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DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO MÔNICA RAFAELA DE ALMEIDA U N I V E R S I D A D E F E D E R A L R U R A L D O S E M I - Á R I D O DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO Mônica Rafaela de Almeida Mário Gaudêncio, Me. Walter Martins Rodrigues, Dr. Francisco Franciné Maia Júnior, Dr. Rafael Castelo Guedes Martins, Me. Keina Cristina S. Sousa, Me. Antonio Ronaldo Gomes Garcia, Dr. Auristela Crisanto da Cunha, Dr. Janilson Pinheiro de Assis, Dr. Luís Cesar de Aquino Lemos Filho, Dr. Rodrigo Silva da Costa, Dr. Valquíria Melo Souza Correia, Me. Conselho Editorial da EdUFERSA http://nead.ufersa.edu.br/ Equipe multidisciplinar Antônio Charleskson Lopes Pinheiro – Diretor de Produção de Material Didático Ulisses de Melo Furtado – Designer Instrucional Ângelo Gustavo Mendes Costa - Assessor Pedagógico Francisca Monteiro da Silva Perez - Assessora Pedagógica Adriana Mara Guimarães de Farias – Programadora Jéssica de Oliveira Fernandes - Comunicação e Marketing Ramon Ribeiro Vitorino Rodrigues - Diretor de Arte Mikael Oliveira de Meneses – Diagramador Alberto de Oliveira Lima – Diagramador José Antonio da Silva - Diagramador Arte da capa Ramon Ribeiro Vitorino Rodrigues Equipe administrativa Rafaela Cristina Alves de Freitas – Assistente em Administração Iriane Teresa de Araújo – Responsável pelo fomento Paulo Augusto Nogueira Pereira - Estagiário Antonio Romário Bezerra Nogueira - Estagiário Equipe de apoio Francisco Varder Braga Junior – Revisão de Conteúdo Márcia de Jesus Xavier – Revisão Linguística Serviços técnicos especializados Life Tecnologia e Consultoria Edição EDUFERSA Impressão Gráfica São Mateus Ltda © 2015 by NEaD/UFERSA - Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do NEaD/UFERSA. O conteúdo da obra é de exclusiva responsabilidade dos autores. Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP) Setor de Informação e Referência (SIR-BCOT/UFERSA) Bibliotecária-Documentalista Vanessa de Oliveira Pessoa, Bib. Me. (CRB-15/453) Governo Federal Ministro de Educação Renato Janine Ribeiro SECADI – Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Universidade Federal Rural do Semi-Árido Reitor José de Arimatea de Matos Pró-Reitor de Graduação Augusto Carlos Pavão Núcleo de Educação a Distância Coordenadora Valdenize Lopes do Nascimento COMFOR Coordenadora Maria de Lourdes F. de Medeiros CURSO EM APERFEIÇOAMENTO EM ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO Coordenador Francisco Varder Braga Junior A447d Almeida, Mônica Rafaela de. Deficiência intelectual e o atendimento educacional especializado / Mônica Rafaela de Almeida. - Mossoró, 2015. 52 p. : il. ISBN: 978-85-63145-95-6 1. Educação especial. 2. Deficiência intelectual. 3. Atendimento educacional especializado. I. Almeida, Mônica Rafaela de. II. Título. RN/UFERSA/BOT/682 CDD 379.1 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Os discursos circulantes sobre a deficiência intelectual, na sua maioria, não têm dado conta deste como um processo histórico de construção da cultura humana. O esvaziamento do saber elaborado, fruto do pensamento pós- moderno, tem colocado em risco o aprofundamento das discussões sobre o cotidiano da escola. Nesse sentido, faz-se necessário suscitar reflexões que ultrapassem a noção simplificada de cotidianidade para que se possa pensar a educação na vida e na escola sob o olhar do conceito de práxis, que exige de nós explicitação de nossas ações, desnaturalização dos fatos e sentimentos cotidianos, superação dos pré-juízos ou juízos provisórios (preconceitos) e apropriação da realidade, impondo-se a ela. Essas questões nos colocam diante da necessidade de converter a nossa formação em reais exercícios de análise do cotidiano, para que aconteça, efetivamente, a superação dele, sem desconsiderá-lo. Nessa perspectiva, entendemos que é urgente um olhar voltado para: ver o deficiente intelectual como alguém que vai se apropriando da cultura, em tempos e espaços próprios, e não apenas somando hábitos. Compreendemos também que é preciso e é possível valorizar e priorizar atividades e práticas educativas que mobilizem o simbólico e que os limites de cada um são desconhecidos e um dos maiores limites é o nosso – o que desconhecemos do outro, nosso aluno, nosso educando. Há possibilidades ilimitadas que ainda se constituem mistério para nós. Participar das atividades socioculturais reorienta muitas das funções neurológicas por caminhos diversos. É preciso conhecer e atentar para eles. Olhar e ver, ver e reparar – como nos ensina poeticamente o escritor português José Saramago. Nos dias atuais, com o avanço do processo de inclusão, pessoas com deficiência intelectual que necessitam de maior apoio também já frequentam a escola regular. Logo, o contingente de alunos com deficiência intelectual nas redes regulares de ensino aumentou muito nos últimos anos. Para entender a deficiência intelectual, temos que puxar diferentes fios e cruzá- los entre si, buscando respostas e esclarecimentos que permitam compreendê-la. Por isso, elencamos a seguir alguns objetivos importantes da disciplina. Buscamos, com os conteúdos trabalhados neste livro didático, levar você a: • Conhecer a complexidade epistemológica, etiológica e sintomatológica da deficiência intelectual; • Entender os modelos e teorias sobre a deficiência intelectual, compreendendo a sua importância para estabelecer formas de atenção à diversidade em classes inclusivas; • Compreender o processo de desenvolvimento e aprendizagem do educando com deficiência intelectual e as possibilidades de intervenção pedagógica; • Refletir sobre a importância da avaliação multidimensional da deficiência intelectual; • Conhecer o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos com deficiência intelectual, assim como os recursos e as tecnologias assistivas disponíveis, para favorecer a sua independência e autonomia. Nesse sentido, esperamos que essa disciplina ofereça os fundamentos básicos para o Atendimento Educacional Especializado de Pessoas com Deficiência Intelectual. Sejam bem-vindos e bons estudos! SOBRE A AUTORA Mônica Rafaela de Almeida Sou graduada em Psicologia, com habilitação em licenciatura e bacharelado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Realizei meu mestrado em Psicologia Social na Universidade Federal da Paraíba, com ênfase em saúde mental e políticas públicas educacionais. Em 2009 e 2010, atuei como Psicóloga do Hospital Regional Manoel Gonçalves Abrantes. De 2010 a 2013, fui Psicóloga da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Fui professora de disciplinas no curso de graduação em Psicologia na Faculdade Santa Maria de Cajazeiras/PB e professora de Pós-graduação Lato-Sensu, Especialização em Saúde Mental, na Faculdade São Francisco da Paraíba. De 2014 a 2015, atuei como tutora da Especialização de Educação em Direitos Humanos do Comitê Gestor Institucional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais da Educação Básica – COMFOR da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atualmente sou Psicóloga da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). Tenho experiência em Psicologia Social, atuando principalmente nos seguintes temas: assistência estudantil, saúde mental, políticas públicas, inclusão, subjetividade/trabalho e saúde coletiva. SUMÁRIO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 1.1 Conceituando Deficiência Intelectual 13 1.2 Diferençasconstrói conhecimento para si mesmo, o que é fundamental para que consiga alcançar o conhecimento acadêmico. Aqui, ele não depende de uma avaliação externa, calcada na evolução do conhecimento acadêmico, mas de novos parâmetros relativos às suas conquistas diante do desafio da construção do conhecimento. Portanto, os dois: escola comum e Atendimento Educacional Especializado precisam acontecer concomitantemente, pois um beneficia o desenvolvimento do outro e jamais esse benefício deverá caminhar linear e sequencialmente, como se acreditava antes. Por maior que seja a limitação do aluno com deficiência intelectual, ir à escola comum para aprender conteúdos acadêmicos e participar do grupo social mais amplo favorece o seu desenvolvimento no Atendimento Educacional Especializado, na escola e em todos os grupos sociais de que faça parte. É importante salientar que o Atendimento Educacional Especializado não é ensino particular, nem reforço escolar. Ele pode ser realizado em grupos, porém é preciso estar atento para as formas específicas de cada aluno se relacionar com o saber. Não é indicado realizá-lo em grupos formados por alunos com o mesmo tipo de problema (patologias) e/ ou desenvolvimento. Pelo contrário, esses grupos devem ser constituídos de alunos da mesma faixa etária e em vários níveis do processo de conhecimento. 36 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE Autora: Mônica Rafaela de Almeida ATIVIDADE PROPOSTA 1. Assista ao filme “Simples como amar”, disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=cwGKAlSZ5CA. Em seguida, faça um texto dissertativo de até 30 linhas, evidenciando as potencialidades de aprendizagem das pessoas com deficiência intelectual, além disso, discuta e proponha estratégias de como podemos ampliar a inclusão das pessoas com deficiência intelectual no âmbito social e educacional, indicando quais são os desafios, as mudanças de hábitos e as reformulações pedagógicas necessárias para tanto. Procure fazer relação com o que aprendeu até agora nesta disciplina, com o filme assistido e com demais leituras que tenha feito sobre a temática. As brincadeiras e os jogos ensinam as crianças a lidar com o mundo, recriando situações do cotidiano, adquirindo conceitos básicos para formar sua personalidade, vivenciando sentimentos das mais variadas espécies (FERLIN e GOMES, 2008). A brincadeira é a oportunidade de desenvolvimento onde a criança experimenta, descobre, inventa, exercita e ainda confere suas habilidades. O brincar estimula a curiosidade, a iniciativa e a autoconfiança. Também proporciona aprendizagem, desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção. Os jogos e brincadeiras são estimuladores da cognição, afeição, motivação e criatividade (MAFRA, 2008). Neste sentido, os jogos e os brinquedos são instrumentos que devem ser explorados na escola como um recurso pedagógico de grande valia, pois além de desenvolver as regras de comportamento, podem evidenciar habilidades da criança que ainda não são perceptíveis em uma situação de aprendizagem formal. De acordo com Vygotski (1998), a influência do brinquedo no desenvolvimento de uma criança é enorme. No brinquedo, o pensamento está separado dos objetos e a ação surge das ideias e não das coisas. Um pedaço de madeira torna-se um boneco e um cabo de vassoura torna-se um cavalo. O brinquedo é um fator muito importante nas transformações internas do desenvolvimento da criança. Assim, a criança se inicia no mundo adulto por meio da brincadeira e pode antever os seus papéis e valores futuros. Por meio da brincadeira a criança vai se desenvolver socialmente, conhecendo as atitudes e as habilidades necessárias para viver em seu grupo social. Através do brinquedo, a criança estabelece suas relações com a vida real. Ela vai experimentar sensações que já conhece e vai desenvolvendo regras de comportamento que imagina serem corretas. A situação imaginária criada pela criança é que define o brincar. Assim sendo, devemos considerar que o brincar preenche necessidades que variam conforme a idade e que as brincadeiras por meio de jogos estimulam a curiosidade e a autoconfiança, proporcionando o desenvolvimento do pensamento, da concentração, da atenção e 2.3 ESTRATÉGIAS E INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS PARA O ALUNO COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 37 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida da linguagem. Dessa forma, se bem planejados, e aplicados com objetivos claros e bem definidos, considerando a idade e as limitações do aluno, os jogos favorecem a construção do conhecimento, ou seja, a aprendizagem e, por consequência, o desenvolvimento da criança. Ao contrário do que muitos pensam, a brincadeira não é um mero passatempo. Ela ajuda no desenvolvimento das crianças, promovendo processos de socialização e descoberta do mundo. A brincadeira propicia o desenvolvimento de habilidades da criança de forma natural, pois brincando os indivíduos aprendem a socializar-se com outras crianças, desenvolvendo a motricidade, a cognição e a criatividade. Os jogos e brincadeiras, ao serem utilizados na prática pedagógica, transformam conteúdos maçantes e enfadonhos em atividades interessantes e prazerosas, pois com os mesmos há motivação, disciplina e interesse pelo que está sendo ensinado. Porém, o professor deve estar consciente de que os jogos ou brincadeiras pedagógicas devem ser desenvolvidos como provocação a uma aprendizagem significativa e estímulo à construção de um novo conhecimento com o desenvolvimento de novas habilidades. Pensar na atividade lúdica enquanto um meio educacional significa olhar não apenas no jogo pelo jogo, mas no jogo como instrumento de trabalho, como meio para atingir objetivos pré-estabelecidos. O jogo pode ser útil tanto para estimular o desenvolvimento integral da criança, como para trabalhar conteúdos curriculares. Os alunos com deficiência intelectual, embora apresentem atrasos em seu desenvolvimento cognitivo e motor, também necessitam de atividades lúdicas no seu dia a dia. Talvez até mais do que as outras crianças, por necessitar de muito mais estímulos para desenvolver suas habilidades cognitivas, motoras e sensoriais. Os jogos e brincadeiras para as crianças com deficiência intelectual constituem atividades primárias que trazem grandes benefícios do ponto de vista físico, intelectual e social. De acordo com Vygotski (1998), a arte de brincar pode ajudar a criança com necessidades educativas especiais a se desenvolver, a se comunicar com os que a cercam e consigo mesma. Assim, através dos jogos e brincadeiras, a criança com deficiência intelectual pode desenvolver a imaginação, a confiança, a autoestima, o autocontrole e a cooperação. Os jogos e brincadeiras proporcionam o aprender fazendo, o desenvolvimento da linguagem, o senso de companheirismo e a criatividade. A seguir apresentamos algumas sugestões de jogos e brincadeiras que podem ser trabalhadas com crianças com deficiência intelectual, de forma lúdica e pedagógica, no sentido de estimular o desenvolvimento e facilitar a aprendizagem. Este material traz apenas algumas poucas sugestões, visto que temos uma grande variedade de atividades lúdicas. Além do que, os professores podem e devem usar de toda a sua criatividade para criar outros jogos e até mesmo modificar ou adaptar os jogos sugeridos, de acordo com as necessidades dos seus alunos. 38 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE Autora: Mônica Rafaela de Almeida IMAGEM E ESQUEMA CORPORAL - Boneco Articulado Esse jogo pode estimular a noção de esquema corporal, mostrando as partes do corpo e suas posições através da habilidade manual. As partes do corpo são recortadas em cartolina: cabeça, pescoço, tronco, dois braços, dois antebraços,duas mãos, duas coxas, duas pernas e dois pés. Para juntar as partes fazendo as articulações, podem ser feitos furos com o furador de papel e colocadas tachas, que se abrem depois de perfurar o papel. Outra alternativa é furar as articulações com uma agulha grossa e barbante, e depois dar um nó de cada lado do barbante. Como possibilidades de exploração, pode-se recortar e montar o boneco articulado, pedir a uma pessoa que sirva de modelo, assumindo diferentes posições que os alunos procurarão reproduzir com seus bonecos. Além disso, pode-se fazer o exercício contrário, colocar o boneco em posições que as pessoas deverão representar. É possível descobrir quais as posições que podem ser feitas com o boneco, mas que são impossíveis de serem realizadas pelo ser humano. Mafra, Brasília: 2008. - Máscaras Essa atividade sensibiliza as pessoas em relação às partes do rosto. Deve ser feita utilizando saco de papel, com furos recortados na altura dos olhos, do nariz e da boca, desenhado e decorado de maneira a imitar um rosto. Como possibilidades de exploração, pode- se citar: enfiar o saco de papel na cabeça para descobrir e marcar quais seriam os lugares onde devem ser feitos os furos; desenhar as partes do rosto no saco e colori-las; colar fios ou tiras de papel para representar o cabelo; fazer uma dramatização usando as máscaras e cobrindo as cabeças e misturar as máscaras, distribuindo-as aleatoriamente, e depois pedir às crianças que adivinhem qual é o colega que está por trás da máscara. Mafra, Brasília: 2008. w w w .re al m ai s.c om .b r w w w .d ic as pr am am ae .co m JOGOS E BRINCADEIRAS 39 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida COORDENAÇÃO MOTORA - Boliche de Latas Essa atividade pode estimular a motricidade, coordenação motora ampla, coordenação viso-motora, arremesso ao alvo, controle de força e direção. Deve ser preparado utilizando bolas de meia, feitas com algumas meias juntas, que são enfiadas no fundo de uma meia comprida. Para arrematar, torcer e desvirar o cano da perna da meia várias vezes, recobrindo a bola para, posteriormente, costurá-la. Depois, utilizam-se latas vazias, do mesmo tamanho, com números colados. Em seguida, empilham-se as latas fazendo um castelo. E começa-se a jogar como no boliche: cada jogador arremessa três bolas, tentando derrubar todas as latas. Chamam-se as crianças para contar os pontos de acordo com os números escritos nas latas derrubadas. Vence o jogo quem tiver feito mais pontos. Mafra, Brasília: 2008. - Vaivém Essa brincadeira pode estimular a coordenação viso-motora e as noções de alternância e distância. É feito com garrafas plásticas descartáveis, cordão, argolas e durex colorido. Para preparar os materiais, é necessário cortar duas garrafas ao meio, juntar as partes cortadas, colar com durex colorido. Passar dois fios (+ 3 m) por dentro das garrafas. E por fim amarrar argolas nas quatro extremidades. Pode ser explorado através do vaivém do jogo de duplas, em que a criança segura as extremidades do cordão e uma delas dá um impulso abrindo os braços, jogando o objeto para o outro, que repete a operação, assim, sucessivamente. Mafra, Brasília: 2008. w w w .p ai ne lc ri at iv o. co m .b r eu so ud on ad em im .b lo gs po t.c om ORIENTAÇÃO ESPACIAL E TEMPORAL - Fósforos Este jogo estimula a coordenação viso-motora fina, movimento de pinça, orientação espacial, manipulação de quantidades e concentração da atenção. Utilizamos uma caixa com palitos de fósforo. As laterais das caixas devem ser inutilizadas pela colocação de um durex (para evitar que as crianças possam riscar os fósforos). Inicialmente, retiramos os fósforos da caixa e pedimos às crianças que os guardem, com as cabeças voltadas para o mesmo lado. Em seguida, podemos enfileirar os fósforos na mesa, seguindo determinados critérios (ex. três voltados para cima e três voltados para baixo). Podemos também fazer figuras com os fósforos, como formas geométricas com três, quatro, cinco e seis fósforos. Além disso, pode-se construir um quadrado dentro do outro, inventar linhas com desenhos variados e reproduzi-las; fazer sequência de fósforos ou contas com os fósforos. Mafra, Brasília: 2008. pr oj et oh io n. bl og sp ot .co m 40 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE Autora: Mônica Rafaela de Almeida - Ampulheta Essa brincadeira estimula a noção de tempo. Para isto, precisamos selecionar duas garrafas iguais. Colocar areia em uma delas e colar as duas tampas. Fazer um furo nas tampas já coladas. Fechar as duas garrafas com as tampas. Podemos medir o tempo (usando o relógio) em que a areia passa de um recipiente para o outro e anotar nas extremidades dos dois recipientes o tempo. Como a ampulheta é um instrumento de medida ela pode ser usada simplesmente para que a criança observe o tempo que leva para a areia passar de um recipiente para o outro, ou pode servir de apoio aos jogos/brincadeiras, controlando o tempo das tarefas. Mafra, Brasília: 2008. cr is ed uc an do .b lo gs po t.c om PERCEPÇÃO VISUAL, AUDITIVA E TÁTIL - Dado do tempo Essa atividade pode estimular a percepção visual, observação e associação do desenho com o real. Monta-se um dado grande com 4 quadrados de 15cm x 15cm de cartão grosso, unindo as laterais com fita adesiva. Forrar com papel branco e em cada lado desenhar ou colar uma das condições do tempo (ex. chuva, sol, nublado, sol com nuvens, nuvens grossas, relâmpagos). Cortar 60 cartelas quadradas (6cm x 6cm) de cartolina, e desenhar as condições do tempo em cada uma delas, sendo que para cada situação devem ser feitas 10 cartelas. Joga-se o dado e de acordo com a figura que ficar para cima a criança retira o cartão correspondente, procedendo-se dessa forma sucessivamente, até os cartões acabarem. Quando terminarem os cartões, as crianças observam o tempo e identificam quais os desenhos que correspondem ao real. Mafra, Brasília: 2008. - Áudio Essa brincadeira estimula a percepção auditiva, discriminação de sons diferentes, atenção e concentração. Para isso, separamos 10 embalagens de fermento (ou caixas de fósforo vazias), forradas com papel fantasia e em cada duas embalagens os seguintes materiais: feijões, sementes secas de abóbora, um pedaço de 3 cm de cabo de vassoura, três tampas de refrigerante (de metal) e três pregos. Começamos balançando as embalagens, procurando as que produzem sons iguais e agrupando- as duas a duas. Além disso, pode-se fazer o seguinte jogo: cada participante escolhe uma embalagem e tem duas ou três chances de achar o som igual. Caso o encontre, recebe uma ficha. Ganha quem tiver mais fichas. Mafra, Brasília: 2008. ae eg m 20 13 an ge l.b lo gs po t.c om 41 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida - Sacola Surpresa Essa brincadeira estimula atenção e concentração, pensamento lógico, vocabulário, percepção tátil, discriminação de texturas, forma e tamanho. Em uma sacola de pano com duas aberturas laterais, fechadas com elástico (tipo puxa-saco), dentro da qual existem objetos e tecidos de texturas diferentes erão colocados os seguintes elementos: a)Para discriminação de texturas: 3 retalhos de lã, 3 de seda e 3 de veludo (mesmo tamanho), 3 pedaços de lixa, 3 de plástico e 3 de papel; b) Para discriminação de formas: 4 quadrados (5x5cm), 4 triângulos (5x5cm), 4 círculos (5cm de diâmetro) e 4 retângulos (7x3cm); formas geométricas de cartolina ou de madeira; c) Para discriminação de tamanho: 2 dados, 2 lápis, 2 tampinhas e 2 colheres; objetos cujo tamanho seja um grande e um pequeno; d) Para percepção estereognóstica: 3 dados, 3 bolinhas de gude, 3 lápis, 3 botões e 3 borrachas. Podemosexplorar essa brincadeira da seguinte forma: retirando um objeto da sacola, examinando-o e depois retirando outro igual. Introduzir as duas mãos pelas aberturas laterais da sacola e encontrar dois objetos iguais. Encontrar um objeto grande com a mão direita e um pequeno com a mão esquerda, ou vice-versa. Segurar um objeto dentro da sacola, examiná-lo pelo tato e, sem olhar, dizer qual é, conferir em seguida. Fazer o mesmo com a outra mão. Mafra, Brasília: 2008. - Quebra-Cabeça Esse jogo pode estimular o pensamento lógico, composição e decomposição de figuras, discriminação visual, atenção e concentração. Caixas de fósforo em quantidade suficiente para cobrir as figuras que são colocadas uma em cada lado do conjunto de caixas. A figura é cortada com estilete no espaço entre as caixas. Ao redor do desenho, um durex colorido forma a moldura do quebra-cabeça. A parte lateral das caixinhas foi fechada com durex colorido. Desmontar e montar o jogo, compondo o desenho como um quebra-cabeça. Caso a atividade seja difícil para a criança, faça inicialmente a moldura e peça para completar a figura. Mafra, Brasília: 2008. w w w .a go m es .co m .b r MEMÓRIA E PENSAMENTO LÓGICO - Assembléia de Objetos Essa brincadeira estimula memória, atenção e concentração. Podemos fazer uso de uma variedade de objetos, como clipes, lápis, borracha, canetas, etc. Procure usar objetos que os alunos costumam geralmente ter em suas carteiras, ou distribua entre eles vários objetos. É possível explorar essa atividade da seguinte forma: Pedir aos alunos que prestem atenção à ordem que você vai dar: “Quero que cada um de vocês peguem um lápis, uma caneta e uma borracha (e assim por diante)”; Pedir aos alunos que fechem os olhos e se concentrem. Ler para eles uma lista de objetos. Pedir para que abram os olhos e disponham sobre a carteira os objetos na mesma ordem que foi pedida. Mafra, Brasília: 2008. 42 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE Autora: Mônica Rafaela de Almeida MATEMÁTICA E ALFABETIZAÇÃO - Jogo dos Números Essa atividade estimula a identificação de numerais, ritmo, habilidades motoras, atenção e socialização. Para isso, devemos criar cartões com números de 0 a 9 espalhados pelo chão da sala num espaço delimitado. Para explorar a atividade, devemos solicitar que as crianças pulem e saltem ao redor dos cartões ao ritmo de uma música. Quando parar a música, o professor indica um determinado número e todos deverão parar no respectivo número. Mafra, Brasília: 2008. - Figuras Cortadas Esse jogo estimula a alfabetização, estruturação silábica, vocabulário, atenção e concentração, observação, relação parte/todo, composição de palavras e figuras. Podemos fazer essas ilustrações com retângulos de cartolina, com figuras de revistas e o nome do objeto em letra de forma, embaixo da figura, de modo que a palavra fique do tamanho da figura. O corte é feito sinuosamente no sentido vertical, separando as sílabas. Podemos explorar essa atividade da seguinte forma: Incentivar as crianças para que observem a figura, decomponham e recomponham as partes. Depois pedir que as crianças observem e misturem as partes, recomponham todas as figuras, digam o que está escrito, leiam as sílabas separadas e formem novas palavras. Essas ideias e estratégias foram exemplificadas para que o professor possa utilizar para estimular o desenvolvimento dos aspectos básicos da linguagem das pessoas com deficiência intelectual, bem como para reforçar a participação desses alunos no processo de aprendizagem. Esperamos que estas estratégias sejam referência para a criação de outras atividades que possam ser utilizadas em sala de aula. Mafra, Brasília: 2008. w w w .tr ic ae .co m .b r 43 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida ATIVIDADE PROPOSTA ESTUDO DE CASO F tem 11 anos, está cursando o 3º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Antonio Gurgel. Ele foi diagnosticado com deficiência intelectual (CID 10 F71.1: Retardo Mental moderado), apresentando comprometimento significativo no comportamento e nos processos de aprendizagem. Apresenta também Déficit de Atenção e Hiperatividade (CID 10 F90.0). A família de F tem um nível de vulnerabilidade socioeconômica alto, vivendo em condições precárias de vida. A mãe é costureira e o pai é pedreiro, mas atualmente estão desempregados, vivendo apenas de benefícios de transferência de renda. Atualmente, a família de F vive na casa da avó materna. F tem um irmã mais velha. Segundo relatos da mãe, a gestação de F não apresentou problemas, ocorrendo dificuldades apenas na hora do parto, que passou da hora programada. F andou com 1 ano de idade e começou a balbuciar algumas palavras, sem muita compreensão, somente aos 3 anos de idade. F apresenta dificuldades cognitivas, psicomotoras e de linguagem. Seu temperamento é calmo e tranquilo, mas tem dificuldades em aceitar regras. F iniciou sua vida escolar aos 5 anos de idade, tendo estudado em duas escolas diferentes. Permaneceu numa mesma série (1º ano) por dois anos consecutivos, porque segundo os professores, ele não acompanhava o ritmo da turma. Ficou ainda dois anos no 2º ano. Segundo a mãe, F é ativo e participa de todos os ambientes da escola, não gosta de fazer as atividades, mas gosta de jogar, apesar de demorar para entender as regras dos jogos. Gosta ainda de desenhar, pintar e assistir TV. Após muita resistência da mãe, F foi encaminhado para uma sala de Atendimento Educacional Especializado. 1. Considerando o relato acima, e que você é o profissional que receberá F em uma sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE), elabore um plano de atividade para F, contendo os seguintes elementos: características, habilidades, potencialidades, áreas a serem trabalhadas, objetivos a serem desenvolvidos, estratégias pedagógicas que serão utilizadas, recursos necessários e resultados esperados. CONSIDERAÇÕES FINAIS Vive-se um momento de grandes mudanças conceituais que se materializam em mudanças legais e concretas. Não há como desconsiderar que as mudanças que nos são impostas advêm do empoderamento das pessoas com deficiência na atualidade, incluídas aquelas com deficiência intelectual, o segmento que talvez tenha sido menos ouvido nos últimos tempos. A sociedade se encontra, ainda, embaraçada na dificuldade de acreditar e se fazer acreditar no potencial das pessoas com deficiência intelectual. Ao não acreditar, não se proporciona seu pleno desenvolvimento. A mudança das palavras, por exemplo, de Deficiência Mental para Deficiência Intelectual, não é só modismo, mas reflete, pragmaticamente, a evolução conceitual e a alteração do olhar da sociedade para com esse público. Ao se falar de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva numa rede de ensino gigantesca, deve-se ressaltar que há três condições básicas para que o trabalho de qualidade seja efetivado: uma legislação forte, investimento financeiro e construção de uma cultura inclusiva no interior dos sistemas escolares, por meio de formação para que esta possa extrapolar os muros das instituições educacionais e contribuir de fato com as transformações da sociedade. Com este material, procuramos mostrar, portanto, a importância da preparação dos profissionais para que eles exerçam seu papel como educadores, estando capacitados para tal função, de acordo com a dificuldade apresentada por cada estudante que necessite de atenção diferenciada. Somente assim, a inclusão pode ocorrer de forma efetiva, alcançando seu objetivo na sociedade de acordo com o esperado não só pelas famílias envolvidas, mas também pelos profissionais responsáveis e participantes em sua educação e no convívio diário. SAIBA MAIS HTTPS://PROLU.WORDPRESS.COM/TAG/DEFICIENCIA-INTELECTUAL/ HTTP://CANALDOENSINO.COM.BR/BLOG/SOFTWARE-AUXILIA-NA-ALFABETIZACAO-DE-CRIANCAS-COM-DEFICIENCIA-INTELECTUAL HTTPS://WWW.YOUTUBE.COM/WATCH?V=6PF1N5RFQQQ HTTPS://QUEMINOVA.CATRACALIVRE.COM.BR/INFLUENCIA/CAMPANHA- MOSTRA-COMO-ADULTOS-E-CRIANCAS-REAGEM-A-DEFICIENCIAS/ GLOSSÁRIO José Saramago: Escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, romancista e poeta Português. Ganhou o Nobel de Literatura de 1998 e também ganhou, em 1995, o Prêmio Camões. Foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Fundou em 2007 a Fundação José Saramago para a defesa e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos problemas do meio ambiente. Faleceu no dia 18 de Junho de 2010, aos 87 anos de idade. Declaração Internacional de Montreal sobre Inclusão: É um documento que foi redigido na Conferência Internacional sobre Deficiência Intelectual, constituindo- se num apelo aos governos, empregadores e trabalhadores bem como à sociedade civil para que se comprometam com o desenvolvimento e a implementação de contextos inclusivos em todos os ambientes, produtos e serviços. Édouard Séguin: Médico e educador reconhecido por seu trabalho com as crianças que apresentavam deficiências cognitivas na França e nos Estados Unidos. Jean Itard: Médico e psiquiatra alienista francês, que ganhou destaque na história da psiquiatria alienista francesa do século XIX, como responsável pelo tratamento de uma criança com deficiência intelectual encontrada em Aveyron e descreveu, pela primeira vez, a Síndrome de Tourette (1825) em uma de suas pacientes, uma mulher da nobreza francesa, com 86 anos de idade. Lev Semenovich Vygotsky: Psicólogo bielo-russo, descoberto nos meios acadêmicos ocidentais depois da sua morte, aos 38 anos. Pensador importante, que foi pioneiro na noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. Meritocrático: Relativo à meritocracia (do latim mereo, merecer, obter), sendo uma forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento, e há uma predominância de valores associados à educação e à competência. REFERÊNCIAS ASOCIACIÓN AMERICANA DE DISCAPACIDADES INTELECTUALES Y DEL DESARROLLO (AAIDD). Discapacidad intelectual, definición, clasificación y sistemas de apoyo. Undécima Edición. Espanha: Alianza Editorial, 2010. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR). Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. BATISTA, C. A. M.; MANTOAN, M. T. E. Atendimento Educacional Especializado em Deficiência Mental. In: GOMES, A. L. L. et al. Atendimento educacional especializado – deficiência mental. Formação Continuada a Distância de Professores para o Atendimento Educacional Especializado. SEESP / SEED / MEC Brasília/DF – 2007. BRASIL, Senado Federal. Lei de diretrizes e bases da educação nacional: nº 9394/96. Brasília, 1996. BRASIL, Ministério da Educação. Política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: Secretaria de Educação Especial, 2008. BRASIL, Ministério da Educação. Caderno de educação especial: a alfabetização de crianças com deficiência: uma proposta inclusiva. Diretoria de Apoio à Gestão Educacional. Secretaria de Educação Básica, Diretoria de Apoio à Gestão Educacional. Brasília, 2012. CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO DA CID-10. Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Organização Mundial da Saúde. Tradução de Dorgival Caetano. Porto Alegre: Artmed, 1993. FERLIN, A. M.; GOMES, D. A. C. 90 ideias de jogos e atividades para sala de aula. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. GOMES, A. L. L.; FERNANDES, A. C; BATISTA, C. A. M.; SALUSTIANO, D. A.; MANTOAN, M. T. E.; FIGUEIREDO, R. V. Atendimento educacional especializado em deficiência mental. Brasília: MEC/ SEESP/SEED, 2008. GOMES, A. L. L. V. A.; POULIN, J. R.; FIGUEIREDO, R. V. Educação especial na perspectiva da inclusão escolar: o atendimento educacional especializado para alunos com deficiência Intelectual. 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ANOTAÇÕES ANOTAÇÕES EDITORA EDUFERSA - Editora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido Campus Leste da UFERSA Av. Francisco Mota, 572 - Bairro Costa e Silva Mossoró-RN | CEP: 59.625-900 edufersa@ufersa.edu.br COMPOSIÇÃO Formato: 21cm x 29,7cm Capa: Couchê, plastificada, alceado e grampeado Papel: Couchê liso Número de páginas: 52 Tiragem: 200 Agência Brasileira do ISBN ISBN: 978-85-63145-95-6significativas entre Deficiência intelectual e Transtorno Mental 18 1.3 A Escola comum diante da Deficiência Intelectual 22 ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO 2.1 Possíveis dificuldades e facilidades na educação de alunos com deficiência intelectual 29 2.2 O atendimento educacional especializado para as pessoas com deficiência intelectual 32 2.3 Estratégias e intervenções pedagógicas para o aluno com deficiência intelectual 36 GLOSSÁRIO 45 REFERÊNCIAS 46 1DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE 13 Autora: Mônica Rafaela de Almeida 1.1 CONCEITUANDO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL Na antiguidade e na idade média, as pessoas com deficiência intelectual eram vistas como possuidoras de alguma força do bem ou do mal, sendo algumas delas consideradas possessões demoníacas e outras como divinas. Esses indivíduos eram abandonados ou eliminados, pois seus comportamentos eram considerados inadequados para viver em sociedade. Com as modificações advindas da doutrina cristã, os abandonos foram substituídos por sentimentos de misericórdia e caridade. As pessoas com deficiência intelectual passaram a ter direito de sobrevivência, eram acolhidas em conventos, igrejas e representavam indivíduos que estavam sob a proteção especial de Deus. Com o decorrer dos séculos, o conceito de deficiência intelectual foi sendo gradualmente elaborado, o misticismo deixado de lado e a concepção de alteração neurobiológica foi sendo adotada. Mas ainda no século XXI, a deficiência intelectual é assustadora para muitos e, infelizmente, ainda presenciamos uma tendência à segregação e marginalização dessas pessoas. Porém, nas últimas décadas, isso tem mudado a partir da elaboração de leis e lutas sociais que asseguram os direitos e deveres dessas pessoas e seu papel na sociedade. Historicamente, o conceito de deficiência intelectual tem sofrido uma série de revisões influenciadas pelas convenções sociais e científicas de cada época: idiotia (século XIX), debilidade mental e infradotação (início do século XX), imbecilidade e retardo mental (com seus níveis leve, moderado, severo e profundo), deficiência mental, usado no final do século XX, e deficiência intelectual, desde os anos dois mil (PLETSCH, 2012). Além desses termos, já temos autores sugerindo atualmente o termo dificuldade intelectual e desenvolvimental (SANTOS e MORATO, 2012). FIGURA 01: Debilidade Mental Fo nt e: h tt ps :/ /m ul tip la so ra lid ad es .w or dp re ss .co m /c on st ru ca o- do -b lo g- 2/ o- gr ito -1 89 3- de -e dv ar d- m un ch / 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE 14 Autora: Mônica Rafaela de Almeida FIGURA 02: Deficiência Intelectual Fo nt e: C ad er no s d e Fo rm aç ão C on tin ua da a D is tâ nc ia d e Pr of es so re s p ar a o At en di m en to E du ca ci on al E sp ec ia liz ad o do S EE SP /S EE D/ M EC -2 00 7. O termo deficiência intelectual é recente na literatura e foi disseminado durante a Conferência Internacional sobre Deficiência Intelectual, realizada no Canadá. Nesse evento, criou-se a Declaração Internacional de Montreal sobre Inclusão. O uso do referido termo também vem sendo recomendado pela Associação Internacional de Estudos Científicos das Deficiências Intelectuais – International Association for the Scientific Study of Intellectual Disabilities (IASSID). Além disso, desde 2010, ele vem sendo indicado pela Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimento (AADID, 2010), entidade que historicamente vem influenciando as classificações adotadas pela Organização Mundial de Saúde e pela Associação Americana de Psicologia (APA). Vale esclarecer que a AADID, anteriormente denominada Associação Americana de Retardo Mental (AAMR), teve sua origem nas pesquisas desenvolvidas por Édouard Séguin, seguidor de Itard, que criou a primeira escola para deficientes intelectuais, em 1876. O médico Jean Itard é conhecido pelos estudos com o menino Vitor de Aveyron, conhecido como o “menino selvagem”. Assim, desde 2010, a AADID substituiu o termo deficiência mental por intelectual. Não se trata simplesmente da troca de uma expressão por um sinônimo menos estigmatizante. Esta mudança de terminologia é fruto de amplo debate nos meios científicos internacionais, representando um novo paradigma, por se referir ao funcionamento do intelecto especificamente e não ao funcionamento da mente como um todo. Com essa nova terminologia, procura-se evidenciar o déficit no nível cognitivo e minimizar a associação errônea com os transtornos mentais (SCHALOCK et al., 2007). Para compreender como a terminologia apresentada pela AADID vem sendo incorporada nas discussões acadêmicas e nas propostas educacionais dirigidas para as pessoas com deficiência intelectual, é preciso considerar as trajetórias educacionais das pessoas com deficiência em diferentes contextos escolares, vendo o processo de ensino e aprendizagem e o desenvolvimento desses indivíduos a partir de um referencial sócio-histórico-cultural. Segundo os preceitos da Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimento AADID (2010, p. 31) “a deficiência intelectual caracteriza-se por [...] limitações significativas tanto no funcionamento intelectual, como na conduta adaptativa e está expresso nas habilidades práticas, sociais e conceituais, originando-se antes dos dezoito anos de idade”. Neste sentido, a deficiência intelectual caracteriza-se por um funcionamento intelectual inferior à média populacional, associado a limitações no funcionamento comportamental: 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE 15 Autora: Mônica Rafaela de Almeida Dimensão I Habilidades intelectuais Dimensão III Saúde Dimensão V Contexto Dimensão II Conduta/comportamento adaptativo Dimensão IV Participação Diz respeito aos conceitos considerados científicos, como a capacidade de raciocínio, planejamento, solução de problemas, pensamento abstrato, compreensão de ideias complexas, rapidez de aprendizagem e aprendizagem por meio da experiência. A saúde é compreendida como um elemento integrado ao funcionamento individual da pessoa com deficiência intelectual. O sistema segue as classificações de saúde da Organização Mundial de Saúde. Descreve as condições nas quais a pessoa vive, tornando como referência a perspectiva ecológica, incluindo três niveis da vida social: a) o entorno imediato (microssistema): b) a comunidade e outros serviços (mesossistema); e c) as influências gerais da sociedade (microssistema). Refere-se à experiência social de cada indivíduo. É entendida como o "conjunto de habilidades conceituais, sociais e práticas adquiridas pela pessoa para corresponder às demandas da vida cotidiana". Diz respeito à participação e a interação do sujeito com deficiência na vida em comunidade, bem como aos papéis que desenvolve nela. comunicação e cuidados pessoais, competências domésticas, habilidades sociais, utilização dos recursos comunitários, autonomia, saúde e segurança, aptidões escolares, lazer e trabalho. Todos esses aspectos devem ocorrer durante o desenvolvimento infantil, ou seja, antes dos 18 anos, para que um indivíduo seja diagnosticado como deficiente intelectual. No dia a dia, isso significa que a pessoa com deficiência intelectual tem dificuldade para aprender, entender e realizar atividades comuns para as outras pessoas. Muitas vezes, essa pessoa se comporta como se tivesse menos idade do que realmente tem. A deficiência intelectual é resultado, quase sempre, de uma alteração no desempenho cerebral, provocada por fatores genéticos, distúrbios na gestação, problemas no parto ou na vida após o nascimento. Iremos discutir exemplos dessas possíveis causas mais adiante.Um dos maiores desafios enfrentados pelos pesquisadores da área é que em grande parte dos casos estudados, esta alteração não tem uma causa conhecida ou identificada. Muitas vezes não se chega a estabelecer claramente a origem da deficiência. Deste modo, a deficiência intelectual pode ser compreendida em cinco dimensões, que dizem respeito a diferentes aspectos do desenvolvimento da pessoa com essa deficiência, do ambiente em que vive e dos apoios de que dispõe. Tais dimensões são apresentadas de forma sucinta no quadro abaixo: Todos os aspectos levados em conta nos sistemas conceituais da AAIDD são bastante importantes para que se pense a condição da deficiência intelectual relacionada diretamente à prática social, à cultura e à história. Portanto, não é possível considerá-la apenas a partir de parâmetros biológicos, como marcas específicas da pessoa, haja vista que o sentido para qualquer uma das condições humanas é impregnado nas relações entre os homens com sua história e seu tempo. O desenvolvimento do psiquismo é sócio-histórico e estruturado no seio da atividade social do indivíduo e isso não é diferente quando aludimos àqueles com deficiência intelectual. QUADRO 01: Dimensões da Defciência Intelectual Fo nt e: A AI DD (2 01 0) 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE 16 Autora: Mônica Rafaela de Almeida A deficiência intelectual não pode ser percebida de forma abstrata ou descontextualizada das práticas sociais. Assim, ao falar sobre a condição de deficiência intelectual, obrigatoriamente tem-se algo a dizer sobre as relações entre as pessoas e o processo de mediação que se estabelecem circunscritas em um contexto cultural, histórico e social, e desta forma, também no da escola, como centro gerador de interpretações que imputa significado às diferenças (OLIVEIRA, 2012; PLETSCH e GLAT, 2012). Nesta perspectiva, o sistema conceitual da AAIDD aproxima-se dos preceitos vygotskyanos, pois enfatiza a prática social e considera a deficiência intelectual complexa, proveniente da combinação de quatro grupos de fatores: os biomédicos, os comportamentais, os educacionais e os sociais, dentro de uma visão multidimensional. Isso significa dizer que a deficiência intelectual não representa um atributo da pessoa, mas um estado particular de funcionamento e, portanto, para funcionar bem, depende das condições ofertadas a ela, que são sociais e não, exatamente, às condições primárias de seu desenvolvimento, ou seja, de suas condições biológicas. Além disso, incorpora a ambivalência do próprio conceito de deficiência intelectual, uma vez que está, também, submetido às interpretações sociais e às concepções impregnadas em seu tempo e na história dos próprios homens. A conceituação proposta pela AAIDD pode ser considerada inovadora, porque remete a um diagnóstico cujo objetivo principal consiste em identificar limitações pessoais, a fim de desenvolver um perfil de apoio adequado, na intensidade de vida, perdurando enquanto durar a necessidade. O conceito de apoio e a definição de seus níveis de intensidade apontam a ideia de que a “[...] aplicação criteriosa dos apoios pode melhorar a capacidade funcional dos indivíduos e [...] melhorar os resultados pessoais” (AAIDD, 2010, p. 51). Ou seja, o sistema de apoio caracteriza-se como um mediador entre o funcionamento do sujeito e as cinco dimensões focalizadas no modelo teórico. O apoio é compreendido como um conjunto de recursos e estratégias que visam promover o desenvolvimento, a educação, os interesses e o bem-estar de uma pessoa e que melhoram o funcionamento individual (AAIDD, 2010). Neste sentido, aproxima-se da própria definição ou ideia do suporte a ser oferecido por meio do Atendimento Educacional Especializado (AEE), já que os serviços podem ser entendidos como um tipo de apoio. Os níveis de apoio podem ser compreendidos de acordo com o quadro ilustrativo abaixo: NÍVEIS DE APOIO TEMPO DE APOIO FORMA DE APOIO Intermitentes Limitados Extensivos Pervasivos Episódicos Temporalidade limitada e persistente. Regularidade e periodicidade. Constantes, estáveis e de alta intensidade. Disponibilizado em momentos necessários, com base em demandas específicas. Apoiar pequenos períodos de treinamento ou ações de assistência temporal de curta duração. Recomendados para alguns ambientes. Disponibilizado nos diversos ambientes, sem limitações de temporalidade. QUADRO 02: Níveis de Apoio Fo nt e: A AI DD (2 01 0) 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE 17 Autora: Mônica Rafaela de Almeida Assim Sendo, a principal tarefa da avaliação do aluno com deficiência intelectual, no contexto escolar, é definir o nível de apoio de que necessita para garantir uma permanência qualificada nos contornos comuns do ensino regular. O desenvolvimento educacional do aluno pode ser bastante melhorado ao lhe oferecer as tarefas com a ajuda de um membro mais capaz, conforme preconizado pelo próprio estatuto teórico de Vygotski, quando se refere à possibilidade do desenvolvimento iminente. O apoio no Atendimento Educacional Especializado, aliado às modificações institucionais que devem ocorrer no âmbito da escola e à atenção do professor no contexto da sala comum, possibilitarão aos alunos com deficiência intelectual a constituição de uma trajetória escolar inclusiva, junto com os outros e, ao mesmo tempo, o respeito às suas particularidades, com adequações no conjunto da proposta curricular, inclusive relacionadas à avaliação pedagógica. ATIVIDADE PROPOSTA 1. Assinale a afirmação INCORRETA sobre deficiência intelectual: A) O conceito de deficiência intelectual teve uma série de revisões, que foram influenciadas pelas convenções sociais e científicas. B) A ONU alterou o termo deficiência mental por deficiência intelectual, no sentido de diferenciar mais claramente a deficiência mental da doença mental. C) Na antiguidade, as pessoas com deficiência intelectual eram vistas como possuidoras de possessões demoníacas e/ou divinas. D) No início do século XX, a deficiência intelectual era vista como debilidade mental, infradotação, imbecilidade e retardo mental (com seus níveis leve, moderado, severo e profundo). 2. Considerando o conceito de Deficiência Intelectual, é CORRETO afirmar: A) Caracteriza-se por um funcionamento intelectual significativamente acima da média populacional. B) É resultado, quase sempre, de alterações no comportamento psicossocial. C) Não representa um atributo da pessoa, mas um estado particular de funcionamento, que depende das condições biológicas e sociais. D) É compreendida a partir de 4 dimensões, que dizem respeito a diferentes aspectos do desenvolvimento da pessoa com deficiência intelectual. 3. Assinale a alternativa que apresenta os níveis de apoio necessários para os alunos com deficiência intelectual. A) Intermitentes, Episódicos, Limitados e Pervasivos. B) Pervasivos, Limitados, Extensivos e Temporais. C) Limitados, Episódicos, Limitados e Temporais. D) Intermitentes, Limitados, Extensivos e Pervasivos. 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE 18 Autora: Mônica Rafaela de Almeida No dia a dia de trabalho, os profissionais da área de educação, que atuam diretamente com Deficiências se deparam com a confusão que as pessoas fazem, entre Deficiência Intelectual e Transtorno Mental. Isto não é para menos, porque por muitos e muitos séculos essas duas modalidades sempre andaram juntas e eram indissociáveis, porém agora, com os avanços das pesquisas na área de neurociências, já é possível ter-se uma compreensão melhor desses dois distintos processos neuropsicológicos, muitas vezes inseparáveis. A deficiência intelectual, como já foi discutido anteriormente, envolve dois componentes essenciais, um ligado a fatores de desenvolvimento (idadebiológica) e outro a fatores socioculturais: funcionalidade intelectual significativamente abaixo da média e que seja notório desde tenra idade e incapacidade significativa para se adaptar às exigências culturais da sociedade. A deficiência intelectual se manifesta geralmente na primeira infância, na idade pré-escolar ou ainda nos anos escolares quando se torna evidente uma lentidão anormal na evolução do comportamento, sob a forma de dificuldades na adaptação às exigências da vida cotidiana, na compreensão e utilização da linguagem e na assimilação de significados gerais ou abstratos. A deficiência intelectual não é propriamente uma doença. Ela compreende uma vasta gama de condições que, apesar de serem muitas vezes causadas por infecções biológicas e afecções orgânicas, podem também ser devidas a causas sociais e psicológicas complexas. Em muitos casos, a causa específica de uma deficiência intelectual é desconhecida. Algumas síndromes apresentam déficits cognitivos, caracterizando-se como deficiência intelectual. A seguir descreveremos alguns tipos, como: a Síndrome de Down; a Síndrome de Turner; a Síndrome de Klinefelter; a Síndrome do X-Frágil; a Síndrome de Prader-Willi; a Síndrome de Angelman e a Síndrome Williams (HOLMES, 1997). 1.2 DIFERENÇAS SIGNIFICATIVAS ENTRE DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E TRANSTORNO MENTAL Fo nt e: h ttp :/ /b lo gc ol eg as of ilm e.c om /c at eg or y/ el en co / A Síndrome de Down se caracteriza por uma alteração genética que ocorre na formação do bebê, no início da gravidez, é uma condição cromossômica causada por um cromossomo extra no par 21 (trissomia 21). O grau de deficiência intelectual provocado pela síndrome é variável, e o Coeficiente de Inteligência (QI) pode variar e chegar a valores inferiores a 40. A linguagem pode ser comprometida, mas as interações sociais podem se desenvolver satisfatoriamente, podendo, entretanto, aparecer distúrbios como hiperatividade, depressão, entre outros. 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE 19 Autora: Mônica Rafaela de Almeida ht tp :/ /g ra ci et eo liv ei ra .p bw or ks .co m / ht tp :/ / w w w .so bi ol og ia .co m .b r ht tp :/ /p or tb io ge ne .b lo gs po t.c om .b r/ 20 12 /0 7/ sí nd ro m e- do -x -fr ag il. ht m l A Síndrome de Turner é limitada a mulheres, e ocorre quando esta não tem um dos dois cromossomos femininos, apresenta X ao invés de XX. Essa Síndrome apenas às vezes resulta em deficiência intelectual. Quando isto ocorre, a deficiência está associada a déficits na percepção espaço- forma, que influencia na capacidade de entender relacionamentos entre objetos e como as coisas se encaixam. A Síndrome de Klinefelter é limitada a homens e resulta da presença de cromossomos femininos extra. Ao invés de ter uma configuração XY (um cromossomo feminino e um masculino), o indivíduo terá uma configuração XXY ou XXXY. Isto afeta o desenvolvimento intelectual, diminuindo a capacidade de compreensão da linguagem. A Síndrome do X Frágil é uma condição de origem genética, considerada a causa mais frequente de comprometimento intelectual herdado. As pessoas afetadas por essa síndrome apresentam atraso no desenvolvimento, problemas de aprendizagem, atrasos na fala e na capacidade de comunicação. A Síndrome de Prader-Willi é de origem genética, localizada no cromossomo 15, e ocorre no momento da concepção. Afeta meninos e meninas em um complexo quadro de sintomas, durante toda a vida, variando em presença e intensidade de indivíduo para indivíduo. Em geral, as pessoas com essa síndrome apresentam problemas de aprendizagem e dificuldade para pensamentos e conceitos abstratos. ht tp :/ / a m al ia ps ico pe da go ga .b lo gs po t.c om 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE 20 Autora: Mônica Rafaela de Almeida Para o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 4º Ed. texto revisado, 1995) o diagnóstico da deficiência intelectual é embasado em três importantes critérios: - Critério A: quoeficiente de Inteligência (QI) abaixo de 70; - Critério B: limitações significativas no funcionamento adaptativo em pelo menos duas das seguintes áreas de habilidades: comunicação, autocuidados, vida doméstica, habilidades sociais/interpessoais, uso de recursos comunitários, autossuficiência, habilidades acadêmicas, trabalho, lazer, saúde e segurança; - Critério C: ocorrer antes dos 18 anos. Assim, a deficiência intelectual possui muitas etiologias1 diferentes e pode ser vista como uma via final comum de vários processos patológicos que afetam o funcionamento do sistema nervoso central: a) Hereditariedade (5%): mutações gênicas, erros inatos metabólicos; b) Alterações precoces do desenvolvimento embrionário (aproximadamente 30%): alterações cromossômicas (ex: Síndrome de Down) ou dano pré-natal causado por toxinas (por ex., consumo materno de álcool, infecções como a Rubéola); c) Problemas da gravidez e perinatais (aproximadamente 10%): desnutrição fetal, prematuridade, hipóxia2, infecções virais, trauma encefálico, entre outros; 1 Estudos sobre a causa ou a origem de uma determinada doença, deficiência ou transtorno. 2 Falta de oxigênio em tecidos do corpo humano. w w w .g ui lh on fo to gr af ia .co m .b r A Síndrome de Angelman é um distúrbio neurológico que causa comprometimento intelectual, dificuldades na fala, atraso psicomotor e andar desequilibrado, com as pernas afastadas e esticadas. w w w .cu ltu ra m ix .co m A Síndrome de Williams é uma desordem genética que atinge crianças de ambos os sexos. Os indivíduos com essa síndrome apresentam comprometimento da capacidade visual e espacial, mas têm um bom desenvolvimento na linguagem oral e na musical. 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE 21 Autora: Mônica Rafaela de Almeida d) Condições médicas gerais adquiridas no início da infância (aproximadamente 5%): infecções, traumas e envenenamento (por exemplo, devido ao chumbo); e) Influências ambientais (aproximadamente 15-20%): privação de afeto e cuidados (maus tratos), bem como a falta estimulação social, linguística e outras; Ainda de acordo com a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID10, 1993), dos tipos diagnósticos em F70-F79, a deficiência intelectual corresponde a um desenvolvimento incompleto do funcionamento intelectual, caracterizada, essencialmente, por um comprometimento das faculdades que determinam o nível global de inteligência, ou seja, das funções cognitivas3. O transtorno mental é um termo geral usado de modo a abranger várias perturbações que afetam o funcionamento e comportamento emocional, social e intelectual. Caracteriza-se por reações emocionais inapropriadas dentro de vários padrões e graus de gravidade, por distorções (e não por deficiência) da compreensão e da comunicação, e por um comportamento social erradamente dirigido e não por incapacidade de adaptação. Estes podem se manifestar- de forma aguda, crônica ou intermitente. Os sistemas de classificação formais adotados pelas organizações internacionais fazem normalmente uma distinção entre estados psicóticos (por exemplo, esquizofrenia e doenças maníaco-depressivas), as perturbações de origem orgânica (por exemplo as demências e perturbações degenerativas do cérebro), as perturbações psiconeuróticas (por exemplo, estados de ansiedade e perturbações obsessivas) e perturbações de comportamento e personalidade. Assim, o transtorno mental engloba uma série de condições que também afetam o desempenho da pessoa na sociedade, além de causar alterações de humor, bom senso e concentração. Isso tudo causa uma alteração na percepção da realidade. Alguns exemplos são: Transtorno de Ansiedade, Fobias (medo excessivo), Transtorno Obsessivo-Compulsivo,Depressão, Transtorno Bipolar, Esquizofrenia, Transtornos Alimentares, entre outros. As possíveis causas permeiam os aspectos neurobiológicos, ambientais e psicológicos. Portanto, várias são as causas que fazem com que o indivíduo venha a desenvolver, em determinado momento de sua história um transtorno mental. Podemos perceber que há uma mescla de fatores físicos, ambientais e emocionais na história de um indivíduo com sofrimento mental. Como similaridade entre deficiência intelectual e transtorno mental pode-se perceber que ambos apresentam uma disfunção, ou seja, comprometimento do sistema nervoso central, sendo necessária uma avaliação criteriosa e interdisciplinar para diferenciar os quadros e definir condutas a serem adotadas, que vão caracterizar melhor a rede de recursos a ser acionada. E o transtorno mental pode ocorrer em 20% ou até 30% dos casos de deficiência intelectual. No quadro abaixo estão descritas as principais diferenças entre deficiência intelectual e transtorno mental: 3 Correspondem à capacidade de aprender e compreender, sendo funções superiores que se estabelecem a partir do sistema nervoso central. Elas englobam as capacidades de linguagem, aquisição da informação, percepção, memória, raciocínio, pensamento etc., as quais permitem a realização de tarefas como leitura, escrita, cálculos, conceptualização, sequência de movimentos, dentre outras. 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE 22 Autora: Mônica Rafaela de Almeida DIFERENÇAS DEFICIÊNCIA INTELECTUAL TRANSTORNO MENTAL Idade do diagnóstico Quoeficiente intelectual (QI) Funções Cognitivas Até os 18 anos de idade. QI abaixo de 70. Limitação no desenvolvimento das funções necessárias para compreender e interagir com o meio. Não se tem uma idade estabelecida. O indivíduo com transtorno mental sem comorbidades (quando dois ou mais transtornos estão etiologicamente relacionados) não apresenta QI abaixo de 70. Funções cognitivas existem, mas ficam comprometidas pelos fenômenos psíquicos aumentados ou anormais. A deficiência intelectual desafia a escola comum no seu objetivo de ensinar, e de levar o aluno a aprender o conteúdo curricular. O aluno com essa deficiência tem uma maneira própria de lidar com o saber, que não corresponde ao que a escola muitas vezes preconiza. Na verdade, não corresponder ao esperado pela escola pode acontecer com todo e qualquer aluno, mas os alunos com deficiência intelectual denunciam a impossibilidade de a escola atingir esse objetivo, de forma tácita. Os alunos com deficiência intelectual não permitem que a escola dissimule essa verdade. As outras deficiências não abalam tanto a escola comum, pois não tocam no cerne e no motivo da sua urgente transformação: considerar a aprendizagem e a construção do conhecimento acadêmico como uma conquista individual e intransferível do aprendiz, que não cabe em padrões e modelos idealizados (BATISTA e MANTOAN, 2007). QUADRO 03: Diferenças entre deficiência intelectual e transtorno mental Fo nt e: C ID 10 (1 99 3) Desta forma, se na deficiência intelectual, o indivíduo apresenta desenvolvimento intelectual reduzido ou incompleto, não dispondo, por conseguinte, de instrumentos necessários à boa compreensão de todas ou de parte das coisas, no transtorno mental ele detém os instrumentos intelectuais necessários, os quais, entretanto, apresentam funcionamento comprometido. Portanto, saber diferenciar a deficiência intelectual do transtorno mental é um passo essencial para evitar equívocos que possam prejudicar a pessoa e seus familiares em seu diagnóstico, prognóstico e tratamento, evitando assim as consequências das mudanças psicológicas, financeiras e sociais advindas do falso diagnóstico. Alguns indivíduos com deficiência intelectual podem apresentar perturbações que afetam o funcionamento e comportamento emocional, social e intelectual. Estas poderão existir desde os primeiros anos de vida, ou podem se manifestar só em uma fase posterior. Pessoas com deficiência intelectual são particularmente vulneráveis ao estresse que resulta das experiências de insucessos frequentes, da tensão e do esgotamento no trabalho, das relações familiares ou das amizades e da rejeição por parte de colegas que eles julgam importantes . Este estresse pode provocar distúrbios emocionais e sociais exacerbados pela capacidade de adaptação limitada, o que afeta o desenvolvimento da personalidade. 1.3 A ESCOLA COMUM DIANTE DA DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE 23 Autora: Mônica Rafaela de Almeida O aluno com deficiência intelectual tem dificuldade de construir conhecimento como os demais e de demonstrar a sua capacidade cognitiva, principalmente nas escolas que mantêm um modelo conservador de ensino e uma gestão autoritária e centralizadora. Essas escolas apenas acentuam a deficiência, aumentam a inibição, reforçam os sintomas existentes e agravam as dificuldades do aluno com deficiência intelectual (GOMES, POULIN e FIGUEIREDO, 2010). O caráter meritocrático, homogeneizador e competitivo das escolas tradicionais oprimem o professor, reduzindo-o a uma situação de isolamento e impotência, principalmente frente aos seus alunos com deficiência intelectual, pois são aqueles que mais “entravam” o desenvolvimento do processo escolar, em todos os seus níveis e séries. Diante da situação, a saída encontrada pela maioria dos professores é desvencilhar-se desses alunos que não acompanham as turmas, encaminhando-os para qualquer outro lugar que supostamente saiba como ensiná-los (ROSSATO e LEONARDO, 2011). Percebemos, na prática escolar, que o número de alunos categorizados como deficientes intelectuais foi ampliado enormemente, abrangendo erroneamente todos aqueles que não demonstram bom aproveitamento escolar e com dificuldades de seguir as normas disciplinares da escola. O aparecimento de novas terminologias aumentaram a confusão entre casos de deficiência intelectual e outros que apenas apresentam problemas na aprendizagem, por motivos que muitas vezes ocorrem devido às próprias práticas escolares. Se as escolas não se reorganizarem para atender a todos os alunos, indistintamente, a exclusão generalizada tenderá a aumentar, provocando cada vez mais queixas vazias e maior distanciamento da escola comum dos alunos que supostamente não aprendem. Assim, na busca por soluções imediatas para resolver a premência da observância do direito de todos à educação, algumas escolas procuraram saídas paliativas, envolvendo todo tipo de adaptação: de currículos, de atividades, de avaliação, de atendimento em sala de aula que se destinam unicamente aos alunos com deficiência. Essas soluções continuam reforçando o caráter substitutivo da Educação Especial, especialmente quando se trata de alunos com deficiência intelectual. Tais práticas adaptativas funcionam como um regulador externo da aprendizagem e estão baseadas nos propósitos e procedimentos de ensino que decidem o que falta ao aluno de uma turma de escola comum. Em outras palavras, ao adaptar currículos, selecionar atividades e formular provas diferentes para alunos com deficiência e/ou dificuldade de aprender, o professor interfere de fora, submetendo os alunos ao que supõe que eles sejam capazes de aprender. Na concepção inclusiva, a adaptação ao conteúdo escolar é realizada pelo próprio aluno e testemunha a sua emancipação intelectual. Esta emancipação é consequência do processo de autorregulação da aprendizagem, em que o aluno assimila o novo conhecimento, de acordo com suas possibilidades de incorporá-lo ao que já conhece. Entender este sentido emancipador da adaptação intelectual é sumamente importante para o professor comum e especializado. 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE 24 Autora: Mônica Rafaelade Almeida Aprender é uma ação humana, criativa, individual, heterogênea e regulada pelo sujeito da aprendizagem, independentemente de sua condição intelectual ser mais ou ser menos privilegiada. São as diferentes ideias, opiniões, níveis de compreensão que enriquecem o processo escolar e clareiam o entendimento dos alunos e professores. Essa diversidade deriva das formas singulares de nos adaptarmos cognitivamente a um dado conteúdo e da possibilidade de nos expressarmos abertamente sobre ele. ht tp :/ /a bc es pe ci al .b lo gs po t.c om .b r/ 20 12 /1 0/ a- ed uc ac ao - -e sp ec ia l-o -r am o- da -e du ca ca o. ht m l ht tp :/ /p ed ag og ia ut op ia er ea lid ad e. bl og sp ot .co m .b r/ 20 12 /0 2 Ensinar é um ato coletivo, no qual o professor disponibiliza a todos os alunos, sem exceção, um mesmo conhecimento. Ao invés de adaptar e individualizar/diferenciar o ensino para alguns, a escola comum precisa recriar suas práticas, mudar suas concepções, rever seu papel, sempre reconhecendo e valorizando as diferenças. As práticas escolares que permitem ao aluno aprender e ter reconhecidos e valorizados os conhecimentos que é capaz de produzir, segundo suas possibilidades, são próprias de um ensino escolar que se distingue pela diversificação de atividades. O professor, na perspectiva da Educação Inclusiva, não ministra um “ensino diversificado” e para alguns. Ele prepara atividades diversas para seus alunos (com e sem deficiência intelectual) ao trabalhar um mesmo conteúdo curricular. Essas atividades não são graduadas para atender a níveis diferentes de compreensão e estão disponíveis na sala de aula para que os alunos as escolham livremente, de acordo com seus interesses. 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE 25 Autora: Mônica Rafaela de Almeida Para exemplificar esta prática, consideremos o ensino dos planetas do sistema solar para uma turma de alunos com e sem deficiências. As atividades podem variar de propostas de elaboração de textos, a construção de maquetes do sistema planetário, realização de pesquisas em livros, revistas, jornais, internet, confecção de cartazes, leituras interpretativas de textos literários e poesias, apresentação de seminários sobre o tema, entre outras. O aluno com deficiência intelectual, assim como os demais colegas, escolhe a atividade que mais lhe interessar e a executa. Essa escolha e a capacidade de desempenhar a tarefa não é pré- definida pelo professor. Entretanto, a prática descrita anteriormente é distinta daquelas que habitualmente encontramos nas salas de aula, nas quais o professor escolhe e determina uma tarefa para todos os alunos realizarem individualmente e uniformemente, sendo que para os alunos com deficiência intelectual ele oferece outra atividade facilitada sobre o mesmo assunto ou até mesmo sobre outro completamente diferente. Contraditoriamente, esta tem sido a solução adotada pelos professores para impedir a “exclusão na inclusão”. Utilizando como exemplo esse mesmo conteúdo - o ensino dos planetas do sistema solar - é comum o professor selecionar uma atividade de leitura e interpretação de textos para todos os alunos, cabendo àquele com deficiência intelectual apenas colorir um dos planetas em folha mimeografada. Modificar essas práticas discriminatórias é um verdadeiro desafio, que implica em inovações na forma de professor e aluno avaliarem o processo de ensino e de aprendizagem. Elas exigem a negação do caráter padronizador da aprendizagem e eliminam todas as demais características excludentes das escolas comuns, que adotam propostas pedagógicas conservadoras. A prática escolar inclusiva provoca necessariamente a cooperação entre todos os alunos e o reconhecimento de que ensinar uma turma é, na verdade, trabalhar com um grande grupo e com todas as possibilidades de subdividi-lo. Dessa forma, nas subdivisões de uma turma, os alunos com deficiência intelectual podem aderir a qualquer grupo de colegas, sem formar um grupo à parte, constituído apenas de alunos com deficiência e/ou problemas na aprendizagem. Para conseguir trabalhar dentro de uma proposta educacional inclusiva, o professor comum precisa contar com o respaldo de uma direção escolar e de especialistas (orientadores, supervisores educacionais e outros), que adotem um modo de gestão escolar, participativo e descentralizado. Muitas vezes o professor tem ideias novas para colocar em ação em sua sala de aula, mas não são bem recebidas pelos colegas e pelos demais membros da escola, devido ao descompasso entre o que está propondo e o que a escola tem o hábito de fazer para o mesmo fim. A receptividade à inovação anima a escola a criar e a ter liberdade para experimentar alternativas de ensino. A autonomia para criar e experimentar coisas novas do professor se estenderá aos alunos com ou sem deficiência e assim os alunos com deficiência intelectual serão naturalmente valorizados e reconhecidos por suas capacidades e respeitados em suas limitações. A liberdade do professor e dos alunos, de criarem as melhores condições de ensino e de aprendizagem, não dispensa um bom planejamento de trabalho, seja ele anual, mensal, quinzenal ou mesmo diário. Ser livre para aprender e ensinar não implica em uma falta de limites e regras ou, ainda, em cair num espontaneismo de atuação. O ano letivo, assim como a rotina diária de uma turma, devem contemplar um tempo para planejar, outro para executar e outro para avaliar e socializar os conhecimentos aprendidos. Todo esse processo é realizado coletivamente e individualmente. 1 - DEFICIÊNCIA INTELECTUAL DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE 26 Autora: Mônica Rafaela de Almeida 2º MOMENTO PLANO ESTABELECIDO SOCIALIZAÇÃO ATIVIDADES REALIZADAS PARTICIPAÇÃO DE TODOS OS ALUNOS AVALIAÇÃO A avaliação dos alunos com deficiência intelectual visa ao conhecimento de seus avanços no entendimento dos conteúdos curriculares durante o ano letivo de trabalho, seja ele organizado por série ou ciclos. O mesmo vale para os outros alunos da sua turma, para que não sejam feridos os princípios da inclusão escolar. A promoção automática, quando é exclusiva para alunos com deficiência intelectual, constitui uma diferenciação pela deficiência, o que caracteriza discriminação. Em ambos os casos, o que interessa para que um novo ano letivo se inicie é o quanto o aluno, com ou sem deficiência, aprendeu no ano anterior, pois nenhum conhecimento é aprendido sem base no que se conheceu antes. ATIVIDADE PROPOSTA 1. Visite uma escola que tenha alunos com deficiência intelectual e procure saber quais as possíveis causas da deficiência desses alunos. Em seguida faça um relatório estatístico, classificando as causas ao momento de aquisição (Pré, Peri e/ou Pós-Natal). Além disso, procure acompanhar um dia de atividades dos alunos com deficiência intelectual na escola comum e registre como são realizadas as atividades e como se dá a inserção desses alunos nas tarefas. 1º MOMENTO CONVERSAÇÃO LIVRE ENTRE PROFESSOR E ALUNO O ALUNO SE EXPRESSA LIVREMENTE PLANEJAMENTO COLETIVO NEGOCIAÇÃO NO USO DO TEMPO DECISÕES COMPARTILHADAS Um exemplo de rotina de sala de aula: 2ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO 29 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida A deficiência intelectual não significa, necessariamente, uma incapacidade, já que esta se refere à impossibilidade, mesmo que momentânea, de atuação específica (AAIDD, 2010). Assim, as pessoas com deficiência intelectual possuem tantas diferenças entre si como todas as demais pessoas. Nesse sentido, considera-se que a deficiência intelectual pode até ser estrutural, mas não deve ser construída – ainda mais pela falta de estimulação adequada, pois, por mais severo que seja o comprometimento,a capacidade de aprender é intrínseca (SANCHEZ, 2008). E como o ambiente é dinâmico e o ser humano possui potencial de adaptação e mudança, o desenvolvimento humano pode variar. Um ambiente escolar que trabalhe as necessidades de cada aluno tem potencial para superar dificuldades, ou ao menos para amenizá-las. Devido ao grau de limitação imposto pela determinação neurológica, mesmo que o professor possa fazer muito no ensino escolar junto a alunos com deficiência intelectual, alguns conteúdos e objetivos educativos específicos serão inatingíveis, inclusive nos casos em que há um nível moderado de limitações. Mais do que destrinchar o conteúdo curricular, deve-se priorizar aquilo que pode ser assimilado pelo aluno, afinal, caso não ocorra a assimilação, não haverá a aquisição (aprendizagem), a memorização e, consequentemente, a recuperação e a aplicação (SANTOS, 2012). Mesmo que a apreensão de todo o conteúdo curricular pelo aluno com deficiência intelectual seja significativamente limitada, há a possibilidade de um efetivo desenvolvimento de suas potencialidades, tal como propõe a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) em relação aos objetivos educacionais centrados nos processos formativos e no vínculo com o mundo do trabalho e com a prática social. Desse modo, o currículo e o planejamento propostos ao aluno com deficiência intelectual devem gerar experiências em um ambiente em que seja possível definir ou reforçar a identidade do aluno (quem ele é, seu valor pessoal, sua cultura), sem discriminações e que promova segurança, relação interpessoal, contingências positivas e bem-estar pessoal. Além disso, a escola precisa permitir que a pessoa com deficiência intelectual tenha acessibilidade ao ambiente físico e ao instrumental (materiais e recursos que minimizem as dificuldades sensoriais e motoras). Nessa perspectiva, as práticas de ensino devem considerar as fases de desenvolvimento de cada aluno, as quais podem prolongar-se por um tempo maior. O professor precisa para isso utilizar práticas motivadoras, alegres e afirmativas, com estratégias ricas em estimulação e diversificadas quando necessário (por exemplo, recursos audiovisuais, objetos de diferentes materiais, cores e texturas). Vale destacar que as contingências de ensino devem partir de habilidades que o aluno já possui para, então, evoluir gradualmente naquilo que ainda é preciso desenvolver ou adquirir. Desse modo, é possível gerar condições para que o aluno acerte mais do que erre, receba mais reforço imediato e feedback. Assim, promove-se a motivação, a autoconfiança e o aumento de comportamentos almejados pelos objetivos escolares. O professor precisa levar o aluno com deficiência intelectual a pensar e verbalizar sobre aquilo que está sendo transmitido, uma vez que, na deficiência intelectual, o processamento da informação ocorre mais por recepção do que por ativação (ação) – o raciocínio lógico é possível desde que estimulado para tal. Além disto, tal estratégia gera consciência perante aquilo que está em aprendizagem. Isto trabalha a memória associativa, via informações contextualizadas. 2.1 POSSÍVEIS DIFICULDADES E FACILIDADES NA EDUCAÇÃO DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 30 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE Autora: Mônica Rafaela de Almeida Mesmo sendo utilizadas estratégias que favoreçam a transferência de um conteúdo para que a compreensão seja consistente e permanente e para que ocorram generalizações, certas repetições (num sentido quantitativo) de um conteúdo deverão ser estabelecidas para que a memorização ocorra, pois quanto maior é o comprometimento (déficit), maior é a necessidade de repetições. A estimulação adequada também será necessária em certos momentos para a recuperação de um conteúdo memorizado a partir de estímulos relacionados à situação original ou por meio de tempo e esforço novos para reaprender e atingir um desempenho semelhante ao original. Assim, é importante utilizar estratégias para o aperfeiçoamento da capacidade expressiva oral, do repertório verbal e da organização do pensamento, por meio de apresentação de relatos subjetivos, contação de histórias, apresentação de perguntas durante a aula, descrição de imagens e uso de linguagem variada. O brincar, que é uma abordagem natural para o desenvolvimento humano, pode favorecer o pensamento e a fantasia dos alunos com deficiência intelectual. Essas interações interpessoais também são positivas por permitirem que o aluno se reconheça como parte integrante de um grupo, tendo favorecidas sua autoestima e sua afetividade. O uso de atividades em blocos é importante para que o aluno com deficiência intelectual conclua toda a atividade, tendo em vista que tal aluno demonstra baixa consistência no desenvolvimento das atividades. Além disso, é necessário que o professor apresente comandos de alerta para aquilo que deve ser aprendido. Enquanto alunos sem deficiência aprendem facilmente por observação e imitação, os alunos com deficiência intelectual precisam de direcionamento frequente. Os conflitos devem ser reconhecidos e resolvidos pacífica e imediatamente, tendo em vista os iniciais sinais de estresse e irritabilida¬de, uma vez que alguns indivíduos com defici¬ência intelectual podem apresentar uma mar¬cada impulsividade e um fraco autocontrole emocional. Além disto, tais alunos podem ter maior dificuldade em executar as atividades escolares e a possibilidade de baixa autoestima pode gerar uma maior ocorrência de estresse e sua respectiva manifestação comportamental. A intervenção imediata é importante por não possibilitar a emissão de comportamentos mais extravagantes e desvantajosos em relação ao que é desejado em um ambiente escolar e social, bem como por evitar que tais comportamentos sejam reforçados. O estabelecimento de instruções diretas para os alunos com deficiência intelectual sobre comportamentos considerados adequados no ambiente escolar e social possibilita a aprendizagem de regras comuns para o convívio coletivo, como por exemplo, a conservação de objetos e do ambiente e a manutenção do silêncio em atividades comuns que o requerem. No cotidiano escolar de alunos com deficiência intelectual deve haver o mínimo possível de alteração nas atividades básicas (disciplinas, atendimento educacional especializado, esportes), obedecendo a horários regulares. Isso não significa, porém, que alterações repentinas da rotina sejam prejudiciais, mas elas devem ser bem dosadas e planejadas, principalmente quando envolverem atividades de conteúdos curriculares, pois as mudanças poderão gerar indesejada ansiedade e insegurança. Pesquisas mostram que nas aulas e atividades improvisadas, os alunos com deficiência intelectual tendem a ficar alheios às explicações, a causar maior agitação e a demonstrar maiores reações emocionais, colocando também o professor em estado de tensão e angústia. Nesse sentido, a Educação Inclusiva não visa só a minimização das dificuldades, mas o desenvolvimento de novas habilidades e o aperfeiçoamento de habilidades positivas que o aluno já possui. Vale destacar que comportamentos desejados (atenção, escrita, leitura, uso dos materiais escolares, participação nas brincadeiras) dos alunos com deficiência intelectual são favorecidos pelo convívio com modelos de comportamentos de alunos sem a deficiência. 31 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida Este é um dos principais aspectos que justificam a Educação Inclusiva, em contraposição ao argumento de ser mais favorável o aprendizado de alunos com deficiência intelectual em salas de ensino especializado (e dedicado a eles) do que em salas de ensino regular. O constante desenvolvimento e a aprendizagem são possíveis em casos de deficiência intelectual, e a capacidade humanatem como característica intrínseca a possibilidade da mudança. Com práticas de ensino e estimulação próprias a cada limitação e a cada potencialidade do aluno com deficiência intelectual, torna-se possível atingir objetivos escolares fundamentais, o que não significa que o quadro de deficiência intelectual possa ser completamente revertido, dada sua determinação neurológica fundamental. Entretanto, a escolarização é positiva por si só, por constituir-se como processo-chave para a formação humana e social, não podendo ser negada a nenhuma pessoa, mesmo em casos de grave comprometimento funcional e/ou estrutural (como a paralisia cerebral) (SANTOS, 2012). A princípio, o professor que atuará junto ao aluno com deficiência intelectual não precisará saber tudo sobre a deficiência, não sendo exigida uma habilidade técnica além de sua formação pedagógica. Deste modo, o professor irá se atualizando e aprendendo conforme cada caso específico, com cada aluno, uma vez que o aluno com deficiência intelectual é passível dos mesmos processos de aprendizagem que os alunos sem a deficiência. As limitações e possibilidades educacionais do aluno com deficiência intelectual não requerem intervenções complexas em relação às práticas pedagógicas comuns, mas exigem do professor uma atuação mais próxima, frequente e particular em relação a cada objetivo escolar e às habilidades envolvidas para que as metas se realizem. Assim, estudos de caso, planejamento individualizado e materiais de apoio são alguns dos elementos importantes para a atuação do professor junto ao aluno com deficiência intelectual, e não diferem dos princípios e das estratégias também utilizados com alunos sem deficiência. A angústia sentida em relação ao modo de trabalhar junto a alunos com deficiência intelectual, não pode se restringir exclusivamente ao quadro clínico desse grupo de alunos, uma vez que os próprios alunos sem deficiência não conseguem obter uma apreensão de todo o conteúdo curricular, o que ocorre devido a motivos diversos (história de aprendizagens, condição intrapessoal, saúde, condição social, motivação, etc.). Além disto, por mais dinâmico que seja o processo de ensino-aprendizagem do aluno com deficiência intelectual, o ensino escolar não terá potencial de ação suficiente para promover determinadas mudanças. Para que o ensino nesses casos seja mais efetivo, deve-se, em suma, criar condições para a atuação ativa do aluno, o uso de situações aplicadas (contextualizadas), o uso de um conteúdo curricular funcional, o trabalho de habilidades positivas e não só a redução das limitações e o desenvolvimento da capacidade de aprender (em contraposição à apreensão quantitativa de conteúdos). Também vale destacar que as intervenções escolares não se restringem aos alunos com deficiência intelectual, mas envolvem os demais alunos, como nas situações em que o professor deverá atuar como mediador tendo em vista a promoção de interações coletivas. 32 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE Autora: Mônica Rafaela de Almeida Durante décadas, a educação para alunos com deficiência intelectual manteve as mesmas características do ensino regular desenvolvido nas escolas tradicionais e sempre adotando práticas escolares adaptativas. As escolas limitavam-se unicamente a treinar seus alunos, subdivididos em categorias educacionais: treináveis e educáveis; limítrofes e dependentes. Esse treinamento se resumia a atividades de vida diária estereotipadas, repetitivas e descontextualizadas. Com a perspectiva da integração escolar, observamos que houve a manutenção das práticas adaptativas, com o objetivo de propiciar a inserção e/ou a reinserção de alunos com deficiência na escola comum, pelo treino dos mesmos conteúdos e programas do ensino regular. O agravante dessa prática adaptativa/integrativa está no fato de insistir para que o treino se realize a partir do que é concreto, insistentemente reproduzido, de forma alienante, supondo que os alunos com deficiência intelectual só aprendem a partir do concreto. A ideia contida nesse tipo de treino é equivocada, pois o concreto não dá conta do que um objeto é em toda a sua extensão e dos significados que cada pessoa pode atribuir a esse objeto, em função de sua vivência e referências anteriores. Para muitos aprendizes, contar palitos de fósforo não é uma atividade de aprendizagem dos numerais e nem mesmo uma oportunidade de construir a ideia de número. O aluno pode estar apenas manuseando esse material para entender o modo de sua mãe acender o fogo (BATISTA e MANTOAN, 2007). Por mais que se pretenda construir um conhecimento a partir do “concreto”, ele não se esgotará na sua dimensão física. A compreensão total do real é algo que jamais alcançaremos, mesmo no mais avançado estado intelectual. Por outro lado, a repetição de uma ação sobre um objeto, sem que o sujeito lhe atribua um significado próprio, é vazia, sem nenhuma repercussão intelectual e estéril, pois nada produz de novo e apenas coloca as pessoas com deficiência intelectual em uma posição inferior, enfraquecida e debilitada diante do conhecimento. O grande equívoco de uma prática de ensino que se baseia nessa lógica do concreto é a repetição alienante, que nega o acesso da pessoa com deficiência intelectual ao plano abstrato e simbólico da compreensão, ou seja, nega a sua capacidade de estabelecer uma interação simbólica com o meio. O perigo desse equívoco é empobrecer cada vez mais a condição das pessoas com deficiência intelectual. Elas ficam impossibilitadas de lidar com o pensamento, raciocinar, utilizar a capacidade de descobrir o que é visível e prever o invisível, criar e inovar, enfim, de ter acesso a tudo o que é próprio da ação de conhecer. Para exemplificar essa lógica, pode-se citar atividades como: decorar famílias silábicas; aprender a multiplicar; dividir ou somar a partir de inúmeras contas, envolvendo a mesma operação aritmética; repetir o cabeçalho todos os dias por várias vezes; responder copiando do livro; colorir desenhos reproduzidos e mimeografados pela professora para treino motor com cores pré-definidas, além de outras tarefas de pura memorização, que sustentam o ensino de má qualidade em geral (BATISTA e MANTOAN, 2007). Infelizmente, a educação especializada, durante muito tempo, tentou adaptar os alunos com deficiência intelectual às exigências da escola comum tradicional. 2.2 O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 33 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida Mas a partir de 2008, visualiza-se uma nova política de Educação Especial, que tem sua implantação definida pelo Decreto nº 6.571/2008, que dispõe sobre o Atendimento Educacional Especializado (AEE), definido no §1º do art.1º, como o conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos organizados institucionalmente e prestados de forma complementar ou suplementar à formação dos alunos no ensino regular (BRASIL, 2008). Assim, o AEE se apresenta com outra roupagem, os alunos com deficiência intelectual devem frequentar as salas comuns de ensino com os demais alunos e receber o Atendimento Educacional Especializado, no turno oposto ao seu horário escolar, nas Salas de Recursos Multifuncionais. No artigo 3º do Decreto nº 6.571/2008, essas salas são definidas como ambientes dotados de equipamentos, mobiliários e materiais didáticos para a oferta do Atendimento Educacional Especializado. Esse atendimento existe para que os alunos possam aprender o que é diferente dos conteúdos curriculares do ensino comum e que é necessário para que possam ultrapassar as barreiras impostas pela deficiência. As atividades desenvolvidas com os alunos diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização.Esse atendimento complementa e/ou suplementa a formação dos alunos com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela (BRASIL, 2008). As barreiras da deficiência intelectual diferem das barreiras encontradas nas demais deficiências. São barreiras referentes à maneira de lidar com o saber em geral, fato que reflete preponderantemente na construção do conhecimento escolar. Nesse sentido, é necessário que se estimule o aluno com deficiência intelectual a avançar na sua compreensão, criando-lhe conflitos cognitivos, ou melhor, desafiando-o a enfrentá-los (BRASIL, 2012). Deste modo, o AEE deve propiciar aos alunos com deficiência intelectual condições de passar de um tipo de ação automática e mecânica diante de uma situação de aprendizado/ experiência para privilegiar o desenvolvimento e a superação de seus limites intelectuais, exercitando sua atividade cognitiva, selecionando os meios que julguem mais convenientes para agir intelectualmente. Neste sentido, não adianta propor para os alunos com deficiência intelectual atividades que insistem na repetição pura e simples de noções de cor e forma, para que a partir desse suposto aprendizado, o aluno consiga entender essas e as demais propriedades físicas dos objetos, e ainda possa transpô-las para outros contextos de aprendizagem. Esse exercício intelectual implica em trabalhar a abstração, através da projeção das ações práticas em pensamento. A projeção e a coordenação das ações práticas em pensamento são partes de um processo cognitivo que é natural nas pessoas que não têm deficiência intelectual. Para aquelas que têm essa deficiência, essa passagem deve ser estimulada e provocada, para que consigam interiorizar o conhecimento e fazer uso dele, oportunamente (GOMES et al., 2008). Assim, o AEE para pessoas com deficiência intelectual está centrado na dimensão subjetiva do processo de conhecimento, que refere à forma pela qual o aluno trata todo e qualquer conteúdo que lhe é apresentado e como consegue significá-lo e compreendê-lo. Além de permitir que esse aluno saia de uma posição de “não saber”, ou de “recusa de saber” para se apropriar de um saber que lhe é próprio, ou melhor, que ele tem consciência de que o construiu. Nesta perspectiva, o Atendimento Educacional Especializado deve oferecer todas as oportunidades possíveis para que nos espaços educacionais em que ele acontece, o aluno seja incentivado a se expressar, pesquisar, inventar hipóteses e reinventar o conhecimento livremente. Assim, ele pode trazer para os atendimentos os conteúdos advindos da sua própria experiência, segundo seus desejos, necessidades e capacidades. O exercício da atividade cognitiva ocorrerá a partir desses conteúdos. 34 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADOAEE Autora: Mônica Rafaela de Almeida Podem ser oferecidas situações, envolvendo ações em que o próprio aluno tem participação ativa na sua execução e/ou façam parte da experiência de vida dele. O objetivo do Atendimento Educacional Especializado é propiciar condições e liberdade para que o aluno com deficiência intelectual possa construir a sua inteligência, dentro do quadro de recursos intelectuais que lhe é disponível, tornando-se agente capaz de produzir significado/conhecimento. O contato direto com os objetos a serem conhecidos não pode ser descartado, mas o importante é intervir no sentido de fazer com que esses alunos percebam a capacidade que têm de pensar, de realizar ações em pensamento, de tomar consciência de que são capazes de usar a inteligência de que dispõem e de ampliá-la, pelo seu esforço de compreensão, ao resolver uma situação problema qualquer. Mas sempre agindo com autonomia para escolher o caminho da solução e a sua maneira de atuar inteligentemente. O aluno com deficiência intelectual, como qualquer outro aluno, precisa desenvolver a sua criatividade, a capacidade de conhecer o mundo e a si mesmo, não apenas superficialmente ou por meio do que o outro pensa. O nosso maior engano é generalizar a dotação intelectual das pessoas com deficiência intelectual em um nível sempre muito baixo, carregado de preconceitos sobre a capacidade de, como alunos, progredirem na escola, acompanhando os demais colegas. Desse engano derivam todas as ações educativas que desconsideram o fato de que cada pessoa é uma pessoa, que tem antecedentes diferentes de formação, experiências de vida e que sempre é capaz de aprender e de exprimir um conhecimento. Uma atividade muito utilizada pelos professores de alunos com deficiência intelectual é fazer bolinhas de papel para serem coladas sobre uma figura traçada pelo professor em uma folha mimeografada. Essa atividade pode ser explorada de duas maneiras, com objetivos distintos. Uma delas é desenvolvê-la de forma alienante, limitada, repetitiva, reduzindo-se a um mero exercício de coordenação motora fina, realizada durante horas e sem o menor sentido para o aluno. A mesma atividade pode explorar a inteligência desse aluno se fizer parte de um plano e for uma escolha do aluno para reproduzir o miolo de uma flor, por exemplo. A colagem seria, nesse caso, uma estratégia que ele mesmo selecionou para demonstrar o seu conhecimento das partes de um vegetal e não unicamente para preencher o espaço de uma folha que lhe foi entregue (BATISTA e MANTOAN, 2007). No estudo das partes de um vegetal, essa atividade é uma entre várias que os alunos podem escolher e recriar, fazendo parte de todo um conjunto de trabalho, em que a flor é parte de outras noções pertinentes ou não ao plano. O que mais importa é que ele permita que os alunos tenham condições de enfrentar a atividade e que tomem consciência do que sabem, ht tp s: // pr ol u. w or dp re ss .co m /t ag /d ef ic ie nc ia -in te le ct ua l/ 35 AEA 2 - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEEAutora: Mônica Rafaela de Almeida do que não sabem e do que querem saber a respeito do que está sendo estudado. Essa consciência permite que os alunos expressem seus questionamentos e conhecimentos a respeito de tudo o que um objeto possa suscitar com liberdade e utilizando a sua criatividade. O Atendimento Educacional Especializado não deve ser uma atividade que tenha como objetivo o ensino escolar especial adaptado para desenvolver conteúdos acadêmicos, tais como a Língua Portuguesa, a Matemática, entre outros. Mas buscará o conhecimento que permite ao aluno a leitura, a escrita e a quantificação, sem o compromisso de sistematizar essas noções como é o objetivo da escola. Para possibilitar a produção do saber e preservar sua condição de complemento do ensino regular, o Atendimento Educacional Especializado necessita estar desvinculado da necessidade típica da produção acadêmica. A aprendizagem do conteúdo acadêmico limita as ações do professor especializado, principalmente quanto à liberdade de tempo e de criação que o aluno com deficiência intelectual precisa ter para se organizar diante do desafio do processo de construção do conhecimento. Esse processo de conhecimento, ao contrário do que ocorre na escola comum, não é determinado por metas a serem atingidas em uma determinada série, ou ciclo, ou mesmo etapas de níveis de ensino ou de desenvolvimento. O processo de construção do conhecimento, no Atendimento Educacional Especializado, não é ordenado de fora, e não é possível ser planejado sistematicamente, obedecendo a uma sequência rígida e pré-definida de conteúdos a serem assimilados. E assim sendo, não persegue a promoção escolar, mesmo porque esse aluno já está incluído. Na escola comum, o aluno constrói um conhecimento necessário e exigido socialmente e que depende de uma aprovação e reconhecimento da aquisição desse conhecimento por outro, seja ele o professor, pais, autoridades escolares, exames e avaliações institucionais. No Atendimento Educacional Especializado, o aluno