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CADERNOS DO CÁRCERE Caderno 13 Antonio Gramsci Tradução IGS - Brasil 1ª Edição CADERNOS DO CÁRCERE Caderno 13 Antonio Gramsci Tradução IGS - Brasil 1ª Edição International Gramsci Society - Brasil (IGS-Brasil) Gestão 2022-2024 Coordenação Nacional Conselho Nacional Douglas Christian Ferrari de Melo (UFES), Kátia Augusta Curado Pinheiro Cordeiro da Silva (UNB); Marcos Aurélio da Silva (UFSC), Marcos Francisco Martins (UFSCar), Marina Maciel Abreu (UFMA), Matheus Daltoé Assis (UFMS). Conselho Fiscal Helton Messina da Costa (UFF), Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos (Unesp/ Marília), Rodrigo Lima Ribeiro Gomes (UFF). Revisores Helton Messina da Costa, Marília Gabriella Machado e Rodrigo Lima Ribeiro Gomes Projeto e edição gráfica Caliel Machado Luna Diagramação Maria Margarida Machado Imagem de Capa Reprodução da capa do manuscrito original obtida através da biblioteca digital da Fondazione Gramsci — https://gramsci.digital-library.it/it/quaderni-dal-carcere Presidente Coordenação Científica Coordenação de Comunicação Secretária Tesouraria Anita Schlesener (UTP) Maria Margarida Machado (UFG) Marília Gabriella Machado (Unesp/Marília) Michelle Fernandes Lima (UEM) Percival Tavares da Silva (UFF) 24-205314 CDD-320.532 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Gramsci, Antonio, 1891-1937 Cadernos do cárcere [livro eletrônico] : caderno 13 (XXX) : 1932 - 1934 : notas sobre a política de Maquiavel / Antonio Gramsci ; tradução Anita Schlesener, Maria Socorro Militão. -- Rio de Janeiro : IGS-Brasil, 2024. PDF Título original: Quaderni del carcere. ISBN 978-65-83079-02-2 1. Filosofia 2. Gramsci, Antonio, 1891-1937 3. Marxismo 4. Política I. Título. Índices para catálogo sistemático: 1. Antonio Gramsci : Marxista revolucionário : Vida e obra 320.532 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129 ©1975, 2001 e 2007 Giulio Einaudi editore s.p.a., Torino Este material traduzido pela IGS–Brasil foi licenciado segundo a Creative Commons Atribuição-NãoComercial- SemDerivs 4.0 Internacional (Licença CC BY-NC-ND 4.0). Termos de uso completos disponíveis em: https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Não é permitida a publicação desta tradução em formato impresso sob quaisquer circunstâncias. Sua distribuição em qualquer formato deve ser sempre gratuita, seguindo os termos de licença. I APRESENTAÇÃO A International Gramsci Society – Brasil tem a grata satisfação de apresentar aos leitores dos escritos de Antonio Gramsci a tradu- ção brasileira da edição crítica dos Cadernos do Cárcere, organiza- da por Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, de Turim, em 1975 (Primeira Edição). A tradução aqui apresentada é resultado de um trabalho iniciado em 2019 por iniciativa da Ges- tão da IGS-Br (2019-2022) e que assumimos o compromisso de dar continuidade e finalização. Formou-se na ocasião um grupo de vinte pesquisadores e estudiosos do pensamento de Gramsci que, a partir de uma atividade coletiva e voluntária coordenada pelo Prof. Giovanni Semeraro, realizaram a árdua tarefa de traduzir os 29 Cadernos na ordenação disposta por Gerratana. Ficou para um se- gundo momento a tradução do instrumental crítico, que compõe, ao todo, mais de mil páginas, das quais 592 correspondem a notas ao texto, a parte mais significativa do aparato crítico, por oferecer indicações das fontes utilizadas por Gramsci, bem como esclareci- mentos sobre acontecimentos e personagens mencionados nos Ca- dernos. Esta tradução e disponibilização online dos 29 Cadernos, de forma gratuita na página da IGS/Brasil, contou com a autorização da Fundação Gramsci e da Editora Einaudi, agradecemos ao Dire- tor Francesco Giasi por esta intermediação. A importância e a relevância da tradução dos 29 Cadernos na or- dem estabelecida por Gerratana após pesquisa criteriosa se apresen- tam no fato de que, com a ampliação do interesse pelos escritos de Gramsci no Brasil, tornou-se indispensável transpor para o portu- guês a obra completa, tanto para o aprofundamento teórico quanto para a superação de algumas dificuldades interpretativas. A edição crítica organizada por Gerratana pressupôs uma pesquisa aprofun- dada para a periodização dos Cadernos, escritos entre 1929 e 1935, abrindo o caminho para novos debates e estimulando a compreen- são das ideias e o conhecimento da contribuição do pensamento de II Antonio Gramsci. E não é possível uma análise aprofundada desse autor e uma interpretação pertinente da sua obra, sem instrumen- tos de pesquisa adequados. A primeira edição publicada na página da IGS-BR apresenta os Cadernos em volumes separados para facilitar a consulta; cada vo- lume tem um ISBN1 para eventuais citações. A tarefa a seguir será constituída de Seminários voltados a analisar e retificar possíveis fragilidades da tradução, para a organização da segunda edição re- formulada. Reiteramos a nossa grata satisfação de publicar no site da IGS-BR, para acesso de modo gratuito, a versão brasileira com- pleta da edição crítica dos Cadernos do Cárcere. Anita Helena Schlesener Presidente da IGS/Brasil (Gestão 2022-2024) SOBRE A NOVA TRADUÇÃO DOS CADERNOS DO CÁRCERE NO BRASIL A nova tradução em português dos Cadernos do Cárcere é um evento de grande importância cultural e, em sentido amplo, polí- tico. Testemunhei, em parte, a idealização da primeira tradução par- cial de uma edição não antológica e temática dos Cadernos em lín- gua portuguesa no final de 1997, depois do primeiro colóquio da International Gramsci Society, que ocorreu naquele ano em Ná- poles. Realmente, poucos meses depois, Carlos Nelson Coutinho comunicou-me a ideia de uma ampla tradução (mas não completa) dos Cadernos no Brasil, enriquecida de um amplo aparato crítico, 1 O registro dos ISBNs desta primeira edição contou com a colaboração de Cleide Litiman, funcionária da Secretaria Geral da Anped, que intermediou o processo de cadastro junto à Câmara Brasileira de Livro. III adequado a explicar aos leitores brasileiros os muitos aspectos e referências a fatos e personagens presentes nos Cadernos. Um tra- balho desafiador e muito útil, por mérito – além de Coutinho – de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, três antigos amigos que, precisamente no colóquio de Nápoles, tinham nova- mente se encontrado renovando uma antiga paixão por Gramsci e o comunismo italiano. Aquela edição idealizada e conduzida por Coutinho, publica- da em seis volumes entre 1999 e 2002, junto à Editora Civiliza- ção Brasileira, porém, não era completa. Foi definida pelo próprio Carlos Nelson como uma edição crítico-temática, pois privilegia- va os “cadernos especiais”, temáticos, em detrimento dos textos de “primeira redação” (que, mais tarde, seriam retomados, reescritos e, algumas vezes, modificados por Gramsci). De qualquer modo, a edição publicada pela Civilização Brasileira teve uma importân- cia relevante para a difusão de Gramsci no Brasil. No entanto, o próprio Coutinho, alguns anos mais tarde, confidenciou-me que tinha se arrependido de não ter inserido nesta edição todas as notas gramscianas de “primeira redação”, isto é, de não haver traduzido integralmente as notas de reflexão crítica e de teoria dos Cadernos do Cárcere. Por que esta mudança de opinião? Esta era fruto de uma impor- tante transformação nos estudos sobre Gramsci que havia envolvi- do o próprio Coutinho. Na verdade, desde o final do século passado havia crescido, em nível internacional, a atenção dos estudiosos de Gramsci no sentido do aspecto “diacrônico” do seu pensamento, na direção do entrelaçamento entre as notas dos Cadernos e a história e a reflexão política de Gramsci, no cárcere ou na clínica de Formia. Em outras palavras, havia crescido notavelmente a atenção para o caráter de work in progress das notas carcerárias do grande mar- xista e comunista sardo. Tanto que, como se sabe,uma pressão coletiva e obter resultados obje- tivos de elaboração nos costumes, nos modos de pensar e de atuar, na moralidade etc. Conceito político da chamada “revolução permanente”, surgi- do antes de 1848, como expressão cientificamente elaborada das experiências jacobinas de 1789 ao Termidor [1]. A fórmula é pró- pria de um período histórico em que não existiam ainda os grandes partidos políticos de massa e os grandes sindicatos econômicos, e a sociedade ainda estava sob muitos aspectos, por assim dizer, no estado de fluidez: maior atraso do campo e monopólio quase com- pleto da eficiência político-estatal em poucas cidades ou até mesmo numa só (Paris para a França), aparelho estatal relativamente pou- co desenvolvido e maior autonomia da sociedade civil em relação à atividade estatal, determinado sistema das forças militares e do armamento nacional, maior autonomia das economias nacionais em face das relações econômicas do mercado mundial etc. No pe- ríodo posterior a 1870, com a expansão colonial europeia, todas as questões elementares mudam, as relações organizativas internas e internacionais do Estado tornam-se mais complexas e massivas e a fórmula da revolução permanente, própria de 1848, é elabora- da e superada na ciência política na fórmula da “hegemonia civil”. Ocorre na arte política o que ocorre na arte militar: a guerra de movimento torna-se cada vez mais guerra de posição e pode-se di- zer que um Estado vence uma guerra quando a prepara minucio- samente e tecnicamente no tempo de paz. A estrutura maciça das democracias modernas, seja como organizações estatais seja como um complexo de associações na vida civil, constituem para a arte política algo similar às “trincheiras” e às fortificações permanentes do fronte na guerra de posições: fazem com que seja “parcial” o ele- mento do movimento que antes constituía “toda” a guerra etc. A questão se apresenta para os Estados modernos, não para os países atrasados e as colônias, onde ainda vigoram as formas que 151932-1934: notas sobre maquiavel em outros lugares já foram superadas e se tornaram anacrônicas. Também a questão do valor das ideologias (como se depreende da polêmica Malagodi-Croce) [2] - com as observações de Croce sobre o “mito” soreliano, que podem se voltar contra a “paixão” [3] - deve ser estudada em um tratado de ciência política. CF. CADERNO 8 (XXVIII), P. 20. |§ 〈8〉. A concepção de Croce da política-paixão [1], exclui os partidos, porque não se pode pensar numa “paixão” organizada e permanente: a paixão permanente é uma condição de orgasmo e de espasmo, que determina incapacidade para agir. Exclui os partidos e exclui cada “plano” de ação combinado antecipadamente. Toda- via, os partidos existem e planos de ação são elaborados, aplicados e frequentemente realizados em notável medida; há, portanto, um “vício” na concepção de Croce. Nem vale dizer que se os partidos existem, isto não tem grande importância “teórica”, porque no mo- mento da ação o “partido” que atua não é o mesmo “partido” que existia antes; em parte, isto pode ser verdadeiro, porém, entre os dois “partidos”, as coincidências são tantas que, na realidade, pode- -se dizer que se trata do mesmo organismo. Mas a concepção, para ser válida, deveria poder ser aplicada também à “guerra” e, portan- to, explicar a existência dos exércitos permanentes, das academias militares, dos corpos de oficiais. Também a guerra em ato é “pai- xão”, a mais intensa e febril, é um momento da vida política, é a con- tinuação, sob outra forma, de uma determinada política; portanto, é necessário explicar como a “paixão” pode se tornar “dever” moral e não dever de moral política, mas de ética. Sobre os “planos políticos” ligados aos partidos como formações permanentes, recordar o que Moltke disse dos planos militares, que eles não podiam ser elaborados e fixados com antecedência em to- dos os seus detalhes, mas apenas no seu núcleo e desenho central, porque a particularidade da ação depende em certa medida dos movimentos do adversário [2]. A paixão manifesta-se precisamente nas particularidades, mas não parece que o princípio de Moltke seja tal que justifique a concepção de Croce: de qualquer maneira, falta- |4a| 16 caderno 13 (xxx) va por explicar o gênero de “paixão” do Estado-Maior que elaborou o plano com uma mente fria e “desapaixonadamente”. CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 20 BIS - 21. § 〈9〉. Schopenhauer aproxima o ensinamento de ciência polí- tica de Maquiavel àquele transmitido pelo mestre de esgrima que ensina a arte de matar (mas também de não se deixar matar), mas nem por isso ensina a se tornar sicários e assassinos [1]. (Encontrar a referência exata). CF. CADERNO 8 (XXVIII), P. 21 BIS. § 〈10〉. A questão inicial a ser posta e resolvida num trabalho sobre Maquiavel é a questão da política como ciência autônoma, isto é, do lugar que a ciência política ocupa ou deve ocupar em uma concepção de mundo sistemática (coerente e consequente) – em uma filosofia da práxis –. O progresso feito por Croce, a este propó- sito, aos estudos sobre Maquiavel e sobre a ciência política consiste sobretudo (como em outros campos da atividade crítica crociana) na dissolução de uma série de problemas falsos, inexistentes ou mal formulados. Croce se baseou em sua distinção dos momentos do Espírito e na afirmação de um momento da prática, de um espírito prático, autônomo e independente, embora ligado circularmente a toda a realidade através da dialética dos distintos. Numa filosofia da práxis, a distinção certamente não será entre os momentos do Espírito absoluto, mas entre os graus da superestrutura; tratar-se-á, portanto, de estabelecer a posição dialética da atividade política (e da ciência correspondente) como determinado grau superestrutu- ral: poderá se dizer, como primeira referência e aproximação, que a atividade política é precisamente o primeiro momento ou primeiro grau, o momento no qual a superestrutura ainda está na fase ime- diata de mera afirmação voluntária, indistinta e elementar. |Em que sentido se pode identificar a política e a história e ain- da toda a vida e a política. Como, em razão disso, todo o sistema das superestruturas pode conceber-se como distinções da política e, |5| 171932-1934: notas sobre maquiavel portanto, justificar a introdução do conceito de distinção numa filosofia da práxis. Mas se pode falar de dialética dos distintos e como se pode entender o conceito de círculo entre os graus da superestrutura? Conceito de “bloco histórico”, isto é, unidade entre a natureza e o espírito (estrutura e superestrutura), unida- de dos contrários e dos distintos. O critério de distinção pode ser introduzido também na estru- tura? Como se entenderá a estrutura: como no sistema das rela- ções sociais se poderá distinguir o elemento “técnica”, “trabalho”, “classe” etc., em tese, historicamente e não “metafisicamente”. Crítica da posição de Croce, conforme o qual, com finalidades de polêmica, a estrutura torna-se um “deus oculto”, um “númeno” em contraposição às “aparências” da superestrutura. “Aparências” em sentido metafórico e em sentido positivo. Porque, “historicamen- te”, e como linguagem, falou-se de “aparências”. É interessante fixar como Croce, partindo dessa concepção ge- ral, elaborou sua doutrina particular do erro e da origem prática do erro. Para Croce, o erro tem origem numa “paixão” imediata, isto é, de caráter individual ou de grupo; mas o que produzirá a “paixão” de alcance histórico mais amplo, a paixão como “cate- goria”? A paixão como interesse imediato que origina o “erro”, é o momento que nas Teses sobre Feuerbach foi chamado de “schmut- zig-jüdisch” [1]: mas, como a paixão-interesse “schmutzig-jüdisch” determina o erro imediato, assim a paixão do grupo social mais vasto determina o “erro” filosófico (por intermédio do erro-ide- ologia, que Croce trata em separado): o importante nesta série: egoísmo (erro imediato) – ideologia - filosofia é o termo comum“erro”, ligado aos diversos graus de paixão, e que deve ser entendi- do não no significado moralista ou doutrinário, mas no sentido puramente “histórico” e dialético “daquilo que é historicamente caduco e digno de desaparecer”, no sentido do caráter “não-defi- nitivo” de toda filosofia, da “morte-vida”, “ser - não ser”, isto é, do termo dialético a superar no desenvolvimento. 18 caderno 13 (xxx) O termo “aparente”, “aparência” significa precisamente isto e nada além disso, e deve ser justificado contra o dogmatismo: é a afirmação da caducidade de todo sistema ideológico, juntamente com a afirmação de uma validade histórica de todo sistema e de uma necessidade disso (“no terreno ideológico o homem adquire consciência das relações sociais” [2]: dizer isto não é afirmar a neces- sidade e a validade das “aparências”?). CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 21 A – 22 A. § 〈11〉. Uma concepção do direito que deve ser essencialmente renovadora. Ela não pode ser encontrada, integralmente, em ne- nhuma doutrina preexistente (nem mesmo na doutrina da assim chamada escola positiva e, sobretudo, na doutrina de Ferri). Se todo Estado tende a criar e a manter um certo tipo de civilização e de cidadão (e, portanto, de conivência e de relações individuais), tende a fazer desaparecer certos costumes e atitudes e a difundir ou- tros, o direito será o instrumento para esta finalidade (ao lado da es- cola e de outras instituições e atividades) e deve ser elaborado para ser conforme a tal finalidade, ser maximamente eficaz e produtor de resultados positivos. A concepção do direito deverá ser libertada de todo resíduo de transcendência e de absoluto, praticamente de todo fanatismo moralista, embora me pareça que não possa partir do ponto de vista de que o Estado não “pune” (se este termo é redu- zido a seu significado humano), mas apenas luta| contra a “pericu- losidade” social. Na realidade, o Estado deve ser concebido como “educador” quando tende precisamente a criar um novo tipo ou nível de civilização. Pelo fato de que se opera essencialmente sobre forças econômicas, que se reorganiza e se desenvolve o aparelho de produção econômica, que se inova a estrutura, não se deve concluir que os fatos de superestrutura devam ser abandonados a si mesmos, a seu desenvolvimento espontâneo, a uma germinação casual e es- porádica. O Estado, também nesse campo, é um instrumento de “racionalização”, de aceleração e de taylorização, opera segundo um plano, pressiona, incita, solicita, e “pune”, porque criou as condi- ções nas quais um determinado modo de vida é “possível”, a “ação |5a| 191932-1934: notas sobre maquiavel ou a omissão criminosa” deve ter uma sanção punitiva, de alcance moral, e não apenas um julgamento de periculosidade genérica. O direito é o aspecto repressivo e negativo de toda a atividade posi- tiva de educação cívica desenvolvida pelo Estado. Na concepção do direito deveriam ser incorporadas também as atividades que “premiam” indivíduos, grupos etc.; premia-se a atividade louvável e meritória, assim como se pune a atividade criminosa (e pune-se de modo original, fazendo a “opinião pública” intervir como ins- trumento de sanção). CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 22 A - 23. § 〈12〉. Bacon chamou de “Reis Magos” os três reis que atuam mais energicamente para a fundação das monarquias absolutas: Luís XI da França, Fernando, o Católico na Espanha, Henrique VII na Inglaterra [1]. Philippe de Commynes (1447-1511), a serviço de Carlos, o Temerário até 1472; em 1472, passa ao serviço de Luís XI e é o instrumento da política desse rei. Escreve a Chronique de Louis XI, publicada pela primeira vez em 1524. (Uma mercadora de Tours, que moveu uma causa contra Commynes quando caiu em desgra- ça, afirmando ter sido explorada num contrato estipulado durante o reinado de Luís XI, escreveu em suas alegações: “le sieur d´Ar- genton qui pour lors était roy” [“O senhor de Argenton, que, para eles, era rei”]) [2]. Estudar as possíveis relações de Maquiavel com de Commynes: como Maquiavel avaliava a atividade e a função de Commynes sob Luís XI e depois? CF. CADERNO 8 (XXVIII), P. 24. § 〈13〉. Ao lado dos méritos da moderna “maquiavelística” deri- vada de Croce, deve-se assinalar também os “exageros” e os desvios a que deu lugar. Criou-se o hábito de considerar, de forma excessi- va, Maquiavel, como o “político em geral”, como o “cientista da po- lítica”, atual em todos os tempos. É preciso considerar Maquiavel, em grau maior, como expressão necessária de seu tempo e como 20 caderno 13 (xxx) estreitamente ligado às condições e às exigências de seu tempo, que resultam: 1) das lutas internas da república florentina e da estrutura particular do Estado que não saiba libertar-se dos resíduos feudais comunal-municipais, isto é, de uma forma bloqueadora de feuda- lismo; 2) das lutas entre os Estados italianos por um equilíbrio no âmbito italiano, que era obstaculizado pela existência do Papado e os outros resíduos feudais, municipalistas, da forma estatal citadina e não territorial; 3) das lutas dos Estados italianos mais ou menos sólidos por um equilíbrio europeu, ou seja, das contradições entre a necessidade de um equilíbrio interno italiano e as exigências dos Estados europeus em luta pela hegemonia. Sobre Maquiavel atua o exemplo da França e da Espanha, que alcançaram uma forte unida- de estatal territorial [1]; Maquiavel faz uma “comparação elíptica” (para usar a expressão crociana) [2] e deduz as regras para um Esta- do forte em geral e italiano em particular. Maquiavel é um homem inteiramente de sua época e sua ciência política representa a filo- sofia da época, que tende à organização das monarquias nacionais absolutas, a forma política que permite e facilita um ulterior desen- volvimento das forças produtivas burguesas. Em Maquiavel, pode- -se descobrir in nuce a separação dos poderes e o parlamentarismo| (o regime representativo): a sua “ferocidade” está voltada contra os resíduos do mundo feudal, não contra as classes progressivas. O Príncipe deve pôr fim à anarquia feudal, e é isto o que faz Valentino na Romanha, apoiando-se nas classes produtoras, comerciantes e camponeses. Dado o caráter militar-ditatorial do chefe do Estado, como se requer em um período de luta pela fundação e a conso- lidação de um novo poder, a indicação de classe contida na Arte da guerra deve ser entendida também para a estrutura estatal geral: pois se as classes urbanas pretendem pôr fim à desordem interna e à anarquia externa devem apoiar-se nos camponeses como massa, constituindo uma força armada segura e fiel de tipo absolutamen- te diferente das formadas por mercenários [3]. Pode-se dizer que a concepção essencialmente política é de tal forma dominante em Maquiavel que o leva a cometer erros de caráter militar: ele pen- sa especialmente na infantaria, cujas massas podem ser recrutadas com uma ação política e, por isso, desconhece o significado da arti- |6| 211932-1934: notas sobre maquiavel lharia. Russo (nos Prolegomeni a Machiavelli) observa justamente que a Arte da guerra integra o Príncipe [4], mas não extrai todas as conclusões de sua observação. Também na Arte da guerra, Maquia- vel deve ser considerado como um político que deve se ocupar da arte militar; seu unilateralismo (com outras “curiosidades”, como a teoria da falange, que dão lugar a ironias fáceis, como aquela mais difundida, extraída de Bandello) [5] decorre do fato que a questão técnico-militar não é o centro do seu interesse e do seu pensamen- to, ele a trata apenas na medida em que é necessária para a sua cons- trução política. Mas não só a Arte da guerra deve ser ligada ao Príncipe, mas tam- bém as Histórias florentinas, que devem efetivamente servir como uma análise das condições reais italianas e europeias das quais deri- vam as exigências imediatas contidas no Príncipe. De uma concepção de Maquiavel mais aderente aos tempos de- riva, subordinadamente, uma avaliação mais historicista dos assimchamados “antimaquiavélicos” ou ao menos dos mais “ingênuos” entre eles. Não se trata, na realidade, de antimaquiavélicos, mas dos políticos que exprimem exigências do tempo deles ou de con- dições diversas daquelas que operavam sobre Maquiavel; a forma polêmica é pura acidentalidade literária. O exemplo típico destes “antimaquiavélicos”, me parece ser buscado em Jean Bodin (1530- 1596), que foi deputado nos Estados Gerais de Blois em 1576 e o levou a rejeitar, do Terceiro Estado, os subsídios solicitados para a guerra civil. (Obras de Bodin: Methodus ad facilem historiarum cognitionem (1566), onde indica a influência do clima sobre a for- ma dos Estados, refere-se a uma ideia de progresso etc.; La Répu- blique (1576), onde expressa as opiniões do Terceiro Estado sobre a monarquia absoluta e suas relações com o povo; Hentaplomores (inédito até a época moderna), em que compara todas as religiões e as justifica como expressões diversas da religião natural, a única razoável, e todas igualmente dignas de respeito e de tolerância [6]. Durante as guerras civis na França, Bodin é o expoente do ter- ceiro partido, dito dos “políticos”, que se coloca do ponto de vista do interesse nacional, isto é, de um equilíbrio interno das classes no 22 caderno 13 (xxx) qual a hegemonia pertence ao Terceiro Estado através do Monarca. Parece-me evidente que classificar Bodin entre os “antimaquiavéli- cos” seja uma questão absolutamente extrínseca e superficial. Bodin funda a ciência política na França num terreno muito mais avança- do e complexo que o oferecido pela Itália a Maquiavel. Para Bodin, não se trata de fundar o Estado unitário-territorial (nacional), isto é, de retornar à época de Luís XI, mas de equilibrar as forças so- ciais | em luta no interior desse Estado já forte e enraizado; não é o momento da força que interessa a Bodin, mas o do consenso. Com Bodin, tende-se a desenvolver a monarquia absoluta: o Ter- ceiro Estado está muito consciente da sua força e da sua dignidade, sabe muito bem que a sorte da monarquia absoluta está ligada à própria sorte e ao próprio desenvolvimento, que põe condições para o seu consenso, apresenta exigências, tende a limitar o absolutismo. Na França, Maquiavel já servia à reação, porque podia servir para justificar a manutenção perpétua do mundo no “berço” (segundo a expressão de Bertrando Spaventa) [7]; portanto, era necessário ser “polemicamente” antimaquiavélicos. Deve-se notar que, na Itália estudada por Maquiavel, não existiam instituições representativas já desenvolvidas e significativas para a vida nacional como aquelas dos Estados Gerais na França. Quando, modernamente, observa-se de modo tendenciosamente que as instituições parlamentares na Itália foram importadas do exterior, não se leva em conta que isto reflete apenas uma condição de atraso e de estagnação da história política e social italiana do século XVI ao XVIII, condição que se devia, em grande parte, à predominância das relações internacio- nais sobre as relações internas, paralisadas e entorpecidas. Será que foi o fato de a estrutura estatal italiana, pela sua predominância* estrangeira, ter permanecido na fase semifeudal de um objeto de “suserania” estrangeira, representa talvez a “originalidade” nacional destruída pela importação das formas parlamentares, que, ao con- trário, dão forma ao processo de libertação nacional? e à passagem para o Estado territorial moderno (independente e nacional)? De resto, instituições representativas existiram, especialmente no Sul * NO MS: UMA VARIANTE INTERLINEAR: SUSERANEIDADE. |6a| 231932-1934: notas sobre maquiavel e na Sicília, mas com caráter bem mais restrito do que na França, devido ao pequeno desenvolvimento do Terceiro Estado nestas re- giões, o que levou os Parlamentos a se tornarem instrumentos para manter a anarquia dos barões contra as tentativas inovadoras da monarquia, a qual, teve que se apoiar aos “esfarrapados” na ausên- cia de uma burguesia. Recordar o estudo de Antonio Panella sobre os Antimachiavellici [Antimaquiavélicos], publicado no «Marzoc- co» de 1927 (ou também em 1926? Em onze artigos) [8]: ver como nele se julga Bodin em comparação com Maquiavel e como (é) pos- to em geral o problema do antimaquiavelismo. Que o programa ou a tendência de conectar a cidade ao campo possa ter sido em Maquiavel apenas uma expressão militar, se en- tende refletindo que o jacobinismo francês seria inexplicável sem o pressuposto da cultura fisiocrática, com a sua demonstração da importância econômica e social do cultivador direto. As teorias econômicas de Maquiavel foram estudadas por Gino Arias (nos «Annali d’Economia» da Universidade Bocconi) [9], mas cabe perguntar se Maquiavel teve teorias econômicas: trata-se de ver se a linguagem essencialmente política de Maquiavel pode ser tra- duzida em termos econômicos e em qual sistema econômico pode ser incluída. Ver se Maquiavel, que viveu no período mercantilista, precedeu politicamente os tempos e se antecipou qualquer exigên- cia que depois encontrou expressão nos fisiocratas [10]. Rousseau também teria sido possível sem a cultura fisiocrática? Não me parece certo afirmar que os fisiocratas tenham represen- tado meros interesses agrícolas e que só com a economia clássica afirmam-se os interesses do capitalismo urbano? Os fisiocratas representam a ruptura com o mercantilismo e com o regime das corporações, e são uma fase para se chegar à economia clássica; mas me parece que exatamente por isso representam uma sociedade fu- tura bem mais complexa do que aquela contra a qual combatem e até do que aquela que resulta imediatamente de suas afirmações: a linguagem deles está bastante ligada à época e expressa o contraste imediato | entre cidade e campo, mas deixa prever uma ampliação do capitalismo em direção à agricultura. A fórmula do deixar fazer, |7| 24 caderno 13 (xxx) deixar passar, isto é, da liberdade industrial e de iniciativa, não está certamente ligada a interesses agrários. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 4 – 4 A; CADERNO 8 (XXVIII), PP. 35 A – 36, 25 A. § 〈14〉. Outro ponto a ser fixado e desenvolvido é o da “dupla perspectiva” na ação política e na vida estatal. Vários graus nos quais se pode apresentar a dupla perspectiva, dos mais elementares aos mais complexos, mas que podem ser reduzidos teoricamente a dois graus fundamentais, correspondentes à natureza dúplice do Centauro maquiavélico, ferina e humana, da força e do consenso, da autoridade e da hegemonia, da violência e da civilidade, do mo- mento individual e daquele universal (da “Igreja” e do “Estado”) [1], da agitação e da propaganda, da tática e da estratégia etc. Alguns reduziram a teoria da “dupla perspectiva” a algo mesquinho e ba- nal, a nada mais do que a duas formas de “imediaticidade” que se sucedem mecanicamente no tempo, com maior ou menor “proxi- midade”. Ao contrário, pode ocorrer que, quanto mais a primeira “perspectiva” é “imediatíssima”, elementaríssima, tanto mais a se- gunda deve ser “distante” (não no tempo, mas como relação dialéti- ca), complexa, elevada, isto é, pode ocorrer como na vida humana, quanto mais um indivíduo é forçado a defender a própria existência física imediata, tanto mais reivindica e se coloca do ponto de vista de todos os complexos e mais elevados valores da civilização e da humanidade. CF. CADERNO 8 (XXVIII), P. 28 A. § 〈15〉. Na noção de grande potência, deve-se considerar também o elemento “tranquilidade interna”, isto é, o grau e a intensidade da função hegemônica do grupo social dirigente; (esse elemento deve ser investigado na avaliação da potência de cada Estado, mas adqui- re maior importância na consideração das grandes potências. E não vale recordar a história da antiga Roma e das lutas internas que não impediram sua expansão vitoriosa etc.; além dos outros elementos diferenciadores, basta considerar isso, que Roma era a única grande potência da época e não tinha por que temer a concorrência de ri-251932-1934: notas sobre maquiavel vais poderosos, depois da destruição de Cartago). Por isso, pode-se dizer que quanto mais forte é o aparelho policial, tanto mais fraco é o exército, e quanto mais fraca (isto é, relativamente inútil) é a polícia tanto mais forte é o exército (diante da perspectiva de uma luta internacional). CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 25 A - 26. § 〈16〉. O “excessivo” (e, portanto, superficial e mecânico) realis- mo político frequentemente leva a afirmar que o homem de Estado só deve atuar no âmbito da “realidade efetiva” e não se interessar pelo “dever ser”, mas apenas pelo “ser”. Isto significaria dizer que o homem de Estado não deve ter outra perspectiva além do tamanho do próprio nariz. Foi este erro que levou Paolo Treves a encontrar em Guicciardini, e não em Maquiavel, o “verdadeiro político” [1]. É necessário fazer a distinção não só entre “diplomata” e “políti- co”, mas também entre cientista da política e político em ato. O diplomata tem de se mover apenas na realidade efetiva, porque sua atividade específica não é a de criar novos equilíbrios, mas conser- var, dentro de determinados quadros jurídicos, um equilíbrio já existente. Assim, também o cientista, como mero cientista, deve se mover somente na realidade efetiva. Mas Maquiavel não é um mero cientista; ele é um homem de partido, de paixões poderosas, um político em ato, que pretende criar novas relações de força e, por isso, não pode deixar de se ocupar com o “dever ser”, eviden- temente, não entendido em sentido moralista. A questão não é, porém, a ser colocada nestes termos, é mais complexa: quer dizer, trata-se de ver se o “dever ser” é um ato arbitrário ou necessário, é vontade concreta ou veleidade, desejo, miragem. O político em ato é um criador, um suscitador, mas não cria a partir do nada nem se| move na vazia agitação de seus desejos e sonhos. Funda-se sobre a realidade efetiva, mas o que é esta realidade efetiva? É por ventura algo estático ou imóvel ou ao invés disso uma relação de forças em contínua mudança de equilíbrio? Aplicar a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças realmente existentes e atuantes, basean- do-se naquela determinada força que se considera progressiva, e po- |7a| 26 caderno 13 (xxx) tencializando-a para fazê-la triunfar, é sempre mover-se no terreno da realidade efetiva, mas para dominá-la e superá-la (ou contribuir para isso). O “dever-ser” é, portanto, concretude, ou melhor, é a única interpretação realista e historicista da realidade, é apenas his- tória em ato e filosofia em ato, somente política. A oposição Sa- vonarola-Maquiavel não é a oposição entre ser e dever ser (todo o parágrafo de Russo sobre este ponto é pura literatura) [2], mas entre dois “dever ser”, o abstrato e obscuro de Savonarola e o realista de Maquiavel, realista ainda que não se tenha tornado realidade ime- diata, porque não se pode esperar que um indivíduo ou um livro modifiquem a realidade, mas só que a interpretem e indiquem a linha possível da ação. O limite e a angústia de Maquiavel consiste apenas no fato de ele ter sido uma “pessoa privada”, um escritor, e não o chefe de um Estado ou de um exército, que é também uma pessoa singular, mas tem à sua disposição as forças de um Estado ou de um exército, e não somente exércitos de palavras. Nem por isso pode-se dizer que Maquiavel tenha sido, também, um “profeta desarmado”: seria fazer ironia muito barata. Maquiavel jamais disse pensar ou propor, ele mesmo, mudar a realidade, mas apenas visa mostrar, concretamente, como deveriam operar as forças históricas para se tornarem eficientes. CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 27 BIS- 28. § 〈17〉. Análises das situações: relações de força. É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que precisa ser posto e re- solvido para que se possa chegar, com exatidão, a uma análise cor- reta das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas. É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe a tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e su- ficientes ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (verificar a exata enunciação destes princípios). 271932-1934: notas sobre maquiavel [“Uma formação social não perece antes que estejam desenvol- vidas todas as forças produtivas pelas quais ela ainda é suficiente e novas, e superiores relações de produção não tenham tomado o lugar, sem que antes as condições materiais de existência destas úl- timas tenham amadurecido no seio da própria velha sociedade. Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas àquelas tarefas que pode resolver: se, se observa com mais precisão, se verá sempre que a tarefa mesma surge onde as condições materiais da sua resolução já existem ou ao menos estão em processo de gestação” (Prefácio à Crítica da Economia Política)] [1]. Da reflexão sobre estes dois cânones pode-se chegar ao desenvol- vimento de toda uma série de outros princípios de metodologia his- tórica. No entanto, no estudo de uma estrutura devem-se distinguir os movimentos orgânicos (relativamente permanentes) dos movi- mentos que podem ser chamados de conjuntura (e se apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais). Os fenômenos de conjuntura certamente também dependem de movimentos orgâni- cos, mas seu significado não tem um amplo alcance histórico: eles dão lugar a uma crítica política miúda, do dia-a-dia, que envolve os pequenos grupos dirigentes e as personalidades imediatamente res- ponsáveis pelo poder. Os fenômenos orgânicos dão lugar à crítica histórico-social, que envolve os grandes agrupamentos, para além das pessoas imediatamente responsáveis e do pessoal dirigente. No estudo de um período histórico aparece a grande importância des- sa distinção. Verifica-se uma crise que às vezes se prolonga por de- zenas de anos. Esta duração excepcional significa que na estrutura se revelaram (chegaram à maturidade) contradições insanáveis na estrutura | e que as forças políticas que atuam positivamente para a conservação e defesa da própria estrutura se esforçam, contudo, para saná-las dentro de certos limites e superá-las. Esses esforços incessante e perseverantes (porque nenhuma forma social jamais confessará que foi superada) formam o terreno do “ocasional”, no qual se organizam as forças antagônicas que tendem a demonstrar (demonstração que, em última análise, só tem êxito e é “verdadeira” se se torna nova realidade, se as forças antagônicas triunfam, mas |8| 28 caderno 13 (xxx) que imediatamente se explicita numa série de polêmicas ideológi- cas, religiosas, filosóficas, políticas, jurídicas etc., cuja concretude pode ser avaliada na medida em que são convincentes e deslocam o alinhamento preexistente das forças sociais) que já existem as condições necessárias e suficientes para que determinadas tarefas possam e, portanto, devam ser resolvidas historicamente (devam, porque, cada falha do dever histórico aumenta a desordem necessá- ria e prepara catástrofes mais graves). O erro em que se incorre frequentemente nas análises histórico- -políticas consiste em não saber encontrar a justa relação entre o que é orgânico e o que é ocasional: chega-se assim ou a expor como ime- diatamente atuantes causas que, ao contrário, atuam mediatamente ou afirmam que as causas imediatas são as únicas causas eficientes; num caso se tem excesso de “economicismo” [2] ou de doutrinaris- mo pedante; no outro, o excesso de “ideologismo”, num caso, su- perestimam-se as causas mecânicas; no outro, exalta-se o elemento voluntarista e individual. (A distinção entre “movimentos” e fatos orgânicos e movimentos e fatos de “conjuntura” ou ocasionais deve ser aplicada a todos os tipos de situação, não só àquelas em quese ve- rifica um desenvolvimento regressivo ou de crise aguda, mas àquelas em que se verifica um desenvolvimento progressivo ou de prosperi- dade e àquelas em que se verifica uma estagnação das forças produti- vas). O nexo ideológico entre as duas ordens de movimento e, por- tanto, de pesquisa, dificilmente está estabelecido de modo correto e se o erro é grave na historiografia, mais grave ainda se torna na arte política, quando se trata não de reconstruir a história passada, mas de construir a história presente e a futura: os próprios desejos e as próprias paixões deterioradas e imediatas são a causa do erro, na me- dida em que substituem a análise objetiva e imparcial e isto ocorre não como “meio” consciente para estimular à ação, mas como auto engano. O feitiço, também neste caso, se volta contra o feiticeiro, ou seja, o demagogo é a primeira vítima da sua demagogia. [A não consideração do momento imediato das “relações de força” conecta-se a resíduos da concepção liberal vulgar, da qual o sindicalismo é uma manifestação que acreditava ser mais avançada 291932-1934: notas sobre maquiavel quando, na realidade, dava um passo atrás. De fato, a concepção li- beral vulgar dando importância à relação das forças políticas orga- nizadas nas diversas formas de partido (leitores de jornais, eleições parlamentares e locais, organizações de massa dos partidos e dos sindicatos em sentido estrito), era mais avançada do que o sindi- calismo, que dava importância primordial à relação fundamental econômico-social, e somente a ela. A concepção liberal vulgar tam- bém tinha em conta implícitamente esta relação (como transparece através de muitos sinais), mas insistia mais na relação das forças po- líticas, que era uma expressão da outra e, na realidade, a englobava. Estes resíduos da concepção liberal vulgar podem ser reencontrados em toda uma série de estudos que se dizem conectados à filosofia da práxis e deram lugar a formas infantis de otimismo e de estupidez]. Estes critérios metodológicos podem adquirir visivelmente e di- daticamente todo o seu significado se aplicados ao exame de fatos históricos concretos. Poder-se-ia utilizá-los para os acontecimentos que aconteceram na França de 1789 a 1870. Parece-me que, para maior clareza da exposição, seja necessário abranger todo este pe- ríodo. De fato, só em 1870-1871, com a tentativa da Comuna, es- gotam-se historicamente todos os germes nascidos em 1789, isto é, não só a nova classe que luta pelo poder derrota os representantes da velha sociedade que não quer confessar-se definitivamente su- perada, mas derrota também os novíssimos grupos que consideram já ultrapassada a nova estrutura surgida da transformação iniciada em 1789 e demonstra assim sua vitalidade tanto em comparação ao velho como em comparação ao novíssimo. Além disso, com os acontecimentos de 1870-1871, perde eficácia o conjunto de prin- cípios de estratégia e tática política nascidos praticamente em 1789 e desenvolvidos ideologicamente em torno de 1848 (os que se sin- tetizam na fórmula da “revolução permanente”: seria interessante estudar quanto de tal fórmula passou para a estratégia mazziniana - por exemplo, para a insurreição de 1853 de Milão - e se ocorreu conscientemente ou não). Um elemento |que mostra a justeza deste ponto de vista é o fato de que os historiadores de modo nenhum concordam (é impossível que concordem) na fixação dos limites da- |8a| 30 caderno 13 (xxx) quela série de acontecimentos que constitui a Revolução Francesa. Para alguns (Salvemini, por exemplo) [3], a revolução se completa em Valmy: a França criou um novo Estado e soube organizar a força político-militar que o sustenta e que defende sua soberania territo- rial. Para outros, a revolução continua até Termidor, ou melhor, eles falam de muitas revoluções (o 10 de agosto seria uma revolução em si etc.; cf. a Rivoluzione francese de A. Mathiez, na coleção Colin) [4]. O modo de interpretar Termidor e a ação de Napoleão apresenta as mais agudas contradições: trata-se de revolução ou de contrarrevo- lução? etc. Para outros, a história da Revolução continua até 1830, 1848, 1870 e até mesmo à guerra mundial de 1914. Em todas estas maneiras de ver há uma parte de verdade. Real- mente, as contradições internas da estrutura social francesa, que se desenvolve depois de 1789, só encontram uma relativa composição com a terceira república, e a França tem sessenta anos de vida polí- tica equilibrada depois de oitenta anos de transformações em ondas cada vez mais longas: 1789,1794, 1799, 1804, 1815, 1830, 1848, 1870. É exatamente o estudo dessas “ondas” de diferente oscilação que permite reconstruir as relações entre estrutura e superestrutura, por um lado; e, por outro, entre o curso do movimento orgânico e o curso do movimento de conjuntura da estrutura. Assim, pode-se dizer que a mediação dialética entre os dois princípios metodológi- cos enunciados no início desta nota pode ser encontrada na fórmula político-histórica da revolução permanente. Um aspecto do mesmo problema é a assim chamada questão das relações de força. Lê-se, com frequência, nas narrações históricas, a expressão genérica: relações de força favoráveis, desfavoráveis a esta ou àquela tendência. Assim, abstratamente, esta formulação não ex- plica nada ou quase nada, pois não faz mais do que repetir o fato que se deve explicar, apresentando-o uma vez como fato e outra como lei abstrata e como explicação. O erro teórico consiste, portanto, em apresentar um princípio de pesquisa e de interpretação como “causa histórica”. Contudo, na “relação de força”, é necessário distinguir os diver- sos momentos ou graus, que fundamentalmente são estes: 311932-1934: notas sobre maquiavel 1) Uma relação de forças sociais estreitamente ligada à estrutura, objetiva, independente da vontade dos homens, que pode ser men- surada com os sistemas das ciências exatas ou físicas. Com base no grau de desenvolvimento das forças materiais de produção têm-se os agrupamentos sociais, cada um dos quais representa uma função e tem uma posição determinada na própria produção. Esta relação é o que é, uma realidade rebelde: ninguém pode modificar o número das empresas e de seus empregados, o número das cidades com sua dada população urbana etc. Este alinhamento fundamental permi- te estudar se na sociedade existem as condições necessárias e sufi- cientes para a sua transformação, isto é, se permite verificar o grau de realismo e de viabilidade das diversas ideologias que nasceram em seu próprio terreno, no terreno das contradições que ele gerou durante seu desenvolvimento. 2) O momento seguinte é a relação das forças políticas, ou seja, a avaliação do grau de homogeneidade, de autoconsciência e de orga- nização alcançado pelos vários grupos sociais. Este momento, por sua vez, pode ser analisado e diferenciado em vários graus, que cor- respondem aos diversos momentos da consciência política coletiva, tal como se manifestaram| na história até agora. O primeiro e mais elementar é o econômico-corporativo: um comerciante sente que deve ser solidário com um outro comerciante, um fabricante com um outro fabricante etc., mas o comerciante não se sente ainda so- lidário com o fabricante; isto é, sente-se a unidade homogênea e o dever de organizá-la, do grupo profissional, mas não ainda a unida- de do grupo social mais amplo. Um segundo momento é aquele em que se atinge a consciência da solidariedade de interesses entre to- dos os membros do grupo social, mas ainda no campo meramente econômico. Já neste momento se coloca a questão do Estado, mas apenas no terreno da obtenção de uma igualdade político-jurídi- ca com os grupos dominantes, por isso se reivindica o direito de participar da legislação e da administração e mesmo de modificá- -las, de reformá-las, mas nos quadros fundamentais existentes. Um terceiro momento é aquele em que se adquire a consciência de que os próprios interesses corporativos, no seu desenvolvimentoatual |9| 32 caderno 13 (xxx) e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo meramente eco- nômico; e podem e devem tornar-se os interesses de outros grupos subordinados. Esta é a fase mais estritamente política, que assinala a passagem da estrutura à esfera das superestruturas complexas; é a fase em que as ideologias geradas anteriormente se transformam em “partido”, entram em confronto e lutam até que uma delas, ou pelo menos uma única combinação delas, tenda a prevalecer, a se impor, a difundir-se por toda a área social, determinando além da unicidade dos fins econômicos e políticos, também a unidade intelectual e moral, pondo todas as questões em torno das quais ferve a luta, e não só no plano corporativo, mas também no plano “universal”, criando assim a hegemonia de um grupo social funda- mental sobre uma série de grupos subordinados. Decerto o Esta- do é concebido como organismo próprio de um grupo, destinado a criar as condições favoráveis à máxima expansão desse grupo, mas este desenvolvimento e esta expansão são concebidos e apre- sentados como a força motriz de uma expansão universal, de um desenvolvimento de todas as energias “nacionais”, isto é, o grupo dominante foi coordenado concretamente com os interesses gerais dos grupos subordinados e a vida estatal foi concebida como uma contínua formação e superação de equilíbrios instáveis (no âmbito da lei) entre os interesses do grupo fundamental e os interesses dos grupos subordinados, equilíbrios em que os interesses do grupo do- minante prevalecem até um certo ponto, isto é, não até o estreito interesse econômico-corporativo. Na história real, estes momentos implicam-se reciprocamente, por assim dizer horizontalmente e verticalmente, isto é, segundo as atividades econômico sociais (ho- rizontais) e segundo os territórios (verticalmente), combinando-se e cindindo-se variadamente: cada uma destas combinações pode ser representada por uma expressão própria, organizada econômica e politicamente. Deve-se ainda levar em conta que estas relações internas de um Estado-Nação se entrelaçam com as relações inter- nacionais, criando novas combinações originais e historicamente concretas. Uma ideologia, nascida em um país mais desenvolvido, se difunde em países menos desenvolvidos, incidindo no jogo local das combinações. (A religião, por exemplo, sempre foi uma fonte 331932-1934: notas sobre maquiavel dessas combinações ideológico-políticas nacionais e internacio- nais; e, com a religião, as outras formações internacionais, como a maçonaria, o Rotary Club, os judeus, a diplomacia de carreira, que sugerem expedientes políticos de origem histórica diversa e os fazem triunfar em determinados países, funcionando como partido político internacional que atua em cada nação com todas as suas forças internacionais |concentradas; mas religião, maçonaria, Ro- tary, judeus etc., podem ser incluídos na categoria social dos “inte- lectuais”, cuja função, em escala internacional, é a de mediar os ex- tremos, de “socializar” as descobertas técnicas que fazem funcionar toda atividade de direção, de imaginar compromissos e alternativas entre as soluções extremas). Esta relação entre forças internacionais e forças nacionais é ainda mais complexa devido à existência, no interior de cada Estado, de várias seções territoriais com estrutura diferente e relações de força diferentes em todos os graus (assim, a Vandea era aliada com as forças reacionárias internacionais e as representava no seio da unidade territorial francesa; assim, na Re- volução Francesa, Lyon representava uma conexão particular de relações etc.). 3) O terceiro momento é o da relação das forças militares, ime- diatamente decisivo em cada momento histórico. (O desenvol- vimento histórico oscila continuamente entre o primeiro e o ter- ceiro momento, com a mediação do segundo.) Mas também esse momento não é algo indistinto e identificável imediatamente de forma esquemática; também nele podem-se distinguir dois graus: o militar em sentido estrito ou técnico-militar, e o grau que pode ser chamado de político-militar. No desenvolvimento da história, estes dois graus se apresentaram numa grande variedade de combinações. Um exemplo típico que pode servir como demonstração-limite é o da relação de opressão militar de um Estado sobre uma nação que procura alcançar sua independência estatal. A relação não é pura- mente militar, mas político-militar e, de fato, este tipo de opressão seria inexplicável sem o estado de desagregação social do povo opri- mido e a passividade de sua maioria; portanto, a independência não poderá ser alcançada com forças puramente militares, mas com for- |9a| 34 caderno 13 (xxx) ças militares e político-militares. De fato, se a nação oprimida, para iniciar a luta pela independência, tivesse que esperar a permissão do Estado hegemônico para organizar seu próprio exército no sentido estrito e técnico da palavra, teria que esperar muito tempo (pode ocorrer que a reivindicação de ter um exército próprio seja concedi- da pela nação hegemônica, mas isto significa que uma grande parte da luta já foi travada e vencida no terreno político militar). A nação oprimida, portanto, oporá inicialmente à força militar hegemônica uma força que é apenas “político-militar”, isto é, oporá uma forma de ação política que tenha a virtude de determinar reflexos de cará- ter militar, no sentido: 1) que seja capaz de desagregar intimamen- te a eficiência bélica da nação hegemônica; 2) que obrigue a força militar hegemônica a diluir-se e dispersar-se num grande território, anulando grande parte da eficiência bélica. No Risorgimento italia- no, pode-se notar a ausência desastrosa de uma direção político mi- litar sobretudo no Partido de Ação (por incapacidade congênita), mas também no partido piemontês-moderado, tanto antes como depois de 1848, não certamente por incapacidade, mas por “mal- thusianismo econômico-político”, isto é, porque não se quis sequer fazer menção à possibilidade de uma reforma agrária e porque não se queria a convocação de uma assembleia nacional constituinte, mas se pretendia apenas que a monarquia piemontesa, sem condi- cionamentos ou limitações de origem popular, se estendesse a toda a Itália, através da simples aprovação de plebiscitos regionais. Outra questão ligada às anteriores é a que busca ver se as crises históricas fundamentais são determinadas imediatamente|pelas crises econômicas. A resposta a essa questão está implicitamente contida nos parágrafos anteriores, onde foram tratadas questões que se apresentaram de outro modo, diferente daquele a que nos re- ferimos agora; mas é sempre necessário, por razões didáticas, dado o público específico, examinar cada modo sob o qual se apresenta uma mesma questão como se fosse um problema independente e novo. Pode-se excluir que, por si mesmas, as crises econômicas ime- diatas produzam eventos fundamentais; podem apenas criar um terreno mais favorável à difusão de certos modos de pensar, de im- |10| 351932-1934: notas sobre maquiavel por e resolver as questões que envolvem todo o curso subsequente da vida estatal. De resto, todas as afirmações referentes aos períodos de crise ou de prosperidade podem dar lugar a juízos unilaterais. Em seu compêndio de história da Revolução Francesa (Ed. Colin), Mathiez, opondo-se à história vulgar tradicional, que aprioristica- mente “encontra” uma crise coincidindo com as grandes rupturas de equilíbrios sociais, afirma que por volta de 1789, a situação eco- nômica era imediatamente muito boa, pelo que não se pode dizer que a catástrofe do Estado absoluto tenha sido motivada por uma crise de empobrecimento (cf. a afirmação exata de Mathiez) [5]. De- ve-se observar que o Estado estava envolto numa mortal crise finan- ceira e se punha a questão de saber sobre qual das três ordens sociais privilegiadas deveriam recair os sacrifícios e os pesos para recuperar as finanças estatais e regalias. Ademais: sea posição econômica da burguesia era próspera, certamente não era boa a situação das clas- ses populares das cidades e do campo, especialmente destas últimas, atormentadas pela miséria endêmica. Em todo caso, a ruptura do equilíbrio das forças não se deu por causas mecânicas imediatas de empobrecimento do grupo social interessado em romper o equilí- brio, e que de fato o rompeu, mas ocorreu no quadro de conflitos superiores ao mundo econômico imediato, ligados ao “prestígio” de classe (interesses econômicos futuros), a uma exasperação do sentimento de independência, de autonomia e de poder. A questão particular do mal-estar ou do bem-estar econômico como causa de novas realidades históricas é um aspecto parcial da questão das re- lações de força em seus vários graus. Pode se produzir novidade seja porque uma situação de bem-estar é ameaçada pelo egoísmo mes- quinho de um grupo adversário ou porque o mal-estar se tornou intolerável e não se vê na velha sociedade nenhuma força que seja capaz de mitigá-lo e de restabelecer uma normalidade por meios legais. Pode-se dizer, portanto, que todos estes elementos são a ma- nifestação concreta das flutuações de conjuntura do conjunto das relações sociais de força, em cujo terreno verifica-se a passagem des- tas relações em relações políticas de força, para culminar na relação militar decisiva. Se não se verifica este processo de desenvolvimento de um momento a outro, e isso é essencialmente um processo que 36 caderno 13 (xxx) tem como atores os homens e a vontade e capacidade dos homens, a situação se mantém inoperante e podem ocorrer conclusões con- traditórias: a velha sociedade resiste e garante para si um período de “tomada de fôlego”, exterminando fisicamente a elite adversária e aterrorizando as massas de reserva; ou, então, verifica-se a destrui- ção recíproca das forças em conflito com a instauração da paz dos cemitérios, talvez sob a vigilância de um sentinela estrangeiro. Mas a observação mais importante a fazer sobre qualquer análise concreta das relações de força é a seguinte: que tais análises não po- dem e não devem ser fins em si mesmas (a menos que não se escreva um capítulo da história do passado), mas só adquirem um significa- do se servem para justificar uma atividade prática, uma iniciativa de vontade. |Elas mostram quais são os pontos de menor resistência, nos quais a força da vontade pode ser aplicada de modo mais frutí- fero, sugerem as operações táticas imediatas, indicam como se pode empreender melhor uma campanha de agitação política, qual lin- guagem será melhor compreendida pelas multidões etc. O elemen- to decisivo de cada situação é a força permanentemente organizada e há muito tempo preparada, que se pode fazer avançar quando se julga que uma situação é favorável (e só é favorável na medida em que uma tal força exista e seja plena de ardor combativo); por isso, a tarefa essencial é dedicar-se sistemática e pacientemente à formação desta força, desenvolvê-la, torná-la cada vez mais homogênea, com- pacta, ciente de si mesma. Isso se vê na história militar e no cuida- do com que, em qualquer época, os exércitos estiveram preparados para iniciar uma guerra a qualquer momento. Os grandes Estados foram grandes Estados precisamente porque sempre estavam pre- parados para inserir-se eficazmente nas conjunturas internacionais favoráveis e essas eram favoráveis porque havia a possibilidade con- creta de inserir-se eficazmente nelas. CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 67 – 70 BIS; CADERNO 8 (XXVIII), P. 50. § 〈18〉. Alguns aspectos teóricos e práticos do “economicismo”. Eco- nomicismo - movimento teórico pelo livre cambismo - sindicalis- mo teórico. Deve-se ver em que medida o sindicalismo teórico se |10a| 371932-1934: notas sobre maquiavel originou da filosofia da práxis ou das doutrinas econômicas do li- vre-câmbio, isto é, em última análise, do liberalismo. E por isso, é preciso ver se o economicismo, na sua forma mais completa, não seria uma filiação direta do liberalismo e se houve, mesmo em suas origens, pouquíssimas relações com a filosofia da práxis, relações que, de qualquer maneira, são apenas extrínsecas e puramente ver- bais. É desse ponto de vista que se deve examinar a polêmica Ei- naudi-Croce, determinada pelo novo prefácio (de 1917) ao volume sobre o Materialismo storico [1]: a exigência, proposta por Einaudi, de levar em conta a literatura da história econômica suscitada pela economia clássica inglesa, pode ser satisfeita neste sentido, que tal literatura, por uma contaminação superficial com a filosofia da prá- xis, originou o economicismo; por isso, quando Einaudi crítica (na verdade, de modo impreciso) algumas degenerações economicistas, não faz outra coisa senão fazer o tiro sair pela culatra. O nexo entre ideologias livre-cambistas e sindicalismo teórico é especialmente evidente na Itália, onde é conhecida a admiração por Pareto de sin- dicalistas como Lanzillo e C. O significado destas duas tendências é, porém, bastante diverso: a primeira é própria de um grupo social dominante e dirigente; a segunda, de um grupo ainda subalterno, que ainda não adquiriu consciência de sua força e de suas possibi- lidades e modos de desenvolvimento e, por isso, não sabe sair da fase de primitivismo. A formulação do movimento do livre-câmbio baseia-se num erro teórico cuja origem prática não é difícil identi- ficar: trata-se da distinção entre sociedade política e sociedade civil que, de distinção metodológica é transformada e apresentada como distinção orgânica. Assim, afirma-se que a atividade econômica é própria da sociedade civil e que o Estado não deve intervir em sua regulamentação. Mas, como na realidade efetiva sociedade civil e Estado se identificam, deve-se fixar que também o liberismo é uma “regulamentação” de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva: é um fato de vontade sabedora dos próprios fins, e não a expressão espontânea|, automática, do fato econômi- co. Portanto, o liberismo é um programa político, destinado a mo- dificar, quando triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa econômico do próprio Estado, isto é, a mudar a distribuição da ren- |11| 38 caderno 13 (xxx) da nacional. Distinto é caso do sindicalismo teórico, na medida em que se refere a um grupo subalterno, o qual, com esta teoria, é impe- dido de se tornar dominante, de se desenvolver além da fase econô- mico-corporativa para elevar-se à fase de hegemonia ético-política na sociedade civil e dominante no Estado. Por isso, no tocante ao liberismo, tem-se o caso de uma fração do grupo dirigente que pre- tende modificar não a estrutura do Estado, mas apenas a direção governamental, que pretende reformar a legislação comercial e só indiretamente a industrial (porque é inegável que o protecionismo, especialmente nos países de mercado pobre e restrito, limita a liber- dade de iniciativa industrial e favorece morbidamente o surgimen- to dos monopólios): trata-se da alternância dos partidos dirigentes no governo, não de fundação e organização de uma nova sociedade política e, menos ainda, de um novo tipo de sociedade civil. No movimento do sindicalismo teórico a questão apresenta-se de for- ma ainda mais complexa: é inegável que, neste, a independência e a autonomia do grupo subalterno que ele diz exprimir, a hegemonia intelectual do grupo dominante é sacrificada, precisamente porque o sindicalismo teórico não passa de um aspecto do liberismo, justi- ficado com algumas afirmações mutiladas e, portanto, banalizadas, da filosofia da práxis. Por que e como se verifica este “sacrifício”? Exclui-se a transformação do grupo subordinado em dominante, ou porque o problema sequer é formulado (fabianismo, De Man, parte notável do trabalhismo), ou porque é apresentado sob for- mas incongruentes e ineficazes (tendências social-democratas em geral), ou porque se afirma o salto imediato do regime dos grupos àquele da perfeita igualdade e da economia sindical.É no mínimo estranha a atitude do economicismo em relação às expressões de vontade, de ação e de iniciativa política e intelectual, como se estas não fossem uma emanação orgânica de necessidades econômicas, quer dizer, a única expressão eficiente da economia: assim é incongruente que a formulação concreta da questão hege- mônica seja interpretada como um fato que subordina o grupo he- gemônico. O fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos so- 391932-1934: notas sobre maquiavel bre os quais a hegemonia será exercida, que se forme um certo equi- líbrio de compromisso, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa, mas também é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem envolver o essencial, dado que, se a hegemonia é ético-política, não pode deixar de ser também econômica, não pode deixar de ter o seu fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica. O economicismo apresenta-se sob muitas outras formas além do liberismo e do sindicalismo teórico. Deles, fazem parte todas as formas de abstencionismo eleitoral (exemplo típico é o absten- cionismo dos clericais italianos depois de 1870, mais atenuado a partir de 1900, até chegar a 1919 e à formação do Partido Popular: a distinção orgânica que os clericais faziam entre Itália real e Itá- lia legal era uma reprodução da distinção entre mundo econômico e mundo político-legal), que são muitas, no sentido de que pode existir semi-abstencionismo, um quarto de abstencionismo etc. Ao abstencionismo está ligada a fórmula do “quanto pior, melhor” e também a fórmula da assim chamada “intransigência” parlamentar de algumas frações de deputados. Nem sempre o economicismo é contrário à ação política e ao partido político, mas esse é considera- do como mero organismo educativo de tipo sindical. |Um ponto de referência para o estudo do economicismo e para compreender as relações entre estrutura e superestruturas aquela passagem da Miséria da filosofia onde se diz que uma fase impor- tante no desenvolvimento de um grupo social é aquela em que os indivíduos que compõem um sindicato não lutam mais apenas pe- los seus interesses econômicos, mas pela defesa e o desenvolvimen- to da própria organização (ver a afirmação exata [2]; a Miséria da filosofia é um momento essencial da formação da filosofia da práxis; e essa pode ser considerada como o desenvolvimento das Teses sobre Feuerbach, ao passo que a Sagrada Família é uma fase intermediária indistinta e de origem ocasional, como aparece nos trechos dedi- cados a Proudhon e sobretudo ao materialismo francês. O trecho sobre o materialismo francês é mais que um capítulo de história da |11a| 40 caderno 13 (xxx) cultura e não um fragmento teorético, como frequentemente é in- terpretado, e como história da cultura é admirável. Recordar a ob- servação de que a crítica contida na Miséria da filosofia contra Prou- dhon e sua interpretação da dialética hegeliana pode ser válida para Gioberti e, em geral, para o hegelianismo dos liberais moderados italianos [3]. O paralelo Proudhon-Gioberti, embora representem fases histórico-políticas não homogêneas, ou melhor, exatamente por isto, pode ser interessante e fecundo). Deve-se recordar ao mes- mo tempo a afirmação de Engels de que a economia só em “última análise” é o motor da história (nas duas cartas sobre a filosofia da práxis, publicadas também em italiano) [4], se conectada direta- mente ao trecho do prefácio à Crítica da economia política, onde se diz que os homens adquirem conhecimento dos conflitos que se verificam no mundo econômico no terreno das ideologias [5]. Em várias ocasiões, afirmou-se nestas notas que a filosofia da práxis está muito mais difundida do que se quer admitir [6]. A afir- mação é exata se se entende como foi difundido o economicismo histórico, que é como o Prof. Loria chama agora as suas concepções mais ou menos desconexas, e, que, portanto, o ambiente cultural se modificou completamente desde o tempo em que a filosofia da práxis iniciou suas lutas; pode-se dizer, com a terminologia crocia- na, que a grande heresia surgida no seio da “religião da liberdade”, tal como a religião ortodoxa, que também sofreu uma degeneração, difundiu-se como “superstição”, isto é, entrou em combinação com o liberismo e produziu o economicismo. Deve-se ver, porém, se en- quanto a religião ortodoxa se estiolou definitivamente, a supersti- ção herética não terá conservado sempre um fermento que a fará renascer como religião superior, isto é, se as escórias de superstição não são facilmente liquidáveis. Alguns pontos característicos do economicismo histórico: 1) na busca das conexões históricas, não se distingue entre o que é “rela- tivamente permanente” e o que é flutuação ocasional, e se entende por fato econômico o interesse pessoal e de pequeno grupo, num sentido imediato e “sordidamente judaico” [7]. Isto é, não se tem em conta as formações de classe econômica, com todas as relações que 411932-1934: notas sobre maquiavel lhe são inerentes, mas se assume o interesse mesquinho e usurário, especialmente quando coincide com formas delituosas contempla- das nos códigos criminais; 2) a doutrina segundo a qual o desenvol- vimento econômico é reduzido à sucessão de modificações técnicas nos instrumentos de trabalho. O Prof. Loria fez uma exposição brilhantíssima desta doutrina aplicada no artigo sobre a influência social do aeroplano, publicado na «Rassegna Contemporanea» de 1912 [8]; 3) a doutrina |pela qual o desenvolvimento econômico e histórico depende imediatamente das mudanças de um deter- minado elemento importante da produção, da descoberta de uma nova matéria-prima, de um novo combustível etc., que, portanto, trazem consigo a aplicação de novos métodos na construção e no funcionamento das máquinas. Nestes últimos tempos surgiu toda uma literatura sobre o petróleo: pode-se ver como típico disso um artigo de Antonino Laviosa na «Nuova Antologia» de 1929 [9]. A descoberta de novos combustíveis e de novas energias motrizes, bem como de novas matérias-primas a transformar, têm certamen- te grande importância, porque pode mudar a posição dos Estados, mas não determina o movimento histórico etc. Frequentemente se combate o economicismo histórico pensan- do combater o materialismo histórico. É este o caso, por exemplo, de um artigo do «Avenir» de Paris, de 10 de outubro de 1930 (re- produzido na «Rassegna Settimanale della Stampa Estera», de 21 de outubro de 1930, p. 2303-4), e que se transcreve como típico: “Dizem-nos há muito tempo, mas sobretudo depois da guerra, que as questões de interesse dominam os povos e, portanto, fazem o mundo avançar. Foram os marxistas que inventaram esta tese, sob a designação um pouco doutrinária de ‘materialismo histórico’. No marxismo puro, os homens tomados em conjunto não obedecem às paixões, mas às necessidades econômicas. A política é uma paixão. A pátria é uma paixão. Estas duas ideias exigentes não desempe- nham na História mais que uma função aparente, porque, na reali- dade, a vida dos povos, no curso dos séculos, é explicada como um jogo cambiante e sempre renovado de causas de ordem material. A economia é tudo. Muitos filósofos e economistas ‘burgueses’ reto- |12| 42 caderno 13 (xxx) maram este estribilho. Estes assumem um certo ar de pose para ex- plicar, com o preço do trigo, do petróleo ou da borracha, a grande política internacional. Eles se esforçam para demonstrar que toda a diplomacia é comandada por questões de tarifas alfandegárias e de preços de custo. Estas explicações estão muito no auge. Possuem uma pequena aparência científica e procedem de uma espécie de ce- ticismo superior com a pretensão de passar por elegância suprema. A paixão em política externa? O sentimento em matéria nacional? Qual o quê! Esta coisa é boa para as pessoas comuns. Os grandeses- píritos, os iniciados sabem que tudo é dominado por débito e crédi- to. Mas esta é uma pseudoverdade absoluta. É completamente falso que os povos se deixam guiar só por considerações de interesse e é verdadeiro que eles obedecem (mais do que nunca ao sentimento. O materialismo histórico é uma boa idiotice. As nações obedecem) sobretudo a considerações ditadas por um desejo e por uma fé ar- dente de prestígio. Quem não compreende isto não compreende nada” [10]. A continuação do artigo (intitulado La mania del pres- tigio) exemplifica com a política alemã e italiana, que seria de “pres- tígio” e não ditada por interesses materiais. O artigo contém, em poucas linhas, uma grande parte dos temas mais banais de polêmica contra a filosofia da práxis, mas, na realidade, a polêmica é contra o economicismo destrambelhado de tipo loriano. De resto, o escritor não é muito conhecedor do assunto também por outros aspectos: ele não compreende que as “paixões” não podem ser outra coisa que um sinônimo dos interesses econômicos e que é difícil sustentar que a atividade política possa ser um estado permanente de exas- peração passional e de espasmo; exatamente a política francesa é apresentada como uma “racionalidade” sistemática e coerente, isto é, depurada de todo elemento passional, etc. Na sua forma mais difundida de superstição economicista, a fi- losofia da práxis perde uma grande parte de sua expansividade cul- tural na esfera superior do grupo intelectual, na mesma proporção em que a adquire entre as massas populares | e entre os intelectu- ais medíocres, que não pretendem cansar o cérebro, mas desejam aparecer como espertíssimos etc. Como escreveu Engels, é cômodo |12a| 431932-1934: notas sobre maquiavel para muitos acreditar que possam ter no bolso, a baixo preço e sem nenhum esforço, toda a história e toda a sabedoria política e filosó- fica concentrada numa formulazinha [11]. Esquecendo-se que a tese segundo a qual os homens adquirem consciência dos conflitos fun- damentais no terreno das ideologias não é de caráter psicológico ou moralista, mas tem um caráter orgânico gnosiológico, criou-se a forma mentis de considerar a política e, portanto, a história como um contínuo marché de dupes [mercado de tolos N.T.], um jogo de ilusionismo e de prestidigitação. A atividade “crítica” reduziu-se a revelar truques, a provocar escândalos, a especular sobre o salário dos homens representativos. Esqueceu-se assim que, se o “economicismo” é ou presume ser também um cânone objetivo de interpretação (objetivo-científico), a pesquisa no sentido dos interesses imediatos deveria ser válida para todos os aspectos da história, tanto para os homens que re- presentam a “tese” como para aqueles que representam a “antítese”. Esqueceu-se, além disso, uma outra proposição da filosofia da prá- xis: a de que as “crenças populares” ou as crenças do tipo das crenças populares têm a validade das forças materiais [12]. Os erros de interpretação contidos nas pesquisas dos interesses “sordidamente judaicos” foram algumas vezes grosseiros e cômi- cos, e estes reagiram negativamente sobre o prestígio da doutrina original. Por isso, é necessário combater o economicismo não só na teoria da historiografia, mas também e sobretudo na teoria e na prática política. Neste campo, a luta pode e deve ser conduzida de- senvolvendo-se o conceito de hegemonia, da mesma forma como foi conduzida praticamente no desenvolvimento da teoria do parti- do político e no desenvolvimento prático da vida de determinados partidos políticos (a luta contra a teoria da assim chamada revolu- ção permanente, à qual se contrapunha o conceito de ditadura de- mocrático-revolucionária [13], a importância que teve o apoio dado às ideologias que defendem as Constituintes etc.). Seria possível realizar uma pesquisa sobre as opiniões emitidas à medida que se desenvolviam certos movimentos políticos, tomando-se como típi- co o movimento boulangista (por volta de 1886 a 1890), ou o pro- 44 caderno 13 (xxx) cesso Dreyfus, ou mesmo o golpe de Estado de 2 de dezembro (uma análise do livro clássico sobre o 2 de dezembro [14], para estudar a importância relativa que nele se atribui ao fator econômico ime- diato e o lugar que nele ocupa, ao contrário, o estudo concreto das “ideologias”). Diante deste evento, o economicismo se pergunta: a quem interessa imediatamente a iniciativa em questão? E respon- de com um raciocínio tão simplista quanto paralogístico. Favorece imediatamente a uma certa fração do grupo dominante e, para não errar, esta escolha recai sobre aquela fração que evidentemente tem uma função progressiva e de controle sobre o conjunto das forças econômicas. Pode-se estar seguro de não errar, porque necessaria- mente, se o movimento analisado chegar ao poder, cedo ou tarde a fração progressiva do grupo dominante acabará controlando o novo governo e o transformará num instrumento para utilizar o aparelho estatal em seu benefício. Trata-se, portanto, de uma infali- bilidade muito barata e que não só não tem significado teórico, mas possui escassíssimo alcance político e eficácia prática: em geral, não produz outra coisa que pregações moralistas e polêmicas pessoais intermináveis. Quando se produz um movimento de tipo boulangista, a aná- lise deveria ser conduzida|realisticamente segundo esta linha: 1) conteúdo social da massa que adere ao movimento; 2) que função desempenha esta massa no equilíbrio de forças que se vai transfor- mando, como o novo movimento demonstra através de seu próprio nascimento?; 3) qual é o significado político e social das reivindi- cações que os dirigentes apresentam e que obtêm consenso? a quais exigências efetivas correspondem?; 4) exame da conformidade dos meios ao fim proposto; 5) só em última análise, e apresentada sob forma política e não moralista, formula-se a hipótese de que tal mo- vimento necessariamente será desnaturado e servirá a fins diferen- tes daqueles que a massa de seguidores espera. Ao contrário, esta hipótese é afirmada antecipadamente, quando nenhum elemento concreto (ou seja, que se apresente como tal com a evidência do senso comum e não através de uma análise “científica” esotérica) ainda não existe para sufragá-la, assim, ela aparece como uma acu- |13| 451932-1934: notas sobre maquiavel sação moralista de duplicidade e má-fé ou de pouca sagacidade, de estupidez (para os seguidores). A luta política transforma-se assim numa série de episódios pessoais entre quem é bastante esperto para se livrar das complicações e quem é enganado pelos próprios dirigentes e não quer se convencer disso por causa de uma incurável estupidez. Além disso, enquanto estes movimentos não alcançam o po- der, pode-se sempre pensar que constituem um fracasso e alguns, de fato, fracassaram (o próprio boulangismo, que fracassou como tal e depois foi esmagado definitivamente com o movimento drey- fusardo, o movimento de Georges Valois, do General Gayda); a pesquisa deve, então, dirigir-se à identificação dos elementos de força, mas também dos elementos de fraqueza que tais movimen- tos contêm em seu interior: a hipótese “economicista” afirma um elemento imediato de força, isto é, a disponibilidade de um certo aporte financeiro direto ou indireto (um grande jornal que apoie o movimento é também um aporte financeiro indireto) - e basta. Muito pouco. Também neste caso a análise dos diversos graus de relação de for- ças não pode culminar senão na esfera da hegemonia e das relações ético-políticas. CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 70 BIS – 74 § 〈19〉. Elementos para calcular a hierarquia de potência entre os Estados: 1) extensão do território; 2) força econômica; 3) força militar. O modo como se exprime a condição de grande potência é dado pela possibilidade de imprimir à atividade estatal uma dire- ção autônoma e pela influência e repercussão que imprima sobre os outros Estados: a grande potência é potência hegemônica, líder e guia de um sistema de aliançase de pactos com maior ou menor ex- tensão. A força militar sintetiza o valor da extensão territorial (com população adequada, naturalmente) e do potencial econômico. No elemento territorial, deve-se considerar concretamente a posição geográfica. Na força econômica, deve-se distinguir a capacidade 46 caderno 13 (xxx) industrial e agrícola (forças produtivas) da capacidade financeira. Um elemento “imponderável” é a posição “ideológica” que um país ocupa no mundo em cada momento dado, enquanto representante das forças progressivas da história (exemplo da França durante a Revolução de 1789 e o período napoleônico). Estes elementos são calculados na perspectiva de uma guerra. Ter todos os elementos que, nos limites do previsível, dão segurança de vitória, o que significa ter um potencial de pressão diplomática de grande potência, isto é, significa obter uma parte dos resultados de uma guerra vitoriosa sem necessidade de combater. CF. CADERNO 4 (XIII), P. 38 BIS. § 〈20〉. Charles Benoist, no prefácio a Le Machiavélisme, na primeira parte: Avant Machiavel (Paris, Plon, 1907), escreve: “Há maquiavelismo e maquiavelismo: há um maquiavelismo verdadeiro e um maquiavelismo falso; existe |um maquiavelismo que é de Ma- quiavel e um maquiavelismo que algumas vezes é de seus discípulos, mais frequentemente dos inimigos de Maquiavel; já são dois, ou melhor, três maquiavelismos: o de Maquiavel, o dos maquiavelis- tas e o dos antimaquiavelistas; mas há um quarto: o daqueles que jamais leram uma linha de Maquiavel e que se servem sem propó- sito dos verbos (!), dos substantivos e dos adjetivos derivados de seu nome. Por isso, Maquiavel não deveria ser responsabilizado por aquilo que, depois dele, o primeiro ou o último que veio achou por bem fazê-lo dizer” [1]. Um pouco escorregadio, o Sr. Carlo Benoist. A inovação fundamental introduzida pela filosofia da práxis na ciência da política e da história é a demonstração de que não existe uma “natureza humana” abstrata, fixa e imutável (conceito que cer- tamente deriva do pensamento religioso e da transcendência), mas que a natureza humana é o conjunto das relações sociais historica- mente determinadas, isto é, um fato histórico verificável, dentro de certos limites, com os métodos da filologia e da crítica. Portanto, a ciência política deve ser concebida no seu conteúdo concreto (e também em sua formulação lógica) como um organismo em desen- volvimento. Deve-se observar, no entanto, que a formulação dada |13a| 471932-1934: notas sobre maquiavel por Maquiavel à questão da política (isto é, a afirmação implícita em seus escritos de que a política é uma atividade autônoma que (tem) seus princípios e leis diversos daqueles da moral e da religião, proposição que tem um grande alcance filosófico, já que implicita- mente inova a concepção da moral e da religião, isto é, inova toda a concepção do mundo), é ainda hoje discutida e contraditada, não conseguiu tornar-se “senso comum”. O que significa isso? Significa apenas que a revolução intelectual e moral cujos elementos estão contidos in nuce no pensamento de Maquiavel ainda não se efe- tivou, não se tornou forma pública e manifesta da cultura nacio- nal? Ou tem um mero significado político atual, serve para indicar apenas a separação existente entre governantes e governados, para indicar que existem duas culturas, a dos governantes e a dos gover- nados, e que a classe dirigente, como a Igreja, tem uma atitude em relação aos simples ditada pela necessidade de não se afastar deles, por um lado, e, por outro, de mantê-los na convicção de que Ma- quiavel nada mais é do que uma aparição diabólica? Põe-se assim o problema do significado que Maquiavel teve em seu tempo e dos fins que ele se propunha escrevendo seus livros, especialmente o Principe. A doutrina de Maquiavel não era, em seu tempo, uma coisa puramente “livresca”, um monopólio de pensadores isolados, um livro secreto que circula entre iniciados. O estilo de Maquiavel não é o de um tratadista sistemático, como a Idade Média e o Hu- manismo conheceram: é estilo de homem de ação, de quem quer induzir à ação; é estilo de “manifesto” de partido. A interpretação “moralista” dada por Foscolo é certamente errada, todavia, é ver- dade que Maquiavel revelou algo, e não só teorizou sobre o real; mas qual era o objetivo da revelação? Um objetivo moralista ou político? Costuma-se dizer que as normas de Maquiavel para a ati- vidade política ‘aplicam-se, mas não se declaram”; afirma-se que os grandes políticos começam maldizendo Maquiavel, declarando-se antimaquiavélicos, precisamente para poderem aplicar “piamente” suas normas. Não teria sido Maquiavel pouco |maquiavélico, um daqueles que “conhecem o jogo” e tolamente o ensinam, enquanto o maquiavelismo vulgar ensina a fazer o contrário? A afirmação de Croce de que, sendo o maquiavelismo uma ciência, serve tanto aos |14| 48 caderno 13 (xxx) reacionários quanto aos democratas, assim como a arte da esgrima serve aos cavalheiros e aos bandidos, para defender-se e para assassi- nar, e que é neste sentido que deve ser entendido o juízo de Foscolo, é verdadeira abstratamente [2]. O próprio Maquiavel nota que as coisas que ele escreve são aplicadas, e foram sempre aplicadas pe- los grandes homens da história; por isso, não parece que ele queira sugerir a quem já sabe, nem o seu estilo é aquele de uma atividade científica desinteressada (cf. numa das páginas anteriores, o que está escrito a propósito do significado da invocação final do Príncipe e do papel que ela pode ter em relação ao conjunto da pequena obra) [3]; nem se pode pensar que ele tenha chegado a suas teses de ciência política através de especulação filosófica, o que, nesta matéria espe- cífica, seria algo milagroso em seu tempo, e que ainda hoje enfrenta tanta contestação e oposição. Pode-se assim supor que Maquiavel tenha em vista “quem não sabe”, que ele pretenda promover a edu- cação política de “quem não sabe”; não educação política negati- va, de odiadores de tiranos, como parecia entender Foscolo, mas, positiva, de quem deve reconhecer como necessários determinados meios, ainda que próprios dos tiranos, porque deseja determinados fins. Quem nasceu na tradição dos homens de governo, por todo o conjunto da educação que absorve do ambiente familiar e no qual predominam os interesses dinásticos ou patrimoniais, adquire qua- se automaticamente as características do político realista. Portanto, quem é que “não sabe”? A classe revolucionária da época, o “povo” e a “nação” italiana, a democracia urbana que gera a partir de si os Savonarola e os Pier Soderini e não os Castruccio e os Valentino. Pode-se supor que Maquiavel pretenda convencer estas forças da necessidade de ter um “líder” que saiba o que quer e como obter o que quer, e de aceitá-lo com entusiasmo, ainda que as suas ações possam ser ou parecer estar em contraste com a ideologia difusa da época, a religião. Esta posição da política de Maquiavel repete-se para a filosofia da práxis: repete-se a necessidade de ser “antimaquiavélicos”, desen- volvendo uma teoria e uma técnica da política que possam servir às duas partes em luta, embora se creia que elas terminarão por 491932-1934: notas sobre maquiavel servir especialmente à parte que “não sabia”, porque é nela que se considera residir a força progressiva da história, e, com efeito, se obtém de imediato um resultado: de romper a unidade baseada na ideologia tradicional, sem cuja ruptura a força nova não poderia adquirir consciência de sua própria personalidade independente. O maquiavelismo serviu para melhorar a técnica política tradicional dos grupos dirigentes conservadores, assim como a política da filo- sofia da práxis; e isto não deve ocultar seu caráter essencialmente revolucionário, que é sentido ainda hoje e que explica todo o an- timaquiavelismo, daquele dos jesuítas àquele pietista de P. Villari. CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 49 BIS – 50 BIS. § 〈21〉. Continuaatualmente está em andamento uma nova edição crítica dos Cadernos organizada por Gianni Francioni, Giuseppe Cospito e Fabio Frosini, edição que procura aprofundar as referências cronológicas, a pesquisa das fontes, etc. Desta edição saíram em língua italiana os primeiros oito IV cadernos gramscianos e os Cadernos de Tradução, até agora inédi- tos, enquanto os cadernos seguintes ainda devem ser publicados. Por todos estes motivos mencionados acima, quando eu soube que a IGS-Brasil havia decidido iniciar um grande empreendi- mento coletivo para uma nova tradução integral dos Cadernos do Cárcere, manifestei meu interesse e apoio à iniciativa. O conheci- mento dos Cadernos na forma como foram escritos por Gramsci é, atualmente, o melhor ponto de partida para ler e estudar a maior obra deste autor. Esta obra já está integralmente disponível em es- panhol (onde recentemente foi lançada uma segunda tradução pela Editora Akal). Eu pessoalmente manifesto a esperança de que no- vas traduções completas das obras gramscianas (dos Cadernos, mas possivelmente também das Cartas do Cárcere, dos escritos pré-car- cerários e das cartas precedentes à prisão) estejam disponíveis ao menos em todas as principais línguas do mundo. Uma tradução tão abrangente quanto esta nova edição em lín- gua portuguesa, levada a termo em um período bastante limitado, graças ao empenho militante de muitos estudiosos e estudiosas da IGS-Brasil, apresenta inevitáveis problemas de amálgama da termi- nologia usada pelos vários tradutores, para exprimir temas e pro- blemas gramscianos. Certamente uma atenção especial a esta e a outras questões relacionadas será dada pelo grupo que levou adian- te este esforço coletivo tão relevante. O tempo, o debate público, o cotejo entre os estudiosos e os leitores nos dirá muito – nos próximos anos – sobre o resultado alcançado com esta edição e também, eventualmente, sobre o seu aperfeiçoamento. Contudo, permanecerá válida a direção que esta edição indica: traduzir e ler Gramsci inteiramente, em primeiro lu- gar aquele dos Cadernos, contextualizar sempre mais, no tempo e no espaço os seus escritos, as suas afirmações, as suas palavras, no contexto político e cultural nos quais nasceram, perquirindo tam- bém as variações e inclusive as contradições internas aos seus escri- tos – para melhor compreender o alcance atual do seu pensamento, a sua validade ou a sua tradutibilidade (conceito gramsciano de ex- traordinária relevância) no nosso mundo de hoje. V Desta perspectiva, o trabalho que a IGS-Brasil levou a termo é, sem dúvida, de grande importância e nos faz compreender como as obras de Gramsci devem ser seriamente lidas e estudadas. Por isso, saúdo a nova tradução dos Cadernos do Cárcere para o português e agradeço todas e todos aqueles que dela participaram e à IGS-Bra- sil no seu conjunto por ter dado vida a esta iniciativa. Sigamos em frente com Gramsci: Nino vive conosco se a sua lei- tura também nos ajudar a compreender a realidade da sociedade atual. Guido Liguori International Gramsci Society VI AGRADECIMENTOS A tradução dos Cadernos do Cárcere de Gramsci, realizada vo- luntária e gratuitamente por sócios da IGS-BR, foi submetida a re- visão e padronização de profissionais, aos quais se retribuiu finan- ceiramente. Realizamos uma campanha de arrecadação financeira entre os sócios da IGS-Brasil que ajudou a cobrir, parcialmente, essa despesa. Constam a seguir os doadores a quem se agradece pelo espírito coletivo: André Silva Martins (UFJF); Ascisio dos Reis Pe- reira (UFSCar); Danuta Estrufika C. Luiz (UEPG-PR); Dermeval Saviani (UNICAMP); Dilma Andrade de Paula (UFU); Douglas Christian F. de Melo (UFES); Emilie Faedo della Giustina (UFF); Erika Laurinda Amusquivar (UnB); Eurelino T.; Ivete Simionatto (UFSC); Leonardo Seabra Puglia (FCSMA-RJ); Lincoln Secco (USP); Luzinete de Souza Oliveira (ES); Márcia Aparecida Jaco- mini (UNIFESP); Marcos Aurélio da Silva (UFSC); Marcos Fran- cisco Martins (UFSCar); Marcos Del Roio (UNESP); Mª Del Carmen Cortizo (UFSC); Mª Margarida Machado (UFG); Mª Socorro R. Militão (UFU); Marilia Etienne Arreguy (UFF); Mari- na Maciel Abreu (UFMA); Pedro Cláudio C. B. Bocaiuva Cunha (UFRJ); Raúl Burgos (UFSC); Renê Trentin Silveira (UNI- CAMP); Rodolfo S. P. Darrieux (RJ); Victor Leandro C. Gomes (UFF); Zuleide Simas da Silveira (UFF); Núcleo de Estudos e Pes- quisas em Filosofia Política e Educação (NuFiPE/UFF); Núcleo de Estudos Trabalho, Políticas Públicas e Serviço Social (TRAPPUS/ PUC-Rio). Agradecemos também ao CNPq, pelo financiamento ao projeto: "Contribuições de Gramsci para pensar a educação de pessoas trabalhadoras" – coordenado pela Profª Mª Margarida Ma- chado (UFG), que viabilizou a diagramação desta 1ª Edição, e ao projeto: "Traduzir, atualizar, potencializar os desafios postos pelos Cadernos do Cárcere de A. Gramsci" – coordenado pela Profª Mª Socorro Ramos Militão (UFU), financiado por emenda da Depu- tada Federal por Minas Gerais, Dandara Tonantzin Silva Castro (PT), que viabilizou o lançamento desta 1ª Edição dos Cadernos do Cárcere pela IGS-Brasil. VII PREFÁCIO Etapas das traduções dos Cadernos do cárcere no Brasil Na segunda metade dos anos 1960, quando estava já instaurada a ditadura civil-militar no Brasil, a Editora Civilização Brasileira, além de uma seleção das Cartas do cárcere (1966)1, publicou uma parte substancial2 dos seis volumes dos Quaderni del carcere, de A. Gramsci, organizados por P. Togliatti e F. Platone e publicados pela Editora Einaudi de Turim3. Essa “Edição temática”, estrutura- da com base nos temas centrais tratados nos “cadernos especiais” de Gramsci, havia sido concebida pelos editores italianos para “agrupar as notas gramscianas por assuntos e temas homogêneos, e organizar tais agrupamentos em uma série de volumes indepen- 1 Com a seleção e tradução de Noênio Spínola, a Civilização Brasileira publica 233 Cartas do cárcere, de Gramsci, tendo como base a edição italiana organizada por S. Caprioglio e E. Fubini, Lettere dal carcere, publicada pela Einaudi de Turim, em 1965, que continha 428 cartas. 2 A Editora Civilização Brasileira publicou, em 1966: Concepção dialética da história (Título dado ao 1º volume italiano Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce); em 1967: Os intelectuais e a organização da cultura; Maquiavel, a política e o Estado moderno; em 1968: Literatura e vida nacional (contendo só uma seleção da edição original). Os volumes Il Risorgimento e também Passato e Presente não foram traduzidos. Para mais detalhes desse processo de publicação, cfr. C. Nelson Coutinho, “Introdução” a Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, vol. 1, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999, pp. 32-38. 3 Togliatti, P., - Platone, F. (a cura di), Quaderni del carcere di Gramsci, 6 voll, Ei- naudi, Torino, 1948-1951. Os títulos dos seis volumes da “edição temática” italia- na são os seguintes: Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce (1948); Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura (1949); Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno (1949); Il Risorgimento (1950); Letteratura e vita nazionale (1950); Passato e Presente (1951). Em 1977, com base na “edição crítica” de V. Gerratana, L. Gruppi organiza uma nova edição “riveduta e integrata” da “edição temática”, publicada pela Editora Riuniti de Roma. VIII dentes”(Gerratana, 1975, p. XXXIII)4. Na prática, ao editar os ca- dernos manuscritos de Gramsci produzidos na prisão, a “Edição te- mática” excluía os textos “miscelâneos”, notas de primeira redação, e depurava algumas partes dos cadernos que podiam gerar atritos com a orientação oficial do partido e a ortodoxia soviética (Liguo- ri, 1996, pp. 56-57)5. Embora importante, por ter proporcionado uma aproximação fundamental à obra carcerária de Gramsci, com o tempo, a tradução incompleta da “edição temática” realizada no Brasil se mostrou problemática e insuficiente, não sódo “Novo Príncipe”. Afirmou-se [1] que o pro- tagonista do Novo Príncipe não poderia ser, na época moderna, um herói pessoal, mas o partido político, isto é, em cada caso e nas diferentes relações internas das diversas nações, aquele determina- do partido que pretende (e está racional e historicamente funda- mentado para este fim) fundar um novo tipo de Estado. Deve-se observar como, nos regimes que se põem como totalitários, a fun- ção tradicional do instituto da Coroa é, na realidade, absorvida| por um determinado partido, que, aliás, é totalitário precisamente porque assume tal função. Embora todo partido seja a expressão de um grupo social, e de um só grupo social, porém, determinados partidos representam precisamente um só grupo social em determi- nadas condições, enquanto exercem uma função de equilíbrio e de arbitragem entre os interesses do próprio grupo e os outros grupos, fazendo com que o desenvolvimento do grupo representado ocorra com o consenso e com a ajuda dos grupos aliados, se não mesmo dos grupos decididamente adversários. A fórmula constitucional do rei ou do presidente da república que “reina mas não governa” é a fórmula jurídica que exprime esta função de arbitragem; a pre- ocupação dos partidos constitucionais de não “expor” a Coroa ou o presidente, as fórmulas sobre a não-responsabilidade do chefe de Estado pelos atos governamentais, mas sobre a responsabilidade ministerial, são a casuística do princípio geral de defesa da concep- |14a| 50 caderno 13 (xxx) ção da unidade estatal, do consenso dos governados à ação estatal, qualquer que seja o pessoal imediato de governo e o seu partido. Com o partido totalitário, estas fórmulas perdem o significado e são assim minimizadas as instituições que funcionavam segundo tais fórmulas; mas a própria função é incorporada pelo partido, que exaltará o conceito abstrato de “Estado” e procurará de vários mo- dos dar a impressão de que a função “de força imparcial” continua ativa e eficaz. CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 50 BIS – 51. § 〈22〉. Bibliografia. Em uma apreciação de Giuseppe Tarozzi so- bre o volume 1 da Costituzione russa de Mario Sertoli (Florença, Le Monnier, 1928, em 8º, pp. 435, L.50), publicada na “Italia che scrive”, é citado um livro de Vorländer, Von Machiavelli bis Lenin, sem outra indicação [1]. (Deve-se ver a resenha da literatura ma- quiaveliana mais recente, publicada em 1929 por Nuovi Studi) [2]. CF. CADERNO 4 (XIII), P. 60. § 〈23〉. Observações sobre alguns aspectos da estrutura dos parti- dos políticos nos períodos de crise orgânica (que devem ser vincula- das às notas sobre as situações e as relações de força) [1]. Em um certo ponto de sua vida histórica, os grupos sociais se separam de seus partidos tradicionais, isto é, os partidos tradicionais naquela dada forma organizativa, com aqueles determinados homens que os constituem, os representam e os dirigem, não são mais reconhe- cidos como expressão da sua classe ou fração de classe. Quando se verificam estas crises, a situação imediata torna-se delicada e peri- gosa, porque abre-se o campo às soluções de força, à atividade de potências ocultas representadas pelos homens providenciais ou ca- rismáticos. Como se formam estas situações de contraste entre re- presentantes e representados, que, a partir do terreno dos partidos (organizações de partido em sentido estrito, campo eleitoral-parla- mentar, organização jornalística), reflete-se em todo o organismo estatal, reforçando a posição relativa do poder da burocracia (civil 511932-1934: notas sobre maquiavel e militar), da alta finança, da Igreja e, em geral, de todos os organis- mos relativamente independentes das flutuações da opinião públi- ca? Em cada país o processo é diferente, embora o conteúdo seja o mesmo. E o conteúdo é a crise de hegemonia da classe dirigente, que ocorre ou porque a classe dirigente fracassou em algum grande empreendimento político para o qual pediu ou impôs pela força o consenso das grandes massas (como a guerra), ou porque amplas massas| (especialmente de camponeses e de pequenos burgueses intelectuais) passaram de repente da passividade política a uma certa atividade e apresentam reivindicações que, em seu conjunto desorganizado, constituem uma revolução. Fala-se de “crise de au- toridade” e isto é precisamente a crise de hegemonia, ou crise do Estado em seu conjunto. A crise cria situações imediatas perigosas, porque os diver- sos estratos da população não possuem a mesma capacidade de orientar-se rapidamente e de reorganizar-se com o mesmo ritmo. A classe dirigente tradicional, que tem um numeroso pessoal treinado, muda homens e programas e reassume o controle que lhe fugia com uma celeridade maior do que a que ocorre entre as classes subalternas; faz talvez sacrifícios, expõe-se a um futuro obscuro com promessas demagógicas, mas mantém o poder, o reforça momentaneamente e dele se serve para esmagar o adver- sário e dispersar o pessoal da direção, que não pode ser muito numeroso nem muito treinado. A passagem das tropas de muitos partidos sob a bandeira de um único partido, que melhor repre- senta e sintetiza as necessidades de toda uma classe é um fenôme- no orgânico e normal, ainda que seu ritmo seja muito rápido e quase fulminante em relação aos tempos tranquilos: representa a fusão de todo um grupo social sob uma só direção, considerada a única capaz de resolver um problema dominante existencial de afastar um perigo mortal. Quando a crise não encontra esta solu- ção orgânica, mas a do chefe carismático, isto significa que existe um equilíbrio estático (cujos fatores podem ser muito variados, mas entre os quais prevalece a imaturidade das forças progressi- vas), que nenhum grupo, nem o conservador nem o progressivo, |15| 52 caderno 13 (xxx) dispõe da força necessária à vitória* e que até o grupo conserva- dor tem necessidade de um senhor (cf. O 18 Brumário de Luís Napoleão)[2]. Esta ordem de fenômenos liga-se a uma das questões mais im- portantes concernentes ao partido político, isto é, à capacidade do partido de reagir contra o espírito consuetudinário, contra as ten- dências a se mumificar e tornar anacrônico. Os partidos nascem e se constituem em organização para dirigir a situação em momentos historicamente vitais para suas classes; mas nem sempre eles sabem adaptar-se às novas tarefas e às novas épocas, nem sempre sabem desenvolver-se segundo o desenvolvimento das complexas relações de força (e, portanto, a posição relativa de suas classes) no país em questão ou no campo internacional. Ao analisar estes desenvolvi- mentos dos partidos, é necessário distinguir: o grupo social, a mas- sa partidária, a burocracia e o Estado-Maior do partido. A buro- cracia é a força consuetudinária e conservadora mais perigosa; se ela chega a se constituir um corpo solidário, voltado para si mesmo e independente da massa, o partido termina por se tornar anacrô- nico e, nos momentos de crise aguda é esvaziado de seu conteúdo social e fica como se estivesse solto no ar. Pode-se ver o que acontece com uma série de partidos alemães pela expansão do hitlerismo. Os partidos franceses são um campo rico para tais investigações: estão todos mumificados e anacrônicos, são documentos histórico-polí- ticos das diversas fases da história passada francesa, que repetem a terminologia envelhecida: a crise deles pode se tornar ainda mais catastrófica do que a dos partidos alemães. Ao examinar esta ordem de acontecimentos geralmente se esque- ce de dar o lugar devido ao elemento burocrático, civil e militar e não se leva em conta, além disso, que tais análises não devem incluir apenas os elementos militares e burocráticos ativos|, mas as cama- das sociais a partir das quais, nos complexos estatais constituídos, a burocracia é tradicionalmente arregimentada. Um movimento |15a| * NO MS: “O TEXTO CONTÉM UMA PALAVRA ILEGÍVEL, AQUI INTEGRADA SEGUNDO O SIGNIFICADO.” 531932-1934: notas sobre maquiavel político podeser de caráter militar mesmo se o exército como tal não participe abertamente; um governo pode ser de caráter militar, mesmo se o exército como tal não participe do governo. Em deter- minadas situações pode acontecer que seja conveniente não deixar o exército “descoberto”, não deixá-lo sair da constitucionalidade, não levar a política entre os soldados, como se diz, para manter a homogeneidade entre oficiais e soldados em um campo de aparente neutralidade e superioridade entre as facções; no entanto é o exér- cito, ou seja, o Estado Maior e a oficialidade que determina a nova situação e a dominam. Desta forma, não é verdade que o exército, conforme as constituições, nunca deve* tomar parte na política; o exército deveria, precisamente, defender a Constituição, isto é, a forma legal do Estado com as instituições correlacionadas. Por isso, a assim chamada neutralidade significa apenas apoio à parte con- servadora, mas em tais situações é necessário colocar desta forma a questão para impedir que se reproduza no exército o dissenso do país e, com isso, desapareça o poder determinante do Estado Maior pela desagregação do instrumento militar. Todos estes elementos de observação certamente não são absolutos e têm um peso muito diferente nos diversos momentos históricos e nos vários países. A primeira pesquisa a fazer é esta: existe em um determinado país um estrato social disseminado para o qual a carreira burocrá- tica, civil e militar, seja elemento muito importante de vida econô- mica e de afirmação política (participação efetiva no poder, embora indiretamente, por “chantagem”)? Na Europa moderna este estrato pode ser identificado na pequena e média burguesia rural, que é mais ou menos difundido nos diversos países conforme o desen- volvimento das forças industriais de um lado e da reforma agrária de outro. Certamente a carreira burocrática (civil e militar) não é um monopólio deste estrato social, entretanto ela lhe é particular- mente adequada pela função social que este estrato exerce e pelas tendências psicológicas que a função determina ou favorece; esses dois elementos proporcionam ao conjunto do grupo social uma certa homogeneidade e energia de direção, agregando um valor * NO MS: “DEVEM”. 54 caderno 13 (xxx) político e uma função muitas vezes decisiva no conjunto do orga- nismo social. Os componentes deste grupo estão habituados a co- mandar diretamente núcleos de homens, ainda que pequenos, e a dirigir “politicamente” e não “economicamente”; isto é, em sua arte de comando não existe aptidão para ordenar “coisas”, a organizar “homens e coisas” em um todo orgânico, como acontece na produ- ção industrial, porque este grupo não tem funções econômicas no sentido moderno da palavra. Esse grupo tem renda porque juridi- camente é proprietário de uma parte do solo nacional e sua função consiste em competir “politicamente” com o camponês agricultor no aperfeiçoamento de sua própria existência, porque qualquer melhoramento da posição relativa do camponês seria catastrófico para sua posição social. A miséria crônica e o trabalho prolongado do camponês, com o consequente embrutecimento, são para eles uma necessidade primordial. Por isso, aplica a máxima energia na resistência e no contra-ataque a toda tentativa mínima de organiza- ção autônoma do trabalho camponês e a todo movimento cultural camponês que ultrapasse os limites da religião oficial. Os limites deste grupo social e as razões de sua íntima fragilidade encontra-se na sua dispersão territorial e na “não-homogeneidade” que está inti- mamente ligada a esta dispersão; isto explica também outras carac- terísticas: a volubilidade, a multiplicidade de sistemas ideológicos seguidos, a mesma | excentricidade das ideologias às vezes seguidas. A vontade se orienta para um fim, mas é morosa e geralmente tem necessidade de um longo processo para centralizar-se organizativa e politicamente. O processo se acelera quando a “vontade” especí- fica deste grupo coincide com a vontade e os interesses imediatos da classe alta; não apenas o processo se agiliza, como subitamente se manifesta a “força militar” deste estrato que, às vezes, tendo-se organizado, dita leis à classe alta, se não no conteúdo, ao menos no que se refere à “forma” da solução. Vê-se aqui funcionar as mesmas leis que foram assinaladas [3] para as relações cidade-campo no que se refere às classes subalternas: a força da cidade torna-se automati- camente a força do campo, mas como os conflitos no campo assu- mem imediatamente um caráter agudo e “pessoal” pela ausência de margens econômicas e pela pressão geralmente mais pesada exerci- |16| 551932-1934: notas sobre maquiavel da de cima para baixo, assim, no campo os contra-ataques devem ser mais rápidos e decisivos. Este grupo entende e vê que a origem de seus problemas está nas cidades, na força das cidades e, portanto, entende que “deve” ditar a solução às classes altas urbanas, a fim de que o fogo principal seja apagado, ainda que isso não seja imedia- tamente conveniente às classes altas urbanas, ou porque é muito dispendioso ou porque é perigoso a longo prazo (essas classes veem ciclos mais amplos de desenvolvimento, nos quais é possível mano- brar e não apenas o interesse “físico” imediato). É neste sentido que deve ser entendida a função diretiva desse estrato e não em sentido absoluto; todavia, isso não é pouca coisa. Um reflexo desse grupo é visto na atividade ideológica dos in- telectuais conservadores, de direita. O livro de Gaetano Mosca Teorica dei governi e governo parlamentare (II ed. del 1925, I ed. del 1883) [4] é exemplar a este respeito; desde 1883, Mosca temia um possível contato entre a cidade e o campo. Mosca, devido à sua posição defensiva (contra-ataque), entendeu melhor em 1883 a técnica da política das classes subalternas do que os representantes dessas forças subalternas, inclusive urbanas, mesmo várias décadas depois. (Deve-se notar que este caráter “militar” do grupo social em questão, que era tradicionalmente um reflexo espontâneo de certas condições de existência, é agora conscientemente educado e prepa- rado organicamente. Este movimento consciente inclui os esforços sistemáticos para criar e manter estavelmente várias associações de militares reformados e ex-combatentes dos vários corpos e armas, especialmente oficiais, que estão vinculados ao Estado-Maior e podem ser chamados quando necessário sem a necessidade de mo- bilizar o exército recrutado, que manteria assim seu caráter de re- serva de alerta, fortalecida e imunizada da decomposição política por essas forças “privadas” que não podem deixar de influir sobre sua “moral”, apoiando-o e fortalecendo-o. Pode-se dizer que existe um movimento do tipo “cossaco”, não em formações escalonadas ao longo das fronteiras de nacionalidades, como era o caso dos cossa- cos czaristas, mas ao longo das “fronteiras” de grupo social). 56 caderno 13 (xxx) Em toda uma série de países, portanto, a influência do elemento militar na vida do Estado não significa apenas a influência e o peso do elemento técnico militar, mas a influência e o peso do estrato social do qual o elemento técnico militar (especialmente os subor- dinados) se origina especialmente. Esta série de observações são indispensáveis para analisar o aspecto mais íntimo daquela forma política particular que costuma se chamar cesarismo ou bonapar- tismo, para distingui-la de outras formas em que predomina o ele- mento técnico militar como tal, em formas talvez ainda mais os- tentosas e exclusivas. A Espanha e a Grécia oferecem dois exemplos típicos, com características semelhantes e diferentes. Na Espanha, algumas particularidades devem ser consideradas: tamanho e baixa densidade da população | camponesa. Entre a nobreza latifundiá- ria e o campesinato não existe uma burguesia rural numerosa, há pouca importância da oficialidade subalterna como força em si (ao contrário, tinham uma certa importância antagônica a oficialida-de das armas especializadas, artilharia e gênio, de origem burguesa urbana, que se opunham aos generais e tentavam ter uma política própria). Os governos militares são, portanto, governos de “gran- des” generais. Passividade das massas camponesas como cidadania e como tropa. Se no exército se verifica a desintegração política, é em sentido vertical, não horizontal, devido à competição das facções dominantes: a tropa se divide para seguir os líderes em luta entre si. O governo militar é um parêntese entre dois governos constitucio- nais; o elemento militar é a reserva permanente da ordem e da con- servação, é uma força política atuante de “modo público” quando a “legalidade” está em perigo. O mesmo acontece na Grécia, com a diferença que o território grego é espalhado em um sistema de ilhas e que uma parte da população mais enérgica e ativa está sem- pre no mar, o que torna a intriga e a conspiração militar mais fáceis; tanto o camponês grego quanto o espanhol são passivos, porém, no quadro da população total, o grego é mais enérgico e ativo por ser marinheiro e se encontra quase sempre distante do seu centro de vida política, [por isso] a passividade geral deve ser analisada de modo diverso e a solução do problema não pode ser a mesma (os |16a| 571932-1934: notas sobre maquiavel tiroteios que ocorreram na Grécia anos atrás contra membros de um governo derrubado, provavelmente devem ser explicados por uma explosão de raiva deste elemento enérgico e ativo que queria dar uma lição sangrenta). O que se deve observar especialmente é que, na Grécia e na Espanha a experiência do governo militar não criou uma ideologia política e social permanente e formalmente orgânica, como acontece em países potencialmente bonapartistas, por assim dizer. Mas as condições históricas gerais dos dois tipos são as mesmas: equilíbrio dos grupos urbanos em luta, o que im- pede o jogo da democracia “normal”, o parlamentarismo; porém, a influência do campo neste equilíbrio é diferente. Em países como a Espanha, o campo, completamente passivo, permite aos generais da nobreza latifundiária servirem-se politicamente do exército para restaurar o equilíbrio ante os perigos, isto é, em proveito dos grupos superiores. Em outros países o campo não é passivo, mas o seu movimento não é politicamente coordenado ao movimento urbano; o exército deve permanecer neutro, pois é possível que, de outra forma, ele se desintegre horizontalmente (permanecerá neu- tro até certo ponto, é claro) e, em vez dele, entre em ação a classe militar-burocrática que, com meios militares, sufoca o movimento no campo (imediatamente mais perigoso); nesta luta encontra uma certa unificação política e ideológica, encontra aliados nas classes médias urbanas (médias no sentido italiano), reforçada pelos estu- dantes de origem rural que vivem na cidade, impõe seus métodos políticos às classes altas, que devem fazer muitas concessões e per- mitir uma determinada legislação favorável; enfim, consegue, até certo ponto, permear o Estado com seus interesses e substituir uma parte do pessoal dirigente, continuando a manter-se armada em meio ao desarmamento geral e prevendo o perigo de uma guerra civil entre os próprios recrutas e o exército regular, se a classe alta mostrar ambições excessivas de resistência. Estas observações não devem ser entendidas como esquemas rígidos, mas somente como critérios práticos de interpretação histórica e política. Nas análises concretas de eventos reais, as formas históricas são identificadas e quase “únicas”. César repre- 58 caderno 13 (xxx) senta uma combinação de circunstâncias reais muito diferentes daquela representada por Napoleão I, como Primo | De Rivera daquele de Zivkovic etc. Nas análises do terceiro grau ou momento do sistema de relações de força existentes em uma dada situação, pode-se recorrer provei- tosamente ao conceito que na ciência militar se denomina “conjun- tura estratégica”, ou seja, com maior precisão, ao grau de prepara- ção estratégica do teatro da luta, um dos principais elementos que é dado pelas condições qualitativas do pessoal dirigente e das forças ativas que podem ser chamadas de linha de frente (compreendidas inclusive as de assalto). O grau de preparação estratégica pode dar a vitória a forças “aparentemente” (isto é, quantitativamente) infe- riores às do adversário. Pode-se dizer que a preparação estratégica tende a reduzir a zero os assim chamados “fatores imponderáveis”, ou seja, as reações imediatas de surpresa por parte, em determinado momento, das forças tradicionalmente inertes e passivas. Entre os elementos da preparação de uma conjuntura estratégica favorável estão precisamente aqueles considerados nas observações sobre a existência e a organização de uma camada militar junto ao organis- mo técnico do exército nacional. Outros elementos podem ser elaborados a partir deste trecho do discurso proferido no Senado em 19 de maio de 1932 pelo Minis- tro da Guerra General Gazzera (cf. «Corriere della Sera» de 20 de maio): “O regime de disciplina do nosso Exército em virtude do Fascismo parece hoje ser uma diretriz que tem valor para toda a nação. Outros exércitos tiveram e ainda conservam uma discipli- na formal e rígida. Nós temos sempre presente o princípio de que o Exército é feito para a guerra e que deve se preparar para ela; a disciplina de paz deve ser, portanto, a mesma do tempo de guerra que, no tempo de paz, deve encontrar o seu fundamento espiritual. Nossa disciplina se baseia sobre um espírito de coesão entre os líde- res e os subordinados que é fruto espontâneo do sistema seguido. Este sistema resistiu magnificamente durante uma longa e duríssi- ma guerra até a vitória; é o mérito do Regime fascista por ter esten- dido a todo o povo italiano uma tradição disciplinar tão distinta. |17| 591932-1934: notas sobre maquiavel Da disciplina dos indivíduos depende o resultado da concepção estratégica e das operações táticas. A guerra ensinou muitas coisas e também que há uma lacuna profunda entre a preparação para a paz e a realidade da guerra. Certo é que, qualquer que seja a prepa- ração, o início da campanha coloca os beligerantes diante de novos problemas que suscitam surpresas de ambos os lados. No entanto, não devemos extrair como consequência disso, que não seja útil ter uma concepção a priori e que nenhum ensinamento pode ser deri- vado da guerra passada. Daí se pode extrair uma doutrina de guer- ra que deve ser entendida com disciplina intelectual e como meio de promover formas de raciocínio e uniformidade de linguagem não discordantes, de modo a permitir que todos entendam e sejam compreendidos. Se, por vezes, a unidade da doutrina ameaçava de- generar-se em esquematismo, prontamente se reagia, imprimindo à tática, também pelos progressos da técnica, uma rápida renova- ção. Tal regulamentação, portanto, não é estática, não é tradicional, como alguns acreditam. A tradição é considerada apenas como for- ça e os regulamentos são sempre revistos, não por desejo de mudan- ça, mas para poder adaptá-los à realidade” [5] (Uma exemplificação de “preparação da conjuntura estratégica” pode-se encontrar em Memorie de Churchill, onde fala da batalha de Yütland) [6]. Um elemento a acrescentar ao parágrafo do economicismo, como uma exemplificação das chamadas teorias da intransigência, é aquele da rígida aversão de princípios aos chamados compromissos, as quais têm como manifestação subordinada aquela que se| pode chamar de “medo dos perigos”. É claro que a aversão de princípio aos compromissos está intimamente ligada ao economicismo en- quanto, a concepção sobre a qual se funda esta aversão, não pode haver outra coisa senão a convicção férrea de que existem leis ob- jetivas do mesmo caráter que as naturais para o desenvolvimento histórico, mais a persuasão de um finalismo fatalista de natureza semelhante ao religioso: visto que as condições favoráveis ocorre- rão inevitavelmente e determinarão,de forma um tanto misteriosa, eventos palingenéticos, resulta não só a inutilidade, mas o dano de qualquer iniciativa voluntária tendente a preparar essas situações |17a| 60 caderno 13 (xxx) de acordo com um plano. Ao lado dessas convicções fatalistas, no entanto, há a tendência de confiar “na sequência” cegamente e por escrito na virtude reguladora das armas, o que, no entanto, não é totalmente destituído de uma lógica e uma coerência, pois se pen- sa que a intervenção da vontade é útil para a destruição, não para a reconstrução (já em andamento no momento da destruição). A destruição é mecanicamente concebida não como destruição-re- construção [7]. Em tal modo de pensar não se tem em consideração o fator “tempo” e também não se considera, em última análise, da mesma “economia”, no sentido que não se entende como os fatos ideológicos de massa estão sempre atrás dos fenômenos econômi- cos de massa e como, portanto, em certos momentos o impulso automático devido ao fator econômico é retardado, dificultado ou mesmo momentaneamente quebrado por elementos ideológi- cos tradicionais e que, portanto, deve haver uma luta consciente e predisposta para “compreender” as exigências da posição eco- nômica de massa que podem estar em contraste com as diretrizes dos líderes tradicionais. Uma iniciativa política apropriada é sem- pre necessária para libertar o impulso econômico dos grilhões da política tradicional, isto é, para mudar a direção política de certas forças que devem ser absorvidas para realizar um novo bloco histó- rico econômico-político, homogêneo, sem contradições internas; e uma vez que duas forças “semelhantes” não podem se fundir em um novo organismo senão por meio de uma série de compromissos ou com a força das armas, aliando-as sob um plano de aliança ou subordinando uma à outra por meio de coerção, a questão é se se tem esta força e se é “produtivo” empregá-la. Se a união de duas forças é necessária para vencer uma terceira, o uso de armas e de coerção (desde que estejam disponíveis) é uma hipótese puramente metódica e a única possibilidade concreta é o compromisso, pois a força pode ser usada contra os inimigos, não contra uma parte de si mesmo que se deseja assimilar rapidamente e da qual são necessá- rias a “boa vontade” e o entusiasmo. (A propósito da “categoria militar” é interessante o que escreve T. Tittoni nos “Ricordi personali di politica interna”, «Nuova An- 611932-1934: notas sobre maquiavel tologia» – 01-16 de abril de 1929. Tittoni conta ter meditado so- bre o fato de que, para reunir a força pública necessária para enfren- tar os tumultos que eclodiram em uma localidade, era necessário desguarnecer outras regiões: durante a semana vermelha de junho de 1914, para reprimir os tumultos de Ancona, se desguarneceu Ravenna, onde então o prefeito, privado da força pública, teve que se fechar na Prefeitura, abandonando a cidade aos revoltosos. “Várias vezes tive que me perguntar: o que o governo poderia ter feito se uma revolta estourasse ao mesmo tempo em toda a penín- sula”. Tittoni propôs ao governo o recrutamento de “voluntários da ordem”, ex-combatentes contratados por oficiais aposentados. O projeto de Tittoni parecia digno de consideração, mas não teve seguimento) [8]. CF. CADERNO 4 (XIII), P. 39; CADERNO 7 (VII), P. 41 BIS; CADERNO 4 (XIII), PP. 36-38 BIS; CADERNO 9 (XIV), PP. 30, 21-22, 30-31. |§ 〈24〉. A propósito das comparações entre os conceitos de guerra manobrada e guerra de posição na arte militar e os con- ceitos relativos na arte política, deve-se lembrar o livro da Rosa traduzido em italiano em 1919, por C. Alessandri (traduzido do francês) [1]. No livro, se teorizam um pouco apressada e também superficialmente, as experiências históricas de 1905: na verdade, Rosa negligenciou os elementos “voluntários” e organizativos que naqueles acontecimentos eram muito mais difundidos e eficien- tes do que Rosa era levada a crer devido a um seu preconceito “econômico” e espontaneísta. Entretanto, esta publicação (e ou- tros ensaios da mesma autora) é um dos documentos mais signi- ficativos de teorização da guerra manobrada aplicada à arte polí- tica. O elemento econômico imediato (crise, etc.) é considerado como a artilharia campal que na guerra abriu passagem na defesa inimiga, uma brecha suficiente para que as próprias tropas façam irrupções e obtenham um sucesso definitivo (estratégico) ou ao menos um sucesso importante na direção da linha estratégica. Naturalmente, na ciência histórica, a eficácia do elemento econô- mico imediato é considerada muito mais complexa do que a da |18| 62 caderno 13 (xxx) artilharia pesada* na guerra de manobra, porque esse elemento foi concebido como tendo um duplo efeito: 1) de abrir caminho na defesa inimiga depois de ter abatido o próprio inimigo e fei- to com que perdesse a confiança em si mesmo, em suas forças e em seu futuro; 2) de organizar rapidamente suas próprias tropas, criar os esquemas, ou pelo menos organizar os quadros existentes (elaborados até então pelo processo histórico geral) fulminan- temente em seu lugar de organização das tropas dispersas; 3) de criar rapidamente a concentração ideológica da identidade do fim a ser alcançado. Era uma forma de rígido determinismo eco- nomicista, com o agravante de que os efeitos eram concebidos de modo muito rápido no tempo e no espaço; portanto, foi um verdadeiro misticismo histórico, a expectativa de uma espécie de fulguração milagrosa. A observação do general Krasnov (em seu romance) [2] de que a Entente (que não queria uma vitória da Rússia imperial, para que a questão oriental não fosse definitivamente resolvida em favor do czarismo) impôs uma guerra de trincheiras ao Estado-Maior Russo (absurdo, dado o enorme desenvolvimento da frente do Báltico ao Mar Negro, com grandes áreas pantanosas e arborizadas) enquan- to a única possível era a guerra manobrada, é mero despropósito. Na realidade, o exército russo tentou uma guerra de manobra e de avanço, especialmente no setor austríaco (mas também na Prússia Oriental) e teve sucessos brilhantes, embora efêmeros. A verdade é que não se pode escolher a forma de guerra que se deseja, a menos que se tenha alcançado uma superioridade avassaladora sobre o ini- migo, e é notório quantas perdas custou a obstinação dos Estados Maiores em não querer reconhecer que a guerra de posição foi “im- posta” pelas relações gerais das forças em confronto. Na verdade, a guerra de posição não é constituída apenas por trincheiras propria- mente ditas, mas por todo o sistema organizativo e industrial do território que está por trás do exército implantado e é especialmen- te imposta pelo disparo rápido dos canhões e das metralhadoras, * NO MS: “MUITO MAIS COMPLEXO DO QUE A ARTILHARIA PESADA”. 631932-1934: notas sobre maquiavel da concentração das armas em determinado ponto, mais do que da abundância de oferta que permite repor rapidamente o material perdido após um avanço e um recuo. Um outro elemento é a grande massa de homens que participam da linha de frente, de valor muito desigual e que, na verdade, só pode atuar como uma massa. Viu-se como na frente oriental uma coisa era invadir o setor alemão e ou- tra o setor austríaco e como também no setor austríaco, reforçado por tropas alemãs de elite e comandadas por alemães, a impetuosa tática terminou em desastre. A mesma coisa se viu na guerra polaca de 1920 | quando o avanço que parecia irresistível foi detido na frente de Varsóvia pelo general Weygand na linha comandada por oficiais franceses. Os mesmos técnicos militares, que agora se fixa- ram na guerra de posição como antes estavam fixados na guerra ma- nobrada, certamente não argumentam que o tipo precedente deva ser considerado como banido da ciência; mas, nas guerras entre os Estados mais avançados industrialmente e civilmente, a guerra de manobra deve ser considerada reduzida à função tática mais do que à estratégica, deve ser considerada na mesmaposição em que se encontrava anteriormente a guerra de assédio, em comparação com a guerra manobrada. A mesma redução deve ocorrer na arte e na ciência política, ao menos no que diz respeito aos Estados mais avançados, onde a “sociedade civil” se tornou uma estrutura muito complexa e resistente às “irrupções” catastróficas do elemento eco- nômico imediato (crises, depressões etc.); as superestruturas da so- ciedade civil são como o sistema de trincheiras na guerra moderna. Assim como nesta última acontecia que um ataque impetuoso de artilharia parecia ter destruído todo o sistema defensivo do adver- sário, mas ao contrário, havia apenas destruído a superfície externa e no momento do ataque e avanço os atacantes se encontravam em frente a uma linha defensiva ainda eficiente, assim acontece na polí- tica durante as grandes crises econômicas; nem as tropas de ataque, como resultado da crise, se organizam com agilidade no tempo e no espaço, nem adquirem um espírito agressivo; por outro lado, os atacados não se desmoralizam nem abandonam as suas defesas, mesmo nos escombros, nem perdem a confiança nas suas próprias forças e no seu futuro. Certamente as coisas não permanecem tais |18a| 64 caderno 13 (xxx) e quais eram, mas é certo que falta o elemento da rapidez, do tem- po acelerado, da marcha progressiva definitiva, como esperariam os estrategistas do cadornismo político. O último fato desse tipo na história da política foram os acontecimentos de 1917. Estes even- tos marcaram uma virada decisiva na história da arte e da ciência da política. Trata-se, portanto, de estudar em “profundidade” quais são os elementos da sociedade civil que correspondem aos sistemas de defesa na guerra de posição. Diz-se com “profundidade” ao dese- nho, porque tem sido estudado, mas de pontos de vista superficiais e banais, como certos historiadores do vestuário estudam as esqui- sitices da moda feminina, ou de um ponto de vista “racionalista”, isto é, com a persuasão de que certos fenômenos são destruídos tão logo sejam explicados de modo “realista”, como se fossem supersti- ções populares (que, de resto, também estas não se destroem com sua explicação). A este nexo de problemas deve-se reconectar a questão do es- casso sucesso obtido pelas novas correntes do movimento sindi- cal. Uma tentativa de iniciar uma revisão dos métodos táticos deve- ria ter sido aquela exposta por L. Davidovic Bronstein* na quarta reunião, quando fez uma comparação entre a Frente oriental e ocidental, aquela caiu imediatamente, mas foi seguida por árduas lutas: nesta as lutas ocorreriam “primeiro”. Isto é, tratar-se-ia de saber se a sociedade civil resiste antes ou depois do assalto, onde isso acontece etc. A questão, porém, foi exposta apenas em bri- lhante forma literária, mas sem indicações de caráter prático [3]. CF. CADERNO 7 (VII), PP. 56-57. § 〈25〉. A “duplicidade” e “ingenuidade” de Maquiavel. Cf. Artigo de Adolfo Oxilia “Machiavelli nel teatro” («Cultura» de out.-dez. 1933). Interpretação romântico-liberal de Maquiavel (Rousseau no Contratto Sociale, III, 6; Foscolo nos Sepolcri; Mazzini, no breve ensaio sobre Machiavelli). Mazzini escreve: “Eis o que seus princí- * NO MS: “L. DAV. BR.”. 651932-1934: notas sobre maquiavel pios, fracos e vis como são, farão para vos dominar: agora pensem nisso”. Rousseau* vê em Maquiavel um “grande republicano”, que foi | forçado pelos tempos - sem resultar em qualquer dano à sua dignidade moral –a “déguiser son amour pour la liberté” [disfarçar seu amor pela liberdade” N.T.] e a fingir dar lições aos reis para dar “des grandes aux peuples” [dar grandes aos povos N.T.]. Fillipo Burzio notou que tal interpretação, em vez de justificar moralmen- te o Maquiavelismo, na verdade sugere um “Maquiavelismo ao qua- drado”: já que o autor de o Príncipe não só estaria dando conselhos sobre a fraude, mas também com fraude, em detrimento daqueles mesmos a quem se dirige. Esta interpretação “democrática” de Maquiavel remontaria ao Cardeal Polo e a Alberico Gentile (seria bom ver o livro de Villari e aquele de Tommasini na parte que se refere ao sucesso de Ma- quiavel) [1]. Parece-me que o excerto [2] de Traiano Boccalini no Ragguagli del Parnaso seja muito mais significativo do que todas as abordagens dos “grandes estudiosos da política” e que tudo se reduza a uma aplicação do provérbio vulgar “quem sabe o jogo não o ensine”. A corrente “antimaquiavélica” nada mais é do que a ma- nifestação teórica deste princípio da arte política elementar: que certas coisas se fazem, mas não se dizem. Precisamente desta questão parece nascer o problema mais in- teressante: por que Maquiavel escreveu o Príncipe não como uma “memória” secreta ou reservada, como “instruções” de um con- selheiro a um príncipe, mas como um livro que deveria ir para as mãos de todos? Para escrever uma obra de “ciência” desinteressada, como se poderia deduzir das alusões de Croce? [3] Isso parece ser contra o espírito dos tempos, parece ser uma concepção anacrôni- ca. Por “ingenuidade” dado que Maquiavel é visto como um teórico e não como homem de ação? Não parece aceitável a hipótese da “in- genuidade” vaidosa e “tagarela”. É necessário reconstruir os tempos e as exigências que Maquiavel viu neles. Na realidade, parece que podemos dizer, apesar de o Príncipe ter um destino específico, que |19| *NO MS: “PARA ROUSSEAU”. 66 caderno 13 (xxx) o livro não foi escrito para ninguém e para todos: foi escrito para um hipotético “homem da providência”, que poderia se manifestar assim como se manifestou Valentino ou outros dirigentes, do nada, sem tradição dinástica, pelas suas excepcionais qualidades milita- res. A conclusão de o Príncipe justifica todo o livro também para as massas populares que realmente esquecem os meios utilizados para alcançar um fim se este fim é historicamente progressivo, isto é, resolve os problemas essenciais da época e estabelece uma ordem na qual seja possível mover-se, agir e trabalhar pacificamente. Ao se interpretar Maquiavel, ignora-se que a Monarquia absoluta era, na- queles tempos, uma forma de regimento popular que contava com o apoio da burguesia contra os nobres e também contra o clero. (Oxilia sugere a hipótese que a interpretação democrática de Ma- quiavel no período 1700-1800 foi reforçada e tornada mais eviden- te pelo Giorno de Parini, “satírico instrutor do jovem senhor, como Maquiavel – em outros tempos, com homens de outra natureza e qualidade – teria sido o trágico instrutor do príncipe” [4]. § 〈26〉. Hegemonia político-cultural. É ainda possível, no mundo moderno, a hegemonia cultural de uma nação sobre outras? Ou o mundo já está de tal forma unificado na sua estrutura econômico- -social que um país, se pode ter “cronologicamente” a iniciativa de uma inovação, contudo, não pode manter seu “monopólio políti- co” e, portanto, servir-se de tal monopólio como base da hegemo- nia? Que significado pode ter hoje o nacionalismo? Isso não seria possível como “imperialismo” econômico-financeiro, mas não mais como “primado” |civil ou hegemonia político-intelectual? CF. CADERNO 9 (XIV), P. 94. § 〈27〉. O Cesarismo. Cesar, Napoleão I, Napoleão III, Cromwell, etc. Compilar um catálogo dos eventos históricos que culminaram em uma grande personalidade “heroica”. Pode-se dizer que o cesaris- mo expressa uma situação em que as forças em luta se equilibram de modo catastrófico, isto é, se equilibram de tal forma que a continu- ação da luta só pode terminar com a destruição recíproca. Quando a força progressiva A luta com a força regressiva B, pode acontecer |19a| 671932-1934: notas sobre maquiavel não só que A vença B ou B vença A, pode também acontecer que nem A nem B vençam, mas se enfraqueçam mutuamente e uma ter- ceira força C intervenha do exterior submetendo o que resta de A e de B. Na Itália, após a morte do Magnífico, isso aconteceu, como havia acontecido no mundo antigo com as invasões bárbaras. Mas o cesarismo, se exprimesempre a solução “arbitral”, confia- da a uma grande personalidade, de uma situação histórico-políti- ca caracterizada por um equilíbrio de forças com uma perspectiva catastrófica, nem sempre tem o mesmo significado histórico. Pode haver um cesarismo progressivo e um regressivo e o significado exa- to de cada forma de cesarismo, em última análise, pode ser recons- truído a partir da história concreta e não de um esquema socioló- gico. O cesarismo é progressivo, quando sua intervenção ajuda a força progressiva a triunfar, ainda que com certos compromissos e compromissos limitativos de vitória; é regressivo quando a sua intervenção ajuda a força regressiva a triunfar, também neste caso com certos compromissos e limitações, mas que têm um valor, um alcance e um significado diferentes dos do caso precedente. Cesar e Napoleão I são exemplos de cesarismo progressivo. Napoleão III e Bismark de cesarismo regressivo. Trata-se de verificar se na dialética “revolução-restauração” é o elemento revolução ou aquele da res- tauração que prevalece, pois é certo que no movimento histórico não há retrocesso e não há restaurações “in toto” . De resto, o cesa- rismo é uma fórmula polêmico-ideológica e não um cânone de in- terpretação histórica. Pode-se ter uma solução cesarista mesmo sem um César, sem uma grande personalidade heroica e representativa. Também o sistema parlamentar gerou um mecanismo para tais so- luções de compromisso. Os governos “trabalhistas” de Mac Donald adotavam até certo ponto essas soluções; o grau de cesarismo se in- tensificou quando o governo foi formado com Mac Donald como presidente e a maioria conservadora. Assim, na Itália de outubro de 1922, até o afastamento dos populares e depois gradualmente até 3 de janeiro de 1925 e novamente até 8 de novembro de 1926, hou- ve um movimento histórico-político em que diferentes gradações do cesarismo se sucederam até uma forma mais pura e permanente, 68 caderno 13 (xxx) embora também sem ser imóvel e estática. Todo governo de coali- zão tem um grau inicial de cesarismo, que pode ou não se desenvol- ver até graus mais significativos (naturalmente a opinião vulgar, ao contrário, é a de que os governos | da coalizão são a “mais sólida” fortaleza contra o cesarismo). No mundo moderno, com suas grandes coalizões econômico-sin- dicais e político-partidárias, o mecanismo do fenômeno cesarista é muito diferente do que foi até Napoleão III. No período até Napo- leão III, as forças militares regulares ou de carreira foram um elemen- to decisivo para o advento do cesarismo, que ocorria com golpes de Estado precisos, de ações militares etc. No mundo moderno, as for- ças sindicais e políticas, com os meios financeiros incalculáveis dos quais podem dispor os pequenos grupos de cidadãos, complicam o problema. Os funcionários dos partidos e dos sindicatos econômicos podem ser corrompidos ou aterrorizados, sem a necessidade de ação militar em grande estilo, como César ou 18 Brumário. Reproduz-se neste campo a mesma situação examinada a propósito da fórmula jacobina de 1848, da chamada “revolução permanente” [1]. A técni- ca política moderna mudou completamente depois de 1848, depois da expansão do parlamentarismo, do regime associativo sindical e de partido, do formar-se de extensas burocracias estatais e “priva- das” (político-privadas, partidárias e sindicais) e as transformações ocorridas na organização da polícia em sentido amplo, isto é, não somente do serviço estatal destinado à repressão da delinquência, mas do conjunto das forças organizadas do Estado e dos privados para defender o domínio político e econômico das classes dirigen- tes. Neste sentido, partidos “políticos” inteiros e outras organizações econômicas ou de outro gênero devem ser considerados organismos de polícia política, de caráter investigativo e preventivo. O esquema genérico das forças A e B em luta com uma pers- pectiva catastrófica, isto é, com a perspectiva de que nem A nem B vençam na luta para constituir (reconstituir) um equilíbrio or- gânico, do qual nasce (ou pode nascer) o cesarismo, é precisamen- te uma hipótese genérica, um esquema sociológico (conveniente para a arte política). A hipótese pode se tornar sempre mais con- |20| 691932-1934: notas sobre maquiavel creta, levada a um grau cada vez maior de aproximação com a rea- lidade histórica concreta e isso pode ser conseguido especificando alguns elementos fundamentais. Assim, falando de A e de B, foi dito apenas que eles são uma força genericamente progressiva e uma força genericamente regressiva: pode-se especificar com que tipo de forças progressivas e regressivas se está tratando e, assim, obter maiores aproximações. No caso de Cesar e de Napoleão I, pode-se dizer que A e B, embora fossem distintos e contrastantes, não eram tais que não pudessem “absolutamente” chegar a uma fusão e assimilação recíproca após um processo molecular, o que de fato aconteceu, ao menos em certa medida (porém, suficiente para os fins histórico-políticos da interrupção da luta orgânica fundamental e, portanto, da superação da fase catastrófica). Este é um elemento de maior aproximação. Outro elemento é o seguin- te: a fase catastrófica pode emergir de uma deficiência política “momentânea” da força dominante tradicional e não de uma de- ficiência orgânica necessariamente insuperável. Isto se verificou no caso de Napoleão III. A força dominante na França de 1815 a 1848 dividiu-se politicamente (tendenciosamente) em quatro frações: a legitimista, a orleanista, | a bonapartista, a jacobino-re- publicana. As lutas internas entre as facções foram tais que possi- bilitaram à força antagonista B (progressiva) avançar em uma for- ma “precoce”; entretanto, a forma social existente ainda não havia exaurido suas possibilidades de desenvolvimento, como a história subsequente abundantemente demonstrou. Napoleão III repre- sentou (a seu modo, conforme a estatura do homem, que não era grande) estas possibilidades latentes e imanentes: seu cesarismo, portanto, tem um tom particular. É objetivamente progressivo, embora não seja como aquele de Cesar e de Napoleão I. O cesaris- mo de Cesar e de Napoleão I foi, por assim dizer, de caráter quan- titativo-qualitativo, representou a fase histórica de passagem de um tipo de Estado para outro, uma passagem na qual as inovações foram muitas e que representaram uma transformação completa. O cesarismo de Napoleão III foi só e limitadamente quantitativo: não houve a passagem de um tipo de Estado a outro, mas apenas “evolução” de mesmo tipo, seguindo uma linha ininterrupta. |20a| 70 caderno 13 (xxx) No mundo moderno os fenômenos de cesarismo são completa- mente diferentes, sejam daqueles de tipo progressivo Cesar – Na- poleão I, como também daqueles de tipo Napoleão III, se bem que se aproximam deste último. No mundo moderno, o equilíbrio das perspectivas catastróficas não ocorre entre forças que, em última análise, poderiam se fundir e se unificar, seja após um processo do- loroso e sangrento, mas entre forças cujo contraste é historicamente incorrigível e, de fato, se aprofunda especialmente com o apareci- mento das formas cesaristas. Todavia, o cesarismo também tem, no mundo moderno, certa margem mais ou menos grande, de acordo com os países e seu peso relativo na estrutura mundial, pois uma forma social tem “sempre” possibilidades marginais de ulterior de- senvolvimento e sistematização organizativa e, especialmente, pode contar com a relativa fraqueza da força progressiva antagônica, pela sua natureza e o seu modo de vida peculiar, fraqueza que deve ser mantida: por isso se disse que o cesarismo moderno é mais que mi- litar, é policialesco. CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 95-96, 97-98. § 〈28〉 Sobre o desenvolvimento da técnica militar. O traço mais característico e significativo do estágio atual da técnica militar e, portanto, também do encaminhamento das pesquisas científicas enquanto estão conectadas com o desenvolvimento da técnica mi-litar (ou tendem para esse fim) parece que deve ser buscado no fato que a técnica militar, em alguns de seus aspectos, tende a se tornar independente do complexo de técnica geral e se tornar uma ativi- dade separada e autônoma. Até a guerra mundial a técnica mili- tar consistia numa simples aplicação especializada da técnica geral e, portanto, a potência militar de um Estado ou de um grupo de Estados (aliados para se integrar uns aos outros) poderiam ser cal- culados com precisão quase matemática na base do poder econô- mico (industrial, agrícola, financeiro, técnico-cultural). Depois da guerra mundial este cálculo já não é mais possível, ao menos com a mesma exatidão ou aproximação, e isto constitui a mais formidá- vel incógnita da atual situação político-militar. Como | ponto de |21| 711932-1934: notas sobre maquiavel referência basta citar alguns elementos: o submarino, o avião bom- bardeiro, o gás e os meios químicos e bacteriológicos aplicados à guerra. Colocando a questão em seus próprios termos limite, por absurdo, pode-se dizer que Andorra pode produzir veículos bélicos a gás e bactérias a ponto de poder exterminar toda a França. Esta situação de técnica militar é um dos elementos operacionais mais “silenciosos” daquela transformação da arte política que levou à passagem, também na política, da guerra de movimento para guerra de posição ou de assédio. CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 98 – 98 BIS. § 〈29〉. Voluntarismo e massas sociais. Em toda uma série de ques- tões, seja de reconstrução da história passada, seja de análise his- tórico-política do presente, não se considera este elemento: que é necessário distinguir e avaliar diversamente as empresas e as orga- nizações de voluntários, das empresas e das organizações de blocos sociais homogêneos (é evidente que por voluntários não se deve en- tender a elite quando é uma expressão orgânica da massa social, mas do voluntário destacado da massa por decisão individual arbitrária e muitas vezes em discordância com a massa ou indiferente a ela). Este elemento tem importância especialmente para a Itália: 1) pelo apoliticismo e passividade tradicionais nas grandes massas popula- res que têm como reação natural uma relativa facilidade no “recru- tamento de voluntários”; 2) pela constituição social italiana, que tem como um de seus elementos a doentia quantidade excessiva de médios e pequenos burgueses rurais ou de tipo rural, dos quais se formam muitos intelectuais irrequietos e, portanto, fáceis “voluntá- rios” para qualquer iniciativa, mesmo a mais bizarra, seja vagamen- te subversiva (à direita ou à esquerda); 3) a massa de assalariados rurais e do lumpemproletariado que, na Itália, é chamada pitores- camente de classe dos “mortos de fome”. Na análise dos partidos políticos italianos, pode-se ver que eles são sempre formados por “voluntários”, em certo sentido deslocados, e nunca ou quase nunca de blocos sociais homogêneos. Uma exceção foi a direita histórica Cavouriana e, portanto, sua superioridade orgânica e permanente 72 caderno 13 (xxx) sobre o assim chamado Partido da Ação Mazziniano e Garibaldino, que foi a matriz de todos os sucessivos partidos de “massa” italianos, que não o eram na realidade (isto é, não ordenavam grupos sociais homogêneos), mas eram centros ciganos e nômades da política. Po- de-se encontrar apenas uma análise de tal gênero (mas imprecisa e gelatinosa, de um ponto de vista apenas “estatístico-sociológico”) no volume de Roberto Michels sobre Burguesia e proletariado [1]. A posição de Gottlieb [2] foi precisamente similar à do Partido da Ação, isto é, cigano e nômade: o interesse sindical era muito superficial e de origem polêmica, não sistemático, não orgânico e consequente, sem buscar a homogeneidade social, mas paternalista e formalista. CF. CADERNO 9 (XIV), P. 100 BIS. § 〈30〉. O número e a qualidade nos regimes representativos. Um dos lugares comuns mais banais que se repetem contra o sistema eleitoral de formação dos órgãos estatais é o de que “nele o número é lei suprema” e que a “opinião de qualquer imbecil que saiba escrever (e também de um analfabeto, em certos países) valha, para efeito de determinar o curso político do Estado, exatamente quanto [vale] a opinião | daqueles que dedicam suas melhores forças ao Estado e à Nação” [1] etc., (as formulações são muitas, algumas até mais felizes do que esta relatada, que é de Mário da Silva, na «Critica Fascista» de 15 de agosto de 1932, mas o conteúdo é sempre igual). O fato é que não é verdadeiro, de nenhum modo, que o número seja “lei suprema”, nem que o peso da opinião de cada eleitor seja “exata- mente” igual. Também neste caso os números têm um valor ape- nas instrumental, que dão uma medida e uma relação, nada mais. E o que se mede? Mede-se precisamente a eficácia e a capacidade de expansão e de persuasão das opiniões de poucos, de minorias ativas, de elites, de vanguardas etc., etc., isto é, a sua racionalidade ou historicidade ou funcionalidade concreta. Isto quer dizer que não é verdade que o peso das opiniões individuais seja “exatamen- te” igual. As ideias e as opiniões não “nascem” espontaneamente no cérebro de cada indivíduo: têm um centro de formação, de irra- |21a| 731932-1934: notas sobre maquiavel diação, de difusão, de persuasão, um grupo de homens ou mesmo uma única individualidade que os elaborou e apresentou na forma política da atualidade. A numeração dos “votos” é a manifestação final de um longo processo em que o influxo máximo pertence jus- tamente àqueles que “dedicam suas melhores forças ao Estado e à Nação” (quando o são). Se este pretenso grupo de atuantes, apesar das forças materiais imensuráveis que possui, não tiver o consenso da maioria, será julgado inapto ou não representante dos interesses “nacionais” que não podem deixar de ser prevalentes na indução da vontade nacional em um sentido e não em outro. “Infelizmente” to- dos são levados a confundir o próprio “interesse particular” com o interesse nacional e, portanto, a considerar “horrível” etc., que seja a “lei do número” a decidir; é certo que a melhor coisa é se tornar elite por decreto. Portanto, não se trata de quem “tem muito” inte- lectualmente e que se sente reduzido ao nível do último analfabeto, mas de quem presume ter muito e quer tirar do homem “comum” até mesmo aquela fração infinitesimal de poder que ele possui para decidir sobre o curso da vida estatal. Da crítica (de origem oligárquica e não de elite) ao regime parla- mentar (é estranho que esse não seja criticado porque a racionalida- de historicista do consenso numérico é sistematicamente falsificada pela influência da riqueza), estas afirmações banais foram esten- didas a qualquer sistema representativo, mesmo não parlamenta- rista, e não plasmado segundo os cânones da democracia formal. Tampouco estas afirmações são exatas. Nestes outros regimes, o consenso não tem a fase final no momento do voto, ao contrário. O consenso é concebido permanentemente ativo, até o ponto em que os que consentem poderiam ser considerados “funcionários” do Estado e as eleições uma forma de recrutamento voluntário de funcionários de um certo tipo, que em certo sentido poderiam vin- cular-se (em planos diversos) ao self-government. As eleições ocor- rendo não em programas genéricos e vagos, mas no trabalho con- creto imediato, quem |consente se compromete a fazer algo mais do que o cidadão legal comum para realizar tais programas, isto é, a ser uma vanguarda de trabalho ativo e responsável. O elemento |22| 74 caderno 13 (xxx) “voluntariado” na iniciativa não poderia ser estimulado de outro modo para as mais amplas multidões e, quando estas não são for- madas por cidadãos amorfos, mas por elementos produtivos qua- lificados, pode-se entender a importância que a manifestação do voto pode ter. (Estas observações poderiam ser desenvolvidas mais ampla e organicamente, colocando em destaque também outras diferenças entre os diversos tipos de eleição,conforme mudam as relações sociais e políticas gerais: relação entre funcionários eleitos e funcionários de carreira etc.). CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 53-54. § 〈31〉. O teorema das proporções definidas. Este teorema pode ser utilmente empregado para tornar mais claro e melhor esquemati- zados muitos argumentos concernentes à ciência da organização (o estudo do aparelho administrativo, a composição demográfica etc.) e também à política em geral (nas análises de situações, das relações de força, no problema dos intelectuais etc.). Entende-se que é sem- pre necessário lembrar como o recurso ao teorema de proporções definidas tem um valor esquemático e metafórico, isto é, não pode ser aplicado mecanicamente, uma vez que nos agregados humanos o elemento qualitativo (ou de capacidade técnica e intelectual dos componentes individuais) tem uma função predominante, embo- ra não possa ser medido matematicamente. Por isso, pode-se dizer que cada agregado humano tem um princípio particular ótimo com proporções definidas. Especialmente a ciência da organização pode se utilizar deste teorema e isto aparece com clareza no exército. Mas cada forma de sociedade tem o seu tipo de exército e cada tipo de exército tem o seu princípio de proporções definidas que, de res- to, também muda para as diferentes armas ou especialidade. Existe uma determinada relação entre homens de tropas, graduados, su- boficiais, oficiais subalternos, oficiais superiores, estados-maiores, estado-maior geral etc. Existe uma relação entre as várias armas e especialidades entre si etc. [De modo que], qualquer mudança em uma parte determina a necessidade de um novo equilíbrio com o todo etc. Politicamente, o teorema pode ser visto aplicado nos 751932-1934: notas sobre maquiavel partidos, nos sindicatos, nas fábricas e pode-se ver como cada gru- po social tem sua própria lei de proporções definidas, que varia de acordo com o nível de cultura, de independência mental, de espíri- to de iniciativa e de um senso de responsabilidade e de disciplina de seus membros mais atrasados e periféricos. A lei das proporções definidas é assim resumida por Pantaleoni nos Principii di Economia pura: “(...) Os corpos se combinam qui- micamente apenas em proporções definidas e cada quantidade de um elemento que exceda a quantidade indicada para uma combi- nação com outros elementos, presentes em quantidades definidas, permanece livre; se a quantidade de um elemento é insuficiente em relação à quantidade dos outros elementos presentes, a combinação só ocorre na medida em que a quantidade do elemento que está pre- sente em uma quantidade menor do que os outros é suficiente”[1]. Poder-se-ia usar metaforicamente esta lei para compreender como um “movimento” ou tendência de opiniões, torna-se |partido, isto é, força política eficiente do ponto de vista do exercício do poder governamental; precisamente na medida em que possui (elaborou internamente) dirigentes de vários graus e na medida em que os di- rigentes adquiriram certas habilidades. O “automatismo” histórico de certas premissas (a existência de certas condições objetivas) é po- tencializado politicamente por partidos e por homens capazes: sua ausência ou deficiência (quantitativa e qualitativa) torna o próprio “automatismo” estéril (que, portanto, não é automatismo): existem abstratamente as premissas, mas as consequências não se realizam porque falta o fator humano. Por isso se pode dizer que os partidos têm a tarefa de preparar dirigentes capazes, são a função de massa que seleciona, desenvolve, multiplica os dirigentes necessários para que um grupo social definido (que é uma quantidade “fixa”, pois é possível estabelecer quantos são os membros de cada grupo social) se articule e, de caos tumultuado, se torne exército político organi- camente organizado. Quando nas eleições subsequentes do mesmo grau ou de graus diferentes (por exemplo: na Alemanha antes de Hitler, eleições para o presidente da República para o Reichstag, para as dietas dos Länder, para os conselhos comunais e mais abaixo |22a| 76 caderno 13 (xxx) até os comitês da empresa) [2] um partido oscila em sua massa de votos do máximo ao mínimo, movimento que parece estranho e arbitrário, pode-se deduzir que os seus quadros são deficientes em quantidade e em qualidade, ou em quantidade e não em qualidade (relativamente), ou em qualidade e não em quantidade. Um parti- do que tem muitos votos nas eleições locais e menos nas de maior importância política, certamente é qualitativamente ineficiente em sua direção central: possui muitos subordinados ou ao menos em número suficiente, mas não possui um estado maior adequado ao país e à sua posição no mundo etc. Análises deste gênero são men- cionadas em outros parágrafos. CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 43-45. § 〈32〉. Sobre o conceito de grande potência. A medida decisiva para estabelecer o que se entende por grande potência é dada pela guerra. O conceito de grande potência está intimamente ligado às guerras. É grande potência aquele Estado que - entrado em um sistema de alianças para uma guerra - (e hoje qualquer guerra pressupõe sistemas de forças antagônicas), no momento da paz conseguiu manter tal relação de forças com os aliados de forma a ser capaz de manter os pactos e as promessas feitas no início da campanha. Mas um Estado que, para entrar em guerra, tem ne- cessidade de grandes empréstimos, tem necessidade contínua de armas e munições para seus soldados, suprimentos para o exército e para a população civil, de navios para os transportes, isto é, que não pode fazer a guerra sem a ajuda contínua de seus aliados e que por algum tempo, mesmo depois da paz, ainda precisa de aju- da, especialmente de provisões, empréstimos ou outras formas de subsídios financeiros, como pode ser igual a seus aliados e impor- -se para que mantenham os pactos? Um Estado nestas condições é considerado grande potência apenas nos documentos diplomáti- cos, mas na realidade é considerado como um provável fornecedor de homens para a coalizão que possui os meios não só para manter as próprias forças militares, mas também para financiar aquelas dos outros aliados. 771932-1934: notas sobre maquiavel Na política externa |: “Assim, a política externa italiana, sempre visando o mesmo objetivo, sempre foi retilínea, e suas alegadas os- cilações eram, na realidade, determinadas apenas pelas incertezas e contradições alheias, como é inevitável no campo internacional onde são infinitos os elementos em desacordo”, (Aldo Valori, “Cor- riere della Sera” de 12 de maio de 1932) [1]. Que sejam infinitos os elementos de equilíbrio de um sistema político internacional, é verdadeiro, mas precisamente por isso o sistema deve ser estabele- cido de modo que, apesar das variações externas, sua própria linha não oscile (portanto, é difícil definir o que se entende neste caso por oscilação - que não pode ser compreendida mecanicamente à maneira dos farmacêuticos de aldeia e de mera coerência formal). A linha de um Estado hegemônico (ou seja, de uma grande potência) não oscila, porque ela mesma determina a vontade dos outros e não é determinada, porque a linha política é fundada sobre o que existe de permanente e não casual e imediato, nos próprios interesses e naqueles das outras forças que colaboram de modo decisivo para formar um sistema e um equilíbrio. CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 65, 17. § 〈33〉. Sobre o conceito de partido político. Quando se quer es- crever a história de um partido político, em realidade, é necessário enfrentar toda uma série de problemas muito menos simples do que possa acreditar, por exemplo, Roberto Michels que também é considerado um especialista no assunto [1]. O que será a histó- ria de um partido? Será a mera narração da vida interna de uma organização política? Como ela nasce, os primeiros grupos que a constituem, as polêmicas ideológicas através das quais se forma o seu programa e a sua concepção de mundo e da vida? Nesse caso,tratar-se-ia da história de restritos grupos intelectuais e, quem sabe, da biografia política de um único indivíduo. A moldura do qua- dro deverá, portanto, ser mais ampla e abrangente. Deve-se fazer a história de uma determinada massa de homens que seguiram os promotores, os apoiou com sua confiança, com sua lealdade, com sua disciplina ou que os criticou “realisticamente”, dispersando-se |23| 78 caderno 13 (xxx) ou permanecendo passiva diante de algumas iniciativas. Mas essa massa consistirá apenas de adeptos do partido? Será suficiente acompanhar os congressos, votações etc., isto é, todo o conjunto de atividades e formas de existência com as quais uma massa de partido manifesta sua vontade? Evidentemente, será necessário co- nhecer o grupo social do qual o dado partido é expressão e a parte mais avançada: a história de um partido, isto é, não poderá deixar de ser a história de um determinado grupo social. Mas este grupo não está isolado; ele tem amigos, relacionados, adversários, inimi- gos. Somente do complexo quadro de todo o sistema social e estatal (e muitas vezes também com interferência internacional) resultará a história de um determinado partido, por isso, pode-se dizer que escrever a história de um partido significa nada mais que escrever a história geral de um país do ponto de vista monográfico, pondo em destaque um aspecto característico. Um partido terá tido maior ou menor significado e peso precisamente na medida em que sua atividade particular tiver pesado mais ou menos na determinação da história de um país. | Eis, portanto, que, do modo de escrever a história de um par- tido, resulta qual conceito que se tem sobre o que é um partido ou como deva ser. O sectário se exaltará nos fatos internos, que terão para ele um significado esotérico e o encherão de entusiasmo mís- tico; o historiador, dando a cada coisa a importância que cada uma tem no quadro geral, colocará em relevo acima de tudo a eficiência real do partido, a sua força decisiva, positiva e negativa, por ter con- tribuído para a criação de um evento e também por ter evitado que outros eventos acontecessem. CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 46-47. § 〈34〉. Sobre a origem das guerras. Como se pode dizer que as guerras entre Estados podem ter suas próprias origens nas lutas de grupos no interior de cada nação? É certo que em cada nação deve existir uma certa (e específica para cada nação) expressão da lei de proporções definidas na composição social: isto é, os vários grupos devem encontrar-se em certas relações de equilíbrio, nas quais os |23a| 791932-1934: notas sobre maquiavel conflitos radicais poderiam conduzir a uma catástrofe social. Estas relações variam se um país é predominantemente agrícola ou indus- trial e de acordo com os diferentes graus de desenvolvimento das forças produtivas materiais e o padrão de vida. O grupo dirigente tenderá a manter o melhor equilíbrio não apenas por sua perma- nência, mas por sua permanência em determinadas condições de prosperidade e mesmo de* incrementar tais condições. Mas como a área social de cada país é limitada, será levado a estendê-la nas áreas coloniais e áreas de influência e, portanto, a entrar em conflito com outros grupos dirigentes que aspiram ao mesmo fim ou em prejuízo dos quais a expansão deveria necessariamente acontecer, já que também o globo terrestre é limitado. Cada grupo dirigente ten- de, em abstrato, a alargar a base da sociedade trabalhadora da qual se extrai a mais-valia, mas a tendência abstrata torna-se concreta e imediata quando a extração da mais-valia em sua base histórica se torna difícil ou perigosa para além de certos limites que são, toda- via, insuficientes. CF. CADERNO 9 (XIV), P. 55. § 〈35〉. Arte política e arte militar. O escritor italiano de assuntos militares General De Cristoforis no seu livro Che cosa sia la guerra diz que, para a “destruição do exército inimigo” (objetivo estraté- gico), não se entende “a morte dos soldados, mas a dissolução de seus vínculos como massa orgânica” [1]. A fórmula é feliz e pode ser empregada também em terminologia política. Trata-se de identifi- car qual é, na vida política, o laço orgânico essencial, que não pode consistir somente nas relações jurídicas (liberdade de associação e reunião etc., com a sucessão dos partidos e dos sindicatos etc.) mas se enraíza nas mais profundas relações econômicas, isto é, na fun- ção social no mundo produtivo (formas de propriedade e de dire- ção etc.). CF. CADERNO 9 (XIV), P. 20. NO MS: “DI” 80 caderno 13 (xxx) § 〈36〉. Sobre a burocracia. 1) O fato de que no desenvolvimento histórico das formas políticas e econômicas foi se formando o tipo de funcionário de “carreira”, tecnicamente treinado para o trabalho burocrático (civil e militar) tem um significado primordial na ci- ência política e na história das formas estatais |. Tratou-se de uma necessidade ou uma degeneração em comparação ao autogoverno (self-government), como pretendem os liberais “puros”? É certo que cada forma social e estatal teve seu próprio problema de fun- cionários, um modo de defini-lo e resolvê-lo, um sistema particular de seleção, um tipo próprio de funcionário a educar. Reconstruir o desenvolvimento de todos esses elementos é de fundamental im- portância. O problema dos funcionários coincide, em parte, com o problema dos intelectuais. Mas se é verdade que toda nova forma social e estatal teve necessidade de um novo tipo de funcionário, também é verdade que os novos grupos dirigentes nunca puderam prescindir, ao menos por um certo tempo, da tradição e dos interes- ses constituídos, isto é, das formações de funcionários já existentes e pré-constituídos antes de seu advento (especialmente na esfera eclesiástica e militar). A unidade do trabalho manual e intelectual e um vínculo mais estreito entre os poderes legislativo e executi- vo (para os quais os funcionários eleitos se interessem não só pelo controle, mas também pela execução dos assuntos de Estado) po- dem ser motivos inspiradores tanto para uma orientação nova na solução do problema dos intelectuais, quanto para o problema dos funcionários. 2) Vinculada à questão da burocracia e à sua “ótima” organização, está a discussão sobre os chamados “centralismo orgânico” e “cen- tralismo democrático” (que, por outro lado, nada tem a ver com a democracia abstrata, tanto que a Revolução Francesa e a Terceira República desenvolveram formas de centralismo orgânico que não eram conhecidas nem pela monarquia absoluta nem por Napoleão I). Serão pesquisadas e examinadas as reais relações econômicas e políticas que encontram sua forma organizativa, a sua articulação e a sua funcionalidade nas diversas manifestações de centralismo orgânico e democrático em todos os campos: na vida do Estado |24| 811932-1934: notas sobre maquiavel (unitarismo, federação, união de Estados federados, federação de Estados ou Estado federal etc.), na vida interestatal (aliança, dife- rentes formas de “constelação” política internacional), na vida de associações políticas e culturais (Maçonaria, Rotary Club, Igreja Católica), sindicatos econômicos (cartéis, trustes), no mesmo país, em países diferentes etc. Polêmicas surgidas no passado (antes de 1914) a propósito do domínio alemão na vida da alta cultura e de algumas forças polí- ticas internacionais [1]: este domínio era real ou em que realmente consistia? Pode-se dizer: a) que nenhum vínculo orgânico e disci- plinar estabelecia tal supremacia, que, portanto, era um mero fe- nômeno de influência cultural abstrata e de muito prestígio efême- ro; b) que tal influência cultural não afetou em nada a atividade efetiva que, ao contrário, era desagregada, localizada e sem direção do conjunto. Por isso, não se pode falar de nenhum centralismo, nem orgânico, nem democrático, nem de outro gênero ou misto. A influência era sentida e experimentada por poucos grupos intelec- tuais, sem ligações com as massas populares e era precisamente essaausência de vínculos que caracterizava a situação. Contudo, um tal estado de coisas é digno de exame, isso ajuda a explicar o processo que levou a formular as teorias do centralismo orgânico, que foram precisamente uma crítica unilateral | e intelectual daquela desor- dem e daquela dispersão de forças. [2] Entretanto, é necessário distinguir nas teorias do centralismo orgânico, entre aquelas que escondem um programa preciso de predomínio real de uma parte sobre o todo (seja a parte constitu- ída por uma camada como aquela dos intelectuais, seja constitu- ída por um grupo territorial “privilegiado”) e as que representam uma pura posição unilateral de sectários e fanáticos, e que, embora podendo esconder um programa de domínio (geralmente de uma única individualidade, como aquela do papa infalível pela qual o catolicismo se transformou em uma espécie de culto ao pontífice), imediatamente não parece ocultar um tal programa como um fato político consciente. O nome mais exato seria aquele de centralismo burocrático. A “organicidade” não pode deixar de ser a do centralis- |24a| 82 caderno 13 (xxx) mo democrático, que é um “centralismo” em movimento, por assim dizer, isto é, uma contínua adequação da organização ao movimen- to real, uma conformação dos impulsos de baixo com o comando do alto, uma inserção contínua dos elementos que florescem das profundezas da massa na sólida moldura do aparelho de direção que garante a continuidade e o acumular-se regular de experiências: é “orgânico” porque leva em conta o movimento, que é o modo orgânico de se manifestar da realidade histórica e não se enrijece mecanicamente na burocracia e, ao mesmo tempo, tem em conta aquilo que é relativamente estável e permanente ou que ao menos se move em uma direção fácil de se prever etc. Este elemento de estabilidade no Estado se incorpora no desenvolvimento orgânico do núcleo central do grupo dirigente, assim como ocorre em es- cala mais restrita na vida dos partidos. A preponderância do cen- tralismo burocrático no Estado indica que o grupo dirigente está saturado, tornando-se um círculo estreito que tende a executar seus privilégios restritos, regulando ou mesmo sufocando o surgimento de forças contrastantes, mesmo que essas forças sejam homogêne- as com os interesses dominantes fundamentais (por exemplo, em sistemas protecionistas em luta com o liberalismo econômico). Nos partidos que representam grupos socialmente subalternos, o elemento de estabilidade é necessário para assegurar a hegemonia não a grupos privilegiados, mas aos elementos progressivos, organi- camente progressivos em confronto com outras forças semelhantes e aliadas, mas compostas e oscilantes. Em qualquer caso, deve-se destacar que as manifestações mórbi- das do centralismo burocrático acontecem por falta de iniciativa e de responsabilidade na base, isto é, pela primitividade política das forças periféricas, mesmo quando são homogêneas com o grupo territorial hegemônico (fenômeno piemontês nas primeiras déca- das da unidade italiana). O surgimento de tais situações pode ser extremamente prejudicial e perigoso nos organismos internacio- nais (Sociedade das Nações). O centralismo democrático oferece uma fórmula elástica, que se presta a muitas representações; ela vive na medida em que é in- 831932-1934: notas sobre maquiavel terpretada e adaptada continuamente às necessidades: ela consis- te na pesquisa crítica do que é | igual na aparente diversidade e, ao contrário, é diferente e até oposto na aparente uniformidade, para organizar e conectar estreitamente o que é semelhante, mas de modo que a organização e a conexão pareçam ser uma necessidade prática e “indutiva”, experimental e não o resultado de um processo racionalista, dedutivo, abstracionista, isto é, próprio dos intelec- tuais puros (ou puros asnos). Este trabalho contínuo para selecio- nar o elemento “internacional” e “unitário” na realidade nacional e local é, na realidade, a ação política concreta, a única atividade produtiva de progresso histórico. Ele requer uma unidade orgânica entre teoria e prática, entre grupos intelectuais e massas populares, entre governantes e governados. Deste ponto de vista, as fórmu- las de unidade e federação perdem grande parte de seu significado, enquanto conservam seu veneno na concepção burocrática, para a qual termina por não existir unidade, mas pântano estagnado, su- perficialmente calmo e “mudo” e não federação, mas um “saco de batatas”, isto é, justaposição mecânica de “unidades” singulares sem ligação entre elas. CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 20-21, 50-53. § 〈37〉. Notas sobre a vida nacional francesa. O partido monár- quico em regime republicano, assim como o partido republicano em regime monárquico, ou o partido nacional em regime de su- jeição do país a um Estado estrangeiro não podem deixar de ser partidos sui generis: isto é, devem ser, se quiserem alcançar sucessos relativamente rápidos, as centrais de federações de partidos, mais que partidos caracterizados em todos os pontos particulares de seus programas de governo; partidos de um sistema geral de go- verno e não de governos particulares (nesta mesma série, os parti- dos confessionais têm um lugar separado, como o Centro alemão ou os diversos partidos cristãos-sociais ou populares). O partido monárquico na França se funda sobre os resíduos ainda tenazes da velha nobreza latifundiária e sobre uma parte da pequena burgue- sia e dos intelectuais. O que os monarquistas esperam para se tor- |25| 84 caderno 13 (xxx) narem capazes de assumir o poder e restaurar a monarquia? Eles esperam o colapso do regime parlamentar burguês e a incapacidade de qualquer outra força organizada existente para ser o núcleo po- lítico de uma ditadura militar previsível ou pré-organizada por eles próprios; de nenhum outro modo suas forças sociais estariam em condições de conquistar o poder. Enquanto espera, o centro diri- gente da Action Française desenvolve sistematicamente uma série de atividades: uma ação organizativa político-militar (militar no sentido de partido e no sentido de ter células ativas entre os oficiais do exército) para reagrupar de modo mais eficiente a estreita base social sobre a qual historicamente o movimento se apoia. Sendo esta base constituída por elementos em geral mais escolhidos pela inteligência, cultura, riqueza, prática de administração etc., do que qualquer outro movimento, é possível ter um partido notável, até imponente, mas que, no entanto, se esgota em si mesmo, isto é, que não tem reservas para lançar na luta em uma crise decisiva. Por- tanto, o partido é notável apenas nos tempos normais, quando os elementos ativos na luta política se contam por dezenas de milha- res, mas se tornará insignificante (numericamente) em períodos de crise, quando os elementos ativos serão contados por centenas de milhares, e talvez de milhões. |O desenvolvimento do jacobinismo (de conteúdo) e da fórmu- la de revolução permanente efetivada na fase ativa da Revolução Francesa, encontrou seu “aperfeiçoamento” jurídico-constitucio- nal no regime parlamentar, que realiza, no período mais rico de energias “privadas” na sociedade, hegemonia permanente da clas- se urbana sobre toda a população, na forma hegeliana de governo com consenso permanentemente organizado (mas a organização do consenso é deixada à iniciativa privada, portanto, é de nature- za moral ou ética, porque o consenso é “voluntariamente” dado de um modo ou de outro) [1]. O “limite” encontrado pelos jacobinos na lei Le Chapelier e naquela do maximum, é superado e rejeitado progressivamente através de um processo completo, no qual se al- ternam as atividades de propaganda e a atividade prática (econômi- ca, político–jurídica): a base econômica, para o desenvolvimento |25a| 851932-1934: notas sobre maquiavel industrial e comercial, é continuamente ampliada e aprofundada, os elementos sociais mais ricos de energia e de espírito realizador elevam-se daspelas questões inerentes à edição de Togliatti-Platone, mas, principalmente, ante a “Edição crítica do Instituto Gramsci”, realizada sob os cuidados de Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, em 19756. Essa “Edição crítica” reproduz integralmente as anotações conti- das nos Cadernos do cárcere “tal como foram escritas por Gramsci”, dispondo-as conforme uma “ordem cronológica da redação recons- truída na base de dados objetivos [...] e conservando entre parên- tese as velhas numerações postas por Tânia” (Gerratana, Ibid., p. XXXV). Além disso, enumera todas as notas e as organiza de modo a colocar em evidência as de primeira redação (Textos A), sinalizadas com fonte menor, as de redação única (Textos B) e as de segunda redação (Textos C). Com os três volumes que reproduzem as anotações de Gramsci contidas nos 29 cadernos manuscritos e um “Apêndice” de oito páginas, posto no final do último caderno, contendo alguns “Extratos dos Cadernos de tradução”7 , a “Edição crítica” publicou no quarto volume um precioso “Apparato critico” com os seguintes conteúdos: Descrição dos Cadernos; Notas ao 4 Gerratana, V., “Prefazione” in: Id (org.), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, Edizione critica dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975. 5 Liguori, G., Gramsci conteso. Storia di um dibattito 1922-1996, Riuniti, Roma, 1996. 6 Gerratana, V. (a cura di), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, Edizione critica dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975. 7 Além dos 29 cadernos, há quatro cadernos (A, B, C, D) contendo só traduções feitas por Gramsci entre 1929 e 1932. Na “Descrição dos Cadernos” que consta no “Apparato critico”, encontra-se uma documentação analítica desses exercícios de tradução. IX texto; Índice das obras citadas nos Cadernos; Livros e opúsculos do Fundo Gramsci não citados nos Cadernos; Índice dos periódicos citados nos Cadernos; Índice por assuntos; Tábua das concordân- cias; Índice dos nomes. Assim, para suprir os diversos problemas que apresentava a tradu- ção parcial da “Edição temática” realizada no Brasil nos anos 1960, entre os anos de 1999 e 2002, foram publicados, sempre pela Edito- ra Civilização Brasileira, seis volumes contendo uma nova tradução dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci8. Responsáveis pelo desenho da edição e pela tradução, C. Nelson Coutinho (editor), M. Aurélio Nogueira e L. Sérgio Henriques (coeditores) optaram por uma solução em que, “embora tome certamente como base a edição Gerratana, a presente edição brasileira incorpora não só os critérios adotados na velha ‘edição temática’, mas também algumas das sugestões propostas por Gianni Francioni” (Coutinho, 1999, p. 32)9. Dessa forma, tendo “como eixos articuladores os ‘cadernos especiais’”, os seis volumes da nova edição brasileira traduzem todos os “cadernos especiais” como se encontram na edição Gerratana e, no final de cada um, acrescenta-se uma seção intitulada “Dos ca- dernos miscelâneos”, na qual são alocadas as notas de redação úni- ca (Textos B) relacionadas com o tema do “caderno especial” em questão (Ibid., p. 40), e “Notas ao texto”, em sua maioria, extraídas das notas explicativas do “Apparato critico” de V. Gerratana e da edição norte-americana de J.A. Buttigieg (2007)10. Nos apêndices do último volume (6º), estão situados: “Uma antologia de textos A” (pequena amostra dos Textos A, de primeira redação); um “Índice geral dos Cadernos” (inclusive dos Textos A, indicando os parágra- fos dos Textos C, nos quais foram reelaborados); uma “Datação dos 8 Coutinho, C. Nelson (editor) - Nogueira, M. Aurélio e Henriques, L. Sérgio (coeditores): Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, 6 vols., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999-2002. 9 Coutinho, C. N., “Introdução” a Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, vol. 1, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999. 10 Buttigieg, J. A., Prison Notebooks (vols. 1-3) por Antonio Gramsci, Columbia University Press, New York, 1992-2007. X parágrafos segundo a proposta de G. Francioni”11; um “Índice dos principais conceitos” e o “Índice onomástico”. Não há dúvida de que, levando também em conta a tradução em dois volumes das Cartas do cárcere12, baseados na edição italiana organizada por A. A. Santucci (1996)13, e uma seleção de textos pré-carcerários reunidos nos dois volumes de Escritos Políticos14, o admirável empreendimento de C. Nelson Coutinho, M. Aurélio Nogueira e L. Sérgio Henriques representa um enorme avanço em relação aos textos de Gramsci postos à disposição dos leitores bra- sileiros até então. No entanto, sem diminuir o valor dessa tradução, nem o reconhecimento e a nossa gratidão aos autores desse traba- lho, suscita perplexidade o critério que levou essa nova edição a su- primir - por “não ter maiores méritos científicos” (Coutinho, 1999, p. 41) - as notas de primeira redação (Textos A) aproveitadas e ree- laboradas por Gramsci nos textos de segunda redação (Textos C) e a seleção feita pelos editores das notas de redação única (Textos B) que teriam alguma relação com o tema do caderno em questão. Pas- sadas mais de duas décadas, a estruturação dessa edição, motivada essencialmente para “não ampliar quantitativamente nossa edição, tornando-a assim menos acessível a um público que pretendemos o mais amplo possível” (Ibid., p. 41) e intencionada a evitar que “o leitor iniciante” se perca “no labirinto das anotações carcerárias” (Ibid., p. 44), vem apresentando alguns limites e não atende plena- mente às novas demandas de estudos e às exigências das pesquisas que foram evoluindo. De fato, inclusive graças à publicação dessa nova edição, na medida em que a difusão da obra e do pensamento de Gramsci foi se ampliando no Brasil e os estudos e pesquisas fo- ram se tornando mais abrangentes e minuciosos, sentiu-se a neces- 11 Francioni, G., L’officina gramsciana. Ipotesi sulla struttura dei “Quaderni del carcere”, Bibliopolis, Napoli, 1984. 12 Henriques L. Sérgio (org.), Antonio Gramsci: Cartas do cárcere, 2 vols., Civili- zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2005. 13 Santucci, A. A., Antonio Gramsci: Lettere dal carcere, 2 voll, Ed. Sellerio, Pa- lermo, 1996. 14 Coutinho C. Nelson (org.), Antonio Gramsci: Escritos Políticos, 2 vols., Civili- zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2004. XI sidade crescente de traduzir integralmente a “Edição crítica do Ins- tituto Gramsci” (aos cuidados de V. Gerratana), padrão mundial de referência e base para traduções em diferentes línguas, enquanto se espera que a ciclópica Edizione Nazionale delle opere di Antonio Gramsci venha a ser finalizada15. Quando, portanto, a equipe eleita na Assembleia de Marília/SP para a Direção da IGS-Brasil (2019-2022) apresentou a proposta de realizar a tradução integral da “Edição crítica” dos Quaderni del carcere de A. Gramsci organizada por V. Gerratana, houve imedia- to e amplo consenso. De fato, mesmo com algumas imperfeições e diante das questões levantadas, principalmente, pelos estudos filológicos de G. Francioni (1984, pp. 15-46) em relação ao mé- todo genético-diacrônico e às novas propostas de cronologia dos Cadernos do cárcere, a “Edição crítica” oferece o material completo das anotações que Gramsci registrou progressivamente tanto nos cadernos “especiais” como nos cadernos “miscelâneos” e nos de re- dação única. Ao apresentar integralmente os textos que Gramsci es- creveu nos 29 cadernos16 e distinguir as notas de primeira redação (Textos A), de redação única (Textos B) e as de segunda redação (Textos C), a “Edição crítica” revela melhor o modo de trabalhar de Gramsci, possibilita perceber as modificações nos seus planos de estudos e a evolução do seu pensamento, além de proporcionar 15 Edizione Nazionale delle opere di Antonio Gramsci, planejada para publicar o corpus inteiro da obra gramsciana, com a colaboração de vários grupos de trabalho coordenados por G. Francioni e sua equipe (G. Cospito e F. Frosini). O projeto, em andamento, promovidoclasses inferiores até as classes dirigentes, [de modo que] toda a sociedade está em um processo contínuo de formação e dissolução, seguida de formações mais complexas e ricas de pos- sibilidades; em linhas gerais, isto dura até a época do imperialis- mo e culmina na guerra mundial. Neste processo, alternam-se as tentativas de insurreição e de repressões impiedosas, ampliação e restrições ao sufrágio político, liberdade de associação e restrições ou anulações dessa liberdade, liberdade no campo sindical, mas não no político, formas diferentes de sufrágio, lista eleitoral ou circuns- crições uninominais, sistema proporcional ou individual, com as várias combinações que dele resultam - sistema de duas câmaras ou apenas uma câmara eletiva, com vários modos de eleição para cada um (câmara vitalícia e hereditária, Senado com mandato temporá- rio, mas com eleição dos senadores diferente da dos deputados etc.) – equilíbrio variado dos poderes, para os quais o Judiciário pode ser um poder independente ou apenas uma ordem, controlada e dirigi- da por circulares ministeriais, diferentes atribuições do chefe de go- verno e do Estado, diferente equilíbrio interno dos órgãos territo- riais (centralismo ou descentralização, maiores ou menores poderes de prefeitos, conselhos provinciais, dos municípios etc.), equilíbrio diferente entre as forças armadas alistadas e as profissionais (polícia civil e militar), com a dependência destes organismos profissionais de um ou de outro órgão estatal (da magistratura, do ministério do interior ou do estado maior); a maior ou menor parte atribu- ída ao costume ou à lei escrita, pela qual se desenvolvem formas consuetudinárias que podem, a um certo ponto, serem abolidas em virtude das leis escritas (em alguns vilarejos, “parecia” que tivessem se constituído regimes democráticos, mas estes tinham sido cons- tituídos apenas formalmente, sem luta, sem sanção constitucional e era fácil desagregá-los sem luta, ou quase, por carecerem de subsí- dios jurídico-morais e militares, restaurando a lei escrita ou dando interpretações reacionárias da lei escrita); a ênfase mais ou menos grande entre as leis fundamentais e os regulamentos de execução que anulam os primeiros ou lhe dão uma interpretação restritiva; 86 caderno 13 (xxx) o emprego |mais ou menos extenso dos decretos-leis que tendem a substituir a legislação ordinária e a modificam em certas ocasi- ões, “forçando a paciência” do parlamento até chegar a uma verda- deira “chantagem da guerra civil”. Para este processo contribuíram os teóricos-filósofos, os publicitários, os partidos políticos etc., no tocante ao desenvolvimento da parte formal, e os movimentos ou as pressões de massa para a parte substancial, com ações e reações recíprocas, com iniciativas “preventivas” antes que um fenômeno ocorresse perigosamente e com repressões quando faltavam as pre- venções ou eram tardias e ineficazes. O exercício “normal” da hegemonia no terreno do regime parla- mentar, que se tornou clássico, é caracterizado pela combinação da força e do consenso que se equilibram de modo variado, sem que a força suplante em muito o consentimento, em vez disso, prouran- do fazer com que a força pareça apoiada no consenso da maioria, expresso pelos chamados órgãos da opinião pública - jornais e asso- ciações – os quais, por isso, em certas situações, são artificialmente multiplicados. Entre o consenso e a força se encontra a corrupção- -fraude (que é característica de certas situações de difícil exercício da função hegemônica, apresentando o emprego da força excessivos perigos), isto é, o enfraquecimento e a paralisia do antagonista ou dos antagonistas através da absorção de seus dirigentes, seja aber- tamente seja secretamente seja em caso de perigo emergente, aber- tamente, para causar confusão e desordem nas fileiras adversárias. No período do pós-guerra, o aparelho hegemônico se rompe e o exercício da hegemonia torna-se permanentemente difícil e incerto. O fenômeno é apresentado e tratado sob vários nomes e em aspec- tos secundários e derivados. As mais triviais são: “crise do princípio de autoridade” e “dissolução do regime parlamentar”. Naturalmen- te descrevem-se do fenômeno apenas as manifestações “teatrais” no campo parlamentar e do governo político e estas precisamente são explicadas pela falência de alguns princípios (parlamentar, demo- crático etc.) e com a “crise” do princípio de autoridade (da falência deste princípio falarão outros não menos superficiais e supersti- ciosos). A crise se apresenta praticamente na dificuldade cada vez |26| 871932-1934: notas sobre maquiavel maior de formar os governos e na sempre crescente instabilidade dos próprios governos: que têm sua origem imediata na multipli- cação dos partidos parlamentares e nas crises internas permanentes de cada um destes partidos (ou seja, ocorre dentro de cada partido o que se verifica em todo o parlamento: dificuldades de governo e instabilidade de direção). As formas desse fenômeno também são, em certa medida, de corrupção e dissolução moral: cada fração de partido acredita que tem a receita infalível para deter o enfraque- cimento de todo o partido e recorre a todos os meios para ter a direção ou ao menos para participar da direção, assim como no par- lamento o partido acredita ser o único a ter que formar o governo para salvar o país ou pelo menos pretende, para apoiar o governo, participar dele do modo mais amplo possível; daí resultam acordos ardilosos e minuciosos, que não deixam de ser personalistas a pon- to de parecerem escandalosos e muitas vezes traiçoeiros e pérfidos. Talvez, na realidade, a corrupção pessoal seja menor do que parece, porque todo o organismo político é corrompido pelo esfacelamen- to da função hegemônica. Que os interessados em que a crise se resolva do seu ponto de vista finjam acreditar e proclamem |em alta voz que se trata de “corrupção” e de “dissolução” de uma série de “princípios” (imortais ou não) poderia até ser justificado: cada um é o melhor juiz na escolha das armas ideológicas que sejam mais apropriadas aos fins que pretende atingir e a demagogia pode ser considerada uma excelente arma. Mas a situação torna-se cômica quando o demagogo não sabe que o é e age praticamente como se fosse verdadeiro na realidade efetiva que o hábito faz o monge e o boné, o cérebro. Maquiavel torna-se assim Stenterello [2]. A crise na França. Grande lentidão em seu desenvolvimento. Os partidos políticos franceses: eles eram muito numerosos ainda an- tes de 1914. Sua multiplicidade formal depende da riqueza de even- tos revolucionários e políticos na França de 1789 ao Caso Dreyfus: cada um destes eventos deixou sedimentos e consequências que se consolidaram em partidos, mas as diferenças sendo muito me- nos importantes que as coincidências, na realidade sempre reinou no Parlamento o regime dos dois partidos, liberais-democráticos |26a| 88 caderno 13 (xxx) (várias gamas de radicalismo) e conservadores. Pode-se dizer que a multiplicidade dos partidos, dadas as circunstâncias particulares da formação político-nacional francesa, foi muito útil no passado: permitiu uma extensa ação de seleções individuais e criou o grande número de governantes qualificados que é uma característica fran- cesa. Por meio desse mecanismo muito estruturado e articulado, todo movimento de opinião pública encontrou uma imediata refle- xão e uma composição. A hegemonia burguesa é muito forte e tem muitas reservas. Os intelectuais são muito concentrados (Institu- to da França, Universidades, grandes Jornais e revistas de Paris) e, embora numerosos, são no fundo muito disciplinados nos centros nacionais de cultura. A burocracia militar e civil tem uma grande tradição e atingiu um alto grau de homogeneidade ativa. A debilidade interna mais perigosa para o aparelho estatal (mili- tar e civil) consistia na aliança do clericalismo e do monarquismo. Mas a massa popular, ainda que católica, não era clerical.No caso Dreyfus culminou a luta para paralisar a influência clerical-mo- nárquica no aparato estatal e para dar ao elemento laico uma clara prevalência. A guerra não enfraqueceu, mas, ao contrário, reforçou a hegemonia; não houve tempo para pensar: o Estado entrou na guerra e quase imediatamente o território foi invadido. A passagem da disciplina de paz para a de guerra não exigiu uma crise muito grande: os antigos quadros militares eram suficientemente grandes e flexíveis; os oficiais subalternos e suboficiais eram talvez os mais selecionados do mundo e os mais bem treinados em funções de co- mando imediato sobre as tropas. Confronto com outros países. A questão dos arditi e do voluntarismo; a crise dos quadros, deter- minada pela superioridade dos oficiais secundários que em outros lugares tinham uma mentalidade contrária à dos oficiais de carreira. Os arditi, em outros países, representavam um novo exército de voluntários, uma seleção militar, que tinha uma função tática pri- mordial. O contato com o inimigo era buscado apenas por meio dos arditi, que se formavam como um véu entre o inimigo e o exér- cito regular (função das talas no tórax). A infantaria francesa era composta por uma grande maioria de agricultores diretos, isto é, 891932-1934: notas sobre maquiavel de homens providos de uma reserva | muscular e nervosa muito rica que tornou difícil o colapso físico provocado pela longa vida nas trincheiras (o consumo médio de um cidadão francês é de cerca de 1 500 000 calorias por ano, enquanto o do italiano é menor que 1 000 000); na França é mínimo o número de assalariados agríco- las, o camponês sem-terra é lavrador, ou seja, ele vive a mesma vida dos patrões e não conhece a inanição do desemprego, nem mesmo sazonal; o verdadeiro assalariado se confunde com a criminalidade rural e é formado por elementos irrequietos que viajam de um can- to do país ao outro para pequenos empregos marginais. A alimen- tação nas trincheiras era melhor que em outros países e o passado democrático, rico de lutas e de treinamentos recíprocos, criou um tipo difuso de cidadão moderno até nas classes subalternas, cidadão no duplo sentido, que o homem do povo não só se sentia algo, mas também era considerado algo pelos superiores, pelas classes dirigen- tes, ou seja, ele não era ridicularizado e maltratado por ninharias. Assim, não se formaram, durante a guerra, aqueles sedimentos de raiva envenenada e astuta que se formaram em outros lugares. Por isso, as lutas internas do pós-guerra não tiveram a grande aspereza e, principalmente, não se verificou a intensa oscilação das massas rurais registradas em outros lugares. A crise endêmica do parlamentarismo francês indica que há um mal-estar difuso no país, mas este mal-estar até agora não assumiu um caráter radical, não levantou questões intangíveis. Houve uma expansão da base industrial e, portanto, um aumento da urbaniza- ção. Massas de camponeses vieram para a cidade, não porque hou- vesse desemprego no campo ou fome insatisfeita de terra; mas por- que na cidade se vive melhor e existem mais satisfações etc. (o preço da terra é muito baixo e muitas terras boas foram abandonadas pe- los italianos). A crise parlamentar reflete (até agora) um movimen- to normal de massas (não devido a uma crise econômica aguda), com uma busca laboriosa por novos equilíbrios de representação e de partidos e um vago mal-estar que é apenas premonitório de uma possível grande crise política. A mesma sensibilidade do organis- mo político leva a exagerar formalmente os sintomas de mal-estar. |27| 90 caderno 13 (xxx) Até agora, tem havido uma série de lutas pela divisão dos cargos e dos benefícios estatais, mais do que qualquer outra coisa, por isso, a crise dos partidos médios e do partido radical em primeiro lugar, que representa as cidades médias e pequenas e os camponeses mais avançados. As forças políticas se preparam para grandes lutas futu- ras e buscam um melhor posicionamento; as forças extra-estatais fazem sentir mais sensivelmente o seu peso e impõem seus homens de modo mais brutal. O ponto culminante da crise parlamentar francesa foi alcançado em 1925, e é da atitude em face desses acontecimentos, considera- dos decisivos, que se deve partir para dar um juízo sobre a consis- tência política e ideologia da Action Française. Maurras proclamou o esfacelamento do regime republicano e o seu grupo se preparou para a tomada do poder. Maurras também é frequentemente elogia- do como um grande estadista e como um grandíssimo Realpoliti- ker: na realidade ele é apenas um jacobino ao inverso. Os jacobinos empregavam uma certa linguagem, eram partidários convictos de uma certa ideologia; no tempo e nas circunstâncias dadas, essa lin- guagem |e essa ideologia eram ultra-realistas, porque conseguiram colocar em movimento as energias políticas necessárias para os pro- pósitos da Revolução e para consolidar permanentemente a chega- da ao poder da classe revolucionária; foram então separados, como quase sempre acontece, a partir das condições de lugar e de tempo e reduzido a fórmulas, tornaram-se uma coisa diferente, uma larva, palavras vazias e inertes. O cômico consiste no fato de que Maurras inverteu de modo banal as fórmulas, criando outras que organizou em uma ordem lógico-literária impecável, fórmulas que também só podiam representar o reflexo do mais puro e trivial do iluminismo. Na realidade, Maurras é o defensor mais representativo do “estú- pido século XIX” [3], a concentração de todos os lugares comuns maçônicos mecanicamente invertidos: sua sorte relativa depende precisamente do que seu método agrada, porque é o método da razão reflexionante da qual nasceu o enciclopedismo e toda a tra- dição cultural maçônica francesa. O Iluminismo criou uma série de mitos populares, que eram apenas a projeção no futuro das mais |27a| 911932-1934: notas sobre maquiavel profundas e milenárias aspirações das grandes massas, aspirações ligadas ao cristianismo e à filosofia do senso comum, mitos tão sim- plistas quanto se queira, mas que realmente tiveram uma origem enraizada nos sentimentos e que, em todo caso, não podiam ser controlados experimentalmente (historicamente); Maurras criou o mito “simplista”, de um passado monárquico francês fantástico; mas este mito era “história” e as deformações intelectualistas po- dem ser facilmente corrigidas: toda a educação pública francesa é uma retificação implícita do mito monarquista, que assim se torna um “mito” defensivo mais que criador de paixões. Uma das fórmulas fundamentais de Maurras é “Politique d’abord” ["a política antes de tudo", N.T.], mas ele é o primeiro a não segui-la. Para ele, antes da política sempre há a “abstração política”, a aceitação integral de uma concepção do mundo “minuciosissíma”, que prevê todos os de- talhes, como sucede com as utopias dos literatos, que pede uma de- terminada concepção da história, mas da história concreta da Fran- ça e da Europa, isto é, uma hermenêutica determinada e fossilizada. Léon Daudet escreveu que a grande força da Action Française foi a incontrolável homogeneidade e unidade de seu grupo dirigen- te: sempre de acordo, sempre solidários política e ideologicamen- te. Certamente a unidade e a homogeneidade do grupo dirigente [4]: é uma grande força, mas de caráter sectário e maçônico, não de um grande partido de governo. A linguagem política tornou-se um jargão, formou-se a atmosfera de um convento: à força de repetir sempre as mesmas fórmulas, de ocupar-se dos mesmos esquemas mentais rígidos, termina-se, é verdade, pensando do mesmo modo, até terminar por não pensar mais. Maurras em Paris e Daudet em Bruxelas pronunciam a mesma frase, sem acordo, sobre o mesmo acontecimento porque o acordo já existia antes, porque se trata de duas máquinas de frases, instaladas por vinte anos para dizer as mesmas frases no mesmo momento. O grupo dirigente da Action Française se formou por cooptação: no princípio haviaMaurras com seu verbo, depois veio Vaugeois, | depois Daudet, depois Pujo etc., etc. Toda vez que alguém se afas- tou do grupo, foi uma catástrofe de polêmicas e acusações intermi- |28| 92 caderno 13 (xxx) náveis e pérfidas, o que se compreende: Maurras é como um papa infalível e o afastamento de um de seus próximos tem um significa- do verdadeiramente catastrófico. Do ponto de vista da organização a Action Française é interes- sante e mereceria um estudo aprofundado. Sua força relativa é cons- tituída especialmente pelo fato que seus elementos de base são tipos sociais intelectualmente selecionados, cujo “agrupamento” militar é extremamente fácil como seria aquele de um exército constituí- do apenas por oficiais. A seleção intelectual é relativa, entende-se, pois é surpreendente como os adeptos da Action Française são pro- pensos a repetir, como papagaios, as fórmulas do líder (mesmo que não se trate de uma necessidade de guerra, sentida como tal) e, até mesmo, procurem tirar delas um proveito “esnobe”. Em uma repú- blica, pode ser um sinal de distinção ser um monarquista, sendo um reacionário consequente em uma democracia parlamentar. O gru- po, por sua composição, possui (além de subsídios de certos grupos industriais) muitos fundos, tantos a permitir múltiplas iniciativas que dão a aparência de uma certa vitalidade e atividade. A posição social de muitos adeptos notórios e ocultos permite ao jornal e ao centro dirigente ter uma massa de informações e documentos con- fidenciais que permitam uma multiplicidade de polêmicas pessoais. No passado, mas mais limitadamente também agora, o Vaticano deve ter sido uma fonte de informação de primeira ordem (a Secre- taria de Estado e o alto clero francês). Muitas campanhas persona- listas devem ser feitas de modo velado ou meio velado: publica-se uma parte da verdade para fazer entender que se sabe tudo, ou são feitas alusões astuciosas que são compreensíveis pelos interessados. Estas campanhas personalistas e violentas têm vários significados para a Action Française : estimulam os adeptos porque a ostentação de conhecimento das coisas mais secretas dá a impressão de grande capacidade de penetrar no campo adversário e uma forte organiza- ção à qual nada escapa, mostram o regime republicano como uma associação de delinquentes, paralisam uma série de adversários com a ameaça de desonrá-los e fazer alguns se tornarem apoiadores se- cretos. A concepção empírica que se pode extrair de toda a ativida- 931932-1934: notas sobre maquiavel de da Action Française é esta: o regime parlamentar republicano se dissolverá inelutavelmente porque é um “monstrum” histórico-na- cional que não corresponde às leis “naturais” da sociedade francesa rigidamente estabelecidas por Maurras. Portanto, os nacionalistas integrais devem: 1) afastar-se da vida real da política francesa, não reconhecendo sua “legalidade” histórico-racional (abstencionismo etc.) e combatendo-a em bloco; 2) criar um antigoverno, sempre pronto a instalar-se nos “palácios tradicionais” com um golpe de mão: este antigoverno já se apresenta hoje com todos os órgãos em- brionários, que correspondem às grandes atividades nacionais. Na verdade, foram abertas muitas fissuras em tanto rigor; em 1919 foram apresentadas algumas candidaturas, e Daudet foi elei- to por um milagre. Nas outras eleições a Action Française apoiou os candidatos de direita que aceitavam alguns de seus princípios marginais (parece que esta atividade foi imposta a Maurras por seus colaboradores mais especializados em política real, o que demonstra que a unidade não existe sem rachaduras). Para sair do isolamento, foi planejada a publicação de um grande jornal de informações, mas até agora nada foi feito (existe somente a “Re- vue Universelle” e o “Charivari”, que |cumprem a tarefa de di- vulgação indireta entre o grande público). A ácida polêmica com o Vaticano e a reorganização do clero e das associações católicas, que foi uma de suas consequências, rompeu o único vínculo que a Action Française tinha com as grandes massas nacionais, vínculo que era, também ele, bastante incerto. O sufrágio universal, que foi introduzido na França há muito tempo, já tinha determinado o fato de que as massas, formalmente católicas, aderem politica- mente aos partidos republicanos de centro, embora estes sejam anticlericais e laicos: o sentimento nacional, organizado em torno do conceito de pátria, é igualmente forte e, em alguns casos, é in- dubitavelmente mais vigoroso do que o sentimento religioso-ca- tólico que, de resto, tem características próprias. A fórmula que “a religião é um assunto privado” radicou-se como forma popular do conceito de separação entre Igreja e Estado. Além disso, o com- plexo de associações que compõem a Ação Católica está nas mãos |28a| 94 caderno 13 (xxx) da aristocracia rural (é seu chefe, ou era, o general Castelnau), sem que o baixo clero exerça aquela função de guia espiritual-social que exerceu na Itália (na Itália setentrional). O camponês francês, na quase totalidade, parece bastante com o nosso camponês do Sul, que diz com satisfação: “o sacerdote é um sacerdote no altar, mas fora é um homem como todos os outros” (na Sicília: "monaci e parrini, sienticci la missa e stoccacci li rini" ["monges e padrecos: assiste sua missa e quebre as costas deles" N.T.]. A Action Fran- çaise , através da camada dirigente católica pensou que poderia dominar, no momento decisivo, todo o aparato de massa do cato- licismo francês. Nesse cálculo havia um pouco de verdade e muita ilusão: em épocas de grandes crises político-morais, o sentimento religioso, relaxado em tempos normais, pode tornar-se vigoroso e absorvente, mas se o futuro parecer pleno de nuvens tempestu- osas, até mesmo a solidariedade nacional, expressa no conceito de pátria, torna-se absorvente na França, onde a crise não pode deixar de assumir o caráter de crise internacional e, então, a “Mar- selhesa” é mais forte do que os salmos penitenciais. Em todo caso, até a esperança nesta possível reserva se desvaneceu para Maurras. O Vaticano não pretende mais abster-se dos negócios internos franceses e entende que a chantagem de uma possível restaura- ção monárquica se tornou inoperante: o Vaticano é mais realis- ta do que Maurras e entende melhor a fórmula “a política antes de tudo”. Enquanto o camponês francês tiver que escolher entre Herriot e um Hobereau, escolherá Herriot: é necessário, portan- to, criar o tipo de “radical católico”, isto é, do “popular”, é pre- ciso aceitar sem reservas a república e a democracia e organizar neste terreno as massas camponesas superando o dissídio entre religião e política, fazendo do padre não só o guia espiritual (no campo individual-privado), mas também o guia social no cam- po econômico-político. A derrota de Maurras é certa (como a de Hugenberg na Alemanha). É a concepção de Maurras que é falsa por demasiada perfeição lógica: por outro lado, esta derrota foi sentida pelo próprio Maurras logo no início da polêmica com o Vaticano, que coincidiu com a crise parlamentar francesa de 1925 951932-1934: notas sobre maquiavel (certamente não por acaso). Quando os ministérios se sucediam em rotação, a Action Française publicou que estava pronta para assumir o poder e apareceu um artigo no qual se chegou a con- vidar Caillaux para colaborar, Caillaux para quem se anunciava |continuamente o pelotão de fuzilamento. O episódio é clássico: a política enrijecida e racionalista de Maurras, do abstencionis- mo apriorístico, das leis naturais “siderais” que regulamentam a sociedade francesa, estava condenada ao marasmo, ao colapso, a abdicação no momento decisivo. No momento decisivo vê-se que as grandes massas de energias colocadas em movimento pela crise não se derramam nos reservatórios criados artificialmente, mas seguem os caminhos realmente traçados pela política real prece- dente, se movem de acordo com os partidos que sempre estive- ram ativos,ou mesmo que surgiram como cogumelos no próprio terreno da crise. Deixando de lado a tolice de acreditar que em 1925 pudesse ocorrer a queda do regime republicano por uma crise parlamentar (o intelectualismo antiparlamentar leva a seme- lhantes alucinações monomaníacas) se houve um colapso foi o moral de Maurras, que talvez não esteja abalado por seu estado de iluminação apocalíptica e por seu grupo, que se sentia isolado e teve que apelar para Caillaux e C. Na concepção de Maurras, existem muitos traços semelhantes aos de certas teorias formalmente catastróficas de certo econo- micismo e sindicalismo. Esta transposição das concepções nas- cidas no terreno econômico e sindical ocorreu frequentemente no campo político e parlamentar. Todo abstencionismo político em geral e não apenas parlamentar se fundamenta em concepção semelhante mecanicamente catastrófica: a força do adversário entrará matematicamente em colapso se, com método rigorosa- mente intransigente, ele for boicotado no campo governamental (à greve econômica se agregam a greve e o boicote político). O exemplo clássico é o dos clericais italianos depois de 1870, que imitaram e generalizaram alguns episódios da luta dos patriotas contra o domínio austríaco ocorrida especialmente em Milão. |29| 96 caderno 13 (xxx) A afirmação, frequentemente repetida por Jacques Bainville em seus ensaios históricos, que o sufrágio universal e o plebiscito poderiam (teriam podido) e, portanto, também poderão servir ao legitimismo, na medida em que serviram a outras correntes polí- ticas (especialmente aos Bonaparte) [5] é muito ingênua, porque está ligada a um sociologismo ingênuo e abstratamente estúpido: o sufrágio universal e o plebiscito são concebidos como esquemas abstraídos das condições de tempo e de lugar. Deve-se observar: 1) que qualquer confirmação dada por sufrágio universal e por ple- biscito aconteceu depois que a classe fundamental se concentrou vigorosamente no campo político ou, mais ainda, no campo políti- co-militar em torno de uma personalidade “cesarista” ou depois de uma guerra que havia criado uma situação de emergência nacional; 2) que na realidade da história francesa existiram diferentes tipos de “sufrágio universal”, na medida em que mudaram historicamen- te as relações econômico-políticas. As crises do sufrágio universal foram determinadas pelas relações entre Paris e a província, ou seja, entre a cidade e o campo, entre as forças urbanas e as camponesas. Durante a Revolução, o bloco urbano parisiense liderou a provín- cia de modo quase absoluto e, assim, se forma o mito do sufrágio universal, que deve sempre dar razão para a democracia radical pa- risiense. Portanto, Paris quer o sufrágio universal em 1848, mas este expressa um parlamento clerical reacionário que permite a carreira de Napoleão III. Em 1871, Paris deu um grande passo à frente, por- que se rebelou contra a Assembleia Nacional de Versalhes, formada | pelo sufrágio universal, isto é, implicitamente “entende” que en- tre “progresso” e sufrágio pode haver conflito; mas esta experiência histórica, de valor inestimável, é perdida imediatamente porque os seus portadores são imediatamente suprimidos. Por isso, após 1871 Paris perde em grande parte a sua hegemonia político-democrática sobre o restante da França por várias razões: 1) porque se difunde o capitalismo urbano em toda a França e se cria o movimento ra- dical socialista em todo o território; 2) porque Paris perde definiti- vamente a sua unidade revolucionária e a sua democracia se divide em grupos sociais e partidos antagônicos. O desenvolvimento do sufrágio universal e da democracia coincide cada vez mais com o |29a| 971932-1934: notas sobre maquiavel surgimento do partido radical e a luta anticlerical em toda a França, afirmação facilitada e até favorecida pelo desenvolvimento do cha- mado sindicalismo revolucionário. Na verdade, a abstenção eleito- ral e o economicismo dos sindicalistas são a aparência “intransigen- te” da abdicação de Paris à sua função de dirigente revolucionário da França e são a expressão de um oportunismo plano após o derra- mamento de sangue de 1871. Assim, o radicalismo unifica em um plano intermediário, da mediocridade pequeno-burguesa, a aristo- cracia operária da cidade e o camponês próspero. Após a guerra, há uma retomada do desenvolvimento histórico truncado com ferro e fogo em 1871, mas é incerto, informe, oscilante e especialmente desprovido de cérebros pensantes. A «Rivista d’Italia» de 15 de janeiro de 1927 resume um artigo de J. Vialatoux publicado em «Chronique Sociale de France» de algumas semanas antes [6]; Vialatoux rejeita a tese defendida por Jacques Maritain, em “Une opinion sur Charles Maurras et le de- voir des catholiques” (Paris, Plon, 1926)[7] segundo a qual entre a filosofia e a moral pagã de Maurras e sua política não existiria mais que uma relação contingente, de modo que se se assume a doutrina política, abstraindo da filosofia, pode-se encontrar algum perigo, como em qualquer movimento humano, mas não há nada de con- denável nisso. Para Vialatoux, justamente a doutrina política emana (ou pelo menos é indivisivelmente ligada – G.) da concepção pagã do mundo (sobre este paganismo é preciso distinguir e esclarecer, entre a vestimenta literária plena de referências e metáforas pagãs e o núcleo essencial, que é, pois, o positivismo naturalista de Comte e, mediatamente, do Sansimonismo, o que se insere no paganismo apenas devido ao jargão e à nomenclatura eclesiástica - G.) O Esta- do é o fim último do homem: ele realiza a ordem humana apenas com as forças da natureza (isto é, “humana”, em contraposição à “sobrenaturais”). Maurras é definível mais por seus ódios do que por seus amores. Odeia o cristianismo primitivo (a concepção de mundo contida nos Evangelhos, nos primeiros apologistas etc., do cristianismo ao edito de Milão, em suma, cuja crença fundamental era que a vinda de Cristo havia anunciado o fim do mundo e, por- 98 caderno 13 (xxx) tanto, determinava a dissolução da ordem política romana em uma corrosiva anarquia moral de todos os valores civis e estatais) que, para ele, é uma concepção judaica. Neste sentido, Maurras quer descristianizar a sociedade moderna. Para Maurras a Igreja católica foi e será sempre mais o instrumento | desta descristianização. Ele distingue entre o Cristianismo e o Catolicismo e exalta este último como a reação da ordem romana à anarquia judaica. O culto cató- lico, as suas devoções supersticiosas, as suas festas, as suas pompas, a sua solenidade, a sua liturgia, as suas imagens, as suas fórmulas, os seus ritos sacramentais, a sua hierarquia imponente, são como um encantamento salutar para domar a anarquia cristã, para imunizar o veneno judaico do cristianismo autêntico. Segundo Vialatoux, o nacionalismo da Action Française não é mais que um episódio da história religiosa de nosso tempo (neste sentido, todo movimento político não controlado pelo Vaticano é um episódio da história religiosa, ou seja, toda história é história religiosa. Em todo caso, deve-se acrescentar que o ódio de Maurras contra tudo o que sabe do protestante e tudo que é de origem anglo-germânica - Roman- tismo, Revolução Francesa, capitalismo etc. - é apenas um aspecto desse ódio ao cristianismo primitivo. Seria necessário buscar em Augusto Comte as origens deste posicionamento geral em relação ao catolicismo, que não é independente do renascimento livresco do tomismo e do aristotelismo). CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 8 BIS - 9, 44 - 49 BIS, 5 BIS, 83 BIS - 84, 70 - 70 BIS. § 〈38〉. Maurras e o “centralismo orgânico”. O assim chamado “centralismo orgânico” se funda sobre o princípio de que um grupo político é selecionado por “cooptação”, em volta de um “portador infalível da verdade”, de um “iluminado pela razão” que encontrou as leis naturais infalíveis da evolução histórica, infalível mesmo se de longo alcance e se os eventos imediatos “pareçam” dizerque eles estão errados. A aplicação das leis da mecânica e da matemática aos fatos sociais, o que não deveria ter mais que um valor metafórico, torna-se o único e alucinante motor intelectual (vazio). A ligação entre o centralismo orgânico e as doutrinas de Maurras é evidente. |30| 991932-1934: notas sobre maquiavel A batalha do Jütland. É risível a descrição da batalha de Jütland feita por Winston Churchill em suas memórias de guerra [1]. Pare- ce, a partir dela, que o plano e a direção estratégica da batalha pelos comandos inglês e alemão estão em contraste com a representação tradicional do caráter dos dois povos. O comando inglês tinha cen- tralizado “organicamente” a execução do plano na nave principal: as unidades da frota deviam “esperar ordens” em cada momento. O comando alemão, ao contrário, tinha explicado a todos os comandos subalternos o plano estratégico geral e tinha deixado para as unida- des uma certa liberdade de manobra que as circunstâncias poderiam requerer. A frota alemã comportou-se muito bem. A frota inglesa, ao contrário, foi desajeitada, correu muitos riscos, sofreu pesadas perdas e, apesar de sua superioridade, não conseguiu atingir objeti- vos estratégicos positivos: a um certo ponto, o almirante perdeu as comunicações com as unidades combatentes e estas cometiam erros após erros. (Sobre a batalha do Jütland [ Jutlândia], Epicarmo Cor- bino escreveu um livro) [2]. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 49 BIS, 51 BIS - 52. § 〈39〉. Italo Chittaro, La capacità di comando, Casa Editrice De Alberti, Roma. De uma resenha de V. Varanini na «Fiera Lettera- ria» de 04 de novembro de 1928, parece que no livro de Chittaro estão contidas ideias muito interessantes também para a ciência po- lítica. Necessidade de estudos históricos para a formação profissio- nal de oficiais. Para comandar não é suficiente o simples bom senso: este, se existe, é fruto de um conhecimento profundo e de um longo | exercício. A capacidade de comando é especialmente importante para a infantaria: se, nas outras armas se formam especialistas em tarefas particulares, na infantaria formam-se especialistas no coman- do, isto é, nas tarefas de conjunto: portanto, há a necessidade de que todos os oficiais destinados a graus elevados ocupem comandos de infantaria (isto é, antes de serem capazes de ordenar “coisas” é ne- cessário serem capazes de ordenar e guiar os homens). Por fim, con- sidera-se a necessidade da formação de um Estado Maior numeroso, válido, popular entre as tropas [1]. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 63 BIS - 64. |30a| 100 caderno 13 (xxx) § 〈40〉. G. Gentile e a filosofia da política. Cf. o Artigo publica- do por G. Gentile no «Spectator» de 03 de novembro de 1928 e reimpresso na «Educazione Fascista». “Filosofia que não se pensa (!?), mas que se faz e, por isso, se enuncia e se afirma não com as fórmulas, mas com as ações” [1]. Uma vez que, desde que o homem existe, sempre se “fez”, sempre existiu a “ação”, esta filosofia sempre existiu e, portanto, foi a filosofia de... Nitti e de Giolitti. Cada Es- tado tem “duas filosofias”: aquela que se enuncia por fórmulas e é uma simples arte de governo e aquela que se afirma com a ação e é a filosofia real, ou seja, a história. O problema é ver em que medida estas duas filosofias coincidem, divergem, estão em contraste, são íntima e mutuamente coerentes entre si. A “fórmula” gentiliana não é, na realidade, mais do que a máscara sofística da “filosofia” políti- ca mais conhecida com o nome de “oportunismo” e de empirismo. Se Bouvard e Pécuchet houvessem conhecido Gentile, teriam en- contrado na sua filosofia a justa interpretação de sua atividade re- novadora e revolucionária (no sentido não corrompido da palavra, como se diz). CF. CADERNO 1 (XVI), P. 65. 1011932-1934: notas sobre maquiavelpelo Istituto della Enciclopedia Italiana e o Istituto Fondazione Gramsci di Roma, tem a previsão de numerosos volumes divididos nas três seções: escritos antes do cárcere, obras do cárcere e epistolário. Até hoje, vieram a público os quatro Quaderni di traduzione que não constam da edição crítica de Gerratana; dois vols. do epistolário: as cartas escritas entre 1906 e 1922 (vol. I) e os escritos do ano de 1917 (vol. II); os primeiros quatro cadernos de no- tas teóricas na nova edição crítica de G. Francioni, todos publicados pelo Istituto della Enciclopedia Italiana. 16 Gramsci escreveu 33 cadernos, sendo quatro dedicados a exercícios de tradu- ção, excluídos da “Edição crítica” de Gerratana. Só no final do caderno 29, como Apêndice, Gerratana coloca poucas páginas de alguns “Extratos dos Cadernos de tradução”. XII uma visão geral dos assuntos que desenvolveu mais amplamente, dos que abordou parcial e sucintamente e dos numerosos pró-me- mórias deixados para ulteriores pesquisas. Acima de tudo, o acesso à leitura integral das notas carcerárias permite verificar que o traba- lho de coleta do material de primeira redação registrado nos “cader- nos miscelâneos”, como o próprio Gramsci os denomina, não é um depósito aleatório de notas, um amontoado caótico e amorfo de reflexões reunidas a esmo, mas um extenso campo de pesquisa que já revela uma orientação básica de objetivos e uma metodologia de trabalho, reúne um conteúdo significativo de investigações interco- nectadas, mostra o amplo laboratório das suas ideias e as linhas de fundo que irão confluir na articulação dos temas aglutinadores sis- tematizados nos “cadernos especiais”, assim chamados por Gramsci. Motivada pela importância significativa desses aspectos, a pro- posta de traduzir integralmente a “Edição crítica” dos Cadernos do cárcere, mesmo sem nenhum suporte financeiro, recebeu a adesão generosa de 22 professores estudiosos da obra de Gramsci, todos sócios da IGS-Brasil, que se dispuseram voluntariamente a fazer parte da equipe de tradutores17. Nesse trabalho coletivo, além da “Edição temática”, da “Edição Crítica” (inclusive eletrônica) e da “Edizione anastatica dei ma- 17 Tradutores dos Cadernos “especiais”: 10 (Ana Maria Said/Gianni Fresu) – 11 (Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 12-20-21 (Maria Margarida Machado) – 13 e 18 (Anita Schlesener/Maria Socorro Militão) – 16 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo) – 19 (Marcos Del Roio/Leandro Galastri/Tatiana Oliveira) – 22 (Lincoln Secco/Silvia de Bernardinis) – 23 (Rocco Lacorte/Alex Calheiros/ Lucas Moura Vieira) – 24 e 25 (Massimo Sciarretta/Ricardo Salles) – 26-27-28- 29 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio). Tradutores dos Cadernos “miscelâneos”: 1 (Rocco Lacorte/Alex Calheiros/Lucas Moura Vieira) – 2 (Massimo Sciarretta/ Giovanni Semeraro) – 3 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo/Giovanni Semeraro) – 4 (Rita Coitinho/Marcos Aurélio da Silva) – 5 (Ana Maria Said/ Marcos Aurélio da Silva/Giovanni Semeraro) – 6 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio/ Maria Margarida Machado/Giovanni Semeraro/Helton Messini) – 7 (Ana Ma- ria Said/Marcos Aurélio da Silva) – 8 (Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 9 (Leandro Galastri/Tatiana Oliveira/Giovanni Semeraro) – 14 (Anita Schlesener/ Maria Socorro Militão) – 15 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo) – 17 (Maria Margarida Machado). XIII noscritti” (Francioni, 2009)18, tivemos a vantagem de consultar traduções anteriores, empreendimentos editorais realizados em outros idiomas, especialmente, nas línguas espanhola e inglesa, e a possibilidade de levar em conta numerosos estudos filológicos que nesses últimos anos se multiplicaram e lançaram muita luz sobre a complexidade do pensamento de Gramsci e a intensa trama con- ceitual que permeia a sua obra. Como se sabe, nas notas dos Ca- dernos, além do trânsito nas mais diversas áreas do conhecimento e da ampla visão que Gramsci tem da política, da filosofia, da histó- ria, da cultura, da educação, da literatura, do universo popular etc., Gramsci é protagonista de primeira linha em um período crucial da história contemporânea: as duas grandes guerras, a Revolução de 1917, a fundação do Partido Comunista da Itália (PCd’I), a ex- pansão e a crise do movimento operário na Itália e na Europa, o surgimento e a dominação do fascismo e do nazismo. Traduzir, portanto, uma obra extensa e complexa como os Ca- dernos do cárcere com uma equipe numerosa de tradutores não deixa de ser um exercício fecundo e promissor, mas a tarefa não está isenta de problemas. Por um lado, de fato, oferece a vantagem de tornar o trabalho menos oneroso, promove uma interlocução enri- quecedora entre seus integrantes e proporciona uma diversidade de pontos de vista. Mas, por outro lado, exige um ritmo que respeite as condições de trabalho de cada um e um delicado acordo para estabelecer convergências básicas em relação à organização formal do texto, à interpretação de questões complexas e controvertidas, à heterogeneidade de estilos, ao uso de linguagem, à pontuação e mo- delagem da escrita, ainda mais pelo fato de que a maioria das notas carcerárias foram escritas “ao correr da pena” (Q 11, p. 1365) e nas condições precárias da vida carcerária. Com o passar do tempo e a maior habilidade adquirida no trabalho de tradução, as dúvidas e incertezas que cercavam o início do novo empreendimento foram se desfazendo e deram lugar a sentimentos de entusiasmo e gratifi- 18 Francioni, G.(org.), Antonio Gramsci: Quaderni del carcere. Edizione anastatica dei manoscritti, 18 voll, Istituto della Enciclopedia Italiana - L’Unione Sarda, Ro- ma-Cagliari, 2009. XIV cação. De certa forma, traduzir os Cadernos do cárcere nos fez sen- tir parte de uma experiência singular e de uma viagem incomum, áspera, desafiadora e fascinante: partilhar com o autor o tormento da elaboração dos conceitos, a responsabilidade na busca de expres- sões mais adequadas, o labor e a alegria ao vislumbrar novos hori- zontes de conhecimento e revolucionárias propostas sociopolíticas. Avanços e desafios da tradução dos Cadernos do cárcere Para entrar no emaranhado de questões que surgem para traduzir a extensa obra derivada das anotações carcerárias que Gramsci dei- xou com suas peculiares características, entre outros cuidados, le- vamos em conta os critérios metodológicos e as cautelas filológicas que o próprio autor apontou em diversas ocasiões, principalmente, no Caderno 16. No §2 desse caderno, de fato, apresenta-se um con- junto de recomendações quando “se quer estudar o surgimento de uma concepção de mundo que nunca foi exposta sistematicamente pelo seu fundador”, alertando para que se busque o seu autêntico sentido “em todo o desenvolvimento do trabalho intelectual” e que se possa “fazer preliminarmente um trabalho filológico minucioso e conduzido com o máximo escrúpulo de exatidão” (p. 1840). E tais cuidados adquirem ainda mais importância “quando se trata de uma personalidade na qual a atividade teórica e a prática estão indissoluvelmente entrelaçadas, de um pensamento em contínua criação e perpétuo movimento, que sente vigorosamente a autocrí- tica” (p. 1841). Embora Gramsci esteja se referindo essencialmente aos escritos de Marx, essas indicações se tornam demasiadamente oportunas quando se analisa a sua própria obra, uma vez que, na prática, Gramsci não deixou nenhum livro definitivo e impresso da sua imensa produção. Trata-se, portanto, de um autor póstumo, cuja obra foi progressivamente editada pelas mãos de diversos es- tudiosos e continua sendo organizada e editada integralmente até hoje. Juntamente com os avanços da hermenêutica, da moderna crí- tica literária e dos estudos filológicos, essas considerações são fun- damentais para reconstruir a trama complexa e dinâmica que cons- titui o projeto de estudos e o modo de escrever de Gramsci, para XV percorrer as etapas da evolução do seu pensamento e se adentrar no contexto histórico, político e cultural no qual se situamseus escri- tos e a sua atuação de intelectual e militante político. Por isso, além da bagagem técnica e filológica, do domínio das línguas e de uma boa dose de conhecimentos sobre a obra do autor, a tradução exige também decifrar a linguagem típica da sua época e visitar os basti- dores do intenso trabalho de outros tradutores e os problemas en- frentados pelos editores. Nesse sentido, o nosso trabalho não tem a pretensão de invalidar as traduções anteriores, mas de oferecer mais um instrumento de leitura e pesquisas para um público que vem se ampliando e aprimorando no Brasil. Pois, com a tradução integral da edição Gerratana, será possível ler os cadernos de Gramsci como foram escritos, não como foram selecionados e organizados. Ter em mãos e poder percorrer todas as notas e apontamentos de primeira (Textos A) e segunda redação (Textos C) e os de reda- ção única (Textos B) oferece a possibilidade de observar não só a forma peculiar e admirável de “Como trabalhava Gramsci” (Fran- cioni, 2009)19, mas de captar melhor a interligação inseparável en- tre os cadernos “miscelâneos”, os “especiais” e de redação única, de descobrir as recorrências e as sucessivas abordagens de assuntos, a incansável reelaboração de ideias, a “estrutura reticular” das notas e a “escritura em espiral” (Francioni, 1984, p. 22) do autor, o refina- mento da sua argumentação, a ampliação de conceitos, as comple- xas articulações das partes em torno de temas aglutinadores, a linha unitária que perpassa os seus planos de estudos, as artérias centrais da reflexão carcerária, as questões inacabadas, as que ficaram apenas mencionadas e deixadas em aberto. Tendo a visão da arquitetura geral, ainda que incompleta e truncada em algumas partes, apare- cem mais claramente não só a conexão e o desenvolvimento das vér- tebras principais da obra de Gramsci, mas emergem também a visão poliédrica e a sua personalidade permanentemente crítica e aberta que se adentra com perspicácia nas mais diversas esferas da polí- tica e do conhecimento, evidenciando, assim, também, o valor de 19 Francioni, G., “Come lavorava Gramsci”, in: “Introduzione” ao vol. 1 de Gramsci, A., Quaderni del carcere. Edizione anastatica dei manoscritti, cit., 2009. XVI muitas notas, assuntos, questões e páginas consideradas de pouca importância e secundárias, inclusive as tiradas divertidas e bem-hu- moradas. Nesse sentido, adquirem também valor, por exemplo, a extensa coleta de bibliografias, o amplo repertório de revistas, pe- riódicos, jornais e artigos consultados, a visão geral da história e o interesse por questões de caráter nacional e internacional, a interlo- cução com os mais diversos autores, o elenco dos livros escolhidos e encomendados por ele, minutas de cartas20, inclusive, as pequenas observações registradas telegraficamente, os breves apontamentos de pró-memória, as referências a assuntos aparentemente banais. Até as páginas interrompidas e não preenchidas dos cadernos aca- bam revelando intenções e limites do autor. Dessa forma, todo o conjunto do material levantado nas investigações de Gramsci, in- clusive o meramente sinalizado e incompleto, assume grande signi- ficação para entender melhor o intenso retículo de temas tratados, a trama complexa das notas e o amplo leque de esferas exploradas pelo pensador encarcerado, tornando, assim, essa obra gigantesca não só uma fonte de inspiração, mas também a base fundamental da elaboração de uma nova concepção de mundo, herança a ser completada, aprofundada e levada coletivamente mais adiante. Na verdade, tanto o conteúdo como o método utilizado e o projeto desenvolvido por Gramsci nos Cadernos, longe de serem um produto improvisado e circunstancial, apresentam todos os conotados de uma cuidadosa investigação científica, de ampla do- cumentação, de refinada fundamentação teórica e de pesquisa de longo respiro que “demanda grandes bibliotecas” (Santucci, 1996, p. 441, carta de 03/08/1931), um incalculável legado que exige o envolvimento e a parceria dos leitores na mesma tarefa. As repeti- das recomendações sinalizadas por Gramsci de que suas notas são “primeiras aproximações” e as inúmeras insistências para “verificar”, “pesquisar”, “consultar”, “aprofundar”, “levar em conta”, além da fre- quente recorrência de “aspas”, de “parece-me”, de “etc.” e das inúme- 20 Minutas de cartas, elencos de livros, contas, cálculos etc., anotados por Gramsci em diversas páginas dos Cadernos, são transferidos por Gerratana na “Descrição dos Cadernos” do “Apparato critico”. XVII ras referências bibliográficas, não representam apenas indicações de pistas abertas a serem retomadas quando ele tivesse melhores condições de tempo e de trabalho, mas revelam também a consci- ência de que, mais do que deixar o legado de um conteúdo acabado e solidificado, Gramsci está apontando para um imenso território a ser explorado e aprofundado não só por um indivíduo isolado no cárcere, mas por um trabalho “coletivo” e de longo prazo. Nes- se sentido, os Cadernos do cárcere podem ser considerados como um mapa precioso que aponta caminhos imprescindíveis para as “classes subalternas” e os povos subjugados se organizarem politi- camente para reivindicar seus direitos fundamentais, conquistar a hegemonia e construir uma nova civilização. Por isso, embora Gramsci tenha reelaborado e agrupado muitas das suas anotações preliminares em torno de temas aglutinadores nos “cadernos especiais”, ao estudar todo o conjunto das notas, fica evidente que o processo permanente de investigação e de aprendi- zagem adotado por Gramsci não permite estabelecer uma divisão rigorosa entre o “método de pesquisa” e o “método de exposição”. Entre os cadernos “miscelâneos”, “especiais” e de redação única, a distinção é só metodológica, não orgânica e substancial. Mesmo se concentrando e confluindo na redação dos cadernos “especiais”, por questão de tempo e pressionado pela saúde que vinha se debi- litando rapidamente, Gramsci nunca deixou de continuar a inves- tigar e explorar novas fronteiras de conhecimento e reelaborar as suas reflexões. Adotando, portanto, o critério de separação entre os “miscelâneos” e os “especiais” na edição da obra de Gramsci, corre- -se o risco de desconsiderar a extensão dos seus horizontes e reduzir o significado da multiplicidade dos assuntos abordados, mesmo os rascunhados, menos elaborados e aprofundados. Além disso, ao descartar a parte dos seus escritos considerada preliminar, acabam sendo obscurecidos aspectos fundamentais do seu pensamento: a visão histórica, dialética e orgânica da realidade sempre em mo- vimento, imbricada com a “complexidade molecular da vida real” (Santucci, 1996, p. 222, carta de 19/11/1928) e o árduo labor para o seu entendimento e a sua transformação. Como se sabe, de fato, XVIII um dos principais objetivos da vida política e da obra carcerária de Gramsci foi aprofundar e levar adiante a concepção de mundo inaugurada por Marx. Quando, portanto, Gramsci resolve se dedicar a um traba- lho “desinteressado” e “für ewig” (Santucci, 1996, p. 55, carta de 19/03/1927), de longo respiro e alcance duradouro, não está sendo tomado por um surto de titanismo e delírio de grandeza, males dos quais nunca padeceu, mas da clara consciência de que, como ele co- menta muitas vezes, a partir de Marx, se desencadeia na história um movimento que “renova de cima a baixo” (Q 11, §27, p. 1436) toda a concepção de mundo existente até então e inicia-se um período revolucionário “que provavelmente durará séculos” (Q 6, §33, p. 882). Ou seja, deu-se início a uma enorme e desafiadora tarefa que investe todos os aspectos da vida humana e que demanda todas as energias das classes subjugadas com seus intelectuais para elaborar também as armas teóricas mais avançadas e refinadas. Ter, portanto, acesso aos escritos integrais e à obra completa de Gramsci, que inclui os escritos pré-carcerários e o epistolário, leva a não se limitar a leituras parciais,a pesquisas centradas em assun- tos segmentados e análises apressadas, a estudos de conceitos e de temas isolados, ao atalho dos verbetes e a frases fora de contexto. Contrariamente a quem pratica uma anatomia de partes separadas do corpo inteiro, o método de Gramsci ensina a se dedicar incan- savelmente a estudar e pesquisar, com visão histórica, abrangente e progressiva, a natureza processual e dialética da realidade, conec- tando a multiplicidade das suas expressões na totalidade do contex- to no qual estamos inevitavelmente inseridos. Portanto, poder entrar na mina escavada por Gramsci, propicia- da pela “Edição crítica” de Gerratana, além de uma visão de conjun- to, oferece aos estudiosos de Gramsci no Brasil “um instrumento de leitura que permita seguir o ritmo de desenvolvimento com o qual a pesquisa gramsciana se desdobra nas páginas dos Cadernos” (Ger- ratana, 1975, p. xxv). Ou seja, como o próprio Gramsci sinaliza, XIX cria as condições para sintonizar-se com o seu “ritmo do pensamen- to em movimento” (Q 16, §2, p.1841) e para “reviver seu fluxo e seu continuum” (Baratta, 2004, p. 101)21. Abraçamos, de fato, a complexa e delicada tarefa de traduzir a obra carcerária de Gramsci conscientes de que o trabalho não se reduz a uma transposição técnica e mecânica do texto, a resgatar o sentido mais exato das suas ideias no seu contexto, mas implica realizar um transplante de matéria viva de um campo teórico, polí- tico, histórico e linguístico para um outro corpo vivo e palpitante, ou seja, operar a passagem para um diferente universo cultural que comporta inevitavelmente não só a mediação de uma interpreta- ção cuidadosa, propriedade conceitual e atualização terminológica, mas, também, a empatia com o projeto de sociedade que emana dos escritos de Gramsci, hoje, como nunca, de grande atualidade e urgência. Assim, além das “cautelas filológicas” (Q 16, §2, pp. 1840-44) e da contextualização no ambiente no qual Gramsci ope- rou, para sermos fiéis ao pensamento e ao seu método, precisamos também praticar o que ele chamava de “filologia vivente”, ou seja, traduzir concretamente o seu legado, levando em conta as interpe- lações provenientes do nosso contexto histórico e da atuação teóri- ca e política realizadas pelo “organismo coletivo através da ‘coparti- cipação ativa e consciente’, da ‘copassionalidade’, da experiência dos particulares imediatos, por um sistema que se poderia chamar de ‘filologia vivente’” (Q 11, § 25, p. 1430). Esperamos, portanto, que a tradução integral dos textos de Gramsci contidos na “Edição crítica do Instituto Gramsci” (aos cuidados de V. Gerratana) não leve os leitores e estudiosos a se enclausurar no seu laboratório, mas, sem dissociar as “cautelas fi- lológicas” da “filologia vivente”, possam desenvolver a capacida- de de interagir, atualizar, desdobrar, potencializar e recriar o seu pensamento na teoria e na prática do próprio contexto histórico. Como já observei, “não podemos cair na contradição de encarcerar Gramsci nas grades de um texto canônico e definitivo, até porque 21 Baratta, G., As rosas e os Cadernos – o pensamento dialógico de Antonio Gramsci, Editora DP&A, Rio de Janeiro, 2004. XX toda a atividade filológica, por mais rigorosa e exitosa que seja, é sempre histórica, datada e sujeita a ser questionada e reconstruída. Sendo inseparavelmente intelectual e político militante, Gramsci solicita não só um trato cuidadoso com seus textos, mas nos de- safia a ‘ler e continuar a escrever’ uma obra deixada incompleta, a ser atualizada com o nosso labor teórico e a nossa atuação política” (Semeraro, 2019, p. 56)22. Giovanni Semeraro Coordenador do GT de Tradução IGS - Brasil 22 Semeraro, G., “A ‘tradução’ de Gramsci no mundo”, in Bianchi, A.- Mussi, D.- Areco, S., Antonio Gramsci: filologia e política, Zouk, Porto Alegre, 2019. XXI NOTA A ESTA EDIÇÃO Esclarecimentos sobre a padronização utilizada Como já destacado na Apresentação e no Prefácio, a tradução em língua portuguesa e a disponibilização online dos Cadernos do Cárcere de Antonio Gramsci, têm por finalidade contribuir para que leitores, pesquisadores e militantes possam acessar esses escri- tos na íntegra. O trabalho de padronização dos textos está, essencialmente, baseado no ordenamento das notas realizado pela Edição Crítica do Instituto Gramsci, a cura de Valentino Gerratana. Assim, com algumas adaptações, a nossa edição utilizou os seguintes critérios: ▶ A indicação das páginas de seu início e término de cada caderno, conforme a Edição Gerratana, na folha de rosto. ▶ Manutenção de parêntese angulado no número do parágrafo de cada nota, como consta na edição Gerratana. Ex.: §〈1〉. ▶ Sinalização do número de página correspondente ao texto manuscrito de Gramsci que está posto na margem da página pela edição Gerratana. Ex.: |1|, |1A| (“A” no lugar de “bis”) etc. ▶ Manutenção das referências bibliográficas nas línguas utilizadas por Gramsci. ▶ Manutenção das palavras em itálico que constam no corpo das notas. ▶ Para poder diferenciar os títulos de livros, deixados em itálico, foram colocados os títulos de artigos em letra de fonte regular e entre parênteses curvas “ ”. ▶ Manutenção dos parênteses angulados « » que Gramsci usa quando cita as revistas e jornais. XXII ▶ Inclusão em rodapé da tradução das citações mais extensas feitas por Gramsci em outras línguas, para deixar fluir a leitura do texto. ▶ Posicionamento entre colchetes [ ] de alguma palavra ou expressão do italiano sem correspondência na língua portuguesa, antes de operar a conversão na expressão consoante no português. ▶ Quando estritamente necessário, para tornar uma frase mais clara, recorreu-se à possibilidade de colocar entre colchetes [ ] algum termo de acréscimo sinalizado como N.T. ▶ Manutenção das referências postas por Gerratana a (os) outro (s) caderno (s) no fim das notas, mas, com fonte em caixa alta na cor roxa. ▶ Vertidos para o português os nomes dos autores mencionados por Gramsci (salvo nomes já usados no original, como por exemplo, K. Marx, F. Engels, V. Lenin). ▶ Enumeração em cor roxa e entre colchetes [ ] para indicar as “Note al Testo” que constam no “Apparato Critico” do volume IV da edição de Gerratana. Assim que nos for possível, pretendemos traduzir também estas “Note al Testo”. ▶ Sinalização a partir de asterisco verde no corpo das notas para indicação dos comentários/observações do editor em rodapé, expressos como: “No ms” (Nel manoscritto). Resolvemos não traduzir a “Cronologia della vita de Antonio Gramsci” que consta no Iº volume da Edição Crítica de Gerratana, considerando que os leitores podem encontrar esses dados na bi- bliografia a respeito disponível no Brasil. Além da Edição Crítica de Gerratana e de outras traduções, os leitores podem consultar os Cadernos do Cárcere na versão anas- tática dos manuscritos, disponibilizados pela Fundação Gramsci/ Itália, no endereço: https://gramsci.digital-library.it/en/quaderni- -dal-carcere. XXIII No processo de tradução e revisão podem ter ocorrido even- tuais falhas e erros. Receberemos, portanto, com gratidão as si- nalizações que nos forem enviadas ao E-mail da IGS/Brasil: igs.brasil1@gmail.com para corrigir e melhorar os textos em pró- ximas edições. Maria Margarida Machado Coordenação Científica da IGS/Brasil (Gestão 2022-2024) CADERNO 13 (XXX) 1932-1934 Notas sobre a política de Maquiavel Corresponde à Edição Gerratana: pp. 1553-1652 31932-1934: notas sobre maquiavel |§ 〈1〉. O caráter fundamental de O Príncipe é aquele de não ser um tratado sistemático, mas um livro “vivente”, no qual a ide- ologia política e a ciência política se fundem na forma dramática do “mito”. Entre a utopia e o tratado escolástico, as formas nas quais a ciência política se configurava até Maquiavel, este deru à sua concepção a forma da fantasia e da arte, pela qual o elemen- to doutrinário e racional personifica-se em um condottiero, querepresenta plasticamente e “antropomorficamente” o símbolo da “vontade coletiva”. O processo de formação de uma determinada vontade coletiva, para um determinado fim político, é representado não através de investigações e classificações pedantescas de princí- pios e critérios de um método de ação, mas como qualidade, traços característicos, deveres, necessidade de uma pessoa concreta, isto que faz operar a fantasia artística de quem se quer convencer e dá uma forma mais concreta às paixões políticas. (Deve-se procurar, nos escritores políticos precedentes a Maquiavel, se existem escri- tos configurados como o Príncipe. Também o final do Príncipe está ligado a este caráter “mítico” do livro: depois de ter representado o condottiero ideal, Maquiavel com uma passagem de grande eficácia artística – invoca o condottiero real que o personifique historica- mente: esta invocação apaixonada reflete-se em todo o livro, confe- rindo-lhe precisamente o caráter dramático. Nos Prolegomeni de L. Russo, Maquiavel é chamado de artista da política e, numa ocasião, chega-se mesmo à expressão “mito”, mas não exatamente no sentido acima indicado) [1]. O Príncipe de Maquiavel poderia ser estudado como uma exemplificação histórica do “mito” soreliano, isto é, de uma ideo- logia que se apresenta não como fria utopia nem como raciocínio |1| 4 caderno 13 (xxx) |1a| doutrinário, mas como uma criação da fantasia concreta que atua sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar nele a vontade coletiva. O caráter utópico de o Príncipe consiste no fato que o “príncipe” não existia na realidade histórica, não se apresentava ao povo italiano com características de imediaticidade objetiva, mas era pura abstração doutrinária, o símbolo do líder, do condottiero ideal; mas os elementos passionais, míticos, contidos em todo o pequeno livro, com movimento dramático de grande efeito, sintetizam-se e tornam-se vivos na conclusão, na invocação de um príncipe “realmente existente”. Em todo o pequeno volume, Maquiavel trata de como deve ser o Príncipe para conduzir um povo à fundação do novo Estado, e a discussão é conduzida com ri- gor lógico, com distanciamento científico: na conclusão, o próprio Maquiavel se faz povo, confunde-se com o povo, mas não com um povo “genericamente” entendido, mas com o povo que Maquiavel convenceu com a sua discussão precedente, do qual ele se torna e se sente consciência e expressão, se sente semelhante: parece que todo o trabalho “lógico” não é mais do que uma auto-reflexão do povo, um raciocínio interno, que se faz na consciência popular e acaba num grito apaixonado, imediato. De raciocínio sobre si mesma, a paixão transforma-se em “afeto”, febre, fanatismo de ação. Eis por que o epílogo de o Príncipe não é algo extrínseco, “imposto” de fora, retórico, mas deve ser explicado como elemento necessário da obra, ou melhor, como aquele elemento que reverbera sua verdadeira luz em toda a obra e faz dela algo similar a um “manifesto político”. Pode-se estudar como Sorel, que partindo da concepção da ideologia-mito, não atingiu a compreensão do partido político, mas |se deteve na concepção do sindicato profissional. É verda- de que, para Sorel, o “mito” não encontrava sua expressão maior no sindicato, como organização de uma vontade coletiva, mas na ação prática do sindicato e de uma vontade coletiva já operan- te, ação prática cuja máxima realização deveria ser a greve geral, isto é, uma “atividade passiva”, por assim dizer, isto é, de caráter negativo e preliminar (o caráter positivo é dado apenas pelo acor- do alcançado nas vontades associadas) de uma atividade que não 51932-1934: notas sobre maquiavel prevê uma fase própria “ativa e construtiva”. Em Sorel, portanto, chocavam-se duas necessidades: a do mito e a da crítica do mito, uma vez que, “todo plano preestabelecido é utópico e reacioná- rio”. A solução era abandonada ao impulso do irracional, do “ar- bitrário” (no sentido bergsoniano de “impulso vital”), ou seja, da “espontaneidade”. (Deve-se notar uma contradição implícita no modo com o qual Croce coloca o seu problema de história e anti- -história com outros modos de pensar de Croce: sua aversão aos “partidos políticos” e seu modo de pôr a questão da “previsibili- dade” dos fatos sociais, cf. Conversazioni Critiche, Série primeira, p. 150-52, resenha do livro de Ludovico Limentani, La previsione dei fatti sociali, Turim, Bocca, 1907 [2]; se os fatos sociais são im- previsíveis e o próprio conceito de previsão é puro som, o irracio- nal não pode deixar de dominar e toda organização de homens é anti-história, é um “preconceito”: só resta resolver caso a caso e, com critérios imediatos, resolver os problemas práticos singula- res colocados pelo desenvolvimento histórico – conforme o ar- tigo de Croce, “Il partito come giudizio e come pregiudizio”, em «Cultura e vita morale» [3] - e o oportunismo torna-se a única linha política possível). Mas pode um mito ser “não construtivo”, pode-se imaginar, na ordem de intuições de Sorel, que seja pro- dutor de realidades, um instrumento que deixa a vontade coletiva na sua fase primitiva e elementar da sua mera formação, por dis- tinção (por “cisão”), embora com violência, isto é, destruindo as relações morais e jurídicas existentes? Mas esta vontade coletiva, assim formada de modo elementar, não deixará de existir imedia- tamente, pulverizando-se numa infinidade de vontades singula- res, que na fase positiva seguem direções diversas e contrastantes? Além da questão de não poder existir destruição, negação, sem uma implícita construção, afirmação [4], e não em sentido “meta- físico”, mas praticamente, isto é, politicamente, como programa de partido. Neste caso, se supõe ver por trás da espontaneidade um puro mecanicismo, por trás da liberdade (arbítrio-impulso vital) um máximo de determinismo, por trás do idealismo um materialismo absoluto. 6 caderno 13 (xxx) O moderno príncipe, o mito-príncipe não pode ser uma pessoa real, um indivíduo concreto, só pode ser um organismo; um ele- mento complexo de sociedade no qual já tem início a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação. Este organismo já está dado pelo desenvolvimento histórico e é o partido político, a primeira célula na qual se sintetizam germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais. No mundo moderno, só uma ação histórico-política imediata e imi- nente, caracterizada pela necessidade de um procedimento rápido e fulminante, pode encarnar-se miticamente em um indivíduo con- creto: a rapidez só pode tornar-se necessária diante de um grande perigo iminente, grande perigo que cria, de modo fulminante, o fogo das paixões e do fanatismo, aniquilando o senso crítico e a corrosividade irônica que podem destruir o caráter “carismático” do condottiero (conforme| ocorreu na aventura de Boulanger). Mas uma ação imediata de tal gênero, por sua própria natureza, não pode ser ampla e de caráter orgânico: será quase sempre do tipo restauração e reorganização, e não do tipo peculiar à fundação de novos Estados e novas estruturas nacionais* e sociais (como era o caso no Príncipe de Maquiavel, em que o aspecto de restauração era só um elemento retórico, isto é, ligado ao conceito literário da Itália descendente de Roma e que devia restaurar a ordem e a po- tência de Roma), será de tipo “defensivo” e não criativo original, isto é, no qual se supõe que uma vontade coletiva já existente tenha se enfraquecido, dispersado, tenha sofrido um colapso perigoso e ameaçador, mas não decisivo e catastrófico, sendo necessário redi- recioná-la e fortalecê-la; e não que uma vontade coletiva deva ser criada do zero, originalmente, e ser direcionada para metas concre- tas e racionais, mas de uma concreção e racionalidade ainda não verificadas e criticadas por uma experiência histórica efetiva e uni- versalmente conhecida. O caráter “abstrato” da concepção sorelianado “mito” revela-se na aversão (que assume a forma passional de uma repugnância éti- ca) pelos jacobinos, que certamente foram uma “encarnação categó- |2| * NO MS: “NAÇÕES”. 71932-1934: notas sobre maquiavel rica” do Príncipe de Maquiavel. O moderno Príncipe deve ter uma parte dedicada ao jacobinismo (no significado integral que esta no- ção teve historicamente e deve ter conceitualmente), como exem- plificação do modo como se formou concretamente e operou uma vontade coletiva que, pelo menos em alguns aspectos, foi criação ex novo, original. E é preciso definir a vontade coletiva e a vontade política em geral no sentido moderno, a vontade como consciência operosa da necessidade histórica, como protagonista de um real e efetivo drama histórico. Uma das primeiras partes deveria precisamente ser dedicada à “vontade coletiva”, apresentando assim a questão: quando pode-se dizer que existem as condições para que se possa suscitar e desen- volver uma vontade coletiva nacional-popular? E, portanto, uma análise histórica (econômica) da estrutura social de um dado país e uma representação “dramática” das tentativas feitas através dos séculos para suscitar esta vontade e as razões dos sucessivos fracas- sos. Por que na Itália não se teve a monarquia absoluta na época de Maquiavel? É necessário remontar ao Império Romano (ques- tão da língua, dos intelectuais etc.) para compreender a função das Comunas medievais, o significado do catolicismo etc.: deve-se, em suma, fazer um esboço de toda a história italiana, sintético, mas exato. A razão dos sucessivos fracassos das tentativas de criar uma von- tade coletiva nacional-popular deve ser procurada na existência de determinados grupos sociais, que se formam a partir da dissolução da burguesia comunal, no caráter particular de outros grupos que refletem a função internacional da Itália como sede da Igreja e de- positária do Sacro Império Romano etc. Esta função e a consequen- te posição determinam uma situação interna que pode ser chamada de “econômico-corporativa”, isto é, politicamente, a pior das for- mas de sociedade feudal, a forma menos progressiva e mais estacio- nária: nunca existiu, e não poderia constituir-se uma força jacobina eficiente, a força que precisamente nas outras nações suscitou e or- ganizou a vontade coletiva nacional-popular e fundou os Estados modernos. Existem finalmente as condições para esta vontade, ou 8 caderno 13 (xxx) seja, qual é a relação atual entre estas condições e as forças opostas? Tradicionalmente, as forças opostas foram a aristocracia rural e, de modo mais geral|, a propriedade agrária em seu conjunto, com seu traço italiano característico, que é uma “burguesia rural” especial, herdeira do parasitismo legado aos tempos modernos pela dissolu- ção, como classe, da burguesia comunal (as cem cidades, as cidades do silêncio). As condições positivas devem ser buscadas na existên- cia de grupos sociais urbanos, adequadamente desenvolvidos no campo da produção industrial e que tenham alcançado um deter- minado nível de cultura histórico-política. Qualquer formação de uma vontade coletiva nacional-popular é impossível se as grandes massas dos camponeses cultivadores não irromperem simultanea- mente na vida política. Isto foi o que Maquiavel pretendeu através da reforma da milícia, isto foi o que fizeram os jacobinos na Revo- lução Francesa; na compreensão disso, deve-se identificar um jaco- binismo precoce de Maquiavel, o germe (mais ou menos fecundo) de sua concepção da revolução nacional. Toda a história depois de 1815 mostra o esforço das classes tradicionais para impedir a formação de uma vontade coletiva desse tipo, para manter o poder “econômico-corporativo” num sistema internacional de equilíbrio passivo. Uma parte importante do moderno Príncipe deverá ser dedica- da à questão de uma reforma intelectual e moral, isto é, à questão religiosa ou de uma concepção do mundo. Também neste campo encontramos, na tradição, ausência de jacobinismo e medo do ja- cobinismo (a última expressão filosófica desse medo é a atitude malthusiana de B. Croce em face da religião). O moderno Príncipe deve e não pode deixar de ser o anunciador e o organizador de uma reforma intelectual e moral, o que significa criar o terreno para um ulterior desenvolvimento da vontade coletiva nacional-popular em direção ao cumprimento de uma forma superior e total de civiliza- ção moderna. Estes dois pontos fundamentais – formação de uma vontade co- letiva nacional-popular, da qual o moderno Príncipe é ao mesmo tempo o organizador e a expressão ativa e atuante, e a reforma in- |2a| 91932-1934: notas sobre maquiavel telectual e moral - deveriam constituir a estrutura do trabalho. Os pontos concretos do programa devem ser incorporados na primeira parte, isto é, deveriam resultar “dramaticamente” do discurso, e não ser uma fria e pedante exposição de raciocínios. Pode haver reforma cultural, isto é, elevação civil dos estratos de- pressivos da sociedade, mas esta pode ocorrer sem uma precedente reforma econômica e uma modificação na posição social e no mun- do econômico? Não, por isso uma reforma intelectual e moral não pode deixar de estar ligada a um programa de reforma econômica, pois o programa de reforma econômica é exatamente o modo con- creto através do qual se apresenta toda reforma intelectual e moral. O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, pois seu desenvolvimento signi- fica precisamente que todo ato é concebido como útil ou danoso, virtuoso ou maldoso, unicamente quando tem como ponto de re- ferência o próprio moderno Príncipe e serve para incrementar seu poder ou opor-se a ele. O Príncipe assume o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume. CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 9-11. § 〈2〉. As notas escritas a propósito do estudo das situações e do que precisa entender por “relações de força”. O estudo sobre como se devem analisar as “situações”, isto é, sobre como se deve estabelecer os diversos graus de relação de forças, pode servir para uma exposição elementar de ciência e arte política, | entendida como um conjun- to de regras práticas de pesquisa e de observações particulares úteis para despertar o interesse pela realidade efetiva e suscitar intuições políticas mais rigorosas e vigorosas. Ademais, é preciso expor o que se deve entender em política por estratégia e tática, por “plano” estra- tégico, por propaganda e agitação, por “orgânica” ou ciência da orga- nização e da administração em política. Os elementos de observação empírica que usualmente são expostos de modo desordenado nos tratados de ciência política (pode-se tomar como exemplar a obra |3| 10 caderno 13 (xxx) de G. Mosca: Elementi di scienza politica) [1], já que não são questões abstratas ou sem fundamento, deveriam ser postos nos vários níveis da relação de forças, a começar pela relação das forças internacionais (onde se localizariam as notas escritas sobre o que é uma grande po- tência, sobre os agrupamentos de Estados nos sistemas hegemônicos e, por consequência, sobre o conceito de independência e soberania referentes às pequenas e médias potências), passando em seguida às relações objetivas sociais, isto é, ao grau de desenvolvimento das for- ças produtivas, às relações de força política e de partido (sistemas hegemônicos no interior do Estado) e às relações políticas imediatas (ou seja, potencialmente militares). As relações internacionais precedem ou seguem (logicamente) as relações sociais fundamentais? Seguem indubitavelmente. Toda inovação orgânica na estrutura modifica organicamente as relações absolutas e relativas no campo internacional, através de suas expres- sões técnico-militares. Também a posição geográfica de um Estado nacional não precede, mas segue (logicamente) as inovaçõesestru- turais, ainda que reagindo sobre elas numa certa medida (exatamen- te na medida em que as superestruturas reagem sobre a estrutura, a política sobre a economia etc.). De resto, as relações internacionais reagem passiva e ativamente sobre as relações políticas (de hegemo- nia dos partidos). Quanto mais a vida econômica imediata de uma nação é subordinada às relações internacionais, tanto mais um deter- minado partido representa esta situação e a explora para impedir o predomínio dos partidos adversários (recorde o famoso discurso de Nitti sobre a revolução italiana tecnicamente impossível!) [2]. Desta série de fatos, pode-se chegar à conclusão de que, com frequência, o assim chamado “partido do estrangeiro” não é exatamente aquele que como tal é habitualmente apontado, mas é precisamente o par- tido mais nacionalista, que, na realidade, mais do que representar as forças vitais do próprio país, representa a subordinação e a servidão econômica às nações ou a um grupo de nações hegemônicas (um aceno a este elemento internacional “repressivo” das energias inter- nas se encontra nos artigos publicados por G. Volpe no “Corriere della Sera” de 22 e 23 de março de 1932) [3]. CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 16 – 16 BIS. 111932-1934: notas sobre maquiavel |3a| § 〈3〉. Além do modelo exemplar das grandes monarquias ab- solutistas da França e da Espanha, Maquiavel foi levado à sua con- cepção política da necessidade de um Estado unitário italiano pela recordação do passado de Roma. É preciso ressaltar, porém, que nem por isso Maquiavel deve ser confundido com a tradição lite- rário-retórica. E isso porque, este elemento não é exclusivo nem dominante, e a necessidade de um grande Estado nacional não é dele deduzida, e ainda porque, a própria remissão a Roma é menos abstrata do que parece, se colocada de modo pontualmente no cli- ma do Humanismo e do Renascimento. No livro VII de a Arte da guerra se lê: “Esta província (a Itália) parece ter nascido para res- suscitar as coisas mortas, como se vê no caso da poesia, da pintura e da escultura” [1], por que, então, não recuperaria a virtù militar? etc. Deverão ser agrupadas as outras alusões desse gênero para que se possa estabelecer seu exato caráter. CF. CADERNO 8 (XXVIII), P. 17 BIS. |§ 〈4〉. Partindo da afirmação de Foscolo, nos Sepolcri, que Ma- quiavel, “temperando o cetro aos soberanos, cresta seus louros, e à gente revela quanta lágrima o banhe, e quanto sangue”, pode-se fazer uma coletânea de todas as máximas “universais” de prudência política contidas nos escritos de Maquiavel e organizá-las com um comentário oportuno (talvez já exista uma coletânea desse gênero). CF. CADERNO 8 (XXVIII), P. 18. § 〈5〉. Grande política (alta política) – pequena política (política do dia-a-dia, política parlamentar, de corredor, de intriga). A gran- de política compreende as questões conexas com a fundação de no- vos Estados, com a luta pela destruição, a defesa, a conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico-sociais. A pequena política compreende as questões parciais e cotidianas que se apre- sentam no interior de uma estrutura já estabelecida pelas lutas pre- dominantes entre as diversas frações de uma mesma classe política. É, portanto, grande política a tentativa de excluir a grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena política 12 caderno 13 (xxx) (Giolitti, abaixando o nível das lutas internas, fazia a grande polí- tica; porém os seus subordinados eram objeto da grande política, mas faziam pequena política). Ao contrário, é coisa de diletantes colocar as questões de modo tal que cada elemento de pequena po- lítica deve necessariamente tornar-se questão de grande política, de reorganização radical do Estado. Os mesmos termos se apresentam na política internacional: 1) a grande política nas questões relacio- nadas à estatura relativa de cada Estado nos confrontos recíprocos; 2) a pequena política nas questões diplomáticas que surgem no interior de um equilíbrio já constituído e que não tentam superar aquele equilíbrio para criar novas relações. Maquiavel examina especialmente as questões da grande polí- tica: criação de novos Estados, conservação e defesa das estruturas orgânicas em seu conjunto; questões de ditadura e de hegemonia em sua vasta escala, isto é, em toda a área estatal. Russo, nos Pro- legomeni, faz do Príncipe o tratado da ditadura (momento da au- toridade e do indivíduo) e dos Discursos, o tratado da hegemonia (momento do universal e da liberdade) [1]. A observação de Rus- so é exata, embora também no Príncipe não faltem referências ao momento da hegemonia ou do consenso, os quais se aproximam da autoridade ou da força. Assim, é justa a observação de que não há oposição de princípio entre principado e república, mas se trata sobretudo da hipóstase dos dois momentos de autoridade e univer- salidade. CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 18 A - 19. § 〈6〉. A questão da classe política, tal como apresentada nas obras de Gaetano Mosca, tornou-se um enigma. Não se compre- ende com clareza o que Mosca entende precisamente por classe po- lítica, tanto a noção é elástica quanto vaga. Algumas vezes parece que por classe política se deva entender a classe média, outras vezes o conjunto das classes possuidoras, outras vezes o que se chama de “parte culta” da sociedade, ou o “pessoal político” (camada parla- mentar) do Estado: por vezes parece que a burocracia, até mesmo em seu estrato superior, esteja excluída da classe política, na medida 131932-1934: notas sobre maquiavel em que deve ser precisamente controlada e guiada pela classe polí- tica. A deficiência da abordagem de Mosca reside no fato dele não enfrentar, em seu conjunto, o problema do “partido político”, e isto se compreende dado o caráter dos livros de Mosca e especialmente dos Elementi di scienza politica [1]: o interesse de Mosca, na verda- de, oscila entre uma posição “objetiva” e desinteressada de cientista e uma posição apaixonada e imediatista de homem de partido, que vê se desenrolarem acontecimentos que o angustiam e aos quais de- sejaria reagir. De outro lado, inconscientemente, Mosca reflete| as discussões suscitadas pelo materialismo histórico, mas reflete sobre elas como o provinciano que “sente no ar” as discussões que ocor- rem na capital e não tem os meios para obter os documentos e os textos fundamentais: no caso de Mosca, “não ter os meios” para procurar os textos e os documentos sobre o problema de que to- davia trata, significa que Mosca pertence àquela parcela de univer- sitários que, embora acredite que seu dever seja alardear todas as cautelas do método histórico, quando estudam as pequenas ideias de um publicista medieval de terceira ordem, não consideram ou não consideravam dignas “do método” as doutrinas do materia- lismo histórico, não consideravam necessário voltar às fontes e se contentavam com uma simples “espiada” em pequenos artigos de jornal e livretos populares. CF. CADERNO 8 (XXVIII), PP. 19 A - 20. § 〈7〉. Questão do “homem coletivo” ou do “conformismo so- cial”. Tarefa educativa e formativa do Estado, que tem sempre como fim criar novos e mais elevados tipos de civilização, de adequar a “civilização” e a moralidade das mais amplas massas populares às necessidades do desenvolvimento contínuo do aparato econômico de produção, portanto, de elaborar também fisicamente os tipos novos de humanidade. Mas como cada indivíduo singular conse- guirá incorporar-se no homem coletivo e como ocorrerá a pressão educativa sobre os indivíduos para se obter o consenso e a colabora- ção, fazendo com que a “liberdade” se torne necessidade e coerção? Questão do “direito”, cujo conceito deverá ser ampliado, incluindo- |4| 14 caderno 13 (xxx) -se nele aquelas atividades que hoje são compreendidas na fórmula de “indiferente jurídico” e que são de domínio da sociedade civil, que atua sem “sanções” e sem “obrigações” taxativas, mas nem por isso deixa de exercer