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Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença O processo judicial pode ser dividido, de forma clássica, em duas fases distintas: a fase de conhecimento e a fase de execução. Cada uma possui objetivos e características próprias dentro da dinâmica processual. A fase de conhecimento, também chamada de fase cognitiva, é aquela em que o juiz ainda não sabe quem tem razão na controvérsia. Nessa etapa, há o desenvolvimento de uma atividade de apuração dos fatos e do direito envolvido. As partes apresentam suas alegações, juntam documentos, produzem provas e, se necessário, participam de audiências para oitiva de testemunhas e esclarecimento dos pontos controvertidos. Ao final, o juiz profere uma sentença, reconhecendo ou negando o direito pleiteado por uma das partes. Já a fase de execução ocorre quando existe um título executivo, isto é, um documento que comprova um direito certo, líquido e exigível. Esse título pode ser judicial (como a própria sentença proferida na fase de conhecimento) ou extrajudicial (como um cheque, uma nota promissória ou um contrato com força executiva). Nessa fase, o objetivo principal é fazer cumprir aquilo que foi decidido ou formalizado no título, ou seja, efetivar o direito reconhecido, por meio de medidas que podem ir desde a intimação para pagamento até atos mais coercitivos, como a penhora de bens ou bloqueio de valores. É importante destacar que não é obrigatório que um processo passe pelas duas fases. Em alguns casos, é possível iniciar diretamente pela fase de execução, sem que haja uma sentença anterior, desde que o credor possua um título extrajudicial válido. Nesses casos, não se discute mais a existência do direito, mas sim a sua concretização. Por fim, é essencial compreender a diferença entre cognição e atividade executiva. A cognição envolve a análise e o reconhecimento do direito pelo juiz. Já a atividade executiva se refere à prática de atos destinados a tornar efetivo um direito já reconhecido, seja por meio de sentença ou por documento legalmente aceito como título executivo. ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 1 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença PRINCÍPIOS Assim como ocorre em outras áreas do Direito, o processo de execução é regido por princípios fundamentais que orientam sua estrutura, funcionamento e interpretação. Esses princípios são essenciais para a compreensão da disciplina e para a correta aplicação das normas processuais executivas. 1. “Nulla executio sine titulo” (Não há execução sem título): Este princípio estabelece que a execução somente pode ser iniciada com base em um título executivo. A razão é simples: como a execução permite a adoção de medidas coercitivas e invasivas contra o patrimônio do executado, como penhora, busca e apreensão ou imissão na posse, é necessário que haja um título que comprove, ao menos em juízo de probabilidade, a existência do crédito. O executado encontra-se em posição processualmente desfavorável em relação ao exequente, e por isso, somente títulos que a lei expressamente reconhece como executivos podem embasar o processo de execução. O rol dos títulos executivos é taxativo, ou seja, não se admite a criação de novos títulos por interpretação extensiva ou analogia, o que reforça a legalidade e a segurança jurídica do processo. 2. Patrimonialidade: a execução recai sobre os bens do devedor, e não sobre sua pessoa. Isso significa que a satisfação do crédito será buscada no patrimônio do executado, vedando-se qualquer forma de coerção pessoal (prisão, por exemplo) para fins de cumprimento de obrigação patrimonial, salvo exceções legais específicas. Esse princípio é reflexo da evolução histórica do processo executivo, que se afastou da lógica da vingança privada do credor, adotando uma postura mais humanizada, que respeita a dignidade da pessoa humana. Assim, o patrimônio é o único instrumento legítimo de satisfação da dívida, representando um avanço civilizatório no âmbito processual. 3. Desfecho único: O processo de execução possui um único objetivo: satisfazer o direito do exequente, ou seja, fazer com que o crédito seja efetivamente pago ou cumprido. Por isso, fala-se em desfecho único. Esse desfecho pode ser: ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 2 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença a) Normal: ocorre quando o crédito é satisfeito e o processo é extinto por decisão judicial nos termos do art. 924 do CPC, que apenas declara o fim da execução. b) Anômalo: ocorre quando a execução é extinta sem que o crédito seja satisfeito, como nos casos do art. 485 do CPC (extinção sem resolução do mérito) ou quando há acolhimento integral dos embargos à execução, reconhecendo-se que não há direito material exequível. 4. Disponibilidade da Execução (art. 775) Tendo em vista que o processo de execução não serve para proteger direitos do executado, mas sim para realizar o direito do exequente, este possui plena disponibilidade sobre a execução. Isso significa que o exequente pode desistir do processo a qualquer tempo, mesmo que ainda estejam pendentes os embargos à execução, conforme prevê o art. 775 do CPC. Essa desistência não depende da concordância do executado, uma vez que, se a execução não prossegue, ele já obteve tudo que poderia obter com o processo: o encerramento das medidas contra seu patrimônio. Assim, a lei presume sua aceitação, tornando desnecessária qualquer manifestação nesse sentido. 5. Utilidade (art. 836) : O processo de execução não se justifica apenas para prejudicar o devedor, sem trazer qualquer proveito prático ao credor, devendo o processo ter alguma utilidade prática que beneficie o exequente. Em razão desse princípio, a penhora não será realizada quando restar evidente que o produto da execução dos bens encontra os será totalmente absorvido pelo pagamento das custas da execução (art. 836, caput, do CPC). 6. Menor onerosidade (art 805): Quando houver vários meios de satisfazer o direito do credor, o juiz mandará que a execução se faça pelo modo menos gravoso ao executado (art. 805 do CPC). O que se pretende é evitar o exagero desnecessário de condutas que prejudiquem o executado. 7. Contraditório: O contraditório, no processo de execução, é o direito que o executado (devedor) tem de ser informado sobre os atos processuais que podem afetar seu patrimônio e de poder se manifestar, responder e influenciar nas decisões do juiz. Mesmo que o juiz parta da presunção de que ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 3 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença o direito do credor já está comprovado (porque há um título executivo), isso não elimina a necessidade de contraditório em várias etapas da execução. 8. Atipicidade dos meios executivos (art 139, IV) : é pelos meios executivos que o juiz tenta, no caso concreto, a satisfação do débito do exequente. Esse princípio, basicamente, permite ao juiz adotar quaisquer medidas, inclusive não previstas expressamente em lei, que sejam eficazes para garantir a satisfação do crédito, desde que proporcionais e razoáveis. PARTES Base legal : art 778 -780 Assim como no procedimento comum, a relação jurídica executiva, precisa ser pelo menos formada por três principais sujeitos processuais: juiz (sujeitoimparcial), autor/exequente (sujeito ativo) e Réu/executado (sujeito passivo). Da legitimidade Ativa : No polo ativo do processo de execução, encontraremos, como regra geral, a chamada legitimação originária, conferida ao credor que figura como titular do direito representado em um título executivo, seja ele judicial ou extrajudicial. Esse credor atua em nome próprio e em benefício de direito próprio, como determina o caput do art. 778 do CPC: Art. 778. Pode promover a execução forçada o credor a quem a lei confere título executivo. Contudo, excepcionalmente, é possível a atuação de sujeitos que, ainda que atuem em nome próprio e por direito próprio, somente adquirem a legitimação para executar em razão de fato posterior ao surgimento do título executivo. É a chamada legitimação secundária. Essa hipótese está prevista no § 1º do art. 778 do CPC, e abarca os seguintes legitimados: § 1º Podem promover a execução forçada ou nela prosseguir, em sucessão ao exequente originário: I - o Ministério Público, nos casos previstos em lei; (como na defesa de incapazes ou interesses difusos); II - o espólio, os herdeiros ou os sucessores do credor, sempre que, por morte deste, lhes for transmitido o direito resultante do título executivo; (Quando o credor (exequente originário) falece, o direito de crédito constante no título executivo é transmitido aos seus herdeiros ou sucessores) ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 4 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença III - o cessionário, quando o direito resultante do título executivo lhe for transferido por ato entre vivos; IV - o sub-rogado, nos casos de sub-rogação legal ou convencional. O § 2º do mesmo artigo traz uma regra procedimental importante: a sucessão no polo ativo independe de consentimento do executado. Ou seja, não é necessária a anuência da parte contrária para que haja a substituição processual do exequente originário pelo novo legitimado: § 2º A sucessão prevista no § 1º independe de consentimento do executado. Legitimidade passiva: a legitimidade passiva no processo de execução está prevista no caput do artigo 779 do Código de Processo Civil, o qual estabelece contra quem a execução pode ser promovida: Art. 779. A execução pode ser promovida contra: I – o devedor, reconhecido como tal no título executivo; II – o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor; III – o novo devedor que assumiu, com o consentimento do credor, a obrigação resultante do título executivo; IV – o fiador do débito constante em título extrajudicial; V – o responsável titular do bem vinculado por garantia real ao pagamento do débito; VI – o responsável tributário, assim definido em lei.” O inciso I do referido dispositivo legal trata da legitimação originária, reconhecendo como legitimado passivo “o devedor, reconhecido como tal no título executivo”. Essa é a forma clássica e direta de legitimidade, uma vez que o executado consta expressamente no documento que fundamenta a execução. Já os incisos II e III disciplinam hipóteses de legitimação secundária ou superveniente, em que o sujeito passivo assume essa posição em decorrência de um fato posterior à constituição do título. São eles: “o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor” (inciso II), nos casos de falecimento deste, bem como “o novo devedor que assumiu, com o consentimento do credor, a obrigação resultante do título executivo” (inciso III). ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 5 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença Além dessas, o artigo 779 também contempla as chamadas hipóteses de legitimação extraordinária, previstas nos incisos IV, V e VI. Nesses casos, a legitimidade decorre de disposição legal expressa, sendo conferida: ao “fiador do débito constante em título extrajudicial” (inciso IV), ao “responsável titular do bem vinculado por garantia real ao pagamento do débito” (inciso V), e ao “responsável tributário, assim definido em lei” (inciso VI). É importante destacar que, embora a legitimidade passiva nem sempre conste expressamente no título executivo, ela sempre deverá guardar vínculo com ele. Assim, a legitimidade poderá decorrer diretamente do título (como ocorre na legitimação originária), de fato superveniente à sua formação (legitimação secundária) ou de previsão legal específica (legitimação extraordinária). Trata-se, portanto, de uma construção sistemática que visa assegurar a coerência entre o sujeito passivo e a obrigação exequenda. TÍTULOS EXECUTIVOS Um título executivo é um documento que comprova uma dívida ou obrigação, permitindo ao credor exigir o seu cumprimento. Pode ser judicial ou extrajudicial. Além disso, só existe título criado pela lei, conforme o princípio do nullus titulus sine lege. O art. 786 do CPC determina que a obrigação contida no título executivo deve ser certa líquida e exigível: Art. 786. A execução pode ser instaurada caso o devedor não satisfaça a obrigação certa, líquida e exigível consubstanciada em título executivo. a) Certeza: a obrigação deve estar definida quanto à sua existência, não podendo ser meramente eventual ou hipotética. Contudo, isso não implica em incontestabilidade absoluta. O executado ainda pode apresentar defesa, por meio de embargos à execução. A "certeza" não é sinônimo de indiscutibilidade. b) Liquidez: Refere-se à possibilidade de quantificar o valor da obrigação. Não é necessário que o título executivo traga expressamente o valor exato devido, mas é indispensável que contenha elementos objetivos que possibilitem a ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 6 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença apuração desse valor de forma precisa e segura. A liquidez, portanto, diz respeito à determinabilidade do quanto ou do que se deve. c) Exigibilidade: Representa a possibilidade de exigir judicialmente o cumprimento da obrigação. A obrigação é exigível quando está vencida e não há termo, condição suspensiva ou contraprestação pendente. Em regra, a exigibilidade se configura com o simples decurso do prazo de vencimento previsto no título ou pela ausência de qualquer obstáculo legal ao imediato cumprimento da obrigação. Títulos executivos Judiciais: O título executivo judicial é formado pelo juiz por meio de atuação jurisdicional. Previstos no art. 515 são títulos executivos Judiciais: Inciso Título Executivo Judicial Explicação I Decisões no processo civil que reconheçam obrigação de pagar, fazer, não fazer ou entregar coisa Abrange as sentenças e decisões que reconhecem expressamente o dever do réu em cumprir determinada obrigação. Pode ser obrigação de dar (coisa ou valor), de fazer ou de não fazer. II Decisão homologatória de autocomposição judicial Refere-se aos acordos realizados entre as partes durante o processo e que foram homologados por decisão judicial. Ganha força de título executivo. III Decisão homologatória de autocomposição extrajudicial Inclui acordos feitos fora do processo (como mediação ou conciliação extrajudicial), que foram levados ao Judiciário para homologação. IV Formal e certidão de partilha Aplica-se em inventários e partilhas de bens. Serve como título executivo apenas entre inventariante, herdeiros e sucessores, quanto aos bens e obrigações partilhados.V Crédito de auxiliar da justiça Engloba valores devidos a peritos, tradutores, intérpretes, advogados dativos, etc., desde que aprovados por decisão judicial. ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 7 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença VI Sentença penal condenatória transitada em julgado Mesmo sendo proferida na esfera penal, essa sentença pode reconhecer obrigações de natureza civil (ex: indenização), que podem ser executadas no juízo cível. VII Sentença arbitral Decisão proferida por árbitro (juiz privado), desde que respeitados os critérios legais. Produz os mesmos efeitos da sentença judicial. VIII Sentença estrangeira homologada pelo STJ Sentença de outro país que, após homologação pelo Superior Tribunal de Justiça, pode ser executada no Brasil. IX Decisão interlocutória estrangeira com exequatur do STJ Medida cautelar ou decisão não definitiva (interlocutória) estrangeira, que tenha recebido autorização do STJ para produzir efeitos no Brasil. §1º: Nos casos dos incisos VI a IX (decisões oriundas da esfera penal, arbitral ou estrangeira), o cumprimento da sentença será promovido no juízo cível, com prazo de 15 dias para que o devedor cumpra a obrigação ou apresente defesa. §2º: A autocomposição judicial pode envolver terceiros (pessoas não participantes da ação) e tratar de relações jurídicas que não foram discutidas no processo, desde que haja homologação judicial. Títulos executivos Extrajudiciais: O Título Executivo Extrajudicial é formado por ato de vontade das partes envolvidas na relação jurídica de direito material (ou somente de uma delas). Previsto no art 784 são títulos executivos extrajudiciais: Inciso Título Executivo Extrajudicial Explicação I Letra de câmbio, nota promissória, duplicata, debênture e cheque Documentos típicos de crédito. São títulos cambiais que comprovam a obrigação de pagar valor certo. ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 8 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença II Escritura pública ou outro documento público assinado pelo devedor Feitos em cartório. Representam obrigações assumidas formalmente. III Documento particular assinado pelo devedor e por 2 testemunhas Garante força executiva ao contrato ou documento particular, desde que tenha as assinaturas exigidas. IV Instrumento de transação referendado por MP, Defensoria, Advocacia Pública, advogados ou mediadores Autocomposição extrajudicial validada por autoridade ou profissional habilitado. V Contrato com garantia real ou caução Obrigações garantidas por direitos reais como hipoteca, penhor, anticrese ou caução. VI Contrato de seguro de vida em caso de morte Gera obrigação de pagamento à parte beneficiária, podendo ser cobrado por execução. VII Crédito decorrente de foro e laudêmio Valores devidos em razão da ocupação de terrenos da União ou imóveis foreiros. VIII Crédito por aluguel de imóvel e encargos acessórios (condomínio, taxas) Aluguéis e despesas comprovadas documentalmente podem ser executados diretamente. IX Certidão de Dívida Ativa (CDA) Título emitido pela Fazenda Pública referente a tributos e outros débitos inscritos. X Contribuições de condomínio edilício Débitos aprovados em assembleia e previstos na convenção, comprovados por documentos. XI Certidão de emolumentos de serventia notarial/registral Cobrança dos valores fixados em lei por cartórios, quando não pagos. ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 9 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença XI-A Contrato de contragarantia ou outro documento de ressarcimento da seguradora Permite à seguradora buscar ressarcimento contra tomadores de seguro-garantia. XII Outros títulos com força executiva por lei Abrange qualquer documento que a lei, expressamente, confere força executiva. Responsabilidade patrimonial A responsabilidade patrimonial é a possibilidade de sujeitar o patrimônio de alguém à execução para satisfazer um crédito. Ela existe mesmo sem a prática imediata de atos executivos e, em regra, recai sobre os bens do devedor. Contudo, o sistema admite que terceiros, como o fiador, também possam responder pela dívida, ainda que seus bens não sejam atingidos, desde que o devedor possua patrimônio suficiente. A obrigação é instituto do direito civil e surge com a constituição do débito, normalmente por ato jurídico ou ilícito. Já a responsabilidade patrimonial, de natureza processual, decorre do inadimplemento e se estabelece entre o indivíduo e o Estado, permitindo a afetação do patrimônio para a satisfação do crédito apenas com a formação do processo. Assim, obrigação e responsabilidade são distintas: pode haver dívida sem responsabilidade (como nas obrigações naturais) e responsabilidade sem dívida (como no caso do fiador). Conforme o art. 789 do CPC, o devedor responde com todos os seus bens presentes e futuros, salvo exceções legais. Bens sujeitos à responsabilidade patrimonial: O devedor responde com todos os seus bens presentes e futuros para satisfazer o crédito (art. 789 do CPC), mas existem limitações legais a essa regra. São absolutamente impenhoráveis os bens inalienáveis, os móveis e utensílios domésticos essenciais, vestuários e pertences pessoais (exceto se de elevado valor), salários, aposentadorias, pensões e afins (com ressalvas), instrumentos de trabalho, seguro de vida, pequena propriedade rural trabalhada pela família, poupança até o limite de 40 salários mínimos e valores destinados à educação, saúde e assistência social. Também são impenhoráveis os ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 10 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença frutos e rendimentos de bens inalienáveis, salvo se não houver outros bens penhoráveis. O bem de família, conforme a Lei 8.009/1990, é protegido contra penhora quando se trata de imóvel residencial do casal ou da entidade familiar, incluindo benfeitorias e equipamentos de uso profissional, mesmo que o devedor não more no imóvel, desde que ele sirva à sua moradia ou renda. A proteção se aplica inclusive a pessoas solteiras, separadas ou viúvas (Súmula 364/STJ). Entretanto, há exceções: o bem de família pode ser penhorado para o pagamento de IPTU, taxas e dívidas condominiais, bem como em caso de fiança em contrato de locação, cuja penhorabilidade foi confirmada pelo STF (RE 1.307.334 – Tema 1127). Além disso, o devedor pode voluntariamente renunciar à proteção da impenhorabilidade. Alienação fraudulenta: Alienação fraudulenta é gênero que abrange duas espécies: fraude contra credores e fraude à execução. A fraude contra credores (fraude pauliana), prevista no Código Civil, exige dois requisitos: objetivo (ato que causa insolvência do devedor) e subjetivo (consciência da insolvência). Se a transação for onerosa, exige-se má-fé do devedor e do terceiro; se for gratuita, basta a má-fé do devedor. Seu efeito é retirar o bem do alcance da responsabilidade patrimonial, o que demanda ação específica para declarar a ineficácia do ato, permitindo que o bem seja penhorado mesmo estandocom terceiro. Já a fraude à execução, regulada pelo CPC, compromete a efetividade da jurisdição. Ocorre, por exemplo, quando o bem é alienado durante ação com direito real ou reipersecutório averbada no registro público (art. 792, I), durante execução com averbação no registro do bem (II), após averbação de hipoteca judiciária ou ato constritivo (III), ou quando a ação contra o devedor pode levá-lo à insolvência (IV). Em todos os casos, a averbação serve para afastar a boa-fé do adquirente. Se não houver registro, o terceiro é presumido de boa-fé e a alienação não é considerada fraudulenta. ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 11 Processo civil : Execução e cumprimento de Sentença Liquidação de sentença A liquidação de sentença é uma fase cognitiva que tem por objetivo atribuir liquidez à decisão condenatória, tornando possível a atividade executiva. A liquidez é requisito essencial para a execução, sendo que os títulos extrajudiciais devem sempre ser líquidos, enquanto os judiciais podem ser ilíquidos, necessitando, nesse caso, de liquidação prévia. Essa fase busca definir o quantum debeatur, ou seja, o valor da obrigação, ou, quando for o caso, a quantidade de bens a serem entregues. É admissível quando a sentença for baseada em pedido genérico, nos casos de conversão de obrigações (como obrigação de fazer em perdas e danos), ou quando houver necessidade de individualizar os prejuízos sofridos pelas vítimas, como ocorre em ações civis públicas. A liquidação pode ser requerida tanto pelo credor quanto pelo devedor e não pode rediscutir fatos já analisados na sentença. Há duas espécies de liquidação: por arbitramento, quando a apuração do valor exige perícia, e pelo procedimento comum, quando se discute fato novo relevante para definir o valor da obrigação. Em ambos os casos, trata-se de uma fase intermediária entre o julgamento e a execução. A decisão que encerra a liquidação é considerada interlocutória, sendo impugnável por agravo de instrumento. É possível, ainda, que a liquidação seja extinta sem apuração do valor, ou até que resulte em valor zero, hipótese admitida pela doutrina majoritária, especialmente em casos de liquidação de sentença penal condenatória na esfera cível. A depender do contexto, a liquidação pode configurar um processo autônomo, com petição inicial própria, especialmente em ações civis públicas com sentença genérica, onde cada vítima deverá individualizar seu prejuízo para promover a execução. ⚠ ATENÇÃO: este material não substitui o uso de doutrina e o código de processo civil. Conteúdo baseado na doutrina “Manual de direito processual” - Daniel Amorim Assumpção Neves e “Processo Civil” - Marcelo Ribeiro @jhuanna.no direito 12