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CÁTEDRA
PADRE BARREIRA
ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DE EDUCAÇÃO, FILOSOFIA,
TEOLOGIA E DIREITO
VOLUME 2
Antônio Celso Alves Pereira
Cleyson de Moraes Mello
José Rogério Moura de Almeida Neto
Marcio Martins da Costa
Coordenadores
CÁTEDRA
PADRE BARREIRA
ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DE EDUCAÇÃO,
FILOSOFIA, TEOLOGIA E DIREITO
VOLUME 2
Editora Processo
2024
PROGRAMA SEGURANÇA PRESENTE:UMAABORDAGEM CRÍTICA
Aderlan Viana Crespo e Lier Pires Ferreira ................................. 15
USO DE TECNOLOGIA, CIBERCULTURA E GAMIFICAÇÃO NA
EDUCAÇÃO
Alessandra Cristina Carvalho de Oliveira e Marineusa Soares
Goulart ........................................................................................... 39
GESTÃO PÚBLICA: PLANEJAMENTO, GESTÃO DE PESSOAS,
OPERAÇÕES, MARKETING E GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS
Alessandro Menezes Paiva, André Luís Azevedo Guedes, Carlos
Antônio da Silva Carvalho e Patricia Sant Anna Ghenov ............ 65
RESERVA COGNITIVA:A IMPORTÂNCIA DA RESILIÊNCIA CEREBRAL
Aline da Costa Crespo, Ana Beatriz de Oliveira Souza Lopes, Lívia
Caroline Ferreira Cézar e Ivan de Paula Fialho .......................... 81
O PODER JUDICIÁRIO NA ERA DE AMEAÇAS À DEMOCRACIA: O
TIGRE E OASSÉDIO HERMENÊUTICO DO TRADICIONALISMO
Alfredo Canellas Guilherme a Silva ............................................ 95
ADEFESA DORÉU NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
Álvaro Antônio Sagulo Borges de Aquino ................................... 125
ESTADO DE EXCEÇÃO NA PANDEMIA E A RELEVÂNCIA DAS
LEGISLAÇÕES SOBRE DIREITO FUNERÁRIO
Amanda de Castro Araújo Pereira .............................................. 147
HERANÇA DIGITAL: O CONFLITO CONTEMPORÂNEO ENTRE O
DIREITO SUCESSÓRIO E OS DIREITOS DA PERSONALIDADE
Ana Lívia dos Santos Alves Nogueira e Renata Maria Silveira
Toledo .......................................................................................... 161
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA CRIANÇAS: IMPACTOS, CAUSAS
E ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO
Andréia dos Santos Cunha, Déborah Roza Silva e Vitória Cristina
Alvim Pereira ............................................................................... 197
ETARISMO: UMA ANÁLISE DA DISCRIMINAÇÃO VIVIDA PELOS
IDOSOS NA SOCIEDADE
Andréia dos Santos Cunha, Amanda Silva Costa e Tamara Lima de
Almeida ........................................................................................ 231
CONTRIBUIÇÃO FRAGMENTADA DO MÉTODO DA
FENOMENOLOGIA DO DIREITO PARA UMA PESQUISA SOBRE
PARTIDOS POLÍTICOS
André R. C. Fontes ....................................................................... 255
TEIXEIRA DE FREITAS PARADOXOS DO PROJETO E GÊNESE DO
CÓDIGO CIVIL DO BRASIL E DA ARGENTINA
Aurélio Wander Bastos ................................................................ 265
APROTEÇÃO DE DADOS PESSOAIS EM PERSPECTIVA COMPARADA
Bruno Alberto Maia ..................................................................... 275
APRIMORAMENTO DE UMA FERRAMENTA DE MAPEAMENTO DAS
PRIORIDADES DE INVESTIMENTOS DO TERRITÓRIO EM PROL DO
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Bruno Santos Cezario, André Luis Azevedo Guedes, Patricia
Bilotta, Patricia Maria Dusek, Mariana Marinho da Costa Lima
Peixoto e Carlos Antonio da Silva Carvalho ............................... 295
HERMENÊUTICA, DIREITO E VERDADE
Cleyson de Moraes Mello ............................................................ 317
NOS CAMINHOS DA EDUCAÇÃO INTELIGENTE (EDUCAÇÃO 6.0)
Cleyson de Moraes Mello, José Rogério Moura de Almeida Neto e
Marcio Martins da Costa ............................................................. 335
O RELACIONAMENTO ABUSIVO E A LEI MARIA DA PENHA
VINCULADO AO CONCEITO DE LOUCURA E DIREITOS HUMANOS
Washington Luiz A. Ferreira ....................................................... 355
NOVAS TENDÊNCIAS CONSENSUAIS NO DIREITO SANCIONADOR.
LEGITIMIDADE, COLABORAÇÃO E CONFLITO APARENTE ENTRE
OS ÓRGÃOS PÚBLICOS NO ACORDO DE LENIÊNCIA: CGU, TCU,
AGU EMINISTÉRIO PÚBLICO
Edimar Carmo da Silva................................................................ 373
A INTERSEÇÃO VITAL: DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS NA
CONSTRUÇÃO DE SOCIEDADES EQUITATIVAS
Edna Raquel Hogemann .............................................................. 399
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, CURATELA, DECISÃO APOIADA E
RESPONSABILIDADE CIVIL
Gabriel Dolabela Raemy Rangel ................................................. 417
DESAFIOS JURÍDICOS NA PROMOÇÃO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA:
CAMINHOS PARA A EQUIDADE E ACESSIBILIDADE
Geovani Broering e Soraya Lemos Erpen Broering .................... 429
AVALIAÇÃO CRÍTICA DA QUALIDADE DA FORMAÇÃO DE
PROFESSORES A DISTÂNCIA NO BRASIL: OPORTUNIDADES E
DESAFIOS
Gilberto Alves da Silva e António Moreira Teixeira ................... 477
OENSINO SUPERIOR À LUZ DA CULTURA DA CONSENSUALIDADE
Humberto Dalla Bernardina de Pinho e José Marinho Paulo
Junior ........................................................................................... 497
ECOS DA INCLUSÃO ESCOLAR: PERCEPÇÕES MATERNAS ACERCA
DO PROCESSO NA ESCOLA COMUM/REGULAR
Jardel Delgado Marques, Alessandra Cristina Carvalho de
Oliveira e Débora Menezes Silva Fernandes .............................. 525
HOMERO: O PROÊMIO DA ILÍADA E DA ODISSEIA COMO EXEGESE
CONCISA DA GUERRA DE TRÓIA E DO RETORNO DE ODISSEU
Jean Muniz Biazotto e Ana Flávia Costa Eccard ........................ 549
LEI DA ALIENAÇÃO PARENTAL OU ESTATUTO DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE PARA A DEFESA DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES
ALIENADAS?
Jhéssica Luara Alves de Lima e Lindocastro Nogueira de Morais
...................................................................................................... 579
O VIGÁRIO GERAL: PILAR ESSENCIAL NA COLABORAÇÃO COM O
BISPO CONFORME O DIREITO CANÔNICO
José Antonio da Silva ................................................................... 603
AMITOLOGIA GREGA E A JUSTIÇA
José Augusto Galdino da Costa ................................................... 623
A LIGAÇÃO ENTRE SEXISMO E ENFERMAGEM: UM ESTUDO
METODOLÓGICO
Joyce Belarmino Chaves Rosendo, Gabriella Guedes Nascimento,
Cíntia Valéria Galdino e Odaleia de Oliveira Farias ................. 631
CELIBATO SACERDOTAL
Júlio Cesar Maia de Almeida ...................................................... 645
SAÚDE COLETIVA: O PODER FAMILIAR E A RESPONSABILIDADE
CIVIL NOS CASOS DE NÃO VACINAÇÃO DEMENORES
Lilia Brum de Cerqueira Leite Ribeiro, Ana Luiza da Rocha Lima e
Eliana de Oliveira ........................................................................ 657
A CREMAÇÃO COMO ALTERNATIVA PARA A CONSTRUÇÃO DE
CIDADES HUMANAS:UMOLHAR CIVIL CONSTITUCIONAL
Lilia Brum de Cerqueira Leite Ribeiro e Felipe Ramos Campana
...................................................................................................... 677
EDUCAÇÃO E TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO:
BENEFÍCIOS, RISCOS, LEGISLAÇÕES E IMPLICAÇÕES ÉTICAS
Luciana Serpa Cerqueira e Marcia Taborda .............................. 691
ANÁLISE CRÍTICA SOBRE AS PRESTADORAS DE SAÚDE NO QUE
TANGE OS PORTADORES DE TEA - TRANSTORNO DO ESPECTRO
AUTISTA
Luís Felipe Coêlho Leite, Laryssa Nayara Lobato de Sousa e
Priscila Elise Alves Vasconcelos ................................................. 723
REFUGIADOS DO CLIMA: REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO
AMBIENTAL E O DIREITO FUNDAMENTAL AO DESENVOLVIMENTO
Luiz Claudio Gonçalves Junior e Cláudia Regina Robert de Jesus
Chaves .......................................................................................... 741
DESESTABILIZAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS DE ENERGIA
ELÉTRICA:OCASO LIGHT E OS DIREITOS DO CONSUMIDOR
Luiz Fernando Cavallero de Azevedo e Diogo Oliveira Muniz
Caldas .......................................................................................... 767
FAKE NEWS E OS SEUS IMPACTOS AOS REGIMES DEMOCRÁTICOS:
SOBRE OS FUNDAMENTOS DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO E A SUA
REGULAÇÃO NO ÂMBITO DIGITAL
Marcella Toledo Bruno ................................................................ 793
ARESPONSABILIDADE CIVILNA RELAÇÃOMÉDICO-PACIENTE
Marcelo Santos Baia .................................................................... 815
INQUÉRITO POLICIAL: A NATUREZA JURÍDICA, SUAS
CARACTERÍSTICAS E OS DESDOBRAMENTOS
Marcondes Freire Montysuma e Raimunda de Queiroz Feitosa . 827
OS IMPACTOS PERSISTENTES DA COVID-19 A SAÚDEMENTAL DOS
IDOSOS:UMAANÁLISE ABRANGENTE E ESTRATÉGIAS ATUAIS
Maria Magdalena Grego Moren.................................................. 859
DIREITO REAL DE LAJE COMO PROPULSOR A DIGNA MORADIA:
UMA ANÁLISE SOB O PAINEL CONSTITUCIONAL DO DIREITO À
MORADIA, DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, BEM
COMO DA FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE
Maria Clara Arêas ....................................................................... 871
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA ASSOCIADA AO TRABALHO DA
MULHER
Melissa Alves Raymundo de Abreu.............................................. 903
O ENSINO DOMÉSTICO FEMININO NAS PÁGINAS DE UM DIÁRIO:
OS RELATOS DE AURÉLIA DIAS ROLLEMBERG (1863 1952)
Nathália Rabelo Sampaio Vasques .............................................. 927
Patrícia Ignácio da Rosa, Raphaela Ignácio Dias e Edson Pereira
da Silva......................................................................................... 943
GADAMER EM BUSCA DE SUA CÁTEDRA: REFLEXÕES SOBRE UMA
POLÍTICA APOLÍTICA
Pedro Rubim Borges Fortes......................................................... 971
A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM A MULHER
VÍTIMA DE VIOLÊNCIA FÍSICA, PSICO-MORAL E SEXUAL
Priscila Aparecida Alves Pires, Giovanna da Conceição dos Santos
e Cíntia Valéria Galdino.............................................................. 993
GOVERNANÇA CLIMÁTICA: BREVES COMENTÁRIOS SOBRE O
LEADING CASE BRASIL
Priscila Elise Alves Vasconcelos ............................................... 1007
ANÁLISE DO PAPEL DA PRIMEIRA CARTA MAGNA BRASILEIRO:
UMA BREVE HISTÓRIA DA CONSTITUIÇÃO IMPERIAL E SEU REFLEXO
NA ATUALIDADE
Rabib Floriano Antonio e Yan Carlos dos Santos da Silva ....... 1023
INTEGRIDADE NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: UM PROJETO EM
ANDAMENTO
Rafael Carvalho Rezende Oliveira ............................................ 1045
O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA E AS NULIDADES ABSOLUTAS:
ACOMPETÊNCIA LEGISLATIVA TRAVESTIDA DE JURISDIÇÃO
Rafael Henrique Renner e Luca Leal Machado de Seixas Franco
.................................................................................................... 1057
PRISÃO PREVENTIVA E CUMPRIMENTO DA LEI: A QUESTÃO
HERMENÊUTICA NAS DECISÕES DO STF NO CASO ANDRÉ DO RAP
Renata Caroline Pereira Reis .................................................... 1081
TEIAS EDUCACIONAIS: EXPLORANDO O DIREITO E AS RELAÇÕES DE
TRABALHO NA FORMAÇÃO CIDADÃ
Renato Rodrigues, Artur Rodrigues Neto e Edi da Silva ........... 1103
UMA VISÃO DO DIREITO PENAL COMO INSTRUMENTO DE
CONTROLE SOCIAL E SUA NATUREZA FRAGMENTÁRIA
Ricardo Fernandes Maia ........................................................... 1119
A AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE
DIREITO
Ricardo Lodi Ribeiro ................................................................. 1135
A CARTOGRAFIA CONSTRUÍDA POR MÁRIO DE ANDRADE EM O
TURISTA APRENDIZ VIAGEM AO NORDESTE
Roberta Rayza Silva de Mendonça e Alexandre Fabiano Mendes
.................................................................................................... 1161
NOVOS DANOS E A VERDADEIRA GUERRA DE ETIQUETAS
Sabrina de Oliveira Carvalho.................................................... 1177
EDUCAÇÃO PARA A LIBERTAÇÃO: A CONEXÃO ENTRE
UNIVERSIDADES E COMUNIDADES
Suellen Silva Coelho de Melo e Fernando César Ferreira Gouvêa
.................................................................................................... 1203
IMPLEMENTAÇÃO DA GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS DE
NATUREZA POLIMÉRICA E PARCERIA COM EMPRESA PRODUTORA
DE MADEIRA PLÁSTICA A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO
AMBIENTAL NO PROCESSO ENSINO APRENDIZAGEM PARA O
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Tathiane Cordeiro Rodrigues e Cyro Guimarães...................... 1225
A MULHER NO MERCADO DE TRABALHO E A INFLUÊNCIA DO
MOVIMENTO FEMINISTA
Vitória Kásia Silva Freitas ........................................................ 1257
A JUDICIALIZAÇÃO DA POLÍTICA E SEUS EFEITOS NA
INDEPENDÊNCIA DOS PODERES E NA IMPLEMENTAÇÃO DE
DIREITOS
Weslley de Almeida Paiva.......................................................... 1273
15
PROGRAMA SEGURANÇA PRESENTE:
UMAABORDAGEM CRÍTICA
Aderlan Viana Crespo1
Lier Pires Ferreira2
As cidades contemporâneas são estruturas complexas, cada
vez mais hipertrofiadas e não raro distópicas. Embora sejam
realidades ancestrais, que remontam aos primórdios da civilização,
em suas dimensões e configurações hodiernas as cidades são um
fenômeno relativamente recente, diretamente vinculado à
modernidade e às transformações impostas pela produção
capitalista.
Frequentemente denominadas metrópoles ou megalópoles,
em seus aspectos gerais as cidades encerram um amplo conjunto de
relações socioculturais, políticas e econômicas. Espaços
privilegiados da vida contemporânea, elas concentram vida,
trabalho, afetos, dramas e esperanças. Esses elementos, que podem
possuir tanto uma dimensão material quanto simbólica, estão
diretamente relacionados às distintas expressões do uso citadino,
manifestando-se por meio dos equipamentos socioculturais, da
1 Mestre em Direito. Professor universitário. Advogado. E-mail:
aderlancrespo@gmail.com
2 Pós-Doutor em Direito - USAL, Espanha. PhD em Direito - UERJ. Mestre em
Relações Internacionais - PUC/RJ. Bacharel em Direito - UFF. Bacharel e
Licenciado em Ciências Sociais - UFF. Professor Titular do Ibmec, Fiurj e CP2.
Pesquisador do LEPDESP (IESP-UERJ/ESG). Autor/organizador, dentre outros,
de: Estado, Globalização e Integração Regional (2003); Direito Internacional,
petróleo e desenvolvimento (2011); Curso de Ciência Política (2013); Escolas e
Teorias de Relações Internacionais (2021); Retratos da Pandemia (2021); O Rio
sob Intervenção Federal (2022). E-mail: lier.piresferreira@gmail.com
549
HOMERO:O PROÊMIO DA ILÍADA E DA ODISSEIA
COMO EXEGESE CONCISA DA GUERRA DE TRÓIA E DO
RETORNO DE ODISSEU
Jean Muniz Biazotto1
Ana Flávia Costa Eccard2
Resumo: O atual artigo busca investigar os proêmios da Ilíada e da
Odisseia de Homero, considerando-os as respectivas epopeias e
examinando a exegese dos eventos da Guerra de Tróia e do retorno
de Odisseu. Os objetivos do trabalho são: explorar a significância
dos proêmios da Ilíada e da Odisseia como introduções e das
epopeias, investigar a importância dos temas da cólera de Aquiles e
das aventuras de Odisseu no contexto das guerras e mitologia
grega; discutir a autoria e tradição oral das obras de Homero,
avaliando sua transmissão e preservação através dos séculos. O
estudo justifica-se pela relevância das epopeias homéricas na
literatura ocidental e pela necessidade de compreender como os
proêmios encapsulam os temas centrais das obras. A análise dos
proêmios também ilumina as técnicas narrativas e a riqueza poética
de Homero, contribuindo para uma apreciação mais profunda da
literatura épica. A metodologia adotada inclui: revisão teórica e
bibliográfica das obras de Homero e estudos críticos relevantes;
análise textual dos proêmios da Ilíada e da Odisseia, utilizando
técnicas de exegese literária; discussão dos contextos históricos e
culturais das epopeias, com referencial metodológico de Rodrigues
e Gonçalves (2014) e com base nas obras de autores como Donaldo
1 Psicanalista. Psicólogo. Mestre em Práticas Transculturais (UNIFACVEST),
Professor do Curso de Psicologia da UNIFACVEST.
2 Professora permanente do PPGD Unifacvest, graduada em direito e filosofia,
mestre em Filosofia pela PUC-RJ, Doutora em Direito pelo PPGD UVA.
550
Schuler e Jacques Lacan, que fornecem fundamentos teóricos sobre
a tradição oral e a memória cultural. Tem-se ainda como principais
autores para Referencial Teórico: Homero; Donaldo Schuler, outros
autores mencionados incluemPaul Mazon, Walter W. Merry, e
tradutores e comentaristas como Carlos Alberto Nunes e Frederico
Lourenço.
Palavras-chave: Proêmios Homéricos; Ilíada; Odisseia; tradição
oral; exegese Literária.
Abstract: This article seeks to investigate the proems of Homer's
Iliad and Odyssey, considering them as respective epics and
examining the exegesis of the events of the Trojan War and the
return of Odysseus. The objectives of the work are: to explore the
significance of the proems of the Iliad and the Odyssey as
introductions and epics, to investigate the importance of the themes
of Achilles' anger and Odysseus's adventures in the context of wars
and Greek mythology; discuss the authorship and oral tradition of
Homer's works, evaluating their transmission and preservation
through the centuries. The study is justified by the relevance of
Homeric epics in literature and the need to understand how the
proems encapsulate the central themes of the works. Analysis of
the proems also illuminates Homer's narrative techniques and
poetic richness, contributing to a deeper appreciation of epic
literature. The methodology adopted includes: theoretical and
bibliographic review of Homer's works and relevant critical
studies; textual analysis of the proems of the Iliad and the Odyssey,
using literary exegesis techniques; discussion of the historical and
cultural contexts of epics, with methodological references from
Rodrigues and Gonçalves (2014) and based on the works of authors
such as Donaldo Schuler and Jacques Lacan, who provide
theoretical foundations on oral tradition and cultural memory. The
main authors for the Theoretical Reference are also: Homer;
Donaldo Schuler, other recommended authors include Paul Mazon,
551
Walter W. Merry, and translators and commentators such as Carlos
Alberto Nunes and Frederico Lourenço.
Keywords: Homeric Proems; Iliad; Odyssey; Oral Tradition;
Literary Exegesis.
INTRODUÇÃO: DA QUESTÃO HOMÉRICA. O
MOTIVO DA RETIRADA DE AQUILES DA
GUERRA
Segundo o Dr. Donaldo Schuler3, foi no final do século
XVIII que a existência de Homero foi colocada em dúvida,
primeiramente por Friedrich August Wolf, pois sendo provável que
as epopeias homéricas apareceram de forma oral em torno do
século IX. Neste período não havia escrita no Ocidente, logo, sendo
impossível a memorização e retenção por uma só pessoa. No final
do século XIX já não se reconhecia a autoria de Homero. No
entanto, apesar das dificuldades, a ideia de uma autoria múltipla
não prevaleceu, tendo em vista que outros povos com tradições
épicas tinham poemas mais longos e que de igual modo, eram
povos sem a escrita.
Logo, a filologia e a arqueologia passaram a reconhecer a
tradição homérica uma certa unidade e originalidade. Para
SCHÜLER, existe uma provável conciliação, havendo então uma
tradição épica oral que foi competentemente reelaborada por um
autor que poderia ou não ter se chamado Homero, e que se tal autor
se ele compôs ambas as epopeias permanece uma questão não
solucionável4, sendo ambas epopeias originadas da guerra de Troia,
aedos iam de cidade a
cidade cantando e celebrando ao som de uma lira que
3 SCHÜLER, Donaldo. Literatura Grega: Irradiações. Cotia-SP: Ateliê Editorial,
2018, pp. 18-30.
4 Ibidem, pp. 19.
552
lira e nada compunham.
Originalmente, a Ilíada e a Odisseia não eram divididas,
como lemos hoje, em 24 vinte e quatro cantos, sendo tal divisão
elaborado pela escola de Alexandria, baseando-se no número de
letras do alfabeto5. É Jacques Lacan6 que formulará a hipótese de,
não existindo gravador na época, diríamos que o que ali existia era
uma gravação no cérebro, pois a escrita ainda não tinha assumido
função dominante, sendo o papel raro e os livros dificílimos, era de
suma importância ter uma boa memória. Logo, a memória é função
primordial para tudo o que temos como testemunho e transmissão
da sabedoria oral. Que memória era preciso ter naquele tempo7!
Toda civilização oral há de exigir dos seus habitantes um
desenvolvimento e implementação de técnicas de memória, uma
mnemotécnica.
Naturalmente, as confrarias tinham seus grupos organizados
para treinamento, catalogando e forjando a proeza do aedo. Através
da inspiração das musas e da sua mãe, a memória, o aedo evoca
acontecimentos passados tendo a prerrogativa de entrar em contato
com o metafísico, conferindo-lhe poder religioso, dando material
para cantar e inspirar os ouvintes. Se o poeta necessita celebrar os
deuses imortais e comemorar as obras de grandes valentes, como
temos bem documentado na Ilíada, onde os feitos de um guerreiro
ou de vários é rememorado. A vida do guerreiro8 está voltada para
essa glória cantada, para essa boa memória. Na Ilíada, como
exemplo, lemos no canto XX9, antes da batalha com Aquiles,
5 Ibidem, pp. 20.
6 LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro. 2ª ed.
Zahar, 2010, pp. 41.
7 DETIENNE, Marcel. Mestres da verdade na Grécia arcaica: como abertura de
volta à boca da verdade. Editora WMF Martins Fontes, São Paulo: 2013, pp. 14,
8 Ibidem, pp. 22.
9 HOMERO. Ilíada. Trad. Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2015, 25ª ed. Canto I, linha 1-11. Utilizemos está tradução em nosso artigo como
texto padrão e cotejamos as várias traduções publicadas em nossa língua, bem
553
Heitor diz sobre sua honra que: Que, pelo menos, obscuro não
venha a morrer, inativo; hei de fazer algo digno, que chegue ao
porvir, exaltado.
Todos lemos e relemos a Ilíada e sabemos que o que nela é
cantado e narrado são possivelmente os últimos cinquenta e um
dias da guerra de Tróia. Aquiles, o mais veloz e corajoso soldado,
está enraivecido contra o chefe do exército Agamêmnon, como
percorremos a construção da narrativa homérica abaixo.
1. DESENVOLVIMENTO: O PROÊMIO DA ILÍADA
COMO EXEGESE DA OBRA. O MOTIVO DA
RETIRADA DE AQUILES DA GUERRA DE TRÓIA.
CONTEXTO
Figura 1: Proêmio da Ilíada. Referência: MAZON, Paul.
(Homère Iliade.
Boulevard Raspail, 1961. Tome I (Chants I-IV).
como a dos Srs. Frederico Lourenço, Manuel Odorico Mendes, Trajano Vieira,
Christian Werner e André Malta.
554
Canta-me a cólera ó deusa! funesta de
Aquiles Pelida,
Causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos
sem conta
E de baixarem para o Hades as almas de heróis
numerosos
E esclarecidos, ficando eles próprios aos cães
atirados
E como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o
desígnio
Desde o princípio em que os dois, em discórdia,
ficaram cindido
O de Atreu filho, senhor de guerreiros, e de
Aquiles divino
Qual, dentre os deuses eternos, foi a causa de
que eles brigassem
O que de Zeus e de Leto nasceu, que, com o rei
agastado,
peste lançou destruidora no exército. O povo
morria,
por ter o Atrida Agamémnone a Crises,
primeiro, ultrajado,
o sacerdote10.
A Ilíada narra a , a raiva, o ressentimento, a ira de
Aquiles, filho de Peleu e Tétis que será a causa que levará os
Arquivos a sofrerem trabalhos sem conta. O grande e valente
guerreiro que se retirou da guerra enraivecido contra o chefe
supremo do exército, Agamémonone, que lhe roubou uma escrava.
Agamémonone, bem sabemos, recebe a visita do sacerdote Crises,
que vem lhe pedir a filha em troca de um resgate. Agamémonone
rejeita, não libertando a filha de Crises bem como ameaçando-o,
pois, as insígnias do deus e o cetro de nada valem11. O sacerdote,
clamando a Apolo rogando que as flechas e setas atinjam o
exército. Assim Febo Apolo, indignado, desce do Olimpo, levando
seu arco e flecha, começa a atirar por nove dias contra o exército,
10 Ibidem, Canto I, linha 1-11.
11 Ibidem, linha 28.
555
que vai sendo dizimado, levando a Aquiles para convocar o povo
para a ágora, a fim de conter a peste. Pede que se consulte um
profeta, um sacerdote ou vidente que seja intérprete de sonhos e
então, que indique o motivo da cólera e indignação de Apolo.
Calcante, também conhecido por Calcas, filho de Testor
anuncia-se como vidente, conhecedor tanto do passado como do
futuro, que anuncia a Aquiles a mensagem de Zeus, não sem antes
garantir a proteção de Aquiles, pois temia a cólera de
Agamémonone,que continuamente revolve no peito o rancor12
mantendo-se ressentido até cumprir o ódio que maquina em seu
coração. Com coragem, anuncia ao vidente que Agamémonone
ofendeu Apolo ao rejeitar seu sacerdote Crise, ao negar e não
receber o resgate oferecido pela filha. Agamémonone furioso e
irritado, tendo em seu coração a negra raiva, anuncia que. Calcas é
um profeta que só anuncia males, nunca anunciando uma
mensagem benéfica, prevendo sempre desgraças.
A questão é que o chefe supremo deseja levar a bela filha de
Crises13 para residir junto a ele e Clitemnestra. No entanto, aceita
restituí-la, desde que, um novo prêmio seja-lhe ofertado. Aquiles
propõe que tal prêmio seja dado após a tomada de Tróia. Mas
Agamémonone rejeita e não cede aos subterfúgios e manhas
discursivas de Aquiles, acusando-o de sempre encontrar prazer nas
contendas, combates e lutas14, pedindo então a escrava de Aquiles,
Briseide, ameaçando-o com um ato de força e prova de
superioridade, indo buscá-la na própria tenda de Aquiles.
Aquiles, enfurecido, com o coração a flutuar, indeciso15
entre puxar ou não ali mesmo a espada cortante, vê baixar do céu
Palas Atena, que ordenada por Hera, agarra-lhe os cabelos,
pedindo-lhe que refreie a sua cólera, deixando a espada em
12 Ibidem, linha 83.
13 Ibidem, linha 112.
14 Ibidem, linha 178.
15 Ibidem, linha 189.
556
repouso16. Aquiles segue a recomendação de Palas Atena,
dirigindo-se a Agamémnone acusando-o de bêbado, tendo a
coragem de um veado, nunca envergando a armadura no combate17,
sendo um devorador do povo, não passando de um imprestável. No
meio desta contenda entre Aquiles e Agamémnone, levanta-se o
experimentado rei Nestor, orador delicioso18, cujas palavras eram
doce como o mel, clama obediência de ambas as partes, pedindo o
cessar do furor. Agamémnone responde aos pedidos de Nestor
dizendo que Aquiles sempre quer sobrepor-se a todos, arrogando-se
a gerência de tudo, ditando leis inconste19. Aquiles, em resposta a
Agamémnone, nega-se a dobrar-se ao capricho das palavras
ditatoriais de Agamémnone, anunciando que seu mando sobre ele
cessou, negando qualquer tipo de obediência, anunciando que não
irá mais lutar20. Agamémnone envia Criseide para junto do seu pai
Crises, juntamente com uma hecatombe, oferecendo a Febo Apolo
sacrifícios religiosos de cabras e touros.
De igual modo, ordena que busquem Briseide na tenda de
Aquiles, que a entrega. Aquiles se afasta de seus companheiros e
chora, pedindo a sua mãe Tétis que o aconselhe de sua dor. Sua
diletíssima mãe sabe muito bem que, quando Tebas foi saqueada21,
Criseide foi o prêmio de Agamémnone, enquanto Briseide era o seu
espólio de guerra. Tétis chora ao ouvir o relato doloroso de seu
filho Aquiles, tendo uma vida rica de dores com um destino
infeliz22. Instrui-o a conservar a cólera e afastar-se da guerra.
De outro modo, Odisseu chega até o local onde estava o
sacerdote Crises e entregaram-lhe a filha. O sacerdote pede a Apolo
que retire a peste, que após uma hecatombe, alegra-se e retira a
peste que afligiu o exército. Zeus, a pedido de Tétis, deseja honrar
16 Ibidem, linha 210.
17 Ibidem, linha 230.
18 Ibidem, linha 248.
19 Ibidem, linha 287-289.
20 Ibidem, linha 297-299.
21 Ibidem, linha 366.
22 Ibidem, linha 418.
557
para Agamémnone23 na figura do velho Nestor, anunciando-lhe que
este era o momento oportuno para a guerra, que lhe caía muito
bem, tendo em vista seu desejo de tomar Tróia.
Saltando do leito, vestindo logo sua túnica fina24 e saí com
seu cetro herdado do pai, convocando o exército para a batalha. Em
balbúrdia, como que enxames copiosos de abelhas25 saem da praça
, posteriormente o
tumulto ser aplacado sendo que nove anos já foram percorridos na
guerra26 frustrada. Agamémnone acredita que será possível vencer
sem Aquiles. No entanto, engana-se profundamente, pois os
troianos não só resistem como avançam em direção às naus dos
Aqueus, levando-o Pátroclo a decidir e desejar defender os Aqueus
e, do mesmo modo, defender-se de uma possibilidade de não
retornar. Rogando a Aquiles, este o libera para o combate e lhe
concede sua armadura e esta será ao nosso ver a grande reviravolta,
pois Heitor enfrentará Pátroclo imaginando estar guerreando com
Aquiles. Nesta batalha, Heitor vence e descobre que não tinha
matado Aquiles e sim o Pátroclo. A morte de Pátroclo irá abalar
profundamente a Aquiles, que voltará ao campo de guerra, vingará
o Pátroclo e matará Heitor, arrastando seu corpo por nove dias
seguidos em volta da tumba onde foram guardadas as cinzas de
Pátroclo.
O rei Príamo irá até a barraca de Aquiles para resgatar o
corpo do filho e realizar as devidas exéquias ao príncipe guerreiro.
Assim termina a Ilíada, entre dor e lágrimas, funerais e atividades
atléticas. Uma guerra que tem sua origem no casamento de Tétis e
Peleu, onde Iris revoltosa por não ser convidada lançou o seu pomo
Hera, Atena e Afrodite guerreiam para ver que é a mais bela. Zeus,
23 Ibidem, Canto II, linha 6.
24 Ibidem, linha 43.
25 Ibidem, linha 86.
26 Ibidem, linha 134.
558
juiz imparcial não escolhe nem a esposa nem a filha, muito menos
a bela Afrodite, relegando a um mortal tal decisão.
Esse mortal é Páris, filho do rei Príamo, que das três
propostas apresentadas Hera apresenta-lhe a proposta de ser um
Rei sobre toda Ásia, Atena promete-lhe sabedoria na guerra e
Afrodite propõe-lhe ter em seus braços a mulher mais linda do
mundo, Helena escolhe por Afrodite. Esta organiza sua viagem
a Esparta onde é recebido por Menelau, rei de Esparta e esposo de
Helena.
Ao viajar para cuidar de uma cerimônia fúnebre, Páris irá
raptar (?) ou fugir com Helena para Tróia. Eis um dos motivos de
uma guerra de dez anos: a beleza de Helena. Esta guerra narrada
com uma maestria única contar-nos-á algumas poucas semanas
destes dez anos, com um tema específico a fúria de Aquiles e seu
afastamento da guerra, a morte de Pátroclo e o retorno de Aquiles
para o campo de guerra.
Toda esta arte de narrar foi recolhida por Homero por
fragmentos27 que estão subordinados à fúria de Aquiles, contendo
cenas de ação e descrições exaustivas, sendo Homero um
construtor de variedades linguísticas onde a honra ferida e a dor de
Menelau pelo rapto (?)de Helena até a dor do rei Príamo ao perder
seu filho Heitor morto na guerra. Entre lutos e conflitos, os deuses
também guerreiam e são ridicularizados por Homero.
Os deuses são ciumentos, favorecem ora os Aqueus ora os
Troianos, ora vacilando a favor de um guerreiro contra outro, como
é o caso da disputa entre Menelau e Páris, onde Páris vencia
claramente a batalha, sendo Páris salvo por um truque de Afrodite.
Fato é que a Ilíada irá terminar com os funerais de Heitor, não
sabendo o leitor o seu desfecho. Com uma arte única de narrar,
Homero fará atravessarmos toda a guerra, lendo linha a linha,
construindo um universo épico, resultado da colheita de
27 SCHÜLER, opere citato, pp. 22.
559
fragmentos, construindo a unidade do texto que temos em mãos.
Após dez anos de guerra, findada a batalha, e hora de retornar.
Mas é na Odisseia, como por exemplo, no canto VIII, a
partir do canto inspirado pelas musas que o aedo Demódoco28
invoca e que com sua harpa começa a cantar o feito venturoso dos
Aqueus. Demódoco, inspirado pelos deuses, utilizando-se de uma
belíssima frase grega 29
e vai nos narrar estratégia e ajuda de Palas Atena, que inspirando
Odisseu múltiplo-astucioso fazendo colocar para dentro de Troia o
cavalo cheio de heróis destemidos, que os muros sagrados
saquearam.
Vejamos aqui exatamente a palavra grega e o que
nos diz este verso contextualizando o canto supramencionado? É
que dentro do cavalo que derrubou os famosos muros de Tróia
estava uma grande joia e um grande tesouro. Se é um
ornamento, um adorno ou uma imagem dos deuses, é no bojo do
cavalo que ia um grande tesouro é um grande ornamento dos
Aqueus e que será a grande derrota dos troianos.
O que era tal tesouro, tal objeto valioso dentro do cavalo de
madeira? Os melhores guerreiros, dentre eles Odisseu e Aquiles,
estavam escondidos e sentadoslei nenhuma e fora criado para ser um
monstro medonho.
41 Ibidem, linha 398.
565
Encontram a caverna muito bem abastecida, com cestos
cheios de queijos, os currais apinhados de cordeiros e cabras e
muito vinho. Ao chegar, o Ciclope fecha a porta da caverna com
uma enorme pedra. Odisseu e seus amigos estão lá dentro.
Avistando-os, o Ciclope lhes pergunta: Quem sois? Odisseu explica
sua história pós-guerra de Tróia. O Ciclope, com coração
impiedoso, afirma que ele é um tolo ou imbecil por imaginar que
teria ali alguma lei de hospitalidade. Com crueldade, estende a mão
e começa a pegar os companheiros de Odisseu, lançando-os no
chão, esquartejando-os.
Quando o olhicurcular Ciclope se deitou, após encher o
bucho de carne humana, comendo os amigos de Odisseu como um
leão criado nas montanhas, Odisseu e seus companheiros
começaram a implorar a Zeus e a chorar. Odisseu pensou em matar
o Ciclope com sua espada, mas com astúcia, lembrou-se que não
conseguiriam sair da caverna devido à enorme pedra que estava
sendo utilizada como uma porta. Odisseu precisava revolver no
fundo do coração uma maneira de se vingar e sair da caverna com
seus companheiros vivos. Pegando um grande tronco de oliveira
verde, cortou para ser usado e fez um alisamento, endurecendo a
ponta com a brasa que chispava. A tática é fincar no tronco no olho
do ciclópio. Após embebedar o Ciclope com o vinho que trazia
consigo, Odisseu conta seu nome, que é falso e ao mesmo tempo
pode ser verdadeiro: , que podemos traduzir como: ninguém.
O verso grego é: : Ninguém
, que poderíamos traduzir parafraseando
livremente como: Nulisseu, aquele que é o ninguém, é esse o meu
nome. Nulisseu, o nada-ninguém-astuto-que-é-muitos é como me
chamaram. Ninguém-Nulisseu-Nulo [ ] é como eu me chamo.
Schuler42, ao nosso ver, traduziu de maneira belíssima, a
palavra por Nulisseu ou Ninguém e que faz ao nosso ver,
42 HOMERO, Odisséia, v. 2. Regresso. Tradução de Donaldo Schuler. Porto
Alegre, RS: L&PM, 2008, linha 365, p. 135.
566
todo sentido dentro da Odisséia. Se o astucioso Odisseu é o
Nulisseu, ele é nulo, nenhum, mas também é muito. Mas, o Ciclope
avisa-lhe, com impiedade no coração, afirma: Ninguém
[Eu] [último] [comerei, devorarei,
consumirei], ou seja, eu, o Ciclope, devorarei o Ninguém, aquele
que é nulo, por último. Que promessa intimidadora, preclaro leitor!
Odisseu ve sua tripulação sendo devorada e na expectativa de ser o
último jantar do Polifemo.
Quando o Polifemo já estava bêbado, vomitando goela
afora, Odisseu então colocou o tronco no fogo para que ficasse
quente. Assim, quando o tronco de oliveira iria pegar fogo,
juntamente com outros companheiros corajosos, Odisseu, aquele
que é chamado de um Nulo-Ninguém-muitos, o Nulisseu, enterrou
o tronco no olho do Ciclope, cegando-o. O Ciclope gritava
desesperadamente pedindo ajuda dos outros Ciclopes, que ouvindo,
vieram perguntar: Que se passa, Polifemo? Porque gritas tirando
nosso sono? O Polifemo responde: :
, , ou seja,
parafraseando, O , o Nulisseu, o Ninguém, aquele que é o
Nulo me fere e com um truque ou estratagema procurando me
matar com astúcia, e não com força [ é ato de violência]. Os
outros Ciclopes respondem: Se Ninguém [ ] que é nulo te
agride, se na verdade ninguém [ ] está te fazendo mal, o que
te acontece é uma doença que vem de Zeus. Rogue a seu pai,
Posêidon, o deus do mar. Odisseu, rindo em seu coração, vence o
- -
como bem observou Malta43.
A explicação fica em torno da repetição das palavras gregas
[ninguém]. Ser astuto para Odisseu é ser
um ninguém, um , mas também um . Para Polifemo,
Odisseu é e para os amigos do Polifemo Odisseu é ,
43 MALTA, André. A astúcia de ninguém: ser e não ser na Odisseia. Belo
Horizonte: Impressões de Minas, 2018, p 276, obra já citada.
567
pois é exatamente essa a palavra que eles usam para perguntar ao
Ciclope quem de fato tinha o ferido. Logo, a conclusão dos amigos
do Polifemo é racional: Se a astúcia [ ] de ninguém [ ] é
que te oprime, que te agride, estando-o sozinho dentro da caverna,
essa sua doença só pode vir de Zeus e não é possível evitá-la
facilmente. Uma astúcia é o que conduz a vida de Odisseu, que lhe
conduz a ser um e ao mesmo tempo , um ser ninguém,
um nulo, mas que nesse sentido, ser ninguém é ser astuto, e
portanto, alguém.
Em grego, na transliteração, há um belo jogo de palavras
que elucidam essas linhas da Odisséia, sendo o uso da palavra
que foneticamente [mêtis / mé tis] é muito, muito parecida quando
ouvida. Exatamente por isso, os amigos do Polifemo ferido dizem
que aquele que lhe feriu por astúcia é um mé tis, um nada, um
ninguém. Fica muito claro tudo isto quando lemos a tradução feita
por Werner:44
gritares
Através da noite imortal e tirar-nos do sono?
Por certo ninguém (me tis) quer teus rebanhos
contra tua vontade!
Por certo ninguém (me tis) tenta matar-te com
A eles, então, do antro falou o poderoso
Polifemo:
Eles, em resposta, falavam as palavras
plumadas:
sozinho, violenta,
44 WERNER, Christian. Memórias da guerra de Troia. A Performance do
passado épico na Odisseia de Homero. Annablume editora. São Paulo, 2018, p.
139.
568
De modo algum, é possível evitar a doença de
Zeus;
Ferido e cambaleante, o Ciclope tira a pedra que era como
uma porta da caverna, sentando no buraco de entrada da caverna e
impedindo que algum fugisse. Novamente, com astúcia, com
-Nulisseu descobre uma maneira de
sair intacto da caverna. Havendo na caverna muitos carneiros com
muita lã, os companheiros de Odisseu foram amarrados com vime
torcido e a cada três animais amarrados, oculto ia um homem da
embarcação de Odisseu que eram amarrados nos carneiros.
Quando os animais iam saindo da caverna, o Polifemo
ferido ia apalpando-os e conferindo se quem estava saindo eram de
fato os carneiros. Não sabia ele que pela astúcia, os homens iam
amarrados aos animais. Quanto a Odisseu, ele escapa da caverna
agarrado a um carneiro maior, grudando-se no seu ventre.
Alegrando-se todos, entraram nas naus e seguiram viagem.
distância, com palavras provocadoras gritou ao Ciclope: Se algum
mortal perguntar quem foi que vergonhosamente te cegou o olho,
diga que o seu nome é não é Nulisseu, um ninguém, mas que se
chama [Odisseu] o , o saqueador das
cidades, o arrasa-urbes, o o filho de Laertes, que tem sua
residência e palácio em Ítaca e com esse excesso, com
essa desmedida, com todo esse orgulho, Odisseu verá que tal ato
receberá a devida punição e custará muitíssimo a ele e seus
companheiros de viagem, tendo em vista que o Polifemo pedira ao
seu pai, o Sacudidor da Terra, rogando a ele que não permita um
retorno de Odisseu para Ítaca, ou, no caso de retornar, que sua
viagem de retorno seja desastrosa e que Odisseu encontre horror no
lar.
A prece foi ouvida, e o retorno de Odisseu foi realizada,
mas com muito sofrimento. São dezenas de aventuras que
poderíamos narrar, mas por brevidade, resumindo ao máximo,
569
vemos Odisseu e seu amigos chegando na ilha de Eólia, onde vivia
Éolo, numa espécie de ilha que flutuava. Durante um mês, Odisseu
e seus companheiros permaneceram sob a tutela e sob as leis da
hospitalidade, com tudo do bom e do melhor, diríamos. Éolo, ao
receber o pedido de ajuda de Odisseu para retornar, deu-lhe um
saco feito da pele de um boi, esfolado por ele, três de nove anos, e
nesse saco acorrentou o curso dos ventos. Sendo o guardião dos
ventos, Éolo atou os caminhos dos ventos turbulentos, de modo que
todos os ventos contrários não escapassem.
Depois de nove dias de viagem, avistando a pátria desejada,
chegando tão perto que olhavam os homens acendendo fogueiras,
estando Odisseu extenuado e muito cansado, dormiu um delicioso
sono. Mas os seus companheiros, tramando e suspeitando que
Odisseu escondia ouro e prata dentro do saco. Decidiram abrir e
para fora do saco precipitaram os ventos, rebelando-se, vindo então
uma poderosa tempestade. O choro e o desespero abatem-se sobre
todos os homens da nau, e Odisseu medita se deve ou não se lançar
no mar e morrer afogado, tamanha dor abatia-se sobre o seu
coração.Continuando a viver e a navegar, pois é as duas coisas são
necessárias, chegam Odisseu e seus companheiros na ilha de Eeia,
no de palácio de Circe [ ], terrível deusa de fala humana, mas
de belas tranças. O palácio era num bosque, contendo ao seu redor
leões monteses e lobos que haviam sido encantados por Circe com
um [drogas, remédio ou medicamento, as vezes
utilizando como um feitiço ou encantamento, às vezes como
veneno] que por ela utilizado de maneira malévola e poderosa. Os
animais não atacaram os homens de Odisseu que chegaram no
palácio, mas se colocaram de pé e deram boas-vindas a Euríloco e
os vinte homens que com ele foram designados por Odisseu. Circe,
que estava cantando belas melodias enquanto praticava sua arte de
tecelagem, abriu a porta e convidou-os a entrar.
Euríloco foi o único que não entrou, desconfiando e
suspeitando de algum engodo. Circe, preparou-lhes então uma
570
mistura de queijos, farinha de cevada, mel fulvo, juntando com um
uma droga terrível, que ao ser ingerida, faria com que os
homens esquecessem apagando de sua memória a lembrança de sua
pátria. Após os homens terem bebido o mingau, tocou-lhes Circe
com sua varinha e os encurralou numa pocilga. Eles tinham cabeça,
voz, cerdas e aspectos de porcos, mas o seu espírito, não sofreu
alteração, permanecendo inteligentes com eram. Circe, vendo-os
chorar, passou a lhes dar bolotas, azinhas e cornizolos, que ela
utilizava para alimentar os porcos. Euríloco, vendo tudo isto, volta
correndo ao navio onde estava Odisseu e o restante dos
companheiros.
As palavras fugiam-lhe do coração, tendo um mar de
lágrimas nos olhos, gemendo, conta-lhes tudo. Odisseu decide ir
livrar os amigos da poderosa Circe que tinha muitas poções
mágicas e maléficas, e no caminho até ela encontra-se com Hermes
que, oferecendo ajuda e libertação das desgraças, oferecendo-lhe
uma droga potente, um outro tipo de . Hermes avisa-o
que Circe irá preparar uma porção de comida e porá nela um
venenoso , porém, esse não o enfeitiçara e não produzirá
nenhum efeito nele.
Hermes então arranca uma raiz negra da terra, que será um
- de Circe de uma flor que era
como leite, utilizada pelos deuses, dificílima de ser arrancada e
móli .. Chegando no palácio, Odisseu é
recebido por Circe. Ela, preparando uma porção numa taça dourada
lhe oferece, tendo antes misturado o seu perverso .
Odisseu bebeu, mas não foi enfeitiçado, conforme prescrição feita
por Hermes. Ela bateu nele com a sua varinha mágica ordenando
que Odisseu vá para a pocilga. Ele, sem ter nenhum efeito da droga
perversa, puxa sua espada e lança-se contra Circe, como se fosse
matá-la. Ela, em desespero, sabendo que homem algum tinha
resistido ao seu veneno, observando que a mente de Odisseu não
pode ser enfeitiçada, descobre ser ele Odisseu, o astuto.
Convidando-o para ir pra cama, desejando uma união de amor e
571
confiança, Odisseu aceita, logicamente. Mas quer um juramento de
Circe: que ela solte seus companheiros. E assim ela o faz, abrindo a
porta da pocilga, conduzindo-os para fora, estando os
companheiros de Odisseu como porcos de nove anos de idade. Ela
então ungiu cada um com um outro , uma agora uma
droga benéfica, caindo então as cerdas, transformando eles
novamente em homens, mais novos do que antes. Odisseu clama a
ajuda de Circe, pois quer de todas as maneiras retornar para sua
pátria, que retornar para sua Penélope. Ela, vendo o desespero deles
e de seus compatriotas, ensina-lhe o único caminho possível.
Descendo a morada de Hades, consulta-se com o tebano
profeta Tirésias, o cego adivinho mais famoso do mundo. Odisseu
fará a sua Katábasis, sua visita ao mundo dos mortos. Se o prezado
leitor me acompanhou até aqui, descemos juntos com Odisseu ao
Hades. É no Canto XI que ouvimos Homero narrar que Odisseu, ao
encontrar o vate Tirésias, recebe deste a seguinte pergunta: O que
vieste fazer aqui, ardiloso Odisseu, filho de Laertes? A resposta é
simples: Odisseu quer saber de Tirésias como regressar, como ter
seu -tebano
por excelência, anuncia o motivo da sua Infelicidade: O Abala-
Terra fá-lo-á difícil seu regresso.
O deus tem uma cólera acumulada, um fel depositado no
coração colérico devido a
furado o olho e então cegado seu filho, o Ciclope Polifemo. Mas
Tirésias anuncia que ele vai retornar, embora enfrentando muitos
males. Odisseu e seus companheiros voltam a sua nau, retornam ao
mar, cheios de esperança de poder voltar. No mar, prezado leitor,
enfrentam imensos desafios. Retornar para o lugar onde
imaginamos estar a Felicidade é algo complicadíssimo, e não
acontece sem prejuízos e dores. Ao enfrentar as Sereias, todos os
homens ficam enfeitiçados quando elas se aproximam.
A astúcia de Odisseu é não ouvir o seu límpido canto,
tampando com a cera dulcimel e fixando nos ouvidos dos
companheiros para não caírem nessa armadilha sonora. Odisseu,
572
astuto, quer ouvir sozinho o canto, não quer que a cera o proteja, e
assim, ped
uma mulher-
corda, corrente, laço.
Faz todo sentido aqui a raiz etimológica, sendo que Odisseu
vencerá as Sereias, que são estas que acorrentam os homens com os
seus laços sendo amarrado com um laço, um nó duplo, no mastro
do navio, ereto de pés e mãos no mastro, e que o nó seja duplo.
Assim, prazerosamente, poderá ele escutá-las. Garante Odisseu que
os homens não lhe desenastrem em nenhuma hipótese. Assim
acontece, prezado leitor! Navegando, encontram-se com as Sereias.
Os companheiros de Odisseu estão com a cera quente nos ouvidos,
evitando ouvir a voz arrebatadora das Sereias. Odisseu é o único
Odisseu enlouquece, pedindo aos companheiros que afrouxem as
cordas que o amarravam. Os companheiros arrocham e dobram o
nó que lhe prendia.
Odisseu e seus companheiros seguem rumo ao seu retorno
para Ítaca. Muitas dolorosas experiências ainda iriam atravessar até
chegar em Ítaca. Odisseu, com toda astúcia chegará em sua pátria e
disfarçar-se-á de mendigo. Sua casa está tomada pelos pretendentes
de Penélope, afinal, fazem vinte anos que Odisseu foi para Troia, e
todos estão esperando a oportunidade de casar com ela.
Como é de conhecimento de todos, Odisseu mata todos os
108 pretendentes de Penélope e volta para os braços de sua amada,
retornando para aquela que é o seu objeto erótico. Essa Felicidade
que encontramos na Odisseia é aquela em que o sujeito só pode
obtê-la se estiver ajustado com quem é sua outra metade, sua parte
primitiva, sua unidade. Essa Felicidade homérica, por assim dizer,
é aquela que enfrenta do Ciclope até a Circe, passando pelo Hades
até derrotar os pretendentes.
Tudo isso pela sua Penélope. Essa Felicidade grega-mítica é
aquela que anuncia todas as batalhas inerentes que serão travadas
573
para consegui-la. Ora se passando por ninguém, ora cometendo
excessos, hora consultando Tirésias, ora ouvindo as Sereias
amarrado no mastro do navio, ora namorando e entregando-se aos
prazeres eróticos com Circe para ver se livra os companheiros de
um feitiço que lhes transformava em porcos, essa Felicidade de
Odisseu é contentamento astuto, sábio, inteligente, culto.
Ora, se lemos na Odisseia que Odisseu ficou sete anos na
ilha da deusa Calipso, com tudo o que há de melhor na terra,
porém, vivendo uma Infelicidade sem fim, chorando todos os dias.
Antes de sair, Calypso fez todas as promessas possíveis, como
exemplo, transformá-lo em um deus, imortal, belo eternamente.
Mas Odisseu quer a felicidade mítica de estar em Ítaca,
harmonizado e unido com a sua outra parte. Odisseu quer retornar
ao primitivo, ao seu lugar de origem, antes da guerra de Tróia,
mesmo sabendo que não vai ser imortal, mesmo sabendo que não
estará numa ilha cheia de ninfas, mesmo assim, Odisseu quer
retornar, e no dizer de Aristófanes, antes do corte efetuado por
Zeus. A felicidade, para Odisseu, só pode ser conseguida, nesse
sentido, se abandonada as propostas de imortalidade, quando não
desejar-se-ia tê-la em um outro lugar, eterno, infinito, mas
recebendo a finitude, sabendo que o gozo do retorno ao objeto
erótico é mais valioso. Como escreveu Kaváfis45,
Quandopartires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o irascível Poseidon, não os encontrarás,
45 KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas. Tradução de Isis Borges B. da Fonseca.
São Paulo, Odysseus, 2006, p. 13.
574
se não os levas em tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti.
Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos
perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.
Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias a caminho.
Nada mais tem a dar-te.
Embora a encontres pobre, Ítaca não te
enganou.
Sábio assim como te tornaste, com tanta
experiência,
já deves ter compreendido o que significam as
Ítacas.
Essa felicidade de Odisseu é construída ao retornar para
Ítaca duas décadas após a sua partida rumo à guerra de Tróia.
Sabendo que a viagem de retorno durará uma década, foi essa
mesma carregada de conhecimento e sabedoria. Enfrentar-se-á aos
Ciclopes? Quem sabe!? Poseidon, o Abala-Terra lançará suas
maldições? Talvez! De fato, fará e não fará diferença alguma, tendo
em vista que essa felicidade é a do retorno e sua imaginação e
emoção não estará em outro lugar, a não ser o lugar desejado, que é
Penélope. Q psique quando não
575
introjetado, internalizado e nem projetado, sabe-se que o caminho é
longo, mas que a felicidade é por ele alcançada indo no meio do
caminho para Ítaca, pois é seu destino chegar lá. Até Ítaca, muitos
saberes foram adquiridos, muitas experiências e objetos
perfumados foram comprados, e quando chegar em Ítaca, o sujeito
compreendeu, segundo Homero, a felicidade da experiência
enquanto retorno.
2. À GUISA DE CONCLUSÃO
Se a Ilíada é construída a partir da do grandioso
guerreiro denominado em Aquiles, filho
de Peleu temos na Odisséia um proêmio que não demarca o
nome do guerreiro, nomeando-o como o varão
, esse Nuliseu-que-é-e-que-não-é. Contraste: Um
guerreiro está brigando pela sua honra, outro, para voltar para sua
casa e encontrar sua Penélope.
Entre duas décadas, entre guerras e dores, Aquiles retorna
para a guerra para vingar seu amor, o Pátroclo. É na relação amado-
- uma
amor que é formado pelo cuidado filial-educacional. Seu retorno
será para a morte, coisa da qual ele não teme. Odisseu não quer
morrer, quer chegar vivo em Ítaca, matar os pretendentes de
Penélope e restabelecer-se como rei novamente. Nosso trabalho
versou por tentar reconstruir e extrair do texto homérico sua
multiplicidade e sua beleza em descrever a personalidade de dois
grandes heróis míticos.
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LEI DA ALIENAÇÃO PARENTAL OU ESTATUTO DA
CRIANÇA E DO ADOLESCENTE PARA A DEFESA DAS
CRIANÇAS E ADOLESCENTES ALIENADAS?
PARENTAL ALIENATION LAW OR CHILD AND ADOLESCENT STATUTE FOR
THE DEFENSE OF ALIENATED CHILDREN AND ADOLESCENTS?
Jhéssica Luara Alves de Lima1
Lindocastro Nogueira de Morais2
Resumo: O presente artigo objetiva suscitar uma discussão entre a
Lei da Alienação Parental e o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), discutindo a necessidade da Lei. Como metodologia,
utilizaremos o método do raciocínio sintético e silogístico para
responder a problemática jurídica: A Lei da Alienação Parental é
necessária à defesa das crianças e adolescentes ou o ECA é
suficiente? Para tanto, utilizamos a pesquisa bibliográfica e
legislativa. Como hipótese trazemos a suposição de que a alienação
parental existe e deve ser combatida pelo(s) meio(s) mais
eficaz(es). Como conclusão, temos que o aperfeiçoamento da Lei nº
12.318/2010 e a capacitação dos atores que integram as equipes
multidisciplinares é, de forma imediata, medida adequada para
minimizar os casos de alienação parental e dissipar a presença da
síndrome de alienação parental, executando da melhor forma a
1 Doutora em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) com estágio pós-
doutoral pela UnB. Docente do curso de Direito da Universidade Federal do
Ceará. Líder
2 Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em
Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Docente da
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Membro do Grupo departires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o irascível Poseidon, não os encontrarás,
45 KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas. Tradução de Isis Borges B. da Fonseca.
São Paulo, Odysseus, 2006, p. 13.
574
se não os levas em tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti.
Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos
perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.
Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias a caminho.
Nada mais tem a dar-te.
Embora a encontres pobre, Ítaca não te
enganou.
Sábio assim como te tornaste, com tanta
experiência,
já deves ter compreendido o que significam as
Ítacas.
Essa felicidade de Odisseu é construída ao retornar para
Ítaca duas décadas após a sua partida rumo à guerra de Tróia.
Sabendo que a viagem de retorno durará uma década, foi essa
mesma carregada de conhecimento e sabedoria. Enfrentar-se-á aos
Ciclopes? Quem sabe!? Poseidon, o Abala-Terra lançará suas
maldições? Talvez! De fato, fará e não fará diferença alguma, tendo
em vista que essa felicidade é a do retorno e sua imaginação e
emoção não estará em outro lugar, a não ser o lugar desejado, que é
Penélope. Q psique quando não
575
introjetado, internalizado e nem projetado, sabe-se que o caminho é
longo, mas que a felicidade é por ele alcançada indo no meio do
caminho para Ítaca, pois é seu destino chegar lá. Até Ítaca, muitos
saberes foram adquiridos, muitas experiências e objetos
perfumados foram comprados, e quando chegar em Ítaca, o sujeito
compreendeu, segundo Homero, a felicidade da experiência
enquanto retorno.
2. À GUISA DE CONCLUSÃO
Se a Ilíada é construída a partir da do grandioso
guerreiro denominado em Aquiles, filho
de Peleu temos na Odisséia um proêmio que não demarca o
nome do guerreiro, nomeando-o como o varão
, esse Nuliseu-que-é-e-que-não-é. Contraste: Um
guerreiro está brigando pela sua honra, outro, para voltar para sua
casa e encontrar sua Penélope.
Entre duas décadas, entre guerras e dores, Aquiles retorna
para a guerra para vingar seu amor, o Pátroclo. É na relação amado-
- uma
amor que é formado pelo cuidado filial-educacional. Seu retorno
será para a morte, coisa da qual ele não teme. Odisseu não quer
morrer, quer chegar vivo em Ítaca, matar os pretendentes de
Penélope e restabelecer-se como rei novamente. Nosso trabalho
versou por tentar reconstruir e extrair do texto homérico sua
multiplicidade e sua beleza em descrever a personalidade de dois
grandes heróis míticos.
REFERÊNCIAS
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579
LEI DA ALIENAÇÃO PARENTAL OU ESTATUTO DA
CRIANÇA E DO ADOLESCENTE PARA A DEFESA DAS
CRIANÇAS E ADOLESCENTES ALIENADAS?
PARENTAL ALIENATION LAW OR CHILD AND ADOLESCENT STATUTE FOR
THE DEFENSE OF ALIENATED CHILDREN AND ADOLESCENTS?
Jhéssica Luara Alves de Lima1
Lindocastro Nogueira de Morais2
Resumo: O presente artigo objetiva suscitar uma discussão entre a
Lei da Alienação Parental e o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), discutindo a necessidade da Lei. Como metodologia,
utilizaremos o método do raciocínio sintético e silogístico para
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1 Doutora em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) com estágio pós-
doutoral pela UnB. Docente do curso de Direito da Universidade Federal do
Ceará. Líder
2 Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em
Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Docente da
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Membro do Grupo de

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