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Sérgio Leonardo Gobbi TEORIA DO ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA Uma possível compreensão do comportamentohumano edição 2002 VETOR EDITORA PSICO-PEDAGÓGICA LTDA. RUA CUBATÃO, 48 - CEP 04013-000 - SP (0xx11) www.vetor-editora.com.br vendas@vetor-editora.com.brSérgio Leonardo Gobbi concluía Rogers, é muito maior e integra todo sistema que cerca indivíduo. E este se processa de alguma forma inde- pendente de nossa compreensão. O que fundamentava a pre- ocupação de Rogers era O relacionamento humano e sua integração muito mais do que a estruturação teórica que cons- tituía este homem. Este processo evolutivo de Rogers pode ser percebido quan- do ele comenta a respeito do seu modo de ver a ciência e seus motivos. "A investigação é um esforço persistente e disciplinado para conferir um sentido e uma ordenação aos fenômenos da experiência subjetiva. A justificação desse esforço consiste no fato de ele conferir um sentimento de satisfação por nos apercebermos da ordem do mundo e porque a compreensão das re- lações ordenadas que se manifestam na natureza conduz a resultados enriquecedores(...) Em de- terminados momentos dediquei-me a pesquisa por outros motivos: para satisfazer os outros(...)Estes erros na minha capacidade de julgar e na minha atividade apenas me serviram para ficar convencido de que só existe uma razão para prosseguir a atividade científica: a satisfação da necessidade que em mim existe de encontrar uma significação." (Rogers, 1991:36) Para Rogers, Liberdade estaria relacionada com proces- SO interno de exploração das experiências vivenciadas. A Li- berdade serviria para constatar e representar adequadamente suas experiências O termo organismic é muito em Rogers, quando este procura significar simultaneamente a realidade anímica e orgânica em interação com o meio ambien- te. Neste conceito se concentram os diversos aspectos que integram a totalidade biopsiquica do indivíduo (Rogers, 1991:34). 402. TEORIA DO CAOS Depois desta concepção a respeito do comportamento hu- mano, segue uma apresentação da construção do pensamento científico e sua dialética, No interesse de ampliar questões relevantes no processo constitutivo das ciências humanas, fun- damentalmente a natureza do comportamento humano, cabe- nos questionamento a respeito da forma científica, que homem desenvolveu para vislumbrar os fenômenos da natu- reza. Ao questionarmos a forma precisa de vislumbrar e então calcular a exatidão das ciências torna-se grande a possibilida- de de avaliarmos as ciências humanas e sociais em prismas semelhantes. Ocorre que, durante alguns séculos, procurou-se acompa- nhar a Teoria newtoniana. Esta base explicativa procurava, atra- vés do mecanicismo de Newton, identificar a realidade como máquina: assim, para esta concepção, tudo que ocorre, re por necessidade, e por uma necessidade linear. Esta confi- guração do pensamento proliferou-se determinando não só a visão da ciência, mas também uma visão do mundo, do ser humano. Este conceito dizia que a exatidão da ciência depen- dia da maior fidelidade do cientista à realidade. Isto constituía a base do conceito clássico de "objetividade" científica, e de neutralidade. Para compreendermos processo histórico da evolução da ciência cabe salientar a importância da evolução das últi- mas décadas. Embora, talvez, a linearidade ainda seja a con- 41Sérgio Leonardo Gobbi cepção dominante, cabe-nos salientar a flutuação de nossa percepção visual, que provoca rupturas na simetria do que vemos. Esta instabilidade visual que vive, defendida pelo físico teórico Hermann Haken, nos propicia uma compreensão da ambigüidade de uma mesma imagem. Ou seja, a percepção apresenta uma complexidade de situações, síncrono com as- pectos que estão além ou aquém do que realmente se pensa ter visto: é a compreensão da ciência.Como po- deremos notar, hoje nosso pensamento é produto da con- cretude do pensamento científico de alguns séculos atrás, como veremos mais adiante. Contudo tornamo-nos perplexos após a evolução teórico científica do nosso tempo. Perdeu-se a confiança epistemológica, como diz Boaventura de Sousa Santos (1997). Mais do que isto continua autor estamos de novo regressados à necessidade de perguntar pelas rela- ções entre a ciência e a virtude, pelo valor do conhecimento ordinário que criamos, sobre o individual e o coletivo, e que usamos para dar sentido às nossas práticas e que continua sendo considerado irrelevante, ilusório e, muitas vezes, falso. E complementa O autor, que estamos no fim de um ciclo de hegemonia de uma certa ordem científica. As condições epistemológicas das nossas perguntas estão inscritas, mui- tas vezes, no avesso dos conceitos que utilizamos para lhes dar respostas. Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário, na a medida em que nega cará- ter racional puro a todas as formas de conhecimento. A sua principal característica pauta-se na globalidade de sua com- preensão, provocando, assim, uma ruptura do paradigma ci- entífico que precede este processo de transformação. 39 O conceito de um aperfeiçoamento da noção de totalidade. Com ela se colocou (através da percepção) a importância do centro da observação da or- dem predominante no interior de um todo. 42Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa a partir do século XVII, passa a ser parâmetro do conhecimento científico, possibilitando uma ênfase na or- ganização da ciência, que vinha se desenvolvendo desde século XVI, aproximadamente. Até a Moral e a Política encon- tram, nesta etapa, matéria para procurar fundamentação da sua realidade. Assim, mesmo não penetrando nas ciências morais, Newton permitiu-se concentrar os seus esforços em sustentar a universalidade das leis na física. Tornando-as um Princípio, afirma em seu trabalho de óptica (apud Prigogine, 19:1997) que, "não existe processo natural que não seja pro- duzido por forças ativas, atração e repulsão". Para alguns pesquisadores, Newton era sinônimo de um pensamento matematizável, para outros utilizar a ciência clás- sica (Newtoniana) consistia em analisar um fenômeno e es- miuçar sua compreensão a partir de um fato central, irredutível e objetivo, do qual tudo pode se deduzir. A sistematização desta compreensão newtoniana de com sua com- preensão sistemática da ciência. Todos os cientistas sucessi- vos acompanharam este processo da construção do conhecimento. Na realidade, as idéias que presidem à observação e à ex- perimentação são as idéias claras e simples a partir das quais 40 Isaac Newton: (1642-1727) Inglês que, com o desenvolvimento do pensamento matemático mecanicista, influenciou o processo de construção da reflexão filosófi- ca do século XVIII e posteriores. Os princípios fundamentais da Física Clássica, desenvolvida por Newton, foram: 1) Todo corpo permanece em seu estado de repouso, ou de movimento uniforme em linha reta, a menos que seja obrigado a mudar de seu estado por forças impressas nele; 2) A mudança é proporcional à força impressa, e se faz segundo a linha reta que perfaz esta força: 3) A uma ação sempre se opõe uma reação igual, ou seja, as ações de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e se dirigem a partes contrárias. (Mattos, 1983: VIII) 41 Pesquisador que aplicou as idéias de Newton, na Astrologia, a partir de uma com- preensão sistematizada, trazendo grande progresso à ciência astroló- gica. (Prigogine, 1997:19) 43Leonardo Gobbi se pode ascender a um conhecimento certo e rigoroso da na- tureza. E estas idéias são as idéias "A matemática fornece à ciência moderna, não só o instrumento privilegiado de análise, como também a lógica da investigação, como ainda o modelo de representação da própria estrutura da matéria. Para Galileu, o livro da natureza está inscrito em caracteres geométricos e Einstein não pensa de modo diferente. (...) derivam duas principais (...) conhecer significa quantificar. O rigor científico afere- se pelo rigor das medições (...) o que não é quan- tificável é cientificamente irrelevante. (...) conhecer significa dividir e classificar para depois poder de- terminar relações sistemáticas entre o que separou." (Santos, 1997:15) Nesta concepção clássica todo é a mera soma das partes, ao contrário de Aristóteles que afirmava que o todo era major que a soma das partes. Assim, se conseguirmos entender cada parte do universo, somando o conhecimento das partes, teremos conhecimento do todo, e, mais ain- da, controle do universo. Portanto, pelo avanço gradual da ciência, um dia será possível conhecer, com certeza, tudo, e assim, dominar tudo. Assim a visão cartesiana newtoniana é, pois, uma visão do mundo (na ontologia, e na epistemologia, que acabou alimentando o otimismo moder- no: ser humano, com o tempo, vai resolver todos os pro- blemas). No seculo XVIII este precursor é ampliado e aprofundado e esta concepção generaliza-se, criando condições para as ciências sociais do século posterior. A consciência da ciência moderna veio a condensar- se no positivismo do século XVIII, pois o conhecimento ci- entífico pelas disciplinas de lógica e da e as ciências segundo o modelo mecanicista das ciências naturais 44Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa "A primeira variante (...) parte do pressuposto que as ciências naturais são uma aplicação ou concretização de um modelo de conhecimento universalmente válido e, de resto, único válido portanto, por maiores que sejam as diferenças entre os fenômenos naturais e os sociais é sempre possível estudar os últimos como se fossem os primeiros."(Santos, 1997:19) A Só que, como se sabe, não foi isso que aconteceu. Sinal e causa desta crise histórica e da crença no progresso cons- tante é início do século XX, com suas formas, suas tragédi- as, realizadas com apoio alicerçado na ciência e na tecnologia. Neste contexto de crise, nasce a Teoria embora a revolução industrial tenha permanecido presa na sistemati- zação do conhecimento e de toda produção, trazendo, como reforço disto, a reafirmação do pensamento newtoniano e laplaciano. Foi a partir de trabalhos realizados, ainda no século XIX, sobre o eletromagnetismo, que a sólida compreensão ca foi sendo questionada. As compreensões laplacianas e new- tonianas, mecanicistas, não davam explicações da totalidade a respeito dos campos Pensava-se que era possível a existência de uma forma de realidade independente da matéria redutível a componentes básicos do conceito determinista da compreensão científica da época. Assim, ini- ciaram-se estudos para compreender movimento seqüencial dos componentes que compunham os campos eletromagné- ticos. O conceito de começa a ser desenvolvido, nesta época. 42 A Teoria Quântica desenvolve-se a partir da existência de uma menor da onda, denominado A compreensão fundamentada por esta teoria propulsou 43 a idéia do movimento ondulatório, ampliando a compreensão linearista da ciência. conceito de campo é um conceito que não pode ser decomposto em unidades, Há outra compreensão em tal mobilidade funcional.Sérgio Leonardo Gobbi No início do século atual, a existência dos Quanta (partícula de energia) começou a transformar a compreensão da física e até então existente. Albert quando em 1905 publi- cou a Teoria da (Teoria Geral da Relatividade) ap proporcionou uma nova compreensão conceitual: na reali- ta dade da compreensão física, se incluía, também, um Univer ao curvo e inserido em uma relação espaço-temporal contínua. de Isto demonstraria uma possibilidade ampliadora da compre- ensão linear que se tinha da ciência, compreensão que vinha ní marcando as nossas teorias e idéias pensantes, desde a épo- ca anterior a Newton. Isto não elimina a importância da compre- te ensão até então estudada, mas amplia a nossa compreensão do Universo. Junto a estas novas concepções surge a Física pc Pa moderna. A partir daí pudemos ver O funcionamento do átomo, a compreensão atômica, como uma nova compreensão da in matéria. m Nesta relação do homem com a natureza, pode ser ampli- ada a compreensão de mundo, incluindo novos elementos ci- entíficos como os Quanta. A Física Quântica foi desenvolvida e com a ampliação e desenvolvimento para a Mecânica Quantica pode ser descoberto uma nova propriedade: os ele- mentos atômicos. Estes apresentam um comportamento em relação à sua constituição. As partículas que compõem sao confinadas por uma massa que ora têm um volume bem definido em um espaço temporal específico, ora se expandem em ondas para todas as direções. Encontrando-se, assim, uma 46 nova compreensão do funcionamento científico, onde se fir- mava uma aparente estabilidade não esperada pelos experi- 47 44 Albert Einstein (1879-1955), e teórico, foi considerado o maior gênio de 48 nosso século. Através de suas idéias a ciência conseguiu explicações sobre a compreensão do tempo e do espaço, suas teorias fundamentaram o início das pesquisas da energia atômica. 49 45 Teoria fundamental desenvolvida por Albert Einstein, onde a relação tempo e espaço pode ser compreendida. 46Sérgio Leonardo Gobbi No início do século atual, a existência dos Quanta (partícula m de energia) começou a transformar a compreensão da física e até então existente. Albert quando em 1905 publi- cou a Teoria da (Teoria Geral da Relatividade) a proporcionou uma nova compreensão conceitual: na reali- ta dade da compreensão física, se incluía, também, um Univer a curvo e inserido em uma relação espaço-temporal contínua. d Isto demonstraria uma possibilidade ampliadora da compre- ensão linear que se tinha da ciência, compreensão que vinha ni marcando as nossas teorias e idéias pensantes, desde a épo- et ci ca anterior a Newton. Isto não elimina a importância da compre- te ensão até então estudada, mas amplia a nossa compreensão do Universo. Junto a estas novas concepções surge a Física p P moderna. A partir daí pudemos ver O funcionamento do átomo, e a compreensão atômica, como uma nova compreensão da in matéria. Nesta relação do homem com a natureza, pode ser ampli- ada a compreensão de mundo, incluindo novos elementos ci- entíficos como os Quanta. A Física Quântica foi desenvolvida e com a ampliação e desenvolvimento para a Mecânica Quantica pode ser descoberto uma nova propriedade: os ele- mentos atômicos. Estes apresentam um comportamento dual, em relação à sua constituição. As partículas que O compõem sao confinadas por uma massa que ora têm um volume bem definido em um espaço temporal específico, ora se expandem em ondas para todas as direções. Encontrando-se, assim, uma nova compreensão do funcionamento científico, onde se fir- mava uma aparente estabilidade não esperada pelos experi- 47 44 Albert Einstein (1879-1955), físico e teórico, fol considerado o maior gênio de 48 nosso século. Através de suas a ciência conseguiu explicações sobre a compreensão do tempo e do espaço, suas teorias fundamentaram início das pesquisas da energia atômica. 49 45 Teoria fundamental desenvolvida por Albert Einstein, onde a relação tempo e espaço pode ser compreendida. 46Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa mentos. Eram encontrados, nos experimentos, as partículas e as ondas, sem que umas excluíssem as outras. Surge assim princípio da , que apresenta a explicação do fenômeno atômico e seu compor- tamento. Pode-se ver a objetividade do fenômeno quântico, e, ao mesmo tempo, enfrentando a compreensão clássica do newtoniano-laplaciano Com esta compreen- são surge a compreensão de segundo O qual a nível subatômico, não pode ser afirmado que exista matéria em lugares definidos do espaço, mas que existem "tendên- cias a ocorrer". Heisenberg apresenta princípio da Incer- Tais tendências funcionam como ondas, assim podemos compreender a Teoria Quântica a partir de ondas. Passamos a uma compreensão probabilística da física. E O espaço tem significado, apenas, se for considerada a interconexão dinâmica de uma rede de energia de um fenô- meno com outro. "O mecanicismo, com todas as suas implicações, retirou-se do esquema da ciência. O Universo me- cânico, no qual os objetos se empurram, como jogadores numa partida de futebol, revelou-se tão ilusório quanto o antigo universo animista, no qual deuses e deusas empurravam os objetos à sua volta para satisfazer seus caprichos e extravagâncias." (Sir James Jeans, 1998:03) Niels Bohr criou este termo para caracterizar o conceito de que as medições sempre interferirão no objeto mensurado dentro do processo atômico. 47 Determinismo parte da convicção que se conhecendo as "leis da e o estado de urn sistema, o desenvolvimento do último torna-se calculável para todos os tempos. determinismo ganhou força com a mecânica de Newton, que impressionou nos séculos XVIII e XIX pelos seus sucessos iniciais. 48 Heisenberg junto a Bohr demonstram que não é possível observar ou medir um objeto sem nele, sem o alterar, e a tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou. 49 princípio da Incerteza de Heisenberg afirma que não se pode reduzir simultanea- mente os erros da medição da velocidade e da posição das que for feito para reduzir o erro de uma das medições aumenta o erro da outra. 47Sérgio Leonardo Gobbi Segundo Einstein, as partículas representam condensações de um campo contínuo presente em todo espaço. Por isso universo pode ser encarado como uma teia infinita de even- tos correlacionados. Segundo Capra (1986) a forma de compreendermos o mundo dirigirá a nossa forma de desenvolver a compreensão da física, do mundo do homem e sua natureza formadora. Ou seja, se observo um movimento dentro de uma perspectiva de movimento linear, verei apenas esta etapa do processo evolutivo. Caso eu analise de forma ondular, das ondas da físi- ca quântica, terei um movimento ondular em meu raciocínio que permitirá uma compreensão, talvez, mais aguçada do movimento dos elementos e da composição dos seus fenô- menos. Neste processo evolutivo da ciência e do conhecimento, em geral, podemos averiguar as mudanças de percepção. Antes os Sistemas Fechados marcavam a evolução e con- texto explicativo do comportamento dos fenômenos. A Linea- ridade era marco da compreensão e da produtividade científica e industrial. Os Sistemas Fechados, pela busca do movimento on- dulatório, e pelas incertezas, iniciam uma revolução no pen- samento humano. A compreensão dos sistemas passa a ser uma compreensão aberta. Ou seja, os ciclos do movimento dos quanta, ou do movimento atômico, ampliam a explicação para os Sistemas. Os Sistemas Fechados perdem espaço, irrevogavelmente, para O conceito de Sistemas Abertos. Assim, com a Teoria Quântica, muda a visao de este já não é visto como máquina perfeita e concluída, mas é um sistema complexo, interdependente, um organismo-vivo expansivo; ao mesmo tempo, todo conhecimento deixa de ser certo para se tornar aproximativo; provável, e em constante mudança e adequação (readequação). Porém, os Sistemas Abertos complementam e ampliam a compreensão científica do funcionamento da natureza e seus 48Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa fenômenos. Mas esta compreensão ainda não permitia, na totalidade, a compreensão de fenômenos que, cada vez em número maior, apareciam e faziam parte de nossa vida. es- tudo destes fenômenos iniciou a partir da Física (com a Termodinâmica) e ampliou-se para fenômenos maiores, tais como os Estudos Meteorológicos. A compreensão do funcio- namento que não se enquadrava nos aspectos probabilísticos da natureza possibilitaria, a partir dos conceitos dos Sistemas Abertos, uma percepção de que alguns fenômenos ocorrem de forma aleatória, não determinista e nem probabilística. Sig nifica dizer muitos aspectos de nossa natureza não po dem ser medidos. Além disso, a previsão matematizável tor- nou-se mais difícil. Muitos fenômenos ocorrem de forma não linear e suas ções, sem idéia determinada, de forma assistemática. Esta grande desorganização do movimento linear e ondulatório per mitiu a evolução de nossa compreensão científica. Ou seja, a evolução para a compreensão de caótica. Hoje, percebem-se os fortes sinais de que o modelo da racionalidade científica clássica encontra-se em crise. Esta revolução científica iniciou-se com Einstein e a mecânica quântica, e não se sabe ainda quando Einstein distingue a simultaneidade de acontecimentos pre- sentes no mesmo lugar e a simultaneidade de acontecimen- tos distantes. Para compreender a velocidade necessária para que ocorram fatos simultâneos à distância astronômica, foi necessário que Einstein se valesse de velocidades definidas, mas não calculadas, pois a velocidade da luz não pôde ser medida. Esta teoria veio revolucionar as nossas concepções de espaço e de tempo. "Não havendo simultaneidade universal, o tempo e o espaço absolutos de Newton deixam de existir, Dois acontecimentos num sistema refe- rência não são simultâneos noutro sistema de re- ferência. "(Santos, 1997:25) 49Sérgio Leonardo Gobbi No século XIX, prosseguiu-se na tentativa de aproximar conhecimento da realidade física daquela da realidade social (ciências humanas). Assim surgiu Behaviorismo (com- portamentalismo) que era chamado de psicologia objetiva, pois aplicava as técnicas da psicologia animal aos seres huma- nos. Técnicas, conhecidas como Behaviorismo empírico, através do comportamento das ações e das verbalizações, tanto as aprendidas quanto as não, todo conteúdo da mente huma- na. Nesta concepção somente era relevante conhecer com- portamento do homem para conhecê-lo. Já, Associacionismo, se baseava em duas idéias, para compreender a mente humana: uma afirmava que princípio da associação deriva das questões epistemológicas e que é respondida pelos sentidos que homem tem; a outra, diz que as idéias complexas não são sentidas, mas são explicadas e formadas por associação de idéias formadas por conexões naturais. O Estruturalismo, fundado por Wilhelm Wundt50, acredita- va que a instrospecção era a observação controlada do con teúdo da consciência, em condições e assim poderíamos alcançar a psicologia científica e plena, gerando conhecimento exato, objetivo da mente humana. Antes destas concepções, houve explicações através da e, entre outras, das formas físicas do corpo. 50 Nasceu em 1832, próximo a Leipzig. Formou-se médico. É considerado o fundador da Psicologia Moderna por três motivos: 1) fez da psicologia uma disciplina com objetivos e métodos independentes; 2) apresentou a psicologia, sob e resultados sistemáticos; 3) fundou o primeiro instituto psicológico do mundo. Per- cebe-se a influência da ciência clássica, ao confirmar que Psicologia era "a ciência da experiência interior e e estabeleceu que a pesquisa deveria ser o experimento e a pura observação." (Arnold et alli, 1982-3:548) 51 Teoria desenvolvida para descobrir as características da personalidade, seguindo uma visão aparente, uma forma ou uma expressão da como veículo de expressão. (Arnold et Alli, 1982-2:39) 50Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa Todas procurando a explicação que as chamadas ciências procuravam ter, para então conhecermos homem. Uma das compreensões, como salienta (1997) do que pode ser considerado nascimento da ciência, ocor- re da confrontação entre O pensamento aristotélico e de Ga- Galileu só refuta as deduções de Aristóteles à medida em que as acha insustentáveis. É ainda Einstein quem nos chama a atenção para fato de os métodos experimentais de Galileu serem muito imperfeitos, a partir do início de que havia lacunas entre os dados empíricos (não havia medições inferi- ores ao segundo). Enquanto Aristóteles visualizava mundo através da racionalidade centralizadora do mundo organizado, segun- do visualizava o conhecimento da física através dos astros e máquinas, apesar de ambos utilizarem uma racionalização matemática. Enquanto Galileu buscava uma interrogação ex- perimental, a escola aristotélica compreendia O mundo com a preocupação principal da organização dos fenômenos físicos: "por quê". Com esta discussão percebe-se a constituição singular da ciência clássica moderna: que é O encontro da teoria com a matemática, resultante da ambição de domínio e, ao mesmo tempo, da compreensão dos fenômenos da vida. Prigogine (1997), seguindo raciocínio da física e da biolo- gia, propõe a compreensão da vida como sendo um processo dinâmico. Um sistema dinâmico é definido pelo fato de movi- 52 Prigogine, nasceu na Rússia (1917-), é prêmio Nobel de Química e sustenta a constituição de uma nova concepção de ciência e, por isso, de uma visão da rea- lidade. Este capítulo estará alicerçado, basicamente, nas idéias desenvolvidas por este autor. 53 Galileu, nascido em Pisa (1564 a 1642), contribuiu para a ciência colocando em questionamento a visão Aristotélica, contrariando a concepção da Igreja da épo- ca, o que provocou a sua condenação, sendo exigida a abjuração de suas teses perante o Santo Ofício. 51Sérgio Leonardo Gobbi mento de cada um dos seus pontos ser determinado a cada instante pela posição e velocidade do conjunto dos pontos materiais que O constituem/e, assim, em termos rigorosos, O Universo inteiro seria um único sistema dinâmico sem que se separem da complexidade os fenômenos naturais. A generali- dade das leis dinâmicas responde à arbitrariedade das condi- ções iniciais e, portanto, à arbitrariedade das evoluções par- ticulares. Por outro lado a reversibilidade da dinâmica leva a uma di- ficuldade cujo caráter fundamental senão com a mecânica quântica. De até os dias atuais encontra-se esta crença: "(...) se universo é um sistema dinâmico, deve ser concebi- do com as propriedades dum sistema dinâmico integrá- 1997:59) A compreensão científica acabava, permanentemente, na busca incessante da linearidade, enquanto a exceção é O ho mem, cada vez mais independente desta linearidade tica, tornando-se muito mais um ser não-linear55 Fenômenos caóticos, apesar de se reconhecer que exis- tem em grande quantidade, foram sempre menosprezados ou postos fora dos padrões da sociedade industrial e de produ- ção, pois não conseguiam transformar as causalidades des- cobertas em formas produtivas. Como salienta Brüseke (1998), as teses da existência de leis e a utilização destas como fundamento para todas as li- nhas de pensamento científico tornou-se a mola propulsora para determinar a universalidade desta discussão lógica, eli- minando a possibilidade de discussão baseada na essência 54 Gottfried Wilhelm Leibniz, nasceu em Leipzig (Alemanha) (1646-1716). Estudou Filosofia, Direito e Opõe-se a Descartes, mas não repudia a realidade sensível e variável, procura não explicá-la. 55 Um sistema é não-linear quando sua reação, depois de um estímulo ou mudança de parâmetro, não apresenta os resultados de forma proporcional direta. 52Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa da liberdade, entendida como base compreensiva das ciênci- as humanas e sociais. A Psicologia não pode-se fundamentar exclusivamente na compreensão limitadora de nossas percep- mas deve ter em conta a fundamental da construção dos sujeitos humanos. A variada bibliografia a respeito da teoria do Caos mostra uma compreensão generalística, como se fosse um conceito geral da organização da realidade. Mas para esta compreen- são geral poder estar em conformidade com padrões dados como científicos, fala-se de uma ciência caótica deter- A ordem da desordem. Nesta compreensão da ordem da desordem, surge um outro fator preponderante: tempo. Para haver uma compreensão desta ordem, faz-se neces- sário lembrar que tempo (junto ao espaço) insere-se nesta questão. Em espaços maiores (como por exemplo, surgimento do universo) temos um tempo maior de origem, transformação, e reestruturação. O processo de tal fato é tem- poralmente invisível aos nossos olhos. Nossa percepção do tempo, muitas vezes, nos restringe à percepção do tempo do relógio. Este tempo permite-nos a compreensão determinista linear. Os fatos acontecem conforme tempo vai passando. Porém, não é tempo que vai passando; nossas percepções é que vão se modificando conforme a transformação dos acon- tecimentos de um mesmo fenômeno. Esta modificação dos fenômenos permite-nos uma sensação de que tempo pas- sa. Para os fenômenos irreversíveis é possível compreender assim. Mas para os fenômenos irreversíveis de complexidade Sistemas possuem uma complexidade fundamental caso eles tenham resultados A complexidade fundamental impossibilita qualquer prognos- tico a respeito do comportamento humano. Neste sentido, todos os sistemas vivos são (Brüsecke, 1998:120). 57 Caos determinístico, ou determinado, a denominação do comportamento irregular de um sistema dinâmico não linear, cujo doterminado por uma compreensão 53Sérgio Leonardo Gobbi maior, como fatos estruturais de uma sociedade inteira? Para haver início, O tempo deve ser considerado como "status quo", que foge da compreensão de fenômenos maiores compos- tos de fenômenos menores. Estes fenômenos menores com- um complexo, permitindo-nos entender que tempo define-se como dependente do espaço que o fenômeno utili- za. Quanto maior O espaço, maior a sensação do tempo que este utiliza para se dar por completo. A irreversibilidade asso- cia-se ao processo de transformação que os fenômenos, ao atingirem seu processo final de construção, possuem. O tem- po continua, a partir da existência de outro fenômeno que pos- sa estar utilizando espaço ora utilizado por este fato menor. O tempo continuará inalterado já que a transformação dos fa- tos completa a transformação dos fenômenos irreversi- velmente, porém não deterministicamente ao seu final. Sobre ser tempo eterno Prigogine escreve: Nestas condições, o futuro do universo não está de fato determinado, ou pelo menos não o está mais do que qualquer outra coisa que faça parte da vida do homem ou da vida da sociedade. (...) O futuro está e esta abertura aplica-se tanto aos pequenos sistemas físicos como ao sistema universo em que nos encontramos". "Mas aquilo que presenciamos, isto é, a evolução biológica e da sociedade, certamente que é uma história do tempo, uma história natural do tempo. De fato, sabemos que, juntamente com o tempo me- cânico, a irreversibilidade produz tempos químicos, tempos internos, e a diferença entre uma reação química que podemos alimentar e a vida, é que, no caso da reação química, quando deixamos de ali- mentá-la, este tempo interno morre" (Prigogine, 1988:23). Com esta compreensão do tempo e de sua ocupação no espaço, facilita-se a compreensão do determinismo quando 54Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa se fala do Caos. O Caos não significa uma desordem comple tamente irracional, mas sim uma desorganização nos proces SOS determinísticos padronizados no estímulo - resposta, ação reação. É uma possibilidade de compreensão dos nos mais complexos, muitas vezes, percebidos como siste- mas abertos (por autores que citam esta nova compreensão da ciência). Na compreensão do caos determinístico, mes- mo pode sofrer uma alteração que trará um novo A compreensão do caos determinístico concebe esta possibi- A de que o determinismo caótico é abran- gente, possibilita uma compreensão maior dos sistemas A vida, como tal, é um sistema aberto. Nela se dá a perma- nente auto-atualização e A zação é próprio sistema da complexidade caótica da vida. Assim, vida não é diferente da constituição dos fenômenos da natureza: permite-nos a transformação e reacomodação dos fatos acontecidos, como se nossa vida, sistema complexo, fosse composta de outros tantos sistemas interligados. E nos- sa vida, em uma compreensão macrocósmica, é a própria compreensão microscópica do universo. E a compreensão da e Univer- sais Este processo de funcionamento caótico vai transformar- se conforme a possibilidade dos Os Atratores aproximam-se no espaço maior que seu próprio espaço indi- vidual, formando um espaço fenomenológico onde eles, de acordo com a aproximação e alteração deste espaço entre faces, transformam-se em uma grande rede, como afirma Fritjof Capra. 58 Sistemas abertos são aqueles que dependem da com o 59 Atrator o mesmo que Atrator Na Teoria do Caos é a capacidade aproxima- tiva e ampliadora dos espaços. Os espaços Individuals ampliam-se segundo a atração que é essencial à constituição cada Aumentam os espaços através da capacidade entrópica dos fractals. 55Sérgio Leonardo Gobbi A é aquilo que torna os Atratores próximos, apro- ximando estes sistemas abertos e provocando uma rees- truturação dos fractais. Estes sistemas abertos tornam-se entrópicos com outros sistemas abertos, compostos de fractais. Porém cada sistema aberto permanece sendo um fractal, em uma compreensão macrocósmica. Segundo Brüseke, "O caos pode ser precisado no espaço não-estru- turado. Isto é possível porque o espaço mesmo não é um lugar, mas a possibilidade de todos os lugares. O caos diferencia-se do nada, pois não tem como anticonceito do ser, a existência. O caos é um estado específico do ser, não em uma forma objetivada, mas dinâmica, abrindo-se a todas as possibilidades. (Brüseke: 1993: 122)". Para a nova concepção da física é no tratamento de turas dissipativas, segundo Prigogine, que comparecem as diferenças mais significativas na relação dos componentes. Necessitamos compreender a estrutura destes processos, para então compreendermos a interligação dos diversos componentes desta relação. Estes são a base da construção do fenômeno da interligação caótica. Para Ferrara (1994), nível de complexidade de um siste- ma dissipativo pode ser classificado analisando-se a estrutu- ra geométrica do atrator associado. Sistemas dissipativos com dinâmica caótica apresentam um atrator que possui depen- dência sensitiva às condições iniciais, com dependência fracionária (fractais). A entropia é a medida do caos no siste- ma, em que permanece a interdependência e manutenção da 60 Entropia é a noção subjacente de dependência sensitiva às condições iniciais. Os fractais, por se aproximarem, não perdem a sua vinculação às condições iniciais. 56Teoria do Caos e a Abordagem Centrada n proximidade dos fractais, e também permite a sistemas (microcosmos). Nosso processo de relacionamento humano aparece 1. to próximo desta compreensão de funcionamento entrópico e caótico da natureza. Assim, compreender a realidade física, é compreender a natureza do planeta, contribuindo-se para com- preender o funcionamento do homem nesta conjuntura gio- balizante, visto que o homem faz parte deste sistema, formando um No esforço para uma compreensão do processo humano, a ênfase nas partes (mecanicistas) será substituída pela com- preensão do todo. Uma compreensão pois se tem a percepção de que os sistemas não podem ser total- mente entendidos pela análise das partes. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo mais amplo. Assim, podemos compreender que os organismos, inclusive huma- no, em uma visao macrocósmica, são comosistemas-aber tos integrativos, que possuem um de regulação, ou de atualização. A isso, na Abordagem Centrada, na Pessoa, poderíamos denominar Tendência Atualizante Para compreender esta noção de aproximação das partes e interdependência, os físicos utilizaram termo entropia, que o processo de ampliação do processo do sistema fechado. O sistema aberto é fechado em seu círculo, mas sua amplia- ção permite ver uma maior assimilação e interdependência das partes. A aproximação dos diversos microcosmos (siste- mas fechados) é a entropia, que acaba formando os sistemas 61 Para compreender o termo holos, que poderia ser por ecológico, Fritjof Capra salienta que os termos diferem ligeiramente em significados, e o primeiro poderia ser menos apropriado para este trabalho. Uma visão holística significa ver um todo funcional e, assim, compreender as interdependências das partes. Já a visão ecológica acrescenta a percepção disto com seu meio ambiente natu- ral e social de como o uso deste afeta o meio ambiente natural e este a comu nidade, que a utiliza. 57Sérgio Leonardo Gobbi maiores (abertos). Isto trará uma desordem constante e uma ampliação dos espaços destes sistemas. Para os estudiosos esta é uma medida da desordem. Nossas compreensões funcionais do homem corroboram uma compreensão resultante de um motivo anterior, genético, educacional, social, familiar. Estaríamos fadados a ser sim- ples resultado de uma política histórica social e educacional. Mas podemos averiguar, no desenvolvimento da história, ca- SOS que representam comportamentos e atitudes diferentes dos esperados na perspectiva de construção daquele sujeito. Assim, podemos averiguar que nossos comportamentos nem sempre são resultantes diretos e determinados pela compre- ensão educacional e social que se tem do sujeito. Pode-se perceber início da questão da Tendência Atualizante, que se coloca como parte intrínseca do processo de desenvolvimen- to e constante reestruturação da personalidade do homem, de forma não determinista, porém adaptativa e conciliatória com as experiências vivenciadas anteriormente. Cabe salientar os aspectos da busca da Experiência-que Abordagem Cen- trada na Pessoa, denominou-se de Abertura à Esta se torna princípio da escolha das vivências e cias. Este processo de possibilidade interna de experienciar as vivências que surgem, torna-se parte intrínseca da possibi- lidade de escolha de tais vivências. Esta possibilidade é o pro- cesso de Liberdade. Para a Abordagem Centrada na Pessoa, a Liberdade está relacionada a um processo interno de explo- ração das experiências, a partir de uma perspectiva de estru- turação de personalidade e, por de compor- tamento perante a própria vida. Esta consiste no aspecto crucial do organismo para representar adequadamente suas experi- 62 A Abertura à Experiência ou a "receptividade à ocorrem quando o indivíduo não experimenta sentimentos de ameaça. Diminui, assim, a atitude de defesa e refere-se sempre a um estado psíquico que permite a todo instante percorrer o "organismo 58Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa ências. A Liberdade ou Liberdade Experiencial torna-se item "sine qua non"para próprio desenvolvimento, ou seja, uma vida mais experiencial e mais plena de possibilidades. Para Rogers (1977, I: 46), este processo de liberdade: "Consiste fato de que o indivíduo se sente livre para reconhecer e elaborar suas experiências e sen- timentos pessoais como ele entende. Em outras palavras: supõe que o indivíduo não se sinta obrigado a negar ou a deformar suas opiniões e atitudes íntimas para manter a afeição ou o apreço das pessoas im- portantes para ele". x A partir das próprias escolhas, ou seja, da liberdade de es- colher aquilo que mais lhe convém, a escolha torna-se mais satisfatória, em suas necessidades e, fundamentalmente, mais congruente em sua estrutura Esta percepção de escolhas e construção do homem en- quanto processo fenomenológico, ou seja, fenômeno da vida humana, constrói-se a partir das escolhas individuais e a con- seqüente formação e reestruturação da personalidade; De- monstra um estado de "tornar-se" muito mais do que um estado estático de ser. O tornar-se passa a ser parte da existência do homem enquanto processo, assim como ocorre na realidade física. Este processo de liberdade ou de aleatoriedade encontra- se no fato de vivenciarmos aquilo que nos é apresentado em nossa existência. As escolhas passam pelo principio norteador de nosso campo experiencial. A liberdade não se apresenta simplesmente na escolha, mas sim na participação do fenô- meno que venha acontecer, de forma consciente. Como se a consciência permitisse a plena assimilação do fato vivenciado. Mas, para Rogers, no momento em que O sujeito se conhece (tem consciência) ele será direcionado ao crescimento pela tendência atualizante. Semelhante ao processo dos Atratores 59Sérgio Leonardo Gobbi Caóticos, que em um movimento diferenciado mantêm-se a partir de um momento entrópico, onde movimento é atraí- do, mas não determinado, pelo fluxo contínuo de manuten- ção de um determinado elemento. Os fatos ocorrem de forma alheia à nossa vontade, nossas escolhas (fruto da liberda- de), mas a consciência de vivenciá-los é estar aberto à assi- milação daquilo que estamos aceitando como realidade da experiência. Para a compreensão determinista homem é considera- do um organismo passivo, governado por estímulos forneci- dos pelo mundo externo. Ou seja, controlando os estímulos ambientais, controla-se comportamento humano. Para Humanismo homem é livre para fazer escolhas e ponto principal dessa liberdade é a consciência humana; o com- portamento é apenas a expressão observável e a conse- qüência de um mundo de ser interno, essencialmente privado. "Descartes distinguia o homem dos animais, principalmente em termos da posse pelo homem de uma alma livre, uma mente capaz de escolha. Fisicamente, o homem não é diferente dos animais, cujos comportamentos são determinados meca- nicamente de acordo com princípios Esta é uma declaração de liberdade contra o determinismo que perdurou como problema filosófico até o presente" (Milhollan, 1978:27) Estamos aqui no cerne da discussão em ato: se é vel, e em que sentido e medida, aproximar a teoria rogeriana daquela do Ao fazer esta aproximação, sabemos das dificuldades técnicas que enfrentamos. Em todo caso, vale a pena ressaltar no mínimo que já não nos podemos satisfazer com as leituras clássicas que separam totalmente proces- natural daquele humano, objetivo. Não podemos continuar, pois, isolando totalmente a natureza e história, natureza e ser humano. 60 56Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa O processo humano, que é também livre e consciente, não por isso se torna meramente antinatural como estamos acos- tumados a interpretá-lo.Neste sentido, processo subjetivo pode ser visto como um processo ao mesmo tempo natural do qual a vida humana se inscreve num processo maior, holístico, do qual a história humana faz parte. Esta perspecti- va abre novas possibilidades de compreensão para fenôme- no humano, embora muitas perguntas ainda persistam. Quanto mais vivenciarmos e adquirirmos experiência dos fatos apresentados, mais livres para idealizar nosso futuro seremos, mas nunca portadores do controle total do que acon- tece e do que irá acontecer, apenas do que idealizarmos. Mas, idealizar não significa controlar o futuro, nem tão pouco os fa- tos que cercam. Quanto menos vivenciarmos, tura à experiência, conseqüentemente menos possibilidade temos de idealizar futuro, de modificar presente a partir de nossas experiências passadas. Para Rogers este processo criativo de construção torna- se parte de uma estruturação Este princípio da Uni- versalidade encontra-se na base da tendência O que Rogers concebe, levando em conta a universalidade desta tendência atualizante, é denominada como tendência A tendência formativa é a força impulsionadora de Universo que mobiliza e transforma as novas possibilidades do mudança. É um constante vir a ser; é como um Isto estaria acontecendo representativamente processo processo de constituição do ser humano (em seus aspectos no constitutivos de personalidade). muitas vezes, independentes de sua educação O comportamento global de um indivíduo apresenta determinista portamentos preliminarmente Nossa compreensão e seus com- apresenta erroneamente que: instante "Se conhecermos o estado de um sistema poderemos determinar seu estado num em qualquer instante ulterior (...) O conhecimento do 61Sérgio Leonardo Gobbi passado não mais permite na prática - a previsão do futuro e tornamos a encontrar ali a errância evocada mais acima." (Bergé, 1995:75) Toda e qualquer ciência, hoje, segundo Prigogine (1997), afirma-se, assim, como ciência humana, ciência feita por ho- mens e para homens. Em uma variedade diversa, em práti- cas cognitivas percebe-se uma ciência em busca de uma observação da natureza de forma etimologicamente poética, capaz de explorar, calcular, observar e respeitar a natureza que se apresenta para nós. Nosso objetivo não é de encontrar um ser acabado, mas a partir da construção caótica de nossa natu- reza. Percebê-lo e observá-lo em sua essência natural de fun- cionamento. Não que esta seja pré-determinada ou acabada, mas sendo parte de uma rede de transformações e retrans- formações que compõem a perspectiva fenomenológica do organismo do homem, como Carl Rogers propõe, e do parale- lo do ambiente com estas transformações. Merleau Ponty afirmava: "(...) se reconheci uma vez que estou inserido em toda ação e todo conhecimento que possa ter um sentido para mim, e que ela contém, pouco a pouco, tudo que pode ser para mim, então o meu contato com o social na finitude da minha situação revela-se-me como o ponto de origem de toda a verdade, inclusive a da ciência, e, já que temos uma idéia da verdade e es- tamos nela e dela não podemos sair, não me resta mais do que definir uma verdade na situação." (Merleau Ponty apud Prigogine, 1997:215) Para compreendermos esta noção desenvolvida, volto à dis- cussão do processo mecanicista. Para tanto utilizo uma afir- 62Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa mação de em um diálogo imaginário com d'Alem- "Vedes este ovo? É com isto que se derrubam todas as escolas de teologia e todos os templos da terra. que é este ovo? Uma massa insensível, antes que germe aí seja introduzido... Como passará esta massa a uma outra organização, à sensibilidade, à vida? Pelo calor. Quem introduzirá o calor? O movimento? Quais serão os efeitos sucessivos desse movimento? Em lugar de me responderdes, sentai-vos e sigamo-los com a vista de momento a momento. Em primeiro lugar, é um ponto que oscila, um filamento que se estende e colore: carne que se forma, bico, pontas de asas, olhos, patas que surgem (...) anda, voa, irrita-se, foge; aproxima-se, queixa-se, sofre, ama, deseja, goza; tem toda a afeição; todos os vossos atos, ele os executa. Pretendereis, como Descartes, que é uma pura máquina imitativa?" (Diderot, apudPrigogine, 1997:63) Assim poderemos, segundo Diderot, compreender a dife- rença entre animal e o ser humano a partir das diferenças de organização, continuando a sua discussão: "(...) Mas contra vós, se concluirá que, com uma ma- téria inerte, disposta de certa maneira, impregnada de uma outra matéria inerte, calor e movimento, se 63 Diderot nasceu em Langres França (1712-1784). Estudou matemática e inglês e escreveu inúmeras peças para teatro. Filósofo Sua principal obra foi a Enciclopédia, que levou a cabo com 1997) 64 Jean Le Ron D'Alembert nasceu na França (1717-1783). Membro da Academia de da Foi considerado um dos matemáticos e físicos mais importan- tes do século XVIII, dirigindo e escrevendo a Enciclopédia junto com Diderot, eminente filósofo iluminista. 63Sérgio Leonardo Gobbi pensamento... Escutai e tereis piedade de vós próprios; sentireis que, por não admitirdes uma suposição simples que tudo explica, a sensibilidade, produto geral da matéria, ou produto da organização, renunciais ao senso comum e vos precipitais num abismo de mistérios, contradições e absurdos" (Diderot apud Prigogine, 1997:64). Como se vê, nestes exemplos, mecanicismo, que foi base de conhecimento científico, acaba tornando a vida uma massa inerte e de movimento lógico concreto, reduzindo a existência a um processo limitativo da capacidade evolutiva, tanto individual, biológico, quanto social. Pode-se perceber que a teoria newtoniana, apesar de funda- mentar a compreensão das forças da lei gravitacional e das trajetórias desenvolvidas pelo movimento, tornou-se parte e não a totalidade do conteúdo explicativo da existência da natureza e do homem. Antes se acreditava que, controlando as fases, po- dia-se controlar os resultados precocemente estipulados. Po- rém, este sistema newtoniano não dá sentido algum à dife- renciação do espaço, à constituição de limites naturais, à apari- ção de um funcionamento organizado, ou seja, não é suficiente para se compreender cabalmente a nenhum dos processos de surgimento e desenvolvimento de um ser Ao mesmo tem- po, mecanismo, não reconhecendo os limites do conhecimento humano, não toma suficientemente em conta que em qualquer esforço de conhecer a realidade, quem faz também se torna parte do objeto estudado. Neste contexto, "O rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objetivar os fenômenos, os objetualiza e os degrada, que, ao caracterizar os fenômenos, os caricaturiza. É, em suma e finalmente, uma forma de rigor que, ao afirmar a personalidade do cientista, destrói a personalidade da natureza". (Boaventura, 1997:32) 64Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa Pode-se perceber que a duração de um corpo vivo, apesar da corruptibilidade que compõe a existência do mesmo, mani- festa a presença de um "princípio natural, permanente e imanente", prossegue Prigogine (1997). Compreende-se, assim, que homem da ciência não se- ria capaz de se dirigir à compreensão da natureza a menos que a visse como um conjunto de objetos particulares, manipuláveis e mensuráveis, ao preço de desconhecer a sua essência existencial. A discussão científica deveria estar centrada na existência do próprio homem. Ou seja, a existên- cia natural da vida, permitindo-se garantir o conhecimento da ordem dos fenômenos65 naturais. "(...) O mundo que estuda a ciência, o mundo acessível ao conhecimento positivo, não é senão o dos fenô- menos" (Prigogine, 1997:70) Esta compreensão reconhece limite do conhecimento humano. Para a fenomenologia limite do conhecimento hu- mano se dá no contexto de que não se conhece "a coisa em si", mas só fenômeno, ou seja, como as coisas aparecem, conforme havia anunciado Kant, no século XVIII. Nesta conceituação fenomenológica podemos inserir a com- preensão da teoria de Rogers e sua semelhança com a busca de variáveis não deterministas, mas facilitadoras de uma conceituação científica para a própria filosofia e ciências sociais. Rogers (1977) propõe que uma das bases de sua teoria encontra-se na tendência auto-realizadora66 do organismo do indivíduo. Para a fenomenologia, fenômenos são os objetos de estudo da fenomenologia. Segundo Husserl a Fenomenologia é um retorno ao fenômeno (phainómenon, que significa aquilo que se manifesta). A Fenomenologia propunha superar a dicotomia sujeito/objeto, através das relações homem com mundo. Coloca-se como uma critica ao modelo positivista da ciência. mesmo que Tendência Atualizante. 65Sérgio Leonardo Gobbi Este tipo de postulado é a base filosófica da Abordagem Centrada na Pessoa. Esta abordagem na análise de compor- tamento (Fenomenológica) foi largamente aceita, de modo que quando sistema de pesquisas tornou-se mais aberto, viu-se que havia esta tendência que exalta qualquer indivíduo na rea- lização do seu potencial individualizado. Para uma possível compreensão deste homem ou de sua constituição, fala-se de uma fenomenologia de todos os pro- blemas. Assim, a compreensão dos fenômenos só poderá ser realizada a partir da compreensão das partes associadas e interdependentes. Na realidade Rogers tratou de desenvolver uma compreensão dos fenômenos. Conforme Merleau Ponty (Apud Prigogine, 1997:222): "O recurso à ciência não precisa de ser justificado: seja qual for a concepção que se tenha da filosofia, ela tem que elucidar a experiência, ciência é um setor de nossa experiência...é impossível recusá-la antecipadamente sob o pretexto de que trabalha na linha de certos preconceitos ontológicos(...)O ser abre passagem através da ciência como através de toda vida individual. Ao interrogar a ciência, a filosofia conseguirá encontrar certas articulações do ser que, de outra forma, lhe seria mais difícil revelar". Foi com no início do século XX, que se criou a fenomenologia. A fenomenologia procuraria elucidar tudo aquilo em que se manifesta a consciência e, por isso, todas as ma- neiras de se apresentar a consciência (opiniões, atos de von- 67 Nasceu na Checoslováquia (1859-1938), estudou matemática, astronomia e filo- sofia. Procurou, em todo o seu trabalho, e desenvolver a filosofia como "ciência rigorosa". É considerado o fundador da fenomenologia. (Clement, 1997) 66Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa tade, ou atos de percepção). A princípio funda- mental para que se manifesta é, para fenomenólogo a fun- e dadora de todas as outras atitudes. Assim, podemos considerar e a fenomenologia uma fenomenologia da percepção. "Há uma tensão interna na fenomenologia que se encontra entre a exigência de descrever um mundo que precede a consciência, e a exigência de mostrar O- que, principalmente, é a consciência que constitui todo o 1994:151) e er Husserl passou parte de sua vida como pensador dedica- do à fundamentação científica da filosofia, persuadido de que estava realizando uma obra não só de natureza especulativa, mas eminentemente prática. Husserl compactua com Des- lo: ia, cartes69 a convicção de que a Filosofia, como ciência de rigor, um orientada em uma visão mais próxima das exatas, iluminaria -la um caminhar mais existencial na compreensão do homem. na Em uma parte de suas investigações, este filósofo descreve a fenomenologia como um neocartesianismo, onde uma funda- da mentação lógica da epistemologia permitiria uma suscitação fia do pensamento do homem enquanto ser universal. ue, A compreensão do método fenomenológico pode ser ex- presso como a orientação para as próprias coisas, a interro- gação às próprias coisas na maneira como se apresentam ao a observador, deixando de lado os preconceitos que são neces- uilo sariamente alheios à própria coisa. Será sistemática à medi- na- on- 68 Conceito desenvolvido por Merleau Ponty, aluno de como veremos no prosseguimento deste trabalho. 69 René Descartes, nasceu em (1591-1650),acreditava que o método filo- permitiria submeter o conjunto dos conhecimentos a uma ordem da razão. A como evidência era o princípio básico deste método: o cartesiano. Fundamentado na 997) compreensão matemática. 67Sérgio Leonardo Gobbi da em que mantiver a realização da própria ciência como po- sitiva. Assim, com a fenomenologia, Husserl buscava respon- der a perguntas sobre fundamento epistemológico do fun- damento lógico. A compreensão, ou apreensão deste fenômeno ocorre a partir da percepção (intuição) que vem antes da reflexão. Ne- nhum juízo, se não for sustentado pela evidência, pelas expe- riências em que as próprias coisas se apresentam por si mesmas, tem valor da ciência rigorosa. A fenomenologia coloca-se como uma crítica ao modelo positivista, tanto quanto se opõe ao naturalismo por não con- cordar com a concepção de comportamento em termos de simples causa e efeito. Para Husserl, um dos principais filóso- fos de nosso século, O objetivo era tornar a filosofia uma ciên- cia rigorosa, numa tentativa de fundamentação epistemológica. Afinal se a psicologia pretende, em sua metodologia, explicar comportamento do homem, pretende compreender a cons- ciência, pois não existe compreensão sem consciência e, como a consciência não é um objeto, percebemo-la como toda subjetividade. Ampliando a percepção fenomenológica, e interessando- se por essa proximidade primordial com mundo, surgem as idéias de Merleau-Ponty70 "O filósofo reconhece-se pela posse inseparável do gosto da evidência e do sentido da ambigüidade (...) sempre aconteceu que, mesmo aqueles que preten- deram construir uma filosofia absolutamente positiva, só conseguiram ser filósofos à medida em que, simultaneamente, se recusaram o direito de se instalar no saber absoluto - que ensinavam, não este saber, 70 Maurice Merleau Ponty nascido em Rochefort (França, 1908-1961) Influenciado pela fenomenologia de Husserl e do Existencialismo de Sartre. Sua principal obra foi a Fenomenologia da Percepção. (Clément, 1997) 68Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa mas o seu devir em nós, não o absoluto, mas, quando muito, uma relação absoluta entre ele e nós". Ponty, 1998:102) Merleau Ponty utilizou como herança filosófica método fenomenológico de Husserl e pensamento de Na primeira possibilidade, como vimos acima, estará basea- da no ato de se compreender a consciência a partir de um método diferenciado do positivista. É como perceber mundo filosoficamente, a partir de uma situação concreta. Porém sem perder o sentido da irreversibilidade dos fatos, dentro de um princípio que é gerado em nossas noções de tempo passado e futuro. "Cada ser complexo é constituído por uma pluralidade de tempos, ramificados uns nos outros segundo arti- culações sutis e múltiplas. A história, seja a de um ser vivo ou de uma sociedade, não poderá nunca ser reduzida à simplicidade monótona de um tempo único, quer esse tempo cunhe uma invariância, quer trace os caminhos de um progresso ou de uma degradação". (Prigogine, 1997:211) Na compreensão filosófica da existência do homem surge- nos a percepção de que os caminhos que a ciência prosse- gue iniciam onde termina a filosofia. Ou seja, a compreensão dos fenômenos caóticos e ondulatórios, alcançam uma expli- cação subjetiva, baseada em ciência teórica explicativa. Na Psicologia, fundamentalmente, Rogers, baseou-se na com- plexidade caótica das relações para aprofundar a sua com- preensão do comportamento humano: tão subjetivo baseado 71 Martin Heidegger nasceu em Messkirch (1889-1976). Estudou Teologia e depois Filosofia. Sua principal influência está sobre o Existencialismo. Rompeu com Husserl, ao assumir a reitoria da Universidade de Friburgo, em plena segunda grande guerra. Sua principal obra: Ser e o Tempo. (Clément, 1997) 69Sérgio Leonardo Gobbi em fatos, quanto a ciência exata que busca explicativas, muito mais complexas e abstratas. A idéia central é que possamos compreender todo do fe- nômeno. Nossa pesquisa iniciará a partir das prerrogativas comportamentais: fractais do comportamento humano, basea- das em uma compreensão de personalidade fenomenológica humanista, podendo ampliar-se na compreensão a partir de fenômenos mais amplos. "Já no princípio da década de sessenta e extrapolando a partir da mecânica quântica, Eugene Wigner con- siderava que o inanimado não era uma qualidade diferente, mas apenas um caso limite, que a distinção corpo/alma deixara de ter sentido e que a física e a psicologia acabariam por se fundir numa única ciência."(Santos, 1997:38) Prigogine diz. que um sistema aberto onde a perturbação ocorre, tende a exportar entropia e mover-se na direção de uma complexidade maior, mas a tendência (tendência atualizante) existe inerente ao organismo. Rogers diz que existe enquanto organismo vivo, assim como só poderia ser destruído se destruirmos organismo em si. Para ele, perturbações ex- tremas podem causar transformação do organismo e condu- zi-lo para um outro nível de complexidade. Há uma tendência à realização do indivíduo integrado ao universo e como orga- nismo independente que não pode ser destruído. E isto é apli- cado aos outros organismos também. Esta é a base do desenvolvimento do sujeito. A compreensão desta é de base fenomenológica. Seu funcionamento pode ser denominado de caótico, pois se baseia na compreensão não-linear e não- determinista da constituição do homem. Para alguns físicos, o caos representa uma compreensão teórica, uma compreensão científica do caos: de um proces- muito mais do que de um estado. É tornar-se muito mais que um ser estático. Processo é uma variável constante queTeoria do Cacs e a Abordagem Centrada na Pessoa diferencia a abordagem desta nova ciência daquela da ciência clássica. Assim, podemos averiguar que processo de funcionamen- to e construção humana está alicerçada na busca de uma nova percepção de homem e da ciência, na busca de uma compre- ensão, a partir de uma nova percepção. Está alicerçada em uma possibilidade fenomenológica, que se distancia da ciên- cia clássica newtoniana, onde as leis mecânicas são bases para a compreensão da existência da natureza. Na realidade com estas afirmativas, salientamos as per- cepções com aquilo que já está determinado pela natureza, sem que com isto possa ser reconhecido determinismo a que estamos teoricamente fadados. A este novo paradigma (uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhadas por uma comunidade e que es- tabelece uma visão particular da realidade), Capra (1986) sa- lienta que deve ser chamado de uma visão holística, O que concebe mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Esta visão abrangente, e notificada pelo comportamento do homem, a partir de uma percepção mais atitudinal está basea- da na compreensão fenomenológica. Todo o processo constitutivo da sociedade dá-se na inter- dependência processos políticos, econômicos, administrativos, entre entre os processos das partes que a constitu- em. Os outros, acham-se vinculados intimamente, inclusive aos de outros países e construções sociais. Pensando nesta intensi- va associação e dependência entre fatos, pode-se conceber uma reestruturação cultural e científica, a partir destes princí- pios geradores da interligação humana e da natureza. Para tanto, cabe citar um refrão utilizado para demonstrar pro- cesso ao qual estamos sujeitos, e que a Teoria do Caos pro- compreender. "Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura; Por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo; 71Sérgio Leonardo Gobbi Por falta de um cavalo, perdeu-se o cavaleiro; Por falta de um cavaleiro, perdeu-se a batalha; Por falta da batalha, perdeu-se o reino!" (in Gleick, 1990:20). Para Prigogine (1983) existe uma tendência direcional uni- versal, observada nos diversos fenômenos da natureza. Quan- to mais complexa uma estrutura, mais ela gasta energia para manter a sua complexidade. Sua idéia é a de que nascimen- to das e de sua complexidade emerge do Caos. Este Caos derivaria da nova ordem das coisas: seria a ordem dentro de um princípio não linear e não-determinado de orde- nação mecânica da natureza. É nesta relação com meio ambiente que suas atitudes ativas e atualizantes modificam seu próprio meio: essas influências do homem sobre meio geram um comportamento global, ou seja, um ambiente pro- duzido e com as características do próprio homem, ambien- te social e relacional dele. "Sabe-se muito bem, tanto na ciência como na vida, que uma cadeia de acontecimentos pode ter um ponto de crise que aumenta pequenas mudanças. Mas o caos significava que tais pontos estavam por toda parte. Eram generalizados. Em sistemas como tempo, a dependência sensível das condições iniciais era inevitável da maneira pela qual as pequenas escalas se combinavam com as grandes". (Lorenz apud Ferrara, 1994:02) Hoje a denominação que é dada a esta nova compreensão, resultante desta percepção fenomenológica, é a Teoria do Caos, o estudo dos sistemas abertos. De acordo com a teoria dos sistemas abertos, no organis- mo, seja em um estado de ordem ou de caos causado por perturbações, ainda lhe é permitida a Qualquer cami- nho é possível quando ocorre uma escolha: para Caos ou, proveniente do Caos ou permanecer no Caos ou ordená-lo 72Teoria do Caos e a Abordagem Centrada na Pessoa a uma graduação menor ou maior. Mas, sempre no Caos. Quando uma tribulação é apresentada a um organismo auto-organizado em um sistema aberto, sempre ocorrerá a Desta forma, a utilização da ciência como modo de com- preensão possibilita um entendimento da evolução do pensa- mento psicológico. 73