Prévia do material em texto
Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 1 PROCESSO DE EXECUÇÃO 1. NOÇÃO INTRODUTÓRIA Conceitos - Cândido Rangel Dinamarco “conjunto de atos estatais através de que, com ou sem o concurso da vontade do devedor (e até contra ela), invade-se seu patrimônio para, à custa dele, realizar-se o resultado prático desejado concretamente pelo direito objetivo material”. - José Miguel Garcia Medina “A tutela jurisdicional executiva consiste na prática de atos jurisdicionais tendentes à realização material do direito atual ou potencialmente violado. Deste conceito depreende-se que a tutela jurisdicional executiva: (a) realiza- se não só com o intuito de ver restaurado um direito violado, como também para impedir a ocorrência de tal violação; (b) abrange não apenas o resultado da execução forçada (= realização material do direito do demandante), mas também os meios tendentes à sua obtenção.” O processo de execução é resultado de uma longa evolução cuja ideia mestra foi a da humanização da execução, que de pessoal evoluiu para patrimonial. Por outro lado, procuram os legisladores atender, o quanto possível, a mais perfeita satisfação do crédito, a fim de que o resultado objetivo do processo seja o mais próximo possível do cumprimento voluntário da obrigação. O processo de execução corresponde ao Livro II do Código: ✓ Tem ele uma parte geral, aplicável, em tese, a qualquer espécie de execução e, em seguida, o tratamento específico das diversas espécies de execução segundo a natureza da obrigação que deve ser satisfeita. ✓ Título I - Da execução em geral (CPC, art. 771 a 796); ✓ Título II - Das diversas espécies de execução (CPC, art. 797 a 913); ✓ Título III - Dos embargos à execução (CPC, art. 914 a 920); Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 2 ✓ Título IV - Da suspensão e da extinção do processo de execução (CPC, art. 921 a 925). O livro II da Parte Especial do CPC regula o procedimento da execução fundada em título extrajudicial, e suas disposições aplicam-se, também, no que couber, aos procedimentos especiais de execução, aos atos executivos realizados no procedimento de cumprimento de sentença, bem como aos efeitos de atos ou fatos processuais a que a lei atribuir força executiva, conforme disposto no CPC, Art. 771, destacando-se que aplicam-se subsidiariamente à execução as disposições do Livro I da Parte Especial. Cumpre destacar que "a atividade jurisdicional nele exercida é exclusivamente voltada à satisfação de um direito substancial enunciado em um específico documento designado pela lei de título executivo extrajudicial" Tal fase executiva, posterior à sentença, chama-se cumprimento de sentença. O CPC disciplina o cumprimento de sentença nos art. 513 a 538, e o processo de execução nos art. 771 a 925. Apenas a execução de títulos executivos extrajudiciais exige processo novo e autônomo. As normas gerais do processo de conhecimento aplicam-se subsidiariamente naquilo em que não forem incompatíveis com o processo de execução. (art. 318, parágrafo único). • O juiz exerce, de maneira normal, os seus poderes de impulso oficial, direção do processo e dever de velar pela igualdade das partes. O contraditório desenvolve- se de maneira peculiar, compatível com a necessidade de se satisfazer o crédito constante do título, de modo que não tem ele as mesmas faculdades próprias do processo de conhecimento em que ainda não se definiu quem tem razão. Todavia estará ele presente, podendo utilizar-se dos meios de defesa previstos na lei, adequados e compatíveis com a natureza e finalidade do processo executivo, qual seja a da satisfação do crédito. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 3 ESPÉCIE DE EXECUÇÃO Uma vez a sentença prolatada, com uma definição jurídica sobre a questão – ainda que somente de extinção, há a possibilidade de se pleitear o cumprimento desta, com a finalidade de que o que foi proferido pelo juízo. Com o trânsito em julgado daquela decisão, esta se torna um título judicial executivo, com força para possibilitar a busca pela efetividade daquele direito decidido na sentença (ou qualquer decisão de mesmo valor). Esta fase inicia-se, em regra, mediante a iniciativa da parte vencedora, que agora passar a denominar-se de exequente, com a necessidade de impulso sobre o feito para que inicie-se a fase de cumprimento, seja de sentença ou de uma decisão. ➔ Cumprimento de sentença: É o ato de executar uma determinação judicial exteriorizada em sentença. O cumprimento de sentença é a fase em que aquilo que foi estabelecido pelo juízo seja realizado no mundo real. Para Cássio Escarpinella Bueno (2008, p. 164), as expressões “execução” e “cumprimento de sentença” são sinônimas. Ambas estão a descrever o desencadeamento da atividade jurisdicional com vistas à satisfação do credor naqueles casos em que, a despeito do título executivo, o devedor não cumpre a obrigação nele retratada. O Cumprimento de sentença corresponde ao Livro I do Código: ✓ Título II – Capítulo I - parte geral, aplicável, em tese, a qualquer cumprimento de sentença, em seguida, o tratamento específico das diversas espécies de cumprimento de sentença segundo a natureza da obrigação que deve ser satisfeita (CPC, art. 513 a 519); ✓ Capítulo II - Do cumprimento provisório da sentença que reconhece a exigibilidade de obrigação de pagar quantia certa (CPC, art. 520 a 522); Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 4 ✓ Capítulo III - Do cumprimento definitivo da sentença que reconhece a exigibilidade de obrigação de pagar quantia certa (CPC, art. 523 a 527); ✓ Capítulo IV - Do cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de obrigação de prestar alimentos (CPC, art. 528 a 533); ✓ Capítulo V - Do cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de obrigação de pagar quantia certa pela fazenda pública (CPC, art. 534 a 535); ✓ Capítulo VI - Do cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de obrigação de fazer, de não fazer ou de entregar coisa (CPC, art. 536 a 538). 3. TÍTULO EXECUTIVO No direito processual civil existem duas espécies de títulos executivos: judiciais (CPC, art. 515), e extrajudiciais (CPC, art. 784): O título executivo judicial é formado pelo juiz, por meio de atuação jurisdicional, enquanto o título executivo extrajudicial é formado por ato de vontade das partes envolvidas na relação jurídica de direito material, sem nenhuma intervenção jurisdicional. ➔ Provisória e definitiva: Execução provisória (cumprimento de sentença provisório) é a execução fundada em título executivo judicial provisório, ou seja, a decisão judicial que pode ser modificada ou anulada em razão da pendência de um recurso interposto contra ela, ou seja, é a execução baseada em sentença não transitada em julgado, cujo recurso foi recebido apenas no efeito devolutivo. Proferida uma decisão judicial executável e não havendo a interposição de recurso, verifica-se o seu trânsito em julgado, passando a partir desse momento a ser cabível a execução definitiva. ➔ Os procedimentos são diferentes, embora aplique-se subsidiariamente ao cumprimento da sentença, no que couber, as normas que regem o processo de execução de título extrajudicial (CPC, Art. 771 e Art. 513). Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 5 ➔ Porém os princípios, competência e legitimidade aplicáveis à Execução extrajudicial também são admissíveis ao cumprimento de sentença provisório e definitivo. Natureza Jurídica - possui natureza jurisdicional eis que, como sabido, a jurisdição é a função estatal onde o Estado substituindo a vontade das partes faz atuar a vontadea espécie de execução – quantia certa, fazer, não fazer, entrega de coisa – e determinar sobre qual bem se farão incidir os atos executivos. ➢ LIQUIDEZ: Consiste na prévia determinação e individualização do valor ou do objeto, ou seja, o “quanto se deve” ou “o que se deve”. Não é necessário que o título indique com precisão o quantum debeatur, mas que contenha elementos que possibilitem tal fixação. A necessidade de elaboração de meros cálculos aritméticos não tira a liquidez do título, na expressa previsão do art. 786, parágrafo único, CPC/2015. ➢ EXIGIBILIDADE: Se está ou não vencido o crédito, se há ou não condições, inexistência de impedimento à eficácia atual da obrigação, que resulta do seu inadimplemento Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 35 e da ausência de termo, condição ou contraprestação. É a necessidade do interesse de agir. (arts 514, 798, I, CPC/2015) 3. INADIMPLEMENTO DO DEVEDOR Para se realizar qualquer execução é preciso se verificar o inadimplemento do devedor (art. 786). Considera-se inadimplente, o devedor que não satisfaz espontaneamente o direito reconhecido pela sentença ou a obrigação a que a lei atribuir a eficácia de título executivo. No aspecto temporal, o inadimplemento se dá a partir do vencimento do título ou do momento de sua exigibilidade, daí se produzindo os efeitos decorrentes dessa situação, como, por exemplo, os juros. São títulos executivos judiciais (Art. 515, CPC/2015): ✓ As decisões proferidas no processo civil que reconheçam a exigibilidade de obrigação de pagar quantia, de fazer, de não fazer ou de entregar coisa (Art. 515, I do CPC/2015): Trata-se da sentença ou acórdão, ou mesmo decisão em sede de tutela provisória, que reconheça a exigibilidade da obrigação de dar (pagar ou entregar coisa) fazer e não fazer. Além disso, a natureza condenatória de uma sentença não se restringe àquelas proferidas em ações de conhecimento de cunho condenatório, a exemplo da sentença declaratória em que a parte derrotada deve pagar custas e honorários advocatícios, o mesmo ocorrendo em ações em que se cumulam pedidos de naturezas diversas, a exemplo da rescisão de contrato (constitutiva negativa) cumulada com condenação em perdas e danos (condenatória). ✓ A decisão homologatória de autocomposição judicial (Art. 515, II do CPC/2015): O Novo CPC estimula a autocomposição em vários de seus dispositivos, ou seja, a solução proposta pelos próprios litigantes durante o processo (autocomposição endoprocessual). A sentença que homologa acordo entre os litigantes é de mérito, prevista no CPC/2015, art. 487, III, podendo ser objeto de cumprimento de sentença caso não seja executada espontaneamente pelas partes. Um exemplo de autocomposição endoprocessual é a transação: a forma de extinção das obrigações por meio de concessões mútuas, correspondendo ao acordo celebrado entre as partes antes em conflito com sacrifícios recíprocos. As partes podem transacionar sobre assuntos que não fazem parte do objeto da ação, e ainda assim a sentença será válida e terá eficácia executiva. ✓ A decisão homologatória de autocomposição extrajudicial de qualquer natureza (Art. 515, III do CPC/2015): Esse título executivo judicial só pode ser formado por acordo de vontade entre as partes que concordam com a formação do título executivo judicial. As partes devem levar a juízo o referido acordo, processado por procedimento de jurisdição voluntária, pois neste caso as partes pretendem a obtenção de um mesmo bem da vida que é o título executivo judicial. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 36 ✓ O formal e a certidão de partilha, exclusivamente em relação ao inventariante, aos herdeiros e aos sucessores a título singular ou universal (Art. 515, IV do CPC/2015): Formal de partilha é um pronunciamento judicial que encerra o processo de arrolamento ou inventário e contém a adjudicação do quinhão sucessório aos herdeiros. Certidão de partilha substituirá o formal nos pequenos inventários ou arrolamentos. Cabe destacar que "o formal e a certidão podem ser entendidos como expressões sinônimas. Nos termos do parágrafo único do art. 655 o formal de partilha pode ser substituído por certidão, quando o quinhão hereditário a ser pago não exceder a cinco vezes o salário mínimo. ✓ O crédito de auxiliar da justiça, quando as custas, emolumentos ou honorários tiverem sido aprovados por decisão judicial (Art. 515, V do CPC/2015): Na prática forense os honorários de auxiliares do Juízo (perito, intérprete, tradutor) geralmente são depositados antes do trabalho, não sendo este realizado sem o devido depósito prévio do valor determinado por ordem judicial. Mas na hipótese deles serem arbitrados por decisão judicial, tal decisão comportará pedido de cumprimento de sentença, caso não haja adimplemento voluntário. ✓ A sentença penal condenatória transitada em julgado (Art. 515, VI do CPC/2015): A sentença penal condenatória transitada em julgado possui como efeito secundário a criação de um título executivo na jurisdição civil, mesmo que nenhum a referência a isso tenha sido feita na jurisdição penal. Tal sentença exige liquidação, pois o quantum debeatur (“ quanto se deve ” ou “ oque se deve ”) não é debatido ou fixado na seara penal. Sabe-se que o CPP sofreu alteração pela Lei 11.719/2008 ao tratar de um “ valor mínimo ” a ser fixado pelo juiz criminal para a satisfação do ofendido, nos art. 63 e 387, IV do CPP, existindo doutrina que admite não ser obrigatório, uma vez que “o juízo penal está preocupado com questões diversas daquelas referentes à responsabilidade civil, não sendo legítimo nem benéfico que passe a partir de agora a se preocupar com tais questões. Significa dizer que para a fixação do valor mínimo dos prejuízos do ofendido o juiz penal não deve se desviar da condução tradicional do processo penal, voltada à análise dos elementos necessários para a condenação ou absolvição do acusado. Se porventura nessa análise tiver condições de fixar o valor mínimo, assim o fará, mas não reunindo tais condições, parece ser aconselhável o entendimento de que não haverá qualquer vício procedimental em sua omissão” . Além disso a sentença proferida no juízo penal atinge apenas a pessoa do condenado na esfera criminal, não podendo a execução recair sobre patrões, pais, etc, e caso a vítima pretenda acionar-lhes na esfera cível, será obrigado a promover ação de conhecimento buscando sentença condenatória. O título executivo é formado exclusivamente contra o condenado na esfera penal. Em caso de revisão criminal que declare a absolvição daquele que fora anteriormente condenado na sentença penal transitada em julgado, se a execução não se inicia haverá perda do título executivo e a execução não poderá ser proposta, e se a execução já foi iniciada deverá ser extinta por perda superveniente do título executivo, e se a execução já foi proposta e o dinheiro recebido cogita-se no caso concreto de ação de repetição de indébito. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 37 ✓ A sentença arbitral (Art. 515, VII do CPC/2015): Sentença arbitral é o provimento final do árbitro que resolve um conflito de interesses sobre direitos patrimoniais disponíveis na jurisdição privada, entre particulares que optaram pela solução extrajudicial do conflito em que se viram envolvidos. ] ✓ A sentença estrangeira homologada pelo Superior Tribunal de Justiça (Art. 515, VIII do CPC/2015): A sentença estrangeira judicial ou arbitral deve obrigatoriamente ser homologada pelo STJ – Superior Tribunal de Justiça, para que possa produzir efeitos em território nacional, por exigência da CF, art. 105, I, “i” . Tal sentença possui caráter constitutivo, e torna a sentença estrangeira apta a ser executada no Brasil (nacionalização da sentença). Cabe mencionarque "o Brasil adotou o sistema de controle limitado (ou juízo de delibação) no procedimento de homologação das sentenças estrangeiras, que independe de reciprocidade e tem como principal parâmetro de análise os requisitos formais da sentença, não havendo discussão acerca do direito material subjacente". ✓ A decisão interlocutória estrangeira, após a concessão do exequatur à carta rogatória pelo Superior Tribunal de Justiça (Art. 515, IX do CPC/2015): A decisão interlocutória estrangeira, que seja veiculada por Carta Rogatória, é exequível em território nacional, sendo que para tanto é necessário o exequatur do Superior Tribunal de Justiça, que analisa meramente aspectos formais da Carta (juízo de delibação). Salienta-se que "o exequatur nada mais é que uma autorização e, o mesmo tempo, uma ordem de cumprimento do pedido rogatório no Brasil. Com esse expediente, o Superior Tribunal de Justiça encaminha à Justiça Federal, que terá a incumbência de efetivá-lo. Este procedimento, tal como o da homologação da sentença estrangeira, está contido nos art. 960 a 965 e, bem assim, no RISTJ art. 216-A a 216-X. Títulos executivos extrajudiciais (Art. 784, CPC/2015): O CPC/2015 dá aos títulos executivos extrajudiciais a mesma eficácia executiva dos títulos judiciais, sendo que todos eles são aptos para instruir a execução, relevando- se o fato de que o procedimento para cumprimento de sentença (para títulos executivos judiciais) é diferente do processo autônomo de execução (para títulos executivos extrajudiciais). ✓ A letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque (art. 784, I): Trata-se dos títulos cambiários, cambiais ou cambiariformes, regulados inteiramente pelas normas de direito empresarial. Tais títulos não necessitam de protesto para que sejam considerados títulos executivos extrajudiciais. “Somente em situações específicas, quando o documento não puder ser considerado um título executivo em razão da ausência de algum requisito formal, a lei pode exigir o seu protesto, como é o caso da duplicata sem aceite”. Os títulos de crédito possuem como elementos essenciais a cartularidade (o exercício do direito fica condicionado à apresentação da cártula ou título), literalidade (o documento vale Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 38 pelo que nele se contém; o que não consta do corpo do título de crédito não pode ser exigido) e autonomia (as disposições contidas na cártula ou título não se vinculam à causa que as originou). Em obediência ao princípio da circulabilidade dos títulos de crédito, para o ajuizamento da ação de execução exige-se que a petição inicial seja instruída com o título original, não sendo permitidas fotocópias mesmo que autenticadas. Em situações que o título esteja instruindo outro processo (como ação penal de estelionato), e sendo impossível o seu desentranhamento, bastará a juntada de fotocópia e “certidão de objeto e pé ” do processo em pé em que se encontra o título. Também se o título instruir ação cautelar de arresto, admite-se a fotocópia, o que não gera prejuízo em virtude dos processos correrem em apenso. ✓ A escritura pública ou outro documento público assinado pelo devedor (art. 784, II): Trata-se de confissão de dívida realizada por escritura pública, que é um documento público produzido e assinado por Tabelião de notas. Não é necessário que venha assinado por duas testemunhas. Para que seja caracterizado como título executivo é preciso que a escritura contenha a obrigação imposta àquele que assina, consistente em pagar quantia, entregar coisa, fazer ou não fazer. ✓ O documento particular assinado pelo devedor e por 2 (duas) testemunhas (art. 784, III): É o contrato assinado pelas partes e mais duas testemunhas. As testemunhas que assinam o instrumento devem estar preparadas para confirmar que o devedor assumiu a responsabilidade de forma livre e espontânea. O STJ entende pela dispensa da presença das testemunhas no momento da formação do título, sendo que elas devem ser pessoas capazes, isentas, idôneas e identificadas no título, sendo dispensada a autenticação em cartório de suas assinaturas. ✓ O instrumento de transação referendado pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela Advocacia Pública, pelos advogados dos transatores ou por conciliador ou mediador credenciado por tribunal (art. 784, IV): Corresponde à transação extrajudicial referendada pelo Ministério Público (como o TAC = Termo de ajustamento de conduta), Defensoria Pública ou pelo (s) advogado (s) das partes (públicos ou privados), ou mesmo do conciliador ou mediador credenciado pelo respectivo Tribunal (estímulo à autocomposição). Mesmo na hipótese de apenas um advogado, por exemplo, representar ambas as partes, o título é exequível. ✓ O contrato garantido por hipoteca, penhor, anticrese ou outro direito real de garantia e aquele garantido por caução (art. 784, V): São contratos de garantia, confundindo o legislador o gênero “caução” com algumas das suas espécies. Caução real são a hipoteca, penhor e anticrese. Caução fidejussória é afiança. Qualquer espécie de fiança (judicial, legal ou convencional) permite o ingresso do processo executivo. “Esses contratos de garantia podem ser celebrados por terceiros, não devedores, que a partir de então passam a ter responsabilidade patrimonial –sempre no limite da garantia – perante o credor. Há, portanto, responsabilidade de quem não é o obrigado, no plano do direito material, a satisfazer a obrigação. O exequente, nesse caso, pode mover a ação de execução Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 39 exclusivamente contra o devedor, contra o garante, ou contra ambos (litisconsórcio facultativo)”. ✓ O contrato de seguro de vida em caso de morte (art. 784, VI): Trata-se apenas do seguro de vida, e não o seguro de acidentes pessoais. É indispensável que a petição inicial seja instruída não só com o contrato de seguro (registra-se tendência ampliativa para admitir também recibo emitido pela seguradora) mas também coma prova pré-constituída do evento coberto pelo respectivo seguro que é a certidão de óbito. ✓ O crédito decorrente de foro e laudêmio (art. 784, VII): Foro e laudêmio são rendas imobiliárias decorrentes da enfiteuse, instituto que não é mais disciplinado pelo Código Civil. Foro é a pensão anual certa e invariável que o enfiteuta para ao senhoria direto pelo direito de usar, gozar e dispor do imóvel objeto da enfitense. No foro o senhorio é o sujeito ativo da execução e o passivo é o enfiteuta ou foreiro. Laudêmio é a compensação que é devida ao senhoria direto pelo não uso do direito de preferência quando o enfiteuta aliena onerosamente o imóvel foreiro. No laudêmio o senhorio é o sujeito ativo da execução e o passivo é o ex-enfiteuta que cedeu o seu direito a terceiro. Trata-se de instituto de rara aplicação prática e de vida limitada, pois o art. 2038 do Código Civil proibiu a constituição de enfiteuses e de subenfiteuses, restando somente as já existentes à época da entrada em vigor do referido Código (Lei 10.406/2002). ✓ O crédito, documentalmente comprovado, decorrente de aluguel de imóvel, bem como de encargos acessórios, tais como taxas e despesas de condomínio (art. 784, VIII): Contrato escrito de locação comercial ou residencial é título executivo extrajudicial, não sendo necessário que venha subscrito por duas testemunhas. Não é mais exigido o contrato escrito, bastando prova documental que ateste a locação e encargos. A menção a taxas e despesas de condomínio como encargos da locação é meramente exemplificativa, admitindo-se a execução de outras espécies de encargos da locação, como as despesas de telefone e de consumo de força, luz, água e esgoto. ✓ A certidão de dívida ativa da Fazenda Pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios,correspondente aos créditos inscritos na forma da lei (art. 784, IX): A Certidão de Dívida Ativa (CDA) emitida pela Fazenda Pública Federal, Estadual ou Municipal é título executivo. A execução fiscal é disciplinada pela Lei6.830/1980, mas o título executivo que permite tal execução está previsto no NCPC. Dívida ativa é qualquer valor cuja cobrança seja atribuída à Fazenda Pública, e nos termos do art. 201 do Código Tributário Nacional constitui dívida ativa tributária a proveniente de crédito dessa natureza, regularmente inscrita na repartição administrativa competente, depois de esgotado o prazo fixado, para pagamento, pela lei ou por decisão final proferida em processo regular. A CDA é gerada por procedimento administrativo previsto no CTN, art. 202. Cabe destacar que “a singularidade de tal título é que entre todos os títulos extrajudiciais esse é o único que pode ser formado sem nenhuma participação do devedor ou de terceiro, atuando em sua formação apenas o credor. Tal característica vem assentada na Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 40 boa-fé do Estado e na presunção de legalidade do ato administrativo, permitindo ao Estado ser o único capaz de formar títulos executivos de forma unilateral, embora por vezes e de forma indesejada abuse de tal liberdade com indevidas e injustas inscrições na dívida ativa, gerando infundadas ações de execução por quantia certa”. ✓ O crédito referente às contribuições ordinárias ou extraordinárias de condomínio edilício, previstas na respectiva convenção ou aprovadas em assembleia geral, desde que documentalmente comprovadas (art. 784, X): As despesas ordinárias ou extraordinárias de condomínio possuem, no Novo CPC, força de título executivo extrajudicial, desde que sejam comprovadas documentalmente, e sejam aprovadas por Convenção ou Assembleia condominial. ✓ A certidão expedida por serventia notarial ou de registro relativa a valores de emolumentos e demais despesas devidas pelos atos por ela praticados, fixados nas tabelas estabelecidas em lei (art. 784, XI): Trata-se serviços prestados pelos serviços notariais e de registro, que poderão ser objeto de certidões com eficácia executiva. Cumpre enfatizar que "existem, no Brasil, cinco tipos de cartórios: (i) Tabelionato de Notas; (ii) Tabelionato de Protesto de Títulos; (iii) Registro Civil das Pessoas Naturais e de Interdições e Tutelas; (iv) Registro de Títulos e Documentos e Civil das Pessoas Jurídicas; e(v) Registro de Imóveis. Todos eles prestam uma série de serviços, destinados à formalização e conservação de diversos atos e negócios jurídicos, como por exemplo: os registros de nascimento, casamento e óbito; a lavratura de escrituras, procurações, testamentos, divórcios e inventários; as autenticações de cópias e reconhecimento de firmas; os registros de imóveis; as notificações e registro de documentos e de pessoas jurídicas; os protestos de títulos e documentos de dívida, dentre outros. Alguns desses serviços são gratuitos e outros são cobrados, cujos preços são promulgados por lei. Tais valores, portanto, poderão ser objeto de certidão que tem, para os fins legais, força executiva. ✓ XI-A - o contrato de contragarantia ou qualquer outro instrumento que materialize o direito de ressarcimento da seguradora contra tomadores de seguro-garantia e seus garantidores; (Incluído pela Lei nº 14.711, de 2023) Outros pontos sobre títulos executivos • A independência entre o título e a ação que impugna a dívida Art. 784 (…) § 1º A propositura de qualquer ação relativa a débito constante de título executivo não inibe o credor de promover-lhe a execução. ❖ Títulos extrajudiciais de país estrangeiro • § 2º Os títulos executivos extrajudiciais oriundos de país estrangeiro não dependem de homologação para serem executados. • § 3º O título estrangeiro só terá eficácia executiva quando satisfeitos os requisitos de formação exigidos pela lei do lugar Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 41 de sua celebração e quando o Brasil for indicado como o lugar de cumprimento da obrigação. • Títulos constituídos por meio eletrônico • § 4º Nos títulos executivos constituídos ou atestados por meio eletrônico, é admitida qualquer modalidade de assinatura eletrônica prevista em lei, dispensada a assinatura de testemunhas quando sua integridade for conferida por provedor de assinatura. (Incluído pela Lei nº 14.620, de 2023)concreta da lei. Na execução o que se quer é substituir a vontade do executado e satisfazer o direito do exeqüente. Cumpre ressaltar que embora o processo executivo seja caracterizado, principalmente, por atos de execução forçada como, por exemplo a penhora de bens, a expropriação via leilão ou hasta pública,... existem também atos de outras espécies. Os chamados atos de coerção (ou meios de coerção), utilizados principalmente nas obrigações de fazer e de não fazer e, embora não tenham natureza executiva fazem parte do processo de execução. • Em certos casos, podemos identificar atividade cognitiva dentro do processo de execução, em momentos onde o magistrado é obrigado a formar juízos de valor acerca de questões suscitadas como, por exemplo, ao apreciar o mérito dos embargos que sustentam a nulidade da penhora ou a inexistência do débito. Cumpre ainda uma importante observação em relação à finalidade do processo executivo que é sempre a satisfação do demandante. Assim sendo, diferentemente do processo cognitivo que alcança o seu fim normal com a sentença de mérito (art. 494 do CPC), independendo de quem seja o vencedor, o processo de execução somente atinge seu objetivo quando o resultado final satisfaz o demandante. Trata-se de processo de desfecho único. Qualquer hipótese de extinção do processo executivo com resultado favorável ao executado será considerado extinção anômala do processo. 4. PRINCÍPIOS GERAIS E ESPECÍFICOS Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 6 Aplicam-se ao processo executivo os mesmos princípios que norteiam o processo civil assim podemos mencionar, por exemplo, o devido processo legal, a isonomia, respeito à dignidade humana, o contraditório... Surgem ainda alguns princípios importantes próprios deste tipo de processo, que veremos: • Princípio da Efetividade – Direito Fundamental à Tutela Executiva O princípio da efetividade representa a base da atividade executiva, sendo sua razão de existir. A execução não se limita a reconhecer direitos, mas tem por finalidade assegurar que eles sejam realmente concretizados no mundo dos fatos. O processo civil não cumpre seu papel se, ao final da fase de conhecimento, o titular do direito sair apenas com uma sentença favorável, sem que esta se traduza na satisfação do crédito ou na realização prática da prestação. É por isso que se afirma: processo devido é processo efetivo. O art. 4º do Código de Processo Civil traduz essa diretriz ao estabelecer que "as partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa", consagrando de forma expressa a execução como uma garantia fundamental. A efetividade da tutela jurisdicional executiva implica que o sistema processual deve estar estruturado para proporcionar meios adequados e suficientes para o cumprimento da obrigação. Como destaca Marcelo Lima Guerra, há um direito fundamental à execução, e ele impõe ao legislador e ao Judiciário a obrigação de criar e aplicar mecanismos que realmente conduzam ao resultado prático esperado. Isso significa que o juiz não pode simplesmente aplicar a norma de forma literal quando ela for obstáculo à efetivação do direito, especialmente se a norma infraconstitucional estiver em descompasso com direitos fundamentais. O intérprete deve extrair da legislação a máxima efetividade possível, e, se necessário, realizar o controle de constitucionalidade in concreto da norma aplicada. Esse princípio também serve de critério para resolver tensões frequentes na execução, como ocorre com as hipóteses de impenhorabilidade previstas no art. 833 do CPC. A impenhorabilidade, por proteger a dignidade do devedor e o mínimo existencial, não é absoluta. A sua aplicação deve passar pela ponderação entre direitos Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 7 fundamentais, analisando-se se, no caso concreto, a restrição à execução é proporcional e necessária. O juiz pode, inclusive, afastar a impenhorabilidade quando ela se mostrar desnecessária, como no caso de imóvel de alto valor cuja alienação ainda possibilite a aquisição de outro imóvel pelo executado. Trata-se da dimensão objetiva dos direitos fundamentais, que exige que o juiz, ao aplicar as regras processuais, leve em conta o contexto fático e a justiça material do caso. • Princípios da Tipicidade e Atipicidade dos Meios Executivos A execução judicial é a expressão máxima do poder estatal, pois nela o Estado atua de forma direta e concreta sobre a esfera jurídica do devedor, inclusive com o uso da força para satisfazer o direito reconhecido em favor do credor. Por isso, surge um dilema clássico: essa atuação deve estar estritamente limitada às medidas previamente descritas em lei (princípio da tipicidade) ou pode ser flexibilizada conforme as peculiaridades do caso concreto (princípio da atipicidade)? O sistema brasileiro, especialmente após o CPC de 2015, optou por uma síntese entre ambos os princípios, a depender da natureza da obrigação a ser executada. A tipicidade é observada com mais força na execução por quantia certa, onde há um procedimento legal estruturado e meios executivos claramente definidos (penhora, avaliação, alienação etc.). Já nas obrigações de fazer, não fazer ou entregar coisa, a atipicidade se revela como necessária para alcançar a tutela específica, conforme previsto nos arts. 139, IV, 297, 536, §1º, e 538, §3º do CPC. Tais dispositivos conferem ao juiz o poder de determinar, de ofício ou a requerimento da parte, medidas necessárias para assegurar o cumprimento da ordem judicial, mesmo que não estejam expressamente previstas em lei. É o que se convencionou chamar de "poder geral de efetivação" do juiz, com base em uma cláusula geral executiva. Essa flexibilização, no entanto, não significa arbítrio. As medidas atípicas devem ser necessárias, adequadas e proporcionais, sempre voltadas à concretização do direito do exequente e respeitando os direitos fundamentais do executado. Um exemplo é o uso de restrições ao direito de dirigir, ao passaporte ou à participação em concursos públicos, desde que estejam devidamente fundamentadas e observem o contraditório. A atipicidade dos meios executivos amplia a capacidade do Judiciário de agir com Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 8 criatividade e efetividade, mas exige do magistrado responsabilidade argumentativa e compromisso com o devido processo legal. O próprio CPC reconhece essa dinâmica ao permitir que o juiz escolha os meios executivos mais adequados para o caso concreto, conforme o princípio da adequação jurisdicional. • Princípio da Boa-fé Processual O princípio da boa-fé processual, previsto expressamente no art. 5º do Código de Processo Civil, é uma das cláusulas fundamentais que orientam todo o sistema processual, sendo corolário do devido processo legal. Na execução, esse princípio assume especial relevância, pois este é um ambiente particularmente sensível à ocorrência de condutas abusivas, desleais e fraudulentas. A rigidez e a coercitividade próprias da execução muitas vezes motivam tentativas do executado de frustrar a atividade jurisdicional, o que torna imprescindível a atuação do juiz e das partes segundo padrões éticos e leais. A boa-fé processual impõe deveres de lealdade, veracidade, cooperação e respeito às regras do jogo processual, não se confundindo com a boa-fé objetiva do direito material, mas dela se inspirando. Na execução, sua incidência é visível em situações como: simulação de venda de bens para fraudar credores, ocultação dolosa de patrimônio, apresentação de defesa meramente protelatória, ou mesmo desrespeito aos comandos judiciais. O descumprimento desses deveres pode gerar sanções processuais,como a aplicação de multa por ato atentatório à dignidade da justiça (art. 774, parágrafo único, CPC), além da responsabilização civil por perdas e danos. A doutrina e a jurisprudência destacam que a boa-fé deve ser observada tanto pelo exequente quanto pelo executado, sob pena de se inverter a lógica de proteção processual. Se o credor utilizar o processo como instrumento de opressão ou perseguição, promovendo medidas excessivas e desnecessárias, também estará violando a boa-fé. Esse equilíbrio é essencial para evitar que o processo seja transformado em instrumento de abuso ou retaliação. Como lembra a obra, os institutos da fraude contra credores, fraude à execução e as punições por atos atentatórios à dignidade da justiça são manifestações concretas da necessidade de se preservar a boa-fé na execução. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 9 Esses temas serão aprofundados em capítulos próprios, mas já aqui demonstram a centralidade desse princípio na dinâmica executiva. • Princípio da Responsabilidade Patrimonial (ou de que "toda execução é real") O princípio da responsabilidade patrimonial, consagrado no art. 789 do Código de Processo Civil, estabelece que o devedor responde pelo cumprimento de suas obrigações com o seu patrimônio presente e futuro. Essa norma expressa a ideia de que toda execução é real, ou seja, voltada contra os bens do devedor, e não contra sua pessoa. Assim, a função da execução é, em regra, recair sobre o patrimônio do executado, sem lhe atingir a liberdade ou sua integridade pessoal. Trata-se de uma conquista civilizatória do direito moderno, que rompe com práticas anteriores, especialmente do direito romano primitivo, em que o devedor poderia ser submetido à escravidão ou até ter o corpo dividido entre credores, como previa a Lei das XII Tábuas. No decorrer da evolução histórica, a noção de que a obrigação deveria vincular-se ao patrimônio, e não ao corpo do devedor, consolidou-se com a Lex Poetelia Papiria (428 a.C.), no direito romano, e mais tarde foi consagrada no art. 2093 do Código Civil francês, segundo o qual “os bens do devedor são a garantia comum de seus credores”. Essa perspectiva foi absorvida pelo direito brasileiro, que adotou a responsabilidade patrimonial como a base da execução. Entretanto, esse princípio não é absoluto: há bens que, mesmo pertencendo ao devedor, não podem ser objeto de execução, por estarem protegidos por normas de impenhorabilidade — como no art. 833 do CPC — em razão da dignidade humana, do mínimo existencial e da função social da empresa, por exemplo. Apesar de sua força normativa, o princípio da responsabilidade patrimonial vem sendo relativizado em algumas hipóteses, especialmente com o advento das chamadas técnicas de execução indireta, que buscam influenciar a vontade do devedor por meio de coerção pessoal, sem violar diretamente sua liberdade. É o caso das astreintes (multa diária), previstas no art. 536, §1º, do CPC, que exercem pressão psicológica para forçar o adimplemento da obrigação. Mesmo assim, a execução indireta não se confunde com o retorno à responsabilização corporal do devedor, pois, como ressalta o STF na Súmula Vinculante nº 25, a prisão civil por dívida só é admissível nos casos de alimentos (nos termos do art. 528, CPC). Assim, atualmente, convive-se com um modelo híbrido, em que Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 10 a execução pode ser realizada pela sujeição patrimonial ou por técnicas coercitivas dirigidas à vontade do devedor, sempre respeitando os direitos fundamentais e o devido processo legal. Além disso, é importante observar que a aplicação deste princípio é especialmente relevante nas obrigações de dar coisa ou pagar quantia certa, onde há sub-rogação do Estado no cumprimento da obrigação, o que justifica a atuação sobre os bens do devedor. Nas obrigações de fazer ou não fazer, contudo, a prioridade é a tutela específica da obrigação (princípio da primazia da tutela específica), e só em casos excepcionais — quando for impossível a execução in natura — é que se recorrerá à conversão em perdas e danos. Portanto, o princípio da responsabilidade patrimonial não abrange a totalidade da atividade executiva, e deve ser compatibilizado com outros princípios, como os da efetividade e da adequação, para que a atuação jurisdicional seja justa e eficiente. • Princípio da Primazia da Tutela Específica (ou da Maior Coincidência Possível ou do Resultado) O princípio da primazia da tutela específica representa uma das transformações mais significativas no processo civil contemporâneo. De acordo com esse princípio, o credor tem o direito de obter o cumprimento da obrigação tal como pactuada, de forma específica e direta, e não apenas mediante sua conversão em perdas e danos. Isso significa que a execução deve se esforçar para alcançar o mesmo resultado que seria obtido caso o devedor tivesse cumprido voluntariamente sua obrigação, garantindo a chamada "maior coincidência possível" entre o comando da sentença e sua realização prática. Essa orientação encontra fundamento nos arts. 497 e 499 do CPC, que consagram a tutela específica como regra e a conversão em perdas e danos como exceção. Historicamente, o ordenamento jurídico, influenciado pelos ideais do liberalismo clássico, partia de duas premissas equivocadas: a de que ninguém poderia ser obrigado a cumprir uma obrigação pessoal contra sua vontade (nemo praecise potest cogi ad factum), e a de que toda prestação seria economicamente conversível. Essa visão levou à prevalência da tutela pecuniária, permitindo que o devedor, por sua simples recusa, evitasse o cumprimento específico e substituísse sua obrigação pelo pagamento de Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 11 indenização. Com o tempo, contudo, percebeu-se que essa sistemática favorecia o descumprimento contratual, especialmente por parte do devedor mais forte, que aceitava arcar com perdas e danos quando lhe era mais vantajoso descumprir. O processo civil brasileiro passou a valorizar a tutela específica especialmente a partir da década de 1990. A Lei 8.952/94, ao alterar profundamente o CPC de 1973, foi marco decisivo nesse movimento. Posteriormente, o Código de Defesa do Consumidor (art. 84) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 213) consolidaram a tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Finalmente, o CPC de 2015 reafirmou esse direcionamento nos arts. 497, 499 e 538, §3º, estabelecendo uma hierarquia: (a) cumprimento específico; (b) resultado prático equivalente; e (c) perdas e danos, apenas se requerido pelo credor ou se impossível a tutela específica. Isso significa que a conversão da prestação deve ser vista como solução substitutiva excepcional, e não mais como a via ordinária. Assim, o processo passa a ser tanto mais eficiente quanto mais coincidir o seu resultado com o cumprimento espontâneo da obrigação, promovendo a dignidade da justiça e a confiança no sistema jurídico. Esse princípio também se manifesta na execução por quantia certa, especialmente com a possibilidade de adjudicação do bem penhorado (art. 876 do CPC), permitindo ao credor, se lhe for conveniente, satisfazer seu crédito com o próprio bem, e não apenas com o valor de sua alienação. O mesmo raciocínio vale para obrigações de dar coisa certa ou determinada: o exequente pode exigir a entrega da própria coisa, e não o seu valor. Com isso, o ordenamento abandona a visão patrimonialista das obrigações e valoriza o resultado material da prestação, alinhando o processo civil brasileiro com as tendências modernas de efetividade e justiça concreta, defendidas por autores como Chiovenda, Calamandrei, Dinamarco e Araken de Assis. • Princípio do Contraditório Oprincípio do contraditório é uma das bases estruturantes do processo jurisdicional e está consagrado no art. 5º, inciso LV, da Constituição Federal, bem como nos arts. 7º e 9º do Código de Processo Civil. Ele assegura às partes o direito de participar do processo em igualdade de condições, influenciar o convencimento do julgador e ser ouvidas antes de qualquer decisão que lhes possa afetar. No contexto da Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 12 execução, esse princípio não perde sua relevância, embora se manifeste de forma peculiar, adaptada à natureza e à dinâmica própria desse tipo de procedimento, cuja finalidade principal é a satisfação do direito reconhecido no título executivo. Diferentemente da fase de conhecimento, em que o contraditório é pleno desde o início, na execução ele é, por natureza, eventual. Isso porque o executado não é citado para se defender, mas sim para cumprir a obrigação. Somente se desejar se opor à execução — por meio de embargos, impugnação, alegação de nulidade, excesso de execução ou outro incidente — é que o contraditório será instaurado de forma concreta. Ainda assim, sua presença é imprescindível sempre que houver atos que possam causar prejuízo à parte, e o juiz deve garantir que o executado seja ouvido antes de decisões que lhe imponham ônus relevantes, sob pena de nulidade (art. 10 e 139, VI, CPC). O contraditório na execução se manifesta de várias maneiras: no direito de impugnar a penhora (art. 847, CPC), nos embargos à execução (art. 914 e ss.), na impugnação ao cumprimento de sentença (art. 525, CPC), na oposição de terceiros (art. 674 e ss.) e na ciência e possibilidade de manifestação sobre atos executivos, como a avaliação, a alienação ou a adjudicação de bens. Além disso, o juiz tem o dever de zelar pelo contraditório efetivo, conforme o art. 7º do CPC, podendo, inclusive, dilatar prazos para garantir a paridade de armas, reequilibrando o processo quando necessário. Como destaca a doutrina contemporânea, não basta garantir o direito de audiência: é preciso instituir um verdadeiro diálogo processual, em que as partes possam cooperar para a construção de decisões legítimas, especialmente diante de medidas coercitivas ou restritivas. Embora o contraditório na execução não tenha a mesma intensidade da fase cognitiva, ele é essencial para assegurar a legitimidade e a imparcialidade da atuação judicial. O processo executivo que ignora ou restringe indevidamente o contraditório perde sua validade jurídica e compromete a confiança no sistema. Em suma, a presença do contraditório na execução, ainda que em forma diferenciada, reafirma que nenhuma atividade estatal pode suprimir direitos fundamentais sob o pretexto de acelerar a efetividade, sendo necessário compatibilizar celeridade com segurança jurídica e justiça processual. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 13 • Princípio da Menor Onerosidade da Execução O princípio da menor onerosidade da execução está expressamente previsto no art. 805 do Código de Processo Civil, segundo o qual, “quando por vários meios o exequente puder promover a execução, o juiz mandará que se faça pelo modo menos gravoso para o executado”. Trata-se de uma cláusula geral que visa coibir o exercício abusivo do direito de execução por parte do credor, impondo um dever de moderação ao uso das ferramentas coercitivas disponíveis. No entanto, é essencial compreender que esse princípio não é absoluto, nem pode ser interpretado como fonte de todos os direitos de proteção do executado — ele é apenas uma entre várias normas que compõem o sistema de garantias do devedor. A aplicação adequada do princípio exige a análise da adequação e da necessidade do meio executivo, e não do resultado final a ser alcançado. Em outras palavras, o exequente não pode ser obrigado a aceitar um resultado menos efetivo, mas sim a utilizar, entre meios igualmente eficazes, aquele que cause menos sacrifício ao executado. Por isso, o princípio da menor onerosidade não autoriza o executado a postular a conversão da obrigação específica em perdas e danos, nem a substituição de uma prestação por outra. Tampouco fundamenta o parcelamento da dívida, o abatimento de juros, ou a redução do valor da execução. Seu foco é o meio de execução — e não a modificação da obrigação em si. O próprio art. 805, parágrafo único, do CPC, impõe ao executado o ônus de, ao alegar a excessiva onerosidade de determinado meio executivo, indicar outro igualmente eficaz e menos oneroso, sob pena de manutenção dos atos já praticados. Isso revela que a proteção proporcionada por esse princípio exige uma postura ativa e cooperativa do devedor. Ademais, se o executado não suscitar a discussão no momento processual adequado, opera-se a preclusão, e não se pode mais questionar a escolha do meio pelo credor. Vale ainda ressaltar que a penhora em dinheiro, por ser o meio mais eficaz de satisfação da dívida, não pode ser afastada com base na alegação de que é sempre mais gravosa — é o meio que melhor assegura a efetividade e, portanto, goza de prioridade, nos termos do art. 835, caput e §1º, do CPC. Assim, o princípio da menor onerosidade não pode ser invocado para inviabilizar a execução ou para frustrar a satisfação do direito reconhecido. Ele deve ser interpretado Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 14 em harmonia com os princípios da efetividade e da boa-fé processual (art. 5º do CPC), servindo como instrumento de equilíbrio e justiça no uso do poder executivo do Estado. Seu verdadeiro papel é evitar abusos e exageros do exequente, sem comprometer a concretização do direito material. Por isso, sua aplicação deve ser feita com base na ponderação, na análise do caso concreto e na busca por soluções justas, eficazes e proporcionais para ambas as partes. • Princípio da Cooperação O princípio da cooperação, consagrado expressamente no art. 6º do Código de Processo Civil, determina que todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva. Trata-se de um princípio estrutural do modelo processual brasileiro inaugurado pelo CPC de 2015, que rompe com a lógica adversarial tradicional e promove um novo paradigma de processo: um modelo dialógico, colaborativo e ético, em que partes e juiz compartilham responsabilidades para a boa condução da marcha processual. O processo deixa de ser um campo de batalha e se torna um ambiente de atuação conjunta em prol da justiça e da efetividade. No campo da execução, esse princípio ganha concretude em diversos deveres atribuídos ao executado e ao próprio juiz. Um exemplo claro é o dever do executado de indicar bens passíveis de penhora, previsto no art. 774, V, do CPC, cuja omissão pode acarretar aplicação de multa por ato atentatório à dignidade da justiça. Se o devedor não apontar bens, pode ser sancionado financeiramente, justamente por violar o dever de cooperação processual. Também o art. 525, §4º, é exemplo da cooperação aplicada à execução: ao impugnar o valor da execução, o executado deve apresentar desde logo o valor que entende devido, evitando posturas meramente procrastinatórias e contribuindo para a solução célere da controvérsia. É o que se espera de um sujeito processual cooperativo. Além disso, o princípio da cooperação impõe deveres também ao magistrado. Conforme o art. 772, II, do CPC, o juiz deve advertir o executado antes de aplicar penalidades por condutas atentatórias à dignidade da justiça, permitindo-lhe a oportunidade de corrigir sua postura. O juiz também deve respeitar o dever de consulta Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 15 previsto no art. 10 do CPC, como, porexemplo, antes de reconhecer de ofício a prescrição intercorrente (art. 921, §5º, CPC), ocasião em que deve intimar o exequente para se manifestar. Essas obrigações revelam que a cooperação envolve não apenas condutas recíprocas entre as partes, mas também um compromisso do juiz com a prevenção de nulidades e com o equilíbrio procedimental. É, portanto, um instrumento de diálogo, prevenção de abusos e construção compartilhada de soluções processuais, refletindo uma postura ética e responsável de todos os sujeitos envolvidos. • Princípio da Proporcionalidade O princípio da proporcionalidade é uma diretriz fundamental que orienta a atividade jurisdicional executiva, especialmente quando há colisão entre direitos fundamentais do exequente e do executado. Embora não esteja nominado entre os princípios constitucionais processuais do art. 5º da CF, encontra-se incorporado de forma implícita e reforçado expressamente no art. 8º do CPC, que dispõe que o juiz deverá observar os princípios da proporcionalidade, razoabilidade, legalidade, publicidade e eficiência ao aplicar o ordenamento jurídico. Sua função essencial é impedir que a execução, em nome da efetividade, viole excessivamente os direitos fundamentais do executado, como sua dignidade, integridade patrimonial mínima e liberdade. Na execução, é comum que se opere um conflito entre o princípio da efetividade (voltado à concretização do direito do credor) e os princípios de proteção do executado, como o da menor onerosidade (art. 805), da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF) e da boa-fé processual (art. 5º, CPC). Nessas situações, o postulado da proporcionalidade atua como critério de ponderação entre esses valores colidentes, buscando preservar, ao máximo, ambos os interesses legítimos envolvidos. Um exemplo emblemático de sua aplicação é a relativização da ordem legal de penhora prevista no art. 835 do CPC, cuja rigidez pode ser afastada sempre que o meio inicialmente indicado se revelar desproporcional ou excessivamente oneroso em relação aos bens do executado. Essa ponderação judicial encontra amparo tanto no próprio art. 835, §1º, que autoriza o juiz a alterar a ordem legal de penhora conforme as circunstâncias do caso concreto, quanto no art. 853, parágrafo único, que confere ao magistrado poderes para decidir sobre a substituição de bens penhorados, também com base na Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 16 proporcionalidade. A jurisprudência nacional e comparada (como a da Alemanha – ZPO §803 – e da Espanha – LEC art. 592) já consolidou que a execução não pode ultrapassar os limites do necessário para alcançar a satisfação do crédito, devendo ser conduzida de forma equilibrada e racional. Portanto, a proporcionalidade não limita o direito de executar, mas modera o modo como ele será exercido, impedindo abusos, preservando a justiça do procedimento e garantindo a preservação da dignidade do executado, mesmo quando este se encontra em mora. • Princípio da Adequação O princípio da adequação é uma diretriz fundamental do processo civil brasileiro contemporâneo, embora nem sempre explicitamente mencionado em normas específicas. Ele está implícito em diversas disposições do CPC e reflete a ideia de que o procedimento jurisdicional deve ser ajustado às peculiaridades do direito material a ser tutelado, das partes envolvidas e do fim buscado com a intervenção judicial. No contexto da execução, esse princípio se desdobra em três dimensões: a adequação objetiva, a adequação subjetiva e a adequação teleológica, todas essenciais para assegurar um processo eficaz e justo. A adequação objetiva diz respeito à natureza da prestação executada. Por exemplo, a prisão civil é prevista como meio de coerção apenas na execução de prestação alimentícia (art. 528, §§3º a 7º, CPC), por ser essa uma obrigação revestida de natureza urgente e ligada à sobrevivência do credor. A adequação subjetiva, por sua vez, refere-se à condição das partes: o processo executivo contra a Fazenda Pública, por exemplo, exige observância do regime de precatórios e veda a penhora de bens públicos, em respeito à indisponibilidade do patrimônio estatal (arts. 910 e 100 da CF/88). Já a adequação teleológica está relacionada ao fim do processo: na execução, esse fim é a satisfação de um crédito previamente reconhecido em título executivo, o que justifica, por exemplo, a existência de um contraditório eventual e a inversão da lógica de provocação processual, típica da técnica monitória. A atuação do juiz, diante de cláusulas gerais executivas como as previstas nos arts. 139, IV, 297, 536, §1º, e 538, §3º do CPC, deve observar o princípio da adequação. Isso significa que o magistrado deve escolher as medidas executivas mais eficazes e Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 17 proporcionais à realização da prestação devida, levando em conta as particularidades do caso concreto. A adequação jurisdicional envolve, portanto, não apenas a escolha de meios apropriados, mas também a possibilidade de adaptação das regras processuais em situações excepcionais, inclusive por meio da construção jurisprudencial. Além disso, a própria lógica dos negócios processuais — tratados no próximo item — também reflete a ideia de adequação, permitindo às partes moldarem o procedimento às suas necessidades específicas, desde que não violem direitos indisponíveis ou comprometam o equilíbrio do contraditório. Assim, a adequação se afirma como um princípio de racionalidade e justiça, garantindo que o processo executivo não seja rígido e insensível, mas sim funcional, proporcional e personalizado. • Autorregramento da Vontade na Execução O autorregramento da vontade é um dos pilares do modelo cooperativo de processo consagrado pelo CPC de 2015, e encontra sua principal base legal no art. 190 do Código de Processo Civil, que admite que as partes, desde que plenamente capazes, estipulem convenções processuais, inclusive modificando regras do procedimento, sempre que a controvérsia versar sobre direitos que admitam autocomposição. Trata-se de uma manifestação do princípio da autonomia privada processual, mediante o qual se reconhece que os sujeitos do processo não são meros destinatários das normas, mas participantes ativos da conformação do procedimento, inclusive da execução. Essa lógica também se reflete no art. 200 do CPC, que atribui eficácia aos negócios processuais firmados pelas partes. No contexto da execução, o autorregramento da vontade pode se manifestar de duas formas: por meio de negócios processuais típicos, já previstos no ordenamento jurídico, ou por negócios atípicos, que dependem de aceitação judicial. Entre os negócios típicos, destacam-se: (i) a celebração de acordos com força executiva (art. 515, III, e art. 725, VIII), os quais dispensam ação de conhecimento posterior; (ii) o estabelecimento de foro de eleição (art. 781, I), em que as partes convencionam o juízo competente para a execução; (iii) a fixação de cláusulas de penhorabilidade ou impenhorabilidade de determinados bens (art. 833, I, §3º); (iv) a negociação sobre o modo de avaliação do bem Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 18 penhorado (art. 871, §2º); e (v) o parcelamento da dívida mediante requerimento do devedor (art. 916, CPC), com homologação judicial. Além desses negócios tipificados, o CPC também abre espaço para o uso de negócios processuais atípicos, que expressam com ainda mais liberdade o autorregramento da vontade na execução. Nessa categoria, podem ser incluídas cláusulas como: a renúncia à ordem legal de penhora; a fixação prévia de penalidade processual em caso de descumprimento voluntário da obrigação (cláusula penal processual); a pactuação sobre dilaçãoou suspensão de prazos, inclusive para evitar a aplicação da prescrição intercorrente; a estipulação de garantias específicas; ou mesmo a eleição de métodos executivos prioritários, como a adjudicação direta. Desde que respeitados os limites constitucionais e legais — como a observância do contraditório, a proteção de direitos indisponíveis e a paridade de armas —, tais convenções são plenamente válidas e eficazes, desde que não contrariem a função jurisdicional nem causem prejuízo à parte contrária. Em suma, o autorregramento da vontade na execução representa um mecanismo valioso de flexibilização procedimental e de valorização da autonomia das partes, inserindo o processo em uma perspectiva menos impositiva e mais consensual. Ele reafirma a ideia de que a execução não é, necessariamente, sinônimo de conflito ou de coação estatal, mas pode também decorrer da autorresponsabilidade e da racionalidade das partes, que colaboram com a justiça na construção de soluções compatíveis com sua realidade. É um exemplo claro de que a eficiência processual não precisa ser alcançada apenas pela força, mas pode emergir também do diálogo e da autonomia, desde que balizados pelo controle judicial e pelo respeito às garantias fundamentais. Quadro-Resumo dos Princípios da Execução Princípio Definição 1. Efetividade A execução deve realizar concretamente o direito reconhecido, indo além do mero julgamento. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 19 Princípio Definição 2. Tipicidade/Atipicidade dos Meios O juiz pode usar meios típicos ou criativos para garantir a efetividade da obrigação. 3. Boa-fé Processual As partes devem agir com lealdade e honestidade em todos os atos do processo. 4. Responsabilidade Patrimonial O devedor responde com seu patrimônio presente e futuro pelo cumprimento da obrigação. 5. Primazia da Tutela Específica A obrigação deve ser cumprida exatamente como pactuada, e não substituída por indenização. 6. Contraditório O executado tem o direito de participar dos atos que afetem sua esfera jurídica. 7. Menor Onerosidade A execução deve ser feita pelo meio menos gravoso ao devedor, desde que eficaz. 8. Cooperação Todos os sujeitos do processo devem atuar juntos para alcançar uma solução justa. 9. Proporcionalidade A medida executiva deve equilibrar a efetividade com a proteção dos direitos do devedor. 10. Adequação Os meios executivos devem ser escolhidos conforme a natureza da obrigação e das partes. 11. Autorregramento da Vontade As partes podem ajustar o processo de execução por convenção, com liberdade e responsabilidade. 5. DIFERENÇAS ENTRE CONHECIMENTO E EXECUÇÃO ✓ Processo de conhecimento Humberto Theodoro - seria aquele em que se pretende obter um pronunciamento que declare entre os contendores quem tem razão e quem não tem, o que se realiza mediante determinação da regra jurídica concreta que disciplina o caso que formou o objeto do processo. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 20 Processo de conhecimento é aquele em que a atividade precípua é a cognição, consistente numa técnica de análise de alegações e provas, com o fim de permitir o acertamento da existência ou inexistência do direito. ✓ Processo de execução Seria aquele onde se pretende uma atuação concreta do Estado, buscando a realização de atos através dos quais se exterioriza a atuação da sanção; sob o impulso da ação executiva o órgão jurisdicional desenvolve atividade material tendente a obter, coativamente, o resultado prático equivalente àquele que o devedor deveria ter realizado com o adimplemento da obrigação. A finalidade da execução é a satisfação forçada de um direito de crédito, sendo predominante a atividade executiva. Sem a execução o titular de um direito estaria privado da possibilidade de satisfazer- se sem a colaboração do devedor, o que inviabilizaria o próprio escopo da jurisdição. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 21 LEGITIMIDADE E COMPETÊNCIA DO PROCESSO DE EXECUÇÃO 1. LEGITIMIDADE AD CAUSAM NA EXECUÇÃO Trata-se de “condição da ação executiva”, de requisito do provimento final do processo de execução. Em outros termos, a legitimidade das partes é requisito essencial para que a execução forçada possa chegar ao seu desfecho normal, com a satisfação do crédito exequendo. A ausência de legitimidade, ativa ou passiva, deverá levar o juiz a proferir sentença, pondo termo à execução, com desfecho anômalo. Está disciplinada nos artigos 778 a 780 do CPC. Podem promover a execução forçada: ➢ o credor a quem a lei confere o título executivo ➢ e o Ministério Público nos casos previstos em lei. Podem, também, promover a execução ou nela prosseguir: ✓ II. o espólio, os herdeiros ou os sucessores do credor, sempre que, por morte deste, lhes for transmitido o direito resultante do título executivo; ✓ III. o cessionário, quando o direito resultante do título executivo lhe for transferido por ato entre vivos; ✓ IV. o sub-rogado, nos casos de sub-rogação legal ou convencional. Espécies de Legitimidade: ➢ Legitimidade ordinária e extraordinária - As partes na execução são os sujeitos que figuram nos pólos ativo e passivo do processo autônomo ou do cumprimento de sentença. Trata-se de legitimidade ordinária, pois o credor visa satisfazer interesse próprio, e o devedor também como titular desta mesma relação jurídica. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 22 Já na legitimidade extraordinária, o sujeito litigará em nome próprio na defesa de interesse alheio. POLO ATIVO Legitimação ordinária Primária, originária ou direta. Ex: credor descrito no título executivo. Secundária, superveniente ou independente. Ex: sucessão causa mortis (espólio, herdeiros esucessores) ou inter vivos (cessão, sub- rogação). Legitimação Extraordinária Ex.: Ministério Público. POLO PASSIVO Legitimação ordinária Primária, originária ou direta. Ex: credor descrito no título executivo. Secundária, superveniente ou independente. Ex: sucessão causa mortis (espólio, herdeiros esucessores) ou intervivos (cessão de débito ou assunção de dívida). Legitimação Extraordinária Ex.: o fiador do débito constante em título extrajudicial, responsável tributário. Ao propor a execução, o credor deve dirigi-la às pessoas enumeradas no art. 779. Ainda que o credor desde o início da execução saiba que deverá perseguir o bem em mãos de terceiros, deve propô-la contra as pessoas e numeradas no art. 779: Art. 779. A execução pode ser promovida contra: I - o devedor, reconhecido como tal no título executivo; II - o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor; III - o novo devedor que assumiu, com o consentimento do credor, a obrigação resultante do título executivo; Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 23 IV. o fiador do débito constante em título extrajudicial; V - o responsável titular do bem vinculado por garantia real ao pagamento do débito; VI - o responsável tributário, assim definido em lei. o o sujeito passivo da execução, ou seja, o legitimado passivo ordinário, é aquele que figura como devedor no título executivo, deve solver a obrigação. São devedores o emitente do título, o avalista, o endossante, o aceitante, nos termos e casos da lei comercial. Se houver solidariedade passiva, qualquer devedor pode ser executado, ou todos em litisconsórcio passivo. o Falecido o devedor, a execução será promovida ou prosseguirá contra o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor dentro do limite dos bens ou direitostransmitidos com a morte; o O fiador do débito constante em título extrajudicial é aquele que, em processo, formalmente garantiu o pagamento da dívida na ausência de pagamento pelo devedor. o o responsável tributário, nos termos da legislação própria. O CTN, artigos 128 a 138, prevê diversas situações em que pessoas não figurantes originariamente do fato gerador do tributo sejam também responsáveis pelo seu pagamento, em caráter solidário. Todos esses responsáveis o são da própria obrigação tributária e, portanto, equiparam-se, na execução, ao devedor. Para isso, porém, devem constar da certidão da dívida elaborada pela Fazenda Pública. 2. COMPETÊNCIA • Competência para cumprimento de sentença (CPC, art. 516): Em princípio o juízo competente para cumprimento de sentença é onde ele se formou (competência absoluta). Trata-se de competência funcional, pois em tese o juízo mais aparelhado para a execução é aquele em que a sentença foi proferida. Ocorre que no CPC existem 3 (três) foros concorrentes: ➢ O local aonde foi proferida a sentença; Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 24 ➢ Onde se encontram os bens sujeitos à expropriação; ou ➢ O atual domicílio do executado. • Competência executiva originária dos tribunais (CPC, art. 516, I): Em todas as decisões proferidas pelos tribunais em causas de sua competência originária (Exemplos: ação rescisória, mandado de segurança e ações em que todos os membros da magistratura sejam interessados), e que exijam fase procedimental executiva, tanto nas decisões condenatórias de pagar quantia certa, quanto nas obrigações de fazer, não fazer e entrega de coisa. Destaca-se que os tribunais não se encontram em regra preparados para atos materiais de constrição a serem praticados na busca da satisfação do direito do exeqüente. E neste caso é possível a delegação da competência, ou delegação de atribuições do tribunal para o juízo de primeiro grau para que sejam praticados os atos materiais necessários ao bom desenvolvimento da execução. Tal delegação deve ser restrita a atos materiais de execução, os que dão andamento ao procedimento, e não aos atos decisórios referentes ao mérito executivo, para que não ocorra usurpação indevida da competência originária e para evitar que a decisão proferida no juízo inferior altere o conteúdo do título executivo formado pelo respectivo tribunal. • Competência do juízo que processou a causa no primeiro grau de jurisdição (CPC, art. 516, II): Trata-se da regra geral para títulos judiciais que estabelece ser competente para a execução o juízo que tenha sido competente no processo de conhecimento para a produção da sentença exequenda. O parágrafo único do art. 516 do CPC determina que o exequente poderá optar pelo juízo do atual domicílio do executado, pelo juízo do local onde se encontrem os bens sujeitos à execução ou pelo juízo do local onde deva ser executada a obrigação de fazer ou de não fazer, casos em que a remessa dos autos do processo será solicitada ao juízo de origem. Segundo esse dispositivo, caso o credor queira optar por outro juízo que não o atual no qual foi formado o título executivo, deverá requerer de forma “fundamentada” a remessa dos autos ao novo juízo. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 25 Trata-se de uma exceção ao princípio da perpetuação da jurisdição contido no CPC, art. 43, uma vez que o CPC art. 516 prevê um foro concorrente para a execução de sentença condenatória, tendo ocorrido por exemplo mudança de endereço do demandado (modificação do estado de fato). A propósito, admite-se mudança da competência territorial por mero ato de vontade da parte autora, independentemente de qualquer modificação de fato ou de direito superveniente. • Competência para execução de sentença penal condenatória, sentença arbitral e sentença estrangeira (CPC, art. 516, III): Quando o referido dispositivo faz menção a juízo cível competente, em verdade não esclarece nada. Teria sido melhor a redação que revelasse a corrente doutrinária dominante no sentido de que será competente o juízo cível que seria o competente para conhecer o processo de conhecimento se não existisse título executivo. Analisa-se então as três hipóteses previstas no CPC art. 516, III. • Sentença arbitral: O próprio compromisso arbitral ou a cláusula compromissória devem prever tal foro. Em caso de omissão do contrato, aplica-se a regra para títulos extrajudiciais consistente em investigar qual o juízo competente para conhecer do processo de conhecimento se inexistisse arbitragem. • Sentença estrangeira: Tal decisão deve ser homologada pelo Superior Tribunal de Justiça para que tenha eficácia no Brasil, mas o STJ não tem competência para executá-la (CF, art. 109, X), sendo esta competência da justiça federal de primeiro grau. E conforme a regra estabelecida pelo CPC, 965, o cumprimento de decisão estrangeira far-se-á perante o juízo federal competente, a requerimento da parte, conforme as normas estabelecidas para o cumprimento de decisão nacional. O pedido de execução deverá ser instruído com cópia autenticada da decisão homologatória ou do exequatur , conforme o caso. Ou seja, o cumprimento de sentença processar-se-á na justiça federal no foro da Seção Judiciária do domicílio do réu. Na justiça federal competente o executado será citado para o cumprimento da sentença homologada pelo STJ, ou se for o caso, para liquidação. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 26 • Competência para o processo de execução autônomo de título executivo extrajudicial (CPC, art. 781): Tal matéria é disciplinada pelo CPC, art. 781, que determina que a execução fundada em título extrajudicial será processada perante o juízo competente, observando-se o seguinte: I – a execução poderá ser proposta no foro de domicílio do executado, de eleição constante do título ou, ainda, de situação dos bens a ela sujeitos; II – tendo mais de um domicílio, o executado poderá ser demandado no foro de qualquer deles; III – sendo incerto ou desconhecido o domicílio do executado, a execução poderá ser proposta no lugar onde for encontrado ou no foro de domicílio do exequente; IV - havendo mais de um devedor, com diferentes domicílios, a execução será proposta no foro de qualquer deles, à escolha do exequente; V – a execução poderá ser proposta no foro do lugar em que se praticou o ato ou em que ocorreu o fato que deu origem ao título, mesmo que nele não mais resida o executado. Havendo foro de eleição, já estará fixada a competência. Se não houver, a competência será a estabelecida pelo CPC, art. 781. RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL A partir do artigo 789 do CPC ➢ Conceitua como “situação meramente potencial, caracterizada pela sujeitabilidade do patrimônio de alguém às medidas executivas destinadas à atuação da vontade concreta do direito material”. Numa relação obrigacional, de direito material, existem um crédito e um débito, sendo este último o dever jurídico de realizar a prestação. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 27 Ao lado deste dever de direito material existe uma possibilidade de sujeição do patrimônio do devedor para assegurar a satisfação do direito do credor. Se revela como uma relação de direito processual. ➢ A responsabilidade nada mais é do que um vínculo de direito público processual, consistente na sujeição dos bens do devedor a serem destinados a satisfazer o credor que não recebeu a prestação devida, através da realização da sanção por parte do órgão judiciário. Pelo exposto, podemos perceber que as regras sobre responsabilidade patrimonial são autônomas em relação às regras sobre legitimação passivapara o processo de execução. A execução, porém, poderá atingir bens de terceiros que não são devedores e nem executados, nas seguintes condições (art. 790 do CPC): 1 - Do sucessor a título singular, tratando-se de execução fundada em direito real ou obrigação reipersecutória (de entregar coisa). - Atualmente, o art. 790, I, do CPC, além das ações fundadas em direito real, também tutela a “obrigação reipersecutória”. Essa espécie de obrigação é objeto de um processo no qual se pleiteia a restituição de bens que estejam fora do patrimônio do autor, ou em poder de terceiros. Trata-se de ação que tende a pedir a restituição daquilo que é do autor ou do que é devido a ele, e se ache fora de seu patrimônio. A alienação da coisa ou do direito litigioso, a título particular, não altera a legitimidade das partes, sendo que a sentença, proferida entre as partes originárias, estende os seus efeitos ao adquirente ou ao cessionário. Daí decorre que aquele que adquiriu a coisa litigiosa, a despeito de não ser parte na ação e na execução, terá aquele bem submetido à execução. A alienação da coisa litigiosa não é caso de nulidade ou anulabilidade do negócio jurídico, mas de irrelevância ou ineficácia em face do processo. Nulidade e anulabilidade são vícios do negócio jurídico; este, porém, pode ser válido, inclusive com pleno conhecimento e concordância dos sujeitos do ato, mas ineficaz em face de uma situação, no caso o processo em que era litigioso. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 28 2 - Do sócio, nos termos da lei. Se a lei de direito material fixa a responsabilidade solidária, o sócio passa a ser devedor junto com a sociedade e poderá figurar no pólo passivo da execução. Nesta hipótese o devedor é a sociedade e contra ela deve ser proposta a execução, podendo os bens particulares dos sócios ser atingidos nos casos legais. A regra é a de que a sociedade, como tem personalidade jurídica, responda por suas dívidas, somente respondendo os bens particulares dos sócios nos casos expressos em lei (art. 795). E, mesmo quando isto ocorra, tem o sócio o direito de exigir que sejam primeiro excutidos os bens da sociedade. 3 - Do devedor quando em poder de terceiros. Não é a circunstância eventual de os bens do devedor estarem em poder de terceiros que poderia excluí-los da execução. A responsabilidade atinge-os inequivocamente. Caberá, apenas, resolver a questão relativa aos direitos do terceiro que os detém. 4 - Do cônjuge ou companheiro, nos casos em que os seus bens próprios ou de sua meação respondem pela dívida. A regra básica é a de que as dívidas firmadas por um dos cônjuges têm como garantia os bens desse mesmo cônjuge; todavia, se as obrigações foram contraídas em benefício da família, respondem também os bens do outro cônjuge, o qual, não tendo contraído a dívida e não sendo sujeito do título, não será sujeito passivo da execução, mas terá seus bens a ela vinculados. 5 - Alienados ou gravados com ônus real em fraude de execução. Considera-se em fraude de execução a alienação ou oneração de bens (art. 792). 3. FRAUDES CONTRA CREDORES e FRAUDE CONTRA A EXECUÇÃO O sistema de proteção dos credores prevê dois tipos de fraudes: a fraude contra credores e a fraude de execução. ➢ A fraude contra credores (CC, arts. 158 a 165) torna os atos de alienação anuláveis em virtude da situação patrimonial do devedor se este transmite os seus bens em caráter gratuito ou se de maneira onerosa. Para se declarar a fraude e se desconstituir Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 29 o negócio jurídico fraudulento, fazendo com que o bem retorne ao patrimônio do devedor, o credor deve propor ação com essa finalidade. Deve provar a concorrência do eventus damni (dano) e do consilium fraudis (intenção de causar o dano). Procedente, e só nesse caso, os bens retornam ao patrimônio do devedor e poderão ser penhorados. Requisitos: • Estado de pendência de uma demanda; • Situação de insolvência do executado; • Má-fé do terceiro: • Alienação gratuita: não depende de prova da má-fé; • Alienação onerosa: • Bem não sujeito a qualquer tipo de registro; • Bem sujeito a registro e não registrado; • Bem sujeito a registro e registrado. ➢ Na fraude de execução (CPC, art. 792) é uma espécie de ato fraudulento que, além de gerar prejuízo ao credor, atenta contra a dignidade da justiça (CPC, art. 774, I).O ato praticado em fraude à execução é ineficaz perante o credor. Não é necessária ação contra o devedor (como na fraude contra credores), bastando uma mera petição simples no processo já pendente para que o juiz reconheça a fraude. Pouco importa se havia ciência ou não de que o ato levaria o devedor à insolvência. A intenção fraudulenta é presumida. CPC/73 Art. 593. Considera-se em fraude de execução a alienação ou oneração de bens: I - quando sobre eles pender ação fundada em direito real; II - quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor CPC/15 Art. 792. A alienação ou a oneração de bem é considerada fraude à execução: I – quando sobre o bem pender ação fundada em direito real ou com pretensão reipersecutória, desde que a pendência do processo tenha sido averbada no respectivo registro público, se houver; Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 30 demanda capaz de reduzi-lo à insolvência; III - nos demais casos expressos em lei. II – quando tiver sido averbada, no registro do bem, a pendência do processo de execução, na forma do art. 828; III – quando tiver sido averbado, no registro do bem, hipoteca judiciária ou outro ato de constrição judicial originário do processo onde foi arguida a fraude; IV – quando, ao tempo da alienação ou da oneração, tramitava contra o devedor ação capaz de reduzi-lo à insolvência; ❖ 6 - Cuja alienação ou gravação com ônus real tenha sido anulada em razão do reconhecimento, em ação autônoma, de fraude contra credores. A fraude contra credores demanda ação de conhecimento própria (muitas vezes mencionada na doutrina como pauliana ou revocatória), exigindo, para seu êxito, demonstração do prejuízo sofrido pelo credor com insolvência do devedor, além de intenção fraudulenta (conluio) entre os demandados. Sendo o ato anulado o bem retorna ao patrimônio do devedor, de forma que passa a responder por suas obrigações, mas não por meio de responsabilidade secundária, já que o responsável patrimonial nesse caso é o devedor. ❖ 7 - do responsável, nos casos de desconsideração da personalidade jurídica. Em casos de fraude ou má-fé, o juiz pode desconsiderar o princípio deque as pessoas jurídicas têm existência distinta da dos seus membros, e isso corresponde à desconsideração da personalidade jurídica. Com isso, os bens particulares dos sócios podem ser utilizados para a satisfação de dívidas da sociedade. Com a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, não haverá extinção da sociedade ou a perda de sua personalidade jurídica, mas apenas o afastamento da autonomia patrimonial para o caso em concreto, de forma a não permitir o prejuízo de terceiro prejudicado pelo uso abusivo da sociedade. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 31 O art. 137 do CPC prevê que, sendo acolhido o pedido de desconsideração, a alienação ou oneração de bens, havida em fraude de execução, será ineficaz em relação ao requerente. Como se pode notar do dispositivo legal, somente após o acolhimento do pedido de desconsideração haverá fraude à execução, em previsão que aparentemente contraria o disposto no art. 792, § 3.º, do CPC, que estabelece haver fraude à execução nos casos de desconsideração da personalidade jurídica a partirda citação da parte cuja personalidade se pretende desconsiderar. Como esclarece o texto legal, não é apenas a alienação que é ineficaz, mas também os atos de oneração, como a instituição de hipoteca ou outro direito real de garantia. ✓ O terceiro proprietário não é parte ou sujeito passivo da execução, daí, para defender seus bens e apresentar as alegações que entender cabíveis à sua exclusão da execução, tem os embargos de terceiro e não os embargos do devedor. O Capítulo sobre a responsabilidade patrimonial regula, ainda, mais três situações, a saber: responsabilidade patrimonial de imóvel submetido ao regime do direito de superfície, a do benefício de ordem do fiador e a da responsabilidade do espólio. ▪ Primeira hipótese: O art. 791 do CPC, que não tem correspondente no diploma processual revogado, trata da penhora sobre bem imóvel sujeito ao regime do direito de superfície, reafirmando a autonomia entre o direito de propriedade e o direito de superfície. No caput do dispositivo ora analisado está estabelecido que, se a execução tiver como objeto obrigação de que seja sujeito passivo o proprietário de terreno submetido ao regime do direito de superfície os atos de constrição devem se limitar à penhora do terreno, enquanto que, sendo o obrigado o superficiário, a penhora deve recair sobre a construção ou plantação. O objeto do dispositivo é claramente individualizar a responsabilidade patrimonial do proprietário e do superficiário. O § 2º do art. 791 do Novo CPC prevê que a responsabilidade patrimonial limitada ao titular do direito de propriedade e do Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 32 direito de superfície, com o reconhecimento de sua autonomia, também se aplica à enfiteuse, à concessão de uso especial para fins de moradia e à concessão de direito real de uso. Dessa forma, sendo executado o proprietário, somente o terreno responderá pela satisfação do direito do exequente, enquanto que, sendo executado o titular dos direitos reais descritos no art. 791, § 2º do Novo CPC, somente esses direitos poderão ser penhorados. ▪ Na segunda, o fiador pode em: executado aquele, poderá nomear à penhora bens livres e desembaraçados do devedor para que sejam executados antes dos seus e somente se os do devedor forem insuficientes é que os bens do fiador serão penhorados até à satisfação do direito do credor. Tal benefício de ordem pode ser renunciado pelo fiador no contrato de fiança, passando, então, a estar em pé de igualdade em relação ao devedor, em situação de solidariedade passiva. Ainda há direito de o fiador que pagar a dívida e executar o devedor-afiançado dentro dos mesmos autos, tornando-se, então, credor, porque, pagando, sub- rogou-se nesse direito. ▪ Esclarece o art. 597 que o espólio responde pelas dívidas do falecido enquanto mantida a universalidade de direitos da herança. Dissolvida essa universalidade pela partilha, cada herdeiro passará a responder por elas na proporção da parte que na herança lhe coube, mas sempre dentro do limite máximo do valor da própria herança. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 33 PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS DA EXECUÇÃO 1. PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS E CONDIÇÕES DA AÇÃO O direito de praticar a execução forçada é exclusivo do Estado, cabendo ao credor apenas provocar a atividade estatal, via direito de ação. Sendo assim a execução uma forma de ação, encontra-se subordinada aos pressupostos processuais, tal como o processo de conhecimento. Como pressupostos processuais para o estabelecimento de uma relação processual válida podemos relembrar a capacidade das partes, a representação por profissional habilitado, a competência do juízo, etc. Em relação às condições da ação, que são categorias intermediárias entre os pressupostos processuais e o mérito da causa, estas também estão presentes na execução não estando diretamente relacionadas ao mérito, mas sim ao provimento executivo pleiteado. As mesmas condições da ação genéricas estudadas no processo de conhecimento devem estar presentes na execução (legitimidade, interesse e possibilidade jurídica) Dois elementos específicos na execução e que são conhecidos como requisitos necessários para realizar qualquer execução (CPC/2015, art. 786) e são: • o título executivo • e o inadimplemento do devedor. DO TITULO EXECUTIVO Não há consenso sobre o conceito de título executivo e nem sobre a natureza jurídica do mesmo, consenso há em que: ▪ Nulla Executio Sine Titulus: sem título terá apenas o processo de cognição. ▪ Nulo Titulus Sine Lege Somente são válidos os títulos previstos em lei. Natureza Jurídica: ✓ Abstração ou eficácia abstrata: Importa para o processo de execução apenas a existência física do título executivo, não podendo o juiz diante de um título executivo verificar sobre a existência ou não da dívida. Há intenso debate a respeito da natureza jurídica do título executivo. Três principais correntes doutrinárias se formaram em torno do tema: a do título como documento, como ato jurídico e a teoria mista. ✓ Segundo Carnelutti, o título executivo seria um documento representativo da existência do crédito exequendo, ou seja, seria uma prova legal da existência do crédito, já que previsto em lei. O título seria uma prova documental, prova legal; documento com a forma e conteúdo predeterminados pela lei. Execução e Cumprimento de Sentença – Prof. Me. Dennys D. Rodrigues Albino 34 ✓ Liebman critica tal pensamento por estar muito ligado ao direito material, afirmando que, se só há execução com título executivo, e este representa a existência do crédito, só haveria ação de execução quando efetivamente existente o crédito, o que não se mostra correto, considerando-se que mesmo sendo constatada a inexistência do direito exequendo no julgamento dos embargos à execução/impugnação, terá existido a execução. O doutrinador italiano formulou a tese do título como ato jurídico, em que o título representa tão somente a via adequada para o início do processo de execução, por meio da imposição da sanção processual consistente na responsabilidade patrimonial. O documento seria apenas a materialização do ato jurídico (forma representativa). ✓ A teoria mista procura demonstrar que o título ao mesmo tempo pode ser visto como ato e documento, sendo a lei a responsável pela determinação de qual característica será a predominante no caso concreto. Para essa corrente doutrinária, ora a lei dá predominância ao próprio documento (nota promissória, letra de câmbio, documento particular), ora ao negócio jurídico ou à própria obrigação (foro, aluguel, despesas condominiais). O título seria um fato complexo, porque há de considerar os requisitos formais e os requisitos substanciais, ou seja, o título há de satisfazer uma certa forma e um certo conteúdo. 2. REQUISITOS Não basta a existência do título para que se possa promover a execução, são necessários outros requisitos que são atributos da obrigação e não do título executivo em si. Três são os requisitos: Certeza, Liquidez e Exigibilidade (Art. 786 e 803, I, CPC/2015). ➢ CERTEZA: não é certeza do título mas do crédito, a certeza ocorre quando, em face do título, não há controvérsia sobre a sua existência, tal certeza refere-se ao órgão jurisdicional e não às partes, decorrendo da perfeição formal do título e da ausência de reservas à sua plena eficácia, decorre da previsão num dos tipos legais (Art. 784, CPC/2015). Para Cândido Rangel Dinamarco, a certeza deve ser entendida como a necessária definição dos elementos subjetivos (sujeitos) e objetivos (natureza e individualização do objeto) do direito exequendo representado no título executivo. A certeza, portanto, teria por finalidade identificar os legitimados ativos e passivos na execução, precisar