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AULA 1 PERÍCIA AMBIENTAL Prof. Klaus Dieter Sautter 2 TEMA 1 – ACORDO ENTRE PARTES: MEDIAÇÃO, CONCILIAÇÃO E ARBITRAGEM O sistema judiciário brasileiro instituiu nas últimas décadas uma política pública de tratamento adequado dos conflitos judiciários. Essa política tem como função principal o desafogo do próprio sistema judiciário e também serve como estímulo à chamada solução por autocomposição, na qual os próprios envolvidos procuram por soluções eficazes, isto é, uma afirmação da participação popular nas decisões, como é o caso das soluções de litígios. Por isso mesmo toma um caráter democrático. Portanto, esse tipo de solução negocial, além de ser um meio com grande eficácia, também prevê a resolução de forma econômica dos conflitos. Essa política pública prevê três formas de resolução de conflitos jurídicos: a mediação, a conciliação e a arbitragem. 1.1 Mediação A mediação pode ser caracterizada como uma possibilidade de solução dos conflitos na qual uma terceira pessoa intervém no processo de negociação, tendo como função básica auxiliar as diferentes partes a chegarem a uma resolução por autocomposição. Ela não resolve o problema, mas tenta levar as partes a um entendimento mútuo. Podemos dizer que a mediação é uma Solução Alternativa de Controvérsias (ADR – Alternative Dispute Resolution). O mediador acaba por servir como um intermediário na comunicação entre as partes, isto é, facilitando o diálogo, ajudando-os a entender as questões envolvidas e quais interesses estão em conflito. A intenção é que as partes consigam, elas mesmas, identificar soluções que sirvam para todos e tragam benefícios a ambas. No processo de mediação, o mediador não deve propor soluções. Por isso mesmo a mediação é indicada em casos nos quais há conflitos societários ou mesmo familiares, isto é, em que exista uma relação anterior entre as partes. A mediação será considerada de sucesso, quando as partes chegarem à uma solução negociada entre elas mesmas. 3 1.2 Conciliação A conciliação e a mediação são muito parecidas. A conciliação também é considerada como um Solução Alternativa de Controvérsias (ADR – Alternative Dispute Resolution). Porém, o conciliador deve ter uma participação ativa no processo, no sentido até de sugerir soluções ao problema discutido. Por isso mesmo, a conciliação deve ser utilizada quando não há vínculo anterior entre as diferentes partes envolvidas. Tanto a mediação quanto a conciliação podem ser resolvidas de forma extrajudicial ou judicial. Quando ocorre de forma judicial, o mediador e/ou conciliador são auxiliares da justiça. Desse modo, pode-se aplicar todas as regras relacionadas à forma processual, inclusive o fato do mediador/conciliador serem considerados impedidos ou sob suspeição. Ainda podem acontecer em Câmaras Públicas institucionais, por exemplo, vinculadas a um certo tribunal ou Defensoria Pública, associações de moradores, escolas ou OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ou até, em ambiente considerado privado, sendo então mais informal, como um escritório de advocacia. Tanto o mediador quanto o conciliador podem ser profissionais liberais especializados, como funcionários públicos. Eles podem exercer esta função sob pagamento ou pro bono, isto é, trabalho voluntário. É importante que as partes escolham, de forma consensual, o mediador/conciliador e onde será realizado o processo. Tanto a conciliação quanto a mediação devem seguir os princípios da independência, da imparcialidade, do autorregramento da vontade, da oralidade, da informalidade, da confidencialidade e da decisão informada. a) Princípio da independência: prevê que o mediador/conciliador deve exercer sua função com total liberdade, sem sofre qualquer tipo de pressão interna ou externa; b) No Princípio da Imparcialidade, o mediador/conciliador não ter absolutamente nenhuma espécie de conflito de interesses; c) O Princípio do Autorregramento é o espírito da mediação/conciliação, isto é, as partes devem definir qual a melhor solução para elas. Na mediação, o mediador não deve sugerir soluções. Já na Conciliação, o conciliador pode sugerir soluções; 4 d) A Confidencialidade é básica, e nenhum envolvido deve utilizar as informações ali contidas de modo diferente ao que foi definido no processo; e) A Oralidade e a Informalidade têm a função de tornar o processo mais “palatável” para as partes. A comunicação deve ser feita em linguagem considerada simples, e até a roupa utilizada deve ser mais informal. O ambiente também deve ser mais simples, sem barulho ou outras distrações. Isso proporciona um diálogo mais franco e leve entre as partes; f) No Princípio da Decisão Informada, é importante que as partes envolvidas estejam bem informadas, pois o consenso, seja na mediação ou na conciliação, só será atingido quando estas partes tiverem a exata compreensão do que discutem. Uma informação qualificada, qualifica o diálogo entre as partes. 1.3 Arbitragem Assim como a mediação e a conciliação, a arbitragem é uma maneira de resolver-se conflitos na qual as partes envolvidas buscam uma terceira pessoa para tal. É considerada uma heterocomposição. A arbitragem é regulamentada no Brasil pela lei n. 9.307, de 1996 (Brasil, 1996), na qual é definido quem pode adotar a arbitragem, como será o procedimento adotado etc. Na arbitragem, as partes envolvidas definem em qual entidade privada será solucionada a questão, não precisando passar obrigatoriamente pelo poder judiciário. Pode ocorrer pela cláusula compromissória ou pelo chamado compromisso arbitral: a) Na cláusula compromissória, as partes definem, antes do litígio, qual procedimento elas adotarão, e, a partir disso, será feito um contrato; b) O Compromisso Arbitral ocorre posteriormente à instauração do litígio. As partes, após o litígio, definem que a solução do conflito será dada no Tribunal Arbitral. 5 Figura 1 – Diferenças entre a mediação, conciliação e arbitragem TEMA 2 – O QUE É PERÍCIA? A palavra perícia vem do latim peritia ou peritus, que significa especialista. Assim, podemos definir a perícia como uma análise técnica que se faz de uma certa situação, por um especialista legalmente habilitado, nesse caso chamado de perito. A perícia é utilizada para esclarecer fatos, determinar as causas que motivaram os fatos examinados ou estimar o que é objeto de litígio ou processo. A perícia se origina a partir de uma demanda, iniciada por uma das partes interessadas na questão, com o intuito de buscar provas de certos atos e fatos, com a finalidade de fundamentar um posicionamento. Como colocado acima, o perito é quem conduz a perícia. Eles são considerados como auxiliares do poder judiciário, são de confiança do juiz do caso e devem possuir nível universitário, comprovando a sua especialidade. O juiz é quem nomeará o perito, que deve estar legalmente habilitado por seu respectivo Conselho Regional. Os peritos devem fazer constar dos respectivos laudos somente os fatos examinados, não tendo direito de emitir opiniões, suposições ou probabilidades, pois esses fatos serão anexados às provas. O trabalho do perito deve ser feito utilizando-se do exame de documentos, de dados disponibilizados, de informações, dos fatos dos acontecimentos, e mesmo de depoimentos, inquirições. Isso forma a denominada prova pericial. Mediação •Há vínculo anterior entre as partes •O mediador não propõe soluções Conciliação •Não há vínculo anterior entre as partes •O conciliador pode propor soluções Arbitragem •Há sentença arbitral, o árbitro emite juízo de valor 6 Entre as características da perícia, podemos citar (Aguiar et al., 2013): a) Ela prevê qual é a quantidade de tempo que será necessária, o valor financeiro, qual será a forma de pagamento e a metodologia utilizada; b) Tem como escopo a totalidadedos fatos, documentos, informações e qualquer meio que possa ser utilizado como prova; c) Tem como objetivo a emissão de laudo pericial; d) As partes envolvidas e o poder judiciário são os usuários da informação gerada; e) Normalmente só há um perito, podendo utilizar-se de auxiliares, porém sem responsabilidade técnica no processo; f) A opinião profissional do perito é necessária, deve ser detalhista e demonstrada com precisão; g) O trabalho de perícia tem data marcada para iniciar e fechar; h) O relacionamento de trabalho dá-se somente com o juiz, com as partes interessadas (por exemplo, autor e réu da ação); i) Não há divulgação externa do resultado da perícia, assim como a divulgação interna é somente entre o juiz e as partes interessadas; j) O perito tem a autoridade, que é concedida pelo juiz. Qualquer tipo de perícia judicial deve seguir o seguinte caminho: 1. Nomeação do perito pelo juiz; 2. Retirada do processo pelo perito; 3. Planejamento da perícia e proposta de honorários; 4. Devolução do processo; 5. Retirado do processo para a realização da perícia propriamente dito; 6. Elaboração do laudo pericial; 7. Revisão do laudo; 8. Devolução do processo e protocolo do laudo pericial. Na fase de nomeação, os quesitos técnicos devem ser levados em consideração, o perito pode se escusar, rejeitando a nomeação, ou as partes podem solicitar o impedimento ou suspeição do perito. O perito então examina o processo, planeja a metodologia da perícia e propõe os honorários. Esses honorários podem ser impugnados, mas depois de aceitos, devem ser depositados. Na fase de planejamento devem ser previstas as 7 diligências a serem realizadas, assim como os eventuais deslocamentos, necessidade de auxílio de terceiros, pesquisas e prazos a serem cumpridos. Há então a fase de diligências, na qual são levantadas todas as informações necessárias, podendo serem realizadas qualquer tipo de análise, desde que justificadas pelo perito. O laudo é elaborado, revisado e enviado ao processo. Nessa última fase ainda podem ser necessários esclarecimentos, tanto do juiz quanto das partes interessadas. O perito deve então proceder aos esclarecimentos. A perícia pode ser classificada de diferentes formas. Por exemplo pode ser civil ou criminal. A perícia civil se depara normalmente com conflitos de natureza judicial na área patrimonial ou pecuniária. Já a perícia criminal é relativa a infrações penais, e o Poder Judiciário defende a sociedade contra os infratores. Segundo a natureza da perícia, ela pode ser classificada conforme o objeto a ser estudado: perícia criminal, perícia de engenharia, perícia médica, perícia balística, perícia contábil, perícia ambiental, entre outras (Figura 2). Figura 2 – Perícia ambiental Crédito: Africa Studio/Shutterstock. TEMA 3 – PERÍCIA AMBIENTAL: CONCEITOS E APLICAÇÕES Como já discutimos anteriormente, a perícia nada mais é que, basicamente, um trabalho técnico-científico, que demanda que a obtenção de diferentes tipos de informação, dados da literatura científico-técnica, conhecimentos anteriores, por exemplo, de casos semelhantes, o intercâmbio de opiniões com outros especialistas etc. A partir daí é possível formular-se hipóteses, quer dizer, 8 conclusões conforme o observado. É de suma importância na perícia que essas hipóteses devam ser comprovadas. É claro que, para obter-se tudo isso, é necessário tempo e condições condizentes. Em uma perícia, é importante se entender o que está acontecendo ou o que já aconteceu. Para tal devemos limitar o escopo, definir a relação causa-efeito, para, então, sim, concluir sobre o caso estudado. Dessa maneira, é possível se chegar a uma conclusão sobre as razões do problema ou dano, sem sombra de dúvidas, de modo que não sejam possíveis contestações futuras. Quando elaboramos um laudo de perícia, por exemplo, deve-se concentrar atenções nos motivos que levaram àquele dano estudado. O perito sempre deve olhar de forma ampla e detalhada sobre o objeto da perícia. De forma ampla, para poder conseguir perceber toda a amplitude dos danos possíveis, e de forma detalhada, com a finalidade de especificar minunciosamente os danos causados ou riscos de ocorrência. A Perícia Ambiental, especialmente a chamada Perícia Ambiental Judicial, tem como objetivo principal identificar possíveis danos ambientais, e sua extensão, abrangência, atores envolvidos e até o risco de nova ocorrência ou ocorrência futuro destes danos ambientais. No Brasil define-se crime ambiental aquele ocorrido contra a fauna, a flora, administração do meio ambiente, e mesmo o ordenamento urbano e até o patrimônio cultural, por meio da ação de poluentes ou outras ações que causem os danos ambientais (Brasil, 1998) (Figura 3). Figura 3 – Objeto de estudo da perícia Ambiental Objeto de estudo da perícia ambiental Segundo a lei 9.605/98 – O crime ambiental pode ocorrer das seguintes formas Natureza dos crimes Meio Ações de possíveis perícias ambientais 9 Fauna Sob o aspecto biótico Maus-tratos em animais Identificação classificação de espécies Se a espécie está ameaçada de extinção Ações antrópicas que dificultam o ciclo bital e se o crime ocorre área protegida Flora Desmatamento Queimadas Exploração de madeiras Produção de carvão Administração ambiental Perícia sobre um RIMA aprovado indevidamente no órgão ambiental Sujeito à perícia tanto no escritório como no campo Ordenamento urbano e territorial Pixamento de prédios públicos, monumentos, obras de arte. Depredação de sítios arqueológicos Ocupação indevida de áreas públicas Poluição Gerada por aspectos socioeconômic os Física Química Biológica Combinada Residual Ruídos Temperatur a Luminosidad e Vibração etc. Gases de veículos, chaminés. Fumaça de queimadas . Efluentes de cortumes agrotóxico s. Inflamávei s etc. Efluentes de matadouros. Disseminaçã o de agente atiológico. Introdução de espécies. Esgoto doméstico e lixões enquadram- se também como poluição visual. Tipo de poluição que independe nte da origem deixa sequelas ao homem e ao meio ambiente. Outros Sob o aspecto abiótico Mineração (ouro, ferro, mármore, calcário, saibro, areia etc.) execução de aterros, de drenagem, dragagem, barragens, erosão, voçoroca, resíduos sólidos e obras de engenharia em geral. Fonte: Pinto Neto; Arantes; Nadalini, 2011. O dano ambiental, gerador do processo de perícia ambiental, usualmente é derivado de uma atividade antropogênica, isto é, criada pelo ser humano, podendo 10 ser pessoa física e/ou jurídica, ou de interesse público ou do setor privado. A partir da identificação do dano, ou do risco deste, a perícia ambiental promove a possível avaliação desses danos. Essa avaliação pode ter cunho quantitativo ou qualitativo. A avaliação ainda pode ser tanto em uma escala numérica (por exemplo: valor econômico, expresso na moeda local), ou em uma escala ordinária (como, por exemplo, determinar a intensidade e a amplitude do dano ambiental, entre outros) (Figura 4). Figura 4 – Finalidades da Perícia Ambiental Judicial Fonte: Arantes; Arantes, 2016. Exatamente devido às suas características, a perícia ambiental pode ser demandada por diversas instâncias, como polícias civil, federal, estadual, militar e ambiental, órgãos de proteção ambiental de cunho estadual e municipal, Procuradoria de Justiça e pelo Ministério Público, assim como entidades privadas. Como podemos notar, a demanda por um bom perito ambiental pode ser grande... 3.1 Características da Perícia Ambiental A perícia ambiental baseia-se na capacidade, treinamento, conhecimento e experiência do perito ambiental. Como características de um processo de perícia ambiental, temos: Valoração Econômica • Valor monetário a sergasto com a finalidade de recompor o dano ambiental causado (chamado de valor pecuniário) Valoração de amplitude / intensidade • Determinação da área alcançada pelo dano ambiental e sua intensidade 11 a) Multidisciplinariedade: como o meio ambiente é complexo, necessitando de ampla formação e conhecimento, muitas vezes é necessário reunir-se especialistas de diferentes áreas para responder as questões colocadas no processo. Vamos ver um exemplo? No caso de uma queimada descontrolada, precisamos de um engenheiro florestal para estudar os danos causados à cobertura vegetal, de um engenheiro agrônomo para estudar o que foi causado ao solo, e de um biólogo, para determinar os danos causados à fauna. Também um outro caso típico é o Estudo de Impactos Ambientais (EIA), em que muitas vezes são necessários biólogos, químicos, sociólogos, economistas, agrônomos, entre outros. É impossível um só especialista dominar todas as áreas do conhecimento necessárias à determinação de alguns tipos de danos ambientais, portanto, a multidisciplinariedade sempre é bem-vinda. b) Abrangência: devemos esquecer uma perícia ambiental rápida, expedita. Normalmente as perícias ambientais são muito complexas, chegando a ter uma solução muito difícil de ser determinada, demandando inclusive muito tempo do perito ambiental. Podemos citar o exemplo de poluição de rios: é muito difícil e necessita-se de muitas análise e estudos, para se determinar quem exatamente poluiu um determinado rio. A mesma coisa considera- se, por exemplo, para a poluição do ar. A poluição do solo, por ser mais pontual, pode ter uma resolução mais fácil, mais simples, porém não significa ser uma perícia fácil. TEMA 4 – RISCOS E TIPOS DE ACIDENTES AMBIENTAIS Existem vários tipos de ameaças ao meio ambiente. Podemos citar a poluição em geral, fragmentação de habitats, a exploração em excesso dos recursos naturais, a introdução de espécies não pertencentes ao habitat, isto é, espécies exóticas, a proliferação de diferentes tipos de doenças, e os acidentes ambientais, provocados pelo ser humano em seus diferentes tipos de atividades. 4.1 Definição de acidentes ambientais Um acidente ambiental geralmente é causado por falhas de natureza humana, mecânica ou simplesmente negligência do ser humano em um determinado processo. Pensando nessa ideia, podemos definir dois tipos básicos 12 de acidentes ambientais: o desastre natural e o desastre tecnológico (Chupil, 2014). Como exemplo, podemos citar o terremoto seguido de maremoto, em Fukushima, Japão, em 2011. O terremoto e maremoto foram considerados desastres naturais, isto é, fora do controle do ser humano. Porém, causaram sérios danos à uma usina nuclear, causando vazamento de radiação (desastre tecnológico). Então pode-se inferir que um desastre tecnológico sempre apresentará uma ligação direta com alguma atividade humana, mesmo que tenha como origem um desastre natural. Em uma indústria, por exemplo, podemos considerar um acidente ambiental tecnológico, aquele que ocorre durante a fase de manipulação, armazenamento ou transporte de produtos químicos, e assim haja alguma modificação nas condições ambientais originais, prejudicando a saúde, segurança e bem-estar do ser humano, e também danos à economia e condição social da região (Tabela 1). Tabela 1 – Número de acidentes ambientais registrados pelo IBAMA por local em que ocorreram, em 2011 Local Número de acidentes Rodovia 233 Plataforma 94 Outros 89 Indústria 77 Armazenamento 58 Duto 53 Embarcação 43 Ferrovia 30 Posto de combustível 14 Terminal, portos, ancoradouros etc. 11 Refinaria 8 Barragem 5 Fonte: Chupil, 2014. 4.2 Riscos de acidentes ambientais Quando tratamos de acidentes ambientais, alguns termos são importantes ao assunto tratado. 13 a) Risco: condição apresentada por uma ou mais questões, que podem originar um dano ambiental; b) Perigo: aparece a partir da exposição ao risco, podendo tornar-se um dano; c) Dano: é quando o perigo se torna real, materializa-se, causando um prejuízo ao ser humano e ao meio ambiente; d) Incidente: quando há um acontecimento não planejado, normalmente de pequenas dimensões, mas que pode se tornar um acidente; e) Acidente: é um evento que não foi planejado e que toma dimensões diversas (normalmente grandes, ampliadas). Há diversas formas de classificarmos os riscos de acidentes ambientais. Por exemplo, a National Regulatory Commission (NCR), citada por Almeida (2011), determina os riscos críveis em três classes: a) Classe 1 – aqueles que ocorrem em frequência moderada b) Classe 2 – aqueles que têm baixa probabilidade de ocorrência c) Classe 3 – que têm grande probabilidade de se tornarem severos. Esses riscos normalmente tem baixa probabilidade de ocorrer, porém, quando ocorrer, provocam grandes danos ambientais. Ainda podemos citar os acidentes fortuitos. Esses tipos de acidentes normalmente têm causa natural incontrolável (um furacão, uma inundação etc.), que acaba, por conta de falhas nos sistemas de segurança, acarretando um acidente tecnológico. Já os acidentes operacionais são aqueles considerados erros, falhas grosseiras, pois são de causa conhecida. Os acidentes operacionais originam-se, normalmente, da total falta de cuidado e dos erros dos métodos operacionais ou falha em peças. Podemos ainda classificar os riscos em dois grandes grupos: riscos voluntários e riscos involuntários. Os riscos voluntários ocorrem quando se assume que uma certa ação pode provocar um dano. Quer um exemplo? Quando alguém dirige em alta velocidade dentro da cidade. Ele assume que podem provocar um acidente. Quando ficamos obesos, nós assumimos que poderemos ter vários problemas de saúde. Em relação ao meio ambiente, podemos citar o caso de uma indústria que, propositadamente, joga seus resíduos no meio ambiente. Aí ela assume que a sua ação pode causar sérios danos ambientais e ao ser humano. 14 Já os riscos involuntários são aqueles que a sociedade não deseja. Esse risco é consequência da multiplicação da frequência de ocorrência pela magnitude de ocorrência. Um exemplo clássico é quando em média, duas pessoas morrem em cada acidente, em uma certa linha de trem. Se temos dez acidentes por ano, teremos vinte mortes por ano, somente naquela linha de trem. Esse é o risco social. A partir daí poderemos obter o risco individual, isto é, a probabilidade de cada evento em relação ao total da população. Para isso dividimos o risco social pela população da região. 𝑅𝑖𝑠𝑐𝑜 𝑖𝑛𝑑𝑖𝑣𝑖𝑑𝑢𝑎𝑙 = 𝑅𝑖𝑠𝑐𝑜 𝑠𝑜𝑐𝑖𝑎𝑙 𝑝𝑜𝑝𝑢𝑙𝑎çã𝑜 Eq. 1 Por exemplo, se temos um risco social de vinte mortes por ano, em uma população de 2,5 mil habitantes, então o risco individual é de 0,08 ou 8%. Ainda temos de levar em conta o Risco Potencial, que é o risco de ocorrência de um acidente se todas as medidas preventivas não forem tomadas de forma correta. Saiba mais Você sabia que o Brasil possui um sistema de registro de acidentes ambientais? É o SIEMA – Sistema Nacional de Emergências Ambientais. Quer saber mais? Acesse o site disponível em: . Acesso em: 7 out. 2021. TEMA 5 – DANO AMBIENTAL: DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO Podemos caracterizar dano ambiental como prejuízos de caráter patrimonial e extrapatrimonial, não atingindo somente o meio ambiente natural, mas também o meio ambiente artificial, cultural e até o meio ambiente de trabalho. Ele é concretizado quando se constatam alterações das propriedades biológicas, físicas e/ou químicas do ambiente estudado. Nisto o dano ambiental pode ser considerado um impacto ambiental. A Resolução Conama n. 1, de 1986, considera impacto ambiental como: qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquerforma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I - a saúde, a segurança e o bem-estar da população; II - as atividades sociais e econômicas; III - a biota; IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V - a qualidade dos recursos ambientais. (Conama, 1986) 15 A avaliação dos danos, ou impactos ambientais, pode ser realizada através de diferentes técnicas. Uma destas técnicas é a Análise de Riscos, que consiste em um conjunto de técnicas ou métodos que buscam avaliar o risco de certa atividade à sociedade e ao meio ambiente. Pode ser realizada por meio da Probabilidade de Ocorrência, ou Amplitude das Consequências. A probabilidade de ocorrência denota quais são as chances daquele dano, ou impacto ocorrer (Tabela 2). Tabela 2 – Classificação de probabilidade de ocorrência de um dano ambiental Classe Denominação Descrição A Extremamente remota Possível, mas de ocorrência improvável B Remota Não se espera a ocorrência C Improvável Tem baixa probabilidade de ocorrência D Provável Probabilidade de ocorrer um ou duas vezes ao longo do tempo E Frequente Probabilidade de ocorrer uma ou duas vezes ao longo de 10 anos F Muito frequente Probabilidade de ocorrer uma ou duas vezes por ano G Rotineira Probabilidade de ocorrer uma ou duas vezes por mês Fonte: Pinto Neto; Arantes; Nadalini, 2011. Já na Amplitude das Consequências, podemos definir quão grande será aquele dano, ou impacto ambiental (Tabela 3). Tabela 3 – Classificação da Amplitude das Consequências de um dano ambiental Classe Descrição I. Desprezível Não provoca danos às pessoas ou ao meio ambiente II. Marginal Provoca leves danos à saúde das pessoas e impactos leves e reversíveis ao meio ambiente 16 III. Crítica Provoca danos com certa gravidade às pessoas, e danos severos ao meio ambiente IV. Catastrófica Provoca lesões graves, danos irreversíveis à saúde das pessoas, podendo levar à morte; assim como, danos de grande monta e irreversíveis ao meio ambiente. Fonte: Pinto Neto; Arantes; Nadalini, 2011. 17 REFERÊNCIAS AGUIAR, J. L. et al. Manual de procedimentos periciais. Goiânia: Gráfica Art 3, 2013. ALMEIDA, J. R. de. Perícia ambiental, judicial e securitária: impacto, dano e passivo ambiental. Rio de Janeiro: Thex, 2011. ARANTES, C. A.; ARANTES, C. de. Perícia ambiental: aspectos técnicos e legais. Birigui: Boreal, 2016. BRASIL. Presidência da República, Casa Civil, Subchefia para assuntos jurídicos. Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996. Dispõe sobre a arbitragem. Disponível em: . Acesso em: 7 out. 2021. _____. Lei n. 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 7 out. 2021. CHUPIL, H. Acidentes ambientais e planos de contingência. Curitiba: Intersaberes, 2014. CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução Conama n. 1, de 23 de janeiro de 1986. Dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental. Disponível em: . Acesso em: 7 out. 2021. PINTO NETO, M. C.; ARANTES, C. A.; NADALINI, A. C. V. (Coord.). Perícia ambiental. São Paulo: Pini, 2011.