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Aula 16 (Prof. Equipe
de Português) -
Exclusivamente PDF
SEDUC-RS (Professor -
Letras/Português e Literatura da Língua
Portuguesa) Conhecimentos Específicos
Autor:
Patrícia Cristina Biazao Manzato
Moises, Equipe Português
Estratégia Concursos, Felipe
Luccas
13 de Maio de 2024
39471799600 - Naldira Luiza Vieria
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
Aula 16 (Prof. Equipe de Português) - Exclusivamente PDF
Índice
..............................................................................................................................................................................................1) Noções Iniciais de Literatura 3
..............................................................................................................................................................................................2) Evolução das escolas literárias 4
..............................................................................................................................................................................................3) Quinhentismo 5
..............................................................................................................................................................................................4) Barroco 7
..............................................................................................................................................................................................5) Arcadismo 9
..............................................................................................................................................................................................6) Romantismo 11
..............................................................................................................................................................................................7) Realismo e Naturalismo 20
..............................................................................................................................................................................................8) Parnasianismo e Simbolismo 27
..............................................................................................................................................................................................9) Pré-modernismo 29
..............................................................................................................................................................................................10) Modernismo 34
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CONSIDERAÇÕES INICIAIS 
Olá, pessoal! 
Literatura é, segundo Antônio Cândido1, tudo aquilo que tem toque poético, ficcional ou dramático nos mais 
distintos níveis de uma sociedade, em todas as culturas, desde o folclore, a lenda, as anedotas e até as formas 
complexas de produção escritas das grandes civilizações. 
Nesta aula veremos as principais vertentes literárias no Brasil, seus principais autores e obras. Caso queira 
se aprofundar mais nesse tópico, sugiro a leitura das obras. 
Pessoal, muito carinho com esta aula! Ela lhes dará a base necessária para resolver as questões de Literatura 
de seu concurso. 
Vamos seguir! Nessa aula praticaremos com muitas questões comentadas! Estaremos prontos para tudo!!! 
 
CONHECIMENTOS DE LITERATURA 
A historiografia literária detalhada, mesmo não sendo oficialmente parte do edital, que prevê 
"Conhecimentos de literatura" é importante para resoluções de questões que versam tanto tópicos de 
escolas literárias quanto interpretação de textos que demandam um conhecimento mais aprofundado sobre 
Literatura. 
Assim, o conhecimento geral sobre as escolas literárias, suas propostas, principais e obras e autores ajuda 
muito a ter segurança e velocidade na análise dos textos. Por isso, vamos fazer um apanhado geral de 
literatura, com foco nos autores e temas favoritos da Banca, estatisticamente mapeados pelas questões 
anteriores. 
Algumas escolas literárias não serão aprofundadas aqui, pois são de pouca relevância para a temática da 
prova. 
Iniciaremos esse estudo com uma breve recapitulação gráfica da evolução cronológica das escolas literárias, 
que ajuda o candidato a traçar paralelos históricos. 
 
 
 
1 CÂNDIDO, Antônio. “Direitos Humanos e literatura”. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp. 
Rio de Janeiro: Brasiliense, 1989. 
Patrícia Cristina Biazao Manzato Moises, Equipe Português Estratégia Concursos, Felipe Luccas
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ESCOLAS LITERÁRIAS 
As escolas literárias estão relacionadas diretamente a movimentos literários que aconteceram ao longo da 
história. 
Esses movimentos ocorrem em virtude de inúmeros fatores, dentre eles, o estilo de escrita de uma 
determinada época, os movimentos sociais pelos quais o mundo passa e as estruturas socioeconômicas 
vigentes à época. 
Escolheu-se a nomenclatura "Escolas Literárias" para agregar movimentos similares em determinadas, a fim 
de tornar o estudo mais didático e claro. 
Destaco que é importante ter em mente que os movimentos literários ocorrem em associação com as 
manifestações políticas e sociais da época à qual pertenceram. Porém não devem ser limitados a uma 
expressão da época. 
Assim, a relação entre Literatura e construção da História é intrínseca. 
Evolução das Escolas Literárias 
Iniciamos com o quadro comparativo e evolutivo: 
 
 
 
As Escolas Literárias são manifestações que ocorreram em todo o mundo. Inicialmente na Europa, elas 
serviram de influência para outras partes, inclusive o Brasil. 
Sem adentrar as divergências conceituais e de entendimento de críticos literários, no Brasil, os movimentos 
literários iniciam após a descoberta do país, ainda no século XVI. Em alguns momentos convergem para os 
movimentos literários portugueses, em virtude da relação metrópole e colônia. 
A seguir trataremos das Escolas Literárias brasileiras. 
 
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QUINHENTISMO 
A literatura do “quinhentismo” não é extamente uma literatura “Brasileira”, mas uma literatura “no Brasil”. 
Constitui-se basicamente dos relatos de viajantes e jesuítas sobre as primeiras impressões da terra recém-
descoberta, a chamada “literatura de informação”. 
Não é considerado uma escola literária, pois sua finalidade era eminentemente documental (cartas, 
relatórios, mapas). Contudo, posteriormente os padres jesuítas passam a produzir uma “literatura de 
catequese”, que incluía sermões, peças, poemas, músicas. 
Como documento representativo da literatura de informação, temos a carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei 
de Portugal, Dom Manuel: 
Trecho 1 
 A pele deles é parda e um pouco avermelhada. Têm rostos e narizes bem feitos. Andam 
nus, sem cobertura alguma. Nem se preocupam em cobrir ou deixar de cobrir suas vergonhas 
mais do se que preocupariam em mostrar o rosto. E a esse respeito são bastante inocentes. 
Ambos traziam o lábio inferior furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma 
mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, fino na ponta como um furador. (…) 
 Os cabelos deles são lisos. E os usavam cortados e raspados até acima das orelhas. E um 
deles trazia como uma cabeleira feita de penasmas também o romance regionalista de 1930 e o nascimento das ciências sociais no país na 
década de 40 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram, evidentemente, exclusivas de 
Euclides, mas comuns às elites ilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao escrever Os 
sertões. 
Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia 
das Letras, 2009, p. 28-29 (com adaptações). 
Com referência às ideias e às estruturas linguísticas do texto V, assinale a opção correta. 
Depreende-se do texto que os sertanejos, desprotegidos, tornam-se devedores dos seus contratantes logo 
após terem iniciado o trabalho no seringal. 
Comentários: 
Euclides denuncia o esquema de servidão por dívida: já na viagem o sertanejo se torna devedor dos 
adiantamentos: 
Ele efetua, à sua custa e de todo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os adiantamentos feitos 
pelos contratadores insaciáveis, inçados de parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformam as mais 
das vezes em devedor para sempre insolvente. 
Essa prática ainda é muito comum no interior mais remoto do país, o que mostra o valor de atualidade da 
obra Euclidiana. Questão incorreta. 
 
 
 
 
 
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MODERNISMO 
O Modernismo é o movimento artístico, literário, artístico e social renovador que se inicia com a Semana de 
Arte Moderna, em 1922. Esse movimento é dividido basicamente em 3 Fases ou Gerações: 
 
Primeira Geração (Fase Heroica) 
Caracterizada pela ruptura radical, pela busca de uma linguagem coloquial e livre de amarras, sem rimas, 
sem métrica, sem regras gramaticais. 
Os ícones dessa fase são Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. 
 
Semana de Arte Moderna de 1922: 
Evento que reuniu diversos artistas e intelectuais brasileiros para divulgar as tendências artísticas inovadoras 
e propor uma ruptura com os moldes dominantes de fazer arte. 
As vanguardas europeias representavam uma nova visão do mundo e da arte e vários artistas brasileiros da 
época serviam delas como inspiração. Então, os brasileiros abraçam correntes como o Cubismo, o Futurismo, 
o Expressionismo, o Surrealismo e o Dadaísmo, pois representavam uma nova forma de interpretação do 
mundo. 
 
 
Veja a descrição do que representava a Semana de Arte Moderna, nas palavras do próprio Mário de 
Andrade, um dos principais ícones modernistas da Primeira Fase: 
Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes 
sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes 
o criador de um estado de espírito nacional. A transformação do mundo, com o enfraquecimento 
gradativo dos grandes impérios, com a prática européia de novos ideais políticos, a rapidez dos 
transportes e mil e uma outras causas internacionais, bem como desenvolvimento da consciência 
americana e brasileira, os progressos internos da técnica e da educação, impunham a criação de 
um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. Isso 
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foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo 
principal. (ANDRADE, MÁRIO: 1974) 
 
A agitação artística refletia um contexto histórico de grande transformação: os senhores rurais do café 
retornam ao poder, pelo grande desenvolvimento da economia cafeeira e pela queda dos governos militares 
dos primeiros anos de República. Houve também um forte surto de industrialização e urbanização, reflexo 
dos anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Surge então uma burguesia rica e influente, em busca de 
poder político. O país está dividido entre um bloco rural e outro urbano, este heterogêneo, formado por 
imigrantes europeus, comerciantes, profissionais liberais e militares. 
Então, o enorme fluxo de ideias era palco ideal para um evento que propusesse uma grande “destruição”, 
uma revolução artística, um movimento de ruptura com as velhas estruturas: 
Nós não sabíamos o que queríamos, mas sabíamos o que não queríamos (…) o nosso sentido era 
especificamente destruidor. 
Mário de Andrade 1922 
 
Após a Semana de 1922, os artistas da Primeira Fase modernista dão continuidade a seus projetos 
ideológicos de valorização do novo e do nacional, como os diversos manifestos nacionalistas: do "Pau-Brasil", 
da "Antropofagia", do "Verde-Amarelismo" e o da "Escola da Anta". 
Como reflexo desse projeto inovador, teremos características que indicam negação ao modo “tradicional” 
de se fazer arte. Vejamos em suma as principais características da Primeira Geração modernista: 
 Nacionalismo crítico e ufanista, manifestado em críticas à realidade brasileira e a uma busca do 
conhecimento da identidade nacional; 
 Valorização do cotidiano, da fala informal; 
 Resgate das raízes culturais brasileiras; 
 Renovação da linguagem, como forma de negação ao formalismo conservador do parnasianismo e 
do academicismo; 
 Experimentação estética, influenciada por vanguardas europeias, na tentativa de criar arte sem 
seguir paradigmas anteriores; 
 Ironia, sarcasmo e irreverência, também no âmbito da crítica social e artística; 
 Caráter anárquico e destruidor, como negação também ao governo; 
 Linguagem libertária, com abandono da métrica, versos sem rima e grafia coloquial das palavras. 
 
A palavra que resume a Primeira Fase é “transgressão”. 
 
"Antropofagia" é um ritual primitivo de “canibalismo”: devora-se o inimigo para obter suas forças. O quadro 
surrealista "O Abaporu", de Tarsila do Amaral, é símbolo do movimento Antropofágico, que propunha a 
deglutição das tendências europeias para absorção do que tinham de melhor, uma assimilação, mas sem 
cópia. 
O "Manifesto Antropofágico", publicado por Oswald de Andrade em 1928, trazia a seguinte proposta: 
 
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"Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. 
Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. 
De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E 
contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago." 
(trecho do manifesto) 
 
Principais manifestos da Primeira Fase: 
"Movimento Pau-Brasil": defendia o primitivismo e a inovação na poesia, em negação ao discurso poético 
retórico. 
 
"Movimento Verde-Amarelo/ Grupo da Anta": movimento radical, identificado com Cassiano Ricardo, 
Menotti del Picchia e Plínio Salgado. Constituiu-se como um grupo de preocupações artísticas patrióticas e 
ufanistas, propondo-se a uma contraposição ao Movimento Pau-Brasil. A anta era seu símbolo. 
 
"Movimento Antropofágico": liderado por Oswald de Andrade, aprofunda as proposições do Pau-Brasil, 
propondo uma língua literária “brasileira”, “não catequizada”. 
 
Houve ainda as Revistas Klaxon, veículo de informação geral dos artistas modernistas, no período 
subsequente àSemana de Arte Moderna, e a Antropofágica, ligada ao movimento homônimo. 
Vejamos agora alguns artistas e obras que se destacam na primeira fase e como essas obras refletiam a 
ideologia “destruidora” da Primeira Geração modernista: 
 
Manuel Bandeira: Embora já fosse mais velho e tivesse obra consolidada como poeta simbolista, Manuel 
Bandeira é um dos principais ícones da primeira fase do modernismo. 
Nova Poética 
“Vou lançar a teoria do poeta sórdido. 
Poeta sórdido: 
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida. 
Vai um sujeito, 
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina 
passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama: 
É a vida 
O poema deve ser como a nódoa no brim: 
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero. 
Sei que a poesia é também orvalho. 
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que 
envelheceram sem maldade.” 
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(Manuel Bandeira) 
 
Observem que o poema acima questiona a “forma de fazer poesia”, propondo uma temática que faça o leitor 
“sentir algo”, em oposição aos temas vazios da poesia parnasiana, por exemplo. Além disso, nota-se o uso 
de verbos brancos, sem rima e ausência de métrica. 
 
Os sapos 
Os Sapos 
Enfunando os papos, 
Saem da penumbra, 
Aos pulos, os sapos. 
A luz os deslumbra. 
 
Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi: 
- "Meu pai foi à guerra!" 
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". 
 
O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado, 
Diz: - "Meu cancioneiro 
É bem martelado. 
 
Vede como primo 
Em comer os hiatos! 
Que arte! E nunca rimo 
Os termos cognatos. 
 
O meu verso é bom 
Frumento sem joio. 
Faço rimas com 
Consoantes de apoio. 
 
Vai por cinquenta anos 
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Que lhes dei a norma: 
Reduzi sem danos 
A fôrmas a forma. 
 
Clame a saparia 
Em críticas céticas: 
Não há mais poesia, 
Mas há artes poéticas..." 
 
Urra o sapo-boi: 
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!" 
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". 
 
Brada em um assomo 
O sapo-tanoeiro: 
- A grande arte é como 
Lavor de joalheiro. 
 
Ou bem de estatuário. 
Tudo quanto é belo, 
Tudo quanto é vário, 
Canta no martelo". 
 
Outros, sapos-pipas 
(Um mal em si cabe), 
Falam pelas tripas, 
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". 
 
Longe dessa grita, 
Lá onde mais densa 
A noite infinita 
Veste a sombra imensa; 
 
Lá, fugido ao mundo, 
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Sem glória, sem fé, 
No perau profundo 
E solitário, é 
 
Que soluças tu, 
Transido de frio, 
Sapo-cururu 
Da beira do rio... 
(Manuel Bandeira) 
 
O poema acima, lido por Ronald de Carvalho na Semana de Arte Moderna, traz crítica aberta ao culto da 
forma que regia a obra parnasiana: "Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma/Reduzi sem danos A fôrmas 
a forma." 
 
Mário de Andrade: Principal mentor intelectual da Fase Heroica, era músico, professor, ensaísta, crítico 
literário e musical, poeta e romancista. 
Defendia uma “língua brasileira” e uma pesquisa profunda sobre “quem são de fato os brasileiros”. 
 
Em seu livro “turista aprendiz”, traz um diário das viagens que empreendeu pelo Brasil para conhecer 
verdadeiramente o povo, sua língua, seus hábitos, suas lendas, sua música, sua história e todos os elementos 
culturais que constituem a “identidade brasileira”. Veja alguns trechos de suas viagens de conhecimento: 
Belém, 1927 
Belém é a cidade principal da Polinésia. Mandaram vir u’a imigração de malaios e no vão das 
mangueiras nasceu Belém do Pará. Engraçado é que a gente a todo momento imagina que vive 
no Brasil mas é fantástica a sensação de estar no Cairo que se tem. Não posso atinar porque... 
Mangueiras, o Cairo não possui mangueiras evaporando das ruas. Não possui o sujeito passeando 
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com um porco-do-mato na correntinha... E nem aquele indivíduo que logo de-manhã pisou nos 
meus olhos, puxa comoção! inda com rabo de sobrecasaca abanando... 
Natal, 1929 
Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida. Chico Antônio apesar 
de orgulhoso: “Ai, Chico Antônio/ Quando canta/ Istremece/ Esse lugá!” Não sabe que vale uma 
dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa 
uma noite cantando sem parada. Já são 23 horas e desde as 19 que canta. Os cocos se sucedem 
tirados pela voz firme dele. Às vezes o coro não consegue responder na hora o refrão curto. Chico 
Antônio pega o fio da embolada, passa pitos no pessoal e “vira o coco”. 
Trechos de "O Turista Aprendiz" 
 
Mário era apaixonado por São Paulo e essa sua relação com a cidade já foi explorada na prova do CACD em 
mais de uma ocasião. Veja a declaração de amor de Mario de Andrade à cidade: 
Inspiração 
São Paulo! comoção de minha vida ... 
Os meus amores são flores feitas de original ... 
Arlequinal! ... Traje de losangos .... Cinza e ouro .... 
Luz e bruma ... Forno e inverno morno .... 
Elegâncias sutis sem escândalos , sem ciúmes ... 
Perfumes de Paris ... Aryz ! 
Bofetadas líricas no Trianon ... Algodoal !... 
São Paulo comoção de minha vida ! 
Galicismo a berrar nos desertos da América ! 
(Mário de Andrade, 1921) 
 
Macunaíma 
Em "Macunaíma, o herói sem nenhum caráter", Mário de Andrade sintetiza seu enorme conhecimento sobre 
a cultura brasileira. O livro traz um protagonista “anti-herói”, cheio de defeitos, malandro e preguiçoso, que 
nasceu negro, indígena, depois fica branco, pega uma canoa no rio Amazonas e sai em São Paulo. 
A obra é composta por uma narrativa fantástica, sem cronologia, sem amarras de tempo-espaço e escrita 
com uma linguagem libertária. Seu herói é, como ele declara, sem nenhum caráter, em uma clara oposição 
ao herói perfeito da literatura romântica, sempre espelhado no cavalheiro europeu, mesmo sendo 
protagonista de narração brasileira. 
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Vejamos a síntese de Antonio Candido e José Aderaldo Castello estampada no livro "Presença da Literatura 
Brasileira: Modernismo" (São Paulo: Bertrand Brasil, 1997, p. 112): 
Esta “rapsódia” (como era qualificada na primeira edição) conta as aventuras de Macunaíma, 
herói de uma tribo amazônica, que o autor misturou a outros, também indígenas, e que 
reinventou como personagem picaresca, sem cortar as suas ligações com o mundo lendário. 
Depois da morte da mulher (Ci, a Mãe do Mato,que se transforma na estrela Beta do Centauro), 
Macunaíma perde um amuleto que ela lhe dera, a “muiraquitã”. Sabendo que está nas mãos de 
um mascate peruano, Venceslau Pietro Pietra, morador em São Paulo, vem para esta cidade com 
os dois irmãos, Maanape e Jiguê. A maior parte do livro se passa durante as tentativas de reaver 
a pedra do comerciante, que era afinal de contas o gigante Piaimã, comedor de gente. 
Conseguido o propósito, Macunaíma volta para o Amazonas, onde, após uma série de aventuras 
finais, se transforma na constelação Ursa Maior. 
 
 
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2014) 
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Depreende-se das ideias do texto que a criação do slogan “São Paulo, a locomotiva puxando os vagões” foi 
motivada pela atitude bairrista da intelectualidade paulista, como demonstra o predicativo ‘diferentes 
mesmo’ (l.10) atribuído aos paulistas, para ressaltar-lhes a superioridade em relação à população dos outros 
estados brasileiros. 
Comentários: 
Diferente não é sinônimo de “superior”. O slogan reflete o fato de que São Paulo era um grande polo 
econômico e cultural e irradiava, de fato, as suas tendências para todo o Brasil. Mário amava São Paulo, mas 
tinha profundo interesse e respeito pelas outras regiões do Brasil, motivo pelo qual não se fundamenta no 
texto nenhuma “atitude bairrista”. Questão incorreta. 
 
 
 
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Segunda Geração (Fase de Consolidação - 1930-1945) 
Destacou-se pela prosa regionalista, retomando aspectos do Realismo, como a objetividade, mas inovando 
na linguagem com o registro fiel da fala das regiões. 
Os principais autores regionalistas são José Lins do Rego, Jorge Amado ("Capitães de Areia"), Rachel de 
Queiroz ("O quinze") e Graciliano Ramos ("Vidas Secas", "Caetés", "São Bernardo"). 
 
Romance Regionalista 
 
 
Graciliano Ramos e "Vidas Secas": 
Escritor e jornalista brasileiro enquadrado na Segunda Fase do Modernismo. Destacou-se por obras de 
temática regionalista, nas quais descrevia a realidade desigual de regiões distantes do país. Era um crítico 
forte não só dos românticos e realistas, mas até mesmo do radicalismo presente na própria geração inicial 
do Modernismo. Veja: 
“Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram 
linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E, querendo destruir tudo o que 
ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva.” 
 
Em “Vidas Secas”, de 1938, Graciliano Ramos retrata a realidade miserável de uma família de retirantes, que 
vivem em um movimento migratório cíclico, mudando sempre de região conforme a seca os alcançava. 
Nessa obra, destaca-se sua perfeição técnica como escritor, a descrição da realidade é “seca”, sem muitos 
adjetivos, como reflexo da própria esterilidade do ambiente retratado. O narrador em terceira pessoa utiliza 
o discurso indireto livre, como forma de mostrar os pensamentos dos personagens, que possuíam pouca 
articulação oral, especialmente Fabiano, protagonista de poucas palavras, rude, embrutecido pela seca. 
A contribuição desse livro para o conhecimento da realidade nacional é enorme, pois são denunciadas 
mazelas como a exploração dos retirantes, a miséria e o abandono nas regiões áridas do Brasil. 
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Em ponto de contato com a obra de Euclides da Cunha, "Vidas Secas" mostra um sertanejo forte, resiliente, 
que encontra forças para sobreviver e continuar a caminhada para um lugar melhor. 
Ao final, Fabiano estava preso a um regime de servidão por dívida e não conseguia pagar o ao patrão. Decidiu 
então fugir com a família em busca de melhores condições no Sul. 
 Vejamos os trechos finais da obra, nos quais podemos constatar o otimismo desolado dos retirantes e o 
pessimismo do narrador, ao insinuar que eles ficariam presos novamente: 
"Fabiano ouviu os sonhos da mulher, deslumbrado, relaxou os músculos, e o saco da comida 
escorregou-lhe no ombro. Aprumou-se, deu um puxão à carga. A conversa de Sinhá Vitória servira 
muito: haviam caminhado léguas quase sem sentir. De repente veio a fraqueza. Devia ser fome. 
Fabiano ergueu a cabeça, piscou os olhos por baixo da aba negra e queimada do chapéu de couro. 
Meio dia, pouco mais ou menos. Baixou os olhos encandeados, procurou descobrir na planície 
uma sombra ou sinal de água. Estava realmente com um buraco no estômago. Endireitou o saco 
de novo e, para conservá-lo em equilíbrio, andou pendido, um ombro alto, outro baixo. O 
otimismo de Sinhá Vitória já não lhe fazia mossa. Ela ainda se agarrava a fantasias. Coitada. 
Armar semelhantes planos, assim bamba, o peso do baú e da cabeça enterrando-lhe o pescoço 
no corpo. 
Foram descansar sob os garranchos de uma quixabeira, mastigaram punhados de farinha e 
pedaços de carne, beberam na cuia uns goles de água. Na testa de Fabiano o suor secava, 
misturando-se à poeira que enchia as rugas fundas, embebendo-se na correia do chapéu. A 
tontura desaparecera, o estômago sossegara. Quando partissem, a cabaça não envergaria o 
espinhaço de Sinhá Vitória. Instintivamente procurou no descampado indício de fonte. Um 
friozinho agudo arrepiou-o. Mostrou os dentes sujos num riso infantil. Como podia ter frio com 
semelhante calor? Ficou um instante assim besta, olhando os filhos, olhando os filhos, a mulher 
e a bagagem pesada. O menino mais velho esbrugava um osso com apetite. Fabiano lembrou-se 
da cachorra Baleia, outro arrepio correu-lhe a espinha, o riso besta esmoreceu. 
Se achassem água ali por perto, beberiam muito, sairiam cheios, arrastando os pés. Fabiano 
comunicou isto a Sinhá Vitória e indicou uma depressão do terreno. Era um bebedouro, não era? 
Sinhá Vitória estirou o beiço, indecisa, e Fabiano afirmou o que havia perguntado. Então ele não 
conhecia aquelas paragens? Estava a falar variedades? Se a mulher tivesse concordado, Fabiano 
arrefeceria, pois lhe faltava convicção; como Sinhá Vitória tinha dúvidas, Fabiano exaltava-se, 
procurava incutir-lhe coragem. Inventava o bebedouro, descrevia-o, mentia sem saber que estava 
mentindo. E Sinhá Vitória excitava-se, transmitia-lhe esperanças. Andavam por lugares 
conhecidos. Qual era o emprego de Fabiano? Tratar de bichos, explorar os arredores, no lombo 
de um cavalo. E ele explorava tudo. Para lá dos montes afastados havia outro mundo, um mundo 
temeroso; mas para cá, na planície, tinha de cor plantas e animais, buracos e pedras. 
E andavam para o Sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes Os 
meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se 
como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se 
temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão 
continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, 
como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos." 
(Graciliano Ramos - Vidas secas, pág. 130, 131,134) 
 
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A respeito da linguagem e do vocabulário empregados no texto anterior, julgue (C ou E) o item seguinte. 
No primeiro parágrafo, o emprego, em sentido figurado, do substantivo “calor” (l.4) e da forma verbal 
“morrem” (R.8) contribuiu para a expressividade da linguagem dos segmentos em que esses vocábulos se 
inserem. 
Comentários: 
As palavras ‘calor’ e ‘morrem’ foram utilizadas em sentido metafórico, com clara finalidade estilística. O 
“calor” da composição insinua que o processo de compor é intenso, sôfrego. As palavras “morrem” porque 
têm vida na composição literária. Esses recursos estilísticos são típicos da linguagem literária e dão 
expressividade ao que poderia ser dito de forma mais “seca”, sem elaboração. Questão correta. 
 
Carlos Drummond de Andrade 
Um dos principais poetas da Segunda Geração modernista, sua obra é marcada pela exploração de temas 
como a existência, o “estar no mundo”, o individualismo e as questões sociais. 
Sua escrita sempre se volta para um intimismo profundo, uma incerteza sobre o mundo, permeados por 
doses de sarcasmo e uma forma libertária de escrever (sem rigor formal). 
Seu poema “Legado” já foi cobrado em uma prova discursiva do CACD: 
LEGADO 
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Que lembrança darei ao país que me deu 
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti? 
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu 
Minha incerta medalha, e a meu nome se ri. 
E mereço esperar mais do que os outros, eu? 
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti. 
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu, 
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se. 
Não deixarei de mim nenhum canto radioso, 
uma voz matinal palpitando na bruma 
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho. 
De tudo quanto foi meu passo caprichoso 
na vida, restará, pois o resto se esfuma, 
uma pedra que havia em meio do caminho. 
Carlos Drummond de Andrade. Claro Enigma. Nova reunião. v. I. Rio de Janeiro: J. Olympio; 
Brasília: INL, 1983, p. 247. 
 
Um detalhe interessante sobre esse poema é o último verso: “uma pedra que havia no meio do caminho”. 
Ao substituir “havia” o que era no poema original “tinha”, fica sugerida a ideia da maturidade. O verso “no 
meio do caminho havia uma pedra”, sem métrica, repetitivo, com esse uso informal do “ter” como verbo 
existencial, representava o ideal modernista da poesia livre, sem amarras acadêmicas, métricas ou 
gramaticais. 
Ao pensar em seu “legado”, ou seja, do que deixa para o Brasil como poeta no final da vida, Drummond não 
precisa mais transgredir: pode usar o verbo formal, pois sua obra já é sólida e o momento da ruptura já 
passou. 
Esse detalhe é importante, pois na Terceira Geração modernista, os poetas vão retomar muito do que foi 
combatido e vão produzir com primor formal e acadêmico novamente, sem deixar de inovar em outros 
aspectos. 
 
Cecília Meireles 
Poetisa da Segunda Fase do Modernismo, tinha como características principais em sua poesia a temática 
intimista e a musicalidade. 
Em seu "Romanceiro da Inconfidência", usou o conhecimento acumulado em ampla pesquisa de documentos 
históricos para construir em versos um relato da sociedade mineira do século XVIII, bem como dos eventos 
da Inconfidência Mineira. 
A obra, com tom lírico e épico, também mostra interesse histórico e social na realidade brasileira, no sentido 
de oferecer um retrato “não oficial” de um movimento por liberdade. 
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==1365fc==
 
 
 
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Da leitura da quarta estrofe (v.35-50) depreende-se que a palavra liberdade é o fulcro vital da bandeira dos 
inconfidentes e representa a finalidade do engajamento político daquele grupo. 
Comentários: 
Sim. A liberdade era o lema dos inconfidentes, revoltosos mineiros que tinham como objetivo libertar o Brasil 
do domínio de Portugal e instalar uma república. Liberdade ainda que tardia é o famoso lema desse 
movimento (Libertas que sera tamen). Questão correta. 
 
Vinícius de Moraes 
Poeta muito consagrado, enquadrado na Segunda Geração modernista, destacou-se pela ligação com a 
cultura popular, embora também tenha obra de conteúdo social ("Operário em Construção"). 
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Vinícius de Moraes com Tom Jobim Vinícius de Moraes com João Cabral de Melo Neto em 1964 
 
O poeta incorporou o ideal modernista de quebra com os moldes em algumas obras, mas 
predominantemente prezava pelo apuro formal, sendo um especialista em sonetos. 
 
 
Poética I 
De manhã escureço 
De dia tardo 
De tarde anoiteço 
De noite ardo. 
 
A oeste a morte 
Contra quem vivo 
Do sul cativo 
O este é meu norte. 
 
Outros que contem 
Passo por passo: 
Eu morro ontem 
Nasço amanhã 
Ando onde há espaço: 
- Meu tempo é quando. 
 
Em “Minha Pátria” e “Operário em Construção”, temos um exemplo da obra mais social e nacionalista de 
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Vinícius: 
 
 
A minha pátria é como se não fosse, é íntima 
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo 
É minha pátria. Por isso, no exílio 
Assistindo dormir meu filho 
Choro de saudades de minha pátria. 
 
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: 
Não sei. De fato, não sei 
Como, por que e quando a minha pátria 
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água 
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa 
Em longas lágrimas amargas. 
 
Vontade de beijar os olhos de minha pátria 
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... 
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias 
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos 
E sem meias pátria minha 
Tão pobrinha! 
 
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho 
Pátria, eu semente que nasci do vento 
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço 
Em contato com a dor do tempo,eu elemento 
De ligação entre a ação o pensamento 
Eu fio invisível no espaço de todo adeus 
Eu, o sem Deus! 
 
Tenho-te no entanto em mim como um gemido 
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De flor; tenho-te como um amor morrido 
A quem se jurou; tenho-te como uma fé 
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito 
Nesta sala estrangeira com lareira 
E sem pé-direito. 
 
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra 
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra 
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu 
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz 
À espera de ver surgir a Cruz do Sul 
Que eu sabia, mas amanheceu... 
 
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha 
Amada, idolatrada, salve, salve! 
Que mais doce esperança acorrentada 
O não poder dizer-te: aguarda... 
Não tardo! 
 
Quero rever-te, pátria minha, e para 
Rever-te me esqueci de tudo 
Fui cego, estropiado, surdo, mudo 
Vi minha humilde morte cara a cara 
Rasguei poemas, mulheres, horizontes 
Fiquei simples, sem fontes. 
 
Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta 
Lábaro não; a minha pátria é desolação 
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta 
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular 
Que bebe nuvem, come terra 
E urina mar. 
 
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem 
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Uma quentura, um querer bem, um bem 
Um libertas quae sera tamem 
Que um dia traduzi num exame escrito: 
"Liberta que serás também" 
E repito! 
 
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa 
Que brinca em teus cabelos e te alisa 
Pátria minha, e perfuma o teu chão... 
Que vontade de adormecer-me 
Entre teus doces montes, pátria minha 
Atento à fome em tuas entranhas 
E ao batuque em teu coração. 
 
Não te direi o nome, pátria minha 
Teu nome é pátria amada, é patriazinha 
Não rima com mãe gentil 
Vives em mim como uma filha, que és 
Uma ilha de ternura: a Ilha 
Brasil, talvez. 
 
Agora chamarei a amiga cotovia 
E pedirei que peça ao rouxinol do dia 
Que peça ao sabiá 
Para levar-te presto este avigrama: 
"Pátria minha, saudades de quem te ama... 
Vinicius de Moraes." 
 
Trechos de “Operário em Construção”: 
Era ele que erguia casas 
Onde antes só havia chão. 
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as casas 
Que lhe brotavam da mão. 
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Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão: 
Não sabia, por exemplo 
Que a casa de um homem é um templo 
Um templo sem religião 
Como tampouco sabia 
Que a casa que ele fazia 
Sendo a sua liberdade 
Era a sua escravidão. 
 
De fato, como podia 
Um operário em construção 
Compreender por que um tijolo 
Valia mais do que um pão? 
Tijolos ele empilhava 
Com pá, cimento e esquadria 
Quanto ao pão, ele o comia... 
Mas fosse comer tijolo! 
E assim o operário ia 
Com suor e com cimento 
Erguendo uma casa aqui 
Adiante um apartamento 
Além uma igreja, à frente 
Um quartel e uma prisão: 
Prisão de que sofreria 
Não fosse, eventualmente 
Um operário em construção. 
 
Mas ele desconhecia 
Esse fato extraordinário: 
Que o operário faz a coisa 
E a coisa faz o operário. 
De forma que, certo dia 
À mesa, ao cortar o pão 
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O operário foi tomado 
De uma súbita emoção 
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa 
- Garrafa, prato, facão - 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão. 
 
 
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2010) 
Carta para Antonio Carlos Jobim 
Porto do Havre [França], 7 de setembro de 1964 
Tomzinho querido, 
1 Estou aqui num quarto de hotel que dá para uma praça que dá para toda a solidão do mundo. São dez 
horas da noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde, 4 e é impossível alguém estar mais 
triste do que eu. E, como sempre nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando. 
7 Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil, que é uma paixão 
permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, 
e eu sei que em nossa embaixada há uma festa que me cairia muito bem, com o Baden Powell mandando 
brasa no violão. Há pouco telefonei para lá, para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao 
telefone. Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem 
qualquer perspectiva? É fogo, maestro! 
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Vinicius de Moraes. Querido poeta. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, organização de Ruy Castro, p. 303-304 (com 
adaptações). 
Infere-se da carta de Vinicius de Moraes a Antonio Carlos Jobim que o poeta brasileiro, também diplomata, 
estava em missão profissional na cidade do Havre por ocasião de uma data nacional brasileira, embora 
manifestasse preferência por estar em outro lugar. 
Comentários: 
No trecho abaixo, percebemos que Vinícius está a caminho do Brasil, num porto, mas seu navio só sai no dia 
seguinte, “amanhã à tarde”: 
São dez horas da noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde, e é impossível alguém estar 
mais triste do que eu. E, como sempre nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando. 
Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil... 
Além disso, inferimos que não está em missão profissional, pois nem sequer está mais na embaixada, tanto 
que ligou para “lá”, de longe: 
A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa que 
me cairia muito bem, com o Baden Powell mandando brasa no violão. Há pouco telefonei para lá, para 
cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone. 
Então, não há nada no texto que comprove que ele está em missão por causa de uma data nacional brasileira. 
Além disso, esse “também” dá impressão de que alguém mais seria diplomata, ou que Tom Jobim seria 
diplomata, o que não é verdade. Questão incorreta. 
 
3ª Geração (Pós-Modernismo, 1945-1960) 
Chamada também de “pós-modernismo”, já não tinha o mesmo espírito “destruidor” da Primeira Fase. 
O momento histórico é o Pós-Guerra e a Guerra Fria e, no Brasil, vivia-se a redemocratização após os anos 
de Estado Novo (1937-1945).Como características gerais dessa fase, respeitando evidentemente a trajetória individual de alguns 
escritores, são: 
 Academicismo; 
 Retorno ao passado; 
 Oposição à liberdade formal, com valorização da forma (métrica, rima) e do academicismo; 
 Experimentações artísticas (ficção experimental, formas de narrar, poesia com elementos visuais); 
 Realismo fantástico, em contos fantásticos narrados com a objetividade e coerência das análises 
psicológicas realistas; 
 Inovações linguísticas e reflexão sobre o próprio fazer artístico (metalinguagem); 
 Regionalismo universal (com foco na universalidade do homem, não apenas da região); 
 Registro da fala regional oral; 
 Temas sociais. 
São grandes expoentes dessa geração, na prosa, Guimarães Rosa e Clarice Lispector e, na poesia, João Cabral 
de Melo Neto e Manoel de Barros. 
Escritores da Segunda Geração também continuaram produzindo, então não há enquadramentos totalmente 
estanques de algumas obras. 
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João Cabral de Melo Neto 
João Cabral de Melo Neto é enquadrado cronologicamente na Geração modernista de 1945, mas seguiu 
caminhos próprios que levam a teoria literária a tratá-lo de forma individual. 
Sua poesia é formalmente rigorosa e tem como temas principais a própria poesia (temática metalinguística), 
o Nordeste e a Espanha. 
Sua preocupação com a estética é clara, considerando-se um “arquiteto da palavra” ou “poeta-engenheiro”, 
no sentido de que o poema era uma criação técnica, fruto não da inspiração, mas da elaboração mental. Veja 
essa opinião manifestada em um poema metalinguístico de sua autoria: 
Catar feijão se limita com escrever: 
joga-se os grãos na água do alguidar 
e as palavras na folha de papel; 
e depois, joga-se fora o que boiar. 
Certo, toda palavra boiará no papel, 
água congelada, por chumbo seu verbo: 
pois para catar esse feijão, soprar nele, 
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 
Ora, nesse catar feijão entra um risco: 
o de que entre os grãos pesados entre 
um grão qualquer, pedra ou indigesto, 
um grão imastigável, de quebrar dente. 
Certo não, quando ao catar palavras: 
a pedra dá à frase seu grão mais vivo: 
obstrui a leitura fluviante, flutual, 
açula a atenção, isca-a como o risco. 
 
O poeta era diplomata e viveu na Espanha, experiência que foi tema recorrente em sua obra. Foi autor 
também de um importante trabalho de cunho regionalista: "Morte e Vida Severina", peça onde retrata a 
trajetória de um migrante que atravessa o sertão, o agreste, a zona da mata, a cidade litorânea, em busca 
da vida: o mar. 
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(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2010) 
TEXTO III: Pernambucano em Málaga 
1 A cana doce de Málaga 
dá domada, em cão ou gata: 
deixam-na perto, sem medo, 
4 quase vai dentro das casas. 
É cana que nunca morde, 
nem quando vê-se atacada: 
7 não leva pulgas no pelo 
nem, entre folhas, navalha. 
A cana doce de Málaga 
10 dá escorrida e cabisbaixa: 
naquele porte enfezado 
de crianças abandonadas. 
13 As folhas dela já nascem 
murchas de cor, como a palha: 
ou a farda murcha dos órfãos, 
16 desde novas, desbotadas. 
A cana doce de Málaga 
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não é mar, embora em praias, 
19 dá sempre em pequenas poças, 
restos de uma onda recuada. 
Em poças, não tem do mar 
22 a pulsação dele, nata: 
sim, o torpor surdo e lasso 
que se vê na água estagnada. 
25 A cana doce de Málaga 
dá dócil, disciplinada: 
dá em fundos de quintal 
28 e podia dar em jarras. 
Falta-lhe é a força da nossa, 
criada solta em ruas, praças: 
31 solta, à vontade do corpo, 
nas praças das grandes várzeas. 
João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra e outros poemas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 149-50. 
Com relação ao poema, julgue C ou E. 
O contraste entre a “cana de Málaga” e a “nossa” cana, explícito na última estrofe, é prenunciado pelo título 
do poema e pelas construções negativas usadas na caracterização da cana de Málaga. 
Comentários: 
A comparação entre a nossa cana e a cana de Málaga retoma a sugestão do título, em que se sugere um 
contraste entre algo de Pernambuco e algo da Espanha. A comparação mostra a inferioridade da cana 
estrangeira, que é murcha, desbotada, cabisbaixa: 
A cana doce de Málaga 
10 dá escorrida e cabisbaixa: 
naquele porte enfezado 
de crianças abandonadas. 
13 As folhas dela já nascem 
murchas de cor, como a palha: 
ou a farda murcha dos órfãos, 
16 desde novas, desbotadas. 
Portanto, temos resgate da sugestão do título e qualificação negativa na comparação. Questão correta. 
 
 
Clarice Lispector 
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Autora considerada canônica, respeitada pelo público e pela crítica literária, é o principal nome da literatura 
intimista brasileira moderna. 
Sua obra explora o “estar no mundo”, o mergulho psicológico, o romance introspectivo. Sua linguagem não 
é erudita, mas tem complexidade criativa, pois as palavras simples são revestidas de significados não óbvios, 
a sintaxe cria efeitos de ressignificação, de mensagens nas entrelinhas. 
Seus romances e contos exploram reflexões profundas de personagens, sobre temas aparentemente banais, 
narradas num fluxo espontâneo da consciência. Essas reflexões levam comumente as personagens a um 
momento de “epifania” ou “revelação”, em que percebem pela primeira vez grandes verdades sobre si 
mesmas. É um tema típico de sua obra a reflexão sobre o papel da mulher na família e na sociedade. 
Especialmente nesses temas, há sempre forte projeção da autora em sua narrativa, em um entrelaçamento 
entre personagem e escritor. 
Da mesma forma que Machado de Assis, Clarice Lispector tem alta incidência de cobrança nas provas do 
CACD. 
 
 
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2012) 
Nas narrativas que produziu nos últimos anos de sua vida, Clarice Lispector problematiza alguns mitos ou 
pressupostos literários. Segundo seus termos em Relatório da coisa, ela buscou “desmistificar a ficção”. O uso 
de certas estratégias que apagam o limite entre o autobiográfico e o ficcional revela um desejo de questionar 
a noção da ficção como espaço autônomo em relação à realidade exterior. Além disso, o gosto por certos 
modos de composição (a montagem e, em outros casos, a aproximação da escrita à estrutura casual de uma 
conversa) parece igualmente indicar esse intento de desmistificar a ficção. Para a autora, nos últimos anos, 
a escrita literária seria uma prática sem sentido (e, às vezes, até mesmo imoral) se fosse puramente estética, 
ou seja, se permanecesse presa a certos decoros literários. Vários textos de suas coletâneas dos anos 70 
produzem ou estão destinados a produzir um efeito de “mau gosto”, também descrito pela autora como um 
“susto de constrangimento”. 
Sônia Roncador. Poéticasdo empobrecimento: a escrita derradeira de Clarice. São Paulo: Annablume, 2002, p. 135-136 (com 
adaptações). 
Julgue o item a seguir. 
A expressão “decoros literários” (l.14) significa, no texto, o mesmo que aceitação de mitos e de pressupostos 
literários arcaicos que impedem o avanço no emprego de elementos estéticos. 
Comentários: 
Pela expressão “ou seja”, percebemos uma equivalência no texto: se fosse puramente estética, ou seja, se 
permanecesse presa a certos decoros literários. Então, o “decoro literário” indica uma finalidade 
estritamente estética da ficção, não o avanço no emprego de elementos estéticos. Questão incorreta. 
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Poesia Concreta 
A poesia concreta foi um movimento poético experimental surgida na década de 1950, que trabalhava com 
o texto em forma de imagem, não só na sua dimensão de palavra, mas na sua dimensão espacial, geométrica, 
explorando semanticamente a palavra como objeto visual e sonoro. 
Veja os exemplos: 
 
 
O Concretismo era uma vanguarda europeia, mas, no Brasil, foi fundado por Décio Pignatari, Haroldo de 
Campos e Augusto de Campos (ou "irmãos Campos"), grupo chamado de “Noigandres”. Posteriormente, 
produziram a revista literária que levava o nome do grupo. 
Publicados entre 1956 e 1958 por esses poetas paulistas, o "Manifesto da Poesia Concreta" e o "Plano Piloto 
da Poesia Concreta" apresentam a essência estética do movimento: 
 Poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas. dando por encerrado o ciclo 
histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta começa por tomar conhecimento 
do espaço gráfico como agente estrutural. espaço qualificado: estrutura espácio-temporal, em 
vez de desenvolvimento meramente temporístico-temporal, em vez de desenvolvimento 
meramente temporístico-linear. daí a importância da déia de ideograma, desde o seu sentido 
geral de sintaxe espacial ou visual, até o seu sentido específico. 
 
 
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2005) 
circum-lóquio (pur troppo non allegro) 
sobre o neoliberalismo terceiro-mundista 
 
1 o neoliberal 
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sonha um admirável 
mundo fixo 
4 de argentários e multinacionais 
terratenentes terrapotentes 
coronéis políticos 
7 milenaristas (cooptados) do 
perpétuo 
status quo: 
10 um mundo privé 
palácio de cristal 
à prova de balas: 
13 bunker blau 
durando para sempre – festa 
estática 
16 (ainda que sustente sobre 
fictas 
palafitas 
19 e estas sobre uma lata 
de lixo) 
Haroldo de Campos. Poema inédito. In: Folha de S. Paulo, 12/6/1998. 
Haroldo de Campos lançou, em 1956, o movimento nacional e internacional de Poesia Concreta. Julgue (C 
ou E) os itens a seguir, considerando o contexto histórico, cultural e temático do poema acima (texto VIII). 
O poeta, carioca que ainda vive em sua cidade natal, lançou o movimento concretista com o irmão Humberto. 
Comentários: 
Haroldo de Campos era paulista. Questão incorreta. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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63amarelas que lhe cobria toda a cabeça até a nuca 
(…). 
 Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, eles 
se tornaria, logo cristãos, visto que não aparentam ter nem conhecer crença alguma. Portanto, 
se os degredados que vão ficar aqui aprenderem bem a sua fala e só entenderem, não duvido que 
eles, de acordo com a santa intenção de Vossa Alteza, se tornem cristãos e passem a crer na nossa 
santa fé. Isso há de agradar a Nosso Senhor, porque certamente essa gente é boa e de bela 
simplicidade. E poderá ser facilmente impressa neles qualquer marca que lhes quiserem dar, já 
que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens. E creio que não foi 
sem razão o fato de Ele nos ter trazido até aqui. 
 
Trecho 2 
 Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta mais ao Sul até a outra ponta ao Norte, do 
que nós pudemos observar deste porto, é tão grande que deve ter bem ou vinte e cinco léguas de 
costa. Ao longo do mar, têm, em algumas partes, grandes barreiras, uma vermelhas e outras 
brancas; e a terra é toda chã e muito formosa. O sertão nos pareceu, visto do mar, muito grande; 
porque a estender os olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos – terra que nos parecia 
muito extensa. 
 Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; 
nem os vimos. Contudo, a terra em si é de bom clima, fresco e temperado, como os de Entre-
D’Ouro-E-Minho, nesta época do ano. As águas são muitas; infinitas. De tal maneira é graciosa 
que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem! 
Glossário 
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==1365fc==
Chã: plana 
Degredado: exilado 
Entre-D’Ouro-E-Minho: regiões litorâneas de Portugal 
Légua: representava para os portugueses, 5512 m. 
Sertão: refere-se ao interior das terras encontradas. 
 
Vários trechos dos documentos da literatura informativa do primeiro século do descobrimento vão ser 
retomados satiricamente por autores modernistas. 
 
 
AS MENINAS DA GARE - Oswald de Andrade 
Eram três ou quatro moças 
bem moças e bem gentis 
Com cabelos mui pretos pelas espáduas 
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas 
Que de nós as muito bem olharmos 
Não tínhamos nenhuma vergonha 
 
O trecho acima é literalmente transcrito de um trecho da carta de Pero Vaz de Caminha. 
Contudo, ao dar o título “As Meninas da Gare” (Gare é "estação de trem" em francês), Oswald ressignifica a 
inocência das índias (não tinham vergonha nenhuma da nudez) nas prostitutas que ficam na estação de trem, 
esperando os viajantes. As "meninas da Gare" não têm vergonha da nudez justamente porque estão ali para 
vender o corpo, ao contrário das índias, quem nem sequer tinham ideia de que eram vistas pelos portugueses 
como “corpos” para exploração. 
 
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BARROCO OU GONGORISMO 
O marco inicial do Barroco no Brasil foi a publicação do poema épico Prosopopéia, de Bento Teixeira, em 
1601 e estende-se até o início do século XIII. 
A partir de 1768, com a fundação da Arcádia Ultramarina e a publicação do livro Obras, de Cláudio Manoel 
da Costa, fica marcada a decadência dos valores barrocos e a ascensão do Arcadismo. 
Em um contexto histórico de contrarreforma, a Igreja tentava recuperar o espaço perdido para os 
protestantes após a Reforma Luterana e reafirmar sua autoridade. O concílio de Trento, em 1545, condenou 
o protestantismo e reafirmou fortemente os princípios católicos. A Inquisição estabelecida na Espanha a 
partir de 1480 e em Portugal a partir de 1536, ameaçava a liberdade de pensamento, ao passo que a Igreja 
organiza um projeto de disseminação católica pelas colônias europeias. 
Como resultado dessa austeridade religiosa, a temática barroca é o conflito entre corpo e alma, o sagrado 
e o profano, o espiritual e o material, o céu e a terra. O homem quer viver, quer ter prazeres, mas ao mesmo 
tempo é pressionado pela fé e a culpa que implica. A antítese razão e fé vai ser a tônica desse movimento. 
Como características dessa literatura, teremos: 
 rebuscamento; 
 virtuosismo; 
 metáforas, antíteses, paradoxos, hipérboles; 
 ornamentação excessiva 
 rigorosa linguagem culta (daí ser chamado de Cultismo). 
Os principais expoentes da literatura barroca no Brasil são: 
Gregório de Matos: Nascido na Bahia, Poeta lírico, satírico e filosófico. Escreveu poesia sacra, mas também 
produziu obra criticando a igreja católica e a hipocrisia da sociedade brasileira, pelo que recebeu o apelido 
de “Boca do Inferno”. É o expoente do cultismo, corrente estética do barroco em que predomina linguagem 
difícil, rebuscada, cheia de inversões sintáticas, jogos de palavras e figuras de linguagem. 
Padre Antônio Vieira: Sacerdote Jesuíta com enorme prestígio no Brasil e em Portugal, representou o 
conceptismo (ou quevedismo), forma de expressão que organizava a análise dos temas por meio de lógica 
formal, silogismos, tese, antítese e síntese. 
 
 
"Mui grande é o vosso amor e o meu delito; 
Porém pode ter fim todo o pecar, 
E não o vosso amor, que é infinito. 
Essa razão me obriga a confiar 
Que, por mais que pequei, neste conflito 
Espero em vosso amor de me salvar." 
(Gregório de Matos) 
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Resumindo: na análise de uma poesia barroca, devemos sempre buscar um conflito entre o terreno e o 
celestial, o efêmero e o eterno, materializado numa linguagem rebuscada, com raciocínios complexos e 
paradoxais. 
 
 
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2012) 
(...) na questão de se o mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais 
razão quem ri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava Heráclito, eu, para defender, como sou 
obrigado, a parte do pranto, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que a primeira propriedade do 
racional é o risível: e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, o pranto 
é o uso da razão. (...) 
Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os homens e um filósofo tão sábio, e se não só via este 
mundo, mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria não deste nosso mundo, mas daqueles 
seus mundos. 
E com razão, porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. É certo, 
porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo. Como, pois, se ria ou podia rir-se Demócrito do 
mesmo mundo ou das mesmas coisas que via e chorava Heráclito? A mim, senhores, mo parece que 
Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada um ao seu modo. 
Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito ria sempre: logo não ria. A consequência parece difícil e 
evidente. O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração, e cessando a novidade 
ou a admiração, cessa também o riso; o como Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, o que 
é ordinário e se vê sempre, não pode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, 
pois não havia matéria que motivasse oriso. 
Padre Antônio Vieira. Sermão da sexagésima 
Constitui proposta de reescrita coerente e gramaticalmente correta para o trecho “Confesso que a primeira 
propriedade do racional é o risível: e digo que a maior impropriedade da razão é o riso” (R.4-6) a seguinte: 
O que eu confesso é que a primeira propriedade do racional é o risível; e o que eu digo é que a maior 
impropriedade da razão é o riso. 
Comentários: 
Observe que o texto é todo organizado num jogo de antíteses: rir x não rir, riso x pranto, racional x risível, 
racional x irracional. Essas antíteses marcam o conflito entre o Padre, preso a sua fé, e o homem, com sua 
razão e desejo. O Padre diz, o homem confessa. 
A reescritura é perfeita e representa essa antítese: confessar que rir é a primeira propriedade de ser razoável 
(voz do homem) e dizer que o riso é um defeito da razão. A única mudança foi o uso de um tipo diferente de 
oração subordinada, de objetiva direta (confesso que a primeira propriedade do racional é o risível) para 
predicativa, com verbo ligação (o "aquilo" que eu confesso É que a primeira propriedade do racional é o 
risível). O mesmo foi feito na outra oração. Questão correta. 
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==1365fc==
ARCADISMO OU NEOCLASSICISMO (1768-1836) 
Em 1768, a Arcádia Ultramarina é fundada em Vila Rica e Cláudio Manuel da Costa publica Obras. Esse ano 
então é considerado o marco inicial do Arcadismo. 
As “Arcádias” eram uma espécie de “Sociedades Literárias” ou “Clube de intelectuais”, em que os autores 
árcades se reuniam para intercâmbio cultural e leitura de poemas. Esses autores adotavam nomes de 
pastores. 
Como reação aos excessos do rebuscamento barroco, o arcadismo buscava a simplicidade das formas 
clássicas. O subjetivismo da burguesia ascendente superava o problema religioso e passava-se a cultuar o 
“bom selvagem”, de Rousseau, em oposição ao homem corrompido pela sociedade. Então, o homem deveria 
buscar refúgio na natureza pura. 
A burguesia atingiu uma posição de domínio no campo econômico e queria esse mesmo domínio no campo 
político, inspirada por ideais iluministas e eventos como a Independência do Estados Unidos (1776). Surgiam 
então ideias de combater o poder monárquico, que se manifestaram, no Brasil, como a Inconfidência 
Mineira. 
Então, como características principais desse movimento podemos destacar um resgate aos padrões clássicos 
da Antiguidade e do Renascimento, a simplicidade, o bucolismo e a poesia pastoril. Enfim, havia uma 
ideologia poética de culto à natureza, inspirada em lemas latinos como “fugere urbem” (fuga da cidade), 
“inutilia truncat” (cortar os excessos do Barroco), “carpe diem” (aproveitar a vida, sem o remorso religioso 
do Barroco). 
O “fingimento poético” tipicamente associado ao Arcadismo deriva do fato de os autores escreverem sob 
pseudônimos pastores, sobre refúgios na natureza, longe da cidade, mas todos moravam nos grandes 
centros e viviam a vida de progresso que a sociedade cada vez mais urbanizada trazia (A vinda da família Real 
e a chegada da Corte, em 1808, deram início a um processo de urbanização). 
Como expoentes desse período temos: 
Cláudio Manuel da Costa: poeta lírico e época, que imitava Camões. Seu pseudônimo era Glauceste Satúrnio. 
Tomás Antônio Gonzaga: autor de "Marília de Dirceu" (seu pseudônimo pastoril era Dirceu). Também foi 
autor (embora sem assumir autoria) das "Cartas Chilenas", em que criticava a Monarquia de forma indireta, 
com poemas satíricos sobre o governante de Santiago do Chile (na verdade, Vila Rica). 
 
 
"Eu vi o meu semblante numa fonte, 
Dos anos ainda não está cortado; 
Os Pastores, que habitam este monte, 
Respeitam o poder de meu cajado." (Marília de Dirceu) 
 
" Assim o nosso chefe não descansa 
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De fazer, Doroteu, no seu governo, 
Asneiras sobre asneiras e, entre as muitas, 
Que menos violentas nos parecem, 
Pratica outras que excedem muito e muito 
As raias dos humanos desconcertos." (Cartas Chilenas) 
 
Durante o período do Arcadismo foram produzidas duas epopeias, "O uraguai", de Basílio da Gama e "O 
Caramuru", de Frei Santa Rita Durão. Nessas epopeias, já temos a figura do índio, o que já indica uma 
preparação temática para o Romantismo. 
 
 
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==1365fc==
ROMANTISMO (1836-1881) 
O Romantismo tem como marco inicial a publicação do livro de poesias românticas "Suspiros poéticos e 
saudades". 
Essa importante escola literária pode ser analisada em fases (prosa) e gerações (poesia). Essa divisão não é, 
contudo, estanque, pois muitos autores continuaram amadurecendo e produzindo prosa e poesia (ou 
ambos) durante os anos seguintes. 
O Romantismo vai produzir uma literatura que reflete um estágio de organização da sociedade e de uma 
tentativa de formação de uma “identidade nacional”. A nação acaba de ficar independente e precisa de 
pilares nacionais fortes, como heróis e símbolos nacionais. A primeira geração romântica é marcada pela 
exaltação da natureza, valorização de um passado histórico, criação do herói nacional da figura do índio, 
também presentes o sentimentalismo e a religiosidade. Nesse contexto, os romances urbanos vão mostrar 
uma “sociedade modelar”, ou seja, uma sociedade a ser imitada. 
 
O indianismo na poesia 
A primeira vertente dessa tentativa se apoiará em dois símbolos nacionais, fortemente idealizados: o índio, 
habitante original da terra, e a natureza, patrimônio inigualável do Brasil. 
O herói nacional tinha que ser o índio, pois o português representava o inimigo, o colonizador e o negro e o 
estrangeiro eram escravos. 
Como exemplo da poesia indianista, temos o poema "I Juca Pirama", de Gonçalves Dias. 
 
I-JUCA PIRAMA 
I-Juca Pirama significa "aquele que vai morrer" ou "aquele que é digno de ser morto". 
Essa obra sintetiza o Indianismo de Gonçalves Dias e retrata, em uma concepção épico-dramática, a bravura 
e a generosidade de tupis e timbiras. Nessa idealização, o índio é retratado como guerreiro nobre e valente. 
Enredo: O índio tupi é prisioneiro dos timbiras e está para ser sacrificado, no ritual de antropofagia (engolir 
o homem para absorver suas virtudes). Contudo, ele suplica pela liberdade, porque seu pai é velho e não há 
quem cuide dele. O cacique timbira o liberta, pois entende que o tupi demonstrou fraqueza e não é “digno 
de ser sacrificado”, pois não há virtude a ser absorvida. 
Observe a descrição do cenário e dos personagens: 
No meio das tabas de amenos verdores, 
Cercadas de troncos - cobertos de flores, 
Alteiam-se os tetos de altiva nação. (...) 
São todos Timbiras, guerreiros valentes! 
Seu nome lá voa na boca das gentes, 
Condão de prodígios, de glória e terror! 
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Inicia-se entãoo ritual antropofágico. O jovem prisioneiro tupi, que vai ser devorado, resolve falar antes do 
desenlace, e com "triste voz" narra a sua vida desventurada: 
Em fundos vasos d'alvacenta argila 
ferve o cauim. 
Enchem-se as copas, o prazer começa, 
reina o festim. 
 
No momento seguinte, temos a fala do herói tupi, em métrica mais curta, no ritmo rápido da véspera do 
sacrifício: 
Meu canto de morte 
Guerreiros, ouvi: 
Sou filho das selvas, 
Nas selvas cresci; 
Guerreiros, descendo 
Da tribo tupi 
 
Da tribo pujante, 
Que agora anda errante 
Por fado inconstante, 
Guerreiros, nasci: 
Sou bravo, sou forte, 
Sou filho do Norte; 
Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi. 
 
Nesse momento, o índio relembra o velho pai, cego e débil, vagando sozinho, sem amparo pela floresta e 
argumenta por sua libertação: 
Deixai-me viver! (...) 
Não vil, não ignavo, 
Mas forte, mas bravo, 
Serei vosso escravo: 
Aqui virei ter. 
Guerreiros, não choro; 
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Do pranto que choro; 
Se a vida deploro, 
Também sei morrer. 
Glossário: 
Ignavo: preguiçoso 
 
O chefe timbira o liberta, porque não quer "com carne vil enfraquecer os fortes". Ao voltar a sua aldeia, o 
herói tupi é desprezado também pelo pai, por ter demonstrado fraqueza: 
Tu choraste em presença da morte? 
Na presença de estranhos choraste? 
Não descende o cobarde do forte; 
Pois choraste, meu filho não és! 
Possas tu, descendente maldito 
De uma tribo de nobres guerreiros, 
Implorando cruéis forasteiros, 
Seres presa de vis Aimorés. (...) 
 
Sê maldito, e sozinho na terra; 
Pois que a tanta vileza chegaste, 
Que em presença da morte choraste, 
Tu, cobarde, meu filho não és. 
 
Essa cena ocorre de volta na aldeia timbira, pois o pai leva o filho para ser sacrificado. 
Então, o índio tupi dá seu grito de guerra e parte para a luta com os timbiras, de tal forma que pai percebe 
que o filho está lutando para manter a honra tupi, até que o chefe timbira manda seus guerreiros pararem, 
pois o jovem inimigo lutava com tanta coragem que se mostrava digno novamente do ritual antropofágico. 
Tamanha é a comoção pela honra do filho que o velho tupi exclama chorando de alegria: 
"Este, sim, que é meu filho muito amado!" 
 
Na temática indianista, Gonçalves Dias também tentou elaborar uma epopeia intitulada "Os Timbiras". 
O projeto era grandioso e pretendia ser como uma “Ilíada brasileira, tropical”, com os índios substituindo os 
heróis gregos, com abundantes e coloridas descrições da flora e da fauna. A narrativa não foi concluída nem 
restaram partes expressivas do projeto. 
A pátria também será idealizada no famoso poema, “Canção do Exílio”, obra tão relevante que foi resgatada 
em gerações futuras e cujos versos figuram até em trecho do hino nacional. O poeta enumera os encantos 
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da terra e sua vontade de estar lá. 
 
Canção do exílio 
 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá; 
As aves, que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá. 
 
Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores. 
 
Em cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
 
Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar sozinho, à noite 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
 
Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que disfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu'inda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
(De Primeiros cantos (1847), Gonçalves Dias) 
 
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A repetição e o uso desse poema como sinal de um nacionalismo ufanista vão ser atacados no Modernismo, 
em que a visão crítica do nacional passa a suplantar a idealização. 
 
Indianismo na prosa 
O Romantismo europeu foi marcado pelo medievalismo, não simplesmente representado por uma 
valorização da Idade Média em oposição ao culto da Antiguidade greco-latina, mas como um resgate das 
raízes nacionais. 
Essa busca vai fazer florescer no Romantismo o “romance histórico”, como "Ivanhoé", de Walter Scott. 
Cavaleiros medievais, duelos, damas inacessíveis, lealdade entre suseranos e vassalos, nobreza de caráter e 
fé religiosa são clichés desse tipo de romance, que será também produzido no Brasil, com a substituição do 
“cavaleiro medieval” europeu pelo índio. 
 
José de Alencar e O Guarani 
O romance indianista considerado mais relevante é "O Guarani "(1857), no qual se reproduz toda essa 
estrutura temática do romance histórico dentro da mata brasileira. 
Enredo: Peri é um índio com todas as virtudes do cavaleiro europeu: forte, leal, com a clara missão de servir 
a uma dama, Ceci, sua mulher, e a um senhor, D. Antônio de Mariz, seu genro. Este vive em uma casa 
senhorial, no meio da selva, descrita com elementos arquitetônicos de um castelo, com tapete, brasão, fosso, 
ponte. Junto à casa vivem aventureiros que buscam no meio da selva riquezas, mas submetem-se à lei do 
senhor castelão, que também possui um pequeno exército de ferozes indígenas para defesa da casa (o 
“suseranato”). 
Peri é um herói totalmente idealizado, perfeito, forte, disposto a tudo para agradar sua dama, inclusive 
deixar sua posição de chefe-guerreiro em sua tribo para servi-la. Para se ter uma ideia, ele captura uma onça 
e arranca uma palmeira do chão dispondo somente de sua força física. 
Ao final, vestindo mais uma vez o figurino de cavaleiro medieval, ele defende a casa senhorial contra 
selvagens inimigos, ou seja, luta contra outros índios para defender Ceci e D. Antonio de Mariz - novamente 
realçando a característica idealizada de lealdade à dama e ao senhor. 
O índio idealiza em Ceci a imagem de Nossa Senhora, o que mostra uma “romantização religiosa do índio”. 
A linguagem de Peri, embora concisa e com alguma ingenuidade primitiva, não é fidedigna à fala indígena, o 
que será muito criticado também por autores mais críticos da realidade nacional, como Graciliano Ramos. 
Depois, José de Alencar aperfeiçoa seus romances indianistas com o lançamento de "Iracema", em 1865 
(considerada sua melhor obra do gênero), e "Ubirajara" (1874). 
 
Resumindo: 
Na poesia, Gonçalves Dias valoriza a coragem do índio e a dignidade moral do ritual antropofágico e idealiza 
a natureza como símbolo de nacionalidade. 
Na prosa, José de Alencar traz um romance histórico em "O Guarani", enobrecendo as origens do Brasil. Em 
"Iracema", trata do encontro e mistura entre índio e branco── o mameluco. E em "Ubirajara", trata da cultura 
e das tradições indígenas, de forma mais específica. 
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Na ausência de um passado glorioso, degrandes feitos e grandes guerras, o jovem Brasil tinha buscou nesses 
elementos um pilar para sua identidade. 
 
 
Segunda Geração do Romantismo (Geração do “mal do século”) 
Com influência de poetas românticos europeus como Lord Byron e Musset, a Segunda Geração do 
Romantismo recebeu o nome de "Geração do Mal do Século" por refletir uma temática impregnada de 
egocentrismo, pessimismo, boemia autodestrututiva, depressão, tédio. 
Seu tema principal é fuga da realidade, manifestada pela idealização da infância, das virgens intocáveis e 
da exaltação da morte. 
Os principais expoentes dessa geração foram os poetas Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira 
Freire e Fagundes Varela. 
É uma fase bastante voltada ao “individualismo”. Vejamos o poema: 
 
 
Soneto 
(...) 
Morro, morro por ti! na minha aurora 
A dor do coração, a dor mais forte, 
A dor de um desengano me devora... 
 
Sem que última esperança me conforte, 
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora 
Morte no coração, nos olhos morte! 
(Lira dos Vinte anos, Álvares de Azevedo) 
 
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Terceira Geração do Romantismo (Geração Condoreira) 
A Terceira Geração reflete as aspirações libertárias da segunda metade do reinado de D. Pedro II. 
Essa geração recebeu influência forte da poesia de cunho político-social de Victor Hugo. 
O Condor é o símbolo da liberdade adotado por esses escritores e dá nome a essa geração, cujo maior 
expoente foi Castro Alves, autor que não se limitou a cultivar temas limitados ao “eu”, mas se interessou 
também pela República, pelo abolicionismo, a pela igualdade e luta de classes. Sua poesia se imortalizou 
pelo tema da escravidão. 
 
 
 
Para Castro Alves, a solução para os problemas do Brasil era a República, o que pressupunha a derrocada da 
Monarquia e sua instituição consagrada: o trabalho escravo. 
Vejamos um trecho de “Navio Negreiro”, em que se descrevem os tormentos vividos pelos negros durante a 
viagem da África até o Brasil: 
 
 
Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar... 
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Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 
 
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ... 
 
Prosa Romântica (Romances Urbanos-Folhetins) 
Após a Independência do Brasil, em 1822, o novo país precisava se adequar ao modelo moderno e urbano 
de nações independentes da Europa e da América. 
A noção de pátria precisava ser afirmada, com erradicação da imagem do português colonizador. 
A ascensão burguesa com o ciclo da mineração dava condições de as famílias ricas enviarem os filhos 
estudarem na Europa, de onde traziam um ideal de “sociedade modelar” a ser aplicado aqui. Essa sociedade 
“ideal”, moldada pelos valores burgueses, vai ser descrita nos romances urbanos. 
De 1823 a 1831, o Brasil vivia um período de insegurança política. Sofria com o autoritarismo de D. Pedro I, 
que dissolveu a Assembleia Constituinte e outorgou uma Constituição. Em seguida, houve o Período 
Regencial, com a maioridade antecipada de D. Pedro II. 
Enfim, esse terreno era fértil para uma mentalidade contrária a tudo que viesse de Portugal e fortemente 
voltada ao nacionalismo, no sentido de uma organização como “nação” independente e coesa. São palavras 
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de Gonçalves de Magalhães: 
Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, tão mesquinha 
foi ela que bem parece Ter sido dada por mãos avaras e pobres. No começo do século atual, com 
as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil, novo aspecto apresenta a sua 
literatura. Uma só idéia absorve todos os pensamentos, uma idéia até então desconhecida; é a 
idéia da pátria; ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, liberdade, 
instituições sociais, reformas políticas, todas as criações necessárias em uma nova Nação, tais 
são os objetivos que ocupam as inteligências, que atraem a atenção de todos, e os únicos que ao 
povo interessam. 
 
Fatores como a chegada da imprensa, o liberalismo burguês, a formação de dois cursos universitários, a 
literatura se torna mais acessível e surge um público leitor, formado por profissionais liberais, mulheres, 
estudantes, aristocratas rurais. Esse público lia nos romances a descrição de uma sociedade “perfeita”, que 
serviria de modelo à sociedade que aqui se organizava. 
Romances como "A moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo; "Cinco Minutos", "A viuvinha", "Lucíola", 
"Senhora" e "Diva", todos de José de Alencar, retratam a sociedade carioca do Segundo Reinado, os aspectos 
negativos da vida urbana e os costumes da burguesia, como casamentos arranjados e intrigas de amor. 
Destaca-se que esse retrato era idealizado e focado no ambiente das elites: o amor sempre vencia no final. 
Esse tipo de história era publicado regularmente nos jornais (folhetins) e trazia tramas fáceis, envolventes, 
que contribuíram para a formação de um fiel púbico leitor, influenciado então por aquele retrato da 
sociedade e dos valores nele mostrado. 
Em "Lucíola", Alencar traz uma protagonista cortesã, independente, rica, desejada por todos os homens da 
cidade. Isso, em si mesmo, seria algum esboço de realismo e crítica social destoante das idealizações 
românticas. Contudo, ao final, Lucíola se submete a um homem e protagoniza um final feliz, o que constitui 
um clássico desfecho de romance romântico. 
José de Alencar também se aventurou a escrever romances regionais, tentando mostrar o relacionamento 
íntimo entre homem e ambiente. Em "O Sertanejo", o autor chega a retratar um pouco da realidade, pois 
conhecia a região. Em "O Gaúcho", o desconhecimento da região Sul se reflete em um retrato pouco 
fidedigno. Ambas as obras, além disso, trazem ainda personagens idealizados no molde do “bom selvagem” 
de Rousseau. 
 
 
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REALISMO / NATURALISMO 
O Realismo é o estilo literário da segunda metade do século XIX e começa a ganhar destaque na França, com 
a publicação de "Madame Bovary", de Gustave Flaubert, em 1857. Essaobra explorou de forma crua temas 
considerados delicados pela sociedade da época, como o adultério feminino. 
A tônica do Realismo brasileiro vai ser justamente esta: mostrar a sociedade de forma crua, sem véus. 
 
 
Os grupos começam a pensar o Brasil de uma maneira mais crítica, pois diversos países tinham se tornado 
independentes e aqui ainda havia o poder centralizado nas mãos de um Imperador. 
Os ideais republicanos e abolicionistas estavam em plena voga. Com uma burguesia mais rica e mais letrada, 
o pensamento era influenciado especialmente por correntes como: 
Cientificismo: "tudo deve ser explicado pela ciência". Os dogmas religiosos foram desafiados, até como 
extensão do ataque à Igreja como aliada da Monarquia. 
Determinismo: "O homem é fruto do meio, do tempo e da raça". Não há escolha, não há arbítrio. Em 
determinado meio, o homem fatalmente seguirá certo comportamento. 
Evolucionismo: "O animal mais forte ou mais adaptado prevalece sobre os demais e evolui". Essa corrente se 
contrapõe ao criacionismo pregado pela igreja. 
A produção realista e naturalista brasileira vai ser marcada pela busca da verdade sensível, objetiva, não 
idealizada, obtida pela observação. 
 
Realismo no Brasil 
O Realismo brasileiro começa em 1881, com a publicação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de 
Machado de Assis, e de "O mulato", de Aluísio Azevedo. 
A literatura realista vai se opor ao romantismo, não há finais felizes, amores que superam tudo. Há 
casamentos por conveniência, adultério, corrupção e mentira no clero, preconceito de cor, redes políticas 
de favorecimentos, desigualdade e covardia. O forte subjuga o fraco e o mais apto sobrevive 
(evolucionismo). 
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Machado de Assis 
Machado, embora enquadrado historicamente no cânone realista, não era totalmente fiel à visão 
determinista ou às demais correntes intelectuais em voga. 
Sua obra mostra que o homem é corrompido por natureza, não é a sociedade que o determina. Com uma 
análise psicológica profunda, prova que a natureza humana é inerentemente egoísta e imoral, independente 
da classe. Por isso, não foca nos grupos marginalizados, mas sim no dia a dia de famílias ricas, das elites. 
O comportamento humano é muito mais produto de uma individualidade do que de um meio físico. 
Sobre a “independência estética e temática de Machado”, observe a análise de Antônio Cândido: 
“O que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação 
com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica. Num momento em que Flaubert 
sistematizara a teoria do 'romance que narra a si próprio', apagando o narrador atrás da 
objetividade da narrativa; num momento em que Zola preconizava o inventário maciço da 
realidade, (…) ele [Machado] cultivou livremente o elíptico, o incompleto, o fragmentário, 
intervindo na narrativa com bisbilhotice saborosa”. 
 
Então, é preciso ter cuidado para não “limitar” um escritor único e genial como Machado de Assis, pois a 
teoria literária moderna revela que ele não escrevia preso a nenhuma “moda” filosófica ou estética. 
Outra diferença é o narrador Machadiano, que não é só observador e onisciente, é “intruso”, invade a 
narrativa, interrompe, dá opinião, faz digressões, enfim, não se limita a contar a história como mero 
observador imparcial de um experimento social. 
Sua crítica era sutil, não era crua. Evitava tomar posições extremas, manifestando-se por via da ironia, 
intercalando trechos de crítica com trechos de humor, de modo que o dito fosse dito pelo não dito, fingindo 
que era brincadeira. Também marca sua prosa o ceticismo, a sugestão de que as pessoas são como são, 
sempre foram e sempre serão: não há esperança de mudança. 
 
 
Esaú e Jacó (Monarquia x República): 
Livro publicado em 1904, é ambientado no final da década de 1880, próximo à Proclamação da República 
(1889), e reflete a oposição entre República e Monarquia, escravidão e trabalho assalariado, abertura política 
e conservadorismo. 
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Enredo: Pedro e Paulo são irmãos gêmeos e rivais. O primeiro é monarquista conservador e o segundo, 
republicano liberal e representam, metaforicamente, as contradições políticas do final do século XIX. 
A mãe dos dois, Natividade (nome que sugere ser ela o nativo, a mãe dos regimes), ouviu de uma advinha, 
ainda durante a gravidez, que os irmãos seriam rivais para sempre. Eles são antagonistas políticos durante 
toda a narrativa, até que, após a Proclamação da República, ambos viram deputados. 
Pedro, monarquista, percebe então que outros monarquistas estão ocupando o poder na recém-formada 
República. Então, fica apontada a contradição: não há diferença entre monarquistas e republicanos, são 
apenas pessoas divididas em situacionistas e oposicionistas, com o objetivo último de ocupar o poder. Os 
monarquistas não passaram a ser oposicionistas, apenas abraçaram o poder. Os republicanos que ficaram 
de fora da divisão do novo poder passaram a se opor ao regime. 
A personagem Flora, que amava os dois, sem distingui-los, representa a incapacidade de o Brasil ver 
diferença verdadeira entre os dois regimes, pois, no fim das contas, essencialmente são apenas nomes. Essa 
tese está fortemente sugerida no diálogo do Conselheiro Aires (autor, narrador e personagem ao mesmo 
tempo) com o dono da padaria, conforme observado por Joelza Ester Domingues: 
Tudo começa dias antes, quando “toda gente voltou da ilha com o baile na cabeça”, referindo-se 
ao célebre Baile da Ilha Fiscal, ocorrido em 9 de novembro de 1889. Custódio, depois de muita 
relutância, mandara pintar a tabuleta que levava o nome de sua loja na rua do Catete: Confeitaria 
do Império. O pintor avisa então que “a tábua está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta 
tinta (…) está rachada e comida de bichos”. A alusão à monarquia é óbvia: um regime velho, 
decadente, comprometido e sem sustentação, que não suporta mais nem uma reforma, tem que 
mudar tudo. Encomenda-se uma nova tabuleta, mas eis que ocorre o golpe da República. 
Custódio manda um bilhete ao pintor com o seguinte recado: “Pare no d.” Não sabia se era melhor 
concluir a pintura com a palavra Império ou República. O que se segue é uma narrativa carregada 
de humor e ironia. A indecisão de Custódio quanto ao nome é sintomática de um país de muda 
para manter tudo como está. Machado de Assis reduz a Proclamação da República a uma simples 
troca de tabuletas, mudança só de nomes. República e Império se equivalem como rótulos de 
fachada. 
 
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Então, fica clara a visão cética de Machado de Assis sobre a dinâmica do poder e das relações sociais. 
 
Naturalismo 
O Naturalismo é uma corrente realista mais exacerbada, um desdobramento do Realismo com foco maior 
nos pobres e nas pessoas marginalizadas, tratadas como produto invariável do meio (determinismo 
acentuado). 
Os personagens são objeto de análise biológica e patológica, tratados como “animais” na natureza, agindo 
unicamente porinstinto. Como efeito, a linguagem reflete a informalidade dessas camadas e há clara 
descrição de cenas de sexo, sempre com um ponto de vista fisiológico, patológico e animal. 
 
Aluísio de Azevedo 
Expoente do Naturalismo, destacou-se pela publicação de "O mulato", livro que desnudou o preconceito 
racial ignorado pelo retrato romântico da sociedade. 
Sua obra mais expressiva foi "O cortiço", em que as histórias dos personagens se definem por um animalismo 
cru e o próprio cortiço é considerado como o protagonista. 
Veja alguns exemplos da descrição animalesca (zoomorfismo) dos personagens: 
Jerônimo: 
Tinha uma força de touro que o fazia respeitado. 
 
Firmo: 
...ágil como um cabrito. 
Era capoeira e oficial de torneiro. Onça enjaulada. 
Lembrava um rato morrendo a pau. 
 
Libório: 
Saiu do seu buraco que nem jabuti quando vê chuva. 
Era tão feroz naquela fome de cão sem dono. 
 
Botelho: 
Óculos redondos que lhe davam à cara expressão de abutre. 
Deitaram a fugir que nem cães apedrejados. 
...numa exalação forte de animais cansados. 
 
Cortiço e seus habitantes: 
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O escândalo no cortiço assanhou a estalagem inteira, como um jato de água quente 
num formigueiro. 
Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas, fazendo compras. 
Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo quente e sensual, que o embebedava 
com o seu fartum de bestas no coito. 
...uma coisa viva, uma geração, parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e 
multiplicar-se como larvas no esterco. 
Nunca via gente tão danada para parir! Pareciam ratas. 
 
Sobre a tristeza de Marciana ao perder a filha: 
Não pregou o olho durante toda noite, inquieta, ululando, como uma cadela a quem roubaram 
o cachorrinho. 
 
E cada verso que vinha de sua boca era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbado 
de volúpia, enroscava-se todo ao violão, e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, 
ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais. 
...doida de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de égua, bufando e relichando. 
 
A bruxa: 
Era extremamente feia, grossa, triste, olhos desvairados, dentes de cão. 
 
Florinda, filha de Marciana: 
Tinha olhos luxuriosos de macaca. 
 
Piedade: 
Uma vaca chamando ao longe. 
Inquieta que nem um cão ao lado do dono. 
 
Trabalhadores da pedreira: 
...a respiração forte e tranquila de animal sadio, num feliz e pletórico resfolegar de besta 
cansada. 
 
Rita Baiana: 
...feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher. 
Só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada. 
Ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida. 
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...como um cão que espera pelo dono. 
 
Descrição do instinto: 
Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e o 
desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente o ninho exposto. 
 
Como comprovação da tese evolucionista, o personagem João Romão, dono do cortiço, passa toda a 
narrativa mentindo, enganando, roubando e mesmo assim, por entender como sobreviver e levar vantagem 
na sociedade, consegue todos os seus objetivos ao final, impunemente. 
Esse final também mostra uma ruptura com a idealização moral. No Realismo, pessoas desonestas não 
sofrem castigos divinos ou punições didáticas. 
 
 
Parnasianismo 
A poesia parnasiana é contemporânea do Realismo, mas não tinha nenhum cunho social. 
Pregava a "arte pela arte", o culto da forma, a objetividade, como reação ao sentimentalismo exacerbado 
da poesia romântica. 
O foco da poesia parnasiana é todo na construção, em métricas e rimas perfeitas, mesmo que o tema fosse 
um objeto qualquer. O poeta trabalha a poesia como o trabalho e um artesão ou ourives. Veja no trecho de 
“Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, principal poeta parnasiano brasileiro: 
Quero que a estrofe cristalina, 
Dobrada ao jeito 
Do ourives, saia da oficina 
Sem um defeito. 
Assim procedo. Minha pena 
Segue essa norma. 
Por te servir, Deusa Serena, 
Serena Forma. 
 
O Parnasianismo, para efeito da formação da identidade nacional, não foi de grande contribuição. Esses 
poetas vão ser atacados pelos modernistas radicais da Primeira Fase, justamente por fazerem uma arte 
considerada "vazia" e de forte inspiração formal clássica (greco-latina). 
 
 
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Simbolismo 
O Simbolismo, também contemporâneo do Realismo, busca uma nova forma de poesia, capaz de retratar o 
mundo vago e etéreo dos sonhos e do subconsciente. 
Tem como características a ênfase na sugestão, a expressão metafórica e simbólica, o espiritualismo, o 
recurso da sinestesia (mistura de sensações). Opõe-se ao Realismo na medida em que não preza pela 
objetividade, mas por um subjetivismo profundo, um mergulho nos sentimentos, na consciência, no cosmo 
e no espírito. Perceba a subjetividade e o uso de sinestesias no poema de Cruz e Souza, maior expoente 
brasileiro da poesia simbolista: 
Mais claro e fino do que as finas pratas 
o som da tua voz deliciava… 
Na dolência velada das sonatas 
como um perfume a tudo perfumava. 
 
Era um som feito luz, eram volatas 
em lânguida espiral que iluminava, 
brancas sonoridades de cascatas… 
Tanta harmonia melancolizava. 
 
Filtros sutis de melodias, de ondas 
de cantos volutuosos como rondas 
de silfos leves, sensuais, lascivos… 
 
Como que anseios invisíveis, mudos, 
da brancura das sedas e veludos, 
das virgindades, dos pudores vivos. 
 
Na última fase do Modernismo, as obras vão novamente mergulhar no individualismo, nas profundezas do 
inconsciente, na espiritualidade, no sentimento de "estar no mundo". 
Cecília Meireles, por exemplo, da Segunda Fase do Modernismo brasileiro, vai escrever uma poesia de forte 
inspiração simbolista. Isso nos mostra que escolas que são “combatidas” em movimentos posteriores de 
renovação literária e acabam por serem resgatadas quando o movimento modernista já está consolidado e 
não há mais motivo para tanta ruptura com o passado. 
 
 
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PARNASIANISMO 
A poesia parnasiana é contemporânea do Realismo, mas não tinha nenhum cunho social. 
Pregava a "arte pela arte", o culto da forma, a objetividade, como reação ao sentimentalismo exacerbado 
da poesia romântica. 
O foco da poesia parnasiana é todo na construção, em métricas e rimas perfeitas, mesmo que o tema fosse 
um objeto qualquer. O poeta trabalha a poesia como o trabalho e um artesão ou ourives. Veja no trecho de 
“Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, principal poeta parnasiano brasileiro: 
Quero que a estrofe cristalina,Dobrada ao jeito 
Do ourives, saia da oficina 
Sem um defeito. 
Assim procedo. Minha pena 
Segue essa norma. 
Por te servir, Deusa Serena, 
Serena Forma. 
 
O Parnasianismo, para efeito da formação da identidade nacional, não foi de grande contribuição. Esses 
poetas vão ser atacados pelos modernistas radicais da Primeira Fase, justamente por fazerem uma arte 
considerada "vazia" e de forte inspiração formal clássica (greco-latina). 
 
 
SIMBOLISMO 
O Simbolismo, também contemporâneo do Realismo, busca uma nova forma de poesia, capaz de retratar o 
mundo vago e etéreo dos sonhos e do subconsciente. 
Tem como características a ênfase na sugestão, a expressão metafórica e simbólica, o espiritualismo, o 
recurso da sinestesia (mistura de sensações). Opõe-se ao Realismo na medida em que não preza pela 
objetividade, mas por um subjetivismo profundo, um mergulho nos sentimentos, na consciência, no cosmo 
e no espírito. Perceba a subjetividade e o uso de sinestesias no poema de Cruz e Souza, maior expoente 
brasileiro da poesia simbolista: 
Mais claro e fino do que as finas pratas 
o som da tua voz deliciava… 
Na dolência velada das sonatas 
como um perfume a tudo perfumava. 
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Era um som feito luz, eram volatas 
em lânguida espiral que iluminava, 
brancas sonoridades de cascatas… 
Tanta harmonia melancolizava. 
 
Filtros sutis de melodias, de ondas 
de cantos volutuosos como rondas 
de silfos leves, sensuais, lascivos… 
 
Como que anseios invisíveis, mudos, 
da brancura das sedas e veludos, 
das virgindades, dos pudores vivos. 
 
Na última fase do Modernismo, as obras vão novamente mergulhar no individualismo, nas profundezas do 
inconsciente, na espiritualidade, no sentimento de "estar no mundo". 
Cecília Meireles, por exemplo, da Segunda Fase do Modernismo brasileiro, vai escrever uma poesia de forte 
inspiração simbolista. Isso nos mostra que escolas que são “combatidas” em movimentos posteriores de 
renovação literária e acabam por serem resgatadas quando o movimento modernista já está consolidado e 
não há mais motivo para tanta ruptura com o passado. 
 
 
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PRÉ-MODERNISMO 
O Pré-Modernismo não é uma escola literária, mas se refere ao período de coexistência de diversas escolas, 
sem que houvesse predominância de uma estética única. 
Conviviam escritores produzindo poesia parnasiana, romances românticos, realistas, regionalistas, em uma 
vasta produção literária nos primeiros vinte anos do século XX. 
São pontos em comum entre as principais obras desse período: 
 ruptura com o passado, ao culto da forma típica do Parnasianismo; 
 denúncia da realidade brasileira, em oposição ao retrato idealizado das obras românticas; 
 regionalismo e a formação de um painel de diversas regiões brasileiras, como o sertão, o interior 
paulista, o subúrbio carioca, o Espírito Santo. 
A visão crítica do nacionalismo foi objeto de diversas obras desse período, as quais comentaremos a seguir. 
Tratemos comentários importantes sobre os autores mais cobrados na prova do CACD. Nas questões 
comentadas veremos mais detalhes, com a profundidade necessária. 
 
Euclides da Cunha e “Os Sertões” 
Euclides da Cunha era engenheiro militar e tinha formação em Ciências Naturais. Fez profundos estudos 
sobre a Amazônia e viajou muito pelo país, em virtude também de trabalhos como jornalista e engenheiro. 
 
 
Publicado em 1902, "Os Sertões" relata a Campanha de Canudos, interior da Bahia, onde havia uma 
comunidade rural, guiada por um líder religioso, Antônio Conselheiro. Dizia-se que ele era líder de um foco 
antirrepublicano, um revoltoso monarquista, antagonista ferrenho do governo de Floriano Peixoto. 
Foram feitas três expedições para “abafar” esse suposto movimento revolucionário subversivo, sem sucesso. 
Na quarta expedição, Euclides da Cunha foi enviado como correspondente do Estado de São Paulo e 
testemunhou os eventos. 
Inicialmente, Euclides acreditou na versão oficial de que havia um foco monarquista em Canudos, conforme 
percebemos em trecho do artigo "A nossa Vendéia", que Euclides publicou em O Estado de S. Paulo, em 
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1897, antes de ser enviado como correspondente ao local do conflito. 
No texto, ele comparava Canudos à Vendéia, sublevação camponesa, monarquista e católica, ocorrida na 
Revolução Francesa, de 1793 a 1795. 
Contudo, ao chegar ao local, percebeu que o Antônio Conselheiro era apenas um líder religioso local, que 
não reconhecia a autoridade de um governo por estar em uma região abandonada, separada da “civilização 
litorânea” como se por séculos de diferença. Não havia consciência política na liderança do beato. 
Veja o registro dessa revelação: 
(Antônio Conselheiro) Pregava contra a República; é certo. 
O antagonismo era inevitável. Era um derivativo à exacerbação mística; uma variante forçada ao 
delírio religioso. 
Mas não traduzia o mais pálido intuito político: o jagunço é tão inapto para apreender a forma 
republicana como a monárquico-constitucional. 
Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É espontaneamente adversário de ambas. Está na fase 
evolutiva em que só é conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro. 
Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, 
inopinadamente, ressurrecta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade 
morta, galvanizada por um doudo. 
(...) 
Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, 
tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, 
arrebatados na caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no 
âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimos; 
respigando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de 
outras nações, tornamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as 
exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e 
o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque 
não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos... 
Euclides da Cunha 
 
Então começa a experiência que levará o autor a escrever "Os Sertões". A intenção inicial do autor era 
escrever um tratado científico, um registro histórico das sub-raças sertanejas do Brasil, sob uma ótica 
cientificista e determinista: 
Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais 
mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E fazêmo-lo porque a sua instabilidade de 
complexos de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e 
deplorável situação mental em que jazem, as tomam talvez efêmeras, destinadas a próximo 
desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva 
das correntes migratórias que começam a invadir profundamentea nossa terra. 
 
Devido à sua formação em Engenharia e Ciências Naturais, a escrita de Euclides da Cunha vai ser técnica, 
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erudita e permeada pelas correntes científicas que eram pilares de sua formação acadêmica. Porém, há 
também momentos de intenção estética, que dá caráter literário ao suposto documento científico. 
A obra está dividida em 3 partes: 
 
A TERRA: 
Corresponde a uma detalhada descrição da geologia, clima e relevo da região e é destaque nessa parte o 
conhecimento técnico do autor. 
 
O HOMEM: 
Refere-se à descrição etnológica das raças e sub-raças, bem como da distinção entre gaúchos e jagunços. 
Nessa parte, Euclides contrapõe a suposta desvantagem evolutiva do sertanejo a uma força de titã, quando 
provocado: 
O sertanejo é antes de tudo, um forte. Não tem raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A 
sua aparência, entretanto, (...) revela o contrário. (...) É desengonçado, torto. (...) Reflete a 
preguiça invencível, (...). Basta o aparecimento de qualquer incidente (...) transfigura-se (...) 
reponta (...) um titã acobreado e potente (...) de força e agilidade extraordinária 
 
A LUTA: 
Apresenta o dia a dia do conflito, denunciado como um massacre, um ato de genocídio. 
Veja o trecho que relata o fim do massacre, com a morte das últimas pessoas: 
Canudos não se rendeu 
 Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao 
esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, 
ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro 
apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 
mil soldados. Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos 
fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-
la vacilante e sem brilhos. Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de 
uma perspectiva maior, a vertigem. . . Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a 
narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos 
próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos... E de que modo comentaríamos, com a só 
fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os 
prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos 
entregara, confiante — e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da 
nossa História? Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 
5.200, cuidadosamente contadas. 
 
A contribuição de Euclides da Cunha para a história e para literatura se entrecruzam nessa obra: a literatura 
é mais fidedigna do que ciência e a obra científica se transfigurou em literatura, pelas descobertas humanas 
e eventos comoventes experimentadas pelo autor. 
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A preocupação de Euclides de retratar a realidade regional, denunciando as relações de exploração, a 
ausência do governo, a seca, o atraso e situação dos povos afastados do “desenvolvimento” das cidades, faz 
desse autor um precursor da temática modernista. 
 
 
(CESPE / MRE / DIPLOMATA / 2010) 
TEXTO V 
1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiam deparavam com um estado social que ainda mais lhes 
engravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda as aguarda, a mais imperfeita organização 
do trabalho que ainda engenhou o egoísmo humano. 
Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o 
homem que trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e de todo em todo desamparado, uma viagem 
difícil, em que os adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçados de parcelas fantásticas e de 
preços inauditos, o transformam as mais das vezes em devedor para sempre insolvente. 
13 A sua atividade, desde o primeiro golpe de machadinha, constringe-se para logo num círculo vicioso 
inaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que se avoluma, ameaçadoramente, 
acompanhando-lhe os esforços e as fadigas para saldá-la. 
E vê-se completamente só na faina dolorosa. A exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho, 
impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho. Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais 
lúgubres com esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vida inteira a mesma “estrada”, de 
que ele é o único transeunte, trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto de partida. Nesta 
empresa de Sísifo a rolar em vez de um bloco o seu próprio corpo – partindo, chegando e partindo – nas voltas 
constritoras de um círculo demoníaco, no seu eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravada 
por um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora para exercê-lo toda a vida, automaticamente, por 
simples movimentos reflexos – se não o enrija uma sólida estrutura moral, vão-se-lhe, com a inteligência 
atrofiada, todas as esperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade que o arrebataram àquele 
lance, à ventura, em busca da fortuna. 
Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e 
coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (Coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-132 (com 
adaptações). 
TEXTO VI 
Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foi rejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registro 
grandíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao espírito modernista. Acrescente-se a isso sua 
preocupação com o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante, ao tempo em que Mário 5 de 
Andrade ameaçava todo mundo com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da fala brasileira. 
No entanto, mal sabiam os modernistas que, em Euclides, contavam com um abridor de caminhos. As 
numerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições de Os sertões, enquanto viveu, apontam para um 
progressivo 10 abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendar seu próprio texto, a 
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prosódia ia, aos poucos, sobrepujando a ortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do autor 
ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, sua colocação de pronomes anterior. 
Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a algumas das preocupações de 15 Euclides com os interiores 
do país e com a repulsa à macaqueação europeia nos focos populacionais litorâneos. Partilharia igualmente 
com ele a reflexão sobre a especificidade das condições históricas do país, na medida em que, já em Os 
sertões, Euclides realizara um mapeamento de temas que se tornariam centrais na produção intelectual e 
artística do século XX, ao analisar o negro, 20 o índio, os pobres, os sertanejos, a condição colonizada, a 
religiosidade popular, as insurreições, o subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízes não só 
o Modernismo,

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