como pessoas. Reconhecemos que Rogers se quisas rigorosas foram realizadas e o resultado foi a criação de uma preocupa mais com a qualidade e a integridade dos relacio- teoria da terapia e uma teoria da personalidade. o termo "terapia namentos e a proteção dos direitos humanos. Quando todas não-diretiva" foi substituído por no cliente", que, as diversas abordagens tiverem sido pesadas, veremos que a dele protege melhor as pessoas, porque as protege con- por sua vez, como resultado da publicação do livro Tornar-se Pes- tra aqueles, dentre nós, que julgam saber o que é bom para (Rogers, 1961) expande-se para todos os relacionamentos hu- manos, de um modo geral. A década de 60 constituiu-se num período muito promissor. Várias pesquisas e frentes de trabalho foram iniciadas. "Oferecia- Evolução da Teoria da Abordagem Centrada na Pessoa se terapia para esquizofrênicos crônicos, como parte de um extenso programa de pesquisa (Rogers, et al., 1967). Mantinham-se grupos A primeira fase da teoria centrada na pessoa compreende o para profissionais liberais, executivos, educadores e para período que vai de 1938 a 1950, basicamente elaborada por Ro- aqueles que simplesmente desejam ampliar seu desenvolvimento gers, recebeu um grande impulso por parte dos alunos graduados pessoal."21 A terapia centrada no cliente cresce no seu poder de in- que trabalharam com ele. Foi elaborada de 1940 a 1945, na Ohio fluência; influenciando, inclusive, a filosofia da ciência (Coulson e State University, e de 1945 a 1950, na Universidade de Chicago. Rogers, 1968). Surgem, nessa época, os primeiros grupos intensivos. Graças à atuação de seus colaboradores, ampliou-se o número de Os anos 70 deram origem a um interesse maior nos aspec- pesquisas e de aplicações da abordagem. sócio-culturais. Rogers e colaboradores facilitam grupos inter Inicialmente, a abordagem de Rogers foi denominada de "não- e interculturais, como o grupo composto de cidadãos de diretiva", e considerada como um modo de aconselhamento e de psi- Belfast, na Irlanda do Norte, considerado um dos mais coterapia. A partir do estudo de entrevistas gravadas, detectaram- os grandes Workshops, comunidades terapêuticas pro- se aquelas respostas que favoreciam ou não aspecto terapêutico visórias, cujo objetivo inicial "era desafiar as hipóteses da terapia do processo, conduzindo a uma ênfase na técnica. Predominou nes- no cliente e aplicar os princípios de aconselhamento (se se período a "reflexão dos sentimentos" e as "ténicas não-diretivas". aplicáveis) a grandes grupos não 0 termo cliente substituiu o termo paciente e atribuiu-se ao cliente a responsabilidade pela condução do seu processo. 21 Rogers & Wood, in Burton, 1978, p. 22 Rogers & Rosenberg, 1977, p. 20 Idem, p. 35 e 36. 23 Wood, Rogers et 1983b,5 COMPARANDO FREUD E ROGERS 35 34 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO sobretudo, por que o termo pessoa tem um significado Algumas importantes conclusões foram tiradas a partir des- acordo com os princípios humanistas da abordagem. sas experiências, segundo John Wood, entre elas: Em 1980, no seu livro Um Jeito de Ser, Rogers passa a dar mais Pensava-se que a intimidade dependia do conhecimento de- aos aspectos intuitivos e espirituais da pessoa, além da talhado que uma pessoa tivesse de outra. (...) (Descobriu-se que já vinha dando aos aspectos sócio-culturais e educativos. que) a intimidade pode ocorrer, como todos sabem, sem que Carl Ranson Rogers morreu no dia 4 de fevereiro de 1987, se compartilhe diretamente sentimentos profundos, mas com 85 anos de uma vida bem vivida, em termos de si mesmo e do pela vivência comum de uma experiência profunda, como numa crise. No contexto de um grande grupo, as pessoas vi- que seu trabalho representou e representa para a humanidade. vem uma 'crise' juntas. É como a vida 'real'. Graças à sua grande abertura à experiência e às novas idéias, (...) Muitos acreditavam que a abertura pessoal estava re- possibilitou que um sem-número de pesquisadores viessem se unir lacionada com tamanho do grupo. (...) (Verificou-se que) ele, ampliando a dimensão da abordagem que criara um dia em pessoas podem rapidamente tornar-se pessoas, tendo ape- Rochester e que agora já não tem o mesmo tamanho e nem pode ser nas uma única conversa significativa, mesmo num grupo de atribuída somente a ele. oitocentas pessoas. Nunca exigiu fidelidade às suas idéias por parte de seus cola- (...) (Com respeito à tomada de decisões, nas relações diá- boradores. Ao contrário, a busca da verdade sempre foi sua maior dicas ou de pequenos É acrescentada (a-partir do preocupação: sua teoria algo vivo que se reformula a cada ins- workshop) a aprendizagem de como tomar decisões tante, sempre que os fenômenos assim o determinarem. nicas' Graças a sua atuação na luta com a psiquiatria, a área médica Em 1977, Rogers publicou Sobre o Poder Pessoal, livro que leve de reconhecer a psicoterapia como, também, uma função do trata, sobretudo, da política da abordagem centrada e de sua apli- psicólogo e não um exercício ilegal da medicina como pretendiam cabilidade nas diversas áreas. Temas como "A abordagem centrada os psiquiatras. na pessoa e o oprimido", "Solucionando tensões interculturais" e Foi o primeiro a gravar e a filmar suas sessões, revelando, poder dos Sem-poder", entre outros, foram abordados por ele de com coragem seus erros e seus acertos, contribuindo assim para uma maneira clara e objetiva. uma melhor compreensão do processo psicoterapêutico, ao mesmo Ainda, nos anos 70, Rogers introduz uma nova e, ao que pa- tempo em que desmistificava a psicoterapia e os psicoterapeutas. rece mais apropriada, denominação para a terapia centrada no Estava, assim, aberto o campo da psicoterapia à pesquisa científica. cliente, que passou a chamar-se "abordagem centrada na pessoa", Forneceu com o seu trabalho, como terapeuta e como pesqui- como uma decorrência do grande campo de atuação de suas idéias sador, as bases da psicologia humanista. Segundo Farson, Mais do que ninguém, talvez, ele fez da psicologia as- sunto de gente normal e, de gente normal, assunto da 24 Idem, p. 34 a 36.36 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO 6 COMPARANDO FREUD E ROGERS 37 Rogers (deu-nos) uma maneira de estarmos uns com os outros, uma base ética para a interação humana; vida. Sua tenacidade, no entanto, fazia com que ele se mantivesse linhas diretrizes para a avaliação não só do resultado, mas Áustria, apesar dos ataques sofridos. Resolveu exilar-se na In- do processo de um relacionamento.(. Sem o perceber ele glaterra, um ano antes de sua morte em setembro de 1939, quan- revolucionou as nossas idéias sobre os problemas humanos. do os oficiais da Gestapo assumiram a sua casa e o proibiram de Foi por esse processo que ele mudou milhões de Durante toda a sua vida Freud portanto, com No ano de sua morte (1987) foi um dos três indicados para re- muita repressão, que possivelmente lhe deu uma idéia pessimista ceber o prêmio Nobel da Paz pelos trabalhos desenvolvidos na últi- do ser humano. Sua obra abrange os mais importantes e universais ma década de sua existência, particularmente aqueles relacionados problemas da humanidade: a paz e a guerra, a incoerência dos po- com conflitos transculturais, sociais e políticos. E dois anos antes, as desigualdades sociais e as crenças religiosas foram abor- com oitenta e três anos, esteve no Brasil, onde proferiu palestras. dados por ele. Ele viveu de modo altamente produtivo, enriquecedor e revolucio- Inegavelmente, o contexto em que Freud estava inserido era nário, sendo considerado um dos psicólogos mais importantes do oposto ao de Rogers. As perseguições sofridas por Rogers limita- século passado. basicamente, as questões de poder dentro da academia, que fazia frente às idéias revolucionárias e, como tal, ameaçadoras, contidas em sua obra; a sua luta com os ampliando, a partir daí, o espaço de atuação do psicólogo; e as críticas sofridas por colegas de outras abordagens, muitos deles inconformados com o sucesso da abordagem criada por Rogers e das suas idéias, de um modo geral. Toda a vida de Rogers foi, sobretudo, marcada pelo sucesso e pela grande aceitação às suas idéias. Seu estilo sim- ples, transparente, claro e direto o transformou num grande comu- nicador. Em decorrência, sua obra foi lida e apreciada por pessoas leigas e por profissionais das diversas áreas do conhecimento, dan- do grande repercussão a sua obra. Foi respeitado pelas suas idéias pela sua competência profissional em diversas partes do mundo, que lhe permitiu desenvolver trabalhos extraordinários, visando à solução de conflitos transculturais, sociais e políticos em várias partes do mundo. grande reconhecimento ao seu trabalho veio com a indicação do seu nome para compor a lista dos indicados para Prêmio Nobel da Paz, em ano em que faleceu.COMPARANDO FREUD E ROGERS 49 A Natureza Humana Segundo Rogers Um dos conceitos mais revolucionários que se destaca- ram da nossa experiência clínica foi o reconhecimento pro- gressivo de que o centro mais íntimo da natureza humana, as camadas mas profundas da sua personalidade, a base da sua "natureza tudo isso é naturalmente posi- tivo fundamentalmente socializado, dirigido para diante, racional e realista. CARL ROGERS p. 82.50 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO COMPARANDO FREUD E ROGERS 51 Ao estudarmos a teoria rogeriana, nos deparamos com um incrivelmente destrutivo, imaturo, regressivo, anti-social e posicionamento bastante diferente daquele que vimos quando es- tudamos a teoria freudiana, no que se refere à natureza Mas, Rogers vê além: Contrariamente à opinião que vê os Nela destaca-se a grande confiança que Rogers sentia pelo ser hu- mais profundos instintos do homem como sendo destruti- mano. Confiança, esta, que pode à primeira vista parecer ingênua, vos, observei que, quando o homem é, verdadeiramente, mas que é fruto de uma larga experiência clínica, amplamente em- livre para tornar-se o que ele é no mais fundo de seu ser basada e demonstrada através de gravações em tapes e filmes das (como no clima seguro da terapia), quando é livre para agir conforme sua natureza, como um ser capaz de perceber as sessões psicoterápicas, além de resultados de pesquisas realizadas coisas que o cercam, então ele, nitidamente, se encaminha por ele e por seus colaboradores, em várias partes do mundo. para a globalidade e a integração. Como já disse em outra A grande crença que ele sentia na capacidade do indivíduo é assim anunciada: ser humano tem a capacidade, latente ou mani- (Quando o homem) é de todo um homem, quando ele é o festa, de compreender-se a si mesmo e de resolver seus problemas de seu organismo completo, quando a apercepção da modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessárias ao cia, esse atributo peculiarmente humano, está operando na funcionamento sua máxima plenitude, então se pode confiar nele, então seu Ele acredita que se o homem não possui lesões ou conflitos comportamento é construtivo. Nem sempre será convencio- estruturais profundos apresenta essa capacidade. E que essa é uma nal, nem sempre será conformista. Será individualizado. Mas será também característica inerente ao homem que independe de Todavia, para que esta potencialidade logre a sua atualização é ne Apesar de sua grande confiança no homem, Rogers sabe cessário um clima de calor humano, desprovido de ameaças ou de consciente dos fatos que o cercam, poderá o indivíduo safios à imagem que a pessoa faz de si mesma. decisões acertadas. E preocupa-se ante a consciência de que Por outro lado, a influência rousseauniana, que tentam a sociedade, na pele dos políticos, dos funcionários do go- buir à sua obra, é destituída de verdade. A concepção de uma da da extrema direita e da extrema esquerda, en- reza "angélica" do homem, atribuida a Rogers, particularmente estejam todos empenhados em esconder os fatos. las pessoas menos informadas, encontra-se bem longe da verdade Ao longo de sua experiência, ele constatou que muitos dos considerados positivos, como o amor, a confiança e a Não possuo visão ingênua da natureza humana. Tenho bem consciência de que para se defender e movido por medos in tensos, podem e, de fato, se comportam de modo D. 1961, 17 Rogers & Kinget, 1977, p. 39. p.52 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO COMPARANDO FREUD E ROGERS 53 bondade são, muitas vezes, aqueles mais profundamente recalca- As condições em que se desenvolveram essas pessoas têm dos, e não somente aqueles impulsos socialmente proibidos. sido tão desfavoráveis que suas vidas quase sempre parecem É, justamente, por conta de suas observações, enquanto te- anormais, distorcidas, pouco humanas. E, no entanto, pode- se confiar que a tendência realizadora está presente nessas rapeuta, que ele é levado a não acreditar que, uma vez liberada a pessoas. A chave para entender seu comportamento é a luta camada mais profunda da natureza humana, nos depararíamos em que se empenham para crescer e ser, utilizando-se dos com um id incontrolável e destrutivo. E se mostra perplexo quan- recursos que acreditam ser disponíveis. Para as pessoas do um freudiano do porte de Karl Menninger lhe diz, numa discus- saudáveis, os resultados podem parecer bizarros e inúteis, são sobre o tema, que percebe o homem como sendo "inatamente mas são uma tentativa desesperada da vida para existir. Esta destrutivo". tendência construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem Tal afirmativa conduz o criador da Abordagem Centrada na centrada na pessoa. Pessoa as seguintes questões: A Abordagem Centrada na Pessoa considera a tendência rea- Como pode ser que Menninger e eu trabalhando com um ob- Headora ou atualizante como uma motivação polimorfa. Ao nível jetivo tão semelhante, num relacionamento tão com comportamento, esta tendência pode assumir diversas for- indivíduos angustiados, experimentemos as pessoas tão mas, em consonância com as necessidades presentes no organismo. diferentemente? Talvez, como sugere Snyder, essas profun- Mas a busca de satisfação dessas necessidades será feita no sen- das diferenças não contem quando o terapeuta se interessa tido de promover a auto-estima e não de diminuí-la, exceto quan- realmente por seu cliente. Mas, como pode o analista sentir do algumas delas, particularmente as básicas, tornam-se excessi- um interesse positivo para com o seu paciente quando sua vamente urgentes. própria tendência inata é destruir? E ainda mesmo que suas tendências destrutivas fossem adequadamente inibidas e Como se sabe, as teorias vigentes que tratam da motivação, controladas por seu analista, quem controlou a destrutivida- tandem a descrevê-la a partir do modelo utilizado pela biologia, de daquele analista? E assim sucessivamente, ad segundo o qual o organismo procura reduzir suas tensões e resta- um estado de equilíbrio. A teoria freudiana, por exemplo, As observações de Rogers o conduziram, realmente, a uma esse modelo. idéia bem diferente da natureza humana, o que, num certo sentido, Rogers discorda dessa orientação, pois, para ele, os organis- a identifica com a própria vida. E, referindo-se àquelas pessoas com mos estão sempre em busca, num eterno vir a ser, de um modo bem quem ele trabalhou nas salas de fundo dos hospitais estaduais, ele diferente do equilíbrio homeostático preconizado por Freud quan- afirma: do diz: sistema nervoso é... um aparelho que deveria se manter se possível, num estado de completa não estimulação", haja vista 21 Rogers, in Walker, 1957, p. 10. 22 Rogers, 1983, p. 41.10 54 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO que, quando privado de estimulação externa, ele se abre para uma imensidão de estímulos internos, muitas vezes, semelhantes, aque- les dos relatos de experiências cósmicas. No seu entendimento, so- mente um organismo doente, mantém-se num equilíbrio passivo. Portanto, segundo ele, a homeostase não pode se constituir na orientação última do organismo, haja vista que ele está sempre à procura de estímulos mais complexos. No ser humano, essa busca de estímulos mais enriquecedores é denominada curiosidade. Os organismos estão sempre em busca de algo, sempre ciando algo, sempre 'prontos para alguma há uma fonte central de energia no organismo humano. Essa fonte é uma função do sistema como um todo, e não uma parte dele. A maneira mais simples de conceituá-la é como uma tendência à plenitude, à auto-realização, que abrange não so a manutenção, mas também crescimento do organismo. 23 A Teoria do Desenvolvimento Humano Um outro ponto que fica evidente no pensamento acima é a Segundo Carl Rogers sua concepção holística do ser humano, bem como a ênfase que é estudarmos a obra de Rogers, verificamos o de dada a experiência organismo é para ele a pessoa dado a globalidade do Sua teoria de personalidad inteira, numa unidade que reage, como Indivíduo como um conjunto de partes, prim tal, às diversas situações que a vida lhe impõe. A tendência de se valorizar um ou outro aspecto de sua cons- holística. Dentro dessa perspectiva, não vamos encontrar, tituição, não pode ser feita sem acarretar prejuízo à compreensão do que seja ser uma pessoa. "Creio que 0 homem é mais sábio do para os aspectos sexuais ou outros Se organísmica a fonte primária do autoconhecim que o seu intelecto considerado isoladamente e que as pessoas (que mais adiante. funcionam bem) aprendem a confiar em sua experiência como a mais Carl Rogers embora concorde que exista algo de satisfatória e sábia indicação para comportamento apropriado". do desenvolvimento, de Freud, considera qu fortes influências de sua época ao enfatizar o asp sua que é confirmado por May: 23 Rogers, 1983, p.44. 24 Rogers & Wood, in Burton (Coord), 1978, p.196.11 66 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO COMPARANDO FREUD E ROGERS 67 terapeutas raro encontram hoje pacientes que Forçado pela atualização de suas experiências como tera- sofrem de recalque sexual, à maneira dos de Freud, Rogers abandona sua descrição inicial do processo psicote- no mundo que precedeu as duas grandes guerras. Na verda- rápico. () uso de registros eletrônicos das sessões tornara claro, para de, encontramos naqueles que nos procuram em busca de equipe, as diversas mudanças ocorridas no autoconceito ajuda exatamente o oposto: muita conversa, muita atividade do cliente no decorrer de sua terapia. A partir daí, o "indivíduo com sexual, praticamente nenhuma queixa de relativas a in para a cama com tanta frequência e com tantos parceiros problemas a ser visto) como uma pessoa cujo autoconceito quando lhes agrade. Mas queixam-se é de insensibilidade e se havia estruturado de forma incongruente - em desacordo com sua ausência de Tanto sexo e tão pouco significado, ou global". mesmo diversão! bom lembrar que sua teoria do desenvolvimento é posterior Os vitorianos não queriam que ninguém soubessse de seus a da terapia, sendo aquela uma decorrência desta. impulsos sexuais; nós nos envergonhamos se não o temos, Segundo Rogers, como já resumimos anteriormente: Antes de 1910, chamar uma senhora de "sexy" seria insul- tá-la; hoje em dia, ela aprecia o cumprimento e recompensa (...) a partir da discriminação de experiências vivenciadas, quem o fez voltando para a pessoa todos os seus atrativos. no seu campo vital ou fenomênico, como sendo descritivas Nossos pacientes têm muitas vezes problemas de frigidez e de si mesma, a criança vai formando o seu autoconceito, que impotência, mas observamos um detalhe estranho e como- tornar-se-á, mais tarde, "uma gestalt conceitual organizada lutam desesperadamente para que ninguém perce- e coerente". bam que são insensíveis sexualmente. o homem ou a mulher Como o amor e a atenção proporcionados pelas pessoas que da época vitoriana, quando bem educado, sentia remorso lhe são significativas são condicionais, e como esse amor caso experimentasse prazer sexual; hoje em dia, julgamo- e essa consideração lhe são essenciais, ela se vê obrigada nos culpados se não o a abrir mão de seus próprios valores e a in- trojetar alguns dos valores dessas pessoas como se fossem Rogers acha um tanto artificial a divisão do desenvolvimento seus próprios valores. Passando a ser, portanto, o eu que da criança em estágios rigidamente definidos. Concorda que o indi- querem que ela seja e não o eu que ela é de fato. É eviden- víduo é influenciado pela introjeção de atitudes, valores e percep- te que isso tem um preço: quando valores "alienígenas" são ções das pessoas significativas que o cercam no início de sua vida incorporados ao autoconceito da criança, como se fossem e no decorrer do seu desenvolvimento. Mas, enfatiza o desenvolvi- seus próprios valores instala-se a partir daí, a mento do conceito do eu durante o crescimento. Para ele, o desen- automentira. Agora, sempre que essas concepções entrarem em conflito com a sua experiência, ela tenderá a anular seus volvimento gradual da auto-imagem na criança é mais importante próprios processos de experiência para ser "rigidamente" o do que focalizar apenas o seu aspecto sexual. 8 May, 1982, ed., p. 42. Rogers & Wood, in Burton (Coord.), 1978, 197.12 68 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO 70 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO eu que querem que ela seja. E nesse momento, por ter se fe- o que é comumente chamado de comportamento neurótico chado à própria experiência, não fluirá plenamente. E será é o produto dessa dissociação na tendência para a realização. enganosamente o indivíduo procura comportar-se de modo coerente com o seu auto conceito. Mas o comportamento neurótico que é o A percepção da realidade é influenciada pelo seu autocon- ser total da pessoa tentando satisfazer suas necessidades é ceito, e o seu comportamento será dequado ou inadequado, de incompreensível até para o próprio indivíduo, uma vez que acordo com o caráter realista ou não do seu eu. No entanto, a nível não está em harmonia com o que ele conscientemente 'quer' da subcepção, toda e qualquer experiência é captável, mesmo que fazer realizar um eu que não mais é congruente com sua não tenha consciência dela. Existe uma sabedoria no organismo que supera o saber meramente cognitivo e que interfere, igualmen- A Abordagem Centrada na Pessoa acredita que o comporta- te, no comportamento. "Nós 'sabemos' emocionalmente coisas que mento neurótico é resultante da dissociação na tendência atuali- não sabemos zante, que ora apóia o eu, intensificando o autoconceito da pessoa, Vale ressaltar que o eu exerce uma função seletiva sobre todo ora apóia as necessidades que podem estar comple- material da experiência. Assim, alguns fenômenos são ignorados tamente em desacordo com os desejos conscientes do indivíduo. por não se relacionarem com 0 eu; não tendo, portanto, significado Podemos dizer que, quanto mais valores o indivíduo precisou para este. Outros fenômenos são simbolizados à consciência, uma introjetar, mais ele se distanciou de sua própria Tal vez que, estando de acordo com o eu, não exercem qualquer amea- alienação, desenvolver um autoconceito rígido que, por sua ça sobre o mesmo. Outras experiências são negadas ou distorcidas vez, é responsável pela inadequação do seu comportamento social. porque, sendo incompatíveis com eu, ameaçam a percepção or- Um clima seguro, como o que é proporcionado pela psicote- ganizada do mesmo; para aceitá-las o indivíduo teria que mudar o rapia, passível de autenticidade, aceitação incondicional e compre- seu autoconceito. Estando a gestalt do eu firmemente organizada e ensão empática, permitirá ao indivíduo o reconhecimento de sua não sendo percebido elementos contraditórios no campo fenomê- auto-alienação e a posse de sua verdade, incorporando ao seu au- nico, a auto-estima está garantida. eu pode ser visto como valioso toconceito agora mais fluido os aspectos negados de si mesmo. e aceito, e a tensão consciente será mínima. indivíduo se percebe Portanto, Rogers considera o indivíduo como um todo que, funcionando adequadamente". 12 ao viver a sua experiência, introjeta e vive como sendo seus, mui- tos dos valores das pessoas que lhe são significativas na infância, contribuindo, assim, para a formação do seu autoconceito, muitas vezes, incongruente com a sua experiência Recaindo a 10 Gusmão, 1999, p. 82 e 83. enfase da sua teoria do desenvolvimento no processo de formação 11 Rogers & Wood, in Burton (Coord.), 1978, do autoconceito, que é visto de uma maneira holística, não sendo 12 Op. Cit. 198. enfatizado o aspecto sexual ou outro qualquer.13 COMPARANDO FREUD E ROGERS 79 Carl Rogers: o Inconsciente na Abordagem Centrada na Pessoa A abordagem centrada na pessoa, evidencia três aspectos, in terrelacionados entre si, que, de algum modo, nos ajudam na com- preensão do tema em questão. São eles: 1. A concepção holística de homem e de mundo. Os organis- mos são apreciados na sua totalidade e como integrantes de uma unidade mais ampla e mais complexa - Cosmos. Pensar o homem deste modo, pressupõe que a priorização do inconsciente, ou de qualquer aspecto seu, virá sempre em detrimento da compreensão do que seja realmente ser um ser humano; haja vista que, na sua relação com mundo, o indivíduo reage como um todo. E é reagin- do dessa forma que as coisas e a própria vida ganham sentido para ele. Tal concepção, implica numa postura mais aberta em relação a todos os seres e ao Universo. 2. A grande crença em todos os seres humanos e em todos os organismos, demonstrada através de dois conceitos básicos: Ten- dência Atualizante e Tendência Formativa. Estas tendências funcio- nam como molas propulsoras ao desenvolvimento de potencialida- A primeira diz respeito ao impulso para a atualização nos seres vivos o que, todavia, poderá ocorrer de um modoprecário se as con- dições não forem adequadas à sobrevivência e ao crescimento; e No ser humano, entende-se por condições adequadas, aquelas em que indivíduo sente compreendido e aceito num relacionamento verdadeiro. Frente à essas organismo humano tenderá a funcionar de maneira plena e integrada, buscando a própria realização, a sua auto-regulação e a independência de controles externos. () mesmo não acontecendo diante de situações repetitivas de desrespeito, desconsideração, Incompreensão e desamor advindas, sobretudo, daquelas pessoas significativas, para ele. Tais situações 0 conduzirão a um comportamento dividido, dependente e doentio.80 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO 14 COMPARANDO FREUD E ROGERS 81 a última refere-se tanto a vida orgânica quanto a inorgânica, como, estados ampliados de consciência, como uma nova etapa a ser atin- por exemplo, a evolução das galáxias, ou a do próprio homem, parte gida pelo homem, de um modo geral, no seu processo evolutivo. integrante de um todo mais amplo e complexo, e que caminha pari Para ele quanto maior a autoconsciência maior a possibilidade de passu com sua evolução. escolhas livres e sintonizadas com o fluxo evolutivo, pois a pessoa Rogers acredita que a tendência atualizante confunde-se, estará potencialmente mais consciente de toda uma gama de expe- num certo sentido, com a própria vida, uma vez que ela pode ser riências advindas do seu interior: estímulos, sonhos e idéias, senti- "frustrada ou desvirtuada, mas não pode ser destruída sem que se mentos, emoções e reações fisiológicas. destrua também A única motivação do indivíduo é a sua auto-realização: qual- Qual é o papel desempenhado por nossa consciência nessa quer ato do ser é movido, antes de mais nada, por essa tendência, função formativa? (...) A capacidade de prestar uma atenção que, de acordo com as necessidades presentes no organismo, pode consciente parece ser uma das mais recentes etapas evoluti- vas da espécie humana. Essa capacidade pode ser caracteri- vir a assumir diversas formas. zada como um pequeníssimo pico de consciência, de capaci- Conseqüentemente, a tendência do organismo para se re- dade de simbolização, no topo de de uma vasta pirâmide de alizar pode, num determinado momento, levar à busca de funcionamento não consciente do organismo. Tudo indi- alimento ou de satisfação sexual. Mas até mesmo essas satis- ca que o organismo humano vem progredindo em direção a fações serão procuradas de modo a promover e não a dimi- um desenvolvimento cada vez mais pleno da consciência. É nuir a auto-estima, a não ser que se tornem excessivamente neste nível que surgem inovações e talvez até mesmo novas direções para a espécie humana. É aqui que a relação recí- proca entre causa e efeito é mais evidente. É aqui que as es- 3. A ênfase atribuída aos processos autoconscientes, como ele- colhas são feitas, que as formas espontâneas são Tal- mentos capazes de direcionar a tendência atualizante para a con- vez aqui estejamos diante da mais desenvolvida das funções cretização dessas formas mais completas e complexas de ser. Por humanas. (...) na prática psicoterapêutica, aprendemos algo outro lado, ao mesmo tempo em que se encara esse processo como sobre as condições psicológicas que propiciam o aumento sendo responsável pela direção da tendência atualizante, aceita- desta capacidade tão importante que é a consciência em se os processos autoconscientes como sendo um grande passo no Quando uma pessoa está funcionando de modo pleno sua processo evolutivo da espécie animal, e enfatiza-se outros níveis vivência se dá de modo integral, sem barreiras e inibições que as de consciência, geralmente conhecidos por consciência cósmica ou impeça. o que não significa a consciência de tudo o que se passa no seu interior, mas a possibilidade de sua ocorrência. Neste mo- mento, podemos dizer que, "esta pessoa está se movendo em direção 10 Rogers, 1983, p.40. 11 Op. p. 43. 12 Op. p. 46.82 SONIA MARIA LIMA DE 15 COMPARANDO FREUD E ROGERS 83 à inteireza, à integração, à vida unificada. A consciência está partici- plexa for uma estrutura, mais energia expandirá para manter sua pando dessa tendência formativa, mais ampla e complexidade. Por ocupar apenas dois por cento do corpo e utilizar No trecho abaixo, através de um exemplo tirado da vinte por cento de todo o oxigênio disponível, o cérebro é colocado cia de Rogers, fica evidenciada a grande sabedoria do organismo. como um exemplo típico dessa complexidade. Sabedoria, esta, superior ao conhecimento meramente cognitivo e Rogers, referindo-se ao sistema de Prigogine, diz: uma manifestação efetiva da tendência atualizante: Um sistema como esse é instável, tem flutuações ou "pertur- bações", como diz prigogine. À medida que aumentam, essas Quando estou em minha melhor forma, como facilitador de flutuações são transmitidas através de várias conexões do grupo on terapeuta, descubro uma nova sistema e, assim, dirigem seja ele um componente quími- Percebo que quando estou o mais próximo possível do meu ou um ser humano para um estado novo, alterado, mais interior, intuitivo, quando estou de algum modo em con- ordenado e coerente que o anterior. Esse novo estado possui tato com o que há de desconhecido em mim, quando estou, uma complexidade ainda maior e, portanto, um potencial talvez, num estado de consciência ligeiramente alterado, en- ainda maior para provocar mudanças. tão tudo o que faço parece ter propriedades curativas. Nes- tas ocasiões, a minha presença, simplesmente, libera e ajuda A transformação de um estado em outro é um evento súbi- os outros. Não há nada que eu possoa fazer para provocar to, não linear, em que muitos fatores interagem ao mesmo deliberadamente essa experiência, mas quando sou capaz tempo. Considero especialmente interesssante o fato de de relaxar e de ficar próximo do meu âmago transcenden- esse fenômeno ter sido demonstrado anteriormente por tal, comporto-me de um modo estranho e impulsivo na re- Don (1977-1978), em sua investigação do conceito de "vi- lação, que não posso justificar racionalmente e que não tem vência" na psicoterapia, da autoria de Gendlin (Gendlin, nada haver com meus processos de pensamento. Mas esses 1978). Quando um sentimento, até então reprimido, é vivido estranhos comportamentos acabam sendo corretos, por ca- conscientemente, de modo completo e aceitador, durante a minhos bizarros: parece que meu espírito alcançou e tocou o relação terapêutica, não se dá apenas uma nítida mudança espírito do Nossa relação transcende a si mesma e se psicológica, mas, também, uma mudança fisiológica conco- torna parte de algo maior. Então, ocorrem uma capacidade mitante, um novo estado de insight é de cura, uma energia e um crescimento Uma vez considerado esses aspectos, passemos a idéia que Ilya Prigogine, um químico filósofo, desenvolveu fórmulas e Rogers faz do Inconsciente: Rogers, observou, evidentemente, os provas matemáticas que demonstram que mais do que determi- mesmos fenômenos observados por Freud e a partir do quais, este, nístico, o mundo vivo é probabilístico. Para ele quanto mais com- desenvolveu o seu conceito de inconsciente. Todavia, considera que os psicólogos em geral, e particularmente os estudantes de psicolo- 13 Op. cit., p. 46 e 47. 14 Op. cit. p.43. 15 Op. cit. p. 4984 SONIA MARIA LIMA DE 16 COMPARANDO FREUD E ROGERS 85 gia, tendem a converter esse conceito em coisa, quando, na verda- conotação que difere da que é dada pelos psicanalistas. Ele não a de, trata-se apenas de uma maneira de compreender ou de explicar considera como uma função ou entidade relativamente autônoma um conjunto observável de fenômenos. Parecem esquecidos de que e provida de poderes e desígnios próprios, pois, na sua concepção, o inconsciente tal qual idealizado por Freud, é apenas uma hipóte- como foi dito: todos os processos vitais são dirigidos pela tendência se, cujo significado, só faz sentido para a teoria psicanalítica. atualizante, que vem a ser um conjunto de funções do organismo Colocando, o inconsciente, dentro de um processo experien- total orientado sempre para a sua conservação e o seu enriqueci- cial gestáltico, ele diz: o vocábulo "experiência" refere-se aquí (na abordagem cen- Eu preferiria pensar numa série de fenômenos; primeiro trada na pessoa) a tudo o que constitui o nos seus aqueles que estão bem nítidos no campo da consciência no elementos tanto conscientes quanto inconscientes em cada momento presente o auge da consciência; segundo, uma momento determinado. Os elementos conscientes são série de elementos que poderiam ser trazidos à consciência, nados com o nome de percepções ou experiências elementos que você sabe que estão lá e pode lembrar, mas das. Estas englobam tudo aquilo que o indivíduo se dá conta não formam "figura" no momento estão ou no atualmente, assim como todas as experiências passadas ou "fundo"; depois, finalmente, alguns fenômenos que estão periféricas capazes de entrar imediatamente no campo da mais e mais vagamente relacionados com a consciência, um percepção sob a influência de um estímulo adequado seja material que está realmente impedido de chegar mesmo a um estímulo externo, físico ou interno, proveniente de uma vaga consciência, porque a sua emergência prejudicaria ciações de imagens, de pensamento, etc. Quanto aos conceito que a pessoa tem de si mesma. tos experienciais que não estão disponíveis à consciência, Veja, acho que o que interessa não é o fato em si mesmo, são designadas pelo nome de experiências não simbolizadas, de concordar ou discordar totalmente do conceito de in- Estas se compõem de duas espécies uma engloba os consciente proposto por Freud. Prefiro chamar a atenção mentos da experiência cuja simbolização é impedida em para a minha maneira de conceituar a mesma espécie de zão de sua significação ameaçadora em relação à imagem do fenômenos conforme a gradação que de eu. Estes elementos são indicados pelo nome de num continuum, desde os elementos que estão nitidamente cias potencialmente simbolizáveis. A outra espécie compõe no foco da consciência do indivíduo em dado momento, até se de experiências não simbolizáveis, isto é, os elementos que seriam tão ameaçadores que nem se lhes te inacessíveis à consciência, seja por terem sido percebidas permite vir à pelo indivíduo como não tendo importância em relação ao eu, seja por sua intensidade ser muito reduzida para ultra- terapeuta centrado na pessoa apesar de a exis- passar limiar da tência de experiências inconscientes, atribui a elas, todavia, uma 17 Cf. Rogers & Kinget, 1977, p.61 16 Rogers, in Evans, 1979, p. 41 e 42. 18 Op. p.62.86 SONIA MARIA LIMA DE 17 COMPARANDO FREUD E ROGERS 87 A experiência potencialmente simbolizável é, justamente, Que acontece neste caso? A fim de escapar à autocondenação aquela que interessa mais de perto ao terapeuta centrado na pes- e ao sentimento de desvalorização que esta provoca, o indi- víduo nega os elementos ameaçadores de sua experiência. soa, uma vez que ela tem um significado especial com relação a Isto é, ele omite a simbolização desses elementos, ou os mo- dinâmica da personalidade. Acredita ele que, a falta de liberdade difica de modo a torná-los aceitáveis. A não-simbolização e experiencial é a principal responsável pela não simbolização, e que a deformação aparecem, portanto, como formas de proteção essa falta de liberdade, geralmente, é decorrente de situações que o do eu postas em prática pela tendência atualizante, que se indivíduo vivenciou como sendo ameaçadoras para a imagem que opera no nível da ele tem de si mesmo. que se justifica, nessa teoria, pelo fato de o fluir do indivíduo em direção à vida e ao crescimento é que a conduta do indivíduo é dirigida pelo seu eu ou auto-imagem. Além disso, o perceber-se como alvo de juízos e condenações é, ge- possibilitado na terapia quando este espaço lhe permite olhar para si mesmo, reestabelecendo conexões perdidas, que o conduzem ralmente, acompanhado do sentimento de auto desvalorização. a uma nova orientação, onde as partes negadas de si mesmo são Esta é a razão por que o indivíduo logo aprendeu a inibir a reintegradas num todo mais harmônico e coerente; quando ele não expressão observável pelo menos verbal de seus impul- precisa mais se orientar por fatores alheios a si mesmo ou por ape- sos e sentimentos Infelizmente, como vimos, esta nas um seguimento de sua experiência. Uma vez, reestabelecido o aprendizagem não se limita à expressão dos dados da expe- contato com o seu interior, ele, naturalmente, passará a se orientar riência. Ela se estende, gradativamente, à representação, submetida, gradativamente, a uma censura interna, sem que pela sua experiência total, fonte de autoconhecimento o sujeito se dê conta Pois ele adota inconscientemente e de sabedoria. (ou numa linguagem psicodinâmica, ele 'internaliza') as nor- mas que governam seu grupo e que lhe são transmitidas por suas pessoas-critério, isto é, por aqueles que representam um papel importante em sua existência. Por isso, a função punitiva que, num estágio anterior, era exercida por outra pessoa, torna-se parte inerente de sua estrutura psíquica. Em consequência, o simples fato de se dar conta da pre- sença, em si mesmo, de pensamentos e sentimentos proibi- dos, é tão penoso e humilhante, como a condenação por par- te dos demais. 0 indivíduo se sente envergonhado e culpado; isto é, sua auto-estima baixa. E esta desvalorização da ima- gem do eu está diretamente oposta à tendência atualizante, a qual visa a conservação e a revalorização desta imagem.18 A Transferência Segundo Carl Rogers Chegou-se à conclusão, através de gravações e de estudos de casos da terapia centrada na pessoa que reações de transferências só raramente ocorrem nesse tipo de terapia. mais comum é cliente apresentar atitudes afetivas, de pouca intensidade, de cará- ter realista e orientadas para o terapeuta como pessoa real. que equivale a dizer que neste caso o terapeuta não está simbolizan- do nenhuma figura significativa pertencente ao passado do clien- Geralmente quando o processo chega à sua conclusão, o cliente se sente grato e manifesta seu sentimento através de uma amizade sincera pelo terapeuta, como pessoa que esteve com ele, criando para si um clima de crescimento e de compreensão. Evidentemente, apesar da atitude descrita acima ser a mais provável de acontecer, isto não significa que alguns clientes não apresentem para com o seu terapeuta centrado na pessoa, um tipo it " 5796 SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO 19 COMPARANDO FREUD E ROGERS de reação bem mais intensa e "inadequada" à situação real, ime- postura pessoal, transparente, empática e aceitadora, reflete esta diata. Esta atitude poderá assumir gradações diversas, se expres- atitude; e, ao que parece, este modo de interagir e de intervir leva sando a partir de uma necessidade de dependência e apego ou te- o cliente a reconhecer sua atitude de transferência como fazendo mor à autoridade até a expressão de um sentimento profundo de parte de sua percepção, ou melhor, de sua percepção incorreta da hostilidade ou desejo e amor eróticos para com o terapeuta, inspi- situação, o que lhe possibilita uma tomada de consciência, quase rados no relacionamento que o indivíduo manteve, no passado, com imediata, de que tal atitude e tal percepção se originam no seu pró- pessoas que lhe foram significativas, como seus por exemplo. prio eu e não no terapeuta, daí não se instalar a dependência afeti- Essas atitudes transferenciais se observam em qualquer tipo va, como na Tais atitudes transferenciais não são de terapia. A diferença consiste na sua manutenção ou não, atra- sublimadas ou "Desaparecem porque o indivíduo vés de uma relação de dependência completa e persistente. A psi- conseguiu perceber-se a si mesmo de maneira nova e que retira toda canálise tende a estimular tal relação, haja vista a concepção de significação, e toda validade a estas atitudes." 10 que só a partir do seu aprofundamento e manejo adequado, pode- Marian Kinget formulou duas hipóteses relativas ao fenômeno rá o analista contribuir com o cliente no sentido deste vencer suas da transferência: a primeira diz respeito às atitudes transferenciais resistências internas e se libertar de suas repressões. Rogers, por que, para ela, tende a ocorrer naquelas situações em que, diante da sua vez, afirma que esse tipo de relação não se desenvolve numa tomada de consciência de elementos não admitidos da experiência, terapia centrada na pessoa, o que é fácil de compreender uma vez o eu se sente ameaçado; a segunda se refere à relação transferen- que, tal forma de terapia, não estimula a dependência. A atitude cial, que, em sua opinião, decorre do fato do indivíduo constatar transferencial, pode ocorrer; mas, a relação transferencial, não. Pela que o terapeuta é capaz de conhecê-lo melhor a ele e ao problema, simples razão de que o terapeuta não assume um papel de neu- do que ele próprio é capaz de conhecer instalando-se, a partir daí, tralidade frente ao cliente sua atuação é pessoal, acolhedora e uma atitude regressiva acentuada, por parte do transparente. fenômeno transferencial é percebido como sendo uma distorção da comunicação. Tanto o analista quanto o terapeuta centrado na pessoa tra- tam o fenômeno da transferência de modo idêntico como tratam os outros sentimentos ou atitudes, isto é, fazendo uso das técnicas ou atitudes que são próprias a cada uma dessas terapias. analista, de acordo com as regras da psicanálise, interpreta a atitude de trans- 9 Neste contexto, o terapeuta se esforça por compreender o cliente de um ponto de ferência, estabelecendo ao que tudo indica, a partir a relação vista empático e não, intelectual; e aceita que lhe é trazido pelo cliente, não no sentido de aprovar, mas de acolher sem julgar. de transferência, com toda aquela conotação dada por Freud. 0 te- 10 Rogers & Kinget, 1977, p. 203. rapeuta centrado, de acordo com a sua abordagem, através de uma 11 Cf. Rogers & Kinget, 1977, p. 206 207.20 COMPARANDO FREUD E ROGERS 103 pessoal." Também quando a interpretação é utilizada no seu sentido mais didático, pois a informação sendo repassada por uma auto- ridade no assunto, ganha peso de verdade. Logo, o cliente passa a considerar que o outro sabe mais dele mesmo do que ele próprio, abrindo mão do seu centro de referência interno. 17 No caso da picoterapia rogeriana, a tarefa do terapeuta con- siste não em revelar o cliente a si mesmo, mas em estabele- cer e manter uma estrutura relacional na qual o cliente - ao mesmo tempo, que adquire uma consciência crescente de si mesmo se atualiza no sentido da autodeterminação. 18 Para Rogers a mudança terapêutica se relaciona essencial- mente com a noção ou imagem que o indivíduo faz de si mesmo, do seu "eu". Daí a ênfase que é conferida na abordagem centrada na pessoa a resposta dirigida ao sentimento imediatamente experi- mentado pelo cliente, isto é, a experiência presente, pois esta inter- A Resistência Segundo Carl Rogers venção "atua sobre elementos vivos, reais, portanto sobre o material Os terapeutas centrados na pessoa discordam dos analistas por excelência da terapia." 19 Todavia, apesar da sua aparente sim- quanto a fazerem uso da interpretação como forma de tratamento, plicidade, tal intervenção, requer certas condições do terapeuta, a pois consideram que tal informação poderia servir para provocar a fim de facilitar a comunicação do cliente. resistência; ou para levar o cliente a um modo de agir relaxamento da vigilância lógica e crítica, necessário à não defensivo, ou seja, diante da interpretação, o cliente passa a imersão no mundo subjetivo do outro, não poderia ser ad- realçar seus aspectos negativos. quirido unicamente pelo estudo. É o resultado progressivo Consideram, ainda, que a interpretação pode ser mais amea- de experiências diretas e concretas que tendem, de certo modo, a condicionar a expectativa e o comportamento do te- ao se relacionar com a dinâmica do indivíduo, pois este pos- rapeuta no sentido de um abandono à iniciativa do sui necessidades, desejos e impulsos dos quais não está consciente Esperando que este condicionamento se estabeleça, tera- ou plenamente consciente, se constituindo, neste caso, "um atenta- do direto às suas tendências de independência e de responsabilidade 17 Cf. Rogers & Kinget, 1977, vol. p. 28 18 1977, vol. II, p. 90 16 Citado em 19 1977, vol. II, p. 39106 I SONIA MARIA LIMA DE GUSMÃO 22 cliente deseja mudar e ao mesmo tempo teme essa mudan- ça. Ao nível da ele reconhece que a imagem que faz dele mesmo é um misto de verdade e mentira, e a angústia que ad- vém desse conflito, tem sobre si um efeito paralisante; todavia, uma tendência profunda, fundamentalmente positiva, o impele para a conservação e a revalorização do eu, colocando-o em guarda con- tra qualquer ação que possa comprometer seu autoconceito. Estas são as razões pelas quais tantos clientes, evitam ou adiam este con- fronto, lançando mão de mecanismos inconscientes. 0 terapeuta centrado na pessoa acredita que o primeiro pas- so no sentido de reduzir a angústia e a resistência, consiste em pro- piciar ao cliente um clima humano, isento de ameaças, que lhe per- mitirá conduzir-se de modo autônomo, em direção a uma maior abertura e conservação, onde a revisão do seu autoconceito e a cor- reção dos seus autoenganos o tornará mais congruente com a sua experiência 24 Subcepção, na Abordagem Centrada na Pessoa é utilizado no sentido de explicar a capacidade que o indivíduo possui para distinguir o caráter ameaçador de uma expe- riência sem que ele possua ainda um conhecimento pleno deste caráter ameaçador.