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MANEJO AMBULATORIAL DO PACIENTE ANTICOAGULADO e-book índice Introdução: contexto, indicações e medicações ................... 3 Iniciando a anticoagulação: qual fármaco escolher? ..................................................... 5 Como realizar o acompanhamento e o ajuste de tratamento de pacientes anticoagulados? ..................... 8 Como realizar a transição entre anticoagulantes? .............. 11 Complicações relacionadas à anticoagulação: como reduzir o risco e manejá-las .................................. 13 Quais são os cuidados perioperatórios de pacientes anticoagulados? ........................................ 15 Quando combinar antiplaquetários e anticoagulantes? ........................................................ 18 Conclusão ....................................................................... 19 A Artmed ......................................................................... 20 Referências ..................................................................... 21 3 Durante o último século, houve um aumento expressivo da expectativa de vida, especialmente devido ao controle das doenças infecciosas. Este período também foi marcado pelo aumento da morbimortalidade cardiovascular, com as doenças do aparelho circulatório tornando-se a prin- cipal causa de morte no mundo. Estima-se que as causas tromboembólicas (acidente vascular cerebral isquêmico, infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo venoso, entre outros) sejam responsáveis por uma a cada quatro mortes, sendo os países de baixa ou média renda, como o Brasil, mais vulneráveis (1). Dessa forma, os mecanismos fisiopatológicos e as opções de tratamento para esse grupo de doenças foram (e ainda são) extensamente investigados. Ao longo dos anos, medicamentos que atuam na gênese e propagação do evento final da coagulação (o trombo) foram desenvolvidos e testados para o tratamento dessas doenças. Portanto, os anticoagulantes são medicações que interferem nos fatores de coagulação e inibem a formação do coágulo (2). Seu uso é indicado em uma série de situações, como prevenção ou tratamento de eventos tromboembólicos, cujas principais indicações estão descritas na Tabela 1. Apesar de atuarem na coagulação, os antipla- quetários são considerados medicamentos com indicações diversas e não serão abordados nes- te texto. Os principais anticoagulantes orais disponíveis no Brasil e seus mecanismos de ação estão descritos na Tabela 2. INTRODUÇÃO: CONTEXTO, INDICAÇÕES E MEDICAÇÕES 4 Varfarina Marevan, Coumadin, Marfarin Inibição da síntese hepática de fatores de coagulação dependentes de vitamina K Nome genérico Nome comercial Mecanismo de ação Dabigatrana* Pradaxa IInibição direta da trombina Rivaroxabana* Xarelto Inibição do fator X ativado Apixabana* Eliquis Edoxabana* Lixiana *Novos anticoagulantes orais. • Tromboembolismo venoso (tromboembolismo venoso profundo ou tromboembolismo pulmonar) • Tromboflebite com alto risco para tromboembolismo venoso • Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo (prevenção secundária) • Fibrilação atrial (incluindo paroxística)* • Prótese cardíaca valvar metálica • Doença valvar mitral reumática na presença de fibrilação atrial, história de embolismo prévio ou trombo no átrio esquerdo • Estenose mitral com trombo no átrio esquerdo • Infarto do miocárdio com trombo mural ou com acinesia grave de parede anterior Tabela 1. Principais indicações do uso de anticoagulantes ambulatorialmente (2–4). Tabela 2. Principais anticoagulantes orais disponíveis no Brasil (5–7). *Nem todos os pacientes têm indicação; recomenda-se seu uso para pessoas com risco mo- derado ou elevado (escore CHADSVasc). 5 Diante da indicação de anticoagulação, é necessário ponderar também as possíveis complica- ções do tratamento. Não há terapia que reduza o risco de eventos tromboembólicos sem au- mentar simultaneamente o risco de sangramento. Portanto, a decisão de prescrever um anti- coagulante deve ser tomada quando o risco de um evento tromboembólico for maior do que o risco de sangramento em um determinado momento, e deve ser compartilhada com o paciente. Deve-se ressaltar que os anticoagulantes não “provocam” sangramento (que ocorre por perda da integridade vascular); eles dificultam a hemostasia e podem transformar pequenos episódios, usualmente imperceptíveis e autolimitados, em eventos clinicamente relevantes e ameaçadores à vida (8). Para auxiliar nessa decisão, uma série de escores (HAS-BLED, VTE-BLED) pode ser utilizada para predizer o risco de sangramento em pacientes usando anticoagulantes (especialmente no con- texto de fibrilação atrial), porém nenhum se demonstrou consistentemente melhor do que o jul- gamento clínico (8). Seu principal uso é como apoio na orientação sobre os riscos da terapia, durante a fase de decisão compartilhada sobre o uso ou manutenção do tratamento, bem como para reforçar a vigilância de pacientes com maior potencial de complicações, com o objetivo de identificar precocemente eventos e controlar fatores modificáveis. As seções a seguir compreendem a discussão sobre as principais dúvidas clínicas – situações “problema” – no uso dos anticoagulantes: escolha, acompanhamento, troca, complicações e ma- nejo perioperatório. Por muitos anos, os antagonistas da vitamina K (cujo principal representante é a varfarina) foram a única classe de anticoagulante oral disponível. Há aproximadamente 10 anos, foi lançada uma classe de anticoagulantes orais (DOACs, do inglês, direct oral anticoagulants) que atuam direta- mente na inibição dos fatores de coagulação já circulantes (Tabela 1). Os DOACs rapidamente ganharam espaço nas prescrições devido às vantagens que apresentavam em relação à varfa- rina: eles dispensam monitorização e titulação de dose frequentes e, em algumas situações, apresentam melhor perfil de segurança (2). Como regra geral, os DOACs devem ser considerados a primeira opção para pacientes com necessidade de anticoagulação oral (Tabela 2) (9,10). No contexto brasileiro, a principal limitação desses medicamentos é o custo e a indisponibilidade pelos programas de assistência farmacêutica. O principal cenário em que os DOACs foram testados foi na prevenção de acidente vascular cere- bral (AVC) em fibrilação atrial não-valvar, e seu uso se estendeu amplamente para pacientes com tromboembolismo venoso (trombose venosa profunda e pulmonar) (2,11). Em alguns casos, en- tretanto, o uso de DOACs é contraindicado devido ao aumento de desfechos adversos ou falta INICIANDO A ANTICOAGULAÇÃO: QUAL FÁRMACO ESCOLHER? 6 de estudos consistentes que comprovem sua segurança (Tabela 3); nesses casos, a varfarina é o anticoagulante de escolha (4,12,13). • Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo (prevenção secundária) • Estenose mitral moderada a grave e fibrilação atrial (incluindo paroxística) • Prótese cardíaca valvar metálica • Doença valvar mitral reumática na presença de fibrilação atrial, história de embolismo prévio ou trombo no átrio esquerdo • Hepatopatia moderada a grave (Child-Pugh C) • Gestação • Amamentação Tabela 3. Principais situações em que o uso de DOAC é contraindicado (4,12,13). Em pacientes com hepatopatia, o uso de anticoagulantes é desafiador. De maneira paradoxal, tanto o risco de eventos trombóticos quanto o risco de eventos hemorrágicos estão aumenta- dos; ou seja, mesmo em situações com clara indicação de anticoagulação, o balanço de risco e benefício deve ser cuidadosamente considerado. Diversos fatores associados contribuem para o risco de sangramento: plaquetopenia, desbalanço de fatores pró e anticoagulantes, hipertensão portal. Além disso, a dosagem do tempo de protrombina pode não ser um indicador confiável do estado de coagulação (14). Os dados disponíveis sobre o uso de DOACs são derivados de estu- dos em pacientes com hepatopatia leve a moderada, já que a doença avançada foi um critério de exclusão na maioria dosestudos com DOACs (Tabela 4). A experiência clínica com o uso de varfarina faz com que este seja o medicamento de escolha em pacientes com cirrose Child-Pugh C (14). Insuficiência hepática 7 A população com doença renal crônica (DRC) também merece atenção especial (Tabela 5). A maior parte dos fármacos requer ajuste de dose e, além da varfarina, apenas a apixabana se mostrou segura em pacientes com DRC estágio V. Vale lembrar que algumas indicações de an- ticoagulação, como fibrilação atrial, são discutíveis nesses pacientes, pois as evidências de be- nefício não são claras (15). Quando há indicação do uso de anticoagulante durante a gestação, o uso de heparinas, especial- mente heparina de baixo peso molecular (enoxaparina), é preconizado em detrimento dos anti- coagulantes orais. Ainda não há dados consistentes em humanos que comprovem segurança de DOACs nesse cenário; portanto, seu uso é contraindicado. A varfarina é potencialmente teratogê- nica, sendo contraindicada no primeiro trimestre e, se possível, deve ser evitada durante toda a Tabela 4. Uso de anticoagulantes novos conforme função hepática (14). Tabela 5. Uso de anticoagulantes novos conforme função renal (15). Classificação Child-Pugh A B C Dabigatrana Uso seguro Utilizar com cautela Utilizar com cautela Uso contraindicado Edoxabana Uso seguro Uso seguro Uso seguro Uso contraindicado Uso contraindicado Uso contraindicado Uso contraindicado Uso contraindicado Apixabana Rivaroxabana Taxa de filtração glomerular (mL/min/1,73m2) >60 30-59 15-29 Dabigatrana Uso seguro Ajuste de dose Uso seguro Ajuste de dose* Edoxabana Uso seguro Uso seguro Uso seguro Ajuste de dose Ajuste de dose Ajuste de dose Ajuste de doseAjuste de dose 60% do tempo dentro do alvo terapêutico. O efeito terapêutico da varfarina é alcançado com alvo de INR 2,5 (intervalo aceitável entre 2-3) para a maioria das situações que indicam anticoagulação. As situações especiais que indicam alvo de INR de 3 (intervalo 2,5-3,5) são (16): • Trombo em átrio esquerdo prévio a valvuloplastia mitral percutânea; • Prótese valvar mecânica mitral; • Prótese valvar mecânica aórtica de “gaiola” (modelos antigos); • Prótese valvar mecânica mitral ou aórtica concomitante a fibrilação atrial, infarto agudo do miocárdio com supra de segmento ST de parede anterior, estado de hipercoagulabilidade, au- mento de átrio esquerdo e fração de ejeção do ventrículo esquerdo reduzida. A dose necessária para atingir o alvo de INR é muito variável entre indivíduos e depende de con- dições genéticas e ambientais. Na maioria dos pacientes ambulatoriais estáveis, pode-se iniciar a varfarina na dose de 5 mg/dia; doses maiores (10 mg/dia) aumentam a chance de INR fora do alvo na fase de ajuste. Em pacientes com maior risco de sangramento, como aqueles que preenchem critério para síndrome de fragilidade, idosos (>70 anos), desnutridos, com comorbi- dades como DRC ou hepatopatia, ou naqueles que usam medicações que aumentam a ação da varfarina, deve-se considerar dose inicial de 2,5 mg. O primeiro INR deve ser aferido idealmente 2 a 3 dias após o início do medicamento, e é comum que se atinja o alvo terapêutico em 4 a 5 dias (2,11,17,18). O uso de protocolos padronizados aumenta a velocidade para se atingir o alvo de INR (18). Um exemplo está apresentado na Tabela 6 (18). Varfarina 9 Tabela 6. Protocolo para ajuste de dose de varfarina conforme INR (18). 6 3,0 0 5 3,0 0 1 - 5 2 - 5 3 3,0 0 4 3,0 0 INR = international normalized ratio. 10 Ao atingir o alvo, deve-se avaliar a dose necessária para tal, que será equivalente à dose total se- manal, e distribuí-la durante o intervalo de sete dias: por exemplo, uma dose total semanal de 35 mg equivale a 5 mg/dia de varfarina. Em casos de evento tromboembólico agudo, há indicação de terapia inicial de pelo menos cinco dias com heparina devido ao efeito pró-trombótico inicial da varfarina (5). Em pacientes com INR estável na faixa terapêutica, é razoável a reavaliação laboratorial periódi- ca em 8-12 semanas (11,16). A interpretação de exame fora do alvo deve ser cautelosa. Inicial- mente, deve-se avaliar os fatores associados (adesão, mudança de dieta, medicamentos), e com base nestes dados, considerar ajustes. Alterações de dose entre 10-20% da dose total semanal são recomendadas para atingir a faixa terapêutica de pacientes com INR entre 1 e 4,5 (11). A Fi- gura 1 apresenta um fluxograma de ajuste. Pacientes com INR >4,5 ou com sangramento devem ser manejados conforme apresentado na Seção 4. Apesar da interferência conhecida entre alimentos que contêm vitamina K (espinafre, couve, bró- colis, alface, ervilhas, couve-flor, repolho) e varfarina, não é recomendado excluí-los da dieta; sugere-se, entretanto, manter consumo em quantidade regular desses alimentos (19). Diversos medicamentos podem alterar a absorção e o metabolismo da varfarina, e os principais estão descritos na Tabela 7; em caso de prescrição de novos medicamentos, é indicado sempre avaliar a interação com outros fármacos em uso, especialmente com a varfarina. Figura 1. Fluxograma de ajuste de dose de varfarina. Aumentar dose em 10-20% e revisar em 2-4 semanas Reduzir dose em 10-20% e revisar em 1-2 semanas Suspender por 1-2 dias, retomar com dose 20% menor e revisar em 5 dias INR fora do alvo INR≥1,5 mg/dL devem receber metade da dose (2,5 mg duas vezes ao dia). Anticoagulantes orais diretos COMO REALIZAR A TRANSIÇÃO ENTRE ANTICOAGULANTES? A troca entre anticoagulantes é uma situação frequente, seja motivada por preferência do pa- ciente (comodidade, custos) ou por indicação clínica, como a necessidade de internação para ponte de anticoagulação com heparina. A Tabela 8 descreve orientações sobre a transição entre anticoagulantes orais e parenterais. 12 Tabela 8. Orientações sobre como realizar a troca entre anticoagulantes ambulatorialmente (19–21). Heparina Varfarina Utilizar heparina em dose terapêutica por pelo menos 24 horas (ou dois exames de INR consecutivos) após atingir o alvo terapêutico. DOAC Medicamento inicial Medicamento final Como realizar a troca Heparina não fracionada: suspender assim que o DOAC for administrado. Heparina de baixo peso molecular: DOAC deve ser admi- nistrado no mesmo horário da dose prevista de heparina, que por sua vez não deve ser administrada. Varfarina DOAC Heparina Iniciar a administração de heparina (não fracionada ou de baixo peso molecular) após dois exames de INR consecu- tivos abaixo da faixa terapêutica. Suspender o uso de varfarina, e iniciar o uso do DOAC assim que o INR atingir valor 50mL/min: iniciar varfarina 3 dias antes de suspender DOAC; TFG 30-50mL/min: mL/min: iniciar varfarina 2 dias antes de suspender DOAC; TFG 15-30mL/min: mL/min: iniciar varfarina 1 dia antes de suspender DOAC. Edoxaban: Se dose de 60mg, reduzir para 30mg e iniciar varfarina; se dose de 30mg, reduzir para 15mg e iniciar varfarina. Deve-se medir INR ao menos semanalmente e suspender edoxabana quando INR >2 em duas medidas consecutivas. Coletar o exame de TP antes da administra- ção diária de edoxabana. sugere-se utilizar ponte com heparina devido à interferência do DOAC com a monitorização de INR. Rivaroxaban e Apixaban: sugere-se utilizar ponte com heparina devido à interferência do DOAC com a monitorização de INR. INR = international normalized ratio; DOAC = direct oral anticoagulant; TFG = taxa de filtração glomerular. 13 COMPLICAÇÕES RELACIONADAS À ANTICOAGULAÇÃO: COMO REDUZIR O RISCO E MANEJÁ-LAS O sangramento é um efeito adverso frequente e temido do tratamento com anticoagulantes. Os sangramentos podem ser definidos como episódios leves (epistaxe, hematúria, equimoses) ou ameaçadores da vida (choque hemorrágico, sangramento cerebral, hemorragia digestiva) (11). Pacientes com o tratamento adequadamente ajustado não têm o medicamento como causa di- reta do evento, mas ele dificulta a hemostasia normal, ou seja (8): • Pequenos episódios hemorrágicos, usualmente imperceptíveis, podem se tornar eventos clinicamente relevantes em pacientes anticoagulados; • A causa do sangramento sempre deve ser investigada em pacientes com o tratamento ajustado; • Todo paciente em uso de anticoagulante deve ser orientado sobre o risco de sangramento, e esse risco deve ser discutido antes do início do tratamento; • Pacientes com doses excessivas ou acúmulo de medicação na circulação podem apresentar sangramentos espontâneos. Alguns cuidados são recomendados para minimizar o risco de episódios hemorrágicos (Tabela 9). Não há recomendação de uso rotineiro de inibidor da bomba de próton para prevenir hemorra- gia digestiva. Um estudo avaliou essa intervenção e sugeriu que ela é potencialmente benéfica, porém a pequena magnitude de efeito (um sangramento digestivo prevenido para cada 982 tra- tados) não parece justificar a recomendação para todos os pacientes (22). 14 Orientações específicas sobre o manejo de pacientes com sangramento ou fora do alvo tera- pêutico estão resumidas na Tabela 10. Além disso, a avaliação da estabilidade hemodinâmica, reposição de fluidos e identificação da fonte de sangramento são comuns a todos. Em pacientes com queda de hemoglobina ou instabilidade hemodinâmica inexplicada, sem exteriorização de sangramento, deve-se considerar hemorragia para retroperitônio ou musculatura profunda (23). A decisão de encaminhar à emergência ou internação depende das condições clínicas do pacien- te e da disponibilidade de recursos locais. • Discutir o risco de sangramento com todos os pacientes. • Pacientes em uso de varfarina: • Manter INR na faixa terapêutica recomendada (geralmente entre 2-3); • Orientar quanto a interações medicamentosas (Tabela 6 e conferir em plataforma de interações medicamentosas); • Revisar INR na frequência recomendada (vide Acompanhamento ambulatorial de anti- coagulação acima). • Pacientes em uso de DOAC devem realizar ajuste de dose conforme funções renal e hepática. • Uso de antiplaquetários somente em situações clínicas selecionadas. Tabela 9. Cuidados recomendados para minimizar sangramento em pacientes anticoagulados. INR = international normalized ratio; DOAC = novos anticoagulantes orais. 15 Tabela 10. Manejo de pacientes em maior risco de efeito adverso (sangramento) da anticoagulação. Adaptado de (23,24). Varfarina Medicamento Orientações DOAC Ausência de sangramento ou sangramento de pequena monta: • Se INR 10, suspender varfarina e administrar vitamina K via oral. Se houver sangramento pouco significativo, é indicada a suspensão de 1-2 doses do anticoagulante e reavaliação clínica. Se houver sangramento ameaçador à vida, suspender anticoagulante e administração de complexo protrombínico ou antígenos específicos (para dabigatrana, uso de idarucizumab*; para rivaroxabana, edoxabana ou api- xabana, uso de andexanet alfa**), de acordo com a disponibilidade. Presença de sangramento ameaçador a vida: • Independente do INR, suspender varfarina e considerar administração de vitamina K endovenosa associada com complexo protrombínico (na indis- ponibilidade deste, pode-se considerar uso de plasma fresco congelado). INR = international normalized ratio; DOAC = anticoagulantes orais diretos. *Disponibilidade limitada no Brasil. **Não disponível no Brasil. QUAIS SÃO OS CUIDADOS PERIOPERATÓRIOS DE PACIENTES ANTICOAGULADOS? No manejo perioperatório, deve-se avaliar se o procedimento exige a suspensão da anticoagu- lação. Se sim, avalia-se se o paciente necessita de terapia de ponte para minimizar o risco de eventos embólicos. Ao avaliar o risco de sangramento, deve-se considerar as características do paciente e o tipo de intervenção. Anamnese detalhada sobre comorbidades (insuficiências renal e hepática) e me- dicamentos em uso, por exemplo, deve ser obtida; escores clínicos como o HAS-BLED podem auxiliar na predição de desfechos perioperatórios (25). Avaliação do risco de sangramento perioperatório 16 São considerados procedimentos de alto risco e com indicação de suspensão da anticoagulação (26): • Procedimentos em sítios não compressíveis, de difícil acesso e mais sensíveis (coração, sistema nervoso central, retro-ocular); • Procedimentos vasculares, intra-abdominais ou intratorácicos maiores; • Urológicos (prostatectomia, ressecção transuretral de próstata e biópsia renal); • Procedimentos com duração prevista >45 minutos. A manutenção do anticoagulante deve ser considerada em intervenções com baixo risco de san- gramento (Tabela 10). Se o paciente estiver em uso de varfarina, é indicado avaliar se o INR está na faixa terapêutica e, se acima do alvo, deve-se realizar ajuste de dose.O risco de apresentar um evento em função da suspensão transitória da anticoagulação para rea- lização de procedimento depende da doença de base do paciente (que indica a anticoagulação). Com base nisso, em alguns casos, é indicada a terapia de ponte com heparina (Tabela 12), que consiste na substituição de anticoagulantes de longa duração, como a varfarina, por agentes de curta meia-vida, como as heparinas, em preparação para um procedimento invasivo (25). O prin- cipal objetivo da transição para heparinas é reduzir o risco de evento trombótico sem aumentar o risco de sangramento perioperatório (25). Avaliação do risco de eventos tromboembólicos e da indicação de terapia de ponte com heparina • Pequenos procedimentos cutâneos (biópsias e exérese de tumores); • Cirurgia de catarata; • Endoscopia com biópsia de mucosa (exceto se biópsia de pólipos); • Procedimentos dentários (exceto se extração de múltiplos dentes). Tabela 11. Situações em que não é necessário suspender anticoagulação (26). 17 Tabela 12.Estimativa de risco e indicações de ponte com heparina (26). Válvula cardíaca mecânica Indicações de anticoagulação Fibrilação atrial Prótese valvar mitral Prótese aórtica antiga AVC ou AIT 6 AVC ou AIT 1 fator de risco: FA, AVC ou AIT prévios, diabete, ICC, HAS ou idade >75 anos Prótese aórtica sem FA ou outros fatores de risco associados Escore CHADS- -VASc 2-3 Evento tromboem- bólico há >12 meses sem outros fatores de risco Moderado Não há indicação de ponte com heparina Escore CHADS-VASc 4-5 TEV entre 3-12 meses Trombofilias não-graves** TEV recorrente Câncer ativo Alto Ponderar risco vs benefício de ponte com heparina TEV 20 mL/min. Em caso de doença renal próxima ao estágio V, o uso de heparina não fracionada deve ser realizado. Se não for indicada a terapia de ponte, a varfarina deve ser suspensa de 3 a 5 dias antes do procedimento, buscando INR21 REFERÊNCIAS 1. Wendelboe AM, Raskob GE. Global Burden of Thrombosis: Epidemiologic Aspects. Circ Res. 2016 Apr 29;118(9):1340–7. 2. 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