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CADERNOS DO CÁRCERE Caderno 22 Antonio Gramsci Tradução IGS - Brasil 1ª Edição CADERNOS DO CÁRCERE Caderno 22 Antonio Gramsci Tradução IGS - Brasil 1ª Edição International Gramsci Society - Brasil (IGS-Brasil) Gestão 2022-2024 Coordenação Nacional Conselho Nacional Douglas Christian Ferrari de Melo (UFES), Kátia Augusta Curado Pinheiro Cordeiro da Silva (UNB); Marcos Aurélio da Silva (UFSC), Marcos Francisco Martins (UFSCar), Marina Maciel Abreu (UFMA), Matheus Daltoé Assis (UFMS). Conselho Fiscal Helton Messina da Costa (UFF), Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos (Unesp/ Marília), Rodrigo Lima Ribeiro Gomes (UFF). Revisores Helton Messina da Costa, Marília Gabriella Machado e Rodrigo Lima Ribeiro Gomes Projeto e edição gráfica Caliel Machado Luna Diagramação Maria Margarida Machado Imagem de Capa Reprodução da capa do manuscrito original obtida através da biblioteca digital da Fondazione Gramsci — https://gramsci.digital-library.it/it/quaderni-dal-carcere Presidente Coordenação Científica Coordenação de Comunicação Secretária Tesouraria Anita Schlesener (UTP) Maria Margarida Machado (UFG) Marília Gabriella Machado (Unesp/Marília) Michelle Fernandes Lima (UEM) Percival Tavares da Silva (UFF) 24-205317 CDD-320.532 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Gramsci, Antonio, 1891-1937 Cadernos do cárcere [livro eletrônico] : caderno 22 (V) : 1934 : americanismo e fordismo / Antonio Gramsci ; tradução Lincoln Secco, Silvia de Bernardinis. -- Rio de Janeiro : IGS-Brasil, 2024. PDF Título original: Quaderni del carcere. ISBN 978-65-83079-14-5 1. Filosofia 2. Gramsci, Antonio, 1891-1937 3. Marxismo 4. Política I. Título. Índices para catálogo sistemático: 1. Antonio Gramsci : Marxista revolucionário : Vida e obra 320.532 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129 ©1975, 2001 e 2007 Giulio Einaudi editore s.p.a., Torino Este material traduzido pela IGS–Brasil foi licenciado segundo a Creative Commons Atribuição-NãoComercial- SemDerivs 4.0 Internacional (Licença CC BY-NC-ND 4.0). Termos de uso completos disponíveis em: https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Não é permitida a publicação desta tradução em formato impresso sob quaisquer circunstâncias. Sua distribuição em qualquer formato deve ser sempre gratuita, seguindo os termos de licença. https://gramsci.digital-library.it/it/quaderni-dal-carcere https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ I APRESENTAÇÃO A International Gramsci Society – Brasil tem a grata satisfação de apresentar aos leitores dos escritos de Antonio Gramsci a tradu- ção brasileira da edição crítica dos Cadernos do Cárcere, organiza- da por Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, de Turim, em 1975 (Primeira Edição). A tradução aqui apresentada é resultado de um trabalho iniciado em 2019 por iniciativa da Ges- tão da IGS-Br (2019-2022) e que assumimos o compromisso de dar continuidade e finalização. Formou-se na ocasião um grupo de vinte pesquisadores e estudiosos do pensamento de Gramsci que, a partir de uma atividade coletiva e voluntária coordenada pelo Prof. Giovanni Semeraro, realizaram a árdua tarefa de traduzir os 29 Cadernos na ordenação disposta por Gerratana. Ficou para um se- gundo momento a tradução do instrumental crítico, que compõe, ao todo, mais de mil páginas, das quais 592 correspondem a notas ao texto, a parte mais significativa do aparato crítico, por oferecer indicações das fontes utilizadas por Gramsci, bem como esclareci- mentos sobre acontecimentos e personagens mencionados nos Ca- dernos. Esta tradução e disponibilização online dos 29 Cadernos, de forma gratuita na página da IGS/Brasil, contou com a autorização da Fundação Gramsci e da Editora Einaudi, agradecemos ao Dire- tor Francesco Giasi por esta intermediação. A importância e a relevância da tradução dos 29 Cadernos na or- dem estabelecida por Gerratana após pesquisa criteriosa se apresen- tam no fato de que, com a ampliação do interesse pelos escritos de Gramsci no Brasil, tornou-se indispensável transpor para o portu- guês a obra completa, tanto para o aprofundamento teórico quanto para a superação de algumas dificuldades interpretativas. A edição crítica organizada por Gerratana pressupôs uma pesquisa aprofun- dada para a periodização dos Cadernos, escritos entre 1929 e 1935, abrindo o caminho para novos debates e estimulando a compreen- são das ideias e o conhecimento da contribuição do pensamento de II Antonio Gramsci. E não é possível uma análise aprofundada desse autor e uma interpretação pertinente da sua obra, sem instrumen- tos de pesquisa adequados. A primeira edição publicada na página da IGS-BR apresenta os Cadernos em volumes separados para facilitar a consulta; cada vo- lume tem um ISBN1 para eventuais citações. A tarefa a seguir será constituída de Seminários voltados a analisar e retificar possíveis fragilidades da tradução, para a organização da segunda edição re- formulada. Reiteramos a nossa grata satisfação de publicar no site da IGS-BR, para acesso de modo gratuito, a versão brasileira com- pleta da edição crítica dos Cadernos do Cárcere. Anita Helena Schlesener Presidente da IGS/Brasil (Gestão 2022-2024) SOBRE A NOVA TRADUÇÃO DOS CADERNOS DO CÁRCERE NO BRASIL A nova tradução em português dos Cadernos do Cárcere é um evento de grande importância cultural e, em sentido amplo, polí- tico. Testemunhei, em parte, a idealização da primeira tradução par- cial de uma edição não antológica e temática dos Cadernos em lín- gua portuguesa no final de 1997, depois do primeiro colóquio da International Gramsci Society, que ocorreu naquele ano em Ná- poles. Realmente, poucos meses depois, Carlos Nelson Coutinho comunicou-me a ideia de uma ampla tradução (mas não completa) dos Cadernos no Brasil, enriquecida de um amplo aparato crítico, 1 O registro dos ISBNs desta primeira edição contou com a colaboração de Cleide Litiman, funcionária da Secretaria Geral da Anped, que intermediou o processo de cadastro junto à Câmara Brasileira de Livro. III adequado a explicar aos leitores brasileiros os muitos aspectos e referências a fatos e personagens presentes nos Cadernos. Um tra- balho desafiador e muito útil, por mérito – além de Coutinho – de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, três antigos amigos que, precisamente no colóquio de Nápoles, tinham nova- mente se encontrado renovando uma antiga paixão por Gramsci e o comunismo italiano. Aquela edição idealizada e conduzida por Coutinho, publica- da em seis volumes entre 1999 e 2002, junto à Editora Civiliza- ção Brasileira, porém, não era completa. Foi definida pelo próprio Carlos Nelson como uma edição crítico-temática, pois privilegia- va os “cadernos especiais”, temáticos, em detrimento dos textos de “primeira redação” (que, mais tarde, seriam retomados, reescritos e, algumas vezes, modificados por Gramsci). De qualquer modo, a edição publicada pela Civilização Brasileira teve uma importân- cia relevante para a difusão de Gramsci no Brasil. No entanto, o próprio Coutinho, alguns anos mais tarde, confidenciou-me que tinha se arrependido de não ter inserido nesta edição todas as notas gramscianas de “primeira redação”, isto é, de não haver traduzido integralmente as notas de reflexão crítica e de teoria dos Cadernos do Cárcere. Por que esta mudança de opinião? Esta era fruto de uma impor- tante transformação nos estudos sobre Gramsci que havia envolvi- do o próprio Coutinho. Na verdade, desde o final do século passado havia crescido, em nível internacional, a atenção dos estudiosos de Gramsci no sentido do aspecto “diacrônico” do seu pensamento, na direção do entrelaçamento entre as notas dos Cadernos e a história e a reflexão política de Gramsci, no cárcere ou na clínica de Formia. Em outras palavras, havia crescido notavelmente a atenção para o caráter de work in progress|20| 14 caderno 22 (v) de aspectos mórbidos e será preciso ter cuidados em qualquer ino- vação legislativa. Toda crise de coerção unilateral no campo sexual carrega um desmedido “romantismo” que pode ser agravado pela abolição da prostituição legal e organizada. Todos estes elementos complicam e tornam dificílima qualquer regulamentação do fato sexual e qualquer tentativa |de criar uma nova ética sexual adequa- da aos novos métodos de produção e de trabalho. Por outro lado, é necessário caminhar rumo a esta regulamentação e à criação de uma nova ética. É preciso ressaltar que os industriais (especialmen- te Ford) se interessaram pelas relações sexuais de seus empregados e em geral pela organização de suas famílias; o aparente «puritanis- mo» que este interesse assumiu (como no caso do proibicionismo) não deve induzir em erro; a verdade é que não se pode desenvolver o novo tipo de homem que a racionalização da produção e do tra- balho exige até que o instinto sexual não estiver compativelmente regulamentado, até que este mesmo não estiver racionalizado. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 55 BIS – 56 BIS. § 〈4〉. Algumas afirmações sobre a questão de «superregionalismo e supercosmopolitismo». Trechos reportados da «Fiera Letteraria» de 15 de janeiro de 1928. De Giovanni Papini: “A cidade não cria, mas consome. Assim como no empório, onde afluem os bens arran- cados dos campos e das minas, nela acorrem os espíritos mais vivos da província e as ideias dos grandes solitários. A cidade é como uma fogueira que ilumina porque queima o que foi criado longe dela e às vezes contra ela. Todas as cidades são inférteis. Nelas nascem em proporção poucos filhos, quase nunca alguém de gênio. Nas cidades goza-se, mas não se cria, ama-se, mas não se gera, se consome, mas não se produz” [1]. (Deixando de lado as inúmeras tolices “absolu- tas”, é preciso ressaltar que Papini tem diante de si o modelo “relati- vo” da cidade não cidade, a cidade de Coblenza, dos consumidores de renda agrária e das casas de tolerância). No mesmo número da «Fiera Letteraria» lê-se este trecho: “O nosso assado puramente regional apresenta-se com estas caraterísticas: firme aversão a todas as formas de civilização que não se adequam à nossa, ou que estra- |21| 151934: americanismo e fordismo gam, por não serem digeríveis, as qualidades clássicas dos italianos; em seguida: defesa do sentido universal da aldeia, que consiste, em poucas palavras, na relação natural e imanente entre o homem e a sua terra; finalmente, exaltação|das caraterísticas locais, em todos os campos e atividades da vida, isto é: fundamento católico, senti- do religioso do mundo, simplicidade e sobriedade fundamentais, aderência à realidade, domínio da fantasia, equilíbrio entre espirito e matéria”[2]. (Cabe observar: como poderia existir a Itália atual, a nação italiana, sem a formação e o desenvolvimento das cidades e sem a influência unificadora da cidade? “Superregionalismo” no passado significaria – como significou – municipalismo, desagre- gação popular e domínio estrangeiro. E o próprio catolicismo teria se desenvolvido se o Papa, ao invés de residir em Roma, tivesse tido a residência em Scaricalasino? [Scaricalasino, localidade perto de Bolonha, hoje comuna de Menghidoro, N.T.]). Esta opinião de Francesco Meriano (publicada no «Assalto» de Bolonha): “No campo filosófico, creio encontrar, ao invés, uma verdadeira antítese: é a antítese velha de mais de cem anos e sempre revestida de novos aspectos, entre o voluntarismo, o pragmatismo, o ativismo identificáveis no super-cosmopolitismo, e o iluminismo, o racionalismo, o historicismo identificáveis no superregionalismo” [3]. (Ou seja, os imortais princípios teriam se refugiado no super- -regionalismo). De qualquer maneira, deve-se ressaltar que a po- lêmica “literária” entre superregionalismo e supercosmopolitismo nada mais foi do que espuma de sabão polêmica entre conserva- dorismo parasitário e tendências inovadoras da sociedade italiana. Na «Stampa» de 4 de maio de 1929 Mino Maccari escreve: “Quando o superregionalismo se opõe às importações modernis- tas, sua oposição almeja resguardar o direito de selecioná-las para impedir que os contatos nocivos, confundindo-se com os que po- dem ser benéficos, corrompam a integridade da natureza e do cará- ter próprios da civilização italiana, sublimada ao longo dos séculos, e que hoje aspira (!) a uma síntese unificadora” [4]. ( Já “depurada”, mas não “sintetizada” e “unificada”!!) CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 61 BIS – 62 E 66 BIS. |22| 16 caderno 22 (v) § 〈5〉. Eugenio Giovannetti escreveu, em «Pègaso» de maio de 1929, um artigo sobre “Federico|Taylor e o americanismo”: “A energia literária, abstrata, alimentada pela retórica generalizante hoje, não é capaz de compreender a energia técnica, cada vez mais individual e aguda, tecido originalíssimo de vontade singular e de educação especializada. A literatura enérgica ainda é o seu Prome- teu desacorrentado, imagem demasiado confortável. O herói da ci- vilização técnica não é um ser sem cadeias: é um ser silencioso que sabe carregar até aos céus sua férrea corrente. Não é um ignorante ocioso: é um estudioso no mais belo sentido clássico, já que stu- dium significava “ponta viva”. Ao passo que a civilização técnica ou mecanicista, como queiram chamá-la, elabora em silêncio este seu tipo de herói contundente, o culto literário da energia cria apenas um nefelibata relapso, um frenético sonhador” [1]. Deve-se salientar o fato de que não se procurou aplicar ao ame- ricanismo a formulazinha de Gentile sobre a “filosofia que não se enuncia em fórmulas, mas se afirma pela ação”; [2] isto é significa- tivo e instrutivo, porque se a fórmula tiver um valor é justamente o americanismo que pode reivindicá-lo. Ao contrário, ao falar de americanismo, observa-se que este é “mecanicista”, grosso, brutal, isto é, “pura ação”, contrapondo a ele a tradição etc. Contudo, por que esta tradição etc. não se assume também como base filosófica, como [a] filosofia enunciada em fórmulas daqueles movimentos para os quais ao contrário a “filosofia afirma-se pela ação”? Esta contradição pode explicar muitas coisas: a diferença, por exemplo, entre a ação real, que modifica essencialmente seja o homem seja a realidade exterior (ou seja a cultura real), que é o americanismo, e o gladiadorismo farsante que se autoproclama ação modificando ape- nas o vocabulário, não as coisas, o gesto exterior, não o homem inte- rior. A primeira [ação real] está criando um futuro que é intrínseco à sua objetiva atividade e sobre a qual se prefere calar. O segundo [gladiadorismo] cria apenas fantoches aperfeiçoados, projetados sobre um figurino retoricamente prefixado, prontos a desaparecer assim que seus fios exteriores que lhe conferem a aparência do mo- vimento e da vida serão cortados. CF. CADERNO I (XVI), PP. 66 BIS – 67. |23| 171934: americanismo e fordismo § 〈6〉. Autarquia financeira da indústria. Um notável artigo de Carlo Pagni |“A proposito di un tentativo di teoria pura del corpo- rativismo” (na «Riforma Sociale» de setembro-outubro de 1929) [1] examina o volume de N. Massimo Fovel, Economia e Corporati- vismo (Ferrara, S.A.T.E., 1929) e menciona outro escrito do mesmo Fovel, Rendimento e salário no Estado Sindical [Rendita e salario nello Stato Sindacale, N.T.] (Roma, 1928), mas não percebe, ou não põe explicitamente em evidência que Fovel em seus escritos concebe o “ ”«corporativismo» como premissa para a introdução na Itália dos sistemas americanos mais avançados no modo de pro- duzir e de trabalhar. Seria interessante saber se Fovel escreve “extraindo da própria cabeça”, ou se ele tem atrás de si (na prática e não só “em geral”) determinadas forças econômicas que o sustentam e o impulsionam. Fovel nunca foi um puro “cientista”, que expressa determinadas ten- dências assim como os intelectuais, também “puros”, sempre expres- sam. Por diversos aspectos, ele cabe na galeriado tipo de Ciccotti, Naldi, Bazzi, Preziosi etc, contudo é mais complexo, devido a seu inquestionável valor intelectual. Fovel sempre ambicionou tornar- -se grande líder político, e não conseguiu porque lhe faltam alguns talentos fundamentais: a força de vontade direcionada a um úni- co fim e a [não] volubilidade intelectual como Missiroli: além do mais, demasiadas vezes ele vinculou-se muito claramente a peque- nos interesses mesquinhos. Iniciou como “jovem radical”, antes da guerra: queria rejuvenescer o movimento democrático tradicional dando-lhe um conteúdo mais concreto e moderno, flertando um pouco com os republicanos, especialmente federalistas e regiona- listas («Critica Politica» de Oliviero Zuccarini). Durante a guerra defendeu o neutralismo de Giolitti. Em 1919 ingressa no Partido Socialista em Bolonha, mas nunca escreve no «Avanti!». Antes do armistício dá umas passadas em Turim. Os industriais de Turim tinham comprado a velha e reles «Gazzetta di Torino» para trans- formá-la e torná-la seu órgão direto. Fovel ambicionava tornar-se |diretor da nova publicação e certamente estava em contato com o ambiente industrial. Entretanto, Tommaso Borelli, “jovem liberal”, |24| |25| 18 caderno 22 (v) foi o escolhido como diretor, logo sucedido por Italo Minunni da «Idea Nazionale» [2] (mas a «Gazzetta di Torino», mesmo sob o nome de «Paese» e apesar do dinheiro empregado para desen- volvê-la, não criou raízes e foi fechada por seus patrocinadores). “Curiosa” carta de Fovel em 1919: ele escreve que “sente a obri- gação” de colaborar com «L’Ordine Nuovo» semanal; a resposta estabelece os limites de uma sua possível colaboração, depois disso a “voz da obrigação” repentinamente se cala [3]. Fovel juntou-se ao bando Passigli, Martelli, Gardenghi que transformara o «Lavo- ratore» de Trieste em um centro de negócios bastante lucrativo e que devia ter contatos com o ambiente industrial de Turim: tenta- tiva de Passigli de transportar «L’Ordine Nuovo» em Trieste com gestão “comercialmente” rentável (ver a data, a assinatura de 100 Liras feita por Passigli que viera em Turim para falar pessoalmente) [4]; questão de saber se um “cavalheiro” poderia colaborar no «La- voratore». Em 1921, nos escritórios do «Lavoratore» [5] foram encontradas cartas pertencentes a Fovel e Gardenghi, que revela- vam que os dois parceiros jogavam na bolsa com as ações têxteis durante a greve liderada pelos sindicalistas de Nicola Vecchi e que dirigiam o jornal segundo os interesses de sua especulação. Depois de Livorno, por algum tempo, Fovel não deu sinal de vida. Reapa- receu em 1925, colaborador do «Avanti!» de Nenni e Gardenghi, e promoveu uma campanha a favor do enfeudamento da indústria italiana à finança americana, campanha logo explorada (mas já de- via haver um acordo prévio) pela «Gazzetta del Popolo» ligada ao engenheiro Ponti da Sociedade hidroelétrica do Piemonte [6]. Em 1925-26, Fovel colaborou bastante com a «Voce Repubbli- cana». Hoje (1929) apoia o corporativismo como premissa para uma forma italiana de americanização, colabora com o «Corriere Padano» de Ferrara, com os «Nuovi Studi», «Nuovi Problemi», «Problemi del Lavoro» e ensina (ao que parece) na Universidade de Ferrara. O que parece significativo da tese de Fovel, resumida por Pagni, é sua |concepção da corporação como bloco industrial-produtivo autônomo, destinado a resolver em sentido moderno e acentuada- |26| 191934: americanismo e fordismo mente capitalístico o problema de um ulterior desenvolvimento do aparelho econômico italiano, contra os elementos semifeudais e parasitários da sociedade que se apropriam de uma parcela dema- siado grande da mais-valia, contra os assim ditos “produtores de poupança”. A produção de poupança deveria se tornar uma fun- ção interna (a mais barata) do próprio bloco produtivo, através de um desenvolvimento da produção a um custo decrescente para permitir, além de uma maior massa de mais-valia, maiores salários, com a consequência de um mercado interno mais capaz, de alguma poupança operária e de lucros mais elevados. De modo que seria possível assim, um ritmo mais acelerado de acumulação de capitais no próprio seio da empresa e não pela intermediação dos “produ- tores de poupança”, que na realidade são devoradores de mais-valia. No bloco industrial-produtivo o elemento técnico – direção e ope- rários – deveria dominar o elemento “capitalista” no sentido mais “mesquinho” da palavra, isto é, a aliança entre capitães de indústria e pequenos burgueses poupadores deveria substituir um bloco de todos os elementos diretamente eficientes na produção, os únicos capazes de juntar-se em Sindicato e, portanto, de constituir a Cor- poração produtiva (do que resulta a consequência extrema, tirada por Spirito, da Corporação proprietária), A objeção de Pagni a Fovel é de que sua discussão não é uma nova economia política, mas só uma nova política econômica, objeção formal, que pode ter relevância em determinado contexto, mas que não aborda o ar- gumento principal; as outras objeções, concretamente, nada mais são do que a constatação de alguns aspectos atrasados do ambiente italiano em relação a tal transformação “organizativa” do aparelho econômico. As maiores deficiências de Fovel consistem em negli- genciar a função econômica que o Estado sempre teve na Itália em razão da desconfiança dos poupadores para com os industriais, e de descurar o fato de que a diretriz corporativa não teve origem nas exigências|de uma transformação das condições técnicas da indústria e tampouco daquelas de uma nova política econômica, mas sim das exigências de uma polícia econômica, exigências que se agravaram com a crise de 1929 e que estão ainda em curso. Na realidade os trabalhadores qualificados italianos, tanto como indi- |27| 20 caderno 22 (v) víduos quanto como sindicatos, nem ativa nem passivamente, nun- ca se opuseram às inovações que tendem a uma redução dos custos, à racionalização do trabalho, à introdução de automatismos mais perfeitos e de mais perfeitas organizações técnicas do conjunto empresarial. Muito pelo contrário. Isso ocorreu na América e de- terminou a semiliquidação dos sindicatos livres e sua substituição com um sistema de organizações operárias por empresa, isoladas entre si. Na Itália, ao contrário, até a mínima e tímida tentativa de tornar a fábrica um centro de organização sindical (lembrar da questão dos administradores de empresa) [7] foi duramente comba- tida e resolutamente aniquilada. Uma acurada análise da história italiana de antes de 1922 e mesmo de antes de 1926, que não se deixe levar pelas estrepitosas aparências exteriores, mas que saiba colher os motivos profundos do movimento operário, deve chegar à conclusão objetiva de que justamente os operários foram os por- tadores das novas e mais modernas exigências industriais, e que, de sua maneira, as afirmaram incansavelmente; pode-se mesmo dizer que algum industrial compreendeu este movimento e tentou apro- priar-se dele (explica-se assim a tentativa de Agnelli de absorver «L´Ordine Nuovo» e sua escola no complexo da Fiat, [8] assim como de instituir uma escola de operários e técnicos especializa- dos para uma transformação industrial e do trabalho por meio de sistemas “racionalizados”: o Y.M.C.A. tentou abrir cursos de “ame- ricanismo” abstrato, entretanto, apesar das altas somas investidas, os cursos fracassaram) [9]. Além destas considerações, apresenta-se outra série de questões: o movimento corporativo existe e por alguns aspectos as realiza- ções jurídicas que já ocorreram criaram as condições formais em que a transformação técnico-econômica pode ocorrer em grande escala, já que os operários não podem se opor a ela e nem podem lutar para se tornarem eles mesmos seus porta-bandeiras. A orga- nização|corporativa pode se tornar a forma desta transformação, mas pergunta-se: poderemos ver, usando a expressão de Vico, uma das “astúcias da providência” pelaqual os homens sem propô-lo e sem querê-lo obedeçam aos imperativos da história? Por enquanto, |28| 211934: americanismo e fordismo propende-se a duvidar. O elemento negativo da “polícia econômi- ca” predominou até agora sobre o elemento positivo da exigência de uma nova política econômica que renove, modernizando-a, a estrutura econômico-social da nação, ainda que nos quadros do ve- lho industrialismo. A forma jurídica possível é uma das condições, não a única condição nem mesmo a mais importante: é somente a mais importante das condições imediatas. A americanização requer um determinado meio, uma determinada estrutura social (ou a fir- me vontade de criá-la) e um determinado tipo de Estado. O Estado é o Estado liberal, não no sentido do liberalismo aduaneiro ou da efetiva liberdade política, mas no sentido mais fundamental da li- vre iniciativa e do individualismo econômico que alcança com pró- prios meios, como “sociedade civil”, pelo mesmo desenvolvimento histórico, o regime da concentração industrial e do monopólio. O desaparecimento do tipo semifeudal do rentista representa na Itá- lia uma das maiores condições para a transformação industrial (em parte, é a própria transformação), não uma consequência. A políti- ca econômico-financeira do Estado é o instrumento deste desapa- recimento: amortização da dívida pública, títulos nominais, maior peso dos impostos diretos sobre os indiretos na formação da receita orçamentária. Não parece que isto seja ou esteja se tornando a dire- triz da política financeira. Pelo contrário. O Estado cria novos ren- tistas, isto é, promove as velhas formas de acumulação parasitária da poupança e tende a criar quadros sociais fechados. Na realidade até agora a diretriz corporativa funcionou para sustentar posições ameaçadas de classes médias e não para eliminá-las, e cada vez mais está se tornando, para os interesses constituídos que surgem sobre a velha base, uma máquina de conservação do existente assim como existe, ao invés de mola de |propulsão. Por quê? Porque a diretriz corporativa depende também do desemprego: defende os emprega- dos garantindo um certo nível mínimo de vida que, se houvesse li- vre concorrência colapsaria, provocando graves convulsões sociais; e cria emprego de novo tipo, não produtivo e sim organizativo, para os desempregados das classes médias. Sempre existe uma saída: a diretriz corporativa, que nasceu de uma situação tão delicada, cujo essencial equilíbrio deve ser mantido a qualquer custo para evitar |29| 22 caderno 22 (v) uma imane catástrofe, poderia proceder por lentíssimas, quase im- perceptíveis etapas, que modificam a estrutura social sem bruscas sacudidas: até mesmo a melhor criança e mais solidamente enfai- xada, contudo, desenvolve-se e cresce. Eis porque seria interessante saber se Fovel representa sua própria voz ou se ele é expoente de forças econômicas que buscam, a qualquer custo, seu próprio ca- minho. Seja como for, o processo seria tão demorado e encontraria tantas dificuldades, que até lá novos interesses podem se originar e fazer nova tenaz oposição ao seu desenvolvimento até truncá-lo. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 86 BIS – 89. § 〈7〉. Mino Maccari e o americanismo. Do Trastullo di Strapaese de Mino Maccari (Florença, Vallecchi, 1928): Por um pendurica- lho brilhante / Teu país não trocar: / O estrangeiro é traficante / Confiar nele vai só te arcar / Se for esperto e matreiro / Toda mistu- ra susta / Quem ganha é sempre o forasteiro / Teu bem um mundo custa / Mais vale do vigário o arroto / Que a América e sua glória / No italiano mais roto / há mil anos de história / [...] Tabarino e ciarlestons / Só te deixam tolo e murcho / Volta italiano a teus tons / Volta a comer o bucho / Italiano volta ao teu rincão / Não confiar nas modas da França / Cultive cebolas e pão / E bem cheia terás a pança [1]. Maccari, porém, foi chefe de redação de «La Stampa» de Tu- rim| e a comer pão e cebola no centro mais supercosmopolita e industrial da Itália. CF. CADERNO 1 (XVI), P. 90. § 〈8〉. Quantidade e qualidade. No mundo da produção signifi- ca nada mais do que “barato” e “caro”, isto é, satisfação ou não das necessidades elementares das classes populares e tendência a elevar ou a deprimir seu teor de vida: tudo o mais não passa de romance ideológico de folhetim, cujo primeiro capítulo Guglielmo Ferrero escreveu [1]. Em uma empresa-nação, que dispõe de muita mão-de- -obra e de poucas matérias-primas (o que é discutível, pois toda |30| 231934: americanismo e fordismo nação-empresa “cria” sua própria matéria-prima) o lema: “Quali- dade!” significa apenas vontade de empregar muito trabalho em pouca matéria-prima, aperfeiçoando o produto ao extremo, isto é, a vontade de especializar-se para um mercado de luxo. Contudo, seria possível fazer isto para uma inteira nação com grande popu- lação? Onde existe muita matéria-prima, existem duas possíveis orien- tações, qualitativa e quantitativa, ao passo que isto não se aplica para os assim ditos países pobres. A produção quantitativa pode ser também qualitativa, ou seja, ser concorrencial à indústria pura- mente qualitativa, entre setores da classe consumidora de objetos “distintos” que não é tradicionalista pelo fato de ser de nova forma- ção. Tais observações têm validade se aceitamos o critério de “qua- lidade” assim como é posto comumente, e que não é um critério racional: na realidade só se pode falar de “qualidade” para as obras de arte singulares e não reprodutíveis, tudo o que é reprodutível pertence ao reino da “quantidade” e pode ser fabricado em série. Além disto, pode-se observar o seguinte: se uma nação se espe- cializar na produção “qualitativa”, qual a indústria que fornecerá os objetos de consumo para as classes pobres? Será promovida uma situação de divisão internacional do trabalho? Trata-se apenas de uma fórmula de literatos preguiçosos e de políticos cuja demago- gia consiste em construir castelos no ar. A qualidade deveria ser atribuída aos homens e não às coisas: e a qualidade humana ele- va-se e refina-se na|medida em que o homem satisfaz um número maior de necessidades, tornando-se, portanto, independente delas. O alto preço do pão devido ao fato de querer manter vinculada a uma determinada atividade uma maior quantidade de pessoas, leva à desnutrição. Quase sempre a política da qualidade determina o seu oposto: uma quantidade desqualificada. CF. CADERNO 1 (XVI), P. 91. § 〈9〉. Da resenha que A. De Pietri Tonelli publicou na «Rivista di politica economica» (fevereiro de 1930) sobre o livro de An- thony M. Ludovici, Woman. A vindication (2ª edição, 1929, Lon- |31| 24 caderno 22 (v) dres): “Quando as coisas andam mal na estrutura social de uma na- ção, por causa da decadência das capacidades fundamentais de seus homens – afirma Ludovici – duas distintas tendências parecem sempre detectáveis: a primeira é a de interpretar mudanças, que são pura e simplesmente sinais da decadência e da ruína de velhas e sadias (!) instituições, como sintomas de progresso: a segunda, devido à justificada perda de confiança na classe governante, é de atribuir a cada um, tenha ou não as qualidades desejadas, a certeza de ser indicado para se esforçar no sentido de ajustar as coisas”[1]. (A tradução é manifestamente incerta e incorreta). O autor faz do feminismo uma expressão desta segunda tendência e pede um re- nascimento do “machismo”. Para além de qualquer outra consideração de mérito, difícil de se fazer porque o texto mencionado de De Pietri Tonelli é incerto, deve-se destacar a tendência antifeminista e “machista”. Deve-se es- tudar a origem da legislação anglo-saxã tão favorável às mulheres em relação a toda uma série de conflitos “sentimentais” ou pseudo- -sentimentais. Trata-se de uma tentativa de regulamentar a questão sexual, de torná-la algo de sério, mas não parece tenha alcançado seu objetivo: deu lugar a desvios mórbidos, “feministas” em senti- do pejorativo e criou para a mulher(das classes altas), uma posição social paradoxal. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 91 BIS – 92. |§ 〈10〉. "Animalidade" e industrialismo. A história do industria- lismo sempre foi (e hoje em forma mais acentuada e rigorosa) uma contínua luta contra o elemento “animalidade” do homem, um processo ininterrupto, com frequência doloroso e sangrento, de subjugação dos instintos (naturais, isto é, animalescos e primitivos) a normas e hábitos de ordem de exatidão, de precisão cada vez mais novos, mais complexos e rígidos que tornam possíveis formas cada vez mais complexas de vida coletiva, que são a consequência neces- sária do desenvolvimento do industrialismo. Esta luta é imposta a partir de fora e até agora os resultados obtidos, ainda que de grande valor prático imediato, são em grande parte puramente mecânicos, |32| 251934: americanismo e fordismo não se tornaram uma “segunda natureza”. Contudo, todo o novo modo de viver no período em que se impõe a luta contra o velho, não foi sempre, por um determinado tempo, o resultado de uma compressão mecânica? Também os instintos que hoje é preciso su- perar porque ainda demasiado “animalescos” na realidade também foram um considerável progresso sobre os anteriores, mais primi- tivos ainda: quem poderia descrever o “custo”, em vidas humanas e em doloridas subjugações dos instintos, da passagem do nomadis- mo para a vida sedentária e agrícola? Aqui se inserem as primeiras formas de servidão da gleba e das profissões etc. Até agora todas as mudanças do modo de ser e de viver ocorreram pela coerção bru- tal, isto é, pelo domínio de um grupo social sobre todas as forças produtivas da sociedade: a seleção ou “educação” do homem apto aos novos tipos de civilização, isto é, às novas formas de produção e de trabalho, ocorreu empregando inauditas brutalidades, jogando para o inferno das subclasses os débeis e os refratários, ou eliminan- do-os completamente. Em todo surgimento de novos tipos de ci- vilização, ou no curso do processo de desenvolvimento, ocorreram crises. Mas quem foi envolvido nestas crises? Não foram as massas trabalhadoras, mas as classes médias e uma parte da própria classe dominante, que também sentiram a pressão coercitiva, que neces- sariamente era exercida sobre toda a área social. As crises de liber- tinismo foram inúmeras: toda época histórica teve a sua. Quando a pressão |coercitiva é exercida sobre todo o complexo social (isto ocorre especialmente após a queda da escravidão e a ascensão do cristianismo) desenvolvem-se ideologias puritanas que propor- cionam a forma exterior da persuasão e do consenso ao intrínseco uso da força: entretanto, uma vez que se alcançou o resultado, pelo menos em certa medida, a pressão se quebra (historicamente esta fratura ocorre em diversíssimos modos, como é natural), já que a pressão sempre assumiu formas originais, frequentemente pessoais; identificou-se com um movimento religioso, criou um aparelho próprio que se personificou em determinadas camadas ou castas, assumiu o nome de Cromwell, ou de Luís XV etc.) e ocorre que a crise de libertinismo (a crise francesa após a morte de Luís XV, por exemplo, não pode ser comparada com a crise americana de- |33| 26 caderno 22 (v) pois do advento de Roosevelt, tampouco o proibicionismo, com sua sequela de banditismo etc., tem correspondência com as épocas precedentes), que todavia atinge apenas superficialmente as massas trabalhadoras, ou as atinge indiretamente já que deprava suas mu- lheres: estas massas, de fato, já adquiriram os hábitos e os costumes necessários aos novos sistemas de vida e de trabalho, ou continu- am sentindo a pressão coercitiva para as necessidades elementares de sua existência (também o antiproibicionismo não foi desejado pelos operários, e a corrupção que o contrabando e o banditismo trouxeram consigo estava difundida nas classes superiores). No pós-guerra ocorreu uma crise dos costumes de extensão e profundidade inauditas, entretanto ocorreu contra uma forma de coerção que não tinha sido imposta para criar hábitos adequados a uma nova forma de trabalho, mas para as necessidades já então con- cebidas como transitórias, da vida de guerra e de trincheira. Esta pressão reprimiu especialmente os instintos sexuais, inclusive os normais, em grandes massas de jovens e a crise que se desencadeou no momento do retorno à vida normal, tornou-se mais violenta ainda pelo desaparecimento de tantos homens e por um desequilí- brio permanente na relação numérica entre os indivíduos dos dois sexos. As instituições vinculadas à vida sexual sofreram um forte abalo e novas formas de utopia iluminista desenvolveram-se com a questão |sexual. A crise se tornou (e ainda é) mais violenta porque atingiu todos os estratos da população e entrou em conflito com as necessidades dos novos métodos de trabalho que, no entanto, se impuseram (taylorismo e racionalização em geral). Estes novos métodos demandam uma rígida disciplina dos instintos sexuais (do sistema nervoso), isto é, um fortalecimento da “família” em sentido amplo (não desta ou daquela forma do sistema familiar), da regula- mentação e estabilidade das relações sexuais. É preciso insistir no fato de que, no terreno sexual, o fator ide- ológico mais depravador e “regressivo” é a concepção iluminista e libertária própria das classes não estreitamente vinculadas ao tra- balho produtivo, e que estas classes contagiam as classes trabalha- doras. Este elemento torna-se mais grave se, em um determinado |34| 271934: americanismo e fordismo Estado, as massas trabalhadoras não sofrerem mais a pressão coer- citiva de uma classe superior, se os novos hábitos e atitudes psicofí- sicos ligados aos novos métodos de produção e de trabalho tiverem de ser adquiridos mediante persuasão recíproca ou convicção in- dividualmente proposta e aceita. Pode-se ir criando, uma situação de duplicidade, um conflito íntimo entre a ideologia “verbal” que reconhece as novas necessidades e a prática real “animalesca” que impede aos corpos físicos a efetiva aquisição das novas aptidões. Forma-se neste caso o que poderíamos chamar de situação de hipo- crisia social totalitária. Por que totalitária? Em outras situações os estratos populares são obrigados a observar a “virtude”; quem a pre- ga não a observa, mesmo prestando-lhe homenagem verbal, e, por- tanto, a hipocrisia não é total mas de determinados estratos; isto não pode durar, certamente, e levará a uma crise de libertinismo; mas, só quando as massas já tiverem assimilado a “virtude”, em há- bitos permanentes ou quase, isto é, com oscilações cada vez meno- res. Ao contrário, no caso de não existir pressão coercitiva de uma classe superior, a “virtude” será afirmada genericamente, mas não observada nem por convicção tampouco por coerção, e, portanto, não haverá a absorção das atitudes psicofísicas necessárias para |os novos métodos de trabalho. A crise pode se tornar “permanente”, ou seja, de perspectiva catastrófica, pois só a coerção a poderá defi- ni-la, uma coerção de novo tipo, porque exercida por uma elite de uma classe sobre sua própria classe; só pode ser uma autocoerção, isto é, uma autodisciplina. (Alfieri que se deixa amarrar na cadeira). Em todo caso, aquilo que se pode opor a esta função das elites, é a mentalidade iluminista e libertária na esfera das relações sexuais; lutar contra esta concepção significa justamente criar elites neces- sárias a esta tarefa histórica, ou pelo menos, desenvolvê-las para que sua função se estenda a todas as esferas da atividade humana. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 99 BIS – 100 BIS. § 〈11〉. Racionalização da produção e do trabalho. A tendência de Leon Davidovi estava estreitamente ligada a esta série de pro- blemas, o que não me parece ter sido devidamente esclarecido. O |35| 28 caderno 22 (v) seu conteúdo essencial, deste ponto de vista, consistia na*“dema- siadamente” resoluta (portanto não racionalizada) vontade de dar supremacia, na vida nacional, à indústriae aos métodos industriais, de acelerar, por meios coercitivos externos, a disciplina e a ordem na produção, de adequar os costumes às necessidades do trabalho. Em razão da abordagem geral de todos os problemas ligados à ten- dência, necessariamente esta tinha que resultar em uma forma de bonapartismo, e, portanto, a inexorável necessidade de aniquilá- -la. Suas preocupações estavam corretas, mas as soluções práticas estavam profundamente erradas: neste desequilíbrio entre teoria e prática estava ínsito o perigo, que aliás, já se manifestara prece- dentemente, em 1921. O princípio da coerção, direta e indireta, na organização da produção e do trabalho é correto (cf. o discurso pronunciado contra Martov e apresentado no volume sobre o Ter- rorismo) [1], mas a forma que ele assumiu estava errada: o modelo militar tornara-se um funesto prejuízo e os exércitos fracassaram. Interesse de Leon Davidovi pelo americanismo; seus artigos, suas investigações sobre o “byt” e sobre literatura [2], estas atividades eram menos desconectadas do que poderia aparecer, pois os novos métodos de trabalho são indissolúveis de um determinado|modo de viver, de pensar e de sentir a vida: não é possível ter sucesso em um campo sem obter resultados tangíveis em outro. Na América a racionalização do trabalho e o proibicionismo es- tão sem dúvida ligados: as investigações dos industriais sobre a vida íntima dos operários, os serviços de inspeção criados por algumas empresas para controlar a «moralidade» dos operários constituem necessidade do novo método de trabalho. Quem ridicularizasse es- tas iniciativas (ainda que fracassadas) e visse nelas só uma hipócrita manifestação de «puritanismo», negaria a si mesmo qualquer pos- sibilidade de compreender a importância, o significado e o alcance objetivo do fenômeno americano, que também é o maior esforço coletivo verificado até agora para criar com inaudita rapidez e com uma consciência do objetivo nunca vista na história, um novo tipo de trabalhador e de homem. A expressão “consciência do objeti- |36| * NO MS: «DA». 291934: americanismo e fordismo vo” pode parecer pelo menos espirituosa a quem lembrar a frase de Taylor sobre o “gorila amestrado ”[3]. De fato, Taylor expressa com cinismo brutal o objetivo da sociedade americana: desenvolver no trabalhador, ao máximo grau, as posturas maquinais e automáticas, quebrar o velho nexo psicofísico do trabalho profissional qualifica- do que exigia uma certa participação ativa da inteligência, da fanta- sia, da iniciativa do trabalhador e reduzir as operações produtivas ao único aspecto físico maquinal. Mas na realidade não se trata de novidades originais: trata-se apenas da fase mais recente de um lon- go processo que iniciou com o nascimento do próprio industrialis- mo, fase que é apenas mais intensa do que as precedentes e que se manifesta sob formas mais brutais, mas que também será superada através da criação de um novo nexo psicofísico de um tipo diferente dos precedentes e sem dúvida de um tipo superior. Inelutavelmente ocorrerá uma seleção forçada, uma parte da velha classe trabalha- dora será eliminada sem piedade do mundo do trabalho e talvez do mundo tout court. Deste ponto de vista é preciso estudar as iniciativas “purita- nas”|dos industriais americanos do tipo Ford. É certo que eles não se importam com a “humanidade”, com a “espiritualidade” do tra- balhador que imediatamente são esmagadas. Esta “humanidade e espiritualidade” só pode se realizar no mundo da produção e do trabalho, na “criação” produtiva; ela era máxima com o artesão, com o “demiurgo”, quando a personalidade do trabalhador se re- fletia inteiramente no objeto criado, quando ainda era muito forte o laço entre arte e trabalho. Entretanto, o novo industrialismo luta precisamente contra este “humanismo”. As iniciativas “puritanas” só tem o objetivo de conservar, fora do trabalho, algum equilí- brio psicofísico para impedir o colapso fisiológico do trabalhador, coagido pelo novo método de produção. Este equilíbrio só pode ser puramente exterior e mecânico, mas poderá se tornar interno se for proposto pelo próprio trabalhador ao invés de ser imposto por fora, por uma nova forma de sociedade com meios apropria- dos e originais. O industrial americano se preocupa em manter a continuidade da eficiência física do trabalhador, de sua eficiência |37| 30 caderno 22 (v) muscular-nervosa: é de seu interesse ter um quadro estável de tra- balhadores qualificados, um conjunto permanentemente coeso, já que o conjunto humano (o trabalhador coletivo) de uma empresa é uma máquina que não deve ser excessivamente desmontada com frequência e renovada em suas peças singulares provocando perdas ingentes. O assim dito alto salário é um elemento dependente desta necessidade: este é o instrumento para selecionar um trabalhador qualificado apto ao sistema de produção e de trabalho e mantê-lo estavelmente. Entretanto o alto salário é uma arma de dois gumes: é preciso que o trabalhador gaste “racionalmente” o máximo do dinheiro para manter, renovar e possivelmente aumentar sua efici- ência muscular-nervosa, e não para destruí-la ou afetá-la. Eis que a luta contra o álcool, o agente mais perigoso da destruição da forca- -de-trabalho, torna-se função de Estado. É possível que outras lutas “puritanas” também se tornem função de Estado, se a iniciativa pri- vada dos industriais se demonstrasse insuficiente|ou desencadeasse uma crise de moralidade muito profunda e extensa entre as massas trabalhadoras, o que poderia ocorrer em consequência de uma lon- ga e extensa crise de desemprego. A questão do álcool está ligada à questão sexual: o abuso e irregularidade das funções sexuais são, de- pois do alcoolismo, os inimigos mais perigosos das energias nervo- sas e, segundo uma observação comum, o trabalho “obsessivo” pro- voca depravação alcoólica e sexual. As tentativas feitas por Ford de intervir, com um corpo de inspetores, na vida privada de seus em- pregados e de controlar como gastavam seu salário e como viviam, são um indício destas tendências ainda “privadas” ou latentes, que podem se tornar, em um determinado momento, ideologia estatal, inserindo-se no puritanismo tradicional, ou seja, apresentando-se como um renascimento da moral dos pioneiros, do “verdadeiro” americanismo etc. [4]. O fato mais considerável do fenômeno ame- ricano em relação a estas manifestações, é a separação que se for- mou e que cada vez mais se acentuará, entre a moralidade-costume dos trabalhadores e aquela de outros estratos da população. O proi- bicionismo já deu um exemplo desta separação. Quem consumia o álcool introduzido de contrabando nos E.U.[Estados Unidos]? O álcool tornara-se uma mercadoria de grande luxo e nem mesmo |38| 311934: americanismo e fordismo os maiores salários podiam permitir o consumo para amplos estra- tos das massas trabalhadoras: quem trabalha por salário, com um horário fixo, não tem tempo para dedicar-se à procura de álcool, não tem tempo para dedicar ao esporte de eludir as leis. A mesma observação pode ser feita a respeito da sexualidade. A “caça à mu- lher” exige muito “ócio”; para o operário de novo tipo se repete, sob outra forma, o que acontece nos povoados camponeses. A relativa solidez das uniões sexuais camponesas está estreitamente ligada ao sistema de trabalho do campo. O camponês que volta para casa à noite, depois de uma longa jornada de labor, quer a “Venerem fa- cilem parabilemque” de Horácio: ele não possui a atitude de correr atrás de prostitutas; ele ama sua mulher, |firme, indefectível, que não faz mimos e não pretende a comédia da sedução e do estupro para ser possuída. Assim a função sexual parece mecanizada, mas na realidade trata-se do surgimento de uma nova forma de união se- xual, sem as cores “ofuscantes” da fantasia romântica própria do pe- queno burguês e do boêmio preguiçoso. Aparece claro que o novo industrialismo quer a monogamia, quer que o homem-trabalhadornão gaste suas energias nervosas na busca caótica e excitante da sa- tisfação sexual ocasional: o operário que vai ao trabalho após uma noite de “extravagâncias” não é um bom trabalhador, a exaltação passional não pode ir de acordo com os movimentos cronometra- dos dos gestos produtivos ligados aos mais perfeitos automatismos. Este conjunto de constrangimentos e coerções diretas e indiretas exercidas sobre a massa obterá sem dúvida resultados e surgirá uma nova forma de união sexual, em que monogamia e relativa esta- bilidade parecem ser o marco característico e fundamental. Seria interessante conhecer os resultados estatísticos dos fenômenos de desvio dos costumes sexuais oficialmente propagandeados nos Es- tados Unidos, analisados por grupos sociais: em geral será possível verificar que os divórcios são numerosos, especialmente entre as classes superiores. Esta separação de moralidade nos Estados Unidos, entre as mas- sas trabalhadoras e elementos cada vez mais numerosos das classes dirigentes, parece ser um dos fenômenos mais interessantes e rico |39| 32 caderno 22 (v) de consequências. Até há pouco tempo o povo americano era um povo de trabalhadores: a “vocação laboriosa” não era um aspecto que dizia respeito apenas às classes operárias, mas era uma quali- dade específica também das classes dirigentes. O fato de um milio- nário continuar praticamente ativo até que a doença ou a velhice o obrigue ao repouso, e o fato de que sua atividade ocupe um número importante de horas de sua jornada: eis um dos fenômenos tipica- mente americanos, eis a americanada mais incrível para o europeu médio. Ressaltamos precedentemente [5] que esta diferença| entre americanos e europeus consiste na falta de “tradição” nos Estados Unidos, na medida em que tradição significa também resíduo pas- sivo de todas as formas sociais definhadas na história: nos Estados Unidos, pelo contrário, a tradição dos “pioneiros” ainda é recente, isto é de fortes individualidades em que a “vocação laboriosa” al- cançara maior intensidade e vigor, de homens que diretamente, e não por meio de um exército de escravos ou de servos, entravam em contato enérgico com as forças naturais para dominá-las e explorá- -las vitoriosamente. Estes resíduos passivos na Europa resistem ao americanismo, “representam a qualidade etc.”[6], porque eles sen- tem instintivamente que as novas formas de produção e de trabalho os varreriam implacavelmente. Contudo, se for verdade que na Europa, desta maneira, o velho ainda não enterrado seria definitivamente destruído, o que começa a ocorrer na América? A separação de moralidade antes apontada, mostra que estão se criando margens de passividade social cada vez mais amplas. Parece que as mulheres tenham uma função predomi- nante neste fenômeno. O homem-industrial continua trabalhando ainda que milionário, ao passo que sua mulher e suas filhas se tor- nam cada vez mais “mamíferos de luxo”. Os concursos de beleza, os concursos para o pessoal do cinema (lembrar das 30.000 mo- ças italianas que em 1926 enviaram suas fotografias em maiô para a Fox) [7], o teatro etc. selecionando a beleza feminina mundial e colocando-a em leilão, suscitam uma mentalidade de prostituição, e o “tráfico das mulheres” é realizado legalmente pelas classes al- tas. As mulheres, ociosas, viajam, cruzam continuamente o ocea- |40| 331934: americanismo e fordismo no para vir à Europa, fogem ao proibicionismo pátrio e contraem “casamentos” por temporada (deve-se lembrar que os comandantes marítimos foram proibidos de celebrar casamentos a bordo, porque muitos casais se casavam ao sair da Europa e se divorciavam antes de desembarcar na América): a prostituição real alastra-se, dissimula- da apenas por frágeis formalidades jurídicas. Estes fenômenos, próprios das classes altas, tornarão mais difícil a coerção sobre as massas trabalhadoras para adequá-las às necessi- dades da nova indústria; |de toda maneira determinam uma fratu- ra psicológica e aceleram*a cristalização e a saturação dos grupos sociais, tornando evidente a sua transformação em castas, como ocorreu na Europa. CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 22-24. § 〈12〉. Taylorismo e mecanização do trabalhador. A propósito da separação que o taylorismo determinaria entre trabalho manual e “conteúdo humano” do trabalho, é possível fazer úteis observa- ções sobre o passado, e exatamente a respeito das profissões consi- deradas entre as mais “intelectuais”, ou seja, as profissões ligadas à reprodução dos escritos para a publicação ou para outra forma de difusão e transmissão: os copistas de antes da invenção da impren- sa, os compositores manuais, os linotipistas, os estenógrafos, os da- tilógrafos. Se refletirmos, veremos que nestas profissões o processo de adaptação à mecanização é mais difícil do que nos outros. Por quê? Porque é difícil alcançar a máxima qualificação profissional, que exige do operário que ele “esqueça” ou não reflita sobre o con- teúdo intelectual do escrito que reproduz, para fixar sua atenção só na forma caligráfica de cada caráter, se for copista, ou na decom- posição das frases em palavras “abstratas” e estas em letras-carac- teres e escolher rapidamente as peças de chumbo nas caixas, para decompor não mais apenas cada palavra, mas grupos de palavras, no contexto de um discurso, mecanicamente, combinando-os em siglas estenográficas, para obter a rapidez, na máquina de escrever |41| * NO MS: «ACELERA». 34 caderno 22 (v) etc. O interesse do trabalhador pelo conteúdo intelectual do texto mede-se por seus erros, ou seja, é uma deficiência profissional: sua qualificação é medida exatamente por seu desinteresse intelectual, ou seja, por sua “mecanização”. O copista medieval que se interessa- va pelo texto, mudava a ortografia, a morfologia, a sintaxe do texto reproduzido, deixava de lado períodos inteiros que não compre- endia, por sua escassa cultura, o decurso dos pensamentos que o texto suscitava nele o levava a interpolar glosas e advertências; se o seu dialeto ou o seu idioma eram diferentes daqueles do texto, ele introduzia nuances da sua própria língua; era um mau copista porque na realidade|“refazia” o texto. A lentidão da arte de escre- ver medieval explica muitas destas deficiências: havia demasiado tempo para refletir e, portanto, a “mecanização” era mais difícil. O tipógrafo deve ser muito rápido, suas mãos e seus olhos devem estar em contínuo movimento e isto torna mais fácil a sua mecanização. Entretanto, se pensarmos bem, o esforço que estes trabalhadores devem fazer para isolar o conteúdo intelectual do texto, às vezes muito empolgante (e neste caso efetivamente trabalha-se menos e pior), de sua simbolização gráfica e de aplicar-se só nela, seja talvez o esforço maior que se demanda a uma profissão. Contudo, isto é feito e não mata espiritualmente o homem. Quando o proces- so de adaptação ocorreu, verifica-se na realidade que o cérebro do operário ao invés de mumificar-se, alcança um estado de completa liberdade. Mecanizou-se completamente apenas o gesto físico; a memória da profissão, reduzida a gestos simples e repetidos com ritmo intenso, se “aninhou” nos feixes musculares e nervosos que deixaram o cérebro livre e limpo de outras preocupações. Assim como caminhamos sem necessidade de refletir sobre todos os mo- vimentos necessários para movimentar sincronicamente todas as partes do corpo, no determinado modo que é necessário para ca- minhar, assim ocorreu e continuará ocorrendo na indústria para os gestos fundamentais do ofício; caminhamos automaticamente e ao mesmo tempo pensamos em tudo o que quisermos. Os industriais americanos compreenderam muito bem esta dialética presente nos novos métodos industriais. Eles compreenderam que “gorila ames- trado” é uma frase, que o operário, “infelizmente” fica homem e até |42| 351934: americanismo e fordismo que ele, durante o trabalho, pensa mais, ou pelo menos, tem muito mais possibilidade de pensar, pelo menos quandosuperou a crise de adaptação e não foi eliminado: e não só pensa, mas o fato de o trabalho não lhe dar satisfação imediata e o fato de compreender que se quer torná-lo gorila amestrado, pode levá-lo a um curso de pensamentos pouco conformistas. A existência desta preocupação entre os |industriais aparece em toda uma série de cautelas e ini- ciativas «educativas» que podem se extrair dos livros de Ford e da obra de Philip [1]. CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 24-25. § 〈13〉. Os altos salários. É obvio pensar que os chamados altos salários representam uma forma transitória de retribuição. A adap- tação aos novos métodos de produção e de trabalho não pode ocor- rer só pela coação social: este é um “preconceito” bastante difuso na Europa [e especialmente no Japão], que não demorará a ter gra- ves consequências para a saúde física e psíquica dos trabalhadores, um “preconceito” que, por outro lado, só tem base no endêmico desemprego que ocorreu no pós-guerra. Se a situação fosse “nor- mal”, o aparelho de coerção necessário para a obtenção do resultado desejado custaria mais do que os altos salários. Por isto, a coerção deve ser sabiamente combinada com a persuasão e o consenso, e isto pode ser obtido, nas formas próprias de uma determinada so- ciedade, através de uma maior retribuição que permita um determi- nado teor de vida, capaz de manter e reintegrar as forças desgasta- das pelo novo tipo de esforço. Mas, assim que os novos métodos de trabalho e de produção se generalizarem e difundirem, assim que o novo tipo de operário for criado universalmente e o aparelho de produção material se aperfeiçoar ainda mais, a excessiva rotativida- de [1] será automaticamente limitada por um extenso desemprego e os altos salários desaparecerão. Na realidade a indústria americana baseada nos altos salários ainda explora um monopólio constituído sobre o fato de ter a iniciativa dos novos métodos; os salários de monopólio correspondem aos lucros de monopólio. Mas o mono- pólio necessariamente será antes limitado e depois destruído pela |43| 36 caderno 22 (v) difusão dos novos métodos, tanto nos E.U. [Estados Unidos] como no exterior (veja-se o fenômeno japonês dos baixos preços das mer- cadorias) [2] e junto com os grandes lucros também desaparecerão os altos salários. De outra parte, sabe-se que os altos salários estão necessariamente vinculados a uma aristocracia operária, e não|são pagos a todos os trabalhadores americanos. Toda a ideologia fordista dos altos salários é um fenômeno de- rivado da necessidade objetiva da indústria moderna que atingiu um determinado grau de desenvolvimento e não um fenômeno pri- mário (o que, porém, não dispensa o estudo da importância e das repercussões que a ideologia pode provocar). Para começar, o que significa “alto salário”? O salário pago por Ford é alto apenas em comparação com a média dos salários americanos, ou é alto como preço da força de trabalho que os empregados da Ford gastam na produção e com os métodos de trabalho de Ford? Parece que não foi feita uma pesquisa sistemática, contudo, ela somente poderia fornecer uma resposta conclusiva. A pesquisa é difícil, mas as cau- sas mesmas desta dificuldade constituem uma resposta indireta. A resposta é difícil porque o quadro de operários qualificados da Ford é bastante instável e, portanto, não é possível estabelecer uma média “racional” de dispensas entre os operários da Ford que se possa comparar com a média das outras indústrias. Mas por que esta instabilidade? Por que um operário pode preferir um salário “mais baixo” daquele pago por Ford? Isto não significará dizer que os assim ditos “altos salários” são menos convenientes para a re- constituição da força de trabalho gasta, do que os salários menores das outras empresas? A instabilidade do quadro de trabalhadores qualificados demonstra que as condições normais de concorrência entre os operários (diferença de salários) só funcionam dentro de alguns limites no que diz respeito à indústria Ford: não funciona o diferente grau entre as médias do salário e não funciona a pressão do exército de reserva dos desempregados. Isto significa que se deve procurar, na indústria Ford, algum novo elemento, que será a ori- gem real seja dos “altos salários”, seja dos outros fenômenos apon- tados (instabilidade etc.). Este elemento só pode ser buscado nisto: |44| 371934: americanismo e fordismo a indústria Ford exige uma discriminação, uma qualificação, entre os seus operários, que as outras indústrias ainda não |exigem, uma qualificação de nova natureza, uma forma de consumo de força de trabalho e uma quantidade de força gasta, no mesmo tempo médio, mais gravosas e mais desgastantes do que em outros lugares e que o salário não consegue compensar em todos os casos, não consegue reconstituir nas condições dadas pela sociedade assim como ela é. Colocadas as razões, apresenta-se o problema: se o tipo de indús- tria e de organização do trabalho e da produção próprio da Ford, é “racional”, isto é, se pode e deve generalizar-se, ou se, ao invés, trata-se de um fenômeno mórbido que se deve combater através da força sindical e da legislação. Ou seja, se é possível, com a pressão material e moral da sociedade e do Estado, fazer com que os ope- rários enquanto massa sofram todo o processo de transformação psicofísica para fazer com que o tipo médio de operário Ford se torne o tipo médio do operário moderno, ou se isto é impossível, já que levaria à degeneração física e à deterioração da raça, destruindo toda força de trabalho. Parece que se possa responder que o método de Ford é “racional”, isto é, que deve generalizar-se, mas que para isto é necessário um longo processo, em que ocorra uma mudança das condições sociais e uma mudança dos costumes e dos hábitos individuais, o que não pode ocorrer apenas pela “coerção”, mas só por meio de uma harmonização entre coação (autodisciplina) e persuasão, sob a forma inclusive de altos salários, ou seja, da possi- bilidade de um melhor teor de vida, ou talvez, mais exatamente, da possibilidade de realizar o teor de vida adequado aos novos modos de produção e de trabalho, que exigem um particular gasto de ener- gias musculares e nervosas. Em medida limitada, mas, contudo, relevante, fenômenos similares àqueles determinados em larga escala pelo Fordismo, ocorreram e ocorrem em alguns ramos de indústria ou em alguns estabelecimentos não “fordizados”. Constituir um orgânico e bem articulado quadro de trabalhadores de fábrica qualificados, ou de uma equipe de trabalho especializada, nunca foi coisa|simples: ora, uma vez que se constituiu este quadro ou esta equipe, os seus |45| |46| 38 caderno 22 (v) componentes, ou uma parte deles, acabam às vezes não só se be- neficiando de um salário de monopólio, mas também não sendo demitidos em caso de parada temporária da produção; seria antie- conômico desperdiçar os elementos de um todo orgânico consti- tuído laboriosamente porque seria quase impossível reagrupá-los enquanto a reconstrução deste todo com elementos novos, for- tuitos, custaria tentativas e gastos não indiferentes. Isto represen- ta um limite da lei de concorrência determinada pelo exército de reserva e pelo desemprego e este limite sempre esteve na origem das formações de aristocracias privilegiadas. Como nunca funcio- nou e não funciona uma lei de equiparação perfeita dos sistemas e dos métodos de produção e de trabalho para todas as empresas de um determinado ramo da indústria, conclui-se que toda empresa, em certa medida, mais ou menos ampla, é “única”, e forma um quadro de trabalhadores qualificados com competências adequa- das a esta particular empresa: pequenos “segredos” de fabricação e de trabalho, “artimanhas” que parecem sem importância em si, mas que, repetidas infinitas vezes, podem adquirir uma impor- tância econômica ingente. Um caso particular pode ser estudado na organização do trabalho dos portos, especialmente onde exis- te desequilíbrioentre embarque e desembarque de mercadorias e onde ocorrem períodos de alta de trabalho e períodos mortos. É necessário ter um quadro de estivadores qualificados sempre dis- poníveis (que não se afastem do local de trabalho) para o mínimo de trabalho na baixa estação ou de outro tipo, e, portanto, a for- mação de grupos fechados, com altos salários e outros privilégios, em contraposição com a massa dos trabalhadores “temporários” etc. Isto ocorre também na agricultura, na relação entre colonos fixos e jornaleiros e em diversas indústrias onde existem os “pe- ríodos mortos”, por razões inerentes à própria indústria, como a do vestuário, ou por causa da má organização|do comércio do atacado, que compra segundo ciclos próprios, descolados do ciclo de produção etc. CF. CADERNO 4 (XIII), PP. 25 – 25 BIS; CADERNO 9 (XIV), PP. 56-57 E 58. |47| 391934: americanismo e fordismo § 〈 14 〉. Ações, obrigações, títulos de Estado. Que radical mudan- ça introduzirá na orientação da pequena e média poupança a atual depressão econômica se, como parece provável, ela se prolongar por algum tempo ainda? Pode-se observar que a queda do mercado acionário determinou uma desmedida deslocação de riqueza e um fenômeno de expropriação “simultânea” da poupança de grandes massas da população, um pouco por toda parte, mas especialmente na América: assim, os processos mórbidos que ocorreram por cau- sa da inflação, no primeiro pós-guerra, renovaram-se em toda uma série de países, e operaram nestes países que no período precedente não foram afetados pela inflação. O sistema que o governo italiano intensificou nestes anos (con- tinuando uma tradição já existente, ainda que em escala menor) parece o mais racional e orgânico, pelo menos por um grupo de países, mas que tipo de consequências poderá ter? Diferença entre ações ordinárias e ações preferenciais, entre estas e as obrigações, entre ações e obrigações do mercado livre e obrigações ou títulos de Estado. A massa de poupadores busca desfazer-se completamen- te de todo tipo de ações, desvalorizadas de modo inaudito, prefere as obrigações às ações, mas prefere os títulos de Estado a qualquer outra forma de investimento. Pode-se dizer que a massa de pou- padores quer romper qualquer vínculo direto com o conjunto do sistema capitalístico privado, mas não rejeita a confiança para com o Estado: quer participar da atividade econômica, mas através do Estado, que garanta um juro módico, mas seguro. O Estado tor- na-se assim investido de uma função de primeira importância no sistema capitalista, como empresa (holding estatal) que concen- tra a poupança |disponibilizando-a para a indústria e a atividade privada, como investidor a médio e longo prazo (criação italiana de diversos Institutos, de Crédito mobiliário, de reconstrução in- dustrial etc.; transformação do Banco Comercial, consolidação das Caixas de poupança, criação de novas formas na poupança postal etc.) [1]. Entretanto, uma vez assumida esta função, por necessida- des econômicas imprescindíveis, pode o Estado desinteressar-se na organização da produção e da troca? Deixá-la, como antes, para a |48| 40 caderno 22 (v) iniciativa da concorrência e para a iniciativa* privada? Se isto ocor- rer, a desconfiança que hoje atinge a indústria e o comércio privado, envolveria também o Estado; a configuração de uma situação que obrigasse o Estado a desvalorizar seus títulos (através da inflação ou por outra forma) assim como se desvalorizaram as ações privadas, seria catastrófica para o conjunto da organização econômico-so- cial. Desta forma o Estado necessariamente é levado a intervir para controlar se os investimentos ocorridos por seu intermédio estão bem administrados, e assim compreende-se pelo menos um aspecto das discussões teóricas sobre o regime corporativo. Mas o puro con- trole não é suficiente. De fato, não se trata só de conservar o apare- lho produtivo tal como é em um determinado momento; trata-se de reorganizá-lo para desenvolvê-lo paralelamente ao aumento da população e das necessidades coletivas. O maior risco da iniciativa privada está exatamente nestes desenvolvimentos necessários e de- veria ser maior a intervenção do Estado, que também não está isen- to de perigos, muito pelo contrário. (Apontam-se estes elementos, assim como os mais orgânicos e essenciais, mas também outros ele- mentos levam à intervenção estatal, ou a justificam teoricamente: o agravamento dos regimes aduaneiros e das tendências autárquicas, os subsídios, o dumping, o resgate das grandes empresas à beira da falência ou instáveis; ou seja, como já foi dito, a “nacionalização das perdas e dos déficits industriais” [2] etc.). Se o Estado propusesse a imposição de uma diretriz econômica segundo a qual a produção da poupança de “função” de uma classe parasitária |se tornasse função do próprio organismo produtivo, tais hipotéticos desenvolvimentos seriam progressivos, poderiam caber em um amplo desenho de racionalização integral: seria preciso, por- tanto, promover uma reforma agrária (com a abolição da renda da terra como renda de uma classe não trabalhadora e incorporação dela no organismo produtivo, como poupança coletiva dedicada à recons- trução e a ulteriores progressos) e uma reforma industrial, para recon- duzir todas as rendas às necessidades funcionais técnico-industriais e não mais às consequências jurídicas do puro direito de propriedade. |49| * NO MS: "DA INICIATIVA". 411934: americanismo e fordismo Deste conjunto de exigências, nem sempre confessadas, nasce a justificação histórica das assim ditas tendências corporativas, que se manifestam prevalentemente como exaltação do Estado em ge- ral, concebido como algo absoluto e como desconfiança e aversão às formas tradicionais do capitalismo. Daqui decorre que, teorica- mente, o Estado parece ter sua base político-social na “gente miúda” e nos intelectuais, mas na realidade a sua estrutura é plutocrática e fica impossível romper os laços com o grande capital financeiro: na realidade é o próprio Estado que se torna o maior organismo plu- tocrático, a holding das grandes massas de poupança dos pequenos capitalistas. (O Estado jesuíta do Paraguai poderia ser utilmente tomado como modelo de muitas tendências contemporâneas). Que possa existir um Estado baseado politicamente sobre a plu- tocracia e sobre a gente miúda ao mesmo tempo, não é algo com- pletamente contraditório, como demonstra um país exemplar, a França, onde justamente não se compreenderia o domínio do capital financeiro sem a base política de uma democracia de rentistas pe- queno-burgueses e de camponeses. Entretanto, a França, por razões complexas, ainda tem uma composição social bastante sadia, porque existe uma ampla base de pequena e média propriedade agrícola. Em outros países, ao invés, os poupadores são separados do mundo da produção e do trabalho; a poupança aqui é demasiado cara “so- cialmente”, porque é conseguida através de um nível de vida muito baixo dos trabalhadores industriais e especialmente|agrícolas. Se a nova estrutura de crédito consolidasse esta situação, na realidade ha- veria uma piora: se a poupança parasitária, graças à garantia estatal, não tivesse nem mesmo de correr o risco do mercado normal, de um lado se fortaleceria a propriedade fundiária parasitária, e do outro as obrigações industriais que geram dividendos legais, com certeza pesariam de forma ainda mais esmagadora sobre o trabalho. CF. CADERNO 9 (XIV), PP. 11-13. § 〈15〉. Civilização americana e europeia. Em uma entrevista com Corrado Alvaro («L´Italia Letteraria», 14 de abril de 1929) Luigi Pirandello afirma: “O americanismo submerge-nos. Creio que um |50| 42 caderno 22 (v) novo farol de civilização se acendeu por lá”. “O dinheiro que corre pelo mundo é americano (?!), e atrás do dinheiro (!) corre o modo de vida e a cultura (isto só é verdade para a nata da sociedade, e parece que Pirandello, e com ele muitos outros, acredite que esta natacos- mopolita constitua o 'mundo' todo). Tem a América uma cultura? (seria necessário dizer: tem uma cultura unitária e centralizada, isto é, a América é uma nação de tipo francês, alemão e inglês?) Tem li- vros e hábitos. Os hábitos constituem sua nova literatura, aquela que penetra através das portas mais armadas e defendidas. Em Berlim não se percebe o descolamento entre velha e nova Europa porque a própria estrutura da cidade não oferece resistências (Pirandello hoje não poderia afirmar o mesmo, e, portanto, é preciso compreender que estava se referindo à Berlim dos cafés noturnos). Em Paris, onde existe uma estrutura histórica e artística, onde os testemunhos de uma civilização autóctone estão presentes, o americanismo destoa como o pó de arroz sobre o velho rosto de uma prostituta”[1]. Mas o problema não é saber se na América existe ou não uma nova civilização, uma nova cultura, ainda que no estado de “farol” e se elas estão invadindo ou já invadiram a Europa; se o problema for posto assim, a resposta seria |fácil: não, não existe etc. e, ao contrá- rio, na América nada mais se faz do que remastigar a velha cultura europeia. Este é o problema: se a América, com o peso implacável de sua produção econômica (ou seja, indiretamente) obrigará ou estará obrigando a Europa a uma transformação radical de sua estrutura econômico-social demasiado antiquada, o que ocorreria de qualquer forma, mas com ritmo lento e que imediatamente se apresenta, ao in- vés, como reação à “prepotência” americana, ou seja, se está ocorren- do uma transformação das bases materiais da civilização europeia, o que no longo prazo (e nem muito longo, porque no período atual tudo é mais rápido do que nos períodos passados) levará a um derru- bamento da forma de civilização existente e ao nascimento forçado de uma nova civilização. Os elementos de “nova cultura” e de “novo modo de vida” que hoje se difundem sob a etiqueta americana, representam apenas as primeiras tentativas, feitas às cegas, devidas não tanto a uma “or- |51| 431934: americanismo e fordismo dem” que nasce de uma nova instância, que ainda não se formou, mas à iniciativa superficial e simiesca dos elementos que iniciam a se sentir socialmente deslocados pelo operar (ainda destrutivo e dissolutivo) da nova instância em formação. Aquilo que hoje é cha- mado de “americanismo” é em grande parte a crítica preventiva dos velhos estratos que serão esmagados pela possível nova ordem e que já são presa de uma onda de pânico social, de dissolução, de deses- pero, é uma tentativa de reação inconsciente de quem é impotente a reconstruir e toma como apoio os aspectos negativos da trans- formação*. Não se pode esperar que a reconstrução seja feita pelos grupos sociais “condenados” pela nova ordem, mas sim daqueles que estão criando, por imposição e com seu próprio sofrimento, as bases materiais desta nova ordem: eles “devem” encontrar o sistema de vida “original” e não de marca americana, para transformar em “liberdade” o que hoje é “necessidade”. Este critério pelo qual tanto as reações intelectuais e morais ao estabelecer-se um novo método|produtivo, quanto as exaltações superficiais do americanismo se devem aos detritos dos velhos estratos em ruína e não aos grupos cujo destino está ligado a um ulterior desenvolvimento do novo método, é extremamente impor- tante e explica por que alguns elementos responsáveis da política moderna, que baseiam sua fortuna na organização do conjunto do estrato médio, não queiram tomar posição mas se mantêm “teorica- mente” neutros, resolvendo os problemas práticos através do tradi- cional método do empirismo e do oportunismo (cfr. as diversas in- terpretações do ruralismo de U. Spirito, que pretende “urbanizar” o campo, até aos outros que tocam a flauta de Pan) [2]. Que não se trate, no caso do americanismo, entendido não só como vida de bar, mas também como ideologia do Rotary Club, de um novo tipo de civilização é visível pelo fato de que nada mudou no caráter e nas relações entre os grupos fundamentais: trata-se de um prolongamento orgânico e de uma intensificação da civilização europeia, que só assumiu uma epiderme nova no clima americano. |52| * NO MS: "DA TRANSFORMAÇÃO QUE APRESENTAM". 44 caderno 22 (v) A observação de Pirandello sobre a oposição que o americanismo encontra em Paris (mas no Creusot?) [3] e sobre a recepção imedia- ta que encontraria em Berlim, prova, em todo caso, que não se trata de diferença de natureza, mas apenas de grau em relação ao “euro- peísmo”. Em Berlim as classes médias já haviam sido arruinadas pela guerra e pela inflação e a indústria berlinense em seu conjunto tem caraterísticas diversas da parisiense: as classes médias francesas não sofreram as crises ocasionais como a inflação alemã, tampouco a crise orgânica de 1929 e seguintes*, com o mesmo ritmo acelerado que sofreu a Alemanha. Por isto é|verdade que em Paris o america- nismo apareça como uma maquilagem, como uma superficial moda estrangeira. CF. CADERNO 3 (XX), PP. 7 BIS - 8 BIS. § 〈16〉. Várias. Vale lembrar alguns livros de Guglielmo Ferrero sobre a América: quantos lugares comuns cunhados por Ferrero en- traram em circulação e continuam sendo usados sem levar em conta sua origem? (Quantidade contra qualidade, por exemplo, tem sua origem em Ferrero que, portanto, é o pai espiritual de toda a ideo- logia tola sobre o retorno do artesanato etc. O livro de Ferrero Fra i due mondi [1] deve ser considerado como a bíblia de uma série de banalidades entre as mais gastas e vulgares). Sobre o americanismo é preciso ver o artigo “L'America nella let- teratura francese del 1927”, de Etienne Fournol na «Nuova Anto- logia» de 1º de abril de 1928 [2], útil como repertório das banalida- des mais grosseiras sobre o tema. Fala do livro de Siegfried e do de Romier (Qui sera le maître?) [3], menciona um livro de Andrea Tar- dieu (Devant l´obstacle: l´Amerique et nous, Paris, Librairie Emil Paul) e dois livros de Luc Durtain, um romance, Hollywood depassé, e uma coletânea de novelas, Quarantième étage, ambos editos pela N.R.F. e que parecem interessantes [4]. |53| * NO MS, SEGUEM ALGUMAS PALAVRAS APAGADAS: "QUE FOI NA ALEMANHA MAIS RÁPIDA DO QUE O RITMO NORMAL". 451934: americanismo e fordismo A propósito do Prof. Siegfried deve-se notar esta sua contradi- ção: na pág. 350 de seu volume Les États-Unis d´aujourd´hui, ele reconhece na vida americana “o aspecto de uma sociedade realmen- te (!) coletivista, desejado pelas classes eleitas e aceito alegremente (sic) pela multidão” [5], mas depois Siegfried escreve o prefácio ao livro de Philip sobre o movimento operário americano [6] louvan- do-o, apesar de que o livro não demonstre exatamente esta “alegria”, nem que na América não exista luta de classes, mas ao invés de- monstre a existência da mais desmedida e feroz luta de uma parte contra a outra. A mesma comparação poderia ser feita entre o livro de Romier e o de Philip. Deve-se|evidenciar que na Europa acei- tou-se com grande facilidade (e foi difundido muito habilmente) o quadro róseo de uma América sem lutas internas (atualmente as dificuldades se esclarecem) etc. etc. De modo que, no mesmo tem- po, combateu-se o americanismo enquanto subversor da estagnan- te sociedade europeia, mas apresentou-se a América como exemplo de homogeneidade social para fins de propaganda e como premissa ideológica para as leis de exceção. CF. CADERNO 3 (XX), PP. 38 BIS – 39. |54|das notas carcerárias do grande mar- xista e comunista sardo. Tanto que, como se sabe, atualmente está em andamento uma nova edição crítica dos Cadernos organizada por Gianni Francioni, Giuseppe Cospito e Fabio Frosini, edição que procura aprofundar as referências cronológicas, a pesquisa das fontes, etc. Desta edição saíram em língua italiana os primeiros oito IV cadernos gramscianos e os Cadernos de Tradução, até agora inédi- tos, enquanto os cadernos seguintes ainda devem ser publicados. Por todos estes motivos mencionados acima, quando eu soube que a IGS-Brasil havia decidido iniciar um grande empreendi- mento coletivo para uma nova tradução integral dos Cadernos do Cárcere, manifestei meu interesse e apoio à iniciativa. O conheci- mento dos Cadernos na forma como foram escritos por Gramsci é, atualmente, o melhor ponto de partida para ler e estudar a maior obra deste autor. Esta obra já está integralmente disponível em es- panhol (onde recentemente foi lançada uma segunda tradução pela Editora Akal). Eu pessoalmente manifesto a esperança de que no- vas traduções completas das obras gramscianas (dos Cadernos, mas possivelmente também das Cartas do Cárcere, dos escritos pré-car- cerários e das cartas precedentes à prisão) estejam disponíveis ao menos em todas as principais línguas do mundo. Uma tradução tão abrangente quanto esta nova edição em lín- gua portuguesa, levada a termo em um período bastante limitado, graças ao empenho militante de muitos estudiosos e estudiosas da IGS-Brasil, apresenta inevitáveis problemas de amálgama da termi- nologia usada pelos vários tradutores, para exprimir temas e pro- blemas gramscianos. Certamente uma atenção especial a esta e a outras questões relacionadas será dada pelo grupo que levou adian- te este esforço coletivo tão relevante. O tempo, o debate público, o cotejo entre os estudiosos e os leitores nos dirá muito – nos próximos anos – sobre o resultado alcançado com esta edição e também, eventualmente, sobre o seu aperfeiçoamento. Contudo, permanecerá válida a direção que esta edição indica: traduzir e ler Gramsci inteiramente, em primeiro lu- gar aquele dos Cadernos, contextualizar sempre mais, no tempo e no espaço os seus escritos, as suas afirmações, as suas palavras, no contexto político e cultural nos quais nasceram, perquirindo tam- bém as variações e inclusive as contradições internas aos seus escri- tos – para melhor compreender o alcance atual do seu pensamento, a sua validade ou a sua tradutibilidade (conceito gramsciano de ex- traordinária relevância) no nosso mundo de hoje. V Desta perspectiva, o trabalho que a IGS-Brasil levou a termo é, sem dúvida, de grande importância e nos faz compreender como as obras de Gramsci devem ser seriamente lidas e estudadas. Por isso, saúdo a nova tradução dos Cadernos do Cárcere para o português e agradeço todas e todos aqueles que dela participaram e à IGS-Bra- sil no seu conjunto por ter dado vida a esta iniciativa. Sigamos em frente com Gramsci: Nino vive conosco se a sua lei- tura também nos ajudar a compreender a realidade da sociedade atual. Guido Liguori International Gramsci Society VI AGRADECIMENTOS A tradução dos Cadernos do Cárcere de Gramsci, realizada vo- luntária e gratuitamente por sócios da IGS-BR, foi submetida a re- visão e padronização de profissionais, aos quais se retribuiu finan- ceiramente. Realizamos uma campanha de arrecadação financeira entre os sócios da IGS-Brasil que ajudou a cobrir, parcialmente, essa despesa. Constam a seguir os doadores a quem se agradece pelo espírito coletivo: André Silva Martins (UFJF); Ascisio dos Reis Pe- reira (UFSCar); Danuta Estrufika C. Luiz (UEPG-PR); Dermeval Saviani (UNICAMP); Dilma Andrade de Paula (UFU); Douglas Christian F. de Melo (UFES); Emilie Faedo della Giustina (UFF); Erika Laurinda Amusquivar (UnB); Eurelino T.; Ivete Simionatto (UFSC); Leonardo Seabra Puglia (FCSMA-RJ); Lincoln Secco (USP); Luzinete de Souza Oliveira (ES); Márcia Aparecida Jaco- mini (UNIFESP); Marcos Aurélio da Silva (UFSC); Marcos Fran- cisco Martins (UFSCar); Marcos Del Roio (UNESP); Mª Del Carmen Cortizo (UFSC); Mª Margarida Machado (UFG); Mª Socorro R. Militão (UFU); Marilia Etienne Arreguy (UFF); Mari- na Maciel Abreu (UFMA); Pedro Cláudio C. B. Bocaiuva Cunha (UFRJ); Raúl Burgos (UFSC); Renê Trentin Silveira (UNI- CAMP); Rodolfo S. P. Darrieux (RJ); Victor Leandro C. Gomes (UFF); Zuleide Simas da Silveira (UFF); Núcleo de Estudos e Pes- quisas em Filosofia Política e Educação (NuFiPE/UFF); Núcleo de Estudos Trabalho, Políticas Públicas e Serviço Social (TRAPPUS/ PUC-Rio). Agradecemos também ao CNPq, pelo financiamento ao projeto: "Contribuições de Gramsci para pensar a educação de pessoas trabalhadoras" – coordenado pela Profª Mª Margarida Ma- chado (UFG), que viabilizou a diagramação desta 1ª Edição, e ao projeto: "Traduzir, atualizar, potencializar os desafios postos pelos Cadernos do Cárcere de A. Gramsci" – coordenado pela Profª Mª Socorro Ramos Militão (UFU), financiado por emenda da Depu- tada Federal por Minas Gerais, Dandara Tonantzin Silva Castro (PT), que viabilizou o lançamento desta 1ª Edição dos Cadernos do Cárcere pela IGS-Brasil. VII PREFÁCIO Etapas das traduções dos Cadernos do cárcere no Brasil Na segunda metade dos anos 1960, quando estava já instaurada a ditadura civil-militar no Brasil, a Editora Civilização Brasileira, além de uma seleção das Cartas do cárcere (1966)1, publicou uma parte substancial2 dos seis volumes dos Quaderni del carcere, de A. Gramsci, organizados por P. Togliatti e F. Platone e publicados pela Editora Einaudi de Turim3. Essa “Edição temática”, estrutura- da com base nos temas centrais tratados nos “cadernos especiais” de Gramsci, havia sido concebida pelos editores italianos para “agrupar as notas gramscianas por assuntos e temas homogêneos, e organizar tais agrupamentos em uma série de volumes indepen- 1 Com a seleção e tradução de Noênio Spínola, a Civilização Brasileira publica 233 Cartas do cárcere, de Gramsci, tendo como base a edição italiana organizada por S. Caprioglio e E. Fubini, Lettere dal carcere, publicada pela Einaudi de Turim, em 1965, que continha 428 cartas. 2 A Editora Civilização Brasileira publicou, em 1966: Concepção dialética da história (Título dado ao 1º volume italiano Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce); em 1967: Os intelectuais e a organização da cultura; Maquiavel, a política e o Estado moderno; em 1968: Literatura e vida nacional (contendo só uma seleção da edição original). Os volumes Il Risorgimento e também Passato e Presente não foram traduzidos. Para mais detalhes desse processo de publicação, cfr. C. Nelson Coutinho, “Introdução” a Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, vol. 1, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999, pp. 32-38. 3 Togliatti, P., - Platone, F. (a cura di), Quaderni del carcere di Gramsci, 6 voll, Ei- naudi, Torino, 1948-1951. Os títulos dos seis volumes da “edição temática” italia- na são os seguintes: Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce (1948); Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura (1949); Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno (1949); Il Risorgimento (1950); Letteratura e vita nazionale (1950); Passato e Presente (1951). Em 1977, com base na “edição crítica” de V. Gerratana, L. Gruppi organiza uma nova edição “riveduta e integrata” da “edição temática”, publicada pela Editora Riuniti de Roma. VIII dentes”(Gerratana, 1975, p. XXXIII)4. Na prática, ao editar os ca- dernos manuscritos de Gramsci produzidos na prisão, a “Edição te- mática” excluía os textos “miscelâneos”, notas de primeira redação, e depurava algumas partes dos cadernos que podiam gerar atritos com a orientação oficial do partido e a ortodoxia soviética (Liguo- ri, 1996, pp. 56-57)5. Embora importante, por ter proporcionado uma aproximação fundamental à obra carcerária de Gramsci, com o tempo, a tradução incompleta da“edição temática” realizada no Brasil se mostrou problemática e insuficiente, não só pelas questões inerentes à edição de Togliatti-Platone, mas, principalmente, ante a “Edição crítica do Instituto Gramsci”, realizada sob os cuidados de Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, em 19756. Essa “Edição crítica” reproduz integralmente as anotações conti- das nos Cadernos do cárcere “tal como foram escritas por Gramsci”, dispondo-as conforme uma “ordem cronológica da redação recons- truída na base de dados objetivos [...] e conservando entre parên- tese as velhas numerações postas por Tânia” (Gerratana, Ibid., p. XXXV). Além disso, enumera todas as notas e as organiza de modo a colocar em evidência as de primeira redação (Textos A), sinalizadas com fonte menor, as de redação única (Textos B) e as de segunda redação (Textos C). Com os três volumes que reproduzem as anotações de Gramsci contidas nos 29 cadernos manuscritos e um “Apêndice” de oito páginas, posto no final do último caderno, contendo alguns “Extratos dos Cadernos de tradução”7 , a “Edição crítica” publicou no quarto volume um precioso “Apparato critico” com os seguintes conteúdos: Descrição dos Cadernos; Notas ao 4 Gerratana, V., “Prefazione” in: Id (org.), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, Edizione critica dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975. 5 Liguori, G., Gramsci conteso. Storia di um dibattito 1922-1996, Riuniti, Roma, 1996. 6 Gerratana, V. (a cura di), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, Edizione critica dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975. 7 Além dos 29 cadernos, há quatro cadernos (A, B, C, D) contendo só traduções feitas por Gramsci entre 1929 e 1932. Na “Descrição dos Cadernos” que consta no “Apparato critico”, encontra-se uma documentação analítica desses exercícios de tradução. IX texto; Índice das obras citadas nos Cadernos; Livros e opúsculos do Fundo Gramsci não citados nos Cadernos; Índice dos periódicos citados nos Cadernos; Índice por assuntos; Tábua das concordân- cias; Índice dos nomes. Assim, para suprir os diversos problemas que apresentava a tradu- ção parcial da “Edição temática” realizada no Brasil nos anos 1960, entre os anos de 1999 e 2002, foram publicados, sempre pela Edito- ra Civilização Brasileira, seis volumes contendo uma nova tradução dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci8. Responsáveis pelo desenho da edição e pela tradução, C. Nelson Coutinho (editor), M. Aurélio Nogueira e L. Sérgio Henriques (coeditores) optaram por uma solução em que, “embora tome certamente como base a edição Gerratana, a presente edição brasileira incorpora não só os critérios adotados na velha ‘edição temática’, mas também algumas das sugestões propostas por Gianni Francioni” (Coutinho, 1999, p. 32)9. Dessa forma, tendo “como eixos articuladores os ‘cadernos especiais’”, os seis volumes da nova edição brasileira traduzem todos os “cadernos especiais” como se encontram na edição Gerratana e, no final de cada um, acrescenta-se uma seção intitulada “Dos ca- dernos miscelâneos”, na qual são alocadas as notas de redação úni- ca (Textos B) relacionadas com o tema do “caderno especial” em questão (Ibid., p. 40), e “Notas ao texto”, em sua maioria, extraídas das notas explicativas do “Apparato critico” de V. Gerratana e da edição norte-americana de J.A. Buttigieg (2007)10. Nos apêndices do último volume (6º), estão situados: “Uma antologia de textos A” (pequena amostra dos Textos A, de primeira redação); um “Índice geral dos Cadernos” (inclusive dos Textos A, indicando os parágra- fos dos Textos C, nos quais foram reelaborados); uma “Datação dos 8 Coutinho, C. Nelson (editor) - Nogueira, M. Aurélio e Henriques, L. Sérgio (coeditores): Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, 6 vols., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999-2002. 9 Coutinho, C. N., “Introdução” a Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, vol. 1, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999. 10 Buttigieg, J. A., Prison Notebooks (vols. 1-3) por Antonio Gramsci, Columbia University Press, New York, 1992-2007. X parágrafos segundo a proposta de G. Francioni”11; um “Índice dos principais conceitos” e o “Índice onomástico”. Não há dúvida de que, levando também em conta a tradução em dois volumes das Cartas do cárcere12, baseados na edição italiana organizada por A. A. Santucci (1996)13, e uma seleção de textos pré-carcerários reunidos nos dois volumes de Escritos Políticos14, o admirável empreendimento de C. Nelson Coutinho, M. Aurélio Nogueira e L. Sérgio Henriques representa um enorme avanço em relação aos textos de Gramsci postos à disposição dos leitores bra- sileiros até então. No entanto, sem diminuir o valor dessa tradução, nem o reconhecimento e a nossa gratidão aos autores desse traba- lho, suscita perplexidade o critério que levou essa nova edição a su- primir - por “não ter maiores méritos científicos” (Coutinho, 1999, p. 41) - as notas de primeira redação (Textos A) aproveitadas e ree- laboradas por Gramsci nos textos de segunda redação (Textos C) e a seleção feita pelos editores das notas de redação única (Textos B) que teriam alguma relação com o tema do caderno em questão. Pas- sadas mais de duas décadas, a estruturação dessa edição, motivada essencialmente para “não ampliar quantitativamente nossa edição, tornando-a assim menos acessível a um público que pretendemos o mais amplo possível” (Ibid., p. 41) e intencionada a evitar que “o leitor iniciante” se perca “no labirinto das anotações carcerárias” (Ibid., p. 44), vem apresentando alguns limites e não atende plena- mente às novas demandas de estudos e às exigências das pesquisas que foram evoluindo. De fato, inclusive graças à publicação dessa nova edição, na medida em que a difusão da obra e do pensamento de Gramsci foi se ampliando no Brasil e os estudos e pesquisas fo- ram se tornando mais abrangentes e minuciosos, sentiu-se a neces- 11 Francioni, G., L’officina gramsciana. Ipotesi sulla struttura dei “Quaderni del carcere”, Bibliopolis, Napoli, 1984. 12 Henriques L. Sérgio (org.), Antonio Gramsci: Cartas do cárcere, 2 vols., Civili- zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2005. 13 Santucci, A. A., Antonio Gramsci: Lettere dal carcere, 2 voll, Ed. Sellerio, Pa- lermo, 1996. 14 Coutinho C. Nelson (org.), Antonio Gramsci: Escritos Políticos, 2 vols., Civili- zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2004. XI sidade crescente de traduzir integralmente a “Edição crítica do Ins- tituto Gramsci” (aos cuidados de V. Gerratana), padrão mundial de referência e base para traduções em diferentes línguas, enquanto se espera que a ciclópica Edizione Nazionale delle opere di Antonio Gramsci venha a ser finalizada15. Quando, portanto, a equipe eleita na Assembleia de Marília/SP para a Direção da IGS-Brasil (2019-2022) apresentou a proposta de realizar a tradução integral da “Edição crítica” dos Quaderni del carcere de A. Gramsci organizada por V. Gerratana, houve imedia- to e amplo consenso. De fato, mesmo com algumas imperfeições e diante das questões levantadas, principalmente, pelos estudos filológicos de G. Francioni (1984, pp. 15-46) em relação ao mé- todo genético-diacrônico e às novas propostas de cronologia dos Cadernos do cárcere, a “Edição crítica” oferece o material completo das anotações que Gramsci registrou progressivamente tanto nos cadernos “especiais” como nos cadernos “miscelâneos” e nos de re- dação única. Ao apresentar integralmente os textos que Gramsci es- creveu nos 29 cadernos16 e distinguir as notas de primeira redação (Textos A), de redação única (Textos B) e as de segunda redação (Textos C), a “Edição crítica” revela melhor o modo de trabalhar de Gramsci, possibilita perceber as modificações nos seus planos de estudos e a evolução do seu pensamento, além de proporcionar 15 Edizione Nazionale delle opere di Antonio Gramsci, planejada para publicar o corpus inteiro da obra gramsciana, com a colaboração de vários grupos de trabalho coordenados por G.Francioni e sua equipe (G. Cospito e F. Frosini). O projeto, em andamento, promovido pelo Istituto della Enciclopedia Italiana e o Istituto Fondazione Gramsci di Roma, tem a previsão de numerosos volumes divididos nas três seções: escritos antes do cárcere, obras do cárcere e epistolário. Até hoje, vieram a público os quatro Quaderni di traduzione que não constam da edição crítica de Gerratana; dois vols. do epistolário: as cartas escritas entre 1906 e 1922 (vol. I) e os escritos do ano de 1917 (vol. II); os primeiros quatro cadernos de no- tas teóricas na nova edição crítica de G. Francioni, todos publicados pelo Istituto della Enciclopedia Italiana. 16 Gramsci escreveu 33 cadernos, sendo quatro dedicados a exercícios de tradu- ção, excluídos da “Edição crítica” de Gerratana. Só no final do caderno 29, como Apêndice, Gerratana coloca poucas páginas de alguns “Extratos dos Cadernos de tradução”. XII uma visão geral dos assuntos que desenvolveu mais amplamente, dos que abordou parcial e sucintamente e dos numerosos pró-me- mórias deixados para ulteriores pesquisas. Acima de tudo, o acesso à leitura integral das notas carcerárias permite verificar que o traba- lho de coleta do material de primeira redação registrado nos “cader- nos miscelâneos”, como o próprio Gramsci os denomina, não é um depósito aleatório de notas, um amontoado caótico e amorfo de reflexões reunidas a esmo, mas um extenso campo de pesquisa que já revela uma orientação básica de objetivos e uma metodologia de trabalho, reúne um conteúdo significativo de investigações interco- nectadas, mostra o amplo laboratório das suas ideias e as linhas de fundo que irão confluir na articulação dos temas aglutinadores sis- tematizados nos “cadernos especiais”, assim chamados por Gramsci. Motivada pela importância significativa desses aspectos, a pro- posta de traduzir integralmente a “Edição crítica” dos Cadernos do cárcere, mesmo sem nenhum suporte financeiro, recebeu a adesão generosa de 22 professores estudiosos da obra de Gramsci, todos sócios da IGS-Brasil, que se dispuseram voluntariamente a fazer parte da equipe de tradutores17. Nesse trabalho coletivo, além da “Edição temática”, da “Edição Crítica” (inclusive eletrônica) e da “Edizione anastatica dei ma- 17 Tradutores dos Cadernos “especiais”: 10 (Ana Maria Said/Gianni Fresu) – 11 (Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 12-20-21 (Maria Margarida Machado) – 13 e 18 (Anita Schlesener/Maria Socorro Militão) – 16 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo) – 19 (Marcos Del Roio/Leandro Galastri/Tatiana Oliveira) – 22 (Lincoln Secco/Silvia de Bernardinis) – 23 (Rocco Lacorte/Alex Calheiros/ Lucas Moura Vieira) – 24 e 25 (Massimo Sciarretta/Ricardo Salles) – 26-27-28- 29 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio). Tradutores dos Cadernos “miscelâneos”: 1 (Rocco Lacorte/Alex Calheiros/Lucas Moura Vieira) – 2 (Massimo Sciarretta/ Giovanni Semeraro) – 3 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo/Giovanni Semeraro) – 4 (Rita Coitinho/Marcos Aurélio da Silva) – 5 (Ana Maria Said/ Marcos Aurélio da Silva/Giovanni Semeraro) – 6 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio/ Maria Margarida Machado/Giovanni Semeraro/Helton Messini) – 7 (Ana Ma- ria Said/Marcos Aurélio da Silva) – 8 (Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 9 (Leandro Galastri/Tatiana Oliveira/Giovanni Semeraro) – 14 (Anita Schlesener/ Maria Socorro Militão) – 15 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo) – 17 (Maria Margarida Machado). XIII noscritti” (Francioni, 2009)18, tivemos a vantagem de consultar traduções anteriores, empreendimentos editorais realizados em outros idiomas, especialmente, nas línguas espanhola e inglesa, e a possibilidade de levar em conta numerosos estudos filológicos que nesses últimos anos se multiplicaram e lançaram muita luz sobre a complexidade do pensamento de Gramsci e a intensa trama con- ceitual que permeia a sua obra. Como se sabe, nas notas dos Ca- dernos, além do trânsito nas mais diversas áreas do conhecimento e da ampla visão que Gramsci tem da política, da filosofia, da histó- ria, da cultura, da educação, da literatura, do universo popular etc., Gramsci é protagonista de primeira linha em um período crucial da história contemporânea: as duas grandes guerras, a Revolução de 1917, a fundação do Partido Comunista da Itália (PCd’I), a ex- pansão e a crise do movimento operário na Itália e na Europa, o surgimento e a dominação do fascismo e do nazismo. Traduzir, portanto, uma obra extensa e complexa como os Ca- dernos do cárcere com uma equipe numerosa de tradutores não deixa de ser um exercício fecundo e promissor, mas a tarefa não está isenta de problemas. Por um lado, de fato, oferece a vantagem de tornar o trabalho menos oneroso, promove uma interlocução enri- quecedora entre seus integrantes e proporciona uma diversidade de pontos de vista. Mas, por outro lado, exige um ritmo que respeite as condições de trabalho de cada um e um delicado acordo para estabelecer convergências básicas em relação à organização formal do texto, à interpretação de questões complexas e controvertidas, à heterogeneidade de estilos, ao uso de linguagem, à pontuação e mo- delagem da escrita, ainda mais pelo fato de que a maioria das notas carcerárias foram escritas “ao correr da pena” (Q 11, p. 1365) e nas condições precárias da vida carcerária. Com o passar do tempo e a maior habilidade adquirida no trabalho de tradução, as dúvidas e incertezas que cercavam o início do novo empreendimento foram se desfazendo e deram lugar a sentimentos de entusiasmo e gratifi- 18 Francioni, G.(org.), Antonio Gramsci: Quaderni del carcere. Edizione anastatica dei manoscritti, 18 voll, Istituto della Enciclopedia Italiana - L’Unione Sarda, Ro- ma-Cagliari, 2009. XIV cação. De certa forma, traduzir os Cadernos do cárcere nos fez sen- tir parte de uma experiência singular e de uma viagem incomum, áspera, desafiadora e fascinante: partilhar com o autor o tormento da elaboração dos conceitos, a responsabilidade na busca de expres- sões mais adequadas, o labor e a alegria ao vislumbrar novos hori- zontes de conhecimento e revolucionárias propostas sociopolíticas. Avanços e desafios da tradução dos Cadernos do cárcere Para entrar no emaranhado de questões que surgem para traduzir a extensa obra derivada das anotações carcerárias que Gramsci dei- xou com suas peculiares características, entre outros cuidados, le- vamos em conta os critérios metodológicos e as cautelas filológicas que o próprio autor apontou em diversas ocasiões, principalmente, no Caderno 16. No §2 desse caderno, de fato, apresenta-se um con- junto de recomendações quando “se quer estudar o surgimento de uma concepção de mundo que nunca foi exposta sistematicamente pelo seu fundador”, alertando para que se busque o seu autêntico sentido “em todo o desenvolvimento do trabalho intelectual” e que se possa “fazer preliminarmente um trabalho filológico minucioso e conduzido com o máximo escrúpulo de exatidão” (p. 1840). E tais cuidados adquirem ainda mais importância “quando se trata de uma personalidade na qual a atividade teórica e a prática estão indissoluvelmente entrelaçadas, de um pensamento em contínua criação e perpétuo movimento, que sente vigorosamente a autocrí- tica” (p. 1841). Embora Gramsci esteja se referindo essencialmente aos escritos de Marx, essas indicações se tornam demasiadamente oportunas quando se analisa a sua própria obra, uma vez que, na prática, Gramsci não deixou nenhum livro definitivo e impresso da sua imensa produção. Trata-se, portanto, de um autor póstumo, cuja obra foi progressivamente editada pelas mãos de diversos es- tudiosos e continua sendo organizada e editada integralmente até hoje. Juntamente com os avanços da hermenêutica, da moderna crí- tica literária e dos estudos filológicos, essas considerações são fun- damentais para reconstruir a trama complexa e dinâmica que cons- titui o projeto de estudos e o modo de escrever de Gramsci, para XV percorrer as etapas da evolução do seupensamento e se adentrar no contexto histórico, político e cultural no qual se situam seus escri- tos e a sua atuação de intelectual e militante político. Por isso, além da bagagem técnica e filológica, do domínio das línguas e de uma boa dose de conhecimentos sobre a obra do autor, a tradução exige também decifrar a linguagem típica da sua época e visitar os basti- dores do intenso trabalho de outros tradutores e os problemas en- frentados pelos editores. Nesse sentido, o nosso trabalho não tem a pretensão de invalidar as traduções anteriores, mas de oferecer mais um instrumento de leitura e pesquisas para um público que vem se ampliando e aprimorando no Brasil. Pois, com a tradução integral da edição Gerratana, será possível ler os cadernos de Gramsci como foram escritos, não como foram selecionados e organizados. Ter em mãos e poder percorrer todas as notas e apontamentos de primeira (Textos A) e segunda redação (Textos C) e os de reda- ção única (Textos B) oferece a possibilidade de observar não só a forma peculiar e admirável de “Como trabalhava Gramsci” (Fran- cioni, 2009)19, mas de captar melhor a interligação inseparável en- tre os cadernos “miscelâneos”, os “especiais” e de redação única, de descobrir as recorrências e as sucessivas abordagens de assuntos, a incansável reelaboração de ideias, a “estrutura reticular” das notas e a “escritura em espiral” (Francioni, 1984, p. 22) do autor, o refina- mento da sua argumentação, a ampliação de conceitos, as comple- xas articulações das partes em torno de temas aglutinadores, a linha unitária que perpassa os seus planos de estudos, as artérias centrais da reflexão carcerária, as questões inacabadas, as que ficaram apenas mencionadas e deixadas em aberto. Tendo a visão da arquitetura geral, ainda que incompleta e truncada em algumas partes, apare- cem mais claramente não só a conexão e o desenvolvimento das vér- tebras principais da obra de Gramsci, mas emergem também a visão poliédrica e a sua personalidade permanentemente crítica e aberta que se adentra com perspicácia nas mais diversas esferas da polí- tica e do conhecimento, evidenciando, assim, também, o valor de 19 Francioni, G., “Come lavorava Gramsci”, in: “Introduzione” ao vol. 1 de Gramsci, A., Quaderni del carcere. Edizione anastatica dei manoscritti, cit., 2009. XVI muitas notas, assuntos, questões e páginas consideradas de pouca importância e secundárias, inclusive as tiradas divertidas e bem-hu- moradas. Nesse sentido, adquirem também valor, por exemplo, a extensa coleta de bibliografias, o amplo repertório de revistas, pe- riódicos, jornais e artigos consultados, a visão geral da história e o interesse por questões de caráter nacional e internacional, a interlo- cução com os mais diversos autores, o elenco dos livros escolhidos e encomendados por ele, minutas de cartas20, inclusive, as pequenas observações registradas telegraficamente, os breves apontamentos de pró-memória, as referências a assuntos aparentemente banais. Até as páginas interrompidas e não preenchidas dos cadernos aca- bam revelando intenções e limites do autor. Dessa forma, todo o conjunto do material levantado nas investigações de Gramsci, in- clusive o meramente sinalizado e incompleto, assume grande signi- ficação para entender melhor o intenso retículo de temas tratados, a trama complexa das notas e o amplo leque de esferas exploradas pelo pensador encarcerado, tornando, assim, essa obra gigantesca não só uma fonte de inspiração, mas também a base fundamental da elaboração de uma nova concepção de mundo, herança a ser completada, aprofundada e levada coletivamente mais adiante. Na verdade, tanto o conteúdo como o método utilizado e o projeto desenvolvido por Gramsci nos Cadernos, longe de serem um produto improvisado e circunstancial, apresentam todos os conotados de uma cuidadosa investigação científica, de ampla do- cumentação, de refinada fundamentação teórica e de pesquisa de longo respiro que “demanda grandes bibliotecas” (Santucci, 1996, p. 441, carta de 03/08/1931), um incalculável legado que exige o envolvimento e a parceria dos leitores na mesma tarefa. As repeti- das recomendações sinalizadas por Gramsci de que suas notas são “primeiras aproximações” e as inúmeras insistências para “verificar”, “pesquisar”, “consultar”, “aprofundar”, “levar em conta”, além da fre- quente recorrência de “aspas”, de “parece-me”, de “etc.” e das inúme- 20 Minutas de cartas, elencos de livros, contas, cálculos etc., anotados por Gramsci em diversas páginas dos Cadernos, são transferidos por Gerratana na “Descrição dos Cadernos” do “Apparato critico”. XVII ras referências bibliográficas, não representam apenas indicações de pistas abertas a serem retomadas quando ele tivesse melhores condições de tempo e de trabalho, mas revelam também a consci- ência de que, mais do que deixar o legado de um conteúdo acabado e solidificado, Gramsci está apontando para um imenso território a ser explorado e aprofundado não só por um indivíduo isolado no cárcere, mas por um trabalho “coletivo” e de longo prazo. Nes- se sentido, os Cadernos do cárcere podem ser considerados como um mapa precioso que aponta caminhos imprescindíveis para as “classes subalternas” e os povos subjugados se organizarem politi- camente para reivindicar seus direitos fundamentais, conquistar a hegemonia e construir uma nova civilização. Por isso, embora Gramsci tenha reelaborado e agrupado muitas das suas anotações preliminares em torno de temas aglutinadores nos “cadernos especiais”, ao estudar todo o conjunto das notas, fica evidente que o processo permanente de investigação e de aprendi- zagem adotado por Gramsci não permite estabelecer uma divisão rigorosa entre o “método de pesquisa” e o “método de exposição”. Entre os cadernos “miscelâneos”, “especiais” e de redação única, a distinção é só metodológica, não orgânica e substancial. Mesmo se concentrando e confluindo na redação dos cadernos “especiais”, por questão de tempo e pressionado pela saúde que vinha se debi- litando rapidamente, Gramsci nunca deixou de continuar a inves- tigar e explorar novas fronteiras de conhecimento e reelaborar as suas reflexões. Adotando, portanto, o critério de separação entre os “miscelâneos” e os “especiais” na edição da obra de Gramsci, corre- -se o risco de desconsiderar a extensão dos seus horizontes e reduzir o significado da multiplicidade dos assuntos abordados, mesmo os rascunhados, menos elaborados e aprofundados. Além disso, ao descartar a parte dos seus escritos considerada preliminar, acabam sendo obscurecidos aspectos fundamentais do seu pensamento: a visão histórica, dialética e orgânica da realidade sempre em mo- vimento, imbricada com a “complexidade molecular da vida real” (Santucci, 1996, p. 222, carta de 19/11/1928) e o árduo labor para o seu entendimento e a sua transformação. Como se sabe, de fato, XVIII um dos principais objetivos da vida política e da obra carcerária de Gramsci foi aprofundar e levar adiante a concepção de mundo inaugurada por Marx. Quando, portanto, Gramsci resolve se dedicar a um traba- lho “desinteressado” e “für ewig” (Santucci, 1996, p. 55, carta de 19/03/1927), de longo respiro e alcance duradouro, não está sendo tomado por um surto de titanismo e delírio de grandeza, males dos quais nunca padeceu, mas da clara consciência de que, como ele co- menta muitas vezes, a partir de Marx, se desencadeia na história um movimento que “renova de cima a baixo” (Q 11, §27, p. 1436) toda a concepção de mundo existente até então e inicia-se um período revolucionário “que provavelmente durará séculos” (Q 6, §33, p. 882). Ou seja, deu-se início a uma enorme e desafiadora tarefa que investe todos os aspectos da vida humana e que demanda todas as energias das classes subjugadas com seus intelectuais para elaborar também as armas teóricas mais avançadas e refinadas. Ter, portanto, acesso aos escritos integrais e à obra completa de Gramsci, que incluios escritos pré-carcerários e o epistolário, leva a não se limitar a leituras parciais, a pesquisas centradas em assun- tos segmentados e análises apressadas, a estudos de conceitos e de temas isolados, ao atalho dos verbetes e a frases fora de contexto. Contrariamente a quem pratica uma anatomia de partes separadas do corpo inteiro, o método de Gramsci ensina a se dedicar incan- savelmente a estudar e pesquisar, com visão histórica, abrangente e progressiva, a natureza processual e dialética da realidade, conec- tando a multiplicidade das suas expressões na totalidade do contex- to no qual estamos inevitavelmente inseridos. Portanto, poder entrar na mina escavada por Gramsci, propicia- da pela “Edição crítica” de Gerratana, além de uma visão de conjun- to, oferece aos estudiosos de Gramsci no Brasil “um instrumento de leitura que permita seguir o ritmo de desenvolvimento com o qual a pesquisa gramsciana se desdobra nas páginas dos Cadernos” (Ger- ratana, 1975, p. xxv). Ou seja, como o próprio Gramsci sinaliza, XIX cria as condições para sintonizar-se com o seu “ritmo do pensamen- to em movimento” (Q 16, §2, p.1841) e para “reviver seu fluxo e seu continuum” (Baratta, 2004, p. 101)21. Abraçamos, de fato, a complexa e delicada tarefa de traduzir a obra carcerária de Gramsci conscientes de que o trabalho não se reduz a uma transposição técnica e mecânica do texto, a resgatar o sentido mais exato das suas ideias no seu contexto, mas implica realizar um transplante de matéria viva de um campo teórico, polí- tico, histórico e linguístico para um outro corpo vivo e palpitante, ou seja, operar a passagem para um diferente universo cultural que comporta inevitavelmente não só a mediação de uma interpreta- ção cuidadosa, propriedade conceitual e atualização terminológica, mas, também, a empatia com o projeto de sociedade que emana dos escritos de Gramsci, hoje, como nunca, de grande atualidade e urgência. Assim, além das “cautelas filológicas” (Q 16, §2, pp. 1840-44) e da contextualização no ambiente no qual Gramsci ope- rou, para sermos fiéis ao pensamento e ao seu método, precisamos também praticar o que ele chamava de “filologia vivente”, ou seja, traduzir concretamente o seu legado, levando em conta as interpe- lações provenientes do nosso contexto histórico e da atuação teóri- ca e política realizadas pelo “organismo coletivo através da ‘coparti- cipação ativa e consciente’, da ‘copassionalidade’, da experiência dos particulares imediatos, por um sistema que se poderia chamar de ‘filologia vivente’” (Q 11, § 25, p. 1430). Esperamos, portanto, que a tradução integral dos textos de Gramsci contidos na “Edição crítica do Instituto Gramsci” (aos cuidados de V. Gerratana) não leve os leitores e estudiosos a se enclausurar no seu laboratório, mas, sem dissociar as “cautelas fi- lológicas” da “filologia vivente”, possam desenvolver a capacida- de de interagir, atualizar, desdobrar, potencializar e recriar o seu pensamento na teoria e na prática do próprio contexto histórico. Como já observei, “não podemos cair na contradição de encarcerar Gramsci nas grades de um texto canônico e definitivo, até porque 21 Baratta, G., As rosas e os Cadernos – o pensamento dialógico de Antonio Gramsci, Editora DP&A, Rio de Janeiro, 2004. XX toda a atividade filológica, por mais rigorosa e exitosa que seja, é sempre histórica, datada e sujeita a ser questionada e reconstruída. Sendo inseparavelmente intelectual e político militante, Gramsci solicita não só um trato cuidadoso com seus textos, mas nos de- safia a ‘ler e continuar a escrever’ uma obra deixada incompleta, a ser atualizada com o nosso labor teórico e a nossa atuação política” (Semeraro, 2019, p. 56)22. Giovanni Semeraro Coordenador do GT de Tradução IGS - Brasil 22 Semeraro, G., “A ‘tradução’ de Gramsci no mundo”, in Bianchi, A.- Mussi, D.- Areco, S., Antonio Gramsci: filologia e política, Zouk, Porto Alegre, 2019. XXI NOTA A ESTA EDIÇÃO Esclarecimentos sobre a padronização utilizada Como já destacado na Apresentação e no Prefácio, a tradução em língua portuguesa e a disponibilização online dos Cadernos do Cárcere de Antonio Gramsci, têm por finalidade contribuir para que leitores, pesquisadores e militantes possam acessar esses escri- tos na íntegra. O trabalho de padronização dos textos está, essencialmente, baseado no ordenamento das notas realizado pela Edição Crítica do Instituto Gramsci, a cura de Valentino Gerratana. Assim, com algumas adaptações, a nossa edição utilizou os seguintes critérios: ▶ A indicação das páginas de seu início e término de cada caderno, conforme a Edição Gerratana, na folha de rosto. ▶ Manutenção de parêntese angulado no número do parágrafo de cada nota, como consta na edição Gerratana. Ex.: §〈1〉. ▶ Sinalização do número de página correspondente ao texto manuscrito de Gramsci que está posto na margem da página pela edição Gerratana. Ex.: |1|, |1A| (“A” no lugar de “bis”) etc. ▶ Manutenção das referências bibliográficas nas línguas utilizadas por Gramsci. ▶ Manutenção das palavras em itálico que constam no corpo das notas. ▶ Para poder diferenciar os títulos de livros, deixados em itálico, foram colocados os títulos de artigos em letra de fonte regular e entre parênteses curvas “ ”. ▶ Manutenção dos parênteses angulados « » que Gramsci usa quando cita as revistas e jornais. XXII ▶ Inclusão em rodapé da tradução das citações mais extensas feitas por Gramsci em outras línguas, para deixar fluir a leitura do texto. ▶ Posicionamento entre colchetes [ ] de alguma palavra ou expressão do italiano sem correspondência na língua portuguesa, antes de operar a conversão na expressão consoante no português. ▶ Quando estritamente necessário, para tornar uma frase mais clara, recorreu-se à possibilidade de colocar entre colchetes [ ] algum termo de acréscimo sinalizado como N.T. ▶ Manutenção das referências postas por Gerratana a (os) outro (s) caderno (s) no fim das notas, mas, com fonte em caixa alta na cor roxa. ▶ Vertidos para o português os nomes dos autores mencionados por Gramsci (salvo nomes já usados no original, como por exemplo, K. Marx, F. Engels, V. Lenin). ▶ Enumeração em cor roxa e entre colchetes [ ] para indicar as “Note al Testo” que constam no “Apparato Critico” do volume IV da edição de Gerratana. Assim que nos for possível, pretendemos traduzir também estas “Note al Testo”. ▶ Sinalização a partir de asterisco verde no corpo das notas para indicação dos comentários/observações do editor em rodapé, expressos como: “No ms” (Nel manoscritto). Resolvemos não traduzir a “Cronologia della vita de Antonio Gramsci” que consta no Iº volume da Edição Crítica de Gerratana, considerando que os leitores podem encontrar esses dados na bi- bliografia a respeito disponível no Brasil. Além da Edição Crítica de Gerratana e de outras traduções, os leitores podem consultar os Cadernos do Cárcere na versão anas- tática dos manuscritos, disponibilizados pela Fundação Gramsci/ Itália, no endereço: https://gramsci.digital-library.it/en/quaderni- -dal-carcere. XXIII No processo de tradução e revisão podem ter ocorrido even- tuais falhas e erros. Receberemos, portanto, com gratidão as si- nalizações que nos forem enviadas ao E-mail da IGS/Brasil: igs.brasil1@gmail.com para corrigir e melhorar os textos em pró- ximas edições. Maria Margarida Machado Coordenação Científica da IGS/Brasil (Gestão 2022-2024) CADERNO 22 (V) 1934 Americanismo e fordismo Corresponde à Edição Gerratana: pp. 2137-2182 31934: americanismo e fordismo |§ 〈1〉. Série de problemas que devem ser examinados nesta rubri- ca geral e um pouco convencional de “Americanismo e Fordismo”, após considerar o fato fundamental de que as soluções dos mesmos são necessariamente definidas e tentadas nas condições contraditó- rias da sociedade moderna, o que determina complicações, posições absurdas, crises econômicas e morais cuja tendência é muitasvezes catastrófica etc. Pode-se dizer, genericamente, que o americanismo e o fordismo resultam da necessidade imanente de alcançar a organi- zação de uma economia programática e que os vários problemas exa- minados deveriam ser os elos da cadeia que marcam precisamente a passagem do velho individualismo econômico para a economia pro- gramática: estes problemas nascem de diversas formas de resistência que o processo de desenvolvimento encontra ao desenvolver-se, re- sistências que derivam das dificuldades inerentes à “societas rerum” e à “societas hominum”. O fato de uma tentativa progressiva ser ini- ciada para uma ou para outra força social é algo que não deixa de ter consequências fundamentais: as forças subalternas, que deveriam ser “manipuladas” e racionalizadas segundo as novas finalidades, ne- cessariamente resistem. Entretanto, resistem também alguns setores das forças dominantes, ou pelo menos aliadas das forças dominan- tes. O proibicionismo, que nos Estados Unidos era uma condição necessária para desenvolver um novo tipo de trabalhador compatível com uma indústria fordizada, certamente não caiu pela oposição dos industriais ou dos operários, mas pela oposição de forças marginais, ainda atrasadas. Etc. Registro de alguns dos problemas essencialmente mais impor- tantes ou interessantes ainda que à primeira vista não apareçam em primeiro plano: 1) substituição do atual estrato plutocrático, por um |1| 4 caderno 22 (v) |2| novo mecanismo de acumulação e distribuição do capital financeiro fundado imediatamente na produção industrial; 2) questão sexual; 3) questão se o americanismo pode constituir uma “época” histórica, ou seja, se pode determinar um desenvolvimento gradual do mode- lo, examinado em outro lugar, das “revoluções passivas” próprias do século passado, ou se, ao invés, representa apenas a | acumulação molecular de elementos destinados a produzir uma “explosão”, isto é, uma revolução de tipo francês; 4) questão da “racionalização” da composição demográfica europeia; 5) questão se o desenvolvimento deve ter seu ponto de partida no coração do mundo industrial e produtivo, ou se pode ocorrer de fora, pela construção cautelosa e maciça de uma couraça jurídica formal que dirigia de fora os desen- volvimentos necessários do aparelho produtivo; 6) questão dos assim chamados “altos salários” pagos pela indústria fordizada e racionali- zada; 7) o fordismo como ponto extremo do processo de sucessivas tentativas da indústria de superar a lei tendencial de queda da taxa de lucro; 8) a psicanálise (a sua enorme difusão no pós-guerra) como expressão do aumento da coerção moral exercida pelo aparelho esta- tal e social sobre os indivíduos e das crises mórbidas determinadas por esta coerção; 9) o Rotary Club e a Maçonaria; 10) 〈... 〉* |§ 〈2〉. Racionalização da composição demográfica europeia. Na Europa as diversas tentativas de introduzir alguns aspectos do ame- ricanismo e do fordismo se devem ao velho estrato plutocrático que queria conciliar o que, até prova em contrário, parece inconciliável, [ou seja], a velha e anacrônica estrutura social-demográfica euro- peia com uma moderníssima forma de produção e de modo de tra- balhar como aquela oferecida pelo tipo americano mais aperfeiço- ado, a indústria de Henry Ford. Por isto a introdução do fordismo encontra tantas resistências “intelectuais” e “morais” e acontece em formas particularmente brutais e insidiosas, através da mais extre- mada coerção. Para dizer em palavras simples, a Europa queria sair na chuva sem se molhar, isto é, todos os benefícios que o fordismo produz no poder de concorrência, mas mantendo seu exército de |11| * NO MS A NUMERAÇÃO FOI INTERROMPIDA NESTE PONTO E NÃO FOI MAIS COM- PLETADA. O RESTANTE DA PÁGINA E DAS PÁGINAS SEGUINTES, ATÉ A P. 10 INCLUÍDA, FICARAM EM BRANCO. 51934: americanismo e fordismo parasitas que, ao devorar ingentes quantidades de mais valia, agrava os custos iniciais e deprime o poder de concorrência no mercado internacional. A reação europeia ao americanismo, portanto, deve ser examinada com atenção: através de sua análise haverá diversos elementos necessários para compreender a atual situação de uma série de Estados do velho continente e os acontecimentos políticos do pós-guerra. O americanismo, em sua forma mais completa, exige uma condi- ção preliminar, da qual os americanos que trataram destes proble- mas não se ocuparam, porque na América ela existe “naturalmente”: esta condição pode ser chamada de “uma composição demográfica racional” e consiste no fato de que não existem classes numerosas sem uma função essencial no mundo produtivo, isto é, classes abso- lutamente parasitarias. A “tradição”, a “civilização” europeia é cara- terizada, ao contrário, exatamente pela existência de classes simila- res, criadas pela “riqueza” e pela “complexidade” da história passada que deixou uma grande quantidade de sedimentações passivas atra- vés de fenômenos de saturação e fossilização do pessoal estatal e dos intelectuais, do | clero e da propriedade fundiária, do comércio de rapina e do exército, que foi inicialmente profissional e em seguida conscrito, mas profissional no nível do oficialato. Pode-se dizer, ali- ás, que estas sedimentações de massas preguiçosas e inúteis que vi- vem do “patrimônio” dos “antepassados”, destes aposentados da his- tória econômica, são tanto mais numerosas e onerosas quanto mais vetusta for a história de um país. Uma estatística destes elementos economicamente passivos (em sentido social) é dificílima, já que é impossível encontrar a “rubrica” que consiga defini-los aos fins de uma pesquisa direta; indicações esclarecedoras podem ser obtidas indiretamente, como, por exemplo, pela existência de determinadas formas de vida nacional. O número relevante de grandes e médias (e também pequenas) aglomerações de tipo urbano sem indústrias (sem fábricas) é um destes indícios, e dos mais relevantes. O assim chamado “mistério de Nápoles”. Cabe lembrar as ob- servações de Goethe sobre Nápoles e as “consoladoras” conclusões |12| 6 caderno 22 (v) «morais» que Giustino Fortunato tirou delas (o opúsculo de For- tunato sobre Goethe e seu juízo sobre os Napolitanos foi reeditado pela Biblioteca editora de Rieti na série dos “Quaderni critici” diri- gida por Domenico Petrini1[1]; no opúsculo de Fortunato é impor- tante ler a resenha de Luigi Einaudi na “Riforma Sociale”, talvez de 1912) [2]. Goethe tinha razão ao demolir a lenda do “lazzaronismo” orgânico dos napolitanos e ao ressaltar, ao invés, o fato de que eles são muito ativos e laboriosos. Mas a questão consiste em ver qual é o verdadeiro resultado desta laboriosidade: ela não é produtiva e não está voltada a satisfazer as necessidades e as exigências de classes produtivas. Nápoles é a cidade em que a maior parte dos proprietá- rios fundiários do Sul (nobres e não nobres) gasta a renda da terra. Ao redor de algumas dezenas de milhares destas famílias de pro- prietários, de maior ou menor importância econômica, com seus cortejos de servos e lacaios diretos, está organizada a vida prática de | uma imponente parcela da cidade, com suas indústrias artesanais, com seus ofícios ambulantes, com o inaudito desmembramento da oferta imediata de mercadorias e serviços dirigida aos ociosos que circulam pelas ruas. Outra importante parcela da cidade está orga- nizada ao redor da circulação [das mercadorias] e do comércio por atacado. A indústria “produtiva”, no sentido de que cria e acumula novos bens, é relativamente pequena, apesar de que nas estatísticas oficiais Nápoles esteja incluída como a quarta cidade industrial da Itália, depois de Milão, Turim e Gênova [3]. Esta estrutura econômico-social de Nápoles (e sobre a qual é possível, hoje, através da atividade dos Conselhos provinciais da economia corporativa, ter informações suficientemente exatas) ex- plica grande parte da história da cidade de Nápoles, tão cheia de aparentes contradições ede espinhosos problemas políticos. A situação de Nápoles se repete em maior escala em Palermo e em Roma, e em toda uma série numerosa (as famosas “cem cidades”) de cidades não só da Itália meridional e das Ilhas, mas também da Itália Central e do Norte (Bolonha, em boa medida, Parma, Ferrara etc.). Pode-se aplicar para boa parte da população deste tipo de cidades o provérbio popular: quando um cavalo caga, cem pássaros almoçam. |13| 71934: americanismo e fordismo O fato que ainda não foi adequadamente estudado é o seguin- te: a média e a pequena propriedade rural não está nas mãos dos camponeses cultivadores, mas dos burgueses da cidadezinha ou da aldeia, e esta terra é concedida em forma de meação primitiva (isto é, com aluguel pago in natura e em serviços) ou em enfiteuse; de modo que existe um volume enorme (em relação à renda bruta) de pequena e média burguesia de “pensionistas” e “rentistas”, o que criou, em certa literatura econômica digna de Candide, a monstru- osa figura do assim dito “produtor de poupança”, isto é, um estrato de população economicamente passiva que não só extrai seu pró- prio sustento do trabalho primitivo de um número determinado de camponeses, mas que ainda consegue poupar: modo |de acumula- ção de capital dos mais monstruosos e doentios, porque fundado sob a iníqua exploração usurária dos camponeses, deixados à beira da desnutrição e que tem custos enormes; já que ao pequeno capital poupado corresponde um gasto inaudito, como é aquele necessá- rio para sustentar muitas vezes um elevado nível de vida de grande massa de absolutos parasitas. (O fenômeno histórico que possibi- litou esta situação anormal, que determinou estagnação histórica, e que se formou na península italiana por ondas sucessivas, após a queda das Comunas medievais e da decadência do espírito de ini- ciativa capitalista da burguesia urbana, é chamado pelo historiador Niccolò Rodolico de “retorno à terra” [4] e foi assumido até mesmo como índice de benéfico progresso nacional, demonstrando até que ponto os clichés podem entorpecer o senso crítico). Outra fonte de parasitismo absoluto foi sempre a administração do Estado. Renato Spaventa calculou que na Itália um décimo da população (4 milhões de habitantes) vive à custa do orçamento do Estado [5]. Acontece que homens relativamente jovens (de pouco mais de 40 anos) em ótima saúde, no pleno vigor das forças físicas e intelectuais, depois de 25 anos de trabalho como servidores pú- blicos, não se dediquem mais a nenhuma atividade produtiva, mas se vegetam com aposentadorias mais ou menos elevadas, ao passo que um operário só pode desfrutar de uma aposentadoria após os 65 anos, e enquanto um camponês não tem limite de idade para o |14| 8 caderno 22 (v) trabalho (portanto, um italiano médio fica admirado ao ouvir di- zer que um americano multimilionário continua ativo até o último dia de sua vida consciente). Se em uma família um padre torna-se cônego, imediatamente o “trabalho manual ” torna-se “uma vergo- nha” para toda a parentela; quando muito, podem dedicar-se ao comércio. A composição da população italiana já tinha se tornado “in- salubre” por causa da emigração de longa duração e pela escassa ocupação das mulheres em trabalhos produtivos de novos bens; a relação entre população “potencialmente” ativa e população pas- siva era uma entre as mais desfavoráveis da Europa (cf. | a este propósito as pesquisas do prof. Mortara, por exemplo, nas Pers- pectivas econômicas de 1922) [6]. Esta relação é mais desfavorável ainda ao considerar: 1) as doenças endêmicas (malária etc.) que diminuem a média individual do potencial da força de trabalho; 2) o estado crônico de desnutrição de muitos estratos inferiores de camponeses (como resulta das pesquisas do prof. Mario Camis publicadas na «Riforma Sociale» de 1926 [7], cujas médias na- cionais deveriam ser fraccionadas por médias de classes: se a mé- dia nacional alcançar apenas o padrão fixado pela ciência como indispensável, é obvio concluir pela desnutrição crônica de um estrato não indiferente da população. Na discussão no Senado so- bre a proposta orçamental para o ano 1929-30, o Deputado Mus- solini afirmou que em algumas regiões, durante inteiras estações, vive-se apenas de hortaliças: cf. as Atas parlamentares da sessão, e o discurso do senador Ugo Ancona, cujas veleidades reacionárias foram prontamente contestadas pelo Chefe de Governo) [8]; 3) o endêmico desemprego existente em algumas regiões agrícolas, e que não aparece nas pesquisas oficiais; 4) a massa de população absolutamente parasitária, que é enorme, e que para seus serviços requer, indiretamente, o trabalho de outra ingente massa parasi- taria, bem como da “semiparasitária” que é tal porque multiplica de forma anormal e malsã atividades econômicas subordinadas como o comércio e as atividades de intermediação em geral. |15| 91934: americanismo e fordismo Esta situação não ocorre apenas na Itália; em maior ou menor medida existe em todos os países da velha Europa, e em forma ain- da pior existe na Índia e na China, o que explica a estagnação da história nestes países e sua impotência político-militar. (No exa- me deste problema não está imediatamente em questão a forma de organização econômico-social, mas a racionalidade das pro- porções entre os diversos setores da população no sistema social existente: cada sistema tem sua lei das proporções definidas [9] pela composição demográfica, um seu equilíbrio “ótimo” e desequilí- brios que, se não forem corrigidos por uma oportuna legislação, podem se tornar por si mesmos catastróficos, porque secam | as fontes da vida econômica nacional, para além de qualquer outro elemento de dissolução). A América não tem grandes “tradições históricas e culturais”, mas tampouco está sobrecarregada por esta camada de chumbo: esta é uma das principais razões – certamente mais importante do que a assim dita riqueza natural – de sua formidável acumulação de capitais, apesar do superior teor de vida entre as classes popu- lares em relação ao europeu. A inexistência destas sedimentações, pegajosamente parasitárias, legadas pelas fases históricas passadas, permitiu uma base sadia para a indústria e, especialmente para o comércio, e possibilita cada vez mais a redução da função econômi- ca representada pelos transportes e pelo comércio a uma real ativi- dade subordinada à produção, ou melhor, a tentativa de assimilar estas atividades à própria atividade produtiva (cf. os experimentos feitos por Ford e as economias realizadas pela sua empresa através da gestão direta do transporte e do comércio da mercadoria pro- duzida [10], economias que influíram sobre os custos de produção, isto é, possibilitaram melhores salários e menores preços de venda). Como estas condições preliminares já existiam, racionalizadas pelo desenvolvimento histórico, foi relativamente fácil racionalizar a produção e o trabalho, combinando habilmente a força (destruição do sindicalismo operário de base territorial) com a persuasão (altos salários, diversos benefícios sociais, habilíssima propaganda ideoló- gica e política) e conseguindo centrar toda a vida do país ao redor |16| 10 caderno 22 (v) da produção. A hegemonia nasce da fábrica e precisa apenas, para ser exercida, de uma quantidade mínima de intermediários profis- sionais da política e da ideologia. O fenômeno das “massas” que tanto chamou a atenção de Ro- mier [11] é apenas a forma deste tipo de sociedade “racionalizada”, em que a “estrutura” domina mais imediatamente as superestru- turas, as quais são “racionalizadas” (simplificadas e reduzidas em número). Rotary Clube e Maçonaria (o Rotary é uma maçonaria sem os pequenos burgueses e sem a mentalidade pequeno-burguesa). A América tem o Rotary e a Y.M.C.A., a Europa tem a Maçonaria|e os Jesuítas. Tentativas de introduzir o Y.M.C.A. na Itália; ajudas da indústria italiana a estas tentativas (financiamento de Agnelli e vio- lenta reaçãodos católicos) [12]. Tentativas de Agnelli de absorver o grupo de «L’Ordine Nuovo» que apoiava uma forma própria de “americanismo” aceitável pelas massas operárias [13]. Na América a racionalização determinou a necessidade de ela- borar um novo tipo humano, adequado ao novo tipo de trabalho e de processo produtivo: até o atual momento, esta elaboração está apenas na fase inicial e por isto é (aparentemente) idílica. Está ainda na fase de adaptação psicofísica à nova estrutura industrial, buscada através dos altos salários; ainda não ocorreu (antes da crise de 1929), exceto esporadicamente, talvez, nenhum florescimento “superestrutural”, isto é, ainda não foi posta a questão fundamental da hegemonia. A luta se dá com armas tomadas do velho arsenal eu- ropeu, e ainda abastardadas, portanto, ainda são “anacrônicas” em relação ao desenvolvimento das “coisas”. A luta que se dá na Amé- rica (descrita por Philip) [14] é ainda pelos direitos profissionais, contra a “liberdade industrial”, isto é, uma luta parecida àquela que se travou na Europa no século XVIII, ainda que em outras condi- ções: o sindicato operário americano é principalmente a expressão corporativa dos direitos das profissões qualificadas e, portanto, o seu esmagamento, como solicitam os industriais, tem um aspecto “progressivo”. A ausência da fase histórica europeia, que também no campo econômico é marcada pela Revolução francesa, deixou as |17| 111934: americanismo e fordismo |18| massas populares americanas no estado bruto: acrescenta-se a isso a ausência de homogeneidade nacional, a miscigenação de culturas- -raças, a questão dos negros. Na Itália houve um início de alarde fordista (exaltação das gran- des cidades, planejamentos urbanos para a grande Milão etc, a afir- mação de que o capitalismo ainda se encontra na fase inicial e que é preciso preparar grandiosos quadros de desenvolvimento etc.: a este respeito conferir na «Riforma Sociale», alguns artigos de Schiavi) [15];em seguida ocorreu a conversão ao ruralismo e à de- pressão iluminista da cidade, a exaltação do artesanato e do patriar- calismo idílico, menções aos “direitos profissionais”| e a uma luta contra a liberdade industrial. Contudo, embora o desenvolvimento seja lento e pleno de compreensíveis cautelas, não é possível afirmar que a parte conservadora, a parte que representa a velha cultura europeia com todas as suas sequelas parasitárias, não tenha antago- nistas (a este respeito é interessante a tendência representada pelos «Nuovi Studi», pela «Critica Fascista» e pelo centro intelectual de estudos corporativos organizado na Universidade de Pisa) [16]. O livro de De Man [17] também, à maneira dele, é uma expressão destes problemas que abalam o velho alicerce europeu, uma expres- são sem grandeza e sem adesão a nenhuma das principais forças his- tóricas que disputam entre si o mundo. CF. CADERNO 1 (XVI), PP. 53-55. § 〈3〉. Alguns aspectos da questão sexual. Obsessão pela questão sexual e perigos de uma tal obsessão. Todos os “projetistas” colocam em primeira linha a questão sexual e a resolvem “candidamente”. É preciso observar que nas “utopias” a questão sexual tem enorme papel, muitas vezes predominante (a observação de Croce de que as soluções de Campanella em Città del sole não podem ser expli- cadas através das necessidades sexuais dos camponeses da Calábria é inepta) [1]. Os instintos sexuais são os que mais sofreram repres- são por parte da sociedade em desenvolvimento; a “regulamenta- ção” destes, pelas contradições que produz e pelas perversões que lhe são atribuídas, parece a mais “contrária à natureza”, portanto, 12 caderno 22 (v) as referências à “natureza” neste campo são mais frequentes. Até a literatura “psicanalítica” é uma forma de criticar a regulamentação dos instintos sexuais, de maneira por vezes “iluminista”, com a cria- ção de um novo mito do “selvagem” com base sexual (inclusive as relações entre pais e filhos). Separação, neste terreno, entre cidade e campo, mas não em um sentido idílico para com o campo, onde acontecem os mais mons- truosos e numerosos crimes sexuais, onde são bastante difundidos o bestialismo e a pederastia. No inquérito parlamentar de 1911 sobre o Sul|afirma-se que em Abruzzo e Basilicata (onde fanatismo reli- gioso e patriarcalismo são maiores e é menor a influência de ideias urbanas, ao ponto de que, nos anos 1919-20, segundo Serpieri, não houve sequer uma agitação camponesa) [2] pratica-se incesto em 30% das famílias [3] e não parece que a situação mudou até recen- temente. A sexualidade como função de reprodução e como “esporte”: o ideal “estético” da mulher oscila entre a concepção de “reproduto- ra” e de “brinquedo”. Contudo, não é só na cidade que a sexualidade se tornou um “esporte”; os ditos populares: “o homem é caçador, a mulher é sedutora”, “quem não possuir coisa melhor, vai para a cama com a esposa” etc. mostram a difusão da concepção esportiva também no campo e nas relações sexuais entre elementos da mesma classe. A função econômica da reprodução: ela não é apenas um fato geral, que interessa à sociedade em seu conjunto, para a qual se torna necessária uma determinada proporção entre as diversas idades para fins de produção e para a manutenção da parte pas- siva da população (passiva em sentido normal, pela idade, inva- lidez etc.), mas é também um fato “molecular” interno às mais ínfimas agregações econômicas, como a família. A expressão “ar- rimo da velhice” mostra a consciência instintiva da necessidade econômica de certa relação entre jovens e idosos em toda a área social. A forma em que, nas aldeias, os idosos e as idosas sem pro- les são maltratados, leva os casais a desejar a prole (o dito “uma |19| 131934: americanismo e fordismo mãe cria cem filhos e cem filhos não sustentam uma mãe”, mostra outro aspecto da questão): os velhos sem filhos, das classes popu- lares, são tratados como “bastardos”. Os progressos da higiene, que elevaram a vida humana média, põem cada vez mais a questão sexual como um aspecto fundamen- tal e destacado da questão econômica, um aspecto que por sua vez é suficiente para colocar complexos problemas do tipo de “superes- trutura”. O aumento da vida média na França, junto com o escasso índice de natalidade e com as necessidades de possibilitar um rico e bastante complexo aparelho de produção, |coloca já alguns proble- mas ligados ao problema nacional: as velhas gerações estão estabe- lecendo uma relação cada vez mais anormal com as jovens gerações da mesma cultura nacional, e as massas trabalhadoras inflam-se com estrangeiros imigrados que modificam a base: já ocorre, como na América, uma certa divisão do trabalho (profissões qualificadas para os nativos, além de funções de direção e organização; profis- sões não qualificadas para os imigrados). Uma relação semelhante, mas com consequências antieconômi- cas relevantes, está em questão em toda uma série de Estados entre as cidades industriais, de baixa natalidade, e o campo, prolífico: a vida na indústria exige um aprendizado geral, um processo de adap- tação psicofísica a determinadas condições de trabalho, de nutri- ção, de habitação, de costumes etc. que não constitui algo inato, “natural”, mas que deve ser adquirido, ao passo que as caraterísticas urbanas adquiridas transmitem-se por hereditariedade ou são ab- sorvidas no decorrer da infância e da adolescência. De modo que a baixa natalidade urbana exige um contínuo e relevante gasto para o tirocínio dos novos urbanizados e traz consigo uma permanente modificação da composição sociopolítica da cidade, pondo conti- nuamente em novas bases o problema da hegemonia. A mais importante questão ético-civil vinculada à questão se- xual é a formação de uma nova personalidade feminina: até que a mulher não tenha alcançado não só uma real independência face ao homem, mas também um novo modo de conceber a si mesma e o seu papel nas relações sexuais, a questão sexual continuará repleta