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1 
 
 
 
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL 
 
EDITAL DE CONCURSO PÚBLICO Nº 1/2022/COC/MPMS 
 
PROMOTOR DE JUSTIÇA SUBSTITUTO 
 
 
INFORMAÇÕES DO EDITAL DE ABERTURA QUANTO ÀS PROVAS ESCRITAS 
 
14.2.1 As provas escritas versarão sobre os seguintes grupos de disciplinas: GRUPO I: Direito Constitucional e 
Direitos Humanos; GRUPO II: Direito Penal; GRUPO III: Direito Processual Penal; GRUPO IV: Direito Civil 
e Direito Processual Civil; GRUPO V: Tutela de Interesses Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos; 
GRUPO VI: Direito Administrativo, Direito Eleitoral e Direito Institucional do Ministério Público. 
14.2.2 Os examinadores, durante a correção das provas escritas, além da resposta à questão jurídica formulada, 
avaliarão o domínio correto da norma-padrão da língua portuguesa e das suas estruturas (adequação 
vocabular, ortografia, morfologia, sintaxe e pontuação), bem como a capacidade de exposição do 
pensamento e o poder de argumentação e convencimento dos candidatos. 
14.2.3 Serão considerados aprovados nas provas escritas, os candidatos que obtiverem nota mínima igual ou 
superior a 5,0 (cinco), em cada uma das disciplinas ou grupos, com média geral de 6,0 (seis). 
14.2.6 É vedado ao candidato assinar a prova, escrever seu nome, número de inscrição ou apor qualquer outro 
sinal que possa identificá-lo, sob pena de anulação de sua prova e consequente eliminação do concurso. 
 
 
GRUPO I – DIREITO CONSTITUCIONAL E DIREITOS HUMANOS 
 
 
 GRUPO I – QUESTÃO 1 
 
O chamado direito ao esquecimento pode ser invocado para tutelar os direitos 
fundamentais relativos à honra e à imagem de vítimas de crime de ódio tais como o 
racismo, a homofobia e a xenofobia? 
(Valor da questão: 1,5 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O instituto do Direito ao Esquecimento consiste no poder de obstar, em 
razão da passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos e 
licitamente obtidos e publicados em meios de comunicação social. O instituto 
está intrinsicamente ligado à tutela constitucional do direito à honra e 
imagem, bem como à dignidade das pessoas. 
0,40 
b) O Supremo Tribunal Federal firmou a seguinte Tese (Tema 786): “É 
incompatível com a Constituição Federal a ideia de um direito ao 
esquecimento, assim entendido como o poder de obstar, em razão da 
passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos e licitamente 
obtidos e publicados em meios de comunicação social – analógicos ou 
digitais. (...)” 
0,40 
c) Ainda segundo a Suprema Corte, “eventuais excessos ou abusos no 
exercício da liberdade de expressão e de informação devem ser analisados 
caso a caso, a partir dos parâmetros constitucionais, especialmente os 
relativos à proteção da honra, da imagem, da privacidade e da personalidade 
em geral, e as expressas e específicas previsões legais nos âmbitos penal e 
cível”. Sendo assim, excessos como a exposição exacerbada e até mesmo 
a ridicularização dos envolvidos devem ser coibidos, via tutela jurisdicional, 
sobretudo nos casos de vítimas de crimes de ódio. 
0,40 
2 
 
d) Merece destaque o fato de que alguns princípios e dispositivos 
constitucionais foram sopesados e, de certa maneira, sobrepostos, no 
julgamento do Tema 786, a exemplo dos “arts. 1º, III, 5º, caput, III e X, e 220, 
§ 1º, da CF/88”, tal qual o fizeram, em seus votos, os Ministros Ricardo 
Lewandowski que afirmou que a liberdade de expressão é um direito de 
capital importância, ligado ao exercício das franquias democráticas. No seu 
entendimento, enquanto categoria, o direito ao esquecimento só pode ser 
apurado caso a caso, em uma ponderação de valores, de maneira a sopesar 
qual dos dois direitos fundamentais (a liberdade de expressão ou os direitos 
de personalidade) deve ter prevalência. Ou ainda, o Ministro Luiz Fux, que 
afirmou ser inegável que o direito ao esquecimento é uma decorrência lógica 
do princípio da dignidade da pessoa humana e, quando há confronto entre 
valores constitucionais, é preciso eleger a prevalência de um deles. Para o 
ministro, o direito ao esquecimento pode ser aplicado. Mas, no caso dos 
autos, ele observou que os fatos são notórios e assumiram domínio público, 
tendo sido retratados não apenas no programa televisivo, mas em livros, 
revistas e jornais. Por esse motivo, ele acompanhou o relator pelo 
desprovimento do recurso. 
0,30 
Referência: 
Tema: 0786 Título: Aplicabilidade do direito ao esquecimento na esfera civil quando for 
invocado pela própria vítima ou pelos seus familiares. 
https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/tema.asp?num=786 
 
 
 
GRUPO I – QUESTÃO 2 
 
Analisando o modo de separação de atribuições (competências) entre os entes 
federativos, como é classificado o federalismo no Brasil? 
(Valor da questão: 2 pontos) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O Estado brasileiro é estruturado conforme o modelo tripartite de poderes 
de Montesquieu, e organizado na forma federativa. Como definição de 
Estado Federal, Pinto Ferreira conceitua: "O Estado Federal é uma 
organização formada sob a base de uma repartição de competências entre 
o governo nacional e os governos Estaduais, de sorte que a União tenha 
supremacia sobre os Estados-Membros e estes sejam entidades dotadas de 
autonomia constitucional perante a mesma União". 
A forma federativa de Estado é cláusula pétrea inserta no § 4º do artigo 60 
da Carta Magna. 
Quanto às competências, estas são classificadas quanto ao objeto em 
materiais e legislativas e, no que se refere a repartição destas a doutrina 
identifica o federalismo dual e o cooperativo. 
0,60 
b) No federalismo dual, a separação das atribuições dos entes federativos é 
extremamente rígida, como ocorria nos Estados Unidos em sua origem, 
havendo uma repartição horizontal de competências entre União e Estados, 
inexistindo áreas de atuação comuns ou concorrentes entre os entes. 
Há doutrina que ainda acrescenta o federalismo de integração, que tem como 
característica a sujeição dos Estados federados à União, adotando-se uma 
relação de subordinação entre os entes federados, com o fortalecimento do 
poder central. 
0,30 
c) O modelo brasileiro pode ser classificado como um federalismo 
cooperativo, ao adotar-se a ideia de competências verticais, com exercício 
coordenador das competências. 
0,50 
d) O novo modelo de Federalismo Cooperativo surge com o “Estado do bem-
estar social” ou “Estado Providência”, durante o século XX, com uma atuação 
intervencionista. Nesse modelo, “as atribuições serão exercidas de modo 
comum ou concorrente, estabelecendo-se uma verdadeira aproximação 
entre os entes federativos, que deverão atuar em conjunto. Assim, 
0,30 
3 
 
modernamente, percebe-se, cada vez mais, uma gradativa substituição do 
federalismo dual pelo cooperativo”1 
Segundo Marcelo Novelino, “o federalismo de cooperação estabelece áreas 
de atuações comuns e concorrentes entre as suas entidades, de modo a 
concretizá-las, ao menos idealmente, de maneira satisfatória.”2 
e) Cabe mencionar que o Federalismo de Cooperação brasileiro pode ser 
evidenciado, recentemente, em julgado do Supremo Tribunal Federal (ADI 
6341/DF) em que o STF decidiu pela competência comum dos entes 
federativos a adoção de medidas restritivas, considerando as peculiaridades 
de casa região no enfrentamento à pandemia da COVID 19. 
0,30 
Referência: 
¹ LENZA, Pedro. Direito Constitucional, 2021. Saraiva. P. 670; 
² NOVELINO, Marcelo. Curso de Direito Constitucional, 2018. 13ed. Juspodium. 
 
 
GRUPO I – QUESTÃO 3 
 
Em relação às medidas provisórias, disserte sobre legitimidade, pressupostos 
constitucionais, prazo, eficácia e tramitação. 
(Valor da questão: 1,5 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) As medidas provisórias conferem função atípica ao Poder Executivode 
colaboração. 
Quanto aos critérios para a escolha dos prêmios, o art. 4 § 1º estabelece 
balizas de caráter subjetivo e objetivo, além de requisitos adicionais 
específicos para o acordo de imunidade. 
Personalidade do agente: a crítica que se faz é que a personalidade do 
agente, não pode ser atrelada à primariedade, aos antecedentes, à 
habitualidade criminosa ou à reincidência. As balizas de caráter objetivo 
ajudam a estabelecer um norte que evita o excessivo subjetivismo. 
Referência: 
CARVALHO, Márcio Augusto Friggi. Colaboração premiada aplicada ao procedimento do 
Tribunal do júri. Belo Horizonte: Forum, 2022. 
BARBIEIRO, Diego Roberto. Implantação de malwares em investigações complexas. Curitiba: 
Juruá, 2021. 
Supremo Tribunal Federal (HC 127483/PR, RHC 219193). 
Superior Tribunal de Justiça (AgRg no REsp 1793377/PR), (HC 487962-SC), 
Informativo 650 STJ. 
 
21 
 
 
 
 
GRUPO II – QUESTÃO 7 
 
Como é de conhecimento do candidato(a) ao cargo de Promotor(a) de Justiça 
Substituto(a), a Lei nº 14.133/21 – Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos - 
em seu art. 178, acrescentou ao Código Penal, entre os Crimes contra a Administração 
Pública, onze tipos penais – arts. 337-E a 337-P. Essa mudança legislativa, como 
outras tantas que ocorrem diariamente no Brasil, repercute em sobremaneira na 
atuação funcional dos membros do Ministério Público, pessoas que dedicam suas 
vidas em defesa dos interesses da sociedade. Feito esse registro e, dada as 
consequências jurídicas da nova legislação, responda: 
(Valor da questão: 1 ponto) 
 
a. Como será o tratamento penal dos crimes licitatórios cometidos durante a vigência 
da Lei nº 8.666/93, diante do disposto no art. 191 da Lei nº 14.133/21? (0,25 ponto). 
b. É possível a aplicação das normas penais incriminadoras da Lei nº 8666/93 para os 
fatos passados? Fundamente e exemplifique sob a perspectiva principiológica. 
(0,25 ponto). 
c. A nova lei passou a prever a prática de condutas até então não criminalizadas? 
Quais? (0,25 ponto). 
d. A nova lei é compatível com a aplicação da Justiça Penal Negociada? Fundamente 
e exemplifique. (0,25 ponto). 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
ITEM A: 
- assinalar que os arts. 191 e 193 não têm aplicabilidade na seara criminal; 
- afirmar a revogação dos arts. 89 a 108 da Lei 8666/93, que passaram a 
viger no Capítulo II-B do Código Penal (título XI dos Crimes contra a 
Administração Pública). 
- afirmar que não ocorreu a “abolitio criminis” (art. 2º CP) e fundamentar com 
base na continuidade normativa típica. 
 
a) Como será o tratamento penal dos crimes licitatórios cometidos 
durante a vigência da Lei nº 8.666/93, diante do disposto no art. 191 da 
nº Lei 14.133/21? (0,25 ponto). 
Embora a Lei nº 14133/21, nos arts. 191 e 193, tenha estabelecido um 
regime de transição para aplicação da novel legislação, até o decurso do 
prazo de dois anos, a contar da publicação – a qual se deu em 01.04.2021, 
este dispositivo não abrange as alterações concernentes à tutela penal das 
licitações e dos contratos administrativos. 
Assim sendo, na data da publicação da nova lei, foram revogados os arts. 89 
a 108 da Lei nº 8666/93, passando a viger, na mesma data, o Capítulo II-B 
do Código Penal (Dos crimes em Licitações e contratos Administrativos, 
inserido no Título XI dos Crimes contra a Administração Pública), 
modificando as redações dos tipos penais antigos e adequando as suas 
disposições. 
Quanto aos novos tipos penais anteriormente previstos, tem-se, como regra, 
a incidência da continuidade normativo típica, agora revogadas pela Lei nº 
14133/21. Embora tenha havido a revogação dos crimes da Lei nº 8666/93, 
não significa que tenha ocorrido “abolitio criminis” (art. 2º CP), uma vez que 
não está atrelada ao simples fato de ter ocorrido a revogação de um 
dispositivo penal. Deve ser analisado se há ausência de continuidade do tipo 
de ilícito em confronto com o ordenamento jurídico penal como um todo. 
Destarte, se uma conduta estava prevista no tipo X e este é revogado, mas 
no mesmo momento (sem solução de continuidade) ela segue tipificada no 
novo tipo Y, não houve “abolitio criminis”, mas sim continuidade normativo 
típica. 
0,25 
ITEM B: 0,25 
22 
 
- afirmar a possibilidade de aplicação das normas penais incriminadoras da 
Lei nº 8666/93 para fatos passados; 
- necessidade de aferir a continuidade normativo típico e aplicação da lei 
penal no tempo, para aferir a possibilidade de retroagir (art. 5º XL, CF); 
- estabelecer um paralelo da antiga lei, para a nova legislação, que no geral 
é mais rigorosa. Assim, incidirá o princípio da ultratividade; 
- afirmar que a denúncia pode abranger a lei anterior, conforme 
precedentes e doutrina. 
 
b) É possível a aplicação das normas penais incriminadoras da Lei nº 
8666/93 para os fatos passados? Fundamente e exemplifique sob a 
perspectiva principiológica. (0,25 ponto). 
Sim, é possível. 
Na prática, após reconhecer a incidência do princípio da continuidade 
normativo típica, tem-se ainda, quanto à aplicação da lei penal no tempo, que 
se considerar o rigor penal da norma, de modo a verificar a possível 
retroatividade, conforme o art. 5º, XL, da CF e art. 2º, parágrafo único, do 
Código Penal (a lei não retroagirá, salvo para beneficiar o réu, de forma que 
a lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos 
anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em 
julgado). 
Fazendo a comparação dos tipos penais de ambas as leis (e seus preceitos 
secundários), percebe-se que a continuidade normativa típica veio 
acompanhada de um maior rigor punitivo, não retroagindo para alcançar 
fatos pretéritos. Portanto, para os fatos passados, as normas penais 
incriminadoras da Lei nº 8666/93, serão ultrativas, ou seja, aplicáveis mesmo 
após suas revogações, pois são mais benéficas aos investigados/acusados 
(inclusive para fins de capitulação nas denúncias). 
Vale destacar que todos os crimes da Lei nº 8666/93 eram apenados com 
detenção, o que impedia o início do cumprimento da pena em regime 
fechado. Analisando os tipos penais inseridos pela nova Lei, apenas os arts. 
337-I e 337-J continuam apenados com detenção. Nos demais, portanto, é 
admissível o regime inicial fechado na execução da pena. 
ITEM C: 
- assinalar a transferência dos arts. 337-E a 337-O da Lei nº 8666/93 para 
o Código Penal; 
- afirmar que a nova lei passou a prever o crime de “Omissão grave de dado 
ou de informação para o projetista – art. 337-O do Código Penal; 
- abordar aspectos do novo crime; 
- mencionar a “novatio legis”, a partir de 01.04.21. 
 
c) A nova lei passou a prever a prática de condutas até então não 
criminalizadas? Quais? (0,25 ponto). 
O capítulo II-B foi inserido ao Título XI da Parte Especial do Código pela nova 
Lei de Licitações e Contratos Administrativos, que revogou a Lei nº 8.666/93 
e transferiu para o Código Penal toda a disciplina dos crimes cometidos nos 
processos licitatórios e nos contratos administrativos dele decorrentes. 
Foram inseridos onze tipos penais entre os artigos 337-E e 337-O. 
Do rol de crimes, a Lei nº 14133/21 tipificou uma nova conduta. É a novidade 
legislativa trazida no tipo penal do art. 337-O, denominado pelo legislador de 
“Omissão grave de dado ou de informação pro projetista”. Esse tipo penal é 
de médio potencial ofensivo e tem como bem jurídico tutelado a 
administração pública no aspecto moral, correspondente à isonomia, 
moralidade, competitividade e regularidade do processo licitatório, bem como 
no aspecto material, correspondente à defesa do patrimônio público. 
 
Há portanto, uma “novatio legis” incriminadora, cuja imputação será aplicável 
aos fatos praticados a partir da vigência da lei, em 01 de abril de 2021. 
0,25 
ITEM D: 
- afirmar que há crimes previstos na nova lei que são compatíveis com a 
Justiça Penal negociada; 
- mencionar a transação penal, suspensãocondicional do processo e Acordo 
de Não Persecução Penal (ANPP); 
0,25 
23 
 
- discriminar quais os tipos penais em que é cabível a justiça negociada. 
- mencionar que, para aferição da pena mínima, devem ser consideradas as 
majorantes e minorantes aplicáveis; 
- apontar que a análise caberá ao membro do MP, não se tratando de direito 
subjetivo do autor. 
 
d) A nova lei é compatível com a aplicação da Justiça Penal Negociada? 
Fundamente e exemplifique. (0,25 ponto). 
Sim, pois há crimes previstos na nova lei de licitações e contratos 
administrativos que podem, a depender das circunstâncias do caso concreto, 
dialogar com a justiça negociada. Nesse sentido, destaque-se que os 
seguintes institutos da Justiça Penal Negociada: transação penal, 
suspensão condicional do processo e acordo de não persecução penal 
(ANPPA), respectivamente, previstos na Lei nº 9099/95 (arts. 76 e 89) e no 
CPP, art. 28-A. Referidas disposições estabelecem os requisitos de 
admissibilidade dos institutos. 
Da nova lei, pontua-se os crimes compatíveis com a Justiça Penal 
Negociada: 
A – Art. 337-J (Violação de Sigilo de Licitação). Pela reprimenda, há o 
impedimento da aplicação dos institutos da Lei nº 9099/95. Em tese, admite 
o ANPP, art. 28-A, CPP. 
B – Art. 337-G (Patrocínio de contratação indevida). Pela pena prevista, é 
possível a suspensão condicional do processo e o ANPP, sendo incabível a 
transação. 
C – Art. 337-I (Perturbação de processo licitatório). Pela pena prevista, é 
possível a suspensão condicional do processo e o ANPP, sendo incabível a 
transação. 
D –Art. 337-J (Violação de sigilo em licitação). Pela pena prevista, é possível 
o ANPP, sendo incabível os institutos da Lei nº 9099/95. 
E - Art. 337-M, “caput” (Contratação Inidônea). Pela pena cominada no 
“caput”, em tese, é admitido a suspensão condicional do processo e o ANPP, 
mas não é cabível a transação penal. 
F – Art. 337-N (Impedimento indevido). Em tese, cabível suspensão 
condicional do processo e ANPP. 
 
Ressalte-se que para aferição da pena mínima cominada ao delito serão 
consideradas eventuais majorantes ou minorantes aplicáveis, de modo a 
tornar possível a aplicação do instituto. Consigne-se que o ANPP assemelha-
se aos princípios e postulados básicos da transação penal e da suspensão 
condicional do processo. Assim sendo, o critério de aferição da conveniência 
de oferecer a proposta de acordo, com vistas à prevenção e repressão do 
delito, é tarefa do Ministério Público, na esteira do entendimento do STF, 
conforme a Súmula 696. Logo, o oferecimento de eventual acordo está na 
esfera de prerrogativa institucional do Ministério Público. Ou seja, não se 
trata de direito subjetivo do acusado 
Referência: 
 
GOMES, Luiz Flávio, BIANCHINI, Alice e DAHER, Flávio. Curso de direito penal 1: parte geral. 
Ed. Salvador. Juspodvm, 2016. 
RSConline.com.br. Dos crimes em licitações e contratos administrativos 
 
 
 
GRUPO II – QUESTÃO 8 
 
Suponhamos que, em desdobramento das investigações do GAECO, descortinou-se 
que um agente cometeu os delitos “X” e “Y”, sendo que foi decretada a prisão 
preventiva apenas em razão do delito “Y”, o que ensejou sua segregação provisória por 
2 (dois) anos. Até este interstício, não constava sentença condenatória. Sucede que, 
quanto ao delito “X”, o agente foi condenado à pena de reclusão em regime fechado. 
Posteriormente, o STF anulou o processo que apura o delito “Y”, porém, confirmou a 
condenação pelo delito “X”. Ocorre que, enquanto os autos estavam conclusos no juízo 
criminal para as providências necessárias concernentes às referidas decisões, adveio 
http://rsconline.com.br/
24 
 
uma nova fase da operação conduzida pelo Ministério Público, vindo a lume que aludido 
indivíduo estava praticando o delito “Z”. Dias após, foi formalmente processado pelo 
novo fato criminoso, sendo-lhe decretada a prisão preventiva. Dado o enredo 
apresentado, responda: 
Poderá o condenado ser beneficiado com a detração, já que a prisão cautelar foi 
decretada em processo no qual fora absolvido? Proceda a análise jurídica dos fatos 
apresentados, à luz da doutrina e jurisprudência. 
(Valor da questão: 1 ponto). 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) CONCEITO DETRAÇÃO E JURISPRUDÊNCIA: 
 
a detração é o instituto jurídico mediante o qual computam-se, na pena 
privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão 
provisória no Brasil ou no estrangeiro, o de prisão administrativa e o de 
internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no art. 42 do CP. 
 A jurisprudência do STJ admite a detração do tempo de prisão processual 
ordenada em outro processo em que o sentenciado fora absolvido ou 
declarada a extinção de sua punibilidade, bem como na hipótese em que o 
tempo de custódia cautelar efetivado seja por crime anterior ao período 
pleiteado. (AgRg no HC 541090/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas). 
0,20 
b) ANÁLISE DO CASO CONCRETO E FUNDAMENTOS: 
no caso em comento, a prisão provisória se deu em processo diverso 
daquele cujo delito ensejou a condenação criminal. Como sucedeu a 
absolvição/extinção de punibilidade no processo em que foi cumprido o 
tempo de prisão provisória, poderá ser considerado para fins de detração da 
pena, porquanto a data do cometimento do crime a que se refere a execução 
foi anterior ao período requerido. 
A doutrina pátria defende que somente é permitida a detração por tempo de 
prisão em outro processo, desde que referente a um fato praticado antes do 
início da prisão provisória, evitando-se a formação da indesejada “conta 
corrente” do agente para com o Estado, na qual ele possuiria como “crédito” 
seu tempo de prisão provisória, de modo que poderia, a partir de então, 
praticar impunemente qualquer crime cuja pena não ultrapasse o montante 
de seu “crédito”. 
Ressalte-se que, para que haja detração, os processos devem tramitar 
simultaneamente. Noutro vértice, quando o agente, depois de ter sido 
absolvido e ter cumprido prisão cautelar, comete um crime, e por esse fato 
veio a ser condenado, a pena privativa de liberdade, não poderá ser 
beneficiado pela detração. 
 
0,30 
c) PROVIDÊNCIA DO JUÍZO CRIMINAL: 
assim sendo, o juízo criminal deverá: 
1º) Quanto à condenação definitiva, sem prejuízo da prisão cautelar 
decretada, nos termos do art. 387 § 2º do CPP, o juízo deverá considerar 
para a determinação do regime inicial de cumprimento de pena, o período de 
segregação cautelar relativa ao delito anterior. (AgRg no HC 778674/S0, 5ª 
turma, STJ). 
Obs. § 2º do art. 387 do Código de Processo Penal não versa sobre 
progressão de regime prisional, instituto próprio da execução penal, mas, 
sim, acerca da possibilidade de se estabelecer regime inicial menos severo, 
descontando-se da pena aplicada o tempo de prisão cautelar do acusado. 
Ainda, têm-se que as alterações trazidas pelo diploma legal 
supramencionado não afastaram a competência concorrente do Juízo 
das Execuções para a detração, nos termos do art. 66 da Lei nº 
7.210/1984, sempre que o Magistrado sentenciante não houver adotado tal 
providência. 
2º) o juízo da execução penal deverá reconhecer o cometimento de falta 
grave, decorrente do cometimento de crime cometido no cumprimento da 
pena. Segundo a jurisprudência consolidada do STJ, não é necessário o 
0,30 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 
 
trânsito em julgado de sentença penal condenatória no processo instaurado 
para apuração do fato. (cf. AgRg no HC 744438 / SP, 5ª Turma – 
Jurisprudência em tese STJ – FALTA GRAVE NA EXECUÇÃO PENAL). 
 
 
 
 
d) DEMAIS APONTAMENTOS SOBRE DETRAÇÃO: 
a Terceira Seção desta Corte, ao julgar o REsp n. 1.977.135/SC, na 
sistemática dos recursos especiais representativos de controvérsia, 
assentou as seguintes teses: "4.1. O período de recolhimento obrigatório 
noturno e nos dias de folga, por comprometer o status libertatis do acusado 
deve ser reconhecido como período a ser detraído da pena privativade 
liberdade e da medida de segurança, em homenagem aos princípios da 
proporcionalidade e do non bis in idem. 
Por fim, ressalte-se que, embora haja divergência na doutrina, o STJ não tem 
admitido a detração o cômputo do período de prisão provisória, para fins de 
substituição da pena corporal por restritivas de direitos, porquanto inexiste 
no ordenamento jurídico pátrio qualquer previsão de aplicação da detração 
para fins diversos do estabelecido no art. 387§ 2º, do CPP, isso é, os 
atrelados à possibilidade de abrandamento do regime inicial de resgate da 
reprimenda. (AgRg no AREsp 2123235/RJ). 
A doutrina pátria afirma que há uma omissão legislativa, defendendo a 
possibilidade de interpretação analógica, de modo que o desconto deve 
recair sobre três espécies de penas restritivas de direitos. 
0,20 
Referência: 
 
Superior Tribunal de Justiça 
Direito penal aplicado: parte geral e parte especial do Código Penal – 6 ed. – São Paulo: 
Saraiva. 
Código penal comentado. Celso Delmanto – 9 ed. rev. atual. e ampl. – são Paulo: Saraiva. 
 
 
 
 
GRUPO III – DIREITO PROCESSUAL PENAL 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 1 
 
Quais as consequências da violação da cadeia de custódia? Justifique. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) A cadeia de custódia é um mecanismo que busca garantir a autenticidade 
das evidências coletadas e examinadas. Assim, eventual quebra da cadeia 
de custódia pode resultar na imprestabilidade da prova. Todavia ela não 
implica, obrigatoriamente, inadmissibilidade ou nulidade probatória. Isso 
porque o procedimento visa conferir fidedignidade ao contexto geral da 
prova, mas não é essencial à validade em si do elemento probatório. Além 
disso, a falta de observância de regramentos da cadeia de custódia não pode 
ser confundida com a obtenção ilegal de prova. 
0,50 
b) Desse modo, as irregularidades existentes na cadeia de custódia devem 
ser sopesadas pelo julgador com todo o conjunto probatório, a fim de se 
verificar a confiabilidade da prova. Em suma, a prova não deve ser 
obrigatoriamente descartada pelo magistrado, mas devidamente valorada. 
0,30 
c) Aliás, esta é a posição do STJ, que vem decidindo, ainda, pela 
necessidade de demonstração da existência de prejuízo para que a prova 
seja invalidada (“pas de nullité sans grief”). Impende observar a existência 
de posição minoritária na doutrina que sustenta que a quebra implica na 
inadmissibilidade da prova, aplicando-se as regras de exclusão da prova 
ilícita. 
0,20 
26 
 
Referência: 
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua 
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022. 
CUNHA, Rogério Sanches. Pacote Anticrime Lei 13.964/2019. Salvador: Editora JusPodivm, 
2020. 
DALLAGNOL, Deltan Martinazzo; CÂMARA, Juliana de Azevedo Santa Rosa. A cadeia de 
custódia da prova. In: SALGADO, Daniel de Resende; QUEIROZ, Ronaldo Pinheiro(org.). A 
prova no enfrentamento à macrocriminalidade, 2ª ed. Salvador: Editora JusPodivm, 2016. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no RHC nº 147.885/SP, Rel. Min. Olindo Menezes. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no HC 615.321/PR, Rel. Min. Ribeiro Dantas. 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, HC 574.131/RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no RHC n° 153.823/RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da 
Fonseca. 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, AgRg no RHC nº 145.671/RJ, Rel. Min. Olindo Menezes. 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 2 
 
O Ministério Público apelou da decisão do Tribunal do Júri que absolveu o réu “A” da 
acusação de homicídio e a apelação foi provida. Insatisfeito, “A” contratou novo 
defensor. No segundo julgamento, “A” foi condenado pelo Júri. Três anos depois, seu 
defensor impetrou habeas corpus para que esse segundo julgamento fosse anulado, 
demonstrando ausência de motivação para que o acusado nele permanecesse 
algemado e de intimação pessoal do Defensor Público para o julgamento da apelação 
ministerial. Considerando que essas questões não haviam sido suscitadas 
anteriormente, a ordem deve ser concedida? Explique. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) A ordem não deve ser concedida. No caso de nulidades verificadas no 
curso do julgamento pelo júri, como o uso injustificado de algemas pelo réu 
no curso de sessão de julgamento, em desacordo com a súmula vinculante 
11 do STF, a nulidade deveria ter sido arguida em plenário, logo depois de 
ter ocorrido, nos termos do art. 571, VIII, do CPP, sob pena de preclusão. 
0,30 
b) Quanto à ausência de intimação pessoal do Defensor Público, teria que 
ter sido suscitada, na primeira oportunidade que a Defesa teve, para se 
manifestar nos autos depois de que ela aconteceu, também consoante art. 
571, VII, do CPP. Neste passo, o STF entende que “a não intimação do 
defensor constituído para o julgamento da apelação importa tão-somente na 
supressão da sustentação oral, que não é ato essencial à defesa, tanto assim 
que não é necessária a constituição de advogado dativo para a sua prática, 
na falta do patrono (HC n. 76.970/SP, Relator Min. Maurício Corrêa, DJ de 
20.4.2001). E, mais, a falta de intimação pessoal, quer para o julgamento do 
recurso, quer da publicação do acórdão, configura nulidade sanável, que 
deveria ter sido arguida na primeira oportunidade, pois como dispõe o art. 
571-VIII, do Código de Processo Penal, as nulidades decorrentes do 
julgamento em plenário ou em sessão do tribunal deverão ser arguidas logo 
depois de ocorrerem, sob pena de preclusão. (Precedentes: HC 90.828/RJ, 
Relator Min. Ricardo Lewandowski, Julgamento em 23.10.2007; AI 781.608-
AgR/RS, Relator Min. Ayres Britto, Segunda Turma, Julgamento em 
24.8.2010; HC 94.515/BA, Relatora Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, 
Julgamento em 17.3.2009). 4. Recurso ordinário desprovido” (RHC 107.758, 
Rel. Min. Luiz Fux, DJe 28.9.2011). 
0,30 
c) Em respeito à segurança jurídica e à lealdade processual, as nulidades 
devem ser arguidas em momento oportuno, sujeitando-se à preclusão 
temporal. A promoção e a indicação da nulidade, mesmo que absoluta, não 
pode ficar à mercê da vontade indefinida do interessado, conforme 
jurisprudência do STF e do STJ. Portanto, como as nulidades não foram 
suscitadas no momento oportuno, houve preclusão da matéria e 
0,40 
27 
 
consequente convalidação do vício, razão pela qual a ordem deve ser 
denegada. 
Referência: 
BRASIL, STF, 1ª Turma, HC 112/360/SP, Rel. Min. Cármen Lúcia. 
BRASIL, STF, RHC 107.758, Rel. Min. Luiz Fux. 
BRASIL, STF, HC 96.777, Rel. Min. Joaquim Barbosa. 
BRASIL, STF, RHC 83.770, Rel. Min. Marco Aurélio. 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, AgRg nos Edcl no HC N. 426.402/PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, RHC 78.289/GO, Rel. Min. Ribeiro Dantas. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, HC 463.481/SP, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik. 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, AgRg no HC 446.533/SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no HC 527.449/PR, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik. 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 3 
 
Em que consiste a Teoria do Juízo Aparente? Os Tribunais Superiores admitem a sua 
aplicação aos casos de interceptação telefônica determinada por juiz absolutamente 
incompetente? 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) Segundo a teoria do juízo aparente, não se considera ilícita a prova 
produzida a partir de determinação de juízo incompetente quando as 
circunstâncias indicavam que, à época da decisão, ele era a autoridade 
judiciária competente, situação que veio a se alterar a partir de fatos 
supervenientes à autorização. 
0,45 
b) O STF admite a aplicação da teoria mesmo em casos que envolvam 
investigados investidos de prerrogativa de foro, somente se, quando as 
medidas de caráter probatório foram autorizadas, não fosse possível à 
autoridade judiciáriater condições de saber que a investigação atingia 
alguém com essa prerrogativa. 
0,10 
c) É indispensável prévia autorização judicial para interceptação das 
comunicações telefônicas, a ser concedida pelo juiz competente (art. 5º, XII, 
da CF, e art. 1º, caput, da Lei nº 9.296/96), sob pena de nulidade, exceto nas 
hipóteses de Estado de Defesa e de Estado de Sítio (arts. 136, § 1º, I, ‘c’, e 
139, III, da CF). Todavia, os Tribunais Superiores admitem a aplicação da 
teoria do juízo aparente às hipóteses de interceptação telefônica 
determinadas por juiz incompetente, ainda que a incompetência seja 
absoluta, desde que, quando decretou a medida, os elementos informativos 
até então obtidos indicassem sua competência. 
0,45 
Referência: 
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm, 
2022. 
BRASIL, STF, Tribunal Pleno, HC 81.260/ES, Rel. Min. Sepúlveda Pertence. 
BRASIL, STF, 2ª Turma, HC 110.496/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no Resp 1.492.472/PR, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca. 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, RHC 57.573/RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro. 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 4 
 
Em alegações finais, o réu “A”, processado por tentativa de estupro de vulnerável 
praticada sem violência e grave ameaça, pede que lhe seja concedido acordo de não 
persecução penal, sob a alegação de que preenche os requisitos do art. 28-A do CPP. 
A denúncia foi recebida em 26 de março de 2018. O Promotor de Justiça deve concordar 
com essa pretensão? Justifique. (Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20 
 
 
28 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O Promotor não deve concordar com a pretensão. Conforme art. 28-A do 
CPP, são requisitos do acordo de não persecução penal: 
a) que não se trate de hipótese de arquivamento; 
b) que as infrações penais tenham pena mínima inferior a 4 anos; 
c) que tenham sido cometidas sem violência ou grave ameaça; 
d) que o agente confesse formal e circunstancialmente a prática da 
infração; 
e) que o acordo seja suficiente para reprovação e prevenção do 
 crime. 
0,10 
b) Não é possível celebração de acordo de não persecução penal referente 
a estupro de vulnerável na modalidade tentada, ainda que se cuide de crime 
com pena mínima cominada inferior a 4 anos e que tenha sido cometido sem 
violência real e grave ameaça. 
0,10 
c) Primeiro, o crime foi cometido mediante violência, ainda que ficta, o que 
impede sua celebração, nos termos do art. 28-A do CPP. 
0,30 
d) Além disso, trata-se de delito hediondo (art. 1º, VI, da Lei nº 8072/90) e, 
mesmo que a lei não vede, expressamente, a celebração do acordo de não 
persecução penal nas hipóteses de crimes hediondos ou equiparados, 
certamente o acordo não é suficiente para a reprovação e prevenção do 
crime. 
0,30 
e) Outro argumento que pode ser utilizado para recusa da proposta de 
acordo de não persecução penal é o de que somente é possível que ele seja 
celebrado em relação aos fatos anteriores à entrada em vigor da lei que o 
instituiu (Lei nº 13.964/2019) caso a denúncia ainda não tivesse sido 
recebida – ao contrário do que ocorreu no caso em tela -, conforme decisões 
do STJ e da 1ª Turma do STF, em que pese a questão ainda depender de 
decisão definitiva do Plenário da Suprema Corte (HC 185.913) e de a sua 2ª 
Turma possuir posicionamento dissonante (HC 220249/SP). 
0,20 
Referência: 
REIS, Alexandre Cebrian Araújo; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Processual 
Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2.022. 
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm, 
2022; AVENA, Norberto. Processo Penal, 11ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2.022. 
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua 
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022. 
BRASIL, STF, 1ª Turma, AgRg no HC 191.464/SC, Rel. Min. Roberto Barroso. 
BRASIL, 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, Resp 1.808.389/AM, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, Edcl no AgRg nos Edcl no AREsp 1.681.153/SP, Rel. Min. Felix 
Fischer. 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 5 
 
Quais são as consequências decorrentes da inobservância do prazo nonagesimal para 
revisão da necessidade de manutenção da prisão preventiva? 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 10 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O parágrafo único do art. 316 do CPP estabelece prazo nonagesimal para 
revisão da necessidade da prisão preventiva ao dispor que: “decretada a 
prisão preventiva, deverá o órgão emissor da decisão revisar a necessidade 
de sua manutenção a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão 
fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal”. 
0,05 
b) Esse dispositivo, todavia, não determina a revogação automática da prisão 
preventiva a cada 90 (noventa) dias, mas somente a necessidade de que 
haja nova decisão fundamentando-a periodicamente. 
0,10 
29 
 
c) Ainda, consoante leciona Renato Brasileiro de Lima, “o parágrafo único do 
art. 316 não fala em prorrogação da prisão preventiva, não determina a 
renovação do título cautelar. Apenas dispõe sobre a necessidade de revisão 
dos fundamentos da sua manutenção. Logo, não se cuida de prazo prisional, 
mas prazo fixado para prolação de decisão judicial”. 
0,10 
d) Nesse passo, o Pleno do Supremo Tribunal Federal, ao julgar as ADIs 
6.581 e 6.582, conferiu interpretação conforme a Constituição ao parágrafo 
único do art. 316 do CPP, fixando a tese de que eventual atraso na revisão 
da necessidade da manutenção da prisão preventiva não implica no 
reconhecimento automático da ilegalidade da prisão, tampouco impõe a 
imediata colocação do preso em liberdade, devendo o juízo competente ser 
instado a decidir acerca da legalidade e atualidade dos fundamentos da 
prisão. 
0,40 
e) Além disso, o STF também definiu que o juízo competente para realizar a 
revisão periódica da necessidade e adequação da prisão cautelar é aquele 
no qual estiver tramitando o processo, porém estabeleceu que essa revisão 
deve ocorrer até o final do processo de conhecimento, quando termina a 
análise dos fatos pelo tribunal de 2º grau, portanto, uma vez encerrado o 
julgamento de 2ª instância, a regra prevista no parágrafo único do art. 316 
do CPP não é mais aplicável. 
0,15 
f) Por fim, o STF decidiu que a regra do parágrafo único do art. 316 do CPP 
deve ser aplicada nos processos em que houver previsão de prerrogativa de 
foro. 
0,05 
g) Quanto a réus foragidos, a inobservância do prazo nonagesimal não traz 
nenhuma consequência, pois é desnecessária a revisão periódica. 
0,15 
Referência: 
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm, 
2022. 
BRASIL, STF, Pleno, SL 1.395 MC Ref-SP, Rel. Min. Luiz Fux. 
BRASIL, STF, Pleno, ADI 6581, Rel. Min. Edson Fachin, Rel. do acórdão Min. Alexandre de 
Moraes. 
BRASIL, STF, Pleno, ADI 6582, Rel. Min. Edson Fachin, Rel. do acórdão Min. Alexandre de 
Moraes. 
BRASIL, STJ, 5ª Turma, RHC 153.528, Rel. Min. Ribeiro Dantas. 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 6 
 
“B” foi assaltado enquanto abastecia o automóvel dele em um posto de combustíveis. 
Por meio das imagens do sistema de videomonitoramento do local, a Polícia concluiu 
que o assalto fora praticado por “L”. No curso da investigação policial, a vítima 
reconheceu “L” como sendo aquele que a roubara, porém o reconhecimento ocorreu 
em desacordo com o que determina o art. 226 do Código de Processo Penal. No curso 
da instrução processual, a vítima e dois frentistas afirmaram terem plena certeza de que 
o roubo fora praticado por “L”, enquanto um dos policiais que participou da 
investigação observou que encontrara a carteira da vítima com “L”. Ao julgar a ação 
penal, o magistrado absolveu “L” por insuficiência de provas, sob o fundamento de que 
o reconhecimento não observou a lei, e as demais provas decorreram dele e,portanto, 
eram nulas. Essa decisão é correta? Fundamente. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 25 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) A decisão não é correta, apesar de o reconhecimento de pessoas dever 
observar o procedimento do art. 226 do CPP, cujas formalidades constituem 
garantia mínima do investigado/réu, e de eventual inobservância o tornar 
inválido, de modo que ele não pode ser usado para condenação, mesmo se 
confirmado em juízo. 
0,10 
b) Isso porque a autoria delitiva pode ser comprovada a partir do exame de 
outras provas que não guardem relação de causa e efeito com o ato viciado 
de reconhecimento. 
0,30 
30 
 
c) Aplica-se a teoria ou exceção da fonte independente, segundo a qual 
provas que não guardem relação de dependência, tampouco decorram da 
prova ilícita, não mantendo vínculo casual com ela, são admissíveis, porque 
não contaminadas pela ilicitude originária, inviabilizando a aplicação da 
teoria dos frutos da árvore envenenada (art. 157, § 1º, do CPP). 
0,30 
d) No caso em questão, há provas que não derivam do reconhecimento ilícito 
e que, portanto, não foram por ele maculadas, as quais demonstram 
cabalmente que o acusado praticou o roubo (as imagens do 
videomonitoramento do local onde aconteceu o crime, o depoimento de 
testemunhas presenciais e o testemunho policial de que a carteira roubada 
da vítima foi encontrada com o réu etc.). 
0,30 
 
Referência: 
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm, 
2022. 
REIS, Alexandre Cebrian Araújo; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Processual 
Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2.022. 
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua 
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022. 
BRASIL, STF, 1ª Turma, HC 83.921/RJ, Rel. Min. Eros Grau. 
BRASIL, STF, 2ª Turma, RHC 90.376/RJ, Rel. Min. Celso de Mello. 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, HC 598.886/SC, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz. 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 7 
 
É necessária autorização judicial para que a Polícia ou o Ministério Público acessem o 
conteúdo de celular apreendido com detento no interior de estabelecimento prisional? 
Explique. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) Não há necessidade de prévia autorização judicial. Uma das 
consequências da imposição da prisão é a proibição da comunicação do 
recluso com o ambiente externo por meios diversos daqueles permitidos pela 
lei. Neste passo, ao preso não é assegurado acesso a telefones, tendo direito 
apenas aos meios de comunicação estipulados no artigo 41, XV, da Lei de 
Execuções Penais. 
0,15 
b) Aliás, a Lei de Execução Penal prevê como falta grave a conduta de o 
apenado possuir, utilizar ou fornecer aparelho telefônico ou congênere, além 
de haver outras normas editadas que têm por objetivo coibir o acesso do 
segregado a aparelhos telefônicos, de rádio ou similares, como, por exemplo, 
os crimes descritos nos artigos 349-A e 319-A, do Código Penal. 
0,05 
c) Mesmo no caso de comunicação por intermédio de correspondência 
escrita, permitida legalmente, a Suprema Corte firmou jurisprudência no 
sentido de que, diante da inexistência de liberdades individuais absolutas, é 
possível que a Administração Penitenciária, sem prévia autorização judicial, 
acesse o seu conteúdo quando houver inequívoca suspeita de sua utilização 
como meio para a preparação ou a prática de ilícitos. Isso porque a 
necessidade de se resguardar a segurança, a ordem pública e a disciplina 
prisional, segundo a Corte Suprema, deve prevalecer sobre a reserva 
constitucional de jurisdição. 
0,20 
d) Nesta conjuntura, se é prescindível decisão judicial para a análise do 
conteúdo de correspondência, a fim de preservar interesses sociais e 
garantir a disciplina prisional, com mais razão se revela legítimo, para a 
mesma finalidade, o acesso dos dados e comunicações constantes em 
aparelhos celulares encontrados ilicitamente dentro do estabelecimento 
penal, pois a posse, o uso e o fornecimento do citado objeto são 
expressamente proibidos e inibidos pelo ordenamento jurídico, não gozando 
da proteção constitucional prevista no art. 5º, XII, da CF. 
0,30 
31 
 
e) Deve ser realizada a necessária distinção entre o tratamento dado ao 
acesso ao conteúdo de aparelhos telefônicos apreendidos em meio livre em 
relação àqueles apreendidos no interior de estabelecimentos prisionais na 
posse de presos, não sendo possível falar na inviolabilidade das suas 
comunicações telefônicas, haja vista que foram realizadas de forma ilícita em 
aparelho clandestino, circunstância que afasta a proteção constitucional e 
autoriza o Estado a acessar os dados existentes no aparelho 
independentemente de autorização judicial. 
0,30 
Referência: 
BRASIL, STF, 1ª Turma, HC 70.814, Rel. Min. Celso de Mello. 
BRASIL, STJ, 6ª Turma, HC 546.830/PR, Rel. Min. Laurita Vaz. 
 
 
GRUPO III – QUESTÃO 8 
 
Investigação do Ministério Público comprovou a existência de organização criminosa 
que atua em Campo Grande. Segundo se apurou, o grupo existe desde 2021, é 
comandado por “José” e possui dois núcleos. O primeiro, composto por “João” e 
“Paulo”, dedica-se ao roubo de veículos e é incumbido de guardar as armas de fogo da 
organização, de acordo com as diretrizes emanadas por “José”. O outro habitualmente 
trafica cocaína. Formado por “Sebastião”, que mantém em depósito as cargas de droga 
adquiridas por “José”, e por “Malaquias”, que transporta a droga até o comprador em 
outros Estados da Federação, em compartimentos ocultos preparados nos veículos 
roubados por “João” e “Paulo”. No curso da investigação, “Malaquias” foi preso em 
flagrante enquanto transportava 200 Kg de cocaína, quando passava por Água 
Clara/MS. A investigação findou-se 5 dias atrás. Proponha ação penal em desfavor dos 
investigados em razão dos fatos apurados no procedimento investigatório descrito 
acima. 
(Valor da questão: 3 pontos) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
Peça incorreta (critério para anulação da questão) 0 
a) Endereçamento correto (Juízo Criminal de Campo Grande/MS). 0,20 
b) Qualificação dos denunciados ou menção a ela. 0,10 
c) Narrativa detalhada dos crimes cometidos pelos denunciados, contendo 
todas as suas circunstâncias (indicação de quando e onde os delitos 
ocorreram, descrição dos fatos criminosos praticados, mencionando 
expressamente aqueles que constituem causas de aumento e agravante). 
2,00 
d) Indicação dos dispositivos legais que descrevem os seguintes crimes 
praticados pelos denunciados (classificação dos delitos): 
JOSÉ – incurso no art. 2º, caput e §§ 2º e 3º, da Lei 12.850/2013; e nos arts. 
33, caput, e 35, ambos da Lei 11.343/2006, com a causa de aumento previsto 
no art. 40, V, dessa mesma lei; todos em concurso material de crimes (art. 
69 do CP). 
JOÃO, PAULO, SEBASTIÃO e MALAQUIAS: incursos no art. 2º, caput e § 
2º, da Lei 12.850/2013; e nos arts. 33, caput, e 35, ambos da Lei 
11.343/2006, com a causa de aumento previsto no art. 40, V, dessa mesma 
lei; todos em concurso material de crimes (art. 69 do CP). 
Também serão consideradas corretas as imputações, em concurso material 
com esses delitos já descritos, do art. 157, § 2º, II, e § 2º-A, I, do Código 
Penal, com a agravante do art. 62, II, do CP, c/c art. 29 do CP a JOSÉ; do 
art. 12 da Lei 10.826/2003, com a agravante do art. 62, II, do CP, c/c art. 29 
do CP a José; do art. 157, § 2º, II, e § 2º-A, I, do Código Penal) a JOÃO e 
PAULO; do art. 12 da Lei 10.826/2003 da JOÃO e PAULO; e de receptação 
a MALAQUIAS (art. 180, caput, do CP), desde que tais fatos delituosos 
estejam devidamente narrados no corpo da peça acusatória, com indicação 
de quando e onde aconteceram. 
0,20 
e) Pedido de recebimento da denúncia e do processamento daação pelo rito 
ordinário, bem como de citação dos denunciados para que ofereçam 
0,15 
32 
 
resposta à acusação e da intimação das testemunhas para serem ouvidas 
em juízo. 
f) Indicação de rol de testemunhas. 0,05 
g) Cota com pedido de prisão preventiva dos denunciados. 0,25 
h) Menção à subscrição por membro do Ministério Público na denúncia e na 
cota. 
0,05 
Referência: 
AVENA, Norberto. Processo Penal, 11ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2022. 
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua 
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022. 
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm, 
2022. 
BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Rio de Janeiro: Diário 
Oficial da União, 1940. 
BRASIL. Decreto-lei n° 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Rio de 
Janeiro: Diário Oficial da União, 1941. 
BRASIL. Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003. Dispõe sobre registro, posse e 
comercialização de armas de fogo e munição, sobre o Sistema Nacional de Armas – Sinarm, 
define crimes e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2006. 
BRASIL. Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas 
Públicas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção 
e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão 
à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências. 
Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2006. 
BRASIL. Lei n° 12.850, de 2 de agosto de 2013. Define organização criminosa e dispõe sobre 
a investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o 
procedimento criminal; altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código 
Penal); revoga a Lei nº 9.034, de 3 de maio de 1995; e dá outras providências. Brasília, DF: 
Diário Oficial da União, 2013. 
 
 
GRUPO IV - DIREITO CIVIL E DIREITO PROCESSUAL CIVIL 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 1 
O Ministério Público Estadual distribuiu pedido de instauração de IRDR alegando 
divergência de entendimento do TJMS sobre o tema. O incidente foi admitido e foi 
determinada a suspensão de todos os processos que versavam sobre o tema, contudo 
o incidente foi julgado improcedente pelo colegiado. 
Sobre o IRDR, conforme entendimento da atual jurisprudência do Superior Tribunal de 
Justiça e regras do Código de Processo Civil, explique, fundamentadamente, como o 
Ministério Público Estadual pode se insurgir contra a decisão colegiada. É possível dar 
continuidade ao julgamento dos processos que estavam suspensos antes do trânsito 
em julgado? Fundamente. Explique qual(is) é/são o(s) fundamento(s) principiológicos 
do Incidente de Demanda Repetitivo. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) MARINONI, Luiz Guilherme de et al. Incidente de Resolução de 
Demandas Repetitivas. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 17. 
O incidente de resolução de demandas repetitivas surgiu como meio para 
facilitar e acelerar a resolução de demandas múltiplas, que dependem da 
análise e decisão de uma mesma questão de direito (art. 976, I, do CPC). 
Pretende-se igualmente evitar decisões diferentes para uma mesma 
questão, frisando-se que a instauração do incidente depende de “risco de 
ofensa à isonomia e à segurança jurídica” (art. 976, II, do CPC). 
STRECK, Lenio Luiz. Comentários ao Código de Processo Civil, 2. ed. 
São Paulo: Saraiva, 2017, p. 1313. 
O incidente é técnica processual diferenciada e destinada para a 
litigiosidade repetitiva, que encontra fundamento em três pilares principais, 
0,34 
33 
 
quais sejam: o princípio constitucional da isonomia, que exige o tratamento 
uniforme dos litígios isomórficos, a segurança jurídica, estampada na 
previsibilidade e uniformidade das decisões judiciais e, por fim, a prestação 
jurisdicional em tempo razoável. Tais primados, além de nortearem todo 
ordenamento jurídico processual (como se infere, dentre outros, dos arts. 
1º a 12 do CPC), são a base do incidente ora analisado. 
b) NEVES, Daniel Amorim Assumpção de et al. Manual de Direito 
Processual Civil, 8.ed. Salvador: Jus Podivm, 2016, p. 1418. 
O relator, na condução do incidente, proferirá decisões monocráticas 
interlocutórias, recorríveis por agravo interno, salvo na hipótese de decisão 
que determina a suspensão dos processos individuais e coletivos que 
versem sobre a mesma matéria, porque nesse caso não resta alternativa 
ao relator que não a determinação da suspensão. 
Da decisão que inadmite o incidente não cabe recurso especial, seja pela 
expressa previsão legal do art. 987, caput, do Novo CPC, seja porque não 
haverá o julgamento da “causa” exigida pelo art. 105, III, da CF. Do acórdão 
que julga o incidente no mérito cabe recurso especial e extraordinário. 
De todas as decisões, interlocutórias ou finais, monocráticas ou colegiadas, 
cabe o recurso de embargos de declaração. 
0,33 
c) Segundo o art. 986, caput, do CPC, contra a decisão que julgar o 
incidente caberá recurso especial ou extraordinário, conforme o caso, que 
excepcionalmente terão efeito suspensivo, presumindo-se a repercussão 
geral de questão constitucional discutida (art. 987, 1.º, CPC). Trata-se, à 
evidência, de presunção absoluta de repercussão geral. 
Entendimento do Superior Tribunal de Justiça: 
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO 
ESPECIAL. INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS 
REPETITIVAS. RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS E ESPECIAIS. EFEITO 
SUSPENSIVO. NECESSIDADE DE AGUARDAR O JULGAMENTO DOS 
TRIBUNAIS SUPERIORES. DECISÃO RECORRIDA EM SINTONIA COM 
O ENTENDIMENTO DO STJ. 
1. A decisão proferida pelo Tribunal de origem está em sintonia com o 
entendimento do STJ de que, "interposto REsp ou RE contra o acórdão que 
julgou o IRDR, a suspensão dos processos só cessará com o julgamento 
dos referidos recursos, não sendo necessário, entretanto, aguardar o 
trânsito em julgado" (REsp 1.869.867/SC, Rel. Ministro Og Fernandes, 
Segunda Turma, DJe 3/5/2021). 
2. Agravo Interno não provido. 
(AgInt no AREsp n. 2.142.134/SE, relator Ministro Herman Benjamin, 
Segunda Turma, julgado em 15/12/2022, DJe de 19/12/2022). 
PROCESSO CIVIL. AGRAVO INTERNO. RAZÕES QUE NÃO 
ENFRENTAM O FUNDAMENTO DA DECISÃO AGRAVADA. AUSÊNCIA 
DE IMPUGNAÇÃO DE FUNDAMENTOS AUTÔNOMOS. RECURSO 
REPETITIVO. APLICAÇÃO IMEDIATA DO ENTENDIMENTO. 
POSSIBILIDADE. DESNECESSIDADE DE AGUARDAR TRÂNSITO EM 
JULGADO. 
1. As razões do agravo interno não enfrentam adequadamente o 
fundamento da decisão agravada. 
2. Nos termos da jurisprudência desta Corte Especial, é "dever da parte de 
refutar "em tantos quantos forem os motivos autonomamente considerados" 
para manter os capítulos decisórios do objeto do agravo interno total ou 
parcial (AgInt no AREsp 895.746/SP, relator Ministro Mauro Campbell 
Marques, Segunda Turma, julgado em 9.8.2016, DJe 19.8.2016)" (EREsp 
1424404/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, CORTE ESPECIAL, 
julgado em 20/10/2021, DJe 17/11/2021). 
3. Nos termos da jurisprudência desta Corte, "é desnecessário o trânsito 
em julgado do acórdão proferido em recurso especial representativo da 
controvérsia para que se possa aplicá-lo como precedente em situações 
semelhantes" (AgRg nos EREsp 1323199/PR, Rel. Ministra NANCY 
ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 26/2/2014, DJe 7/3/2014). 
4. Agravo interno a que se nega provimento. 
(AgInt no REsp n. 1.959.632/RJ, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, 
Quarta Turma, julgado em 13/6/2022, DJe de 21/6/2022). 
0,33 
 
34 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 2 
O Ministério Público Estadual, nos autos da ação civil pública por dano ambiental, 
ajuizada contra José do Mato, que desmatou toda a vegetação ciliar de uma parte de um 
rio de sua propriedade rural, recorre de parte da sentença para majorar a multa fixadapor dano ambiental que restou confirmado durante a instrução processual. 
Em julgamento, houve divergência entre os membros do colegiado quanto ao valor da 
multa. 
Nesse cenário, é devida a ampliação do número de julgadores (art. 942, CPC) para o 
julgamento do recurso de apelação? E se forem opostos embargos de declaração, deve 
ser mantida a técnica de ampliação de julgamento para que sejam eles decididos? 
Fundamente. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) NEVES, Daniel Chaves de et al. Novo Código de Processo Civil 
Comentado, artigo por artigo, 3. ed. Salvador, Bahia: JusPodivm, 2018, p. 
1953. 
Art. 942. Quando o resultado da apelação for não unânime, o julgamento terá 
prosseguimento em sessão a ser designada com a presença de outros 
julgadores, que serão convocados nos termos previamente definidos no 
regimento interno, em número suficiente para garantir a possibilidade de 
inversão do resultado inicial, assegurado às partes e a eventuais terceiros o 
direito de sustentar oralmente suas razões perante os novos julgadores. 
§ 1.º Sendo possível, o prosseguimento do julgamento dar-se-á na mesma 
sessão, colhendo-se os votos de outros julgadores que porventura 
componham o órgão colegiado. 
§ 2.º Os julgadores que já tiverem votado poderão rever seus votos por 
ocasião do prosseguimento do julgamento. 
§ 3.º A técnica de julgamento prevista neste artigo aplica-se, igualmente, ao 
julgamento não unânime proferido em: 
I - ação rescisória, quando o resultado for a rescisão da sentença, devendo, 
nesse caso, seu prosseguimento ocorrer em órgão de maior composição 
previsto no regimento interno; 
II - agravo de instrumento, quando houver reforma da decisão que julgar 
parcialmente o mérito. 
§ 4.º Não se aplica o disposto neste artigo ao julgamento: 
I - do incidente de assunção de competência e ao de resolução de demandas 
repetitivas; 
II - da remessa necessária; 
III - não unânime proferido, nos tribunais, pelo plenário ou pela corte 
especial. 
O art. 942, do CPC, criou uma técnica de ampliação do julgamento com 
propósito semelhante ao do recurso de embargos infringentes, porém, com 
natureza incidente processual e não de recurso. 
0,50 
35 
 
Nos termos do caput do artigo 942, do CPC, não sendo unânime o 
julgamento da apelação, o julgamento terá prosseguimento em sessão a ser 
designada com a presença de outros julgadores, a serem convocados nos 
termos previamente definidos no regimento interno, em número suficiente 
para garantir a possibilidade de inversão do resultado inicial, sendo 
assegurado às partes e a eventuais terceiros o direito de sustentar oralmente 
suas razões perante os novos julgadores. 
A técnica de julgamento será adotada independentemente da vontade das 
partes. 
A técnica de ampliação de julgamento prevista no art. 942 do CPC deve ser 
utilizada quando o resultado da apelação for não unânime, 
independentemente de ser julgamento que reforma ou mantém a sentença 
impugnada. Assim, o que importa é que a decisão que julgou a apelação 
tenha sido por maioria (julgamento não unânime), não importando que a 
sentença tenha sido mantida ou reformada. 
Ainda que presentes os requisitos previstos pelo art. 942, caput, e § 3.º, do 
CPC, não se adotará a técnica de julgamento ora analisada em quatro 
situações de julgamento (§ 4.º): (i) do incidente de assunção de competência 
e ao de resolução de demandas repetitivas; (ii) da remessa necessária; e (iii) 
não unânime proferido, nos tribunais, do plenário ou a corte especial. 
b) A técnica de julgamento ampliado do art. 942, do CPC, aplica-se aos 
aclaratórios opostos ao acórdão de apelação quando o voto vencido nascido 
apenas nos embargos for suficiente para alterar o resultado inicial do 
julgamento, independentemente do desfecho não unânime dos declaratórios 
(se rejeitados ou se acolhidos, com ou sem efeito modificativo). STJ. 3.ª 
Turma. REsp 1.786.158-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Marco 
Aurélio Bellizze, julgado em 25/08/2020 (Info 678). 
Em se tratando de aclaratórios opostos a acórdão que julga agravo de 
instrumento, a aplicação da técnica de julgamento ampliado somente 
ocorrerá se os embargos de declaração forem acolhidos para modificar o 
julgamento originário do magistrado de primeiro grau que houver proferido 
decisão parcial de mérito. Quando se tratar de embargos de declaração 
contra acórdão que decidiu agravo de instrumento, só será caso de 
ampliação do colegiado se, ao julgar os embargos declaratórios, o colegiado 
- por maioria - deliberar por reformar decisão de mérito (o que significa dizer 
que se terá, por deliberação não unânime, atribuído efeitos infringentes aos 
embargos de declaração, reformando-se a decisão embargada e, por 
conseguinte, reformando a decisão parcial de mérito prolatada pelo órgão de 
primeira instância. STJ. 3ª Turma. REsp 1.841.584-SP, Rel. Min. Ricardo 
Villas Bôas Cueva, julgado em 10/12/2019 (Info 662). 
Entendimento do Superior Tribunal de Justiça: 
AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. 
PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE USUCAPIÃO. MATÉRIA 
CONSTITUCIONAL. COMPETÊNCIA DO STF. OFENSA AO ART. 1.022 DO 
CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. ACÓRDÃO FUNDAMENTADO. 
AFRONTA AO ART. 942 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. ACÓRDÃO 
RECORRIDO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. 
INCIDÊNCIA DA SÚMULA 83/STJ. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 
1. Não constitui ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015 o fato de o Tribunal de 
origem, embora sem examinar individualmente cada um dos argumentos 
suscitados pelo recorrente, adotar fundamentação contrária à pretensão da 
parte, suficiente para decidir integralmente a controvérsia. 
0,50 
36 
 
2. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que 
"o procedimento do art. 942 do CPC/2015 aplica-se nos embargos de 
declaração opostos ao acórdão de apelação quando o voto vencido 
nascido apenas nos embargos for suficiente para alterar o resultado 
primitivo da apelação, independentemente do desfecho não unânime 
dos declaratórios (se rejeitados ou se acolhidos, com ou sem efeito 
modificativo), em razão do efeito integrativo deste recurso"(REsp 
1.833.497/TO, Relator para o acórdão Ministro Marco Aurélio Bellizze, 
Terceira Turma, DJe de 1º/9/2020). 
3. Estando o acórdão estadual em sintonia com a jurisprudência do STJ, o 
apelo nobre encontra óbice na Súmula 83/STJ, aplicável tanto pela alínea a 
como pela alínea c do permissivo constitucional. 
4. Agravo interno a que se nega provimento. 
(AgInt no AREsp n. 1.728.618/MS, relator Ministro Raul Araújo, Quarta 
Turma, julgado em 26/10/2022, DJe de 17/11/2022). 
 
 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 3 
 
Em caso de suspensão do processo de execução (cujo rol foi ampliado pelo novo 
Código de Processo Civil), o que ocorre com o prazo da prescrição intercorrente? 
Explicite e fundamente. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
 
a) As hipóteses de suspensão do processo de execução estão elencadas 
no art. 921, do CPC. 
As hipóteses anteriores foram mantidas e acrescentadas outras duas 
causas de suspensão da execução: a) quando a alienação não ocorreu por 
falta de licitantes, e b) quando concedido o parcelamento da dívida, na 
forma do art. 916, do CPC. 
Os §§1.º, 2.º, 3.º, 4.º, e 5.º, do art. 921, do CPC, trazem as regras da 
suspensão e do curso do prazo da prescrição intercorrente. 
O Superior Tribunal de Justiça fixou tese no incidente de assunção de 
competência n.º 01, no julgamento do REsp n.º 1.604.412/SC, no sentido 
de que nas demandas regidas pelo Código de Processo Civil de 1973, o 
prazo da prescrição intercorrente tem início depois do decurso do prazo de 
suspensão do processo ou, não havendo prazo fixado judicialmente, após 
o decurso do prazo de 01 (um) ano: 
RECURSO ESPECIAL. INCIDENTE DE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA. 
AÇÃO DE EXECUÇÃODE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. PRESCRIÇÃO 
INTERCORRENTE DA PRETENSÃO EXECUTÓRIA. CABIMENTO. 
TERMO INICIAL. NECESSIDADE DE PRÉVIA INTIMAÇÃO DO CREDOR 
EXEQUENTE. OITIVA DO CREDOR. INEXISTÊNCIA. CONTRADITÓRIO 
DESRESPEITADO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. As teses a serem 
0,50 
37 
 
firmadas, para efeito do art. 947 do CPC/2015 são as seguintes: 1.1 Incide 
a prescrição intercorrente, nas causas regidas pelo CPC/73, quando o 
exequente permanece inerte por prazo superior ao de prescrição do direito 
material vindicado, conforme interpretação extraída do art. 202, parágrafo 
único, do Código Civil de 2002. 1.2 O termo inicial do prazo prescricional, 
na vigência do CPC/1973, conta-se do fim do prazo judicial de suspensão 
do processo ou, inexistindo prazo fixado, do transcurso de um ano 
(aplicação analógica do art. 40, § 2º, da Lei 6.830/1980). 1.3 O termo inicial 
do art. 1.056 do CPC/2015 tem incidência apenas nas hipóteses em que o 
processo se encontrava suspenso na data da entrada em vigor da novel lei 
processual, uma vez que não se pode extrair interpretação que viabilize o 
reinício ou a reabertura de prazo prescricional ocorridos na vigência do 
revogado CPC/1973 (aplicação irretroativa da norma processual). 1.4. O 
contraditório é princípio que deve ser respeitado em todas as manifestações 
do Poder Judiciário, que deve zelar pela sua observância, inclusive nas 
hipóteses de declaração de ofício da prescrição intercorrente, devendo o 
credor ser previamente intimado para opor algum fato impeditivo à 
incidência da prescrição. 2. No caso concreto, a despeito de transcorrido 
mais de uma década após o arquivamento administrativo do processo, não 
houve a intimação da recorrente a assegurar o exercício oportuno do 
contraditório. 3. Recurso especial provido" (STJ, Resp 1604412/SC, Rel. 
Ministro Marco Aurélio Bellizze, Segunda Seção, julgado em 27/06/2018, 
DJe 22/08/2018). 
b) De acordo com a orientação jurisprudencial firmada pelo STJ, o termo 
inicial do prazo prescricional, na vigência do CPC/1973, conta-se do fim do 
prazo judicial de suspensão do processo ou, inexistindo prazo fixado, do 
transcurso de um ano. 
E nos termos do art.921, § 4.º, do CPC, a prescrição intercorrente se iniciará 
a partir da ciência da primeira tentativa infrutífera de localização do devedor 
ou de bens penhoráveis, e será suspensa, por uma única vez, pelo prazo 
máximo de 01 (um ano). 
Entendimento do Superior Tribunal de Justiça: 
CÍVEL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE 
DECLARAÇÃO NO AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE 
DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DE TÍTULO 
EXTRAJUDICIAL. SUSPENSÃO. INEXISTÊNCIA DE BENS. INÉRCIA 
SUPERIOR AO EXERCÍCIO DA PRETENSÃO MATERIAL. PRESCRIÇÃO 
INTERCORRENTE. DECISÃO MANTIDA.1. No julgamento do REsp n. 
1.604.412/SC (IAC n. 1, Relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, DJe 
22/8/2018), ficou definido que, nas causas regidas pelo Código de Processo 
Civil de 1973, como no caso presente, incide a prescrição intercorrente 
quando o exequente permanece inerte por período superior ao de 
prescrição do direito material, a partir do fim do prazo judicial de suspensão 
do processo ou, inexistindo data fixada, do transcurso de 1 (um) ano, por 
aplicação analógica do art. 40, § 2º, da Lei de Execuções Fiscais (Lei n. 
6.830/1980).2. Levando-se em conta os marcos temporais delimitados na 
origem para o exercício da pretensão executória e os limites impostos pelas 
razões do especial, deve-se manter o acórdão que reconheceu a prescrição 
intercorrente, com amparo na jurisprudência desta Corte (art. 255, § 5º, do 
RISTJ).3. Agravo interno a que se nega provimento.(AgInt nos EDcl no 
AgInt nos EDcl no REsp n. 1.311.821/MG, relator Ministro Antonio Carlos 
Ferreira, Quarta Turma, julgado em 8/11/2022, DJe de 24/11/2022.) 
0,50 
 
 
 
 
 
38 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 4 
De acordo com o atual entendimento do Superior Tribunal de Justiça, quando será 
possível a fixação de honorários advocatícios por equidade? Fundamente. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O art. 85, do CPC, estabelece de forma ampla sobre os honorários de 
sucumbência. 
E o § 8.º, do art. 85, do CPC, traz a seguinte regra: 
“Nas causas em que for inestimável ou irrisório o proveito econômico ou, 
ainda, quando o valor da causa for muito baixo, o juiz fixará o valor dos 
honorários por apreciação equitativa, observando o disposto nos incisos do 
§ 2.º.” 
O Superior Tribunal de Justiça, ao julgar os autos dos Recursos Especial 
n.º 1.850.512/SP, 1877883/SP, 1.906.623/SP e 1.906.618/SP – 
representativos da controvérsia eleita pelo Tema 1.076, fixou as seguintes 
teses: 
i) a fixação dos honorários por apreciação equitativa não é permitida quando 
os valores da condenação, da causa ou o proveito econômico da demanda 
forem elevados. É obrigatória nesses casos a observância dos percentuais 
previstos nos §§ 2º ou 3º do artigo 85 do CPC - a depender da presença da 
Fazenda Pública na lide -, os quais serão subsequentemente calculados 
sobre o valor: (a) da condenação; ou (b) do proveito econômico obtido; ou 
(c) do valor atualizado da causa. 
ii) Apenas se admite arbitramento de honorários por equidade quando, 
havendo ou não condenação: (a) o proveito econômico obtido pelo 
vencedor for inestimável ou irrisório; ou (b) o valor da causa for muito baixo. 
0,50 
b) De acordo com o atual entendimento da Corte Superior, os critérios para 
o arbitramento dos honorários tornaram-se mais objetivos com o novo 
Código de Processo Civil, fazendo com que o critério da equidade tenha 
caráter subsidiário e aplicado apenas nas hipóteses legais 
supramencionadas. 
 
O Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que a fixação dos 
honorários por equidade, nos termos do art. 85, § 8.º, do CPC, ocorrerá nos 
casos em que, independentemente da existência da condenação, o proveito 
econômico for irrisório ou inestimável, ou o valor da causa for muito baixo. 
0,50 
 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 5 
A assistência judiciária gratuita é um direito fundamental previsto no art. 5.º, inciso 
LXXIV, da Constituição Federal. Por sua vez, o artigo 98, caput, bem como o artigo 99, 
§§ 2.º e 3.º, ambos do Código de Processo Civil, também tratam do direito à gratuidade 
da justiça. 
Discorra, fundamentadamente, sobre a necessidade ou não de outras provas, além da 
declaração de hipossuficiência, para tal concessão. 
(Valor da questão: 1 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
 
a) A alegação de hipossuficiência financeira possui presunção de 
veracidade, nos moldes do art. 99, do Código de Processo Civil: 
0,50 
39 
 
Art. 99. O pedido de gratuidade da justiça pode ser formulado na petição 
inicial, na contestação, na petição para ingresso de terceiro no processo ou 
em recurso. 
(…) 
§ 3.º Presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida 
exclusivamente por pessoa natural. 
A Constituição da República prevê a assistência jurídica ampla aos que 
comprovarem insuficiência de recursos (art. 5.º, LXXIV), de maneira 
que, para a concessão do benefício, não basta apenas a declaração de 
pobreza, uma vez que tal documento não conduz à presunção absoluta de 
que a parte não possui condições de arcar com as despesas do processo 
sem prejuízo próprio e da família. 
b) A presunção de pobreza, para fins de concessão dos benefícios da 
assistência judiciária gratuita, ostenta caráter relativo, podendo o 
magistrado indeferir o pedido de assistência se encontrar elementos que 
infirmem a hipossuficiência do requerente. 
Entendimento do STJ: 
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE 
DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO DO 
ART. 1.022 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. ASSISTÊNCIA 
JUDICIÁRIA GRATUITA NÃO CONCEDIDA PELO TRIBUNAL DE 
ORIGEM MEDIANTE ANÁLISE DOS ELEMENTOS CONCRETOS 
EXISTENTES NOSAUTOS. INVERSÃO DO JULGADO. INVIABILIDADE. 
REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. SÚMULA 7/STJ. AGRAVO INTERNO 
DO PARTICULAR A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 
1. Inexiste a alegada violação do art. 1.022 do CPC/2015, pois a prestação 
jurisdicional foi dada na medida da pretensão deduzida, conforme se 
depreende da análise do acórdão recorrido. O Tribunal de origem apreciou 
fundamentadamente a controvérsia, não padecendo o julgado de nenhum 
erro, omissão, contradição ou obscuridade. Observa-se, ademais, que 
julgamento diverso do pretendido, como na espécie, não implica ofensa ao 
dispositivo de lei invocado. 
2. No tocante à questão de fundo, o entendimento jurisprudencial desta 
Corte é no sentido de que "a simples declaração de pobreza tem presunção 
juris tantum, bastando, a princípio, o requerimento para que lhe seja 
concedida a assistência judiciária gratuita. 
Todavia, o benefício pode ser indeferido quando o magistrado se 
convencer, com base nos elementos acostados aos autos, de que não se 
trata de hipótese de miserabilidade jurídica" (AgInt no AREsp 1.904.823/SP, 
Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 
21/3/2022, DJe de 25/3/2022). 
3. A leitura do acórdão recorrido revela que o Tribunal de origem 
reconheceu que a renda líquida percebida pela parte agravante justifica o 
indeferimento do benefício pleiteado. Entendimento diverso, conforme 
pretendido, implicaria o reexame do contexto fático-probatório dos autos, 
circunstância que redundaria na formação de novo juízo acerca dos fatos e 
provas, e não na valoração dos critérios jurídicos concernentes à utilização 
da prova e à formação da convicção, o que impede o conhecimento do 
recurso especial quanto ao ponto. Sendo assim, incide no caso a Súmula 7 
do STJ, segundo a qual "a pretensão de simples reexame de prova não 
enseja recurso especial". 
4. Agravo interno do particular a que se nega provimento. 
0,50 
40 
 
(AgInt nos EDcl no AREsp n. 1.745.268/RS, relator Ministro Manoel Erhardt 
(Desembargador Convocado do TRF5), Primeira Turma, julgado em 
15/8/2022, DJe de 17/8/2022). 
 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 6 
Disserte sobre a usucapião de bens imóveis, abordando, discursivamente, acerca: 
(Valor da questão: 1 ponto) 
 
a. Do conceito e natureza jurídica; (0,25 ponto) 
b. Dos requisitos pessoais; (0,25 ponto) 
c. Dos requisitos formais; (0,25 ponto) 
d. Das espécies de usucapião previstas no Código Civil brasileiro, indicando os 
dispositivos legais e respectivos requisitos. (0,25 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 80 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) 1.1 Conceito e natureza jurídica – (0,25) 
FARIAS, Cristiano Chaves de et al. Manual de Direito Civil, Volume 
Único, 7.ed. São Paulo: JusPodivm, 2022, p. 1018. 
A usucapião é modo originário de aquisição de propriedade e de outros 
direitos reais pela posse prolongada da coisa, acrescida de demais 
requisitos legais. O art. 1.238 do Código Civil reafirma a usucapião como 
modo de aquisição de propriedade imobiliária. […] Os modos de aquisição 
da propriedade podem ser originários ou derivados. Originários são assim 
considerados não pelo fato de a titularidade surgir pela primeira vez com o 
proprietário. Em verdade, fundam-se na existência, ou não, de relação 
contratual entre o adquirente e o antigo dono da coisa. A importância da 
distinção entre os modos originário e derivado reside nos efeitos que 
produzem. Se a propriedade é adquirida por modo originário, não há vínculo 
entre a propriedade atual e a anterior, incorporando-se o bem ao patrimônio 
do novo titular e toda a sua plenitude, livre de todos os vícios que a relação 
pregressa apresentava. Todavia, se adquirida a propriedade por modo 
derivado, isto é, pelo registro no ofício imobiliário do título representativo do 
negócio jurídico ou sucessão, transfere-se a coisa com os mesmos 
atributos e restrições (ônus reais e gravames) que possuía no patrimônio 
do transmitente. […] Por isso, a sentença de usucapião secundariamente 
implicará o cancelamento de qualquer registro que se relacione com as 
garantias primitivamente relacionadas a débitos contraídos pelo antigo 
proprietário. Contudo, deverá o usucapiente arcar com os custos 
relacionados aos impostos de propriedade urbana ou rural. Cuida-se de 
ônus que incidem sobre o bem, independentemente da qualidade do 
proprietário. Excepcionalmente, para fins de usucapião rural, o art. 8º da Lei 
nº 6.969/1982 expressamente prevê a imunidade tributária. 
0,25 
b) 1.2. Requisitos pessoais – (0,25). 
FARIAS, Cristiano Chaves de et al. Manual de Direito Civil, Volume 
Único, 7.ed. São Paulo: JusPodivm, 2022, p. 1018-1020. 
0,25 
41 
 
Adverte o art. 1.244 do Código Civil que se estendem aos possuidores as 
causas impeditivas e suspensivas ao curso da prescrição a que aludem os 
arts. 197 a 201 do Código Civil. Por isso, sempre se faz necessário rigoroso 
exame para averiguar se a usucapião está tramitando entre cônjuges, 
companheiros, pais e filhos na constância do poder de família, ou contra os 
absolutamente incapazes a que alude o art. 3° do Código Civil. Aliás, cabe 
destacar que separação de fato cessa impedimento para fluência do prazo 
da usucapião entre cônjuges. A título excepcional, se em princípio pelo 
artigo 197, I, do CC, não corre prescrição entre cônjuges na constância da 
sociedade conjugal, não se aplica tal regra à usucapião familiar (art. 1.240-
A, CC). 
Note-se que é tecnicamente inadequado se falar em incapacidade para 
usucapir bens pertencentes a determinadas pessoas, mas sim de ausência 
de legitimação do possuidor em converter a sua posse em propriedade em 
face da posição de uma pessoa diante de outra. Daí, excetuando-se a 
hipótese alinhavada no art. 1.240-A do Código Civil, ordinariamente não se 
cogita da possibilidade de marido usucapir o imóvel pertencente à esposa 
ou de pai usucapir o imóvel do filho incapaz. Porém, após a dissolução da 
sociedade conjugal e o término do poder de família, inicia-se a contagem 
dos prazos. Da mesma forma, ninguém poderá usucapir um bem de 
titularidade de menor de 16 anos de idade ou de pessoa sob regime de 
curatela. 
Todavia, cessada a incapacidade a que alude o art. 3° do Código Civil, o 
prazo volta a fluir com o aproveitamento do período consolidado antes do 
advento da causa paralisante. [...] 
Questão interessante surge em um condomínio no qual um estranho conclui 
prazo de posse ad usucapionem. Em princípio, a sua posse exclusiva 
eliminará a compropriedade. Todavia, poderá se instalar uma causa 
suspensiva ao curso da prescrição em prol de um dos condôminos. 
Exemplificando, A completa 10 anos de posse e demais requisitos para a 
obtenção da usucapião extraordinária de um imóvel e descobre que quando 
alcançou os sete anos desse período, o proprietário B faleceu e deixou seis 
filhos como herdeiros, sendo um deles um menino de oito anos de idade. 
Em princípio, a alegação da incapacidade absoluta não beneficiará os 
demais comproprietários, pois as hipóteses alinhavadas no Código Civil 
como hábeis a suspender o curso da usucapião possuem natureza 
personalíssima. 
Contudo, como sinaliza o art. 201 do Código Civil, se a obrigação for 
indivisível (v. g., bem imóvel objeto de inventário, por força do art. 1.791 do 
Código Civil), a suspensão da fluência da usucapião - que em princípio 
beneficiaria apenas um dos possuidores - será estendida aos demais 
sucessores, comproprietários de frações ideais. Cessado o motivo 
justificador da paralisação, o prazo voltará a correr de onde parou, contra 
todos os proprietários. A usucapião não será suspensa em face de outros 
condôminos com posses localizadas que não se encontrem na mesma 
hipótese de indivisibilidade do direito à herança, em nada interferindo na 
obtenção da propriedade pelo usucapiente, desde que se trate de bem 
passível de divisão. 
A outro giro, no tocante às causas interruptivas da usucapião,a atuação 
isolada de qualquer comproprietário beneficiará os demais, pois é da 
essência das causas interruptivas a sua natureza objetiva, aproveitando os 
42 
 
demais credores solidários, na exata acepção do art. 204, § 1°, do Código 
Civil. 
Aquela pessoa titular de direito expectativo sobre a aquisição de um bem 
imóvel pode sofrer os efeitos da usucapião? Digo, em se entendendo que 
a cláusula suspensiva opera efeitos ex tunc, estes poderiam se sobrepor à 
aquisição originária que é a usucapião? Sim, o titular de direito expectativo 
pode sofrer os efeitos de usucapião. Não obstante carecedor de 
propriedade na pendência de condição suspensiva, pelo art. 130 do Código 
Civil, possui legitimidade para a prática de atos conservatórios de seu direito 
eventual. Sendo assim, ao não ajuizar uma demanda no sentido de 
interromper o prazo de usucapião (para suprir a omissão do proprietário), 
culminará por sofrer os efeitos da perda da propriedade. Ademais, a 
aquisição superveniente da propriedade pela verificação da condição 
suspensiva não enseja a ineficácia da usucapião, pois o efeito ex tunc só 
opera perante eventuais adquirentes por modo derivado (v.g., registro), o 
que não é o caso do modo originário da usucapião, na qual o possuidor 
obteve a titularidade sem travar qualquer relação jurídica com o proprietário 
primevo. 
c) 1.3. Requisitos formais – (0,25) 
FARIAS, Cristiano Chaves de et al. Manual de Direito Civil, Volume 
Único, 7.ed. São Paulo: JusPodivm, 2022, p. 1022. 
Três são essenciais a qualquer modalidade de usucapião em nosso 
ordenamento jurídico: o tempo, a posse mansa e pacífica e o animus 
domini. Acresça-se a estes os requisitos suplementares do justo título e da 
boa-fé, tratando-se de usucapião ordinária; o requisito da moradia na 
usucapião especial e, associado a esta, o requisito do trabalho na 
usucapião rural, além dos requisitos próprios de cada espécie de 
usucapião: familiar, indígena, coletiva e por legitimação por posse. Cabe 
registrar que a ação de usucapião não está condicionada à negativa do 
pedido na via extrajudicial (STJ, REsp 1.824.133). 
0,25 
d) 1.4. Espécies de usucapião previstas no Código Civil Brasileiro – (0,25) 
NETTO, Felipe Braga, ROSENVALD, Nelson. Código Civil comentado, 
2.ed. Salvador, Juspodivm, 2021, p. 1246-1268. 
Usucapião extraordinária: art. 1.238 e parágrafo único do Código Civil. 
Requisitos: 
a) prazo de quinze anos, ininterruptos, sem oposição e com ânimo de dono; 
e, 
b) prazo de dez anos, ininterruptos, sem oposição e com ânimo de dono, 
em caso de utilização do imóvel para moradia habitual ou nela tenha 
realizado obras ou serviços de caráter produtivo. 
Usucapião rural:art. 1.239 do Código Civil. 
Requisitos: 
a) prazo de cinco anos, ininterruptos e sem oposição; 
b) área rural de no máximo cinquenta hectares; 
c) utilização para moradia; 
d) exercício de atividade produtiva por trabalho próprio ou familiar; 
e) não ser proprietário de outro imóvel rural ou urbano. 
Usucapião especial urbana: art. 1.240, §§ 1º e 2º, do Código Civil. 
0,25 
43 
 
Requisitos: 
a) prazo de cinco anos, ininterruptos e sem oposição; 
b) área urbana de no máximo duzentos e cinquenta metros quadrados; 
c) utilização para moradia própria ou de sua família; 
d) não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural; 
e) não ter sido reconhecido anteriormente esta modalidade de usucapião 
ao mesmo possuidor. 
Usucapião especial familiar: art. 1.240-A do Código Civil 
Requisitos: 
a) prazo de dois anos, ininterruptos e sem oposição; 
b) posse direta e com exclusividade; 
c) imóvel urbano de no máximo duzentos e cinquenta metros quadrados; 
d) posse dividida com ex-cônjuge ou ex-companheiro que abandonou o lar; 
e) utilização para moradia própria ou familiar; 
f) não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural; 
g) não ter sido reconhecido anteriormente esta modalidade de usucapião 
ao possuidor. 
Usucapião ordinária: art. 1.242 e parágrafo único do Código Civil. 
Requisitos: 
a) prazo de dez anos, ininterruptos e sem oposição, com justo título e boa-
fé; e, 
b) prazo de cinco anos, aquisição onerosa e com registro posteriormente 
cancelado; 
c) utilização do imóvel para moradia ou tenha realizado investimento de 
interesse social ou econômico. 
 
 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 7 
 
Disserte sobre o abuso de direito, abordando, discursivamente, acerca: 
(Valor da questão: 1 ponto) 
 
a. Da natureza jurídica; (0,25 ponto) 
b. Da distinção entre boa-fé subjetiva e boa-fé objetiva; (0,25 ponto) 
c. Da análise comparativa entre os art. 186 e 187 do Código Civil; (0,25 ponto) 
d. Da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça sobre o assédio processual. 
(0,25 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 80 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) 2. Natureza jurídica – (0,25) 
LAUTENSCHLÄGER, Milton Flávio de A. C. Abuso de direito. 
Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, 
Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: 
Direito Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup 
(coord. de tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica 
de São Paulo, 2021. Disponível em: 
0,25 
44 
 
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-2/abuso-
de-direito. Acesso em: 17 fev. 2023. 
[...] 
5. A natureza jurídica do abuso do direito 
A análise das diversas teorias desenvolvidas para a identificação criteriosa 
do abuso do direito serve, ainda, para dedução dos seus traços 
característicos. 
O abuso do direito é, antes de tudo, um ato humano, ou seja, um ato 
proveniente da atividade humana com repercussão no âmbito do direito. 
Os assim chamados atos humanos podem, contudo, ser praticados em 
conformidade ou desconformidade com o prescrito pelo ordenamento 
jurídico. Nessa segunda hipótese, os atos humanos que carecem de 
liceidade são chamados atos ilícitos. 
Parte da doutrina reluta em classificar o abuso do direito como uma das 
espécies de ato ilícito. Sílvio de Salvo Venosa, na confessada esteira de 
Limongi França, preconiza que não se deve colocar o abuso do direito na 
categoria dos atos ilícitos. Para ele, o instituto encontra-se a meio caminho, 
ou seja, “consiste em um ato jurídico de objeto lícito, mas cujo exercício 
levado a efeito sem a devida regularidade, acarreta um resultado que se 
considera ilícito”. 
Há autores, ainda, que, influenciados pela redação do art. 160, I, do Código 
Civil de 1916, situam o abuso do direito no plano da ilicitude, mas sem 
confundi-lo com o ato ilícito. Cuidam-no como “categoria autônoma da 
antijuridicidade”. Nesse sentido, Heloísa Carpena ressalta que enquanto os 
atos ilícitos ultrapassam os “limites lógicos-formais” da ordem jurídica, os 
atos abusivos ultrapassam os limites “axiológicos-materiais”, o que 
justificaria a distinção. 
Com o devido respeito, essa não nos parece a melhor orientação, nem 
mesmo sob a égide do Código de 1916. O art. 160, I, do citado Codex, ao 
indicar o “exercício regular de um direito reconhecido” como excludente do 
ilícito, a contrario sensu, reconhece que o exercício irregular não é 
excludente e, portanto, é um ato ilícito. 
De qualquer forma, o Código Civil de 2002 adotou fórmula expressa para 
definir o abuso do direito e incluí-lo na categoria dos atos ilícitos (“Art. 187 
- Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede 
manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela 
boa-fé ou pelos bons costumes”). 
A consagração nesse contexto é tão evidente, que há pouca ou nenhuma 
margem para discussões acerca da real natureza jurídica do instituto, assim 
definida pelo próprio legislador. A verdade é que, no caso concreto, 
ultrapassados os “limites lógicos-formais” ou os limites “axiológicos-
materiais” da ordem jurídica, estar-se-á diante de um ato ilícito. 
b) 2. Distinção entre boa-fé subjetiva e boa-fé objetiva – (0,25)que, 
pelo instrumento com força de lei, podem, de certa forma, respeitadas 
inúmeras condições. 
Têm legitimidade para editar medida provisória, exclusivamente, os Chefes 
de Poder Executivo. Essa competência exclusiva é também indelegável 
segundo art. 84, XXVI, da CF. Os pressupostos constitucionais são 
relevância e urgência. A Medida provisória não pode tratar de qualquer 
matéria, em virtude da existência de limitações constitucionais à sua edição, 
com fulcro no artigo 62, §1º, da CF. 
0,40 
b) O prazo é estipulado pelo 62, §7º, da CF, como de 60 dias, prorrogáveis 
uma vez por igual período. Nos termos do art. 62, § 4.º, contudo, referido 
prazo será suspenso durante os períodos de recesso parlamentar. Porém, 
caso haja convocação extraordinária, havendo medida provisórias em vigor 
na data de sua convocação, serão elas automaticamente incluídas na pauta 
(artigo 57, §8º, CF). 
0,30 
c) Possui eficácia desde sua edição e, segundo Pedro Lenza: “o art. 62, § 
3.º, da CF/88 estabelece que as medidas provisórias, ressalvado o disposto 
nos §§ 11 e 12, perderão eficácia, desde a edição, se não forem convertidas 
em lei no prazo de 60 dias, prorrogável, nos termos do § 7.º, uma vez por 
igual período (novos 60 dias), devendo o Congresso Nacional disciplinar, por 
decreto legislativo, as relações jurídicas delas decorrentes”.3 Operando o 
efeito ex tunc. 
Porém, caso não seja editado o decreto legislativo pelo Congresso Nacional, 
o Ministro Marco Aurelio denomina de “efeito do retorno envergonhado”, ou 
seja, a ausência de declaração de decreto legislativo no prazo de 60 dias 
após rejeição tácita ou expressa da Medida Provisória gera efeito ex nunc. 
0,40 
d) Após a edição da Medida Provisória pelo Presidente da República, esta 
será submetida ao Congresso Nacional, cabendo a uma Comissão Mista de 
Deputados e Senadores examiná-la e emitir parecer, apreciando os aspectos 
constitucionais (incluindo relevância e urgência) e de mérito, bem como 
adequação financeira e orçamentária, além de “e o cumprimento, pelo 
Presidente da República, da exigência contida no art. 2.º, § 1.º, da Res. n. 
1/2002-CN, qual seja, no dia da publicação da MP no DOU ter enviado o seu 
0,40 
 
 
 
 
4 
 
texto ao Congresso Nacional, acompanhado da respectiva mensagem e de 
documento expondo a motivação do ato”. (artigo 65, §§5º e 9º, CF). 
Após o parecer da comissão mista, haverá apreciação pelo plenária de cada 
casa legislativa, ocorrendo o processo de votação separado, tendo início na 
Câmara dos Deputados, seguido da Casa Revisora, o Senado Federal. 
Referência: 
³ LENZA, Pedro. Direito Constitucional, 2021. Ed. Saraiva. P. 977. 
 
 
GRUPO I – QUESTÃO 4 
 
Sobre o Sistema Difuso do Controle de Constitucionalidade, sabe-se que este tem como 
principal característica a existência de partes litigantes acerca de determinado objeto 
cuja declaração de inconstitucionalidade é sempre incidental e inter partes. Nesta 
senda, discorra sobre a retroatividade da decisão que declara a inconstitucionalidade 
de alguma lei ou ato normativo, bem como seus efeitos práticos. 
(Valor da questão: 2 pontos) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O controle difuso de constitucionalidade, possibilita que a qualquer 
magistrado tribunal analisar de maneira incidental no caso concreto, a 
compatibilidade de uma lei ou ato normativo perante a Constituição 
A retroatividade da decisão de inconstitucionalidade no controle difuso é 
característica marcante desse sistema, já que, via de regra, não se pode 
admitir a inconstitucionalidade de determinada lei sem que seja atingida a 
relação jurídica desde sua origem. Cumpre destacar que, excepcionalmente, 
nos casos de relevante interesse social e de se conferir maior segurança 
jurídica, o STF entende pela possibilidade de modulação dos efeitos da 
decisão no controle difuso de constitucionalidade, podendo ser conferido a 
esta efeitos prospectivos. 
0,60 
b) Neste sentido, as doutrinas de Calil Simão em “Elementos do sistema de 
controle de constitucionalidade” e Oswaldo Luiz Palu em “Controle de 
Constitucionalidade” podem ser citadas. 
0,40 
c) Há que se destacar que não há efeito retroativo no caso de o Senado 
Federal editar resolução erga omnes suspendendo a eficácia, no todo ou em 
parte, de lei declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, caso 
existente no Brasil (art. 52, X da Constituição brasileira). 
0,50 
d) Contudo, o STF vem relativizando a eficácia inter partes da 
inconstitucionalidade havida pelo controle difuso, dando nova interpretação 
na qual dispõe que, quando o STF declara uma lei inconstitucional, mesmo 
em sede de controle difuso, a decisão já tem efeito vinculante e erga omnes 
tendo o STF apenas que comunicar ao Senado Federal com o objetivo de 
que a casa legislativa dê publicidade ao que foi decidido (Rcl 4.335) 
0,50 
Referência: 
Supremo Tribunal Federal - voto do rel. min. Gilmar Mendes, j. 20-3-2014, P, DJE de 22-10-
2014; 
CALIL, Simão - Elementos do Sistema de Controle de Constitucionalidade. Ed. Saraiva. 2014; 
Oswaldo Luiz Palu - Controle de Constitucionalidade. Ed. Revista dos Tribunais. 1999. 
 
 
GRUPO I – QUESTÃO 5 
 
Quais mecanismos dispõe o Ministério Público para assegurar efetividade nas políticas 
públicas de Estado no que concerne ao direito à moradia garantida pela Constituição 
Federal de 1988? 
(Valor da questão: 1,5 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 
 
5 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) Garantia constitucional, o direito à moradia foi introduzido no rol dos 
direitos sociais dispostos no artigo 6º da Constituição Federal de 1988 pela 
Emenda Constitucional nº 26 de 2000. 
Esse direito fundamental foi reconhecido em plano internacional em 1948 
pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e também em 1966 pelo 
Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, tornando-se 
um direito humano universal, aceito e aplicável em todas as partes do mundo 
como um dos direitos fundamentais para a vida das pessoas. 
0,30 
b) O Ministério Público, na condição de verdadeiro Ombudsman, sendo 
instituição incumbida da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e 
dos direitos sociais e individuais indisponíveis, dispõe de medidas 
essencialmente fiscalizatórias e propositivas para garantir o direito à 
moradia. 
Enquanto medidas propositivas, podemos elencar as extrajudiciais 
concernentes ao MP Resolutivo, como expedição de recomendações, 
termos de ajustamento de conduta, inquérito civil, realização de audiências 
públicas, entre outras, e as judicias, como ação civil pública, mandado de 
segurança coletivo, entre outras. 
0,30 
c) Medidas adequadas a serem adotadas pelo Ministério Público são no 
sentido de se encorajar e fiscalizar para que os entes federativos formulem 
e implementem seus planos de habitação de interesse social; no 
acompanhamento, identificação, prevenção e repressão aos atos ou 
omissões dos Poderes Públicos que importem violação aos direitos humanos 
fundamentais das populações vulneráveis sujeitas à desocupação forçada 
dos locais onde exercem moradia; na intervenção em demanda, seja judicial 
ou extrajudicial, relativa a conflitos fundiários e/ou possessórios que possam 
resultar em “desabrigamento” de pessoas vulneráveis. 
0,50 
d) No contexto das políticas públicas dos entes federativos a serem 
fiscalizadas e com implementação incentivada pelo Ministério Público, 
destacam-se as disposições do artigo 23, IX e X, do artigo 30, VIII. e do artigo 
182, da Constituição Federal; do artigo 4º, III, f, e do artigo 44 da Lei 
10.257/2001 (Estatuto das Cidades); da Lei Federal 13.465, de 2017 
(REURB); do artigo 48, parágrafo único, da Lei Complementar n. 101/2000 
(Lei de Responsabilidade Fiscal); e, da Lei 11.124/2005. 
0,40 
Referência: 
Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948; Decreto 
nºLAUTENSCHLÄGER, Milton Flávio de A. C. Abuso de direito. 
Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, 
Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: 
Direito Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup 
(coord. de tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica 
de São Paulo, 2021. Disponível 
0,25 
45 
 
em: https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-
2/abuso-de-direito. Acesso em: 17 fev. 2023. 
[...] 
4.1. A boa-fé objetiva 
O primeiro passo para compreender o princípio da boa-fé é distinguir a boa-
fé subjetiva da boa-fé objetiva. 
Boa-fé subjetiva (ou o “agir de boa-fé”) expressa um estado de fato, um 
estado subjetivo decorrente do conhecimento de certas circunstâncias, cuja 
constatação traz consequências legais (a posse de boa-fé, mais o decurso 
do tempo, pode gerar a aquisição da propriedade, por usucapião). Por outro 
lado, a boa-fé objetiva se apresenta como um modelo jurídico, impondo às 
pessoas um comportamento honesto, correto e leal, principalmente em 
função dos interesses do outro, visto como um membro do conjunto social, 
que é juridicamente tutelado. 
Vale notar, a esse propósito, que o conteúdo da boa-fé objetiva não pode 
ser rigidamente fixado, dependendo sempre das concretas circunstâncias 
do caso. Trata-se de solução jurídica, e não só de cunho moral, uma vez 
que remete e submete a solução do caso concreto “à estrutura, às normas 
e aos modelos do sistema, considerado este de modo aberto”. 
Ademais, o princípio da boa-fé conjuga-se com outros princípios, 
postulados normativos, diretrizes, presunções e regras jurídicas, a 
depender dos campos em que atua. Nas relações obrigacionais 
“puramente” civis, por exemplo, o princípio da boa-fé conjuga-se com o 
princípio da autonomia privada, com o da autorresponsabilidade 
(contrapartida da autonomia privada) e com o dever de cooperação, 
resultando em um sentido ético prevalente na relação interindividual. Já nas 
relações contratuais interempresariais, a boa-fé objetiva se relaciona com 
o princípio da confiança (seja a confiança como confiabilidade, seja a 
confiança como credibilidade, seja como estado psicológico de crença 
legítima ou mesmo como previsibilidade necessária para o cálculo do 
investidor, sócio ou empresário) e com o princípio da liberdade de iniciativa 
econômica (o chamado “dinamismo do mercado”), criando para os sujeitos 
de uma relação obrigacional “uma ordem envolvente de condutas que 
imanta a conduta negocial, a mensura e a direciona aos valores da 
probidade, honestidade e lealdade próprios de um civiliter agere”. 
Essa “ordem envolvente” se refere ao campo onde a relação obrigacional 
incide, harmonizando-se com outros elementos normativos e fáticos. Vale 
dizer, os deveres decorrentes da lealdade e da boa-fé não se manifestam 
sempre os mesmos, e do mesmo modo. Eles são ordenados em graus de 
intensidade que variam conforme a categoria dos atos jurídicos a que se 
ligam, bem como de acordo com as fases e os planos da relação 
obrigacional (abrangendo desde a fase das tratativas negociais até a fase 
pós-contratual, e discernindo-se entre a boa-fé contratual e a boa-fé 
extracontratual). Por outro lado, as consequências da infração à boa-fé 
dependem da situação, do tipo de dever violado, do momento e do modo 
como foi violado (há efeitos indenizatórios, resolutivos e invalidantes). 
Seja qual for a regulação jurídica subjacente, à boa-fé objetiva são 
imputadas, tradicionalmente, três distintas funções, muito bem resumidas 
por Judith Martins-Costa: a de “cânone hermenêutico-integrativo do 
contrato” (art. 113 do Código Civil brasileiro), a de “norma de criação de 
deveres jurídicos” (art. 422 do Código Civil brasileiro) e a de “norma de 
limitação ao exercício de direitos subjetivos” (art. 187 do Código Civil 
brasileiro). 
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-2/abuso-de-direito
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-2/abuso-de-direito
46 
 
Na função hermenêutica, a boa-fé atua como cânone de interpretação das 
cláusulas e do comportamento contratual, exigindo, por exemplo, coerência 
no comportamento contratual, de modo que o comportamento posterior das 
partes seja recolhido como meio auxiliar de interpretação do significado da 
declaração negocial. 
Na função de cânone integrativo do contrato, a boa-fé objetiva destina-se 
ao preenchimento de lacunas presentes nas relações contratuais, 
decorrentes de situações ou eventos nem sempre previstos ou previsíveis 
pelos contratantes. Nessas hipóteses, resta ao juiz tornar concreto o 
mandamento de respeito à recíproca confiança incumbente às partes 
contratantes, não permitindo que o contrato, como regulação objetiva 
dotada de um específico sentido, atinja finalidade oposta ou contrária 
àquela que, razoavelmente, à vista de seu escopo econômico-social, seria 
lícito esperar. Para tanto, se necessário for, deve o juiz impor outros deveres 
às partes, que não se confundem com as obrigações principais nem com 
as que lhes são meramente anexas, ou acessórias. 
Ingressamos, então, na segunda função reservada à boa-fé objetiva, qual 
seja a criação dos chamados deveres instrumentais, secundários, laterais 
ou anexos. 
Entre os deveres com tais características, Judith Martins-Costa cita, como 
exemplos: “a) os deveres de cuidado, previdência e segurança, como o 
dever do depositário de não apenas guardar a coisa, mas também de bem 
acondicionar o objeto deixado em depósito; b) os deveres de aviso e 
esclarecimento, como o do advogado, de aconselhar o seu cliente acerca 
das melhores possibilidades de cada via judicial passível de escolha para a 
satisfação de seu desideratum, o do consultor financeiro, de avisar a 
contraparte sobre os riscos que corre, ou o do médico, de esclarecer o 
paciente sobre a relação custo/benefício do tratamento escolhido, ou dos 
efeitos colaterais do medicamento indicado, ou ainda, na fase pré-
contratual, o do sujeito que entra em negociações, de avisar o futuro 
contratante sobre os fatos que podem ter relevo na formação da declaração 
negocial; c) os deveres de informação, de exponencial relevância no âmbito 
das relações jurídicas de consumo, seja por expressa disposição legal 
(CDC, arts. 12, in fine, 14, 18, 20, 30 e 31, entre outros), seja em atenção 
ao mandamento da boa –fé objetiva; d) o dever de prestar contas, que 
incumbe aos gestores e mandatários, sentido amplo; e) os deveres de 
colaboração e cooperação, como o de elaborar o correto adimplemento da 
prestação principal, ao qual se liga, pela negativa, o de não dificultar o 
pagamento, por parte do devedor; f) os deveres de proteção e cuidado com 
a pessoa e o patrimônio da contraparte, como, v.g., o dever do proprietário 
de uma sala de espetáculos ou de um estabelecimento comercial de 
planejar arquitetonicamente o prédio, a fim de diminuir os riscos de 
acidentes; g) os deveres de omissão e de segredo, como o dever de 
guardar sigilo sobre atos ou fatos dos quais se teve conhecimento em razão 
do contrato ou de negociações preliminares, pagamento por parte do 
devedor etc.”. 
Os deveres instrumentais são concretizados, pois, a partir da “adoção de 
determinados comportamentos”, impostos pela boa-fé, tendo em vista a 
finalidade do contrato e a relação de objetiva confiança que ele fundamenta. 
Mas não é só. A boa-fé objetiva pode funcionar, ainda, como limitador de 
direitos subjetivos. Explica-se. 
A função de criar deveres para uma das partes, ou para ambas, pode ter, 
correlativamente, a função de limitar ou restringir direitos. Assim, a boa-fé 
pode atuar no controle do próprio exercício jurídico, de modo a evitar 
condutas oportunistas, deslealmente contraditórias ou disfuncionais. A 
47 
 
vedação ao comportamento contraditório desleal, o adimplemento 
substancial do contrato, o abuso do direito, dentre outros, são exemplos de 
institutos usados para esse fim. 
c) 3. Análise comparativa entre os art. 186 e 187do Código Civil – (0,25) 
NETTO, Felipe Braga. Código Civil comentado, 2.ed. Salvador, 
Juspodivm, 2021. p. 298-299. 
O art. 187 tem suporte fático distinto do art. 186. A culpa e o dano são 
necessários apenas para a incidência do art. 186. A respeito do abuso de 
direito, consagrado no art. 187 do Código Civil, Barbosa Moreira é bastante 
claro: “Se assim não fosse – isto é, se para a configuração do abuso de 
direito tivessem de concorrer os pressupostos do art. 186 – tornar-se-ia 
inútil o art. 187. Haveria, não equiparação, mas identificação”, ou melhor – 
continua – “subsunção da figura do abuso de direito na do ato ilícito 
segundo o art. 186 (BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Abuso de Direito. 
Revista Trimestral de Direito Civil, v. 13, 97-110, jan/mar, 2003). Aguiar 
Dias, por sua vez, é incisivo ao dizer que o abuso de direito, “sob pena de 
se desfazer em mera expressão de fantasia, não pode ser assimilado à 
noção de culpa. Inócua, ou de fundo simplesmente especulativo, seria a 
distinção, uma vez que por invocação aos princípios da culpa se teria a 
reparação do dano por ele causado (DIAS, Aguiar. Da Responsabilidade 
Civil. Rio de Janeiro: Forense, p. 539, n. 184). […] 
Em outras palavras: o dano só é necessário à incidência do art. 186 do 
Código Civil, não do art. 187. Para que haja responsabilidade civil, o dano 
se faz imprescindível. Acontece que nem sempre a sanção relativa ao 
abuso de direito é a responsabilidade civil. Outras sanções, que não o dever 
de indenizar (responsabilidade civil), podem resultar do abuso de direito. 
Convém repetir: para que o art. 186 incida, é necessário, além da culpa, o 
dano. Sem dano não há ilícito civil de acordo com o art. 186. Aliás, como 
acima frisado, nenhuma forma de responsabilidade civil, nem mesmo a que 
provém de atos lícitos, pode ter lugar sem que haja dano. O dano é 
elemento fundamental da responsabilidade civil (MULHOLLAND, Caitlin 
Sampaio. A responsabilidade civil por presunção de causalidade. Rio 
de Janeiro: GZ, 2010, p. 24). 
0,25 
d) 4. Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça sobre o assédio 
processual (0,25) 
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS 
MATERIAIS E MORAIS. OMISSÃO E OBSCURIDADE. INOCORRÊNCIA. 
FUNDAMENTAÇÃO SUFICIENTE. QUESTÃO DECIDIDA. ABUSO DO 
DIREITO DE AÇÃO E DE DEFESA. RECONHECIMENTO COMO ATO 
ILÍCITO. POSSIBILIDADE. PRÉVIA TIPIFICAÇÃO LEGAL DAS 
CONDUTAS. DESNECESSIDADE. AJUIZAMENTO SUCESSIVO E 
REPETITIVO DE AÇÕES TEMERÁRIAS, DESPROVIDAS DE 
FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA E INTENTADAS COM PROPÓSITO 
DOLOSO. MÁ UTILIZAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DE AÇÃO 
E DEFESA. POSSIBILIDADE. USURPAÇÃO DE TERRAS AGRÍCOLAS 
PRODUTIVAS MEDIANTE PROCURAÇÃO FALSA POR QUASE 40 
ANOS. DESAPOSSAMENTO INDEVIDO DOS LEGÍTIMOS 
PROPRIETÁRIOS E HERDEIROS E MANUTENÇÃO DE POSSE 
INJUSTA SOBRE O BEM, MEDIANTE USO DE QUASE 10 AÇÕES OU 
PROCEDIMENTOS SEM FUNDAMENTAÇÃO PLAUSÍVEL, SENDO 04 
DELAS NO CURTO LAPSO TEMPORAL CORRESPONDENTE À ÉPOCA 
DA ORDEM JUDICIAL DE RESTITUIÇÃO DA ÁREA E IMISSÃO NA 
POSSE DOS HERDEIROS, OCORRIDA EM 2011. PROPRIEDADE DOS 
HERDEIROS QUE HAVIA SIDO DECLARADA EM 1ª FASE DE AÇÃO 
DIVISÓRIA EM 1995. ABUSO PROCESSUAL A PARTIR DO QUAL FOI 
POSSÍVEL USURPAR, COM EXPERIMENTO DE LUCRO, AMPLA ÁREA 
0,25 
48 
 
AGRÍCOLA. DANOS MATERIAIS CONFIGURADOS A SEREM 
LIQUIDADOS POR ARBITRAMENTO. PRIVAÇÃO DA ÁREA DE 
PROPRIEDADE DA ENTIDADE FAMILIAR, FORMADA INCLUSIVE POR 
MENORES DE TENRA IDADE. LONGO E EXCESSIVO PERÍODO DE 
PRIVAÇÃO, PROTRAÍDO NO TEMPO POR ATOS DOLOSOS E 
ABUSIVOS DE QUEM SABIA NÃO SER PROPRIETÁRIO DA ÁREA. 
ABALO DE NATUREZA MORAL CONFIGURADO. MODIFICAÇÃO DO 
TERMO INICIAL DA PRESCRIÇÃO. NECESSIDADE, NA HIPÓTESE, DE 
EXAME DE CIRCUNSTÂNCIAS FÁTICO-PROBATÓRIAS NÃO 
DELINEADAS NO ACÓRDÃO. SÚMULA 7/STJ. DIVERGÊNCIA 
JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADA. 
1- Ação ajuizada em 08/11/2011. Recursos especiais interpostos em 
15/08/2014 e 19/08/2014. 
2- Os propósitos recursais consistem em definir: (i) se houve omissão ou 
obscuridade relevante no acórdão recorrido; (ii) se o ajuizamento de 
sucessivas ações judiciais pode configurar o ato ilícito de abuso do 
direito de ação ou de defesa; (iii) se o abuso processual pode acarretar 
danos de natureza patrimonial ou moral; (iv) o termo inicial do prazo 
prescricional da ação de reparação de danos fundada em abuso 
processual. 
3- Ausente omissão ou obscuridade no acórdão recorrido que se pronuncia, 
ainda que sucintamente, sobre as questões suscitadas pela parte, tornando 
prequestionada a matéria que se pretende ver examinada no recurso 
especial, não há que se falar em violação ao art. 535, I e II, do CPC/73. 
4- Embora não seja da tradição do direito processual civil brasileiro, é 
admissível o reconhecimento da existência do ato ilícito de abuso 
processual, tais como o abuso do direito fundamental de ação ou de 
defesa, não apenas em hipóteses previamente tipificadas na 
legislação, mas também quando configurada a má utilização dos 
direitos fundamentais processuais. 
5- O ardil, não raro, é camuflado e obscuro, de modo a embaralhar as vistas 
de quem precisa encontrá-lo. O chicaneiro nunca se apresenta como tal, 
mas, ao revés, age alegadamente sob o manto dos princípios mais caros, 
como o acesso à justiça, o devido processo legal e a ampla defesa, para 
cometer e ocultar as suas vilezas. O abuso se configura não pelo que se 
revela, mas pelo que se esconde. Por esses motivos, é preciso repensar o 
processo à luz dos mais basilares cânones do próprio direito, não para 
frustrar o regular exercício dos direitos fundamentais pelo litigante sério e 
probo, mas para refrear aqueles que abusam dos direitos fundamentais por 
mero capricho, por espírito emulativo, por dolo ou que, em ações ou 
incidentes temerários, veiculem pretensões ou defesas frívolas, aptas a 
tornar o processo um simulacro de processo ao nobre albergue do direito 
fundamental de acesso à justiça. 
6- Hipótese em que, nos quase 39 anos de litígio envolvendo as terras que 
haviam sido herdadas pelos autores e de cujo uso e fruição foram privados 
por intermédio de procuração falsa datada do ano de 1970, foram ajuizadas, 
a pretexto de defender uma propriedade sabidamente inexistente, quase 10 
ações ou procedimentos administrativos desprovidos de fundamentação 
minimamente plausível, sendo que 04 destas ações foram ajuizadas em um 
ínfimo espaço de tempo - 03 meses, entre setembro e novembro de 2011 -
, justamente à época da ordem judicial que determinou a restituição da área 
e a imissão na posse aos autores. 
7- O uso exclusivo da área alheia para o cultivo agrícola pelos 14 anos 
subsequentes ao trânsito em julgado da sentença proferida na primeira fase 
da ação divisória não pode ser qualificado como lícito e de boa-fé nesse 
contexto, de modo que é correto afirmar que, a partir da coisa julgada 
formada na primeira fase, os usurpadores assumiram o risco de reparar os 
danos causados pela demora na efetivação da tutela específica de imissão 
na posse dos legítimos proprietários. 
49 
 
8- Dado que a área usurpada por quem se valeu do abuso processual para 
retardar a imissão na posse dos legítimos proprietários era de natureza 
agrícola e considerando que o plantio ocorrido na referida área 
evidentemente gerou lucros aos réus, deve ser reconhecido o dever de 
reparar os danos de natureza patrimonial, a serem liquidados por 
arbitramento, observado o período dos 03 últimos anos anteriores ao 
ajuizamento da presente ação, excluídas da condenação a pretensão de 
recomposição pela alegada retirada ilegal de madeira e pela recomposição 
de supostos danos ambientais, que não foram suficientemente 
comprovados. 
9- Considerando a relação familiar existente entre os proprietários 
originários das terras usurpadas e os autores da ação, o longo período de 
que foram privados do bem que sempre lhes pertenceu, inclusive durante 
tenra idade, mediante o uso desenfreado de sucessivos estratagemas 
processuais fundados na má-fé, no dolo e na fraude,configura-se 
igualmente a existência do dever de reparar os danos de natureza 
extrapatrimonial que do ato ilícito de abuso processual decorrem, 
restabelecendo-se, quanto ao ponto, a sentença de procedência. 
10- É inadmissível o exame da questão relacionada ao termo inicial da 
prescrição da pretensão reparatória quando, para a sua modificação, 
houver a necessidade de reexame de elementos fático-probatórios não 
descritos no acórdão recorrido, como, por exemplo, o exame da data em 
que cada um dos muitos herdeiros atingiu a maioridade civil. 
11- Não se conhece do recurso especial fundado na divergência quando 
ausente o cotejo analítico entre o acórdão recorrido e o paradigma 
invocado, sobretudo quando se verifica, da simples leitura da ementa, a 
notória dessemelhança fática entre os julgados alegadamente conflitantes. 
12- Recursos especiais conhecidos e parcialmente providos. (REsp n. 
1.817.845/MS, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, relatora para 
acórdão Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 10/10/2019, 
DJe de 17/10/2019.). 
 
 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 8 
 
Disserte sobre a aceitação e a renúncia da herança, abordando, discursivamente, 
acerca: 
(Valor da questão: 1 ponto) 
 
a. Da necessidade ou dispensa de um ato de aceitação da herança. Justifique. E, em 
qualquer caso, qual é a natureza jurídica da aceitação e o respectivo efeito no 
tempo; (0,25 ponto) 
b. Da classificação das formas de aceitação da herança, explicando-as; (0,25 ponto) 
c. Da classificação das formas de renúncia da herança, explicando-as; (0,25 ponto) 
d. Da natureza jurídica da renúncia da herança, se no ato da renúncia devem ser 
expostas as respectivas razões, a partir de que momento a renúncia produz efeitos 
e se a renúncia pode ser invalidada. (0,25 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 80 linhas. 
 
 
Resposta Ideal 
Pontuação 
máxima 
a) Da necessidade ou dispensa de um ato de aceitação da herança. 
Justifique. E, em qualquer caso, qual é a natureza jurídica da aceitação e o 
respectivo efeito no tempo – (0,25) 
0,25 
50 
 
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais Carneiro. A 
aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. 
Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz 
Freire (coords.). Tomo: Direito Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik 
Gramstrup (coord. de tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade 
Católica de São Paulo, 2021. Disponível 
em: https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023. 
[...] 
2. Aceitação da herança 
A aceitação, também chamada adição da herança (aditio hereditatis), é um 
ato jurídico unilateral pelo qual a pessoa chamada a suceder manifesta sua 
vontade de receber a herança ou o legado. Trata-se de uma confirmação, 
por meio da qual o beneficiário demonstra sua intenção de acolher a 
herança que lhe foi automaticamente deferida pelo droit de saisine. 
De fato, a aquisição dos direitos sucessórios é automática, por força de lei 
(ipso iure), no exato momento do passamento do de cujus, com a abertura 
da sucessão (art. 1.784). Nesse contexto, se a herança se incorpora 
automaticamente ao patrimônio do herdeiro, a aceitação representa a 
anuência do beneficiário em receber a sucessão. Em todo caso, a despeito 
de ser cabível a indagação quanto à importância da aceitação, o que será 
desenvolvido a seguir, é possível adiantar que se trata de um ato 
necessário, corolário da autonomia privada. 
Nesse contexto, a aceitação da herança produz então efeitos simplesmente 
de confirmação da transmissão legal dos bens causa mortis. Não é correto 
afirmar que a aceitação tem efeito constitutivo, visto que ela tem apenas 
efeito declaratório de confirmação da transmissão que já se realizou, por 
força de lei, por aplicação da saisine, desde o momento da abertura da 
sucessão (art. 1.784). E aqui é interessante a definição apresentada por 
Colin e Capitant, que consideram a aceitação como a renúncia à faculdade 
de renunciar. 
Não é outra a forma como deve ser interpretado o art. 1.804, que 
estabelece: “Aceita a herança, torna-se definitiva a sua transmissão ao 
herdeiro, desde a abertura da sucessão”. O ingresso dos bens sucedidos 
na esfera patrimonial do herdeiro é então definitivo, pois a aceitação é 
irretratável e irrevogável. 
A aceitação da herança continua sendo um instituto bastante importante na 
atualidade. A existência da saisine em nada diminui a importância da 
aceitação, uma vez que não é herdeiro quem não quiser ser. Desse modo, 
o ato jurídico de aceitação não pode ser considerado como um ato 
desnecessário, supérfluo ou dispensável. 
A autonomia privada se manifesta na aceitação, visto que ninguém pode 
ser herdeiro ou legatário contra sua vontade. Ninguém é obrigado a receber 
o patrimônio que lhe está sendo transferido automaticamente, mesmo 
porque não existe a figura do herdeiro forçado. Assim sendo, a lei concede 
ao herdeiro chamado à sucessão a faculdade de livremente decidir acerca 
da aceitação ou da renúncia da herança. Adotou então o Código Civil o 
princípio segundo o qual somente é herdeiro ou legatário quem quer ser. 
O período em que a situação fica pendente de aceitação ou de renúncia da 
herança é chamado pela doutrina de fase de deliberação (ius deliberandi). 
Todavia, vale lembrar que como o direito à sucessão surge apenas depois 
51 
 
da morte, somente a partir da abertura da sucessão é que pode haver 
aceitação ou renúncia. De fato, como o direito pátrio não conhece herança 
de pessoa viva (viventis nulla est heredita), é inconcebível a aceitação ou 
renúncia por parte daquele que ainda não pode ser considerado herdeiro. 
Na hipótese de aceitação, que é considerada pelo ordenamento jurídico 
como necessária ou indispensável, a anuência manifestada pelo herdeiro 
ou legatário é retroativa. Há um efeito ex tunc da aceitação, que retroage à 
data da abertura da sucessão. É como se o beneficiário sempre houvesse 
sido herdeiro ou legatário. 
O herdeiro, ao aceitar a herança, não tem responsabilidade por encargos 
superiores às forças da herança (art. 1.792). É dizer: não se pode compelir 
o herdeiro a honrar dívidas do espólio que excedam os limites da herança 
transmitida. Todavia, com a aceitação o herdeiro assume determinados 
ônus, como é o caso, por exemplo, do pagamento dos legados, do 
cumprimento de encargos ou do pagamento do imposto de transmissão 
causa mortis. Por conseguinte, a aceitação da herança certamente 
apresenta interesse prático, não colidindo com o princípio da saisine. 
[…] 
4. Natureza jurídica e características da aceitação 
Trata-se de ato jurídico em sentido estrito, uma vez que a vontade é 
manifestada no sentido de aderir aos efeitos preestabelecidos em lei. Não 
é um negócio jurídico, pois no ato de aceitação não há a escolha dos efeitos 
a serem produzidos, que já estão aprioristicamente definidos na norma 
legal. 
Entre os atos jurídicos, a aceitação é unilateral, dado que não exige outra 
manifestação de vontade que não a do herdeiro. Como não há necessidade 
de sua comunicação a quem quer que seja para que produza efeitos, a 
aceitação é considerada um ato não receptício (declaração não receptícia). 
Além disso, sua prática demanda a existência de capacidade de exercício. 
No caso de incapazes, devem estar representados ou assistidos. 
A aceitação deve ser pura e simples (semel heres, semper heres). O art. 
1.808 não admite que o ato jurídico de aceitação seja subordinado à 
condição (suspensiva ou resolutiva) e nem a fixação de data (termo) para 
que tenha eficácia (vitiantur et vitiant). 
Além de incondicional, a aceitação também é indivisível. Não se admite a 
aceitação parcial da herança e a renúncia da outra parte. É que se isso 
fosse permitido, o herdeiro apenas tomaria parcialmente o lugar do falecido, 
pois esse aceite parcial possibilitaria que se interessasse somentepelo 
ativo (créditos) e repudiasse o passivo (dívidas). 
A indivisibilidade da aceitação encontra uma aparente exceção no § 1º do 
art. 1.808, que permite ao herdeiro renunciante aceitar legados, bem como 
confere ao legatário renunciante o direito de adir a herança. Em realidade, 
a norma contempla a situação em que alguém que sucede 
simultaneamente a dois títulos, ou seja, a aquisição da herança não 
interfere com a do legado. Sucede a título universal, como herdeiro, e a 
título singular, como legatário. 
Nesse caso, considerando que os títulos são independentes, nada impede 
que o beneficiário renuncie integralmente a uma sucessão, conservando a 
outra. Pode renunciar a toda a herança, aceitando o legado por inteiro ou 
pode renunciar a todo o legado, aceitando a herança por inteiro. O que lhe 
é vedado, segundo o princípio geral, é aceitar parcialmente a herança, pois 
52 
 
a aceitação da herança sempre será integral. Portanto, a regra continua 
invulnerada, visto que a exceção é só aparente, já que a indivisibilidade só 
se verifica plenamente dentro de cada título de sucessão. 
O art. 1.808, § 2º, apresenta inovação, não contendo paradigma no Código 
Civil de 1916. Determina que o herdeiro, chamado na mesma sucessão sob 
títulos sucessórios diversos (lei e testamento), “pode livremente deliberar 
quanto aos quinhões que aceita e aos que renuncia”. É que existe 
autonomia entre os títulos sucessórios. Assim sendo, se o testador 
determina, por exemplo, que sua metade disponível cabe a um herdeiro 
necessário, tal herdeiro pode aceitar o que advém pela sucessão legítima 
e repudiar o que lhe foi destinado no testamento ou pode aceitar o que lhe 
é devido pela sucessão testamentária e repudiar a herança necessária. 
Nada impede que alguém aceite receber a herança como herdeiro legítimo, 
mas repudie o que se lhe atribui na qualidade de herdeiro testamentário, 
uma vez que as origens são diversas. 
b) Da classificação das formas de aceitação da herança, explicando-as; – 
(0,25) 
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais 
Carneiro. A aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia 
jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de 
Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito 
Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup (coord. de 
tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São 
Paulo, 2021. Disponível em: 
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023. 
[...] 
3. Formas de aceitação da herança 
A aceitação pode se dar de formas diversas, bastando restar inequívoca a 
intenção do sucessor. 
Não há ampla liberdade na forma de exteriorização da aceitação. O herdeiro 
pode manifestar a sua intenção de receber a herança de forma: (a) 
expressa; (b) tácita; (c) presumida. 
A aceitação pode ainda ser direta ou indireta. Se o próprio herdeiro aceita 
a herança, diz-se que a aceitação é direta. A aceitação será indireta quando 
alguém a faz no lugar do herdeiro, o que se dá em três hipóteses legais: (a) 
aceitação pelos sucessores; (b) aceitação por mandatário e por gestor de 
negócios; (c) aceitação pelos credores. 
3.1. Aceitação expressa 
A aceitação é expressa quando manifestada por declaração escrita (art. 
1.805), que pode ser por instrumento público ou particular, ou, diretamente, 
por termo nos próprios autos do inventário, quando judicial. 
Na aceitação expressa o herdeiro assume inequivocamente a sua vontade 
de adquirir a herança. A forma escrita revela certamente maior reflexão por 
parte do herdeiro, não se admitindo que seja realizada verbalmente. É que 
a aceitação oral daria ampla margem para contestação, não somente no 
que toca à sua existência como à sua exatidão, encontrando então a 
restrição fundamento na segurança jurídica. 
0,25 
53 
 
De fato, no passado havia interesse na realização da aceitação escrita, 
porque não constava da lei a regra que afasta do herdeiro a 
responsabilidade por encargos superiores à força da herança. Assim sendo, 
era necessário expressamente aceitar a herança sob benefício de 
inventário, ou seja, caso o ativo superasse o passivo. 
Na atualidade, a aceitação expressa da herança não é mais necessária, 
haja vista a regra do art. 1.792, tratando-se então de forma de adição que 
não é mais frequente na prática jurídica. 
3.2. Aceitação tácita 
A aceitação tácita é aquela que resulta tão somente de conduta própria de 
herdeiro (art. 1.805). Embora não haja declaração expressa de aceitação, 
esta decorre de comportamento concludente, que traduza a intenção de 
aceitar a sucessão. 
É a modalidade de adição mais comum no Brasil, ocorrendo quando a 
aceitação da herança deflui de atos que demonstrem a intenção de aceitar 
a herança. Aqui a autonomia privada se manifesta em atos que são 
incompatíveis com a posição de renunciante. Existe aceitação tácita 
quando o sucessor pratica atos que vão além da simples conservação e 
administração da herança, evidenciando a intenção de aceitar. São atos 
que revelam a qualidade de proprietário ou possuidor dos bens ou direitos 
transmitidos mortis causa. Isso ocorre se o herdeiro, por exemplo, cede 
seus direitos hereditários, promete vender imóveis do espólio, paga 
credores, nomeia advogado para acompanhar o inventário, concorda com 
avaliações. 
Outrossim, vale notar que o § 1º do art. 1.805 afasta da presunção de 
aceitação os atos oficiosos, como o funeral do falecido, os meramente 
conservatórios, ou os de administração e guarda provisória dos bens. É 
que, usualmente, tais atos são praticados altruisticamente, 
desinteressadamente, em respeito pela memória do falecido, não 
significando, por si sós, a intenção de recolher a herança. Não se admite 
confundir os atos ligados ao afeto ou ao sentimento humanitário daquele 
que tinha ligação com o falecido com interesses puramente econômicos 
pela herança. 
Atos meramente conservatórios são aqueles necessários e urgentes, que 
objetivam evitar a perda ou deterioração dos bens da herança. Atos de 
administração e guarda provisória, por outro lado, são aqueles praticados 
sem a intenção de ter os bens para si, mas simplesmente com o ânimo de 
entregá-los, tão logo seja possível, a quem tenha o dever de guardá-los e 
conservá-los. Já se decidiu que o simples requerimento de abertura de 
inventário, por si só, não traduz o propósito de aceitar a herança, uma vez 
que se trata de obrigação legal do herdeiro. Também não implica aceitação 
o simples fato do presumido herdeiro limpar os imóveis deixados pelo 
falecido. O pagamento de dívida do de cujus, com dinheiro próprio do 
herdeiro, igualmente não implica, por si só, em aceitação. 
O Código Civil ainda proclama que não importa aceitação a cessão gratuita, 
pura e simples, da herança, aos demais coerdeiros (art. 1.805, § 2º). 
Equipara-se então o termo cessão gratuita à renúncia, uma vez que aquele 
que cede gratuitamente a herança nunca teve realmente a intenção de ser 
herdeiro. Ceder a todos é recusar a herança, e como tal essa cessão deve 
ser tratada. Nessa hipótese, o quinhão hereditário do renunciante é 
partilhado, por força de lei, entre todos os demais herdeiros da mesma 
classe. 
54 
 
Em todo caso, é certo que o reconhecimento de uma situação em que teria 
ocorrido a aceitação tácita pode apresentar problemas. Mister se faz que 
os operadores do direito atuem com cautela redobrada, analisando cada 
circunstância do caso concreto, bem como procurando ponderar entre a 
preocupação de se garantir a segurança jurídica dos sucessíveis e a 
necessidade de se facilitar a gestão da sucessão. 
Por conseguinte, a aceitação tácita pode até mesmo ser considerada 
perigosa para o herdeiro, pois deflui de uma quantidade bastante numerosa 
de atos. Assim sendo, para que se evite o eventual reconhecimento da 
ocorrência de aceitação tácita, aquele que deseja renunciar deve fazê-lo o 
quanto antes. 
3.3. Aceitação presumida 
O art. 1.807 apresentaoutro tipo de aceitação, que alguns autores 
denominam aceitação presumida. Essa forma de aceitação surge quando 
algum interessado, vinte dias após aberta a sucessão, requerer a 
notificação do herdeiro silente, para que este declare, dentro de prazo 
razoável, não superior a trinta dias, se aceita ou não a herança, sob pena 
de se presumir a aceitação da herança se o silêncio persistir. 
Na aceitação presumida é reconhecida eficácia jurídica ao silêncio, que é 
interpretado como manifestação de vontade. Assim, caso o herdeiro tenha 
sido instado a se manifestar, sua postura inerte, de completa abstenção, 
decorrido o prazo concedido, será considerada como aceitação da herança. 
Competente para o processamento do requerimento, denominado ação 
interrogatória (actio interrogatoria), é o juízo do inventário. O interessado 
pode ser o legatário, algum credor e também aquele que eventualmente 
sucederia, em substituição, caso se consumasse a renúncia (art. 1.947). 
Ademais, a lei não fixa prazo para que a aceitação ocorra. Por isso, 
entende-se que enquanto o herdeiro não for intimado a se manifestar em 
um prazo certo, a faculdade de aceitar a herança permanece, o que pode 
perdurar até que se consume a prescrição ao cabo de dez anos (art. 205). 
c) Da classificação das formas de renúncia da herança, explicando-as; – 
(0,25) 
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais 
Carneiro. A aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia 
jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de 
Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito 
Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup (coord. de 
tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São 
Paulo, 2021. Disponível em: 
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023 
8. Formas de renúncia 
A renúncia da herança é um ato solene, porque depende de forma prescrita 
em lei. Diferentemente do que ocorre com a aceitação, que pode ser 
expressa, tácita ou presumida, a renúncia da herança deve ser expressa, 
clara e inequivocamente exteriorizada pelo herdeiro pela forma escrita, sob 
pena da nulidade. O comportamento passivo do sucessível em relação à 
sucessão não permite nenhuma dedução, uma vez que não se admite a 
renúncia tácita ou presumida. 
0,25 
55 
 
O legislador brasileiro permite a realização da renúncia somente por meio 
de duas formas escritas: (a) mediante instrumento público, lavrado por 
notário; (b) por termo judicial lançado nos autos do inventário (art. 1.806). 
A forma é indispensável para que a renúncia se torne conhecida e 
incontroversa. Como se trata de ato de disposição de direitos, a renúncia 
deve ser interpretada sempre restritivamente (renuntiatio est strictissimae 
interpretationis). Na hipótese de não observância do disposto no art. 1.806, 
a renúncia será nula por violação dos arts. 104 e 166, IV, o que se explica 
pela natureza imóvel da herança, que justifica o requisito formal. De fato, a 
sucessão aberta tem natureza de bem imóvel por determinação da lei (art. 
80, II). 
Desse modo, a declaração será formulada perante o juiz competente, que 
é o lugar da abertura da sucessão, ou perante o tabelião, podendo a 
escritura pública ser lavrada em qualquer lugar e não apenas no foro do 
inventário. Em qualquer dos dois casos se garante a liberdade do 
renunciante e a autenticidade da declaração. Não tem validade jurídica a 
renúncia feita em mero instrumento particular (REsp 431.695), mesmo 
porque a forma é ad substantiam, e não apenas ad probationem tantum. 
Ademais, para que a renúncia produza efeitos, não é necessária a sua 
homologação judicial, até porque a renúncia é o exercício de um direito 
potestativo. 
Por derradeiro, vale lembrar que o momento adequado para a prática desse 
negócio jurídico sempre será após a abertura da sucessão, visto que 
praticado antes dela caracterizaria um pacto sucessório, que o fulminaria 
de nulidade, conforme a prescrição contida no art. 426 do Código Civil, 
consagrando a nominada vedação ao pacto corvina. 
d) Da natureza jurídica da renúncia da herança, se no ato da renúncia 
devem ser expostas as respectivas razões, a partir de que momento a 
renúncia produz efeitos e se a renúncia pode ser invalidada. – (0,25) 
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais 
Carneiro. A aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia 
jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de 
Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito 
Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup (coord. de 
tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São 
Paulo, 2021. Disponível em: 
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023 
[...] 
6. Renúncia da herança 
A renúncia à herança é um negócio jurídico unilateral, não receptício, 
gratuito e solene pelo qual uma pessoa, chamada à sucessão de outra, 
declara, de modo irrevogável e irretratável, que não a aceita. 
O herdeiro não é obrigado a receber a herança, podendo, se quiser, recusá-
la, situação em que será reputado a ela estranho desde a abertura da 
sucessão (nul n’est héritier qui ne veut). Aliás, podem existir fundamentos 
econômicos para o não recolhimento dos bens do sucedido, como, por 
exemplo, a herança ter muitas dívidas, ter alto custo de manutenção, serem 
os bens litigiosos ou ainda possuir o patrimônio do falecido muitos 
encargos. Mas a decisão de não se tornar herdeiro pode também ter 
fundamentação moral, como no caso de uma pessoa não pretender ser 
herdeiro de alguém com péssima reputação (notório agiota), apesar do 
patrimônio deixado. 
0,25 
56 
 
Os motivos que levaram à renúncia da herança não necessitam ser 
esclarecidos. De fato, não necessita o herdeiro informar no ato de renúncia 
as razões pelas quais não está recolhendo a herança, podendo o 
renunciante simplesmente guardá-las exclusivamente para si. 
A renúncia se caracteriza ainda por ser pura e simples, não se admitindo 
renúncia subordinada a condição ou termo, o que significa o completo 
afastamento do renunciante, bem como a transferência dos bens a quem 
por lei ou por testamento deva caber. Igualmente, não é cabível a fixação 
de encargo na renúncia, pois isso é incompatível com a intenção de quem 
não quer aceitar a sucessão. 
Ao se caracterizar como pura e simples, isto é, em benefício do monte 
hereditário (composto por todos os demais herdeiros), sem indicação de 
qualquer favorecido (art. 1.805, § 2º), a renúncia (abdicativa) também tem 
relevância para o direito tributário, afinal existem tributos que incidem na 
transmissão da propriedade. De fato, em havendo renúncia pura e simples, 
chamada de abdicativa, a lei considera como se a pessoa nunca tivesse 
sido herdeiro. Se o filho renuncia à herança do pai, a lei o considera como 
se nunca tivesse sido herdeiro. Assim, o único imposto devido é sobre a 
transmissão causa mortis de bens e direitos (ITCMD), previsto no art. 155, 
I, da CF. 
[...] 
8. Formas de renúncia 
A renúncia da herança é um ato solene, porque depende de forma prescrita 
em lei. Diferentemente do que ocorre com a aceitação, que pode ser 
expressa, tácita ou presumida, a renúncia da herança deve ser expressa, 
clara e inequivocamente exteriorizada pelo herdeiro pela forma escrita, sob 
pena da nulidade. O comportamento passivo do sucessível em relação à 
sucessão não permite nenhuma dedução, uma vez que não se admite a 
renúncia tácita ou presumida. 
O legislador brasileiro permite a realização da renúncia somente por meio 
de duas formas escritas: (a) mediante instrumento público, lavrado por 
notário; (b) por termo judicial lançado nos autos do inventário (art. 1.806). 
A forma é indispensável para que a renúncia se torne conhecida e 
incontroversa. Como se trata de ato de disposição de direitos, a renúncia 
deve ser interpretada sempre restritivamente (renuntiatioest strictissimae 
interpretationis). Na hipótese de não observância do disposto no art. 1.806, 
a renúncia será nula por violação dos arts. 104 e 166, IV, o que se explica 
pela natureza imóvel da herança, que justifica o requisito formal. De fato, a 
sucessão aberta tem natureza de bem imóvel por determinação da lei (art. 
80, II). 
Desse modo, a declaração será formulada perante o juiz competente, que 
é o lugar da abertura da sucessão, ou perante o tabelião, podendo a 
escritura pública ser lavrada em qualquer lugar e não apenas no foro do 
inventário. Em qualquer dos dois casos se garante a liberdade do 
renunciante e a autenticidade da declaração. Não tem validade jurídica a 
renúncia feita em mero instrumento particular (REsp 431.695),67 mesmo 
porque a forma é ad substantiam, e não apenas ad probationem tantum. 
Ademais, para que a renúncia produza efeitos, não é necessária a sua 
homologação judicial, até porque a renúncia é o exercício de um direito 
potestativo. 
Por derradeiro, vale lembrar que o momento adequado para a prática desse 
negócio jurídico sempre será após a abertura da sucessão, visto que 
praticado antes dela caracterizaria um pacto sucessório, que o fulminaria 
de nulidade, conforme a prescrição contida no art. 426 do Código Civil, 
consagrando a nominada vedação ao pacto corvina. 
[...] 
12. Irrevogabilidade da renúncia e da aceitação 
57 
 
A aceitação e a renúncia são irrevogáveis, conforme expressamente dispõe 
o art. 1.812 do Código Civil de 2002. 
A solução da legislação busca garantir a segurança jurídica, visto que a 
formalização da renúncia gera a ficção de não ter o renunciante jamais sido 
herdeiro. Nenhum arrependimento posterior é possível. O mesmo vale para 
a aceitação, cujos efeitos retroagem à data do falecimento do autor da 
herança (semel heres, semper heres), ou seja, uma vez herdeiro sempre 
herdeiro. 
Nesse contexto, se fosse possível a revogação ou a retratação da renúncia, 
certamente ocorreria a perda da propriedade adquirida pelos herdeiros 
como decorrência da manifestação de vontade do renunciante arrependido. 
Isso seria uma grande ameaça para a segurança jurídica e para a 
estabilidade das relações jurídicas. 
Entretanto, a irrevogabilidade não afasta a possibilidade de invalidação do 
negócio jurídico, que atinge a vontade manifestada no plano da validade, 
mediante o reconhecimento de nulidade absoluta ou relativa, em ação 
própria, considerando-se as disposições da Parte Geral do Código Civil 
(arts. 171 e 185). De fato, como essas regras são aplicáveis, em princípio, 
a qualquer espécie de negócio jurídico, delas não se pode afastar a 
aceitação e a renúncia da herança. O remédio que resta então para aquele 
que não está mais de acordo com a aceitação é a invalidação do ato 
jurídico, o que apenas pode ser feito antes do trânsito em julgado da 
decisão de partilha. 
Assim sendo, o herdeiro deve abdicar de sua condição de modo irrevogável 
e irretratável, valendo raciocínio análogo para a aceitação da herança. 
Acaso o herdeiro tenha aceitado a herança, se não tiver mais interesse em 
recebê-la, não é possível renunciar ao quinhão, restando como solução a 
cessão (via da transmissão onerosa ou gratuita) em favor especificamente 
de determinada pessoa ou em favor do monte hereditário. 
 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 9 
 
Disserte sobre o entendimento jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal em 
relação aos temas a seguir: 
(Valor da questão: 1 ponto) 
 
a. Penhorabilidade, ou não, de bem de família de fiador de contrato de locação; (0,20 
ponto) 
b. Possibilidade, ou não, de reconhecimento jurídico de união estável e de relação 
homoafetiva concomitantes, com o consequente rateio de pensão por morte; (0,20 
ponto) 
c. Impenhorabilidade, ou não, de propriedade familiar, localizada na zona rural, que 
não é o único bem imóvel dessa natureza pertencente à família; (0,20 ponto) 
d. Alcance do direito sucessório em face de união estável homoafetiva; (0,20 ponto) 
e. Prevalência, ou não, da paternidade socioafetiva em detrimento da paternidade 
biológica. (0,20 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 100 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) Penhorabilidade, ou não, de bem de família de fiador de contrato de 
locação – (0,20) 
Tema 295 - Penhorabilidade de bem de família de fiador de contrato de 
locação. 
Relator(a): MIN. ELLEN GRACIE 
0,20 
58 
 
Leading Case: RE 612360 
Descrição: recurso extraordinário em que se discute, à luz do art. 6º, caput, 
da Constituição Federal, na redação dada pela Emenda Constitucional nº 
26/2000, a constitucionalidade, ou não, da penhora do imóvel bem de 
família do fiador locatício. 
Tese: é constitucional a penhora de bem de família pertencente a fiador de 
contrato de locação, em virtude da compatibilidade da exceção prevista no 
art. 3°, VII, da Lei 8.009/1990 com o direito à moradia consagrado no art. 6° 
da Constituição Federal, com redação da EC 26/2000. 
b) Possibilidade, ou não, de reconhecimento jurídico de união estável e de 
relação homoafetiva concomitantes, com o consequente rateio de pensão 
por morte – (0,20) 
Tema 529 - Possibilidade de reconhecimento jurídico de união estável e de 
relação homoafetiva concomitantes, com o consequente rateio de pensão 
por morte. 
Relator(a): MIN. ALEXANDRE DE MORAES 
Leading Case: RE 1045273 
Descrição: recurso extraordinário com agravo em que se discute, à luz dos 
artigos 1º, III; 3º, IV; 5º, I, da Constituição Federal, a possibilidade, ou não, 
de reconhecimento jurídico de união estável e de relação homoafetiva 
concomitantes, com o consequente rateio de pensão por morte. 
Tese: a preexistência de casamento ou de união estável de um dos 
conviventes, ressalvada a exceção do artigo 1.723, § 1º, do Código Civil, 
impede o reconhecimento de novo vínculo referente ao mesmo período, 
inclusive para fins previdenciários, em virtude da consagração do dever de 
fidelidade e da monogamia pelo ordenamento jurídico-constitucional 
brasileiro. 
0,20 
c) Impenhorabilidade, ou não, de propriedade familiar, localizada na zona 
rural, que não é o único bem imóvel dessa natureza pertencente à família – 
(0,20) 
Tema 961 - Impenhorabilidade de propriedade familiar, localizada na zona 
rural, que não é o único bem imóvel dessa natureza pertencente à família. 
Relator(a): MIN. EDSON FACHIN 
Leading Case: ARE 1038507 
Descrição: recurso extraordinário em que se discute, à luz do art. 5º, inc. 
XXVI, da Constituição da República, a possibilidade de penhora de 
pequena propriedade rural familiar, que não seja o único imóvel dessa 
natureza pertencente à família. 
Tese: é impenhorável a pequena propriedade rural familiar constituída de 
mais de 01 (um) terreno, desde que contínuos e com área total inferior a 04 
(quatro) módulos fiscais do município de localização. 
0,20 
d) Alcance do direito sucessório em face de união estável homoafetiva – 
(0,20) 
Tema 498 - Alcance do direito sucessório em face de união estável 
homoafetiva. 
Relator(a): MIN. MARCO AURÉLIO 
Leading Case: RE 646721 
Descrição: recurso extraordinário em que se discute, à luz dos artigos 1º, 
III; 5º, I; e 226, § 3º, da Constituição Federal, o alcance do direito de 
sucessão legítima decorrente de união estável homoafetiva. 
Tese: é inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges 
e companheiros prevista no art. 1.790 do CC/2002, devendo ser aplicado, 
tanto nas hipóteses de casamento quanto nas de união estável, o regime 
do art. 1.829 do CC/2002 (a mesma tese foi fixada para o Tema 809). 
0,20 
e) Prevalência, ou não, da paternidade socioafetiva em detrimento da 
paternidade biológica – (0,20) 
 
Tema 622 - Prevalência da paternidade socioafetiva em detrimento da 
paternidade biológica. 
0,20 
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=3866948
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5181220
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5164056
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=410006959 
 
Relator(a): MIN. LUIZ FUX 
Leading Case: RE 898060 
Descrição: agravo de decisão que não admitiu recurso extraordinário em 
que se discute, à luz do art. 226, caput, da Constituição Federal, a 
prevalência da paternidade socioafetiva em detrimento da biológica. 
Tese: a paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não 
impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na 
origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios. 
 
 
 
GRUPO IV - QUESTÃO 10 
 
Em relação à ação de alimentos, discorra sobre: 
(Valor da questão: 1 ponto) 
 
a. A legitimidade ativa do Ministério Público para ajuizar ação de alimentos em 
proveito de criança ou adolescente; (0,25 ponto) 
b. A obrigação alimentar dos avós; (0,25 ponto) 
c. Os efeitos da sentença que reduz, majora ou exonera o alimentante do pagamento 
da pensão; (0,25 ponto) 
d. A pensão alimentícia de filho que atinge a maioridade civil. (0,25 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 60 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) De acordo com o enunciado da Súmula nº. 594 do STJ, “O Ministério 
Público tem legitimidade ativa para ajuizar ação de alimentos em proveito 
de criança ou adolescente independentemente do exercício do poder 
familiar dos pais, ou do fato de o menor se encontrar nas situações de risco 
descritas no art. 98 do Estatuto da Criança e do Adolescente, ou de 
quaisquer outros questionamentos acerca da existência ou eficiência da 
Defensoria Pública na comarca.” (SÚMULA 594, SEGUNDA SEÇÃO, 
julgado em 25/10/2017, DJe 06/11/2017). 
- fundamento legal: artigos 98, caput, e 201, inciso III, da Lei nº. 8.069/90 e 
artigos n°. 1.694, caput, e nº. 1.695 do Código Civil. 
0,25 
b) Consoante o enunciado da súmula nº. 596 do STJ “A obrigação alimentar 
dos avós tem natureza complementar e subsidiária, somente se 
configurando no caso de impossibilidade total ou parcial de seu 
cumprimento pelos pais.” (SÚMULA 596, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 
08/11/2017, DJe 20/11/2017). 
- fundamento legal: artigos nº. 1.696 e nº. 1.698 do Código Civil de 2002. 
0,25 
c) Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça, editado por 
meio da súmula nº. 621 do STJ “Os efeitos da sentença que reduz, majora 
ou exonera o alimentante do pagamento retroagem à data da citação, 
vedadas à compensação e à repetibilidade.” (SÚMULA 621, SEGUNDA 
SEÇÃO, julgado em 12/12/2018, DJe 17/12/2018). 
- fundamento legal: artigo 13, §2º, da Lei nº. 5.478/68 e artigo nº. 1.699 do 
Código Civil. 
0,25 
d) Nos termos da Súmula nº. 358 do STJ “O cancelamento de pensão 
alimentícia de filho que atingiu a maioridade está sujeito à decisão judicial, 
mediante contraditório, ainda que nos próprios autos.” (SÚMULA 358, 
SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 13/08/2008, REPDJe 24/09/2008, DJe 
08/09/2008). 
- fundamento legal: artigo 114 do CPC/2015 e artigo nº. 1.699 do Código 
Civil. 
0,25 
 
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4803092
60 
 
GRUPO V: TUTELA DE INTERESSES DIFUSOS, COLETIVOS E INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS 
 
 
GRUPO V - QUESTÃO 1 
 
A Promotoria de Justiça recebeu informações de que o município não estaria 
promovendo acesso à educação escolar, precisamente para os ensinos infantil e 
fundamental. Entre os relatos, estão a falta de vagas nas escolas; o não cumprimento 
da garantia de prioridade na matrícula e a transferência dos dependentes da mulher 
vítima de violência doméstica e familiar em instituição de educação básica 
mais próxima de seu domicílio; a não realização de matrícula, no mesmo 
estabelecimento de ensino, de irmãos que frequentam a mesma etapa ou ciclo do 
ensino básico; a falta de acompanhamento para educandos com dislexia e transtorno 
de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou outros transtornos 
de aprendizagem; a falta de material escolar e alimentação (merenda), entre outros. 
Após o registro na Promotoria, houve instauração do procedimento cabível para a 
apuração inicial. Posteriormente, restou comprovada a veracidade das informações, 
tendo o órgão de execução procurado inicialmente se valer de mecanismos resolutivos 
e consensuais para a busca da solução das questões apresentadas. Houve, por parte 
do poder público, imediato atendimento a uma parte das normas apontadas pelo 
Ministério Público como sendo descumpridas. Também foi entabulado acordo entre o 
Ministério Público e o poder público, com prazos e condições, em razão das 
peculiaridades, circunstâncias e necessidade de tempo para o seu cumprimento. Por 
fim, mesmo com ampla relação de crianças fora da escola e não tendo o poder 
público resolvido ou mesmo entabulado acordo quanto à falta de vagas para o ensino 
fundamental, alegando escassez de recursos e reserva do possível, o órgão de 
execução ingressou com a ação judicial cabível referente a esse ponto. Ante o 
panorama exposto e lembrando que as respostas devem sempre ser fundamentadas 
na legislação, nas normas do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, na doutrina 
e jurisprudência, responda: 
(Valor da questão: 2,5 pontos) 
a. Qual(is) procedimento(s) pode(m) ser instaurado(s) pelo Ministério Público para a 
apuração das informações recebidas? (0,25 ponto) 
b. Quais são os requisitos ou formalidades procedimentais para sua instauração, 
tramitação e encerramento? (0,25 ponto) 
c. Qual(is) mecanismo(s) resolutivo(s) e/ou consensual(is) pode(m) ser utilizado(s) 
pelo Ministério Público? (0,50 ponto) 
d. Quais são os requisitos ou formalidades procedimentais para a realização e validade 
dos mecanismos resolutivos e consensuais? (0,50 ponto) 
e. Como ocorre o acompanhamento dos termos e cláusulas do acordo celebrado 
durante o procedimento pelo Ministério Público? (0,50 ponto) 
f. Qual(is) ação(ões) judicial(is) pode(m) ser interposta(s) pelo Ministério Público nos 
variados cenários acima apontados? (0,50 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O registro inicial é a Notícia de Fato. Em seguida, o órgão de execução 
poderá instaurar um Procedimento Preparatório ou um Inquérito Civil 
(Resolução CNMP 23/2007; Resolução MPMS 015/2007). Isso porque as 
questões apresentadas demandam apuração não apenas do fato em si, 
mas de condutas que possam estar a propiciar tais situações. O 
Procedimento Administrativo não serve à investigação dos casos 
apontados, porquanto sua finalidade é outra e está bem definida na 
Resolução CNMP 174/2017 e também na Resolução 005/2012-CPJ 
(MPMS). Contudo, caso o candidato especifique que o Promotor/a pode 
almejar acompanhar as políticas públicas que serão (e deverão) ser 
implementadas em razão das constatações, haverá acerto na resposta. O 
0,25 
61 
 
órgão de execução poderá instaurar um único procedimento para apuração 
e tratativa de todos os assuntos ou, então, um procedimento para cada 
questão ou grupo de questões ante as diferenças de complexidade e 
resolutividade. 
b) Não há uma ordem obrigatória de qual dos procedimentos previstos na 
Resolução 015/2007 instaurar; contudo, em termos práticos, pode-se 
instaurar o Procedimento Preparatório e, findo seu prazo, convertê-lo em 
Inquérito Civil. O que não pode ocorrer é instaurar Inquérito Civil e, 
posteriormente, converter em Procedimento Preparatório. O Procedimento 
Preparatório ou Inquérito será iniciado conforme estabelece a Resolução 
015/2007, art. 6º e seguintes e art. 23 e seguinte, sendo instaurado por meio 
de portaria (Inquérito Civil, art. 14) ou despacho (Procedimento 
Preparatório, art. 23). É importante lembrar que os procedimentos possuem 
prazos e também possibilidades de prorrogações previstos nas normas de 
regência. O encerramento de um procedimento de investigação poderá 
ocorrerá por diferentes formas (se não houver comprovação das 
infringências legais; se houver resolução da questão por meios resolutivos; 
se houver judicialização e servir como instrumento debase para a inicial). 
Contudo, no caso apresentado, foi narrado que uma parte das questões foi 
resolvida, outra foi objeto de acordo (TAC) e em outra foi necessária a 
judicialização para a resolução. Assim, quando o acordo no Procedimento 
Preparatório ou Inquérito Civil não esgota o objeto, o procedimento deve 
continuar e, no caso narrado, servirá para instruir a ação judicial (Resolução 
015/2007, art. 22, § 13). Não será caso, pois, de arquivamento do 
procedimento em razão de celebração do TAC, como ocorre em casos em 
que o TAC esgota o objeto do procedimento. Por fim, vale mencionar que 
vigora o princípio da publicidade (Res. 015/2007, art. 30); contudo, há 
exceções previstas na legislação e na Res. 015/2007. 
 
0,25 
c) Como mecanismos resolutivos ou consensuais passíveis de utilização e 
aplicação no caso apresentado, pode-se citar a Recomendação (ECA, art. 
201; Resolução CNMP 164/2017; Res. 015/2007, art. 44), o TAC (Lei 
7.347/85, art. 5º, § 6º; ECA, art. 211; Resolução MPMS 015/2007, art. 33ss), 
o ANPC (caso também seja verificada na apuração a ocorrência de prática 
de ato de improbidade administrativa: Lei 8.429/92, art. 17-B; Resolução 
3/2021-CPJ). 
 
0,50 
d) A Recomendação pode ser expedida no bojo do procedimento, conforme 
dispõe a Res. 015/2007, art. 44. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) 
também poderá ser celebrado, com seus requisitos e procedimentos 
previsto na Res. 015/2007. Lembrando que o TAC não precisa ser 
encaminhado ao E. CSMP para homologação; mas, sim, apenas para 
cientificação. Também vale lembrar que caso o TAC não contemple todo o 
objeto do procedimento, não haverá o arquivamento do Inquérito Civil ou 
Procedimento Preparatório, ocasião em que o procedimento continuará a 
tramitar para o trato das questões que sobejarem aos pontos tratados no 
TAC. O ANPC poderá ser celebrado caso constatada conduta a configurar 
improbidade administrativa. Sua previsão está na Lei 8.429/92, art. 17-B e 
na Resolução 3/2021-CPJ (MPMS). Os requisitos e procedimento de 
tramitação estão previstos na lei e Resolução citadas. Importante destacar 
que há diferença entre a tramitação do ANPC extrajudicial e do judicial. 
Ambos, contudo, devem ser homologados judicialmente. 
 
0,50 
e) No caso do TAC e de eventual ANPC, o acompanhamento de suas 
cláusulas se dará via Procedimento Administrativo, conforme dispõe o art. 
38 e 39 da Resolução 015/2007 (TAC); Resolução 005/2012-CPJ, art. 8º 
(TAC) e Resolução 3/2021-CPJ, art.6º, § 7º (ANPC). Nesse procedimento 
o órgão de execução acompanhará o cumprimento das obrigações 
pactuadas, dos prazos e, se for o caso, poderá promover diligências e 
notificações. Também poderá o utilizar como base para instruir eventual 
execução judicial (ou mesmo ACP), em caso de descumprimento. 
0,50 
62 
 
f) Conforme descrito no enunciado, tendo o poder público não atendido a 
todos os direitos e cumprido os deveres normativos aplicáveis ao caso e, 
caso não haja estabelecimento de acordo, o Ministério Público poderá 
ajuizar Ação Civil Pública (Lei 7.347/85 e ECA, art. 208, art. 210; art. 213), 
com obrigação de fazer e não fazer, inclusive com pedidos de tutelas 
específicas e tutela provisória de urgência antecipatória, com imposição de 
multa diária ao(s) requerido(s) em caso de descumprimento. O STJ tem 
entendido ser possível fixação de multa pessoal ao gestor. Também tem 
sido admitida postulação de reparação de danos materiais e morais 
experimentados pelos cidadãos atingidos pelas situações descritas no 
enunciado. Caso haja prova pré-constituída e se for o caso, poderá 
fragmentar as frentes de atuação e, assim, interpor também mandado de 
segurança para fins de garantir direito líquido e certo das crianças e 
adolescentes (ECA, art. 212). Caso celebrado TAC e este não seja 
cumprido, poderá ser interposta ação para seu cumprimento. Caso a 
apuração também aponte caracterização de infração aos artigos 9º, 10 e 11 
da Lei 8.429/92, também poderá ajuizar ação de improbidade 
administrativa. As medidas criminais não são abordadas nessa avaliação, 
em razão da temática “interesses difusos” da prova em tela. 
0,50 
 
 
 
GRUPO V - QUESTÃO 2 
 
A Promotoria de Justiça recebeu informações de que determinada pessoa jurídica 
estaria a realizar empreendimento em um espaço considerado como área de 
preservação permanente, em função da presença de determinadas características 
naturais, bem como de seu entorno e elementos da natureza ali presentes. Lembrando 
que as respostas devem sempre ser fundamentadas na legislação, nas normas do 
Ministério Público de Mato Grosso do Sul, na doutrina e jurisprudência, responda: 
(Valor da questão: 1,5 ponto) 
 
a. O que são áreas de preservação permanente e como são estabelecidas e 
definidas essas áreas segundo a legislação brasileira? (0,25 ponto) 
b. Pode o poder público estabelecer outras áreas além das expressamente definidas 
na lei de definição geral e abstrata? (0,25 ponto) 
c. Pode haver intervenção humana nessas áreas? (0,25 ponto) 
d. A pessoa jurídica pode responder por eventuais atos contrários às normas 
ambientais? (0,25 ponto) 
e. Caso haja autorização do poder público para o empreendimento, ainda que 
contrária às normas ambientais, cabem medidas pelo órgão de execução do 
Ministério Público? (0,50 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) A Lei 12.651/21, em seu art. 3º, II, define “área de Preservação 
Permanente - APP: área protegida, coberta ou não por vegetação nativa, 
com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a 
estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e 
flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas”. 
Na sequência, em especial nos artigos 4º e 5º, a norma estabelece a 
configuração das APPs conforme as características naturais presentes em 
determina região, entre outros pontos. Os art. 6º e art. 7º também 
estabelecem circunstâncias, regime legal para definição, enquadramento e 
tratamento dessas áreas. 
 
0,25 
b) Sim, o poder público poderá definir áreas de preservação permanente. 
Esse é o comando do art. 6º da Lei 12.651/12. Trata-se de uma exceção à 
regra da definição geral e abstrata. É importante observar que ao dispor a 
expressão “quando declaradas de interesse social”, a lei faz uma exigência 
0,25 
63 
 
específica e, nesse ponto, deve-se submeter à disciplina da Lei 4.132/62, 
equiparando e exigindo para tal definição a desapropriação da área. Desse 
modo, diferente dos casos do art. 4º da Lei 12.651/12, se o Poder Público 
quiser instituir efetivamente uma APP, deverá desapropriar a área (vide 
Milaré, Édis; Machado, Paulo Affonso Leme, Novo Código Florestal: 
comentários à Lei 12.651/12 e outras. São Paulo: Revista dos Tribunais, 
2013, p. 175-176; Andrade, Adriano et alii. Interesses Difusos e Coletivos, 
vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Método. 2022, p. 126). 
 
c) Sim, pode haver intervenção humana nas APPs. Contudo há 
regramentos para essa possibilidade, conforme estabelecem os arts. 8º e 
9º da Lei 12.651/12. Assim, no caso do enunciado, é preciso ver se o 
empreendimento citado, além de realmente estar sendo realizado em uma 
APP, está sob o pálio das possibilidades de intervenção ou se está a 
contrariar as normas aplicáveis ao caso. Abstraindo a questão de eventuais 
autorizações por órgãos da administração pública (pois o Ministério Público 
tem o poder-dever de verificar inclusive a legalidade dessas autorizações, 
em casos de denúncias).; as três circunstâncias excepcionais norteadoras 
para verificação da legalidade ou não da intervenção são: utilidade pública, 
interesse social e baixo impacto ambiental. Os casos de utilidade pública 
estão voltados a obras e atividades do Poder Público, em razão do interesse 
público inerente às suas atividades. O interesse social se apresenta em 
situações relacionadas a atividades privadas que possuam expressãode 
relevância ao fenômeno social. Por fim, as situações de baixo impacto são 
extraídas de atividades relevantes no aspecto social e econômico e que não 
produzam graves ou significativos danos ao meio ambiente. Essas 
situações estão também destacadas no art. 3º da própria lei 
supramencionada. Frise-se que o Supremo Tribunal Federal, no julgamento 
das ADIs ajuizadas contra dispositivos da Lei 12.651/21 (ADIs 4.9011, 
4.902, 4.903 e 4.937), postou interpretação conforme a Constituição 
Federal ao art. 3º, VIII e IX, para condicionar a intervenção excepcional em 
APP, por interesse social ou utilidade pública, à inexistência de alternativa 
técnica e/ou locacional à atividade proposta. Caso se trate de APP em área 
rural consolidada (art. 3º), a regra que se impõe é a prevista no art. 61-A da 
Lei 12.651/21, com autorização para continuidade das atividades 
agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural em áreas rurais 
consolidadas até 22 de julho de 2008. O empreendimento poderá ser, 
apenas, para essa continuidade (art. 61-A, § 12), aliado aos demais 
requisitos citados nos dispositivos já mencionados, bem como desde que 
promovidas as atividades de recomposição elencados na norma. 
 
0,25 
d) Sim, a pessoa jurídica pode responder por atos contrários às normas 
ambientais. A Constituição Federal, em seu art. 225, § 3º, estampa que “as 
condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os 
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, 
independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. Assim, 
observa-se a coexistência de responsabilidade por violação às normas 
ambientais em três diferentes esferas: a administrativa, a civil e a criminal. 
A Lei 6.938/81, que trata da Política Nacional do Meio Ambiente, sobre a 
responsabilização e, ainda, sobre a legitimidade do Ministério Público, em 
seu art. 14, § 1º, dispõe que “sem obstar a aplicação das penalidades 
previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da 
existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio 
ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério Público da 
União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de 
responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente”. A 
Lei 9.605/98, que versa precisamente sobre as sanções penais e 
administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio 
ambiente, destaca que “as pessoas jurídicas serão responsabilizadas 
administrativa, civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos casos 
em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou 
contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua 
entidade”. 
0,25 
64 
 
 
e) Sim, o Ministério Público possui o poder-dever de atuar, em caso de 
constatação de autorização pelo Poder Público que não atenda às normas 
de proteção. Neste caso, poderá encetar medidas para nulidade do ato 
administrativo, que podem ser desde recomendação ao Poder Público para 
que, dentro de sua autotutela administrativa, revogue o ato, bem como 
ingressar com ação judicial para essa finalidade. Exemplos de atuação do 
Ministério Público de Mato Grosso do Sul como no caso do enunciado em 
que o poder público ilegalmente autorizou empreendimento em área de 
preservação permanente, havendo sua nulidade do ato administrativo: STJ 
– Resp 1.394.025-MS (2013/0227164-1) – Rel Min Eliana Calmon. Julgado 
08/10/2013. STJ – Resp 1.245.149-MS, Rel Min Herman Benjamin. Julgado 
em 09/10/2012. Vale lembrar que a concessão ilegal de autorização não 
escusa o dever de reparação de dano pelo particular; pode, contudo, 
conforme o caso, ser observado por ocasião da análise de eventual 
responsabilização. Caso o empreendimento tenha sido iniciado, pode 
ingressar com medidas visando cessar as atividades e, posteriormente, sua 
retirada/destruição e reparação do meio ambiente lesado. Ainda, o 
Ministério Público pode investigar o ato de concessão para, conforme a 
situação e circunstâncias, empreender medidas para eventual 
responsabilização dos agentes públicos atuantes na autorização indevida, 
bem como o dever solidário de reparação. 
 
0,50 
 
 
 
GRUPO V - QUESTÃO 3 
 
Chegou à Promotoria de Justiça relato anônimo, via Ouvidoria do Ministério Público, de 
que estaria a ocorrer, naquela localidade, falhas nos sinais de telefonia celular, via 
Estações de Rádio Base (ERB), tanto na qualidade quanto nos seus alcances. Ademais, 
estaria a ocorrer errônea tarifação das ligações, tratadas como interurbanas, quando 
deveriam ser locais. Ante a situação relatada, lembrando que as respostas devem 
sempre ser fundamentadas na legislação, nas normas do Ministério Público de 
Mato Grosso do Sul, na doutrina e jurisprudência, responda: 
(Valor da questão: 1,0 ponto) 
 
a. Há afetação a algum direito do consumidor? (0,25 ponto) 
b. O Ministério Público é parte legítima para investigar e providenciar medidas 
extrajudiciais e judiciais? (0,25 ponto) 
c Quais medidas procedimentais extrajudiciais e judiciais podem ser praticadas e 
quais são os resultados a serem buscados? (0,50 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
Resposta Ideal 
 
Pontuação 
máxima 
a) Sim, a má prestação de serviços, as irregularidades apontadas e a 
cobrança ilegal afetam direitos consumeristas e são passíveis de medidas 
pela legislação pátria: em destaque o Código de Defesa do Consumidor, 
art. 3º, art. 6º, III, VI e X; art. 14, art. 22 e art. 42, parágrafo único. Há do 
candidato levar em consideração o caso apresentado, ou seja, que se 
tratam de práticas exteriorizadas por uma concessionária de telefonia. 
0,25 
b) Sim, o "Ministério Público possui legitimidade ativa para promover a 
defesa dos direitos difusos ou coletivos do consumidor e de seus interesses 
ou direitos individuais homogêneos, inclusive no que se refere à prestação 
de serviço público, haja vista a presunção da sua relevância para a 
coletividade” (STJ - REsp 1.347.910/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, 
Segunda Turma, julgado em 26/5/2015, DJe 12/2/2016). No mesmo 
sentido, em caso a envolver ação civil pública ajuizada pelo Ministério 
Público em face de empresa de telefonia, o Supremo Tribunal Federal 
manifestou “há legitimidade do Ministério Público para “promover ação civil 
pública ou coletiva para tutelar, não apenas direitos difusos ou coletivos de 
0,25 
65 
 
consumidores, mas também de seus direitos individuais homogêneos, 
inclusive quando decorrentes da prestação de serviços públicos. Trata-se 
de legitimação que decorre, genericamente, dos artigos 127 e 129, III da 
Constituição da República e, especificamente, do artigo 82, I do Código de 
Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) (STJ - AgInt no AGRAVO EM 
RECURSO ESPECIAL Nº 583640 - RJ (2014/0238079-0)”.No mesmo 
sentido, citam-se: REsp 984.005/PE, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, 
Primeira Turma, julgado em 13.9.2011, DJe de 26.10.2011). Incidência da 
Súmula 83/STJ" (STJ, AgRg no AREsp 255.845/SP, Rel. Ministro 
HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, DJe de 10/08/2015). No 
mesmo sentido: STJ, AgInt nos EDcl no REsp 1.469.295/PR, Rel. Ministro 
NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, Rel. p/ acórdão Ministra REGINA 
HELENA COSTA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 17/12/2021; EDcl no AgInt 
no REsp 1.707.597/ES, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA 
TURMA, DJe de 04/11/2021; AgInt no AREsp 222.660/MS, Rel. Ministro 
GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 19/12/2017”. Ademais, 
há a Súmula 643 do Supremo Tribunal Federal, Súmula 601 do Superior 
Tribunal de Justiça, conjugadas com Lei 7.437/85, art. 1º, II c.c. art. 5º, I. A 
resposta do espelho possui quantidade de linhas superior ao disponibilizado 
ao candidato, apenas para melhor compreensão das justificativas e bases 
normativas, jurisprudenciais e doutrinárias das respostas apresentadas 
como ideais pelo examinador. 
c) Partindo-se da premissa que o órgão do Ministério Público recebeua 
denúncia mencionada e terá instaurado o procedimento de investigação 
cabível, poderá se valer dos meios resolutivos e consensuais à disposição 
ou, na impossibilidade ou não cabimento desses, na interposição de 
medidas judiciais. Extrajudicialmente, poderá buscar se valer da expedição 
de Recomendação, bem como de Termo de Ajustamento de Conduta (no 
qual poderá tentar entabular cláusulas prevendo os pontos que serão 
expostos a seguir, informados na descrição de possível ACP). Poderá 
ajuizar Ação Civil Pública com obrigações de fazer e não fazer, tais como 
fornecer o serviço adequadamente, com qualidade, de forma ininterrupta e 
nos termos dos contratos firmados e normas de regência do serviço de 
telefonia; devolver os valores cobrados indevidamente; abster-se de novas 
cobranças ilegais e abusivas; pode-se postular a abstenção e impedimento 
de venda de novas linhas até que o serviço esteja completamente de acordo 
com a qualidade do serviço devido, bem como que seja regularizada a 
questão da cobrança dos valores corretos; entre outros. Pode-se postular a 
inversão do ônus da prova, conforme assentado na jurisprudência 
brasileira. Poderá postular pagamento de indenização a título de danos 
materiais e, ainda, por dano moral coletivo (precedentes do STJ), conforme 
preceitua o art. 22 e parágrafo único, do CDC. 
 
0,50 
 
 
 
GRUPO V - QUESTÃO 4 
 
Após investigações na área do Patrimônio Público, a Promotoria de Justiça concluiu 
que três empresas, por meio de seus representantes, juntamente com três agentes 
públicos da comissão permanente de licitação e o secretário municipal de obras, 
conluiados de forma consciente e ajustados, fraudaram o processo licitatório por meio 
de combinação prévia de preços. O prefeito, na condição de gestor e ordenador de 
despesas, assinou o contrato sem que se comprovasse sua participação no esquema 
prévio que direcionou a licitação. Apurou-se que a empresa vencedora, por ocasião da 
execução do contrato, por meio de utilização de material de qualidade inferior e diverso 
do especificado na proposta da licitação, bem como pela não realização de todos os 
serviços necessários e devidos, obteve um lucro muito superior ao previsto, somente 
possibilitado em razão de tais circunstâncias. Constatou-se, também, que os produtos 
e serviços foram atestados falsamente como corretos pelos dois agentes 
públicos responsáveis pela fiscalização da execução do contrato e, assim, o 
pagamento foi devidamente realizado a cada etapa da obra. Por meio de técnicas de 
investigação e utilização de cautelares criminais, verificou-se que a empresa vencedora 
em tela chegou a repassar a familiares dos agentes públicos acima identificados e do 
66 
 
secretário determinadas quantias em valores pecuniários. Desses familiares, dois 
repassaram os valores diretamente aos envolvidos e três concederam aos agentes 
públicos e secretário mencionados procurações com amplos poderes para gerir suas 
contas e administrar seus bens. O patrimônio dos agentes públicos investigados se 
mostrou totalmente incompatível com seus vencimentos. Foram obtidas provas da 
utilização de bens e produtos adquiridos ou registrados em nome dos familiares pelos 
agentes públicos e secretário. Por fim, restou demonstrado que, além dos sócios da 
empresa vencedora, o esquema todo contou com a participação consciente e ativa de 
seu gerente e de seu contador. Diante da narrativa em tela e lembrando que todas as 
questões devem ser fundamentadas segundo a legislação, doutrina e jurisprudência, 
responda: (*considerar que as medidas no âmbito criminal já estão sendo ou foram 
adotadas pelo órgão de execução): 
(Valor da questão: 3,5 pontos) 
 
a. Quais ilegalidades e tipos ilícitos podem estar caracterizados, relacionando-os 
individualmente a cada uma das pessoas físicas e jurídicas acima identificadas? 
(1,50 ponto) 
b. Quais medidas extrajudiciais e judiciais podem e devem ser empreendidas pelo 
órgão de execução do Ministério Público, uma vez concluída a investigação? (2,00 
pontos) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 60 linhas. 
 
Resposta Ideal 
 
Pontuação 
máxima 
a) O enunciado descreve caso de articulação para a prática de corrupção, 
com possibilidade de algumas tipificações ilícitas. Considerando que as 
implicações criminais não são objeto da questão (conforme salientado no 
enunciado), a ideia da pergunta é focar na Lei de Improbidade 
Administrativa (Lei 8.429/92) e Lei Anticorrupção (Lei 12.846/13). É 
importante destacar que nada obstante as alterações na Lei de Improbidade 
Administrativa encetarem para tipificação única para cada ato (art. 17, § 10-
D), tem-se a possibilidade de ocorrência de várias condutas e, assim, várias 
tipificações. Ademais, há a possibilidade de tipificações subsidiárias. Para 
a avaliação do candidato, por não se tratar de peça jurídica, torna-se 
relevante verificar seu conhecimento sobre as tipificações possíveis ao 
caso. Individualizando a atuação dos envolvidos, pode-se traçar a seguinte 
definição de condutas e tipificações: 1. Pessoas jurídicas que atuaram de 
forma fraudulenta na licitação: infringência da Lei Anticorrupção, já que as 
pessoas jurídicas podem ser responsabilizadas, inclusive objetivamente, 
nos âmbitos administrativo e civil, pelos atos lesivos previstos nessa Lei, 
seja em seu interesse ou benefício, exclusivo ou não e, ainda, podem ser 
responsabilizadas independentemente da responsabilização individual das 
pessoas naturais, tais como seus dirigentes, administradoras ou qualquer 
pessoa autora, coautora ou partícipe do ato ilícito. O art. 5º da LAC prevê 
como atos lesivos à administração pública todos aqueles praticados pelas 
pessoas jurídicas mencionadas no parágrafo único do art. 1º, que atentem 
contra o patrimônio público nacional ou estrangeiro, contra princípios da 
administração pública ou contra os compromissos internacionais assumidos 
pelo Brasil. Como o enunciado não fala se houve na entabulação da fraude 
de combinação de preços um ajuste de propina (vantagens indevidas), 
pode-se tipificar a conduta no art. 5º, "a" e "d". 2. Pessoa jurídica vencedora 
da licitação: além da tipificação especificada no item anterior, em razão do 
conluio na licitação, eis que foi demonstrado que atuou na fraude na 
execução do contrato, propiciando dano ao erário, além de pagamento de 
propina a agentes públicos. Assim, pela LAC, pode incidir no disposto no 
art. 5º, I, II, IV, "d". Mas e a questão do dano ao erário? Afinal, houve grande 
prejuízo ao poder público. Neste caso, as condutas de utilização de material 
de qualidade inferior e diverso do especificado na proposta da licitação, bem 
como a não realização de todos os serviços necessários e devidos, deve 
incidir no art. 10, "caput" e inciso I. Isso porque o disposto na Lei 12.846, 
art. 5º, IV, “f” não denota necessariamente o caso em tela e, ainda, há a 
incidência da especialidade da narrativa típica. Há discussões jurídicas; 
1,50 
67 
 
então, caso apresentadas pelo candidato, serão consideradas. Apesar da 
alteração da Lei de Improbidade Administrativa pela Lei 14.230/21, 
inserindo o art. 3º, § 2º, dispondo que as sanções da LIA não se aplicam à 
pessoa jurídica caso o ato de improbidade também seja sancionado como 
ato lesivo pela LAC, é importante o candidato mencionar que, no caso em 
tela, aplica-se a Lei de Improbidade Administrativa. Tanto que a própria Lei 
de Improbidade Administrativa, em seu art. 12, § 3º, ao tratar das sanções, 
destaca que" na responsabilização da pessoa jurídica, deverão ser 
considerados os efeitos econômicos e sociais das sanções, de modo a 
viabilizar a manutenção de suas atividades". Ou seja, a própria Lei de 
Improbidade Administrativa prevê responsabilização de pessoas jurídicas; 
apenas veda que seja sancionada duas vezes pela mesma conduta, caso 
seja enquadrada em dois tipos ao mesmo tempo, ou seja, uma da Lei de 
Improbidade Administrativa e outra da Lei Anticorrupção.591, de 06 de julho de 1992; Artigo 23, IX e X, do artigo 30, VIII. e do artigo 182, da 
Constituição Federal; Artigo 4º, III, f, e do artigo 44 da Lei 10.257/2001 (Estatuto das Cidades); 
Lei Federal 13.465, de 2017 (REURB); Artigo 48, parágrafo único, da Lei Complementar n. 
101/2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal); Lei 11.124/2005. 
 
 
GRUPO I – QUESTÃO 6 
 
A Câmara de Vereadores de determinado Município de Mato Grosso do Sul iniciou 
tramitação de projeto de lei municipal que estabelece normas de vedação ao acesso a 
cargos em comissão do Poder Executivo, quando caracterizada a prática de nepotismo. 
O referido projeto de lei foi questionado pelo Prefeito do Município com base no art. 61, 
§1o, inciso II, alínea “c” da Constituição Federal. Diante do caso exposto, argumente a 
quem assiste razão, ao Poder Legislativo ou ao Executivo do Município. A resposta deve 
ser fundamentada em entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o tema. 
(Valor da questão: 1,5 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O vício formal de iniciativa “se relaciona com o sujeito que tem 
competência ou legitimidade para iniciar/deflagrar o processo. Um exemplo 
de inconstitucionalidade formal subjetiva é o caso de um deputado ou um 
0,50 
6 
 
senador apresentar um projeto de lei dando início ao processo legislativo 
sobre matéria de competência privativa (exclusiva) do Presidente da 
República, previsto no art. 61, § 1º, da CF88. (...)”4. Cumpre destacar que a 
previsão do §1º do art. 61 da CF tem aplicabilidade ao caso pelo princípio da 
simetria. 
b) O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE nº 570.392, com 
incidência de repercussão geral que determinou: “Não é privativa do Chefe 
do Poder Executivo a competência para iniciativa legislativa de lei sobre 
nepotismo na Administração Pública: leis com esse conteúdo normativo dão 
concretude aos princípios da moralidade e da impessoalidade do art. 37 
cpaut, da Constituição Federal, que, ademais, têm aplicabilidade imediata, 
ou seja, independente de lei”. 
“Ao retirar o tema nepotismo da previsão do artigo 61 da CF/88 e alça-lo à 
égide do artigo 37, o Supremo Tribunal Federal definiu que a vedação ao 
nepotismo decorre da interpretação dos princípios da Administração Pública 
e que não é dado a qualquer ente da administração desrespeitar os preceitos 
constitucionais sobre o tema. Assim, a tese deve permanecer hígida e 
orientar todas as esferas da administração, não havendo mais o que se 
discutir a respeito de eventual iniciativa legislativa para edição de lei que trate 
da proibição ao nepotismo.” 5 
0,50 
c) Merece destaque que o referido projeto de lei, além de norteado em 
princípios constitucionais inegociáveis, encontra amparo na Súmula 
Vinculante nº 13. 
0,50 
Referência: 
4 FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional, 6ª Ed., p. 1.085 
5 PUGLIESE, William Soares. Teses jurídicas dos Tribunais Superiores: Direito 5 
Constitucional 1 / Clêmerson Merlin Clève e Pedro Henrique Galotti Klenicke, coordenação. 
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017. 
 
 
 
GRUPO II – DIREITO PENAL 
 
 
GRUPO II – QUESTÃO 1 
 
Sulpício Tarquinius tem 35 anos e reside com a esposa e seus quatro filhos na cidade 
de Goiânia/GO. Não possui qualquer passagem criminal. Deprimido por ter sido 
demitido do trabalho em razão da contenção de gastos do empregador e com diversas 
dívidas, foi procurado por um indivíduo conhecido como Zé Cannabis. Referido 
indivíduo lhe propôs para que se dirigisse até uma das cidades do Mato Grosso do Sul, 
que faz divisa com o Paraguai, a fim de que buscasse uma “mercadoria para fins 
medicinais” e, com ela, retornasse até a origem. Para tanto, lhe ofereceu o pagamento 
de R$ 2.000,00 (dois mil reais), que seria pago quando finalizasse o serviço. De tal modo, 
Zé Cannabis entregou a Sulpício as passagens de ônibus e lhe passou as coordenadas 
do que deveria ser feito, assim como declinou as características físicas da pessoa que 
faria a entrega da dita mercadoria e demais recomendações. E assim foi feito. Ao 
desembarcar na cidade fronteiriça, Sulpício Tarquinius recebeu uma mala que pesava 
aproximadamente 30 kg, além da passagem de retorno até Goiânia/GO. Sem conferir o 
conteúdo, aguardou naquela cidade o horário do ônibus de volta. No trajeto de volta, 
ainda no estado do Mato Grosso do Sul, o ônibus foi abordado pela equipe do 
Departamento de Operações de Fronteira (DOF), azo em que constatou que Sulpício 
Tarquinius transportava consigo cerca de 30 kg de maconha. Encaminhado para a 
Delegacia de Polícia local, a autoridade policial, após ouvir a versão do autuado, que 
corresponde ao contexto narrado, efetua a lavratura do auto de prisão em flagrante e 
indicia Tarquinius como incurso no art. 33 § 4º da Lei 11.343/06 (Lei de Drogas), ou seja, 
tráfico privilegiado. Registre-se que o Delegado de Polícia fundamentou o indiciamento 
diante da versão apresentada pelo autor e, ainda, destacou o fato de ser ação 
corriqueira naquela região do Estado. Outrossim, indicou precedentes recentes do 
 
 
 
7 
 
Poder Judiciário, que dão amparo ao seu posicionamento. O caso foi levado a(o) 
Promotor(a) de Justiça Substituto(a), que recém assumiu a comarca fronteiriça para 
análise. Diante da situação apresentada, responda: (Valor da questão: 1,5 ponto) 
 
a. É correta a capitulação apontada pela autoridade policial? Fundamente. (0,25 ponto). 
b. É possível afirmar que, hodiernamente, passou a ser reconhecido a figura do crime 
propriamente dito de tráfico privilegiado? Fundamente. (0,25 ponto). 
c. À luz da jurisprudência dos Tribunais Superiores, tráfico privilegiado deve ser 
considerado crime equiparado a hediondo? Discorra sobre as razões que levaram 
ao posicionamento jurisprudencial e aponte as consequências jurídicas correlatas. 
(0,50 ponto). 
d. Discorra sobre o delito tráfico privilegiado e a (in)compatibilidade com os mandados 
constitucionais de criminalização, concluindo com seu posicionamento, 
devidamente fundamentado. (0,50 ponto). 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
ITEM A: 
- afirmar o erro da autoridade policial; 
- fundamento legal e jurisprudencial; 
- capitulação correta do crime narrado na questão. 
 
a) É correta a capitulação apontada pela autoridade policial? 
Fundamente. (0,25 ponto). 
A autoridade policial laborou em equívoco, na capitulação do indiciamento 
do autor. Ninguém comete o crime do art. 33 § 4º. Comete-se o crime do art. 
33, caput, ou de seu § 1º, ainda que, na terceira fase da aplicação da pena, 
o agente seja beneficiado pela diminuição de pena prevista no § 4º. 
Ainda que o crime tenha sido praticado na região de fronteira com o 
Paraguai, o enredo não apontou evidências para afirmar a ocorrência da 
transnacionalidade, prevista no art. 40, inciso I da Lei 11.343/06. 
Todavia, a situação enseja na majorante prevista no art. 40, inciso V, qual 
seja, tráfico interestadual. E assim deverá ser considerado "ainda que não 
tenha haviado a efetiva transposição de fronteiras entre estados da 
Federação, sendo suficiente a demonstração inequívoca da intenção de 
realizar o tráfico interestadual", a teor da Súmula 587 do STJ. 
Desse modo, a capitulação consentânea com o caso concreto é a de que 
Tarquinius deveria ser indiciado como incurso no art. 33, caput, c/c art. 40, 
inciso V da Lei 11343/06, consignando que o reconhecimento da minorante 
prevista no § 4º trata-se de matéria probatória a ser explorada durante a 
persecução probatória. 
0,25 
ITEM B: 
- afirmar a impossibilidade do reconhecimento do tráfico privilegiado; 
- apresentar os fundamentos doutrinários e jurisprudenciais. 
 
b) É possível afirmar que, hodiernamente, passou a ser reconhecido a 
figura do crime propriamente dito de tráfico privilegiado? Fundamente. 
(0,25 ponto). 
O “tráfico privilegiado”, assim denominado pela incidência das circunstânciasComo bem 
assevera o professor Landolfo Andrade de Souza, "prova disso é que a Lei 
14.230/2021 também incluiu o § 7º no art. 12 da LIA, para dispor que as 
sanções aplicadas a pessoas jurídicas com base na LIA e na LAE deverão 
observar o princípio constitucional do non bis in idem" (...)" - ANDRADE, 
LANDOLFO. A aplicação subsidiária da Lei de Improbidade Administrativa 
às pessoas jurídicas: a necessária releitura do artigo 30, I, da Lei 
12.846/2013. GENJURÍDICO, 2022. Disponível em: Acesso em: 1º de 
fevereiro de 2023. 3.Representantes legais das pessoas jurídicas atuantes 
na licitação fraudulenta que favoreceram a empresa vencedora: os 
representantes legais, uma vez demonstrado o elemento volitivo doloso 
para a improbidade, responderão por infringência ao art. 11, inciso V, da Lei 
de Improbidade Administrativa. Caso tenham recebido vantagem 
econômica, também estarão passíveis de serem responsabilizados pelo art. 
9º, caput, e inciso II. 4.Agentes públicos da CPL (Comissão Permanente de 
Licitação): a atuação dos agentes da CPF foi conluiada com o Secretário de 
Obras e com os representantes das empresas. Desta forma, houve a fraude 
que ensejou o vencimento do certame por uma delas, a qual passou a ser 
responsável pelo contrato. Em razão da constatação de recebimento de 
propina para esse ajuste, cabível a incidência do art. 9º, I e II. Havendo 
prova de que havia prévio conhecimento de que a vencedora iria propiciar 
dano ao erário, também há a incidência do art. 10, caput (aqui vale informar 
que há a discussão jurisprudencial sobre o dano in re ipsa e a mudança na 
Lei de Improbidade Administrativa). Como não há no enunciado esse 
detalhamento, será considerado caso o candidato tenha destacada a 
hipótese. Ademais, há clara incidência do art. 11, V, da Lei de Improbidade 
Administrativa. 5.Secretário de Obras: sua atuação ocorreu tanto para a 
fraude à licitação, como para ocorrência de fraude na execução do contrato, 
onde houve o enriquecimento ilícito por parte da empresa vencedora e 
seu(s) represente(s) legal(is). Ademais, restou comprovado o recebimento 
de propina. Deste modo, é cabível a incidência do art. 9º, caput, incisos I, 
II, IX e X; art. 10, caput e incisos I, VIII, XII e art. 11, V, todos da Lei de 
Improbidade Administrativa. 6.Agentes públicos fiscais da execução do 
contrato: como restou comprovado o recebimento de propina pelos 
envolvidos, bem como que estes atuaram para que houvesse a fraude na 
execução do contrato, com dano ao erário e enriquecimento ilícito por parte 
da empresa vencedora e seu(s) represente(s) legal(is), é possível a 
incidência do art. 9º, caput e incisos VI, IX e X, bem como art. 10, caput, e 
inciso XII da Lei de Improbidade Administrativa. 7.Familiares dos agentes 
públicos e do Secretário de Obras: nada obstante serem passíveis de 
responsabilizações na seara criminal (como, por exemplo, na Lei de 
Lavagem de Dinheiro), a responsabilização de improbidade administrativa 
exige a comprovação do elemento subjetivo do tipo de improbidade e 
atuação (conduta volitiva) para que ela ocorra (art. 3º, caput). No caso, a 
descrição aponta para um conluio dos familiares, auxiliando no esquema do 
fluxo da propina do agente privado (empresa vencedora) para os agentes 
públicos. Somente se houver demonstração da consciência de que tais 
condutas e sua inserção na engrenagem para ocorrência dos atos ilícitos, 
poderá haver suas responsabilizações. Assim, esse tópico será aberto para 
verificação da digressão do candidato. 8.Gerente e contador da empresa 
68 
 
vencedora: não há informação no enunciado de que estes obtiveram 
dinheiro para os atos praticados. Caso seja comprovado, é possível a 
incidência da tipificação do art. 9º e alguns de seus incisos, da LIA. Sendo 
preciso ao enunciado, suas atuações, dolosas, contribuíram para o dano ao 
erário, porquanto cientes do prejuízo que estavam a causar aos cofres 
públicos quando orquestraram a fraude à licitação e à execução do contrato 
com a má qualidade dos produtos e falta do serviço devido. Não incide, pois, 
o disposto no art. 3º, § 1º. Assim, podem responder pelo disposto no art. 10, 
caput, VIII, XII c.c. art. 3º da LIA. 9.Por fim, como não houve qualquer 
comprovação de atuação do prefeito municipal nas fraudes descritas, ele 
não pode ser responsabilizado apenas por ser o gestor, lembrando-se que 
os atos de improbidade administrativas somente são puníveis quando a 
conduta do agente é dolosa (art. 1º, §§ 1º e 2º). Eventuais citações às 
infrações da Lei 14.133/21, a título de fundamentação, serão consideradas. 
Mas não há sua exigência. Vale destacar, por fim, que não foram 
questionadas as implicações criminais e, assim, eventuais apontamentos 
demonstrarão falta de atenção e impropriedade a serem consideradas na 
avaliação. A resposta do espelho, vale destacar, assim como nas demais 
questões da prova, possui quantidade de linhas superior ao disponibilizado 
ao candidato, apenas para melhor compreensão das justificativas e bases 
normativas, jurisprudenciais e doutrinárias das respostas apresentadas 
como ideais pelo examinador. 
b) Partindo-se da premissa que houve o término das investigações e, 
constatadas as ilegalidades destacadas no item anterior, o Ministério 
Público pode empreender as seguintes medidas: 
1.Postular perante o Poder Judiciário o compartilhamento de provas da 
esfera criminal (cautelares criminais citadas no enunciado) para a esfera 
cível, conforme preceitua o art. 372 do Código de Processo Civil e 
precedentes do STF e STJ). Exemplos: STF- Inq 3305 AgR, Relator(a): Min. 
MARCO AURÉLIO, Relator(a) p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO, 
Primeira Turma, julgado em 23/02/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-
137 DIVULG 30-06-2016 PUBLIC 01-07-2016. STJ - REsp 1122177/MT, 
Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 
03/08/2010, DJe 27/04/2011). STJ - AgInt no AREsp 1333528/SP, Rel. 
Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 
19/08/2019, DJe 22/08/2019. 
2.Postular judicialmente a indisponibilidade dos bens e valores dos 
envolvidos, nos termos do art. 16 da Lei 8.429/92. 
3.Também é possível postular o afastamento dos agentes públicos (agentes 
e Secretário de Obras), se a medida se mostrar necessária à instrução 
processual e/ou para evitar a iminente prática de novos ilícitos (Lei 8.429/92, 
art. 20, § 1º). 
4.Pode-se, nos casos em que se mostrarem cabíveis e autorizados pela 
norma, haver a proposta de acordo de não persecução cível extrajudicial 
(ANPC) aos envolvidos, nos termos do art. 17-A da Lei de Improbidade 
Administrativa e Resolução 3/2021-CPJ do MPMS. 
5.Frente às pessoas jurídicas, pode ser celebrado o acordo de leniência (Lei 
Anticorrupção, Capítulo V). Contudo, em razão de discussões na 
jurisprudência acerca da legitimidade do Ministério Público, a 
recomendação é que seja celebrado conjuntamente pelos demais 
legitimados estampados na norma citada. Essa interpretação tem sido 
disposta em atenção ao disposto no art. 129, IX, da Constituição Federal; 
art. 5º, § 6º, da Lei 7.347/85; art. 26 da Convenção de Palermo; art. 37 da 
Convenção de Mérida; art. 3º, § 2º e § 3º do Código de Processo Civil, art. 
840 e 932, III, do Código Civil; art. 16 a 21 da Lei 12.846/12 e Lei 13.140/15. 
No Ministério Público de Mato Grosso do Sul, tem-se a Resolução 
006/2019-CPJ. No sentido da possibilidade do acordo pelo Ministério 
Público: Tribunal Regional Federal da 1ª Região (Quarta Turma). AI 
0019619- 52.2017.4.01.0000/GO. Relator: Desembargador Federal Olindo 
Menezes. Julgado em 20.8.2019, publicado em 5 set. 2019. Ainda: Tribunal 
Regional Federal da 4ª Região. Agravo de Instrumento 5023972-
66.2017.4.04.0000. Terceira Turma, Relatora Desembargadora Vânia Hack 
de Almeida, DJe 24.8.2017 (aqui, afirmando a legitimidade, mas 
2,00 
69 
 
condicionando à atuação conjunta de outros órgãos). Também afirma a 
legitimidade do Ministério Público: ATHAYDE, Amanda. Manual dos 
Acordos de Leniência no Brasil: Teoria e Prática. BeloHorizonte: Editora 
Fórum, 2019, p. 258–26. Como a questão ainda é discutida, referidos 
apontamentos precisam ser enfrentados pelo candidato. 
6.Frente às pessoas jurídicas, pode haver ajuizamento de ação com vistas 
à aplicação de sanções previstas na Lei Anticorrupção (art. 19). 
7.Frente às pessoas jurídicas, também podem ser requeridas medidas de 
indisponibilidade de bens, direitos e valores necessários à garantida do 
pagamento de multa ou da reparação integral do dano (Lei Anticorrupção, 
art. 19, § 4º). 
8.É possível o ajuizamento de ação para responsabilização por ato de 
improbidade administrativa (LIA art. 17) aos envolvidos cujo ANPC não se 
mostrar legalmente cabível ou, ainda, aos que não aceitarem sua 
celebração. 
9.Pode-se ajuizar Ação Civil Pública (Lei 7.437/85) frente à questão da 
execução do contrato, com eventual pedido de suspensão e/ou nulidade, 
caso ainda seja pertinente, conveniente e cabível. 
 
 
 
GRUPO V - QUESTÃO 5 
Chegou à Promotoria de Justiça informação de que um casal, por entender que o ensino 
praticado nas escolas de seu município seria de baixa qualidade e por não concordar 
com algumas exposições feitas em sala de aula pelo corpo docente da escola de seu 
filho, resolveu não renovar a matrícula, tirando-o da unidade escolar. Assim, os 
responsáveis legais da criança passaram, por conta própria, a promover os estudos do 
filho, em espécie de ensino domiciliar particular, valendo-se de livros didáticos 
utilizados em outras escolas não existentes em sua localidade e por eles adquiridos na 
internet. Essa conduta dos responsáveis legais da criança encontra amparo na 
legislação e no sistema jurídico brasileiro? Fundamente. 
(Valor da questão: 0,5 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
Resposta Ideal 
 
Pontuação 
máxima 
a) A Constituição Federal estabelece em seu art. 229 o dever dos pais em 
educar os filhos menores. O Código Civil, no art. 1.634, inciso I, regra que 
compete a ambos os pais, quanto aos filhos, dirigir-lhe a criação e a 
educação. O Estatuto da Criança e do Adolescente, via art. 22, determina 
incumbir aos pais a educação dos filhos menores. Nada obstante os 
dispositivos acima destacarem os deveres dos pais na educação dos filhos 
menores, o Supremo Tribunal Federal decidiu não haver direito público 
subjetivo da criança ou de sua família ao ensino domiciliar, porquanto não 
existente na legislação brasileira (Repercussão Geral, Tema 822: “Recurso 
Extraordinário em que se discute, à luz dos arts. 205, 206, 210, 214 e 229, 
da Constituição Federal, a possibilidade de o ensino domiciliar 
(homeschooling) ser proibido pelo Estado ou viabilizado como meio lícito de 
cumprimento, pela família, do dever de prover educação”). Assim, 
pronunciou-se o Supremo Tribunal Federal: “1. A educação é um direito 
fundamental relacionado à dignidade da pessoa humana e à própria 
cidadania, pois exerce dupla função: de um lado, qualifica a comunidade 
como um todo, tornando-a esclarecida, politizada, desenvolvida 
(CIDADANIA); de outro, dignifica o indivíduo, verdadeiro titular desse direito 
subjetivo fundamental (DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA). No caso da 
educação básica obrigatória (CF, art. 208, I), os titulares desse direito 
indisponível à educação são as crianças e adolescentes em idade 
escolar. 2. É dever da família, sociedade e Estado assegurar à criança, 
ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, a educação. A 
Constituição Federal consagrou o dever de solidariedade entre a família e 
o Estado como núcleo principal à formação educacional das crianças, 
0,50 
70 
 
jovens e adolescentes com a dupla finalidade de defesa integral dos direitos 
das crianças e dos adolescentes e sua formação em cidadania, para que o 
Brasil possa vencer o grande desafio de uma educação melhor para as 
novas gerações, imprescindível para os países que se querem ver 
desenvolvidos. 3. A Constituição Federal não veda de forma absoluta o 
ensino domiciliar, mas proíbe qualquer de suas espécies que não respeite 
o dever de solidariedade entre a família e o Estado como núcleo principal à 
formação educacional das crianças, jovens e adolescentes. São 
inconstitucionais, portanto, as espécies de unschooling radical 
(desescolarização radical), unschooling moderado (desescolarização 
moderada) e homeschooling puro, em qualquer de suas variações. 4. O 
ensino domiciliar não é um direito público subjetivo do aluno ou de sua 
família, porém não é vedada constitucionalmente sua criação por meio de 
lei federal, editada pelo Congresso Nacional, na modalidade “utilitarista” ou 
“por conveniência circunstancial”, desde que se cumpra a obrigatoriedade, 
de 4 a 17 anos, e se respeite o dever solidário Família/Estado, o núcleo 
básico de matérias acadêmicas, a supervisão, avaliação e fiscalização pelo 
Poder Público; bem como as demais previsões impostas diretamente pelo 
texto constitucional, inclusive no tocante às finalidades e objetivos do 
ensino; em especial, evitar a evasão escolar e garantir a socialização do 
indivíduo, por meio de ampla convivência familiar e comunitária (CF, art. 
227)”. A Constituição Federal, art. 208, firma que “o dever do Estado com a 
educação será efetivado mediante a garantia de: I - educação básica 
obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, 
assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram 
acesso na idade própria”. Vale lembrar que a Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação Nacional (Lei 9.394/96), em seu art. 6º, estabelece que “é dever 
dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula das crianças na educação 
básica a partir dos 4 (quatro) anos de idade”. O Estatuto da Criança e do 
Adolescente, no art. 54, reza: “Art. 54. É dever do Estado assegurar à 
criança e ao adolescente: I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, 
inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria.” Por fim, 
uma vez instados a cumprirem a obrigação da inserção do filho na escola, 
caso não a cumpram, além da aplicação de medidas protetivas pelas 
autoridades competentes (ECA, ART. 101, II) em razão da constatação de 
situação de risco (ECA, art. 98), os pais estão sujeitos a medidas de 
responsabilização (art. 208, I), como prevê o art. 249 do ECA ou art. 246 do 
Código Penal (mas essa medida penal não será cobrada na avaliação desta 
prova ante a especialidade da matéria exigida). 
 
 
 
GRUPO V - QUESTÃO 6 
Chegou à Promotoria de Justiça representação elaborada por uma organização social a 
qual relata diversas violações ao sistema normativo de proteção da pessoa com 
deficiência. Entre outras alegações, aponta que as obras que estão sendo realizadas no 
município não atendem diversos aspectos e mandamentos das normas de 
acessibilidade. Informa também que há licitações em andamento, sem que haja a devida 
observação dos regramentos relativos à acessibilidade. Diante dos referidos 
apontamentos, após investigações, foram confirmadas algumas violações às normas 
aplicáveis aos casos. Lembrando que as respostas devem sempre ser fundamentadas 
na legislação, nas normas do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, na doutrina e 
jurisprudência, ante o exposto, responda: 
(Valor da questão: 1,0 ponto) 
 
a. Quais normas incidem e quais situações podem denotar ofensa à acessibilidade de 
pessoas com deficiência decorrente de obras públicas, a ensejar medidas por parte 
do Ministério Público para a correção das situações evidenciadas? (0,25 ponto) 
b. Quais são os instrumentos procedimentais e jurídicos passíveis de serem 
utilizados? (0,25 ponto) 
c. Há possibilidade de responsabilização e, se for possível, qual(is) seria(m) e em que 
casos? (0,50 ponto) 
71 
 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
Resposta Ideal 
 
Pontuação 
máxima 
a) A questão de acessibilidade exposta na questão é centrada em obras 
realizadas no município, tanto as que estão em andamento comoas que 
são objeto de processos licitatórios. Deste modo, além de dispositivos da 
Constituição Federal (tais como art. 1º, II e III; art. 3º, I; art. 5º; art. 6; art. 23, 
II; art. 227, § 2º e art. 244), deve-se verificar se as situações encontradas 
estão a violar os dispositivos da Lei 10.048/200 e Lei de Acessibilidade (Lei 
10.098/2000) e suas implicações, porquanto essa Lei apresenta diversos 
aspectos que as obras do município devem observar. Também os 
parâmetros do Decreto 5.296/2004 e Decreto 9.451/18 podem e devem ser 
observados. Também devem ser observadas as disposições sobre 
acessibilidade contidas no Estatuto das Cidades (Lei 10.257/2001). Outra 
norma a ser utilizada é o Estatuto da Pessoa com Deficiência ou Lei 
Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), a qual 
possui amplo arcabouço de disposições e diretivas a serem considerados, 
inclusive sobre questões de acessibilidade e obras. A Lei 14.133/21 (nova 
Lei de Licitações e Contratos), em seu art. 6º, inciso XXIV, alínea “e”, prevê 
que haja, no termo de referência, “parâmetros de adequação ao interesse 
público, de economia na utilização, de facilidade na execução, de impacto 
ambiental e de acessibilidade” e, ainda, no art. 45, VI, dispõe 
expressamente que “as licitações de obras e serviços de engenharia devem 
respeitar, especialmente, as normas relativas a: acessibilidade para 
pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida.” Caso a licitação 
ainda esteja sob a égide da Lei 8.666/93, há o disposto em seu art. 66-A, 
quanto ao dever de cumprir na execução do contrato as regras de 
acessibilidades previstas na legislação. No Mato Grosso do Sul, há a Lei 
Estadual nº 4.314/2013, bem com o Decreto nº 10.015/2000. 
0,25 
b) No caso, tratando-se de atuação do Ministério Público, poderá ser 
instaurado procedimento de investigação (procedimento preparatório ou 
inquérito civil) tanto para coleta das informações como para alicerce das 
medidas, visando estabelecer o cumprimento das normas de acessibilidade 
das obras, bem como para eventuais medidas de responsabilização. 
Poderá realizar audiência pública para coleta de dados. Constatadas as 
irregularidades, o Ministério Público poderá expedir Recomendação, 
celebrar Termo de Ajustamento de Conduta ou ingressar com ações 
judiciais (Lei 7.347/87 e Lei 7.853/89), com obrigações de fazer (cumprir os 
ditames legais) e não fazer (abster-se do descumprimento como, por 
exemplo, cessar eventual procedimento licitatório ou obra em andamento, 
até que haja sua correção; entre outros). STJ: “é cabível a ação civil pública 
que objetiva obrigação de fazer a fim de garantir acessibilidade nos prédios 
públicos e privados às pessoas com deficiência, assim como há interesse 
de agir do Ministério Público para tanto” (AgInt no Resp 1.563.459/SE. J. 
03.08.2017; REsp 987.208/SP, j. 16.04.2009; REsp 1.270.420/MG, j. 
15.05.2017). Caso constate necessidade de acompanhamento das políticas 
públicas, poderá instaurar um Procedimento Administrativo (Res. 005/2012-
CPJ-MPMS). Importante lembrar que a resposta deve ter relação com o 
caso prático do enunciado. Instrumentos genéricos e fora do contexto serão 
considerados negativamente (como em todas as questões da prova). 
0,25 
c) Pode haver responsabilização do poder público, de particulares e de 
agentes públicos. A referente ao poder público está em boa parte 
considerada no item “b”. As violações da Lei 14.133/21 (Lei de Licitações e 
Contratos), além das demais normas citadas no item “a”, devem ser 
consideradas. Caso haja demonstração de que a conduta dos responsáveis 
foi dolosa ou culposa, medidas de responsabilização podem ser encetadas. 
Caso se constate dano ao erário (por exemplo, com necessidade de 
alteração de obras e custos adicionais) em razão da conduta dolosa ou 
culposa, também podem ser cobrados os valores do prejuízo ao patrimônio 
público dos agentes e/ou particulares envolvidos, conforme prevê a Lei de 
Ação Civil Pública (Lei 7.347/85). Ainda, a situação, conforme vasta 
0,50 
72 
 
jurisprudência, pode ensejar postulação de reparação por dano moral 
coletivo/social. Pode haver, conforme o caso e análise das condutas 
(dolosas), eventual responsabilização pela prática de atos de improbidade 
administrativa, nos termos da Lei 8.429/92 (mas considerar a exigência do 
dolo). Não se exigirá na resposta, por se tratar de avaliação de direitos 
difusos, os apontamentos sobre responsabilização na seara criminal, como 
as previstas no art. 8º da Lei 7.853/89, nem as concernentes a 
responsabilização por crimes em licitações e contratos, previstos no Código 
Penal pela Lei 14.133/21. 
 
 
GRUPO VI: DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO ELEITORAL E DIREITO 
INSTITUCIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO 
 
GRUPO VI - QUESTÃO 1 
Sobre o tema Abuso de Poder e suas consequências eleitorais, o doutrinador José Jairo 
Gomes ensina: “Preocupou-se o Legislador com os efeitos deletérios que a influência 
e o uso abusivo de poder podem exercer no processo eleitoral. Daí a criação de um 
conjunto próprio de normas com o fito de proteger ‘a normalidade e legitimidade das 
eleições’, notadamente ‘contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício 
de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.” (GOMES, José Jairo. 
Direito Eleitoral. 18. ed. Editora Gen/Atlas. p. 755). 
Discorra sobre o referido tema, sem deixar de abordar as seguintes modalidades de 
abuso de poder: econômico, político, midiático e religioso. 
(Valor da questão: 1,5 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) Discorrer de forma ampla sobre “Abuso de Poder” como o uso não correto 
de direito, situação ou posição jurídico-social com o objetivo de exercer 
indevida influência sobre o processo eleitoral, o que pode ocorrer pelo 
cerceamento da liberdade política dos eleitores, manipulação de suas 
consciências políticas ou indução de suas escolhas. Jurisprudência. 
Gravidade e relevância do abuso. Previsão Constitucional (art. 14, § 9º). 
0,30 
b) Abuso de Poder Econômico: ação ou omissão que revele mau uso de 
recurso, estrutura, situação jurídica ou direito patrimoniais em proveito ou 
detrimento de candidaturas. Artigos 14, § 9º da Constituição Federal, 237, 
caput, do Código Eleitoral, 19 e 22 da Lei Complementar nº 64/1990, Lei 
9.504/97. 
0,30 
c) Abuso de Poder Político: forma de abuso de poder de autoridade 
praticado por autoridade pública. Desvirtuamento de ações desenvolvidas 
por agentes públicos no exercício de suas funções com o objetivo de 
influenciar o voto e influenciar o comportamento do eleitor. Artigos 14, § 9º 
da Constituição Federal, 237, caput, do Código Eleitoral, 19 e 22 da Lei 
Complementar nº 64/1990, Lei 9.504/97. 
0,30 
d) Abuso de Poder Midiático: o desvirtuamento de ações desenvolvidas nos 
meios de comunicação social revelado por atuação ostensiva ou velada 
para influenciar a vontade política do eleitor. Exposição excessiva de 
caráter positivo ou negativo. Resolução nº 23.714/2022 do Tribunal Superior 
Eleitoral (combate à desinformação eleitoral) Artigo 22 da Lei 
Complementar nº 64/1990, Lei 9.504/97. 
0,30 
e) Abuso de Poder Religioso: entendido como a realização de discursos, 
prática de atos, cessão de espaços e estruturas relacionadas ao culto e à 
expressão da fé que são corrompidos com o objetivo de manipular a tomada 
de decisão do eleitor. Artigo 22 da Lei Complementar nº 64/1990, Lei 
9.504/97, Interpretação Jurisprudencial. 
0,30 
Referência: 
GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. Editora Atlas; 
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral, Editora Del Rey; 
ZILIO, Rodrigo Lopes. Direito Eleitoral. Editora JusPodivm. 
73 
 
 
 
GRUPO VI - QUESTÃO 2 
 
Recente inovação legislativa introduziu a chamada Federação Partidária no direito 
eleitoral brasileiro. Discorra sobre o conceito, a finalidade e os principais pontos do 
instituto, apresentando comparação com outrasfiguras similares, além de sua 
interpretação jurisprudencial. 
(Valor da questão: 1,5 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O conceito do instituto está previsto na Lei 14.208.2021 que introduziu o 
art. 11-A na Lei dos Partidos Políticos, é necessário apontar seus principais 
pontos; 
Discorrer sobre a finalidade das Federações Partidárias, principalmente o 
fato de terem surgido para ocupar o espaço que surgiu após o término das 
coligações no sistema proporcional, sua interferência positiva na 
manutenção das agremiações com menor representatividade, em face da 
regra que prevê um aumento progressivo dos critérios de cláusula de 
desempenho (art. 3º da E.C. nº 97/2017. 
0,50 
b) Paralelo com as coligações partidárias, em especial o tempo de duração, 
sistema de abrangência e espaço de incidência dos dois institutos. 
0,50 
c) Jurisprudência – ADI 7021/DF e Regra de Transição, Princípios da 
Isonomia, Segurança Jurídica e Efetividade da Norma (31/5/2022). 
0,50 
Referência: 
GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. Editora Atlas; 
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral, Editora Del Rey; 
ZILIO, Rodrigo Lopes. Direito Eleitoral. Editora JusPodivm. 
 
 
 
GRUPO VI - QUESTÃO 3 
 
A Lei Complementar nº 135/2010 – Lei da Ficha Limpa trouxe o prazo de 8 (oito) anos de 
inelegibilidade para os casos de condenações por abuso de poder. O prazo anterior era 
de 3 (três) anos e estava expresso na redação original da Lei Complementar nº 64/1990 
(artigo 1º, I, “d”). Discorra de forma fundamentada, inclusive com amparo 
jurisprudencial, sobre o instituto da inelegibilidade e a possibilidade, ou não, da 
aplicação do prazo previsto na LC nº 135/2010 aos casos de condenação que 
antecederam ao ingresso de referido dispositivo legal no ordenamento jurídico pátrio. 
(Valor da questão: 1,0 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O instituto da inelegibilidade, entendido como requisito negativo de 
elegibilidade fundado em fatos, condutas ou circunstâncias previstas na 
Constituição Federal ou em lei complementar que impedem, por 
determinado tempo ou sob certas condições, o exercício da capacidade 
eleitoral passiva com o objetivo de proteger a normalidade e a legitimidade 
das eleições contra o abuso de poder e a moralidade e probidade 
administrativa para o exercício do mandato. Artigo 14, § 9º da Constituição 
Federal. 
0,30 
74 
 
b) O prazo de inelegibilidade a ser aplicado na situação apresentada é o de 
8 anos trazido pela Lei da Ficha Limpa. Fundamentar a resposta citando as 
Ações Declaratórias de Constitucionalidade nº 29, 30 e Recurso 
Extraordinário 929.670 do Supremo Tribunal Federal. Abordar a não 
violação da coisa julgada, os princípios da isonomia, soberania popular e 
irretroatividade 
0,70 
Referência: 
GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. Editora Atlas; 
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral, Editora Del Rey; 
ZILIO, Rodrigo Lopes. Direito Eleitoral. Editora JusPodivm. 
 
 
 
 
 
GRUPO VI - QUESTÃO 4 
 
“O controle judicial constitui, juntamente com o princípio da legalidade, um dos 
fundamentos em que repousa o Estado de Direito. De nada adiantaria sujeitar-se a 
Administração Pública à lei se seus atos não pudessem ser controlados por um órgão 
dotado de garantias de imparcialidade que permitam apreciar e invalidar os atos ilícitos 
por ela praticados”. Essa é a lição de Maria Sylvia Zanella Di Pietro (Direito 
Administrativo, 35. ed., Editora Forense). Discorra a respeito do Controle Judicial da 
Administração Pública, em especial sobre políticas públicas e atuação do Ministério 
Público. 
(Valor da questão: 2,0 pontos) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O princípio da legalidade como ponto de partida da opção a ser feita pelo 
administrador público e da análise do Poder Judiciário. 
0,20 
b) Discricionariedade administrativa: limites e possibilidade ou não de 
discricionariedade do administrador público na escolha de diferentes 
opções e o mérito do ato, entendido como campo de liberdade suposto na 
lei e que efetivamente venha a remanescer no caso concreto. 
0,30 
c) Risco do fenômeno do ativismo judicial como indevida interferência nos 
demais poderes e os limites da intervenção judicial, considerando as 
premissas aqui colocadas. 
0,30 
d) Abordar o desvio de poder, entendido como o manejo de uma 
competência em descompasso com a finalidade em vista da qual foi 
instituída. 
0,20 
e) Reserva do possível e o mínimo existencial (núcleo essencial dos direitos 
fundamentais) a ser resguardado pelo Judiciário; 
0,20 
f) Estado de coisas inconstitucional entendido como uma técnica decisória 
para a superação de situações de violações graves e sistemáticas dos 
direitos fundamentais, exigindo a participação coordenada de diferentes 
atores sociais. 
0,40 
g) Atuação do Ministério Público como garantidor dos direitos fundamentais, 
em especial diante da omissão estatal, e seu papel em relação às políticas 
públicas que não deve se limitar a um mero controlador da legalidade, mas 
que participa de forma ativa das decisões governamentais. O Ministério 
Público como agente de transformação social. Meios: Audiências Públicas, 
Recomendações e Termos de Ajustamento de Conduta, Inquéritos Civis e 
demais procedimentos administrativos, acordo de não persecução cível e 
Ações Civis Públicas, por exemplo. 
0,40 
Referência: 
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. Editora Forense; 
OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Curso de Direito Administrativo. Editora Forense; 
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. Editora Malheiros. 
 
75 
 
 
GRUPO VI - QUESTÃO 5 
 
Celso Antônio Bandeira de Mello leciona: “Através da Constituição e das leis os 
cidadãos recebem uma série de direitos. Cumpre, todavia, que o seu exercício seja 
compatível com o bem-estar social. Em suma, é necessário que o uso da liberdade e da 
propriedade esteja entrosado com a utilidade coletiva, de tal modo que não implique 
uma barreira capaz de obstar à realização dos objetivos públicos.” (Curso de Direito 
Administrativo, 23. ed., Editora Malheiros, p. 788). Discorra sobre o tema Poder de 
Polícia, expondo seu conceito, características, fundamentos e limites. 
(Valor da questão: 1,0 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) Conceito: Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello, Poder de Polícia, 
em seu sentido amplo (abrangendo atos do Legislativo e do Executivo), 
pode ser conceituado como a atividade estatal de condicionar a liberdade e 
a propriedade, ajustando-as aos interesses coletivos. Em seu sentido 
estrito, relaciona-se com as intervenções gerais e abstratas, como os 
regulamentos, concretas e específicas (autorizações, licenças), que obstam 
o desenvolvimento de atividades particulares contrastantes com os 
interesses sociais. 
Já a doutrinadora Maria Sylvia Zanella Di Pietro conceitua poder de polícia 
como a atividade do Estado consistente em limitar o exercício dos direitos 
individuais em benefício do interesse público. Artigo 78 do Código Tributário 
Nacional. 
0,20 
b) Características: 
Discricionariedade: a lei pode deixar certa margem de liberdade de 
apreciação quanto a determinados elementos, como o motivo ou o objeto. 
Assim, no caso concreto, a Administração terá que decidir qual é o melhor 
momento de agir. 
Autoexecutoriedade: é a possibilidade que tem a Administração de, com os 
próprios meios, pôr em execução as suas decisões, sem precisar recorrer 
ao Poder Judiciário. 
Coercibilidade: para o particular a decisão administrativa é obrigatória, 
admitindo o emprego de força estatal para o seu cumprimento. 
Mencionar e explicarcada uma das características. 
0,20 
c) Fundamentos: A supremacia do interesse público sobre o interesse 
privado (manutenção da ordem pública) e, em razão da constitucionalização 
do Direito Administrativo, também deve ser considerado como fundamento 
do poder de polícia a promoção e a proteção dos direitos fundamentais 
(Marçal Justen Filho e Rafael Carvalho Rezende Oliveira). 
0,30 
d) Limites: aqueles previstos em lei, quanto à competência, à forma, aos 
fins, aos motivos e ao objeto, observância das regras da proporcionalidade 
entre meios e fins, da necessidade e da eficácia. De acordo com Márcio 
Fernando Elias Rosa, o exercício do poder de polícia encontra seus limites 
em seu próprio fundamento, qual seja, condicionar o exercício de direitos 
individuais em benefício do interesse da coletividade. 
0,30 
Referência: 
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. Editora Forense; 
OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Curso de Direito Administrativo. Editora Forense; 
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. Editora Malheiros; 
ROSA, Márcio Fernando Elias. Direito Administrativo. Editora Saraiva. 
 
 
 
 
76 
 
GRUPO VI - QUESTÃO 6 
 
Discorra sobre o Conflito de Atribuições entre membros do Ministério Público e suas 
possibilidades de solução conforme os ramos ministeriais a que pertencerem os 
envolvidos. 
(Valor da questão: 1,0 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) O conflito de atribuições entre membros do mesmo Ministério Público 
Estadual é decidido pelo Procurador-Geral de Justiça. Artigo 10 da Lei 
8.625/93. 
0,10 
b) O conflito entre membros do Ministério Público Federal é decidido pela 
Câmara de Coordenação e Revisão com recurso ao Procurador-Geral da 
República. Artigo 62 e 49, VIII da LC 75/93. 
0,10 
c) O conflito entre membro de um dos ramos do Ministério Público da União 
e membro de outro ramo do Ministério Público da União é decidido pelo 
Procurador-Geral da República. Artigo 26, VII da LC 75/93. 
0,10 
d) O conflito entre membro de Ministério Público Estadual e membro do 
Ministério Público Federal é decidido pelo Conselho Nacional do Ministério 
Público. 
0,10 
e) O conflito entre membro de Ministério Público de um Estado e de membro 
de outro Ministério Público Estadual é decidido pelo Conselho Nacional do 
Ministério Público. 
0,10 
f) Citar a evolução do entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o 
tema quando envolver membros de diferentes Ministérios Públicos dos 
Estados e membro de Ministério Público Estadual e membro do Ministério 
Público Federal. STF, plenário, ACO 843/SP, julgado em 05/06/2020. 
0,30 
g) Fundamentos da virada de entendimento do STF sobre o tema: O 
Procurador-Geral da República seria parte interessada na solução da 
demanda, uma vez que acumula a chefia do Ministério Público da União e 
do Ministério Público Federal. 
0,10 
h) Uma interpretação sistemática dos preceitos constitucionais do Ministério 
Público revela a competência do Conselho Nacional do Ministério Público 
para dirimir essa hipótese de conflito de atribuição, com fundamento no 
artigo 130-A, § 2º e incisos I e II, da Constituição Federal considerando o 
controle de legalidade das ações administrativas dos membros e órgãos 
dos diferentes ramos do Ministério Público. 
0,10 
Referência: 
MOREIRA ALVES, Leonardo Barreto e ZENKNER, Marcelo. Ministério Público – LEI 8.625/93. 
Editora JusPodivm; 
CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Vade Mecum de Jurisprudência Dizer o Direito 2022. 
Editora JusPodivm. 
 
 
GRUPO VI - QUESTÃO 7 
 
Discorra sobre a atuação resolutiva do Ministério Público e sua importância para o 
cumprimento eficiente de seu papel constitucional 
(Valor da questão: 2,0 pontos) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50 linhas. 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (arts. 127 e 
129) consagrou dois modelos de Ministério Público, o que atua perante o 
Judiciário, objetivando geralmente a tutela por adjudicação, e o que atua 
extrajudicialmente como intermediador da pacificação social, visando 
normalmente à resolução consensual dos conflitos, controvérsias e 
0,30 
77 
 
problemas. É necessária uma revisitação da atuação jurisdicional do 
Ministério Público (abandonar o simples demandismo), de modo a buscar a 
proatividade e a resolutividade da Instituição e, ao mesmo tempo, evitar a 
propositura de demandas judiciais em relação às quais a resolução 
extrajudicial é a mais indicada. 
b) É insuficiente a divisão da atuação do Ministério Público somente com 
arrimo na base territorial das comarcas, é necessária a implementação de 
Promotorias Regionais, principalmente para atuar em ilícitos ou danos a 
direitos fundamentais de dimensão regional, estadual ou nacional, assim 
como para que possam atuar no acompanhamento e na fiscalização da 
implementação de políticas públicas efetivadoras dos direitos fundamentais. 
0,20 
c) A adequação da independência funcional do órgão do Ministério Público 
ao planejamento funcional estratégico da Instituição. 
0,30 
d) O papel do Conselho Nacional do Ministério Público na implementação 
de um Parquet de perfil resolutivo. 
0,30 
e) Adoção de práticas institucionais que contribuam para a transformação 
da realidade social, realização de palestras e a utilização dos projetos 
sociais como novos mecanismos de atuação da Instituição. 
0,20 
f) Capacidade de articulação política, mediação de demandas sociais, 
capacidade de diálogo e consenso e priorização da atuação preventiva. De 
acordo com o doutrinador Marcelo Pedroso Goulart, o Ministério Público 
deve enxergar o Estado como espaço de universalização dos direitos 
fundamentais e fiscalizar/cobrar a implementação de políticas públicas. 
Atuação não de mero tutor da sociedade, mas como parceiro dos demais 
sujeitos políticos. 
0,20 
g) Realização periódica de audiências públicas, utilização de instrumentos 
como termo de ajustamento de conduta, acordos de não persecução e 
arquivamento resolutivo sempre que for a medida mais adequada. 
0,20 
h) Priorizar a atuação em tutela coletiva e avaliar se a atuação individual 
não desestabilizará as políticas públicas sobre a matéria. 
 
0,30 
Referência: 
GOULART, Marcelo Pedroso e DE ALMEIDA, Gregório Assagra. Elementos para uma Teoria 
Geral do Ministério Público. Editora D´Plácido; 
MAZZILLI, Hugo Nigro. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. 
Carta de Brasília. Aprovada no 7º Congresso de Gestão do CNMP. 
Recomendação nº 54/2017 do CNMP. 
Recomendação nº 2/2018 da Corregedoria Nacional – CNMP.estabelecidas no § 4º do art. 33 da Lei nº 11343/06, não se revela como tipo 
penal específico, não possuindo existência jurídica autônoma, pois as 
condutas típicas estão prévias no caput e no § 1º daquela norma. Não se 
está diante de um tipo penal novo em relação ao crime de tráfico de drogas. 
Não há um tipo penal derivado, mas a incidência de uma causa de diminuição 
de pena sobre o tipo penal básico. Em outras palavras, o §4º não é norma 
incriminadora, não descreve comportamentos a serem punidos, sendo 
apenas uma causa de diminuição de pena. Portanto, haja ou não a sua 
incidência, o que se pune é a conduta estabelecida no caput ou no § 1º, é 
este comportamento descrito que materializa o dever de proteção 
constitucional. 
0,25 
8 
 
Ressalte-se que a terminologia “tráfico privilegiado” é uma terminologia dada 
pela jurisprudência. 
ITEM C: 
- afirmar que o tráfico privilegiado não é tido como hediondo, conforme 
julgado STF (HC 118533/MS); 
- apresentação das razões do novo entendimento, com as respectivas 
consequências jurídicas; 
- mencionar o cancelamento da Súmula 512 do STJ. 
 
c) À luz da jurisprudência dos Tribunais Superiores, tráfico privilegiado 
deve ser considerado crime equiparado a hediondo? Discorra sobre as 
razões que levaram ao posicionamento jurisprudencial e aponte as 
consequências jurídicas correlatas (0,50 ponto). 
No âmbito do STF, no julgamento do Habeas Corpus 118533/MS (Rel. Min. 
Cármen Lúcia, Tribunal Pleno, julgado em 23/06/2016), a maioria dos 
Ministros votou pela descaracterização da hediondez do “tráfico privilegiado”, 
a alterar, assim, toda a dinâmica jurídico processual dos delitos cometidos 
nessas circunstâncias, notadamente o lapso temporal para progressão de 
regime de penas e de livramento condicional. No referido julgamento, 
entendeu-se que que a modalidade privilegiada apresentaria “contornos mais 
benignos, menos gravosos, notadamente porque são revelados o 
envolvimento ocasional do agente com o delito, a não reincidência, a 
ausência de maus antecedentes e a inexistência de vínculo com organização 
criminosa. Ressalte-se que, enquanto hediondo, o “tráfico privilegiado” 
pressupunha o cumprimento de 2/5 (se o agente for primário) ou 3/5 (se 
reincidente) para ter direito a progressão de regime prisional, e, para 
livramento condicional, 2/3 (se não for reincidente específico); se afastada a 
hediondez, a progressão do regime prisional passaria a ser de 1/6 (como 
todo crime comum) e, para livramento condicional, 1/3 (se primário e bons 
antecedentes) e 1/2 (se reincidente). Portanto, o referido julgamento alterou 
de forma significativa os paradigmas para concessão dos benefícios para 
condenados por crime de “tráfico privilegiado”. 
 
Em decorrência desse julgamento, a Terceira Seção cancelou a Súmula 512 
do STJ, que estabelecia que “a aplicação da causa de diminuição de pena 
prevista no art. 33, § 4º, da Lei no 11343/2006, não afasta a hediondez do 
crime de tráfico de drogas”. 
Assinalou-se que, ainda que o julgamento não guarde efeito vinculante e 
eficácia erga omnes, a fim de observar os princípios da segurança jurídica, 
da proteção da confiança e da isonomia, assim como de evitar a prolação de 
decisões contraditórias nas instâncias ordinárias e também no âmbito do 
STJ, a temática foi revisada sob o rito dos recursos repetitivos (Rerc 
1.329.088/RS – Tema 600). 
A decisão proferida no HC 118533 criou uma outra categoria de delito. 
Limitou-se a afastar a hediondez do tráfico de drogas privilegiado apenas 
para que não fosse aplicado o regime mais severo do livramento condicional 
(art. 44, parágrafo único da Lei no11343/06) e progressão de regime (art. 2º 
§ 2º da Lei no 8072/90), mantendo, no entanto, a inafiançabilidade, a graça 
e a anistia. Ou seja, haveria então o crime hediondo, o crime não hediondo 
e o “tráfico privilegiado” – não hediondo, mas inafiançável e insuscetível de 
graça, indulto ou anistia. 
0,50 
 
ITEM D: 
- conceituar mandado constitucional de criminalização; 
- afirmar a supremacia da CF e incompatibilidade do legislador ordinário de 
conferir tratamento mais benigno ao tráfico de drogas; 
- apontar os princípios constitucionais envolvidos; 
- críticas do candidato ao atual entendimento jurisprudencial, apontando as 
consequências correlatas. 
 
d) Discorra sobre o delito tráfico privilegiado e a (in)compatibilidade 
com os mandados constitucionais de criminalização, concluindo com 
seu posicionamento, devidamente fundamentado. (0,50 ponto). 
 
0,50 
 
 
 
9 
 
O art. 5º, inciso XLIII da CF estabelece que “a lei considerará crimes 
inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática de tortura, o tráfico 
ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como 
crimes hediondos, por ele respondendo os mandantes, os executores e os 
que, podendo evitá-los, se omitirem”. 
A utilizar da expressão “considerará”, o legislador constituinte estabeleceu 
verdadeiro mandamento ao legislador ordinário, ordem a ele por ele 
obedecida dada a supremacia da Carta Magna. A própria Constituição 
Federal, de forma clara e precisa, confere o caráter hediondo ao tráfico de 
drogas, não cumpre ao intérprete negá-lo. A expressão “e os definidos como 
crimes hediondos” é tão somente norma de extensão a fim de possibilitar a 
integração de outras modalidades delitivas a serem estabelecidas pelo 
legislador ordinário, ao tratamento constitucionalmente diferenciado 
destinado de forma expressa à tortura, ao tráfico de drogas e ao terrorismo. 
Essa norma constitucional, inserida na moldura estabelecida com a inclusão 
do art. 5º da CF, revela uma ordem expressa do legislador ordinário para que 
mantenha a equiparação do tráfico ilícito de entorpecentes aos crimes 
hediondos e lhe confira tratamento penal mais rigoroso aos demais delitos. 
O que a CF exige, por força dos mandados, é um standart mínimo de tutela, 
certamente vinculado àquelas agressões mais repulsivas ao objeto de tutela 
que ela, a Constituição, predefiniu como merecedores de proteção jurídico 
penal. Pelo fato de o mandado de criminalização compor o sistema objetivo 
de proteção dos direitos fundamentais, tem-se que o próprio constituinte 
originário estabeleceu o sopesamento prévio entre o principio da proibição 
de excesso e da proteção penal eficiente, a ensejar maior restrição ao status 
negativo do infrator e a propiciar maior frente ao status positivo ocupado pela 
sociedade na relação jurídica ilustrada. A cumprir o dever de proteção 
constitucional imposto, o legislador ordinário manteve a equiparação do 
tráfico ilícito de entorpecentes aos crimes hediondos na Lei no 8072/1990 e 
dele tratou especificamente na Lei no 11343/06. 
 
De outro lado, a crítica que se faz a respeito do posicionamento vigente é a 
de que uma causa de diminuição de pena não pode descaracterizar o tráfico 
como crime hediondo. Tal interpretação gera desproteção social. O chamado 
tráfico ilícito de drogas “privilegiado” não deixa de ser tráfico ilícito de drogas 
em função da incidência do redutor de pena em foco. A incidência do § 4º é 
encontrada apenas na fundamentação da dosimetria da pena. 
 
Embora o precedente do Supremo Tribunal Federal, o denominado “tráfico 
privilegiado” continua a ser equiparado aos crimes hediondos por expressa 
ordem do constituinte originário, em atenção ao princípio da proteção penal 
eficiente por ele observado a se submeter ao mesmo rigorismo penal imposto 
aos demais delitos que se inserem nessa categoria e as vedações 
expressamente estabelecidas no inciso XLIII, do art. 5º, norma que compõe 
o eixo estrutural da Constituição. 
Referência: 
NETO, Aluisio Antonio Maciel. Liberdades, garantias e direitos sociais: aplicação da 
proporcionalidade nos conflitos penais e sociais. Editorial Juruá, 2020. 
Supremo Tribunal Federal – HC 118533/MS. 
Superior Tribunal de Justiça – Jurisprudência em tese (Lei de Drogas). 
 
 
 
GRUPO II – QUESTÃO 2 
 
Qual é o significado da expressão “DireitoPenal Moderno”? Justifique e exemplifique. 
(Valor da questão: 0,75 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
10 
 
a) ORIGEM E CONCEITO: Segundo as lições de Edgardo Alberto Donna, o 
chamado Direito Penal Moderno se encontra com um fenômeno quantitativo 
que tem seu desenvolvimento na parte especial. Não há código que nos 
últimos anos não haja aumentado o catálogo de delitos, com novos tipos 
penais, novas leis especiais e uma forte agravação das penas. Possui como 
característica mais marcante a forma de atuar, absolutamente, preventiva, 
ou seja, antecipando a resposta penal antes da afetação a qualquer bem 
jurídico ou mesmo da colocação dos mesmos em estado periclicitante. 
Portanto, o Estado tutela, preventivamente, por meio do direito penal, o 
suposto bem jurídico coletivo que teria sido afetado, ou que estaria em vias 
de sê-lo. Com isso, há uma progressiva expansão do significado de bem 
jurídico, estabelecendo pressupostos preventivos contra novos riscos. 
0,25 
b) CARACTERÍSTICAS: forma de atuar, absolutamente, preventiva, ou seja, 
antecipando a resposta penal antes da afetação a qualquer bem jurídico ou 
mesmo da colocação dos mesmos em estado periclicitante. Portanto, o 
Estado tutela, preventivamente, por meio do direito penal, o suposto bem 
jurídico coletivo que teria sido afetado, ou que estaria em vias de sê-lo. Com 
isso, há uma progressiva expansão do significado de bem jurídico, 
estabelecendo pressupostos preventivos contra novos riscos. 
0,25 
c) EXEMPLOS: aumento do rol dos crimes de perigo abstrato, delitos 
econômicos, crime organizado, direito penal ambiental, terrorismo, mudança 
de tratamento do criminoso, enxergando-o como um inimigo, aumento de 
proteção a bens jurídicos abstratos, como a saúde pública, crimes 
cibernéticos e outros. 
CRÍTICA A TEORIA: Pontua Rogério Greco que o Direito Penal Moderno segue 
as orientações político criminais de um direito penal máximo, deixando de 
lado, muitas vezes, as garantias penais e processuais penais, sob o falso 
argumento de defesa da sociedade. 
0,25 
Referência: 
GRECO, Rogério. Direito Penal do Equilíbrio: uma visão minimalista do Direito Penal. 11ª 
ed. Niterói, RJ: Impetus, 2020, p. 36. 
DONNA, Edgardo Alberto. Derecho Penal - Parte general. Tomo I, p. 63-64. 
 
 
GRUPO II – QUESTÃO 3 
 
Ensina Claus Roxin que o Direito Penal tem como missão a proteção dos bens jurídicos 
mais importantes de uma sociedade (A proteção de bens jurídicos como função do 
Direito Penal). Já Jakobs sustenta que, numa perspectiva funcionalista, busca-se a 
preservação da norma (Fundamentos do Direito Penal). Tendo em vista essas balizas, a 
conduta criminosa deve ser coibida e punida por critérios técnicos desenvolvidos pela 
dogmática jurídica para a realização de justiça, com parâmetros de proporcionalidade. 
Ademais, ao mesmo tempo em que é dever do Estado evitar a impunidade, também deve 
se evitar os excessos pelos agentes que interpretam a lei. Por isso, há a previsão de 
penas mais severas para crimes dolosos, com imposição de sanções penais mais 
severas, porquanto representa um maior perigo à sociedade. Dado esse contexto e, com 
base nas concepções doutrinárias, o(a) candidato(a) deverá: 
(Valor da questão: 2 pontos) 
 
a. Apresentar conceitos e fundamentos das posições normativas e cognitivas para a 
aferição do dolo/ culpa do agente; (0,5 ponto) 
b. Responder se é possível afirmar que existe “Dolo sem vontade”, justificando seu 
posicionamento. (0,5 ponto) 
c. Caso hipotético: Trânsito. Agente, após sair de uma festa, embriagado, entra em seu 
automóvel e passa a dirigir em alta velocidade. Adentra em uma estrada federal, local 
em que, ao perder o controle do veículo, invade a contramão de direção e colide em 
um veículo, produzindo a morte do motorista deste. O condutor do veículo alega ser 
“acidente de trânsito”. 
 Remetido o persecutório ao Promotor(a) de Justiça Substituto(a) para análise. Dado 
o caso prático, o candidato(a) deverá responder: 
 Quais são os parâmetros que devem ser utilizados para aferição da responsabilidade 
do agente, indicando a teoria a ser adotada? Fundamente. (0,5 ponto) 
11 
 
d. Caso o entendimento seja pela caracterização de homicídio pelo dolo eventual, é 
possível afirmar que há compatibilidade com a modalidade qualificada? 
Fundamente. (0,5 ponto) 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
ITEM A: 
- conceitos da posição cognitiva e normativa de dolo, com seus respectivos 
fundamentos; 
- estabelecer o paralelo entre a concepção psicológica de dolo e as posições 
normativas e cognitivas. 
 
a) Apresentar conceitos e fundamentos das posições normativas e 
cognitivas para a aferição do dolo/ culpa do agente; (0,5 ponto) 
A posição psicológica de dolo, que adota a teoria da vontade para o dolo 
direto e a teoria do consentimento para o dolo eventual, recebe duras críticas 
de uma linha doutrinária que defende uma concepção cognitiva e normativa 
de dolo. Segundo Fernando Palma, o Direito Penal não pode abrir mão de um 
critério de intencionalidade ao tratar do dolo. A questão envolvendo o dolo há 
uma questão específica lógica de “aceitação de riscos”, que acaba sendo 
equiparada à “pura intencionalidade”. 
Nesse contexto, a posição cognitiva de dolo traz para análise a ideia de risco 
e probabilidade. 
Se o agente tem o conhecimento do risco que sua conduta representa – e 
isso é resultado de uma máxima de experiência pela qual qualquer pessoa 
normal naquela circunstância teria noção – e age, deve ser punido a título de 
dolo. Dizer simplesmente, em caso de dolo eventual, que o agente “aceitou o 
resultado” – algo que somente é extraído pela análise de sua conduta no caso 
concreto -, é buscar uma justificativa para a punição mais gravosa. Não é 
necessária a suposta equiparação. Assim, defende-se que o dolo é 
representado pelo próprio perigo concreto que a conduta possui. 
 
Em outro sentido, a posição normativa, defendida por Jakobs, afirma que os 
atos arriscados em gerar resultado incorre na “aprovação em sentido jurídico”. 
Puppe afirma que não há como se esperar outra análise que não a normativa 
para essa definição, pois, no sentido meramente psicológico de dolo, “se a 
aprovação fosse compreendida em tal sentido literal, apenas os criminosos 
por convicção agiriam dolosamente”. Com isso, atribui-se a normatização do 
elemento volitivo do de dolo, de maneira a importar a representação do 
agente, que pratica a conduta arriscada, visando atingir o resultado. Assim, 
afasta-se a concepção psicológica. 
0,50 
ITEM B: 
- afirmar a existência do “Dolo sem vontade”; 
- fundamentação conforme os ensinamentos de Luís Greco que aduz que “o 
querer é extraído da conduta do agente, tratando-se de uma questão de 
interpretação”. 
- deverá o candidato desenvolver os fundamentos fáticos-jurídicos da doutrina 
citada. 
 
b) Responder se é possível afirmar que existe “Dolo sem vontade”, 
justificando seu posicionamento. (0,5 ponto) 
Sim, a doutrina reconhece a existência do Dolo sem vontade. 
Segundo Luís Greco, o “querer” é extraído da conduta do agente. Trata-se de 
uma questão de interpretação. Consiste em um juízo de valor que recai sobre 
a conduta e em que há uma conclusão: com essa conduta o agente “quis” o 
resultado. O “assumir o risco” de produção do resultado é arriscar-se de tal 
forma que a conclusão leva a ideia de “querer” (aceitar, admitir) o resultado 
lesivo. Na realidade, a conclusão seria de que o agente teve “vontade”, o 
“propósito”, a “intenção” de praticar o crime e produzir o resultado proibido 
pela norma penal. 
O conhecimento (saber), aspecto intelectual, é essencial para a configuração 
do dolo, pois é a partir dele que o agente poderá determinar o seu agir. 
0,50 
12 
 
Conhecendo o risco do resultado lesivo, o sujeito ativo pode decidir entre 
intentar ou não a conduta. Somente a partirdele pode o agente tomar uma 
decisão apta à criação de um perigo doloso. Lado outro, se o autor não 
representa o resultado, não lhe pode ser atribuída a responsabilidade, pois 
não há consciência das consequências de sua atuação. Portanto, para a 
formação do elemento cognitivo, são necessárias a consciência do risco de 
lesão, a idoneidade do meio e a probabilidade do resultado. A consequência 
que depende do fortuito só pode ser imputada a título de culpa. 
Justifica-se o posicionamento em razão de o Direito Penal não poder cegar a 
essa definição a partir daquilo que o agente vai externar ao admitir, ou não, 
que queria ou assumiu o risco de gerar o resultado. Seria um grande passo 
para gerar a impunidade de crimes graves. 
ITEM C: 
- afirmar que o agente deverá responder por homicídio doloso, na modalidade 
eventual; 
- refutar a autodefesa e proceder a análise dos dados apresentados no caso 
proposto no enunciado; 
- concluir pelo risco extremo da conduta e elevada probabilidade de dar causa 
ao resultado morte; 
- apontamentos da doutrina e jurisprudência. 
 
c) Caso hipotético: Trânsito. Agente, após sair de uma festa, 
embriagado, entra em seu automóvel e passa a dirigir em alta 
velocidade. Adentra em uma estrada federal, local em que, ao perder 
o controle do veículo, invade a contramão de direção e colide em um 
veículo, produzindo a morte do motorista deste. O condutor do 
veículo alega ser “acidente de trânsito”. 
 Remetido o persecutório ao Promotor(a) de Justiça Substituto(a) 
para análise. Dado o caso prático, o candidato(a) deverá responder: 
 Quais são os parâmetros que devem ser utilizados para aferição da 
responsabilidade do agente, indicando a teoria a ser adotada? 
Fundamente. (0,5 ponto) 
 
O agente deverá responder por homicídio doloso, na modalidade eventual. 
Muito embora o condutor tenha alegado mero “acidente de trânsito”, 
caracterizado pela “ausência de vontade” de causar o resultado morte, o 
contexto fático apresentado autoriza a conclusão que o agente assumiu o 
risco efetivo de produzir o resultado. 
A imputação atribuída ao agente não resultou a aplicação aleatória do dolo 
eventual. Indicou-se, com efeito, as circunstâncias especiais do caso, 
notadamente a embriaguez, o excesso de velocidade e a perda do controle 
do veículo, indicando a falta de respeito ou indiferença para com o resultado 
lesivo. 
Ressalte-se que a negação do autuado sobre a “assunção” do resultado, não 
é suficiente para acolher a versão apresentada. Isso porque, o que define se 
o resultado pode ser atribuído a título de dolo não é a vontade psicológica, 
mas o conhecimento – o conhecimento que permite ao agente dominar o que 
está realizando. No caso telado, vê-se que o somatório de fatores, 
representaram um risco extremo da conduta, consistente em dirigir 
embriagado, e em alta velocidade, sem qualquer controle do veículo, em uma 
estrada movimentada, fatores que geraram uma elevadíssima probabilidade 
de dar causa a uma colisão com resultado “morte”, o que, ao fim e ao cabo, 
independe da vontade do agente. 
Por fim, consigne-se que, em crimes de trânsito, a ocorrência de dolo é 
possível, desde que estejam presentes elementos que indiquem a presença 
do dolo eventual pela análise da conduta arriscada do agente e o grau de 
probabilidade de produção do resultado. 
A doutrina e jurisprudência, em grande parte, adota a teoria da vontade no 
cenário brasileiro, na medida em que o consentimento é extraído pela opção 
de prosseguir na conduta arriscada, somado à indiferença do agente quanto 
ao resultado (STF, HC 124687/MS, Min. Luís Roberto Barroso). Contudo, 
adverte Schlle Gomes que como “não há como adentrar na mente do autor 
do delito”, buscando em seu ato o “consentimento” em relação ao resultado, 
0,50 
 
13 
 
nada mais do que um jogo retórico e pouco científico para analisar e assumir 
a necessidade de adoção de uma concepção cognitiva de dolo na esteira da 
posição defendida por Puppe, Herzberg, ou Jakobs. 
ITEM D: 
- afirmar a possibilidade do reconhecimento das qualificadoras; 
- mencionar a divergência na jurisprudência das cortes superiores; 
- abordar a (im)possibilidade de denúncia de qualificadoras de natureza 
subjetiva e objetiva, com as respectivas diferenciações e fundamentos; 
- destacar que o reconhecimento ou afastamento caberá ao Tribunal do Júri. 
d) Caso o entendimento seja pela caracterização de homicídio pelo dolo 
eventual, é possível afirmar que há compatibilidade com a modalidade 
qualificada? Fundamente. (0,5 ponto) 
Sim. No caso versado, o agente, embriagado, que dirige em alta velocidade 
e perde o controle do veículo, invadindo a contramão, provocando o resultado 
morte de terceiro, vislumbra-se a prática de homicídio qualificado. Poderá 
incidir as qualificadoras de ordem subjetiva e objetiva. 
Contudo, registre-se que o entendimento das cortes superiores oscila a 
respeito da compatibilidade ou incompatibilidade do dolo eventual no 
homicídio com as qualificadoras. A despeito disso, é muito sedimentado, que 
não há incompatibilidade entre o reconhecimento do dolo eventual e as 
qualificadoras previstas no art. 121 do Código Penal, porquanto o juiz natural 
da causa, Conselho de Sentença, é quem decidirá se a conduta é qualificada. 
Quanto às qualificadoras de ordem subjetiva, embora existam julgados do 
próprio STJ no sentido de que é inaplicável ao homicídio de trânsito cometido 
mediante dolo eventual, é bom ter em mente que os princípios do juiz natural 
da causa e da soberania dos vereditos sustentam denúncias e pronúncias 
com essas qualificadoras, e só o plenário a questão deverá ser decidida 
(AgRgResp 1831164, 5ª Turma STJ). 
No que concerne às qualificadoras objetivas, a despeito da divergência 
jurisprudencial, alinhamos a tese da compatibilidade. Isso porque as 
qualificadoras serão devidas quando constatado que o autor delas se utilizou 
dolosamente como meio ou como modo específico mais reprovável para agir 
e alcançar outro resultado, mesmo sendo previsível e tendo admitido o 
resultado morte. Com essas considerações, elege-se o posicionamento pela 
compatibilidade, em tese, do dolo eventual também com as qualificadoras 
objetivas (art. 121, § 2º, III e IV, do CP). AgRg no AgRg no RECURSO 
ESPECIAL Nº 1836556 - PR (2019/0266545-4) RELATOR : MINISTRO JOEL 
ILAN PACIORNIK). 
Registre-se, por fim, que as autoridades incumbidas da investigação e 
persecução penal não podem deixar de compreender que a ação do condutor 
e a lesividade dos meios de execução ínsitos a esses delitos, podem 
constituir-se como qualificadoras. Para tanto, deverá se atentar se as provas 
produzidas permitem o enquadramento para a imputação penal, de maneira 
que a decisão final sobre a (im)pertinência da circunstância compete ao 
Tribunal do Júri. 
0,50 
 
 
Referência: 
GOMES, Márcio Schlee. Dolo: cognição e risco: avanços teóricos. Porto Alegre: Livraria 
do Advogado, 2019. 
GOMES, Enéias Xavier. Dolo sem vontade psicológica: perspectivas de aplicação no 
Brasil. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2017. 
GRECO, Luís. Dolo sem vontade. In: Dias, Augusto Silva: em comemoração ao 70º 
aniversário. Coimbra: Almedina, 2009. 
 
 
GRUPO II – QUESTÃO 4 
 
A Lei no14.132/2021 instituiu o art. 147-A ao Código Penal, para prever o crime de 
perseguição, também conhecido como stalking e revogou o art. 65 da Lei das 
Contravenções Penais, que anteriormente previa a contravenção de penal de 
molestamento. Tendo em vista os referidos institutos, aponte a diferença entre ambos 
e aborde a evolução da infração penal, ao longo do tempo, declinando exemplos. 
(Valor da questão: 0,75 ponto). 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20 
14 
 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) CONCEITO E ASPECTOS GERAIS DAS LEIS CITADAS: 
Estamos diante de uma conduta proibida, que antes era disciplinada na LCP 
e agora virou crime. Analisando a figura normativa, anteriormente, de maneira 
mais simplória, assim descrevia o art.65 da LCP: “Molestar alguém ou 
perturbar-lhe a tranquilidade, por acinte ou por motivo reprovável”. Agora, do 
artigo 147-A, se extrai que o crime de stalking consiste em um crime habitual, 
cuja conduta é de perseguir (perturbar, atormentar) alguém (homem ou 
mulher). O § 1º dispõe sobre as causas de aumento de pena, 
A palavra stalking deriva da tradução do verbo to stalk, que pode ser 
entendido como ficar à espreita, vigiar, espiar. 
A principal diferença está no esclarecimento expresso da necessidade de 
reiteração de atos, e, sendo crime, o aumento de pena, quando se envolve 
criança, adolescente, idoso, ou mulher, é um avanço importante, já que a 
pena é aumentada pela metade. 
0,15 
b) CARACTERÍSTICAS E EXEMPLOS: 
Percebe-se que o Brasil adotou um modelo parecido com o de outros países: 
1. comportamento doloso e habitual, composto necessariamente por mais de 
um ato de perseguição ou assédio à mesma vítima; 
2. o motivo do autor para praticar a conduta é um interesse pessoal, como 
admiração, crença, interesse relacional ou vingança; 
3. a vítima, por conta da repetição, deve se sentir incomodada em sua 
privacidade e/ou temerosa por sua segurança. 
Outro ponto importante é que esse ato ilícito deve acontecer reiteradamente, 
e por qualquer meio. Contudo, o meio utilizado deve ser individualizado, ou 
seja, não basta copiar o tipo aberto, mas explicitar a maneira que essa 
perturbação foi perpetrada. A ação nuclear, portanto, pode atingir a vítima de 
3 formas: 
- ameaçando sua integridade física ou psíquica; 
- restringindo a capacidade de locomoção (148 – restringir em um cômodo é 
outro crime - a pessoa não pode ir mais a lugares, pois vai encontrar com o 
autor do stalking); 
- invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade. 
Trata-se de uma situação bastante comum após o desfecho de um 
relacionamento amoroso, no qual uma das partes não se conforma com a 
decisão tomada pela outra pessoa. 
As condutas perpetradas pelo agente acometido pela síndrome 
de stalking perfazem um contexto de perseguição, como, por exemplo: 
inúmeras chamadas no celular, espera na saída do trabalho, envio de 
presentes indesejados, como flores no trabalho da mulher, encontros 
provocados para constranger a vítima, envio de mensagens no celular e 
outras tantas formas inconvenientes de impor a presença refutada e agredir 
psicologicamente a vítima, vai à sua casa ou trabalho sem ser chamada, usa 
de diversos artifícios para o intimidar a não iniciar nova relação amorosa, 
incorre no delito. 
Outrossim, stalking pode ocorrer por intermédio da internet, caracterizando-
se o que se chama de cyberstalking. Na forma virtual, acontece com o envio 
de mensagens eletrônicas, recados, convites insistentes ou ofensas e 
perseguição nas redes sociais, na busca incessante de manter-se próximo 
à vítima. 
0,40 
c) JURISPRUDÊNCIA STJ: 
Outra questão que merece análise é: o art. 147-A do CP revogou o art. 65 
da LCP? Segundo o STJ (AgRg no HC 680738/DF), o crime de stalking não 
afasta tipificação de perturbação da tranquilidade e, portanto, não significa 
que tenha ocorrido a abolitio criminis (extinção do delito) em relação a todos 
os fatos que estavam enquadrados na referida infração penal. A esse 
fenômeno dá-se o nome de continuidade normativo típica. 
0,20 
Referência: 
Disponível em: https://www.dizerodireito.com.br/2021/04/lei-141322021-institui-o-crime-
de.html. Acesso em: 14 mar. 2023. 
15 
 
Disponível em: https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2021/04/01/lei-14-13221-
insere-no-codigo-penal-o-art-147-para-tipificar-o-crime-de-perseguicao/. Acesso em: 14 mar. 
2023. 
Superior Tribunal de Justiça: AgRg no HC 680738 / DF 
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS 
2021/0221831-2. 
Ana Lara Camargo De Castro, Spencer Toth Sydow, STALKING E CYBERSTALKING 
(2023). 
 
GRUPO II – QUESTÃO 5 
 
Quanto ao assunto self laundering, explique sobre a imputação simultânea, ao mesmo 
réu, do delito antecedente e do crime de lavagem, e os requisitos necessários para que 
não ocorra o fenômeno da consunção, segundo a orientação da Corte da Cidadania. 
(Valor da questão: 1 ponto). 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
a) CONCEITO DE LAVAGEM E AUTOLAVAGEM: 
o crime de lavagem de capitais tipifica exatamente a conduta de ocultar ou 
dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou 
propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou 
indiretamente, de infração penal. 
Embora a tipificação da lavagem de capitais dependa da existência de um 
crime antecedente, a jurisprudência do STJ admite a possibilidade da 
autolavagem, isto é, a imputação simultânea, ao mesmo réu, do delito 
antecedente e do crime de lavagem, desde que sejam demonstrados atos 
diversos e autônomos daquele que compõe a realização do primeiro crime, 
circunstância em que não ocorrerá o fenômeno da consunção (AgRg no HC 
120936/RN, APn 940/DF, APn 923/DF, APn 856/DF). 
0,20 
b) EXPLICAR O PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO E FAZER O PARALELO COM O CRIME DE 
LAVAGEM DE DINHEIRO: 
como sabido, o princípio da consunção é aplicável aos casos em que um 
crime serve como meio necessário ou de preparação para outro. Segundo 
assentou-se, se a lavagem de dinheiro é feita por meio de atos diversos dos 
que compõem o crime antecedente, é possível imputar ao réu também a 
prática de autolavagem, hipótese em que não ocorre o fenômeno da 
consunção. 
- MENCIONAR A MUDANÇA VINDA COM A LEI NO 12683/12 E ASPECTOS GERAIS DA 
CONVENÇÃO DE PALERMO: 
Ressalte-se que a Lei no 12683/2012, passou a prever que toda e qualquer 
infração que gere valores, direitos ou bens podem se constituir como delito 
antecedente ao crime de lavagem de dinheiro. Destaque-se que a 
Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional 
(Convenção de Palermo), que adentrou no ordenamento jurídico nacional do 
Decreto nº 5.015/04. Assim, assentou que “a própria convenção de Palermo 
(promulgada pelo Decreto Lei 5015, de 12 de março de 2004), no seu art. 6º 
§ 2º, deixa a critério dos Estados-Parte definirem se as pessoas que tenham 
cometido a infração principal respondam pelo branqueamento de capitais”. 
- CITAR A NECESSIDADE DO ESTADO EM APONTAR ASPECTOS MÍNIMOS NA 
ACUSAÇÃO, CONFORME PRECEDENTES: 
Para tanto, nesta espécie de crime, o Estado deverá indicar lastro probatório 
mínimo em relação ao crime de lavagem de dinheiro e à infração penal 
antecedente (RHC 115171/RJ, APn 923/DF, RHC 106107/BA, HC 
150729/SP – jurisprudência em tese – STJ). Em casos tais, se a ação for 
confirmada, a partir do devido processo legal e da consequente disposição 
de todos os meios de prova ao alvitre das partes, notoriamente o contraditório 
e a ampla defesa, que o autor enfunou ares de legalidade ao dinheiro 
recebido e transferido, estará configurado o crime de lavagem de capitais. 
0,50 
c) EXPLICITAR O POSICIONAMENTO SOBRE A AUTOLAVAGEM, CONFORME STJ: 0,30 
16 
 
na ótica da Corte da Cidadania, na autolavagem (self laundering/autolavado) 
há ainda uma reprovabilidade ainda maior, à medida em que o autor da 
infração penal antecedente, já com a posse do proveito do crime, ao invés 
de apenas fazer uso dos bens e valores proveito do crime, perpetra uma 
nova empreitada criminosa, repleta de condutas típicas reprováveis, visando 
dar aparência de licitude ao produto criminoso que abrolhou com a prática 
da infração penal antecedente. O agente utiliza-se dos bens e valores à sua 
disposição e reinicia a prática de uma série de condutas típicas, a imprimir a 
aparência de licitude do recurso obtido com a prática da infração penal 
anterior. 
Naquele julgamento, o STJ afirmou que “não há falar em ausência de 
autonomia entre a corrupção passiva e a lavagem de dinheiro, com a 
consunção do segundo delito pelo primeiro. Isso porque não é possível ao 
agente, a pretexto de não ser punido pelo crime anterior ou com o fim de 
tornar seguro o seu produto, praticarnovas infrações penais, lesando outros 
bens jurídicos.” 
- MENCIONAR O PRECEDENTE DO JULGAMENTO DO MENSALÃO (AÇÃO PENAL 470 
STF) E EXPOR O POSICIONAMENTO FIRMADO PELOS MINISTROS: 
por fim, registre-se que a Corte de Cidadania se baseou no precedente 
advindo do julgamento da Ação Penal 470 STF, em que se afirmou que a 
“autolavagem pressupõe a prática de atos de ocultação autônomos do 
produto do crime antecedente (já consumado). 
Naquele julgado, foi consignado “a possibilidade de o autor do crime 
antecedente ser responsabilizado também pela lavagem de dinheiro 
recebido a título de propina (autolavagem). A ressalva que se faz, de modo 
a evitar a dupla incriminação pelo mesmo fato, é no sentido de que a 
caracterização da lavagem de dinheiro pressupõe a realização de atos 
tendentes a conferir a aparência de ativo lícito ao produto do crime 
antecedente, já consumado. 
Referência: 
Jurisprudência em tese – STJ – Do Crime de Lavagem I e II. 
Informativo 726 – STJ (A-n 989-DF). 
Ação Penal 470 STF. 
 
 
GRUPO II – QUESTÃO 6 
 
Sobre o instituto da Colaboração Premiada, responda (Valor da questão: 2 pontos) 
a. Se existe diferença com a Delação Premiada? (0,25 ponto) 
b. Sobre a natureza jurídica; (0,25 ponto) 
c. Sobre a previsão no ordenamento jurídico brasileiro; (0,25 ponto) 
d. Sobre a (Im)Possibilidade de combinação de leis; (0,25 ponto) 
e. Sobre Plano de validade, existência e eficácia; (0,25 ponto) 
f. Se um membro de Organização Criminosa, sob pretexto de agir em colaboração 
premiada, inserir dados capazes de embaraçar a persecução penal, qual é a 
consequência jurídica desse ato? (0,25 ponto) 
g. Sobre Prêmios ao colaborador: rol, limites e critérios para a escolha no caso 
concreto. (0,5 ponto) 
 
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40 
 
 
Resposta Ideal Pontuação 
máxima 
ITEM A: 
- afirmar que existe diferença e conceituar colaboração e delação premiada; 
 - estabelecer, ao menos, 3 diferenças entre os institutos. 
 
a) Se existe diferença com a Delação Premiada. (0,25 ponto). 
Sim, a delação premiada não deve ser vista como sinônimo de colaboração 
premiada, mas sim uma espécie do gênero colaboração. 
A delação consiste na indicação de que a pessoa delatada também praticou 
determinado crime ou integrou, com determinada função, uma organização. 
0,25 
17 
 
Traduz-se na cooperação do acusado ou investigado, no sentido de inculpar 
a prática de infrações penais, por seus eventuais comparsas. Refere-se a um 
mecanismo por meio do qual o investigado ou acusado, ao colaborar com as 
autoridades apontando outras pessoas que também estão envolvidas na 
trama criminosa, obtém benefícios na fixação da pena ou mesmo na 
execução penal. AgInt no RMS 48925/SP, Rel. Ministra REGINA HELENA 
COSTA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 13/03/2018, DJe 05/04/2018. 
A colaboração é mais ampla: pode envolver não somente a indicação de 
demais autores como também a recuperação de ilícitos e a indicação e 
entrega efetiva de elementos probatórios materiais, como extratos de conta, 
smartphones, memórias externas, documentos, cheques, entre outros. A 
colaboração premiada é disciplinada no ordenamento jurídico pátrio, 
precipuamente, pelos arts. 4º a 7º da Lei nº 12.850/13, e, no âmbito do direito 
internacional, pelo art. 26 da Convenção das Nações Unidas contra o crime 
organizado transnacional (Convenção de Palermo), da qual o Brasil é 
signatário, promulgada mediante o Decreto nº 5.015/04. Os benefícios 
decorrentes do instituto são aqueles apontados taxativamente pela Lei nº 
12.850/13, quais sejam, perdão judicial, redução da pena privativa de 
liberdade em até 2/3 (dois terços), ou sua substituição por restritiva de 
direitos (art. 4º, caput), além do não oferecimento de denúncia (art. 4º, § 3º) 
e progressão do regime de cumprimento da pena (art. 4º, § 5º). 
Além disso, o STF RHC 219193, 1ª Turma, Relator Luiz Fux, julgamento em 
08.11.2022), traçou outras diferenças: 
1 - A colaboração premiada trata-se de negócio jurídico processual, entre 
órgão de persecução penal e colaborador, enquanto que a delação constitui 
meio de obtenção de prova da prática de crimes em geral, sendo ato 
unilateral do acusado. 
2 – A Delação, diferentemente do acordo de Colaboração Premiada, 
independe de qualquer ato formalizador das declarações. 
3 - o Acordo de Colaboração Premiada é, atualmente, apenas um dos 
instrumentos através dos quais a Delação de crimes – praticados ou não pelo 
próprio delator – chega ao conhecimento das autoridades de persecução 
penal. 
ITEM B: 
- trazer o entendimento do STF sobre a natureza jurídica; 
- comentários da doutrina sobre a dupla natureza e as consequências. 
 
b) Sobre a natureza jurídica. (0,25 ponto). 
STJ: tem natureza jurídica de negócio jurídico bilateral e personalíssimo 
firmado entre as partes interessadas AgRg no REsp 1793377/PR, julgado 
em 05.10.2022, Corte Especial 
STF: natureza de negócio jurídico processual e meio de obtenção de prova, 
HC 127483/PR. 
 
Pontua a doutrina que, em compasso com a jurisprudência dos Tribunais 
Superiores, a Lei nº 13964/2019 (Lei Anticrime), que conferiu nova redação 
à Lei 12850/2013, no seu art. 3º-A, anotou expressamente que a colaboração 
premiada tem dupla natureza: negócio jurídico processual e meio de 
obtenção de prova. Assim sendo, terá aptidão para autorizar a deflagração 
da investigação preliminar, visando a adquirir coisas materiais, traços ou 
declarações dotadas de força probatória. 
0,25 
 
ITEM C: 
- Resposta completa: 10 exemplos. 
 
c) Sobre a Previsão no ordenamento jurídico brasileiro. (0,25 ponto). 
Possui previsão nas seguintes leis: - art. 8º da Lei nº 8072/90 (Crimes 
Hediondos); - art. 159 § 4º (extorsão mediante sequestro), do Código Penal; 
- art. 16 da Lei nº 8137/90 (crimes contra a ordem tributária), - art. 25 § 2º da 
Lei nº 7492/86 (Lei contra o Sistema Financeiro Nacional); - art. 6º da Lei nº 
12850/13 (Lei do Crime Organizado); - art. 1 § 5º, da Lei nº 9613/96 
(Lavagem de Capitais); - art. 13 e 14 da Lei nº 9807/99 (Lei de proteção a 
vítimas e testemunhas); - art. 41 da Lei nº 11343/06 (Lei de Drogas); - art. 87 
da Lei nº 12529/11 (Lei do acordo de Leniência); - art. 16º da Lei nº 
0,25 
 
https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp?i=1&b=ACOR&livre=(('AIRMS'.clas.+e+@num='48925')+ou+('AgInt%20no%20RMS'+adj+'48925').suce.)&thesaurus=JURIDICO&fr=veja
https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp?i=1&b=ACOR&livre=(('AGRESP'.clas.+e+@num='1793377')+ou+('AgRg%20no%20REsp'+adj+'1793377').suce.)&thesaurus=JURIDICO&fr=veja
18 
 
12846/2013 (Lei Anticorrupção); - art. 16 da Lei nº 13260/2016 (Lei do 
Terrorismo), - art. 9º da Lei nº 13344/2016 (Tráfico de Pessoas). 
ITEM D: 
- afirmar a impossibilidade de combinação de leis e fundamentar, citando a 
súmula 501 STJ; 
- apontar que não há conflito aparente de normas, estabelecendo os 
fundamentos correlatos; 
- diferenciar a Lei nº 12850/2013 das demais, que continuam vigentes. 
d) Sobre a (Im)Possibilidade de combinação de leis (0,25 ponto). 
Não é possível a combinação de leis que versam sobre o instituto. Nos 
termos da Súmula 501 do STJ, é vedado qualquer interpretação que importe 
em combinação de lei. Desse modo, ao se reconhecer que as leis de 
colaboração premiada convivem, é de rigor concluir que é vedado o 
empréstimo de prêmios mais amplos nos casos em que a legislação 
específica prevê exclusivamente a diminuição de pena como benefício 
possível. 
A esse respeito, importa citar que a maioria da doutrina sustenta que não há 
que se falar em conflito aparente de normas, na medida em que a única lei a 
tratar sobre Colaboração Premiada no aspecto processual é a do Crime 
Organizado, Lei nº 12850/13. Saliente-se que referida lei não esgota o 
assunto colaboração. A maioria das legislações prevê que o instituto se 
reporta apenas a causas de diminuição de pena e são legislações temáticas, 
amarradas à determinada estrutura criminal específica, como o tráfico de 
drogas, lavagemde dinheiro ou crime contra o sistema financeiro. Assim 
sendo, o sistema confere permissões conciliáveis, cada qual dentro da sua 
temática, para que o Estado e o investigado ou acusado possam acordar 
acerca dos termos da colaboração e do respectivo prêmio. Portanto, não há 
que se falar em revogação tácita, mormente diante do fato de que eventuais 
contradições entre dispositivos legais não se presumem. 
0,25 
 
ITEM E: 
- justificar a necessidade dessa análise, conforme a natureza jurídica 
reconhecida pelo STF; 
- plano de existência, com conceito e previsão legal; 
- plano de validade, com conceito e previsão legal, fixando a mudança com 
o PAC; 
- plano de eficácia, com conceito, previsão legal e consequências. 
e) Sobre Plano de validade, existência e eficácia. (0,25 ponto). 
Ao decidir que colaboração premiada é negócio jurídico como meio para a 
obtenção de provas – referência positivada em lei, o STF, no HC 127483/PR, 
estabeleceu parâmetros de exame do negócio jurídico, que deve se dar nos 
planos de existência, validade e eficácia do acordo. Tratam-se de algumas 
regras que fixam forma e conteúdo mínimo para a documentação. 
Plano de existência: regularidade formal. Os requisitos formais do acordo de 
colaboração premiada estão previstos no art. 6º da Lei nº 12850/2013, os 
quais se revelam como pressupostos de existência da colaboração. Com 
isso, o juízo vai verificar se a documentação mostrada apresenta o conteúdo 
mínimo previsto na Lei. 
Plano de validade: voluntariedade. Para tanto, a legislação processual impõe 
ao Juiz a necessidade de ouvir o colaborador reservadamente, 
acompanhado apenas por seu defensor, para que, antes da homologação, 
dentre outra questões, possa se certificar de que a contribuição do celebrante 
é efetivamente livre de vícios e decorrente de ato de vontade (art. 4º § 7º 
LCO). A Lei nº 13964/2013 transformou a oitiva do colaborador como 
solenidade obrigatória para aferir a liberdade de sua contribuição. Nos 
0,25 
 
19 
 
termos originais da Lei nº 12850/13, não havia essa obrigatoriedade, pois a 
oitiva era facultativa. 
Plano de eficácia: homologação judicial. É o ato que confere eficácia ao 
acordo de colaboração ou, em outras palavras, assegura que, cumpridos 
seus termos, o celebrante receberá a contrapartida ajustada e registrada em 
termo (art. 4º § 7º). O acordo existente e válido, somente será eficaz se for 
submetido à homologação judicial. Para tanto, analisa-se a regularidade, 
legalidade, adequação e voluntariedade. Caso não atenda tais requisitos, o 
juiz poderá recursar a homologação da proposta (§ 8º). 
ITEM F: 
- responder que incidiu no art. 2º § 1º da Lei 12850/13; 
- assinalar que o embaraço à investigação se dá TANTO na fase extrajudicial 
e judicial, conforme decidido pelo STJ (informativo 650). 
f) Se um membro de Organização Criminosa, sob pretexto de agir em 
colaboração premiada, inserir dados capazes de embaraçar a 
persecução penal, qual é a consequência jurídica desse ato? (0,25 
ponto). 
Deverá responder como incurso no art. 2º, § 1º da Lei nº 12850/2013 (Impedir 
ou embaraçar a investigação de Organização Criminosa). Esse crime é 
reconhecido, ainda que o embaraço seja na fase judicial. Assim decidiu o 
STJ (HC 487962-SC), Informativo 650 STJ. Vejamos: 
Não é razoável dar ao art. 2º, §1º, da Lei nº 12.850/2013 uma interpretação 
restritiva para reconhecer como típica a conduta do agente de impedir ou 
embaraçar a investigação somente na fase extrajudicial. Com efeito, as 
investigações se prolongam durante toda a persecução criminal, que abarca 
tanto o inquérito policial quanto a ação penal deflagrada pelo recebimento da 
denúncia. Não havendo o legislador inserido no tipo a expressão estrita 
"inquérito policial", compreende-se ter conferido à investigação de infração 
penal o sentido de persecução penal como um todo, até porque carece de 
razoabilidade punir mais severamente a obstrução das investigações do 
inquérito do que a obstrução da ação penal. Frise-se que também no curso 
da ação penal são feitas investigações e diligências objetivando a busca da 
verdade real, sendo certo que as investigações feitas no curso do inquérito, 
como no da ação penal, se diferenciam, primordialmente, no que diz respeito 
à amplitude do contraditório, ampla defesa e o devido processo legal. 
Ressalta-se que a persecução penal é contínua não havendo de se falar em 
estancamento das investigações com o recebimento da denúncia. Ademais, 
sabe-se que muitas diligências realizadas no âmbito policial possuem o 
contraditório diferido, de tal sorte que não é possível tratar inquérito e ação 
penal como dois momentos absolutamente independentes da persecução 
penal. 
0,25 
 
ITEM G: 
- necessidade de estabelecer critérios para eleger prêmios adequados ao 
caso concreto; 
- afirmar a possibilidade de conceder mais de um benefício ao colaborador, 
se a lei permitir. Citar as leis; 
- mencionar a impossibilidade de estabelecer benefícios não previstos. Citar 
os princípios da segurança jurídica e proteção da confiança, como 
balizadores da decisão; 
- limitação material para o princípio da colaboração premiada, para caso de 
crime hediondo; 
- critérios para a escolha dos prêmios (caráter objetivo e subjetivo), com 
alusão à previsão legal. 
 
0,50 
 
20 
 
g) Sobre Prêmios ao colaborador: rol, limites e critérios para a escolha 
no caso concreto. (0,5 ponto). 
O proponente deve observar a existência de critérios para se esta eleger o 
prêmio mais adequado ao caso concreto ou até de mais um deles, caso se 
compreenda que os benefícios previstos em lei são cumuláveis. 
A maioria das leis que regulam a colaboração premiada em sede de direito 
material traz apenas uma causa de diminuição de pena como benefício 
possível. Por outro lado, as Leis nº 9613/98 (Lavagem de Capitais), Lei nº 
9807/99 (Proteção a vítimas, testemunhas e réus colaboradores), Lei nº 
12850/13 (Crime Organizado), além das Leis de Combate ao Tráfico de 
Pessoas e ao Terrorismo (por remeterem a aplicação da Lei nº 12850/13), 
trazem a possibilidade de mais de um benefício ao colaborador. No que 
tange a possibilidade de se acumularem prêmios, descarta-se a hipótese de 
benefícios inconciliáveis, como combinação de imunidade com substituição 
da pena privativa de liberdade por sanções restritivas de direitos. 
Embora o STF (HC 127483/PR), tenha sinalizado a possibilidade de o acordo 
versar sobre os efeitos extrapenais da condenação, o princípio da segurança 
jurídica e da proteção da confiança, usados como balizadores da decisão, 
não abrem caminho ilimitado para a criação de benefícios de direito penal ou 
processual penal não previstos na legislação, como, por exemplo, regime de 
cumprimento de pena diferenciados (art. 4º § 7º, II). 
Outra limitação levantada pela doutrina é a possibilidade de se identificar 
limites materiais para a colaboração premiada, especialmente para a 
persecução de crimes dolosos contra a vida, uma vez que a maciça maioria 
dos casos envolve delito de homicídio qualificado, consumado ou tentado, 
delito de natureza hedionda. Assim, na esteira do art. 5º, XLIII, da CF, se a 
anistia e graça não podem ser concedidos para os autores de delitos 
hediondos, também não há razão para se admitir o perdão judicial, ainda que 
estabelecido como prêmio de uma colaboração efetiva. No caso, há apenas 
a possibilidade de admitir redução máxima de pena ao colaborador autor de 
crime hediondo, mas não de perdão judicial. 
A imunidade penal prevista no art. 4 § 4º é prêmio que se viabiliza apenas se 
o agente colaborador, em fase de investigação, preencha os requisitos. É 
uma exceção ao princípio da obrigatoriedade. Trata-se de proposta privativa 
ao membro do Ministério Público, diante do art. 129, I, da CF. Como 
assentou o STF, não há espaço para que o Delegado de Polícia crie 
obstáculo ao ajuizamento de denúncia por meio de um acordo

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