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CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO DE GRADUADOS DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO VOLUME ÚNICO COMUM CEG IMPRESSO NA GRÁFICA DA EEAR MINISTÉRIO DA DEFESA COMANDO DA AERONÁUTICA ESCOLA DE ESPECIALISTAS DE AERONÁUTICA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO DE GRADUADOS VOLUME ÚNICO Apostila da Disciplina Direito Penal Militar e Administrativo do Curso de Especialização de Graduados - CEG. Edições(es): 5ªEdição: SO BMT RODRIGO – 2025 1S SGS DOUGLAS OLIVEIRA - 2025 Revisor(es) Pedagógico(s): 1T PED CAROLINE – 2025 Revisor(es) de Diagramação: 1S SMU FRANCO – 2025 GUARATINGUETÁ - SP 2025 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................6 CAPÍTULO 1 - CÓDIGO PENAL MILITAR.................................................................................9 TÓPICO 1.1 - CRIME MILITAR.................................................................................................10 TÓPICO 1.2 - PRINCÍPIO DA LEGALIDADE OU DA RESERVA LEGAL.........................11 TÓPICO 1.3 - ARTIGO 9º, DO CÓDIGO PENAL MILITAR...................................................13 CAPÍTULO 2 - CÓDIGO DE PROCESSO PENAL MILITAR ................................................41 TÓPICO 2.1 - POLÍCIA JUDICIÁRIA MILITAR......................................................................41 TÓPICO 2.2 - INTRODUÇÃO AO INQUÉRITO POLICIAL MILITAR................................46 TÓPICO 2.3 - AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO (APFD)................................61 TÓPICO 2.4 - INSTRUÇÃO PROVISÓRIA DE DESERÇÃO..................................................74 CAPÍTULO 3 - SINDICÂNCIA....................................................................................................84 TÓPICO 3.1 - SINDICÂNCIA NO ÂMBITO DO COMANDO DA AERONÁUTICA...........84 TÓPICO 3.2 - SOLUÇÃO...............................................................................................................89 CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................................................93 REFERÊNCIAS...............................................................................................................................94 EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 66 / / 9494 APRESENTAÇÃO Prezado(a) aluno(a), parabéns por sua matrícula neste Curso de Especialização de Graduados (CEG). Trata-se de um grande momento em sua carreira. Possivelmente você já teve contato com alguns dos assuntos abordados nesta apostila, contudo, outros serão apresentados a você pela primeira vez no decorrer do nosso estudo. O que se pretende, ao explorarmos os tópicos tratados neste material de estudo, é capacitá-lo para exercer as atribuições de um graduado em sua posição hierárquica, na qual serão exigidos conhecimentos e habilidades para assessorar superiores e orientar equipes compostas por militares mais modernos. Ao longo da leitura você observará algumas estratégias que utilizamos para facilitar a sua compreensão. Queremos que nosso contato seja proveitoso, agradável e que essa fase da sua vida seja lembrada pelo sucesso alcançado por meio de seu esforço e sua dedicação. Passaremos algumas horas juntos e a todo momento dialogaremos sobre assuntos os quais você convive diariamente. É importante destacar que você será o “ator” nesta construção da própria aprendizagem. Leia e responda todos os questionamentos, respeite os marcadores, pois a metodologia utilizada na confecção deste material busca minimizar dúvidas, produzir reflexões e desenvolver a sua aprendizagem. Esperamos que nossa convivência contribua ainda mais para seu aperfeiçoamento e desenvolvimento das habilidades necessárias para seu sucesso profissional. Antes de adentrarmos no estudo de que trata esta disciplina, é importante lembrar que, durante o período de formação, foi abordado o ensino da disciplina “Justiça Militar”, compreendendo na divisão didática em Código Penal Militar, Lei de Organização Judiciária Militar e Conselho de Disciplina. A partir dessa premissa, a disciplina “Direito Penal Militar e Administrativo” tem por objetivo relembrar alguns conceitos, mas principalmente dar enfoque ao aspecto prático e sistêmico do direito penal militar e administrativo. A partir dessa premissa, a disciplina “Direito Penal Militar e Administrativo” tem por objetivo relembrar alguns conceitos, mas principalmente dar enfoque ao aspecto prático e sistêmico do direito penal militar e administrativo. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 77 / / 9494 Assim, o conteúdo está didaticamente dividido em Crime Militar, Inquérito Policial Militar, Auto de Prisão em Flagrante Delito e Sindicância. Diante desses assuntos, o terceiro-sargento poderá compreender ainda mais o sistema de justiça militar, iniciando pelos atos executados em sua Organização Militar, até o envio à Circunscrição Judiciária Militar, podendo chegar ao Superior Tribunal Militar. Recentemente, ocorreram duas mudanças na legislação militar. Estas ocorreram por meio da Lei nº 13.491/2017, que alterou o artigo 9º do Código Penal Militar, e da Lei nº 13.774/2018, responsável por alterações na Lei de Organização da Justiça Militar da União (LOJM – Lei nº 8.457/1992). Em decorrência dessas mudanças, o rol de crimes militares foi ampliado e os magistrados passaram a ser denominados Juízes Federais da Justiça Militar da União. Além do mais, em 2019, uma importante ferramenta foi divulgada pelo Ministério Público Militar: o Manual de Polícia Judiciária Militar. Esse manual busca nortear todos os atos desempenhados nas três Forças (Aeronáutica, Marinha e Exército), e foi utilizado na confecção desta apostila, além de doutrinas, Instruções do Comando da Aeronáutica (ICA) e outros materiais de apoio. Por fim, fica apenas um alerta: os modelos de confecções de documentos e detalhes específicos sobre Inquérito Policial Militar e Auto de Prisão em Flagrante Delito estão previstos no Manual e devem ser aplicados, assim como os arquivos sobre Sindicância estão disciplinados na ICA 111-2/2023, já que esta apostila tem apenas o objetivo didático de apresentar o conteúdo de forma geral. Parabéns novamente e votos de sucesso em seus estudos! AD ASTRA ET ULTRA! DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 88 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR ESTRUTURA DA DISCIPLINA A disciplina “Direito Penal Militar e Administrativo”, pertencente ao Campo Militar e à área de Ciências Militares, tem como objetivos específicos: a) conceituar crimes militares no contexto do Código Penal Militar (Cn); b) descrever os principais procedimentos administrativos previstos no Código de Processo Penal Militar (Cn); e c) identificar a sistemática procedimental da Sindicância (Cn). Buscando atingir os objetivos específicos, a disciplina contará com uma carga horária de 39 (trinta e nove) tempos para instrução e 06 (seis) tempos para avaliação, distribuídos em 03 (três) unidades didáticas: 1) Código Penal Militar 2) Código de Processo Penal Militar 3) Sindicância DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 99 / / 9494 CAPÍTULO 1 - CÓDIGO PENAL MILITAR Olá! Para iniciarmos a disciplina, vamos falar, nesse primeiro capítulo, sobre o Código Penal Militar. Ao final do capítulo, você deverá ser capaz de conceituar crimes militares no contexto do Código Penal Militar e estará preparado para enunciar alguns de seus incisos. Vamos juntosArmadas, o Ministério Público Militar, com o apoio dos Ministérios da Defesa, Marinha do Brasil, Exército Brasileiro e Força Aérea Brasileira, criou o Manual de Polícia Judiciária Militar2 (Figura 21). 1 Art. 7º São direitos do advogado: […] XXI – assistir a seus clientes investigados durante a apuração de infrações, sob pena de nulidade absoluta do respectivo interrogatório ou depoimento e, subsequentemente, de todos os elementos investigatórios e probatórios dele decorrentes ou derivados, direta ou indiretamente, podendo, inclusive, no curso da respectiva apuração: a) apresentar razões e quesitos; b) vetado. 2 Manual de Polícia Judiciária Militar: http://www.mpm.mp.br/manualdepoliciajudiciariamilitar/ DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF http://www.mpm.mp.br/manualdepoliciajudiciariamilitar/ 4848 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR FIGURA 21 - MANUAL DE POLÍCIA JUDICIÁRIA MILITAR, BRASÍLIA FONTE: MPM (2020). Esse manual deve se consultado e aplicado pelo encarregado do Inquérito e o escrivão, pois nele se encontram todos os modelos dos documentos a serem elaborados, bem como as explicações mais detalhadas sobre cada ato de Polícia Judiciária Militar a ser executado. Cumpre mencionar que o Inquérito poderá ser dispensado, sem prejuízo de diligência requisitada pelo Ministério Público, quando o fato e sua autoria já estiverem esclarecidos por documentos ou outras provas materiais, no caso de crimes contra a honra, diante de escrito ou publicação que o autor é identificado e, por fim, na situação dos crimes de desacato e desobediência a decisão judicial. Sendo assim, dispõe o art. 28, do CPPM: Art. 28. O inquérito poderá ser dispensado, sem prejuízo de diligência requisitada pelo Ministério Público: a) quando o fato e sua autoria já estiverem esclarecidos por documentos ou outras provas materiais; b) nos crimes contra a honra, quando decorrerem de escrito ou publicação, cujo autor esteja identificado; c) nos crimes previstos nos arts. 3411 e 3492 do Código Penal Militar. Por fim, outra situação a ser mencionada é o crime de Denunciação caluniosa, prevista no art. 343, do CPM, em que poderá responder por esse crime aquele que venha a “Dar causa à 1 Art.341. Desacatar autoridade judiciária militar no exercício da função ou em razão dela: Pena - reclusão, até quatro anos. 2 Art. 349. Deixar, sem justa causa, de cumprir decisão da Justiça Militar, ou retardar ou fraudar o seu cumprimento: Pena - detenção, de três meses a um ano. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 4949 / / 9494 instauração de inquérito policial ou processo judicial militar contra alguém, imputando-lhe crime sujeito à jurisdição militar, de que o sabe inocente”. Como estão seus estudos? Conseguiu acompanhar e compreender todo o conteúdo visto até aqui? Se precisar não hesite em retomar o conteúdo já visto e aprendê-lo com maior segurança. TÓPICO 2.2.1 - ENCARREGADO E ESCRIVÃO O Encarregado é a autoridade responsável pela condução das investigações, buscando, por meio de provas, o esclarecimento dos fatos a ser apurado. Essa autoridade deve sempre agir de forma imparcial. O Código de Processo Penal Militar sugere que o Encarregado seja, no mínimo, um Capitão, mas não impede que a delegação recaia sobre um 1º ou 2º Tenente, Oficial Subalterno. Assim dispõe o art. 15, do CPPM: Art. 15. Será encarregado do inquérito, sempre que possível, oficial de posto não inferior ao de capitão ou capitão-tenente; e, em se tratando de infração penal contra a segurança nacional, sê- lo-á, sempre que possível, oficial superior, atendida, em cada caso, a sua hierarquia, se oficial o indiciado. É necessário observar sempre a hierarquia entre o Oficial Encarregado do IPM e o militar indiciado. Em relação ao Escrivão, esse é o auxiliar do Encarregado do Inquérito, tem a função de organizar e guardar os autos do IPM, redigir ofícios, cartas precatórias, executar as ordens do Encarregado, tomar a termo os depoimentos, dentre outras funções, utilizando, por analogia, o art.3º, alínea “e”, do CPPM combinado com o art. 152, do Código de Processo Civil1. Quanto ao escrivão, dispõe o Art. 11, do CPPM: Art. 11. A designação de escrivão para o inquérito caberá ao respectivo encarregado, se não tiver sido feita pela autoridade que lhe deu delegação para aquele fim, recaindo em segundo ou 1 NEVES, Cícero Robson Coimbra. Manual de direito processual penal militar. 3 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p. 336. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 5050 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR primeiro-tenente, se o indiciado for oficial, e em sargento, subtenente ou suboficial, nos demais casos. De acordo com o parágrafo único do Art. 11, do CPPM, o escrivão prestará compromisso de manter o sigilo do inquérito e de cumprir fielmente as determinações deste Código, no exercício da função. Importante destacar que o Art. 11, do CPPM, dispõe sobre o posto e graduação do escrivão em relação ao indiciado (Figura 22). FIGURA 22 - ESCRIVÃO DE IPM FONTE: O AUTOR (2020). TÓPICO 2.2.2 - PROCEDIMENTOS O Inquérito é instaurado por meio de Portaria, diante da “notitia criminis”, que significa o conhecimento de um fato, em tese, criminoso, com previsão do Código Penal Militar ou em outra lei penal de competência da Justiça Militar e que necessita de esclarecimentos, ou seja, da investigação. Conforme art. 10, do Código de Processo Penal Militar: Art. 10. O inquérito é iniciado mediante portaria: a) de ofício, pela autoridade militar em cujo âmbito de jurisdição ou comando haja ocorrido a infração penal, atendida a hierarquia do infrator; b) por determinação ou delegação da autoridade militar superior, que, em caso de urgência, poderá ser feita por via telegráfica ou radiotelefônica e confirmada, posteriormente, por ofício; c) em virtude de requisição do Ministério Público; d) por decisão do Superior Tribunal Militar, nos termos do art. 25; DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 5151 / / 9494 e) a requerimento da parte ofendida ou de quem legalmente a represente, ou em virtude de representação devidamente autorizada de quem tenha conhecimento de infração penal, cuja repressão caiba à Justiça Militar; f) quando, de sindicância feita em âmbito de jurisdição militar, resulte indício da existência de infração penal militar. Dessa forma, o Inquérito Policial Militar pode ser instaurado pelas hipóteses motivadoras acima, sendo elas de ofício ou por provocação (requisição, determinação). Vejamos: a) PRAZOS Os prazos para a conclusão do Inquérito Policial Militar estão dispostos no art. 20, do CPPM. Inicialmente, o Inquérito deverá terminar dentro do prazo de 20 (vinte) dias, se o indiciado estiver preso. Entretanto, se o indiciado estiver solto, o inquérito poderá ser finalizado no prazo de 40 (quarenta) dias, sendo possível uma prorrogação por mais 20 (vinte) dias, caso sejam necessárias diligências (Figura 23). FIGURA 23 - PRAZO DO IPM FONTE: O AUTOR (2020). b) SEQUÊNCIA DOS ATOS Conforme art. 21, do CPPM, todas as peças do Inquérito devem ser colocadas em ordem cronológica, formando um só processo. Além disso, o escrivão deve rubricar todas as páginas e numerá-las. Em relação aos modelos e peças que compõem o IPM, como já alertado, o Encarregado e Escrivão devem sempre consultar o Manual de Polícia Judiciária Militar. Entretanto, é oportuno DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 5252 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITARE ADMINISTRATIVO EEAREEAR mencionar alguns dos conceitos1 sobre documentos que fazem parte dos autos e que estão dispostos no item 3.13.3 do Manual: a) Despacho: “é a determinação feita pelo Encarregado ao escrivão do IPM, para que algo seja providenciado”. b) Recebimento: “é a certificação do escrivão de que recebeu os autos do encarregado para cumprir despacho”. c) Certidão: “é a certificação do escrivão de que o despacho foi cumprido”. d) Juntada: “é o termo que registra a anexação ao IPM, mediante prévio despacho do Encarregado, de qualquer documento ou papel que interesse à prova”. e) Conclusão: “é o termo que registra que o escrivão concluiu o determinado pelo despacho e fez juntada aos autos, devolvendo os autos ao Encarregado”. A fim de deixar ainda mais claro a organização dos autos, segue a Ordem de Autuação (Figura 24): 1 Manual de Polícia Judiciária Militar, Brasília, DF: MPM, 2019. Disponível em: . p. 29 e 30. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 5353 / / 9494 FIGURA 24 - ORDEM DE AUTUAÇÃO DO IPM FONTE: O AUTOR (2020). Importante esclarecer que, a depender do objeto investigado no Inquérito, outros documentos poderão ser inseridos, tais como: Termo de Acareação, Carta Precatória, Mandado de Prisão, Nomeação de Peritos, Laudos, Auto de Reconhecimento de objetos/cadáver, Despacho de Indiciamento, dentre outros. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 5454 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Você já participou de um IPM? Conhece alguém que já o fez? Procure em sua Organização Militar por pessoas que conhecem esse assunto e possuem experiências que possam compartilhar com você. Alerta! - Os arquivos (modelos) sobre Inquérito Policial Militar estão previstos no Manual de Polícia Judiciária Militar¸ já que esta apostila tem apenas o objetivo didático de apresentar o conteúdo de forma ampla. c) OITIVAS Outro ponto relevante em relação ao assunto apresentado neste tópico diz respeito à ordem das oitivas. Conforme o Manual de Polícia Judiciária Militar, de preferência, a oitiva deverá obedecer à seguinte ordem: testemunha(s), ofendido(s), se houver, e, por último, o(s) indiciado(s). Ressalta-se que essa ordem poderá ser alterada ao analisar a necessidade de cada situação. Essa alteração na ordem das oitivas poderá ser feita, visando-se inclusive não perder a informação obtida. Além disso, poderá haver mais de uma oitiva da mesma pessoa, se necessário para elucidar o caso. Ademais, salvo em caso excepcional (urgência inadiável), a oitiva das testemunhas, do ofendido e do indiciado deverá ser realizada no período das sete e dezoito horas, conforme art. 19, do CPPM. Cabe esclarecer que a testemunha não deverá ser inquirida por mais de 4 (quatro) horas consecutivas. No caso, será lhe facultado um descanso de 30 (trinta) minutos, caso haja necessidade de um período superior a 4 (quatro) horas para a inquirição da testemunha. Além do mais, o depoimento que não for finalizado até as dezoito horas será encerrado e prosseguido no dia seguinte, em hora determinada pelo encarregado do IPM, tudo conforme o §2º, do art. 19, do CPPM. Outro ponto relevante é o crime de Falso Testemunho, previsto no art. 346, do CPM: DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 5555 / / 9494 “Art. 346. Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade, como testemunha, perito, tradutor ou intérprete, em inquérito policial, processo administrativo ou judicial, militar: Pena - reclusão, de dois a seis anos.” Em regra, a testemunha prestará o compromisso de dizer a verdade sobre o que souber e lhe for perguntado, conforme art. 352, do Código de Processo Penal Militar. As testemunhas compromissadas são conhecidas por testemunhas numerárias. Entretanto, algumas pessoas estarão isentas da obrigatoriedade de dizer a verdade e serão tidas como declarantes ou informantes. Assim, nos termos do parágrafo 2º, do art. 352 estarão isentos do compromisso os doentes e deficientes mentais e os menores de 14 anos, bem como as pessoas elencadas no art. 354, do CPPM: Art. 354. A testemunha não poderá eximir-se da obrigação de depor. Excetuam-se o ascendente, o descendente, o afim em linha reta, o cônjuge, ainda que desquitado, e o irmão de acusado, bem como pessoa que, com ele, tenha vínculo de adoção, salvo quando não for possível, por outro modo, obter-se ou integrar-se a prova do fato e de suas circunstâncias. (grifo nosso) Com o objetivo de facilitar a compreensão do art. 354, veja a Figura 25: FIGURA 25 - ISENÇÃO DE COMPROMISSO FONTE: O AUTOR (2020). DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 5656 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Importante ressaltar ainda que, nos termos do Manual de Polícia Judiciária1, o indiciado e o ofendido estarão isentos do compromisso. Quanto às demais pessoas inqueridas, deverão prestar o compromisso de dizer a verdade, sendo que esse compromisso também inclui o ato de não dizer o que sabe sobre o caso. Assim, caso a testemunha faça afirmação falsa ou negue dizer a verdade, incorrerá no crime de falso testemunho. TÓPICO 2.2.3 - RELATÓRIO E SOLUÇÃO Ao término do Inquérito, o Encarregado, autoridade originária ou delegada, elaborará um Relatório, sendo dividido em três partes, conforme item 3.35 do Manual de Polícia Judiciária Militar2: 1. Objetivo do IPM: pequeno histórico dos fatos; 2. Diligências realizadas, resultados obtidos, provas elencadas; e 3. Conclusão. Nesse sentido, o encarregado, com bases nas provas escolhidas, indicará no relatório se houve ou não crime militar, se há indícios de transgressão disciplinar, bem como se manifestará sobre a pertinência de decretar a prisão preventiva do indiciado, conforme os artigos 254 e 255 do CPPM. A fim de elucidar, dispõe o art. 22, do CPPM: Art. 22. O inquérito será encerrado com minucioso relatório, em que o seu encarregado mencionará as diligências feitas, as pessoas ouvidas e os resultados obtidos, com indicação do dia, hora e lugar onde ocorreu o fato delituoso. Em conclusão, dirá se há infração disciplinar a punir ou indício de crime, pronunciando-se, neste último caso, justificadamente, sobre a conveniência da prisão preventiva do indiciado, nos termos legais. Na sequência, após as conclusões do Relatório, o Encarregado, dentro do prazo do IPM (20 dias, no caso de indiciado preso ou 40 dias, podendo ser prorrogado por mais 20 dias, no 1 Manual de Polícia Judiciária Militar, Brasília, DF: MPM, 2019. Disponível em: . p. 32. 2 Manual de Polícia Judiciária Militar, Brasília, DF: MPM, 2019. Disponível em: . p. 32. p. 35. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 5757 / / 9494 caso de indiciado solto), deverá apresentar uma solução de acordo com o foi apurado no inquérito. No caso de IPM em que haja delegação, a autoridade que determinou a instauração (autoridade originária), deverá homologar, se concordar com a solução, ou avocá-la, emitido uma solução diferente. TÓPICO 2.2.4 - REMESSA DE IPM Ao final do IPM, os autos serão remetidos ao Juiz Federal da Justiça Militar da Circunscrição Judiciária Militar (CJM)1 (Figura 26) onde ocorreu a infração penal, conforme consta no art. 23, do CPPM: Art. 23. Os autos do inquérito serão remetidosao auditor da Circunscrição Judiciária Militar onde ocorreu a infração penal, acompanhados dos instrumentos desta, bem como dos objetos que interessem à sua prova. FIGURA 26 – REMESSA DO IPM À CJM FONTE: O AUTOR (2020). Sendo assim, para fins de conhecimento, a seguir, encontra-se a Figura 27 com a divisão das Auditorias e Circunscrições Judiciárias Militares: 1 Para melhor compreensão sobre a organização da Justiça Militar da União, leia as páginas 10 e 16 da Cartilha “Conhecendo a Justiça Militar da União em quadrinhos. Disponível em: . DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 5858 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR FIGURA 27 - CONHECENDO A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO EM QUADRINHOS FONTE: DSPACE (2020). Importante ainda ressaltar que, muito embora fique constatado que o fato não tenha caracterizado crime militar, como no caso de transgressão disciplinar, a autoridade que determinou a instauração do IPM (Comandante/Diretor/Chefe) não poderá determinar o arquivamento do IPM, ou seja, deverá encaminhar os autos à CJM. Isso porque, nos termos do art. 24, do CPPM, o arquivamento do Inquérito só poderá ser feito pelo Juiz, mediante pedido do Ministério Público Militar. Nesse sentido, dispõe o art. 24, do CPPM: “A autoridade militar não poderá mandar arquivar autos de inquérito, embora conclusivo da inexistência de crime ou de inimputabilidade do indiciado”. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 5959 / / 9494 TÓPICO 2.2.5 - INSTAURAÇÃO DE NOVO INQUÉRITO Dispõe o art. 25 do CPPM: “O arquivamento de inquérito não obsta a instauração de outro, se novas provas aparecerem em relação ao fato, ao indiciado ou a terceira pessoa, ressalvados o caso julgado e os casos de extinção da punibilidade.” Nesse sentido, ainda que o Inquérito tenha sido arquivado, não há impedimento para a instauração de novo IPM, se surgirem novas provas. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 6060 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Exercícios para Aprendizagem Bem, agora que você já cumpriu uma etapa da missão, que tal avaliar seu grau de assimilação em relação ao conteúdo que foi visto? Não se preocupe caso não saiba responder prontamente. O importante é que você resolva as questões a seguir. 1) Descreva com as suas palavras as características do Inquérito Policial Militar. Busque descrevê-las em um único texto discursivo. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 2) Aborde os procedimentos do IPM. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 3) Consulte o Manual de Polícia Judiciária Militar e descreva três atribuições do militar no exercício da função de encarregado e de escrivão em um IPM. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 6161 / / 9494 TÓPICO 2.3 - AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO (APFD) Ufa! Quanta coisa vimos até aqui não foi mesmo? Ainda falta muitas coisas para aprendermos e estudarmos juntos, não desanime e vamos em frente! Dispõe o art. 243, do Código Processual Penal Militar, que: “Qualquer pessoa poderá e os militares deverão prender quem for insubmisso ou desertor, ou seja, encontrado em flagrante delito”. O dispositivo prevê sobre o dever de o militar prender quem se encontre em flagrante delito de crime militar próprio, deserção, insubmissão e outros ilícitos. Importante esclarecer que a regra é que ninguém será cerceado de sua liberdade, senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada, além do caso de transgressão militar ou crime propriamente militar (Figura 28), conforme art. 5°, LXI da Constituição Federal de 1988: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. [...] XLI – ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei. FIGURA 28 – RESTRIÇÃO DA LIBERDADE FONTE: O AUTOR (2020). DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 6262 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR TÓPICO 2.3.1 - CONCEITO DE AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO Em um primeiro momento, é pertinente esclarecer que, etimologicamente a palavra flagrante tem sua origem vinda do latim “flagrans”, isto é, será todo fato que tenha sido assistido ou certificado em seu exato momento. Em sequência, o delito tem sua origem do latim “delictum”, pode ser compreendido como a ação em que será punível por uma lei penal militar. Feito esse esclarecimento, o Auto de Prisão em Flagrante Delito (APFD) é compreendido como um procedimento administrativo de polícia judiciária militar, de caráter preventivo e cautelar, visando ao sucesso da persecução criminal (investigação criminal + processo penal)1. A prisão em flagrante está prevista no art. 244, do Código de Processo Penal Militar: Art. 244. Considera-se em flagrante delito aquele que: a) está cometendo o crime; b) acaba de cometê-lo; c) é perseguido logo após o fato delituoso em situação que faça acreditar ser ele o autor; d) é encontrado, logo depois, com instrumentos, objetos, material ou papéis que façam presumir a sua participação no fato delituoso. Em conformidade com o art. 244 do Código Processual Penal Militar, podemos encontrar como espécies de flagrância: a própria, a imprópria e a ficta ou presumida2. No caso de flagrante próprio, o agente está praticando o delito (art. 244, alínea “a”, do CPPM), ou seja, é surpreendido quando está executando a ação. Assim, a autoridade que presenciou o fato tem conhecimento exato da autoria do delito3. É também considerado flagrante próprio a hipótese do agente ser surpreendido, no momento imediato após ter cometido o delito (art. 244, alínea “b”, do CPPM)4. A fim de exemplificar, vamos imaginar a situação em que um soldado é surpreendido, pelo Sargento rondante, dormindo em seu posto de serviço. Nesse momento, o soldado é encontrado cometendo o delito de “Dormir em Serviço” (art. 203, do Código Penal Militar) (Figura 29). 1 NEVES, Cícero Robson Coimbra. Manual de direito processual penal militar. 3 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p. 376. 2 NEVES, Cícero Robson Coimbra. Manual de direito processual penal militar. 3 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p. 377. 3 Ibidem, p. 377. 4 Ibidem, p. 377. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 6363 / / 9494 Nesse caso, o Sargento deverá dar voz de prisão ao soldado pela situação de flagrante próprio. FIGURA 29 - CONHECENDO A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO EM QUADRINHOS FONTE: DSPACE (2020). Já no flagrante impróprio, o agente que praticou o crime é perseguido logo após ter realizadoo delito, devendo existir circunstâncias comprobatórias que apontem sua execução (art. 244, alínea “c”, do CPPM). Exemplo: Dois militares, instrutores de tiro, retiram 20 (vinte) pistolas e 500 (quinhentas) munições do Material Bélico. Foram utilizadas 460 (quatrocentos e sessenta) munições na instrução, contudo, no momento de devolver, o Instrutor A confere o material e solicita ao Instrutor B que este último faça a devolução do material sozinho. Ao apresentar o material no Material Bélico, é constatado que faltam 2 (duas) pistolas e 40 (quarenta) munições. Considerando que apenas os instrutores tiveram acesso ao material, o Instrutor B aciona a Patrulha que inicia a perseguição ao Instrutor A e o encontra conduzindo seu veículo em direção ao Portão da Guarda, com as 2 (duas) pistolas e com as 40 (quarenta) munições. Nesse momento, o Comandante da Patrulha dará a voz de prisão pelo crime de Peculato (art. 303, do Código Penal Militar) em situação de flagrante impróprio, também chamado de quase flagrante (Figura 30). DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 6464 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR FIGURA 30 - CONHECENDO A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO EM QUADRINHOS FONTE: DSPACE (2020). No caso do flagrante presumido, o autor é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele o autor da infração (art. 244, alínea “d”, do CPPM)1. Exemplo: Ao ser realizada uma revista em todos os armários de um alojamento, por ter notícias de possível tráfico de entorpecentes entre os recrutas, foram encontradas pequenas porções de drogas e grande quantidade de dinheiro no armário de um Sargento da Companhia. Considerando que a utilização do armário é exclusiva daquele Sargento, as evidências encontradas permitem presumir ser ele o autor do tráfico. Por esse motivo, o Militar responsável pela revista deverá dar voz de prisão ao Sargento, em decorrência do crime de Tráfico ou Posse de Entorpecente (Art. 290, do Código Penal Militar) (Figura 31). 1 NEVES, Cícero Robson Coimbra. Manual de direito processual penal militar. 3 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p. 378. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 6565 / / 9494 FIGURA 31 - CONHECENDO A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO EM QUADRINHOS FONTE: DSPACE (2020). Assim, diante de um fato ilícito, em situação de flagrância, o militar deverá adotar algumas medidas preliminares, nos termos do art. 12, do Código de Processo Penal Militar: Art. 12. Logo que tiver conhecimento da prática de infração penal militar, verificável na ocasião, a autoridade a que se refere o § 2º do art. 10 deverá, se possível: a) dirigir-se ao local, providenciando para que se não alterem o estado e a situação das coisas, enquanto necessário; b) apreender os instrumentos e todos os objetos que tenham relação com o fato; c) efetuar a prisão do infrator, observado o disposto no art. 244; d) colher todas as provas que sirvam para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias. Diante disso, a autoridade competente (Comandante, Chefe ou Diretor) ou autoridade que o substitua ou esteja de serviço (Oficial de Dia) deverá realizar as medidas preventivas, como preservar o local de crime, apreender os instrumentos relativos ao crime, colher todas as provas e, se assim for o caso, prender em flagrante o infrator. Ademais, o Auto de Prisão em Flagrante deverá ser lavrado durante o período de 24 (vinte quatro) horas, logo após o ato de cerceamento de liberdade do preso, conforme o art. 247, do Código de Processo Penal Militar. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 6666 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Ao final do APFD, o preso receberá a nota de culpa assinada pela autoridade competente, devendo conter o motivo da prisão, o nome do condutor e, caso haja, o nome das testemunhas.1 Em continuidade, ao preso deverá ser concedido, após 24 (vinte e quatro) horas da realização do Auto de Prisão em Flagrante Delito, a Audiência de Custódia, perante o juízo competente, devendo estar presente o acusado, o advogado ou membro da Defensoria Pública e o Ministério Público. Neste sentido, dispõe o Manual de Polícia Judiciária Militar sobre a Audiência de Custódia2: A audiência de custódia é uma medida de controle judicial que atribui à autoridade de polícia judiciária, responsável pela prisão de uma pessoa, o dever de apresentá-la à autoridade judiciária, para deliberar sobre a legalidade da medida constritiva de liberdade. No âmbito da Justiça Militar da União, está disciplinada, atualmente, na Resolução nº 228, de 26 de outubro de 2016. No que tange à audiência de custódia, o procedimento da polícia judiciária militar deve ser o de informar a prisão, nos termos da lei, aguardar a designação da audiência pelo juízo e, uma vez designada, efetuar a condução do preso à presença do juiz, nos termos da alínea h, do artigo 8º, CPPM. Você já soube de algum APFD? Já se imaginou passando por uma situação que fosse necessário realizar os procedimentos de um APFD? É melhor então os conhecermos para nos prepararmos! TÓPICO 2.3.2 - MOMENTOS DO AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE A lavratura do Auto de Prisão em Flagrante Delito corresponde a uma das fases da prisão em flagrante. A prisão em flagrante tem 4 (quatro) fases (Figura 32): 1 Nota de Culpa: art. 247, paragrafo 1°, do Código de Processo Penal Militar e item 2.8.17, do Manual de Polícia Judiciária Militar. 2 Manual de Polícia Judiciária Militar, Brasília, DF: MPM, 2019. Disponível em: . p. 18. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 6767 / / 9494 FIGURA 32 – MOMENTOS DO APFD FONTE: O AUTOR (2020). Vejamos o assunto sob a ótica de Lima (2014 apud NEVES, 2018, p. 376): Na sistemática do CPP, o flagrante se divide em quatro momentos distintos: captura, condução coercitiva, lavratura do auto de prisão em flagrante e recolhimento à prisão. No primeiro momento, o agente encontrado em situação de flagrância (CPP, art. 302) é capturado, de forma a evitar que continue a praticar ato delituoso. A captura tem por função precípua resguardar a ordem pública, fazendo cessar a lesão que estava sendo cometida ao bem jurídico pelo impedimento da conduta ilícita. Após a captura, o agente será conduzido coercitivamente à presença da autoridade policial para que sejam adotadas as providências legais. De seu turno, a lavratura é a elaboração do auto de prisão em flagrante, no qual são documentados os elementos sensíveis existentes no memento da infração. Este ato tem como objetivo precípuo auxiliar na manutenção dos elementos de prova da infração que se acabou de cometer. Por fim, a detenção é a manutenção do agente no cárcere, que não será necessária nas hipóteses em que for cabível a concessão de fiança pela autoridade policial, ou seja, infrações penais cuja pena privativa de liberdade não seja superior a 4 (quatro) anos (CPP, art. 322, com redação dada pela Lei n. 12.4033/11). Ao preso, depois, deve ser entregue nota de culpa, em até 24 (vinte e quatro) horas após a captura. O auto de prisão terá o seu início assim que o autor da infração penal for conduzido à autoridade policial judiciária militar (normalmente o Ofício de Dia), uma vez que esta irá DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 6868 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR deliberar o andamento de todos os procedimentos realizados no Auto de Pisãoem Flagrante Delito. Esse é um bom momento para você discutir nos fóruns da disciplina sobre as pessoas envolvidas no APFD. Crie uma discussão no fórum ou participe de alguma que já esteja acontecendo e dê sua contribuição, vamos lá! TÓPICO 2.3.3 - PESSOAS ENVOLVIDAS NO APFD Em meio ao auto de prisão em flagrante delito, é possível reconhecer algumas pessoas e suas atribuições, como por exemplo: o condutor, as testemunhas, o indiciado, dentre outros. Estabelece o art. 245, do CPPM que: “Apresentado o preso ao comandante ou ao oficial de dia, de serviço ou de quarto, ou autoridade correspondente, ou à autoridade judiciária, será, por qualquer deles, ouvido o condutor e as testemunhas que o acompanharem, bem como inquirido o indiciado sobre a imputação que lhe é feita, e especialmente sobre o lugar e hora em que o fato aconteceu, lavrando-se de tudo auto, que será por todos assinado”. Desse modo, é possível definir as funções de cada um desses componentes do auto de prisão, então vejamos: a) ESCRIVÃO O escrivão é caracterizado como o digitador e guardião do auto de prisão. Deste modo, em conformidade com o art. 245, parágrafos §§ 4° e 5°, do CPPM, para exercer as funções de escrivão, será nomeado um capitão, capitão-tenente, primeiro ou segundo-tenente, se o indiciado for oficial. Nos demais casos, poderá ser designado um subtenente, suboficial ou sargento. Ainda assim, na falta ou impedimento de escrivão ou das pessoas referidas no parágrafo anterior, a autoridade designará para lavrar o auto qualquer pessoa idônea, que, para esse fim, prestará o compromisso legal. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 6969 / / 9494 b) CONDUTOR O condutor é considerado o agente que encaminha o preso ao Presidente do Auto de Prisão em Flagrante Delito, devendo, também, obediência aos direitos do preso. Neste sentido, conforme art. 5º, inciso LXIII, da CF/88 e art. 296, em seu parágrafo 2º, do Código de Processo Penal Militar, são considerados como direito do preso o de permanecer calado e o de não produzir provas que o incrimine, ou ao seu cônjuge, descendente, ascendente ou irmão. Cabe mencionar que o art. 245, parágrafo 1º, do Código de Processo Penal Militar dispõe que, sendo o preso menor de idade, deverá a autoridade competente apresentá-lo, imediatamente, ao juiz de menores1. Portanto, respeitando assim, o art. 228 da Constituição Federal de 1988, que esclarece sobre a inimputabilidade penal dos menores de 18 (dezoito) anos, combinado com o art. 50 do Código Penal Militar. Nesse sentido, nos termos do art. 48, do Código Penal Militar, não será considerado imputável aquele não tem capacidade de entender o ato ilegal que praticou, ou ainda, é proveniente de doença mental incompleta ou considerado retardado. Além do mais, é pertinente esclarecer, também, que qualquer pessoa pode dar voz de prisão quando presenciar alguma conduta tipificada como ilícito penal, porém, para realizar a condução do preso militar, o condutor deverá ser de posto acima, devendo, posteriormente, a voz de prisão ser ratificada pelo Presidente do auto de Prisão em Flagrante Delito2. Assim dispõe art. 73. do Código de Processo Penal Militar: Art. 73. O acusado que for oficial ou graduado não perderá, embora sujeito à disciplina judiciária, as prerrogativas do posto ou graduação. Se preso ou compelido a apresentar-se em juízo, por ordem da autoridade judiciária, será acompanhado por militar de hierarquia superior a sua. Por fim, quem deu a voz de prisão e todos aqueles que presenciaram o crime deverão ser encaminhados ao presidente do Auto de Prisão em Flagrante3. 1 Maiores informações a respeito da apreensão de menores no Item 2.7.2.2, do Manual de Polícia Judiciária Militar. 2 Manual de Polícia Judiciária Militar, item 2.4, p. 16. 3 Condutor: item 2.4, do Manual de Polícia Judiciária Militar DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 7070 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR c) PRESO OU INDICIADO O Preso ou indiciado é reconhecido como a pessoa que cometeu o delito, devendo ser conduzida à autoridade de polícia judiciária. Neste sentido, importante a leitura dos artigos 304 e 306 do CPPM: Art. 304. Se houver mais de um acusado, será cada um deles interrogado separadamente. Art. 306. O acusado será perguntado sobre o seu nome, naturalidade, estado, idade, filiação, residência, profissão ou meios de vida e lugar onde exerce a sua atividade, se sabe ler e escrever e se tem defensor. Respondidas essas perguntas, será cientificado da acusação pela leitura da denúncia e estritamente interrogado da seguinte forma: a) onde estava ao tempo em que foi cometida a infração e se teve notícia desta e de que forma; b) se conhece a pessoa ofendida e as testemunhas arroladas na denúncia, desde quando e se tem alguma coisa a alegar contra elas; c) se conhece as provas contra ele apuradas e se tem alguma coisa a alegar a respeito das mesmas; d) se conhece o instrumento com que foi praticada a infração, ou qualquer dos objetos com ela relacionados e que tenham sido apreendidos; e) se é verdadeira a imputação que lhe é feita; f) se, não sendo verdadeira a imputação, sabe de algum motivo particular a que deva atribuí-la ou conhece a pessoa ou pessoas a que deva ser imputada a prática do crime e se com elas esteve antes ou depois desse fato; g) se está sendo ou já foi processado pela prática de outra infração e, em caso afirmativo, em que juízo, se foi condenado, qual a pena imposta e se a cumpriu; h) se têm quaisquer outras declarações a fazer. Nomeação de defensor ou curador § 1º Se o acusado declarar que não tem defensor, o juiz dar-lhe-á um, para assistir ao interrogatório. Se menor de vinte e um anos, nomear-lhe-á curador, que poderá ser o próprio defensor. Caso de confissão § 2º Se o acusado confessar a infração, será especialmente interrogado: a) sobre quais os motivos e as circunstâncias da infração; b) sobre se outras pessoas concorreram para ela, quais foram e de que modo agiram. Negativa da imputação § 3º Se o acusado negar a imputação no todo ou em parte, será convidado a indicar as provas da verdade de suas declarações. d) TESTEMUNHA A testemunha reconhecida como a pessoa que presenciou o crime ou que detenha alguma informação que trará maior esclarecimento para o delito praticado pelo preso ou indiciado. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 7171 / / 9494 Em seu depoimento, devem ser observados os itens estabelecidos no art. 352, caput, do CPPM, então vejamos: Art. 352. A testemunha deve declarar seu nome, idade, estado civil, residência, profissão e lugar onde exerce atividade, se é parente, e em que grau, do acusado e do ofendido, quais as suas relações com qualquer deles, e relatar o que sabe ou tem razão de saber, a respeito do fato delituoso narrado na denúncia e circunstâncias que com o mesmo tenham pertinência, não podendo limitar o seu depoimento à simples declaração de que confirma o que prestou no inquérito. Sendo numerária ou referida, prestará o compromisso de dizer a verdade sobre o que souber e lhe for perguntado. Alerta! - Notadamente, havendo testemunha criança ou adolescente, é recomendável que se consulte o Ministério Público Militar, pois neste caso será verificada a possibilidade de atuação de uma equipe especializada, nos termos da Lei n° 13.431/2017, que estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente, vítima ou testemunha de violência, fornecendo medidas de assistência e dando proteção. e) OFENDIDO O ofendido é considerado a pessoa que sofreu o delitopraticado com a lesão, ou ameaça de lesão, a algum bem jurídico seu. Importante esclarecer, que em algumas circunstâncias, não haverá registro do ofendido (morte, internação)1. Assim sendo, em conformidade com o art. 311, caput, do CPPM, podemos evidenciar algumas questões que devem ser realizadas ao ofendido em seu depoimento, quando possível, tais como: as circunstâncias do delito, se há indicação de algum autor ou se presume, verificar se 1 Manual de Polícia Judiciária Militar, Brasília, DF: MPM, 2019. Disponível em: . p. 16. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 7272 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR constitui algum elemento que possa ser utilizado como meio comprobatório e ao redigir tudo a termo as suas declarações. Então vejamos: Art. 311. Sempre que possível, o ofendido será qualificado e perguntado sobre as circunstâncias da infração, quem seja ou presuma ser seu autor, as provas que possa indicar, tomando-se por termo as suas declarações. f) PROCEDIMENTOS Os atos de produção das peças do auto de prisão em flagrante delito devem ser relacionados de forma estruturada e respeitando as ordens dos documentos a serem incluídos no interior do APDF. A fim de padronizar a sequência, o Manual de Polícia Judiciária Militar dispõe a seguinte ordem: 1. capa; 2. qualificação do preso; 3. portaria; 4. designação e compromisso de escrivão; 5. documentos de entrega do conduzido, exibição e apreensão, constatação de materialidade, de avaliação, etc.; 6. certidão de garantias do indiciado; 7. corpo do Auto de Prisão em Flagrante; 8. nota de culpa; 9. documentos referente à comunicação de prisão à autoridade judiciária, ao Ministério Público e à Defensoria Pública (havendo necessidade); 10. laudo de exame de corpo de delito; 11. documentos de encaminhamento do preso ou de seu encarceramento na Organização Militar; DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 7373 / / 9494 12. relatório; 13. documentos de encaminhamento dos autos. Alerta! - Os arquivos (modelos) sobre Auto de Prisão em Flagrante Delito estão previstos no Manual de Polícia Judiciária Militar¸ já que esta apostila tem apenas o objetivo didático de apresentar o conteúdo de forma ampla. A observância organizacional dos documentos do Auto de Prisão em Flagrante é de suma importância, devendo toda a anexação e a confecção dos documentos ser realizadas de forma legal e eficaz. Ao final, os autos do APFD serão remetidos ao Juiz Federal da Justiça Militar da Circunscrição Judiciária Militar (CJM)1 onde ocorreu a infração penal (Figura 33). FIGURA 33 – REMESSA DO APFD À CJM FONTE: O AUTOR (2020). 1 Para melhor compreensão sobre a organização da Justiça Militar da União, leia as páginas 10 e 16 da Cartilha “Conhecendo a Justiça Militar da União em quadrinhos. Disponível em: . DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 7474 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Exercícios para Aprendizagem 1. Descreva com as suas palavras as características do Auto de Prisão em Flagrante Delito. Busque descrevê-las em um único texto discursivo. _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 2. Indique os momentos e as pessoas envolvidas em um APFD. _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 3. Descreva os procedimentos por meio de um infográfico. _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ TÓPICO 2.4 - INSTRUÇÃO PROVISÓRIA DE DESERÇÃO Você já deve ter ouvido falar sobre essa instrução não é mesmo? Mas o quanto você conhece dela? Vamos aproveitar e aprofundar nosso conhecimento. TÓPICO 2.4.1 - CONCEITOS A Instrução Provisória de Deserção (IPD) tem previsão nos artigos 451 e seguintes do Código de Processo Penal Militar, e tem o objetivo de apurar os crimes dos arts. 187, 188, I a III, e 192, do Código Penal Militar, todos eles consumados após o transcurso de oito dias de um ato específico (retorno de férias, falta ao serviço, fuga, etc.). Antes de darmos prosseguimento ao estudo da IPD, vamos esclarecer como ocorre o delito de deserção (Figura 34). DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 7575 / / 9494 FIGURA 34 - CONHECENDO A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO EM QUADRINHOS FONTE: DSPACE (2020). O Código Penal Militar aponta duas espécies de deserção: deserção comum (art. 187) e especial (art. 190). Além disso, dispõe sobre os casos assimilados ao crime de deserção (art. 188) e a figura do crime de Concerto para Deserção (art. 191) e Deserção por Evasão e Fuga (art. 192). Para fins de estudos, faremos a leitura apenas dos artigos 187, 188 e 190: Art. 187. Ausentar-se o militar, sem licença, da unidade em que serve, ou do lugar em que deve permanecer, por mais de oito dias: Pena - detenção, de seis meses a dois anos; se oficial, a pena é agravada. Art. 188. Na mesma pena incorre o militar que: I - não se apresenta no lugar designado, dentro de oito dias, findo o prazo de trânsito ou férias; II - deixa de se apresentar a autoridade competente, dentro do prazo de oito dias, contados daquele em que termina ou é cassada a licença ou agregação ou em que é declarado o estado de sítio ou de guerra; III - tendo cumprido a pena, deixa de se apresentar, dentro do prazo de oito dias; IV - consegue exclusão do serviço ativo ou situação de inatividade, criando ou simulando incapacidade. Art. 190. Deixar o militar de apresentar-se no momento da partida do navio ou aeronave, de que é tripulante, ou do deslocamento da unidade ou força em que serve: Pena - detenção, até três meses, se após a partida ou deslocamento se apresentar, dentro de vinte e quatro horas, à autoridade militar do lugar, ou, na falta desta, à autoridade policial, para ser comunicada a apresentação ao comando militar competente. § 1º Se a apresentação se der dentro de prazo superior a vinte e quatro horas e não excedente a cinco dias: DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 7676 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Pena - detenção, de dois a oito meses. § 2o Se superior a cinco dias e não excedente a oito dias: Pena - detenção, de três meses a um ano. § 2o-A. Se superior a oito dias: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. Aumento de pena § 3o A pena é aumentada de um terço, se se tratar de sargento, subtenente ou suboficial, e de metade, se oficial. TÓPICO 2.4.2 - DA CONSUMAÇÃO Um dos pontos mais importantes que a administração deve observar é a contagem dos prazos, visto que o início da contagem do período de graça se inicia no primeiro dia após a falta injustificada 1 . O lapso temporal de 8 (oito) dias de falta injustificada é chamado de prazo de graça2. Caso o militar ausente retorne antes do 8º dia, o crime de deserção não será consumado, devendo a conduta irregular ser apurada na esfera disciplinar, ou seja, com a instauração de Formulário de Apuração de Transgressão Disciplinar (RDAER). Conforme art. 451, §1º, do CPPM: “A contagem dos dias de ausência, para efeito da lavratura do termo de deserção, iniciar-se-á à zero hora do diaseguinte àquele em que for verificada a falta injustificada do militar”. A fim de esclarecer a contagem de tempo para a deserção, observe a Figura 35: 1 Manual de Polícia Judiciária Militar, Brasília, DF: MPM, 2019. Disponível em: . p. 48. 2 Ibidem, p. 48. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 7777 / / 9494 FIGURA 35 - CONHECENDO A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO EM QUADRINHOS FONTE: DSPACE (2020). TÓPICO 2.4.3 - PROCEDIMENTOS Os crimes de deserção previstos no Código Penal Militar, uma vez consumados, vão estabelecer procedimentos a serem observados pelas autoridades competentes. Tais atos visam assegurar à administração a legalidade processual. Trataremos de alguns desses procedimentos neste tópico. Vejamos o Art. 451 do Código Penal Militar que trata do crime de deserção: Art. 451. Consumado o crime de deserção, nos casos previstos na lei penal militar, o comandante da unidade, ou autoridade correspondente, ou ainda autoridade superior, fará lavrar o respectivo termo, imediatamente, que poderá ser impresso ou datilografado, sendo por ele assinado e por duas testemunhas idôneas, além do militar incumbido da lavratura. O art. 451, do CPPM, inicia esclarecendo sobre o Termo de Deserção, contudo, antes desse documento, é necessário registrar a ausência do militar. Por esse motivo, a autoridade competente (geralmente o chefe do militar ausente) deverá redigir uma Parte de Ausência (Art. 456, do CPPM), endereçada ao Comandante da Unidade, DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 7878 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR reportando a ele o dia inicial da falta. Esse documento é a peça utilizada para iniciar a contagem do período de graça. Por fim, a Parte de Ausência, em seu corpo textual, deverá conter todas as informações relacionadas à falta, além das informações pessoais do militar, como por exemplo: nome completo, identidade civil e militar, CPF, endereço, nome da mãe, nome do pai, histórico militar, etc1. Em que pese o texto do art. 456. do CPPM, referir-se a Parte de Ausência, atualmente, trata-se de um ofício do superior do militar ausente comunicando o fato para o Comandante, Chefe ou Diretor da Organização Militar. Em consequência, o Comandante da Organização Militar, ao receber a Parte de Ausência, realizará um Despacho, determinando que seja realizado o inventário (Art. 456, do CPPM) dos bens deixados pelo militar ausente, tanto os pertencentes à Fazenda Pública, como também os particulares. Assim dispõe o art. 456, do CPPM: Art. 456. Vinte e quatro horas depois de iniciada a contagem dos dias de ausência de uma praça, o comandante da respectiva subunidade, ou autoridade competente, encaminhará parte de ausência ao comandante ou chefe da respectiva organização, que mandará inventariar o material permanente da Fazenda Nacional, deixado ou extraviado pelo ausente, com a assistência de duas testemunhas idôneas. Ademais, conforme o Manual de Polícia Judiciária2, é necessário que o Chefe imediato do militar ausente providencie diligências para impedir que este venha a consumar o crime de deserção. TÓPICO 2.4.4 - DA PARTE DE DESERÇÃO Decorrido o período de 8 (oito) dias de ausência do militar, no caso de Deserção Comum, será redigida uma Parte de Deserção (atualmente ofício), devendo ser realizada pelo chefe imediato do militar. Este documento conterá toda a qualificação do militar, constando, também, o momento que consumou o delito praticado3. 1 Manual de Polícia Judiciária Militar, Brasília, DF: MPM, 2019. Disponível em: . p. 53. 2 Ibidem, p. 52. 3 Parte de Deserção, item 5.3.3, do Manal de Polícia Judiciária Militar. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 7979 / / 9494 Após o recebimento desse documento, o Comandante de Unidade deverá providenciar a lavratura do Termo de Deserção, onde serão colocadas as informações pertinentes ao desertor, com objetivo de qualificá-lo de forma mais efetiva1. Em seguida, o Termo de Deserção deverá ser publicado em Boletim Interno da Unidade. Após a publicação, o Termo de Deserção e documentos pertinentes deverão ser remetidos à Justiça Militar2, para que esta realize as providências cabíveis. TÓPICO 2.4.5 - BREVES COMENTÁRIOS SOBRE DESERÇÃO DE PRAÇA COM OU SEM ESTABILIDADE No caso de praça com estabilidade, os procedimentos na lavratura da Instrução Provisória de Deserção são semelhantes aos realizados na de um oficial desertor, diferindo, porém, pelo fato de, nesse caso, a Parte informando sobre a Deserção anteceder o Termo de Deserção. Posteriormente, sendo consumada a deserção, o Comandante da Organização Militar agregará o militar, devendo esse ato ser publicado em Boletim Interno, conforme item 5.2.2, do Manual de Polícia Judiciária. Já no caso de praça sem estabilidade, ao ser consumado o Crime Deserção, e, após a lavratura do Termo e publicação em Boletim Interno, o Comandante da OM promoverá a exclusão do militar, devendo esse ato ser ratificado, também, em Boletim Interno. Em virtude disso, logo após esses procedimentos, todos os documentos, juntos ao Termo de Deserção, deverão ser encaminhados ao Juízo Militar, conforme dispõe o § 4°, do art. 456, do Código de Processo Penal Militar: §4º Consumada a deserção de praça especial ou praça sem estabilidade, será ela imediatamente excluída do serviço ativo. Se praça estável, será agregada, fazendo-se, em ambos os casos, publicação, em boletim ou documento equivalente, do termo de deserção e remetendo-se, em seguida, os autos à auditoria competente. 1 Da lavratura do Termo de Deserção, Da Publicação em Boletim da Unidade e da Remessa do Termo de Deserção, item 5.3.4, do Manual de Polícia Judiciária Militar. 2 Para melhor compreensão sobre a organização da Justiça Militar da União, leia as páginas 10 e 16 da Cartilha “Conhecendo a Justiça Militar da União em quadrinhos. Disponível em: . DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 8080 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR TÓPICO 2.4.6 - APRESENTAÇÃO VOLUNTÁRIA OU CAPTURA Ao ser capturado ou se apresentar voluntariamente, o desertor (praça sem estabilidade) passará por uma inspeção saúde, a qual deverá ser realizada na Unidade em que o militar se encontra. Após sair o resultado da inspeção de saúde, este deverá ser publicado em Boletim da Unidade. Caso o desertor seja praça sem estabilidade e venha a ser considerado “apto”, deverá ser reincluído ao serviço militar, nos termos do Art. 457, §1º, do CPPM: § 1º O desertor sem estabilidade que se apresentar ou for capturado deverá ser submetido à inspeção de saúde e, quando julgado apto para o serviço militar, será reincluído. Em seguida, a Autoridade Competente deverá providenciar a remessa imediata da documentação ao Juiz Federal da Justiça Militar da União, conforme dispõe o art. 455, do CPPM, vejamos: “Art. 455. Apresentando-se ou sendo capturado o desertor, a autoridade militar fará a comunicação ao Juiz-Auditor, com a informação sobre a data e o lugar onde o mesmo se apresentou ou foi capturado, além de quaisquer outras circunstâncias concernentes ao fato [...]”. Apenas para não termos dúvidas quanto à nomenclatura, a redação do CPPM diz que a comunicação será para o Juiz-Auditor. Todavia, conforme alteração da Lei de Organização da Justiça Militar da União, não se diz Juiz-Auditor, e sim Juiz Federal da Justiça Militar. Após a comunicaçãoda captura ou apresentação voluntária, antes do desertor ser recolhido à prisão, deverá passar por exame de corpo de delito, respeitando-se os mesmos cuidados quando realizado por militar que foi preso em flagrante delito1. Caso o desertor sem estabilidade seja considerado incapaz na inspeção de saúde, este não poderá ser reincluído. O resultado deverá ser remetido à Justiça Militar, com urgência, para fins de manifestação do Ministério Público Militar sobre o caso e quais medidas administrativas a Unidade Militar deverá adotar2. 1 Da inspeção de saúde: Capacidade/Incapacidade do Desertor, publicação e remessa à Justiça Militar da União, item 5.3.6, do Manul de Polícia Judiciária Militar. 2 Da apresentação ou captura do desertor, item 5.3.5, do Manual de Polícia Judiciária Militar. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 8181 / / 9494 Na Figura 36 encontra-se a ordem de autuação da Instrução Provisória de Deserção. FIGURA 36 – ORDEM DE AUTUAÇÃO DA IPD FONTE: O AUTOR (2020). DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 8282 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Alerta! - Os arquivos (modelos) sobre Instrução Provisória de Deserção estão previstos no Manual de Polícia Judiciária Militar¸ já que esta apostila tem apenas o objetivo didático de apresentar o conteúdo de forma ampla. Exercícios para Aprendizagem 1. Descreva com as suas palavras as características da Instrução Provisória de Deserção. Busque descrevê-las em um único texto discursivo. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 2. Indique a diferença de apresentação voluntária e a captura do desertor. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 3. Descreva com suas palavras a deserção de praças com estabilidade e sem estabilidade. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 8383 / / 9494 Vamos fazer algumas anotações! - Procure no conteúdo estudado as palavras- chave que melhor representam o que foi estudado até aqui. - Faça uma lista dessas palavras-chave seguida de um breve comentário. - A partir da leitura delas, tente reconstruir o que foi visto. Agora, que tal uma pausa? Parabéns por ter avançado até aqui! Está na hora de fazer uma pausa. Lembre-se de que o descanso e a reflexão fazem parte do estudo. Está na hora de resumir! A partir de suas anotações, reconstrua com suas palavras todo o estudo em um ou dois parágrafos, ou se referir, elabore um mapa mental ou um infográfico sobre o texto. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 8484 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR CAPÍTULO 3 - SINDICÂNCIA Estamos chegando no último assunto dessa disciplina, foram tantos conceitos estudados até aqui não foi mesmo? Espero que você os tenha compreendido e consiga identificar vários deles em seu cotidiano. Falaremos agora sobre a Sindicância. Vamos nessa? TÓPICO 3.1 - SINDICÂNCIA NO ÂMBITO DO COMANDO DA AERONÁUTICA A Sindicância é um procedimento formal que tem por objetivo a apuração de ocorrências, as quais, caso sejam confirmadas, poderão originar a abertura de processo disciplinar, administrativo ou inquérito policial militar, conforme item 2.1, da ICA 111-2 (Figura 37). FIGURA 37 - SOLUÇÃO DE SINDICÂNCIA FONTE: O AUTOR (2020). Nos termos do item 1.2.12, da ICA 111-2, a ocorrência é a suposta irregularidade verificada no âmbito da jurisdição da organização militar, que envolva bem ou agente da administração pública, a ser levada ao conhecimento da autoridade competente. Como exemplo, temos o caso de instauração de Sindicância para apurar acidente em serviço, conforme item 12.1, da ICA 111-2/2023. A fim de elucidar a ocorrência, as diligências são os atos praticados no âmbito da Sindicância com o objetivo de esclarecer os fatos apurados, tais como: oitiva de testemunhas, acareações, expedições de documentos, consulta a peritos, oitiva do sindicado, etc. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 8585 / / 9494 Além do mais, a Sindicância observará os princípios constitucionais do Contraditório e da Ampla Defesa. A garantia constitucional à ampla defesa (art. 5º, inciso LV) assegura aos litigantes, em geral, a faculdade de produzir elementos necessários para o esclarecimento dos fatos que lhe são imputados, bem como o direito de se omitirem, se assim julgarem pertinente. Nesse ponto assevera Marinela (2016, p.89) que “esse princípio deve assegurar à parte a garantia de defesa, conferindo ao cidadão o direito de alegar e provar o que alega, podendo se valer de todos os meios e recursos disponibilizados para a busca da verdade real”. Já o princípio do contraditório é a própria exteriorização da ampla defesa, impondo a condução dialética do procedimento, visto que será assegurado a todo ato produzido pela parte acusadora, oferecendo o direito de igual defesa ao opositor. Cumpre esclarecer que o Sindicado é interpretado como a pessoa a quem será imputada a prática da ocorrência. Diante disso, o Sindicado terá direito de acompanhar o processo, apresentar defesa prévia e alegações finais, arrolar testemunhas, assistir aos depoimentos, solicitar reinquirições, requerer perícias, juntar documentos, obter cópias dos autos, formular quesitos em carta precatória e em prova pericial e requerer o que entender necessário ao exercício de seu direito de defesa1. TÓPICO 3.1.1 - SINDICANTE E ESCRIVÃO O Sindicante será designado pela autoridade competente, por meio de Portaria, ficando encarregado de conduzir o processo (Figura 38) e observar os procedimentos previstos no item 10.1 da ICA 111-2/2023. FIGURA 38 – ATRIBUIÇÃO DO SINDICANTE FONTE: O AUTOR (2020). O Escrivão, conforme dispôs o item 10.1.1, da ICA 111-2/2023, será aquele militar que irá auxiliar o Sindicante em suas atribuições (Figura 39), responsável pela confecção e autuação 1 Item 5.2, da ICA 111-2/2017. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 8686 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR dos documentos, para uma melhor apuração dos fatos, devendo prestar o compromisso de manter sigilo sobre os fatos da Sindicância, item 6.5, da ICA 111-2/2023, além de realizar fielmente os seus deveres no andamento dos atos processuais. FIGURA 39 – ATRIBUIÇÃO DO ESCRIVÃO FONTE: O AUTOR (2020). TÓPICO 3.1.2 - PROCEDIMENTOS No âmbito da Aeronáutica, a ICA 111-2/2023, normatiza os procedimentos para a condução, elaboração de sindicância. Alerta! - É recomendável a leitura complementar da ICA 111-2/2017, que dispõe sobre os procedimentos relativos à sindicância, bem como os modelos. Nesse sentido, a Sindicância será instaurada por meio de Portaria, publicada em Boletim Interno da OM. O início dos trabalhos terá como marco inicial a data de publicação da Portaria no Boletim Interno. Assim, na contagem do prazo, será excluída a data da publicação e incluir- se-á a do vencimento. Importanteesclarecer, que a Sindicância terá o prazo máximo de vinte dias úteis para sua conclusão. Contudo, este prazo poderá ter prorrogações sucessivas de até vinte dias úteis, desde que o Sindicante faça a solicitação de prorrogação de prazo com, no mínimo, três dias úteis de antecedência, devidamente fundamentada, ficando a critério da autoridade instauradora conceder a dilação do prazo, considerando a complexidade do caso. É imperioso que seja obedecida a ordem de oitivas, assim o sindicado deverá ser ouvido após a oitiva do ofendido e das testemunhas. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 8787 / / 9494 A fim de esclarecer, a testemunha “é a pessoa que presta esclarecimentos acerca do que sabe dos fatos que constituem o objeto da apuração na sindicância”1. Ademais, os depoimentos, conforme disposto no item 11.1.4, da ICA 111-2/2023, serão realizados durante o dia, em um período compreendido entre oito e vinte horas. Ao final da sindicância, após apuração de todos os fatos pertinentes ao caso, será confeccionado pelo sindicante um relatório, que será apresentado em quatro partes: a) introdução, que conterá a ordem de instauração, a descrição sucinta do fato a ser apurado e os dados de identificação do Sindicado, se houver; b) diligências realizadas, onde serão especificadas as ações tomadas pelo Sindicante; c) parte expositiva, que conterá um resumo conciso e objetivo dos fatos, com análise comparativa e valorativa das provas colhidas, destacando aquelas em que o Sindicante firmou sua convicção. d) parte conclusiva, na qual o sindicante emitirá seu parecer, coerente com as provas e com a parte expositiva, mencionando se há ou não infração disciplinar, indício, ou efetivo dano ao erário, ilícito penal ou qualquer outra situação ampliativa ou restritiva de direitos, sugerindo, se for o caso, a adoção de providências. TÓPICO 3.1.3 - ACIDENTE EM SERVIÇO E ATESTADO SANITÁRIO DE ORIGEM De acordo com o item 12.1, da ICA 111-2, a autoridade responsável, ao tomar conhecimento de suposto acidente em serviço, deverá instaurar a Sindicância, desde que figure como vítima militar de seu efetivo ou pessoal civil, destinando-se assim a apuração para verificar se o acidente ocorreu ou não em serviço. Cabe ressaltar que, a fim de abreviar a apuração de sindicância, o acidentado que esteja em condições físicas e psicológicas deverá realizar a comunicação do ocorrido à autoridade competente, ou seja, ao seu Comandante, Chefe, Diretor ou Secretário, no prazo de 5 (cinco) dias úteis a contar da data do sinistro. Assim, deve esclarecer informações básicas do acidente, tais como a data, a hora, o local do acidente e, se possível, indicar as testemunhas que presenciaram o evento2. 1 Item 1.2.24, da ICA 111-2/2023. 2 ICA 111-2, Item 12.2. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 8888 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Importante esclarecer que o Decreto nº 57.272, de 16 de novembro de 1965, define as situações consideradas como acidente em serviço. Vejamos a seguir: Art. 1º Considera-se acidente em serviço, para os efeitos previstos na legislação em vigor relativa às Forças Armadas, aquele que ocorra com militar da ativa, quando: a) no exercício dos deveres previstos no Art. 25 do Decreto-Lei nº 9.698, de 2 de setembro de 1946 (Estatuto dos Militares); b) no exercício de suas atribuições funcionais, durante o expediente normal, ou, quando determinado por autoridade competente, em sua prorrogação ou antecipação; c) no cumprimento de ordem emanada de autoridade militar competente; d) no decurso de viagens em objeto de serviço, previstas em regulamentos ou autorizados por autoridade militar competente; e) o decurso de viagens impostas por motivo de movimentação efetuada no interesse do serviço ou a pedido; f) no deslocamento entre a sua residência e a organização em que serve ou o local de trabalho, ou naquele em que sua missão deva ter início ou prosseguimento, e vice-versa. § 1º - Aplica-se o disposto neste artigo aos militares da Reserva, quando convocados para o serviço ativo. § 2º - Não se aplica o disposto neste artigo quando o acidente for resultado de crime, transgressão disciplinar, imprudência ou desídia do militar acidentado ou de subordinado seu, com sua aquiescência. Os casos previstos neste parágrafo serão comprovados em Inquérito Policial Militar, instaurado nos termos do art. 9º do Decreto- lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969, ou, quando não for caso dele, em sindicância, para esse fim mandada instaurar, com observância das formalidades daquele. Cumpre salientar que a alínea “f”, do art. 1º do referido Decreto, é uma das hipóteses responsáveis pela instauração de sindicância de maior incidência, visto se tratar dos acidentes “in intinere” que envolvam militares das Forças Armadas, diante do deslocamento entre a residência e a organização em que serve ou o local de trabalho, ou naquele em que sua missão deva ter início ou prosseguimento. Em continuação, após apuração do acidente, por meio da Sindicância, a autoridade competente a que pertence o acidentado deverá realizar a publicação em Boletim Interno1, devendo na decisão do referido instrumento de apuração conter informações se o fato foi ou não entendido como um acidente de serviço. No caso de ser considerado o ocorrido como acidente de serviço, a mencionada publicação é importante para subsidiar a expedição do Atestado Sanitário de Origem (ASO)2. Quanto ao ASO, importante citar alguns dos itens da Portaria nº 616/GM3, de 13 de maio de 1980, em seu capítulo VI (itens nº 2 ao 4) que explicam os procedimentos: 1 ICA 111-2,Item 12.3 2 ICA 111 – 2, item 12.4 DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 8989 / / 9494 2 – O ASO representa, essencialmente, uma prova técnica, onde se registram, de forma discriminada, as lesões e as perturbações mórbidas sofridas pela vítima, em consequência de acidente ocorrido em ato de serviço. 3 – A expedição do ASO deverá ser determinada pela autoridade competente sempre que, em caso de acidente presumivelmente em serviço, do qual resulte vítima, ficar comprovado, através de sindicância mandada proceder por aquela autoridade, que o referido acidente ocorreu, de fato, em ato de serviço. 4 – São autoridades, competentes para determinar a expedição de ASO, os Comandantes das Organizações Militares do Ministério da Aeronáutica. Por fim, o a sindicância pode ser instaurada para apurar qualquer ocorrência, desde que o fato não seja considerado como crime. A título de exemplificação, foi citada a instauração de sindicância objetivando apurar acidente considerado ou não em serviço, respeitado o que preceitua a ICA 111-2/2023. Alerta! - Os arquivos (modelos) sobre Sindicância estão disciplinados na ICA 111-2/2023, já que esta apostila tem apenas o objetivo didático de apresentar o conteúdo de forma ampla. TÓPICO 3.2 – SOLUÇÃO Ao final do procedimento, a Autoridade Instauradora decidirá sobre a Sindicância, por meio de Solução publicada em Boletim Interno, podendo deliberar sobre as medidas dispostas no item 14, da ICA 111-2/2023: a) se houver necessidade de realização de novas diligências para a obtenção de maiores esclarecimentos do fato, restituir os autos ao sindicante, para que no prazo de dez dias úteis sejam cumpridas e, caso surjam novas provas, essas deverão ser submetidas ao Sindicado, para que possa se manifestar, no prazo de três dias úteis, contados da sua notificação; b) cumpridas as diligências, a autoridade dará a solução, no prazo de cinco dias úteis; c) quando houver indícios de conduta irregular deservidor do COMAER, instaurar processo administrativo disciplinar, conforme dispositivos da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, e demais legislações pertinentes ao tema; DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 9090 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR d) se houver indícios de infração penal, instaurar, obrigatoriamente, IPM, observadas as instruções normativas internas e o Código de Processo penal Militar; e) se for constatada transgressão disciplinar, aplicar os procedimentos previstos na legislação concernente ao tema; e f) se houver indício, ou efetivo dano ao erário, aplicar, também, os procedimentos recomendados na ICA 174-3, para apuração do seu valor, indicação dos seus responsáveis e indicação de elementos de prova que atestem o nexo causal dos agentes e o resultado danoso. g) quando não houver infração disciplinar, indício, ou efetivo dano ao erário, ilícito penal ou qualquer outra irregularidade, proceder ao arquivamento da Sindicância. Deste modo, vejamos na Figura 41 as medidas a serem adotadas, quando necessárias: Deste modo, vejamos na Figura 41 as medidas a serem adotadas, quando necessárias: FIGURA 41 - SOLUÇÃO DA SINDICÂNCIA FONTE: O AUTOR (2020). DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 9191 / / 9494 Exercícios para Aprendizagem Não esqueça que a resolução dos exercícios é parte fundamental da aprendizagem. Então, vamos para mais uma série deles! 1. Descreva com as suas palavras as características da Sindicância. Busque descrevê-las em um único texto discursivo. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 2. Indique os procedimentos, em especial a solução de uma sindicância com as medidas administrativas. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 3. Consultando a ICA 111-2/2023, localize exemplos de atribuições do militar nas funções de sindicante e escrivão em uma sindicância. Poste no fórum sua resposta. ________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 9292 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Para “fechar com chave de ouro”, ponha em prática o marcador seguinte. Roteirize o seu estudo! - Quais suas observações iniciais acerca do texto? Identifique algumas palavras-chave e faça breves anotações sobre elas. Faça uma breve descrição do texto. Quais correlações e associações você pode fazer em relação a ele? Compare-o a outras leituras que você já tenha realizado. Faça breves anotações, infográficos ou desenhos. - Experimente decompor o texto em tópicos. Anote cada tópico acrescido de um breve comentário. Após isso, faça um resumo, reconstruindo o texto com suas próprias palavras a partir dos tópicos. Avalie todas as suas anotações de forma reflexiva. Há algo que você possa melhorar? - Tente explicar seu resumo para alguém, prepare uma aula com 3 a 5 slides, ou faça um “mapa mental” sobre o assunto estudado. Faça uma “busca” na Internet por algum texto, infográfico ou vídeo que esteja relacionado com o assunto e que possa ser acrescentado ao seu material de estudo. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEQESAQESA – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 9393 / / 9494 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado Aluno, chegamos ao fim de mais uma etapa concluída e vencida com sucesso. Parabéns! Esperamos que em todos esses momentos em que estivemos juntos, você tenha aproveitado e aprendido muito. Durante nosso estudo, realizamos leituras, aprendemos conceitos, verificamos novos procedimentos. Fizemos anotações, resumos, exercícios, elaboramos roteiros de estudo e dialogamos bastante, não foi mesmo? Nesta disciplina, estudamos alguns procedimentos administrativos com efeitos jurídicos. Discutimos sobre o IPM, reconhecendo o encarregado e o escrivão, além de verificarmos os procedimentos, prazos a sequência dos atos, as oitivas, o relatório e solução, a remessa de IPM e instauração de novo inquérito. Vimos, também, o APFD, seu conceito, os momentos de APFD, sobre o escrivão e sobre as testemunhas. Tratamos da Instrução provisória de deserção, da consumação, dos procedimentos e da parte da deserção, além de tecer breves comentários sobre a deserção de praça com ou sem estabilidade e sobre a apresentação voluntária ou captura. Além disso, estudamos a sindicância, falando sobre o sindicante e o escrivão, dos procedimentos e da solução. Encerramos ciclos, fechamos portas, terminamos capítulos, não importa o nome que damos, o que importa é a sua aprendizagem e o seu crescimento profissional! Com as saudações da Equipe do Berço dos Especialistas, sucesso em sua Missão! DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 9494 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR REFERÊNCIAS ABREU, Jorge Luiz Nogueira de. Manual de direito disciplinar militar. Curitiba: Juruá, 2015. ALVES-MARREIROS, Adriano. Direito Penal Militar. Adriano Alves-Marreiros, Guilherme Rocha, Ricardo Freitas. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2015. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, Brasília, DF, 1998. _____. Comandante da Aeronáutica. Gabinete do Comandante. Portaria nº 1.915/GC3, de 27 de dezembro de 2017. Aprova a Instrução que dispõe sobre Sindicância no âmbito do Comando da Aeronáutica – ICA 111-2. Boletim do Comando da Aeronáutica, Rio de Janeiro, RJ, nº 222, 28 dez. 2017. _____. Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1990. Código Penal Militar. Brasília, DF, 1968. _____. Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1990. Código de Processo Penal Militar. Brasília, DF, 1968. _____. Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999. Regula o Processo Administrativo no âmbito da Administração Pública Federal. Brasília, DF, 1999. _____. Ministério Público Militar, Ministério da Defesa, Comando da Marinha, Comando do Exército e Comando da Aeronáutica. Manual de polícia judiciária militar. Brasília, DF: MPM, 2019. _____. Superior Tribunal Militar. Conhecendo a Justiça Militar da União em quadrinhos. Brasília: Superior Tribunal Militar, Diretoria de Documentação e Gestão do Conhecimento, 2019. GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. 17 ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2016. LIMA, Renato Brasileiro de Lima. Manual de Processo Penal. 3 ed. Editora JusPODIVM, 2015. LOUREIRO NETO, José da Silva. Processo Penal Militar. 6 ed. São Paulo: Atlas, 2010. LOUREIRO NETO, José da Silva. Direito Penal Militar. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2010. MARINELA, Fernanda. Direito administrativo. 10 ed. São Paulo: Saraiva, 2016. NEVES,Cícero Robson Coimbra. Manual de direito processual penal militar. 3 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Militar comentado. 3 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. ROSA, Paulo Tadeu Rodrigues. Código Penal Militar Comentado - Parte Geral e Parte Especial. 3 ed. Belo Horizonte: Editora Líder, 2014. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF APRESENTAÇÃO Antes de adentrarmos no estudo de que trata esta disciplina, é importante lembrar que, durante o período de formação, foi abordado o ensino da disciplina “Justiça Militar”, compreendendonessa? Inicialmente, é importante compreender que o Direito Penal Militar tem por objeto proteger bens jurídicos relevantes, tais como: segurança externa do país, autoridade ou disciplina militar, serviço e dever militar, vida, patrimônio, administração militar, entre outros. Nesse sentido, a ciência militar visa assegurar e proteger os pilares das Forças Armadas: a hierarquia e a disciplina militar, dispostos na Constituição Federal1. É por esse motivo que Nucci (2019, p.3) afirma que “A constatação dos valores de hierarquia e disciplina, como regentes da carreira militar, confere legitimidade à existência do direito penal militar e da Justiça Militar”. O ordenamento jurídico militar visa exclusivamente proteger os interesses do Estado e das instituições militares. Desta forma, será considerado como crime aquela conduta que vá de encontro aos bens tutelados pelo Direito Penal. O crime militar tem previsão no Código Penal Militar (CPM) editado pelo Decreto-Lei nº 1001, de 21 de outubro de 1969, mas com a recente mudança trazida pela Lei nº 13.491, de 2017, foram incluídos também como crimes militares, desde que somadas a algumas circunstâncias, as legislações penais que elencam condutas delituosas. Em contrapartida, o Código de Processo Penal Militar (CPPM) foi editado pelo Decreto- Lei nº 1002, de 21 de outubro de 1969, sendo um ramo do direito voltado à atividade jurisdicional no julgamento do acusado na prática de um crime militar. 1 Conforme art. 142, da Constituição Federal: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 1010 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Ainda, é imperioso esclarecer que o Código Penal Militar é dividido em Parte Geral (art. 1º ao art. 135) e Parte Especial (art. 136 ao art. 410). A Parte Especial é subdividida em Livro I – Dos Crimes Militares em Tempo de Paz e em Livro II – Dos Crimes Militares em Tempo de Guerra. Por fim, alguns crimes militares em tempo de paz serão analisados, correspondendo aos mais comuns e praticados, mas antes é necessário abordar o conceito de crime militar. TÓPICO 1.1 - CRIME MILITAR O art. 124, da Constituição Federal esclarece que “à Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei”. Assim, coube ao Código Penal Militar (Decreto-Lei nº1.001/69) apontar as condutas que serão definidas como crime militar, bem como indicar a pena a qual o agente estará sujeito caso venha a descumprir a norma sancionadora. Nesse sentido, dispõe o próprio art. 19 do Código Penal Militar que “este código não compreende as infrações dos regulamentos disciplinares”. Isso porque, como esclarecido por Loureiro Neto (2010), o delito (crime) pressupõe a grave violação de uma norma legal, enquanto uma infração disciplinar viola um regulamento militar, por isso é menos grave. É oportuno relembrar que, conforme o Regulamento Disciplinar da Aeronáutica, a transgressão disciplinar1 é “toda ação ou omissão contrária ao dever militar e, como tal, classificada nos termos do presente Regulamento. Distingue-se do crime militar, que é ofensa mais grave a esse mesmo dever, segundo o preceituado na legislação penal militar”. Desta forma, o militar está sob a égide de diversos deveres e, quando comete um crime castrense, viola tanto a norma penal quanto a disciplinar na questão ética profissional. Em continuação, os crimes militares em tempo de paz estão dispostos no art. 9º do Código Penal Militar, sendo divididos como próprios e impróprios. Nucci (2019, p. 33) esclarece que serão considerados os delitos militares próprios ou autenticamente militares aqueles que “possuem previsão única e tão somente no Código Penal 1 Art. 8º, do Regulamento Disciplinar da Aeronáutica (RDAER) – Decreto nº 76.322/1975. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 1111 / / 9494 Militar, sem correspondência em qualquer outra lei, particularmente no Código Penal, destinado à sociedade civil. Além disso, somente podem ser cometidos por militares – jamais por civis (grifo nosso)”. A título de exemplo de crime militar próprio: motim e a revolta (art. 149 a 153, do CPM). Nucci (2019, p.146) menciona que “denominam-se crimes militares impróprios os que possuem dupla previsão, vale dizer, tanto no Código Penal Militar quanto no Código Penal comum, ou legislação similar, com ou sem divergência de definição. Ou também o delito previsto somente na legislação militar que pode ter o civil por sujeito ativo (grifo nosso)”. A título de exemplo de crime militar impróprio: homicídio que tem previsão tanto no art. 205, do CPM quanto no Código Penal comum (art. 121). Cumpre esclarecer que no art. 10, do Código Penal Militar são encontradas as definições dos crimes militares em tempo de guerra. Entretanto, esses delitos não serão analisados neste estudo. Por fim, como já mencionado, a definição de crime estará disposta sempre em lei. Tal proteção encontra amparo constitucional por meio de um dos preceitos mais importantes, o princípio da legalidade. TÓPICO 1.2 - PRINCÍPIO DA LEGALIDADE OU DA RESERVA LEGAL O Código Penal Militar, em seu artigo 1º, dispõe sobre um dos princípios mais importantes, o Princípio da Legalidade, também conhecido como Princípio da Reserva Legal. O referido artigo diz que: Art. 1º Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal. Cumpre salientar que o Princípio também possui previsão no inciso XXXIX do art. 5º da Constituição Federal. O Princípio da Legalidade significa que toda conduta criminosa deverá estar prevista em lei. Assim, por mais que o estado brasileiro faça parte de tratados internacionais que possam definir delitos, há necessidade de ter, previamente, a figura em lei. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 1212 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Como esclarecido por Greco (2016, p.144) “a lei é a única fonte do Direito Penal quando se quer proibir ou impor condutas sob a ameaça de sanção. Tudo o que não for, expressamente, proibido é lícito em Direito Penal”. Além disso, o autor menciona sobre as quatro funções fundamentais do princípio da legalidade: a) proibir a retroatividade da lei penal; b) proibir a criação de crimes e penas pelos costumes; c) proibir o emprego de analogia para criar crimes, fundamentar ou agravar penas; d) proibir incriminações vagas e indeterminadas. É importante esclarecer que o artigo 1º do Código Penal Militar também dispõe sobre o Princípio da Anterioridade. Tal princípio deve ser entendido como a necessidade de existir lei penal antes da prática do ilícito penal pelo infrator (ROSA, 2014). Nucci (2019, p.11) diz que anterioridade “significa ser obrigatória a prévia existência de lei penal incriminadora para que alguém possa ser processado e condenado, exigindo, também, prévia cominação de sanção para que alguém possa sofrê-la”. Assim, torna-se notória a relação ente o princípio da legalidade e o princípio da anterioridade. Visto que o princípio da anterioridade dispõe da necessidade de ter uma sanção prévia, além da conduta ilícita elencada antes do fato, ou seja, isso quer dizer que a lei e a respectiva pena deverão estar em vigência antes da própria conduta. Vamos fazer algumas anotações! - Procure no conteúdo estudado as palavras-na divisão didática em Código Penal Militar, Lei de Organização Judiciária Militar e Conselho de Disciplina. ESTRUTURA DA DISCIPLINA CAPÍTULO 1 - CÓDIGO PENAL MILITAR TÓPICO 3.2 – SOLUÇÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIASchave que melhor representam o que foi estudado até aqui. - Faça uma lista dessas palavras-chave seguida de um breve comentário. - A partir da leitura delas, tente reconstruir o que foi visto. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 1313 / / 9494 TÓPICO 1.3 - ARTIGO 9º, DO CÓDIGO PENAL MILITAR Os crimes militares podem ser divididos em crimes militares próprios e impróprios. Conforme Nucci (2019), entende-se por crime militar próprio aquele previsto apenas no Código Penal Militar (CPM), sem correspondência em outra lei, bem como é cometido por militar. Em contrapartida, o crime militar impróprio é aquele que tem previsão no Código Penal Militar e no Código Penal comum ou em outra legislação penal, havendo, portanto, uma dupla previsão. Quanto aos crimes militares impróprios, a Justiça Militar da União tem competência para processar e julgar civis que venham a cometer tais delitos. Isso porque, conforme o art. 124, da Constituição Federal, “À Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em Lei”. Isso significa que a competência da justiça militar abrange processar e julgar tanto o civil quanto o militar que tenha cometido delito disposto no Código Penal Militar. Diferente é o caso da Justiça Militar Estadual que, nos termos do §4º, do art. 125, da Constituição Federal1, somente poderá processar e julgar os militares estaduais. Importante mencionar que a Lei nº 8.457, de 4 de setembro de 1992, Lei de Organização Judiciária Militar, é responsável por estruturar2 a Justiça Militar da União (JMU). Assim, correspondem a órgãos da JMU: o Superior Tribunal Militar, Corregedoria da Justiça Militar, Juiz - Corregedor Auxiliar, Conselhos de Justiça e os Juízes Federais da Justiça Militar e os Juízes Federais Substitutos da Justiça Militar. Nesse sentido, é imperioso esclarecer que o processamento e julgamento dos militares são realizados pelos Conselhos Especiais de Justiça, destinados a julgar os oficiais (com exceção de oficiais generais3), e pelos Conselhos Permanentes de Justiça, que julgam as praças. Contudo, há diferença entre o processo e o julgamento de um civil e de um militar quanto à prática de crime militar. Isso porque os Conselhos (Especial ou Permanente) não possuem 1 Art.125, §4º, da CF/88: “Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e da graduação das praças”. 2 Para melhor compreensão sobre a organização da Justiça Militar da União, leia as páginas 10 e 16 da Cartilha “Conhecendo a Justiça Militar da União em quadrinhos. Disponível em: . 3 Nos termos do art. 6º, inciso I, alínea “a”, da LOJM, “compete ao Superior Tribunal Militar processar e julgar originalmente os oficiais generais das Forças Armadas, nos crimes definidos em lei”. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 1414 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR competência para processar e julgar o civil. Assim, será competente o Juiz Federal da Justiça Militar, monocraticamente 1 , para processar e julgar o civil que venha a praticar crime militar, bem como será competente no caso em que o militar venha a praticar crime com o civil, conforme art. 30, inciso I-B, da Lei de Organização da Justiça Militar. Caso o crime seja praticado em concurso por civil e militar, a competências para julgar será do juízo monocrático, conforme art. 30, inciso 1-B da Lei de Organização da Justiça Militar. Quanto aos delitos castrenses, no art. 9º do Código Penal Militar, encontram-se as definições dos crimes militares, bem como suas circunstâncias. Nesse sentido, a fim de ter um panorama, segue o dispositivo na íntegra: Art. 9º Consideram-se crimes militares, em tempo de paz: I - os crimes de que trata este Código, quando definidos de modo diverso na lei penal comum, ou nela não previstos, qualquer que seja o agente, salvo disposição especial; II - os crimes previstos neste Código e os previstos na legislação penal, quando praticados: a) por militar da ativa contra militar na mesma situação; b) por militar da ativa, em lugar sujeito à administração militar, contra militar da reserva, ou reformado, ou contra civil; c) por militar em serviço ou atuando em razão da função, em comissão de natureza militar, ou em formatura, ainda que fora do lugar sujeito à administração militar contra militar da reserva, ou reformado, ou civil; d) por militar durante o período de manobras ou exercício, contra militar da reserva, ou reformado, ou contra civil; e) por militar da ativa contra o patrimônio sob a administração militar, ou a ordem administrativa militar; f) revogada. 1 Art. 30, I-B, da LOJM, “compete ao juiz federal da Justiça Militar, monocraticamente, processar e julgar civis nos casos previstos nos incisos I e III do art. 9º do Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969 (Código Penal Militar) e militares, quando estes forem acusados juntamente com aqueles no mesmo processo”. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 1515 / / 9494 III - os crimes praticados por militar da reserva, ou reformado, ou por civil, contra as instituições militares, considerando-se como tais não só os compreendidos no inciso I, como os do inciso II, nos seguintes casos: a) contra o patrimônio sob a administração militar, ou contra a ordem administrativa militar; b) em lugar sujeito à administração militar, contra militar da ativa ou contra servidor das instituições militares ou da Justiça Militar, no exercício de função inerente ao seu cargo; c) contra militar em formatura, ou durante o período de prontidão, vigilância, observação, exploração, exercício, acampamento, acantonamento ou manobras; d) ainda que fora do lugar sujeito à administração militar, contra militar em função de natureza militar, ou no desempenho de serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública, administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para aquele fim, ou em obediência a determinação legal superior. §1º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri. §2º Os crimes militares de que trata este artigo, incluídos os previstos na legislação penal, nos termos do inciso II do caput deste artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto: I - do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa; II - de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou III - de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: a) Lei no 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica; DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 1616 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR b) Lei Complementar no 97, de 9 de junho de 1999; c) Decreto-Lei no 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo PenalMilitar; e d) Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral. Antes de iniciarmos o estudo pormenorizado dos incisos e alíneas do artigo 9º, é importante elencar alguns dos crimes militares em tempo de paz dispostos no Livro I da Parte Especial do Código Penal Militar, tendo em vista que serão contextualizados em exemplos a partir dos próximos tópicos. - Desrespeito a superior Art. 160. Desrespeitar superior diante de outro militar: Pena - detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave. Desrespeito a comandante, oficial general ou oficial de serviço Parágrafo único. Se o fato é praticado contra o comandante da unidade a que pertence o agente, oficial-general, oficial de dia, de serviço ou de quarto, a pena é aumentada da metade. - Recusa de obediência Art. 163. Recusar obedecer a ordem do superior sobre assunto ou matéria de serviço, ou relativamente a dever imposto em lei, regulamento ou instrução: Pena - detenção, de um a dois anos, se o fato não constitui crime mais grave. - Violência contra inferior Art. 175. Praticar violência contra inferior: DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 1717 / / 9494 Pena - detenção, de três meses a um ano. Resultado mais grave - Parágrafo único. Se da violência resulta lesão corporal ou morte, é também aplicada a pena do crime contra a pessoa, atendendo-se, quando for o caso, ao disposto no art. 159. - Abandono de posto Art. 195. Abandonar, sem ordem superior, o posto ou lugar de serviço que lhe tenha sido designado, ou o serviço que lhe cumpria, antes de terminá-lo: Pena - detenção, de três meses a um ano. - Embriaguez em serviço Art. 202. Embriagar-se o militar, quando em serviço, ou apresentar-se embriagado para prestá- lo: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. - Dormir em serviço Art. 203. Dormir o militar, quando em serviço, como oficial de quarto ou de ronda, ou em situação equivalente, ou, não sendo oficial, em serviço de sentinela, vigia, plantão às máquinas, ao leme, de ronda ou em qualquer serviço de natureza semelhante: Pena - detenção, de três meses a um ano. - Embriaguez ao volante Art. 279. Dirigir veículo motorizado, sob administração militar na via pública, encontrando-se em estado de embriaguez, por bebida alcoólica, ou qualquer outro inebriante: Pena - detenção, de três meses a um ano. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 1818 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR - Tráfico, posse ou uso de entorpecente ou substância de efeito similar Art. 290. Receber, preparar, produzir, vender, fornecer, ainda que gratuitamente, ter em depósito, transportar, trazer consigo, ainda que para uso próprio, guardar, ministrar ou entregar de qualquer forma a consumo substância entorpecente, ou que determine dependência física ou psíquica, em lugar sujeito à administração militar, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão, até cinco anos. - Desacato a superior Art. 298. Desacatar superior, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, ou procurando deprimir- lhe a autoridade: Pena - reclusão, até quatro anos, se o fato não constitui crime mais grave. Agravação de pena - Parágrafo único. A pena é agravada, se o superior é oficial general ou comandante da unidade a que pertence o agente. - Desacato a militar Art. 299. Desacatar militar no exercício de função de natureza militar ou em razão dela: Pena - detenção, de seis meses a dois anos, se o fato não constitui outro crime. - Prevaricação Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra expressa disposição de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 1919 / / 9494 Além dos crimes indicados acima, outros delitos serão estudados ao longo das matérias. Entretanto, sugere-se a leitura do material “Conhecendo a Justiça Militar da União em quadrinhos”, que pode ser acessado por meio de link disponível no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) > Biblioteca Virtual > Textos complementares. Aproveitando os conteúdos vistos até aqui? Esse assunto é sempre instigante não é mesmo? Vamos seguir estudando então! Alerta! - A fim de esclarecer, didaticamente, cada um dos incisos e alíneas, vamos explicá-los por meio de exemplos hipotéticos e desenhos. TÓPICO 1.3.1 - ART. 9º, INCISO I O inciso I dispõe sobre os crimes que têm previsão no Código Penal Militar com definição diferente da lei penal comum ou aqueles que não têm previsão, independentemente do agente ser militar ou civil. O inciso I diz que: I - os crimes de que trata este Código, quando definidos de modo diverso na lei penal comum, ou nela não previstos, qualquer que seja o agente, salvo disposição especial; Além disso, o inciso I dispõe sobre os crimes que só possuem previsão no Código Penal Militar e só podem ser realizados por militares, isto é, os denominados crimes militares próprios. Como exemplos destes, têm-se: Abandono de posto (art. 195, do CPM) (Figura 1A), Dormir em serviço (art. 203, do CPM) (Figura 1B), Embriaguez em serviço (art. 202, do CPM) (Figura 1C). DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 2020 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR FIGURA 1 - CRIMES MILITARES PRÓPRIOS (A) Abandono de posto (art. 195, do CPM) (B) Dormir em serviço (art. 203, do CPM) (C) Embriaguez em serviço (art. 202, do CPM) FONTE: ADAPTADA DE PUBLIC DOMAINS VECTORS (2020); MONTEDO (2020); UNIVERSO HQ (2020). Em contrapartida, há aqueles crimes que possuem uma definição diferente no Código Penal Militar em relação à legislação penal comum, mas são considerados crimes militares impróprios por serem praticados por civis ou por militares. Por exemplos, há o crime de uso indevido de uniforme militar (art. 172, do CPM), sendo possível a conduta por militar ou civil, e o crime de criação de incapacidade física (art. 184, do CPM), conduta praticada apenas por civil. TÓPICO 1.3.2 - ART. 9º, INCISO II O Inciso II do Art. 9º do Código Penal Militar dispõe sobre os crimes com previsão tanto neste como também abrange aqueles crimes previstos na legislação penal. O inciso II diz que: II – os crimes previstos neste Código e os previstos na legislação penal, quando praticados: Para que esses delitos sejam da competência da Justiça Militar da União serão analisados com algumas condições, ou melhor, circunstâncias. A fim de facilitar o entendimento do assunto, veja a Figura 2: FIGURA 2 – CRIME MILITAR DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 2121 / / 9494 FONTE: O AUTOR (2020). Dessa maneira, o termo legislação penal é amplo, podendo abranger não apenas os crimes disciplinados no Código Penal Comum, mas também aqueles previstos em outras legislações, por exemplo, crimes do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), da Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/2019), da Lei de Licitações (Lei nº 11.133/2021), como também, a princípio, delitos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), dentre outros. Quanto a este último exemplo, Lei Maria da Penha, é explicado por Nucci (2019, p.35): Ser militar envolve inúmeras responsabilidades distintas da vida civil, justamente o motivo de existência da Justiça Especializada para julgar os delitos militares. Em qualquer cenário, o militar que agride o militar, ambos na ativa, deve ser julgado na Justiça castrense. Não vemosdiferença para tal finalidade se o militar-marido lesiona a militar-esposa dentro do quartel ou dentro da residência comum do casal. Trata-se de crime militar, embora reconheçamos a tendência de se deixar fora do âmbito militar as agressões existentes no cenário doméstico. (grifo nosso) Alerta! - A fim de esclarecer, didaticamente, cada um dos incisos e alíneas, vamos explicá-los por meio de exemplos hipotéticos e desenhos. Você identificou algum desses conceitos em seu ambiente de trabalho? Percebe como os assuntos jurídicos permeiam nosso dia a dia? Por isso é tão importante estudá-los sempre. ART. 9º, INCISO II, ALÍNEA “A” DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 2222 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR A alínea “a” dispõe sobre o crime praticado pelo militar da ativa1 contra militar da ativa (Figura 3). Conforme pode ser observado a seguir em sua transcrição: “por militar da ativa contra militar na mesma situação2”. FIGURA 3 - MILITAR DA ATIVA QUE PRATICA CRIME CONTRA MILITAR DA ATIVA FONTE: ADAPTADA DE DREAMSTIME (2020). A seguir, encontram-se dois exemplos de casos que se enquadram na alínea “a”: Exemplo 1: Cabo que, durante partida de futebol, desfere soco em um soldado desafeto (sabendo dessa qualidade de militar). Conduta do Cabo: Crime de “Lesão Corporal” – art. 209, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, II, alínea “a” do Código Penal Militar. Exemplo 2: Sargento de Dia, responsável pelo xadrez, que não cumpre alvará de soltura, injustificadamente, ou seja, mantém o militar preso além do tempo necessário. Conduta do Sargento: Crime de “Abuso de autoridade” – art. 12, inciso IV, da Lei nº 13.869/2019 combinado com o art 9º, inciso II, alínea “a”, do Código Penal Militar. Por fim, cabe esclarecer que o crime na situação de militar da ativa contra militar da ativa é controversa, isso porque, de acordo com o CPM, a única condição é a de ser militar em atividade, sem importar o local ou motivo pelo qual o crime tenha sido cometido. Entretanto, de 1 Conforme art. 6º, da Lei nº 6.880/80, “são equivalentes as expressões "na ativa", "da ativa", "em serviço ativo", "em serviço na ativa", "em serviço", "em atividade" ou "em atividade militar" , conferidas aos militares no desempenho de cargo, comissão, encargo, incumbência ou missão, serviço ou atividade militar ou considerada de natureza militar nas organizações militares das Forças Armadas, bem como na Presidência da República, na Vice-Presidência da República, no Ministério da Defesa e nos demais órgãos quando previsto em lei, ou quando incorporados às Forças Armadas”. 2 Segundo o art. 12, do CPM, “O militar da reserva ou reformado, empregado na administração militar, equipara-se ao militar em situação de atividade, para o efeito da aplicação da lei penal militar”. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 2323 / / 9494 modo diverso é o entendimento jurisprudencial. Assim, a fim de conhecimento, segue julgado sobre o assunto: Compete à Justiça Militar julgar crime cujo autor e vítima sejam militares, desde que ambos estejam em serviço e em local sujeito à administração militar. O mero fato de a vítima e de o agressor serem militares não faz com que a competência seja obrigatoriamente da Justiça Militar. O cometimento de delito por militar contra vítima militar somente será de competência da Justiça Castrense nos casos em que houver vínculo direto com o desempenho da atividade militar. STF. 1ª Turma. HC 135019/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 20/09/2016 (Info 840). ART. 9º, INCISO II, ALÍNEA “B” A alínea “b” dispõe sobre o crime praticado por militar da ativa contra militar da reserva ou reformado e civil (Figura 4), mas dentro da Organização Militar. A alínea “b” diz que: “por militar da ativa, em lugar sujeito à administração militar, contra militar da reserva ou reformado ou contra civil”. Os exemplos a seguir referem-se a casos que se enquadram na alínea “b”: Exemplo 1: Primeiro-Sargento dentro de uma organização militar compartilhando fotos de crianças com conteúdo pornográfico no computador de sua seção. Conduta do Sargento: crime de “Difusão de pedofilia” - art. 241-A do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) combinado com o art. 9º, II, alínea “b” do Código Penal Militar. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF FIGURA 4 - MILITAR DA ATIVA QUE PRATICA CRIME CONTRA MILITAR INATIVO OU CIVIL FONTE: ADAPTADA DE GARTIC (2020); SHUTTERSTOCK (2020); DEPOSITPHOTOS (2020); FREEPIK (2020). 2424 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Exemplo 2: Uma sargento, dentro da Seção de Pessoal, que vem a desrespeitar um Suboficial da Reserva, na frente de um soldado que também trabalha no setor. Conduta da Sargento: crime de “Desrespeito a superior” – art. 160, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, II, alínea “b” do Código Penal Militar. ART. 9º, INCISO II, ALÍNEA “C” A alínea “c” dispõe sobre o crime praticado por militar em serviço ou atuando em atividade de natureza militar ou formatura, contra militar da reserva ou reformado e civil, mas fora da Organização Militar (Figura 5). Na referida alínea consta que: “por militar em serviço ou atuando em razão da função, em comissão de natureza militar, ou em formatura, ainda que fora do lugar sujeito à administração militar contra militar da reserva, ou reformado, ou civil”. FIGURA 5 - MILITAR EM SERVIÇO, FORMATURA, ETC. QUE PRATICA CRIME CONTRA MILITAR INATIVO OU CIVIL FONTE: ADAPTADA DE DREAMSTIME (2020); DEPOSITPHOTOS (2020); FREEPIK (2020). O exemplo a seguir refere-se a um caso que se enquadra na alínea “c”: Exemplo: Soldado participando da segurança, durante o desfile de tropa armada, em formatura cívica de 7 de setembro, que, ao ver um antigo rival, dá voz de prisão sem justo motivo. Conduta do Soldado: crime de “Abuso de autoridade” – Art. 9º, da Lei nº 13.869/2019 combinado com o art. 9º, II, alínea “c” do Código Penal Militar. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 2525 / / 9494 ART. 9º, INCISO II, ALÍNEA “D” A alínea “d” dispõe sobre o crime praticado contra militar da reserva ou reformado ou civil, durante a realização de algum exercício ou manobra (Figura 6). A alínea “d” diz o seguinte: “por militar, durante o período de manobras ou exercício, contra militar da reserva ou reformado ou contra civil”. FIGURA 6 - MILITAR, DURANTE MANOBRA OU EXERCÍCIO, QUE PRATICA CRIME CONTRA MILITAR INATIVO OU CIVIL FONTE: ADAPTADA DE CANSTOCKPHOTO (2020); DEPOSITPHOTOS (2020); FREEPIK (2020). Como exemplo, de caso que se enquadra na alínea “d”, tem-se: Exemplo: Uma sargento participando de um exercício de adestramento da tropa, marcha a pé, ofende um suboficial da reserva (sem saber dessa qualidade) com as palavras de baixo calão (xingamentos). Conduta da Sargento: crime de “Injúria” – Art. 216, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, II, alínea “d” do Código Penal Militar. ART. 9º, INCISO II, ALÍNEA “E” A alínea “e” dispõe sobre o crime praticado por militar da ativa contra o patrimônio sob a administração militar (Figura 7). A referida alínea diz que: “por militar da ativa contra o patrimônio sob a administração militar ou contra a ordem DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 2626 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR administrativa militar”. FIGURA 7 - MILITAR DA ATIVA QUE PRATICA CRIME CONTRA PATRIMÔNIO SOB ADMINISTRAÇÃO MILITAR CONTRA A ORDEM ADMINISTRATIVA MILITAR FONTE: ADAPTADA DE PUBLIC DOMAIN VECTORS (2019); GARTIC (2020).A seguir, encontram-se dois exemplos de casos que se enquadram na alínea “e”: Exemplo 1: Uma militar, Primeiro-Sargento, responsável pelo processo licitatório e que dispensa licitação fora das hipóteses previstas em Lei, vindo a lesionar o patrimônio militar. Conduta da Sargento: Crime contra a Lei de Licitação – art. 337E, da Lei nº 11.133/2021 combinado com o art. 9º, II, alínea “e” do Código Penal Militar. Exemplo 2: Um Segundo-Sargento que, após ter discutido com a esposa, chega ao seu local de trabalho e quebra o computador da seção. Conduta do Sargento: crime de “Dano qualificado” – Art. 261, inciso III, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, II, alínea “e” do Código Penal Militar. TÓPICO 1.3.3 - ART. 9º, INCISO III O Inciso III dispõe sobre as condutas criminosas cometidas pelos militares da reserva ou reformado, bem como pelos civis, contra as instituições militares. Assim, compreende-se tanto os crimes dispostos no Código Penal Militar ou previstos de modo diverso na legislação penal, como também os crimes elencados em outras leis penais, desde que ocorram no contexto das circunstâncias que constam nas alíneas “a”, “b”, “c”, “d” e “e” do Inciso III descritas ao longo do texto. A transcrição do referido Inciso encontra-se a seguir: DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 2727 / / 9494 “os crimes praticados por militar da reserva, ou reformado, ou por civil, contra as instituições militares, considerando-se como tais não só os compreendidos no inciso I, como os do inciso II, nos seguintes casos:” Alerta! - A fim de esclarecer, didaticamente, cada um dos incisos e alíneas, vamos explicá-los por meio de exemplos hipotéticos e desenhos. ART. 9º, INCISO III, ALÍNEA “A” A alínea “a” trata da hipótese do militar da reserva, reformado ou civil que vem a cometer crime contra o patrimônio sob administração militar ou ordem administrativa militar (Figura 8). A referida alínea diz que: “contra o patrimônio sob a administração militar, ou contra a ordem administrativa militar.” DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 2828 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR FIGURA 8 - MILITAR INATIVO OU CIVIL QUE PRATICA CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO SOB A ADMINISTRAÇÃO MILITAR OU CONTRA A ORDEM ADMINISTRATIVA FONTE: ADAPTADA DE FREEPIK (2019); DEPOSITPHOTOS (2019); GARTIC (2020). A seguir, encontra-se um exemplo de caso que se enquadra na alínea “a”: Exemplo: Suboficial da Reserva Remunerada que, irritado com o atendimento de um Terceiro-Sargento, intencionalmente, ao sair do setor, bate a porta com força, vindo a danificá-la. Conduta do Suboficial: Crime de “Dano simples” - Art. 259, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, inciso III, alínea “a”, do Código Penal Militar. ART. 9º, INCISO III, ALÍNEA “B” A alínea “b” trata da hipótese do militar da reserva, reformado ou civil, dentro de uma Organização Militar, que comete crime contra militar da ativa ou funcionário da Justiça Militar, exercendo a sua função (Figura 9). Na alínea “b” consta que: “em lugar sujeito à administração militar, contra militar da ativa ou contra servidor público das instituições militares ou da Justiça Militar, no exercício de função inerente ao seu cargo”. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 2929 / / 9494 FIGURA 9 - MILITAR INATIVO OU CIVIL QUE PRATICA CRIME, EM LUGAR SUJEITO À ADMINISTRAÇÃO MILITAR, CONTRA MILITAR DA ATIVA OU CONTRA SERVIDOR PÚBLICO DAS INSTITUIÇÕES MILITARES OU DA JUSTIÇA MILITAR. O PATRIMÔNIO SOB A ADMINISTRAÇÃO MILITAR OU CONTRA A ORDEM ADMINISTRATIVA FONTE: ADAPTADA DE GARTIC (2019); GOGRAPH (2020); PUBLIC DOMAIN VECTORS (2019); DEPOSIT PHOTOS (2020). Como exemplo de caso que se enquadra na referida alínea, tem-se: Exemplo: civil que, ao entrar em uma Organização Militar, não cumpre a ordem da sentinela que se encontrava no portão da guarda. Conduta do civil: Crime de “Oposição a ordem de sentinela1” - Art. 164, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, inciso III, alínea “b”, do Código Penal Militar. ART. 9º, INCISO III, ALÍNEA “C” A alínea “c” trata de militar da reserva, reformado ou civil que comete crime contra militar em: formatura, durante período de prontidão, acampamento, dentre outras hipóteses (Figura 10). A referida alínea encontra-se transcrita a seguir: “contra militar em formatura, ou durante o período de prontidão, vigilância, observação, exploração, exercício, acampamento, acantonamento ou manobras.” 1 Oposição a ordem de sentinela Art. 164. Opor-se às ordens da sentinela: Pena – detenção, de seis meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 3030 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR FIGURA 10 - MILITAR INATIVO OU CIVIL QUE PRATICA CRIME CONTRA MILITAR EM FORMATURA, DURANTE PERÍODO DE PRONTIDÃO, ETC. FONTE: ADAPTADA DE FREEPIK (2020); DEPOSITPHOTOS (2020); FREEPIC (2020). Como exemplo de caso que se enquadra na referida alínea “c”, tem-se: Exemplo: civil que agride fisicamente militar em formatura, participando da comissão de recebimento de convidados. Conduta do civil: Crime de “Lesão corporal” - Art. 209, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, inciso III, alínea “c”, do Código Penal Militar. ART. 9º, INCISO III, ALÍNEA “D” Alínea “d” trata do caso em que o militar da reserva, reformado ou civil, fora da organização militar, comete crime contra militar em serviço de natureza militar (Figura 11). A alínea “e” encontra-se transcrita a seguir: “ainda que fora do lugar sujeito à administração militar, contra militar em função de natureza militar, ou no desempenho de serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública, administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para aquele fim, ou em obediência à determinação legal superior.” DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 3131 / / 9494 FIGURA 11 - MILITAR INATIVO OU CIVIL QUE PRATICA CRIME CONTRA MILITAR EM FUNÇÃO DE NATUREZA MILITAR, OU NO DESEMPENHO DE SERVIÇO DE VIGILÂNCIA, ETC. FONTE: ADAPTADA DE FREEPIK (2019); DEPOSITPHOTOS (2019); FREEPIK (2020). Como exemplo de caso que se enquadra na alínea “d”, tem-se: Exemplo: Um civil (dependente de militar), dentro de viatura militar, vem a desrespeitar o Cabo (motorista) responsável pela condução do veículo durante o trajeto até o hospital da FAB em outra cidade. Conduta do civil: Crime de “Desacato” - Art. 299, do Código Penal Militar combinado com o art. 9º, inciso III, alínea “d”, do Código Penal Militar. TÓPICO 1.3.4 - CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA O Código Penal Militar trata, em especial, sobre a competência da Justiça Comum para processar e julgar crimes militares que sejam dolosos contra a vida de civil. Além disso, é uma previsão constitucional disposta no art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “d”, da Constituição Federal (CF/88): XXXVIII - é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados: [...] d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida; (grifo nosso) Entretanto, a competência da Justiça Militar da União foi alterada, por meio da Lei nº 13.491/2017, passando a processar e julgar crimes dolosos contra a vida de civil, diante de algumas circunstâncias. Assim, foi incluído o parágrafo 2º no art. 9º, do CPM, conforme será esclarecido no item 1.2.4.1. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 3232 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Inicialmente,os crimes dolosos contra a vida no Código Penal Militar estão dispostos nos artigos 205, 207 e 208, sendo eles: - Homicídio simples Art. 205. Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a vinte anos. - Provocação direta ou auxílio a suicídio Art. 207. Instigar ou induzir alguém a suicidar-se, ou prestar-lhe auxílio para que o faça, vindo o suicídio consumar-se: Pena - reclusão, de dois a seis anos. - Genocídio Art. 208. Matar membros de um grupo nacional, étnico, religioso ou pertencente a determinada raça, com o fim de destruição total ou parcial desse grupo: Pena - reclusão, de quinze a trinta anos. Diante dessa análise prévia, vamos estudar cada um dos parágrafos do dispositivo mencionado. ART. 9º, PARÁGRAFO 1º O parágrafo 1° do Art. 9° encontra-se enunciado a seguir: “Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri”. Em continuidade com o estudo do art. 9º, §, do Código Penal Militar diz respeito aos crimes dolosos contra a vida, pois, embora sejam crimes militares no contexto das hipóteses do DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 3333 / / 9494 inciso II do art. 9º, o Inquérito Policial Militar ou o Auto de Prisão em Flagrante será remetido à Justiça Militar da União, para que sejam analisados os fatos e, posteriormente, se comprovado o crime doloso contra vida, os autos deverão remetidos à Justiça Comum, que possui a competência para processar e julgar. Nesse sentido, é respondido o questionamento trazido por Neves (2018): “pode haver exercício de polícia judiciária militar em casos de crimes que não sejam de competência da Justiça Militar? A resposta é em sentido afirmativo, e diz respeito ao crime doloso contra vida de civil (p.282)”. Alerta! - O §2º, do art. 82, do Código de Processo Penal Militar: “Nos crimes dolosos contra a vida, praticados contra civil, a Justiça Militar encaminhará os autos do inquérito policial militar à justiça comum”. A fim de esclarecer, vamos para a seguinte situação hipotética: Exemplo: Oficial médico militar que realiza aborto em Sargento grávida, com o seu consentimento, em um hospital militar. Conduta do Oficial: Crime de “aborto com o consentimento da gestante” - art. 126, do Código Penal combinado com o art. 9º, II, alínea “b”, do Código Penal Militar Conduta da Sargento: crime de “Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento” - art. 124, do Código Penal comum combinado com o art. 9º, II, alínea “b” do Código Penal Militar. Nesse caso, em tese, trata-se de crime militar, pois os autores são militares, o crime ocorreu dentro de hospital militar, contra civil (feto). Contudo, conforme § 1º, do art. 9º, do CPM, a competência para processar e julgar será do Tribunal do Júri. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 3434 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Alerta! - O Crime de aborto não tem previsão no Código Penal Militar, mas, sim, no Código Penal comum. Trata-se de um homicídio doloso contra a vida. ART. 9º, PARÁGRAFO 2º O parágrafo 2° do art. 9° do Código Penal Militar encontra-se transcrito a seguir: §2 Os crimes militares de que trata este artigo, incluídos os previstos na legislação penal, nos termos do inciso II do caput deste artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto: I – do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa; II – de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou III – de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: a) Lei no 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica; b) Lei Complementar no 97, de 9 de junho de 1999; c) Decreto-Lei no 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo Penal Militar; e d) Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral. Feita a leitura do dispositivo, o parágrafo 2º dispõe que o crime doloso contra a vida de civil, se cometidos por militares contra civis, no contexto das circunstâncias supracitadas, não DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 3535 / / 9494 serão da competência do Tribunal do Júri (parágrafo 1º), mas, sim, da competência da Justiça Militar da União (Figura 12). FIGURA 12 - JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO FONTE: VLADIMIRARAS (2017). Continuando o estudo, o inciso I (Figura 13) do parágrafo 2° do art. 9°dispõe: “do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa”. Como exemplo de caso que se enquadra no inciso I, tem-se: Exemplo: Um militar das Forças Armadas atuando em operações de primeiros socorros em caso de calamidade pública e venha, durante as atividades, cometer um homicídio doloso contra a vida de civil. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 3636 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR FIGURA 13 - CONHECENDO A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO EM QUADRINHOS FONTE: DSPACE (2020). O inciso II trata: “de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante”. A seguir, encontra-se um exemplo que se enquadra no inciso II (Figura 14): Exemplo: Soldado, sentinela de um paiol, que realiza disparo e mata uma pessoa (civil) que adentrava clandestinamente no quartel. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 3737 / / 9494 FIGURA 14 - CRIME PRATICADO NA SITUAÇÃO DE SEGURANÇA DE INSTITUIÇÃO MILITAR OU MISSÃO MILITAR FONTE: ADAPTADA DE CANSTOCKPHOTO (2020); FREEPIK (2020). Por fim, o inciso III trata: “de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: a) Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica; b) Lei Complementar nº 97, de 9 de junho de 1999; c) Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo Penal Militar; e d) Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral A seguir, encontram-se exemplos para cada uma das alíneas do inciso III: a) Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986 – Código Brasileiro de Aeronáutica 1 : Exemplo: Aeronave clandestina que adentra no espaço aéreo e, após todos os procedimentos e tiro de advertência, vem a ser abatida, causando a morte do piloto (Figura 15). 1 Código Brasileiro de Aeronáutica: "http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L7565.htm DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L7565.htm 3838 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Apenas para colaborar com o tema, o abate de aeronaves está regulamentada por meio do Decreto nº 5.144/2004. FIGURA 15 – ABATE DE AERONAVE FONTE: ADAPTADA DE STOCKFRESH (2020); ASAS DE FERRO (2020). b) Lei Complementar nº 97, de 9 de junho de 19991 - Emprego das Forças Armadas (atividades subsidiárias) (Figura 16): Exemplo 1: Sargento que comete homicídio doloso contra vida de civil durante operação de segurança no combatede crime transfronteiriço. Exemplo 2: homicídio doloso contra vida de civil, em uma comunidade do Rio de Janeiro, durante operação de garantia da lei e da ordem. FIGURA 16 - CRIME PRATICADO EM SITUAÇÃO DE ATIVIDADE SUBSIDIÁRIA FONTE: ADAPTADA DE DREAMSTIME (2020); FREEPIK (2019). c) Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969 – Código de Processo Penal Militar 2 : 1 Lei Complementar nº 97, 09.06.1999: "http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LCP/Lcp97.htm" 2 Código de Processo Penal Militar: "http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del1002.htm" DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del1002.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LCP/Lcp97.htm EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 3939 / / 9494 Exemplo: Durante o cumprimento de um mandado de prisão de um sargento, o militar, executante do mandado, vem a matar civil que o agrediu na tentava de impedir a prisão do sargento. d) Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 – Código Eleitoral 1 : Exemplo: Durante o processo de levar as urnas eletrônicas em locais inóspitos, um militar que realizava a segurança mata dolosamente um civil (Figuras 17 e 18). FIGURA 17 – URNA ELETRÔNICA FIGURA 18 - FAB AUXILIA NO TRANSPORTE DE URNAS PARA O SEGUNDO TURNO FONTE: FAB (2020). FONTE: FAB (2020). Você percebe como os assuntos estão relacionados com nosso cotidiano? Pelos exemplos, vimos que muitas situações hipotéticas usadas como exemplos são bem razoáveis de acontecerem na realidade, não acha? Por isso é melhor estudar bastante e compreender esse assunto tão importante em nossas vidas! 1 Código Eleitoral: "http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L4737.htm" DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L4737.htm 4040 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR Vamos fazer algumas anotações! - Procure no conteúdo estudado as palavras- chave que melhor representam o que foi estudado até aqui. - Faça uma lista dessas palavras-chave seguida de um breve comentário. - A partir da leitura delas, tente reconstruir o que foi visto. Agora, que tal uma pausa? Parabéns por ter avançado até aqui! Está na hora de fazer uma pausa. Lembre-se de que o descanso e a reflexão fazem parte do estudo. Está na hora de resumir! A partir de suas anotações, reconstrua com suas palavras todo o estudo em um ou dois parágrafos, ou se referir, elabore um mapa mental ou um infográfico sobre o texto. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 4141 / / 9494 CAPÍTULO 2 - CÓDIGO DE PROCESSO PENAL MILITAR Nesse segundo capítulo estudaremos sobre o Código de Processo Penal Militar. Ao final do capítulo, você deverá ser capaz de descrever os principais procedimentos administrativos previstos no Código Penal Militar. Vamos juntos nessa? TÓPICO 2.1 - POLÍCIA JUDICIÁRIA MILITAR Diante de um crime, é dever1 do militar agir repressivamente, por meio do poder de polícia judiciária militar. Antes de adentrar ao tema, é importante esclarecer que há o poder de polícia e o poder da polícia (Figura 19). FIGURA 19 – DIFERENÇA PODER DE POLÍCIA E PODER DA POLÍCIA FONTE: O AUTOR (2020). O Poder de polícia está relacionado aos direitos relativos à liberdade e à propriedade. Assim, segundo Marinela (2016, p.285), o poder de polícia é “um instrumento conferido ao 1 Conforme art. 243, do CPPM: “Qualquer pessoa poderá e os militares deverão prender quem for insubmisso ou desertor, ou seja, encontrado em flagrante delito”. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 4242 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR administrador que lhe permite condicionar, restringir, frenar o exercício de atividade, o uso e o gozo de bens e direitos pelos particulares, em nome do interesse da coletividade”. O conceito de poder de polícia é encontrado no art. 78, do Código Tributário Nacional (CTN): Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. Como exemplos1 de atos de poder de polícia, temos as normas regulando o uso de fogos de artifício ou que proíbem soltar balões, interdição de hotel utilizado para prática de crimes, fechamento de estabelecimento comercial que é aberto sem respeitar as regras sanitárias, vistoria de veículos, dentre outros. De modo bem diferente, o Poder da polícia está relacionado à repressão de um ilícito penal; desta forma, a Polícia Judiciária atua como auxiliar da Justiça. Assim, conforme conceituado por Neves (2018, p. 288),“o exercício da polícia judiciária inicia-se após a ocorrência do fato criminoso, buscando, pois, investigar as circunstâncias do crime, com o escopo de indicar a verdade dos fatos, de esclarecer se ele ocorreu (materialidade) e, nesse caso, quem o praticou (autoria)”. Conforme art. 8º do Código de Processo Penal Militar, são competências da polícia judiciária militar: Art. 8º Compete à Polícia judiciária militar: a) apurar os crimes militares, bem como os que, por lei especial, estão sujeitos à jurisdição militar, e sua autoria; b) prestar aos órgãos e juízes da Justiça Militar e aos membros do Ministério Público as informações necessárias à instrução e julgamento dos processos, bem como realizar as diligências que por eles lhe forem requisitadas; c) cumprir os mandados de prisão expedidos pela Justiça Militar; 1 MARINELA, Fernanda. Direito Administrativo. 10 ed., São Paulo: Saraiva, 2016. p. 288. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 4343 / / 9494 d) representar a autoridades judiciárias militares acerca da prisão preventiva e da insanidade mental do indiciado; e) cumprir as determinações da Justiça Militar relativas aos presos sob sua guarda e responsabilidade, bem como as demais prescrições deste Código, nesse sentido; f) solicitar das autoridades civis as informações e medidas que julgar úteis à elucidação das infrações penais, que esteja a seu cargo; g) requisitar da polícia civil e das repartições técnicas civis as pesquisas e exames necessários ao complemento e subsídio de inquérito policial militar; h) atender, com observância dos regulamentos militares, a pedido de apresentação de militar ou funcionário de repartição militar à autoridade civil competente, desde que legal e fundamentado o pedido. Ao analisar o artigo, percebe-se que a principal competência da polícia judiciária é a repressão de crime militar, mas também outras funções são importantes na atuação de auxiliar da justiça castrense. Ainda, importante acrescentar que a polícia judiciária militar é exercida pelas autoridades elencadas no art. 7º, do Código de Processo Penal Militar, significando que são as autoridades originárias. Segue o artigo: Art. 7º A polícia judiciária militar é exercida nos termos do art. 8º, pelas seguintes autoridades, conforme as respectivas jurisdições: a) pelos ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, em todo o território nacional e fora dele, em relação às forças e órgãos que constituemseus Ministérios, bem como a militares que, neste caráter, desempenhem missão oficial, permanente ou transitória, em país estrangeiro; b) pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, em relação a entidades que, por disposição legal, estejam sob sua jurisdição; c) pelos chefes de Estado-Maior e pelo secretário-geral da Marinha, nos órgãos, forças e DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 4444 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR unidades que lhes são subordinados; d) pelos comandantes de Exército e pelo comandante-chefe da Esquadra, nos órgãos, forças e unidades compreendidos no âmbito da respectiva ação de comando; e) pelos comandantes de Região Militar, Distrito Naval ou Zona Aérea, nos órgãos e unidades dos respectivos territórios; f) pelo secretário do Ministério do Exército e pelo chefe de Gabinete do Ministério da Aeronáutica, nos órgãos e serviços que lhes são subordinados; g) pelos diretores e chefes de órgãos, repartições, estabelecimentos ou serviços previstos nas leis de organização básica da Marinha, do Exército e da Aeronáutica; h) pelos comandantes de forças, unidades ou navios; Delegação do exercício § 1º Obedecidas às normas regulamentares de jurisdição, hierarquia e comando, as atribuições enumeradas neste artigo poderão ser delegadas a oficiais da ativa, para fins especificados e por tempo limitado. § 2º Em se tratando de delegação para instauração de inquérito policial militar, deverá aquela recair em oficial de posto superior ao do indiciado, seja este oficial da ativa, da reserva, remunerada ou não, ou reformado. […] Na maioria das Organizações Militares, o Comandante, Chefe ou Diretor delega a competência aos oficiais da ativa, para fins especificados e por tempo limitado. Assim, como exemplo, temos o caso do inquérito policial militar, em que é delegada a competência de encarregado ao oficial. Outro exemplo de delegação de competência é o caso da presidência do auto de prisão em flagrante recair sobre o Oficial de Dia1. 1 Presidente do auto de prisão em flagrante delito: item 2.4, do Manual de Polícia Judiciária Militar. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 4545 / / 9494 Recapitulando, a polícia judiciária poderá ser exercida por meio de procedimentos administrativos, sendo eles: inquérito policial militar, auto de prisão em flagrante delito, instrução provisória de deserção e instrução provisória de insubmissão1. Assim, o militar exercerá o poder da polícia ao: ➢ dar voz de prisão diante de um fragrante delito; ➢ capturar quem se encontre em estado de deserção ou insubmissão; ➢ instaurar Inquérito Policial Militar (autoridade competente). É importante ter em mente que, diante de indícios de crime, o militar de serviço atua com competência de polícia judiciária militar e deverá reprimir a conduta criminosa. Se for o caso, deverá comunicar a autoridade sobre os fatos para eventual abertura de inquérito policial militar. Entretanto, caso haja situação de flagrância, o militar deverá proceder com a voz de prisão. Caso haja omissão, ou seja, não realiza a voz de prisão, o militar poderá responder pelo crime de prevaricação (art. 319, do Código Penal Militar), isto é, deixou de realizar ato legal por interesse pessoal. Como exemplo da doutrina, Nucci (2019) explana sobre a “conduta do delegado que, devendo instaurar inquérito policial, ao tomar conhecimento da prática de um crime de ação pública incondicionada, não o faz, porque não quer trabalhar demais (p.588).” No próximo tópico, iniciaremos o estudo do Inquérito Policial Militar. Exercícios para Aprendizagem Bem, agora que você já cumpriu uma etapa da missão, que tal avaliar seu grau de assimilação em relação ao conteúdo que foi visto neste início de capítulo? Não se preocupe caso não saiba responder prontamente. O importante é que você resolva as questões a seguir. 1 Para melhor compreensão sobre a Instrução Provisória de Insubmissão, leia as páginas 55 a 59 do Manual de Polícia Judiciária Militar. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF 4646 / / 9494 CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO EEAREEAR 1. Descreva com as suas palavras as competências da Polícia Judiciária Militar. Não apenas as relacione, mas busque descrevê-las em um único texto discursivo. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 2. Destaque o conceito de Crime Militar, relacionando-o com o princípio da legalidade. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 3. Descreva três situações exemplos onde um militar exerça o poder de polícia. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ TÓPICO 2.2 - INTRODUÇÃO AO INQUÉRITO POLICIAL MILITAR O Inquérito Policial Militar (IPM) é um procedimento administrativo investigatório no qual fornece os elementos necessários para propositura da ação penal (Figura 20). Assim dispõe o art. 9º, do CPPM: “Art. 9º O inquérito policial militar é a apuração sumária de fato, que, nos termos legais, configure crime militar, e de sua autoria. Tem o caráter de instrução provisória, cuja finalidade precípua é a de ministrar elementos necessários à propositura da ação penal.” FIGURA 20 – FINALIDADE DO IPM FONTE: O AUTOR (2020). Esse procedimento tem natureza inquisitiva, pois não há contraditório. O Encarregado pode dirigir as investigações de acordo com o que entender pertinente para solução do caso. Assim, por exemplo, é possível a inquirição de quantas testemunhas forem necessárias. DIVISÃO DE ENSINO DE PÓS FORMAÇÃO - DEPF EEAREEAR CECEGG – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO – DIREITO PENAL MILITAR E ADMINISTRATIVO 4747 / / 9494 Nos termos do art. 16, do CPPM, o inquérito é de caráter sigiloso, contudo o seu encarregado pode permitir que dele tome conhecimento o advogado do indiciado. Assim, ainda que inquisitorial, o investigado, por meio de seu Advogado, pode acompanhar os procedimentos, conforme assegurado pelo inciso XIV do art. 7º, do Estatuto da OAB: XIV - examinar, em qualquer instituição responsável por conduzir investigação, mesmo sem procuração, autos de flagrante e de investigações de qualquer natureza, findos ou em andamento, ainda que conclusos à autoridade, podendo copiar peças e tomar apontamentos, em meio físico ou digital; Ademais, é direito expresso do Advogado, nos termos do inciso XXI do art. 7º, do Estatuto do advogado1, assistir seu cliente investigado no interrogatório ou depoimento, bem como apresentar razões e quesitos. Diante disso, cabe ao Encarregado conduzir o Inquérito com flexibilidade nas investigações, mas obedecendo aos parâmetros legais. Por esse motivo esclarece Lima (2015, p. 109): “apesar de o inquérito policial não obedecer a uma ordem legal rígida para a realização dos atos, isso não lhe retira a característica de procedimento, já que o legislador estabelece uma sequência lógica para a sua instauração, desenvolvimento e conclusão” (grifo nosso). Por conseguinte, ainda que haja flexibilidade para conduzir as investigações, o Encarregado tem que seguir os atos procedimentais. Desse modo, com a finalidade de padronizar os inquéritos realizados em organizações militares das Forças