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Patrística
O termo Patrística vem de patris, que em latim é padre, ou pai (no caso, seria pai espiritual). A patrística ocorre quando Filosofia e Religião se encontram em Roma e se faz necessário adequar o pensamento de uma área à outra. Logo em seguida os bárbaros ocuparam Roma, a cultura sucumbiu, pois a língua falada pelos bárbaros não era decifrável, e as escolas foram fechadas, sendo reabertas apenas no ano 781 por determinação do imperador Carlos Magno.
Nessa época, a única instituição que estava coesa era a Igreja e, desse modo, ela acabou ficando com o poder espiritual e o poder temporal em suas mãos, mantendo escolas internas (monacais) em funcionamento e hospitais. Foi assim que a Igreja acabou se envolvendo em questões políticas, econômicas, artísticas, científicas, etc., ou seja, o mundo era, conforme a Igreja dizia que ele era.
Para delimitar o que era ou não conhecimento verdadeiro a Igreja recorria ao livro dos livros, a Bíblia, pois acreditava que ali estava expressa a palavra de Deus e que tudo o que constava nela representava a verdade sobre o mundo. Hoje os teólogos sustentam que a Bíblia não é um livro de ciência, mas um livro de fé, pois ela narra a história de um povo interpretada à luz da crença em um ser superior.
A bíblia é oriunda de um povo (judeu) e de uma época (antiguidade) e traz consigo uma cosmologia própria, entendendo que a terra é plana e está imóvel no centro do universo; ao seu redor giram a lua, o sol, os planetas e as demais estrelas. Apenas desse modo, faz sentido que Josué tenha feito o sol parar no Vale de Gabaon e a lua no Vale de Aiaon (Js 10, 12). Além disso, a Igreja se autodeclarou representante de Deus na terra e passou a interferir em assuntos políticos, econômicos (condenava a usura, por exemplo), artísticos, enfim, em todas as áreas da vida humana, conforme já assinalamos anteriormente.
Apesar da recomendação bíblica de cuidado em relação às vãs filosofias, descrita
na Carta aos Colossenses (2, 6-8), em que se lê:
Já que vocês aceitaram Jesus Cristo como Senhor, vivam como Cristãos: enraizados nele, vocês se edificam sobre ele e se apoiam na fé que lhes foi ensinada, transbordando em ações de graças. Cuidado para que ninguém escravize vocês através de filosofias enganosas e vãs, de acordo com tradições humanas, que se baseiam nos elementos do mundo, e não em Cristo.
A Igreja, sobretudo, na pessoa de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), fez uma releitura da filosofia de Platão e acabou por unir essas duas visões de mundo, construindo uma visão filosófica própria, a Filosofia Cristã.
Uma das questões que mais incomodava Agostinho era: conhecemos a verdade? Como a conhecemos? Ele acabou concluindo que conhecemos com certeza o princípio de não contradição e a própria existência. Dizia que “ninguém pode duvidar da própria existência porque, neste caso, a dúvida é uma prova da existência: se me engano, existo” (Mondin, 1982, p. 137).
Agostinho acabou concluindo que o conhecimento se dava por três vias – os sentidos, a razão inferior (filosofia e ciência) e a razão superior (a fé) –, que apreendem respectivamente os objetos, as leis da natureza e as verdades eternas. Mesmo o conhecimento adquirido pelos sentidos depende, em última instância, da alma. O corpo recebe as impressões, mas é a alma que elabora o conhecimento.
Segundo Agostinho, a alma recebe a imagem e não os objetos em si. A razão inferior se ocupa do conhecimento científico acerca do mundo corpóreo e de suas leis, bem como do processo de abstração. Por fim, a mais alta forma de conhecimento é o das verdades eternas a qual só é possível por meio da iluminação divina: “Deus irradia na mente humana as verdades absolutas, imutáveis” (Mondin, 1982, p. 139).
A condição servil da Filosofia
Durante a Idade Média a Filosofia, entendida como razão inferior, ficou conhecida como serva da teologia (philosophia ancilla theologiae, em latim). De acordo com Agostinho, seria preciso “compreender para crer e crer para compreender”, ou seja, não é questão de subjugar a razão, senão de enquadrá-la como ferramenta para ascender à fé.
Devemos nos convencer de que se temos conhecimentos verdadeiros e inquestionáveis, tais como as verdades matemáticas, por exemplo, então se faz necessário que aquilo que possibilita esses conhecimentos não tem sua origem em nós mesmos e na nossa capacidade de raciocinar, pois os nossos conhecimentos são perecíveis e mutáveis, enquanto a verdade é imperecível e imutável, eterna, portanto, essa capacidade não é meramente humana, mas transcende a capacidade humana, e só pode vir de Deus.
E foi assim que a filosofia carregou por mil anos, aproximadamente, o título de serva da teologia, porém, chegou um momento em que ela foi sendo novamente reconhecida como um saber autônomo e, aos poucos, foi se desvinculando deste título. Encontramos já em Tomás de Aquino a ideia de que fé (teologia) e razão (filosofia) são modos diferentes de conhecimento. A razão aceita a verdade com base em evidências e a fé a aceita por causa da relevante autoridade de Deus. Mas, mesmo diferentes, elas não podem se contradizer, porque Deus é o autor de ambas. A razão pode conhecer as verdades naturais, mas é incapaz, por si só, de penetrar nos mistérios de Deus, que é o seu bem último.
Escolástica
Assim como Aristóteles, Tomás de Aquino também sustentava que nascemos tabula rasa, um quadro vazio, ou seja, sem nada na mente. O conhecimento advém da experiência sensorial e pode ocorrer de dois modos: pelas evidências colhidas do mundo à nossa volta ou pela revelação. Ambos podem conduzir a Deus e por isto, segundo ele, o pensamento de Aristóteles se coaduna perfeitamente com a teologia cristã. Ele herdou de Aristóteles o interesse pelo ser a ideia de que cada coisa tem a sua essência, uma característica que a define e a faz ser o que ela é. Mas mesmo definindo o que algo é (essência), não significa se ele é (existência). Pode-se definir a essência do unicórnio, por exemplo, como sendo um cavalo com chifres, no entanto, isto não significa que ela exista. O unicórnio, neste caso, teria essência, mas não teria existência. Para Tomás de Aquino “as essências de todas as coisas no mundo criado precedem sua existência” (Law, 2006, p. 266). Somente a essência de Deus não precedeu a sua existência.
Para Tomás de Aquino, todo conhecimento ocorre por assimilação ou por união da coisa conhecida e do objeto cognoscente (conhecedor), dizia que o objeto conhecido está no cognoscente segundo a natureza do próprio cognoscente. Sob a influência de Aristóteles afirmou que conhecer é abstrair, sendo o universal abstraído do particular e a forma abstraída da matéria individual.
Aquino buscou sintetizar a fé e a razão, pois entendia que não existem contradições entre a Filosofia e a fé cristã, visto que apenas a fé e a revelação cristã são capazes de atingir as puras verdades espirituais. Além destas, existem também as verdades naturais teológicas, que podem ser obtidas tanto por intermédio da fé e da revelação como pela razão e pelos sentidos. Um exemplo de verdade natural teológica é a busca de provas da existência de Deus.
Outra grande herança do aristotelismo foi a teoria das quatro causas, na qual, na interpretação de Tomás de Aquino, Deus é a causa primeira de todas as coisas. E, por fim, a filosofia cristã, a exemplo da grega, também se mantém essencialista (tudo tem uma essência, uma razão de ser). Mas um grande impulso rumo à reaquisição da autonomia filosófica foi dado por Guilherme de Ockham (1290-1349), o qual mostra que a verdade revelada, muito mais que a realidade das coisas do mundo sensível, é absolutamente inacessível à razão. Não há harmonia entre razão e fé; não se podem conhecer as verdades sobrenaturais; são apenas objeto de uma fé cega (Mondin, 1981, p. 233). Com isto ele colabora para a separação entre as duas e a filosofia acaba se libertando da condição de serva da teologia e a teologia deixa de ser considerada a ciência das ciências.
Guilherme de Ockham contribui para a questão dos universais mostrando-secontra a concepção realista defendendo o nominalismo para quem os universais são apenas abstrações. O seu princípio metodológico ficou conhecido como “navalha de Ockham” e ensinava que “entidades não devem ser multiplicadas além do necessário”, ou seja, devemos recorrer ao menor número possível de fatores ao explicar algo (Law, 2008, p. 269).
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