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CÁTEDRA PADRE BARREIRA ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DE EDUCAÇÃO, FILOSOFIA, TEOLOGIA E DIREITO VOLUME 2 Antônio Celso Alves Pereira Cleyson de Moraes Mello José Rogério Moura de Almeida Neto Marcio Martins da Costa Coordenadores CÁTEDRA PADRE BARREIRA ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DE EDUCAÇÃO, FILOSOFIA, TEOLOGIA E DIREITO VOLUME 2 Editora Processo 2024 PROGRAMA SEGURANÇA PRESENTE:UMAABORDAGEM CRÍTICA Aderlan Viana Crespo e Lier Pires Ferreira ................................. 15 USO DE TECNOLOGIA, CIBERCULTURA E GAMIFICAÇÃO NA EDUCAÇÃO Alessandra Cristina Carvalho de Oliveira e Marineusa Soares Goulart ........................................................................................... 39 GESTÃO PÚBLICA: PLANEJAMENTO, GESTÃO DE PESSOAS, OPERAÇÕES, MARKETING E GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS Alessandro Menezes Paiva, André Luís Azevedo Guedes, Carlos Antônio da Silva Carvalho e Patricia Sant Anna Ghenov ............ 65 RESERVA COGNITIVA:A IMPORTÂNCIA DA RESILIÊNCIA CEREBRAL Aline da Costa Crespo, Ana Beatriz de Oliveira Souza Lopes, Lívia Caroline Ferreira Cézar e Ivan de Paula Fialho .......................... 81 O PODER JUDICIÁRIO NA ERA DE AMEAÇAS À DEMOCRACIA: O TIGRE E OASSÉDIO HERMENÊUTICO DO TRADICIONALISMO Alfredo Canellas Guilherme a Silva ............................................ 95 ADEFESA DORÉU NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL Álvaro Antônio Sagulo Borges de Aquino ................................... 125 ESTADO DE EXCEÇÃO NA PANDEMIA E A RELEVÂNCIA DAS LEGISLAÇÕES SOBRE DIREITO FUNERÁRIO Amanda de Castro Araújo Pereira .............................................. 147 HERANÇA DIGITAL: O CONFLITO CONTEMPORÂNEO ENTRE O DIREITO SUCESSÓRIO E OS DIREITOS DA PERSONALIDADE Ana Lívia dos Santos Alves Nogueira e Renata Maria Silveira Toledo .......................................................................................... 161 VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA CRIANÇAS: IMPACTOS, CAUSAS E ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO Andréia dos Santos Cunha, Déborah Roza Silva e Vitória Cristina Alvim Pereira ............................................................................... 197 ETARISMO: UMA ANÁLISE DA DISCRIMINAÇÃO VIVIDA PELOS IDOSOS NA SOCIEDADE Andréia dos Santos Cunha, Amanda Silva Costa e Tamara Lima de Almeida ........................................................................................ 231 CONTRIBUIÇÃO FRAGMENTADA DO MÉTODO DA FENOMENOLOGIA DO DIREITO PARA UMA PESQUISA SOBRE PARTIDOS POLÍTICOS André R. C. Fontes ....................................................................... 255 TEIXEIRA DE FREITAS PARADOXOS DO PROJETO E GÊNESE DO CÓDIGO CIVIL DO BRASIL E DA ARGENTINA Aurélio Wander Bastos ................................................................ 265 APROTEÇÃO DE DADOS PESSOAIS EM PERSPECTIVA COMPARADA Bruno Alberto Maia ..................................................................... 275 APRIMORAMENTO DE UMA FERRAMENTA DE MAPEAMENTO DAS PRIORIDADES DE INVESTIMENTOS DO TERRITÓRIO EM PROL DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Bruno Santos Cezario, André Luis Azevedo Guedes, Patricia Bilotta, Patricia Maria Dusek, Mariana Marinho da Costa Lima Peixoto e Carlos Antonio da Silva Carvalho ............................... 295 HERMENÊUTICA, DIREITO E VERDADE Cleyson de Moraes Mello ............................................................ 317 NOS CAMINHOS DA EDUCAÇÃO INTELIGENTE (EDUCAÇÃO 6.0) Cleyson de Moraes Mello, José Rogério Moura de Almeida Neto e Marcio Martins da Costa ............................................................. 335 O RELACIONAMENTO ABUSIVO E A LEI MARIA DA PENHA VINCULADO AO CONCEITO DE LOUCURA E DIREITOS HUMANOS Washington Luiz A. Ferreira ....................................................... 355 NOVAS TENDÊNCIAS CONSENSUAIS NO DIREITO SANCIONADOR. LEGITIMIDADE, COLABORAÇÃO E CONFLITO APARENTE ENTRE OS ÓRGÃOS PÚBLICOS NO ACORDO DE LENIÊNCIA: CGU, TCU, AGU EMINISTÉRIO PÚBLICO Edimar Carmo da Silva................................................................ 373 A INTERSEÇÃO VITAL: DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS NA CONSTRUÇÃO DE SOCIEDADES EQUITATIVAS Edna Raquel Hogemann .............................................................. 399 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, CURATELA, DECISÃO APOIADA E RESPONSABILIDADE CIVIL Gabriel Dolabela Raemy Rangel ................................................. 417 DESAFIOS JURÍDICOS NA PROMOÇÃO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: CAMINHOS PARA A EQUIDADE E ACESSIBILIDADE Geovani Broering e Soraya Lemos Erpen Broering .................... 429 AVALIAÇÃO CRÍTICA DA QUALIDADE DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES A DISTÂNCIA NO BRASIL: OPORTUNIDADES E DESAFIOS Gilberto Alves da Silva e António Moreira Teixeira ................... 477 OENSINO SUPERIOR À LUZ DA CULTURA DA CONSENSUALIDADE Humberto Dalla Bernardina de Pinho e José Marinho Paulo Junior ........................................................................................... 497 ECOS DA INCLUSÃO ESCOLAR: PERCEPÇÕES MATERNAS ACERCA DO PROCESSO NA ESCOLA COMUM/REGULAR Jardel Delgado Marques, Alessandra Cristina Carvalho de Oliveira e Débora Menezes Silva Fernandes .............................. 525 HOMERO: O PROÊMIO DA ILÍADA E DA ODISSEIA COMO EXEGESE CONCISA DA GUERRA DE TRÓIA E DO RETORNO DE ODISSEU Jean Muniz Biazotto e Ana Flávia Costa Eccard ........................ 549 LEI DA ALIENAÇÃO PARENTAL OU ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE PARA A DEFESA DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES ALIENADAS? Jhéssica Luara Alves de Lima e Lindocastro Nogueira de Morais ...................................................................................................... 579 O VIGÁRIO GERAL: PILAR ESSENCIAL NA COLABORAÇÃO COM O BISPO CONFORME O DIREITO CANÔNICO José Antonio da Silva ................................................................... 603 AMITOLOGIA GREGA E A JUSTIÇA José Augusto Galdino da Costa ................................................... 623 A LIGAÇÃO ENTRE SEXISMO E ENFERMAGEM: UM ESTUDO METODOLÓGICO Joyce Belarmino Chaves Rosendo, Gabriella Guedes Nascimento, Cíntia Valéria Galdino e Odaleia de Oliveira Farias ................. 631 CELIBATO SACERDOTAL Júlio Cesar Maia de Almeida ...................................................... 645 SAÚDE COLETIVA: O PODER FAMILIAR E A RESPONSABILIDADE CIVIL NOS CASOS DE NÃO VACINAÇÃO DEMENORES Lilia Brum de Cerqueira Leite Ribeiro, Ana Luiza da Rocha Lima e Eliana de Oliveira ........................................................................ 657 A CREMAÇÃO COMO ALTERNATIVA PARA A CONSTRUÇÃO DE CIDADES HUMANAS:UMOLHAR CIVIL CONSTITUCIONAL Lilia Brum de Cerqueira Leite Ribeiro e Felipe Ramos Campana ...................................................................................................... 677 EDUCAÇÃO E TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO: BENEFÍCIOS, RISCOS, LEGISLAÇÕES E IMPLICAÇÕES ÉTICAS Luciana Serpa Cerqueira e Marcia Taborda .............................. 691 ANÁLISE CRÍTICA SOBRE AS PRESTADORAS DE SAÚDE NO QUE TANGE OS PORTADORES DE TEA - TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA Luís Felipe Coêlho Leite, Laryssa Nayara Lobato de Sousa e Priscila Elise Alves Vasconcelos ................................................. 723 REFUGIADOS DO CLIMA: REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O DIREITO FUNDAMENTAL AO DESENVOLVIMENTO Luiz Claudio Gonçalves Junior e Cláudia Regina Robert de Jesus Chaves .......................................................................................... 741 DESESTABILIZAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS DE ENERGIA ELÉTRICA:OCASO LIGHT E OS DIREITOS DO CONSUMIDOR Luiz Fernando Cavallero de Azevedo e Diogo Oliveira Muniz Caldas .......................................................................................... 767 FAKE NEWS E OS SEUS IMPACTOS AOS REGIMES DEMOCRÁTICOS: SOBRE OS FUNDAMENTOS DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO E A SUA REGULAÇÃO NO ÂMBITO DIGITAL Marcella Toledo Bruno ................................................................ 793 ARESPONSABILIDADE CIVILNA RELAÇÃOMÉDICO-PACIENTE Marcelo Santos Baia .................................................................... 815 INQUÉRITO POLICIAL: A NATUREZA JURÍDICA, SUAS CARACTERÍSTICAS E OS DESDOBRAMENTOS Marcondes Freire Montysuma e Raimunda de Queiroz Feitosa . 827 OS IMPACTOS PERSISTENTES DA COVID-19 A SAÚDEMENTAL DOS IDOSOS:UMAANÁLISE ABRANGENTE E ESTRATÉGIAS ATUAIS Maria Magdalena Grego Moren.................................................. 859 DIREITO REAL DE LAJE COMO PROPULSOR A DIGNA MORADIA: UMA ANÁLISE SOB O PAINEL CONSTITUCIONAL DO DIREITO À MORADIA, DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, BEM COMO DA FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE Maria Clara Arêas ....................................................................... 871 DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA ASSOCIADA AO TRABALHO DA MULHER Melissa Alves Raymundo de Abreu.............................................. 903 O ENSINO DOMÉSTICO FEMININO NAS PÁGINAS DE UM DIÁRIO: OS RELATOS DE AURÉLIA DIAS ROLLEMBERG (1863 1952) Nathália Rabelo Sampaio Vasques .............................................. 927 Patrícia Ignácio da Rosa, Raphaela Ignácio Dias e Edson Pereira da Silva......................................................................................... 943 GADAMER EM BUSCA DE SUA CÁTEDRA: REFLEXÕES SOBRE UMA POLÍTICA APOLÍTICA Pedro Rubim Borges Fortes......................................................... 971 A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM A MULHER VÍTIMA DE VIOLÊNCIA FÍSICA, PSICO-MORAL E SEXUAL Priscila Aparecida Alves Pires, Giovanna da Conceição dos Santos e Cíntia Valéria Galdino.............................................................. 993 GOVERNANÇA CLIMÁTICA: BREVES COMENTÁRIOS SOBRE O LEADING CASE BRASIL Priscila Elise Alves Vasconcelos ............................................... 1007 ANÁLISE DO PAPEL DA PRIMEIRA CARTA MAGNA BRASILEIRO: UMA BREVE HISTÓRIA DA CONSTITUIÇÃO IMPERIAL E SEU REFLEXO NA ATUALIDADE Rabib Floriano Antonio e Yan Carlos dos Santos da Silva ....... 1023 INTEGRIDADE NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: UM PROJETO EM ANDAMENTO Rafael Carvalho Rezende Oliveira ............................................ 1045 O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA E AS NULIDADES ABSOLUTAS: ACOMPETÊNCIA LEGISLATIVA TRAVESTIDA DE JURISDIÇÃO Rafael Henrique Renner e Luca Leal Machado de Seixas Franco .................................................................................................... 1057 PRISÃO PREVENTIVA E CUMPRIMENTO DA LEI: A QUESTÃO HERMENÊUTICA NAS DECISÕES DO STF NO CASO ANDRÉ DO RAP Renata Caroline Pereira Reis .................................................... 1081 TEIAS EDUCACIONAIS: EXPLORANDO O DIREITO E AS RELAÇÕES DE TRABALHO NA FORMAÇÃO CIDADÃ Renato Rodrigues, Artur Rodrigues Neto e Edi da Silva ........... 1103 UMA VISÃO DO DIREITO PENAL COMO INSTRUMENTO DE CONTROLE SOCIAL E SUA NATUREZA FRAGMENTÁRIA Ricardo Fernandes Maia ........................................................... 1119 A AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO Ricardo Lodi Ribeiro ................................................................. 1135 A CARTOGRAFIA CONSTRUÍDA POR MÁRIO DE ANDRADE EM O TURISTA APRENDIZ VIAGEM AO NORDESTE Roberta Rayza Silva de Mendonça e Alexandre Fabiano Mendes .................................................................................................... 1161 NOVOS DANOS E A VERDADEIRA GUERRA DE ETIQUETAS Sabrina de Oliveira Carvalho.................................................... 1177 EDUCAÇÃO PARA A LIBERTAÇÃO: A CONEXÃO ENTRE UNIVERSIDADES E COMUNIDADES Suellen Silva Coelho de Melo e Fernando César Ferreira Gouvêa .................................................................................................... 1203 IMPLEMENTAÇÃO DA GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS DE NATUREZA POLIMÉRICA E PARCERIA COM EMPRESA PRODUTORA DE MADEIRA PLÁSTICA A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PROCESSO ENSINO APRENDIZAGEM PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Tathiane Cordeiro Rodrigues e Cyro Guimarães...................... 1225 A MULHER NO MERCADO DE TRABALHO E A INFLUÊNCIA DO MOVIMENTO FEMINISTA Vitória Kásia Silva Freitas ........................................................ 1257 A JUDICIALIZAÇÃO DA POLÍTICA E SEUS EFEITOS NA INDEPENDÊNCIA DOS PODERES E NA IMPLEMENTAÇÃO DE DIREITOS Weslley de Almeida Paiva.......................................................... 1273 15 PROGRAMA SEGURANÇA PRESENTE: UMAABORDAGEM CRÍTICA Aderlan Viana Crespo1 Lier Pires Ferreira2 As cidades contemporâneas são estruturas complexas, cada vez mais hipertrofiadas e não raro distópicas. Embora sejam realidades ancestrais, que remontam aos primórdios da civilização, em suas dimensões e configurações hodiernas as cidades são um fenômeno relativamente recente, diretamente vinculado à modernidade e às transformações impostas pela produção capitalista. Frequentemente denominadas metrópoles ou megalópoles, em seus aspectos gerais as cidades encerram um amplo conjunto de relações socioculturais, políticas e econômicas. Espaços privilegiados da vida contemporânea, elas concentram vida, trabalho, afetos, dramas e esperanças. Esses elementos, que podem possuir tanto uma dimensão material quanto simbólica, estão diretamente relacionados às distintas expressões do uso citadino, manifestando-se por meio dos equipamentos socioculturais, da 1 Mestre em Direito. Professor universitário. Advogado. E-mail: aderlancrespo@gmail.com 2 Pós-Doutor em Direito - USAL, Espanha. PhD em Direito - UERJ. Mestre em Relações Internacionais - PUC/RJ. Bacharel em Direito - UFF. Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais - UFF. Professor Titular do Ibmec, Fiurj e CP2. Pesquisador do LEPDESP (IESP-UERJ/ESG). Autor/organizador, dentre outros, de: Estado, Globalização e Integração Regional (2003); Direito Internacional, petróleo e desenvolvimento (2011); Curso de Ciência Política (2013); Escolas e Teorias de Relações Internacionais (2021); Retratos da Pandemia (2021); O Rio sob Intervenção Federal (2022). E-mail: lier.piresferreira@gmail.com 549 HOMERO:O PROÊMIO DA ILÍADA E DA ODISSEIA COMO EXEGESE CONCISA DA GUERRA DE TRÓIA E DO RETORNO DE ODISSEU Jean Muniz Biazotto1 Ana Flávia Costa Eccard2 Resumo: O atual artigo busca investigar os proêmios da Ilíada e da Odisseia de Homero, considerando-os as respectivas epopeias e examinando a exegese dos eventos da Guerra de Tróia e do retorno de Odisseu. Os objetivos do trabalho são: explorar a significância dos proêmios da Ilíada e da Odisseia como introduções e das epopeias, investigar a importância dos temas da cólera de Aquiles e das aventuras de Odisseu no contexto das guerras e mitologia grega; discutir a autoria e tradição oral das obras de Homero, avaliando sua transmissão e preservação através dos séculos. O estudo justifica-se pela relevância das epopeias homéricas na literatura ocidental e pela necessidade de compreender como os proêmios encapsulam os temas centrais das obras. A análise dos proêmios também ilumina as técnicas narrativas e a riqueza poética de Homero, contribuindo para uma apreciação mais profunda da literatura épica. A metodologia adotada inclui: revisão teórica e bibliográfica das obras de Homero e estudos críticos relevantes; análise textual dos proêmios da Ilíada e da Odisseia, utilizando técnicas de exegese literária; discussão dos contextos históricos e culturais das epopeias, com referencial metodológico de Rodrigues e Gonçalves (2014) e com base nas obras de autores como Donaldo 1 Psicanalista. Psicólogo. Mestre em Práticas Transculturais (UNIFACVEST), Professor do Curso de Psicologia da UNIFACVEST. 2 Professora permanente do PPGD Unifacvest, graduada em direito e filosofia, mestre em Filosofia pela PUC-RJ, Doutora em Direito pelo PPGD UVA. 550 Schuler e Jacques Lacan, que fornecem fundamentos teóricos sobre a tradição oral e a memória cultural. Tem-se ainda como principais autores para Referencial Teórico: Homero; Donaldo Schuler, outros autores mencionados incluemPaul Mazon, Walter W. Merry, e tradutores e comentaristas como Carlos Alberto Nunes e Frederico Lourenço. Palavras-chave: Proêmios Homéricos; Ilíada; Odisseia; tradição oral; exegese Literária. Abstract: This article seeks to investigate the proems of Homer's Iliad and Odyssey, considering them as respective epics and examining the exegesis of the events of the Trojan War and the return of Odysseus. The objectives of the work are: to explore the significance of the proems of the Iliad and the Odyssey as introductions and epics, to investigate the importance of the themes of Achilles' anger and Odysseus's adventures in the context of wars and Greek mythology; discuss the authorship and oral tradition of Homer's works, evaluating their transmission and preservation through the centuries. The study is justified by the relevance of Homeric epics in literature and the need to understand how the proems encapsulate the central themes of the works. Analysis of the proems also illuminates Homer's narrative techniques and poetic richness, contributing to a deeper appreciation of epic literature. The methodology adopted includes: theoretical and bibliographic review of Homer's works and relevant critical studies; textual analysis of the proems of the Iliad and the Odyssey, using literary exegesis techniques; discussion of the historical and cultural contexts of epics, with methodological references from Rodrigues and Gonçalves (2014) and based on the works of authors such as Donaldo Schuler and Jacques Lacan, who provide theoretical foundations on oral tradition and cultural memory. The main authors for the Theoretical Reference are also: Homer; Donaldo Schuler, other recommended authors include Paul Mazon, 551 Walter W. Merry, and translators and commentators such as Carlos Alberto Nunes and Frederico Lourenço. Keywords: Homeric Proems; Iliad; Odyssey; Oral Tradition; Literary Exegesis. INTRODUÇÃO: DA QUESTÃO HOMÉRICA. O MOTIVO DA RETIRADA DE AQUILES DA GUERRA Segundo o Dr. Donaldo Schuler3, foi no final do século XVIII que a existência de Homero foi colocada em dúvida, primeiramente por Friedrich August Wolf, pois sendo provável que as epopeias homéricas apareceram de forma oral em torno do século IX. Neste período não havia escrita no Ocidente, logo, sendo impossível a memorização e retenção por uma só pessoa. No final do século XIX já não se reconhecia a autoria de Homero. No entanto, apesar das dificuldades, a ideia de uma autoria múltipla não prevaleceu, tendo em vista que outros povos com tradições épicas tinham poemas mais longos e que de igual modo, eram povos sem a escrita. Logo, a filologia e a arqueologia passaram a reconhecer a tradição homérica uma certa unidade e originalidade. Para SCHÜLER, existe uma provável conciliação, havendo então uma tradição épica oral que foi competentemente reelaborada por um autor que poderia ou não ter se chamado Homero, e que se tal autor se ele compôs ambas as epopeias permanece uma questão não solucionável4, sendo ambas epopeias originadas da guerra de Troia, aedos iam de cidade a cidade cantando e celebrando ao som de uma lira que 3 SCHÜLER, Donaldo. Literatura Grega: Irradiações. Cotia-SP: Ateliê Editorial, 2018, pp. 18-30. 4 Ibidem, pp. 19. 552 lira e nada compunham. Originalmente, a Ilíada e a Odisseia não eram divididas, como lemos hoje, em 24 vinte e quatro cantos, sendo tal divisão elaborado pela escola de Alexandria, baseando-se no número de letras do alfabeto5. É Jacques Lacan6 que formulará a hipótese de, não existindo gravador na época, diríamos que o que ali existia era uma gravação no cérebro, pois a escrita ainda não tinha assumido função dominante, sendo o papel raro e os livros dificílimos, era de suma importância ter uma boa memória. Logo, a memória é função primordial para tudo o que temos como testemunho e transmissão da sabedoria oral. Que memória era preciso ter naquele tempo7! Toda civilização oral há de exigir dos seus habitantes um desenvolvimento e implementação de técnicas de memória, uma mnemotécnica. Naturalmente, as confrarias tinham seus grupos organizados para treinamento, catalogando e forjando a proeza do aedo. Através da inspiração das musas e da sua mãe, a memória, o aedo evoca acontecimentos passados tendo a prerrogativa de entrar em contato com o metafísico, conferindo-lhe poder religioso, dando material para cantar e inspirar os ouvintes. Se o poeta necessita celebrar os deuses imortais e comemorar as obras de grandes valentes, como temos bem documentado na Ilíada, onde os feitos de um guerreiro ou de vários é rememorado. A vida do guerreiro8 está voltada para essa glória cantada, para essa boa memória. Na Ilíada, como exemplo, lemos no canto XX9, antes da batalha com Aquiles, 5 Ibidem, pp. 20. 6 LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro. 2ª ed. Zahar, 2010, pp. 41. 7 DETIENNE, Marcel. Mestres da verdade na Grécia arcaica: como abertura de volta à boca da verdade. Editora WMF Martins Fontes, São Paulo: 2013, pp. 14, 8 Ibidem, pp. 22. 9 HOMERO. Ilíada. Trad. Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015, 25ª ed. Canto I, linha 1-11. Utilizemos está tradução em nosso artigo como texto padrão e cotejamos as várias traduções publicadas em nossa língua, bem 553 Heitor diz sobre sua honra que: Que, pelo menos, obscuro não venha a morrer, inativo; hei de fazer algo digno, que chegue ao porvir, exaltado. Todos lemos e relemos a Ilíada e sabemos que o que nela é cantado e narrado são possivelmente os últimos cinquenta e um dias da guerra de Tróia. Aquiles, o mais veloz e corajoso soldado, está enraivecido contra o chefe do exército Agamêmnon, como percorremos a construção da narrativa homérica abaixo. 1. DESENVOLVIMENTO: O PROÊMIO DA ILÍADA COMO EXEGESE DA OBRA. O MOTIVO DA RETIRADA DE AQUILES DA GUERRA DE TRÓIA. CONTEXTO Figura 1: Proêmio da Ilíada. Referência: MAZON, Paul. (Homère Iliade. Boulevard Raspail, 1961. Tome I (Chants I-IV). como a dos Srs. Frederico Lourenço, Manuel Odorico Mendes, Trajano Vieira, Christian Werner e André Malta. 554 Canta-me a cólera ó deusa! funesta de Aquiles Pelida, Causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta E de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos E esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados E como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio Desde o princípio em que os dois, em discórdia, ficaram cindido O de Atreu filho, senhor de guerreiros, e de Aquiles divino Qual, dentre os deuses eternos, foi a causa de que eles brigassem O que de Zeus e de Leto nasceu, que, com o rei agastado, peste lançou destruidora no exército. O povo morria, por ter o Atrida Agamémnone a Crises, primeiro, ultrajado, o sacerdote10. A Ilíada narra a , a raiva, o ressentimento, a ira de Aquiles, filho de Peleu e Tétis que será a causa que levará os Arquivos a sofrerem trabalhos sem conta. O grande e valente guerreiro que se retirou da guerra enraivecido contra o chefe supremo do exército, Agamémonone, que lhe roubou uma escrava. Agamémonone, bem sabemos, recebe a visita do sacerdote Crises, que vem lhe pedir a filha em troca de um resgate. Agamémonone rejeita, não libertando a filha de Crises bem como ameaçando-o, pois, as insígnias do deus e o cetro de nada valem11. O sacerdote, clamando a Apolo rogando que as flechas e setas atinjam o exército. Assim Febo Apolo, indignado, desce do Olimpo, levando seu arco e flecha, começa a atirar por nove dias contra o exército, 10 Ibidem, Canto I, linha 1-11. 11 Ibidem, linha 28. 555 que vai sendo dizimado, levando a Aquiles para convocar o povo para a ágora, a fim de conter a peste. Pede que se consulte um profeta, um sacerdote ou vidente que seja intérprete de sonhos e então, que indique o motivo da cólera e indignação de Apolo. Calcante, também conhecido por Calcas, filho de Testor anuncia-se como vidente, conhecedor tanto do passado como do futuro, que anuncia a Aquiles a mensagem de Zeus, não sem antes garantir a proteção de Aquiles, pois temia a cólera de Agamémonone,que continuamente revolve no peito o rancor12 mantendo-se ressentido até cumprir o ódio que maquina em seu coração. Com coragem, anuncia ao vidente que Agamémonone ofendeu Apolo ao rejeitar seu sacerdote Crise, ao negar e não receber o resgate oferecido pela filha. Agamémonone furioso e irritado, tendo em seu coração a negra raiva, anuncia que. Calcas é um profeta que só anuncia males, nunca anunciando uma mensagem benéfica, prevendo sempre desgraças. A questão é que o chefe supremo deseja levar a bela filha de Crises13 para residir junto a ele e Clitemnestra. No entanto, aceita restituí-la, desde que, um novo prêmio seja-lhe ofertado. Aquiles propõe que tal prêmio seja dado após a tomada de Tróia. Mas Agamémonone rejeita e não cede aos subterfúgios e manhas discursivas de Aquiles, acusando-o de sempre encontrar prazer nas contendas, combates e lutas14, pedindo então a escrava de Aquiles, Briseide, ameaçando-o com um ato de força e prova de superioridade, indo buscá-la na própria tenda de Aquiles. Aquiles, enfurecido, com o coração a flutuar, indeciso15 entre puxar ou não ali mesmo a espada cortante, vê baixar do céu Palas Atena, que ordenada por Hera, agarra-lhe os cabelos, pedindo-lhe que refreie a sua cólera, deixando a espada em 12 Ibidem, linha 83. 13 Ibidem, linha 112. 14 Ibidem, linha 178. 15 Ibidem, linha 189. 556 repouso16. Aquiles segue a recomendação de Palas Atena, dirigindo-se a Agamémnone acusando-o de bêbado, tendo a coragem de um veado, nunca envergando a armadura no combate17, sendo um devorador do povo, não passando de um imprestável. No meio desta contenda entre Aquiles e Agamémnone, levanta-se o experimentado rei Nestor, orador delicioso18, cujas palavras eram doce como o mel, clama obediência de ambas as partes, pedindo o cessar do furor. Agamémnone responde aos pedidos de Nestor dizendo que Aquiles sempre quer sobrepor-se a todos, arrogando-se a gerência de tudo, ditando leis inconste19. Aquiles, em resposta a Agamémnone, nega-se a dobrar-se ao capricho das palavras ditatoriais de Agamémnone, anunciando que seu mando sobre ele cessou, negando qualquer tipo de obediência, anunciando que não irá mais lutar20. Agamémnone envia Criseide para junto do seu pai Crises, juntamente com uma hecatombe, oferecendo a Febo Apolo sacrifícios religiosos de cabras e touros. De igual modo, ordena que busquem Briseide na tenda de Aquiles, que a entrega. Aquiles se afasta de seus companheiros e chora, pedindo a sua mãe Tétis que o aconselhe de sua dor. Sua diletíssima mãe sabe muito bem que, quando Tebas foi saqueada21, Criseide foi o prêmio de Agamémnone, enquanto Briseide era o seu espólio de guerra. Tétis chora ao ouvir o relato doloroso de seu filho Aquiles, tendo uma vida rica de dores com um destino infeliz22. Instrui-o a conservar a cólera e afastar-se da guerra. De outro modo, Odisseu chega até o local onde estava o sacerdote Crises e entregaram-lhe a filha. O sacerdote pede a Apolo que retire a peste, que após uma hecatombe, alegra-se e retira a peste que afligiu o exército. Zeus, a pedido de Tétis, deseja honrar 16 Ibidem, linha 210. 17 Ibidem, linha 230. 18 Ibidem, linha 248. 19 Ibidem, linha 287-289. 20 Ibidem, linha 297-299. 21 Ibidem, linha 366. 22 Ibidem, linha 418. 557 para Agamémnone23 na figura do velho Nestor, anunciando-lhe que este era o momento oportuno para a guerra, que lhe caía muito bem, tendo em vista seu desejo de tomar Tróia. Saltando do leito, vestindo logo sua túnica fina24 e saí com seu cetro herdado do pai, convocando o exército para a batalha. Em balbúrdia, como que enxames copiosos de abelhas25 saem da praça , posteriormente o tumulto ser aplacado sendo que nove anos já foram percorridos na guerra26 frustrada. Agamémnone acredita que será possível vencer sem Aquiles. No entanto, engana-se profundamente, pois os troianos não só resistem como avançam em direção às naus dos Aqueus, levando-o Pátroclo a decidir e desejar defender os Aqueus e, do mesmo modo, defender-se de uma possibilidade de não retornar. Rogando a Aquiles, este o libera para o combate e lhe concede sua armadura e esta será ao nosso ver a grande reviravolta, pois Heitor enfrentará Pátroclo imaginando estar guerreando com Aquiles. Nesta batalha, Heitor vence e descobre que não tinha matado Aquiles e sim o Pátroclo. A morte de Pátroclo irá abalar profundamente a Aquiles, que voltará ao campo de guerra, vingará o Pátroclo e matará Heitor, arrastando seu corpo por nove dias seguidos em volta da tumba onde foram guardadas as cinzas de Pátroclo. O rei Príamo irá até a barraca de Aquiles para resgatar o corpo do filho e realizar as devidas exéquias ao príncipe guerreiro. Assim termina a Ilíada, entre dor e lágrimas, funerais e atividades atléticas. Uma guerra que tem sua origem no casamento de Tétis e Peleu, onde Iris revoltosa por não ser convidada lançou o seu pomo Hera, Atena e Afrodite guerreiam para ver que é a mais bela. Zeus, 23 Ibidem, Canto II, linha 6. 24 Ibidem, linha 43. 25 Ibidem, linha 86. 26 Ibidem, linha 134. 558 juiz imparcial não escolhe nem a esposa nem a filha, muito menos a bela Afrodite, relegando a um mortal tal decisão. Esse mortal é Páris, filho do rei Príamo, que das três propostas apresentadas Hera apresenta-lhe a proposta de ser um Rei sobre toda Ásia, Atena promete-lhe sabedoria na guerra e Afrodite propõe-lhe ter em seus braços a mulher mais linda do mundo, Helena escolhe por Afrodite. Esta organiza sua viagem a Esparta onde é recebido por Menelau, rei de Esparta e esposo de Helena. Ao viajar para cuidar de uma cerimônia fúnebre, Páris irá raptar (?) ou fugir com Helena para Tróia. Eis um dos motivos de uma guerra de dez anos: a beleza de Helena. Esta guerra narrada com uma maestria única contar-nos-á algumas poucas semanas destes dez anos, com um tema específico a fúria de Aquiles e seu afastamento da guerra, a morte de Pátroclo e o retorno de Aquiles para o campo de guerra. Toda esta arte de narrar foi recolhida por Homero por fragmentos27 que estão subordinados à fúria de Aquiles, contendo cenas de ação e descrições exaustivas, sendo Homero um construtor de variedades linguísticas onde a honra ferida e a dor de Menelau pelo rapto (?)de Helena até a dor do rei Príamo ao perder seu filho Heitor morto na guerra. Entre lutos e conflitos, os deuses também guerreiam e são ridicularizados por Homero. Os deuses são ciumentos, favorecem ora os Aqueus ora os Troianos, ora vacilando a favor de um guerreiro contra outro, como é o caso da disputa entre Menelau e Páris, onde Páris vencia claramente a batalha, sendo Páris salvo por um truque de Afrodite. Fato é que a Ilíada irá terminar com os funerais de Heitor, não sabendo o leitor o seu desfecho. Com uma arte única de narrar, Homero fará atravessarmos toda a guerra, lendo linha a linha, construindo um universo épico, resultado da colheita de 27 SCHÜLER, opere citato, pp. 22. 559 fragmentos, construindo a unidade do texto que temos em mãos. Após dez anos de guerra, findada a batalha, e hora de retornar. Mas é na Odisseia, como por exemplo, no canto VIII, a partir do canto inspirado pelas musas que o aedo Demódoco28 invoca e que com sua harpa começa a cantar o feito venturoso dos Aqueus. Demódoco, inspirado pelos deuses, utilizando-se de uma belíssima frase grega 29 e vai nos narrar estratégia e ajuda de Palas Atena, que inspirando Odisseu múltiplo-astucioso fazendo colocar para dentro de Troia o cavalo cheio de heróis destemidos, que os muros sagrados saquearam. Vejamos aqui exatamente a palavra grega e o que nos diz este verso contextualizando o canto supramencionado? É que dentro do cavalo que derrubou os famosos muros de Tróia estava uma grande joia e um grande tesouro. Se é um ornamento, um adorno ou uma imagem dos deuses, é no bojo do cavalo que ia um grande tesouro é um grande ornamento dos Aqueus e que será a grande derrota dos troianos. O que era tal tesouro, tal objeto valioso dentro do cavalo de madeira? Os melhores guerreiros, dentre eles Odisseu e Aquiles, estavam escondidos e sentadoslei nenhuma e fora criado para ser um monstro medonho. 41 Ibidem, linha 398. 565 Encontram a caverna muito bem abastecida, com cestos cheios de queijos, os currais apinhados de cordeiros e cabras e muito vinho. Ao chegar, o Ciclope fecha a porta da caverna com uma enorme pedra. Odisseu e seus amigos estão lá dentro. Avistando-os, o Ciclope lhes pergunta: Quem sois? Odisseu explica sua história pós-guerra de Tróia. O Ciclope, com coração impiedoso, afirma que ele é um tolo ou imbecil por imaginar que teria ali alguma lei de hospitalidade. Com crueldade, estende a mão e começa a pegar os companheiros de Odisseu, lançando-os no chão, esquartejando-os. Quando o olhicurcular Ciclope se deitou, após encher o bucho de carne humana, comendo os amigos de Odisseu como um leão criado nas montanhas, Odisseu e seus companheiros começaram a implorar a Zeus e a chorar. Odisseu pensou em matar o Ciclope com sua espada, mas com astúcia, lembrou-se que não conseguiriam sair da caverna devido à enorme pedra que estava sendo utilizada como uma porta. Odisseu precisava revolver no fundo do coração uma maneira de se vingar e sair da caverna com seus companheiros vivos. Pegando um grande tronco de oliveira verde, cortou para ser usado e fez um alisamento, endurecendo a ponta com a brasa que chispava. A tática é fincar no tronco no olho do ciclópio. Após embebedar o Ciclope com o vinho que trazia consigo, Odisseu conta seu nome, que é falso e ao mesmo tempo pode ser verdadeiro: , que podemos traduzir como: ninguém. O verso grego é: : Ninguém , que poderíamos traduzir parafraseando livremente como: Nulisseu, aquele que é o ninguém, é esse o meu nome. Nulisseu, o nada-ninguém-astuto-que-é-muitos é como me chamaram. Ninguém-Nulisseu-Nulo [ ] é como eu me chamo. Schuler42, ao nosso ver, traduziu de maneira belíssima, a palavra por Nulisseu ou Ninguém e que faz ao nosso ver, 42 HOMERO, Odisséia, v. 2. Regresso. Tradução de Donaldo Schuler. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008, linha 365, p. 135. 566 todo sentido dentro da Odisséia. Se o astucioso Odisseu é o Nulisseu, ele é nulo, nenhum, mas também é muito. Mas, o Ciclope avisa-lhe, com impiedade no coração, afirma: Ninguém [Eu] [último] [comerei, devorarei, consumirei], ou seja, eu, o Ciclope, devorarei o Ninguém, aquele que é nulo, por último. Que promessa intimidadora, preclaro leitor! Odisseu ve sua tripulação sendo devorada e na expectativa de ser o último jantar do Polifemo. Quando o Polifemo já estava bêbado, vomitando goela afora, Odisseu então colocou o tronco no fogo para que ficasse quente. Assim, quando o tronco de oliveira iria pegar fogo, juntamente com outros companheiros corajosos, Odisseu, aquele que é chamado de um Nulo-Ninguém-muitos, o Nulisseu, enterrou o tronco no olho do Ciclope, cegando-o. O Ciclope gritava desesperadamente pedindo ajuda dos outros Ciclopes, que ouvindo, vieram perguntar: Que se passa, Polifemo? Porque gritas tirando nosso sono? O Polifemo responde: : , , ou seja, parafraseando, O , o Nulisseu, o Ninguém, aquele que é o Nulo me fere e com um truque ou estratagema procurando me matar com astúcia, e não com força [ é ato de violência]. Os outros Ciclopes respondem: Se Ninguém [ ] que é nulo te agride, se na verdade ninguém [ ] está te fazendo mal, o que te acontece é uma doença que vem de Zeus. Rogue a seu pai, Posêidon, o deus do mar. Odisseu, rindo em seu coração, vence o - - como bem observou Malta43. A explicação fica em torno da repetição das palavras gregas [ninguém]. Ser astuto para Odisseu é ser um ninguém, um , mas também um . Para Polifemo, Odisseu é e para os amigos do Polifemo Odisseu é , 43 MALTA, André. A astúcia de ninguém: ser e não ser na Odisseia. Belo Horizonte: Impressões de Minas, 2018, p 276, obra já citada. 567 pois é exatamente essa a palavra que eles usam para perguntar ao Ciclope quem de fato tinha o ferido. Logo, a conclusão dos amigos do Polifemo é racional: Se a astúcia [ ] de ninguém [ ] é que te oprime, que te agride, estando-o sozinho dentro da caverna, essa sua doença só pode vir de Zeus e não é possível evitá-la facilmente. Uma astúcia é o que conduz a vida de Odisseu, que lhe conduz a ser um e ao mesmo tempo , um ser ninguém, um nulo, mas que nesse sentido, ser ninguém é ser astuto, e portanto, alguém. Em grego, na transliteração, há um belo jogo de palavras que elucidam essas linhas da Odisséia, sendo o uso da palavra que foneticamente [mêtis / mé tis] é muito, muito parecida quando ouvida. Exatamente por isso, os amigos do Polifemo ferido dizem que aquele que lhe feriu por astúcia é um mé tis, um nada, um ninguém. Fica muito claro tudo isto quando lemos a tradução feita por Werner:44 gritares Através da noite imortal e tirar-nos do sono? Por certo ninguém (me tis) quer teus rebanhos contra tua vontade! Por certo ninguém (me tis) tenta matar-te com A eles, então, do antro falou o poderoso Polifemo: Eles, em resposta, falavam as palavras plumadas: sozinho, violenta, 44 WERNER, Christian. Memórias da guerra de Troia. A Performance do passado épico na Odisseia de Homero. Annablume editora. São Paulo, 2018, p. 139. 568 De modo algum, é possível evitar a doença de Zeus; Ferido e cambaleante, o Ciclope tira a pedra que era como uma porta da caverna, sentando no buraco de entrada da caverna e impedindo que algum fugisse. Novamente, com astúcia, com -Nulisseu descobre uma maneira de sair intacto da caverna. Havendo na caverna muitos carneiros com muita lã, os companheiros de Odisseu foram amarrados com vime torcido e a cada três animais amarrados, oculto ia um homem da embarcação de Odisseu que eram amarrados nos carneiros. Quando os animais iam saindo da caverna, o Polifemo ferido ia apalpando-os e conferindo se quem estava saindo eram de fato os carneiros. Não sabia ele que pela astúcia, os homens iam amarrados aos animais. Quanto a Odisseu, ele escapa da caverna agarrado a um carneiro maior, grudando-se no seu ventre. Alegrando-se todos, entraram nas naus e seguiram viagem. distância, com palavras provocadoras gritou ao Ciclope: Se algum mortal perguntar quem foi que vergonhosamente te cegou o olho, diga que o seu nome é não é Nulisseu, um ninguém, mas que se chama [Odisseu] o , o saqueador das cidades, o arrasa-urbes, o o filho de Laertes, que tem sua residência e palácio em Ítaca e com esse excesso, com essa desmedida, com todo esse orgulho, Odisseu verá que tal ato receberá a devida punição e custará muitíssimo a ele e seus companheiros de viagem, tendo em vista que o Polifemo pedira ao seu pai, o Sacudidor da Terra, rogando a ele que não permita um retorno de Odisseu para Ítaca, ou, no caso de retornar, que sua viagem de retorno seja desastrosa e que Odisseu encontre horror no lar. A prece foi ouvida, e o retorno de Odisseu foi realizada, mas com muito sofrimento. São dezenas de aventuras que poderíamos narrar, mas por brevidade, resumindo ao máximo, 569 vemos Odisseu e seu amigos chegando na ilha de Eólia, onde vivia Éolo, numa espécie de ilha que flutuava. Durante um mês, Odisseu e seus companheiros permaneceram sob a tutela e sob as leis da hospitalidade, com tudo do bom e do melhor, diríamos. Éolo, ao receber o pedido de ajuda de Odisseu para retornar, deu-lhe um saco feito da pele de um boi, esfolado por ele, três de nove anos, e nesse saco acorrentou o curso dos ventos. Sendo o guardião dos ventos, Éolo atou os caminhos dos ventos turbulentos, de modo que todos os ventos contrários não escapassem. Depois de nove dias de viagem, avistando a pátria desejada, chegando tão perto que olhavam os homens acendendo fogueiras, estando Odisseu extenuado e muito cansado, dormiu um delicioso sono. Mas os seus companheiros, tramando e suspeitando que Odisseu escondia ouro e prata dentro do saco. Decidiram abrir e para fora do saco precipitaram os ventos, rebelando-se, vindo então uma poderosa tempestade. O choro e o desespero abatem-se sobre todos os homens da nau, e Odisseu medita se deve ou não se lançar no mar e morrer afogado, tamanha dor abatia-se sobre o seu coração.Continuando a viver e a navegar, pois é as duas coisas são necessárias, chegam Odisseu e seus companheiros na ilha de Eeia, no de palácio de Circe [ ], terrível deusa de fala humana, mas de belas tranças. O palácio era num bosque, contendo ao seu redor leões monteses e lobos que haviam sido encantados por Circe com um [drogas, remédio ou medicamento, as vezes utilizando como um feitiço ou encantamento, às vezes como veneno] que por ela utilizado de maneira malévola e poderosa. Os animais não atacaram os homens de Odisseu que chegaram no palácio, mas se colocaram de pé e deram boas-vindas a Euríloco e os vinte homens que com ele foram designados por Odisseu. Circe, que estava cantando belas melodias enquanto praticava sua arte de tecelagem, abriu a porta e convidou-os a entrar. Euríloco foi o único que não entrou, desconfiando e suspeitando de algum engodo. Circe, preparou-lhes então uma 570 mistura de queijos, farinha de cevada, mel fulvo, juntando com um uma droga terrível, que ao ser ingerida, faria com que os homens esquecessem apagando de sua memória a lembrança de sua pátria. Após os homens terem bebido o mingau, tocou-lhes Circe com sua varinha e os encurralou numa pocilga. Eles tinham cabeça, voz, cerdas e aspectos de porcos, mas o seu espírito, não sofreu alteração, permanecendo inteligentes com eram. Circe, vendo-os chorar, passou a lhes dar bolotas, azinhas e cornizolos, que ela utilizava para alimentar os porcos. Euríloco, vendo tudo isto, volta correndo ao navio onde estava Odisseu e o restante dos companheiros. As palavras fugiam-lhe do coração, tendo um mar de lágrimas nos olhos, gemendo, conta-lhes tudo. Odisseu decide ir livrar os amigos da poderosa Circe que tinha muitas poções mágicas e maléficas, e no caminho até ela encontra-se com Hermes que, oferecendo ajuda e libertação das desgraças, oferecendo-lhe uma droga potente, um outro tipo de . Hermes avisa-o que Circe irá preparar uma porção de comida e porá nela um venenoso , porém, esse não o enfeitiçara e não produzirá nenhum efeito nele. Hermes então arranca uma raiz negra da terra, que será um - de Circe de uma flor que era como leite, utilizada pelos deuses, dificílima de ser arrancada e móli .. Chegando no palácio, Odisseu é recebido por Circe. Ela, preparando uma porção numa taça dourada lhe oferece, tendo antes misturado o seu perverso . Odisseu bebeu, mas não foi enfeitiçado, conforme prescrição feita por Hermes. Ela bateu nele com a sua varinha mágica ordenando que Odisseu vá para a pocilga. Ele, sem ter nenhum efeito da droga perversa, puxa sua espada e lança-se contra Circe, como se fosse matá-la. Ela, em desespero, sabendo que homem algum tinha resistido ao seu veneno, observando que a mente de Odisseu não pode ser enfeitiçada, descobre ser ele Odisseu, o astuto. Convidando-o para ir pra cama, desejando uma união de amor e 571 confiança, Odisseu aceita, logicamente. Mas quer um juramento de Circe: que ela solte seus companheiros. E assim ela o faz, abrindo a porta da pocilga, conduzindo-os para fora, estando os companheiros de Odisseu como porcos de nove anos de idade. Ela então ungiu cada um com um outro , uma agora uma droga benéfica, caindo então as cerdas, transformando eles novamente em homens, mais novos do que antes. Odisseu clama a ajuda de Circe, pois quer de todas as maneiras retornar para sua pátria, que retornar para sua Penélope. Ela, vendo o desespero deles e de seus compatriotas, ensina-lhe o único caminho possível. Descendo a morada de Hades, consulta-se com o tebano profeta Tirésias, o cego adivinho mais famoso do mundo. Odisseu fará a sua Katábasis, sua visita ao mundo dos mortos. Se o prezado leitor me acompanhou até aqui, descemos juntos com Odisseu ao Hades. É no Canto XI que ouvimos Homero narrar que Odisseu, ao encontrar o vate Tirésias, recebe deste a seguinte pergunta: O que vieste fazer aqui, ardiloso Odisseu, filho de Laertes? A resposta é simples: Odisseu quer saber de Tirésias como regressar, como ter seu -tebano por excelência, anuncia o motivo da sua Infelicidade: O Abala- Terra fá-lo-á difícil seu regresso. O deus tem uma cólera acumulada, um fel depositado no coração colérico devido a furado o olho e então cegado seu filho, o Ciclope Polifemo. Mas Tirésias anuncia que ele vai retornar, embora enfrentando muitos males. Odisseu e seus companheiros voltam a sua nau, retornam ao mar, cheios de esperança de poder voltar. No mar, prezado leitor, enfrentam imensos desafios. Retornar para o lugar onde imaginamos estar a Felicidade é algo complicadíssimo, e não acontece sem prejuízos e dores. Ao enfrentar as Sereias, todos os homens ficam enfeitiçados quando elas se aproximam. A astúcia de Odisseu é não ouvir o seu límpido canto, tampando com a cera dulcimel e fixando nos ouvidos dos companheiros para não caírem nessa armadilha sonora. Odisseu, 572 astuto, quer ouvir sozinho o canto, não quer que a cera o proteja, e assim, ped uma mulher- corda, corrente, laço. Faz todo sentido aqui a raiz etimológica, sendo que Odisseu vencerá as Sereias, que são estas que acorrentam os homens com os seus laços sendo amarrado com um laço, um nó duplo, no mastro do navio, ereto de pés e mãos no mastro, e que o nó seja duplo. Assim, prazerosamente, poderá ele escutá-las. Garante Odisseu que os homens não lhe desenastrem em nenhuma hipótese. Assim acontece, prezado leitor! Navegando, encontram-se com as Sereias. Os companheiros de Odisseu estão com a cera quente nos ouvidos, evitando ouvir a voz arrebatadora das Sereias. Odisseu é o único Odisseu enlouquece, pedindo aos companheiros que afrouxem as cordas que o amarravam. Os companheiros arrocham e dobram o nó que lhe prendia. Odisseu e seus companheiros seguem rumo ao seu retorno para Ítaca. Muitas dolorosas experiências ainda iriam atravessar até chegar em Ítaca. Odisseu, com toda astúcia chegará em sua pátria e disfarçar-se-á de mendigo. Sua casa está tomada pelos pretendentes de Penélope, afinal, fazem vinte anos que Odisseu foi para Troia, e todos estão esperando a oportunidade de casar com ela. Como é de conhecimento de todos, Odisseu mata todos os 108 pretendentes de Penélope e volta para os braços de sua amada, retornando para aquela que é o seu objeto erótico. Essa Felicidade que encontramos na Odisseia é aquela em que o sujeito só pode obtê-la se estiver ajustado com quem é sua outra metade, sua parte primitiva, sua unidade. Essa Felicidade homérica, por assim dizer, é aquela que enfrenta do Ciclope até a Circe, passando pelo Hades até derrotar os pretendentes. Tudo isso pela sua Penélope. Essa Felicidade grega-mítica é aquela que anuncia todas as batalhas inerentes que serão travadas 573 para consegui-la. Ora se passando por ninguém, ora cometendo excessos, hora consultando Tirésias, ora ouvindo as Sereias amarrado no mastro do navio, ora namorando e entregando-se aos prazeres eróticos com Circe para ver se livra os companheiros de um feitiço que lhes transformava em porcos, essa Felicidade de Odisseu é contentamento astuto, sábio, inteligente, culto. Ora, se lemos na Odisseia que Odisseu ficou sete anos na ilha da deusa Calipso, com tudo o que há de melhor na terra, porém, vivendo uma Infelicidade sem fim, chorando todos os dias. Antes de sair, Calypso fez todas as promessas possíveis, como exemplo, transformá-lo em um deus, imortal, belo eternamente. Mas Odisseu quer a felicidade mítica de estar em Ítaca, harmonizado e unido com a sua outra parte. Odisseu quer retornar ao primitivo, ao seu lugar de origem, antes da guerra de Tróia, mesmo sabendo que não vai ser imortal, mesmo sabendo que não estará numa ilha cheia de ninfas, mesmo assim, Odisseu quer retornar, e no dizer de Aristófanes, antes do corte efetuado por Zeus. A felicidade, para Odisseu, só pode ser conseguida, nesse sentido, se abandonada as propostas de imortalidade, quando não desejar-se-ia tê-la em um outro lugar, eterno, infinito, mas recebendo a finitude, sabendo que o gozo do retorno ao objeto erótico é mais valioso. Como escreveu Kaváfis45, Quandopartires em viagem para Ítaca faz votos para que seja longo o caminho, pleno de aventuras, pleno de conhecimentos. Os Lestrigões e os Ciclopes, o feroz Poseidon, não os temas, tais seres em teu caminho jamais encontrarás, se teu pensamento é elevado, se rara emoção aflora teu espírito e teu corpo. Os Lestrigões e os Ciclopes, o irascível Poseidon, não os encontrarás, 45 KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas. Tradução de Isis Borges B. da Fonseca. São Paulo, Odysseus, 2006, p. 13. 574 se não os levas em tua alma, se tua alma não os ergue diante de ti. Faz votos de que seja longo o caminho. Que numerosas sejam as manhãs estivais, nas quais, com que prazer, com que alegria, entrarás em portos vistos pela primeira vez; para em mercados fenícios e adquire as belas mercadorias, nácares e corais, âmbares e ébanos e perfumes voluptuosos de toda espécie, e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes; vai a numerosas cidades egípcias, aprende, aprende sem cessar dos instruídos. Guarda sempre Ítaca em teu pensamento. É teu destino aí chegar. Mas não apresses absolutamente tua viagem. É melhor que dure muitos anos e que, já velho, ancores na ilha, rico com tudo que ganhaste no caminho, sem esperar que Ítaca te dê riqueza. Ítaca deu-te a bela viagem. Sem ela não te porias a caminho. Nada mais tem a dar-te. Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou. Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência, já deves ter compreendido o que significam as Ítacas. Essa felicidade de Odisseu é construída ao retornar para Ítaca duas décadas após a sua partida rumo à guerra de Tróia. Sabendo que a viagem de retorno durará uma década, foi essa mesma carregada de conhecimento e sabedoria. Enfrentar-se-á aos Ciclopes? Quem sabe!? Poseidon, o Abala-Terra lançará suas maldições? Talvez! De fato, fará e não fará diferença alguma, tendo em vista que essa felicidade é a do retorno e sua imaginação e emoção não estará em outro lugar, a não ser o lugar desejado, que é Penélope. Q psique quando não 575 introjetado, internalizado e nem projetado, sabe-se que o caminho é longo, mas que a felicidade é por ele alcançada indo no meio do caminho para Ítaca, pois é seu destino chegar lá. Até Ítaca, muitos saberes foram adquiridos, muitas experiências e objetos perfumados foram comprados, e quando chegar em Ítaca, o sujeito compreendeu, segundo Homero, a felicidade da experiência enquanto retorno. 2. À GUISA DE CONCLUSÃO Se a Ilíada é construída a partir da do grandioso guerreiro denominado em Aquiles, filho de Peleu temos na Odisséia um proêmio que não demarca o nome do guerreiro, nomeando-o como o varão , esse Nuliseu-que-é-e-que-não-é. Contraste: Um guerreiro está brigando pela sua honra, outro, para voltar para sua casa e encontrar sua Penélope. Entre duas décadas, entre guerras e dores, Aquiles retorna para a guerra para vingar seu amor, o Pátroclo. É na relação amado- - uma amor que é formado pelo cuidado filial-educacional. Seu retorno será para a morte, coisa da qual ele não teme. Odisseu não quer morrer, quer chegar vivo em Ítaca, matar os pretendentes de Penélope e restabelecer-se como rei novamente. Nosso trabalho versou por tentar reconstruir e extrair do texto homérico sua multiplicidade e sua beleza em descrever a personalidade de dois grandes heróis míticos. REFERÊNCIAS BAILLY, A. Abrégé du dictionnaire Grec Français. New York: French and European Publication Inc., 1969. 576 BORDINI, M. da G. Tempo e narrativa. Veritas (Porto Alegre), [S. l.], v. 41, n. 162, p. 339 347, 1996. DOI: 10.15448/1984- 6746.1996.162.35837. Disponível em: https://revistaseletronicas. pucrs.br/ojs/index.php/veritas/article/view/35837. Acesso em: 19 jun. 2024. FARIA, E. Vocabulário Latino-Português. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 2001. Heinemann, 1928. HOMER. Iliad & Odissey - 2 vol. Translation A. T. Murray. Cambridge: The Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1995. _______. The Iliad. With an english translation by A.T. Murray. London: William. HOMÈRE. Iliade. Traduction P. Mazon. Paris: Les Belles Lettres, 1961. _________. Odyssée. Traduction V. Bérard. 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Como metodologia, utilizaremos o método do raciocínio sintético e silogístico para responder a problemática jurídica: A Lei da Alienação Parental é necessária à defesa das crianças e adolescentes ou o ECA é suficiente? Para tanto, utilizamos a pesquisa bibliográfica e legislativa. Como hipótese trazemos a suposição de que a alienação parental existe e deve ser combatida pelo(s) meio(s) mais eficaz(es). Como conclusão, temos que o aperfeiçoamento da Lei nº 12.318/2010 e a capacitação dos atores que integram as equipes multidisciplinares é, de forma imediata, medida adequada para minimizar os casos de alienação parental e dissipar a presença da síndrome de alienação parental, executando da melhor forma a 1 Doutora em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) com estágio pós- doutoral pela UnB. Docente do curso de Direito da Universidade Federal do Ceará. Líder 2 Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Docente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Membro do Grupo departires em viagem para Ítaca faz votos para que seja longo o caminho, pleno de aventuras, pleno de conhecimentos. Os Lestrigões e os Ciclopes, o feroz Poseidon, não os temas, tais seres em teu caminho jamais encontrarás, se teu pensamento é elevado, se rara emoção aflora teu espírito e teu corpo. Os Lestrigões e os Ciclopes, o irascível Poseidon, não os encontrarás, 45 KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas. Tradução de Isis Borges B. da Fonseca. São Paulo, Odysseus, 2006, p. 13. 574 se não os levas em tua alma, se tua alma não os ergue diante de ti. Faz votos de que seja longo o caminho. Que numerosas sejam as manhãs estivais, nas quais, com que prazer, com que alegria, entrarás em portos vistos pela primeira vez; para em mercados fenícios e adquire as belas mercadorias, nácares e corais, âmbares e ébanos e perfumes voluptuosos de toda espécie, e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes; vai a numerosas cidades egípcias, aprende, aprende sem cessar dos instruídos. Guarda sempre Ítaca em teu pensamento. É teu destino aí chegar. Mas não apresses absolutamente tua viagem. É melhor que dure muitos anos e que, já velho, ancores na ilha, rico com tudo que ganhaste no caminho, sem esperar que Ítaca te dê riqueza. Ítaca deu-te a bela viagem. Sem ela não te porias a caminho. Nada mais tem a dar-te. Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou. Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência, já deves ter compreendido o que significam as Ítacas. Essa felicidade de Odisseu é construída ao retornar para Ítaca duas décadas após a sua partida rumo à guerra de Tróia. Sabendo que a viagem de retorno durará uma década, foi essa mesma carregada de conhecimento e sabedoria. Enfrentar-se-á aos Ciclopes? Quem sabe!? Poseidon, o Abala-Terra lançará suas maldições? Talvez! De fato, fará e não fará diferença alguma, tendo em vista que essa felicidade é a do retorno e sua imaginação e emoção não estará em outro lugar, a não ser o lugar desejado, que é Penélope. Q psique quando não 575 introjetado, internalizado e nem projetado, sabe-se que o caminho é longo, mas que a felicidade é por ele alcançada indo no meio do caminho para Ítaca, pois é seu destino chegar lá. Até Ítaca, muitos saberes foram adquiridos, muitas experiências e objetos perfumados foram comprados, e quando chegar em Ítaca, o sujeito compreendeu, segundo Homero, a felicidade da experiência enquanto retorno. 2. À GUISA DE CONCLUSÃO Se a Ilíada é construída a partir da do grandioso guerreiro denominado em Aquiles, filho de Peleu temos na Odisséia um proêmio que não demarca o nome do guerreiro, nomeando-o como o varão , esse Nuliseu-que-é-e-que-não-é. Contraste: Um guerreiro está brigando pela sua honra, outro, para voltar para sua casa e encontrar sua Penélope. Entre duas décadas, entre guerras e dores, Aquiles retorna para a guerra para vingar seu amor, o Pátroclo. É na relação amado- - uma amor que é formado pelo cuidado filial-educacional. Seu retorno será para a morte, coisa da qual ele não teme. Odisseu não quer morrer, quer chegar vivo em Ítaca, matar os pretendentes de Penélope e restabelecer-se como rei novamente. Nosso trabalho versou por tentar reconstruir e extrair do texto homérico sua multiplicidade e sua beleza em descrever a personalidade de dois grandes heróis míticos. REFERÊNCIAS BAILLY, A. Abrégé du dictionnaire Grec Français. New York: French and European Publication Inc., 1969. 576 BORDINI, M. da G. Tempo e narrativa. Veritas (Porto Alegre), [S. l.], v. 41, n. 162, p. 339 347, 1996. DOI: 10.15448/1984- 6746.1996.162.35837. Disponível em: https://revistaseletronicas. pucrs.br/ojs/index.php/veritas/article/view/35837. Acesso em: 19 jun. 2024. FARIA, E. Vocabulário Latino-Português. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 2001. Heinemann, 1928. HOMER. Iliad & Odissey - 2 vol. Translation A. T. Murray. Cambridge: The Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1995. _______. The Iliad. With an english translation by A.T. Murray. London: William. HOMÈRE. Iliade. Traduction P. Mazon. Paris: Les Belles Lettres, 1961. _________. Odyssée. Traduction V. Bérard. Paris: Les Belles Lettres, 1946. HOMERO. Ilíada. Trad. Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015 _________. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2005. _________. Odisséia. Tradução de Frederico Lourenço. 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Acesso em: 10 jun. 2024. SCHÜLER, D. Literatura Grega: Irradiações. Cotia-SP: Ateliê Editorial, 2018. 579 LEI DA ALIENAÇÃO PARENTAL OU ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE PARA A DEFESA DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES ALIENADAS? PARENTAL ALIENATION LAW OR CHILD AND ADOLESCENT STATUTE FOR THE DEFENSE OF ALIENATED CHILDREN AND ADOLESCENTS? Jhéssica Luara Alves de Lima1 Lindocastro Nogueira de Morais2 Resumo: O presente artigo objetiva suscitar uma discussão entre a Lei da Alienação Parental e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), discutindo a necessidade da Lei. Como metodologia, utilizaremos o método do raciocínio sintético e silogístico para responder a problemática jurídica: A Lei da Alienação Parental é necessária à defesa das crianças e adolescentes ou o ECA é suficiente? Para tanto, utilizamos a pesquisa bibliográfica e legislativa. Como hipótese trazemos a suposição de que a alienação parental existe e deve ser combatida pelo(s) meio(s) mais eficaz(es). Como conclusão, temos que o aperfeiçoamento da Lei nº 12.318/2010 e a capacitação dos atores que integram as equipes multidisciplinares é, de forma imediata, medida adequada para minimizar os casos de alienação parental e dissipar a presença da síndrome de alienação parental, executando da melhor forma a 1 Doutora em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) com estágio pós- doutoral pela UnB. Docente do curso de Direito da Universidade Federal do Ceará. Líder 2 Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Docente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Membro do Grupo de