A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
12 pág.
Nu_e_Vestido_-_Mirian_Goldenberg_(Org.)_-_A_civilizacao_das_formas_-_o_corpo_como_valor

Pré-visualização | Página 4 de 6

o valor em nossa cultura.
A gordura surge como inimiga número um da "boa forma", quase
uma doença16, especialmente para aqueles que buscam ostentar um
corpo "sarado"17, ícone da "cultura da malhação". Nesta cultura, que
""Contagem regressiva para o verão" (O Globo, 16/9/1999).
H
"Nessa época do ano, os donos de academias de ginástica costumam registrar um
aumento de até 40% na freqüência" (O Globo, 29/11/1998).
""Verão faz a última chamada para o teste da areia: os malhadores sazonais lotam as
academias para se exercitar nesta época do ano porque não querem fazer feio na praia"
(O Globo, 31/1/1999).
"Tischler (1995) afirma que uma das características de nossa época é a "lipofobia", a
obsessão pela magreza e uma rejeição quase maníaca à obesidade.
l?
"Sarado", registrado no dicionário Aurélio com o sentido de "forte, rijo, resistente",
é utilizado, atualmente, para designar um corpo com musculatura definida e ausência
de gordura.
A CIVILIZAÇÃO DAS FORMAS: O CORPO COMO VALOR 31
classifica, hierarquiza e julga a partir da forma física, não basta não ser
eordo(a) — é preciso construir um corpo firme, musculoso e tônico,
livre de qualquer marca de relaxamento ou de moleza (Lipovetsky,
2000). A gordura, a flacidez ou a moleza são tomadas como símbolo
tangível da indisciplina, do desleixo, da preguiça, da falta de certa vir-
tude, isto é, da falta de investimento do indivíduo em si mesmo.
É interessante pensar na relação entre o corpo "sarado" (que, as-
sociado à doença, é utilizado para aquele que está curado ou que sa-
rou de seus males) e o corpo "saudável". O horror atual à gordura
pode ser relacionado ao temor à doença, que, de acordo com Rodrigues
(1979), se deve ao fato de ser esta, para nossa sociedade e muitas ou-
tras, uma categoria intermediária entre a condição de vida e a condi-
ção de morte. A busca por um corpo "sarado" funciona, para os adeptos
do atual culto à beleza e à "boa forma", como uma luta contra a morte
simbólica imposta àqueles que não se disciplinam para enquadrar seus
corpos aos padrões exigidos. Como destaca Rodrigues (1979), as so-
ciedades são capazes de levar os seus membros, por meios puramente
simbólicos, à morte: incutindo-lhes a perda da vontade de viver, fa-
zendo-os deprimidos, abalando-lhes de toda forma o sistema nervoso,
consumindo-lhes as suas energias físicas, marginalizando-os socialmen-
te, privando-os de todos os pontos de referência afetivos, "desinte-
grando-os de tal forma que num determinado ponto a morte passa a
ser um simples detalhe biológico" (:94)18.
Num contexto em que a beleza e a forma física não são mais
percebidas e valorizadas como "obra da Natureza Divina" e pas-
I8
"A obsessão pelas formas perfeitas e a permanente insatisfação com os atributos físi-
cos podem ser sintomas de uma doença batizada de desordem dismórfica do corpo
(DDC). Os que sofrem do distúrbio são incapazes de aceitar pequenas imperfeições e
acreditam ter defeitos que na verdade são produtos de fantasia. Para eles, a presença
de culotes mais avantajados, de uma manchinha no rosto ou de músculos pouco proe-
minentes costuma virar fonte da mais profunda angústia e vergonha. Com isso, tor-
nam-se verdadeiros viciados em exercícios ou escravos de dietas e cirurgias plásticas e
Procuram esconder e disfarçar a todo custo determinadas partes do corpo. No estado
mais crítico, o paciente pode desenvolver depressão, fobia social e transtornos alimen-
tares, além de apresentar comportamento compulsivo" (Veja, 22/11/2000). Ver, tam-
bém, Pope; Phillips; Olivardia (2000).
32 NU & VESTIDO A CIVILIZAÇÃO DAS FORMAS: O CORPO COMO VALOR 33
sam a ser concebidas como resultado de um trabalho sobre si mes-
mo, faz-se pesar sobre os indivíduos a absoluta responsabilidade por
sua aparência física. Como lembra Sant'Anna (1995), diferentemen-
te da primeira metade do século XX, quando a "Natureza" era es-
crita em maiúsculo e considerava-se perigoso intervir no corpo em
nome de objetivos pessoais e dos caprichos da moda, hoje, a liber-
dade para agir sobre o próprio corpo não cessa de ser lembrada e
estimulada. Por meio da prática regular de exercícios físicos, dos
regimes alimentares, das cirurgias estéticas, dos tratamentos derma-
tológicos de última geração e dos cosméticos, acredita-se ser possí-
vel alcançar a perfeição estética.
Nesse processo de responsabilização do indivíduo pelo seu cor-
po, a partir do princípio de autoconstrução, a mídia e, especialmen-
te, a publicidade têm um papel fundamental. O corpo virou "o mais
belo objeto de consumo" e a publicidade, que antes só chamava a
atenção para um produto exaltando suas vantagens, hoje em dia
serve, principalmente, para produzir o consumo como estilo de vida,
procriando um produto próprio: o consumidor, perpetuamente
intranqüilo e insatisfeito com a sua aparência (Lasch, 1983). Com
isso, saem ganhando, entre outros, os mercados dos cosméticos19,
das cirurgias estéticas20 e da "malhação"21.
""A auto-estima dos brasileiros vem garantindo há seis anos uma expansão média de
20% ao setor industrial de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal. Ô crescimento da
área, cujas vendas anuais já passam de R$7,5 bilhões, é quatro vezes mais veloz que o
do resto do setor produtivo" (Época, 21/5/2001).
20De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o brasileiro se tornou o
povo que mais faz plástica no mundo. Em 2000, 350 mil pessoas se submeteram a pelo
menos um procedimento com finalidade estética, isto é, em cada grupo de 100 mil
habitantes, 207 pessoas foram operadas em 2000. Os Estados Unidos, tradicionais lí-
deres do ranking, registraram 185 operados por 100 mil habitantes. Nos países euro-
peus, como Inglaterra e Alemanha, a média foi de quarenta pacientes operados por
100 mil - um quinto da brasileira (Veja, 17/1/2001). Esta liderança está sendo reco-
nhecida mundialmente, como pode ser visto na Time (Latin American Edition, 9171
2001) em que Carla Perez está na capa ilustrando a matéria "The Plastic Surgery Craze".
""Hoje, há 4.800 academias de ginástica cadastradas na associação nacional que re-
presenta o setor. Mas estima-se que exista o dobro. O negócio atrai grandes empresá-
rios, fundos de investimento e, agora, redes multinacionais que estão a um passo de
fincar o pé no atraente mercado brasileiro" (Veja, 14/2/2001).
Mas não apenas as imagens publicitárias têm o poder de pro-
duzir as preocupações obsessivas com a aparência. Outros veícu-
los (programas de televisão, cenas de novela, reportagens de
revistas e jornais) também, muitas vezes de forma aparentemente
desinteressada, vendem o que Bourdieu (1989) chama de "ilusões
bem fundamentadas". Ilusões estas que, ao tomarem como refe-
rência o discurso científico dos especialistas (médicos, psicólogos,
nutricionistas, esteticistas, professores de educação física, entre
outros), prometem perfeição estética, desde que sejam cumpridas,
rigorosamente, todas as suas orientações (muitas vezes contradi-
tórias).
Se, durante séculos, enormes esforços foram feitos para conven-
cer as pessoas de que não tinham corpo, teima-se hoje, sistematica-
mente — após um longo período de puritanismo —, em convencê-las
de que o próprio corpo é central em suas existências e afetos. Tudo
o que surge, a princípio, como uma nova possibilidade de controle
pela cultura do processo natural de envelhecimento e decadência
dos corpos, rapidamente se transforma em novas obrigações. Como
destaca Baudrillard, o culto higiênico, dietético e terapêutico com
que se rodeia, a obsessão pela juventude, elegância, virilidade/fe-
minilidade, cuidados, regimes, práticas sacrificiais que com ele se
conectam, "o Mito do Prazer que o circunda — tudo hoje testemu-
nha que o corpo se tornou objeto de salvação. Substitui literalmen-
te a alma, nesta função moral e ideológica" (:136).
O culto à beleza e à forma física é transmitido como um evan-
gelho (Wolf, 1992), criando um sistema de crenças tão poderoso
quanto o de qualquer religião e tomando conta dos hábitos de uma
parcela representativa de nossa sociedade: