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TEORIA DO TRIBUNAL MULTIPORTAS - Arbitragem

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
DIREITO – BACHARELADO
JÚLIA REZENDE CUNHA
TEORIA DO TRIBUNAL MULTIPORTAS:
Aplicação da Arbitragem no Direito Brasileiro
BELO HORIZONTE
2024
1. INTRODUÇÃO
O avanço da cultura de resolução de conflitos no Brasil reflete uma mudança significativa no tratamento das disputas, promovendo uma transição do modelo tradicional de litígio para a valorização da autocomposição. Nesse novo cenário, o princípio de acesso à justiça passa a ser interpretado de forma mais ampla, alinhado à teoria do Tribunal Multiportas, que enfatiza a diversificação de métodos de resolução de conflitos, proporcionando maior efetividade e eficiência ao sistema jurídico.
Instituições como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em colaboração com os Núcleos Permanentes de Métodos Adequados de Solução de Conflitos (NUPEMEC), têm impulsionado o uso de mecanismos alternativos, visando atender às diretrizes da Política Nacional de Tratamento Adequado de Conflitos, pela Resolução n. 125/2010 do CNJ. Essa política não busca apenas aprimorar a eficácia do Poder Judiciário, mas também promove a difusão de métodos que oferecem soluções mais ágeis e participativas.
Neste artigo, abordaremos primeiramente o conceito de Tribunal Multiportas, idealizado por Frank Ernest Arnold Sander, que propõe um sistema onde diferentes "portas" representam métodos diversos de solução de conflitos, adaptados a cada situação específica. Esse modelo teórico serve como base para o desenvolvimento e aplicação de práticas que integram o sistema jurídico brasileiro, proporcionando alternativas ao processo judicial convencional.
Na sequência, será discutida a aplicabilidade da teoria no Brasil, evidenciando como a mediação e a arbitragem, entre outros métodos, não apenas agilizam a resolução das demandas, mas também estimulam a autonomia das partes e desafogam o sistema judiciário. A análise incluirá os princípios e normativas que regulamentam a mediação e arbitragem, com destaque para a Lei da Mediação, o Código de Processo Civil e a Resolução n. 125/2010 do CNJ, que consolida como diretrizes para uma prática mediativa eficaz.
Por fim, serão apresentadas sugestões para a ampliação e implementação efetiva dos métodos alternativos de resolução de conflitos, de modo que o Tribunal Multiportas se torne um recurso exclusivamente acessível no Brasil. Caso o desenvolvimento desse modelo encontre obstáculos, propõe-se a elaboração de medidas legislativas que consolidem sua aplicabilidade no contexto judicial brasileiro.
2. TEORIA DO TRIBUNAL MULTIPORTAS E SUA APLICABILIDADE NO BRASIL
A Teoria do Tribunal Multiportas, desenvolvida por Frank Ernest Arnold Sander em 1976, surgiu como uma proposta inovadora para reduzir a sobrecarga do sistema judiciário dos Estados Unidos, que enfrentava dificuldades na resolução de conflitos céleres. Apresentado na Conferência Global Pound, em Saint Paul, Minnesota, Sander propôs um sistema de “multiportas”, em que as questões poderiam ser solucionadas por uma variedade de métodos de resolução de disputas, além da via judicial tradicional. Esses métodos incluíam mediação, conciliação e arbitragem, todos com o objetivo de atender às especificidades de cada caso de forma mais eficiente, econômica e satisfatória para as partes envolvidas.
No Brasil, a teoria começou a ganhar força a partir da Constituição Federal de 1988, que garantiu a todos o direito de acesso ao Poder Judiciário. Contudo, ao longo dos anos, ficou claro que o simples acesso aos tribunais não assegurava a celeridade na resolução dos conflitos, e o sistema judiciário tornou-se cada vez mais sobrecarregado. Com a promulgação da Lei nº 9.099/95 dos Juizados Especiais e do Código Civil de 2002, foram dados passos importantes em direção à diversificação das formas de resolução de conflitos, ainda que a demanda judicial continue a crescer em ritmo elevado.
O cenário mudou significativamente em 2004, com a Emenda Constitucional nº 45, que introduziu na Constituição o princípio da duração razoável do processo e criou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão responsável pela supervisão e melhoria da eficiência do Judiciário. Com relatórios anuais como o "Justiça em Números", o CNJ revelou a urgência de métodos ágeis para reduzir o tempo de tramitação dos processos, principalmente nas fases de execução, que podem durar anos tanto na Justiça Federal quanto na Estadual. Essa realidade ressaltou a importância de se implementar métodos alternativos de resolução de conflitos, os quais incluíam não apenas o processo contencioso, mas também abordagens autocompositivas (como a mediação e a conciliação) e heterocompositivas (como a arbitragem).
Inspirada por experiências estrangeiras, a adoção de métodos como a mediação e a conciliação no Brasil teve de ser ajustada à realidade local. Tais métodos permitem uma visão menos centralizadora e mais participativa, em que as próprias partes, com o auxílio de mediadores ou conciliadores, assumem o controle do processo de resolução da disputa. Na autocomposição, por exemplo, as partes identificam a melhor solução para o conflito com a ajuda de um terceiro neutro; já na arbitragem, uma figura jurídica privada assume o papel de julgador, proporcionando uma decisão rápida e eficaz.
Para que o modelo de Tribunal Multiportas funcione adequadamente, Sander enumerou quatro pilares essenciais: institucionalização de alternativas, escolha do método mais adequado, capacitação dos profissionais envolvidos e implementação de políticas públicas para sensibilizar a sociedade sobre os benefícios desses métodos. No Brasil, essa implementação inclui também a prática de autotutela em situações especiais, como a defesa legítima, quando a própria parte age para resguardar seu direito.
As leis de Arbitragem (Lei nº 9.307/96) e de Mediação (Lei nº 13.140/2015), bem como o novo Código de Processo Civil, vieram para fortalecer o uso desses métodos e consolidar a Teoria do Tribunal Multiportas. Kazuo Watanabe destaca que o objetivo central de uma política pública de resolução de conflitos é fornecer soluções que atendam aos interesses das partes, preservando o relacionamento entre elas e fortalecendo a coesão social. Essa perspectiva mostra que a redução da carga do Judiciário é apenas uma consequência positiva desse sistema, cujo objetivo principal é promover uma justiça mais acessível, ágil e adaptada às necessidades da sociedade.
Assim, o Brasil avançou na consolidação de um sistema de Tribunal Multiportas, promovendo alternativas que otimizam a administração de conflitos de interesse. Esse processo de evolução, em consonância com as ideias de Sander, visa oferecer uma resposta mais eficiente e justa à sociedade, com uma justiça mais participativa e sustentável para todos.
3. ARBITRAGEM
Para entender o conceito de arbitragem sob a ótica da justiça multiportas, que procura um sistema de resolução de conflitos que proporcione opções complementares e não exclusivas ao processo judicial, devemos levar em conta que a arbitragem surge como uma opção jurisdicional autônoma que se integra ao sistema de resolução de conflitos como uma opção adicional ao procedimento judicial. Esta forma de atendimento procura lidar com a complexidade dos conflitos de maneira especializada e eficaz, em vez de substituir a jurisdição do Estado, conforme destacado por Alexandre Câmara:
um meio paraestatal de solução de conflitos, inserido nas conquistas alcançadas pela “terceira onda renovatória” do Direito Processual. Trata-se de um meio de heterocomposição do litígio em que este é solucionado por um terceiro, estranho ao conflito, isto é, a solução do conflito é obra de alguém que não é titular de nenhuns interesses conflitantes (CÂMARA, 1997).
Contudo, enquanto Câmara (1997) considera a arbitragem um instrumento paraestatal de resolução de conflitos, situado no âmbito da "terceira onda renovatória" do Direito Processual, Marzorati (1993) a interpreta de maneira mais abrangente como uma técnica na qual as partes optam porum terceiro para decidir, assumindo o compromisso de respeitar essa decisão. 
Este segundo conceito é mais apropriado para nosso estudo, uma vez que evita a concepção de que a arbitragem é meramente uma opção à jurisdição estatal. Ao invés disso, vê a arbitragem como uma atividade jurisdicional distinta, que permite uma resolução mais apropriada em algumas disputas, particularmente naquelas que requerem rapidez e conhecimento técnico.
Essa percepção da arbitragem como uma jurisdição independente se intensifica com a regulamentação da prática arbitral no Brasil, através da Lei no 9.307/1996. Esta legislação determina, em seu artigo 1º, que a arbitragem é aplicável a disputas patrimoniais, deixando de fora questões que envolvem direitos extrapatrimoniais, que são intransferíveis.
Essa restrição evidencia a singularidade da arbitragem como uma opção eficiente para solucionar conflitos comerciais e patrimoniais complexos, que podem se beneficiar de uma avaliação técnica e ágil.
Assim, a arbitragem no Brasil se estabelece como um instrumento importante na economia e no cenário jurídico do país, sendo reconhecida tanto pelo governo quanto pela sociedade como uma forma viável e legítima de solucionar conflitos. Esta progressão é especialmente relevante no cenário global, onde a arbitragem é um recurso crucial para disputas transnacionais, fomentando a previsibilidade e a segurança jurídica. Portanto, a arbitragem não só complementa a jurisdição estatal, mas, em certas situações, pode ser mais apropriada, evidenciando sua relevância no sistema de justiça multiportas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar de uma resistência inicial tanto por parte de advogados quanto de jurisdicionados, a adoção de métodos alternativos de resolução de conflitos tem crescido no Brasil. Esse avanço está diretamente ligado ao desenvolvimento e à melhoria de mecanismos que visam consolidar o conceito de Tribunal Multiportas no sistema jurídico brasileiro, proporcionando uma alternativa eficaz ao modelo tradicional de litígio.
Inspirado pelo Multidoor Courthouse System, criado por Frank Ernest Arnold Sander, o Tribunal Multiportas eliminou a concepção do processo judicial como única via para alcançar a Justiça. Esse modelo amplia as opções de resolução de conflitos, direcionando as partes ao método mais adequado após uma seleção de cuidadosa, que busca melhoria a funcionalidade e a agilidade na solução de disputas. No Brasil, essa teoria tem se materializada por meio de políticas públicas, normativas e pela atuação de órgãos como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e os Núcleos Permanentes de Métodos Adequados de Solução de Conflitos (NUPEMEC).
A implementação da arbitragem no direito brasileiro se destaca como uma resposta eficaz para atender às demandas de um sistema legal sobrecarregado e cada vez mais complexo. Com a promulgação de leis específicas, como a Lei nº 9.307/1996, que regulamenta a arbitragem no país, a arbitragem foi reconhecida como um mecanismo válido e eficiente para a resolução de conflitos patrimoniais que bloqueia a habilidade e o conhecimento técnico. Esse progresso é uma evidência concreta da consolidação do sistema de Justiça Multiportas, que visa adaptar o sistema jurídico brasileiro às necessidades de uma sociedade em constante evolução.
Ao oferecer soluções céleres e específicas às especificidades dos conflitos, a arbitragem também contribui para a valorização de um sistema de justiça mais amplo e adaptável. A resistência inicial dos operadores de direito e das partes está sendo superada pela percepção dos benefícios proporcionados pela arbitragem, tais como ceridade, especialização e prevenção da judicialização desnecessária. Com isso, a arbitragem não apenas desempenha um papel relevante no alívio da carga do Judiciário, mas também se posiciona como uma ferramenta essencial para fortalecer a segurança jurídica e a previsibilidade nas relações comerciais e patrimoniais.
Portanto, a ampliação da arbitragem e de outros métodos alternativos de resolução de conflitos reflete uma importante transformação no sistema de justiça brasileiro. Esse movimento orienta o sistema para um modelo mais eficiente, ajustado às demandas da sociedade atual e em conformidade com o conceito de Tribunal Multiportas. Uma estratégia de aprimoramento do sistema de resolução de conflitos no Brasil, seja por meio de reformas legislativas ou pela estruturação do Poder Judiciário por meio do CNJ, deve focar não apenas na resolução dos litígios judiciais, mas também na resolução dos conflitos sociais, uma vez que ao resolver o conflito social, dissolve-se o conflito de interesses que dele corre.
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