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Caderno 22 CADERNOS DO CARCERE

Edição em português do Caderno 22 dos Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci; caderno de 1934 sobre americanismo e fordismo. Tradução IGS‑Brasil (Lincoln Secco e Silvia de Bernardinis), baseada na edição crítica de Gerratana. Licença CC BY‑NC‑ND 4.0; distribuição gratuita online, proibida impressão.

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Prévia do material em texto

CADERNOS DO CÁRCERE
Caderno 22
Antonio Gramsci
Tradução IGS - Brasil
1ª Edição
CADERNOS DO CÁRCERE
Caderno 22
Antonio Gramsci
Tradução IGS - Brasil
1ª Edição
International Gramsci Society - Brasil (IGS-Brasil)
Gestão 2022-2024
Coordenação Nacional
Conselho Nacional 
Douglas Christian Ferrari de Melo (UFES), Kátia Augusta Curado Pinheiro 
Cordeiro da Silva (UNB); Marcos Aurélio da Silva (UFSC), Marcos Francisco 
Martins (UFSCar), Marina Maciel Abreu (UFMA), Matheus Daltoé 
Assis (UFMS).
Conselho Fiscal
Helton Messina da Costa (UFF), Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos (Unesp/
Marília), Rodrigo Lima Ribeiro Gomes (UFF).
Revisores
Helton Messina da Costa, Marília Gabriella Machado e Rodrigo Lima Ribeiro Gomes
Projeto e edição gráfica
Caliel Machado Luna
Diagramação
Maria Margarida Machado
Imagem de Capa
Reprodução da capa do manuscrito original obtida através da biblioteca digital da 
Fondazione Gramsci — https://gramsci.digital-library.it/it/quaderni-dal-carcere
Presidente
Coordenação Científica
Coordenação de Comunicação
Secretária
Tesouraria
Anita Schlesener (UTP)
Maria Margarida Machado (UFG)
Marília Gabriella Machado (Unesp/Marília)
Michelle Fernandes Lima (UEM)
Percival Tavares da Silva (UFF)
24-205317 CDD-320.532
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Gramsci, Antonio, 1891-1937
 Cadernos do cárcere [livro eletrônico] : 
caderno 22 (V) : 1934 : americanismo e fordismo /
Antonio Gramsci ; tradução Lincoln Secco, Silvia 
de Bernardinis. -- Rio de Janeiro : IGS-Brasil, 
2024.
 PDF 
 Título original: Quaderni del carcere.
 ISBN 978-65-83079-14-5
 1. Filosofia 2. Gramsci, Antonio, 1891-1937 
3. Marxismo 4. Política I. Título.
Índices para catálogo sistemático:
1. Antonio Gramsci : Marxista revolucionário : 
 Vida e obra 320.532
Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
©1975, 2001 e 2007 Giulio Einaudi editore s.p.a., Torino
Este material traduzido pela IGS–Brasil foi licenciado segundo a Creative Commons Atribuição-NãoComercial-
SemDerivs 4.0 Internacional (Licença CC BY-NC-ND 4.0). Termos de uso completos disponíveis em: 
https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
Não é permitida a publicação desta tradução em formato impresso sob quaisquer circunstâncias. Sua distribuição 
em qualquer formato deve ser sempre gratuita, seguindo os termos de licença. 
https://gramsci.digital-library.it/it/quaderni-dal-carcere
https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
I
APRESENTAÇÃO
A International Gramsci Society – Brasil tem a grata satisfação 
de apresentar aos leitores dos escritos de Antonio Gramsci a tradu-
ção brasileira da edição crítica dos Cadernos do Cárcere, organiza-
da por Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, de 
Turim, em 1975 (Primeira Edição). A tradução aqui apresentada é 
resultado de um trabalho iniciado em 2019 por iniciativa da Ges-
tão da IGS-Br (2019-2022) e que assumimos o compromisso de 
dar continuidade e finalização. Formou-se na ocasião um grupo de 
vinte pesquisadores e estudiosos do pensamento de Gramsci que, a 
partir de uma atividade coletiva e voluntária coordenada pelo Prof. 
Giovanni Semeraro, realizaram a árdua tarefa de traduzir os 29 
Cadernos na ordenação disposta por Gerratana. Ficou para um se-
gundo momento a tradução do instrumental crítico, que compõe, 
ao todo, mais de mil páginas, das quais 592 correspondem a notas 
ao texto, a parte mais significativa do aparato crítico, por oferecer 
indicações das fontes utilizadas por Gramsci, bem como esclareci-
mentos sobre acontecimentos e personagens mencionados nos Ca-
dernos. Esta tradução e disponibilização online dos 29 Cadernos, de 
forma gratuita na página da IGS/Brasil, contou com a autorização 
da Fundação Gramsci e da Editora Einaudi, agradecemos ao Dire-
tor Francesco Giasi por esta intermediação.
A importância e a relevância da tradução dos 29 Cadernos na or-
dem estabelecida por Gerratana após pesquisa criteriosa se apresen-
tam no fato de que, com a ampliação do interesse pelos escritos de 
Gramsci no Brasil, tornou-se indispensável transpor para o portu-
guês a obra completa, tanto para o aprofundamento teórico quanto 
para a superação de algumas dificuldades interpretativas. A edição 
crítica organizada por Gerratana pressupôs uma pesquisa aprofun-
dada para a periodização dos Cadernos, escritos entre 1929 e 1935, 
abrindo o caminho para novos debates e estimulando a compreen-
são das ideias e o conhecimento da contribuição do pensamento de 
II
Antonio Gramsci. E não é possível uma análise aprofundada desse 
autor e uma interpretação pertinente da sua obra, sem instrumen-
tos de pesquisa adequados.
A primeira edição publicada na página da IGS-BR apresenta os 
Cadernos em volumes separados para facilitar a consulta; cada vo-
lume tem um ISBN1 para eventuais citações. A tarefa a seguir será 
constituída de Seminários voltados a analisar e retificar possíveis 
fragilidades da tradução, para a organização da segunda edição re-
formulada. Reiteramos a nossa grata satisfação de publicar no site 
da IGS-BR, para acesso de modo gratuito, a versão brasileira com-
pleta da edição crítica dos Cadernos do Cárcere.
 Anita Helena Schlesener
Presidente da IGS/Brasil 
(Gestão 2022-2024)
SOBRE A NOVA TRADUÇÃO DOS CADERNOS 
DO CÁRCERE NO BRASIL
A nova tradução em português dos Cadernos do Cárcere é um 
evento de grande importância cultural e, em sentido amplo, polí-
tico.
Testemunhei, em parte, a idealização da primeira tradução par-
cial de uma edição não antológica e temática dos Cadernos em lín-
gua portuguesa no final de 1997, depois do primeiro colóquio da 
International Gramsci Society, que ocorreu naquele ano em Ná-
poles. Realmente, poucos meses depois, Carlos Nelson Coutinho 
comunicou-me a ideia de uma ampla tradução (mas não completa) 
dos Cadernos no Brasil, enriquecida de um amplo aparato crítico, 
1 O registro dos ISBNs desta primeira edição contou com a colaboração de Cleide 
Litiman, funcionária da Secretaria Geral da Anped, que intermediou o processo 
de cadastro junto à Câmara Brasileira de Livro.
III
adequado a explicar aos leitores brasileiros os muitos aspectos e 
referências a fatos e personagens presentes nos Cadernos. Um tra-
balho desafiador e muito útil, por mérito – além de Coutinho – 
de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, três antigos 
amigos que, precisamente no colóquio de Nápoles, tinham nova-
mente se encontrado renovando uma antiga paixão por Gramsci e 
o comunismo italiano.
Aquela edição idealizada e conduzida por Coutinho, publica-
da em seis volumes entre 1999 e 2002, junto à Editora Civiliza-
ção Brasileira, porém, não era completa. Foi definida pelo próprio 
Carlos Nelson como uma edição crítico-temática, pois privilegia-
va os “cadernos especiais”, temáticos, em detrimento dos textos de 
“primeira redação” (que, mais tarde, seriam retomados, reescritos 
e, algumas vezes, modificados por Gramsci). De qualquer modo, 
a edição publicada pela Civilização Brasileira teve uma importân-
cia relevante para a difusão de Gramsci no Brasil. No entanto, o 
próprio Coutinho, alguns anos mais tarde, confidenciou-me que 
tinha se arrependido de não ter inserido nesta edição todas as notas 
gramscianas de “primeira redação”, isto é, de não haver traduzido 
integralmente as notas de reflexão crítica e de teoria dos Cadernos 
do Cárcere.
Por que esta mudança de opinião? Esta era fruto de uma impor-
tante transformação nos estudos sobre Gramsci que havia envolvi-
do o próprio Coutinho. Na verdade, desde o final do século passado 
havia crescido, em nível internacional, a atenção dos estudiosos de 
Gramsci no sentido do aspecto “diacrônico” do seu pensamento, na 
direção do entrelaçamento entre as notas dos Cadernos e a história 
e a reflexão política de Gramsci, no cárcere ou na clínica de Formia. 
Em outras palavras, havia crescido notavelmente a atenção para 
o caráter de work in progress|20|
14 caderno 22 (v)
de aspectos mórbidos e será preciso ter cuidados em qualquer ino-
vação legislativa. Toda crise de coerção unilateral no campo sexual 
carrega um desmedido “romantismo” que pode ser agravado pela 
abolição da prostituição legal e organizada. Todos estes elementos 
complicam e tornam dificílima qualquer regulamentação do fato 
sexual e qualquer tentativa |de criar uma nova ética sexual adequa-
da aos novos métodos de produção e de trabalho. Por outro lado, 
é necessário caminhar rumo a esta regulamentação e à criação de 
uma nova ética. É preciso ressaltar que os industriais (especialmen-
te Ford) se interessaram pelas relações sexuais de seus empregados e 
em geral pela organização de suas famílias; o aparente «puritanis-
mo» que este interesse assumiu (como no caso do proibicionismo) 
não deve induzir em erro; a verdade é que não se pode desenvolver 
o novo tipo de homem que a racionalização da produção e do tra-
balho exige até que o instinto sexual não estiver compativelmente 
regulamentado, até que este mesmo não estiver racionalizado. 
CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 55 BIS – 56 BIS.
§ 〈4〉. Algumas afirmações sobre a questão de «superregionalismo 
e supercosmopolitismo». Trechos reportados da «Fiera Letteraria» 
de 15 de janeiro de 1928. De Giovanni Papini: “A cidade não cria, 
mas consome. Assim como no empório, onde afluem os bens arran-
cados dos campos e das minas, nela acorrem os espíritos mais vivos 
da província e as ideias dos grandes solitários. A cidade é como uma 
fogueira que ilumina porque queima o que foi criado longe dela e 
às vezes contra ela. Todas as cidades são inférteis. Nelas nascem em 
proporção poucos filhos, quase nunca alguém de gênio. Nas cidades 
goza-se, mas não se cria, ama-se, mas não se gera, se consome, mas 
não se produz” [1]. (Deixando de lado as inúmeras tolices “absolu-
tas”, é preciso ressaltar que Papini tem diante de si o modelo “relati-
vo” da cidade não cidade, a cidade de Coblenza, dos consumidores 
de renda agrária e das casas de tolerância). No mesmo número da 
«Fiera Letteraria» lê-se este trecho: “O nosso assado puramente 
regional apresenta-se com estas caraterísticas: firme aversão a todas 
as formas de civilização que não se adequam à nossa, ou que estra-
|21|
151934: americanismo e fordismo
gam, por não serem digeríveis, as qualidades clássicas dos italianos; 
em seguida: defesa do sentido universal da aldeia, que consiste, em 
poucas palavras, na relação natural e imanente entre o homem e a 
sua terra; finalmente, exaltação|das caraterísticas locais, em todos 
os campos e atividades da vida, isto é: fundamento católico, senti-
do religioso do mundo, simplicidade e sobriedade fundamentais, 
aderência à realidade, domínio da fantasia, equilíbrio entre espirito 
e matéria”[2]. (Cabe observar: como poderia existir a Itália atual, 
a nação italiana, sem a formação e o desenvolvimento das cidades 
e sem a influência unificadora da cidade? “Superregionalismo” no 
passado significaria – como significou – municipalismo, desagre-
gação popular e domínio estrangeiro. E o próprio catolicismo teria 
se desenvolvido se o Papa, ao invés de residir em Roma, tivesse tido 
a residência em Scaricalasino? [Scaricalasino, localidade perto de 
Bolonha, hoje comuna de Menghidoro, N.T.]).
Esta opinião de Francesco Meriano (publicada no «Assalto» 
de Bolonha): “No campo filosófico, creio encontrar, ao invés, uma 
verdadeira antítese: é a antítese velha de mais de cem anos e sempre 
revestida de novos aspectos, entre o voluntarismo, o pragmatismo, 
o ativismo identificáveis no super-cosmopolitismo, e o iluminismo, 
o racionalismo, o historicismo identificáveis no superregionalismo” 
[3]. (Ou seja, os imortais princípios teriam se refugiado no super-
-regionalismo). De qualquer maneira, deve-se ressaltar que a po-
lêmica “literária” entre superregionalismo e supercosmopolitismo 
nada mais foi do que espuma de sabão polêmica entre conserva-
dorismo parasitário e tendências inovadoras da sociedade italiana.
Na «Stampa» de 4 de maio de 1929 Mino Maccari escreve: 
“Quando o superregionalismo se opõe às importações modernis-
tas, sua oposição almeja resguardar o direito de selecioná-las para 
impedir que os contatos nocivos, confundindo-se com os que po-
dem ser benéficos, corrompam a integridade da natureza e do cará-
ter próprios da civilização italiana, sublimada ao longo dos séculos, 
e que hoje aspira (!) a uma síntese unificadora” [4]. ( Já “depurada”, 
mas não “sintetizada” e “unificada”!!)
CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 61 BIS – 62 E 66 BIS.
|22|
16 caderno 22 (v)
§ 〈5〉. Eugenio Giovannetti escreveu, em «Pègaso» de maio de 
1929, um artigo sobre “Federico|Taylor e o americanismo”: “A 
energia literária, abstrata, alimentada pela retórica generalizante 
hoje, não é capaz de compreender a energia técnica, cada vez mais 
individual e aguda, tecido originalíssimo de vontade singular e de 
educação especializada. A literatura enérgica ainda é o seu Prome-
teu desacorrentado, imagem demasiado confortável. O herói da ci-
vilização técnica não é um ser sem cadeias: é um ser silencioso que 
sabe carregar até aos céus sua férrea corrente. Não é um ignorante 
ocioso: é um estudioso no mais belo sentido clássico, já que stu-
dium significava “ponta viva”. Ao passo que a civilização técnica ou 
mecanicista, como queiram chamá-la, elabora em silêncio este seu 
tipo de herói contundente, o culto literário da energia cria apenas 
um nefelibata relapso, um frenético sonhador” [1].
Deve-se salientar o fato de que não se procurou aplicar ao ame-
ricanismo a formulazinha de Gentile sobre a “filosofia que não se 
enuncia em fórmulas, mas se afirma pela ação”; [2] isto é significa-
tivo e instrutivo, porque se a fórmula tiver um valor é justamente 
o americanismo que pode reivindicá-lo. Ao contrário, ao falar de 
americanismo, observa-se que este é “mecanicista”, grosso, brutal, 
isto é, “pura ação”, contrapondo a ele a tradição etc. Contudo, por 
que esta tradição etc. não se assume também como base filosófica, 
como [a] filosofia enunciada em fórmulas daqueles movimentos 
para os quais ao contrário a “filosofia afirma-se pela ação”? Esta 
contradição pode explicar muitas coisas: a diferença, por exemplo, 
entre a ação real, que modifica essencialmente seja o homem seja a 
realidade exterior (ou seja a cultura real), que é o americanismo, e o 
gladiadorismo farsante que se autoproclama ação modificando ape-
nas o vocabulário, não as coisas, o gesto exterior, não o homem inte-
rior. A primeira [ação real] está criando um futuro que é intrínseco 
à sua objetiva atividade e sobre a qual se prefere calar. O segundo 
[gladiadorismo] cria apenas fantoches aperfeiçoados, projetados 
sobre um figurino retoricamente prefixado, prontos a desaparecer 
assim que seus fios exteriores que lhe conferem a aparência do mo-
vimento e da vida serão cortados.
CF. CADERNO I (XVI), PP. 66 BIS – 67.
|23|
171934: americanismo e fordismo
§ 〈6〉. Autarquia financeira da indústria. Um notável artigo de 
Carlo Pagni |“A proposito di un tentativo di teoria pura del corpo-
rativismo” (na «Riforma Sociale» de setembro-outubro de 1929) 
[1] examina o volume de N. Massimo Fovel, Economia e Corporati-
vismo (Ferrara, S.A.T.E., 1929) e menciona outro escrito do mesmo 
Fovel, Rendimento e salário no Estado Sindical [Rendita e salario 
nello Stato Sindacale, N.T.] (Roma, 1928), mas não percebe, ou 
não põe explicitamente em evidência que Fovel em seus escritos 
concebe o “ ”«corporativismo» como premissa para a introdução 
na Itália dos sistemas americanos mais avançados no modo de pro-
duzir e de trabalhar.
Seria interessante saber se Fovel escreve “extraindo da própria 
cabeça”, ou se ele tem atrás de si (na prática e não só “em geral”) 
determinadas forças econômicas que o sustentam e o impulsionam. 
Fovel nunca foi um puro “cientista”, que expressa determinadas ten-
dências assim como os intelectuais, também “puros”, sempre expres-
sam. Por diversos aspectos, ele cabe na galeriado tipo de Ciccotti, 
Naldi, Bazzi, Preziosi etc, contudo é mais complexo, devido a seu 
inquestionável valor intelectual. Fovel sempre ambicionou tornar-
-se grande líder político, e não conseguiu porque lhe faltam alguns 
talentos fundamentais: a força de vontade direcionada a um úni-
co fim e a [não] volubilidade intelectual como Missiroli: além do 
mais, demasiadas vezes ele vinculou-se muito claramente a peque-
nos interesses mesquinhos. Iniciou como “jovem radical”, antes da 
guerra: queria rejuvenescer o movimento democrático tradicional 
dando-lhe um conteúdo mais concreto e moderno, flertando um 
pouco com os republicanos, especialmente federalistas e regiona-
listas («Critica Politica» de Oliviero Zuccarini). Durante a guerra 
defendeu o neutralismo de Giolitti. Em 1919 ingressa no Partido 
Socialista em Bolonha, mas nunca escreve no «Avanti!». Antes 
do armistício dá umas passadas em Turim. Os industriais de Turim 
tinham comprado a velha e reles «Gazzetta di Torino» para trans-
formá-la e torná-la seu órgão direto. Fovel ambicionava tornar-se 
|diretor da nova publicação e certamente estava em contato com o 
ambiente industrial. Entretanto, Tommaso Borelli, “jovem liberal”, 
|24|
|25|
18 caderno 22 (v)
foi o escolhido como diretor, logo sucedido por Italo Minunni da 
«Idea Nazionale» [2] (mas a «Gazzetta di Torino», mesmo sob 
o nome de «Paese» e apesar do dinheiro empregado para desen-
volvê-la, não criou raízes e foi fechada por seus patrocinadores). 
“Curiosa” carta de Fovel em 1919: ele escreve que “sente a obri-
gação” de colaborar com «L’Ordine Nuovo» semanal; a resposta 
estabelece os limites de uma sua possível colaboração, depois disso 
a “voz da obrigação” repentinamente se cala [3]. Fovel juntou-se 
ao bando Passigli, Martelli, Gardenghi que transformara o «Lavo-
ratore» de Trieste em um centro de negócios bastante lucrativo e 
que devia ter contatos com o ambiente industrial de Turim: tenta-
tiva de Passigli de transportar «L’Ordine Nuovo» em Trieste com 
gestão “comercialmente” rentável (ver a data, a assinatura de 100 
Liras feita por Passigli que viera em Turim para falar pessoalmente) 
[4]; questão de saber se um “cavalheiro” poderia colaborar no «La-
voratore». Em 1921, nos escritórios do «Lavoratore» [5] foram 
encontradas cartas pertencentes a Fovel e Gardenghi, que revela-
vam que os dois parceiros jogavam na bolsa com as ações têxteis 
durante a greve liderada pelos sindicalistas de Nicola Vecchi e que 
dirigiam o jornal segundo os interesses de sua especulação. Depois 
de Livorno, por algum tempo, Fovel não deu sinal de vida. Reapa-
receu em 1925, colaborador do «Avanti!» de Nenni e Gardenghi, 
e promoveu uma campanha a favor do enfeudamento da indústria 
italiana à finança americana, campanha logo explorada (mas já de-
via haver um acordo prévio) pela «Gazzetta del Popolo» ligada 
ao engenheiro Ponti da Sociedade hidroelétrica do Piemonte [6]. 
Em 1925-26, Fovel colaborou bastante com a «Voce Repubbli-
cana». Hoje (1929) apoia o corporativismo como premissa para 
uma forma italiana de americanização, colabora com o «Corriere 
Padano» de Ferrara, com os «Nuovi Studi», «Nuovi Problemi», 
«Problemi del Lavoro» e ensina (ao que parece) na Universidade 
de Ferrara.
O que parece significativo da tese de Fovel, resumida por Pagni, 
é sua |concepção da corporação como bloco industrial-produtivo 
autônomo, destinado a resolver em sentido moderno e acentuada-
|26|
191934: americanismo e fordismo
mente capitalístico o problema de um ulterior desenvolvimento do 
aparelho econômico italiano, contra os elementos semifeudais e 
parasitários da sociedade que se apropriam de uma parcela dema-
siado grande da mais-valia, contra os assim ditos “produtores de 
poupança”. A produção de poupança deveria se tornar uma fun-
ção interna (a mais barata) do próprio bloco produtivo, através 
de um desenvolvimento da produção a um custo decrescente para 
permitir, além de uma maior massa de mais-valia, maiores salários, 
com a consequência de um mercado interno mais capaz, de alguma 
poupança operária e de lucros mais elevados. De modo que seria 
possível assim, um ritmo mais acelerado de acumulação de capitais 
no próprio seio da empresa e não pela intermediação dos “produ-
tores de poupança”, que na realidade são devoradores de mais-valia. 
No bloco industrial-produtivo o elemento técnico – direção e ope-
rários – deveria dominar o elemento “capitalista” no sentido mais 
“mesquinho” da palavra, isto é, a aliança entre capitães de indústria 
e pequenos burgueses poupadores deveria substituir um bloco de 
todos os elementos diretamente eficientes na produção, os únicos 
capazes de juntar-se em Sindicato e, portanto, de constituir a Cor-
poração produtiva (do que resulta a consequência extrema, tirada 
por Spirito, da Corporação proprietária), A objeção de Pagni a 
Fovel é de que sua discussão não é uma nova economia política, 
mas só uma nova política econômica, objeção formal, que pode 
ter relevância em determinado contexto, mas que não aborda o ar-
gumento principal; as outras objeções, concretamente, nada mais 
são do que a constatação de alguns aspectos atrasados do ambiente 
italiano em relação a tal transformação “organizativa” do aparelho 
econômico. As maiores deficiências de Fovel consistem em negli-
genciar a função econômica que o Estado sempre teve na Itália em 
razão da desconfiança dos poupadores para com os industriais, e 
de descurar o fato de que a diretriz corporativa não teve origem 
nas exigências|de uma transformação das condições técnicas da 
indústria e tampouco daquelas de uma nova política econômica, 
mas sim das exigências de uma polícia econômica, exigências que 
se agravaram com a crise de 1929 e que estão ainda em curso. Na 
realidade os trabalhadores qualificados italianos, tanto como indi-
|27|
20 caderno 22 (v)
víduos quanto como sindicatos, nem ativa nem passivamente, nun-
ca se opuseram às inovações que tendem a uma redução dos custos, 
à racionalização do trabalho, à introdução de automatismos mais 
perfeitos e de mais perfeitas organizações técnicas do conjunto 
empresarial. Muito pelo contrário. Isso ocorreu na América e de-
terminou a semiliquidação dos sindicatos livres e sua substituição 
com um sistema de organizações operárias por empresa, isoladas 
entre si. Na Itália, ao contrário, até a mínima e tímida tentativa 
de tornar a fábrica um centro de organização sindical (lembrar da 
questão dos administradores de empresa) [7] foi duramente comba-
tida e resolutamente aniquilada. Uma acurada análise da história 
italiana de antes de 1922 e mesmo de antes de 1926, que não se 
deixe levar pelas estrepitosas aparências exteriores, mas que saiba 
colher os motivos profundos do movimento operário, deve chegar 
à conclusão objetiva de que justamente os operários foram os por-
tadores das novas e mais modernas exigências industriais, e que, de 
sua maneira, as afirmaram incansavelmente; pode-se mesmo dizer 
que algum industrial compreendeu este movimento e tentou apro-
priar-se dele (explica-se assim a tentativa de Agnelli de absorver 
«L´Ordine Nuovo» e sua escola no complexo da Fiat, [8] assim 
como de instituir uma escola de operários e técnicos especializa-
dos para uma transformação industrial e do trabalho por meio de 
sistemas “racionalizados”: o Y.M.C.A. tentou abrir cursos de “ame-
ricanismo” abstrato, entretanto, apesar das altas somas investidas, 
os cursos fracassaram) [9].
Além destas considerações, apresenta-se outra série de questões: 
o movimento corporativo existe e por alguns aspectos as realiza-
ções jurídicas que já ocorreram criaram as condições formais em 
que a transformação técnico-econômica pode ocorrer em grande 
escala, já que os operários não podem se opor a ela e nem podem 
lutar para se tornarem eles mesmos seus porta-bandeiras. A orga-
nização|corporativa pode se tornar a forma desta transformação, 
mas pergunta-se: poderemos ver, usando a expressão de Vico, uma 
das “astúcias da providência” pelaqual os homens sem propô-lo e 
sem querê-lo obedeçam aos imperativos da história? Por enquanto, 
|28|
211934: americanismo e fordismo
propende-se a duvidar. O elemento negativo da “polícia econômi-
ca” predominou até agora sobre o elemento positivo da exigência 
de uma nova política econômica que renove, modernizando-a, a 
estrutura econômico-social da nação, ainda que nos quadros do ve-
lho industrialismo. A forma jurídica possível é uma das condições, 
não a única condição nem mesmo a mais importante: é somente a 
mais importante das condições imediatas. A americanização requer 
um determinado meio, uma determinada estrutura social (ou a fir-
me vontade de criá-la) e um determinado tipo de Estado. O Estado 
é o Estado liberal, não no sentido do liberalismo aduaneiro ou da 
efetiva liberdade política, mas no sentido mais fundamental da li-
vre iniciativa e do individualismo econômico que alcança com pró-
prios meios, como “sociedade civil”, pelo mesmo desenvolvimento 
histórico, o regime da concentração industrial e do monopólio. O 
desaparecimento do tipo semifeudal do rentista representa na Itá-
lia uma das maiores condições para a transformação industrial (em 
parte, é a própria transformação), não uma consequência. A políti-
ca econômico-financeira do Estado é o instrumento deste desapa-
recimento: amortização da dívida pública, títulos nominais, maior 
peso dos impostos diretos sobre os indiretos na formação da receita 
orçamentária. Não parece que isto seja ou esteja se tornando a dire-
triz da política financeira. Pelo contrário. O Estado cria novos ren-
tistas, isto é, promove as velhas formas de acumulação parasitária 
da poupança e tende a criar quadros sociais fechados. Na realidade 
até agora a diretriz corporativa funcionou para sustentar posições 
ameaçadas de classes médias e não para eliminá-las, e cada vez mais 
está se tornando, para os interesses constituídos que surgem sobre a 
velha base, uma máquina de conservação do existente assim como 
existe, ao invés de mola de |propulsão. Por quê? Porque a diretriz 
corporativa depende também do desemprego: defende os emprega-
dos garantindo um certo nível mínimo de vida que, se houvesse li-
vre concorrência colapsaria, provocando graves convulsões sociais; 
e cria emprego de novo tipo, não produtivo e sim organizativo, para 
os desempregados das classes médias. Sempre existe uma saída: a 
diretriz corporativa, que nasceu de uma situação tão delicada, cujo 
essencial equilíbrio deve ser mantido a qualquer custo para evitar 
|29|
22 caderno 22 (v)
uma imane catástrofe, poderia proceder por lentíssimas, quase im-
perceptíveis etapas, que modificam a estrutura social sem bruscas 
sacudidas: até mesmo a melhor criança e mais solidamente enfai-
xada, contudo, desenvolve-se e cresce. Eis porque seria interessante 
saber se Fovel representa sua própria voz ou se ele é expoente de 
forças econômicas que buscam, a qualquer custo, seu próprio ca-
minho. Seja como for, o processo seria tão demorado e encontraria 
tantas dificuldades, que até lá novos interesses podem se originar 
e fazer nova tenaz oposição ao seu desenvolvimento até truncá-lo. 
CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 86 BIS – 89.
§ 〈7〉. Mino Maccari e o americanismo. Do Trastullo di Strapaese 
de Mino Maccari (Florença, Vallecchi, 1928): Por um pendurica-
lho brilhante / Teu país não trocar: / O estrangeiro é traficante / 
Confiar nele vai só te arcar / Se for esperto e matreiro / Toda mistu-
ra susta / Quem ganha é sempre o forasteiro / Teu bem um mundo 
custa / Mais vale do vigário o arroto / Que a América e sua glória 
/ No italiano mais roto / há mil anos de história / [...] Tabarino e 
ciarlestons / Só te deixam tolo e murcho / Volta italiano a teus tons 
/ Volta a comer o bucho / Italiano volta ao teu rincão / Não confiar 
nas modas da França / Cultive cebolas e pão / E bem cheia terás a 
pança [1].
Maccari, porém, foi chefe de redação de «La Stampa» de Tu-
rim| e a comer pão e cebola no centro mais supercosmopolita e 
industrial da Itália.
CF. CADERNO 1 (XVI), P. 90.
§ 〈8〉. Quantidade e qualidade. No mundo da produção signifi-
ca nada mais do que “barato” e “caro”, isto é, satisfação ou não das 
necessidades elementares das classes populares e tendência a elevar 
ou a deprimir seu teor de vida: tudo o mais não passa de romance 
ideológico de folhetim, cujo primeiro capítulo Guglielmo Ferrero 
escreveu [1]. Em uma empresa-nação, que dispõe de muita mão-de-
-obra e de poucas matérias-primas (o que é discutível, pois toda 
|30|
231934: americanismo e fordismo
nação-empresa “cria” sua própria matéria-prima) o lema: “Quali-
dade!” significa apenas vontade de empregar muito trabalho em 
pouca matéria-prima, aperfeiçoando o produto ao extremo, isto é, 
a vontade de especializar-se para um mercado de luxo. Contudo, 
seria possível fazer isto para uma inteira nação com grande popu-
lação? 
Onde existe muita matéria-prima, existem duas possíveis orien-
tações, qualitativa e quantitativa, ao passo que isto não se aplica 
para os assim ditos países pobres. A produção quantitativa pode 
ser também qualitativa, ou seja, ser concorrencial à indústria pura-
mente qualitativa, entre setores da classe consumidora de objetos 
“distintos” que não é tradicionalista pelo fato de ser de nova forma-
ção. Tais observações têm validade se aceitamos o critério de “qua-
lidade” assim como é posto comumente, e que não é um critério 
racional: na realidade só se pode falar de “qualidade” para as obras 
de arte singulares e não reprodutíveis, tudo o que é reprodutível 
pertence ao reino da “quantidade” e pode ser fabricado em série.
Além disto, pode-se observar o seguinte: se uma nação se espe-
cializar na produção “qualitativa”, qual a indústria que fornecerá os 
objetos de consumo para as classes pobres? Será promovida uma 
situação de divisão internacional do trabalho? Trata-se apenas de 
uma fórmula de literatos preguiçosos e de políticos cuja demago-
gia consiste em construir castelos no ar. A qualidade deveria ser 
atribuída aos homens e não às coisas: e a qualidade humana ele-
va-se e refina-se na|medida em que o homem satisfaz um número 
maior de necessidades, tornando-se, portanto, independente delas. 
O alto preço do pão devido ao fato de querer manter vinculada a 
uma determinada atividade uma maior quantidade de pessoas, leva 
à desnutrição. Quase sempre a política da qualidade determina o 
seu oposto: uma quantidade desqualificada.
CF. CADERNO 1 (XVI), P. 91.
§ 〈9〉. Da resenha que A. De Pietri Tonelli publicou na «Rivista 
di politica economica» (fevereiro de 1930) sobre o livro de An-
thony M. Ludovici, Woman. A vindication (2ª edição, 1929, Lon-
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24 caderno 22 (v)
dres): “Quando as coisas andam mal na estrutura social de uma na-
ção, por causa da decadência das capacidades fundamentais de seus 
homens – afirma Ludovici – duas distintas tendências parecem 
sempre detectáveis: a primeira é a de interpretar mudanças, que 
são pura e simplesmente sinais da decadência e da ruína de velhas 
e sadias (!) instituições, como sintomas de progresso: a segunda, 
devido à justificada perda de confiança na classe governante, é de 
atribuir a cada um, tenha ou não as qualidades desejadas, a certeza 
de ser indicado para se esforçar no sentido de ajustar as coisas”[1]. 
(A tradução é manifestamente incerta e incorreta). O autor faz do 
feminismo uma expressão desta segunda tendência e pede um re-
nascimento do “machismo”.
Para além de qualquer outra consideração de mérito, difícil de 
se fazer porque o texto mencionado de De Pietri Tonelli é incerto, 
deve-se destacar a tendência antifeminista e “machista”. Deve-se es-
tudar a origem da legislação anglo-saxã tão favorável às mulheres 
em relação a toda uma série de conflitos “sentimentais” ou pseudo-
-sentimentais. Trata-se de uma tentativa de regulamentar a questão 
sexual, de torná-la algo de sério, mas não parece tenha alcançado 
seu objetivo: deu lugar a desvios mórbidos, “feministas” em senti-
do pejorativo e criou para a mulher(das classes altas), uma posição 
social paradoxal.
CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 91 BIS – 92.
|§ 〈10〉. "Animalidade" e industrialismo. A história do industria-
lismo sempre foi (e hoje em forma mais acentuada e rigorosa) uma 
contínua luta contra o elemento “animalidade” do homem, um 
processo ininterrupto, com frequência doloroso e sangrento, de 
subjugação dos instintos (naturais, isto é, animalescos e primitivos) 
a normas e hábitos de ordem de exatidão, de precisão cada vez mais 
novos, mais complexos e rígidos que tornam possíveis formas cada 
vez mais complexas de vida coletiva, que são a consequência neces-
sária do desenvolvimento do industrialismo. Esta luta é imposta a 
partir de fora e até agora os resultados obtidos, ainda que de grande 
valor prático imediato, são em grande parte puramente mecânicos, 
|32|
251934: americanismo e fordismo
não se tornaram uma “segunda natureza”. Contudo, todo o novo 
modo de viver no período em que se impõe a luta contra o velho, 
não foi sempre, por um determinado tempo, o resultado de uma 
compressão mecânica? Também os instintos que hoje é preciso su-
perar porque ainda demasiado “animalescos” na realidade também 
foram um considerável progresso sobre os anteriores, mais primi-
tivos ainda: quem poderia descrever o “custo”, em vidas humanas e 
em doloridas subjugações dos instintos, da passagem do nomadis-
mo para a vida sedentária e agrícola? Aqui se inserem as primeiras 
formas de servidão da gleba e das profissões etc. Até agora todas as 
mudanças do modo de ser e de viver ocorreram pela coerção bru-
tal, isto é, pelo domínio de um grupo social sobre todas as forças 
produtivas da sociedade: a seleção ou “educação” do homem apto 
aos novos tipos de civilização, isto é, às novas formas de produção e 
de trabalho, ocorreu empregando inauditas brutalidades, jogando 
para o inferno das subclasses os débeis e os refratários, ou eliminan-
do-os completamente. Em todo surgimento de novos tipos de ci-
vilização, ou no curso do processo de desenvolvimento, ocorreram 
crises. Mas quem foi envolvido nestas crises? Não foram as massas 
trabalhadoras, mas as classes médias e uma parte da própria classe 
dominante, que também sentiram a pressão coercitiva, que neces-
sariamente era exercida sobre toda a área social. As crises de liber-
tinismo foram inúmeras: toda época histórica teve a sua. Quando 
a pressão |coercitiva é exercida sobre todo o complexo social (isto 
ocorre especialmente após a queda da escravidão e a ascensão do 
cristianismo) desenvolvem-se ideologias puritanas que propor-
cionam a forma exterior da persuasão e do consenso ao intrínseco 
uso da força: entretanto, uma vez que se alcançou o resultado, pelo 
menos em certa medida, a pressão se quebra (historicamente esta 
fratura ocorre em diversíssimos modos, como é natural), já que a 
pressão sempre assumiu formas originais, frequentemente pessoais; 
identificou-se com um movimento religioso, criou um aparelho 
próprio que se personificou em determinadas camadas ou castas, 
assumiu o nome de Cromwell, ou de Luís XV etc.) e ocorre que 
a crise de libertinismo (a crise francesa após a morte de Luís XV, 
por exemplo, não pode ser comparada com a crise americana de-
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26 caderno 22 (v)
pois do advento de Roosevelt, tampouco o proibicionismo, com 
sua sequela de banditismo etc., tem correspondência com as épocas 
precedentes), que todavia atinge apenas superficialmente as massas 
trabalhadoras, ou as atinge indiretamente já que deprava suas mu-
lheres: estas massas, de fato, já adquiriram os hábitos e os costumes 
necessários aos novos sistemas de vida e de trabalho, ou continu-
am sentindo a pressão coercitiva para as necessidades elementares 
de sua existência (também o antiproibicionismo não foi desejado 
pelos operários, e a corrupção que o contrabando e o banditismo 
trouxeram consigo estava difundida nas classes superiores).
No pós-guerra ocorreu uma crise dos costumes de extensão e 
profundidade inauditas, entretanto ocorreu contra uma forma de 
coerção que não tinha sido imposta para criar hábitos adequados a 
uma nova forma de trabalho, mas para as necessidades já então con-
cebidas como transitórias, da vida de guerra e de trincheira. Esta 
pressão reprimiu especialmente os instintos sexuais, inclusive os 
normais, em grandes massas de jovens e a crise que se desencadeou 
no momento do retorno à vida normal, tornou-se mais violenta 
ainda pelo desaparecimento de tantos homens e por um desequilí-
brio permanente na relação numérica entre os indivíduos dos dois 
sexos. As instituições vinculadas à vida sexual sofreram um forte 
abalo e novas formas de utopia iluminista desenvolveram-se com a 
questão |sexual. A crise se tornou (e ainda é) mais violenta porque 
atingiu todos os estratos da população e entrou em conflito com 
as necessidades dos novos métodos de trabalho que, no entanto, 
se impuseram (taylorismo e racionalização em geral). Estes novos 
métodos demandam uma rígida disciplina dos instintos sexuais (do 
sistema nervoso), isto é, um fortalecimento da “família” em sentido 
amplo (não desta ou daquela forma do sistema familiar), da regula-
mentação e estabilidade das relações sexuais.
É preciso insistir no fato de que, no terreno sexual, o fator ide-
ológico mais depravador e “regressivo” é a concepção iluminista e 
libertária própria das classes não estreitamente vinculadas ao tra-
balho produtivo, e que estas classes contagiam as classes trabalha-
doras. Este elemento torna-se mais grave se, em um determinado 
|34|
271934: americanismo e fordismo
Estado, as massas trabalhadoras não sofrerem mais a pressão coer-
citiva de uma classe superior, se os novos hábitos e atitudes psicofí-
sicos ligados aos novos métodos de produção e de trabalho tiverem 
de ser adquiridos mediante persuasão recíproca ou convicção in-
dividualmente proposta e aceita. Pode-se ir criando, uma situação 
de duplicidade, um conflito íntimo entre a ideologia “verbal” que 
reconhece as novas necessidades e a prática real “animalesca” que 
impede aos corpos físicos a efetiva aquisição das novas aptidões. 
Forma-se neste caso o que poderíamos chamar de situação de hipo-
crisia social totalitária. Por que totalitária? Em outras situações os 
estratos populares são obrigados a observar a “virtude”; quem a pre-
ga não a observa, mesmo prestando-lhe homenagem verbal, e, por-
tanto, a hipocrisia não é total mas de determinados estratos; isto 
não pode durar, certamente, e levará a uma crise de libertinismo; 
mas, só quando as massas já tiverem assimilado a “virtude”, em há-
bitos permanentes ou quase, isto é, com oscilações cada vez meno-
res. Ao contrário, no caso de não existir pressão coercitiva de uma 
classe superior, a “virtude” será afirmada genericamente, mas não 
observada nem por convicção tampouco por coerção, e, portanto, 
não haverá a absorção das atitudes psicofísicas necessárias para |os 
novos métodos de trabalho. A crise pode se tornar “permanente”, 
ou seja, de perspectiva catastrófica, pois só a coerção a poderá defi-
ni-la, uma coerção de novo tipo, porque exercida por uma elite de 
uma classe sobre sua própria classe; só pode ser uma autocoerção, 
isto é, uma autodisciplina. (Alfieri que se deixa amarrar na cadeira). 
Em todo caso, aquilo que se pode opor a esta função das elites, é a 
mentalidade iluminista e libertária na esfera das relações sexuais; 
lutar contra esta concepção significa justamente criar elites neces-
sárias a esta tarefa histórica, ou pelo menos, desenvolvê-las para que 
sua função se estenda a todas as esferas da atividade humana.
CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 99 BIS – 100 BIS.
§ 〈11〉. Racionalização da produção e do trabalho. A tendência 
de Leon Davidovi estava estreitamente ligada a esta série de pro-
blemas, o que não me parece ter sido devidamente esclarecido. O 
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28 caderno 22 (v)
seu conteúdo essencial, deste ponto de vista, consistia na*“dema-
siadamente” resoluta (portanto não racionalizada) vontade de dar 
supremacia, na vida nacional, à indústriae aos métodos industriais, 
de acelerar, por meios coercitivos externos, a disciplina e a ordem 
na produção, de adequar os costumes às necessidades do trabalho. 
Em razão da abordagem geral de todos os problemas ligados à ten-
dência, necessariamente esta tinha que resultar em uma forma de 
bonapartismo, e, portanto, a inexorável necessidade de aniquilá-
-la. Suas preocupações estavam corretas, mas as soluções práticas 
estavam profundamente erradas: neste desequilíbrio entre teoria 
e prática estava ínsito o perigo, que aliás, já se manifestara prece-
dentemente, em 1921. O princípio da coerção, direta e indireta, 
na organização da produção e do trabalho é correto (cf. o discurso 
pronunciado contra Martov e apresentado no volume sobre o Ter-
rorismo) [1], mas a forma que ele assumiu estava errada: o modelo 
militar tornara-se um funesto prejuízo e os exércitos fracassaram. 
Interesse de Leon Davidovi pelo americanismo; seus artigos, suas 
investigações sobre o “byt” e sobre literatura [2], estas atividades 
eram menos desconectadas do que poderia aparecer, pois os novos 
métodos de trabalho são indissolúveis de um determinado|modo 
de viver, de pensar e de sentir a vida: não é possível ter sucesso em 
um campo sem obter resultados tangíveis em outro.
Na América a racionalização do trabalho e o proibicionismo es-
tão sem dúvida ligados: as investigações dos industriais sobre a vida 
íntima dos operários, os serviços de inspeção criados por algumas 
empresas para controlar a «moralidade» dos operários constituem 
necessidade do novo método de trabalho. Quem ridicularizasse es-
tas iniciativas (ainda que fracassadas) e visse nelas só uma hipócrita 
manifestação de «puritanismo», negaria a si mesmo qualquer pos-
sibilidade de compreender a importância, o significado e o alcance 
objetivo do fenômeno americano, que também é o maior esforço 
coletivo verificado até agora para criar com inaudita rapidez e com 
uma consciência do objetivo nunca vista na história, um novo tipo 
de trabalhador e de homem. A expressão “consciência do objeti-
|36|
* NO MS: «DA».
291934: americanismo e fordismo
vo” pode parecer pelo menos espirituosa a quem lembrar a frase de 
Taylor sobre o “gorila amestrado ”[3]. De fato, Taylor expressa com 
cinismo brutal o objetivo da sociedade americana: desenvolver no 
trabalhador, ao máximo grau, as posturas maquinais e automáticas, 
quebrar o velho nexo psicofísico do trabalho profissional qualifica-
do que exigia uma certa participação ativa da inteligência, da fanta-
sia, da iniciativa do trabalhador e reduzir as operações produtivas 
ao único aspecto físico maquinal. Mas na realidade não se trata de 
novidades originais: trata-se apenas da fase mais recente de um lon-
go processo que iniciou com o nascimento do próprio industrialis-
mo, fase que é apenas mais intensa do que as precedentes e que se 
manifesta sob formas mais brutais, mas que também será superada 
através da criação de um novo nexo psicofísico de um tipo diferente 
dos precedentes e sem dúvida de um tipo superior. Inelutavelmente 
ocorrerá uma seleção forçada, uma parte da velha classe trabalha-
dora será eliminada sem piedade do mundo do trabalho e talvez do 
mundo tout court.
Deste ponto de vista é preciso estudar as iniciativas “purita-
nas”|dos industriais americanos do tipo Ford. É certo que eles não 
se importam com a “humanidade”, com a “espiritualidade” do tra-
balhador que imediatamente são esmagadas. Esta “humanidade e 
espiritualidade” só pode se realizar no mundo da produção e do 
trabalho, na “criação” produtiva; ela era máxima com o artesão, 
com o “demiurgo”, quando a personalidade do trabalhador se re-
fletia inteiramente no objeto criado, quando ainda era muito forte 
o laço entre arte e trabalho. Entretanto, o novo industrialismo luta 
precisamente contra este “humanismo”. As iniciativas “puritanas” 
só tem o objetivo de conservar, fora do trabalho, algum equilí-
brio psicofísico para impedir o colapso fisiológico do trabalhador, 
coagido pelo novo método de produção. Este equilíbrio só pode 
ser puramente exterior e mecânico, mas poderá se tornar interno 
se for proposto pelo próprio trabalhador ao invés de ser imposto 
por fora, por uma nova forma de sociedade com meios apropria-
dos e originais. O industrial americano se preocupa em manter a 
continuidade da eficiência física do trabalhador, de sua eficiência 
|37|
30 caderno 22 (v)
muscular-nervosa: é de seu interesse ter um quadro estável de tra-
balhadores qualificados, um conjunto permanentemente coeso, já 
que o conjunto humano (o trabalhador coletivo) de uma empresa 
é uma máquina que não deve ser excessivamente desmontada com 
frequência e renovada em suas peças singulares provocando perdas 
ingentes. O assim dito alto salário é um elemento dependente desta 
necessidade: este é o instrumento para selecionar um trabalhador 
qualificado apto ao sistema de produção e de trabalho e mantê-lo 
estavelmente. Entretanto o alto salário é uma arma de dois gumes: 
é preciso que o trabalhador gaste “racionalmente” o máximo do 
dinheiro para manter, renovar e possivelmente aumentar sua efici-
ência muscular-nervosa, e não para destruí-la ou afetá-la. Eis que a 
luta contra o álcool, o agente mais perigoso da destruição da forca-
-de-trabalho, torna-se função de Estado. É possível que outras lutas 
“puritanas” também se tornem função de Estado, se a iniciativa pri-
vada dos industriais se demonstrasse insuficiente|ou desencadeasse 
uma crise de moralidade muito profunda e extensa entre as massas 
trabalhadoras, o que poderia ocorrer em consequência de uma lon-
ga e extensa crise de desemprego. A questão do álcool está ligada à 
questão sexual: o abuso e irregularidade das funções sexuais são, de-
pois do alcoolismo, os inimigos mais perigosos das energias nervo-
sas e, segundo uma observação comum, o trabalho “obsessivo” pro-
voca depravação alcoólica e sexual. As tentativas feitas por Ford de 
intervir, com um corpo de inspetores, na vida privada de seus em-
pregados e de controlar como gastavam seu salário e como viviam, 
são um indício destas tendências ainda “privadas” ou latentes, que 
podem se tornar, em um determinado momento, ideologia estatal, 
inserindo-se no puritanismo tradicional, ou seja, apresentando-se 
como um renascimento da moral dos pioneiros, do “verdadeiro” 
americanismo etc. [4]. O fato mais considerável do fenômeno ame-
ricano em relação a estas manifestações, é a separação que se for-
mou e que cada vez mais se acentuará, entre a moralidade-costume 
dos trabalhadores e aquela de outros estratos da população. O proi-
bicionismo já deu um exemplo desta separação. Quem consumia 
o álcool introduzido de contrabando nos E.U.[Estados Unidos]? 
O álcool tornara-se uma mercadoria de grande luxo e nem mesmo 
|38|
311934: americanismo e fordismo
os maiores salários podiam permitir o consumo para amplos estra-
tos das massas trabalhadoras: quem trabalha por salário, com um 
horário fixo, não tem tempo para dedicar-se à procura de álcool, 
não tem tempo para dedicar ao esporte de eludir as leis. A mesma 
observação pode ser feita a respeito da sexualidade. A “caça à mu-
lher” exige muito “ócio”; para o operário de novo tipo se repete, sob 
outra forma, o que acontece nos povoados camponeses. A relativa 
solidez das uniões sexuais camponesas está estreitamente ligada ao 
sistema de trabalho do campo. O camponês que volta para casa à 
noite, depois de uma longa jornada de labor, quer a “Venerem fa-
cilem parabilemque” de Horácio: ele não possui a atitude de correr 
atrás de prostitutas; ele ama sua mulher, |firme, indefectível, que 
não faz mimos e não pretende a comédia da sedução e do estupro 
para ser possuída. Assim a função sexual parece mecanizada, mas 
na realidade trata-se do surgimento de uma nova forma de união se-
xual, sem as cores “ofuscantes” da fantasia romântica própria do pe-
queno burguês e do boêmio preguiçoso. Aparece claro que o novo 
industrialismo quer a monogamia, quer que o homem-trabalhadornão gaste suas energias nervosas na busca caótica e excitante da sa-
tisfação sexual ocasional: o operário que vai ao trabalho após uma 
noite de “extravagâncias” não é um bom trabalhador, a exaltação 
passional não pode ir de acordo com os movimentos cronometra-
dos dos gestos produtivos ligados aos mais perfeitos automatismos. 
Este conjunto de constrangimentos e coerções diretas e indiretas 
exercidas sobre a massa obterá sem dúvida resultados e surgirá uma 
nova forma de união sexual, em que monogamia e relativa esta-
bilidade parecem ser o marco característico e fundamental. Seria 
interessante conhecer os resultados estatísticos dos fenômenos de 
desvio dos costumes sexuais oficialmente propagandeados nos Es-
tados Unidos, analisados por grupos sociais: em geral será possível 
verificar que os divórcios são numerosos, especialmente entre as 
classes superiores. 
Esta separação de moralidade nos Estados Unidos, entre as mas-
sas trabalhadoras e elementos cada vez mais numerosos das classes 
dirigentes, parece ser um dos fenômenos mais interessantes e rico 
|39|
32 caderno 22 (v)
de consequências. Até há pouco tempo o povo americano era um 
povo de trabalhadores: a “vocação laboriosa” não era um aspecto 
que dizia respeito apenas às classes operárias, mas era uma quali-
dade específica também das classes dirigentes. O fato de um milio-
nário continuar praticamente ativo até que a doença ou a velhice o 
obrigue ao repouso, e o fato de que sua atividade ocupe um número 
importante de horas de sua jornada: eis um dos fenômenos tipica-
mente americanos, eis a americanada mais incrível para o europeu 
médio. Ressaltamos precedentemente [5] que esta diferença| entre 
americanos e europeus consiste na falta de “tradição” nos Estados 
Unidos, na medida em que tradição significa também resíduo pas-
sivo de todas as formas sociais definhadas na história: nos Estados 
Unidos, pelo contrário, a tradição dos “pioneiros” ainda é recente, 
isto é de fortes individualidades em que a “vocação laboriosa” al-
cançara maior intensidade e vigor, de homens que diretamente, e 
não por meio de um exército de escravos ou de servos, entravam em 
contato enérgico com as forças naturais para dominá-las e explorá-
-las vitoriosamente. Estes resíduos passivos na Europa resistem ao 
americanismo, “representam a qualidade etc.”[6], porque eles sen-
tem instintivamente que as novas formas de produção e de trabalho 
os varreriam implacavelmente.
Contudo, se for verdade que na Europa, desta maneira, o velho 
ainda não enterrado seria definitivamente destruído, o que começa 
a ocorrer na América? A separação de moralidade antes apontada, 
mostra que estão se criando margens de passividade social cada vez 
mais amplas. Parece que as mulheres tenham uma função predomi-
nante neste fenômeno. O homem-industrial continua trabalhando 
ainda que milionário, ao passo que sua mulher e suas filhas se tor-
nam cada vez mais “mamíferos de luxo”. Os concursos de beleza, 
os concursos para o pessoal do cinema (lembrar das 30.000 mo-
ças italianas que em 1926 enviaram suas fotografias em maiô para 
a Fox) [7], o teatro etc. selecionando a beleza feminina mundial e 
colocando-a em leilão, suscitam uma mentalidade de prostituição, 
e o “tráfico das mulheres” é realizado legalmente pelas classes al-
tas. As mulheres, ociosas, viajam, cruzam continuamente o ocea-
|40|
331934: americanismo e fordismo
no para vir à Europa, fogem ao proibicionismo pátrio e contraem 
“casamentos” por temporada (deve-se lembrar que os comandantes 
marítimos foram proibidos de celebrar casamentos a bordo, porque 
muitos casais se casavam ao sair da Europa e se divorciavam antes de 
desembarcar na América): a prostituição real alastra-se, dissimula-
da apenas por frágeis formalidades jurídicas. 
Estes fenômenos, próprios das classes altas, tornarão mais difícil 
a coerção sobre as massas trabalhadoras para adequá-las às necessi-
dades da nova indústria; |de toda maneira determinam uma fratu-
ra psicológica e aceleram*a cristalização e a saturação dos grupos 
sociais, tornando evidente a sua transformação em castas, como 
ocorreu na Europa. 
CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 22-24.
§ 〈12〉. Taylorismo e mecanização do trabalhador. A propósito 
da separação que o taylorismo determinaria entre trabalho manual 
e “conteúdo humano” do trabalho, é possível fazer úteis observa-
ções sobre o passado, e exatamente a respeito das profissões consi-
deradas entre as mais “intelectuais”, ou seja, as profissões ligadas à 
reprodução dos escritos para a publicação ou para outra forma de 
difusão e transmissão: os copistas de antes da invenção da impren-
sa, os compositores manuais, os linotipistas, os estenógrafos, os da-
tilógrafos. Se refletirmos, veremos que nestas profissões o processo 
de adaptação à mecanização é mais difícil do que nos outros. Por 
quê? Porque é difícil alcançar a máxima qualificação profissional, 
que exige do operário que ele “esqueça” ou não reflita sobre o con-
teúdo intelectual do escrito que reproduz, para fixar sua atenção só 
na forma caligráfica de cada caráter, se for copista, ou na decom-
posição das frases em palavras “abstratas” e estas em letras-carac-
teres e escolher rapidamente as peças de chumbo nas caixas, para 
decompor não mais apenas cada palavra, mas grupos de palavras, 
no contexto de um discurso, mecanicamente, combinando-os em 
siglas estenográficas, para obter a rapidez, na máquina de escrever 
|41|
* NO MS: «ACELERA».
34 caderno 22 (v)
etc. O interesse do trabalhador pelo conteúdo intelectual do texto 
mede-se por seus erros, ou seja, é uma deficiência profissional: sua 
qualificação é medida exatamente por seu desinteresse intelectual, 
ou seja, por sua “mecanização”. O copista medieval que se interessa-
va pelo texto, mudava a ortografia, a morfologia, a sintaxe do texto 
reproduzido, deixava de lado períodos inteiros que não compre-
endia, por sua escassa cultura, o decurso dos pensamentos que o 
texto suscitava nele o levava a interpolar glosas e advertências; se 
o seu dialeto ou o seu idioma eram diferentes daqueles do texto, 
ele introduzia nuances da sua própria língua; era um mau copista 
porque na realidade|“refazia” o texto. A lentidão da arte de escre-
ver medieval explica muitas destas deficiências: havia demasiado 
tempo para refletir e, portanto, a “mecanização” era mais difícil. O 
tipógrafo deve ser muito rápido, suas mãos e seus olhos devem estar 
em contínuo movimento e isto torna mais fácil a sua mecanização. 
Entretanto, se pensarmos bem, o esforço que estes trabalhadores 
devem fazer para isolar o conteúdo intelectual do texto, às vezes 
muito empolgante (e neste caso efetivamente trabalha-se menos e 
pior), de sua simbolização gráfica e de aplicar-se só nela, seja talvez 
o esforço maior que se demanda a uma profissão. Contudo, isto 
é feito e não mata espiritualmente o homem. Quando o proces-
so de adaptação ocorreu, verifica-se na realidade que o cérebro do 
operário ao invés de mumificar-se, alcança um estado de completa 
liberdade. Mecanizou-se completamente apenas o gesto físico; a 
memória da profissão, reduzida a gestos simples e repetidos com 
ritmo intenso, se “aninhou” nos feixes musculares e nervosos que 
deixaram o cérebro livre e limpo de outras preocupações. Assim 
como caminhamos sem necessidade de refletir sobre todos os mo-
vimentos necessários para movimentar sincronicamente todas as 
partes do corpo, no determinado modo que é necessário para ca-
minhar, assim ocorreu e continuará ocorrendo na indústria para os 
gestos fundamentais do ofício; caminhamos automaticamente e ao 
mesmo tempo pensamos em tudo o que quisermos. Os industriais 
americanos compreenderam muito bem esta dialética presente nos 
novos métodos industriais. Eles compreenderam que “gorila ames-
trado” é uma frase, que o operário, “infelizmente” fica homem e até 
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351934: americanismo e fordismo
que ele, durante o trabalho, pensa mais, ou pelo menos, tem muito 
mais possibilidade de pensar, pelo menos quandosuperou a crise 
de adaptação e não foi eliminado: e não só pensa, mas o fato de o 
trabalho não lhe dar satisfação imediata e o fato de compreender 
que se quer torná-lo gorila amestrado, pode levá-lo a um curso de 
pensamentos pouco conformistas. A existência desta preocupação 
entre os |industriais aparece em toda uma série de cautelas e ini-
ciativas «educativas» que podem se extrair dos livros de Ford e da 
obra de Philip [1].
CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 24-25.
§ 〈13〉. Os altos salários. É obvio pensar que os chamados altos 
salários representam uma forma transitória de retribuição. A adap-
tação aos novos métodos de produção e de trabalho não pode ocor-
rer só pela coação social: este é um “preconceito” bastante difuso 
na Europa [e especialmente no Japão], que não demorará a ter gra-
ves consequências para a saúde física e psíquica dos trabalhadores, 
um “preconceito” que, por outro lado, só tem base no endêmico 
desemprego que ocorreu no pós-guerra. Se a situação fosse “nor-
mal”, o aparelho de coerção necessário para a obtenção do resultado 
desejado custaria mais do que os altos salários. Por isto, a coerção 
deve ser sabiamente combinada com a persuasão e o consenso, e 
isto pode ser obtido, nas formas próprias de uma determinada so-
ciedade, através de uma maior retribuição que permita um determi-
nado teor de vida, capaz de manter e reintegrar as forças desgasta-
das pelo novo tipo de esforço. Mas, assim que os novos métodos de 
trabalho e de produção se generalizarem e difundirem, assim que 
o novo tipo de operário for criado universalmente e o aparelho de 
produção material se aperfeiçoar ainda mais, a excessiva rotativida-
de [1] será automaticamente limitada por um extenso desemprego e 
os altos salários desaparecerão. Na realidade a indústria americana 
baseada nos altos salários ainda explora um monopólio constituído 
sobre o fato de ter a iniciativa dos novos métodos; os salários de 
monopólio correspondem aos lucros de monopólio. Mas o mono-
pólio necessariamente será antes limitado e depois destruído pela 
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36 caderno 22 (v)
difusão dos novos métodos, tanto nos E.U. [Estados Unidos] como 
no exterior (veja-se o fenômeno japonês dos baixos preços das mer-
cadorias) [2] e junto com os grandes lucros também desaparecerão 
os altos salários. De outra parte, sabe-se que os altos salários estão 
necessariamente vinculados a uma aristocracia operária, e não|são 
pagos a todos os trabalhadores americanos.
Toda a ideologia fordista dos altos salários é um fenômeno de-
rivado da necessidade objetiva da indústria moderna que atingiu 
um determinado grau de desenvolvimento e não um fenômeno pri-
mário (o que, porém, não dispensa o estudo da importância e das 
repercussões que a ideologia pode provocar). Para começar, o que 
significa “alto salário”? O salário pago por Ford é alto apenas em 
comparação com a média dos salários americanos, ou é alto como 
preço da força de trabalho que os empregados da Ford gastam na 
produção e com os métodos de trabalho de Ford? Parece que não 
foi feita uma pesquisa sistemática, contudo, ela somente poderia 
fornecer uma resposta conclusiva. A pesquisa é difícil, mas as cau-
sas mesmas desta dificuldade constituem uma resposta indireta. 
A resposta é difícil porque o quadro de operários qualificados da 
Ford é bastante instável e, portanto, não é possível estabelecer uma 
média “racional” de dispensas entre os operários da Ford que se 
possa comparar com a média das outras indústrias. Mas por que 
esta instabilidade? Por que um operário pode preferir um salário 
“mais baixo” daquele pago por Ford? Isto não significará dizer que 
os assim ditos “altos salários” são menos convenientes para a re-
constituição da força de trabalho gasta, do que os salários menores 
das outras empresas? A instabilidade do quadro de trabalhadores 
qualificados demonstra que as condições normais de concorrência 
entre os operários (diferença de salários) só funcionam dentro de 
alguns limites no que diz respeito à indústria Ford: não funciona o 
diferente grau entre as médias do salário e não funciona a pressão 
do exército de reserva dos desempregados. Isto significa que se deve 
procurar, na indústria Ford, algum novo elemento, que será a ori-
gem real seja dos “altos salários”, seja dos outros fenômenos apon-
tados (instabilidade etc.). Este elemento só pode ser buscado nisto: 
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371934: americanismo e fordismo
a indústria Ford exige uma discriminação, uma qualificação, entre 
os seus operários, que as outras indústrias ainda não |exigem, uma 
qualificação de nova natureza, uma forma de consumo de força de 
trabalho e uma quantidade de força gasta, no mesmo tempo médio, 
mais gravosas e mais desgastantes do que em outros lugares e que o 
salário não consegue compensar em todos os casos, não consegue 
reconstituir nas condições dadas pela sociedade assim como ela é. 
Colocadas as razões, apresenta-se o problema: se o tipo de indús-
tria e de organização do trabalho e da produção próprio da Ford, 
é “racional”, isto é, se pode e deve generalizar-se, ou se, ao invés, 
trata-se de um fenômeno mórbido que se deve combater através da 
força sindical e da legislação. Ou seja, se é possível, com a pressão 
material e moral da sociedade e do Estado, fazer com que os ope-
rários enquanto massa sofram todo o processo de transformação 
psicofísica para fazer com que o tipo médio de operário Ford se 
torne o tipo médio do operário moderno, ou se isto é impossível, já 
que levaria à degeneração física e à deterioração da raça, destruindo 
toda força de trabalho. Parece que se possa responder que o método 
de Ford é “racional”, isto é, que deve generalizar-se, mas que para 
isto é necessário um longo processo, em que ocorra uma mudança 
das condições sociais e uma mudança dos costumes e dos hábitos 
individuais, o que não pode ocorrer apenas pela “coerção”, mas só 
por meio de uma harmonização entre coação (autodisciplina) e 
persuasão, sob a forma inclusive de altos salários, ou seja, da possi-
bilidade de um melhor teor de vida, ou talvez, mais exatamente, da 
possibilidade de realizar o teor de vida adequado aos novos modos 
de produção e de trabalho, que exigem um particular gasto de ener-
gias musculares e nervosas.
Em medida limitada, mas, contudo, relevante, fenômenos 
similares àqueles determinados em larga escala pelo Fordismo, 
ocorreram e ocorrem em alguns ramos de indústria ou em alguns 
estabelecimentos não “fordizados”. Constituir um orgânico e bem 
articulado quadro de trabalhadores de fábrica qualificados, ou de 
uma equipe de trabalho especializada, nunca foi coisa|simples: 
ora, uma vez que se constituiu este quadro ou esta equipe, os seus 
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|46|
38 caderno 22 (v)
componentes, ou uma parte deles, acabam às vezes não só se be-
neficiando de um salário de monopólio, mas também não sendo 
demitidos em caso de parada temporária da produção; seria antie-
conômico desperdiçar os elementos de um todo orgânico consti-
tuído laboriosamente porque seria quase impossível reagrupá-los 
enquanto a reconstrução deste todo com elementos novos, for-
tuitos, custaria tentativas e gastos não indiferentes. Isto represen-
ta um limite da lei de concorrência determinada pelo exército de 
reserva e pelo desemprego e este limite sempre esteve na origem 
das formações de aristocracias privilegiadas. Como nunca funcio-
nou e não funciona uma lei de equiparação perfeita dos sistemas e 
dos métodos de produção e de trabalho para todas as empresas de 
um determinado ramo da indústria, conclui-se que toda empresa, 
em certa medida, mais ou menos ampla, é “única”, e forma um 
quadro de trabalhadores qualificados com competências adequa-
das a esta particular empresa: pequenos “segredos” de fabricação 
e de trabalho, “artimanhas” que parecem sem importância em si, 
mas que, repetidas infinitas vezes, podem adquirir uma impor-
tância econômica ingente. Um caso particular pode ser estudado 
na organização do trabalho dos portos, especialmente onde exis-
te desequilíbrioentre embarque e desembarque de mercadorias e 
onde ocorrem períodos de alta de trabalho e períodos mortos. É 
necessário ter um quadro de estivadores qualificados sempre dis-
poníveis (que não se afastem do local de trabalho) para o mínimo 
de trabalho na baixa estação ou de outro tipo, e, portanto, a for-
mação de grupos fechados, com altos salários e outros privilégios, 
em contraposição com a massa dos trabalhadores “temporários” 
etc. Isto ocorre também na agricultura, na relação entre colonos 
fixos e jornaleiros e em diversas indústrias onde existem os “pe-
ríodos mortos”, por razões inerentes à própria indústria, como a 
do vestuário, ou por causa da má organização|do comércio do 
atacado, que compra segundo ciclos próprios, descolados do ciclo 
de produção etc.
CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 25 – 25 BIS; CADERNO 9 (XIV), PP. 56-57 E 58.
|47|
391934: americanismo e fordismo
§ 〈 14 〉. Ações, obrigações, títulos de Estado. Que radical mudan-
ça introduzirá na orientação da pequena e média poupança a atual 
depressão econômica se, como parece provável, ela se prolongar 
por algum tempo ainda? Pode-se observar que a queda do mercado 
acionário determinou uma desmedida deslocação de riqueza e um 
fenômeno de expropriação “simultânea” da poupança de grandes 
massas da população, um pouco por toda parte, mas especialmente 
na América: assim, os processos mórbidos que ocorreram por cau-
sa da inflação, no primeiro pós-guerra, renovaram-se em toda uma 
série de países, e operaram nestes países que no período precedente 
não foram afetados pela inflação.
O sistema que o governo italiano intensificou nestes anos (con-
tinuando uma tradição já existente, ainda que em escala menor) 
parece o mais racional e orgânico, pelo menos por um grupo de 
países, mas que tipo de consequências poderá ter? Diferença entre 
ações ordinárias e ações preferenciais, entre estas e as obrigações, 
entre ações e obrigações do mercado livre e obrigações ou títulos 
de Estado. A massa de poupadores busca desfazer-se completamen-
te de todo tipo de ações, desvalorizadas de modo inaudito, prefere 
as obrigações às ações, mas prefere os títulos de Estado a qualquer 
outra forma de investimento. Pode-se dizer que a massa de pou-
padores quer romper qualquer vínculo direto com o conjunto do 
sistema capitalístico privado, mas não rejeita a confiança para com 
o Estado: quer participar da atividade econômica, mas através do 
Estado, que garanta um juro módico, mas seguro. O Estado tor-
na-se assim investido de uma função de primeira importância no 
sistema capitalista, como empresa (holding estatal) que concen-
tra a poupança |disponibilizando-a para a indústria e a atividade 
privada, como investidor a médio e longo prazo (criação italiana 
de diversos Institutos, de Crédito mobiliário, de reconstrução in-
dustrial etc.; transformação do Banco Comercial, consolidação das 
Caixas de poupança, criação de novas formas na poupança postal 
etc.) [1]. Entretanto, uma vez assumida esta função, por necessida-
des econômicas imprescindíveis, pode o Estado desinteressar-se na 
organização da produção e da troca? Deixá-la, como antes, para a 
|48|
40 caderno 22 (v)
iniciativa da concorrência e para a iniciativa* privada? Se isto ocor-
rer, a desconfiança que hoje atinge a indústria e o comércio privado, 
envolveria também o Estado; a configuração de uma situação que 
obrigasse o Estado a desvalorizar seus títulos (através da inflação ou 
por outra forma) assim como se desvalorizaram as ações privadas, 
seria catastrófica para o conjunto da organização econômico-so-
cial. Desta forma o Estado necessariamente é levado a intervir para 
controlar se os investimentos ocorridos por seu intermédio estão 
bem administrados, e assim compreende-se pelo menos um aspecto 
das discussões teóricas sobre o regime corporativo. Mas o puro con-
trole não é suficiente. De fato, não se trata só de conservar o apare-
lho produtivo tal como é em um determinado momento; trata-se 
de reorganizá-lo para desenvolvê-lo paralelamente ao aumento da 
população e das necessidades coletivas. O maior risco da iniciativa 
privada está exatamente nestes desenvolvimentos necessários e de-
veria ser maior a intervenção do Estado, que também não está isen-
to de perigos, muito pelo contrário. (Apontam-se estes elementos, 
assim como os mais orgânicos e essenciais, mas também outros ele-
mentos levam à intervenção estatal, ou a justificam teoricamente: o 
agravamento dos regimes aduaneiros e das tendências autárquicas, 
os subsídios, o dumping, o resgate das grandes empresas à beira da 
falência ou instáveis; ou seja, como já foi dito, a “nacionalização das 
perdas e dos déficits industriais” [2] etc.). 
Se o Estado propusesse a imposição de uma diretriz econômica 
segundo a qual a produção da poupança de “função” de uma classe 
parasitária |se tornasse função do próprio organismo produtivo, tais 
hipotéticos desenvolvimentos seriam progressivos, poderiam caber 
em um amplo desenho de racionalização integral: seria preciso, por-
tanto, promover uma reforma agrária (com a abolição da renda da 
terra como renda de uma classe não trabalhadora e incorporação dela 
no organismo produtivo, como poupança coletiva dedicada à recons-
trução e a ulteriores progressos) e uma reforma industrial, para recon-
duzir todas as rendas às necessidades funcionais técnico-industriais e 
não mais às consequências jurídicas do puro direito de propriedade. 
|49|
* NO MS: "DA INICIATIVA".
411934: americanismo e fordismo
Deste conjunto de exigências, nem sempre confessadas, nasce a 
justificação histórica das assim ditas tendências corporativas, que 
se manifestam prevalentemente como exaltação do Estado em ge-
ral, concebido como algo absoluto e como desconfiança e aversão 
às formas tradicionais do capitalismo. Daqui decorre que, teorica-
mente, o Estado parece ter sua base político-social na “gente miúda” 
e nos intelectuais, mas na realidade a sua estrutura é plutocrática e 
fica impossível romper os laços com o grande capital financeiro: na 
realidade é o próprio Estado que se torna o maior organismo plu-
tocrático, a holding das grandes massas de poupança dos pequenos 
capitalistas. (O Estado jesuíta do Paraguai poderia ser utilmente 
tomado como modelo de muitas tendências contemporâneas).
Que possa existir um Estado baseado politicamente sobre a plu-
tocracia e sobre a gente miúda ao mesmo tempo, não é algo com-
pletamente contraditório, como demonstra um país exemplar, a 
França, onde justamente não se compreenderia o domínio do capital 
financeiro sem a base política de uma democracia de rentistas pe-
queno-burgueses e de camponeses. Entretanto, a França, por razões 
complexas, ainda tem uma composição social bastante sadia, porque 
existe uma ampla base de pequena e média propriedade agrícola. 
Em outros países, ao invés, os poupadores são separados do mundo 
da produção e do trabalho; a poupança aqui é demasiado cara “so-
cialmente”, porque é conseguida através de um nível de vida muito 
baixo dos trabalhadores industriais e especialmente|agrícolas. Se a 
nova estrutura de crédito consolidasse esta situação, na realidade ha-
veria uma piora: se a poupança parasitária, graças à garantia estatal, 
não tivesse nem mesmo de correr o risco do mercado normal, de um 
lado se fortaleceria a propriedade fundiária parasitária, e do outro 
as obrigações industriais que geram dividendos legais, com certeza 
pesariam de forma ainda mais esmagadora sobre o trabalho.
CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 11-13.
§ 〈15〉. Civilização americana e europeia. Em uma entrevista com 
Corrado Alvaro («L´Italia Letteraria», 14 de abril de 1929) Luigi 
Pirandello afirma: “O americanismo submerge-nos. Creio que um 
|50|
42 caderno 22 (v)
novo farol de civilização se acendeu por lá”. “O dinheiro que corre 
pelo mundo é americano (?!), e atrás do dinheiro (!) corre o modo de 
vida e a cultura (isto só é verdade para a nata da sociedade, e parece 
que Pirandello, e com ele muitos outros, acredite que esta natacos-
mopolita constitua o 'mundo' todo). Tem a América uma cultura? 
(seria necessário dizer: tem uma cultura unitária e centralizada, isto 
é, a América é uma nação de tipo francês, alemão e inglês?) Tem li-
vros e hábitos. Os hábitos constituem sua nova literatura, aquela que 
penetra através das portas mais armadas e defendidas. Em Berlim 
não se percebe o descolamento entre velha e nova Europa porque a 
própria estrutura da cidade não oferece resistências (Pirandello hoje 
não poderia afirmar o mesmo, e, portanto, é preciso compreender 
que estava se referindo à Berlim dos cafés noturnos). Em Paris, onde 
existe uma estrutura histórica e artística, onde os testemunhos de 
uma civilização autóctone estão presentes, o americanismo destoa 
como o pó de arroz sobre o velho rosto de uma prostituta”[1].
Mas o problema não é saber se na América existe ou não uma nova 
civilização, uma nova cultura, ainda que no estado de “farol” e se 
elas estão invadindo ou já invadiram a Europa; se o problema for 
posto assim, a resposta seria |fácil: não, não existe etc. e, ao contrá-
rio, na América nada mais se faz do que remastigar a velha cultura 
europeia. Este é o problema: se a América, com o peso implacável de 
sua produção econômica (ou seja, indiretamente) obrigará ou estará 
obrigando a Europa a uma transformação radical de sua estrutura 
econômico-social demasiado antiquada, o que ocorreria de qualquer 
forma, mas com ritmo lento e que imediatamente se apresenta, ao in-
vés, como reação à “prepotência” americana, ou seja, se está ocorren-
do uma transformação das bases materiais da civilização europeia, o 
que no longo prazo (e nem muito longo, porque no período atual 
tudo é mais rápido do que nos períodos passados) levará a um derru-
bamento da forma de civilização existente e ao nascimento forçado 
de uma nova civilização.
Os elementos de “nova cultura” e de “novo modo de vida” que 
hoje se difundem sob a etiqueta americana, representam apenas as 
primeiras tentativas, feitas às cegas, devidas não tanto a uma “or-
|51|
431934: americanismo e fordismo
dem” que nasce de uma nova instância, que ainda não se formou, 
mas à iniciativa superficial e simiesca dos elementos que iniciam 
a se sentir socialmente deslocados pelo operar (ainda destrutivo e 
dissolutivo) da nova instância em formação. Aquilo que hoje é cha-
mado de “americanismo” é em grande parte a crítica preventiva dos 
velhos estratos que serão esmagados pela possível nova ordem e que 
já são presa de uma onda de pânico social, de dissolução, de deses-
pero, é uma tentativa de reação inconsciente de quem é impotente 
a reconstruir e toma como apoio os aspectos negativos da trans-
formação*. Não se pode esperar que a reconstrução seja feita pelos 
grupos sociais “condenados” pela nova ordem, mas sim daqueles 
que estão criando, por imposição e com seu próprio sofrimento, as 
bases materiais desta nova ordem: eles “devem” encontrar o sistema 
de vida “original” e não de marca americana, para transformar em 
“liberdade” o que hoje é “necessidade”.
Este critério pelo qual tanto as reações intelectuais e morais ao 
estabelecer-se um novo método|produtivo, quanto as exaltações 
superficiais do americanismo se devem aos detritos dos velhos 
estratos em ruína e não aos grupos cujo destino está ligado a um 
ulterior desenvolvimento do novo método, é extremamente impor-
tante e explica por que alguns elementos responsáveis da política 
moderna, que baseiam sua fortuna na organização do conjunto do 
estrato médio, não queiram tomar posição mas se mantêm “teorica-
mente” neutros, resolvendo os problemas práticos através do tradi-
cional método do empirismo e do oportunismo (cfr. as diversas in-
terpretações do ruralismo de U. Spirito, que pretende “urbanizar” o 
campo, até aos outros que tocam a flauta de Pan) [2].
Que não se trate, no caso do americanismo, entendido não só 
como vida de bar, mas também como ideologia do Rotary Club, de 
um novo tipo de civilização é visível pelo fato de que nada mudou 
no caráter e nas relações entre os grupos fundamentais: trata-se de 
um prolongamento orgânico e de uma intensificação da civilização 
europeia, que só assumiu uma epiderme nova no clima americano. 
|52|
* NO MS: "DA TRANSFORMAÇÃO QUE APRESENTAM".
44 caderno 22 (v)
A observação de Pirandello sobre a oposição que o americanismo 
encontra em Paris (mas no Creusot?) [3] e sobre a recepção imedia-
ta que encontraria em Berlim, prova, em todo caso, que não se trata 
de diferença de natureza, mas apenas de grau em relação ao “euro-
peísmo”. Em Berlim as classes médias já haviam sido arruinadas pela 
guerra e pela inflação e a indústria berlinense em seu conjunto tem 
caraterísticas diversas da parisiense: as classes médias francesas não 
sofreram as crises ocasionais como a inflação alemã, tampouco a 
crise orgânica de 1929 e seguintes*, com o mesmo ritmo acelerado 
que sofreu a Alemanha. Por isto é|verdade que em Paris o america-
nismo apareça como uma maquilagem, como uma superficial moda 
estrangeira.
CF. CADERNO 3 (XX), PP. 7 BIS - 8 BIS.
§ 〈16〉. Várias. Vale lembrar alguns livros de Guglielmo Ferrero 
sobre a América: quantos lugares comuns cunhados por Ferrero en-
traram em circulação e continuam sendo usados sem levar em conta 
sua origem? (Quantidade contra qualidade, por exemplo, tem sua 
origem em Ferrero que, portanto, é o pai espiritual de toda a ideo-
logia tola sobre o retorno do artesanato etc. O livro de Ferrero Fra 
i due mondi [1] deve ser considerado como a bíblia de uma série de 
banalidades entre as mais gastas e vulgares).
Sobre o americanismo é preciso ver o artigo “L'America nella let-
teratura francese del 1927”, de Etienne Fournol na «Nuova Anto-
logia» de 1º de abril de 1928 [2], útil como repertório das banalida-
des mais grosseiras sobre o tema. Fala do livro de Siegfried e do de 
Romier (Qui sera le maître?) [3], menciona um livro de Andrea Tar-
dieu (Devant l´obstacle: l´Amerique et nous, Paris, Librairie Emil 
Paul) e dois livros de Luc Durtain, um romance, Hollywood depassé, 
e uma coletânea de novelas, Quarantième étage, ambos editos pela 
N.R.F. e que parecem interessantes [4].
|53|
* NO MS, SEGUEM ALGUMAS PALAVRAS APAGADAS: "QUE FOI NA ALEMANHA MAIS 
RÁPIDA DO QUE O RITMO NORMAL".
451934: americanismo e fordismo
A propósito do Prof. Siegfried deve-se notar esta sua contradi-
ção: na pág. 350 de seu volume Les États-Unis d´aujourd´hui, ele 
reconhece na vida americana “o aspecto de uma sociedade realmen-
te (!) coletivista, desejado pelas classes eleitas e aceito alegremente 
(sic) pela multidão” [5], mas depois Siegfried escreve o prefácio ao 
livro de Philip sobre o movimento operário americano [6] louvan-
do-o, apesar de que o livro não demonstre exatamente esta “alegria”, 
nem que na América não exista luta de classes, mas ao invés de-
monstre a existência da mais desmedida e feroz luta de uma parte 
contra a outra. A mesma comparação poderia ser feita entre o livro 
de Romier e o de Philip. Deve-se|evidenciar que na Europa acei-
tou-se com grande facilidade (e foi difundido muito habilmente) 
o quadro róseo de uma América sem lutas internas (atualmente as 
dificuldades se esclarecem) etc. etc. De modo que, no mesmo tem-
po, combateu-se o americanismo enquanto subversor da estagnan-
te sociedade europeia, mas apresentou-se a América como exemplo 
de homogeneidade social para fins de propaganda e como premissa 
ideológica para as leis de exceção.
CF. CADERNO 3 (XX), PP. 38 BIS – 39.
|54|das notas carcerárias do grande mar-
xista e comunista sardo. Tanto que, como se sabe, atualmente está 
em andamento uma nova edição crítica dos Cadernos organizada 
por Gianni Francioni, Giuseppe Cospito e Fabio Frosini, edição 
que procura aprofundar as referências cronológicas, a pesquisa das 
fontes, etc. Desta edição saíram em língua italiana os primeiros oito 
IV
cadernos gramscianos e os Cadernos de Tradução, até agora inédi-
tos, enquanto os cadernos seguintes ainda devem ser publicados.
Por todos estes motivos mencionados acima, quando eu soube 
que a IGS-Brasil havia decidido iniciar um grande empreendi-
mento coletivo para uma nova tradução integral dos Cadernos do 
Cárcere, manifestei meu interesse e apoio à iniciativa. O conheci-
mento dos Cadernos na forma como foram escritos por Gramsci é, 
atualmente, o melhor ponto de partida para ler e estudar a maior 
obra deste autor. Esta obra já está integralmente disponível em es-
panhol (onde recentemente foi lançada uma segunda tradução pela 
Editora Akal). Eu pessoalmente manifesto a esperança de que no-
vas traduções completas das obras gramscianas (dos Cadernos, mas 
possivelmente também das Cartas do Cárcere, dos escritos pré-car-
cerários e das cartas precedentes à prisão) estejam disponíveis ao 
menos em todas as principais línguas do mundo.
Uma tradução tão abrangente quanto esta nova edição em lín-
gua portuguesa, levada a termo em um período bastante limitado, 
graças ao empenho militante de muitos estudiosos e estudiosas da 
IGS-Brasil, apresenta inevitáveis problemas de amálgama da termi-
nologia usada pelos vários tradutores, para exprimir temas e pro-
blemas gramscianos. Certamente uma atenção especial a esta e a 
outras questões relacionadas será dada pelo grupo que levou adian-
te este esforço coletivo tão relevante. 
O tempo, o debate público, o cotejo entre os estudiosos e os 
leitores nos dirá muito – nos próximos anos – sobre o resultado 
alcançado com esta edição e também, eventualmente, sobre o seu 
aperfeiçoamento. Contudo, permanecerá válida a direção que esta 
edição indica: traduzir e ler Gramsci inteiramente, em primeiro lu-
gar aquele dos Cadernos, contextualizar sempre mais, no tempo e 
no espaço os seus escritos, as suas afirmações, as suas palavras, no 
contexto político e cultural nos quais nasceram, perquirindo tam-
bém as variações e inclusive as contradições internas aos seus escri-
tos – para melhor compreender o alcance atual do seu pensamento, 
a sua validade ou a sua tradutibilidade (conceito gramsciano de ex-
traordinária relevância) no nosso mundo de hoje.
V
Desta perspectiva, o trabalho que a IGS-Brasil levou a termo é, 
sem dúvida, de grande importância e nos faz compreender como as 
obras de Gramsci devem ser seriamente lidas e estudadas. Por isso, 
saúdo a nova tradução dos Cadernos do Cárcere para o português e 
agradeço todas e todos aqueles que dela participaram e à IGS-Bra-
sil no seu conjunto por ter dado vida a esta iniciativa.
Sigamos em frente com Gramsci: Nino vive conosco se a sua lei-
tura também nos ajudar a compreender a realidade da sociedade 
atual.
Guido Liguori
International Gramsci Society
VI
AGRADECIMENTOS
A tradução dos Cadernos do Cárcere de Gramsci, realizada vo-
luntária e gratuitamente por sócios da IGS-BR, foi submetida a re-
visão e padronização de profissionais, aos quais se retribuiu finan-
ceiramente. Realizamos uma campanha de arrecadação financeira 
entre os sócios da IGS-Brasil que ajudou a cobrir, parcialmente, 
essa despesa. Constam a seguir os doadores a quem se agradece pelo 
espírito coletivo: André Silva Martins (UFJF); Ascisio dos Reis Pe-
reira (UFSCar); Danuta Estrufika C. Luiz (UEPG-PR); Dermeval 
Saviani (UNICAMP); Dilma Andrade de Paula (UFU); Douglas 
Christian F. de Melo (UFES); Emilie Faedo della Giustina (UFF); 
Erika Laurinda Amusquivar (UnB); Eurelino T.; Ivete Simionatto 
(UFSC); Leonardo Seabra Puglia (FCSMA-RJ); Lincoln Secco 
(USP); Luzinete de Souza Oliveira (ES); Márcia Aparecida Jaco-
mini (UNIFESP); Marcos Aurélio da Silva (UFSC); Marcos Fran-
cisco Martins (UFSCar); Marcos Del Roio (UNESP); Mª Del 
Carmen Cortizo (UFSC); Mª Margarida Machado (UFG); Mª 
Socorro R. Militão (UFU); Marilia Etienne Arreguy (UFF); Mari-
na Maciel Abreu (UFMA); Pedro Cláudio C. B. Bocaiuva Cunha 
(UFRJ); Raúl Burgos (UFSC); Renê Trentin Silveira (UNI-
CAMP); Rodolfo S. P. Darrieux (RJ); Victor Leandro C. Gomes 
(UFF); Zuleide Simas da Silveira (UFF); Núcleo de Estudos e Pes-
quisas em Filosofia Política e Educação (NuFiPE/UFF); Núcleo de 
Estudos Trabalho, Políticas Públicas e Serviço Social (TRAPPUS/
PUC-Rio). Agradecemos também ao CNPq, pelo financiamento 
ao projeto: "Contribuições de Gramsci para pensar a educação de 
pessoas trabalhadoras" – coordenado pela Profª Mª Margarida Ma-
chado (UFG), que viabilizou a diagramação desta 1ª Edição, e ao 
projeto: "Traduzir, atualizar, potencializar os desafios postos pelos 
Cadernos do Cárcere de A. Gramsci" – coordenado pela Profª Mª 
Socorro Ramos Militão (UFU), financiado por emenda da Depu-
tada Federal por Minas Gerais, Dandara Tonantzin Silva Castro 
(PT), que viabilizou o lançamento desta 1ª Edição dos Cadernos do 
Cárcere pela IGS-Brasil.
VII
PREFÁCIO
 Etapas das traduções dos Cadernos do cárcere no Brasil
Na segunda metade dos anos 1960, quando estava já instaurada 
a ditadura civil-militar no Brasil, a Editora Civilização Brasileira, 
além de uma seleção das Cartas do cárcere (1966)1, publicou uma 
parte substancial2 dos seis volumes dos Quaderni del carcere, de 
A. Gramsci, organizados por P. Togliatti e F. Platone e publicados 
pela Editora Einaudi de Turim3. Essa “Edição temática”, estrutura-
da com base nos temas centrais tratados nos “cadernos especiais” 
de Gramsci, havia sido concebida pelos editores italianos para 
“agrupar as notas gramscianas por assuntos e temas homogêneos, 
e organizar tais agrupamentos em uma série de volumes indepen-
1 Com a seleção e tradução de Noênio Spínola, a Civilização Brasileira publica 
233 Cartas do cárcere, de Gramsci, tendo como base a edição italiana organizada 
por S. Caprioglio e E. Fubini, Lettere dal carcere, publicada pela Einaudi de Turim, 
em 1965, que continha 428 cartas.
2 A Editora Civilização Brasileira publicou, em 1966: Concepção dialética da 
história (Título dado ao 1º volume italiano Il materialismo storico e la filosofia di 
Benedetto Croce); em 1967: Os intelectuais e a organização da cultura; Maquiavel, 
a política e o Estado moderno; em 1968: Literatura e vida nacional (contendo só 
uma seleção da edição original). Os volumes Il Risorgimento e também Passato e 
Presente não foram traduzidos. Para mais detalhes desse processo de publicação, 
cfr. C. Nelson Coutinho, “Introdução” a Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, 
vol. 1, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999, pp. 32-38.
3 Togliatti, P., - Platone, F. (a cura di), Quaderni del carcere di Gramsci, 6 voll, Ei-
naudi, Torino, 1948-1951. Os títulos dos seis volumes da “edição temática” italia-
na são os seguintes: Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce (1948); 
Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura (1949); Note sul Machiavelli, sulla 
politica e sullo Stato moderno (1949); Il Risorgimento (1950); Letteratura e vita 
nazionale (1950); Passato e Presente (1951). Em 1977, com base na “edição crítica” 
de V. Gerratana, L. Gruppi organiza uma nova edição “riveduta e integrata” da 
“edição temática”, publicada pela Editora Riuniti de Roma.
VIII
dentes”(Gerratana, 1975, p. XXXIII)4. Na prática, ao editar os ca-
dernos manuscritos de Gramsci produzidos na prisão, a “Edição te-
mática” excluía os textos “miscelâneos”, notas de primeira redação, 
e depurava algumas partes dos cadernos que podiam gerar atritos 
com a orientação oficial do partido e a ortodoxia soviética (Liguo-
ri, 1996, pp. 56-57)5. Embora importante, por ter proporcionado 
uma aproximação fundamental à obra carcerária de Gramsci, com 
o tempo, a tradução incompleta da“edição temática” realizada no 
Brasil se mostrou problemática e insuficiente, não só pelas questões 
inerentes à edição de Togliatti-Platone, mas, principalmente, ante a 
“Edição crítica do Instituto Gramsci”, realizada sob os cuidados de 
Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, em 19756.
Essa “Edição crítica” reproduz integralmente as anotações conti-
das nos Cadernos do cárcere “tal como foram escritas por Gramsci”, 
dispondo-as conforme uma “ordem cronológica da redação recons-
truída na base de dados objetivos [...] e conservando entre parên-
tese as velhas numerações postas por Tânia” (Gerratana, Ibid., 
p. XXXV). Além disso, enumera todas as notas e as organiza de 
modo a colocar em evidência as de primeira redação (Textos A), 
sinalizadas com fonte menor, as de redação única (Textos B) e as de 
segunda redação (Textos C). Com os três volumes que reproduzem 
as anotações de Gramsci contidas nos 29 cadernos manuscritos e 
um “Apêndice” de oito páginas, posto no final do último caderno, 
contendo alguns “Extratos dos Cadernos de tradução”7 , a “Edição 
crítica” publicou no quarto volume um precioso “Apparato critico” 
com os seguintes conteúdos: Descrição dos Cadernos; Notas ao 
4 Gerratana, V., “Prefazione” in: Id (org.), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, 
Edizione critica dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975.
5 Liguori, G., Gramsci conteso. Storia di um dibattito 1922-1996, Riuniti, Roma, 
1996.
6 Gerratana, V. (a cura di), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, Edizione critica 
dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975.
7 Além dos 29 cadernos, há quatro cadernos (A, B, C, D) contendo só traduções 
feitas por Gramsci entre 1929 e 1932. Na “Descrição dos Cadernos” que consta 
no “Apparato critico”, encontra-se uma documentação analítica desses exercícios 
de tradução.
IX
texto; Índice das obras citadas nos Cadernos; Livros e opúsculos do 
Fundo Gramsci não citados nos Cadernos; Índice dos periódicos 
citados nos Cadernos; Índice por assuntos; Tábua das concordân-
cias; Índice dos nomes. 
Assim, para suprir os diversos problemas que apresentava a tradu-
ção parcial da “Edição temática” realizada no Brasil nos anos 1960, 
entre os anos de 1999 e 2002, foram publicados, sempre pela Edito-
ra Civilização Brasileira, seis volumes contendo uma nova tradução 
dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci8. Responsáveis pelo 
desenho da edição e pela tradução, C. Nelson Coutinho (editor), 
M. Aurélio Nogueira e L. Sérgio Henriques (coeditores) optaram 
por uma solução em que, “embora tome certamente como base a 
edição Gerratana, a presente edição brasileira incorpora não só os 
critérios adotados na velha ‘edição temática’, mas também algumas 
das sugestões propostas por Gianni Francioni” (Coutinho, 1999, 
p. 32)9. Dessa forma, tendo “como eixos articuladores os ‘cadernos 
especiais’”, os seis volumes da nova edição brasileira traduzem todos 
os “cadernos especiais” como se encontram na edição Gerratana e, 
no final de cada um, acrescenta-se uma seção intitulada “Dos ca-
dernos miscelâneos”, na qual são alocadas as notas de redação úni-
ca (Textos B) relacionadas com o tema do “caderno especial” em 
questão (Ibid., p. 40), e “Notas ao texto”, em sua maioria, extraídas 
das notas explicativas do “Apparato critico” de V. Gerratana e da 
edição norte-americana de J.A. Buttigieg (2007)10. Nos apêndices 
do último volume (6º), estão situados: “Uma antologia de textos A” 
(pequena amostra dos Textos A, de primeira redação); um “Índice 
geral dos Cadernos” (inclusive dos Textos A, indicando os parágra-
fos dos Textos C, nos quais foram reelaborados); uma “Datação dos 
8 Coutinho, C. Nelson (editor) - Nogueira, M. Aurélio e Henriques, L. Sérgio 
(coeditores): Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, 6 vols., Civilização Brasileira, 
Rio de Janeiro, 1999-2002.
9 Coutinho, C. N., “Introdução” a Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, vol. 1, 
Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999.
10 Buttigieg, J. A., Prison Notebooks (vols. 1-3) por Antonio Gramsci, Columbia 
University Press, New York, 1992-2007.
X
parágrafos segundo a proposta de G. Francioni”11; um “Índice dos 
principais conceitos” e o “Índice onomástico”.
Não há dúvida de que, levando também em conta a tradução em 
dois volumes das Cartas do cárcere12, baseados na edição italiana 
organizada por A. A. Santucci (1996)13, e uma seleção de textos 
pré-carcerários reunidos nos dois volumes de Escritos Políticos14, o 
admirável empreendimento de C. Nelson Coutinho, M. Aurélio 
Nogueira e L. Sérgio Henriques representa um enorme avanço em 
relação aos textos de Gramsci postos à disposição dos leitores bra-
sileiros até então. No entanto, sem diminuir o valor dessa tradução, 
nem o reconhecimento e a nossa gratidão aos autores desse traba-
lho, suscita perplexidade o critério que levou essa nova edição a su-
primir - por “não ter maiores méritos científicos” (Coutinho, 1999, 
p. 41) - as notas de primeira redação (Textos A) aproveitadas e ree-
laboradas por Gramsci nos textos de segunda redação (Textos C) e 
a seleção feita pelos editores das notas de redação única (Textos B) 
que teriam alguma relação com o tema do caderno em questão. Pas-
sadas mais de duas décadas, a estruturação dessa edição, motivada 
essencialmente para “não ampliar quantitativamente nossa edição, 
tornando-a assim menos acessível a um público que pretendemos 
o mais amplo possível” (Ibid., p. 41) e intencionada a evitar que “o 
leitor iniciante” se perca “no labirinto das anotações carcerárias” 
(Ibid., p. 44), vem apresentando alguns limites e não atende plena-
mente às novas demandas de estudos e às exigências das pesquisas 
que foram evoluindo. De fato, inclusive graças à publicação dessa 
nova edição, na medida em que a difusão da obra e do pensamento 
de Gramsci foi se ampliando no Brasil e os estudos e pesquisas fo-
ram se tornando mais abrangentes e minuciosos, sentiu-se a neces-
11 Francioni, G., L’officina gramsciana. Ipotesi sulla struttura dei “Quaderni del 
carcere”, Bibliopolis, Napoli, 1984.
12 Henriques L. Sérgio (org.), Antonio Gramsci: Cartas do cárcere, 2 vols., Civili-
zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2005.
13 Santucci, A. A., Antonio Gramsci: Lettere dal carcere, 2 voll, Ed. Sellerio, Pa-
lermo, 1996.
14 Coutinho C. Nelson (org.), Antonio Gramsci: Escritos Políticos, 2 vols., Civili-
zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2004.
XI
sidade crescente de traduzir integralmente a “Edição crítica do Ins-
tituto Gramsci” (aos cuidados de V. Gerratana), padrão mundial 
de referência e base para traduções em diferentes línguas, enquanto 
se espera que a ciclópica Edizione Nazionale delle opere di Antonio 
Gramsci venha a ser finalizada15.
Quando, portanto, a equipe eleita na Assembleia de Marília/SP 
para a Direção da IGS-Brasil (2019-2022) apresentou a proposta 
de realizar a tradução integral da “Edição crítica” dos Quaderni del 
carcere de A. Gramsci organizada por V. Gerratana, houve imedia-
to e amplo consenso. De fato, mesmo com algumas imperfeições 
e diante das questões levantadas, principalmente, pelos estudos 
filológicos de G. Francioni (1984, pp. 15-46) em relação ao mé-
todo genético-diacrônico e às novas propostas de cronologia dos 
Cadernos do cárcere, a “Edição crítica” oferece o material completo 
das anotações que Gramsci registrou progressivamente tanto nos 
cadernos “especiais” como nos cadernos “miscelâneos” e nos de re-
dação única. Ao apresentar integralmente os textos que Gramsci es-
creveu nos 29 cadernos16 e distinguir as notas de primeira redação 
(Textos A), de redação única (Textos B) e as de segunda redação 
(Textos C), a “Edição crítica” revela melhor o modo de trabalhar 
de Gramsci, possibilita perceber as modificações nos seus planos 
de estudos e a evolução do seu pensamento, além de proporcionar 
15 Edizione Nazionale delle opere di Antonio Gramsci, planejada para publicar o 
corpus inteiro da obra gramsciana, com a colaboração de vários grupos de trabalho 
coordenados por G.Francioni e sua equipe (G. Cospito e F. Frosini). O projeto, 
em andamento, promovido pelo Istituto della Enciclopedia Italiana e o Istituto 
Fondazione Gramsci di Roma, tem a previsão de numerosos volumes divididos 
nas três seções: escritos antes do cárcere, obras do cárcere e epistolário. Até hoje, 
vieram a público os quatro Quaderni di traduzione que não constam da edição 
crítica de Gerratana; dois vols. do epistolário: as cartas escritas entre 1906 e 1922 
(vol. I) e os escritos do ano de 1917 (vol. II); os primeiros quatro cadernos de no-
tas teóricas na nova edição crítica de G. Francioni, todos publicados pelo Istituto 
della Enciclopedia Italiana.
16 Gramsci escreveu 33 cadernos, sendo quatro dedicados a exercícios de tradu-
ção, excluídos da “Edição crítica” de Gerratana. Só no final do caderno 29, como 
Apêndice, Gerratana coloca poucas páginas de alguns “Extratos dos Cadernos de 
tradução”.
XII
uma visão geral dos assuntos que desenvolveu mais amplamente, 
dos que abordou parcial e sucintamente e dos numerosos pró-me-
mórias deixados para ulteriores pesquisas. Acima de tudo, o acesso 
à leitura integral das notas carcerárias permite verificar que o traba-
lho de coleta do material de primeira redação registrado nos “cader-
nos miscelâneos”, como o próprio Gramsci os denomina, não é um 
depósito aleatório de notas, um amontoado caótico e amorfo de 
reflexões reunidas a esmo, mas um extenso campo de pesquisa que 
já revela uma orientação básica de objetivos e uma metodologia de 
trabalho, reúne um conteúdo significativo de investigações interco-
nectadas, mostra o amplo laboratório das suas ideias e as linhas de 
fundo que irão confluir na articulação dos temas aglutinadores sis-
tematizados nos “cadernos especiais”, assim chamados por Gramsci.
Motivada pela importância significativa desses aspectos, a pro-
posta de traduzir integralmente a “Edição crítica” dos Cadernos do 
cárcere, mesmo sem nenhum suporte financeiro, recebeu a adesão 
generosa de 22 professores estudiosos da obra de Gramsci, todos 
sócios da IGS-Brasil, que se dispuseram voluntariamente a fazer 
parte da equipe de tradutores17.
Nesse trabalho coletivo, além da “Edição temática”, da “Edição 
Crítica” (inclusive eletrônica) e da “Edizione anastatica dei ma-
17 Tradutores dos Cadernos “especiais”: 10 (Ana Maria Said/Gianni Fresu) – 11 
(Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 12-20-21 (Maria Margarida Machado) – 
13 e 18 (Anita Schlesener/Maria Socorro Militão) – 16 (Ivete Simionatto/Maria 
del Carmen Cortizo) – 19 (Marcos Del Roio/Leandro Galastri/Tatiana Oliveira) 
– 22 (Lincoln Secco/Silvia de Bernardinis) – 23 (Rocco Lacorte/Alex Calheiros/
Lucas Moura Vieira) – 24 e 25 (Massimo Sciarretta/Ricardo Salles) – 26-27-28-
29 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio). Tradutores dos Cadernos “miscelâneos”: 1 
(Rocco Lacorte/Alex Calheiros/Lucas Moura Vieira) – 2 (Massimo Sciarretta/
Giovanni Semeraro) – 3 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo/Giovanni 
Semeraro) – 4 (Rita Coitinho/Marcos Aurélio da Silva) – 5 (Ana Maria Said/
Marcos Aurélio da Silva/Giovanni Semeraro) – 6 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio/
Maria Margarida Machado/Giovanni Semeraro/Helton Messini) – 7 (Ana Ma-
ria Said/Marcos Aurélio da Silva) – 8 (Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 9 
(Leandro Galastri/Tatiana Oliveira/Giovanni Semeraro) – 14 (Anita Schlesener/
Maria Socorro Militão) – 15 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo) – 17 
(Maria Margarida Machado).
XIII
noscritti” (Francioni, 2009)18, tivemos a vantagem de consultar 
traduções anteriores, empreendimentos editorais realizados em 
outros idiomas, especialmente, nas línguas espanhola e inglesa, e a 
possibilidade de levar em conta numerosos estudos filológicos que 
nesses últimos anos se multiplicaram e lançaram muita luz sobre a 
complexidade do pensamento de Gramsci e a intensa trama con-
ceitual que permeia a sua obra. Como se sabe, nas notas dos Ca-
dernos, além do trânsito nas mais diversas áreas do conhecimento 
e da ampla visão que Gramsci tem da política, da filosofia, da histó-
ria, da cultura, da educação, da literatura, do universo popular etc., 
Gramsci é protagonista de primeira linha em um período crucial 
da história contemporânea: as duas grandes guerras, a Revolução 
de 1917, a fundação do Partido Comunista da Itália (PCd’I), a ex-
pansão e a crise do movimento operário na Itália e na Europa, o 
surgimento e a dominação do fascismo e do nazismo.
Traduzir, portanto, uma obra extensa e complexa como os Ca-
dernos do cárcere com uma equipe numerosa de tradutores não 
deixa de ser um exercício fecundo e promissor, mas a tarefa não está 
isenta de problemas. Por um lado, de fato, oferece a vantagem de 
tornar o trabalho menos oneroso, promove uma interlocução enri-
quecedora entre seus integrantes e proporciona uma diversidade de 
pontos de vista. Mas, por outro lado, exige um ritmo que respeite 
as condições de trabalho de cada um e um delicado acordo para 
estabelecer convergências básicas em relação à organização formal 
do texto, à interpretação de questões complexas e controvertidas, à 
heterogeneidade de estilos, ao uso de linguagem, à pontuação e mo-
delagem da escrita, ainda mais pelo fato de que a maioria das notas 
carcerárias foram escritas “ao correr da pena” (Q 11, p. 1365) e nas 
condições precárias da vida carcerária. Com o passar do tempo e a 
maior habilidade adquirida no trabalho de tradução, as dúvidas e 
incertezas que cercavam o início do novo empreendimento foram 
se desfazendo e deram lugar a sentimentos de entusiasmo e gratifi-
18 Francioni, G.(org.), Antonio Gramsci: Quaderni del carcere. Edizione anastatica 
dei manoscritti, 18 voll, Istituto della Enciclopedia Italiana - L’Unione Sarda, Ro-
ma-Cagliari, 2009.
XIV
cação. De certa forma, traduzir os Cadernos do cárcere nos fez sen-
tir parte de uma experiência singular e de uma viagem incomum, 
áspera, desafiadora e fascinante: partilhar com o autor o tormento 
da elaboração dos conceitos, a responsabilidade na busca de expres-
sões mais adequadas, o labor e a alegria ao vislumbrar novos hori-
zontes de conhecimento e revolucionárias propostas sociopolíticas. 
Avanços e desafios da tradução dos Cadernos do cárcere
Para entrar no emaranhado de questões que surgem para traduzir 
a extensa obra derivada das anotações carcerárias que Gramsci dei-
xou com suas peculiares características, entre outros cuidados, le-
vamos em conta os critérios metodológicos e as cautelas filológicas 
que o próprio autor apontou em diversas ocasiões, principalmente, 
no Caderno 16. No §2 desse caderno, de fato, apresenta-se um con-
junto de recomendações quando “se quer estudar o surgimento de 
uma concepção de mundo que nunca foi exposta sistematicamente 
pelo seu fundador”, alertando para que se busque o seu autêntico 
sentido “em todo o desenvolvimento do trabalho intelectual” e que 
se possa “fazer preliminarmente um trabalho filológico minucioso 
e conduzido com o máximo escrúpulo de exatidão” (p. 1840). E 
tais cuidados adquirem ainda mais importância “quando se trata 
de uma personalidade na qual a atividade teórica e a prática estão 
indissoluvelmente entrelaçadas, de um pensamento em contínua 
criação e perpétuo movimento, que sente vigorosamente a autocrí-
tica” (p. 1841). Embora Gramsci esteja se referindo essencialmente 
aos escritos de Marx, essas indicações se tornam demasiadamente 
oportunas quando se analisa a sua própria obra, uma vez que, na 
prática, Gramsci não deixou nenhum livro definitivo e impresso 
da sua imensa produção. Trata-se, portanto, de um autor póstumo, 
cuja obra foi progressivamente editada pelas mãos de diversos es-
tudiosos e continua sendo organizada e editada integralmente até 
hoje.
Juntamente com os avanços da hermenêutica, da moderna crí-
tica literária e dos estudos filológicos, essas considerações são fun-
damentais para reconstruir a trama complexa e dinâmica que cons-
titui o projeto de estudos e o modo de escrever de Gramsci, para 
XV
percorrer as etapas da evolução do seupensamento e se adentrar no 
contexto histórico, político e cultural no qual se situam seus escri-
tos e a sua atuação de intelectual e militante político. Por isso, além 
da bagagem técnica e filológica, do domínio das línguas e de uma 
boa dose de conhecimentos sobre a obra do autor, a tradução exige 
também decifrar a linguagem típica da sua época e visitar os basti-
dores do intenso trabalho de outros tradutores e os problemas en-
frentados pelos editores. Nesse sentido, o nosso trabalho não tem a 
pretensão de invalidar as traduções anteriores, mas de oferecer mais 
um instrumento de leitura e pesquisas para um público que vem se 
ampliando e aprimorando no Brasil. Pois, com a tradução integral 
da edição Gerratana, será possível ler os cadernos de Gramsci como 
foram escritos, não como foram selecionados e organizados.
Ter em mãos e poder percorrer todas as notas e apontamentos 
de primeira (Textos A) e segunda redação (Textos C) e os de reda-
ção única (Textos B) oferece a possibilidade de observar não só a 
forma peculiar e admirável de “Como trabalhava Gramsci” (Fran-
cioni, 2009)19, mas de captar melhor a interligação inseparável en-
tre os cadernos “miscelâneos”, os “especiais” e de redação única, de 
descobrir as recorrências e as sucessivas abordagens de assuntos, a 
incansável reelaboração de ideias, a “estrutura reticular” das notas e 
a “escritura em espiral” (Francioni, 1984, p. 22) do autor, o refina-
mento da sua argumentação, a ampliação de conceitos, as comple-
xas articulações das partes em torno de temas aglutinadores, a linha 
unitária que perpassa os seus planos de estudos, as artérias centrais 
da reflexão carcerária, as questões inacabadas, as que ficaram apenas 
mencionadas e deixadas em aberto. Tendo a visão da arquitetura 
geral, ainda que incompleta e truncada em algumas partes, apare-
cem mais claramente não só a conexão e o desenvolvimento das vér-
tebras principais da obra de Gramsci, mas emergem também a visão 
poliédrica e a sua personalidade permanentemente crítica e aberta 
que se adentra com perspicácia nas mais diversas esferas da polí-
tica e do conhecimento, evidenciando, assim, também, o valor de 
19 Francioni, G., “Come lavorava Gramsci”, in: “Introduzione” ao vol. 1 de 
Gramsci, A., Quaderni del carcere. Edizione anastatica dei manoscritti, cit., 2009.
XVI
muitas notas, assuntos, questões e páginas consideradas de pouca 
importância e secundárias, inclusive as tiradas divertidas e bem-hu-
moradas. Nesse sentido, adquirem também valor, por exemplo, a 
extensa coleta de bibliografias, o amplo repertório de revistas, pe-
riódicos, jornais e artigos consultados, a visão geral da história e o 
interesse por questões de caráter nacional e internacional, a interlo-
cução com os mais diversos autores, o elenco dos livros escolhidos e 
encomendados por ele, minutas de cartas20, inclusive, as pequenas 
observações registradas telegraficamente, os breves apontamentos 
de pró-memória, as referências a assuntos aparentemente banais. 
Até as páginas interrompidas e não preenchidas dos cadernos aca-
bam revelando intenções e limites do autor. Dessa forma, todo o 
conjunto do material levantado nas investigações de Gramsci, in-
clusive o meramente sinalizado e incompleto, assume grande signi-
ficação para entender melhor o intenso retículo de temas tratados, 
a trama complexa das notas e o amplo leque de esferas exploradas 
pelo pensador encarcerado, tornando, assim, essa obra gigantesca 
não só uma fonte de inspiração, mas também a base fundamental 
da elaboração de uma nova concepção de mundo, herança a ser 
completada, aprofundada e levada coletivamente mais adiante. 
Na verdade, tanto o conteúdo como o método utilizado e o 
projeto desenvolvido por Gramsci nos Cadernos, longe de serem 
um produto improvisado e circunstancial, apresentam todos os 
conotados de uma cuidadosa investigação científica, de ampla do-
cumentação, de refinada fundamentação teórica e de pesquisa de 
longo respiro que “demanda grandes bibliotecas” (Santucci, 1996, 
p. 441, carta de 03/08/1931), um incalculável legado que exige o 
envolvimento e a parceria dos leitores na mesma tarefa. As repeti-
das recomendações sinalizadas por Gramsci de que suas notas são 
“primeiras aproximações” e as inúmeras insistências para “verificar”, 
“pesquisar”, “consultar”, “aprofundar”, “levar em conta”, além da fre-
quente recorrência de “aspas”, de “parece-me”, de “etc.” e das inúme-
20 Minutas de cartas, elencos de livros, contas, cálculos etc., anotados por Gramsci 
em diversas páginas dos Cadernos, são transferidos por Gerratana na “Descrição 
dos Cadernos” do “Apparato critico”.
XVII
ras referências bibliográficas, não representam apenas indicações 
de pistas abertas a serem retomadas quando ele tivesse melhores 
condições de tempo e de trabalho, mas revelam também a consci-
ência de que, mais do que deixar o legado de um conteúdo acabado 
e solidificado, Gramsci está apontando para um imenso território 
a ser explorado e aprofundado não só por um indivíduo isolado 
no cárcere, mas por um trabalho “coletivo” e de longo prazo. Nes-
se sentido, os Cadernos do cárcere podem ser considerados como 
um mapa precioso que aponta caminhos imprescindíveis para as 
“classes subalternas” e os povos subjugados se organizarem politi-
camente para reivindicar seus direitos fundamentais, conquistar a 
hegemonia e construir uma nova civilização.
Por isso, embora Gramsci tenha reelaborado e agrupado muitas 
das suas anotações preliminares em torno de temas aglutinadores 
nos “cadernos especiais”, ao estudar todo o conjunto das notas, fica 
evidente que o processo permanente de investigação e de aprendi-
zagem adotado por Gramsci não permite estabelecer uma divisão 
rigorosa entre o “método de pesquisa” e o “método de exposição”. 
Entre os cadernos “miscelâneos”, “especiais” e de redação única, a 
distinção é só metodológica, não orgânica e substancial. Mesmo 
se concentrando e confluindo na redação dos cadernos “especiais”, 
por questão de tempo e pressionado pela saúde que vinha se debi-
litando rapidamente, Gramsci nunca deixou de continuar a inves-
tigar e explorar novas fronteiras de conhecimento e reelaborar as 
suas reflexões. Adotando, portanto, o critério de separação entre os 
“miscelâneos” e os “especiais” na edição da obra de Gramsci, corre-
-se o risco de desconsiderar a extensão dos seus horizontes e reduzir 
o significado da multiplicidade dos assuntos abordados, mesmo os 
rascunhados, menos elaborados e aprofundados. Além disso, ao 
descartar a parte dos seus escritos considerada preliminar, acabam 
sendo obscurecidos aspectos fundamentais do seu pensamento: a 
visão histórica, dialética e orgânica da realidade sempre em mo-
vimento, imbricada com a “complexidade molecular da vida real” 
(Santucci, 1996, p. 222, carta de 19/11/1928) e o árduo labor para 
o seu entendimento e a sua transformação. Como se sabe, de fato, 
XVIII
um dos principais objetivos da vida política e da obra carcerária 
de Gramsci foi aprofundar e levar adiante a concepção de mundo 
inaugurada por Marx.
Quando, portanto, Gramsci resolve se dedicar a um traba-
lho “desinteressado” e “für ewig” (Santucci, 1996, p. 55, carta de 
19/03/1927), de longo respiro e alcance duradouro, não está sendo 
tomado por um surto de titanismo e delírio de grandeza, males dos 
quais nunca padeceu, mas da clara consciência de que, como ele co-
menta muitas vezes, a partir de Marx, se desencadeia na história um 
movimento que “renova de cima a baixo” (Q 11, §27, p. 1436) toda 
a concepção de mundo existente até então e inicia-se um período 
revolucionário “que provavelmente durará séculos” (Q 6, §33, p. 
882). Ou seja, deu-se início a uma enorme e desafiadora tarefa que 
investe todos os aspectos da vida humana e que demanda todas as 
energias das classes subjugadas com seus intelectuais para elaborar 
também as armas teóricas mais avançadas e refinadas.
Ter, portanto, acesso aos escritos integrais e à obra completa de 
Gramsci, que incluios escritos pré-carcerários e o epistolário, leva 
a não se limitar a leituras parciais, a pesquisas centradas em assun-
tos segmentados e análises apressadas, a estudos de conceitos e de 
temas isolados, ao atalho dos verbetes e a frases fora de contexto. 
Contrariamente a quem pratica uma anatomia de partes separadas 
do corpo inteiro, o método de Gramsci ensina a se dedicar incan-
savelmente a estudar e pesquisar, com visão histórica, abrangente e 
progressiva, a natureza processual e dialética da realidade, conec-
tando a multiplicidade das suas expressões na totalidade do contex-
to no qual estamos inevitavelmente inseridos.
Portanto, poder entrar na mina escavada por Gramsci, propicia-
da pela “Edição crítica” de Gerratana, além de uma visão de conjun-
to, oferece aos estudiosos de Gramsci no Brasil “um instrumento de 
leitura que permita seguir o ritmo de desenvolvimento com o qual 
a pesquisa gramsciana se desdobra nas páginas dos Cadernos” (Ger-
ratana, 1975, p. xxv). Ou seja, como o próprio Gramsci sinaliza, 
XIX
cria as condições para sintonizar-se com o seu “ritmo do pensamen-
to em movimento” (Q 16, §2, p.1841) e para “reviver seu fluxo e seu 
continuum” (Baratta, 2004, p. 101)21. 
Abraçamos, de fato, a complexa e delicada tarefa de traduzir a 
obra carcerária de Gramsci conscientes de que o trabalho não se 
reduz a uma transposição técnica e mecânica do texto, a resgatar 
o sentido mais exato das suas ideias no seu contexto, mas implica 
realizar um transplante de matéria viva de um campo teórico, polí-
tico, histórico e linguístico para um outro corpo vivo e palpitante, 
ou seja, operar a passagem para um diferente universo cultural que 
comporta inevitavelmente não só a mediação de uma interpreta-
ção cuidadosa, propriedade conceitual e atualização terminológica, 
mas, também, a empatia com o projeto de sociedade que emana 
dos escritos de Gramsci, hoje, como nunca, de grande atualidade 
e urgência. Assim, além das “cautelas filológicas” (Q 16, §2, pp. 
1840-44) e da contextualização no ambiente no qual Gramsci ope-
rou, para sermos fiéis ao pensamento e ao seu método, precisamos 
também praticar o que ele chamava de “filologia vivente”, ou seja, 
traduzir concretamente o seu legado, levando em conta as interpe-
lações provenientes do nosso contexto histórico e da atuação teóri-
ca e política realizadas pelo “organismo coletivo através da ‘coparti-
cipação ativa e consciente’, da ‘copassionalidade’, da experiência dos 
particulares imediatos, por um sistema que se poderia chamar de 
‘filologia vivente’” (Q 11, § 25, p. 1430).
Esperamos, portanto, que a tradução integral dos textos de 
Gramsci contidos na “Edição crítica do Instituto Gramsci” (aos 
cuidados de V. Gerratana) não leve os leitores e estudiosos a se 
enclausurar no seu laboratório, mas, sem dissociar as “cautelas fi-
lológicas” da “filologia vivente”, possam desenvolver a capacida-
de de interagir, atualizar, desdobrar, potencializar e recriar o seu 
pensamento na teoria e na prática do próprio contexto histórico. 
Como já observei, “não podemos cair na contradição de encarcerar 
Gramsci nas grades de um texto canônico e definitivo, até porque 
21 Baratta, G., As rosas e os Cadernos – o pensamento dialógico de Antonio Gramsci, 
Editora DP&A, Rio de Janeiro, 2004.
XX
toda a atividade filológica, por mais rigorosa e exitosa que seja, é 
sempre histórica, datada e sujeita a ser questionada e reconstruída. 
Sendo inseparavelmente intelectual e político militante, Gramsci 
solicita não só um trato cuidadoso com seus textos, mas nos de-
safia a ‘ler e continuar a escrever’ uma obra deixada incompleta, a 
ser atualizada com o nosso labor teórico e a nossa atuação política” 
(Semeraro, 2019, p. 56)22.
Giovanni Semeraro
Coordenador do GT de Tradução
IGS - Brasil
22 Semeraro, G., “A ‘tradução’ de Gramsci no mundo”, in Bianchi, A.- Mussi, D.- 
Areco, S., Antonio Gramsci: filologia e política, Zouk, Porto Alegre, 2019.
XXI
NOTA A ESTA EDIÇÃO
Esclarecimentos sobre a padronização utilizada
Como já destacado na Apresentação e no Prefácio, a tradução 
em língua portuguesa e a disponibilização online dos Cadernos do 
Cárcere de Antonio Gramsci, têm por finalidade contribuir para 
que leitores, pesquisadores e militantes possam acessar esses escri-
tos na íntegra.
O trabalho de padronização dos textos está, essencialmente, 
baseado no ordenamento das notas realizado pela Edição Crítica 
do Instituto Gramsci, a cura de Valentino Gerratana. Assim, com 
algumas adaptações, a nossa edição utilizou os seguintes critérios:
 ▶ A indicação das páginas de seu início e término de cada 
caderno, conforme a Edição Gerratana, na folha de rosto.
 ▶ Manutenção de parêntese angulado no número do parágrafo 
de cada nota, como consta na edição Gerratana. Ex.: §〈1〉.
 ▶ Sinalização do número de página correspondente ao texto 
manuscrito de Gramsci que está posto na margem da página 
pela edição Gerratana. Ex.: |1|, |1A| (“A” no lugar de “bis”) etc.
 ▶ Manutenção das referências bibliográficas nas línguas 
utilizadas por Gramsci.
 ▶ Manutenção das palavras em itálico que constam no corpo 
das notas.
 ▶ Para poder diferenciar os títulos de livros, deixados em 
itálico, foram colocados os títulos de artigos em letra de fonte 
regular e entre parênteses curvas “ ”.
 ▶ Manutenção dos parênteses angulados « » que Gramsci usa 
quando cita as revistas e jornais.
XXII
 ▶ Inclusão em rodapé da tradução das citações mais extensas 
feitas por Gramsci em outras línguas, para deixar fluir a leitura 
do texto.
 ▶ Posicionamento entre colchetes [ ] de alguma palavra 
ou expressão do italiano sem correspondência na língua 
portuguesa, antes de operar a conversão na expressão consoante 
no português. 
 ▶ Quando estritamente necessário, para tornar uma frase mais 
clara, recorreu-se à possibilidade de colocar entre colchetes [ ] 
algum termo de acréscimo sinalizado como N.T. 
 ▶ Manutenção das referências postas por Gerratana a (os) outro 
(s) caderno (s) no fim das notas, mas, com fonte em caixa alta na 
cor roxa.
 ▶ Vertidos para o português os nomes dos autores mencionados 
por Gramsci (salvo nomes já usados no original, como por 
exemplo, K. Marx, F. Engels, V. Lenin).
 ▶ Enumeração em cor roxa e entre colchetes [ ] para indicar 
as “Note al Testo” que constam no “Apparato Critico” do 
volume IV da edição de Gerratana. Assim que nos for possível, 
pretendemos traduzir também estas “Note al Testo”.
 ▶ Sinalização a partir de asterisco verde no corpo das notas para 
indicação dos comentários/observações do editor em rodapé, 
expressos como: “No ms” (Nel manoscritto).
Resolvemos não traduzir a “Cronologia della vita de Antonio 
Gramsci” que consta no Iº volume da Edição Crítica de Gerratana, 
considerando que os leitores podem encontrar esses dados na bi-
bliografia a respeito disponível no Brasil.
Além da Edição Crítica de Gerratana e de outras traduções, os 
leitores podem consultar os Cadernos do Cárcere na versão anas-
tática dos manuscritos, disponibilizados pela Fundação Gramsci/
Itália, no endereço: https://gramsci.digital-library.it/en/quaderni-
-dal-carcere.
XXIII
No processo de tradução e revisão podem ter ocorrido even- 
tuais falhas e erros. Receberemos, portanto, com gratidão as si-
nalizações que nos forem enviadas ao E-mail da IGS/Brasil: 
igs.brasil1@gmail.com para corrigir e melhorar os textos em pró-
ximas edições.
Maria Margarida Machado
Coordenação Científica da IGS/Brasil
(Gestão 2022-2024)
CADERNO 22 (V)
1934
Americanismo e fordismo
Corresponde à Edição Gerratana: pp. 2137-2182
31934: americanismo e fordismo
|§ 〈1〉. Série de problemas que devem ser examinados nesta rubri-
ca geral e um pouco convencional de “Americanismo e Fordismo”, 
após considerar o fato fundamental de que as soluções dos mesmos 
são necessariamente definidas e tentadas nas condições contraditó-
rias da sociedade moderna, o que determina complicações, posições 
absurdas, crises econômicas e morais cuja tendência é muitasvezes 
catastrófica etc. Pode-se dizer, genericamente, que o americanismo e 
o fordismo resultam da necessidade imanente de alcançar a organi-
zação de uma economia programática e que os vários problemas exa-
minados deveriam ser os elos da cadeia que marcam precisamente a 
passagem do velho individualismo econômico para a economia pro-
gramática: estes problemas nascem de diversas formas de resistência 
que o processo de desenvolvimento encontra ao desenvolver-se, re-
sistências que derivam das dificuldades inerentes à “societas rerum” 
e à “societas hominum”. O fato de uma tentativa progressiva ser ini-
ciada para uma ou para outra força social é algo que não deixa de 
ter consequências fundamentais: as forças subalternas, que deveriam 
ser “manipuladas” e racionalizadas segundo as novas finalidades, ne-
cessariamente resistem. Entretanto, resistem também alguns setores 
das forças dominantes, ou pelo menos aliadas das forças dominan-
tes. O proibicionismo, que nos Estados Unidos era uma condição 
necessária para desenvolver um novo tipo de trabalhador compatível 
com uma indústria fordizada, certamente não caiu pela oposição dos 
industriais ou dos operários, mas pela oposição de forças marginais, 
ainda atrasadas. Etc.
Registro de alguns dos problemas essencialmente mais impor-
tantes ou interessantes ainda que à primeira vista não apareçam em 
primeiro plano: 1) substituição do atual estrato plutocrático, por um 
|1|
4 caderno 22 (v)
|2|
novo mecanismo de acumulação e distribuição do capital financeiro 
fundado imediatamente na produção industrial; 2) questão sexual; 
3) questão se o americanismo pode constituir uma “época” histórica, 
ou seja, se pode determinar um desenvolvimento gradual do mode-
lo, examinado em outro lugar, das “revoluções passivas” próprias do 
século passado, ou se, ao invés, representa apenas a | acumulação 
molecular de elementos destinados a produzir uma “explosão”, isto 
é, uma revolução de tipo francês; 4) questão da “racionalização” da 
composição demográfica europeia; 5) questão se o desenvolvimento 
deve ter seu ponto de partida no coração do mundo industrial e 
produtivo, ou se pode ocorrer de fora, pela construção cautelosa e 
maciça de uma couraça jurídica formal que dirigia de fora os desen-
volvimentos necessários do aparelho produtivo; 6) questão dos assim 
chamados “altos salários” pagos pela indústria fordizada e racionali-
zada; 7) o fordismo como ponto extremo do processo de sucessivas 
tentativas da indústria de superar a lei tendencial de queda da taxa 
de lucro; 8) a psicanálise (a sua enorme difusão no pós-guerra) como 
expressão do aumento da coerção moral exercida pelo aparelho esta-
tal e social sobre os indivíduos e das crises mórbidas determinadas 
por esta coerção; 9) o Rotary Club e a Maçonaria; 10) 〈... 〉*
|§ 〈2〉. Racionalização da composição demográfica europeia. Na 
Europa as diversas tentativas de introduzir alguns aspectos do ame-
ricanismo e do fordismo se devem ao velho estrato plutocrático que 
queria conciliar o que, até prova em contrário, parece inconciliável, 
[ou seja], a velha e anacrônica estrutura social-demográfica euro-
peia com uma moderníssima forma de produção e de modo de tra-
balhar como aquela oferecida pelo tipo americano mais aperfeiço-
ado, a indústria de Henry Ford. Por isto a introdução do fordismo 
encontra tantas resistências “intelectuais” e “morais” e acontece em 
formas particularmente brutais e insidiosas, através da mais extre-
mada coerção. Para dizer em palavras simples, a Europa queria sair 
na chuva sem se molhar, isto é, todos os benefícios que o fordismo 
produz no poder de concorrência, mas mantendo seu exército de 
|11|
* NO MS A NUMERAÇÃO FOI INTERROMPIDA NESTE PONTO E NÃO FOI MAIS COM-
PLETADA. O RESTANTE DA PÁGINA E DAS PÁGINAS SEGUINTES, ATÉ A P. 10 INCLUÍDA, 
FICARAM EM BRANCO.
51934: americanismo e fordismo
parasitas que, ao devorar ingentes quantidades de mais valia, agrava 
os custos iniciais e deprime o poder de concorrência no mercado 
internacional. A reação europeia ao americanismo, portanto, deve 
ser examinada com atenção: através de sua análise haverá diversos 
elementos necessários para compreender a atual situação de uma 
série de Estados do velho continente e os acontecimentos políticos 
do pós-guerra.
O americanismo, em sua forma mais completa, exige uma condi-
ção preliminar, da qual os americanos que trataram destes proble-
mas não se ocuparam, porque na América ela existe “naturalmente”: 
esta condição pode ser chamada de “uma composição demográfica 
racional” e consiste no fato de que não existem classes numerosas 
sem uma função essencial no mundo produtivo, isto é, classes abso-
lutamente parasitarias. A “tradição”, a “civilização” europeia é cara-
terizada, ao contrário, exatamente pela existência de classes simila-
res, criadas pela “riqueza” e pela “complexidade” da história passada 
que deixou uma grande quantidade de sedimentações passivas atra-
vés de fenômenos de saturação e fossilização do pessoal estatal e dos 
intelectuais, do | clero e da propriedade fundiária, do comércio de 
rapina e do exército, que foi inicialmente profissional e em seguida 
conscrito, mas profissional no nível do oficialato. Pode-se dizer, ali-
ás, que estas sedimentações de massas preguiçosas e inúteis que vi-
vem do “patrimônio” dos “antepassados”, destes aposentados da his-
tória econômica, são tanto mais numerosas e onerosas quanto mais 
vetusta for a história de um país. Uma estatística destes elementos 
economicamente passivos (em sentido social) é dificílima, já que é 
impossível encontrar a “rubrica” que consiga defini-los aos fins de 
uma pesquisa direta; indicações esclarecedoras podem ser obtidas 
indiretamente, como, por exemplo, pela existência de determinadas 
formas de vida nacional.
O número relevante de grandes e médias (e também pequenas) 
aglomerações de tipo urbano sem indústrias (sem fábricas) é um 
destes indícios, e dos mais relevantes.
O assim chamado “mistério de Nápoles”. Cabe lembrar as ob-
servações de Goethe sobre Nápoles e as “consoladoras” conclusões 
|12|
6 caderno 22 (v)
«morais» que Giustino Fortunato tirou delas (o opúsculo de For-
tunato sobre Goethe e seu juízo sobre os Napolitanos foi reeditado 
pela Biblioteca editora de Rieti na série dos “Quaderni critici” diri-
gida por Domenico Petrini1[1]; no opúsculo de Fortunato é impor-
tante ler a resenha de Luigi Einaudi na “Riforma Sociale”, talvez de 
1912) [2]. Goethe tinha razão ao demolir a lenda do “lazzaronismo” 
orgânico dos napolitanos e ao ressaltar, ao invés, o fato de que eles 
são muito ativos e laboriosos. Mas a questão consiste em ver qual 
é o verdadeiro resultado desta laboriosidade: ela não é produtiva e 
não está voltada a satisfazer as necessidades e as exigências de classes 
produtivas. Nápoles é a cidade em que a maior parte dos proprietá-
rios fundiários do Sul (nobres e não nobres) gasta a renda da terra. 
Ao redor de algumas dezenas de milhares destas famílias de pro-
prietários, de maior ou menor importância econômica, com seus 
cortejos de servos e lacaios diretos, está organizada a vida prática de 
| uma imponente parcela da cidade, com suas indústrias artesanais, 
com seus ofícios ambulantes, com o inaudito desmembramento da 
oferta imediata de mercadorias e serviços dirigida aos ociosos que 
circulam pelas ruas. Outra importante parcela da cidade está orga-
nizada ao redor da circulação [das mercadorias] e do comércio por 
atacado. A indústria “produtiva”, no sentido de que cria e acumula 
novos bens, é relativamente pequena, apesar de que nas estatísticas 
oficiais Nápoles esteja incluída como a quarta cidade industrial da 
Itália, depois de Milão, Turim e Gênova [3].
Esta estrutura econômico-social de Nápoles (e sobre a qual é 
possível, hoje, através da atividade dos Conselhos provinciais da 
economia corporativa, ter informações suficientemente exatas) ex-
plica grande parte da história da cidade de Nápoles, tão cheia de 
aparentes contradições ede espinhosos problemas políticos.
A situação de Nápoles se repete em maior escala em Palermo e em 
Roma, e em toda uma série numerosa (as famosas “cem cidades”) de 
cidades não só da Itália meridional e das Ilhas, mas também da Itália 
Central e do Norte (Bolonha, em boa medida, Parma, Ferrara etc.). 
Pode-se aplicar para boa parte da população deste tipo de cidades o 
provérbio popular: quando um cavalo caga, cem pássaros almoçam. 
|13|
71934: americanismo e fordismo
O fato que ainda não foi adequadamente estudado é o seguin-
te: a média e a pequena propriedade rural não está nas mãos dos 
camponeses cultivadores, mas dos burgueses da cidadezinha ou da 
aldeia, e esta terra é concedida em forma de meação primitiva (isto 
é, com aluguel pago in natura e em serviços) ou em enfiteuse; de 
modo que existe um volume enorme (em relação à renda bruta) 
de pequena e média burguesia de “pensionistas” e “rentistas”, o que 
criou, em certa literatura econômica digna de Candide, a monstru-
osa figura do assim dito “produtor de poupança”, isto é, um estrato 
de população economicamente passiva que não só extrai seu pró-
prio sustento do trabalho primitivo de um número determinado de 
camponeses, mas que ainda consegue poupar: modo |de acumula-
ção de capital dos mais monstruosos e doentios, porque fundado 
sob a iníqua exploração usurária dos camponeses, deixados à beira 
da desnutrição e que tem custos enormes; já que ao pequeno capital 
poupado corresponde um gasto inaudito, como é aquele necessá-
rio para sustentar muitas vezes um elevado nível de vida de grande 
massa de absolutos parasitas. (O fenômeno histórico que possibi-
litou esta situação anormal, que determinou estagnação histórica, 
e que se formou na península italiana por ondas sucessivas, após a 
queda das Comunas medievais e da decadência do espírito de ini-
ciativa capitalista da burguesia urbana, é chamado pelo historiador 
Niccolò Rodolico de “retorno à terra” [4] e foi assumido até mesmo 
como índice de benéfico progresso nacional, demonstrando até que 
ponto os clichés podem entorpecer o senso crítico).
Outra fonte de parasitismo absoluto foi sempre a administração 
do Estado. Renato Spaventa calculou que na Itália um décimo da 
população (4 milhões de habitantes) vive à custa do orçamento do 
Estado [5]. Acontece que homens relativamente jovens (de pouco 
mais de 40 anos) em ótima saúde, no pleno vigor das forças físicas 
e intelectuais, depois de 25 anos de trabalho como servidores pú-
blicos, não se dediquem mais a nenhuma atividade produtiva, mas 
se vegetam com aposentadorias mais ou menos elevadas, ao passo 
que um operário só pode desfrutar de uma aposentadoria após os 
65 anos, e enquanto um camponês não tem limite de idade para o 
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8 caderno 22 (v)
trabalho (portanto, um italiano médio fica admirado ao ouvir di-
zer que um americano multimilionário continua ativo até o último 
dia de sua vida consciente). Se em uma família um padre torna-se 
cônego, imediatamente o “trabalho manual ” torna-se “uma vergo-
nha” para toda a parentela; quando muito, podem dedicar-se ao 
comércio.
A composição da população italiana já tinha se tornado “in-
salubre” por causa da emigração de longa duração e pela escassa 
ocupação das mulheres em trabalhos produtivos de novos bens; a 
relação entre população “potencialmente” ativa e população pas-
siva era uma entre as mais desfavoráveis da Europa (cf. | a este 
propósito as pesquisas do prof. Mortara, por exemplo, nas Pers-
pectivas econômicas de 1922) [6]. Esta relação é mais desfavorável 
ainda ao considerar: 1) as doenças endêmicas (malária etc.) que 
diminuem a média individual do potencial da força de trabalho; 
2) o estado crônico de desnutrição de muitos estratos inferiores 
de camponeses (como resulta das pesquisas do prof. Mario Camis 
publicadas na «Riforma Sociale» de 1926 [7], cujas médias na-
cionais deveriam ser fraccionadas por médias de classes: se a mé-
dia nacional alcançar apenas o padrão fixado pela ciência como 
indispensável, é obvio concluir pela desnutrição crônica de um 
estrato não indiferente da população. Na discussão no Senado so-
bre a proposta orçamental para o ano 1929-30, o Deputado Mus-
solini afirmou que em algumas regiões, durante inteiras estações, 
vive-se apenas de hortaliças: cf. as Atas parlamentares da sessão, e 
o discurso do senador Ugo Ancona, cujas veleidades reacionárias 
foram prontamente contestadas pelo Chefe de Governo) [8]; 3) 
o endêmico desemprego existente em algumas regiões agrícolas, 
e que não aparece nas pesquisas oficiais; 4) a massa de população 
absolutamente parasitária, que é enorme, e que para seus serviços 
requer, indiretamente, o trabalho de outra ingente massa parasi-
taria, bem como da “semiparasitária” que é tal porque multiplica 
de forma anormal e malsã atividades econômicas subordinadas 
como o comércio e as atividades de intermediação em geral.
|15|
91934: americanismo e fordismo
Esta situação não ocorre apenas na Itália; em maior ou menor 
medida existe em todos os países da velha Europa, e em forma ain-
da pior existe na Índia e na China, o que explica a estagnação da 
história nestes países e sua impotência político-militar. (No exa-
me deste problema não está imediatamente em questão a forma 
de organização econômico-social, mas a racionalidade das pro-
porções entre os diversos setores da população no sistema social 
existente: cada sistema tem sua lei das proporções definidas [9] pela 
composição demográfica, um seu equilíbrio “ótimo” e desequilí-
brios que, se não forem corrigidos por uma oportuna legislação, 
podem se tornar por si mesmos catastróficos, porque secam | as 
fontes da vida econômica nacional, para além de qualquer outro 
elemento de dissolução). 
A América não tem grandes “tradições históricas e culturais”, 
mas tampouco está sobrecarregada por esta camada de chumbo: 
esta é uma das principais razões – certamente mais importante do 
que a assim dita riqueza natural – de sua formidável acumulação 
de capitais, apesar do superior teor de vida entre as classes popu-
lares em relação ao europeu. A inexistência destas sedimentações, 
pegajosamente parasitárias, legadas pelas fases históricas passadas, 
permitiu uma base sadia para a indústria e, especialmente para o 
comércio, e possibilita cada vez mais a redução da função econômi-
ca representada pelos transportes e pelo comércio a uma real ativi-
dade subordinada à produção, ou melhor, a tentativa de assimilar 
estas atividades à própria atividade produtiva (cf. os experimentos 
feitos por Ford e as economias realizadas pela sua empresa através 
da gestão direta do transporte e do comércio da mercadoria pro-
duzida [10], economias que influíram sobre os custos de produção, 
isto é, possibilitaram melhores salários e menores preços de venda). 
Como estas condições preliminares já existiam, racionalizadas pelo 
desenvolvimento histórico, foi relativamente fácil racionalizar a 
produção e o trabalho, combinando habilmente a força (destruição 
do sindicalismo operário de base territorial) com a persuasão (altos 
salários, diversos benefícios sociais, habilíssima propaganda ideoló-
gica e política) e conseguindo centrar toda a vida do país ao redor 
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10 caderno 22 (v)
da produção. A hegemonia nasce da fábrica e precisa apenas, para 
ser exercida, de uma quantidade mínima de intermediários profis-
sionais da política e da ideologia.
O fenômeno das “massas” que tanto chamou a atenção de Ro-
mier [11] é apenas a forma deste tipo de sociedade “racionalizada”, 
em que a “estrutura” domina mais imediatamente as superestru-
turas, as quais são “racionalizadas” (simplificadas e reduzidas em 
número). 
Rotary Clube e Maçonaria (o Rotary é uma maçonaria sem os 
pequenos burgueses e sem a mentalidade pequeno-burguesa). A 
América tem o Rotary e a Y.M.C.A., a Europa tem a Maçonaria|e 
os Jesuítas. Tentativas de introduzir o Y.M.C.A. na Itália; ajudas da 
indústria italiana a estas tentativas (financiamento de Agnelli e vio-
lenta reaçãodos católicos) [12]. Tentativas de Agnelli de absorver o 
grupo de «L’Ordine Nuovo» que apoiava uma forma própria de 
“americanismo” aceitável pelas massas operárias [13].
 Na América a racionalização determinou a necessidade de ela-
borar um novo tipo humano, adequado ao novo tipo de trabalho 
e de processo produtivo: até o atual momento, esta elaboração 
está apenas na fase inicial e por isto é (aparentemente) idílica. Está 
ainda na fase de adaptação psicofísica à nova estrutura industrial, 
buscada através dos altos salários; ainda não ocorreu (antes da crise 
de 1929), exceto esporadicamente, talvez, nenhum florescimento 
“superestrutural”, isto é, ainda não foi posta a questão fundamental 
da hegemonia. A luta se dá com armas tomadas do velho arsenal eu-
ropeu, e ainda abastardadas, portanto, ainda são “anacrônicas” em 
relação ao desenvolvimento das “coisas”. A luta que se dá na Amé-
rica (descrita por Philip) [14] é ainda pelos direitos profissionais, 
contra a “liberdade industrial”, isto é, uma luta parecida àquela que 
se travou na Europa no século XVIII, ainda que em outras condi-
ções: o sindicato operário americano é principalmente a expressão 
corporativa dos direitos das profissões qualificadas e, portanto, o 
seu esmagamento, como solicitam os industriais, tem um aspecto 
“progressivo”. A ausência da fase histórica europeia, que também 
no campo econômico é marcada pela Revolução francesa, deixou as 
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111934: americanismo e fordismo
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massas populares americanas no estado bruto: acrescenta-se a isso a 
ausência de homogeneidade nacional, a miscigenação de culturas-
-raças, a questão dos negros.
Na Itália houve um início de alarde fordista (exaltação das gran-
des cidades, planejamentos urbanos para a grande Milão etc, a afir-
mação de que o capitalismo ainda se encontra na fase inicial e que 
é preciso preparar grandiosos quadros de desenvolvimento etc.: 
a este respeito conferir na «Riforma Sociale», alguns artigos de 
Schiavi) [15];em seguida ocorreu a conversão ao ruralismo e à de-
pressão iluminista da cidade, a exaltação do artesanato e do patriar-
calismo idílico, menções aos “direitos profissionais”| e a uma luta 
contra a liberdade industrial. Contudo, embora o desenvolvimento 
seja lento e pleno de compreensíveis cautelas, não é possível afirmar 
que a parte conservadora, a parte que representa a velha cultura 
europeia com todas as suas sequelas parasitárias, não tenha antago-
nistas (a este respeito é interessante a tendência representada pelos 
«Nuovi Studi», pela «Critica Fascista» e pelo centro intelectual 
de estudos corporativos organizado na Universidade de Pisa) [16]. 
O livro de De Man [17] também, à maneira dele, é uma expressão 
destes problemas que abalam o velho alicerce europeu, uma expres-
são sem grandeza e sem adesão a nenhuma das principais forças his-
tóricas que disputam entre si o mundo.
CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 53-55.
§ 〈3〉. Alguns aspectos da questão sexual. Obsessão pela questão 
sexual e perigos de uma tal obsessão. Todos os “projetistas” colocam 
em primeira linha a questão sexual e a resolvem “candidamente”. 
É preciso observar que nas “utopias” a questão sexual tem enorme 
papel, muitas vezes predominante (a observação de Croce de que 
as soluções de Campanella em Città del sole não podem ser expli-
cadas através das necessidades sexuais dos camponeses da Calábria 
é inepta) [1]. Os instintos sexuais são os que mais sofreram repres-
são por parte da sociedade em desenvolvimento; a “regulamenta-
ção” destes, pelas contradições que produz e pelas perversões que 
lhe são atribuídas, parece a mais “contrária à natureza”, portanto, 
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as referências à “natureza” neste campo são mais frequentes. Até a 
literatura “psicanalítica” é uma forma de criticar a regulamentação 
dos instintos sexuais, de maneira por vezes “iluminista”, com a cria-
ção de um novo mito do “selvagem” com base sexual (inclusive as 
relações entre pais e filhos).
Separação, neste terreno, entre cidade e campo, mas não em um 
sentido idílico para com o campo, onde acontecem os mais mons-
truosos e numerosos crimes sexuais, onde são bastante difundidos o 
bestialismo e a pederastia. No inquérito parlamentar de 1911 sobre 
o Sul|afirma-se que em Abruzzo e Basilicata (onde fanatismo reli-
gioso e patriarcalismo são maiores e é menor a influência de ideias 
urbanas, ao ponto de que, nos anos 1919-20, segundo Serpieri, não 
houve sequer uma agitação camponesa) [2] pratica-se incesto em 
30% das famílias [3] e não parece que a situação mudou até recen-
temente.
A sexualidade como função de reprodução e como “esporte”: o 
ideal “estético” da mulher oscila entre a concepção de “reproduto-
ra” e de “brinquedo”. Contudo, não é só na cidade que a sexualidade 
se tornou um “esporte”; os ditos populares: “o homem é caçador, 
a mulher é sedutora”, “quem não possuir coisa melhor, vai para a 
cama com a esposa” etc. mostram a difusão da concepção esportiva 
também no campo e nas relações sexuais entre elementos da mesma 
classe.
A função econômica da reprodução: ela não é apenas um fato 
geral, que interessa à sociedade em seu conjunto, para a qual se 
torna necessária uma determinada proporção entre as diversas 
idades para fins de produção e para a manutenção da parte pas-
siva da população (passiva em sentido normal, pela idade, inva-
lidez etc.), mas é também um fato “molecular” interno às mais 
ínfimas agregações econômicas, como a família. A expressão “ar-
rimo da velhice” mostra a consciência instintiva da necessidade 
econômica de certa relação entre jovens e idosos em toda a área 
social. A forma em que, nas aldeias, os idosos e as idosas sem pro-
les são maltratados, leva os casais a desejar a prole (o dito “uma 
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131934: americanismo e fordismo
mãe cria cem filhos e cem filhos não sustentam uma mãe”, mostra 
outro aspecto da questão): os velhos sem filhos, das classes popu-
lares, são tratados como “bastardos”.
Os progressos da higiene, que elevaram a vida humana média, 
põem cada vez mais a questão sexual como um aspecto fundamen-
tal e destacado da questão econômica, um aspecto que por sua vez 
é suficiente para colocar complexos problemas do tipo de “superes-
trutura”. O aumento da vida média na França, junto com o escasso 
índice de natalidade e com as necessidades de possibilitar um rico e 
bastante complexo aparelho de produção, |coloca já alguns proble-
mas ligados ao problema nacional: as velhas gerações estão estabe-
lecendo uma relação cada vez mais anormal com as jovens gerações 
da mesma cultura nacional, e as massas trabalhadoras inflam-se 
com estrangeiros imigrados que modificam a base: já ocorre, como 
na América, uma certa divisão do trabalho (profissões qualificadas 
para os nativos, além de funções de direção e organização; profis-
sões não qualificadas para os imigrados).
Uma relação semelhante, mas com consequências antieconômi-
cas relevantes, está em questão em toda uma série de Estados entre 
as cidades industriais, de baixa natalidade, e o campo, prolífico: a 
vida na indústria exige um aprendizado geral, um processo de adap-
tação psicofísica a determinadas condições de trabalho, de nutri-
ção, de habitação, de costumes etc. que não constitui algo inato, 
“natural”, mas que deve ser adquirido, ao passo que as caraterísticas 
urbanas adquiridas transmitem-se por hereditariedade ou são ab-
sorvidas no decorrer da infância e da adolescência. De modo que a 
baixa natalidade urbana exige um contínuo e relevante gasto para 
o tirocínio dos novos urbanizados e traz consigo uma permanente 
modificação da composição sociopolítica da cidade, pondo conti-
nuamente em novas bases o problema da hegemonia.
A mais importante questão ético-civil vinculada à questão se-
xual é a formação de uma nova personalidade feminina: até que a 
mulher não tenha alcançado não só uma real independência face ao 
homem, mas também um novo modo de conceber a si mesma e o 
seu papel nas relações sexuais, a questão sexual continuará repleta

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