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1 UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE Faculdade de Filosofia Departamento de Graduação Nomes: Elisa Manuel Zandamela Ensten De Oliveira Mariana José Cuche Pedro Belé Mucheu Docente: Mestre Nilza Pedro Chirindja A necessidade do pensamento complexo A inteligência cega, a tomada de consciência Edgar Morin (2008: 13), propõe-se a reflectir sobre os paradoxos do conhecimento humano, ele nota que apesar dos avanços extraordinários nas ciências físicas, biológicas, psicológicas e sociológicas, a humanidade continua a sofrer com erros, ignorância e cegueira intelectual. Ele aponta que esses problemas não são apenas falhas pontuais de percepção ou lógica, mas derivam, principalmente, da maneira como organizamos e estruturamos o nosso saber em sistemas fechados de ideias, como teorias e ideologias, assim, a ciência, embora essencial, também gera uma nova forma de ignorância: à medida que especializa e fragmenta o conhecimento, se perde a capacidade de compreender a totalidade e a interconexão dos fenómenos. Morin escreve: Existe uma nova ignorância ligada ao desenvolvimento da própria ciência; existe uma nova cegueira ligada ao uso degradado da razão; As ameaças mais graves em que a humanidade incorre estão ligadas ao progresso cego e descontrolado do conhecimento (armas termonucleares, manipulações de todas as espécies, desequilíbrio ecológico etc). (idem., p. 14). Com base na citação acima entendemos que o progresso científico e tecnológico, quando descontrolado e desvinculado de uma visão holística e ética, se torna uma ameaça para a humanidade. Moran menciona, como exemplos de perigo das armas termonucleares, as 2 manipulações biotecnológicas e o desequilíbrio ecológico, mostrando que a expansão do conhecimento pode gerar riscos existenciais se não for guiada por uma reflexão sobre suas consequências. Portanto, todos esses erros e perigos têm uma raiz comum: um modelo mutilador de organização do conhecimento, que não reconhece nem compreende a complexidade do real. Para Morin, a solução passa por uma mudança radical na maneira como pensamos, aprendemos e utilizamos o saber, isto é, temos que resgatar a interconectividade e a totalidade dos fenómenos para evitar os perigos da "inteligência cega". O problema da organização do conhecimento Todo conhecimento se estrutura a partir de selecções, exclusões e hierarquizações de informações, guiadas não apenas pela lógica, mas por paradigmas subjacentes que moldam nossa visão de mundo sem que tenhamos plena consciência disso. Esses paradigmas funcionam como filtros que determinam quais dados são considerados relevantes e quais são descartados, influenciando profundamente a maneira como interpretamos a realidade. “Todo o conhecimento opera por selecção de dados significativos e rejeição de dados não significativos: separa (distingue ou desune) e une (associa, identifica); hierarquiza (o principal, o secundário) e centraliza (em função de um núcleo de noções mestras) ” (MORIN, 2008: 16). Morin, ilustra essa ideia com a transição da visão geocêntrica para a heliocêntrica. No momento de incerteza entre os dois modelos, a principal oposição não estava apenas nos cálculos, mas na forma como os dados eram seleccionados e interpretados. Os defensores do geocentrismo rejeitavam informações que não se encaixavam na sua concepção do universo, enquanto os heliocêntristas se baseavam nesses mesmos dados para propor uma nova visão. Essa mudança não foi apenas uma troca de posição entre a Terra e o Sol, mas uma transformação profunda na estrutura do pensamento astronómico e na visão do mundo como um todo. O problema, segundo Morin, está na tendência de reduzir realidades complexas a visões simplificadas e unidimensionais e a solução proposta por Morin é tomar consciência dos paradigmas ocultos que estruturam nosso conhecimento, pois são eles que, ao organizá-lo de maneira rígida e fragmentada, acabam desfigurando a realidade. Somente ao questionar esses paradigmas e ao buscar abordagens mais integradoras, que reconheçam a complexidade dos fenómenos, será possível desenvolver um pensamento mais crítico e abrangente. 3 A patologia do saber, A inteligência cega A Inteligência Cega, denuncia os efeitos nocivos do que Morin chama de paradigma da simplificação, um modelo de pensamento que fragmenta a realidade, separa o que deveria estar unido e reduz o complexo ao simples. Esse paradigma, formulado por Descartes, ao dividir radicalmente o sujeito pensante da coisa extensa, marcou profundamente a ciência e a filosofia ocidental. Embora tenha sido essencial para o avanço do conhecimento, essa separação também levou a uma crescente falta de comunicação entre as diferentes áreas do saber e à incapacidade da ciência de reflectir sobre si mesma (Cfr. 2008: 16). Morin explica que essa lógica disjuntiva não apenas isolou os três grandes campos científico que são a física, a biologia e as ciências humanas, como também gerou uma tendência reducionista, na tentativa de explicar o biológico apenas pela física e o humano apenas pelo biológico. Além disso, a hiperespecialização agravou essa fragmentação, fazendo com que cortes arbitrários no real fossem tomados como a própria realidade. A ciência clássica buscava uma ordem subjacente por meio da matematização extrema, transformando seres e fenómenos complexos em meras equações e fórmulas, o que desconsiderava as totalidades e os contextos. “Assim, chega-se à inteligência cega. A inteligência cega destrói os conjuntos e as totalidades, isola todos os objectos daquilo que os envolve” (MORIN, 2008: 18). Essa simplificação extrema gerou o que o autor chamou de inteligência cega, uma forma de conhecimento incapaz de articular o uno e o múltiplo, de reconhecer a interdependência dos fenómenos e de conceber a relação inseparável entre o observador e a coisa observada. O saber passou a ser retalhado em disciplinas isoladas, tornando-se incapaz de compreender problemas humanos fundamentais. O absurdo dessa fragmentação se expressa no fato de que, nas ciências humanas, já não há necessidade de se pensar o conceito de homem, levando alguns especialistas a concluírem que o próprio ser humano é uma ilusão. “Os pedantes cegos concluem dai que o homem não tem existência, senão ilusória. Enquanto os media produzem o baixo cretinismo, a Universidade produz o alto cretinismo” (MORIN, 2008: 18). Além da degradação do conhecimento académico, Morin critica os meios de comunicação, que produzem um baixo cretinismo, e a universidade, que fomenta um alto cretinismo, ambos contribuem para a ignorância contemporânea. O obscurantismo moderno não vem da falta de conhecimento, mas de sua organização disfuncional, que impede conexões entre diferentes áreas do saber. O resultado disso é que o conhecimento está cada vez menos acessível à reflexão humana e cada vez mais manipulado por sistemas informatizados e poderes anónimos, como os Estados. 4 Morin aponta para a crise das doutrinas científicas e filosóficas contemporâneas. Ele vai argumentar que tanto o cientificismo limitado, que transforma especializações em dogmas inquestionáveis, quanto as teorias que tentam monopolizar a verdade com conceitos rígidos e reducionistas, como o marxismo althusseriano e o econocratismo liberal. Esses sistemas intelectuais se tornam chaves que tentam abrir todas as portas, mas que, na verdade, trancam o pensamento em cofres-fortes de verdades fechadas. O efeito final dessa visão mutiladora é trágico: a incapacidade de conceber a complexidade da realidade social e humana tem consequências reais e cruéis. A fragmentação do conhecimento contribui para o sofrimento humano, pois impede que problemas sociais sejam compreendidos em toda sua profundidade. Segundo Morin, a política muitas vezes se baseia nessa simplificação e no pensamento maniqueísta para manipular massas,mas a verdadeira estratégia política requer um conhecimento complexo, capaz de lidar com incertezas, imprevistos e interacções múltiplas (Cfr, 2008: 19). Conceito básico de complexo, complexidade e o porquê do pensamento complexo O pensamento humano precisa superar a simplificação reducionista e abraçar a complexidade da realidade. A complexidade, conforme definida por Morin, é um complexus — um tecido de elementos heterogéneos inseparavelmente conectados. No entanto, esse tecido é frequentemente percebido como caótico, ambíguo e desordenado, o que leva o conhecimento tradicional a buscar ordem através da simplificação. O problema é que essa simplificação mutila o real, tornando o pensamento cego para aspectos essenciais da existência. Pelo que: À primeira vista, a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogéneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno no múltiplo. Na segunda abordagem, a complexidade é efectivamente o tecido de acontecimentos, acções, interacções, retroacções, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal […] Ora, a complexidade voltou, nas ciências, pela mesma via que a tinha banido (MORIN, 2008: 20). Morin mostra como a própria ciência, que historicamente procurou revelar uma ordem absoluta no universo, acabou descobrindo a complexidade no cerne da matéria e da vida. A física, antes baseada no determinismo rígido, encontrou a desordem no segundo princípio da termodinâmica e revelou a intricada complexidade das partículas subatômicas. O cosmos, outrora visto como uma máquina perfeita, passou a ser compreendido como um processo dinâmico de organização e desintegração simultâneas. A vida, por sua vez, deixou de ser vista 5 como uma substância fixa e passou a ser entendida como um fenómeno de auto-eco- organização altamente complexo. Dessa forma, se até mesmo os fenómenos naturais exigem um pensamento complexo, os fenómenos sociais e humanos não podem ser tratados de maneira reducionista. O pensamento precisa enfrentar a confusão, as interacções múltiplas e as incertezas, em vez de eliminá-las artificialmente. Para isso, Morin propõe substituir o paradigma clássico da disjunção/redução/unidimensionalização por um novo paradigma de distinção/conjunção, que permita distinguir sem separar, unir sem identificar completamente e integrar sem reduzir. A dificuldade do pensamento complexo é que deve enfrentar a confusão (o jogo infinito das inter-retroacções), a solidariedade dos fenómenos entre eles, a bruma, a incerteza, a contradição […] Assim, ao paradigma da disjunção/redução/unidimecionalização, seria preciso substituir um paradigma de distinção/conjunção que permita distinguir sem separar, associar sem identificar ou reduzir. Este paradigma comportaria um princípio dialógico e translógico, que integraria a lógica clássica tendo simultaneamente em conta os seus limites de facto e de jure (MORIN, 2008: 22). Esse novo pensamento exige um princípio dialógico e translógico, capaz de incorporar a lógica clássica, mas também de reconhecer seus limites diante da contradição e da complexidade. Morin propõe o conceito de Unitas Multiplex, que escapa tanto ao holismo abstrato (que vê a unidade como totalizante) quanto ao reducionismo extremo (que dissolve o todo em suas partes). Ele não busca criar um dogma, mas sensibilizar para as limitações do pensamento actual e para as consequências destrutivas do pensamento simplificador. A doença da ideia ocorre quando a ideia passa a ser vista como mais real do que a realidade que deveria traduzir, como acontece no idealismo excessivo. A doença da teoria se expressa no dogmatismo, que fecha a teoria sobre si mesma, impedindo-a de evoluir. A patologia da razão está na racionalização extrema, que aprisiona o real em sistemas coerentes, mas unilaterais, ignorando que parte do real é irracionalizável e que a própria racionalidade deve dialogar com o que escapa a ela. “Estamos ainda cegos perante o problema da complexidade. As disputas epistemológicas entre Popper, Kuhn, Lakatos, Feyerabend etc, ignoram-na. Esta cegueira faz parte da nossa barbárie […] apenas o pensamento complexo nos permitirá civilizar o nosso conhecimento” (Idem., p. 23). Morin critica a epistemologia tradicional por ignorar o problema da complexidade. Essa cegueira, segundo ele, é uma forma de barbárie intelectual, pois revela que ainda estamos na pré-história do espírito humano. Apenas um pensamento complexo poderá civilizar o conhecimento, tornando-nos capazes de compreender a realidade sem mutilá-la. 6 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA MORIN, Edgar. (2008). Introdução ao pensamento complexo. Trad. Dulce Matos. Ed. 5. Lisboa: Stória.