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Apostila de Eletrocardiografia Flávio Galvão Maria Lucia Mattos Alexandre Galvão Versão 2.7.17 � Sumário Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br �ntrodução ............................................... 1 Capítulo 1 Anatomia do Coração Artérias coronárias ............................................ 3 Coronária direita ..................................,............ 3 Coronária esquerda ........................................... 5 Capítulo 2 Sistema de Condução Nó sinusal .......................................................... 9 Área juncional atrioventricular ........................ 10 Ramo direito .................................................... 10 Ramo esquerdo ................................................ 11 Capítulo 3 Eletrofisiologia Celular Potencial de ação dos átrios ............................ 14 Potencial de ação dos ventrículos ................... 14 Período refratário ............................................ 16 Potencial de resposta lenta .............................. 16 Bases iônicas da ativação ................................ 17 Capítulo 4 Atividade Elétrica do Coração Teoria do dipolo .............................................. 23 Ativação e repolarização atrial ........................ 24 Ativação e repolarização ventricular ............... 25 Derivações eletrocardiográficas ...................... 27 Sistema de eixos .............................................. 33 Cálculo do eixo no plano frontal ..................... 35 Plano horizontal ............................................... 38 Capítulo 5 Sistema de Registro Registro do ECG ............................................ 42 Capítulo 6 ECG Normal do Adulto Determinar o ritmo .......................................... 44 Cálculo da Freqüência Cardíaca ..................... 45 Onda P ............................................................. 46 �ntervalo e segmento PR ................................. 46 Complexo QRS ............................................... 47 Segmento ST ................................................... 50 Onda T ............................................................. 51 �ntervalo QT .................................................... 52 Onda U ............................................................ 53 Conclusões ...................................................... 53 • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Capítulo 7 Eletrocardiograma Normal da Criança Tabela de valores normais ............................... 55 Freqüência cardíaca ......................................... 57 Ritmo ............................................................... 57 Onda P ............................................................. 57 �ntervalo PR ..................................................... 57 Complexo QRS ............................................... 57 Tabela de caracterização do ECG da criança .. 58 Onda T ............................................................. 58 Segmento ST ................................................... 58 �ntervalo QT .................................................... 59 Capítulo 8 Sobrecargas Atriais e Ventriculares Sobrecargas atriais............................................ 60 Sobrecarga atrial direita .............................. 63 Sobrecarga atrial esquerda ........................... 66 Sobrecarga biatrial ....................................... 68 Sobrecargas ventriculares ................................ 69 Sobrecarga ventricular esquerda .................. 73 Sobrecarga ventricular direita....................... 76 Sobrecarga biventricular............................... 78 Capítulo 9 Distúrbios da Condução do �mpulso Bloqueio sinoatrial .......................................... 81 Bloqueio intra-atrial ........................................ 82 Bloqueio atrioventricular ................................. 82 Bloqueio atrioventricular do 1o grau ........... 82 Bloqueio atrioventricular do 2o grau ............83 Bloqueio atrioventricular do 3o grau ........... 85 Bloqueios intraventriculares............................. 87 Bloqueio completo do ramo direito ............. 90 Bloqueio incompleto do ramo direito .......... 91 Atraso final da condução ............................. 92 Bloqueio completo do ramo esquerdo ......... 92 Bloqueio incompleto do ramo esquerdo ...... 95 Bloqueios divisionais do ramo esquerdo ..... 95 Divisão ântero superior .......................... 96 Divisão póstero inferior .......................... 98 Divisão ântero medial ............................100 Associação de bloqueios ............................ 102 Bloqueio bifascicular ............................ 103 Bloqueio trifascicular ........................... 103 • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • �� Sumário Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br Capítulo 10 Distúrbio da Formação do �mpulso Batimentos de escape.......................................104 Extra-sístoles ..................................................105 Pausa pós extra-sistólica ................................ 105 Extra-sístole interpolada ................................ 105 �ntervalo de acoplamento .............................. 106 Unifocais e polifocais .................................... 106 Aberância ...................................................... 106 Disritmias envolvendo o nó sinusal .............. 107 Taquicardia e bradicardia sinusais ................. 107 Taquicardia sinusal ........................................ 107 Taquicardia sinusal inapropriada ................... 108 Taquicardia ortostática postural .................... 108 Bradicardia sinusal ........................................ 108 Arritmia sinusal ............................................. 109 Arritmia sinusal fásica ................................... 109 Arritmia sinusal não fásica ............................ 110 Parada sinusal ................................................ 110 Arritmias supraventriculares ..........................110 Batimento de escape atrial ............................. 110 Ritmo de escape atrial ................................... 110 Ritmo atrial ectópico ..................................... 111 Taquicardia atrial ........................................... 111 Marcapasso atrial migratório ......................... 111 Taquicardia atrial multifocal ......................... 111 Extra-sístoles atriais ...................................... 111 Taquicardia atrial com bloqueio AV .............. 113 Flutter atrial ................................................... 113 Fibrilação atrial .............................................. 114 Taquicardia por reentrada nodal .................... 116 Taquicardia reentrante atrioventricular........... 116 Extra-sístoles juncionais................................. 117 Taquicardia paroxística juncional AV............. 118 Arritmias ventriculares................................... 119 Extra-sístoles ventriculares............................. 119 Escape ventricular ......................................... 122 Ritmo ventricular de escape .......................... 122 Ritmo idioventricular acelerado..................... 122 Parassistolia ventricular ................................. 122 Taquicardia ventricular .................................. 123 Torsades de Pointes ....................................... 124 Flutter ventricular .......................................... 124 Fibrilação ventricular .................................... 125 Capítulo 11 �squemia, lesão e necrose Doença arterialcoronária............................... 126 �squemia ........................................................ 128 �squemia subepicárdica ............................. 130 �squemia subendocárdica ........................... 130 �squemia transmural .................................. 131 Lesão ............................................................. 131 Corrente de lesão subepicárdica................. 136 Corrente de lesão subendocárdica.............. 136 Corrente de lesão transmural ..................... 136 Necrose ...........................................................136 Necrose transmural .................................... 137 Necrose dos 2/3 internos ........................... 137 Necrose do epicardio elétrico .................... 137 • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Necrose de parte do epicardio ....................... 137 Síndromes coronárias agudas ........................ 138 Formação da onda Q ..................................... 139 QRS fragmentado .......................................... 139 Onda Q anormal ............................................ 139 Padrão evolutivo do �AM com supra ............ 140 Paciente com suspeita de SCA ...................... 140 Capítulo 12 Pré-excitação ventricular Histórico ........................................................ 142 Base anatômica .............................................. 142 Feixe de Kent ............................................... 143 Padrão eletrocardiográfico ............................. 143 Padrão eletrocardiográfico clássico ............... 143 Localização da via acessória ........................ 146 Disrritmias associadas ................................... 151 Capítulo 13 ECG em Portadores de Marcapasso Marcapasso .................................................... 152 Códigos de letras .......................................... 154 Modos de estimulação .................................. 155 Capítulo 14 Distúrbios Eletrolíticos Alterações pelo potássio ................................ 161 Alterações pelo cálcio .................................. 166 Alterações pelo magnésio .............................. 167 Capítulo 15 Alterações por Medicamentos Digital ............................................................ 168 Quinidina ...................................................... 169 Difenil-hidantoína.......................................... 170 Propafenona .................................................. 170 Propranolol .................................................... 171 Amiodarona ................................................... 171 Capítulo 16 Doenças dos Canais �ônicos Síndrome de Brugada..................................... 172 Síndrome do QT longo .................................. 174 Síndrome do QT curto .................................. 175 Índice Remissivo .................................. 177 • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 1 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br Prefácio. Esta apostila tem como principal objetivo dar suporte adicional para tornar o leitor capaz de entender e interpretar o eletrocardiograma normal do adulto, como também saber identificar as principais alterações eletrocardiográficas e ainda ter conhecimento básico das diferenças entre o ECG do adulto e o da criança. Fornece o conhecimento e in- formação sobre os principais tópicos que compreende os assuntos relacionados à maioria das situações de eletrocardiogramas alterados que ocorrem na prática clínica diaria. Mantem-se atualizada de acordo com o que é publicado através do UpToDate, nos diversos livros da literatura nacional e internacional sobre eletrocardiografia e também está em grande parte de acordo com as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, no tocante a interpretação e emissão de laudos de eletrocardiogramas. Para facilitar a atualização dinâmica e rápida dos tópicos, de acordo com o que é continuamente publicado, se optou por manter essa publicação na forma de uma apostila, impressa e encadernada de forma artesanal, o que não seria possível mante-la assim, atu- alizada com a rapidez necessária com que os novos conhecimentos são publicados, se a mesma fosse impressa em uma gráfica convencional. Sendo assim, essa publicação é mantida atualizada continuamente, assim que cada novo conhecimento e informação é publicado, e nova versão é disponibilizada a cada seis meses, ou antes, se informações relevantes chegam à literatura. Exemplo disso é a descrição da Síndrome de Brugada em 1992, Síndrome do QT curto em 2000 e de novos conceitos e valores, como os publicados nas Diretrizes Brasileiras de Eletrocardiografia da Sociedade Brasileira de Cardilogia. Dessa forma, excetuando-se a sua capa, está apostila é impressa em uma impressora profissional, a jato de tinta e embora seja utilizada tinta especial, a mesma não é total- mente resistente a água. Chama-se a atenção para que se tenha cuidado em relação a esse fato. 2 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br Capítulo 1 Anatomia do Coração O coração humano de um adulto possui quatro câmaras. O átrio direito recebe sangue origina- do de todo o corpo, excetuando-se o sangue que vem dos pulmões, pois o sangue destes é recebido pelo átrio esquerdo. Possui também dois ventrículos, direito e es- querdo, que impelem o sangue para os pulmões e para o resto do corpo, respectivamente (figura 1.1). O coração é envolvido pelo pericárdio e tem seu próprio suprimento sanguíneo, através das artérias coronárias (figura 1.2). Funciona como uma bomba muscular pulsátil que impele o sangue pelas artérias e veias. Tem a forma de um cone e localiza-se por trás do esterno, obli- quamente entre os pulmões, sobre o diafragma. A maior parte do coração, aproximadamente dois terços, está do lado esquerdo do tórax. O suprimento sanguíneo ao coração, como já foi dito, é dado pelas artérias coronárias (figu- ras 1.3 e 1.4) e a drenagem venosa é feita pelas veias que desembocam no seio coronário e pelas pequenas veias que drenam diretamente no átrio direito. O seio co- Figura 1.2 - Aorta e os principais vasos co- ronarianos. Figura 1.1 - Visão do coração com suas quatro câmaras e os principais vasos. 3 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br ronário (figura 1.3) é o principal vaso responsável pela drenagem venosa do coração; esvazia-se no átrio direito e recebe a drenagem de sangue das seguintes veias: (1) veias cardíacas magna, (2) media, (3) parva, (4) oblíqua do átrio esquerdo e (5) posterior do ventrículo esquerdo; as veias cardíacas anteriores, drenam o sangue venoso diretamente no átrio direito, sem passarem pelo seio co- ronário. Artérias coronárias As artérias coronárias levam o sangue para o epicárdio e grande parte do miocárdio (figuras 1.3, 1.4, 1.6 e 1.7), pois o endocárdio e subendocárdio rece- bem os nutrientes necessários e oxigênio, ou através de difusão diretamente das câmaras cardíacas, ou de uma complexa rede anastomótica de capilares originados de ramos profundos perfurantes (tipo B). As coronárias, es- querda e direita, têm origem diretamente da aorta, na sua porção proximal, nos seios coronários esquerdo e direi- to, respectivamente, imediatamente acima da valva da aorta. Elas suprem tanto os ventrículos quanto os átrios, embora nestes últimos os ramos coronários sejam muito pequenos. A artéria que dá origem à artéria descen- dente posterior, define a dominância do sistema arterialcoronário. A dominância da artéria coronária direita ocor- re mais freqüentemente, pois apenas em 10% das pes- soas a dominância se dá pela coronária esquerda e em 15% existe co-dominância. Esse conceito de dominância ou balanceamento da circulação da face diafragmática do coração, utilizando-se como referência a região do crux cordis, foi fundamentado em 1940 por Schlesiner. Mais tarde, Blunk e DiDio consideraram a dominância da artéria coronária direita, quando ela fornecia ramos para a face posterior do ventrículo direito. Recentemente Falci e colaboradores, consideraram a dominância direita quando esta coronária atinge e ultrapassa o crux cordis e fornece um ou mais ramos para o ventrículo esquerdo. Consideraram como circulação balanceada, quando a coronária direita atinge o cruz cordis, mas não o ultrapas- sa e consideraram dominância esquerda quando a coro- nária esquerda atinge o cruz cordis, originando ou não ramos para o ventrículo direito (figuras 1.4, 1.6 e 1.7). O conhecimento da anatomia coronária, de uma forma geral, é fundamental para que se possa entender a localização de várias alterações eletrocardio- gráficas, especialmente quando estivermos estudando os tópicos isquemia, lesão e necrose. É possível se fazer uma associação com a coronária envolvida, a região do coração comprometida e a derivação eletrocardiográfica correspondente, que “estuda” aquela região do coração. Iremos ver posteriormente, que cada região do coração, conta com uma ou um grupo de derivações correspon- dentes a ela. Coronária direita A coronária direita, como foi dito, tem a sua origem do seio aórtico direito (seio de Valsalva direi- Figura 1.3 - Face posterior do coração evi- denciando as artérias coronárias. Figura 1.4 - Face anterior mostrando a aor- ta e os principais vasos coronarianos. 4 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br to) na porção ascendente da artéria aorta. No seio aórtico direito podem existir dois óstios que geralmente fazem saliência a partir da aorta, entre a base da artéria pulmo- nar e o corpo do átrio direito. Eles dão origem à artéria do cone que forma a metade direita do anel de Vieussens e a artéria coronária direita. Se a artéria do cone não surgir diretamente da aorta, ela será o primeiro ramo da artéria coronária principal direita. A artéria do cone é uma impor- tante via alternativa de circulação colateral. A artéria coronária direita situa-se mais profundamente na gordura do sulco atrioventricular que a coronária circunflexa, e continua seu trajeto pelo inte- rior do sulco atrioventricular posterior direito, para cruzar a cruz do coração; divide-se terminalmente em duas direções, com dois ou mais ramos descendo pelo inte- rior do sulco interventricular posterior ou próximo a ele, em direção ao ápice do coração; o outro ramo grande continua no sulco átrio-ventricular esquerdo, com seus ramos descendentes suprindo quase a metade da super- fície diafragmática do ventrículo esquerdo, pois os ramos terminais da artéria circunflexa esquerda geralmente su- prem a outra metade. Quase todos os ramos ventriculares di- reitos da artéria coronária direita, surgem perpendicular- mente à artéria coronária direita principal, enquanto os do sulco átrio-ventricular direito, para a parede anterior do ventrículo direito, possuem uma saída em espiral quando emergem de sua posição profunda na gordura. Os ramos ventriculares anteriores direitos são em número de três ou quatro. Estes ramos são aproximadamente paralelos à margem aguda do coração, e dirigem-se para o ápice e o sulco interventricular anterior. A coronária direita, portanto, de forma resumida, se desloca pelo sulco atrioventricular e logo inicialmente dá origem ao ramo do nó sinoatrial. Em se- guida, ainda no sulco atrioventricular, emite o ramo mar- ginal direito, que vai irrigar a margem direita do coração e nesse momento a coronária direita direciona-se para a esquerda, ainda no sulco atrioventricular, indo para a Figura 1.5 - Em (A) ilustração do padrão de dominância direita, com a DP tendo orígem da CD; em (B) mostra dominância esquerda, onde a DP se origina da CX e em (C) o padrão é balanceado, pois existem duas DPs, uma se originando da CX e a outra da CD. 5 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br face posterior, até a cruz do coração (cruz cordis), onde dá origem à artéria do nó atrioventricular. Nesta região, a artéria coronária direita emite a artéria interventricular posterior, que segue pelo sulco interventricular posterior, até encontrar o ápice do coração. Essa grande artéria irriga ambos os ventrículos, e envia ainda ramos sep- tais interventriculares perfurantes, dirigidos ao septo in- terventricular. Logo mais adiante, ao nível do ápice do coração, a artéria coronária direita se anastomosa com o ramo circunflexo e interventricular anterior, da coronária esquerda. Sendo assim, a coronária direita irriga: 1) o átrio direito, 2) a maior parte do ventrículo direito, 3) uma parte do ventrículo esquerdo - a parte diafragmáti- ca, 4) parte do septo atrioventricular (geralmente o terço posterior), 5) o nó sinoatrial (60% das pessoas) e 6) o nó atrioventricular (80% das pessoas) (figuras 1.7 e 1.8). Coronária esquerda A artéria coronária esquerda origina-se no centro da metade superior do seio aórtico esquerdo (Seio de Valsalva esquerdo), causando uma saliência entre a artéria pulmonar principal e o corpo do átrio es- querdo. Até a sua divisão em ramo circunflexo e ramo descendente anterior, não existe nenhum ramo originado pela artéria coronária esquerda. Este grande vaso situa- 6se livremente na gordura epicárdica e, por isso, durante o enchimento sistólico das artérias coronárias, este vaso curva-se facilmente, pois não está ligado anteriormente ao miocárdio por ramos, como ocorre com a descendente anterior. Quando a coronária esquerda atinge o extremo esquerdo do sulco coronário, divide-se em dois ramos, ramo descendente anterior esquerdo e ramo circunflexo. Embora a divisão da coronária esquerda seja conside- rada como uma bifurcação, mas é muito mais comum, neste ponto, existirem três ou mais divisões igualmente grandes. A artéria descendente anterior esquerda se forma pelo grande ramo que desce no sulco interven- tricular anterior e o ramo que penetra no sulco atrioventri- cular esquerdo constitui a artéria circunflexa esquerda. Os ramos em número de um a três que passam entre o sulco interventricular anterior e o marco obtuso, em direção ao ápice do coração, são denomina- dos ramos ventriculares diagonais esquerdos. A artéria descendente anterior esquerda assemelha-se como se fosse uma continuidade da artéria esquerda principal, formando as duas, uma curva reversa em forma de ‘S‘, com volta inicial situada ao redor da base da artéria pulmonar, no sulco interventricular anterior, e a segunda volta, ao redor do ápice cardíaco, para cima e para o interior do sulco interventricular posterior. Essa artéria, a descendente anterior, emite ramos grandes em duas direções: (1) os que passam sobre a parede livre do ventrículo esquerdo e (2) os que penetram e fazem Figura 1.6 - Desenho representando a face anterior do coração, ilustrando a circulação coronária desta região. Observa-se a coronaria direita com os seus ramos e a coronária es- querda pricipal (tronco da coronaria esquerda) e os seus principais ramos: a descendente anterior (DA) e a circunflexa (CX). 6 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br uma curva posterior no interior do septo interventricular. Na parede adjacente do ventrículo direito há distribuição de um número menor deramos, embora possa surgir um único vaso grande geralmente vindo da descendente an- terior, cruzando diagonalmente sobre a parede anterior do ventrículo direito. Ao nível das válvulas pulmonares uma pequena artéria curva-se em torno do cone da pulmonar e se encontra com ramo semelhante originado do lado direito. Estas duas pequenas artérias, juntas, se consti- tuem em um importante marco anatômico, que foi descri- to pela primeira vez por Vieussens. Os ramos da artéria descendente anterior esquerda surgem em ângulo agudo e distribuem-se pela parede livre do ventrículo esquerdo ou então para o septo interventricular. De forma variável, em número de três a cinco, os ramos septais da artéria descendente anterior fixam-se ao epicárdio e limitam sua variação de amplitu- de durante o enchimento sistólico, como já foi falado an- teriormente. Também em número semelhante, de três a cinco, os ramos para a parede livre do ventrículo esquer- do geralmente seguem um trajeto paralelo aos ramos diagonais da artéria coronária principal esquerda. Em raras situações a artéria descendente anterior termina na superfície anterior do ápice, pois mais comumente esta artéria se curva quase sempre ao redor do sulco interven- tricular posterior, distribuindo ramos para as superfícies posteriores do ápice dos ventrículos esquerdo e direito. Ao chegar ao seu término, encontra-se com ramos distais da artéria descendente posterior. O ramo descendente anterior esquerdo segue em direção ao ápice do coração, através do sulco interventricular, curvando-se na margem inferior do coração, onde se anastomosa com o ramo in- terventricular posterior da artéria coronária direita. A artéria circunflexa esquerda surge da artéria coronária principal esquerda, como já foi dito, em um ângulo de aproximadamente 90º, às vezes mais, sendo que em algumas outras vezes toma direção qua- se que oposta à referida coronária esquerda principal. A aurícula esquerda se sobrepõe na porção proximal da artéria circunflexa esquerda e na maior parte da área de “bifurcação” da artéria coronária principal esquerda. A partir de sua origem, próximo à aorta e a artéria pul- monar, a artéria circunflexa esquerda sobe através do sulco coronário esquerdo e emerge sob a margem lateral da aurícula, para em seguida ser recoberta por gordura epicárdica. Costuma virar-se para baixo no ventrículo es- querdo, em direção ao ápice do coração. Fornece sempre grandes ramos para a superfície posterior (diafragmática) do ventrículo esquerdo durante seu trajeto, incluindo um ou mais ramos bastante grandes que continuam no sulco Figura 1.7 - Imagens de reconstrução obtidas através de uma angiotomografia das arterias coronarias, evidenciando todo o sistema arterial coronário, com suas arterias principais e os seus respectivos ramos, mostrando claramente a relação topográfica destas arterias com a aorta e o coração. 7 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br átrio-ventricular em direção ao sulco interventricular pos- terior onde se encontram com ramos terminais da artéria coronária direita. A maior parte do átrio esquerdo, da parede lateral e parte da parede posterior do ventrículo esquerdo, são supridas pelos ramos da artéria circunflexa esquerda. O nódulo sinusal e a parede atrial esquerda são supridos pelos dois ramos atriais principais. A artéria circunflexa atrial esquerda, que em certas ocasiões costuma terminar sobre a parede posterior do átrio esquerdo, cruza por trás, sobre o sulco átrio-ventricular, para suprir a porção superior do ventrículo esquerdo. Ramos ventriculares desta artéria surgem em ângulo agudo a partir do vaso de origem, iniciando-se do sulco átrio-ventricular, quase paralelos aos ramos diagonais da artéria coronária principal esquerda e a ramos semelhantes que surgem da artéria descendente anterior esquerda. Portanto, a coronária esquerda, da mesma forma que a coronária direita, tam- bém pode dar origem ao ramo do nó sinusal, na face posterior do átrio esquerdo. Isso ocorre me- nos frequentemente que em relação à coroná- ria direita, pois em apenas 40% das pessoas o ramo sinusal é originado do ramo circunflexo da coronária esquerda. O ramo circunflexo segue o sulco coronário, pela margem esquerda, indo até a face posterior do coração, e também, frequen- temente se anastomosa com o ramo interventri- cular posterior da coronária direita. Do ramo cir- cunflexo nasce a artéria marginal esquerda que seguindo a margem esquerda do coração supre o ventrículo esquerdo. Então, a coronária esquerda fornece suprimento sanguíneo para: 1) átrio es- querdo, 2) a maior parte do ventrículo esquerdo, 3) parte do ventrículo direito, 4) a maior parte do septo interventricular, comumente os dois terços anteriores, incluindo o fascículo atrioventricular do tecido de condução (irrigado pelos ramos septais interventriculares perfurantes) e 5) o nó sinusal. Nas figuras 1.8 e 1.9 se observa uma coronariografia, mostrando a coronaria di- reita e a coronaria esquerda e seus respectivos ramos. Estas informações sobre anatomia das artérias coronárias serão muito úteis posteriormente e ajudarão bastante na interpretação eletrocardiográfica, especialmente na correlação clínica, quando formos es- Figura 1.8 - Coronariografia mostrando a corona- ria esquerda, a descendente anterior esquerda, a circunflexa e os seus respectivos ramos. Figura 1.9 - Coronariografia evidenciando a coro- nária direita e os seus ramos. 8 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br tudar o padrão eletrocardiográfico de isquemia, lesão e necrose, por isso, a anatomia coronária básica deve ser memorizada por todos os interessados no estudo da ele- trocardiografia. É importante entender a relação entre as diversas estruturas e regiões anatômicas, as coronárias e ramos das mesmas e as derivações eletrocardiográfi- cas correspondentes. 9 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br A transmissão do impulso elétrico do nó sinusal até os ventrículos se dá por vias preferências. Vão ser abordadas neste tópico, de forma didática e sumarizada, apenas informações básicas, para o enten- dimento de como o estí- mulo elétrico se propaga, desde o nó sinusal até os átrios e ventrículos. O nó sinusal se localiza na união da veia cava supe- rior com a parede poste- rior do átrio direito (figura 2.1), por isso o vetor de despolarização atrial tem direção paraa esquerda e para baixo, e gera comu- mente polaridade positiva da onda P nas derivações D1, D2 e D3, indicando que o ritmo do coração é comandado pelo nó si- nusal, ou seja, o ritmo é sinusal. E x i s t e m fibras especializadas em condução (feixes interno- dais), dentro dos átrios, facilitando assim a condução do estímulo elétrico do nó sinusal (NS) para átrio esquerdo e nó átrio ventricular (NAV). Esses feixes foram descritos no início do século XX por Bachmann, Wenckebach e Thorel, mas inicial- mente se achava que não desempenhavam nenhum papel na condução do estímulo. A idéia inicial era de que o estímulo elétrico do nó sinusal até o NAV e átrio esquerdo, se fizesse de forma radiada. Em 1963 os tra- balhos de James admitiram que a condução interatrial e internodal, ocorria por vias de condução preferenciais, os feixes internodais, compostos tanto de células de condu- ção (células de Purkinje) como por células da muscula- tura atrial. São três feixes internodais, o feixe de Wenckebach descrito em 1907 (feixe internodal mé- dio), feixe de Thorel, des- crito em 1909 e estudado por James posteriormente (feixe internodal posterior) e feixe internodal anterior,descrito por Bachmann (figura 2.1). O trato internodal anterior se ori- gina na porção superior do nó sinusal, divide-se em duas partes, sendo que uma delas se dirige para a parte alta do septo interatrial do átrio esquer- do, trato de Bachmann, e a outra se dirige para o nó atrioventricular na sua porção mais ampla (cefáli- ca). O trato de Bachmann é muito mais rico em célu- las de Purkinje que todos os outros feixes. O trato inter- nodal médio se origina na porção media do nó sinusal, contorna a veia cava superior, passa próximo ao septo interatrial e vai até a parte alta do nó atrioventricular. O trato internodal posterior se origina na região posterior do nó sinusal, passa por baixo da fossa oval e acima do orifício do seio coronário e penetra no nó atrioventricular, em sua porção posterior. Figura 2.1 - Sistema de condução do cora- ção, detalhando de forma resumida, desde o nó sinusal até a rede de Purkinje. Capítulo 2 Sistema de Condução 10 Flávio Galvão - Maria Lucia Mattos - Alexandre Galvão Curso de Eletrocardiografia www.educmed.com.br Parte das fibras do feixe internodal pos- terior, unem-se às fibras dos feixes médio e anterior, e penetram na parte inferior do nó atrioventricular, no fei- xe de His e ainda podem penetrar em zona de músculo septal. Quando esse desvio está presente, é conhecido como feixe de James (Figura 11). Isso é importante para entender a presença da situação em que ocorre pré-ex- citação, originando um PR de duração curta, mas sem a presença de onda delta (QRS de duração normal), si- tuação presente na Síndrome do PR curto ou Síndrome de Lown-Ganong-Levine, descrita por esses autores em 1956 (Circulation 1952; 5:693). Isso vai ser detalhada- mente discutido em outro momento, quando se abor- dar sobre pré-excitacão, mas pode ser dito logo, que a presença de PR curto pode decorrer ou de aceleração da condução no NAV ou então pela presença dessa via acessória peri-nodal. Agora é importante apenas tomar conhe- cimento da existência dos feixes internodais e do feixe de Bachmann, que leva o estímulo para o átrio esquerdo. Existe uma teoria proposta por James, que subdivide a condução do estímulo sinusal em duas vias distintas. Uma delas, condução sinoatrial, ativando as fibras atriais de contração, dando origem à onda P, e a outra, a via sinoventricular, em que o estímulo elétrico é conduzido pelos feixes internodais, até a junção atrioven- tricular, e daí indo até os ventrículos. A idéia atual é que estas duas vias sejam vias distintas. Uma grande evidência, para está teoria proposta por James, é que na presença de hiperpotas- semia importante, em que a via sinoatrial fica deprimida, e a via sinoventricular permanece ativa; a conseqüência é a presença de QRS, indicando atividade pela via si- noventricular, mas sem inscrição de onda P, indicando comprometimento apenas da condução pela via sinoa- trial resultando assim em ritmo sinusal sem presença de onda P. Quando o estímulo elétrico passa através dos feixes internodais, via sinoventricular, chega à junção atrioventricular e aos ventrículos, e passa também atra- vés da condução sinoatrial, chegando até os átrios. A área juncional atrioventricular pode ser subdividida em três regiões (Figura 2.2). A primeira região é uma zona de transição entre a musculatura atrial e o nó atrioventricular propriamente dito, por isso é com- posta de células musculares contráteis e tecido de con- dução. Em seguida está a segunda região, o nó atrioven- tricular propriamente dito, ou nó de Tawara (Figura 12), que se constitui em uma estrutura compacta, localizada logo abaixo do endocárdio posterior do átrio direito, logo à frente do orifício do seio coronário e acima da inserção da valva septal da tricúspide, localizando-se no ápice do Triângulo de Koch, que é formado pelo anel da válvula tri- cúspide e o Tendão de Todaro. Logo adiante, finalmente, surge a porção penetrante do feixe atrioventricular (feixe de His). Logo após a porção penetrante da junção atrio- ventricular, se segue a porção ramificada, com os ramos direito e esquerdo, do feixe de His. O ramo direito é longo e fino. É uma estrutura descontínua e frágil, constituída de fibras de Purkinje de resposta rápida (Figura 2.3). Dirige-se pra baixo e para a direita do septo interventricular, e seu terço inicial fica bem próximo ao endocárdio para em seguida, no seu terço médio, penetrar profundamente na porção muscular do septo, e em seguida, em seu terço final mais baixo, retornar a ficar próximo do endocárdio. Esse ramo não se divide na maior parte do seu curso, mas ao apro- ximar-se da base do músculo papilar direito, inicia rami- ficações em direção da região septal e parede livre do ventrículo direito. De uma forma simplista, o ramo direito consiste de um feixe de células de Purkinje revestido por tecido conjuntivo. As células de Purkinje são especiali- zadas em condução rápida, de 1 a 3 m/seg. A ativação inicial ocorre próximo ao endocárdio do ápice do ventrí- culo direito e daí se desloca para o septo e parede livre do ventrículo direito e a partir daí, muito mais lentamente através das células miocárdicas. Alguns estudos, realizados em humanos, mostram que o bloqueio do ramo direito pode ocorrer em Figura 2.2 - Visão esquemática da junção atrioventricular, com a sua parte compacta e parte penetrante.