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O capital social e os efeitos cívicos e democráticos das associações. “O despotismo, que, por natureza, e temeroso, vê no isolamento dos homens a mais segura garantia de sua duração e, comumente, faz tudo para isola-los. Não há vicio no coração humano que lhe agrade tanto quanto o egoísmo: um déspota perdoa facilmente aos governados não ama-lo, contanto que não se amem entre si. Não lhes pede para ajudá-lo a conduzir o Estado; basta que não pretendam dirigi-lo. Chama de espíritos turbulentos e inquietos os que pretendem juntar esforços para criar a prosperidade comum e, alterando o sentido natural das palavras, chama de bons cidadãos os que se encerram estreitamente em si mesmos”. Uma referência: Alexis de Tocqueville “A arte da associação” “Dentre as leis que regem as sociedades humanas, há uma que parece mais precisa e mais clara do que todas as outras. Para que os homens permaneçam ou se tornem civilizados, e necessário que entre eles a arte de se associar se desenvolva e se aperfeiçoe na mesma proporção que a igualdade de condições cresce”. Ainda Tocqueville... “O interesse bem compreendido” “Nos Estados Unidos, quase não se diz que a virtude e bela. Sustenta- se que e útil, e prova-se isso todos os dias. Os moralistas americanos não pretendem que seja necessário sacrificar-se a seus semelhantes, porque e grandioso faze-lo; mas dizem ousadamente que tais sacrifícios são tão necessários a quem os impõe a si quanto a quem deles se aproveita”. Capital social e desempenho institucional – Robert Putnam - Cientista político e professor estadunidense, da Universidade de Harvard. “Comunidade cívica” se caracteriza “por cidadãos atuantes e imbuídos de espírito público, por relações políticas igualitárias e por uma estrutura social assentada na confiança e na colaboração” • Ponto de partida: contraposição às perspectivas que sustentam a incapacidade das pessoas de cooperar em proveito próprio a partir da análise racional do custo que a cooperação tem para cada uma. (“Dilema da ação coletiva”) Putnam: as pessoas cooperam mais do que se supõe. • Indivíduos perfeitamente racionais podem produzir, em determinadas circunstâncias, resultados que não são racionais do ponto de vista de todos os que estão envolvidos. Análise das condições em que as pessoas cooperam e dos limites para que isto aconteça. As pessoas tendem a ser egoístas ou a cooperar? - Criadores de gado que compartilham um espaço comum de pastoreio para seus rebanhos. O pastoreio excessivo está destruindo o recurso comum de que depende a subsistência de todos. O problema para cada criador é que, se ele limitar seu próprio uso do espaço de pastoreio, vai se prejudicar. Mas se todos continuarem realizando um pastoreio excessivo também vão acabar se prejudicando e acabando com a subsistência de todos. Casos (1) • Greves: todos se beneficiam dos resultados, mesmo quem não participa. • Bem público como ar ou água, que pode ser desfrutado por todos, mesmo por quem não o cuida. • O “dilema do prisioneiro”: dois cúmplices são mantidos incomunicáveis e diz-se a cada um deles que se delatar o companheiro, ganhará a liberdade, mas se guardar silêncio e o outro confessar, receberá uma punição especialmente severa. Se ambos se mantivessem em silêncio, seriam punidos levemente. O que vai acontecer? Casos (2) • Qual a opção mais racional e qual a que tende a prevalecer em cada caso: obedecer aos interesses imediatos de cada um, recorrer a um terceiro ou cooperar? Por que? Pergunta: • A solução “hobessiana”: a coerção de um terceiro (Estado) para fazer valer o interesse de todos. Pergunta: É esta uma solução adequada? Por quê? Esta solução tem a virtude de estar ao alcance dos indivíduos que são incapazes de confiar nos outros. • Putnam destaca os limites da coerção de um terceiro e aponta existência bastante frequente de exemplos de comportamentos cooperativos, contrapondo-se aos comportamentos egoístas sustentados pela teoria dos jogos. • Para haver cooperação, é preciso não só confiar nos outros, mas também acreditar que se goza da confiança dos outros • Em todas as sociedades, os dilemas da ação coletiva obstam as tentativas de cooperar em benefício mútuo, seja na política ou na economia. • Pergunta: do que depende a superação dos dilemas da ação coletiva? • Proposta: A cooperação voluntária é mais fácil numa comunidade que tenha herdado um bom estoque de capital social sob a forma de • regras de reciprocidade e • sistemas de participação cívica. Capital social: características da organização social como confiança, normas e sistemas que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas. • Formas de capital social: *Confiança *Normas *Cadeias de Relações Sociais • O capital social multiplica-se com o uso e mingua-se com o desuso. Recursos que se esgotam se não forem utilizados. • Os que dispõem de capital social tendem a acumular mais. Círculos virtuosos. • Capital social é um bem público e não privado (é um atributo da estrutura social em que se insere). Costuma ser insuficientemente valorizado e suprido pelos agentes sociais. • A confiança é um componente básico do capital social. • Confiança implica previsão de comportamento de um ator independente. a. Regras de reciprocidade: são incutidas e sustentadas por meio de condicionamento e socialização e também por sanções. Elas vingam porque reduzem os “custos de transação”. Expectativas mútuas de que um favor concedido hoje poderá ser retribuído no futuro. Amplo sistema de intercâmbio social. Dar-receber-retribuir. b. Sistemas de participação cívica (associações, cooperativas...): Sistemas de intercâmbio e comunicação interpessoais que representam uma intensa interação horizontal. São formas essenciais de capital social: aumentam os custos potenciais para o transgressor, promovem regras de reciprocidade, facilitam a comunicação e melhoram o fluxo de informações, corporificam o êxito anterior alcançado. A confiança social pode manar de duas fontes: • Importância de compreender os condicionantes históricos e os modelos institucionais que tendem a reforçar-se e evitar que as pessoas cooperem, mesmo sendo ineficientes. • A superação dos dilemas da ação coletiva e do oportunismo contraproducente depende do contexto social mais amplo em que determinado jogo é disputado. • Procura de soluções conciliadoras, como comunidade e confiança. • Importância das instituições de cunho cooperativo. Instituições formais podem ajudar a superar os problemas da ação coletiva Se, por uma parte, as experiências de mobilização e atuação coletiva acumulam um capital social derivado dos laços de confiança mútua entre os cidadãos, que intensifica o envolvimento cívico coletivo, por outro, um Estado liderado por elites políticas reformistas e determinadas a fixar normas transparentes que regulem a interação entre os interesses organizados facilita a disseminação de uma vida pública ativa e dinâmica. Experiências de mobilização e atuação coletiva acumulam capital social (laços de confiança mútua entre os cidadãos, normas e sistemas que estimulam a cooperação entre eles) e intensificam o envolvimento cívico coletivo. Estado liderado por elites políticas reformistas que fixem normas transparentes e estimulem a participação cívica facilita uma vida pública ativa. Papel fundamental das associações como agentes de transformação de um Estado burocrático, clientelista e paternalista para um Estado eficiente e transparente e para ativar uma dinâmica de inovação econômica e social. Ideias a partir da perspectiva do “Capital Social” Esta abordagem passa a ser fundamental para sustentar as perspectivas sobre o papel da sociedade civil e do “Terceiro setor”, onde se destaca o papel das associações como o agente principal da reforma de um Estado burocrático, clientelista e paternalista e como parteda ativação de uma dinâmica de inovação econômica e social. Sociedade civil como “terceiro setor”: a perspectiva neoliberal Retomada da tradição liberal norte-americana • Inspirado em Tradição filantrópica e associativa nos EUA (lembrar Tocqueville): associativismo e voluntariado fazem parte de uma cultura política e cívica baseada no individualismo liberal. Confiança nas organizações associativas de gerar resultado, envolvendo tanto pessoas como grandes corporações. • O Terceiro setor chega no Brasil nos anos 1990, com uma “promessa”: humanizar o capitalismo, democracia. • Três responsáveis: • Organizações multilaterais e internacionais: Banco Mundial • Governo Federal (FHC) –Administração Pública Gerencial, eficiência e qualidade, descentralizada e com foco no cidadão. • Setor empresarial: GIFE, Instituto Ethos, IDIS Sociedade civil como um “Terceiro Setor”: tradição liberal norte-americana e invenção nos anos 70 • Tradição filantrópica e associativa nos EUA (lembrar Tocqueville): associativismo e voluntariado fazem parte de uma cultura política e cívica baseada no individualismo liberal. Confiança nas organizações associativas de gerar resultado, envolvendo tanto pessoas como grandes corporações. • Anos 1970: “setor” no lucrativo (“nonprofit sector”). John D. Rockfeller: três setores (estado, mercado e privado sem fins de lucro). Organizações filantrópicas com isenções fiscais enquanto um setor único e coerente. “Third Sector”. O conceito “Terceiro setor” chega ao Brasil nos anos 90 • O Terceiro setor no Brasil: “de fora para dentro”. Anos 90. Construção de uma “promessa”. • Três responsáveis: • Organizações multilaterais e internacionais: Banco Mundial recomenda leis para estimular o “Terceiro Setor” • Governo Federal (FHC) – MARE: Administração Pública Gerencial, caracterizada pela eficiência e qualidade, descentralizada e com foco no cidadão. Subordinadas aos imperativos econômicos do momento. De direitos universais a políticas focalizadas de combate à pobreza. • Setor empresarial: GIFE, Instituto Ethos, IDIS Organizações associativas e filantrópicas já existiam... • Organizações filantrópicas: • Filantropia privada, por ex., Santas Casas de Misericórdia • 1920 -1960 o Estado assume papel nas políticas sociais • A partir dos anos 70, voltam as ações privadas e, nos anos 90, são rotuladas como “Terceiro Setor”. • ONGs: campo específico • Internacional: programas de cooperação internacional para o desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo • Década de 70: campo de oposição à ditadura. • Fortalecimento com a Rio 92 • Novo espaço de participação cidadã. “Fortalecimento da sociedade civil”. Vínculos com movimentos sociais. • Nasce com a marca da politização. • Vão sendo rotuladas no conceito dominante de “Terceiro Setor”, mas muitas não se assumem desta forma. ABONG Conceituação do “Terceiro setor” • Mais uma ideia-força do que um conceito rigoroso. Pesquisa da Johns Hopkins Comparative Nonprofit Sector Project. Um “terceiro” setor, entre Estado e Mercado. • Quais são as organizações que fazem parte do “Terceiro Setor”? Quais suas características? Elementos gerais:. organizações, associativas, voluntárias. • de caráter privado mas com fins públicos • organizações • Associativas • Adesão voluntária • Debate sobre o papel do Estado e o potencial da sociedade civil para sua democratização e reforma. (Estado/Mercado/Sociedade). Privado/Público Definição estrutural/operacional: O Terceiro Setor é constituído de organizações que apresentem, em maior ou menos grau, as seguintes características (SALAMON e ANHEIER, 1992): • formalização, ou seja, que apresentem alguma forma de institucionalização, quer seja pelo registro público de suas atividades, quer seja por outras formas que justifiquem a sua existência formal (reuniões regulares, representantes reconhecidos, ou outras formas de regularidade estrutural); • natureza privada, ou seja, institucionalmente separadas do Estado (organizações não-lucrativas, para este projeto, não são parte do aparato do Estado, nem são dirigidas por conselhos formados majoritariamente por representantes de governos); • não distribuição de lucros, ou seja, se houver excedentes de natureza econômica, estes não podem ser de forma alguma repassados a sócios ou membros, mas revertidos para a própria atividade-fim; • auto-gestão, ou seja, são capazes de controlar a gestão de suas atividades; • participação voluntária quer seja em suas atividades, em sua gestão ou em sua direção. Rubem César Fernandes: privado, porém público “O Terceiro Setor" é composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas pela ênfase na participação voluntária, num âmbito não-governamental, dando continuidade às práticas tradicionais da caridade, da filantropia e do mecenato e expandindo o seu sentido para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil”. Lester Salamon: uma revolução associativa global A “promessa” do Terceiro Setor Na década de noventa, o Terceiro Setor surge como o portador de uma nova e grande promessa: a renovação do espaço público, o resgate da solidariedade e da cidadania, a humanização do capitalismo e, na medida do possível, a superação da pobreza. Uma promessa realizada através de atos simples e fórmulas antigas, como o voluntariado e filantropia, revestidas de uma roupagem mais empresarial. Promete-nos, implicitamente, um mundo onde são deixados para trás os antagonismos e conflitos entre classe e, se quisermos acreditar, promete-nos muito mais. (Falconer, “A promessa do Terceiro Setor”) Não há ações que pretendam a conquista do Estado, mas ações contra o Estado ou em parcerias institucionais. Distanciamento da política. O Estado que corresponde a essa sociedade civil é um Estado mínimo, reduzido às funções de guarda da lei e da segurança, mais liberal e representativo, com elementos democráticos e participativos. A sociedade civil como “terceiro setor” Desdobramento de ordem mais “prática”: a tese da participação, incorporada na linguagem do planejamento e da gestão, redefinindo-a em termos de cooperação com os governos, gerenciamento de crises e implementação de políticas. Sociedade civil: locus privilegiado da participação. Entra no universo gerencial como um espaço evidentemente “neutro”, ocupado por associações não-governamentais, sede de intervenções sociais “privadas” e sem fins lucrativos dedicadas a ativar determinadas causas cívicas ou a auxiliar os governos no combate à questão social. “Terceiro setor”, não é apenas chegar onde o Estado não chega. É uma nova proposta sobre o próprio papel do Estado.