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POLÍTICAS PÚBLICAS PARA 
EDUCAÇÃO DE JOVENS E 
ADULTOS 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Vania Andretta Ratto 
 
 
 
CONVERSA INICIAL 
Ao apresentar a trajetória de vida de Paulo Freire, podemos acompanhar 
as suas grandes contribuições ao longo de sua vida para a Educação de Jovens 
e Adultos na América Latina, o que possibilita compreender a ampliação do 
conceito de educação enquanto processo constante de criação do conhecimento 
e de busca da transformação social. 
Ele foi uma das principais referências da educação brasileira, cujos 
pensamentos foram amplamente discutidos, estudados e aplicados na Educação 
de Jovens e Adultos na América Latina, principalmente por ter criado um método 
de ensino inovador capaz de transformar a sociedade. 
TEMA 1 – PAULO FREIRE: EDUCADOR, FILÓSOFO E ESCRITOR 
Considerando a influência de Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, 
no cenário educacional do país como precursor da Educação de Jovens e 
Adultos – EJA, faz-se necessário destacar a importância relevante de seu 
trabalho na alfabetização de jovens e adultos, suas contribuições para o Brasil e 
a América Latina, bem como na defesa da autonomia intelectual de seus alunos, 
pois considerava que essa era a chave do processo educacional. 
Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, na cidade 
de Recife-PE. Cresceu junto de seu pai Joaquim Temístocles Freire, capitão da 
Polícia Militar de Pernambuco, e de sua mãe Edeltrudes Neves Freire, Dona 
Tudinha, da sua irmã, Stela, e dos seus dois irmãos, Armando e Temístocles. 
Sua história de vida foi marcada também pelos seus irmãos. Temístocles 
havia entrado para o Exército; Armando havia abandonado os estudos aos 18 
anos, não chegando sequer a concluir o curso ginasial, e era funcionário da 
prefeitura, e Stela era professora primária do Estado. 
Os irmãos começaram a trabalhar muito jovens para ajudar na 
manutenção da casa e assim possibilitar que Paulo Freire continuasse 
estudando o curso ginasial no Colégio 14 de Julho, no centro de Recife. Com 13 
anos, eles perderam o pai e coube à mãe a responsabilidade de sustentar todos 
os quatro filhos. 
Por ter vivenciado a crise de 1929, que teve como causa a forte recessão 
econômica que atingiu o capitalismo internacional no final da década de 1920, 
Paulo Freire experimentou a pobreza e a fome durante a infância, que marcaram 
 
 
3 
profundamente sua vida – preocupando-se com os mais pobres, ajudando assim 
a construir seu revolucionário método de alfabetização que inspirou muitas 
gerações de docentes, especialmente na América Latina e na África. 
Sem condições de continuar pagando a escola, sua mãe pediu ajuda ao 
diretor de Colégio Oswaldo Cruz, que lhe concedeu matrícula gratuita e o 
colocou como auxiliar de disciplina, passando a ser posteriormente professor de 
Língua Portuguesa. 
Em 1943, Paulo Freire ingressou na Faculdade de Direito de Recife, e, 
depois de formado, continuou atuando como professor de Português no colégio 
em que iniciara os estudos, atuando também como professor de Filosofia da 
Educação na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco. 
Em 1944, Paulo Freire casou-se com Elza Maria Costa de Oliveira, 
professora primária, com quem teve cinco filhos; após a morte dela, se casou 
com Ana Maria Araújo Freire, conhecida como Nita Freire, que era uma aluna 
que ele havia conhecido no Colégio Oswaldo Cruz, com quem permaneceu até 
a sua morte, em 1997. 
Em 1947, foi nomeado diretor do setor de Educação e Cultura do Serviço 
Social da Indústria, e, em 1955, juntamente com outros educadores fundou, no 
Recife, o Instituto Capibaribe, uma escola que inovou e atraiu muitos intelectuais 
da época, e que continua em plena atividade. 
Com seu grande talento como escritor, conquistou muitos pedagogos, 
cientistas sociais, teólogos e militantes políticos, quase sempre ligados a 
partidos de esquerda, já que, de acordo com o próprio autor: 
Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de 
discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das 
classes sociais. Sou professor contra a ordem capitalista vigente que 
inventou esta aberração: a miséria na fartura. Sou professor a favor da 
esperança que me anima apesar de tudo. (Freire, 2011) 
Em 1959, Paulo Freire passou a assumir a cadeira de História e Filosofia 
da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade de Recife, com a tese 
“Educação e atualidade brasileira”. 
TEMA 2 – MÉTODO PAULO FREIRE 
No ano de 1961, Paulo Freire assumiu o cargo de diretor do Departamento 
de Extensões Culturais, da Universidade de Recife, o que possibilitou que ele 
realizasse as primeiras experiências mais amplas no ensino para adultos e 
 
 
4 
culminou na experiência de Angicos. Esta certamente foi uma das maiores 
realizações de Paulo Freire no Brasil, quando, em 1963, ele passou a coordenar 
uma equipe de professores que criaram uma escola de alfabetização em uma 
pequena cidade do sertão do Rio Grande do Norte, chamada Angicos. 
Essa cidade tinha uma alta taxa de trabalhadores pobres e analfabetos, 
onde Paulo Freire selecionou 300 adultos, cortadores de cana, que em apenas 
45 dias de estudo e com baixo custo foram alfabetizados e estimulados a pensar 
de maneira política e filosófica, possibilitando desse modo que eles tivessem 
melhores condições de serem inseridos na sociedade, de maneira mais exitosa, 
já que poderiam ingressar no mercado de trabalho em novos empregos mais 
salubres, garantindo, assim, no ensino, os direitos do cidadão, e, principalmente, 
o direito ao voto, que era restrito aos alfabetizados na época. 
O método é composto inicialmente pela etapa de investigação, que 
consiste na busca conjunta entre professor e aluno de palavras e temas mais 
significativos na vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da 
comunidade em que ele está inserido. 
Na sequência, na etapa de tematização, é o momento da tomada de 
consciência do mundo, por meio da análise dos significados sociais dos temas e 
das palavras, seguido assim para a etapa de problematização, que ocorre 
quando o professor desafia e inspira o aluno a superar a visão mágica e acrítica 
do mundo para uma postura conscientizada. 
Desse modo, por meio de conversas informais, o educador observa os 
vocábulos mais usados pelos alunos e a comunidade, e assim seleciona as 
palavras que servirão de base para as lições. 
A quantidade de palavras geradoras pode variar entre 18 e 23, 
aproximadamente; depois, são apresentadas em cartazes com imagens, em que 
começam os círculos de cultura. Por meio de uma discussão, essas palavras 
passam a ter significado na realidade daquela turma. 
Quando as palavras são identificadas, cada palavra geradora passa a ser 
estudada por meio da divisão silábica, semelhantemente ao método tradicional, 
em que cada sílaba se desdobra em sua respectiva família silábica com a 
mudança da vogal, por exemplo: BA-BE-BI-BO-BU. 
O que se segue é a formação de novas palavras e, assim, a 
conscientização, que é o ponto fundamental do método, em que ocorre a 
discussão sobre os diversos temas surgidos com base nas palavras geradoras. 
 
 
5 
Dessa forma, para Paulo Freire, alfabetizar não podia se restringir aos 
processos de codificação e decodificação de palavras, mas sim deveria 
promover no adulto a conscientização acerca dos problemas cotidianos, a 
compreensão do mundo e o conhecimento da realidade social. 
Freire (1976, p. 9), em seu livro Ação cultural para a liberdade e outros 
escritos, menciona que “estudar não é um ato de consumir ideias, mas de criá-
las e recriá-las”. 
A proposta de aplicação de seu método era composta de cinco fases: 
• 1.ª fase – apuração do universo vocabular dos discentes; 
• 2.ª fase – escolha das palavras selecionadas, seguindo os critérios de 
riqueza ou dificuldades fonéticas; 
• 3.ª fase – criação de situaçõesexistenciais características do grupo; 
• 4.ª fase – criação das fichas para roteiro de debates; 
• 5.ª fase – criação de fichas de vocábulos para a decomposição das 
famílias fonéticas correspondentes às palavras geradoras. 
Tal método chegou a inspirar o Plano Nacional de Alfabetização, que 
começou a ser fomentado pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC ainda 
no governo de João Goulart, pois poderia levar o letramento a até seis milhões 
de brasileiros, o que significaria seis milhões de novos eleitores fora das classes 
dominantes que poderiam passar a votar. 
Porém, o método de Paulo Freire não agradava aqueles que desejavam 
a submissão dos mais pobres, principalmente do campo, em benefício de uma 
classe letrada, fator decisivo para que o Plano Nacional de Alfabetização fosse 
cancelado e Paulo Freire, juntamente com outras pessoas envolvidas no projeto 
de Angicos, fossem consideradas por muitos conservadores como subversivas, 
já que as classes dominantes tinham medo de perder o controle das forças de 
trabalho, condição fundamental para que ocorresse a exploração dos 
trabalhadores. 
Dessa forma, era conveniente manter os angicanos vivendo em um 
ambiente marcado pelas condições precárias e deploráveis de trabalho e 
segurança, isolados dos centros de saúde e de transporte, marcados pela 
desigualdade social. 
 
 
6 
TEMA 3 – EXÍLIO 
As ideias do filósofo pernambucano tinham em suas raízes os 
fundamentos para a criação de um novo Brasil, mais justo e igualitário. Freire 
desenvolveu um método inovador de alfabetizar por meio de suas primeiras 
observações, em 1963, quando lecionou a 300 cortadores de cana e o resultado 
foi que aprenderam a ler e a escrever em 45 dias. 
Esse método, capaz de dar autonomia às classes dominadas por meio do 
diálogo e de uma educação emancipadora, passou a ser reconhecido 
internacionalmente, o que ocasionou a perseguição de Freire pelo regime militar 
(1964-1985) e resultou em sua prisão por 70 dias e exílio por 15 anos, por ser 
considerado “traidor”. Ele teve que partir com a família para o exílio aos 43 anos 
de idade. 
Em seus 15 anos de exílio, que iniciou na Bolívia, Paulo Freire passou a 
vivenciar muitas experiências educativas em vários países dos cinco 
continentes, como Chile, Estados Unidos, Suíça, Guiné Bissau, São Tomé e 
Príncipe, Cabo Verde, Austrália, Itália, Nicarágua, Ilhas Fiji, Índia e Tanzânia. 
Em seu exílio no Chile, trabalhou como assessor de Jacques Chonchol no 
Instituto de Desarrollo Agropecuario (denominado “Promoción Humana”) assim 
que chegou. Nessa assessoria, colaborou com o Ministério de Educação, junto 
dos trabalhadores da Educação de Jovens e Adultos e também da Corporación 
de la Reforma Agraria. Nesse trabalho de assessoria, Freire (1992, p. 41) explica 
que: 
Viajando quase todo o país, acompanhado sempre por jovens chilenos, 
na sua maioria progressista, ouvi camponeses e discuti com eles sobre 
aspectos de sua realidade; debati com agrônomos e técnicos agrícolas 
uma compreensão político-pedagógico-democrática de sua prática; 
debati problemas gerais de política educacional com os educadores 
das cidades que visitei. 
Paulo Freire no exílio era o mesmo homem que desejava transformar o 
próprio país: por onde passava, levava pessoas a refletir por meio da educação 
de Jovens e Adultos. E, ao refletir, os agora alfabetizados não conseguiam 
permanecer no mesmo âmbito que viviam antes; eles questionavam e buscavam 
seus direitos. A contribuição de seu trabalho na América Latina também ganhou 
notoriedade em outros países, inclusive na Europa. 
 Ao chegar no país chileno, atuou durante cinco anos em programas de 
educação de adultos no Instituto de Capacitação e Investigação em Reforma 
 
 
7 
Agrária e teve a oportunidade de escrever seu principal livro, Pedagogia do 
Oprimido, uma das mais conhecidas obras de Paulo Freire que propõe uma nova 
forma de relacionamento entre professor, estudante e sociedade. 
Assim, Pedagogia do Oprimido mostra claramente a distinção entre 
opressores e oprimidos, estabelecendo as bases de uma sociedade injusta, 
defendendo que a educação deve possibilitar os oprimidos que possam 
recuperar o seu senso de humanidade e, por sua vez, superar a sua condição. 
Só que, para que isso ocorra, o indivíduo oprimido precisa desempenhar um 
papel na sua libertação. 
De acordo com Freire (1974, p. 54), “nenhuma pedagogia que seja 
verdadeiramente libertadora pode permanecer distante do oprimido, tratando-os 
como infelizes e apresentando-os aos seus modelos de emulação entre os 
opressores. Os oprimidos devem ser o seu próprio exemplo na luta pela sua 
redenção”. 
O autor ressalta que o método tradicional de ensino desconsidera a 
bagagem trazida pelos alunos, em que o professor acaba impondo uma forma 
de aprendizagem puramente mecânica na qual os alunos apenas escutam, 
decoram e reproduzem na sequência, definindo assim a educação bancária 
como “um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o 
educador, o depositante” (Freire, 1974, p. 80). 
Nas palavras do discente, a educação bancária “é o ato de depositar, de 
transferir, de transmitir valores e conhecimentos” (Freire, 1974, p. 82). Não 
dialoga com a sociedade em que se vive nem reflete sobre ela: o aluno é 
meramente um depósito, é apenas um receptor, assim como ocorre em 
atividades bancárias. 
Com base nessa teoria, é importante ressaltar que uma sociedade 
democrática não pode ser movida por uma educação bancária e controladora, 
pois só com a interação entre professores e alunos conseguimos fundamentar a 
base do processo cognitivo de construção do conhecimento, visto que é por meio 
dessa relação que as dimensões afetivas e motivacionais são envolvidas e 
desenvolvidas. 
O estudioso também menciona que “o bom professor é o que consegue, 
enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento” 
(Freire, 2011, p. 96). 
 
 
8 
Dessa forma, impor a metodologia tradicional, bem como seus processos 
de narração, transformam os alunos em indivíduos, moldados para receber 
aquilo que o professor deposita, elevando a posição do educador, dando 
continuidade na relação opressor e oprimido. 
Após a publicação de Pedagogia do Oprimido, em 1968, o professor 
pernambucano foi convidado a ser professor visitante na Universidade Harvard, 
nos Estados Unidos, e, em 1970, foi consultor e coordenador emérito do 
Conselho Mundial de Igrejas (CMI), com sede em Genebra, na Suíça. 
Até o seu retorno ao Brasil, em 1980, Freire visitou mais de 30 países pelo 
Conselho Mundial de Igrejas – CMI, prestando consultoria educacional e 
implementando projetos de educação voltados para a alfabetização, com o 
objetivo de minimizar as desigualdades sociais e garantir os direitos dos 
cidadãos. 
Foi nesse período que o pensador brasileiro implementou importantes 
projetos de apoio às lutas por libertação na África, visitando Zâmbia, Tanzânia, 
Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Cabo Verde. Participou do 
Movimento Popular de Libertação da Angola – MPLA, da Frente de Libertação 
de Moçambique – Frelimo e do Partido Africano para a Independência da Guiné 
e Cabo Verde (PAIGC), além de desenvolver programas de alfabetização de 
adultos na Guiné-Bissau, na Tanzânia e em Angola. 
TEMA 4 – RETORNO DO EXÍLIO 
Em 1978, a Lei da Anistia permitiu o retorno de exilados políticos, trazendo 
Freire para o Brasil em 1980, que passou a lecionar na Pontifícia Universidade 
Católica de São Paulo (PUC-SP) e na Universidade de Campinas (Unicamp). 
As ideias de Paulo Freire foram essenciais para a organização popular e 
para as lutas de massas no Brasil nos anos 1970 e 1980, ressaltando, assim, a 
importância do diálogo como base para o desenvolvimento da consciência 
crítica. 
Como crítico ao sistema capitalista, que explora e domina os corpos e as 
mentes dos oprimidos, Freire acreditava quesó com um trabalho político difícil, 
mas essencial, que requer aprendizagem constante, é que se conseguiria 
superar a dominação. 
Em sua obra Pedagogia da Esperança, o educador compartilha algumas 
das experiências enquanto exilado, descreve o exílio como período que 
 
 
9 
possibilitou “religar lembranças, reconhecer fatos, feitos, gestos, unir 
conhecimentos, soldar momentos e reconhecer para conhecer melhor” (Freire, 
1992). 
Em Conversa com Frei Betto, extraída do livro Essa escola chamada vida, 
Freire afirma: 
Para mim, o exílio foi profundamente pedagógico. Quando, exilado, 
tomei distância do Brasil, comecei a compreender-me e a compreendê-
lo melhor […]. Foi tomando distância do que fiz, ao assumir o contexto 
provisório, que pude melhor compreender o que fiz e pude melhor me 
preparar para continuar fazendo algo fora do meu contexto, e também 
me preparar para uma eventual volta ao Brasil. (Freire; Betto, 1985) 
Com esse pensamento, a América Latina passou a ser o campo ideal para 
a Educação de Jovens e Adultos, já que era uma região do continente americano 
que reunia nações onde são falados idiomas derivados do latim, como o 
espanhol, o português e o francês, além de ser uma região que foi dominada por 
impérios coloniais europeus, espanhol e português, em que a desigualdade 
social era um dos grandes problemas. 
As causas da desigualdade remontam aos tempos coloniais e têm suas 
origens na exploração impiedosa da população indígena e no modelo econômico 
de extrativismo e monoculturas, gerando uma riqueza absurda de poucos contra 
a pobreza de muitos. 
Mesmo depois de dois séculos após a colonização, ainda observamos a 
falta de oportunidades educacionais para as crianças na América Latina, pois a 
educação é muito cara, o que mostra que os sistemas políticos contribuem muito 
para aumentar a desigualdade social, já que são responsáveis pela elaboração 
de políticas públicas e programas governamentais em educação, contribuindo 
assim para perpetuar essa economia desigual nessa região. 
É nesse retorno de Paulo Freire que observamos a influência das suas 
ideias, sobretudo na América Latina, pois crianças que não participam de um 
projeto educacional de qualidade e ficam fora da escola refletem os alarmantes 
índices de jovens e adultos, excluídos da sociedade. 
 Só uma perspectiva de educação popular, crítica e dialógica, voltada para 
a formação humana e cidadã, contribuirá para a consolidação da educação 
popular na América Latina, destacando o seu método humanizado de 
alfabetização. 
Freire (1993, p. 101) define a educação popular como a que “estimula a 
presença organizada das classes sociais populares na luta em favor da 
 
 
10 
transformação democrática da sociedade, no sentido da superação das 
injustiças sociais”. A educação popular freireana, então, consiste em um dos 
meios, nessa sociedade de classe, capazes de transformar a realidade. 
Sua pedagogia apresenta duas tarefas importantes na América Latina: 
1. reconstruir a memória pedagógica por meio de uma “arqueologia da 
consciência”; e 2. recuperar as pedagogias silenciadas durante séculos de 
dominação. “A ‘cultura do silêncio’ denunciada por Freire nas classes populares 
também se manifesta nos silenciamentos de práticas educativas 
transformadoras” (Streck, 2010, p. 331). 
Para Carrillo (2011, p. 29), a obra pedagógica de Freire vai além de seu 
método de alfabetização, formando as diretrizes fundantes tanto da educação 
popular como das pedagogias críticas. A ampla obra escrita de Freire e suas 
inumeráveis apresentações públicas configuram um rico universo de reflexões 
acerca da educação, da pedagogia e da ética libertadora em toda a América 
Latina, especialmente no Brasil. A educação popular se tornou sinônimo de 
movimentos populares que a utilizavam como principal estratégia educacional, 
unindo prática política e processo de aprendizagem. 
Paulo Freire também influenciou programas de alfabetização de jovens e 
adultos na Nicarágua, contribuindo para a reconstrução desse país, sobretudo 
na Cruzada Nacional de Alfabetização. Nela, “além de obter êxitos estatísticos 
impressionantes na redução do analfabetismo, se constituiu num grande 
movimento de mobilização e de educação, tanto dos alfabetizandos como dos 
alfabetizadores que juntos cresceram na leitura da realidade nicaraguense” 
(Freire, 2018, p. 64). 
No Brasil, sua ideologia ganhou notoriedade ao ser convidado para 
assumir o cargo de secretário de educação do município de São Paulo pela 
então prefeita, Luiza Erundina, na época filiada ao Partido dos Trabalhadores – 
PT. 
Como secretário, Paulo Freire permaneceu no cargo de 1989 até 1991, 
deixando como legado o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos – 
Mova, importante ação que reunia o estado e as Organizações da Sociedade 
Civil para combater o analfabetismo entre jovens e adultos. 
Em 1991, foi fundado, em São Paulo, o Instituto de Educação e Direitos 
Humanos Paulo Freire, mais conhecido como Instituto Paulo Freire, que surgiu 
de uma ideia do próprio educador, que tinha como objetivo reunir o acervo de 
 
 
11 
arquivos relacionados à promoção de uma educação emancipadora, com vistas 
à transformação social e ao fortalecimento da ética, da democracia participativa 
e da garantia de direitos. 
No dia 2 de maio de 1997, Paulo Freire morreu, aos 76 anos, de um 
infarto, na cidade de São Paulo. Seus ensinamentos e ideias são, até hoje, um 
legado aplicado em escolas e universidades, pois são estes os espaços usados 
como mecanismo de transformação social. 
TEMA 5 – PRINCIPAIS OBRAS 
Entre publicações em vida, publicações póstumas, cartas, entrevistas, 
ensaios e artigos, somam-se em sua obra quase 40 livros publicados, sendo os 
mais importantes Pedagogia do Oprimido (1968), escrito no início do exílio, 
quando Freire estava no Chile; Cartas à Guiné-Bissau (1975); Educação como 
prática da liberdade (1967); Educação e mudança (1981); Prática e educação 
(1985), Por uma pedagogia da pergunta (1985); Pedagogia da Esperança 
(1992); Professora sim, tia não: carta a quem ousa ensinar (1993); À sombra 
desta mangueira (1995); Pedagogia da Autonomia (1997); A importância do ato 
de ler em três artigos que se completam (1982) e Política e educação (1993). 
Paulo Freire teve seu trabalho reconhecido muito além da América Latina, 
pois foi um dos mais notáveis pensadores da história da pedagogia, recebendo 
vinte e nove títulos de Doutor Honoris Causa, concedidos por universidades da 
Europa e da América, além de vários outros prêmios, como o Educação pela 
Paz, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura 
(Unesco). 
Entendemos que a contribuição de Paulo Freire para a Educação de 
Jovens Adultos na América Latina foi fundamental para fortalecer os vários 
segmentos da educação popular e crítica, valorizando assim as práticas de 
alfabetização de jovens e adultos em diferentes espaços educacionais, de modo 
a garantir o processo de democratização da sociedade. 
Um dos aspectos mais marcantes da ideologia de Paulo Freire é que 
liberdade, educação, conscientização e diálogo estão intrinsecamente ligados, 
mostrando a gênese ideológica de seu pensamento, com bases filosóficas em 
sua própria vida, em suas experiências. 
Mendonça (2006) afirma que a preocupação primordial de Freire volta-se 
para a ontologia do ser humano, que está ligada ao exercício da condição de 
 
 
12 
sujeitos dada historicamente. Assim, surge a práxis humana “como um 
compromisso histórico que, ao endereçar os sujeitos ao mundo, possibilita, ao 
mesmo tempo, a transformação da realidade e dos próprios seres humanos.” 
(2016, p. 16). 
Dessa forma, pela grande admiração que teve pela América Latina, Paulo 
Freire contribui fortemente para fortalecer e valorizar as práticas de alfabetização 
de jovens e adultos em diferentes espaços educacionais, bem como para oprocesso de democratização da sociedade, promovendo a autonomia dos 
sujeitos. 
NA PRÁTICA 
Com base no contexto estudado, escolher uma das possibilidades de 
organizar o ensino para jovens e adultos e elaborar um plano de aula justificando 
essa escolha. Não esquecendo de caracterizar o público-alvo (ensino 
fundamental ou médio). 
FINALIZANDO 
A educação libertadora, proposta por Paulo Freire, grande educador, 
filósofo e escritor brasileiro, contribuiu para a formação de professores da 
Educação de Jovens e Adultos, ressaltando a importância de uma prática 
pedagógica que valoriza a autonomia enquanto construção cultural. 
O método de alfabetização de adultos criado por ele mostra que o 
conhecimento acontece na dialógica entre os sujeitos, pois era na discussão das 
experiências de vida dos alunos que surgiam as palavras presentes na realidade 
deles, que eram decodificadas para a aquisição da palavra escrita e da 
compreensão do mundo. 
O fato de ter desenvolvido um método inovador de alfabetização, 
reconhecido internacionalmente, que oportunizava a analfabetos aprender a ler 
e escrever em 45 dias, ocasionou em sua perseguição pela ditadura militar e 
exílio por 16 anos, por ser considerado “traidor”. 
Retornando do exílio para o Brasil, Paulo Freire atuou como professor, 
ocupou o cargo de secretário municipal de educação na prefeitura de São Paulo 
e teve seus conhecimentos ampliados com a criação do Instituto Paulo Freire. 
 
 
13 
Finalmente, consideramos importante a leitura de pelo menos algumas 
das principais obras de Paulo Freire para que possamos ampliar suas 
concepções e conceitos de educação para jovens e adultos, aprimorando assim 
a sua prática pedagógica. 
 
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
CARRILLO, A. T. La educación popular: trayectoria y actualidad. Venezuela: El 
Búho, 2011. 
FREIRE, P. Ação cultural para liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz 
e Terra, 1976. 
____. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2011. 
____. Pedagogia da Esperança: reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio 
de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 
____. Pedagogia do Compromisso: América Latina e Educação Popular. São 
Paulo: Paz e Terra, 2018. 
____. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. 
____. Política e Educação. São Paulo: Cortez, 1993. 
____; BETTO, F. Essa escola chamada vida: depoimentos ao repórter Ricardo 
Kotscho. São Paulo: Ática, 1985. 
MENDONÇA, N. J. A de. A humanização na pedagogia de Paulo Freire. 169 f. 
Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Pernambuco, 
Recife, 2006. 
STRECK, D. R. Paulo Freire e a consolidação do pensamento pedagógico na 
América Latina. In: STRECK, D. R. (Org.). Fontes da Pedagogia Latino-
Americana: uma antropologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

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