Prévia do material em texto
Aula 16 (Prof. Equipe
de Português) -
Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor -
Letras/Português e Literatura da Língua
Portuguesa) Conhecimentos Específicos
Autor:
Patrícia Cristina Biazao Manzato
Moises, Equipe Português
Estratégia Concursos, Felipe
Luccas
13 de Maio de 2024
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
Índice
..............................................................................................................................................................................................1) Noções Iniciais de Literatura 3
..............................................................................................................................................................................................2) Evolução das escolas literárias 4
..............................................................................................................................................................................................3) Quinhentismo 5
..............................................................................................................................................................................................4) Barroco 7
..............................................................................................................................................................................................5) Arcadismo 9
..............................................................................................................................................................................................6) Romantismo 11
..............................................................................................................................................................................................7) Realismo e Naturalismo 20
..............................................................................................................................................................................................8) Parnasianismo e Simbolismo 27
..............................................................................................................................................................................................9) Pré-modernismo 29
..............................................................................................................................................................................................10) Modernismo 34
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
2
63
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Olá, pessoal!
Literatura é, segundo Antônio Cândido1, tudo aquilo que tem toque poético, ficcional ou dramático nos mais
distintos níveis de uma sociedade, em todas as culturas, desde o folclore, a lenda, as anedotas e até as formas
complexas de produção escritas das grandes civilizações.
Nesta aula veremos as principais vertentes literárias no Brasil, seus principais autores e obras. Caso queira
se aprofundar mais nesse tópico, sugiro a leitura das obras.
Pessoal, muito carinho com esta aula! Ela lhes dará a base necessária para resolver as questões de Literatura
de seu concurso.
Vamos seguir! Nessa aula praticaremos com muitas questões comentadas! Estaremos prontos para tudo!!!
CONHECIMENTOS DE LITERATURA
A historiografia literária detalhada, mesmo não sendo oficialmente parte do edital, que prevê
"Conhecimentos de literatura" é importante para resoluções de questões que versam tanto tópicos de
escolas literárias quanto interpretação de textos que demandam um conhecimento mais aprofundado sobre
Literatura.
Assim, o conhecimento geral sobre as escolas literárias, suas propostas, principais e obras e autores ajuda
muito a ter segurança e velocidade na análise dos textos. Por isso, vamos fazer um apanhado geral de
literatura, com foco nos autores e temas favoritos da Banca, estatisticamente mapeados pelas questões
anteriores.
Algumas escolas literárias não serão aprofundadas aqui, pois são de pouca relevância para a temática da
prova.
Iniciaremos esse estudo com uma breve recapitulação gráfica da evolução cronológica das escolas literárias,
que ajuda o candidato a traçar paralelos históricos.
1 CÂNDIDO, Antônio. “Direitos Humanos e literatura”. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp.
Rio de Janeiro: Brasiliense, 1989.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
3
63
ESCOLAS LITERÁRIAS
As escolas literárias estão relacionadas diretamente a movimentos literários que aconteceram ao longo da
história.
Esses movimentos ocorrem em virtude de inúmeros fatores, dentre eles, o estilo de escrita de uma
determinada época, os movimentos sociais pelos quais o mundo passa e as estruturas socioeconômicas
vigentes à época.
Escolheu-se a nomenclatura "Escolas Literárias" para agregar movimentos similares em determinadas, a fim
de tornar o estudo mais didático e claro.
Destaco que é importante ter em mente que os movimentos literários ocorrem em associação com as
manifestações políticas e sociais da época à qual pertenceram. Porém não devem ser limitados a uma
expressão da época.
Assim, a relação entre Literatura e construção da História é intrínseca.
Evolução das Escolas Literárias
Iniciamos com o quadro comparativo e evolutivo:
As Escolas Literárias são manifestações que ocorreram em todo o mundo. Inicialmente na Europa, elas
serviram de influência para outras partes, inclusive o Brasil.
Sem adentrar as divergências conceituais e de entendimento de críticos literários, no Brasil, os movimentos
literários iniciam após a descoberta do país, ainda no século XVI. Em alguns momentos convergem para os
movimentos literários portugueses, em virtude da relação metrópole e colônia.
A seguir trataremos das Escolas Literárias brasileiras.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
4
63
QUINHENTISMO
A literatura do “quinhentismo” não é extamente uma literatura “Brasileira”, mas uma literatura “no Brasil”.
Constitui-se basicamente dos relatos de viajantes e jesuítas sobre as primeiras impressões da terra recém-
descoberta, a chamada “literatura de informação”.
Não é considerado uma escola literária, pois sua finalidade era eminentemente documental (cartas,
relatórios, mapas). Contudo, posteriormente os padres jesuítas passam a produzir uma “literatura de
catequese”, que incluía sermões, peças, poemas, músicas.
Como documento representativo da literatura de informação, temos a carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei
de Portugal, Dom Manuel:
Trecho 1
A pele deles é parda e um pouco avermelhada. Têm rostos e narizes bem feitos. Andam
nus, sem cobertura alguma. Nem se preocupam em cobrir ou deixar de cobrir suas vergonhas
mais do se que preocupariam em mostrar o rosto. E a esse respeito são bastante inocentes.
Ambos traziam o lábio inferior furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma
mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, fino na ponta como um furador. (…)
Os cabelos deles são lisos. E os usavam cortados e raspados até acima das orelhas. E um
deles trazia como uma cabeleira feita de penasmas também o romance regionalista de 1930 e o nascimento das ciências sociais no país na
década de 40 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram, evidentemente, exclusivas de
Euclides, mas comuns às elites ilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao escrever Os
sertões.
Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009, p. 28-29 (com adaptações).
Com referência às ideias e às estruturas linguísticas do texto V, assinale a opção correta.
Depreende-se do texto que os sertanejos, desprotegidos, tornam-se devedores dos seus contratantes logo
após terem iniciado o trabalho no seringal.
Comentários:
Euclides denuncia o esquema de servidão por dívida: já na viagem o sertanejo se torna devedor dos
adiantamentos:
Ele efetua, à sua custa e de todo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os adiantamentos feitos
pelos contratadores insaciáveis, inçados de parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformam as mais
das vezes em devedor para sempre insolvente.
Essa prática ainda é muito comum no interior mais remoto do país, o que mostra o valor de atualidade da
obra Euclidiana. Questão incorreta.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
33
63
MODERNISMO
O Modernismo é o movimento artístico, literário, artístico e social renovador que se inicia com a Semana de
Arte Moderna, em 1922. Esse movimento é dividido basicamente em 3 Fases ou Gerações:
Primeira Geração (Fase Heroica)
Caracterizada pela ruptura radical, pela busca de uma linguagem coloquial e livre de amarras, sem rimas,
sem métrica, sem regras gramaticais.
Os ícones dessa fase são Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira.
Semana de Arte Moderna de 1922:
Evento que reuniu diversos artistas e intelectuais brasileiros para divulgar as tendências artísticas inovadoras
e propor uma ruptura com os moldes dominantes de fazer arte.
As vanguardas europeias representavam uma nova visão do mundo e da arte e vários artistas brasileiros da
época serviam delas como inspiração. Então, os brasileiros abraçam correntes como o Cubismo, o Futurismo,
o Expressionismo, o Surrealismo e o Dadaísmo, pois representavam uma nova forma de interpretação do
mundo.
Veja a descrição do que representava a Semana de Arte Moderna, nas palavras do próprio Mário de
Andrade, um dos principais ícones modernistas da Primeira Fase:
Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes
sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes
o criador de um estado de espírito nacional. A transformação do mundo, com o enfraquecimento
gradativo dos grandes impérios, com a prática européia de novos ideais políticos, a rapidez dos
transportes e mil e uma outras causas internacionais, bem como desenvolvimento da consciência
americana e brasileira, os progressos internos da técnica e da educação, impunham a criação de
um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. Isso
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
34
63
foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo
principal. (ANDRADE, MÁRIO: 1974)
A agitação artística refletia um contexto histórico de grande transformação: os senhores rurais do café
retornam ao poder, pelo grande desenvolvimento da economia cafeeira e pela queda dos governos militares
dos primeiros anos de República. Houve também um forte surto de industrialização e urbanização, reflexo
dos anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Surge então uma burguesia rica e influente, em busca de
poder político. O país está dividido entre um bloco rural e outro urbano, este heterogêneo, formado por
imigrantes europeus, comerciantes, profissionais liberais e militares.
Então, o enorme fluxo de ideias era palco ideal para um evento que propusesse uma grande “destruição”,
uma revolução artística, um movimento de ruptura com as velhas estruturas:
Nós não sabíamos o que queríamos, mas sabíamos o que não queríamos (…) o nosso sentido era
especificamente destruidor.
Mário de Andrade 1922
Após a Semana de 1922, os artistas da Primeira Fase modernista dão continuidade a seus projetos
ideológicos de valorização do novo e do nacional, como os diversos manifestos nacionalistas: do "Pau-Brasil",
da "Antropofagia", do "Verde-Amarelismo" e o da "Escola da Anta".
Como reflexo desse projeto inovador, teremos características que indicam negação ao modo “tradicional”
de se fazer arte. Vejamos em suma as principais características da Primeira Geração modernista:
Nacionalismo crítico e ufanista, manifestado em críticas à realidade brasileira e a uma busca do
conhecimento da identidade nacional;
Valorização do cotidiano, da fala informal;
Resgate das raízes culturais brasileiras;
Renovação da linguagem, como forma de negação ao formalismo conservador do parnasianismo e
do academicismo;
Experimentação estética, influenciada por vanguardas europeias, na tentativa de criar arte sem
seguir paradigmas anteriores;
Ironia, sarcasmo e irreverência, também no âmbito da crítica social e artística;
Caráter anárquico e destruidor, como negação também ao governo;
Linguagem libertária, com abandono da métrica, versos sem rima e grafia coloquial das palavras.
A palavra que resume a Primeira Fase é “transgressão”.
"Antropofagia" é um ritual primitivo de “canibalismo”: devora-se o inimigo para obter suas forças. O quadro
surrealista "O Abaporu", de Tarsila do Amaral, é símbolo do movimento Antropofágico, que propunha a
deglutição das tendências europeias para absorção do que tinham de melhor, uma assimilação, mas sem
cópia.
O "Manifesto Antropofágico", publicado por Oswald de Andrade em 1928, trazia a seguinte proposta:
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
35
63
"Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo.
Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões.
De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E
contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago."
(trecho do manifesto)
Principais manifestos da Primeira Fase:
"Movimento Pau-Brasil": defendia o primitivismo e a inovação na poesia, em negação ao discurso poético
retórico.
"Movimento Verde-Amarelo/ Grupo da Anta": movimento radical, identificado com Cassiano Ricardo,
Menotti del Picchia e Plínio Salgado. Constituiu-se como um grupo de preocupações artísticas patrióticas e
ufanistas, propondo-se a uma contraposição ao Movimento Pau-Brasil. A anta era seu símbolo.
"Movimento Antropofágico": liderado por Oswald de Andrade, aprofunda as proposições do Pau-Brasil,
propondo uma língua literária “brasileira”, “não catequizada”.
Houve ainda as Revistas Klaxon, veículo de informação geral dos artistas modernistas, no período
subsequente àSemana de Arte Moderna, e a Antropofágica, ligada ao movimento homônimo.
Vejamos agora alguns artistas e obras que se destacam na primeira fase e como essas obras refletiam a
ideologia “destruidora” da Primeira Geração modernista:
Manuel Bandeira: Embora já fosse mais velho e tivesse obra consolidada como poeta simbolista, Manuel
Bandeira é um dos principais ícones da primeira fase do modernismo.
Nova Poética
“Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina
passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que
envelheceram sem maldade.”
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
36
63
(Manuel Bandeira)
Observem que o poema acima questiona a “forma de fazer poesia”, propondo uma temática que faça o leitor
“sentir algo”, em oposição aos temas vazios da poesia parnasiana, por exemplo. Além disso, nota-se o uso
de verbos brancos, sem rima e ausência de métrica.
Os sapos
Os Sapos
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
37
63
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
38
63
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
(Manuel Bandeira)
O poema acima, lido por Ronald de Carvalho na Semana de Arte Moderna, traz crítica aberta ao culto da
forma que regia a obra parnasiana: "Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma/Reduzi sem danos A fôrmas
a forma."
Mário de Andrade: Principal mentor intelectual da Fase Heroica, era músico, professor, ensaísta, crítico
literário e musical, poeta e romancista.
Defendia uma “língua brasileira” e uma pesquisa profunda sobre “quem são de fato os brasileiros”.
Em seu livro “turista aprendiz”, traz um diário das viagens que empreendeu pelo Brasil para conhecer
verdadeiramente o povo, sua língua, seus hábitos, suas lendas, sua música, sua história e todos os elementos
culturais que constituem a “identidade brasileira”. Veja alguns trechos de suas viagens de conhecimento:
Belém, 1927
Belém é a cidade principal da Polinésia. Mandaram vir u’a imigração de malaios e no vão das
mangueiras nasceu Belém do Pará. Engraçado é que a gente a todo momento imagina que vive
no Brasil mas é fantástica a sensação de estar no Cairo que se tem. Não posso atinar porque...
Mangueiras, o Cairo não possui mangueiras evaporando das ruas. Não possui o sujeito passeando
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
39
63
com um porco-do-mato na correntinha... E nem aquele indivíduo que logo de-manhã pisou nos
meus olhos, puxa comoção! inda com rabo de sobrecasaca abanando...
Natal, 1929
Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida. Chico Antônio apesar
de orgulhoso: “Ai, Chico Antônio/ Quando canta/ Istremece/ Esse lugá!” Não sabe que vale uma
dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa
uma noite cantando sem parada. Já são 23 horas e desde as 19 que canta. Os cocos se sucedem
tirados pela voz firme dele. Às vezes o coro não consegue responder na hora o refrão curto. Chico
Antônio pega o fio da embolada, passa pitos no pessoal e “vira o coco”.
Trechos de "O Turista Aprendiz"
Mário era apaixonado por São Paulo e essa sua relação com a cidade já foi explorada na prova do CACD em
mais de uma ocasião. Veja a declaração de amor de Mario de Andrade à cidade:
Inspiração
São Paulo! comoção de minha vida ...
Os meus amores são flores feitas de original ...
Arlequinal! ... Traje de losangos .... Cinza e ouro ....
Luz e bruma ... Forno e inverno morno ....
Elegâncias sutis sem escândalos , sem ciúmes ...
Perfumes de Paris ... Aryz !
Bofetadas líricas no Trianon ... Algodoal !...
São Paulo comoção de minha vida !
Galicismo a berrar nos desertos da América !
(Mário de Andrade, 1921)
Macunaíma
Em "Macunaíma, o herói sem nenhum caráter", Mário de Andrade sintetiza seu enorme conhecimento sobre
a cultura brasileira. O livro traz um protagonista “anti-herói”, cheio de defeitos, malandro e preguiçoso, que
nasceu negro, indígena, depois fica branco, pega uma canoa no rio Amazonas e sai em São Paulo.
A obra é composta por uma narrativa fantástica, sem cronologia, sem amarras de tempo-espaço e escrita
com uma linguagem libertária. Seu herói é, como ele declara, sem nenhum caráter, em uma clara oposição
ao herói perfeito da literatura romântica, sempre espelhado no cavalheiro europeu, mesmo sendo
protagonista de narração brasileira.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
40
63
Vejamos a síntese de Antonio Candido e José Aderaldo Castello estampada no livro "Presença da Literatura
Brasileira: Modernismo" (São Paulo: Bertrand Brasil, 1997, p. 112):
Esta “rapsódia” (como era qualificada na primeira edição) conta as aventuras de Macunaíma,
herói de uma tribo amazônica, que o autor misturou a outros, também indígenas, e que
reinventou como personagem picaresca, sem cortar as suas ligações com o mundo lendário.
Depois da morte da mulher (Ci, a Mãe do Mato,que se transforma na estrela Beta do Centauro),
Macunaíma perde um amuleto que ela lhe dera, a “muiraquitã”. Sabendo que está nas mãos de
um mascate peruano, Venceslau Pietro Pietra, morador em São Paulo, vem para esta cidade com
os dois irmãos, Maanape e Jiguê. A maior parte do livro se passa durante as tentativas de reaver
a pedra do comerciante, que era afinal de contas o gigante Piaimã, comedor de gente.
Conseguido o propósito, Macunaíma volta para o Amazonas, onde, após uma série de aventuras
finais, se transforma na constelação Ursa Maior.
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2014)
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
41
63
Depreende-se das ideias do texto que a criação do slogan “São Paulo, a locomotiva puxando os vagões” foi
motivada pela atitude bairrista da intelectualidade paulista, como demonstra o predicativo ‘diferentes
mesmo’ (l.10) atribuído aos paulistas, para ressaltar-lhes a superioridade em relação à população dos outros
estados brasileiros.
Comentários:
Diferente não é sinônimo de “superior”. O slogan reflete o fato de que São Paulo era um grande polo
econômico e cultural e irradiava, de fato, as suas tendências para todo o Brasil. Mário amava São Paulo, mas
tinha profundo interesse e respeito pelas outras regiões do Brasil, motivo pelo qual não se fundamenta no
texto nenhuma “atitude bairrista”. Questão incorreta.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
42
63
Segunda Geração (Fase de Consolidação - 1930-1945)
Destacou-se pela prosa regionalista, retomando aspectos do Realismo, como a objetividade, mas inovando
na linguagem com o registro fiel da fala das regiões.
Os principais autores regionalistas são José Lins do Rego, Jorge Amado ("Capitães de Areia"), Rachel de
Queiroz ("O quinze") e Graciliano Ramos ("Vidas Secas", "Caetés", "São Bernardo").
Romance Regionalista
Graciliano Ramos e "Vidas Secas":
Escritor e jornalista brasileiro enquadrado na Segunda Fase do Modernismo. Destacou-se por obras de
temática regionalista, nas quais descrevia a realidade desigual de regiões distantes do país. Era um crítico
forte não só dos românticos e realistas, mas até mesmo do radicalismo presente na própria geração inicial
do Modernismo. Veja:
“Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram
linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E, querendo destruir tudo o que
ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva.”
Em “Vidas Secas”, de 1938, Graciliano Ramos retrata a realidade miserável de uma família de retirantes, que
vivem em um movimento migratório cíclico, mudando sempre de região conforme a seca os alcançava.
Nessa obra, destaca-se sua perfeição técnica como escritor, a descrição da realidade é “seca”, sem muitos
adjetivos, como reflexo da própria esterilidade do ambiente retratado. O narrador em terceira pessoa utiliza
o discurso indireto livre, como forma de mostrar os pensamentos dos personagens, que possuíam pouca
articulação oral, especialmente Fabiano, protagonista de poucas palavras, rude, embrutecido pela seca.
A contribuição desse livro para o conhecimento da realidade nacional é enorme, pois são denunciadas
mazelas como a exploração dos retirantes, a miséria e o abandono nas regiões áridas do Brasil.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
43
63
Em ponto de contato com a obra de Euclides da Cunha, "Vidas Secas" mostra um sertanejo forte, resiliente,
que encontra forças para sobreviver e continuar a caminhada para um lugar melhor.
Ao final, Fabiano estava preso a um regime de servidão por dívida e não conseguia pagar o ao patrão. Decidiu
então fugir com a família em busca de melhores condições no Sul.
Vejamos os trechos finais da obra, nos quais podemos constatar o otimismo desolado dos retirantes e o
pessimismo do narrador, ao insinuar que eles ficariam presos novamente:
"Fabiano ouviu os sonhos da mulher, deslumbrado, relaxou os músculos, e o saco da comida
escorregou-lhe no ombro. Aprumou-se, deu um puxão à carga. A conversa de Sinhá Vitória servira
muito: haviam caminhado léguas quase sem sentir. De repente veio a fraqueza. Devia ser fome.
Fabiano ergueu a cabeça, piscou os olhos por baixo da aba negra e queimada do chapéu de couro.
Meio dia, pouco mais ou menos. Baixou os olhos encandeados, procurou descobrir na planície
uma sombra ou sinal de água. Estava realmente com um buraco no estômago. Endireitou o saco
de novo e, para conservá-lo em equilíbrio, andou pendido, um ombro alto, outro baixo. O
otimismo de Sinhá Vitória já não lhe fazia mossa. Ela ainda se agarrava a fantasias. Coitada.
Armar semelhantes planos, assim bamba, o peso do baú e da cabeça enterrando-lhe o pescoço
no corpo.
Foram descansar sob os garranchos de uma quixabeira, mastigaram punhados de farinha e
pedaços de carne, beberam na cuia uns goles de água. Na testa de Fabiano o suor secava,
misturando-se à poeira que enchia as rugas fundas, embebendo-se na correia do chapéu. A
tontura desaparecera, o estômago sossegara. Quando partissem, a cabaça não envergaria o
espinhaço de Sinhá Vitória. Instintivamente procurou no descampado indício de fonte. Um
friozinho agudo arrepiou-o. Mostrou os dentes sujos num riso infantil. Como podia ter frio com
semelhante calor? Ficou um instante assim besta, olhando os filhos, olhando os filhos, a mulher
e a bagagem pesada. O menino mais velho esbrugava um osso com apetite. Fabiano lembrou-se
da cachorra Baleia, outro arrepio correu-lhe a espinha, o riso besta esmoreceu.
Se achassem água ali por perto, beberiam muito, sairiam cheios, arrastando os pés. Fabiano
comunicou isto a Sinhá Vitória e indicou uma depressão do terreno. Era um bebedouro, não era?
Sinhá Vitória estirou o beiço, indecisa, e Fabiano afirmou o que havia perguntado. Então ele não
conhecia aquelas paragens? Estava a falar variedades? Se a mulher tivesse concordado, Fabiano
arrefeceria, pois lhe faltava convicção; como Sinhá Vitória tinha dúvidas, Fabiano exaltava-se,
procurava incutir-lhe coragem. Inventava o bebedouro, descrevia-o, mentia sem saber que estava
mentindo. E Sinhá Vitória excitava-se, transmitia-lhe esperanças. Andavam por lugares
conhecidos. Qual era o emprego de Fabiano? Tratar de bichos, explorar os arredores, no lombo
de um cavalo. E ele explorava tudo. Para lá dos montes afastados havia outro mundo, um mundo
temeroso; mas para cá, na planície, tinha de cor plantas e animais, buracos e pedras.
E andavam para o Sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes Os
meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se
como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se
temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão
continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos,
como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos."
(Graciliano Ramos - Vidas secas, pág. 130, 131,134)
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe PortuguêsEstratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
44
63
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2015)
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
45
63
A respeito da linguagem e do vocabulário empregados no texto anterior, julgue (C ou E) o item seguinte.
No primeiro parágrafo, o emprego, em sentido figurado, do substantivo “calor” (l.4) e da forma verbal
“morrem” (R.8) contribuiu para a expressividade da linguagem dos segmentos em que esses vocábulos se
inserem.
Comentários:
As palavras ‘calor’ e ‘morrem’ foram utilizadas em sentido metafórico, com clara finalidade estilística. O
“calor” da composição insinua que o processo de compor é intenso, sôfrego. As palavras “morrem” porque
têm vida na composição literária. Esses recursos estilísticos são típicos da linguagem literária e dão
expressividade ao que poderia ser dito de forma mais “seca”, sem elaboração. Questão correta.
Carlos Drummond de Andrade
Um dos principais poetas da Segunda Geração modernista, sua obra é marcada pela exploração de temas
como a existência, o “estar no mundo”, o individualismo e as questões sociais.
Sua escrita sempre se volta para um intimismo profundo, uma incerteza sobre o mundo, permeados por
doses de sarcasmo e uma forma libertária de escrever (sem rigor formal).
Seu poema “Legado” já foi cobrado em uma prova discursiva do CACD:
LEGADO
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
46
63
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
Minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
Carlos Drummond de Andrade. Claro Enigma. Nova reunião. v. I. Rio de Janeiro: J. Olympio;
Brasília: INL, 1983, p. 247.
Um detalhe interessante sobre esse poema é o último verso: “uma pedra que havia no meio do caminho”.
Ao substituir “havia” o que era no poema original “tinha”, fica sugerida a ideia da maturidade. O verso “no
meio do caminho havia uma pedra”, sem métrica, repetitivo, com esse uso informal do “ter” como verbo
existencial, representava o ideal modernista da poesia livre, sem amarras acadêmicas, métricas ou
gramaticais.
Ao pensar em seu “legado”, ou seja, do que deixa para o Brasil como poeta no final da vida, Drummond não
precisa mais transgredir: pode usar o verbo formal, pois sua obra já é sólida e o momento da ruptura já
passou.
Esse detalhe é importante, pois na Terceira Geração modernista, os poetas vão retomar muito do que foi
combatido e vão produzir com primor formal e acadêmico novamente, sem deixar de inovar em outros
aspectos.
Cecília Meireles
Poetisa da Segunda Fase do Modernismo, tinha como características principais em sua poesia a temática
intimista e a musicalidade.
Em seu "Romanceiro da Inconfidência", usou o conhecimento acumulado em ampla pesquisa de documentos
históricos para construir em versos um relato da sociedade mineira do século XVIII, bem como dos eventos
da Inconfidência Mineira.
A obra, com tom lírico e épico, também mostra interesse histórico e social na realidade brasileira, no sentido
de oferecer um retrato “não oficial” de um movimento por liberdade.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
47
63
==1365fc==
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2015)
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
48
63
Da leitura da quarta estrofe (v.35-50) depreende-se que a palavra liberdade é o fulcro vital da bandeira dos
inconfidentes e representa a finalidade do engajamento político daquele grupo.
Comentários:
Sim. A liberdade era o lema dos inconfidentes, revoltosos mineiros que tinham como objetivo libertar o Brasil
do domínio de Portugal e instalar uma república. Liberdade ainda que tardia é o famoso lema desse
movimento (Libertas que sera tamen). Questão correta.
Vinícius de Moraes
Poeta muito consagrado, enquadrado na Segunda Geração modernista, destacou-se pela ligação com a
cultura popular, embora também tenha obra de conteúdo social ("Operário em Construção").
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
49
63
Vinícius de Moraes com Tom Jobim Vinícius de Moraes com João Cabral de Melo Neto em 1964
O poeta incorporou o ideal modernista de quebra com os moldes em algumas obras, mas
predominantemente prezava pelo apuro formal, sendo um especialista em sonetos.
Poética I
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.
Em “Minha Pátria” e “Operário em Construção”, temos um exemplo da obra mais social e nacionalista de
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
50
63
Vinícius:
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo,eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
51
63
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
52
63
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."
Trechos de “Operário em Construção”:
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
53
63
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
54
63
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2010)
Carta para Antonio Carlos Jobim
Porto do Havre [França], 7 de setembro de 1964
Tomzinho querido,
1 Estou aqui num quarto de hotel que dá para uma praça que dá para toda a solidão do mundo. São dez
horas da noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde, 4 e é impossível alguém estar mais
triste do que eu. E, como sempre nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.
7 Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil, que é uma paixão
permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional,
e eu sei que em nossa embaixada há uma festa que me cairia muito bem, com o Baden Powell mandando
brasa no violão. Há pouco telefonei para lá, para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao
telefone. Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem
qualquer perspectiva? É fogo, maestro!
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
55
63
Vinicius de Moraes. Querido poeta. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, organização de Ruy Castro, p. 303-304 (com
adaptações).
Infere-se da carta de Vinicius de Moraes a Antonio Carlos Jobim que o poeta brasileiro, também diplomata,
estava em missão profissional na cidade do Havre por ocasião de uma data nacional brasileira, embora
manifestasse preferência por estar em outro lugar.
Comentários:
No trecho abaixo, percebemos que Vinícius está a caminho do Brasil, num porto, mas seu navio só sai no dia
seguinte, “amanhã à tarde”:
São dez horas da noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde, e é impossível alguém estar
mais triste do que eu. E, como sempre nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.
Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil...
Além disso, inferimos que não está em missão profissional, pois nem sequer está mais na embaixada, tanto
que ligou para “lá”, de longe:
A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa que
me cairia muito bem, com o Baden Powell mandando brasa no violão. Há pouco telefonei para lá, para
cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone.
Então, não há nada no texto que comprove que ele está em missão por causa de uma data nacional brasileira.
Além disso, esse “também” dá impressão de que alguém mais seria diplomata, ou que Tom Jobim seria
diplomata, o que não é verdade. Questão incorreta.
3ª Geração (Pós-Modernismo, 1945-1960)
Chamada também de “pós-modernismo”, já não tinha o mesmo espírito “destruidor” da Primeira Fase.
O momento histórico é o Pós-Guerra e a Guerra Fria e, no Brasil, vivia-se a redemocratização após os anos
de Estado Novo (1937-1945).Como características gerais dessa fase, respeitando evidentemente a trajetória individual de alguns
escritores, são:
Academicismo;
Retorno ao passado;
Oposição à liberdade formal, com valorização da forma (métrica, rima) e do academicismo;
Experimentações artísticas (ficção experimental, formas de narrar, poesia com elementos visuais);
Realismo fantástico, em contos fantásticos narrados com a objetividade e coerência das análises
psicológicas realistas;
Inovações linguísticas e reflexão sobre o próprio fazer artístico (metalinguagem);
Regionalismo universal (com foco na universalidade do homem, não apenas da região);
Registro da fala regional oral;
Temas sociais.
São grandes expoentes dessa geração, na prosa, Guimarães Rosa e Clarice Lispector e, na poesia, João Cabral
de Melo Neto e Manoel de Barros.
Escritores da Segunda Geração também continuaram produzindo, então não há enquadramentos totalmente
estanques de algumas obras.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
56
63
João Cabral de Melo Neto
João Cabral de Melo Neto é enquadrado cronologicamente na Geração modernista de 1945, mas seguiu
caminhos próprios que levam a teoria literária a tratá-lo de forma individual.
Sua poesia é formalmente rigorosa e tem como temas principais a própria poesia (temática metalinguística),
o Nordeste e a Espanha.
Sua preocupação com a estética é clara, considerando-se um “arquiteto da palavra” ou “poeta-engenheiro”,
no sentido de que o poema era uma criação técnica, fruto não da inspiração, mas da elaboração mental. Veja
essa opinião manifestada em um poema metalinguístico de sua autoria:
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
O poeta era diplomata e viveu na Espanha, experiência que foi tema recorrente em sua obra. Foi autor
também de um importante trabalho de cunho regionalista: "Morte e Vida Severina", peça onde retrata a
trajetória de um migrante que atravessa o sertão, o agreste, a zona da mata, a cidade litorânea, em busca
da vida: o mar.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
57
63
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2010)
TEXTO III: Pernambucano em Málaga
1 A cana doce de Málaga
dá domada, em cão ou gata:
deixam-na perto, sem medo,
4 quase vai dentro das casas.
É cana que nunca morde,
nem quando vê-se atacada:
7 não leva pulgas no pelo
nem, entre folhas, navalha.
A cana doce de Málaga
10 dá escorrida e cabisbaixa:
naquele porte enfezado
de crianças abandonadas.
13 As folhas dela já nascem
murchas de cor, como a palha:
ou a farda murcha dos órfãos,
16 desde novas, desbotadas.
A cana doce de Málaga
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
58
63
não é mar, embora em praias,
19 dá sempre em pequenas poças,
restos de uma onda recuada.
Em poças, não tem do mar
22 a pulsação dele, nata:
sim, o torpor surdo e lasso
que se vê na água estagnada.
25 A cana doce de Málaga
dá dócil, disciplinada:
dá em fundos de quintal
28 e podia dar em jarras.
Falta-lhe é a força da nossa,
criada solta em ruas, praças:
31 solta, à vontade do corpo,
nas praças das grandes várzeas.
João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra e outros poemas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 149-50.
Com relação ao poema, julgue C ou E.
O contraste entre a “cana de Málaga” e a “nossa” cana, explícito na última estrofe, é prenunciado pelo título
do poema e pelas construções negativas usadas na caracterização da cana de Málaga.
Comentários:
A comparação entre a nossa cana e a cana de Málaga retoma a sugestão do título, em que se sugere um
contraste entre algo de Pernambuco e algo da Espanha. A comparação mostra a inferioridade da cana
estrangeira, que é murcha, desbotada, cabisbaixa:
A cana doce de Málaga
10 dá escorrida e cabisbaixa:
naquele porte enfezado
de crianças abandonadas.
13 As folhas dela já nascem
murchas de cor, como a palha:
ou a farda murcha dos órfãos,
16 desde novas, desbotadas.
Portanto, temos resgate da sugestão do título e qualificação negativa na comparação. Questão correta.
Clarice Lispector
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
59
63
Autora considerada canônica, respeitada pelo público e pela crítica literária, é o principal nome da literatura
intimista brasileira moderna.
Sua obra explora o “estar no mundo”, o mergulho psicológico, o romance introspectivo. Sua linguagem não
é erudita, mas tem complexidade criativa, pois as palavras simples são revestidas de significados não óbvios,
a sintaxe cria efeitos de ressignificação, de mensagens nas entrelinhas.
Seus romances e contos exploram reflexões profundas de personagens, sobre temas aparentemente banais,
narradas num fluxo espontâneo da consciência. Essas reflexões levam comumente as personagens a um
momento de “epifania” ou “revelação”, em que percebem pela primeira vez grandes verdades sobre si
mesmas. É um tema típico de sua obra a reflexão sobre o papel da mulher na família e na sociedade.
Especialmente nesses temas, há sempre forte projeção da autora em sua narrativa, em um entrelaçamento
entre personagem e escritor.
Da mesma forma que Machado de Assis, Clarice Lispector tem alta incidência de cobrança nas provas do
CACD.
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2012)
Nas narrativas que produziu nos últimos anos de sua vida, Clarice Lispector problematiza alguns mitos ou
pressupostos literários. Segundo seus termos em Relatório da coisa, ela buscou “desmistificar a ficção”. O uso
de certas estratégias que apagam o limite entre o autobiográfico e o ficcional revela um desejo de questionar
a noção da ficção como espaço autônomo em relação à realidade exterior. Além disso, o gosto por certos
modos de composição (a montagem e, em outros casos, a aproximação da escrita à estrutura casual de uma
conversa) parece igualmente indicar esse intento de desmistificar a ficção. Para a autora, nos últimos anos,
a escrita literária seria uma prática sem sentido (e, às vezes, até mesmo imoral) se fosse puramente estética,
ou seja, se permanecesse presa a certos decoros literários. Vários textos de suas coletâneas dos anos 70
produzem ou estão destinados a produzir um efeito de “mau gosto”, também descrito pela autora como um
“susto de constrangimento”.
Sônia Roncador. Poéticasdo empobrecimento: a escrita derradeira de Clarice. São Paulo: Annablume, 2002, p. 135-136 (com
adaptações).
Julgue o item a seguir.
A expressão “decoros literários” (l.14) significa, no texto, o mesmo que aceitação de mitos e de pressupostos
literários arcaicos que impedem o avanço no emprego de elementos estéticos.
Comentários:
Pela expressão “ou seja”, percebemos uma equivalência no texto: se fosse puramente estética, ou seja, se
permanecesse presa a certos decoros literários. Então, o “decoro literário” indica uma finalidade
estritamente estética da ficção, não o avanço no emprego de elementos estéticos. Questão incorreta.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
60
63
Poesia Concreta
A poesia concreta foi um movimento poético experimental surgida na década de 1950, que trabalhava com
o texto em forma de imagem, não só na sua dimensão de palavra, mas na sua dimensão espacial, geométrica,
explorando semanticamente a palavra como objeto visual e sonoro.
Veja os exemplos:
O Concretismo era uma vanguarda europeia, mas, no Brasil, foi fundado por Décio Pignatari, Haroldo de
Campos e Augusto de Campos (ou "irmãos Campos"), grupo chamado de “Noigandres”. Posteriormente,
produziram a revista literária que levava o nome do grupo.
Publicados entre 1956 e 1958 por esses poetas paulistas, o "Manifesto da Poesia Concreta" e o "Plano Piloto
da Poesia Concreta" apresentam a essência estética do movimento:
Poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas. dando por encerrado o ciclo
histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta começa por tomar conhecimento
do espaço gráfico como agente estrutural. espaço qualificado: estrutura espácio-temporal, em
vez de desenvolvimento meramente temporístico-temporal, em vez de desenvolvimento
meramente temporístico-linear. daí a importância da déia de ideograma, desde o seu sentido
geral de sintaxe espacial ou visual, até o seu sentido específico.
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2005)
circum-lóquio (pur troppo non allegro)
sobre o neoliberalismo terceiro-mundista
1 o neoliberal
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
61
63
sonha um admirável
mundo fixo
4 de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes
coronéis políticos
7 milenaristas (cooptados) do
perpétuo
status quo:
10 um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
13 bunker blau
durando para sempre – festa
estática
16 (ainda que sustente sobre
fictas
palafitas
19 e estas sobre uma lata
de lixo)
Haroldo de Campos. Poema inédito. In: Folha de S. Paulo, 12/6/1998.
Haroldo de Campos lançou, em 1956, o movimento nacional e internacional de Poesia Concreta. Julgue (C
ou E) os itens a seguir, considerando o contexto histórico, cultural e temático do poema acima (texto VIII).
O poeta, carioca que ainda vive em sua cidade natal, lançou o movimento concretista com o irmão Humberto.
Comentários:
Haroldo de Campos era paulista. Questão incorreta.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
62
63amarelas que lhe cobria toda a cabeça até a nuca
(…).
Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, eles
se tornaria, logo cristãos, visto que não aparentam ter nem conhecer crença alguma. Portanto,
se os degredados que vão ficar aqui aprenderem bem a sua fala e só entenderem, não duvido que
eles, de acordo com a santa intenção de Vossa Alteza, se tornem cristãos e passem a crer na nossa
santa fé. Isso há de agradar a Nosso Senhor, porque certamente essa gente é boa e de bela
simplicidade. E poderá ser facilmente impressa neles qualquer marca que lhes quiserem dar, já
que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens. E creio que não foi
sem razão o fato de Ele nos ter trazido até aqui.
Trecho 2
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta mais ao Sul até a outra ponta ao Norte, do
que nós pudemos observar deste porto, é tão grande que deve ter bem ou vinte e cinco léguas de
costa. Ao longo do mar, têm, em algumas partes, grandes barreiras, uma vermelhas e outras
brancas; e a terra é toda chã e muito formosa. O sertão nos pareceu, visto do mar, muito grande;
porque a estender os olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos – terra que nos parecia
muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro;
nem os vimos. Contudo, a terra em si é de bom clima, fresco e temperado, como os de Entre-
D’Ouro-E-Minho, nesta época do ano. As águas são muitas; infinitas. De tal maneira é graciosa
que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem!
Glossário
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
5
63
==1365fc==
Chã: plana
Degredado: exilado
Entre-D’Ouro-E-Minho: regiões litorâneas de Portugal
Légua: representava para os portugueses, 5512 m.
Sertão: refere-se ao interior das terras encontradas.
Vários trechos dos documentos da literatura informativa do primeiro século do descobrimento vão ser
retomados satiricamente por autores modernistas.
AS MENINAS DA GARE - Oswald de Andrade
Eram três ou quatro moças
bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha
O trecho acima é literalmente transcrito de um trecho da carta de Pero Vaz de Caminha.
Contudo, ao dar o título “As Meninas da Gare” (Gare é "estação de trem" em francês), Oswald ressignifica a
inocência das índias (não tinham vergonha nenhuma da nudez) nas prostitutas que ficam na estação de trem,
esperando os viajantes. As "meninas da Gare" não têm vergonha da nudez justamente porque estão ali para
vender o corpo, ao contrário das índias, quem nem sequer tinham ideia de que eram vistas pelos portugueses
como “corpos” para exploração.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
6
63
BARROCO OU GONGORISMO
O marco inicial do Barroco no Brasil foi a publicação do poema épico Prosopopéia, de Bento Teixeira, em
1601 e estende-se até o início do século XIII.
A partir de 1768, com a fundação da Arcádia Ultramarina e a publicação do livro Obras, de Cláudio Manoel
da Costa, fica marcada a decadência dos valores barrocos e a ascensão do Arcadismo.
Em um contexto histórico de contrarreforma, a Igreja tentava recuperar o espaço perdido para os
protestantes após a Reforma Luterana e reafirmar sua autoridade. O concílio de Trento, em 1545, condenou
o protestantismo e reafirmou fortemente os princípios católicos. A Inquisição estabelecida na Espanha a
partir de 1480 e em Portugal a partir de 1536, ameaçava a liberdade de pensamento, ao passo que a Igreja
organiza um projeto de disseminação católica pelas colônias europeias.
Como resultado dessa austeridade religiosa, a temática barroca é o conflito entre corpo e alma, o sagrado
e o profano, o espiritual e o material, o céu e a terra. O homem quer viver, quer ter prazeres, mas ao mesmo
tempo é pressionado pela fé e a culpa que implica. A antítese razão e fé vai ser a tônica desse movimento.
Como características dessa literatura, teremos:
rebuscamento;
virtuosismo;
metáforas, antíteses, paradoxos, hipérboles;
ornamentação excessiva
rigorosa linguagem culta (daí ser chamado de Cultismo).
Os principais expoentes da literatura barroca no Brasil são:
Gregório de Matos: Nascido na Bahia, Poeta lírico, satírico e filosófico. Escreveu poesia sacra, mas também
produziu obra criticando a igreja católica e a hipocrisia da sociedade brasileira, pelo que recebeu o apelido
de “Boca do Inferno”. É o expoente do cultismo, corrente estética do barroco em que predomina linguagem
difícil, rebuscada, cheia de inversões sintáticas, jogos de palavras e figuras de linguagem.
Padre Antônio Vieira: Sacerdote Jesuíta com enorme prestígio no Brasil e em Portugal, representou o
conceptismo (ou quevedismo), forma de expressão que organizava a análise dos temas por meio de lógica
formal, silogismos, tese, antítese e síntese.
"Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.
Essa razão me obriga a confiar
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar."
(Gregório de Matos)
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
7
63
Resumindo: na análise de uma poesia barroca, devemos sempre buscar um conflito entre o terreno e o
celestial, o efêmero e o eterno, materializado numa linguagem rebuscada, com raciocínios complexos e
paradoxais.
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2012)
(...) na questão de se o mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais
razão quem ri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava Heráclito, eu, para defender, como sou
obrigado, a parte do pranto, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que a primeira propriedade do
racional é o risível: e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, o pranto
é o uso da razão. (...)
Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os homens e um filósofo tão sábio, e se não só via este
mundo, mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria não deste nosso mundo, mas daqueles
seus mundos.
E com razão, porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. É certo,
porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo. Como, pois, se ria ou podia rir-se Demócrito do
mesmo mundo ou das mesmas coisas que via e chorava Heráclito? A mim, senhores, mo parece que
Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada um ao seu modo.
Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito ria sempre: logo não ria. A consequência parece difícil e
evidente. O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração, e cessando a novidade
ou a admiração, cessa também o riso; o como Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, o que
é ordinário e se vê sempre, não pode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre,
pois não havia matéria que motivasse oriso.
Padre Antônio Vieira. Sermão da sexagésima
Constitui proposta de reescrita coerente e gramaticalmente correta para o trecho “Confesso que a primeira
propriedade do racional é o risível: e digo que a maior impropriedade da razão é o riso” (R.4-6) a seguinte:
O que eu confesso é que a primeira propriedade do racional é o risível; e o que eu digo é que a maior
impropriedade da razão é o riso.
Comentários:
Observe que o texto é todo organizado num jogo de antíteses: rir x não rir, riso x pranto, racional x risível,
racional x irracional. Essas antíteses marcam o conflito entre o Padre, preso a sua fé, e o homem, com sua
razão e desejo. O Padre diz, o homem confessa.
A reescritura é perfeita e representa essa antítese: confessar que rir é a primeira propriedade de ser razoável
(voz do homem) e dizer que o riso é um defeito da razão. A única mudança foi o uso de um tipo diferente de
oração subordinada, de objetiva direta (confesso que a primeira propriedade do racional é o risível) para
predicativa, com verbo ligação (o "aquilo" que eu confesso É que a primeira propriedade do racional é o
risível). O mesmo foi feito na outra oração. Questão correta.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
8
63
==1365fc==
ARCADISMO OU NEOCLASSICISMO (1768-1836)
Em 1768, a Arcádia Ultramarina é fundada em Vila Rica e Cláudio Manuel da Costa publica Obras. Esse ano
então é considerado o marco inicial do Arcadismo.
As “Arcádias” eram uma espécie de “Sociedades Literárias” ou “Clube de intelectuais”, em que os autores
árcades se reuniam para intercâmbio cultural e leitura de poemas. Esses autores adotavam nomes de
pastores.
Como reação aos excessos do rebuscamento barroco, o arcadismo buscava a simplicidade das formas
clássicas. O subjetivismo da burguesia ascendente superava o problema religioso e passava-se a cultuar o
“bom selvagem”, de Rousseau, em oposição ao homem corrompido pela sociedade. Então, o homem deveria
buscar refúgio na natureza pura.
A burguesia atingiu uma posição de domínio no campo econômico e queria esse mesmo domínio no campo
político, inspirada por ideais iluministas e eventos como a Independência do Estados Unidos (1776). Surgiam
então ideias de combater o poder monárquico, que se manifestaram, no Brasil, como a Inconfidência
Mineira.
Então, como características principais desse movimento podemos destacar um resgate aos padrões clássicos
da Antiguidade e do Renascimento, a simplicidade, o bucolismo e a poesia pastoril. Enfim, havia uma
ideologia poética de culto à natureza, inspirada em lemas latinos como “fugere urbem” (fuga da cidade),
“inutilia truncat” (cortar os excessos do Barroco), “carpe diem” (aproveitar a vida, sem o remorso religioso
do Barroco).
O “fingimento poético” tipicamente associado ao Arcadismo deriva do fato de os autores escreverem sob
pseudônimos pastores, sobre refúgios na natureza, longe da cidade, mas todos moravam nos grandes
centros e viviam a vida de progresso que a sociedade cada vez mais urbanizada trazia (A vinda da família Real
e a chegada da Corte, em 1808, deram início a um processo de urbanização).
Como expoentes desse período temos:
Cláudio Manuel da Costa: poeta lírico e época, que imitava Camões. Seu pseudônimo era Glauceste Satúrnio.
Tomás Antônio Gonzaga: autor de "Marília de Dirceu" (seu pseudônimo pastoril era Dirceu). Também foi
autor (embora sem assumir autoria) das "Cartas Chilenas", em que criticava a Monarquia de forma indireta,
com poemas satíricos sobre o governante de Santiago do Chile (na verdade, Vila Rica).
"Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos ainda não está cortado;
Os Pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder de meu cajado." (Marília de Dirceu)
" Assim o nosso chefe não descansa
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
9
63
De fazer, Doroteu, no seu governo,
Asneiras sobre asneiras e, entre as muitas,
Que menos violentas nos parecem,
Pratica outras que excedem muito e muito
As raias dos humanos desconcertos." (Cartas Chilenas)
Durante o período do Arcadismo foram produzidas duas epopeias, "O uraguai", de Basílio da Gama e "O
Caramuru", de Frei Santa Rita Durão. Nessas epopeias, já temos a figura do índio, o que já indica uma
preparação temática para o Romantismo.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
10
63
==1365fc==
ROMANTISMO (1836-1881)
O Romantismo tem como marco inicial a publicação do livro de poesias românticas "Suspiros poéticos e
saudades".
Essa importante escola literária pode ser analisada em fases (prosa) e gerações (poesia). Essa divisão não é,
contudo, estanque, pois muitos autores continuaram amadurecendo e produzindo prosa e poesia (ou
ambos) durante os anos seguintes.
O Romantismo vai produzir uma literatura que reflete um estágio de organização da sociedade e de uma
tentativa de formação de uma “identidade nacional”. A nação acaba de ficar independente e precisa de
pilares nacionais fortes, como heróis e símbolos nacionais. A primeira geração romântica é marcada pela
exaltação da natureza, valorização de um passado histórico, criação do herói nacional da figura do índio,
também presentes o sentimentalismo e a religiosidade. Nesse contexto, os romances urbanos vão mostrar
uma “sociedade modelar”, ou seja, uma sociedade a ser imitada.
O indianismo na poesia
A primeira vertente dessa tentativa se apoiará em dois símbolos nacionais, fortemente idealizados: o índio,
habitante original da terra, e a natureza, patrimônio inigualável do Brasil.
O herói nacional tinha que ser o índio, pois o português representava o inimigo, o colonizador e o negro e o
estrangeiro eram escravos.
Como exemplo da poesia indianista, temos o poema "I Juca Pirama", de Gonçalves Dias.
I-JUCA PIRAMA
I-Juca Pirama significa "aquele que vai morrer" ou "aquele que é digno de ser morto".
Essa obra sintetiza o Indianismo de Gonçalves Dias e retrata, em uma concepção épico-dramática, a bravura
e a generosidade de tupis e timbiras. Nessa idealização, o índio é retratado como guerreiro nobre e valente.
Enredo: O índio tupi é prisioneiro dos timbiras e está para ser sacrificado, no ritual de antropofagia (engolir
o homem para absorver suas virtudes). Contudo, ele suplica pela liberdade, porque seu pai é velho e não há
quem cuide dele. O cacique timbira o liberta, pois entende que o tupi demonstrou fraqueza e não é “digno
de ser sacrificado”, pois não há virtude a ser absorvida.
Observe a descrição do cenário e dos personagens:
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos - cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos de altiva nação. (...)
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
11
63
Inicia-se entãoo ritual antropofágico. O jovem prisioneiro tupi, que vai ser devorado, resolve falar antes do
desenlace, e com "triste voz" narra a sua vida desventurada:
Em fundos vasos d'alvacenta argila
ferve o cauim.
Enchem-se as copas, o prazer começa,
reina o festim.
No momento seguinte, temos a fala do herói tupi, em métrica mais curta, no ritmo rápido da véspera do
sacrifício:
Meu canto de morte
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.
Nesse momento, o índio relembra o velho pai, cego e débil, vagando sozinho, sem amparo pela floresta e
argumenta por sua libertação:
Deixai-me viver! (...)
Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não choro;
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
12
63
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer.
Glossário:
Ignavo: preguiçoso
O chefe timbira o liberta, porque não quer "com carne vil enfraquecer os fortes". Ao voltar a sua aldeia, o
herói tupi é desprezado também pelo pai, por ter demonstrado fraqueza:
Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés. (...)
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és.
Essa cena ocorre de volta na aldeia timbira, pois o pai leva o filho para ser sacrificado.
Então, o índio tupi dá seu grito de guerra e parte para a luta com os timbiras, de tal forma que pai percebe
que o filho está lutando para manter a honra tupi, até que o chefe timbira manda seus guerreiros pararem,
pois o jovem inimigo lutava com tanta coragem que se mostrava digno novamente do ritual antropofágico.
Tamanha é a comoção pela honra do filho que o velho tupi exclama chorando de alegria:
"Este, sim, que é meu filho muito amado!"
Na temática indianista, Gonçalves Dias também tentou elaborar uma epopeia intitulada "Os Timbiras".
O projeto era grandioso e pretendia ser como uma “Ilíada brasileira, tropical”, com os índios substituindo os
heróis gregos, com abundantes e coloridas descrições da flora e da fauna. A narrativa não foi concluída nem
restaram partes expressivas do projeto.
A pátria também será idealizada no famoso poema, “Canção do Exílio”, obra tão relevante que foi resgatada
em gerações futuras e cujos versos figuram até em trecho do hino nacional. O poeta enumera os encantos
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
13
63
da terra e sua vontade de estar lá.
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(De Primeiros cantos (1847), Gonçalves Dias)
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
14
63
A repetição e o uso desse poema como sinal de um nacionalismo ufanista vão ser atacados no Modernismo,
em que a visão crítica do nacional passa a suplantar a idealização.
Indianismo na prosa
O Romantismo europeu foi marcado pelo medievalismo, não simplesmente representado por uma
valorização da Idade Média em oposição ao culto da Antiguidade greco-latina, mas como um resgate das
raízes nacionais.
Essa busca vai fazer florescer no Romantismo o “romance histórico”, como "Ivanhoé", de Walter Scott.
Cavaleiros medievais, duelos, damas inacessíveis, lealdade entre suseranos e vassalos, nobreza de caráter e
fé religiosa são clichés desse tipo de romance, que será também produzido no Brasil, com a substituição do
“cavaleiro medieval” europeu pelo índio.
José de Alencar e O Guarani
O romance indianista considerado mais relevante é "O Guarani "(1857), no qual se reproduz toda essa
estrutura temática do romance histórico dentro da mata brasileira.
Enredo: Peri é um índio com todas as virtudes do cavaleiro europeu: forte, leal, com a clara missão de servir
a uma dama, Ceci, sua mulher, e a um senhor, D. Antônio de Mariz, seu genro. Este vive em uma casa
senhorial, no meio da selva, descrita com elementos arquitetônicos de um castelo, com tapete, brasão, fosso,
ponte. Junto à casa vivem aventureiros que buscam no meio da selva riquezas, mas submetem-se à lei do
senhor castelão, que também possui um pequeno exército de ferozes indígenas para defesa da casa (o
“suseranato”).
Peri é um herói totalmente idealizado, perfeito, forte, disposto a tudo para agradar sua dama, inclusive
deixar sua posição de chefe-guerreiro em sua tribo para servi-la. Para se ter uma ideia, ele captura uma onça
e arranca uma palmeira do chão dispondo somente de sua força física.
Ao final, vestindo mais uma vez o figurino de cavaleiro medieval, ele defende a casa senhorial contra
selvagens inimigos, ou seja, luta contra outros índios para defender Ceci e D. Antonio de Mariz - novamente
realçando a característica idealizada de lealdade à dama e ao senhor.
O índio idealiza em Ceci a imagem de Nossa Senhora, o que mostra uma “romantização religiosa do índio”.
A linguagem de Peri, embora concisa e com alguma ingenuidade primitiva, não é fidedigna à fala indígena, o
que será muito criticado também por autores mais críticos da realidade nacional, como Graciliano Ramos.
Depois, José de Alencar aperfeiçoa seus romances indianistas com o lançamento de "Iracema", em 1865
(considerada sua melhor obra do gênero), e "Ubirajara" (1874).
Resumindo:
Na poesia, Gonçalves Dias valoriza a coragem do índio e a dignidade moral do ritual antropofágico e idealiza
a natureza como símbolo de nacionalidade.
Na prosa, José de Alencar traz um romance histórico em "O Guarani", enobrecendo as origens do Brasil. Em
"Iracema", trata do encontro e mistura entre índio e branco── o mameluco. E em "Ubirajara", trata da cultura
e das tradições indígenas, de forma mais específica.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
15
63
Na ausência de um passado glorioso, degrandes feitos e grandes guerras, o jovem Brasil tinha buscou nesses
elementos um pilar para sua identidade.
Segunda Geração do Romantismo (Geração do “mal do século”)
Com influência de poetas românticos europeus como Lord Byron e Musset, a Segunda Geração do
Romantismo recebeu o nome de "Geração do Mal do Século" por refletir uma temática impregnada de
egocentrismo, pessimismo, boemia autodestrututiva, depressão, tédio.
Seu tema principal é fuga da realidade, manifestada pela idealização da infância, das virgens intocáveis e
da exaltação da morte.
Os principais expoentes dessa geração foram os poetas Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira
Freire e Fagundes Varela.
É uma fase bastante voltada ao “individualismo”. Vejamos o poema:
Soneto
(...)
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
(Lira dos Vinte anos, Álvares de Azevedo)
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
16
63
==1365fc==
Terceira Geração do Romantismo (Geração Condoreira)
A Terceira Geração reflete as aspirações libertárias da segunda metade do reinado de D. Pedro II.
Essa geração recebeu influência forte da poesia de cunho político-social de Victor Hugo.
O Condor é o símbolo da liberdade adotado por esses escritores e dá nome a essa geração, cujo maior
expoente foi Castro Alves, autor que não se limitou a cultivar temas limitados ao “eu”, mas se interessou
também pela República, pelo abolicionismo, a pela igualdade e luta de classes. Sua poesia se imortalizou
pelo tema da escravidão.
Para Castro Alves, a solução para os problemas do Brasil era a República, o que pressupunha a derrocada da
Monarquia e sua instituição consagrada: o trabalho escravo.
Vejamos um trecho de “Navio Negreiro”, em que se descrevem os tormentos vividos pelos negros durante a
viagem da África até o Brasil:
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
17
63
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
Prosa Romântica (Romances Urbanos-Folhetins)
Após a Independência do Brasil, em 1822, o novo país precisava se adequar ao modelo moderno e urbano
de nações independentes da Europa e da América.
A noção de pátria precisava ser afirmada, com erradicação da imagem do português colonizador.
A ascensão burguesa com o ciclo da mineração dava condições de as famílias ricas enviarem os filhos
estudarem na Europa, de onde traziam um ideal de “sociedade modelar” a ser aplicado aqui. Essa sociedade
“ideal”, moldada pelos valores burgueses, vai ser descrita nos romances urbanos.
De 1823 a 1831, o Brasil vivia um período de insegurança política. Sofria com o autoritarismo de D. Pedro I,
que dissolveu a Assembleia Constituinte e outorgou uma Constituição. Em seguida, houve o Período
Regencial, com a maioridade antecipada de D. Pedro II.
Enfim, esse terreno era fértil para uma mentalidade contrária a tudo que viesse de Portugal e fortemente
voltada ao nacionalismo, no sentido de uma organização como “nação” independente e coesa. São palavras
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
18
63
de Gonçalves de Magalhães:
Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, tão mesquinha
foi ela que bem parece Ter sido dada por mãos avaras e pobres. No começo do século atual, com
as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil, novo aspecto apresenta a sua
literatura. Uma só idéia absorve todos os pensamentos, uma idéia até então desconhecida; é a
idéia da pátria; ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, liberdade,
instituições sociais, reformas políticas, todas as criações necessárias em uma nova Nação, tais
são os objetivos que ocupam as inteligências, que atraem a atenção de todos, e os únicos que ao
povo interessam.
Fatores como a chegada da imprensa, o liberalismo burguês, a formação de dois cursos universitários, a
literatura se torna mais acessível e surge um público leitor, formado por profissionais liberais, mulheres,
estudantes, aristocratas rurais. Esse público lia nos romances a descrição de uma sociedade “perfeita”, que
serviria de modelo à sociedade que aqui se organizava.
Romances como "A moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo; "Cinco Minutos", "A viuvinha", "Lucíola",
"Senhora" e "Diva", todos de José de Alencar, retratam a sociedade carioca do Segundo Reinado, os aspectos
negativos da vida urbana e os costumes da burguesia, como casamentos arranjados e intrigas de amor.
Destaca-se que esse retrato era idealizado e focado no ambiente das elites: o amor sempre vencia no final.
Esse tipo de história era publicado regularmente nos jornais (folhetins) e trazia tramas fáceis, envolventes,
que contribuíram para a formação de um fiel púbico leitor, influenciado então por aquele retrato da
sociedade e dos valores nele mostrado.
Em "Lucíola", Alencar traz uma protagonista cortesã, independente, rica, desejada por todos os homens da
cidade. Isso, em si mesmo, seria algum esboço de realismo e crítica social destoante das idealizações
românticas. Contudo, ao final, Lucíola se submete a um homem e protagoniza um final feliz, o que constitui
um clássico desfecho de romance romântico.
José de Alencar também se aventurou a escrever romances regionais, tentando mostrar o relacionamento
íntimo entre homem e ambiente. Em "O Sertanejo", o autor chega a retratar um pouco da realidade, pois
conhecia a região. Em "O Gaúcho", o desconhecimento da região Sul se reflete em um retrato pouco
fidedigno. Ambas as obras, além disso, trazem ainda personagens idealizados no molde do “bom selvagem”
de Rousseau.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
19
63
REALISMO / NATURALISMO
O Realismo é o estilo literário da segunda metade do século XIX e começa a ganhar destaque na França, com
a publicação de "Madame Bovary", de Gustave Flaubert, em 1857. Essaobra explorou de forma crua temas
considerados delicados pela sociedade da época, como o adultério feminino.
A tônica do Realismo brasileiro vai ser justamente esta: mostrar a sociedade de forma crua, sem véus.
Os grupos começam a pensar o Brasil de uma maneira mais crítica, pois diversos países tinham se tornado
independentes e aqui ainda havia o poder centralizado nas mãos de um Imperador.
Os ideais republicanos e abolicionistas estavam em plena voga. Com uma burguesia mais rica e mais letrada,
o pensamento era influenciado especialmente por correntes como:
Cientificismo: "tudo deve ser explicado pela ciência". Os dogmas religiosos foram desafiados, até como
extensão do ataque à Igreja como aliada da Monarquia.
Determinismo: "O homem é fruto do meio, do tempo e da raça". Não há escolha, não há arbítrio. Em
determinado meio, o homem fatalmente seguirá certo comportamento.
Evolucionismo: "O animal mais forte ou mais adaptado prevalece sobre os demais e evolui". Essa corrente se
contrapõe ao criacionismo pregado pela igreja.
A produção realista e naturalista brasileira vai ser marcada pela busca da verdade sensível, objetiva, não
idealizada, obtida pela observação.
Realismo no Brasil
O Realismo brasileiro começa em 1881, com a publicação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de
Machado de Assis, e de "O mulato", de Aluísio Azevedo.
A literatura realista vai se opor ao romantismo, não há finais felizes, amores que superam tudo. Há
casamentos por conveniência, adultério, corrupção e mentira no clero, preconceito de cor, redes políticas
de favorecimentos, desigualdade e covardia. O forte subjuga o fraco e o mais apto sobrevive
(evolucionismo).
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
20
63
Machado de Assis
Machado, embora enquadrado historicamente no cânone realista, não era totalmente fiel à visão
determinista ou às demais correntes intelectuais em voga.
Sua obra mostra que o homem é corrompido por natureza, não é a sociedade que o determina. Com uma
análise psicológica profunda, prova que a natureza humana é inerentemente egoísta e imoral, independente
da classe. Por isso, não foca nos grupos marginalizados, mas sim no dia a dia de famílias ricas, das elites.
O comportamento humano é muito mais produto de uma individualidade do que de um meio físico.
Sobre a “independência estética e temática de Machado”, observe a análise de Antônio Cândido:
“O que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação
com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica. Num momento em que Flaubert
sistematizara a teoria do 'romance que narra a si próprio', apagando o narrador atrás da
objetividade da narrativa; num momento em que Zola preconizava o inventário maciço da
realidade, (…) ele [Machado] cultivou livremente o elíptico, o incompleto, o fragmentário,
intervindo na narrativa com bisbilhotice saborosa”.
Então, é preciso ter cuidado para não “limitar” um escritor único e genial como Machado de Assis, pois a
teoria literária moderna revela que ele não escrevia preso a nenhuma “moda” filosófica ou estética.
Outra diferença é o narrador Machadiano, que não é só observador e onisciente, é “intruso”, invade a
narrativa, interrompe, dá opinião, faz digressões, enfim, não se limita a contar a história como mero
observador imparcial de um experimento social.
Sua crítica era sutil, não era crua. Evitava tomar posições extremas, manifestando-se por via da ironia,
intercalando trechos de crítica com trechos de humor, de modo que o dito fosse dito pelo não dito, fingindo
que era brincadeira. Também marca sua prosa o ceticismo, a sugestão de que as pessoas são como são,
sempre foram e sempre serão: não há esperança de mudança.
Esaú e Jacó (Monarquia x República):
Livro publicado em 1904, é ambientado no final da década de 1880, próximo à Proclamação da República
(1889), e reflete a oposição entre República e Monarquia, escravidão e trabalho assalariado, abertura política
e conservadorismo.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
21
63
Enredo: Pedro e Paulo são irmãos gêmeos e rivais. O primeiro é monarquista conservador e o segundo,
republicano liberal e representam, metaforicamente, as contradições políticas do final do século XIX.
A mãe dos dois, Natividade (nome que sugere ser ela o nativo, a mãe dos regimes), ouviu de uma advinha,
ainda durante a gravidez, que os irmãos seriam rivais para sempre. Eles são antagonistas políticos durante
toda a narrativa, até que, após a Proclamação da República, ambos viram deputados.
Pedro, monarquista, percebe então que outros monarquistas estão ocupando o poder na recém-formada
República. Então, fica apontada a contradição: não há diferença entre monarquistas e republicanos, são
apenas pessoas divididas em situacionistas e oposicionistas, com o objetivo último de ocupar o poder. Os
monarquistas não passaram a ser oposicionistas, apenas abraçaram o poder. Os republicanos que ficaram
de fora da divisão do novo poder passaram a se opor ao regime.
A personagem Flora, que amava os dois, sem distingui-los, representa a incapacidade de o Brasil ver
diferença verdadeira entre os dois regimes, pois, no fim das contas, essencialmente são apenas nomes. Essa
tese está fortemente sugerida no diálogo do Conselheiro Aires (autor, narrador e personagem ao mesmo
tempo) com o dono da padaria, conforme observado por Joelza Ester Domingues:
Tudo começa dias antes, quando “toda gente voltou da ilha com o baile na cabeça”, referindo-se
ao célebre Baile da Ilha Fiscal, ocorrido em 9 de novembro de 1889. Custódio, depois de muita
relutância, mandara pintar a tabuleta que levava o nome de sua loja na rua do Catete: Confeitaria
do Império. O pintor avisa então que “a tábua está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta
tinta (…) está rachada e comida de bichos”. A alusão à monarquia é óbvia: um regime velho,
decadente, comprometido e sem sustentação, que não suporta mais nem uma reforma, tem que
mudar tudo. Encomenda-se uma nova tabuleta, mas eis que ocorre o golpe da República.
Custódio manda um bilhete ao pintor com o seguinte recado: “Pare no d.” Não sabia se era melhor
concluir a pintura com a palavra Império ou República. O que se segue é uma narrativa carregada
de humor e ironia. A indecisão de Custódio quanto ao nome é sintomática de um país de muda
para manter tudo como está. Machado de Assis reduz a Proclamação da República a uma simples
troca de tabuletas, mudança só de nomes. República e Império se equivalem como rótulos de
fachada.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
22
63
Então, fica clara a visão cética de Machado de Assis sobre a dinâmica do poder e das relações sociais.
Naturalismo
O Naturalismo é uma corrente realista mais exacerbada, um desdobramento do Realismo com foco maior
nos pobres e nas pessoas marginalizadas, tratadas como produto invariável do meio (determinismo
acentuado).
Os personagens são objeto de análise biológica e patológica, tratados como “animais” na natureza, agindo
unicamente porinstinto. Como efeito, a linguagem reflete a informalidade dessas camadas e há clara
descrição de cenas de sexo, sempre com um ponto de vista fisiológico, patológico e animal.
Aluísio de Azevedo
Expoente do Naturalismo, destacou-se pela publicação de "O mulato", livro que desnudou o preconceito
racial ignorado pelo retrato romântico da sociedade.
Sua obra mais expressiva foi "O cortiço", em que as histórias dos personagens se definem por um animalismo
cru e o próprio cortiço é considerado como o protagonista.
Veja alguns exemplos da descrição animalesca (zoomorfismo) dos personagens:
Jerônimo:
Tinha uma força de touro que o fazia respeitado.
Firmo:
...ágil como um cabrito.
Era capoeira e oficial de torneiro. Onça enjaulada.
Lembrava um rato morrendo a pau.
Libório:
Saiu do seu buraco que nem jabuti quando vê chuva.
Era tão feroz naquela fome de cão sem dono.
Botelho:
Óculos redondos que lhe davam à cara expressão de abutre.
Deitaram a fugir que nem cães apedrejados.
...numa exalação forte de animais cansados.
Cortiço e seus habitantes:
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
23
63
O escândalo no cortiço assanhou a estalagem inteira, como um jato de água quente
num formigueiro.
Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas, fazendo compras.
Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo quente e sensual, que o embebedava
com o seu fartum de bestas no coito.
...uma coisa viva, uma geração, parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e
multiplicar-se como larvas no esterco.
Nunca via gente tão danada para parir! Pareciam ratas.
Sobre a tristeza de Marciana ao perder a filha:
Não pregou o olho durante toda noite, inquieta, ululando, como uma cadela a quem roubaram
o cachorrinho.
E cada verso que vinha de sua boca era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbado
de volúpia, enroscava-se todo ao violão, e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo,
ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais.
...doida de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de égua, bufando e relichando.
A bruxa:
Era extremamente feia, grossa, triste, olhos desvairados, dentes de cão.
Florinda, filha de Marciana:
Tinha olhos luxuriosos de macaca.
Piedade:
Uma vaca chamando ao longe.
Inquieta que nem um cão ao lado do dono.
Trabalhadores da pedreira:
...a respiração forte e tranquila de animal sadio, num feliz e pletórico resfolegar de besta
cansada.
Rita Baiana:
...feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.
Só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada.
Ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
24
63
==1365fc==
...como um cão que espera pelo dono.
Descrição do instinto:
Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e o
desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente o ninho exposto.
Como comprovação da tese evolucionista, o personagem João Romão, dono do cortiço, passa toda a
narrativa mentindo, enganando, roubando e mesmo assim, por entender como sobreviver e levar vantagem
na sociedade, consegue todos os seus objetivos ao final, impunemente.
Esse final também mostra uma ruptura com a idealização moral. No Realismo, pessoas desonestas não
sofrem castigos divinos ou punições didáticas.
Parnasianismo
A poesia parnasiana é contemporânea do Realismo, mas não tinha nenhum cunho social.
Pregava a "arte pela arte", o culto da forma, a objetividade, como reação ao sentimentalismo exacerbado
da poesia romântica.
O foco da poesia parnasiana é todo na construção, em métricas e rimas perfeitas, mesmo que o tema fosse
um objeto qualquer. O poeta trabalha a poesia como o trabalho e um artesão ou ourives. Veja no trecho de
“Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, principal poeta parnasiano brasileiro:
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito.
Assim procedo. Minha pena
Segue essa norma.
Por te servir, Deusa Serena,
Serena Forma.
O Parnasianismo, para efeito da formação da identidade nacional, não foi de grande contribuição. Esses
poetas vão ser atacados pelos modernistas radicais da Primeira Fase, justamente por fazerem uma arte
considerada "vazia" e de forte inspiração formal clássica (greco-latina).
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
25
63
Simbolismo
O Simbolismo, também contemporâneo do Realismo, busca uma nova forma de poesia, capaz de retratar o
mundo vago e etéreo dos sonhos e do subconsciente.
Tem como características a ênfase na sugestão, a expressão metafórica e simbólica, o espiritualismo, o
recurso da sinestesia (mistura de sensações). Opõe-se ao Realismo na medida em que não preza pela
objetividade, mas por um subjetivismo profundo, um mergulho nos sentimentos, na consciência, no cosmo
e no espírito. Perceba a subjetividade e o uso de sinestesias no poema de Cruz e Souza, maior expoente
brasileiro da poesia simbolista:
Mais claro e fino do que as finas pratas
o som da tua voz deliciava…
Na dolência velada das sonatas
como um perfume a tudo perfumava.
Era um som feito luz, eram volatas
em lânguida espiral que iluminava,
brancas sonoridades de cascatas…
Tanta harmonia melancolizava.
Filtros sutis de melodias, de ondas
de cantos volutuosos como rondas
de silfos leves, sensuais, lascivos…
Como que anseios invisíveis, mudos,
da brancura das sedas e veludos,
das virgindades, dos pudores vivos.
Na última fase do Modernismo, as obras vão novamente mergulhar no individualismo, nas profundezas do
inconsciente, na espiritualidade, no sentimento de "estar no mundo".
Cecília Meireles, por exemplo, da Segunda Fase do Modernismo brasileiro, vai escrever uma poesia de forte
inspiração simbolista. Isso nos mostra que escolas que são “combatidas” em movimentos posteriores de
renovação literária e acabam por serem resgatadas quando o movimento modernista já está consolidado e
não há mais motivo para tanta ruptura com o passado.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
26
63
PARNASIANISMO
A poesia parnasiana é contemporânea do Realismo, mas não tinha nenhum cunho social.
Pregava a "arte pela arte", o culto da forma, a objetividade, como reação ao sentimentalismo exacerbado
da poesia romântica.
O foco da poesia parnasiana é todo na construção, em métricas e rimas perfeitas, mesmo que o tema fosse
um objeto qualquer. O poeta trabalha a poesia como o trabalho e um artesão ou ourives. Veja no trecho de
“Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, principal poeta parnasiano brasileiro:
Quero que a estrofe cristalina,Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito.
Assim procedo. Minha pena
Segue essa norma.
Por te servir, Deusa Serena,
Serena Forma.
O Parnasianismo, para efeito da formação da identidade nacional, não foi de grande contribuição. Esses
poetas vão ser atacados pelos modernistas radicais da Primeira Fase, justamente por fazerem uma arte
considerada "vazia" e de forte inspiração formal clássica (greco-latina).
SIMBOLISMO
O Simbolismo, também contemporâneo do Realismo, busca uma nova forma de poesia, capaz de retratar o
mundo vago e etéreo dos sonhos e do subconsciente.
Tem como características a ênfase na sugestão, a expressão metafórica e simbólica, o espiritualismo, o
recurso da sinestesia (mistura de sensações). Opõe-se ao Realismo na medida em que não preza pela
objetividade, mas por um subjetivismo profundo, um mergulho nos sentimentos, na consciência, no cosmo
e no espírito. Perceba a subjetividade e o uso de sinestesias no poema de Cruz e Souza, maior expoente
brasileiro da poesia simbolista:
Mais claro e fino do que as finas pratas
o som da tua voz deliciava…
Na dolência velada das sonatas
como um perfume a tudo perfumava.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
27
63
Era um som feito luz, eram volatas
em lânguida espiral que iluminava,
brancas sonoridades de cascatas…
Tanta harmonia melancolizava.
Filtros sutis de melodias, de ondas
de cantos volutuosos como rondas
de silfos leves, sensuais, lascivos…
Como que anseios invisíveis, mudos,
da brancura das sedas e veludos,
das virgindades, dos pudores vivos.
Na última fase do Modernismo, as obras vão novamente mergulhar no individualismo, nas profundezas do
inconsciente, na espiritualidade, no sentimento de "estar no mundo".
Cecília Meireles, por exemplo, da Segunda Fase do Modernismo brasileiro, vai escrever uma poesia de forte
inspiração simbolista. Isso nos mostra que escolas que são “combatidas” em movimentos posteriores de
renovação literária e acabam por serem resgatadas quando o movimento modernista já está consolidado e
não há mais motivo para tanta ruptura com o passado.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
28
63
==1365fc==
PRÉ-MODERNISMO
O Pré-Modernismo não é uma escola literária, mas se refere ao período de coexistência de diversas escolas,
sem que houvesse predominância de uma estética única.
Conviviam escritores produzindo poesia parnasiana, romances românticos, realistas, regionalistas, em uma
vasta produção literária nos primeiros vinte anos do século XX.
São pontos em comum entre as principais obras desse período:
ruptura com o passado, ao culto da forma típica do Parnasianismo;
denúncia da realidade brasileira, em oposição ao retrato idealizado das obras românticas;
regionalismo e a formação de um painel de diversas regiões brasileiras, como o sertão, o interior
paulista, o subúrbio carioca, o Espírito Santo.
A visão crítica do nacionalismo foi objeto de diversas obras desse período, as quais comentaremos a seguir.
Tratemos comentários importantes sobre os autores mais cobrados na prova do CACD. Nas questões
comentadas veremos mais detalhes, com a profundidade necessária.
Euclides da Cunha e “Os Sertões”
Euclides da Cunha era engenheiro militar e tinha formação em Ciências Naturais. Fez profundos estudos
sobre a Amazônia e viajou muito pelo país, em virtude também de trabalhos como jornalista e engenheiro.
Publicado em 1902, "Os Sertões" relata a Campanha de Canudos, interior da Bahia, onde havia uma
comunidade rural, guiada por um líder religioso, Antônio Conselheiro. Dizia-se que ele era líder de um foco
antirrepublicano, um revoltoso monarquista, antagonista ferrenho do governo de Floriano Peixoto.
Foram feitas três expedições para “abafar” esse suposto movimento revolucionário subversivo, sem sucesso.
Na quarta expedição, Euclides da Cunha foi enviado como correspondente do Estado de São Paulo e
testemunhou os eventos.
Inicialmente, Euclides acreditou na versão oficial de que havia um foco monarquista em Canudos, conforme
percebemos em trecho do artigo "A nossa Vendéia", que Euclides publicou em O Estado de S. Paulo, em
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
29
63
1897, antes de ser enviado como correspondente ao local do conflito.
No texto, ele comparava Canudos à Vendéia, sublevação camponesa, monarquista e católica, ocorrida na
Revolução Francesa, de 1793 a 1795.
Contudo, ao chegar ao local, percebeu que o Antônio Conselheiro era apenas um líder religioso local, que
não reconhecia a autoridade de um governo por estar em uma região abandonada, separada da “civilização
litorânea” como se por séculos de diferença. Não havia consciência política na liderança do beato.
Veja o registro dessa revelação:
(Antônio Conselheiro) Pregava contra a República; é certo.
O antagonismo era inevitável. Era um derivativo à exacerbação mística; uma variante forçada ao
delírio religioso.
Mas não traduzia o mais pálido intuito político: o jagunço é tão inapto para apreender a forma
republicana como a monárquico-constitucional.
Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É espontaneamente adversário de ambas. Está na fase
evolutiva em que só é conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro.
Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos,
inopinadamente, ressurrecta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade
morta, galvanizada por um doudo.
(...)
Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada,
tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre,
arrebatados na caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no
âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimos;
respigando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de
outras nações, tornamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as
exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e
o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque
não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos...
Euclides da Cunha
Então começa a experiência que levará o autor a escrever "Os Sertões". A intenção inicial do autor era
escrever um tratado científico, um registro histórico das sub-raças sertanejas do Brasil, sob uma ótica
cientificista e determinista:
Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais
mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E fazêmo-lo porque a sua instabilidade de
complexos de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e
deplorável situação mental em que jazem, as tomam talvez efêmeras, destinadas a próximo
desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva
das correntes migratórias que começam a invadir profundamentea nossa terra.
Devido à sua formação em Engenharia e Ciências Naturais, a escrita de Euclides da Cunha vai ser técnica,
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
30
63
==1365fc==
erudita e permeada pelas correntes científicas que eram pilares de sua formação acadêmica. Porém, há
também momentos de intenção estética, que dá caráter literário ao suposto documento científico.
A obra está dividida em 3 partes:
A TERRA:
Corresponde a uma detalhada descrição da geologia, clima e relevo da região e é destaque nessa parte o
conhecimento técnico do autor.
O HOMEM:
Refere-se à descrição etnológica das raças e sub-raças, bem como da distinção entre gaúchos e jagunços.
Nessa parte, Euclides contrapõe a suposta desvantagem evolutiva do sertanejo a uma força de titã, quando
provocado:
O sertanejo é antes de tudo, um forte. Não tem raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A
sua aparência, entretanto, (...) revela o contrário. (...) É desengonçado, torto. (...) Reflete a
preguiça invencível, (...). Basta o aparecimento de qualquer incidente (...) transfigura-se (...)
reponta (...) um titã acobreado e potente (...) de força e agilidade extraordinária
A LUTA:
Apresenta o dia a dia do conflito, denunciado como um massacre, um ato de genocídio.
Veja o trecho que relata o fim do massacre, com a morte das últimas pessoas:
Canudos não se rendeu
Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao
esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5,
ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro
apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5
mil soldados. Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos
fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-
la vacilante e sem brilhos. Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de
uma perspectiva maior, a vertigem. . . Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a
narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos
próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos... E de que modo comentaríamos, com a só
fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os
prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos
entregara, confiante — e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da
nossa História? Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas,
5.200, cuidadosamente contadas.
A contribuição de Euclides da Cunha para a história e para literatura se entrecruzam nessa obra: a literatura
é mais fidedigna do que ciência e a obra científica se transfigurou em literatura, pelas descobertas humanas
e eventos comoventes experimentadas pelo autor.
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
31
63
A preocupação de Euclides de retratar a realidade regional, denunciando as relações de exploração, a
ausência do governo, a seca, o atraso e situação dos povos afastados do “desenvolvimento” das cidades, faz
desse autor um precursor da temática modernista.
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2010)
TEXTO V
1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiam deparavam com um estado social que ainda mais lhes
engravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda as aguarda, a mais imperfeita organização
do trabalho que ainda engenhou o egoísmo humano.
Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o
homem que trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e de todo em todo desamparado, uma viagem
difícil, em que os adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçados de parcelas fantásticas e de
preços inauditos, o transformam as mais das vezes em devedor para sempre insolvente.
13 A sua atividade, desde o primeiro golpe de machadinha, constringe-se para logo num círculo vicioso
inaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que se avoluma, ameaçadoramente,
acompanhando-lhe os esforços e as fadigas para saldá-la.
E vê-se completamente só na faina dolorosa. A exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,
impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho. Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais
lúgubres com esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vida inteira a mesma “estrada”, de
que ele é o único transeunte, trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto de partida. Nesta
empresa de Sísifo a rolar em vez de um bloco o seu próprio corpo – partindo, chegando e partindo – nas voltas
constritoras de um círculo demoníaco, no seu eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravada
por um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora para exercê-lo toda a vida, automaticamente, por
simples movimentos reflexos – se não o enrija uma sólida estrutura moral, vão-se-lhe, com a inteligência
atrofiada, todas as esperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade que o arrebataram àquele
lance, à ventura, em busca da fortuna.
Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e
coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (Coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-132 (com
adaptações).
TEXTO VI
Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foi rejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registro
grandíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao espírito modernista. Acrescente-se a isso sua
preocupação com o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante, ao tempo em que Mário 5 de
Andrade ameaçava todo mundo com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da fala brasileira.
No entanto, mal sabiam os modernistas que, em Euclides, contavam com um abridor de caminhos. As
numerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições de Os sertões, enquanto viveu, apontam para um
progressivo 10 abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendar seu próprio texto, a
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor - Letras/Português e Literatura da Língua Portuguesa) Conhecimentos Específicos
www.estrategiaconcursos.com.br
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
32
63
prosódia ia, aos poucos, sobrepujando a ortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do autor
ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, sua colocação de pronomes anterior.
Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a algumas das preocupações de 15 Euclides com os interiores
do país e com a repulsa à macaqueação europeia nos focos populacionais litorâneos. Partilharia igualmente
com ele a reflexão sobre a especificidade das condições históricas do país, na medida em que, já em Os
sertões, Euclides realizara um mapeamento de temas que se tornariam centrais na produção intelectual e
artística do século XX, ao analisar o negro, 20 o índio, os pobres, os sertanejos, a condição colonizada, a
religiosidade popular, as insurreições, o subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízes não só
o Modernismo,