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AULA 1 
PERÍCIA AMBIENTAL 
Prof. Klaus Dieter Sautter 
 
 
2 
TEMA 1 – ACORDO ENTRE PARTES: MEDIAÇÃO, CONCILIAÇÃO E 
ARBITRAGEM 
O sistema judiciário brasileiro instituiu nas últimas décadas uma política 
pública de tratamento adequado dos conflitos judiciários. Essa política tem como 
função principal o desafogo do próprio sistema judiciário e também serve como 
estímulo à chamada solução por autocomposição, na qual os próprios envolvidos 
procuram por soluções eficazes, isto é, uma afirmação da participação popular nas 
decisões, como é o caso das soluções de litígios. Por isso mesmo toma um caráter 
democrático. Portanto, esse tipo de solução negocial, além de ser um meio com 
grande eficácia, também prevê a resolução de forma econômica dos conflitos. 
Essa política pública prevê três formas de resolução de conflitos jurídicos: a 
mediação, a conciliação e a arbitragem. 
1.1 Mediação 
A mediação pode ser caracterizada como uma possibilidade de solução dos 
conflitos na qual uma terceira pessoa intervém no processo de negociação, tendo 
como função básica auxiliar as diferentes partes a chegarem a uma resolução por 
autocomposição. Ela não resolve o problema, mas tenta levar as partes a um 
entendimento mútuo. Podemos dizer que a mediação é uma Solução Alternativa de 
Controvérsias (ADR – Alternative Dispute Resolution). 
O mediador acaba por servir como um intermediário na comunicação entre 
as partes, isto é, facilitando o diálogo, ajudando-os a entender as questões 
envolvidas e quais interesses estão em conflito. A intenção é que as partes 
consigam, elas mesmas, identificar soluções que sirvam para todos e tragam 
benefícios a ambas. 
No processo de mediação, o mediador não deve propor soluções. Por isso 
mesmo a mediação é indicada em casos nos quais há conflitos societários ou 
mesmo familiares, isto é, em que exista uma relação anterior entre as partes. A 
mediação será considerada de sucesso, quando as partes chegarem à uma 
solução negociada entre elas mesmas. 
 
 
 
3 
1.2 Conciliação 
A conciliação e a mediação são muito parecidas. A conciliação também é 
considerada como um Solução Alternativa de Controvérsias (ADR – Alternative 
Dispute Resolution). Porém, o conciliador deve ter uma participação ativa no 
processo, no sentido até de sugerir soluções ao problema discutido. Por isso 
mesmo, a conciliação deve ser utilizada quando não há vínculo anterior entre as 
diferentes partes envolvidas. 
Tanto a mediação quanto a conciliação podem ser resolvidas de forma 
extrajudicial ou judicial. Quando ocorre de forma judicial, o mediador e/ou 
conciliador são auxiliares da justiça. Desse modo, pode-se aplicar todas as regras 
relacionadas à forma processual, inclusive o fato do mediador/conciliador serem 
considerados impedidos ou sob suspeição. 
Ainda podem acontecer em Câmaras Públicas institucionais, por exemplo, 
vinculadas a um certo tribunal ou Defensoria Pública, associações de moradores, 
escolas ou OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ou até, em ambiente 
considerado privado, sendo então mais informal, como um escritório de advocacia. 
Tanto o mediador quanto o conciliador podem ser profissionais liberais 
especializados, como funcionários públicos. Eles podem exercer esta função sob 
pagamento ou pro bono, isto é, trabalho voluntário. É importante que as partes 
escolham, de forma consensual, o mediador/conciliador e onde será realizado o 
processo. 
Tanto a conciliação quanto a mediação devem seguir os princípios da 
independência, da imparcialidade, do autorregramento da vontade, da oralidade, 
da informalidade, da confidencialidade e da decisão informada. 
a) Princípio da independência: prevê que o mediador/conciliador deve exercer 
sua função com total liberdade, sem sofre qualquer tipo de pressão interna 
ou externa; 
b) No Princípio da Imparcialidade, o mediador/conciliador não ter 
absolutamente nenhuma espécie de conflito de interesses; 
c) O Princípio do Autorregramento é o espírito da mediação/conciliação, isto 
é, as partes devem definir qual a melhor solução para elas. Na mediação, 
o mediador não deve sugerir soluções. Já na Conciliação, o conciliador 
pode sugerir soluções; 
 
 
4 
d) A Confidencialidade é básica, e nenhum envolvido deve utilizar as 
informações ali contidas de modo diferente ao que foi definido no processo; 
e) A Oralidade e a Informalidade têm a função de tornar o processo mais 
“palatável” para as partes. A comunicação deve ser feita em linguagem 
considerada simples, e até a roupa utilizada deve ser mais informal. O 
ambiente também deve ser mais simples, sem barulho ou outras 
distrações. Isso proporciona um diálogo mais franco e leve entre as partes; 
f) No Princípio da Decisão Informada, é importante que as partes envolvidas 
estejam bem informadas, pois o consenso, seja na mediação ou na 
conciliação, só será atingido quando estas partes tiverem a exata 
compreensão do que discutem. Uma informação qualificada, qualifica o 
diálogo entre as partes. 
1.3 Arbitragem 
Assim como a mediação e a conciliação, a arbitragem é uma maneira de 
resolver-se conflitos na qual as partes envolvidas buscam uma terceira pessoa para 
tal. É considerada uma heterocomposição. 
A arbitragem é regulamentada no Brasil pela lei n. 9.307, de 1996 (Brasil, 
1996), na qual é definido quem pode adotar a arbitragem, como será o 
procedimento adotado etc. 
Na arbitragem, as partes envolvidas definem em qual entidade privada será 
solucionada a questão, não precisando passar obrigatoriamente pelo poder 
judiciário. Pode ocorrer pela cláusula compromissória ou pelo chamado 
compromisso arbitral: 
a) Na cláusula compromissória, as partes definem, antes do litígio, qual 
procedimento elas adotarão, e, a partir disso, será feito um contrato; 
b) O Compromisso Arbitral ocorre posteriormente à instauração do litígio. As 
partes, após o litígio, definem que a solução do conflito será dada no 
Tribunal Arbitral. 
 
 
5 
Figura 1 – Diferenças entre a mediação, conciliação e arbitragem 
TEMA 2 – O QUE É PERÍCIA? 
A palavra perícia vem do latim peritia ou peritus, que significa especialista. 
Assim, podemos definir a perícia como uma análise técnica que se faz de uma certa 
situação, por um especialista legalmente habilitado, nesse caso chamado de perito. 
A perícia é utilizada para esclarecer fatos, determinar as causas que motivaram os 
fatos examinados ou estimar o que é objeto de litígio ou processo. 
A perícia se origina a partir de uma demanda, iniciada por uma das partes 
interessadas na questão, com o intuito de buscar provas de certos atos e fatos, com 
a finalidade de fundamentar um posicionamento. 
Como colocado acima, o perito é quem conduz a perícia. Eles são 
considerados como auxiliares do poder judiciário, são de confiança do juiz do caso 
e devem possuir nível universitário, comprovando a sua especialidade. O juiz é 
quem nomeará o perito, que deve estar legalmente habilitado por seu respectivo 
Conselho Regional. 
Os peritos devem fazer constar dos respectivos laudos somente os fatos 
examinados, não tendo direito de emitir opiniões, suposições ou probabilidades, 
pois esses fatos serão anexados às provas. 
O trabalho do perito deve ser feito utilizando-se do exame de documentos, 
de dados disponibilizados, de informações, dos fatos dos acontecimentos, e mesmo 
de depoimentos, inquirições. Isso forma a denominada prova pericial. 
Mediação
•Há vínculo anterior 
entre as partes
•O mediador não 
propõe soluções
Conciliação
•Não há vínculo 
anterior entre as 
partes
•O conciliador pode 
propor soluções
Arbitragem
•Há sentença 
arbitral, o árbitro 
emite juízo de 
valor
 
 
6 
Entre as características da perícia, podemos citar (Aguiar et al., 2013): 
a) Ela prevê qual é a quantidade de tempo que será necessária, o valor 
financeiro, qual será a forma de pagamento e a metodologia utilizada; 
b) Tem como escopo a totalidadedos fatos, documentos, informações e 
qualquer meio que possa ser utilizado como prova; 
c) Tem como objetivo a emissão de laudo pericial; 
d) As partes envolvidas e o poder judiciário são os usuários da informação 
gerada; 
e) Normalmente só há um perito, podendo utilizar-se de auxiliares, porém sem 
responsabilidade técnica no processo; 
f) A opinião profissional do perito é necessária, deve ser detalhista e 
demonstrada com precisão; 
g) O trabalho de perícia tem data marcada para iniciar e fechar; 
h) O relacionamento de trabalho dá-se somente com o juiz, com as partes 
interessadas (por exemplo, autor e réu da ação); 
i) Não há divulgação externa do resultado da perícia, assim como a 
divulgação interna é somente entre o juiz e as partes interessadas; 
j) O perito tem a autoridade, que é concedida pelo juiz. 
Qualquer tipo de perícia judicial deve seguir o seguinte caminho: 
1. Nomeação do perito pelo juiz; 
2. Retirada do processo pelo perito; 
3. Planejamento da perícia e proposta de honorários; 
4. Devolução do processo; 
5. Retirado do processo para a realização da perícia propriamente dito; 
6. Elaboração do laudo pericial; 
7. Revisão do laudo; 
8. Devolução do processo e protocolo do laudo pericial. 
Na fase de nomeação, os quesitos técnicos devem ser levados em 
consideração, o perito pode se escusar, rejeitando a nomeação, ou as partes 
podem solicitar o impedimento ou suspeição do perito. 
O perito então examina o processo, planeja a metodologia da perícia e 
propõe os honorários. Esses honorários podem ser impugnados, mas depois de 
aceitos, devem ser depositados. Na fase de planejamento devem ser previstas as 
 
 
7 
diligências a serem realizadas, assim como os eventuais deslocamentos, 
necessidade de auxílio de terceiros, pesquisas e prazos a serem cumpridos. 
Há então a fase de diligências, na qual são levantadas todas as informações 
necessárias, podendo serem realizadas qualquer tipo de análise, desde que 
justificadas pelo perito. O laudo é elaborado, revisado e enviado ao processo. 
Nessa última fase ainda podem ser necessários esclarecimentos, tanto do juiz 
quanto das partes interessadas. O perito deve então proceder aos esclarecimentos. 
A perícia pode ser classificada de diferentes formas. Por exemplo pode ser 
civil ou criminal. A perícia civil se depara normalmente com conflitos de natureza 
judicial na área patrimonial ou pecuniária. Já a perícia criminal é relativa a infrações 
penais, e o Poder Judiciário defende a sociedade contra os infratores. 
Segundo a natureza da perícia, ela pode ser classificada conforme o objeto 
a ser estudado: perícia criminal, perícia de engenharia, perícia médica, perícia 
balística, perícia contábil, perícia ambiental, entre outras (Figura 2). 
Figura 2 – Perícia ambiental 
Crédito: Africa Studio/Shutterstock. 
TEMA 3 – PERÍCIA AMBIENTAL: CONCEITOS E APLICAÇÕES 
Como já discutimos anteriormente, a perícia nada mais é que, basicamente, 
um trabalho técnico-científico, que demanda que a obtenção de diferentes tipos de 
informação, dados da literatura científico-técnica, conhecimentos anteriores, por 
exemplo, de casos semelhantes, o intercâmbio de opiniões com outros 
especialistas etc. A partir daí é possível formular-se hipóteses, quer dizer, 
 
 
8 
conclusões conforme o observado. É de suma importância na perícia que essas 
hipóteses devam ser comprovadas. É claro que, para obter-se tudo isso, é 
necessário tempo e condições condizentes. 
Em uma perícia, é importante se entender o que está acontecendo ou o que 
já aconteceu. Para tal devemos limitar o escopo, definir a relação causa-efeito, 
para, então, sim, concluir sobre o caso estudado. Dessa maneira, é possível se 
chegar a uma conclusão sobre as razões do problema ou dano, sem sombra de 
dúvidas, de modo que não sejam possíveis contestações futuras. Quando 
elaboramos um laudo de perícia, por exemplo, deve-se concentrar atenções nos 
motivos que levaram àquele dano estudado. 
O perito sempre deve olhar de forma ampla e detalhada sobre o objeto da 
perícia. De forma ampla, para poder conseguir perceber toda a amplitude dos 
danos possíveis, e de forma detalhada, com a finalidade de especificar 
minunciosamente os danos causados ou riscos de ocorrência. 
A Perícia Ambiental, especialmente a chamada Perícia Ambiental Judicial, 
tem como objetivo principal identificar possíveis danos ambientais, e sua extensão, 
abrangência, atores envolvidos e até o risco de nova ocorrência ou ocorrência 
futuro destes danos ambientais. No Brasil define-se crime ambiental aquele 
ocorrido contra a fauna, a flora, administração do meio ambiente, e mesmo o 
ordenamento urbano e até o patrimônio cultural, por meio da ação de poluentes ou 
outras ações que causem os danos ambientais (Brasil, 1998) (Figura 3). 
Figura 3 – Objeto de estudo da perícia Ambiental 
Objeto de estudo da perícia ambiental 
Segundo a lei 9.605/98 – O crime ambiental pode ocorrer das seguintes formas 
Natureza dos 
crimes 
Meio Ações de possíveis perícias 
ambientais 
 
 
9 
 
 
 
 
Fauna 
 
Sob o aspecto biótico 
Maus-tratos em animais 
Identificação classificação de 
espécies 
Se a espécie está ameaçada 
de extinção 
Ações antrópicas que dificultam 
o ciclo bital e se o crime ocorre 
área protegida 
Flora 
Desmatamento 
Queimadas 
Exploração de madeiras 
Produção de carvão 
Administração 
ambiental 
Perícia sobre um RIMA aprovado indevidamente no órgão ambiental 
Sujeito à perícia tanto no escritório como no campo 
Ordenamento 
urbano e 
territorial 
Pixamento de prédios públicos, monumentos, obras de arte. 
Depredação de sítios arqueológicos 
Ocupação indevida de áreas públicas 
Poluição 
Gerada por 
aspectos 
socioeconômic
os 
 
Física 
 
Química 
 
Biológica 
 
Combinada Residual 
 
Ruídos 
Temperatur
a 
Luminosidad
e 
Vibração 
etc. 
Gases de 
veículos, 
chaminés. 
Fumaça 
de 
queimadas
. 
Efluentes 
de 
cortumes 
agrotóxico
s. 
Inflamávei
s etc. 
 
Efluentes de 
matadouros. 
Disseminaçã
o de agente 
atiológico. 
Introdução 
de espécies. 
Esgoto 
doméstico e 
lixões 
enquadram-
se também 
como 
poluição 
visual. 
Tipo de 
poluição 
que 
independe
nte da 
origem 
deixa 
sequelas 
ao homem 
e ao meio 
ambiente. 
Outros Sob o aspecto abiótico 
Mineração (ouro, ferro, 
mármore, calcário, saibro, areia 
etc.) execução de aterros, de 
drenagem, dragagem, 
barragens, erosão, voçoroca, 
resíduos sólidos e obras de 
engenharia em geral. 
 
Fonte: Pinto Neto; Arantes; Nadalini, 2011. 
O dano ambiental, gerador do processo de perícia ambiental, usualmente é 
derivado de uma atividade antropogênica, isto é, criada pelo ser humano, podendo 
 
 
10 
ser pessoa física e/ou jurídica, ou de interesse público ou do setor privado. A partir 
da identificação do dano, ou do risco deste, a perícia ambiental promove a possível 
avaliação desses danos. Essa avaliação pode ter cunho quantitativo ou qualitativo. 
A avaliação ainda pode ser tanto em uma escala numérica (por exemplo: valor 
econômico, expresso na moeda local), ou em uma escala ordinária (como, por 
exemplo, determinar a intensidade e a amplitude do dano ambiental, entre outros) 
(Figura 4). 
Figura 4 – Finalidades da Perícia Ambiental Judicial 
Fonte: Arantes; Arantes, 2016. 
Exatamente devido às suas características, a perícia ambiental pode ser 
demandada por diversas instâncias, como polícias civil, federal, estadual, militar e 
ambiental, órgãos de proteção ambiental de cunho estadual e municipal, 
Procuradoria de Justiça e pelo Ministério Público, assim como entidades privadas. 
Como podemos notar, a demanda por um bom perito ambiental pode ser grande... 
3.1 Características da Perícia Ambiental 
A perícia ambiental baseia-se na capacidade, treinamento, conhecimento e 
experiência do perito ambiental. Como características de um processo de perícia 
ambiental, temos: 
Valoração Econômica
• Valor monetário a sergasto com a finalidade de 
recompor o dano ambiental causado (chamado de 
valor pecuniário)
Valoração de amplitude / intensidade
• Determinação da área alcançada pelo dano ambiental 
e sua intensidade
 
 
11 
a) Multidisciplinariedade: como o meio ambiente é complexo, necessitando de 
ampla formação e conhecimento, muitas vezes é necessário reunir-se 
especialistas de diferentes áreas para responder as questões colocadas no 
processo. Vamos ver um exemplo? No caso de uma queimada 
descontrolada, precisamos de um engenheiro florestal para estudar os 
danos causados à cobertura vegetal, de um engenheiro agrônomo para 
estudar o que foi causado ao solo, e de um biólogo, para determinar os 
danos causados à fauna. Também um outro caso típico é o Estudo de 
Impactos Ambientais (EIA), em que muitas vezes são necessários biólogos, 
químicos, sociólogos, economistas, agrônomos, entre outros. É impossível 
um só especialista dominar todas as áreas do conhecimento necessárias à 
determinação de alguns tipos de danos ambientais, portanto, a 
multidisciplinariedade sempre é bem-vinda. 
b) Abrangência: devemos esquecer uma perícia ambiental rápida, expedita. 
Normalmente as perícias ambientais são muito complexas, chegando a ter 
uma solução muito difícil de ser determinada, demandando inclusive muito 
tempo do perito ambiental. Podemos citar o exemplo de poluição de rios: é 
muito difícil e necessita-se de muitas análise e estudos, para se determinar 
quem exatamente poluiu um determinado rio. A mesma coisa considera-
se, por exemplo, para a poluição do ar. A poluição do solo, por ser mais 
pontual, pode ter uma resolução mais fácil, mais simples, porém não 
significa ser uma perícia fácil. 
TEMA 4 – RISCOS E TIPOS DE ACIDENTES AMBIENTAIS 
Existem vários tipos de ameaças ao meio ambiente. Podemos citar a 
poluição em geral, fragmentação de habitats, a exploração em excesso dos 
recursos naturais, a introdução de espécies não pertencentes ao habitat, isto é, 
espécies exóticas, a proliferação de diferentes tipos de doenças, e os acidentes 
ambientais, provocados pelo ser humano em seus diferentes tipos de atividades. 
4.1 Definição de acidentes ambientais 
Um acidente ambiental geralmente é causado por falhas de natureza 
humana, mecânica ou simplesmente negligência do ser humano em um 
determinado processo. Pensando nessa ideia, podemos definir dois tipos básicos 
 
 
12 
de acidentes ambientais: o desastre natural e o desastre tecnológico (Chupil, 2014). 
Como exemplo, podemos citar o terremoto seguido de maremoto, em Fukushima, 
Japão, em 2011. O terremoto e maremoto foram considerados desastres naturais, 
isto é, fora do controle do ser humano. Porém, causaram sérios danos à uma usina 
nuclear, causando vazamento de radiação (desastre tecnológico). Então pode-se 
inferir que um desastre tecnológico sempre apresentará uma ligação direta com 
alguma atividade humana, mesmo que tenha como origem um desastre natural. Em 
uma indústria, por exemplo, podemos considerar um acidente ambiental 
tecnológico, aquele que ocorre durante a fase de manipulação, armazenamento ou 
transporte de produtos químicos, e assim haja alguma modificação nas condições 
ambientais originais, prejudicando a saúde, segurança e bem-estar do ser humano, 
e também danos à economia e condição social da região (Tabela 1). 
Tabela 1 – Número de acidentes ambientais registrados pelo IBAMA por local em 
que ocorreram, em 2011 
Local Número de acidentes 
Rodovia 233 
Plataforma 94 
Outros 89 
Indústria 77 
Armazenamento 58 
Duto 53 
Embarcação 43 
Ferrovia 30 
Posto de combustível 14 
Terminal, portos, ancoradouros etc. 11 
Refinaria 8 
Barragem 5 
Fonte: Chupil, 2014. 
4.2 Riscos de acidentes ambientais 
Quando tratamos de acidentes ambientais, alguns termos são importantes 
ao assunto tratado. 
 
 
13 
a) Risco: condição apresentada por uma ou mais questões, que podem 
originar um dano ambiental; 
b) Perigo: aparece a partir da exposição ao risco, podendo tornar-se um dano; 
c) Dano: é quando o perigo se torna real, materializa-se, causando um 
prejuízo ao ser humano e ao meio ambiente; 
d) Incidente: quando há um acontecimento não planejado, normalmente de 
pequenas dimensões, mas que pode se tornar um acidente; 
e) Acidente: é um evento que não foi planejado e que toma dimensões 
diversas (normalmente grandes, ampliadas). 
Há diversas formas de classificarmos os riscos de acidentes ambientais. Por 
exemplo, a National Regulatory Commission (NCR), citada por Almeida (2011), 
determina os riscos críveis em três classes: 
a) Classe 1 – aqueles que ocorrem em frequência moderada 
b) Classe 2 – aqueles que têm baixa probabilidade de ocorrência 
c) Classe 3 – que têm grande probabilidade de se tornarem severos. Esses 
riscos normalmente tem baixa probabilidade de ocorrer, porém, quando 
ocorrer, provocam grandes danos ambientais. 
Ainda podemos citar os acidentes fortuitos. Esses tipos de acidentes 
normalmente têm causa natural incontrolável (um furacão, uma inundação etc.), 
que acaba, por conta de falhas nos sistemas de segurança, acarretando um 
acidente tecnológico. Já os acidentes operacionais são aqueles considerados 
erros, falhas grosseiras, pois são de causa conhecida. Os acidentes operacionais 
originam-se, normalmente, da total falta de cuidado e dos erros dos métodos 
operacionais ou falha em peças. 
Podemos ainda classificar os riscos em dois grandes grupos: riscos 
voluntários e riscos involuntários. 
Os riscos voluntários ocorrem quando se assume que uma certa ação pode 
provocar um dano. Quer um exemplo? Quando alguém dirige em alta velocidade 
dentro da cidade. Ele assume que podem provocar um acidente. Quando ficamos 
obesos, nós assumimos que poderemos ter vários problemas de saúde. Em relação 
ao meio ambiente, podemos citar o caso de uma indústria que, propositadamente, 
joga seus resíduos no meio ambiente. Aí ela assume que a sua ação pode causar 
sérios danos ambientais e ao ser humano. 
 
 
14 
Já os riscos involuntários são aqueles que a sociedade não deseja. Esse 
risco é consequência da multiplicação da frequência de ocorrência pela magnitude 
de ocorrência. Um exemplo clássico é quando em média, duas pessoas morrem 
em cada acidente, em uma certa linha de trem. Se temos dez acidentes por ano, 
teremos vinte mortes por ano, somente naquela linha de trem. Esse é o risco social. 
A partir daí poderemos obter o risco individual, isto é, a probabilidade de cada 
evento em relação ao total da população. Para isso dividimos o risco social pela 
população da região. 
𝑅𝑖𝑠𝑐𝑜 𝑖𝑛𝑑𝑖𝑣𝑖𝑑𝑢𝑎𝑙 =
𝑅𝑖𝑠𝑐𝑜 𝑠𝑜𝑐𝑖𝑎𝑙
𝑝𝑜𝑝𝑢𝑙𝑎çã𝑜
 Eq. 1 
Por exemplo, se temos um risco social de vinte mortes por ano, em uma 
população de 2,5 mil habitantes, então o risco individual é de 0,08 ou 8%. 
Ainda temos de levar em conta o Risco Potencial, que é o risco de ocorrência 
de um acidente se todas as medidas preventivas não forem tomadas de forma 
correta. 
Saiba mais 
Você sabia que o Brasil possui um sistema de registro de acidentes 
ambientais? É o SIEMA – Sistema Nacional de Emergências Ambientais. Quer 
saber mais? Acesse o site disponível em: . Acesso 
em: 7 out. 2021. 
TEMA 5 – DANO AMBIENTAL: DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO 
Podemos caracterizar dano ambiental como prejuízos de caráter patrimonial 
e extrapatrimonial, não atingindo somente o meio ambiente natural, mas também o 
meio ambiente artificial, cultural e até o meio ambiente de trabalho. Ele é 
concretizado quando se constatam alterações das propriedades biológicas, físicas 
e/ou químicas do ambiente estudado. Nisto o dano ambiental pode ser considerado 
um impacto ambiental. A Resolução Conama n. 1, de 1986, considera impacto 
ambiental como: 
qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do 
meio ambiente, causada por qualquerforma de matéria ou energia 
resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: 
I - a saúde, a segurança e o bem-estar da população; II - as atividades 
sociais e econômicas; III - a biota; IV - as condições estéticas e sanitárias 
do meio ambiente; V - a qualidade dos recursos ambientais. (Conama, 
1986) 
 
 
15 
A avaliação dos danos, ou impactos ambientais, pode ser realizada através 
de diferentes técnicas. Uma destas técnicas é a Análise de Riscos, que consiste 
em um conjunto de técnicas ou métodos que buscam avaliar o risco de certa 
atividade à sociedade e ao meio ambiente. Pode ser realizada por meio da 
Probabilidade de Ocorrência, ou Amplitude das Consequências. 
A probabilidade de ocorrência denota quais são as chances daquele dano, 
ou impacto ocorrer (Tabela 2). 
Tabela 2 – Classificação de probabilidade de ocorrência de um dano ambiental 
Classe Denominação Descrição 
A Extremamente remota Possível, mas de ocorrência 
improvável 
B Remota Não se espera a ocorrência 
C Improvável Tem baixa probabilidade de 
ocorrência 
D Provável Probabilidade de ocorrer um ou duas 
vezes ao longo do tempo 
E Frequente Probabilidade de ocorrer uma ou 
duas vezes ao longo de 10 anos 
F Muito frequente Probabilidade de ocorrer uma ou 
duas vezes por ano 
G Rotineira Probabilidade de ocorrer uma ou 
duas vezes por mês 
Fonte: Pinto Neto; Arantes; Nadalini, 2011. 
Já na Amplitude das Consequências, podemos definir quão grande será 
aquele dano, ou impacto ambiental (Tabela 3). 
Tabela 3 – Classificação da Amplitude das Consequências de um dano ambiental 
Classe Descrição 
I. Desprezível Não provoca danos às pessoas ou ao meio 
ambiente 
II. Marginal Provoca leves danos à saúde das pessoas e 
impactos leves e reversíveis ao meio ambiente 
 
 
16 
III. Crítica Provoca danos com certa gravidade às pessoas, 
e danos severos ao meio ambiente 
IV. Catastrófica Provoca lesões graves, danos irreversíveis à 
saúde das pessoas, podendo levar à morte; 
assim como, danos de grande monta e 
irreversíveis ao meio ambiente. 
Fonte: Pinto Neto; Arantes; Nadalini, 2011. 
 
 
17 
REFERÊNCIAS 
AGUIAR, J. L. et al. Manual de procedimentos periciais. Goiânia: Gráfica Art 3, 
2013. 
ALMEIDA, J. R. de. Perícia ambiental, judicial e securitária: impacto, dano e 
passivo ambiental. Rio de Janeiro: Thex, 2011. 
ARANTES, C. A.; ARANTES, C. de. Perícia ambiental: aspectos técnicos e legais. 
Birigui: Boreal, 2016. 
BRASIL. Presidência da República, Casa Civil, Subchefia para assuntos jurídicos. 
Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996. Dispõe sobre a arbitragem. Disponível 
em: . Acesso em: 7 out. 2021. 
_____. Lei n. 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais 
e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e 
dá outras providências. Disponível em: 
. Acesso em: 7 out. 2021. 
CHUPIL, H. Acidentes ambientais e planos de contingência. Curitiba: 
Intersaberes, 2014. 
CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução Conama n. 1, de 
23 de janeiro de 1986. Dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a 
avaliação de impacto ambiental. Disponível em: 
. Acesso em: 7 out. 2021. 
PINTO NETO, M. C.; ARANTES, C. A.; NADALINI, A. C. V. (Coord.). Perícia 
ambiental. São Paulo: Pini, 2011.

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