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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL
EDITAL DE CONCURSO PÚBLICO Nº 1/2022/COC/MPMS
PROMOTOR DE JUSTIÇA SUBSTITUTO
INFORMAÇÕES DO EDITAL DE ABERTURA QUANTO ÀS PROVAS ESCRITAS
14.2.1 As provas escritas versarão sobre os seguintes grupos de disciplinas: GRUPO I: Direito Constitucional e
Direitos Humanos; GRUPO II: Direito Penal; GRUPO III: Direito Processual Penal; GRUPO IV: Direito Civil
e Direito Processual Civil; GRUPO V: Tutela de Interesses Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos;
GRUPO VI: Direito Administrativo, Direito Eleitoral e Direito Institucional do Ministério Público.
14.2.2 Os examinadores, durante a correção das provas escritas, além da resposta à questão jurídica formulada,
avaliarão o domínio correto da norma-padrão da língua portuguesa e das suas estruturas (adequação
vocabular, ortografia, morfologia, sintaxe e pontuação), bem como a capacidade de exposição do
pensamento e o poder de argumentação e convencimento dos candidatos.
14.2.3 Serão considerados aprovados nas provas escritas, os candidatos que obtiverem nota mínima igual ou
superior a 5,0 (cinco), em cada uma das disciplinas ou grupos, com média geral de 6,0 (seis).
14.2.6 É vedado ao candidato assinar a prova, escrever seu nome, número de inscrição ou apor qualquer outro
sinal que possa identificá-lo, sob pena de anulação de sua prova e consequente eliminação do concurso.
GRUPO I – DIREITO CONSTITUCIONAL E DIREITOS HUMANOS
GRUPO I – QUESTÃO 1
O chamado direito ao esquecimento pode ser invocado para tutelar os direitos
fundamentais relativos à honra e à imagem de vítimas de crime de ódio tais como o
racismo, a homofobia e a xenofobia?
(Valor da questão: 1,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O instituto do Direito ao Esquecimento consiste no poder de obstar, em
razão da passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos e
licitamente obtidos e publicados em meios de comunicação social. O instituto
está intrinsicamente ligado à tutela constitucional do direito à honra e
imagem, bem como à dignidade das pessoas.
0,40
b) O Supremo Tribunal Federal firmou a seguinte Tese (Tema 786): “É
incompatível com a Constituição Federal a ideia de um direito ao
esquecimento, assim entendido como o poder de obstar, em razão da
passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos e licitamente
obtidos e publicados em meios de comunicação social – analógicos ou
digitais. (...)”
0,40
c) Ainda segundo a Suprema Corte, “eventuais excessos ou abusos no
exercício da liberdade de expressão e de informação devem ser analisados
caso a caso, a partir dos parâmetros constitucionais, especialmente os
relativos à proteção da honra, da imagem, da privacidade e da personalidade
em geral, e as expressas e específicas previsões legais nos âmbitos penal e
cível”. Sendo assim, excessos como a exposição exacerbada e até mesmo
a ridicularização dos envolvidos devem ser coibidos, via tutela jurisdicional,
sobretudo nos casos de vítimas de crimes de ódio.
0,40
2
d) Merece destaque o fato de que alguns princípios e dispositivos
constitucionais foram sopesados e, de certa maneira, sobrepostos, no
julgamento do Tema 786, a exemplo dos “arts. 1º, III, 5º, caput, III e X, e 220,
§ 1º, da CF/88”, tal qual o fizeram, em seus votos, os Ministros Ricardo
Lewandowski que afirmou que a liberdade de expressão é um direito de
capital importância, ligado ao exercício das franquias democráticas. No seu
entendimento, enquanto categoria, o direito ao esquecimento só pode ser
apurado caso a caso, em uma ponderação de valores, de maneira a sopesar
qual dos dois direitos fundamentais (a liberdade de expressão ou os direitos
de personalidade) deve ter prevalência. Ou ainda, o Ministro Luiz Fux, que
afirmou ser inegável que o direito ao esquecimento é uma decorrência lógica
do princípio da dignidade da pessoa humana e, quando há confronto entre
valores constitucionais, é preciso eleger a prevalência de um deles. Para o
ministro, o direito ao esquecimento pode ser aplicado. Mas, no caso dos
autos, ele observou que os fatos são notórios e assumiram domínio público,
tendo sido retratados não apenas no programa televisivo, mas em livros,
revistas e jornais. Por esse motivo, ele acompanhou o relator pelo
desprovimento do recurso.
0,30
Referência:
Tema: 0786 Título: Aplicabilidade do direito ao esquecimento na esfera civil quando for
invocado pela própria vítima ou pelos seus familiares.
https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/tema.asp?num=786
GRUPO I – QUESTÃO 2
Analisando o modo de separação de atribuições (competências) entre os entes
federativos, como é classificado o federalismo no Brasil?
(Valor da questão: 2 pontos)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O Estado brasileiro é estruturado conforme o modelo tripartite de poderes
de Montesquieu, e organizado na forma federativa. Como definição de
Estado Federal, Pinto Ferreira conceitua: "O Estado Federal é uma
organização formada sob a base de uma repartição de competências entre
o governo nacional e os governos Estaduais, de sorte que a União tenha
supremacia sobre os Estados-Membros e estes sejam entidades dotadas de
autonomia constitucional perante a mesma União".
A forma federativa de Estado é cláusula pétrea inserta no § 4º do artigo 60
da Carta Magna.
Quanto às competências, estas são classificadas quanto ao objeto em
materiais e legislativas e, no que se refere a repartição destas a doutrina
identifica o federalismo dual e o cooperativo.
0,60
b) No federalismo dual, a separação das atribuições dos entes federativos é
extremamente rígida, como ocorria nos Estados Unidos em sua origem,
havendo uma repartição horizontal de competências entre União e Estados,
inexistindo áreas de atuação comuns ou concorrentes entre os entes.
Há doutrina que ainda acrescenta o federalismo de integração, que tem como
característica a sujeição dos Estados federados à União, adotando-se uma
relação de subordinação entre os entes federados, com o fortalecimento do
poder central.
0,30
c) O modelo brasileiro pode ser classificado como um federalismo
cooperativo, ao adotar-se a ideia de competências verticais, com exercício
coordenador das competências.
0,50
d) O novo modelo de Federalismo Cooperativo surge com o “Estado do bem-
estar social” ou “Estado Providência”, durante o século XX, com uma atuação
intervencionista. Nesse modelo, “as atribuições serão exercidas de modo
comum ou concorrente, estabelecendo-se uma verdadeira aproximação
entre os entes federativos, que deverão atuar em conjunto. Assim,
0,30
3
modernamente, percebe-se, cada vez mais, uma gradativa substituição do
federalismo dual pelo cooperativo”1
Segundo Marcelo Novelino, “o federalismo de cooperação estabelece áreas
de atuações comuns e concorrentes entre as suas entidades, de modo a
concretizá-las, ao menos idealmente, de maneira satisfatória.”2
e) Cabe mencionar que o Federalismo de Cooperação brasileiro pode ser
evidenciado, recentemente, em julgado do Supremo Tribunal Federal (ADI
6341/DF) em que o STF decidiu pela competência comum dos entes
federativos a adoção de medidas restritivas, considerando as peculiaridades
de casa região no enfrentamento à pandemia da COVID 19.
0,30
Referência:
¹ LENZA, Pedro. Direito Constitucional, 2021. Saraiva. P. 670;
² NOVELINO, Marcelo. Curso de Direito Constitucional, 2018. 13ed. Juspodium.
GRUPO I – QUESTÃO 3
Em relação às medidas provisórias, disserte sobre legitimidade, pressupostos
constitucionais, prazo, eficácia e tramitação.
(Valor da questão: 1,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) As medidas provisórias conferem função atípica ao Poder Executivode
colaboração.
Quanto aos critérios para a escolha dos prêmios, o art. 4 § 1º estabelece
balizas de caráter subjetivo e objetivo, além de requisitos adicionais
específicos para o acordo de imunidade.
Personalidade do agente: a crítica que se faz é que a personalidade do
agente, não pode ser atrelada à primariedade, aos antecedentes, à
habitualidade criminosa ou à reincidência. As balizas de caráter objetivo
ajudam a estabelecer um norte que evita o excessivo subjetivismo.
Referência:
CARVALHO, Márcio Augusto Friggi. Colaboração premiada aplicada ao procedimento do
Tribunal do júri. Belo Horizonte: Forum, 2022.
BARBIEIRO, Diego Roberto. Implantação de malwares em investigações complexas. Curitiba:
Juruá, 2021.
Supremo Tribunal Federal (HC 127483/PR, RHC 219193).
Superior Tribunal de Justiça (AgRg no REsp 1793377/PR), (HC 487962-SC),
Informativo 650 STJ.
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GRUPO II – QUESTÃO 7
Como é de conhecimento do candidato(a) ao cargo de Promotor(a) de Justiça
Substituto(a), a Lei nº 14.133/21 – Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos -
em seu art. 178, acrescentou ao Código Penal, entre os Crimes contra a Administração
Pública, onze tipos penais – arts. 337-E a 337-P. Essa mudança legislativa, como
outras tantas que ocorrem diariamente no Brasil, repercute em sobremaneira na
atuação funcional dos membros do Ministério Público, pessoas que dedicam suas
vidas em defesa dos interesses da sociedade. Feito esse registro e, dada as
consequências jurídicas da nova legislação, responda:
(Valor da questão: 1 ponto)
a. Como será o tratamento penal dos crimes licitatórios cometidos durante a vigência
da Lei nº 8.666/93, diante do disposto no art. 191 da Lei nº 14.133/21? (0,25 ponto).
b. É possível a aplicação das normas penais incriminadoras da Lei nº 8666/93 para os
fatos passados? Fundamente e exemplifique sob a perspectiva principiológica.
(0,25 ponto).
c. A nova lei passou a prever a prática de condutas até então não criminalizadas?
Quais? (0,25 ponto).
d. A nova lei é compatível com a aplicação da Justiça Penal Negociada? Fundamente
e exemplifique. (0,25 ponto).
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30
Resposta Ideal Pontuação
máxima
ITEM A:
- assinalar que os arts. 191 e 193 não têm aplicabilidade na seara criminal;
- afirmar a revogação dos arts. 89 a 108 da Lei 8666/93, que passaram a
viger no Capítulo II-B do Código Penal (título XI dos Crimes contra a
Administração Pública).
- afirmar que não ocorreu a “abolitio criminis” (art. 2º CP) e fundamentar com
base na continuidade normativa típica.
a) Como será o tratamento penal dos crimes licitatórios cometidos
durante a vigência da Lei nº 8.666/93, diante do disposto no art. 191 da
nº Lei 14.133/21? (0,25 ponto).
Embora a Lei nº 14133/21, nos arts. 191 e 193, tenha estabelecido um
regime de transição para aplicação da novel legislação, até o decurso do
prazo de dois anos, a contar da publicação – a qual se deu em 01.04.2021,
este dispositivo não abrange as alterações concernentes à tutela penal das
licitações e dos contratos administrativos.
Assim sendo, na data da publicação da nova lei, foram revogados os arts. 89
a 108 da Lei nº 8666/93, passando a viger, na mesma data, o Capítulo II-B
do Código Penal (Dos crimes em Licitações e contratos Administrativos,
inserido no Título XI dos Crimes contra a Administração Pública),
modificando as redações dos tipos penais antigos e adequando as suas
disposições.
Quanto aos novos tipos penais anteriormente previstos, tem-se, como regra,
a incidência da continuidade normativo típica, agora revogadas pela Lei nº
14133/21. Embora tenha havido a revogação dos crimes da Lei nº 8666/93,
não significa que tenha ocorrido “abolitio criminis” (art. 2º CP), uma vez que
não está atrelada ao simples fato de ter ocorrido a revogação de um
dispositivo penal. Deve ser analisado se há ausência de continuidade do tipo
de ilícito em confronto com o ordenamento jurídico penal como um todo.
Destarte, se uma conduta estava prevista no tipo X e este é revogado, mas
no mesmo momento (sem solução de continuidade) ela segue tipificada no
novo tipo Y, não houve “abolitio criminis”, mas sim continuidade normativo
típica.
0,25
ITEM B: 0,25
22
- afirmar a possibilidade de aplicação das normas penais incriminadoras da
Lei nº 8666/93 para fatos passados;
- necessidade de aferir a continuidade normativo típico e aplicação da lei
penal no tempo, para aferir a possibilidade de retroagir (art. 5º XL, CF);
- estabelecer um paralelo da antiga lei, para a nova legislação, que no geral
é mais rigorosa. Assim, incidirá o princípio da ultratividade;
- afirmar que a denúncia pode abranger a lei anterior, conforme
precedentes e doutrina.
b) É possível a aplicação das normas penais incriminadoras da Lei nº
8666/93 para os fatos passados? Fundamente e exemplifique sob a
perspectiva principiológica. (0,25 ponto).
Sim, é possível.
Na prática, após reconhecer a incidência do princípio da continuidade
normativo típica, tem-se ainda, quanto à aplicação da lei penal no tempo, que
se considerar o rigor penal da norma, de modo a verificar a possível
retroatividade, conforme o art. 5º, XL, da CF e art. 2º, parágrafo único, do
Código Penal (a lei não retroagirá, salvo para beneficiar o réu, de forma que
a lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos
anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em
julgado).
Fazendo a comparação dos tipos penais de ambas as leis (e seus preceitos
secundários), percebe-se que a continuidade normativa típica veio
acompanhada de um maior rigor punitivo, não retroagindo para alcançar
fatos pretéritos. Portanto, para os fatos passados, as normas penais
incriminadoras da Lei nº 8666/93, serão ultrativas, ou seja, aplicáveis mesmo
após suas revogações, pois são mais benéficas aos investigados/acusados
(inclusive para fins de capitulação nas denúncias).
Vale destacar que todos os crimes da Lei nº 8666/93 eram apenados com
detenção, o que impedia o início do cumprimento da pena em regime
fechado. Analisando os tipos penais inseridos pela nova Lei, apenas os arts.
337-I e 337-J continuam apenados com detenção. Nos demais, portanto, é
admissível o regime inicial fechado na execução da pena.
ITEM C:
- assinalar a transferência dos arts. 337-E a 337-O da Lei nº 8666/93 para
o Código Penal;
- afirmar que a nova lei passou a prever o crime de “Omissão grave de dado
ou de informação para o projetista – art. 337-O do Código Penal;
- abordar aspectos do novo crime;
- mencionar a “novatio legis”, a partir de 01.04.21.
c) A nova lei passou a prever a prática de condutas até então não
criminalizadas? Quais? (0,25 ponto).
O capítulo II-B foi inserido ao Título XI da Parte Especial do Código pela nova
Lei de Licitações e Contratos Administrativos, que revogou a Lei nº 8.666/93
e transferiu para o Código Penal toda a disciplina dos crimes cometidos nos
processos licitatórios e nos contratos administrativos dele decorrentes.
Foram inseridos onze tipos penais entre os artigos 337-E e 337-O.
Do rol de crimes, a Lei nº 14133/21 tipificou uma nova conduta. É a novidade
legislativa trazida no tipo penal do art. 337-O, denominado pelo legislador de
“Omissão grave de dado ou de informação pro projetista”. Esse tipo penal é
de médio potencial ofensivo e tem como bem jurídico tutelado a
administração pública no aspecto moral, correspondente à isonomia,
moralidade, competitividade e regularidade do processo licitatório, bem como
no aspecto material, correspondente à defesa do patrimônio público.
Há portanto, uma “novatio legis” incriminadora, cuja imputação será aplicável
aos fatos praticados a partir da vigência da lei, em 01 de abril de 2021.
0,25
ITEM D:
- afirmar que há crimes previstos na nova lei que são compatíveis com a
Justiça Penal negociada;
- mencionar a transação penal, suspensãocondicional do processo e Acordo
de Não Persecução Penal (ANPP);
0,25
23
- discriminar quais os tipos penais em que é cabível a justiça negociada.
- mencionar que, para aferição da pena mínima, devem ser consideradas as
majorantes e minorantes aplicáveis;
- apontar que a análise caberá ao membro do MP, não se tratando de direito
subjetivo do autor.
d) A nova lei é compatível com a aplicação da Justiça Penal Negociada?
Fundamente e exemplifique. (0,25 ponto).
Sim, pois há crimes previstos na nova lei de licitações e contratos
administrativos que podem, a depender das circunstâncias do caso concreto,
dialogar com a justiça negociada. Nesse sentido, destaque-se que os
seguintes institutos da Justiça Penal Negociada: transação penal,
suspensão condicional do processo e acordo de não persecução penal
(ANPPA), respectivamente, previstos na Lei nº 9099/95 (arts. 76 e 89) e no
CPP, art. 28-A. Referidas disposições estabelecem os requisitos de
admissibilidade dos institutos.
Da nova lei, pontua-se os crimes compatíveis com a Justiça Penal
Negociada:
A – Art. 337-J (Violação de Sigilo de Licitação). Pela reprimenda, há o
impedimento da aplicação dos institutos da Lei nº 9099/95. Em tese, admite
o ANPP, art. 28-A, CPP.
B – Art. 337-G (Patrocínio de contratação indevida). Pela pena prevista, é
possível a suspensão condicional do processo e o ANPP, sendo incabível a
transação.
C – Art. 337-I (Perturbação de processo licitatório). Pela pena prevista, é
possível a suspensão condicional do processo e o ANPP, sendo incabível a
transação.
D –Art. 337-J (Violação de sigilo em licitação). Pela pena prevista, é possível
o ANPP, sendo incabível os institutos da Lei nº 9099/95.
E - Art. 337-M, “caput” (Contratação Inidônea). Pela pena cominada no
“caput”, em tese, é admitido a suspensão condicional do processo e o ANPP,
mas não é cabível a transação penal.
F – Art. 337-N (Impedimento indevido). Em tese, cabível suspensão
condicional do processo e ANPP.
Ressalte-se que para aferição da pena mínima cominada ao delito serão
consideradas eventuais majorantes ou minorantes aplicáveis, de modo a
tornar possível a aplicação do instituto. Consigne-se que o ANPP assemelha-
se aos princípios e postulados básicos da transação penal e da suspensão
condicional do processo. Assim sendo, o critério de aferição da conveniência
de oferecer a proposta de acordo, com vistas à prevenção e repressão do
delito, é tarefa do Ministério Público, na esteira do entendimento do STF,
conforme a Súmula 696. Logo, o oferecimento de eventual acordo está na
esfera de prerrogativa institucional do Ministério Público. Ou seja, não se
trata de direito subjetivo do acusado
Referência:
GOMES, Luiz Flávio, BIANCHINI, Alice e DAHER, Flávio. Curso de direito penal 1: parte geral.
Ed. Salvador. Juspodvm, 2016.
RSConline.com.br. Dos crimes em licitações e contratos administrativos
GRUPO II – QUESTÃO 8
Suponhamos que, em desdobramento das investigações do GAECO, descortinou-se
que um agente cometeu os delitos “X” e “Y”, sendo que foi decretada a prisão
preventiva apenas em razão do delito “Y”, o que ensejou sua segregação provisória por
2 (dois) anos. Até este interstício, não constava sentença condenatória. Sucede que,
quanto ao delito “X”, o agente foi condenado à pena de reclusão em regime fechado.
Posteriormente, o STF anulou o processo que apura o delito “Y”, porém, confirmou a
condenação pelo delito “X”. Ocorre que, enquanto os autos estavam conclusos no juízo
criminal para as providências necessárias concernentes às referidas decisões, adveio
http://rsconline.com.br/
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uma nova fase da operação conduzida pelo Ministério Público, vindo a lume que aludido
indivíduo estava praticando o delito “Z”. Dias após, foi formalmente processado pelo
novo fato criminoso, sendo-lhe decretada a prisão preventiva. Dado o enredo
apresentado, responda:
Poderá o condenado ser beneficiado com a detração, já que a prisão cautelar foi
decretada em processo no qual fora absolvido? Proceda a análise jurídica dos fatos
apresentados, à luz da doutrina e jurisprudência.
(Valor da questão: 1 ponto).
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) CONCEITO DETRAÇÃO E JURISPRUDÊNCIA:
a detração é o instituto jurídico mediante o qual computam-se, na pena
privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão
provisória no Brasil ou no estrangeiro, o de prisão administrativa e o de
internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no art. 42 do CP.
A jurisprudência do STJ admite a detração do tempo de prisão processual
ordenada em outro processo em que o sentenciado fora absolvido ou
declarada a extinção de sua punibilidade, bem como na hipótese em que o
tempo de custódia cautelar efetivado seja por crime anterior ao período
pleiteado. (AgRg no HC 541090/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas).
0,20
b) ANÁLISE DO CASO CONCRETO E FUNDAMENTOS:
no caso em comento, a prisão provisória se deu em processo diverso
daquele cujo delito ensejou a condenação criminal. Como sucedeu a
absolvição/extinção de punibilidade no processo em que foi cumprido o
tempo de prisão provisória, poderá ser considerado para fins de detração da
pena, porquanto a data do cometimento do crime a que se refere a execução
foi anterior ao período requerido.
A doutrina pátria defende que somente é permitida a detração por tempo de
prisão em outro processo, desde que referente a um fato praticado antes do
início da prisão provisória, evitando-se a formação da indesejada “conta
corrente” do agente para com o Estado, na qual ele possuiria como “crédito”
seu tempo de prisão provisória, de modo que poderia, a partir de então,
praticar impunemente qualquer crime cuja pena não ultrapasse o montante
de seu “crédito”.
Ressalte-se que, para que haja detração, os processos devem tramitar
simultaneamente. Noutro vértice, quando o agente, depois de ter sido
absolvido e ter cumprido prisão cautelar, comete um crime, e por esse fato
veio a ser condenado, a pena privativa de liberdade, não poderá ser
beneficiado pela detração.
0,30
c) PROVIDÊNCIA DO JUÍZO CRIMINAL:
assim sendo, o juízo criminal deverá:
1º) Quanto à condenação definitiva, sem prejuízo da prisão cautelar
decretada, nos termos do art. 387 § 2º do CPP, o juízo deverá considerar
para a determinação do regime inicial de cumprimento de pena, o período de
segregação cautelar relativa ao delito anterior. (AgRg no HC 778674/S0, 5ª
turma, STJ).
Obs. § 2º do art. 387 do Código de Processo Penal não versa sobre
progressão de regime prisional, instituto próprio da execução penal, mas,
sim, acerca da possibilidade de se estabelecer regime inicial menos severo,
descontando-se da pena aplicada o tempo de prisão cautelar do acusado.
Ainda, têm-se que as alterações trazidas pelo diploma legal
supramencionado não afastaram a competência concorrente do Juízo
das Execuções para a detração, nos termos do art. 66 da Lei nº
7.210/1984, sempre que o Magistrado sentenciante não houver adotado tal
providência.
2º) o juízo da execução penal deverá reconhecer o cometimento de falta
grave, decorrente do cometimento de crime cometido no cumprimento da
pena. Segundo a jurisprudência consolidada do STJ, não é necessário o
0,30
25
trânsito em julgado de sentença penal condenatória no processo instaurado
para apuração do fato. (cf. AgRg no HC 744438 / SP, 5ª Turma –
Jurisprudência em tese STJ – FALTA GRAVE NA EXECUÇÃO PENAL).
d) DEMAIS APONTAMENTOS SOBRE DETRAÇÃO:
a Terceira Seção desta Corte, ao julgar o REsp n. 1.977.135/SC, na
sistemática dos recursos especiais representativos de controvérsia,
assentou as seguintes teses: "4.1. O período de recolhimento obrigatório
noturno e nos dias de folga, por comprometer o status libertatis do acusado
deve ser reconhecido como período a ser detraído da pena privativade
liberdade e da medida de segurança, em homenagem aos princípios da
proporcionalidade e do non bis in idem.
Por fim, ressalte-se que, embora haja divergência na doutrina, o STJ não tem
admitido a detração o cômputo do período de prisão provisória, para fins de
substituição da pena corporal por restritivas de direitos, porquanto inexiste
no ordenamento jurídico pátrio qualquer previsão de aplicação da detração
para fins diversos do estabelecido no art. 387§ 2º, do CPP, isso é, os
atrelados à possibilidade de abrandamento do regime inicial de resgate da
reprimenda. (AgRg no AREsp 2123235/RJ).
A doutrina pátria afirma que há uma omissão legislativa, defendendo a
possibilidade de interpretação analógica, de modo que o desconto deve
recair sobre três espécies de penas restritivas de direitos.
0,20
Referência:
Superior Tribunal de Justiça
Direito penal aplicado: parte geral e parte especial do Código Penal – 6 ed. – São Paulo:
Saraiva.
Código penal comentado. Celso Delmanto – 9 ed. rev. atual. e ampl. – são Paulo: Saraiva.
GRUPO III – DIREITO PROCESSUAL PENAL
GRUPO III – QUESTÃO 1
Quais as consequências da violação da cadeia de custódia? Justifique.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) A cadeia de custódia é um mecanismo que busca garantir a autenticidade
das evidências coletadas e examinadas. Assim, eventual quebra da cadeia
de custódia pode resultar na imprestabilidade da prova. Todavia ela não
implica, obrigatoriamente, inadmissibilidade ou nulidade probatória. Isso
porque o procedimento visa conferir fidedignidade ao contexto geral da
prova, mas não é essencial à validade em si do elemento probatório. Além
disso, a falta de observância de regramentos da cadeia de custódia não pode
ser confundida com a obtenção ilegal de prova.
0,50
b) Desse modo, as irregularidades existentes na cadeia de custódia devem
ser sopesadas pelo julgador com todo o conjunto probatório, a fim de se
verificar a confiabilidade da prova. Em suma, a prova não deve ser
obrigatoriamente descartada pelo magistrado, mas devidamente valorada.
0,30
c) Aliás, esta é a posição do STJ, que vem decidindo, ainda, pela
necessidade de demonstração da existência de prejuízo para que a prova
seja invalidada (“pas de nullité sans grief”). Impende observar a existência
de posição minoritária na doutrina que sustenta que a quebra implica na
inadmissibilidade da prova, aplicando-se as regras de exclusão da prova
ilícita.
0,20
26
Referência:
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022.
CUNHA, Rogério Sanches. Pacote Anticrime Lei 13.964/2019. Salvador: Editora JusPodivm,
2020.
DALLAGNOL, Deltan Martinazzo; CÂMARA, Juliana de Azevedo Santa Rosa. A cadeia de
custódia da prova. In: SALGADO, Daniel de Resende; QUEIROZ, Ronaldo Pinheiro(org.). A
prova no enfrentamento à macrocriminalidade, 2ª ed. Salvador: Editora JusPodivm, 2016.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no RHC nº 147.885/SP, Rel. Min. Olindo Menezes.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no HC 615.321/PR, Rel. Min. Ribeiro Dantas.
BRASIL, STJ, 6ª Turma, HC 574.131/RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no RHC n° 153.823/RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da
Fonseca.
BRASIL, STJ, 6ª Turma, AgRg no RHC nº 145.671/RJ, Rel. Min. Olindo Menezes.
GRUPO III – QUESTÃO 2
O Ministério Público apelou da decisão do Tribunal do Júri que absolveu o réu “A” da
acusação de homicídio e a apelação foi provida. Insatisfeito, “A” contratou novo
defensor. No segundo julgamento, “A” foi condenado pelo Júri. Três anos depois, seu
defensor impetrou habeas corpus para que esse segundo julgamento fosse anulado,
demonstrando ausência de motivação para que o acusado nele permanecesse
algemado e de intimação pessoal do Defensor Público para o julgamento da apelação
ministerial. Considerando que essas questões não haviam sido suscitadas
anteriormente, a ordem deve ser concedida? Explique.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) A ordem não deve ser concedida. No caso de nulidades verificadas no
curso do julgamento pelo júri, como o uso injustificado de algemas pelo réu
no curso de sessão de julgamento, em desacordo com a súmula vinculante
11 do STF, a nulidade deveria ter sido arguida em plenário, logo depois de
ter ocorrido, nos termos do art. 571, VIII, do CPP, sob pena de preclusão.
0,30
b) Quanto à ausência de intimação pessoal do Defensor Público, teria que
ter sido suscitada, na primeira oportunidade que a Defesa teve, para se
manifestar nos autos depois de que ela aconteceu, também consoante art.
571, VII, do CPP. Neste passo, o STF entende que “a não intimação do
defensor constituído para o julgamento da apelação importa tão-somente na
supressão da sustentação oral, que não é ato essencial à defesa, tanto assim
que não é necessária a constituição de advogado dativo para a sua prática,
na falta do patrono (HC n. 76.970/SP, Relator Min. Maurício Corrêa, DJ de
20.4.2001). E, mais, a falta de intimação pessoal, quer para o julgamento do
recurso, quer da publicação do acórdão, configura nulidade sanável, que
deveria ter sido arguida na primeira oportunidade, pois como dispõe o art.
571-VIII, do Código de Processo Penal, as nulidades decorrentes do
julgamento em plenário ou em sessão do tribunal deverão ser arguidas logo
depois de ocorrerem, sob pena de preclusão. (Precedentes: HC 90.828/RJ,
Relator Min. Ricardo Lewandowski, Julgamento em 23.10.2007; AI 781.608-
AgR/RS, Relator Min. Ayres Britto, Segunda Turma, Julgamento em
24.8.2010; HC 94.515/BA, Relatora Min. Ellen Gracie, Segunda Turma,
Julgamento em 17.3.2009). 4. Recurso ordinário desprovido” (RHC 107.758,
Rel. Min. Luiz Fux, DJe 28.9.2011).
0,30
c) Em respeito à segurança jurídica e à lealdade processual, as nulidades
devem ser arguidas em momento oportuno, sujeitando-se à preclusão
temporal. A promoção e a indicação da nulidade, mesmo que absoluta, não
pode ficar à mercê da vontade indefinida do interessado, conforme
jurisprudência do STF e do STJ. Portanto, como as nulidades não foram
suscitadas no momento oportuno, houve preclusão da matéria e
0,40
27
consequente convalidação do vício, razão pela qual a ordem deve ser
denegada.
Referência:
BRASIL, STF, 1ª Turma, HC 112/360/SP, Rel. Min. Cármen Lúcia.
BRASIL, STF, RHC 107.758, Rel. Min. Luiz Fux.
BRASIL, STF, HC 96.777, Rel. Min. Joaquim Barbosa.
BRASIL, STF, RHC 83.770, Rel. Min. Marco Aurélio.
BRASIL, STJ, 6ª Turma, AgRg nos Edcl no HC N. 426.402/PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, RHC 78.289/GO, Rel. Min. Ribeiro Dantas.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, HC 463.481/SP, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik.
BRASIL, STJ, 6ª Turma, AgRg no HC 446.533/SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no HC 527.449/PR, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik.
GRUPO III – QUESTÃO 3
Em que consiste a Teoria do Juízo Aparente? Os Tribunais Superiores admitem a sua
aplicação aos casos de interceptação telefônica determinada por juiz absolutamente
incompetente?
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) Segundo a teoria do juízo aparente, não se considera ilícita a prova
produzida a partir de determinação de juízo incompetente quando as
circunstâncias indicavam que, à época da decisão, ele era a autoridade
judiciária competente, situação que veio a se alterar a partir de fatos
supervenientes à autorização.
0,45
b) O STF admite a aplicação da teoria mesmo em casos que envolvam
investigados investidos de prerrogativa de foro, somente se, quando as
medidas de caráter probatório foram autorizadas, não fosse possível à
autoridade judiciáriater condições de saber que a investigação atingia
alguém com essa prerrogativa.
0,10
c) É indispensável prévia autorização judicial para interceptação das
comunicações telefônicas, a ser concedida pelo juiz competente (art. 5º, XII,
da CF, e art. 1º, caput, da Lei nº 9.296/96), sob pena de nulidade, exceto nas
hipóteses de Estado de Defesa e de Estado de Sítio (arts. 136, § 1º, I, ‘c’, e
139, III, da CF). Todavia, os Tribunais Superiores admitem a aplicação da
teoria do juízo aparente às hipóteses de interceptação telefônica
determinadas por juiz incompetente, ainda que a incompetência seja
absoluta, desde que, quando decretou a medida, os elementos informativos
até então obtidos indicassem sua competência.
0,45
Referência:
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm,
2022.
BRASIL, STF, Tribunal Pleno, HC 81.260/ES, Rel. Min. Sepúlveda Pertence.
BRASIL, STF, 2ª Turma, HC 110.496/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, AgRg no Resp 1.492.472/PR, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca.
BRASIL, STJ, 6ª Turma, RHC 57.573/RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro.
GRUPO III – QUESTÃO 4
Em alegações finais, o réu “A”, processado por tentativa de estupro de vulnerável
praticada sem violência e grave ameaça, pede que lhe seja concedido acordo de não
persecução penal, sob a alegação de que preenche os requisitos do art. 28-A do CPP.
A denúncia foi recebida em 26 de março de 2018. O Promotor de Justiça deve concordar
com essa pretensão? Justifique. (Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20
28
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O Promotor não deve concordar com a pretensão. Conforme art. 28-A do
CPP, são requisitos do acordo de não persecução penal:
a) que não se trate de hipótese de arquivamento;
b) que as infrações penais tenham pena mínima inferior a 4 anos;
c) que tenham sido cometidas sem violência ou grave ameaça;
d) que o agente confesse formal e circunstancialmente a prática da
infração;
e) que o acordo seja suficiente para reprovação e prevenção do
crime.
0,10
b) Não é possível celebração de acordo de não persecução penal referente
a estupro de vulnerável na modalidade tentada, ainda que se cuide de crime
com pena mínima cominada inferior a 4 anos e que tenha sido cometido sem
violência real e grave ameaça.
0,10
c) Primeiro, o crime foi cometido mediante violência, ainda que ficta, o que
impede sua celebração, nos termos do art. 28-A do CPP.
0,30
d) Além disso, trata-se de delito hediondo (art. 1º, VI, da Lei nº 8072/90) e,
mesmo que a lei não vede, expressamente, a celebração do acordo de não
persecução penal nas hipóteses de crimes hediondos ou equiparados,
certamente o acordo não é suficiente para a reprovação e prevenção do
crime.
0,30
e) Outro argumento que pode ser utilizado para recusa da proposta de
acordo de não persecução penal é o de que somente é possível que ele seja
celebrado em relação aos fatos anteriores à entrada em vigor da lei que o
instituiu (Lei nº 13.964/2019) caso a denúncia ainda não tivesse sido
recebida – ao contrário do que ocorreu no caso em tela -, conforme decisões
do STJ e da 1ª Turma do STF, em que pese a questão ainda depender de
decisão definitiva do Plenário da Suprema Corte (HC 185.913) e de a sua 2ª
Turma possuir posicionamento dissonante (HC 220249/SP).
0,20
Referência:
REIS, Alexandre Cebrian Araújo; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Processual
Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2.022.
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm,
2022; AVENA, Norberto. Processo Penal, 11ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2.022.
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022.
BRASIL, STF, 1ª Turma, AgRg no HC 191.464/SC, Rel. Min. Roberto Barroso.
BRASIL,
BRASIL, STJ, 6ª Turma, Resp 1.808.389/AM, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, Edcl no AgRg nos Edcl no AREsp 1.681.153/SP, Rel. Min. Felix
Fischer.
GRUPO III – QUESTÃO 5
Quais são as consequências decorrentes da inobservância do prazo nonagesimal para
revisão da necessidade de manutenção da prisão preventiva?
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 10
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O parágrafo único do art. 316 do CPP estabelece prazo nonagesimal para
revisão da necessidade da prisão preventiva ao dispor que: “decretada a
prisão preventiva, deverá o órgão emissor da decisão revisar a necessidade
de sua manutenção a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão
fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal”.
0,05
b) Esse dispositivo, todavia, não determina a revogação automática da prisão
preventiva a cada 90 (noventa) dias, mas somente a necessidade de que
haja nova decisão fundamentando-a periodicamente.
0,10
29
c) Ainda, consoante leciona Renato Brasileiro de Lima, “o parágrafo único do
art. 316 não fala em prorrogação da prisão preventiva, não determina a
renovação do título cautelar. Apenas dispõe sobre a necessidade de revisão
dos fundamentos da sua manutenção. Logo, não se cuida de prazo prisional,
mas prazo fixado para prolação de decisão judicial”.
0,10
d) Nesse passo, o Pleno do Supremo Tribunal Federal, ao julgar as ADIs
6.581 e 6.582, conferiu interpretação conforme a Constituição ao parágrafo
único do art. 316 do CPP, fixando a tese de que eventual atraso na revisão
da necessidade da manutenção da prisão preventiva não implica no
reconhecimento automático da ilegalidade da prisão, tampouco impõe a
imediata colocação do preso em liberdade, devendo o juízo competente ser
instado a decidir acerca da legalidade e atualidade dos fundamentos da
prisão.
0,40
e) Além disso, o STF também definiu que o juízo competente para realizar a
revisão periódica da necessidade e adequação da prisão cautelar é aquele
no qual estiver tramitando o processo, porém estabeleceu que essa revisão
deve ocorrer até o final do processo de conhecimento, quando termina a
análise dos fatos pelo tribunal de 2º grau, portanto, uma vez encerrado o
julgamento de 2ª instância, a regra prevista no parágrafo único do art. 316
do CPP não é mais aplicável.
0,15
f) Por fim, o STF decidiu que a regra do parágrafo único do art. 316 do CPP
deve ser aplicada nos processos em que houver previsão de prerrogativa de
foro.
0,05
g) Quanto a réus foragidos, a inobservância do prazo nonagesimal não traz
nenhuma consequência, pois é desnecessária a revisão periódica.
0,15
Referência:
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm,
2022.
BRASIL, STF, Pleno, SL 1.395 MC Ref-SP, Rel. Min. Luiz Fux.
BRASIL, STF, Pleno, ADI 6581, Rel. Min. Edson Fachin, Rel. do acórdão Min. Alexandre de
Moraes.
BRASIL, STF, Pleno, ADI 6582, Rel. Min. Edson Fachin, Rel. do acórdão Min. Alexandre de
Moraes.
BRASIL, STJ, 5ª Turma, RHC 153.528, Rel. Min. Ribeiro Dantas.
GRUPO III – QUESTÃO 6
“B” foi assaltado enquanto abastecia o automóvel dele em um posto de combustíveis.
Por meio das imagens do sistema de videomonitoramento do local, a Polícia concluiu
que o assalto fora praticado por “L”. No curso da investigação policial, a vítima
reconheceu “L” como sendo aquele que a roubara, porém o reconhecimento ocorreu
em desacordo com o que determina o art. 226 do Código de Processo Penal. No curso
da instrução processual, a vítima e dois frentistas afirmaram terem plena certeza de que
o roubo fora praticado por “L”, enquanto um dos policiais que participou da
investigação observou que encontrara a carteira da vítima com “L”. Ao julgar a ação
penal, o magistrado absolveu “L” por insuficiência de provas, sob o fundamento de que
o reconhecimento não observou a lei, e as demais provas decorreram dele e,portanto,
eram nulas. Essa decisão é correta? Fundamente.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 25
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) A decisão não é correta, apesar de o reconhecimento de pessoas dever
observar o procedimento do art. 226 do CPP, cujas formalidades constituem
garantia mínima do investigado/réu, e de eventual inobservância o tornar
inválido, de modo que ele não pode ser usado para condenação, mesmo se
confirmado em juízo.
0,10
b) Isso porque a autoria delitiva pode ser comprovada a partir do exame de
outras provas que não guardem relação de causa e efeito com o ato viciado
de reconhecimento.
0,30
30
c) Aplica-se a teoria ou exceção da fonte independente, segundo a qual
provas que não guardem relação de dependência, tampouco decorram da
prova ilícita, não mantendo vínculo casual com ela, são admissíveis, porque
não contaminadas pela ilicitude originária, inviabilizando a aplicação da
teoria dos frutos da árvore envenenada (art. 157, § 1º, do CPP).
0,30
d) No caso em questão, há provas que não derivam do reconhecimento ilícito
e que, portanto, não foram por ele maculadas, as quais demonstram
cabalmente que o acusado praticou o roubo (as imagens do
videomonitoramento do local onde aconteceu o crime, o depoimento de
testemunhas presenciais e o testemunho policial de que a carteira roubada
da vítima foi encontrada com o réu etc.).
0,30
Referência:
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm,
2022.
REIS, Alexandre Cebrian Araújo; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Processual
Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2.022.
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022.
BRASIL, STF, 1ª Turma, HC 83.921/RJ, Rel. Min. Eros Grau.
BRASIL, STF, 2ª Turma, RHC 90.376/RJ, Rel. Min. Celso de Mello.
BRASIL, STJ, 6ª Turma, HC 598.886/SC, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz.
GRUPO III – QUESTÃO 7
É necessária autorização judicial para que a Polícia ou o Ministério Público acessem o
conteúdo de celular apreendido com detento no interior de estabelecimento prisional?
Explique.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) Não há necessidade de prévia autorização judicial. Uma das
consequências da imposição da prisão é a proibição da comunicação do
recluso com o ambiente externo por meios diversos daqueles permitidos pela
lei. Neste passo, ao preso não é assegurado acesso a telefones, tendo direito
apenas aos meios de comunicação estipulados no artigo 41, XV, da Lei de
Execuções Penais.
0,15
b) Aliás, a Lei de Execução Penal prevê como falta grave a conduta de o
apenado possuir, utilizar ou fornecer aparelho telefônico ou congênere, além
de haver outras normas editadas que têm por objetivo coibir o acesso do
segregado a aparelhos telefônicos, de rádio ou similares, como, por exemplo,
os crimes descritos nos artigos 349-A e 319-A, do Código Penal.
0,05
c) Mesmo no caso de comunicação por intermédio de correspondência
escrita, permitida legalmente, a Suprema Corte firmou jurisprudência no
sentido de que, diante da inexistência de liberdades individuais absolutas, é
possível que a Administração Penitenciária, sem prévia autorização judicial,
acesse o seu conteúdo quando houver inequívoca suspeita de sua utilização
como meio para a preparação ou a prática de ilícitos. Isso porque a
necessidade de se resguardar a segurança, a ordem pública e a disciplina
prisional, segundo a Corte Suprema, deve prevalecer sobre a reserva
constitucional de jurisdição.
0,20
d) Nesta conjuntura, se é prescindível decisão judicial para a análise do
conteúdo de correspondência, a fim de preservar interesses sociais e
garantir a disciplina prisional, com mais razão se revela legítimo, para a
mesma finalidade, o acesso dos dados e comunicações constantes em
aparelhos celulares encontrados ilicitamente dentro do estabelecimento
penal, pois a posse, o uso e o fornecimento do citado objeto são
expressamente proibidos e inibidos pelo ordenamento jurídico, não gozando
da proteção constitucional prevista no art. 5º, XII, da CF.
0,30
31
e) Deve ser realizada a necessária distinção entre o tratamento dado ao
acesso ao conteúdo de aparelhos telefônicos apreendidos em meio livre em
relação àqueles apreendidos no interior de estabelecimentos prisionais na
posse de presos, não sendo possível falar na inviolabilidade das suas
comunicações telefônicas, haja vista que foram realizadas de forma ilícita em
aparelho clandestino, circunstância que afasta a proteção constitucional e
autoriza o Estado a acessar os dados existentes no aparelho
independentemente de autorização judicial.
0,30
Referência:
BRASIL, STF, 1ª Turma, HC 70.814, Rel. Min. Celso de Mello.
BRASIL, STJ, 6ª Turma, HC 546.830/PR, Rel. Min. Laurita Vaz.
GRUPO III – QUESTÃO 8
Investigação do Ministério Público comprovou a existência de organização criminosa
que atua em Campo Grande. Segundo se apurou, o grupo existe desde 2021, é
comandado por “José” e possui dois núcleos. O primeiro, composto por “João” e
“Paulo”, dedica-se ao roubo de veículos e é incumbido de guardar as armas de fogo da
organização, de acordo com as diretrizes emanadas por “José”. O outro habitualmente
trafica cocaína. Formado por “Sebastião”, que mantém em depósito as cargas de droga
adquiridas por “José”, e por “Malaquias”, que transporta a droga até o comprador em
outros Estados da Federação, em compartimentos ocultos preparados nos veículos
roubados por “João” e “Paulo”. No curso da investigação, “Malaquias” foi preso em
flagrante enquanto transportava 200 Kg de cocaína, quando passava por Água
Clara/MS. A investigação findou-se 5 dias atrás. Proponha ação penal em desfavor dos
investigados em razão dos fatos apurados no procedimento investigatório descrito
acima.
(Valor da questão: 3 pontos)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40
Resposta Ideal Pontuação
máxima
Peça incorreta (critério para anulação da questão) 0
a) Endereçamento correto (Juízo Criminal de Campo Grande/MS). 0,20
b) Qualificação dos denunciados ou menção a ela. 0,10
c) Narrativa detalhada dos crimes cometidos pelos denunciados, contendo
todas as suas circunstâncias (indicação de quando e onde os delitos
ocorreram, descrição dos fatos criminosos praticados, mencionando
expressamente aqueles que constituem causas de aumento e agravante).
2,00
d) Indicação dos dispositivos legais que descrevem os seguintes crimes
praticados pelos denunciados (classificação dos delitos):
JOSÉ – incurso no art. 2º, caput e §§ 2º e 3º, da Lei 12.850/2013; e nos arts.
33, caput, e 35, ambos da Lei 11.343/2006, com a causa de aumento previsto
no art. 40, V, dessa mesma lei; todos em concurso material de crimes (art.
69 do CP).
JOÃO, PAULO, SEBASTIÃO e MALAQUIAS: incursos no art. 2º, caput e §
2º, da Lei 12.850/2013; e nos arts. 33, caput, e 35, ambos da Lei
11.343/2006, com a causa de aumento previsto no art. 40, V, dessa mesma
lei; todos em concurso material de crimes (art. 69 do CP).
Também serão consideradas corretas as imputações, em concurso material
com esses delitos já descritos, do art. 157, § 2º, II, e § 2º-A, I, do Código
Penal, com a agravante do art. 62, II, do CP, c/c art. 29 do CP a JOSÉ; do
art. 12 da Lei 10.826/2003, com a agravante do art. 62, II, do CP, c/c art. 29
do CP a José; do art. 157, § 2º, II, e § 2º-A, I, do Código Penal) a JOÃO e
PAULO; do art. 12 da Lei 10.826/2003 da JOÃO e PAULO; e de receptação
a MALAQUIAS (art. 180, caput, do CP), desde que tais fatos delituosos
estejam devidamente narrados no corpo da peça acusatória, com indicação
de quando e onde aconteceram.
0,20
e) Pedido de recebimento da denúncia e do processamento daação pelo rito
ordinário, bem como de citação dos denunciados para que ofereçam
0,15
32
resposta à acusação e da intimação das testemunhas para serem ouvidas
em juízo.
f) Indicação de rol de testemunhas. 0,05
g) Cota com pedido de prisão preventiva dos denunciados. 0,25
h) Menção à subscrição por membro do Ministério Público na denúncia e na
cota.
0,05
Referência:
AVENA, Norberto. Processo Penal, 11ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2022.
PACELLI, Eugênio; FISCHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua
jurisprudência, 14ª ed. São Paulo: Editora Jus Podivm, 2022.
DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal, 11ª ed. São Paulo: Editora Podivm,
2022.
BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Rio de Janeiro: Diário
Oficial da União, 1940.
BRASIL. Decreto-lei n° 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Rio de
Janeiro: Diário Oficial da União, 1941.
BRASIL. Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003. Dispõe sobre registro, posse e
comercialização de armas de fogo e munição, sobre o Sistema Nacional de Armas – Sinarm,
define crimes e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2006.
BRASIL. Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas
Públicas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção
e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão
à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências.
Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2006.
BRASIL. Lei n° 12.850, de 2 de agosto de 2013. Define organização criminosa e dispõe sobre
a investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o
procedimento criminal; altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal); revoga a Lei nº 9.034, de 3 de maio de 1995; e dá outras providências. Brasília, DF:
Diário Oficial da União, 2013.
GRUPO IV - DIREITO CIVIL E DIREITO PROCESSUAL CIVIL
GRUPO IV - QUESTÃO 1
O Ministério Público Estadual distribuiu pedido de instauração de IRDR alegando
divergência de entendimento do TJMS sobre o tema. O incidente foi admitido e foi
determinada a suspensão de todos os processos que versavam sobre o tema, contudo
o incidente foi julgado improcedente pelo colegiado.
Sobre o IRDR, conforme entendimento da atual jurisprudência do Superior Tribunal de
Justiça e regras do Código de Processo Civil, explique, fundamentadamente, como o
Ministério Público Estadual pode se insurgir contra a decisão colegiada. É possível dar
continuidade ao julgamento dos processos que estavam suspensos antes do trânsito
em julgado? Fundamente. Explique qual(is) é/são o(s) fundamento(s) principiológicos
do Incidente de Demanda Repetitivo.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) MARINONI, Luiz Guilherme de et al. Incidente de Resolução de
Demandas Repetitivas. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 17.
O incidente de resolução de demandas repetitivas surgiu como meio para
facilitar e acelerar a resolução de demandas múltiplas, que dependem da
análise e decisão de uma mesma questão de direito (art. 976, I, do CPC).
Pretende-se igualmente evitar decisões diferentes para uma mesma
questão, frisando-se que a instauração do incidente depende de “risco de
ofensa à isonomia e à segurança jurídica” (art. 976, II, do CPC).
STRECK, Lenio Luiz. Comentários ao Código de Processo Civil, 2. ed.
São Paulo: Saraiva, 2017, p. 1313.
O incidente é técnica processual diferenciada e destinada para a
litigiosidade repetitiva, que encontra fundamento em três pilares principais,
0,34
33
quais sejam: o princípio constitucional da isonomia, que exige o tratamento
uniforme dos litígios isomórficos, a segurança jurídica, estampada na
previsibilidade e uniformidade das decisões judiciais e, por fim, a prestação
jurisdicional em tempo razoável. Tais primados, além de nortearem todo
ordenamento jurídico processual (como se infere, dentre outros, dos arts.
1º a 12 do CPC), são a base do incidente ora analisado.
b) NEVES, Daniel Amorim Assumpção de et al. Manual de Direito
Processual Civil, 8.ed. Salvador: Jus Podivm, 2016, p. 1418.
O relator, na condução do incidente, proferirá decisões monocráticas
interlocutórias, recorríveis por agravo interno, salvo na hipótese de decisão
que determina a suspensão dos processos individuais e coletivos que
versem sobre a mesma matéria, porque nesse caso não resta alternativa
ao relator que não a determinação da suspensão.
Da decisão que inadmite o incidente não cabe recurso especial, seja pela
expressa previsão legal do art. 987, caput, do Novo CPC, seja porque não
haverá o julgamento da “causa” exigida pelo art. 105, III, da CF. Do acórdão
que julga o incidente no mérito cabe recurso especial e extraordinário.
De todas as decisões, interlocutórias ou finais, monocráticas ou colegiadas,
cabe o recurso de embargos de declaração.
0,33
c) Segundo o art. 986, caput, do CPC, contra a decisão que julgar o
incidente caberá recurso especial ou extraordinário, conforme o caso, que
excepcionalmente terão efeito suspensivo, presumindo-se a repercussão
geral de questão constitucional discutida (art. 987, 1.º, CPC). Trata-se, à
evidência, de presunção absoluta de repercussão geral.
Entendimento do Superior Tribunal de Justiça:
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO
ESPECIAL. INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS
REPETITIVAS. RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS E ESPECIAIS. EFEITO
SUSPENSIVO. NECESSIDADE DE AGUARDAR O JULGAMENTO DOS
TRIBUNAIS SUPERIORES. DECISÃO RECORRIDA EM SINTONIA COM
O ENTENDIMENTO DO STJ.
1. A decisão proferida pelo Tribunal de origem está em sintonia com o
entendimento do STJ de que, "interposto REsp ou RE contra o acórdão que
julgou o IRDR, a suspensão dos processos só cessará com o julgamento
dos referidos recursos, não sendo necessário, entretanto, aguardar o
trânsito em julgado" (REsp 1.869.867/SC, Rel. Ministro Og Fernandes,
Segunda Turma, DJe 3/5/2021).
2. Agravo Interno não provido.
(AgInt no AREsp n. 2.142.134/SE, relator Ministro Herman Benjamin,
Segunda Turma, julgado em 15/12/2022, DJe de 19/12/2022).
PROCESSO CIVIL. AGRAVO INTERNO. RAZÕES QUE NÃO
ENFRENTAM O FUNDAMENTO DA DECISÃO AGRAVADA. AUSÊNCIA
DE IMPUGNAÇÃO DE FUNDAMENTOS AUTÔNOMOS. RECURSO
REPETITIVO. APLICAÇÃO IMEDIATA DO ENTENDIMENTO.
POSSIBILIDADE. DESNECESSIDADE DE AGUARDAR TRÂNSITO EM
JULGADO.
1. As razões do agravo interno não enfrentam adequadamente o
fundamento da decisão agravada.
2. Nos termos da jurisprudência desta Corte Especial, é "dever da parte de
refutar "em tantos quantos forem os motivos autonomamente considerados"
para manter os capítulos decisórios do objeto do agravo interno total ou
parcial (AgInt no AREsp 895.746/SP, relator Ministro Mauro Campbell
Marques, Segunda Turma, julgado em 9.8.2016, DJe 19.8.2016)" (EREsp
1424404/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, CORTE ESPECIAL,
julgado em 20/10/2021, DJe 17/11/2021).
3. Nos termos da jurisprudência desta Corte, "é desnecessário o trânsito
em julgado do acórdão proferido em recurso especial representativo da
controvérsia para que se possa aplicá-lo como precedente em situações
semelhantes" (AgRg nos EREsp 1323199/PR, Rel. Ministra NANCY
ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 26/2/2014, DJe 7/3/2014).
4. Agravo interno a que se nega provimento.
(AgInt no REsp n. 1.959.632/RJ, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti,
Quarta Turma, julgado em 13/6/2022, DJe de 21/6/2022).
0,33
34
GRUPO IV - QUESTÃO 2
O Ministério Público Estadual, nos autos da ação civil pública por dano ambiental,
ajuizada contra José do Mato, que desmatou toda a vegetação ciliar de uma parte de um
rio de sua propriedade rural, recorre de parte da sentença para majorar a multa fixadapor dano ambiental que restou confirmado durante a instrução processual.
Em julgamento, houve divergência entre os membros do colegiado quanto ao valor da
multa.
Nesse cenário, é devida a ampliação do número de julgadores (art. 942, CPC) para o
julgamento do recurso de apelação? E se forem opostos embargos de declaração, deve
ser mantida a técnica de ampliação de julgamento para que sejam eles decididos?
Fundamente.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) NEVES, Daniel Chaves de et al. Novo Código de Processo Civil
Comentado, artigo por artigo, 3. ed. Salvador, Bahia: JusPodivm, 2018, p.
1953.
Art. 942. Quando o resultado da apelação for não unânime, o julgamento terá
prosseguimento em sessão a ser designada com a presença de outros
julgadores, que serão convocados nos termos previamente definidos no
regimento interno, em número suficiente para garantir a possibilidade de
inversão do resultado inicial, assegurado às partes e a eventuais terceiros o
direito de sustentar oralmente suas razões perante os novos julgadores.
§ 1.º Sendo possível, o prosseguimento do julgamento dar-se-á na mesma
sessão, colhendo-se os votos de outros julgadores que porventura
componham o órgão colegiado.
§ 2.º Os julgadores que já tiverem votado poderão rever seus votos por
ocasião do prosseguimento do julgamento.
§ 3.º A técnica de julgamento prevista neste artigo aplica-se, igualmente, ao
julgamento não unânime proferido em:
I - ação rescisória, quando o resultado for a rescisão da sentença, devendo,
nesse caso, seu prosseguimento ocorrer em órgão de maior composição
previsto no regimento interno;
II - agravo de instrumento, quando houver reforma da decisão que julgar
parcialmente o mérito.
§ 4.º Não se aplica o disposto neste artigo ao julgamento:
I - do incidente de assunção de competência e ao de resolução de demandas
repetitivas;
II - da remessa necessária;
III - não unânime proferido, nos tribunais, pelo plenário ou pela corte
especial.
O art. 942, do CPC, criou uma técnica de ampliação do julgamento com
propósito semelhante ao do recurso de embargos infringentes, porém, com
natureza incidente processual e não de recurso.
0,50
35
Nos termos do caput do artigo 942, do CPC, não sendo unânime o
julgamento da apelação, o julgamento terá prosseguimento em sessão a ser
designada com a presença de outros julgadores, a serem convocados nos
termos previamente definidos no regimento interno, em número suficiente
para garantir a possibilidade de inversão do resultado inicial, sendo
assegurado às partes e a eventuais terceiros o direito de sustentar oralmente
suas razões perante os novos julgadores.
A técnica de julgamento será adotada independentemente da vontade das
partes.
A técnica de ampliação de julgamento prevista no art. 942 do CPC deve ser
utilizada quando o resultado da apelação for não unânime,
independentemente de ser julgamento que reforma ou mantém a sentença
impugnada. Assim, o que importa é que a decisão que julgou a apelação
tenha sido por maioria (julgamento não unânime), não importando que a
sentença tenha sido mantida ou reformada.
Ainda que presentes os requisitos previstos pelo art. 942, caput, e § 3.º, do
CPC, não se adotará a técnica de julgamento ora analisada em quatro
situações de julgamento (§ 4.º): (i) do incidente de assunção de competência
e ao de resolução de demandas repetitivas; (ii) da remessa necessária; e (iii)
não unânime proferido, nos tribunais, do plenário ou a corte especial.
b) A técnica de julgamento ampliado do art. 942, do CPC, aplica-se aos
aclaratórios opostos ao acórdão de apelação quando o voto vencido nascido
apenas nos embargos for suficiente para alterar o resultado inicial do
julgamento, independentemente do desfecho não unânime dos declaratórios
(se rejeitados ou se acolhidos, com ou sem efeito modificativo). STJ. 3.ª
Turma. REsp 1.786.158-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Marco
Aurélio Bellizze, julgado em 25/08/2020 (Info 678).
Em se tratando de aclaratórios opostos a acórdão que julga agravo de
instrumento, a aplicação da técnica de julgamento ampliado somente
ocorrerá se os embargos de declaração forem acolhidos para modificar o
julgamento originário do magistrado de primeiro grau que houver proferido
decisão parcial de mérito. Quando se tratar de embargos de declaração
contra acórdão que decidiu agravo de instrumento, só será caso de
ampliação do colegiado se, ao julgar os embargos declaratórios, o colegiado
- por maioria - deliberar por reformar decisão de mérito (o que significa dizer
que se terá, por deliberação não unânime, atribuído efeitos infringentes aos
embargos de declaração, reformando-se a decisão embargada e, por
conseguinte, reformando a decisão parcial de mérito prolatada pelo órgão de
primeira instância. STJ. 3ª Turma. REsp 1.841.584-SP, Rel. Min. Ricardo
Villas Bôas Cueva, julgado em 10/12/2019 (Info 662).
Entendimento do Superior Tribunal de Justiça:
AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE USUCAPIÃO. MATÉRIA
CONSTITUCIONAL. COMPETÊNCIA DO STF. OFENSA AO ART. 1.022 DO
CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. ACÓRDÃO FUNDAMENTADO.
AFRONTA AO ART. 942 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. ACÓRDÃO
RECORRIDO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ.
INCIDÊNCIA DA SÚMULA 83/STJ. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO.
1. Não constitui ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015 o fato de o Tribunal de
origem, embora sem examinar individualmente cada um dos argumentos
suscitados pelo recorrente, adotar fundamentação contrária à pretensão da
parte, suficiente para decidir integralmente a controvérsia.
0,50
36
2. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que
"o procedimento do art. 942 do CPC/2015 aplica-se nos embargos de
declaração opostos ao acórdão de apelação quando o voto vencido
nascido apenas nos embargos for suficiente para alterar o resultado
primitivo da apelação, independentemente do desfecho não unânime
dos declaratórios (se rejeitados ou se acolhidos, com ou sem efeito
modificativo), em razão do efeito integrativo deste recurso"(REsp
1.833.497/TO, Relator para o acórdão Ministro Marco Aurélio Bellizze,
Terceira Turma, DJe de 1º/9/2020).
3. Estando o acórdão estadual em sintonia com a jurisprudência do STJ, o
apelo nobre encontra óbice na Súmula 83/STJ, aplicável tanto pela alínea a
como pela alínea c do permissivo constitucional.
4. Agravo interno a que se nega provimento.
(AgInt no AREsp n. 1.728.618/MS, relator Ministro Raul Araújo, Quarta
Turma, julgado em 26/10/2022, DJe de 17/11/2022).
GRUPO IV - QUESTÃO 3
Em caso de suspensão do processo de execução (cujo rol foi ampliado pelo novo
Código de Processo Civil), o que ocorre com o prazo da prescrição intercorrente?
Explicite e fundamente.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) As hipóteses de suspensão do processo de execução estão elencadas
no art. 921, do CPC.
As hipóteses anteriores foram mantidas e acrescentadas outras duas
causas de suspensão da execução: a) quando a alienação não ocorreu por
falta de licitantes, e b) quando concedido o parcelamento da dívida, na
forma do art. 916, do CPC.
Os §§1.º, 2.º, 3.º, 4.º, e 5.º, do art. 921, do CPC, trazem as regras da
suspensão e do curso do prazo da prescrição intercorrente.
O Superior Tribunal de Justiça fixou tese no incidente de assunção de
competência n.º 01, no julgamento do REsp n.º 1.604.412/SC, no sentido
de que nas demandas regidas pelo Código de Processo Civil de 1973, o
prazo da prescrição intercorrente tem início depois do decurso do prazo de
suspensão do processo ou, não havendo prazo fixado judicialmente, após
o decurso do prazo de 01 (um) ano:
RECURSO ESPECIAL. INCIDENTE DE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA.
AÇÃO DE EXECUÇÃODE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. PRESCRIÇÃO
INTERCORRENTE DA PRETENSÃO EXECUTÓRIA. CABIMENTO.
TERMO INICIAL. NECESSIDADE DE PRÉVIA INTIMAÇÃO DO CREDOR
EXEQUENTE. OITIVA DO CREDOR. INEXISTÊNCIA. CONTRADITÓRIO
DESRESPEITADO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. As teses a serem
0,50
37
firmadas, para efeito do art. 947 do CPC/2015 são as seguintes: 1.1 Incide
a prescrição intercorrente, nas causas regidas pelo CPC/73, quando o
exequente permanece inerte por prazo superior ao de prescrição do direito
material vindicado, conforme interpretação extraída do art. 202, parágrafo
único, do Código Civil de 2002. 1.2 O termo inicial do prazo prescricional,
na vigência do CPC/1973, conta-se do fim do prazo judicial de suspensão
do processo ou, inexistindo prazo fixado, do transcurso de um ano
(aplicação analógica do art. 40, § 2º, da Lei 6.830/1980). 1.3 O termo inicial
do art. 1.056 do CPC/2015 tem incidência apenas nas hipóteses em que o
processo se encontrava suspenso na data da entrada em vigor da novel lei
processual, uma vez que não se pode extrair interpretação que viabilize o
reinício ou a reabertura de prazo prescricional ocorridos na vigência do
revogado CPC/1973 (aplicação irretroativa da norma processual). 1.4. O
contraditório é princípio que deve ser respeitado em todas as manifestações
do Poder Judiciário, que deve zelar pela sua observância, inclusive nas
hipóteses de declaração de ofício da prescrição intercorrente, devendo o
credor ser previamente intimado para opor algum fato impeditivo à
incidência da prescrição. 2. No caso concreto, a despeito de transcorrido
mais de uma década após o arquivamento administrativo do processo, não
houve a intimação da recorrente a assegurar o exercício oportuno do
contraditório. 3. Recurso especial provido" (STJ, Resp 1604412/SC, Rel.
Ministro Marco Aurélio Bellizze, Segunda Seção, julgado em 27/06/2018,
DJe 22/08/2018).
b) De acordo com a orientação jurisprudencial firmada pelo STJ, o termo
inicial do prazo prescricional, na vigência do CPC/1973, conta-se do fim do
prazo judicial de suspensão do processo ou, inexistindo prazo fixado, do
transcurso de um ano.
E nos termos do art.921, § 4.º, do CPC, a prescrição intercorrente se iniciará
a partir da ciência da primeira tentativa infrutífera de localização do devedor
ou de bens penhoráveis, e será suspensa, por uma única vez, pelo prazo
máximo de 01 (um ano).
Entendimento do Superior Tribunal de Justiça:
CÍVEL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE
DECLARAÇÃO NO AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE
DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DE TÍTULO
EXTRAJUDICIAL. SUSPENSÃO. INEXISTÊNCIA DE BENS. INÉRCIA
SUPERIOR AO EXERCÍCIO DA PRETENSÃO MATERIAL. PRESCRIÇÃO
INTERCORRENTE. DECISÃO MANTIDA.1. No julgamento do REsp n.
1.604.412/SC (IAC n. 1, Relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, DJe
22/8/2018), ficou definido que, nas causas regidas pelo Código de Processo
Civil de 1973, como no caso presente, incide a prescrição intercorrente
quando o exequente permanece inerte por período superior ao de
prescrição do direito material, a partir do fim do prazo judicial de suspensão
do processo ou, inexistindo data fixada, do transcurso de 1 (um) ano, por
aplicação analógica do art. 40, § 2º, da Lei de Execuções Fiscais (Lei n.
6.830/1980).2. Levando-se em conta os marcos temporais delimitados na
origem para o exercício da pretensão executória e os limites impostos pelas
razões do especial, deve-se manter o acórdão que reconheceu a prescrição
intercorrente, com amparo na jurisprudência desta Corte (art. 255, § 5º, do
RISTJ).3. Agravo interno a que se nega provimento.(AgInt nos EDcl no
AgInt nos EDcl no REsp n. 1.311.821/MG, relator Ministro Antonio Carlos
Ferreira, Quarta Turma, julgado em 8/11/2022, DJe de 24/11/2022.)
0,50
38
GRUPO IV - QUESTÃO 4
De acordo com o atual entendimento do Superior Tribunal de Justiça, quando será
possível a fixação de honorários advocatícios por equidade? Fundamente.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O art. 85, do CPC, estabelece de forma ampla sobre os honorários de
sucumbência.
E o § 8.º, do art. 85, do CPC, traz a seguinte regra:
“Nas causas em que for inestimável ou irrisório o proveito econômico ou,
ainda, quando o valor da causa for muito baixo, o juiz fixará o valor dos
honorários por apreciação equitativa, observando o disposto nos incisos do
§ 2.º.”
O Superior Tribunal de Justiça, ao julgar os autos dos Recursos Especial
n.º 1.850.512/SP, 1877883/SP, 1.906.623/SP e 1.906.618/SP –
representativos da controvérsia eleita pelo Tema 1.076, fixou as seguintes
teses:
i) a fixação dos honorários por apreciação equitativa não é permitida quando
os valores da condenação, da causa ou o proveito econômico da demanda
forem elevados. É obrigatória nesses casos a observância dos percentuais
previstos nos §§ 2º ou 3º do artigo 85 do CPC - a depender da presença da
Fazenda Pública na lide -, os quais serão subsequentemente calculados
sobre o valor: (a) da condenação; ou (b) do proveito econômico obtido; ou
(c) do valor atualizado da causa.
ii) Apenas se admite arbitramento de honorários por equidade quando,
havendo ou não condenação: (a) o proveito econômico obtido pelo
vencedor for inestimável ou irrisório; ou (b) o valor da causa for muito baixo.
0,50
b) De acordo com o atual entendimento da Corte Superior, os critérios para
o arbitramento dos honorários tornaram-se mais objetivos com o novo
Código de Processo Civil, fazendo com que o critério da equidade tenha
caráter subsidiário e aplicado apenas nas hipóteses legais
supramencionadas.
O Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que a fixação dos
honorários por equidade, nos termos do art. 85, § 8.º, do CPC, ocorrerá nos
casos em que, independentemente da existência da condenação, o proveito
econômico for irrisório ou inestimável, ou o valor da causa for muito baixo.
0,50
GRUPO IV - QUESTÃO 5
A assistência judiciária gratuita é um direito fundamental previsto no art. 5.º, inciso
LXXIV, da Constituição Federal. Por sua vez, o artigo 98, caput, bem como o artigo 99,
§§ 2.º e 3.º, ambos do Código de Processo Civil, também tratam do direito à gratuidade
da justiça.
Discorra, fundamentadamente, sobre a necessidade ou não de outras provas, além da
declaração de hipossuficiência, para tal concessão.
(Valor da questão: 1 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) A alegação de hipossuficiência financeira possui presunção de
veracidade, nos moldes do art. 99, do Código de Processo Civil:
0,50
39
Art. 99. O pedido de gratuidade da justiça pode ser formulado na petição
inicial, na contestação, na petição para ingresso de terceiro no processo ou
em recurso.
(…)
§ 3.º Presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida
exclusivamente por pessoa natural.
A Constituição da República prevê a assistência jurídica ampla aos que
comprovarem insuficiência de recursos (art. 5.º, LXXIV), de maneira
que, para a concessão do benefício, não basta apenas a declaração de
pobreza, uma vez que tal documento não conduz à presunção absoluta de
que a parte não possui condições de arcar com as despesas do processo
sem prejuízo próprio e da família.
b) A presunção de pobreza, para fins de concessão dos benefícios da
assistência judiciária gratuita, ostenta caráter relativo, podendo o
magistrado indeferir o pedido de assistência se encontrar elementos que
infirmem a hipossuficiência do requerente.
Entendimento do STJ:
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE
DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO DO
ART. 1.022 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. ASSISTÊNCIA
JUDICIÁRIA GRATUITA NÃO CONCEDIDA PELO TRIBUNAL DE
ORIGEM MEDIANTE ANÁLISE DOS ELEMENTOS CONCRETOS
EXISTENTES NOSAUTOS. INVERSÃO DO JULGADO. INVIABILIDADE.
REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. SÚMULA 7/STJ. AGRAVO INTERNO
DO PARTICULAR A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
1. Inexiste a alegada violação do art. 1.022 do CPC/2015, pois a prestação
jurisdicional foi dada na medida da pretensão deduzida, conforme se
depreende da análise do acórdão recorrido. O Tribunal de origem apreciou
fundamentadamente a controvérsia, não padecendo o julgado de nenhum
erro, omissão, contradição ou obscuridade. Observa-se, ademais, que
julgamento diverso do pretendido, como na espécie, não implica ofensa ao
dispositivo de lei invocado.
2. No tocante à questão de fundo, o entendimento jurisprudencial desta
Corte é no sentido de que "a simples declaração de pobreza tem presunção
juris tantum, bastando, a princípio, o requerimento para que lhe seja
concedida a assistência judiciária gratuita.
Todavia, o benefício pode ser indeferido quando o magistrado se
convencer, com base nos elementos acostados aos autos, de que não se
trata de hipótese de miserabilidade jurídica" (AgInt no AREsp 1.904.823/SP,
Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em
21/3/2022, DJe de 25/3/2022).
3. A leitura do acórdão recorrido revela que o Tribunal de origem
reconheceu que a renda líquida percebida pela parte agravante justifica o
indeferimento do benefício pleiteado. Entendimento diverso, conforme
pretendido, implicaria o reexame do contexto fático-probatório dos autos,
circunstância que redundaria na formação de novo juízo acerca dos fatos e
provas, e não na valoração dos critérios jurídicos concernentes à utilização
da prova e à formação da convicção, o que impede o conhecimento do
recurso especial quanto ao ponto. Sendo assim, incide no caso a Súmula 7
do STJ, segundo a qual "a pretensão de simples reexame de prova não
enseja recurso especial".
4. Agravo interno do particular a que se nega provimento.
0,50
40
(AgInt nos EDcl no AREsp n. 1.745.268/RS, relator Ministro Manoel Erhardt
(Desembargador Convocado do TRF5), Primeira Turma, julgado em
15/8/2022, DJe de 17/8/2022).
GRUPO IV - QUESTÃO 6
Disserte sobre a usucapião de bens imóveis, abordando, discursivamente, acerca:
(Valor da questão: 1 ponto)
a. Do conceito e natureza jurídica; (0,25 ponto)
b. Dos requisitos pessoais; (0,25 ponto)
c. Dos requisitos formais; (0,25 ponto)
d. Das espécies de usucapião previstas no Código Civil brasileiro, indicando os
dispositivos legais e respectivos requisitos. (0,25 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 80 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) 1.1 Conceito e natureza jurídica – (0,25)
FARIAS, Cristiano Chaves de et al. Manual de Direito Civil, Volume
Único, 7.ed. São Paulo: JusPodivm, 2022, p. 1018.
A usucapião é modo originário de aquisição de propriedade e de outros
direitos reais pela posse prolongada da coisa, acrescida de demais
requisitos legais. O art. 1.238 do Código Civil reafirma a usucapião como
modo de aquisição de propriedade imobiliária. […] Os modos de aquisição
da propriedade podem ser originários ou derivados. Originários são assim
considerados não pelo fato de a titularidade surgir pela primeira vez com o
proprietário. Em verdade, fundam-se na existência, ou não, de relação
contratual entre o adquirente e o antigo dono da coisa. A importância da
distinção entre os modos originário e derivado reside nos efeitos que
produzem. Se a propriedade é adquirida por modo originário, não há vínculo
entre a propriedade atual e a anterior, incorporando-se o bem ao patrimônio
do novo titular e toda a sua plenitude, livre de todos os vícios que a relação
pregressa apresentava. Todavia, se adquirida a propriedade por modo
derivado, isto é, pelo registro no ofício imobiliário do título representativo do
negócio jurídico ou sucessão, transfere-se a coisa com os mesmos
atributos e restrições (ônus reais e gravames) que possuía no patrimônio
do transmitente. […] Por isso, a sentença de usucapião secundariamente
implicará o cancelamento de qualquer registro que se relacione com as
garantias primitivamente relacionadas a débitos contraídos pelo antigo
proprietário. Contudo, deverá o usucapiente arcar com os custos
relacionados aos impostos de propriedade urbana ou rural. Cuida-se de
ônus que incidem sobre o bem, independentemente da qualidade do
proprietário. Excepcionalmente, para fins de usucapião rural, o art. 8º da Lei
nº 6.969/1982 expressamente prevê a imunidade tributária.
0,25
b) 1.2. Requisitos pessoais – (0,25).
FARIAS, Cristiano Chaves de et al. Manual de Direito Civil, Volume
Único, 7.ed. São Paulo: JusPodivm, 2022, p. 1018-1020.
0,25
41
Adverte o art. 1.244 do Código Civil que se estendem aos possuidores as
causas impeditivas e suspensivas ao curso da prescrição a que aludem os
arts. 197 a 201 do Código Civil. Por isso, sempre se faz necessário rigoroso
exame para averiguar se a usucapião está tramitando entre cônjuges,
companheiros, pais e filhos na constância do poder de família, ou contra os
absolutamente incapazes a que alude o art. 3° do Código Civil. Aliás, cabe
destacar que separação de fato cessa impedimento para fluência do prazo
da usucapião entre cônjuges. A título excepcional, se em princípio pelo
artigo 197, I, do CC, não corre prescrição entre cônjuges na constância da
sociedade conjugal, não se aplica tal regra à usucapião familiar (art. 1.240-
A, CC).
Note-se que é tecnicamente inadequado se falar em incapacidade para
usucapir bens pertencentes a determinadas pessoas, mas sim de ausência
de legitimação do possuidor em converter a sua posse em propriedade em
face da posição de uma pessoa diante de outra. Daí, excetuando-se a
hipótese alinhavada no art. 1.240-A do Código Civil, ordinariamente não se
cogita da possibilidade de marido usucapir o imóvel pertencente à esposa
ou de pai usucapir o imóvel do filho incapaz. Porém, após a dissolução da
sociedade conjugal e o término do poder de família, inicia-se a contagem
dos prazos. Da mesma forma, ninguém poderá usucapir um bem de
titularidade de menor de 16 anos de idade ou de pessoa sob regime de
curatela.
Todavia, cessada a incapacidade a que alude o art. 3° do Código Civil, o
prazo volta a fluir com o aproveitamento do período consolidado antes do
advento da causa paralisante. [...]
Questão interessante surge em um condomínio no qual um estranho conclui
prazo de posse ad usucapionem. Em princípio, a sua posse exclusiva
eliminará a compropriedade. Todavia, poderá se instalar uma causa
suspensiva ao curso da prescrição em prol de um dos condôminos.
Exemplificando, A completa 10 anos de posse e demais requisitos para a
obtenção da usucapião extraordinária de um imóvel e descobre que quando
alcançou os sete anos desse período, o proprietário B faleceu e deixou seis
filhos como herdeiros, sendo um deles um menino de oito anos de idade.
Em princípio, a alegação da incapacidade absoluta não beneficiará os
demais comproprietários, pois as hipóteses alinhavadas no Código Civil
como hábeis a suspender o curso da usucapião possuem natureza
personalíssima.
Contudo, como sinaliza o art. 201 do Código Civil, se a obrigação for
indivisível (v. g., bem imóvel objeto de inventário, por força do art. 1.791 do
Código Civil), a suspensão da fluência da usucapião - que em princípio
beneficiaria apenas um dos possuidores - será estendida aos demais
sucessores, comproprietários de frações ideais. Cessado o motivo
justificador da paralisação, o prazo voltará a correr de onde parou, contra
todos os proprietários. A usucapião não será suspensa em face de outros
condôminos com posses localizadas que não se encontrem na mesma
hipótese de indivisibilidade do direito à herança, em nada interferindo na
obtenção da propriedade pelo usucapiente, desde que se trate de bem
passível de divisão.
A outro giro, no tocante às causas interruptivas da usucapião,a atuação
isolada de qualquer comproprietário beneficiará os demais, pois é da
essência das causas interruptivas a sua natureza objetiva, aproveitando os
42
demais credores solidários, na exata acepção do art. 204, § 1°, do Código
Civil.
Aquela pessoa titular de direito expectativo sobre a aquisição de um bem
imóvel pode sofrer os efeitos da usucapião? Digo, em se entendendo que
a cláusula suspensiva opera efeitos ex tunc, estes poderiam se sobrepor à
aquisição originária que é a usucapião? Sim, o titular de direito expectativo
pode sofrer os efeitos de usucapião. Não obstante carecedor de
propriedade na pendência de condição suspensiva, pelo art. 130 do Código
Civil, possui legitimidade para a prática de atos conservatórios de seu direito
eventual. Sendo assim, ao não ajuizar uma demanda no sentido de
interromper o prazo de usucapião (para suprir a omissão do proprietário),
culminará por sofrer os efeitos da perda da propriedade. Ademais, a
aquisição superveniente da propriedade pela verificação da condição
suspensiva não enseja a ineficácia da usucapião, pois o efeito ex tunc só
opera perante eventuais adquirentes por modo derivado (v.g., registro), o
que não é o caso do modo originário da usucapião, na qual o possuidor
obteve a titularidade sem travar qualquer relação jurídica com o proprietário
primevo.
c) 1.3. Requisitos formais – (0,25)
FARIAS, Cristiano Chaves de et al. Manual de Direito Civil, Volume
Único, 7.ed. São Paulo: JusPodivm, 2022, p. 1022.
Três são essenciais a qualquer modalidade de usucapião em nosso
ordenamento jurídico: o tempo, a posse mansa e pacífica e o animus
domini. Acresça-se a estes os requisitos suplementares do justo título e da
boa-fé, tratando-se de usucapião ordinária; o requisito da moradia na
usucapião especial e, associado a esta, o requisito do trabalho na
usucapião rural, além dos requisitos próprios de cada espécie de
usucapião: familiar, indígena, coletiva e por legitimação por posse. Cabe
registrar que a ação de usucapião não está condicionada à negativa do
pedido na via extrajudicial (STJ, REsp 1.824.133).
0,25
d) 1.4. Espécies de usucapião previstas no Código Civil Brasileiro – (0,25)
NETTO, Felipe Braga, ROSENVALD, Nelson. Código Civil comentado,
2.ed. Salvador, Juspodivm, 2021, p. 1246-1268.
Usucapião extraordinária: art. 1.238 e parágrafo único do Código Civil.
Requisitos:
a) prazo de quinze anos, ininterruptos, sem oposição e com ânimo de dono;
e,
b) prazo de dez anos, ininterruptos, sem oposição e com ânimo de dono,
em caso de utilização do imóvel para moradia habitual ou nela tenha
realizado obras ou serviços de caráter produtivo.
Usucapião rural:art. 1.239 do Código Civil.
Requisitos:
a) prazo de cinco anos, ininterruptos e sem oposição;
b) área rural de no máximo cinquenta hectares;
c) utilização para moradia;
d) exercício de atividade produtiva por trabalho próprio ou familiar;
e) não ser proprietário de outro imóvel rural ou urbano.
Usucapião especial urbana: art. 1.240, §§ 1º e 2º, do Código Civil.
0,25
43
Requisitos:
a) prazo de cinco anos, ininterruptos e sem oposição;
b) área urbana de no máximo duzentos e cinquenta metros quadrados;
c) utilização para moradia própria ou de sua família;
d) não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural;
e) não ter sido reconhecido anteriormente esta modalidade de usucapião
ao mesmo possuidor.
Usucapião especial familiar: art. 1.240-A do Código Civil
Requisitos:
a) prazo de dois anos, ininterruptos e sem oposição;
b) posse direta e com exclusividade;
c) imóvel urbano de no máximo duzentos e cinquenta metros quadrados;
d) posse dividida com ex-cônjuge ou ex-companheiro que abandonou o lar;
e) utilização para moradia própria ou familiar;
f) não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural;
g) não ter sido reconhecido anteriormente esta modalidade de usucapião
ao possuidor.
Usucapião ordinária: art. 1.242 e parágrafo único do Código Civil.
Requisitos:
a) prazo de dez anos, ininterruptos e sem oposição, com justo título e boa-
fé; e,
b) prazo de cinco anos, aquisição onerosa e com registro posteriormente
cancelado;
c) utilização do imóvel para moradia ou tenha realizado investimento de
interesse social ou econômico.
GRUPO IV - QUESTÃO 7
Disserte sobre o abuso de direito, abordando, discursivamente, acerca:
(Valor da questão: 1 ponto)
a. Da natureza jurídica; (0,25 ponto)
b. Da distinção entre boa-fé subjetiva e boa-fé objetiva; (0,25 ponto)
c. Da análise comparativa entre os art. 186 e 187 do Código Civil; (0,25 ponto)
d. Da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça sobre o assédio processual.
(0,25 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 80 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) 2. Natureza jurídica – (0,25)
LAUTENSCHLÄGER, Milton Flávio de A. C. Abuso de direito.
Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo,
Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo:
Direito Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup
(coord. de tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, 2021. Disponível em:
0,25
44
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-2/abuso-
de-direito. Acesso em: 17 fev. 2023.
[...]
5. A natureza jurídica do abuso do direito
A análise das diversas teorias desenvolvidas para a identificação criteriosa
do abuso do direito serve, ainda, para dedução dos seus traços
característicos.
O abuso do direito é, antes de tudo, um ato humano, ou seja, um ato
proveniente da atividade humana com repercussão no âmbito do direito.
Os assim chamados atos humanos podem, contudo, ser praticados em
conformidade ou desconformidade com o prescrito pelo ordenamento
jurídico. Nessa segunda hipótese, os atos humanos que carecem de
liceidade são chamados atos ilícitos.
Parte da doutrina reluta em classificar o abuso do direito como uma das
espécies de ato ilícito. Sílvio de Salvo Venosa, na confessada esteira de
Limongi França, preconiza que não se deve colocar o abuso do direito na
categoria dos atos ilícitos. Para ele, o instituto encontra-se a meio caminho,
ou seja, “consiste em um ato jurídico de objeto lícito, mas cujo exercício
levado a efeito sem a devida regularidade, acarreta um resultado que se
considera ilícito”.
Há autores, ainda, que, influenciados pela redação do art. 160, I, do Código
Civil de 1916, situam o abuso do direito no plano da ilicitude, mas sem
confundi-lo com o ato ilícito. Cuidam-no como “categoria autônoma da
antijuridicidade”. Nesse sentido, Heloísa Carpena ressalta que enquanto os
atos ilícitos ultrapassam os “limites lógicos-formais” da ordem jurídica, os
atos abusivos ultrapassam os limites “axiológicos-materiais”, o que
justificaria a distinção.
Com o devido respeito, essa não nos parece a melhor orientação, nem
mesmo sob a égide do Código de 1916. O art. 160, I, do citado Codex, ao
indicar o “exercício regular de um direito reconhecido” como excludente do
ilícito, a contrario sensu, reconhece que o exercício irregular não é
excludente e, portanto, é um ato ilícito.
De qualquer forma, o Código Civil de 2002 adotou fórmula expressa para
definir o abuso do direito e incluí-lo na categoria dos atos ilícitos (“Art. 187
- Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede
manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela
boa-fé ou pelos bons costumes”).
A consagração nesse contexto é tão evidente, que há pouca ou nenhuma
margem para discussões acerca da real natureza jurídica do instituto, assim
definida pelo próprio legislador. A verdade é que, no caso concreto,
ultrapassados os “limites lógicos-formais” ou os limites “axiológicos-
materiais” da ordem jurídica, estar-se-á diante de um ato ilícito.
b) 2. Distinção entre boa-fé subjetiva e boa-fé objetiva – (0,25)que,
pelo instrumento com força de lei, podem, de certa forma, respeitadas
inúmeras condições.
Têm legitimidade para editar medida provisória, exclusivamente, os Chefes
de Poder Executivo. Essa competência exclusiva é também indelegável
segundo art. 84, XXVI, da CF. Os pressupostos constitucionais são
relevância e urgência. A Medida provisória não pode tratar de qualquer
matéria, em virtude da existência de limitações constitucionais à sua edição,
com fulcro no artigo 62, §1º, da CF.
0,40
b) O prazo é estipulado pelo 62, §7º, da CF, como de 60 dias, prorrogáveis
uma vez por igual período. Nos termos do art. 62, § 4.º, contudo, referido
prazo será suspenso durante os períodos de recesso parlamentar. Porém,
caso haja convocação extraordinária, havendo medida provisórias em vigor
na data de sua convocação, serão elas automaticamente incluídas na pauta
(artigo 57, §8º, CF).
0,30
c) Possui eficácia desde sua edição e, segundo Pedro Lenza: “o art. 62, §
3.º, da CF/88 estabelece que as medidas provisórias, ressalvado o disposto
nos §§ 11 e 12, perderão eficácia, desde a edição, se não forem convertidas
em lei no prazo de 60 dias, prorrogável, nos termos do § 7.º, uma vez por
igual período (novos 60 dias), devendo o Congresso Nacional disciplinar, por
decreto legislativo, as relações jurídicas delas decorrentes”.3 Operando o
efeito ex tunc.
Porém, caso não seja editado o decreto legislativo pelo Congresso Nacional,
o Ministro Marco Aurelio denomina de “efeito do retorno envergonhado”, ou
seja, a ausência de declaração de decreto legislativo no prazo de 60 dias
após rejeição tácita ou expressa da Medida Provisória gera efeito ex nunc.
0,40
d) Após a edição da Medida Provisória pelo Presidente da República, esta
será submetida ao Congresso Nacional, cabendo a uma Comissão Mista de
Deputados e Senadores examiná-la e emitir parecer, apreciando os aspectos
constitucionais (incluindo relevância e urgência) e de mérito, bem como
adequação financeira e orçamentária, além de “e o cumprimento, pelo
Presidente da República, da exigência contida no art. 2.º, § 1.º, da Res. n.
1/2002-CN, qual seja, no dia da publicação da MP no DOU ter enviado o seu
0,40
4
texto ao Congresso Nacional, acompanhado da respectiva mensagem e de
documento expondo a motivação do ato”. (artigo 65, §§5º e 9º, CF).
Após o parecer da comissão mista, haverá apreciação pelo plenária de cada
casa legislativa, ocorrendo o processo de votação separado, tendo início na
Câmara dos Deputados, seguido da Casa Revisora, o Senado Federal.
Referência:
³ LENZA, Pedro. Direito Constitucional, 2021. Ed. Saraiva. P. 977.
GRUPO I – QUESTÃO 4
Sobre o Sistema Difuso do Controle de Constitucionalidade, sabe-se que este tem como
principal característica a existência de partes litigantes acerca de determinado objeto
cuja declaração de inconstitucionalidade é sempre incidental e inter partes. Nesta
senda, discorra sobre a retroatividade da decisão que declara a inconstitucionalidade
de alguma lei ou ato normativo, bem como seus efeitos práticos.
(Valor da questão: 2 pontos)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O controle difuso de constitucionalidade, possibilita que a qualquer
magistrado tribunal analisar de maneira incidental no caso concreto, a
compatibilidade de uma lei ou ato normativo perante a Constituição
A retroatividade da decisão de inconstitucionalidade no controle difuso é
característica marcante desse sistema, já que, via de regra, não se pode
admitir a inconstitucionalidade de determinada lei sem que seja atingida a
relação jurídica desde sua origem. Cumpre destacar que, excepcionalmente,
nos casos de relevante interesse social e de se conferir maior segurança
jurídica, o STF entende pela possibilidade de modulação dos efeitos da
decisão no controle difuso de constitucionalidade, podendo ser conferido a
esta efeitos prospectivos.
0,60
b) Neste sentido, as doutrinas de Calil Simão em “Elementos do sistema de
controle de constitucionalidade” e Oswaldo Luiz Palu em “Controle de
Constitucionalidade” podem ser citadas.
0,40
c) Há que se destacar que não há efeito retroativo no caso de o Senado
Federal editar resolução erga omnes suspendendo a eficácia, no todo ou em
parte, de lei declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, caso
existente no Brasil (art. 52, X da Constituição brasileira).
0,50
d) Contudo, o STF vem relativizando a eficácia inter partes da
inconstitucionalidade havida pelo controle difuso, dando nova interpretação
na qual dispõe que, quando o STF declara uma lei inconstitucional, mesmo
em sede de controle difuso, a decisão já tem efeito vinculante e erga omnes
tendo o STF apenas que comunicar ao Senado Federal com o objetivo de
que a casa legislativa dê publicidade ao que foi decidido (Rcl 4.335)
0,50
Referência:
Supremo Tribunal Federal - voto do rel. min. Gilmar Mendes, j. 20-3-2014, P, DJE de 22-10-
2014;
CALIL, Simão - Elementos do Sistema de Controle de Constitucionalidade. Ed. Saraiva. 2014;
Oswaldo Luiz Palu - Controle de Constitucionalidade. Ed. Revista dos Tribunais. 1999.
GRUPO I – QUESTÃO 5
Quais mecanismos dispõe o Ministério Público para assegurar efetividade nas políticas
públicas de Estado no que concerne ao direito à moradia garantida pela Constituição
Federal de 1988?
(Valor da questão: 1,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30
5
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) Garantia constitucional, o direito à moradia foi introduzido no rol dos
direitos sociais dispostos no artigo 6º da Constituição Federal de 1988 pela
Emenda Constitucional nº 26 de 2000.
Esse direito fundamental foi reconhecido em plano internacional em 1948
pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e também em 1966 pelo
Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, tornando-se
um direito humano universal, aceito e aplicável em todas as partes do mundo
como um dos direitos fundamentais para a vida das pessoas.
0,30
b) O Ministério Público, na condição de verdadeiro Ombudsman, sendo
instituição incumbida da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e
dos direitos sociais e individuais indisponíveis, dispõe de medidas
essencialmente fiscalizatórias e propositivas para garantir o direito à
moradia.
Enquanto medidas propositivas, podemos elencar as extrajudiciais
concernentes ao MP Resolutivo, como expedição de recomendações,
termos de ajustamento de conduta, inquérito civil, realização de audiências
públicas, entre outras, e as judicias, como ação civil pública, mandado de
segurança coletivo, entre outras.
0,30
c) Medidas adequadas a serem adotadas pelo Ministério Público são no
sentido de se encorajar e fiscalizar para que os entes federativos formulem
e implementem seus planos de habitação de interesse social; no
acompanhamento, identificação, prevenção e repressão aos atos ou
omissões dos Poderes Públicos que importem violação aos direitos humanos
fundamentais das populações vulneráveis sujeitas à desocupação forçada
dos locais onde exercem moradia; na intervenção em demanda, seja judicial
ou extrajudicial, relativa a conflitos fundiários e/ou possessórios que possam
resultar em “desabrigamento” de pessoas vulneráveis.
0,50
d) No contexto das políticas públicas dos entes federativos a serem
fiscalizadas e com implementação incentivada pelo Ministério Público,
destacam-se as disposições do artigo 23, IX e X, do artigo 30, VIII. e do artigo
182, da Constituição Federal; do artigo 4º, III, f, e do artigo 44 da Lei
10.257/2001 (Estatuto das Cidades); da Lei Federal 13.465, de 2017
(REURB); do artigo 48, parágrafo único, da Lei Complementar n. 101/2000
(Lei de Responsabilidade Fiscal); e, da Lei 11.124/2005.
0,40
Referência:
Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948; Decreto
nºLAUTENSCHLÄGER, Milton Flávio de A. C. Abuso de direito.
Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo,
Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo:
Direito Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup
(coord. de tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, 2021. Disponível
0,25
45
em: https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-
2/abuso-de-direito. Acesso em: 17 fev. 2023.
[...]
4.1. A boa-fé objetiva
O primeiro passo para compreender o princípio da boa-fé é distinguir a boa-
fé subjetiva da boa-fé objetiva.
Boa-fé subjetiva (ou o “agir de boa-fé”) expressa um estado de fato, um
estado subjetivo decorrente do conhecimento de certas circunstâncias, cuja
constatação traz consequências legais (a posse de boa-fé, mais o decurso
do tempo, pode gerar a aquisição da propriedade, por usucapião). Por outro
lado, a boa-fé objetiva se apresenta como um modelo jurídico, impondo às
pessoas um comportamento honesto, correto e leal, principalmente em
função dos interesses do outro, visto como um membro do conjunto social,
que é juridicamente tutelado.
Vale notar, a esse propósito, que o conteúdo da boa-fé objetiva não pode
ser rigidamente fixado, dependendo sempre das concretas circunstâncias
do caso. Trata-se de solução jurídica, e não só de cunho moral, uma vez
que remete e submete a solução do caso concreto “à estrutura, às normas
e aos modelos do sistema, considerado este de modo aberto”.
Ademais, o princípio da boa-fé conjuga-se com outros princípios,
postulados normativos, diretrizes, presunções e regras jurídicas, a
depender dos campos em que atua. Nas relações obrigacionais
“puramente” civis, por exemplo, o princípio da boa-fé conjuga-se com o
princípio da autonomia privada, com o da autorresponsabilidade
(contrapartida da autonomia privada) e com o dever de cooperação,
resultando em um sentido ético prevalente na relação interindividual. Já nas
relações contratuais interempresariais, a boa-fé objetiva se relaciona com
o princípio da confiança (seja a confiança como confiabilidade, seja a
confiança como credibilidade, seja como estado psicológico de crença
legítima ou mesmo como previsibilidade necessária para o cálculo do
investidor, sócio ou empresário) e com o princípio da liberdade de iniciativa
econômica (o chamado “dinamismo do mercado”), criando para os sujeitos
de uma relação obrigacional “uma ordem envolvente de condutas que
imanta a conduta negocial, a mensura e a direciona aos valores da
probidade, honestidade e lealdade próprios de um civiliter agere”.
Essa “ordem envolvente” se refere ao campo onde a relação obrigacional
incide, harmonizando-se com outros elementos normativos e fáticos. Vale
dizer, os deveres decorrentes da lealdade e da boa-fé não se manifestam
sempre os mesmos, e do mesmo modo. Eles são ordenados em graus de
intensidade que variam conforme a categoria dos atos jurídicos a que se
ligam, bem como de acordo com as fases e os planos da relação
obrigacional (abrangendo desde a fase das tratativas negociais até a fase
pós-contratual, e discernindo-se entre a boa-fé contratual e a boa-fé
extracontratual). Por outro lado, as consequências da infração à boa-fé
dependem da situação, do tipo de dever violado, do momento e do modo
como foi violado (há efeitos indenizatórios, resolutivos e invalidantes).
Seja qual for a regulação jurídica subjacente, à boa-fé objetiva são
imputadas, tradicionalmente, três distintas funções, muito bem resumidas
por Judith Martins-Costa: a de “cânone hermenêutico-integrativo do
contrato” (art. 113 do Código Civil brasileiro), a de “norma de criação de
deveres jurídicos” (art. 422 do Código Civil brasileiro) e a de “norma de
limitação ao exercício de direitos subjetivos” (art. 187 do Código Civil
brasileiro).
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-2/abuso-de-direito
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/478/edicao-2/abuso-de-direito
46
Na função hermenêutica, a boa-fé atua como cânone de interpretação das
cláusulas e do comportamento contratual, exigindo, por exemplo, coerência
no comportamento contratual, de modo que o comportamento posterior das
partes seja recolhido como meio auxiliar de interpretação do significado da
declaração negocial.
Na função de cânone integrativo do contrato, a boa-fé objetiva destina-se
ao preenchimento de lacunas presentes nas relações contratuais,
decorrentes de situações ou eventos nem sempre previstos ou previsíveis
pelos contratantes. Nessas hipóteses, resta ao juiz tornar concreto o
mandamento de respeito à recíproca confiança incumbente às partes
contratantes, não permitindo que o contrato, como regulação objetiva
dotada de um específico sentido, atinja finalidade oposta ou contrária
àquela que, razoavelmente, à vista de seu escopo econômico-social, seria
lícito esperar. Para tanto, se necessário for, deve o juiz impor outros deveres
às partes, que não se confundem com as obrigações principais nem com
as que lhes são meramente anexas, ou acessórias.
Ingressamos, então, na segunda função reservada à boa-fé objetiva, qual
seja a criação dos chamados deveres instrumentais, secundários, laterais
ou anexos.
Entre os deveres com tais características, Judith Martins-Costa cita, como
exemplos: “a) os deveres de cuidado, previdência e segurança, como o
dever do depositário de não apenas guardar a coisa, mas também de bem
acondicionar o objeto deixado em depósito; b) os deveres de aviso e
esclarecimento, como o do advogado, de aconselhar o seu cliente acerca
das melhores possibilidades de cada via judicial passível de escolha para a
satisfação de seu desideratum, o do consultor financeiro, de avisar a
contraparte sobre os riscos que corre, ou o do médico, de esclarecer o
paciente sobre a relação custo/benefício do tratamento escolhido, ou dos
efeitos colaterais do medicamento indicado, ou ainda, na fase pré-
contratual, o do sujeito que entra em negociações, de avisar o futuro
contratante sobre os fatos que podem ter relevo na formação da declaração
negocial; c) os deveres de informação, de exponencial relevância no âmbito
das relações jurídicas de consumo, seja por expressa disposição legal
(CDC, arts. 12, in fine, 14, 18, 20, 30 e 31, entre outros), seja em atenção
ao mandamento da boa –fé objetiva; d) o dever de prestar contas, que
incumbe aos gestores e mandatários, sentido amplo; e) os deveres de
colaboração e cooperação, como o de elaborar o correto adimplemento da
prestação principal, ao qual se liga, pela negativa, o de não dificultar o
pagamento, por parte do devedor; f) os deveres de proteção e cuidado com
a pessoa e o patrimônio da contraparte, como, v.g., o dever do proprietário
de uma sala de espetáculos ou de um estabelecimento comercial de
planejar arquitetonicamente o prédio, a fim de diminuir os riscos de
acidentes; g) os deveres de omissão e de segredo, como o dever de
guardar sigilo sobre atos ou fatos dos quais se teve conhecimento em razão
do contrato ou de negociações preliminares, pagamento por parte do
devedor etc.”.
Os deveres instrumentais são concretizados, pois, a partir da “adoção de
determinados comportamentos”, impostos pela boa-fé, tendo em vista a
finalidade do contrato e a relação de objetiva confiança que ele fundamenta.
Mas não é só. A boa-fé objetiva pode funcionar, ainda, como limitador de
direitos subjetivos. Explica-se.
A função de criar deveres para uma das partes, ou para ambas, pode ter,
correlativamente, a função de limitar ou restringir direitos. Assim, a boa-fé
pode atuar no controle do próprio exercício jurídico, de modo a evitar
condutas oportunistas, deslealmente contraditórias ou disfuncionais. A
47
vedação ao comportamento contraditório desleal, o adimplemento
substancial do contrato, o abuso do direito, dentre outros, são exemplos de
institutos usados para esse fim.
c) 3. Análise comparativa entre os art. 186 e 187do Código Civil – (0,25)
NETTO, Felipe Braga. Código Civil comentado, 2.ed. Salvador,
Juspodivm, 2021. p. 298-299.
O art. 187 tem suporte fático distinto do art. 186. A culpa e o dano são
necessários apenas para a incidência do art. 186. A respeito do abuso de
direito, consagrado no art. 187 do Código Civil, Barbosa Moreira é bastante
claro: “Se assim não fosse – isto é, se para a configuração do abuso de
direito tivessem de concorrer os pressupostos do art. 186 – tornar-se-ia
inútil o art. 187. Haveria, não equiparação, mas identificação”, ou melhor –
continua – “subsunção da figura do abuso de direito na do ato ilícito
segundo o art. 186 (BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Abuso de Direito.
Revista Trimestral de Direito Civil, v. 13, 97-110, jan/mar, 2003). Aguiar
Dias, por sua vez, é incisivo ao dizer que o abuso de direito, “sob pena de
se desfazer em mera expressão de fantasia, não pode ser assimilado à
noção de culpa. Inócua, ou de fundo simplesmente especulativo, seria a
distinção, uma vez que por invocação aos princípios da culpa se teria a
reparação do dano por ele causado (DIAS, Aguiar. Da Responsabilidade
Civil. Rio de Janeiro: Forense, p. 539, n. 184). […]
Em outras palavras: o dano só é necessário à incidência do art. 186 do
Código Civil, não do art. 187. Para que haja responsabilidade civil, o dano
se faz imprescindível. Acontece que nem sempre a sanção relativa ao
abuso de direito é a responsabilidade civil. Outras sanções, que não o dever
de indenizar (responsabilidade civil), podem resultar do abuso de direito.
Convém repetir: para que o art. 186 incida, é necessário, além da culpa, o
dano. Sem dano não há ilícito civil de acordo com o art. 186. Aliás, como
acima frisado, nenhuma forma de responsabilidade civil, nem mesmo a que
provém de atos lícitos, pode ter lugar sem que haja dano. O dano é
elemento fundamental da responsabilidade civil (MULHOLLAND, Caitlin
Sampaio. A responsabilidade civil por presunção de causalidade. Rio
de Janeiro: GZ, 2010, p. 24).
0,25
d) 4. Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça sobre o assédio
processual (0,25)
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS
MATERIAIS E MORAIS. OMISSÃO E OBSCURIDADE. INOCORRÊNCIA.
FUNDAMENTAÇÃO SUFICIENTE. QUESTÃO DECIDIDA. ABUSO DO
DIREITO DE AÇÃO E DE DEFESA. RECONHECIMENTO COMO ATO
ILÍCITO. POSSIBILIDADE. PRÉVIA TIPIFICAÇÃO LEGAL DAS
CONDUTAS. DESNECESSIDADE. AJUIZAMENTO SUCESSIVO E
REPETITIVO DE AÇÕES TEMERÁRIAS, DESPROVIDAS DE
FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA E INTENTADAS COM PROPÓSITO
DOLOSO. MÁ UTILIZAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DE AÇÃO
E DEFESA. POSSIBILIDADE. USURPAÇÃO DE TERRAS AGRÍCOLAS
PRODUTIVAS MEDIANTE PROCURAÇÃO FALSA POR QUASE 40
ANOS. DESAPOSSAMENTO INDEVIDO DOS LEGÍTIMOS
PROPRIETÁRIOS E HERDEIROS E MANUTENÇÃO DE POSSE
INJUSTA SOBRE O BEM, MEDIANTE USO DE QUASE 10 AÇÕES OU
PROCEDIMENTOS SEM FUNDAMENTAÇÃO PLAUSÍVEL, SENDO 04
DELAS NO CURTO LAPSO TEMPORAL CORRESPONDENTE À ÉPOCA
DA ORDEM JUDICIAL DE RESTITUIÇÃO DA ÁREA E IMISSÃO NA
POSSE DOS HERDEIROS, OCORRIDA EM 2011. PROPRIEDADE DOS
HERDEIROS QUE HAVIA SIDO DECLARADA EM 1ª FASE DE AÇÃO
DIVISÓRIA EM 1995. ABUSO PROCESSUAL A PARTIR DO QUAL FOI
POSSÍVEL USURPAR, COM EXPERIMENTO DE LUCRO, AMPLA ÁREA
0,25
48
AGRÍCOLA. DANOS MATERIAIS CONFIGURADOS A SEREM
LIQUIDADOS POR ARBITRAMENTO. PRIVAÇÃO DA ÁREA DE
PROPRIEDADE DA ENTIDADE FAMILIAR, FORMADA INCLUSIVE POR
MENORES DE TENRA IDADE. LONGO E EXCESSIVO PERÍODO DE
PRIVAÇÃO, PROTRAÍDO NO TEMPO POR ATOS DOLOSOS E
ABUSIVOS DE QUEM SABIA NÃO SER PROPRIETÁRIO DA ÁREA.
ABALO DE NATUREZA MORAL CONFIGURADO. MODIFICAÇÃO DO
TERMO INICIAL DA PRESCRIÇÃO. NECESSIDADE, NA HIPÓTESE, DE
EXAME DE CIRCUNSTÂNCIAS FÁTICO-PROBATÓRIAS NÃO
DELINEADAS NO ACÓRDÃO. SÚMULA 7/STJ. DIVERGÊNCIA
JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADA.
1- Ação ajuizada em 08/11/2011. Recursos especiais interpostos em
15/08/2014 e 19/08/2014.
2- Os propósitos recursais consistem em definir: (i) se houve omissão ou
obscuridade relevante no acórdão recorrido; (ii) se o ajuizamento de
sucessivas ações judiciais pode configurar o ato ilícito de abuso do
direito de ação ou de defesa; (iii) se o abuso processual pode acarretar
danos de natureza patrimonial ou moral; (iv) o termo inicial do prazo
prescricional da ação de reparação de danos fundada em abuso
processual.
3- Ausente omissão ou obscuridade no acórdão recorrido que se pronuncia,
ainda que sucintamente, sobre as questões suscitadas pela parte, tornando
prequestionada a matéria que se pretende ver examinada no recurso
especial, não há que se falar em violação ao art. 535, I e II, do CPC/73.
4- Embora não seja da tradição do direito processual civil brasileiro, é
admissível o reconhecimento da existência do ato ilícito de abuso
processual, tais como o abuso do direito fundamental de ação ou de
defesa, não apenas em hipóteses previamente tipificadas na
legislação, mas também quando configurada a má utilização dos
direitos fundamentais processuais.
5- O ardil, não raro, é camuflado e obscuro, de modo a embaralhar as vistas
de quem precisa encontrá-lo. O chicaneiro nunca se apresenta como tal,
mas, ao revés, age alegadamente sob o manto dos princípios mais caros,
como o acesso à justiça, o devido processo legal e a ampla defesa, para
cometer e ocultar as suas vilezas. O abuso se configura não pelo que se
revela, mas pelo que se esconde. Por esses motivos, é preciso repensar o
processo à luz dos mais basilares cânones do próprio direito, não para
frustrar o regular exercício dos direitos fundamentais pelo litigante sério e
probo, mas para refrear aqueles que abusam dos direitos fundamentais por
mero capricho, por espírito emulativo, por dolo ou que, em ações ou
incidentes temerários, veiculem pretensões ou defesas frívolas, aptas a
tornar o processo um simulacro de processo ao nobre albergue do direito
fundamental de acesso à justiça.
6- Hipótese em que, nos quase 39 anos de litígio envolvendo as terras que
haviam sido herdadas pelos autores e de cujo uso e fruição foram privados
por intermédio de procuração falsa datada do ano de 1970, foram ajuizadas,
a pretexto de defender uma propriedade sabidamente inexistente, quase 10
ações ou procedimentos administrativos desprovidos de fundamentação
minimamente plausível, sendo que 04 destas ações foram ajuizadas em um
ínfimo espaço de tempo - 03 meses, entre setembro e novembro de 2011 -
, justamente à época da ordem judicial que determinou a restituição da área
e a imissão na posse aos autores.
7- O uso exclusivo da área alheia para o cultivo agrícola pelos 14 anos
subsequentes ao trânsito em julgado da sentença proferida na primeira fase
da ação divisória não pode ser qualificado como lícito e de boa-fé nesse
contexto, de modo que é correto afirmar que, a partir da coisa julgada
formada na primeira fase, os usurpadores assumiram o risco de reparar os
danos causados pela demora na efetivação da tutela específica de imissão
na posse dos legítimos proprietários.
49
8- Dado que a área usurpada por quem se valeu do abuso processual para
retardar a imissão na posse dos legítimos proprietários era de natureza
agrícola e considerando que o plantio ocorrido na referida área
evidentemente gerou lucros aos réus, deve ser reconhecido o dever de
reparar os danos de natureza patrimonial, a serem liquidados por
arbitramento, observado o período dos 03 últimos anos anteriores ao
ajuizamento da presente ação, excluídas da condenação a pretensão de
recomposição pela alegada retirada ilegal de madeira e pela recomposição
de supostos danos ambientais, que não foram suficientemente
comprovados.
9- Considerando a relação familiar existente entre os proprietários
originários das terras usurpadas e os autores da ação, o longo período de
que foram privados do bem que sempre lhes pertenceu, inclusive durante
tenra idade, mediante o uso desenfreado de sucessivos estratagemas
processuais fundados na má-fé, no dolo e na fraude,configura-se
igualmente a existência do dever de reparar os danos de natureza
extrapatrimonial que do ato ilícito de abuso processual decorrem,
restabelecendo-se, quanto ao ponto, a sentença de procedência.
10- É inadmissível o exame da questão relacionada ao termo inicial da
prescrição da pretensão reparatória quando, para a sua modificação,
houver a necessidade de reexame de elementos fático-probatórios não
descritos no acórdão recorrido, como, por exemplo, o exame da data em
que cada um dos muitos herdeiros atingiu a maioridade civil.
11- Não se conhece do recurso especial fundado na divergência quando
ausente o cotejo analítico entre o acórdão recorrido e o paradigma
invocado, sobretudo quando se verifica, da simples leitura da ementa, a
notória dessemelhança fática entre os julgados alegadamente conflitantes.
12- Recursos especiais conhecidos e parcialmente providos. (REsp n.
1.817.845/MS, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, relatora para
acórdão Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 10/10/2019,
DJe de 17/10/2019.).
GRUPO IV - QUESTÃO 8
Disserte sobre a aceitação e a renúncia da herança, abordando, discursivamente,
acerca:
(Valor da questão: 1 ponto)
a. Da necessidade ou dispensa de um ato de aceitação da herança. Justifique. E, em
qualquer caso, qual é a natureza jurídica da aceitação e o respectivo efeito no
tempo; (0,25 ponto)
b. Da classificação das formas de aceitação da herança, explicando-as; (0,25 ponto)
c. Da classificação das formas de renúncia da herança, explicando-as; (0,25 ponto)
d. Da natureza jurídica da renúncia da herança, se no ato da renúncia devem ser
expostas as respectivas razões, a partir de que momento a renúncia produz efeitos
e se a renúncia pode ser invalidada. (0,25 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 80 linhas.
Resposta Ideal
Pontuação
máxima
a) Da necessidade ou dispensa de um ato de aceitação da herança.
Justifique. E, em qualquer caso, qual é a natureza jurídica da aceitação e o
respectivo efeito no tempo – (0,25)
0,25
50
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais Carneiro. A
aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia jurídica da PUC-SP.
Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz
Freire (coords.). Tomo: Direito Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik
Gramstrup (coord. de tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, 2021. Disponível
em: https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023.
[...]
2. Aceitação da herança
A aceitação, também chamada adição da herança (aditio hereditatis), é um
ato jurídico unilateral pelo qual a pessoa chamada a suceder manifesta sua
vontade de receber a herança ou o legado. Trata-se de uma confirmação,
por meio da qual o beneficiário demonstra sua intenção de acolher a
herança que lhe foi automaticamente deferida pelo droit de saisine.
De fato, a aquisição dos direitos sucessórios é automática, por força de lei
(ipso iure), no exato momento do passamento do de cujus, com a abertura
da sucessão (art. 1.784). Nesse contexto, se a herança se incorpora
automaticamente ao patrimônio do herdeiro, a aceitação representa a
anuência do beneficiário em receber a sucessão. Em todo caso, a despeito
de ser cabível a indagação quanto à importância da aceitação, o que será
desenvolvido a seguir, é possível adiantar que se trata de um ato
necessário, corolário da autonomia privada.
Nesse contexto, a aceitação da herança produz então efeitos simplesmente
de confirmação da transmissão legal dos bens causa mortis. Não é correto
afirmar que a aceitação tem efeito constitutivo, visto que ela tem apenas
efeito declaratório de confirmação da transmissão que já se realizou, por
força de lei, por aplicação da saisine, desde o momento da abertura da
sucessão (art. 1.784). E aqui é interessante a definição apresentada por
Colin e Capitant, que consideram a aceitação como a renúncia à faculdade
de renunciar.
Não é outra a forma como deve ser interpretado o art. 1.804, que
estabelece: “Aceita a herança, torna-se definitiva a sua transmissão ao
herdeiro, desde a abertura da sucessão”. O ingresso dos bens sucedidos
na esfera patrimonial do herdeiro é então definitivo, pois a aceitação é
irretratável e irrevogável.
A aceitação da herança continua sendo um instituto bastante importante na
atualidade. A existência da saisine em nada diminui a importância da
aceitação, uma vez que não é herdeiro quem não quiser ser. Desse modo,
o ato jurídico de aceitação não pode ser considerado como um ato
desnecessário, supérfluo ou dispensável.
A autonomia privada se manifesta na aceitação, visto que ninguém pode
ser herdeiro ou legatário contra sua vontade. Ninguém é obrigado a receber
o patrimônio que lhe está sendo transferido automaticamente, mesmo
porque não existe a figura do herdeiro forçado. Assim sendo, a lei concede
ao herdeiro chamado à sucessão a faculdade de livremente decidir acerca
da aceitação ou da renúncia da herança. Adotou então o Código Civil o
princípio segundo o qual somente é herdeiro ou legatário quem quer ser.
O período em que a situação fica pendente de aceitação ou de renúncia da
herança é chamado pela doutrina de fase de deliberação (ius deliberandi).
Todavia, vale lembrar que como o direito à sucessão surge apenas depois
51
da morte, somente a partir da abertura da sucessão é que pode haver
aceitação ou renúncia. De fato, como o direito pátrio não conhece herança
de pessoa viva (viventis nulla est heredita), é inconcebível a aceitação ou
renúncia por parte daquele que ainda não pode ser considerado herdeiro.
Na hipótese de aceitação, que é considerada pelo ordenamento jurídico
como necessária ou indispensável, a anuência manifestada pelo herdeiro
ou legatário é retroativa. Há um efeito ex tunc da aceitação, que retroage à
data da abertura da sucessão. É como se o beneficiário sempre houvesse
sido herdeiro ou legatário.
O herdeiro, ao aceitar a herança, não tem responsabilidade por encargos
superiores às forças da herança (art. 1.792). É dizer: não se pode compelir
o herdeiro a honrar dívidas do espólio que excedam os limites da herança
transmitida. Todavia, com a aceitação o herdeiro assume determinados
ônus, como é o caso, por exemplo, do pagamento dos legados, do
cumprimento de encargos ou do pagamento do imposto de transmissão
causa mortis. Por conseguinte, a aceitação da herança certamente
apresenta interesse prático, não colidindo com o princípio da saisine.
[…]
4. Natureza jurídica e características da aceitação
Trata-se de ato jurídico em sentido estrito, uma vez que a vontade é
manifestada no sentido de aderir aos efeitos preestabelecidos em lei. Não
é um negócio jurídico, pois no ato de aceitação não há a escolha dos efeitos
a serem produzidos, que já estão aprioristicamente definidos na norma
legal.
Entre os atos jurídicos, a aceitação é unilateral, dado que não exige outra
manifestação de vontade que não a do herdeiro. Como não há necessidade
de sua comunicação a quem quer que seja para que produza efeitos, a
aceitação é considerada um ato não receptício (declaração não receptícia).
Além disso, sua prática demanda a existência de capacidade de exercício.
No caso de incapazes, devem estar representados ou assistidos.
A aceitação deve ser pura e simples (semel heres, semper heres). O art.
1.808 não admite que o ato jurídico de aceitação seja subordinado à
condição (suspensiva ou resolutiva) e nem a fixação de data (termo) para
que tenha eficácia (vitiantur et vitiant).
Além de incondicional, a aceitação também é indivisível. Não se admite a
aceitação parcial da herança e a renúncia da outra parte. É que se isso
fosse permitido, o herdeiro apenas tomaria parcialmente o lugar do falecido,
pois esse aceite parcial possibilitaria que se interessasse somentepelo
ativo (créditos) e repudiasse o passivo (dívidas).
A indivisibilidade da aceitação encontra uma aparente exceção no § 1º do
art. 1.808, que permite ao herdeiro renunciante aceitar legados, bem como
confere ao legatário renunciante o direito de adir a herança. Em realidade,
a norma contempla a situação em que alguém que sucede
simultaneamente a dois títulos, ou seja, a aquisição da herança não
interfere com a do legado. Sucede a título universal, como herdeiro, e a
título singular, como legatário.
Nesse caso, considerando que os títulos são independentes, nada impede
que o beneficiário renuncie integralmente a uma sucessão, conservando a
outra. Pode renunciar a toda a herança, aceitando o legado por inteiro ou
pode renunciar a todo o legado, aceitando a herança por inteiro. O que lhe
é vedado, segundo o princípio geral, é aceitar parcialmente a herança, pois
52
a aceitação da herança sempre será integral. Portanto, a regra continua
invulnerada, visto que a exceção é só aparente, já que a indivisibilidade só
se verifica plenamente dentro de cada título de sucessão.
O art. 1.808, § 2º, apresenta inovação, não contendo paradigma no Código
Civil de 1916. Determina que o herdeiro, chamado na mesma sucessão sob
títulos sucessórios diversos (lei e testamento), “pode livremente deliberar
quanto aos quinhões que aceita e aos que renuncia”. É que existe
autonomia entre os títulos sucessórios. Assim sendo, se o testador
determina, por exemplo, que sua metade disponível cabe a um herdeiro
necessário, tal herdeiro pode aceitar o que advém pela sucessão legítima
e repudiar o que lhe foi destinado no testamento ou pode aceitar o que lhe
é devido pela sucessão testamentária e repudiar a herança necessária.
Nada impede que alguém aceite receber a herança como herdeiro legítimo,
mas repudie o que se lhe atribui na qualidade de herdeiro testamentário,
uma vez que as origens são diversas.
b) Da classificação das formas de aceitação da herança, explicando-as; –
(0,25)
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais
Carneiro. A aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia
jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de
Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito
Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup (coord. de
tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, 2021. Disponível em:
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023.
[...]
3. Formas de aceitação da herança
A aceitação pode se dar de formas diversas, bastando restar inequívoca a
intenção do sucessor.
Não há ampla liberdade na forma de exteriorização da aceitação. O herdeiro
pode manifestar a sua intenção de receber a herança de forma: (a)
expressa; (b) tácita; (c) presumida.
A aceitação pode ainda ser direta ou indireta. Se o próprio herdeiro aceita
a herança, diz-se que a aceitação é direta. A aceitação será indireta quando
alguém a faz no lugar do herdeiro, o que se dá em três hipóteses legais: (a)
aceitação pelos sucessores; (b) aceitação por mandatário e por gestor de
negócios; (c) aceitação pelos credores.
3.1. Aceitação expressa
A aceitação é expressa quando manifestada por declaração escrita (art.
1.805), que pode ser por instrumento público ou particular, ou, diretamente,
por termo nos próprios autos do inventário, quando judicial.
Na aceitação expressa o herdeiro assume inequivocamente a sua vontade
de adquirir a herança. A forma escrita revela certamente maior reflexão por
parte do herdeiro, não se admitindo que seja realizada verbalmente. É que
a aceitação oral daria ampla margem para contestação, não somente no
que toca à sua existência como à sua exatidão, encontrando então a
restrição fundamento na segurança jurídica.
0,25
53
De fato, no passado havia interesse na realização da aceitação escrita,
porque não constava da lei a regra que afasta do herdeiro a
responsabilidade por encargos superiores à força da herança. Assim sendo,
era necessário expressamente aceitar a herança sob benefício de
inventário, ou seja, caso o ativo superasse o passivo.
Na atualidade, a aceitação expressa da herança não é mais necessária,
haja vista a regra do art. 1.792, tratando-se então de forma de adição que
não é mais frequente na prática jurídica.
3.2. Aceitação tácita
A aceitação tácita é aquela que resulta tão somente de conduta própria de
herdeiro (art. 1.805). Embora não haja declaração expressa de aceitação,
esta decorre de comportamento concludente, que traduza a intenção de
aceitar a sucessão.
É a modalidade de adição mais comum no Brasil, ocorrendo quando a
aceitação da herança deflui de atos que demonstrem a intenção de aceitar
a herança. Aqui a autonomia privada se manifesta em atos que são
incompatíveis com a posição de renunciante. Existe aceitação tácita
quando o sucessor pratica atos que vão além da simples conservação e
administração da herança, evidenciando a intenção de aceitar. São atos
que revelam a qualidade de proprietário ou possuidor dos bens ou direitos
transmitidos mortis causa. Isso ocorre se o herdeiro, por exemplo, cede
seus direitos hereditários, promete vender imóveis do espólio, paga
credores, nomeia advogado para acompanhar o inventário, concorda com
avaliações.
Outrossim, vale notar que o § 1º do art. 1.805 afasta da presunção de
aceitação os atos oficiosos, como o funeral do falecido, os meramente
conservatórios, ou os de administração e guarda provisória dos bens. É
que, usualmente, tais atos são praticados altruisticamente,
desinteressadamente, em respeito pela memória do falecido, não
significando, por si sós, a intenção de recolher a herança. Não se admite
confundir os atos ligados ao afeto ou ao sentimento humanitário daquele
que tinha ligação com o falecido com interesses puramente econômicos
pela herança.
Atos meramente conservatórios são aqueles necessários e urgentes, que
objetivam evitar a perda ou deterioração dos bens da herança. Atos de
administração e guarda provisória, por outro lado, são aqueles praticados
sem a intenção de ter os bens para si, mas simplesmente com o ânimo de
entregá-los, tão logo seja possível, a quem tenha o dever de guardá-los e
conservá-los. Já se decidiu que o simples requerimento de abertura de
inventário, por si só, não traduz o propósito de aceitar a herança, uma vez
que se trata de obrigação legal do herdeiro. Também não implica aceitação
o simples fato do presumido herdeiro limpar os imóveis deixados pelo
falecido. O pagamento de dívida do de cujus, com dinheiro próprio do
herdeiro, igualmente não implica, por si só, em aceitação.
O Código Civil ainda proclama que não importa aceitação a cessão gratuita,
pura e simples, da herança, aos demais coerdeiros (art. 1.805, § 2º).
Equipara-se então o termo cessão gratuita à renúncia, uma vez que aquele
que cede gratuitamente a herança nunca teve realmente a intenção de ser
herdeiro. Ceder a todos é recusar a herança, e como tal essa cessão deve
ser tratada. Nessa hipótese, o quinhão hereditário do renunciante é
partilhado, por força de lei, entre todos os demais herdeiros da mesma
classe.
54
Em todo caso, é certo que o reconhecimento de uma situação em que teria
ocorrido a aceitação tácita pode apresentar problemas. Mister se faz que
os operadores do direito atuem com cautela redobrada, analisando cada
circunstância do caso concreto, bem como procurando ponderar entre a
preocupação de se garantir a segurança jurídica dos sucessíveis e a
necessidade de se facilitar a gestão da sucessão.
Por conseguinte, a aceitação tácita pode até mesmo ser considerada
perigosa para o herdeiro, pois deflui de uma quantidade bastante numerosa
de atos. Assim sendo, para que se evite o eventual reconhecimento da
ocorrência de aceitação tácita, aquele que deseja renunciar deve fazê-lo o
quanto antes.
3.3. Aceitação presumida
O art. 1.807 apresentaoutro tipo de aceitação, que alguns autores
denominam aceitação presumida. Essa forma de aceitação surge quando
algum interessado, vinte dias após aberta a sucessão, requerer a
notificação do herdeiro silente, para que este declare, dentro de prazo
razoável, não superior a trinta dias, se aceita ou não a herança, sob pena
de se presumir a aceitação da herança se o silêncio persistir.
Na aceitação presumida é reconhecida eficácia jurídica ao silêncio, que é
interpretado como manifestação de vontade. Assim, caso o herdeiro tenha
sido instado a se manifestar, sua postura inerte, de completa abstenção,
decorrido o prazo concedido, será considerada como aceitação da herança.
Competente para o processamento do requerimento, denominado ação
interrogatória (actio interrogatoria), é o juízo do inventário. O interessado
pode ser o legatário, algum credor e também aquele que eventualmente
sucederia, em substituição, caso se consumasse a renúncia (art. 1.947).
Ademais, a lei não fixa prazo para que a aceitação ocorra. Por isso,
entende-se que enquanto o herdeiro não for intimado a se manifestar em
um prazo certo, a faculdade de aceitar a herança permanece, o que pode
perdurar até que se consume a prescrição ao cabo de dez anos (art. 205).
c) Da classificação das formas de renúncia da herança, explicando-as; –
(0,25)
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais
Carneiro. A aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia
jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de
Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito
Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup (coord. de
tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, 2021. Disponível em:
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023
8. Formas de renúncia
A renúncia da herança é um ato solene, porque depende de forma prescrita
em lei. Diferentemente do que ocorre com a aceitação, que pode ser
expressa, tácita ou presumida, a renúncia da herança deve ser expressa,
clara e inequivocamente exteriorizada pelo herdeiro pela forma escrita, sob
pena da nulidade. O comportamento passivo do sucessível em relação à
sucessão não permite nenhuma dedução, uma vez que não se admite a
renúncia tácita ou presumida.
0,25
55
O legislador brasileiro permite a realização da renúncia somente por meio
de duas formas escritas: (a) mediante instrumento público, lavrado por
notário; (b) por termo judicial lançado nos autos do inventário (art. 1.806).
A forma é indispensável para que a renúncia se torne conhecida e
incontroversa. Como se trata de ato de disposição de direitos, a renúncia
deve ser interpretada sempre restritivamente (renuntiatio est strictissimae
interpretationis). Na hipótese de não observância do disposto no art. 1.806,
a renúncia será nula por violação dos arts. 104 e 166, IV, o que se explica
pela natureza imóvel da herança, que justifica o requisito formal. De fato, a
sucessão aberta tem natureza de bem imóvel por determinação da lei (art.
80, II).
Desse modo, a declaração será formulada perante o juiz competente, que
é o lugar da abertura da sucessão, ou perante o tabelião, podendo a
escritura pública ser lavrada em qualquer lugar e não apenas no foro do
inventário. Em qualquer dos dois casos se garante a liberdade do
renunciante e a autenticidade da declaração. Não tem validade jurídica a
renúncia feita em mero instrumento particular (REsp 431.695), mesmo
porque a forma é ad substantiam, e não apenas ad probationem tantum.
Ademais, para que a renúncia produza efeitos, não é necessária a sua
homologação judicial, até porque a renúncia é o exercício de um direito
potestativo.
Por derradeiro, vale lembrar que o momento adequado para a prática desse
negócio jurídico sempre será após a abertura da sucessão, visto que
praticado antes dela caracterizaria um pacto sucessório, que o fulminaria
de nulidade, conforme a prescrição contida no art. 426 do Código Civil,
consagrando a nominada vedação ao pacto corvina.
d) Da natureza jurídica da renúncia da herança, se no ato da renúncia
devem ser expostas as respectivas razões, a partir de que momento a
renúncia produz efeitos e se a renúncia pode ser invalidada. – (0,25)
ZANINI, Leonardo Estevam de Assis, QUEIROZ, Odete Novais
Carneiro. A aceitação e a renúncia da herança. Enciclopédia
jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de
Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito
Civil. Rogério Donnini, Adriano Ferriani e Erik Gramstrup (coord. de
tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, 2021. Disponível em:
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/553/edicao-2/a-
aceitacao-e-a-renuncia-da-heranca. Acesso em: 17 fev. 2023
[...]
6. Renúncia da herança
A renúncia à herança é um negócio jurídico unilateral, não receptício,
gratuito e solene pelo qual uma pessoa, chamada à sucessão de outra,
declara, de modo irrevogável e irretratável, que não a aceita.
O herdeiro não é obrigado a receber a herança, podendo, se quiser, recusá-
la, situação em que será reputado a ela estranho desde a abertura da
sucessão (nul n’est héritier qui ne veut). Aliás, podem existir fundamentos
econômicos para o não recolhimento dos bens do sucedido, como, por
exemplo, a herança ter muitas dívidas, ter alto custo de manutenção, serem
os bens litigiosos ou ainda possuir o patrimônio do falecido muitos
encargos. Mas a decisão de não se tornar herdeiro pode também ter
fundamentação moral, como no caso de uma pessoa não pretender ser
herdeiro de alguém com péssima reputação (notório agiota), apesar do
patrimônio deixado.
0,25
56
Os motivos que levaram à renúncia da herança não necessitam ser
esclarecidos. De fato, não necessita o herdeiro informar no ato de renúncia
as razões pelas quais não está recolhendo a herança, podendo o
renunciante simplesmente guardá-las exclusivamente para si.
A renúncia se caracteriza ainda por ser pura e simples, não se admitindo
renúncia subordinada a condição ou termo, o que significa o completo
afastamento do renunciante, bem como a transferência dos bens a quem
por lei ou por testamento deva caber. Igualmente, não é cabível a fixação
de encargo na renúncia, pois isso é incompatível com a intenção de quem
não quer aceitar a sucessão.
Ao se caracterizar como pura e simples, isto é, em benefício do monte
hereditário (composto por todos os demais herdeiros), sem indicação de
qualquer favorecido (art. 1.805, § 2º), a renúncia (abdicativa) também tem
relevância para o direito tributário, afinal existem tributos que incidem na
transmissão da propriedade. De fato, em havendo renúncia pura e simples,
chamada de abdicativa, a lei considera como se a pessoa nunca tivesse
sido herdeiro. Se o filho renuncia à herança do pai, a lei o considera como
se nunca tivesse sido herdeiro. Assim, o único imposto devido é sobre a
transmissão causa mortis de bens e direitos (ITCMD), previsto no art. 155,
I, da CF.
[...]
8. Formas de renúncia
A renúncia da herança é um ato solene, porque depende de forma prescrita
em lei. Diferentemente do que ocorre com a aceitação, que pode ser
expressa, tácita ou presumida, a renúncia da herança deve ser expressa,
clara e inequivocamente exteriorizada pelo herdeiro pela forma escrita, sob
pena da nulidade. O comportamento passivo do sucessível em relação à
sucessão não permite nenhuma dedução, uma vez que não se admite a
renúncia tácita ou presumida.
O legislador brasileiro permite a realização da renúncia somente por meio
de duas formas escritas: (a) mediante instrumento público, lavrado por
notário; (b) por termo judicial lançado nos autos do inventário (art. 1.806).
A forma é indispensável para que a renúncia se torne conhecida e
incontroversa. Como se trata de ato de disposição de direitos, a renúncia
deve ser interpretada sempre restritivamente (renuntiatioest strictissimae
interpretationis). Na hipótese de não observância do disposto no art. 1.806,
a renúncia será nula por violação dos arts. 104 e 166, IV, o que se explica
pela natureza imóvel da herança, que justifica o requisito formal. De fato, a
sucessão aberta tem natureza de bem imóvel por determinação da lei (art.
80, II).
Desse modo, a declaração será formulada perante o juiz competente, que
é o lugar da abertura da sucessão, ou perante o tabelião, podendo a
escritura pública ser lavrada em qualquer lugar e não apenas no foro do
inventário. Em qualquer dos dois casos se garante a liberdade do
renunciante e a autenticidade da declaração. Não tem validade jurídica a
renúncia feita em mero instrumento particular (REsp 431.695),67 mesmo
porque a forma é ad substantiam, e não apenas ad probationem tantum.
Ademais, para que a renúncia produza efeitos, não é necessária a sua
homologação judicial, até porque a renúncia é o exercício de um direito
potestativo.
Por derradeiro, vale lembrar que o momento adequado para a prática desse
negócio jurídico sempre será após a abertura da sucessão, visto que
praticado antes dela caracterizaria um pacto sucessório, que o fulminaria
de nulidade, conforme a prescrição contida no art. 426 do Código Civil,
consagrando a nominada vedação ao pacto corvina.
[...]
12. Irrevogabilidade da renúncia e da aceitação
57
A aceitação e a renúncia são irrevogáveis, conforme expressamente dispõe
o art. 1.812 do Código Civil de 2002.
A solução da legislação busca garantir a segurança jurídica, visto que a
formalização da renúncia gera a ficção de não ter o renunciante jamais sido
herdeiro. Nenhum arrependimento posterior é possível. O mesmo vale para
a aceitação, cujos efeitos retroagem à data do falecimento do autor da
herança (semel heres, semper heres), ou seja, uma vez herdeiro sempre
herdeiro.
Nesse contexto, se fosse possível a revogação ou a retratação da renúncia,
certamente ocorreria a perda da propriedade adquirida pelos herdeiros
como decorrência da manifestação de vontade do renunciante arrependido.
Isso seria uma grande ameaça para a segurança jurídica e para a
estabilidade das relações jurídicas.
Entretanto, a irrevogabilidade não afasta a possibilidade de invalidação do
negócio jurídico, que atinge a vontade manifestada no plano da validade,
mediante o reconhecimento de nulidade absoluta ou relativa, em ação
própria, considerando-se as disposições da Parte Geral do Código Civil
(arts. 171 e 185). De fato, como essas regras são aplicáveis, em princípio,
a qualquer espécie de negócio jurídico, delas não se pode afastar a
aceitação e a renúncia da herança. O remédio que resta então para aquele
que não está mais de acordo com a aceitação é a invalidação do ato
jurídico, o que apenas pode ser feito antes do trânsito em julgado da
decisão de partilha.
Assim sendo, o herdeiro deve abdicar de sua condição de modo irrevogável
e irretratável, valendo raciocínio análogo para a aceitação da herança.
Acaso o herdeiro tenha aceitado a herança, se não tiver mais interesse em
recebê-la, não é possível renunciar ao quinhão, restando como solução a
cessão (via da transmissão onerosa ou gratuita) em favor especificamente
de determinada pessoa ou em favor do monte hereditário.
GRUPO IV - QUESTÃO 9
Disserte sobre o entendimento jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal em
relação aos temas a seguir:
(Valor da questão: 1 ponto)
a. Penhorabilidade, ou não, de bem de família de fiador de contrato de locação; (0,20
ponto)
b. Possibilidade, ou não, de reconhecimento jurídico de união estável e de relação
homoafetiva concomitantes, com o consequente rateio de pensão por morte; (0,20
ponto)
c. Impenhorabilidade, ou não, de propriedade familiar, localizada na zona rural, que
não é o único bem imóvel dessa natureza pertencente à família; (0,20 ponto)
d. Alcance do direito sucessório em face de união estável homoafetiva; (0,20 ponto)
e. Prevalência, ou não, da paternidade socioafetiva em detrimento da paternidade
biológica. (0,20 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 100 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) Penhorabilidade, ou não, de bem de família de fiador de contrato de
locação – (0,20)
Tema 295 - Penhorabilidade de bem de família de fiador de contrato de
locação.
Relator(a): MIN. ELLEN GRACIE
0,20
58
Leading Case: RE 612360
Descrição: recurso extraordinário em que se discute, à luz do art. 6º, caput,
da Constituição Federal, na redação dada pela Emenda Constitucional nº
26/2000, a constitucionalidade, ou não, da penhora do imóvel bem de
família do fiador locatício.
Tese: é constitucional a penhora de bem de família pertencente a fiador de
contrato de locação, em virtude da compatibilidade da exceção prevista no
art. 3°, VII, da Lei 8.009/1990 com o direito à moradia consagrado no art. 6°
da Constituição Federal, com redação da EC 26/2000.
b) Possibilidade, ou não, de reconhecimento jurídico de união estável e de
relação homoafetiva concomitantes, com o consequente rateio de pensão
por morte – (0,20)
Tema 529 - Possibilidade de reconhecimento jurídico de união estável e de
relação homoafetiva concomitantes, com o consequente rateio de pensão
por morte.
Relator(a): MIN. ALEXANDRE DE MORAES
Leading Case: RE 1045273
Descrição: recurso extraordinário com agravo em que se discute, à luz dos
artigos 1º, III; 3º, IV; 5º, I, da Constituição Federal, a possibilidade, ou não,
de reconhecimento jurídico de união estável e de relação homoafetiva
concomitantes, com o consequente rateio de pensão por morte.
Tese: a preexistência de casamento ou de união estável de um dos
conviventes, ressalvada a exceção do artigo 1.723, § 1º, do Código Civil,
impede o reconhecimento de novo vínculo referente ao mesmo período,
inclusive para fins previdenciários, em virtude da consagração do dever de
fidelidade e da monogamia pelo ordenamento jurídico-constitucional
brasileiro.
0,20
c) Impenhorabilidade, ou não, de propriedade familiar, localizada na zona
rural, que não é o único bem imóvel dessa natureza pertencente à família –
(0,20)
Tema 961 - Impenhorabilidade de propriedade familiar, localizada na zona
rural, que não é o único bem imóvel dessa natureza pertencente à família.
Relator(a): MIN. EDSON FACHIN
Leading Case: ARE 1038507
Descrição: recurso extraordinário em que se discute, à luz do art. 5º, inc.
XXVI, da Constituição da República, a possibilidade de penhora de
pequena propriedade rural familiar, que não seja o único imóvel dessa
natureza pertencente à família.
Tese: é impenhorável a pequena propriedade rural familiar constituída de
mais de 01 (um) terreno, desde que contínuos e com área total inferior a 04
(quatro) módulos fiscais do município de localização.
0,20
d) Alcance do direito sucessório em face de união estável homoafetiva –
(0,20)
Tema 498 - Alcance do direito sucessório em face de união estável
homoafetiva.
Relator(a): MIN. MARCO AURÉLIO
Leading Case: RE 646721
Descrição: recurso extraordinário em que se discute, à luz dos artigos 1º,
III; 5º, I; e 226, § 3º, da Constituição Federal, o alcance do direito de
sucessão legítima decorrente de união estável homoafetiva.
Tese: é inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges
e companheiros prevista no art. 1.790 do CC/2002, devendo ser aplicado,
tanto nas hipóteses de casamento quanto nas de união estável, o regime
do art. 1.829 do CC/2002 (a mesma tese foi fixada para o Tema 809).
0,20
e) Prevalência, ou não, da paternidade socioafetiva em detrimento da
paternidade biológica – (0,20)
Tema 622 - Prevalência da paternidade socioafetiva em detrimento da
paternidade biológica.
0,20
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=3866948
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5181220
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5164056
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=410006959
Relator(a): MIN. LUIZ FUX
Leading Case: RE 898060
Descrição: agravo de decisão que não admitiu recurso extraordinário em
que se discute, à luz do art. 226, caput, da Constituição Federal, a
prevalência da paternidade socioafetiva em detrimento da biológica.
Tese: a paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não
impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na
origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios.
GRUPO IV - QUESTÃO 10
Em relação à ação de alimentos, discorra sobre:
(Valor da questão: 1 ponto)
a. A legitimidade ativa do Ministério Público para ajuizar ação de alimentos em
proveito de criança ou adolescente; (0,25 ponto)
b. A obrigação alimentar dos avós; (0,25 ponto)
c. Os efeitos da sentença que reduz, majora ou exonera o alimentante do pagamento
da pensão; (0,25 ponto)
d. A pensão alimentícia de filho que atinge a maioridade civil. (0,25 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 60 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) De acordo com o enunciado da Súmula nº. 594 do STJ, “O Ministério
Público tem legitimidade ativa para ajuizar ação de alimentos em proveito
de criança ou adolescente independentemente do exercício do poder
familiar dos pais, ou do fato de o menor se encontrar nas situações de risco
descritas no art. 98 do Estatuto da Criança e do Adolescente, ou de
quaisquer outros questionamentos acerca da existência ou eficiência da
Defensoria Pública na comarca.” (SÚMULA 594, SEGUNDA SEÇÃO,
julgado em 25/10/2017, DJe 06/11/2017).
- fundamento legal: artigos 98, caput, e 201, inciso III, da Lei nº. 8.069/90 e
artigos n°. 1.694, caput, e nº. 1.695 do Código Civil.
0,25
b) Consoante o enunciado da súmula nº. 596 do STJ “A obrigação alimentar
dos avós tem natureza complementar e subsidiária, somente se
configurando no caso de impossibilidade total ou parcial de seu
cumprimento pelos pais.” (SÚMULA 596, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em
08/11/2017, DJe 20/11/2017).
- fundamento legal: artigos nº. 1.696 e nº. 1.698 do Código Civil de 2002.
0,25
c) Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça, editado por
meio da súmula nº. 621 do STJ “Os efeitos da sentença que reduz, majora
ou exonera o alimentante do pagamento retroagem à data da citação,
vedadas à compensação e à repetibilidade.” (SÚMULA 621, SEGUNDA
SEÇÃO, julgado em 12/12/2018, DJe 17/12/2018).
- fundamento legal: artigo 13, §2º, da Lei nº. 5.478/68 e artigo nº. 1.699 do
Código Civil.
0,25
d) Nos termos da Súmula nº. 358 do STJ “O cancelamento de pensão
alimentícia de filho que atingiu a maioridade está sujeito à decisão judicial,
mediante contraditório, ainda que nos próprios autos.” (SÚMULA 358,
SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 13/08/2008, REPDJe 24/09/2008, DJe
08/09/2008).
- fundamento legal: artigo 114 do CPC/2015 e artigo nº. 1.699 do Código
Civil.
0,25
https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4803092
60
GRUPO V: TUTELA DE INTERESSES DIFUSOS, COLETIVOS E INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS
GRUPO V - QUESTÃO 1
A Promotoria de Justiça recebeu informações de que o município não estaria
promovendo acesso à educação escolar, precisamente para os ensinos infantil e
fundamental. Entre os relatos, estão a falta de vagas nas escolas; o não cumprimento
da garantia de prioridade na matrícula e a transferência dos dependentes da mulher
vítima de violência doméstica e familiar em instituição de educação básica
mais próxima de seu domicílio; a não realização de matrícula, no mesmo
estabelecimento de ensino, de irmãos que frequentam a mesma etapa ou ciclo do
ensino básico; a falta de acompanhamento para educandos com dislexia e transtorno
de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou outros transtornos
de aprendizagem; a falta de material escolar e alimentação (merenda), entre outros.
Após o registro na Promotoria, houve instauração do procedimento cabível para a
apuração inicial. Posteriormente, restou comprovada a veracidade das informações,
tendo o órgão de execução procurado inicialmente se valer de mecanismos resolutivos
e consensuais para a busca da solução das questões apresentadas. Houve, por parte
do poder público, imediato atendimento a uma parte das normas apontadas pelo
Ministério Público como sendo descumpridas. Também foi entabulado acordo entre o
Ministério Público e o poder público, com prazos e condições, em razão das
peculiaridades, circunstâncias e necessidade de tempo para o seu cumprimento. Por
fim, mesmo com ampla relação de crianças fora da escola e não tendo o poder
público resolvido ou mesmo entabulado acordo quanto à falta de vagas para o ensino
fundamental, alegando escassez de recursos e reserva do possível, o órgão de
execução ingressou com a ação judicial cabível referente a esse ponto. Ante o
panorama exposto e lembrando que as respostas devem sempre ser fundamentadas
na legislação, nas normas do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, na doutrina
e jurisprudência, responda:
(Valor da questão: 2,5 pontos)
a. Qual(is) procedimento(s) pode(m) ser instaurado(s) pelo Ministério Público para a
apuração das informações recebidas? (0,25 ponto)
b. Quais são os requisitos ou formalidades procedimentais para sua instauração,
tramitação e encerramento? (0,25 ponto)
c. Qual(is) mecanismo(s) resolutivo(s) e/ou consensual(is) pode(m) ser utilizado(s)
pelo Ministério Público? (0,50 ponto)
d. Quais são os requisitos ou formalidades procedimentais para a realização e validade
dos mecanismos resolutivos e consensuais? (0,50 ponto)
e. Como ocorre o acompanhamento dos termos e cláusulas do acordo celebrado
durante o procedimento pelo Ministério Público? (0,50 ponto)
f. Qual(is) ação(ões) judicial(is) pode(m) ser interposta(s) pelo Ministério Público nos
variados cenários acima apontados? (0,50 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O registro inicial é a Notícia de Fato. Em seguida, o órgão de execução
poderá instaurar um Procedimento Preparatório ou um Inquérito Civil
(Resolução CNMP 23/2007; Resolução MPMS 015/2007). Isso porque as
questões apresentadas demandam apuração não apenas do fato em si,
mas de condutas que possam estar a propiciar tais situações. O
Procedimento Administrativo não serve à investigação dos casos
apontados, porquanto sua finalidade é outra e está bem definida na
Resolução CNMP 174/2017 e também na Resolução 005/2012-CPJ
(MPMS). Contudo, caso o candidato especifique que o Promotor/a pode
almejar acompanhar as políticas públicas que serão (e deverão) ser
implementadas em razão das constatações, haverá acerto na resposta. O
0,25
61
órgão de execução poderá instaurar um único procedimento para apuração
e tratativa de todos os assuntos ou, então, um procedimento para cada
questão ou grupo de questões ante as diferenças de complexidade e
resolutividade.
b) Não há uma ordem obrigatória de qual dos procedimentos previstos na
Resolução 015/2007 instaurar; contudo, em termos práticos, pode-se
instaurar o Procedimento Preparatório e, findo seu prazo, convertê-lo em
Inquérito Civil. O que não pode ocorrer é instaurar Inquérito Civil e,
posteriormente, converter em Procedimento Preparatório. O Procedimento
Preparatório ou Inquérito será iniciado conforme estabelece a Resolução
015/2007, art. 6º e seguintes e art. 23 e seguinte, sendo instaurado por meio
de portaria (Inquérito Civil, art. 14) ou despacho (Procedimento
Preparatório, art. 23). É importante lembrar que os procedimentos possuem
prazos e também possibilidades de prorrogações previstos nas normas de
regência. O encerramento de um procedimento de investigação poderá
ocorrerá por diferentes formas (se não houver comprovação das
infringências legais; se houver resolução da questão por meios resolutivos;
se houver judicialização e servir como instrumento debase para a inicial).
Contudo, no caso apresentado, foi narrado que uma parte das questões foi
resolvida, outra foi objeto de acordo (TAC) e em outra foi necessária a
judicialização para a resolução. Assim, quando o acordo no Procedimento
Preparatório ou Inquérito Civil não esgota o objeto, o procedimento deve
continuar e, no caso narrado, servirá para instruir a ação judicial (Resolução
015/2007, art. 22, § 13). Não será caso, pois, de arquivamento do
procedimento em razão de celebração do TAC, como ocorre em casos em
que o TAC esgota o objeto do procedimento. Por fim, vale mencionar que
vigora o princípio da publicidade (Res. 015/2007, art. 30); contudo, há
exceções previstas na legislação e na Res. 015/2007.
0,25
c) Como mecanismos resolutivos ou consensuais passíveis de utilização e
aplicação no caso apresentado, pode-se citar a Recomendação (ECA, art.
201; Resolução CNMP 164/2017; Res. 015/2007, art. 44), o TAC (Lei
7.347/85, art. 5º, § 6º; ECA, art. 211; Resolução MPMS 015/2007, art. 33ss),
o ANPC (caso também seja verificada na apuração a ocorrência de prática
de ato de improbidade administrativa: Lei 8.429/92, art. 17-B; Resolução
3/2021-CPJ).
0,50
d) A Recomendação pode ser expedida no bojo do procedimento, conforme
dispõe a Res. 015/2007, art. 44. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC)
também poderá ser celebrado, com seus requisitos e procedimentos
previsto na Res. 015/2007. Lembrando que o TAC não precisa ser
encaminhado ao E. CSMP para homologação; mas, sim, apenas para
cientificação. Também vale lembrar que caso o TAC não contemple todo o
objeto do procedimento, não haverá o arquivamento do Inquérito Civil ou
Procedimento Preparatório, ocasião em que o procedimento continuará a
tramitar para o trato das questões que sobejarem aos pontos tratados no
TAC. O ANPC poderá ser celebrado caso constatada conduta a configurar
improbidade administrativa. Sua previsão está na Lei 8.429/92, art. 17-B e
na Resolução 3/2021-CPJ (MPMS). Os requisitos e procedimento de
tramitação estão previstos na lei e Resolução citadas. Importante destacar
que há diferença entre a tramitação do ANPC extrajudicial e do judicial.
Ambos, contudo, devem ser homologados judicialmente.
0,50
e) No caso do TAC e de eventual ANPC, o acompanhamento de suas
cláusulas se dará via Procedimento Administrativo, conforme dispõe o art.
38 e 39 da Resolução 015/2007 (TAC); Resolução 005/2012-CPJ, art. 8º
(TAC) e Resolução 3/2021-CPJ, art.6º, § 7º (ANPC). Nesse procedimento
o órgão de execução acompanhará o cumprimento das obrigações
pactuadas, dos prazos e, se for o caso, poderá promover diligências e
notificações. Também poderá o utilizar como base para instruir eventual
execução judicial (ou mesmo ACP), em caso de descumprimento.
0,50
62
f) Conforme descrito no enunciado, tendo o poder público não atendido a
todos os direitos e cumprido os deveres normativos aplicáveis ao caso e,
caso não haja estabelecimento de acordo, o Ministério Público poderá
ajuizar Ação Civil Pública (Lei 7.347/85 e ECA, art. 208, art. 210; art. 213),
com obrigação de fazer e não fazer, inclusive com pedidos de tutelas
específicas e tutela provisória de urgência antecipatória, com imposição de
multa diária ao(s) requerido(s) em caso de descumprimento. O STJ tem
entendido ser possível fixação de multa pessoal ao gestor. Também tem
sido admitida postulação de reparação de danos materiais e morais
experimentados pelos cidadãos atingidos pelas situações descritas no
enunciado. Caso haja prova pré-constituída e se for o caso, poderá
fragmentar as frentes de atuação e, assim, interpor também mandado de
segurança para fins de garantir direito líquido e certo das crianças e
adolescentes (ECA, art. 212). Caso celebrado TAC e este não seja
cumprido, poderá ser interposta ação para seu cumprimento. Caso a
apuração também aponte caracterização de infração aos artigos 9º, 10 e 11
da Lei 8.429/92, também poderá ajuizar ação de improbidade
administrativa. As medidas criminais não são abordadas nessa avaliação,
em razão da temática “interesses difusos” da prova em tela.
0,50
GRUPO V - QUESTÃO 2
A Promotoria de Justiça recebeu informações de que determinada pessoa jurídica
estaria a realizar empreendimento em um espaço considerado como área de
preservação permanente, em função da presença de determinadas características
naturais, bem como de seu entorno e elementos da natureza ali presentes. Lembrando
que as respostas devem sempre ser fundamentadas na legislação, nas normas do
Ministério Público de Mato Grosso do Sul, na doutrina e jurisprudência, responda:
(Valor da questão: 1,5 ponto)
a. O que são áreas de preservação permanente e como são estabelecidas e
definidas essas áreas segundo a legislação brasileira? (0,25 ponto)
b. Pode o poder público estabelecer outras áreas além das expressamente definidas
na lei de definição geral e abstrata? (0,25 ponto)
c. Pode haver intervenção humana nessas áreas? (0,25 ponto)
d. A pessoa jurídica pode responder por eventuais atos contrários às normas
ambientais? (0,25 ponto)
e. Caso haja autorização do poder público para o empreendimento, ainda que
contrária às normas ambientais, cabem medidas pelo órgão de execução do
Ministério Público? (0,50 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) A Lei 12.651/21, em seu art. 3º, II, define “área de Preservação
Permanente - APP: área protegida, coberta ou não por vegetação nativa,
com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a
estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e
flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas”.
Na sequência, em especial nos artigos 4º e 5º, a norma estabelece a
configuração das APPs conforme as características naturais presentes em
determina região, entre outros pontos. Os art. 6º e art. 7º também
estabelecem circunstâncias, regime legal para definição, enquadramento e
tratamento dessas áreas.
0,25
b) Sim, o poder público poderá definir áreas de preservação permanente.
Esse é o comando do art. 6º da Lei 12.651/12. Trata-se de uma exceção à
regra da definição geral e abstrata. É importante observar que ao dispor a
expressão “quando declaradas de interesse social”, a lei faz uma exigência
0,25
63
específica e, nesse ponto, deve-se submeter à disciplina da Lei 4.132/62,
equiparando e exigindo para tal definição a desapropriação da área. Desse
modo, diferente dos casos do art. 4º da Lei 12.651/12, se o Poder Público
quiser instituir efetivamente uma APP, deverá desapropriar a área (vide
Milaré, Édis; Machado, Paulo Affonso Leme, Novo Código Florestal:
comentários à Lei 12.651/12 e outras. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2013, p. 175-176; Andrade, Adriano et alii. Interesses Difusos e Coletivos,
vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Método. 2022, p. 126).
c) Sim, pode haver intervenção humana nas APPs. Contudo há
regramentos para essa possibilidade, conforme estabelecem os arts. 8º e
9º da Lei 12.651/12. Assim, no caso do enunciado, é preciso ver se o
empreendimento citado, além de realmente estar sendo realizado em uma
APP, está sob o pálio das possibilidades de intervenção ou se está a
contrariar as normas aplicáveis ao caso. Abstraindo a questão de eventuais
autorizações por órgãos da administração pública (pois o Ministério Público
tem o poder-dever de verificar inclusive a legalidade dessas autorizações,
em casos de denúncias).; as três circunstâncias excepcionais norteadoras
para verificação da legalidade ou não da intervenção são: utilidade pública,
interesse social e baixo impacto ambiental. Os casos de utilidade pública
estão voltados a obras e atividades do Poder Público, em razão do interesse
público inerente às suas atividades. O interesse social se apresenta em
situações relacionadas a atividades privadas que possuam expressãode
relevância ao fenômeno social. Por fim, as situações de baixo impacto são
extraídas de atividades relevantes no aspecto social e econômico e que não
produzam graves ou significativos danos ao meio ambiente. Essas
situações estão também destacadas no art. 3º da própria lei
supramencionada. Frise-se que o Supremo Tribunal Federal, no julgamento
das ADIs ajuizadas contra dispositivos da Lei 12.651/21 (ADIs 4.9011,
4.902, 4.903 e 4.937), postou interpretação conforme a Constituição
Federal ao art. 3º, VIII e IX, para condicionar a intervenção excepcional em
APP, por interesse social ou utilidade pública, à inexistência de alternativa
técnica e/ou locacional à atividade proposta. Caso se trate de APP em área
rural consolidada (art. 3º), a regra que se impõe é a prevista no art. 61-A da
Lei 12.651/21, com autorização para continuidade das atividades
agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural em áreas rurais
consolidadas até 22 de julho de 2008. O empreendimento poderá ser,
apenas, para essa continuidade (art. 61-A, § 12), aliado aos demais
requisitos citados nos dispositivos já mencionados, bem como desde que
promovidas as atividades de recomposição elencados na norma.
0,25
d) Sim, a pessoa jurídica pode responder por atos contrários às normas
ambientais. A Constituição Federal, em seu art. 225, § 3º, estampa que “as
condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. Assim,
observa-se a coexistência de responsabilidade por violação às normas
ambientais em três diferentes esferas: a administrativa, a civil e a criminal.
A Lei 6.938/81, que trata da Política Nacional do Meio Ambiente, sobre a
responsabilização e, ainda, sobre a legitimidade do Ministério Público, em
seu art. 14, § 1º, dispõe que “sem obstar a aplicação das penalidades
previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da
existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio
ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério Público da
União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de
responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente”. A
Lei 9.605/98, que versa precisamente sobre as sanções penais e
administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio
ambiente, destaca que “as pessoas jurídicas serão responsabilizadas
administrativa, civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos casos
em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou
contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua
entidade”.
0,25
64
e) Sim, o Ministério Público possui o poder-dever de atuar, em caso de
constatação de autorização pelo Poder Público que não atenda às normas
de proteção. Neste caso, poderá encetar medidas para nulidade do ato
administrativo, que podem ser desde recomendação ao Poder Público para
que, dentro de sua autotutela administrativa, revogue o ato, bem como
ingressar com ação judicial para essa finalidade. Exemplos de atuação do
Ministério Público de Mato Grosso do Sul como no caso do enunciado em
que o poder público ilegalmente autorizou empreendimento em área de
preservação permanente, havendo sua nulidade do ato administrativo: STJ
– Resp 1.394.025-MS (2013/0227164-1) – Rel Min Eliana Calmon. Julgado
08/10/2013. STJ – Resp 1.245.149-MS, Rel Min Herman Benjamin. Julgado
em 09/10/2012. Vale lembrar que a concessão ilegal de autorização não
escusa o dever de reparação de dano pelo particular; pode, contudo,
conforme o caso, ser observado por ocasião da análise de eventual
responsabilização. Caso o empreendimento tenha sido iniciado, pode
ingressar com medidas visando cessar as atividades e, posteriormente, sua
retirada/destruição e reparação do meio ambiente lesado. Ainda, o
Ministério Público pode investigar o ato de concessão para, conforme a
situação e circunstâncias, empreender medidas para eventual
responsabilização dos agentes públicos atuantes na autorização indevida,
bem como o dever solidário de reparação.
0,50
GRUPO V - QUESTÃO 3
Chegou à Promotoria de Justiça relato anônimo, via Ouvidoria do Ministério Público, de
que estaria a ocorrer, naquela localidade, falhas nos sinais de telefonia celular, via
Estações de Rádio Base (ERB), tanto na qualidade quanto nos seus alcances. Ademais,
estaria a ocorrer errônea tarifação das ligações, tratadas como interurbanas, quando
deveriam ser locais. Ante a situação relatada, lembrando que as respostas devem
sempre ser fundamentadas na legislação, nas normas do Ministério Público de
Mato Grosso do Sul, na doutrina e jurisprudência, responda:
(Valor da questão: 1,0 ponto)
a. Há afetação a algum direito do consumidor? (0,25 ponto)
b. O Ministério Público é parte legítima para investigar e providenciar medidas
extrajudiciais e judiciais? (0,25 ponto)
c Quais medidas procedimentais extrajudiciais e judiciais podem ser praticadas e
quais são os resultados a serem buscados? (0,50 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal
Pontuação
máxima
a) Sim, a má prestação de serviços, as irregularidades apontadas e a
cobrança ilegal afetam direitos consumeristas e são passíveis de medidas
pela legislação pátria: em destaque o Código de Defesa do Consumidor,
art. 3º, art. 6º, III, VI e X; art. 14, art. 22 e art. 42, parágrafo único. Há do
candidato levar em consideração o caso apresentado, ou seja, que se
tratam de práticas exteriorizadas por uma concessionária de telefonia.
0,25
b) Sim, o "Ministério Público possui legitimidade ativa para promover a
defesa dos direitos difusos ou coletivos do consumidor e de seus interesses
ou direitos individuais homogêneos, inclusive no que se refere à prestação
de serviço público, haja vista a presunção da sua relevância para a
coletividade” (STJ - REsp 1.347.910/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin,
Segunda Turma, julgado em 26/5/2015, DJe 12/2/2016). No mesmo
sentido, em caso a envolver ação civil pública ajuizada pelo Ministério
Público em face de empresa de telefonia, o Supremo Tribunal Federal
manifestou “há legitimidade do Ministério Público para “promover ação civil
pública ou coletiva para tutelar, não apenas direitos difusos ou coletivos de
0,25
65
consumidores, mas também de seus direitos individuais homogêneos,
inclusive quando decorrentes da prestação de serviços públicos. Trata-se
de legitimação que decorre, genericamente, dos artigos 127 e 129, III da
Constituição da República e, especificamente, do artigo 82, I do Código de
Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) (STJ - AgInt no AGRAVO EM
RECURSO ESPECIAL Nº 583640 - RJ (2014/0238079-0)”.No mesmo
sentido, citam-se: REsp 984.005/PE, Rel. Min. Teori Albino Zavascki,
Primeira Turma, julgado em 13.9.2011, DJe de 26.10.2011). Incidência da
Súmula 83/STJ" (STJ, AgRg no AREsp 255.845/SP, Rel. Ministro
HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, DJe de 10/08/2015). No
mesmo sentido: STJ, AgInt nos EDcl no REsp 1.469.295/PR, Rel. Ministro
NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, Rel. p/ acórdão Ministra REGINA
HELENA COSTA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 17/12/2021; EDcl no AgInt
no REsp 1.707.597/ES, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA
TURMA, DJe de 04/11/2021; AgInt no AREsp 222.660/MS, Rel. Ministro
GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 19/12/2017”. Ademais,
há a Súmula 643 do Supremo Tribunal Federal, Súmula 601 do Superior
Tribunal de Justiça, conjugadas com Lei 7.437/85, art. 1º, II c.c. art. 5º, I. A
resposta do espelho possui quantidade de linhas superior ao disponibilizado
ao candidato, apenas para melhor compreensão das justificativas e bases
normativas, jurisprudenciais e doutrinárias das respostas apresentadas
como ideais pelo examinador.
c) Partindo-se da premissa que o órgão do Ministério Público recebeua
denúncia mencionada e terá instaurado o procedimento de investigação
cabível, poderá se valer dos meios resolutivos e consensuais à disposição
ou, na impossibilidade ou não cabimento desses, na interposição de
medidas judiciais. Extrajudicialmente, poderá buscar se valer da expedição
de Recomendação, bem como de Termo de Ajustamento de Conduta (no
qual poderá tentar entabular cláusulas prevendo os pontos que serão
expostos a seguir, informados na descrição de possível ACP). Poderá
ajuizar Ação Civil Pública com obrigações de fazer e não fazer, tais como
fornecer o serviço adequadamente, com qualidade, de forma ininterrupta e
nos termos dos contratos firmados e normas de regência do serviço de
telefonia; devolver os valores cobrados indevidamente; abster-se de novas
cobranças ilegais e abusivas; pode-se postular a abstenção e impedimento
de venda de novas linhas até que o serviço esteja completamente de acordo
com a qualidade do serviço devido, bem como que seja regularizada a
questão da cobrança dos valores corretos; entre outros. Pode-se postular a
inversão do ônus da prova, conforme assentado na jurisprudência
brasileira. Poderá postular pagamento de indenização a título de danos
materiais e, ainda, por dano moral coletivo (precedentes do STJ), conforme
preceitua o art. 22 e parágrafo único, do CDC.
0,50
GRUPO V - QUESTÃO 4
Após investigações na área do Patrimônio Público, a Promotoria de Justiça concluiu
que três empresas, por meio de seus representantes, juntamente com três agentes
públicos da comissão permanente de licitação e o secretário municipal de obras,
conluiados de forma consciente e ajustados, fraudaram o processo licitatório por meio
de combinação prévia de preços. O prefeito, na condição de gestor e ordenador de
despesas, assinou o contrato sem que se comprovasse sua participação no esquema
prévio que direcionou a licitação. Apurou-se que a empresa vencedora, por ocasião da
execução do contrato, por meio de utilização de material de qualidade inferior e diverso
do especificado na proposta da licitação, bem como pela não realização de todos os
serviços necessários e devidos, obteve um lucro muito superior ao previsto, somente
possibilitado em razão de tais circunstâncias. Constatou-se, também, que os produtos
e serviços foram atestados falsamente como corretos pelos dois agentes
públicos responsáveis pela fiscalização da execução do contrato e, assim, o
pagamento foi devidamente realizado a cada etapa da obra. Por meio de técnicas de
investigação e utilização de cautelares criminais, verificou-se que a empresa vencedora
em tela chegou a repassar a familiares dos agentes públicos acima identificados e do
66
secretário determinadas quantias em valores pecuniários. Desses familiares, dois
repassaram os valores diretamente aos envolvidos e três concederam aos agentes
públicos e secretário mencionados procurações com amplos poderes para gerir suas
contas e administrar seus bens. O patrimônio dos agentes públicos investigados se
mostrou totalmente incompatível com seus vencimentos. Foram obtidas provas da
utilização de bens e produtos adquiridos ou registrados em nome dos familiares pelos
agentes públicos e secretário. Por fim, restou demonstrado que, além dos sócios da
empresa vencedora, o esquema todo contou com a participação consciente e ativa de
seu gerente e de seu contador. Diante da narrativa em tela e lembrando que todas as
questões devem ser fundamentadas segundo a legislação, doutrina e jurisprudência,
responda: (*considerar que as medidas no âmbito criminal já estão sendo ou foram
adotadas pelo órgão de execução):
(Valor da questão: 3,5 pontos)
a. Quais ilegalidades e tipos ilícitos podem estar caracterizados, relacionando-os
individualmente a cada uma das pessoas físicas e jurídicas acima identificadas?
(1,50 ponto)
b. Quais medidas extrajudiciais e judiciais podem e devem ser empreendidas pelo
órgão de execução do Ministério Público, uma vez concluída a investigação? (2,00
pontos)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 60 linhas.
Resposta Ideal
Pontuação
máxima
a) O enunciado descreve caso de articulação para a prática de corrupção,
com possibilidade de algumas tipificações ilícitas. Considerando que as
implicações criminais não são objeto da questão (conforme salientado no
enunciado), a ideia da pergunta é focar na Lei de Improbidade
Administrativa (Lei 8.429/92) e Lei Anticorrupção (Lei 12.846/13). É
importante destacar que nada obstante as alterações na Lei de Improbidade
Administrativa encetarem para tipificação única para cada ato (art. 17, § 10-
D), tem-se a possibilidade de ocorrência de várias condutas e, assim, várias
tipificações. Ademais, há a possibilidade de tipificações subsidiárias. Para
a avaliação do candidato, por não se tratar de peça jurídica, torna-se
relevante verificar seu conhecimento sobre as tipificações possíveis ao
caso. Individualizando a atuação dos envolvidos, pode-se traçar a seguinte
definição de condutas e tipificações: 1. Pessoas jurídicas que atuaram de
forma fraudulenta na licitação: infringência da Lei Anticorrupção, já que as
pessoas jurídicas podem ser responsabilizadas, inclusive objetivamente,
nos âmbitos administrativo e civil, pelos atos lesivos previstos nessa Lei,
seja em seu interesse ou benefício, exclusivo ou não e, ainda, podem ser
responsabilizadas independentemente da responsabilização individual das
pessoas naturais, tais como seus dirigentes, administradoras ou qualquer
pessoa autora, coautora ou partícipe do ato ilícito. O art. 5º da LAC prevê
como atos lesivos à administração pública todos aqueles praticados pelas
pessoas jurídicas mencionadas no parágrafo único do art. 1º, que atentem
contra o patrimônio público nacional ou estrangeiro, contra princípios da
administração pública ou contra os compromissos internacionais assumidos
pelo Brasil. Como o enunciado não fala se houve na entabulação da fraude
de combinação de preços um ajuste de propina (vantagens indevidas),
pode-se tipificar a conduta no art. 5º, "a" e "d". 2. Pessoa jurídica vencedora
da licitação: além da tipificação especificada no item anterior, em razão do
conluio na licitação, eis que foi demonstrado que atuou na fraude na
execução do contrato, propiciando dano ao erário, além de pagamento de
propina a agentes públicos. Assim, pela LAC, pode incidir no disposto no
art. 5º, I, II, IV, "d". Mas e a questão do dano ao erário? Afinal, houve grande
prejuízo ao poder público. Neste caso, as condutas de utilização de material
de qualidade inferior e diverso do especificado na proposta da licitação, bem
como a não realização de todos os serviços necessários e devidos, deve
incidir no art. 10, "caput" e inciso I. Isso porque o disposto na Lei 12.846,
art. 5º, IV, “f” não denota necessariamente o caso em tela e, ainda, há a
incidência da especialidade da narrativa típica. Há discussões jurídicas;
1,50
67
então, caso apresentadas pelo candidato, serão consideradas. Apesar da
alteração da Lei de Improbidade Administrativa pela Lei 14.230/21,
inserindo o art. 3º, § 2º, dispondo que as sanções da LIA não se aplicam à
pessoa jurídica caso o ato de improbidade também seja sancionado como
ato lesivo pela LAC, é importante o candidato mencionar que, no caso em
tela, aplica-se a Lei de Improbidade Administrativa. Tanto que a própria Lei
de Improbidade Administrativa, em seu art. 12, § 3º, ao tratar das sanções,
destaca que" na responsabilização da pessoa jurídica, deverão ser
considerados os efeitos econômicos e sociais das sanções, de modo a
viabilizar a manutenção de suas atividades". Ou seja, a própria Lei de
Improbidade Administrativa prevê responsabilização de pessoas jurídicas;
apenas veda que seja sancionada duas vezes pela mesma conduta, caso
seja enquadrada em dois tipos ao mesmo tempo, ou seja, uma da Lei de
Improbidade Administrativa e outra da Lei Anticorrupção.591, de 06 de julho de 1992; Artigo 23, IX e X, do artigo 30, VIII. e do artigo 182, da
Constituição Federal; Artigo 4º, III, f, e do artigo 44 da Lei 10.257/2001 (Estatuto das Cidades);
Lei Federal 13.465, de 2017 (REURB); Artigo 48, parágrafo único, da Lei Complementar n.
101/2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal); Lei 11.124/2005.
GRUPO I – QUESTÃO 6
A Câmara de Vereadores de determinado Município de Mato Grosso do Sul iniciou
tramitação de projeto de lei municipal que estabelece normas de vedação ao acesso a
cargos em comissão do Poder Executivo, quando caracterizada a prática de nepotismo.
O referido projeto de lei foi questionado pelo Prefeito do Município com base no art. 61,
§1o, inciso II, alínea “c” da Constituição Federal. Diante do caso exposto, argumente a
quem assiste razão, ao Poder Legislativo ou ao Executivo do Município. A resposta deve
ser fundamentada em entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o tema.
(Valor da questão: 1,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O vício formal de iniciativa “se relaciona com o sujeito que tem
competência ou legitimidade para iniciar/deflagrar o processo. Um exemplo
de inconstitucionalidade formal subjetiva é o caso de um deputado ou um
0,50
6
senador apresentar um projeto de lei dando início ao processo legislativo
sobre matéria de competência privativa (exclusiva) do Presidente da
República, previsto no art. 61, § 1º, da CF88. (...)”4. Cumpre destacar que a
previsão do §1º do art. 61 da CF tem aplicabilidade ao caso pelo princípio da
simetria.
b) O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE nº 570.392, com
incidência de repercussão geral que determinou: “Não é privativa do Chefe
do Poder Executivo a competência para iniciativa legislativa de lei sobre
nepotismo na Administração Pública: leis com esse conteúdo normativo dão
concretude aos princípios da moralidade e da impessoalidade do art. 37
cpaut, da Constituição Federal, que, ademais, têm aplicabilidade imediata,
ou seja, independente de lei”.
“Ao retirar o tema nepotismo da previsão do artigo 61 da CF/88 e alça-lo à
égide do artigo 37, o Supremo Tribunal Federal definiu que a vedação ao
nepotismo decorre da interpretação dos princípios da Administração Pública
e que não é dado a qualquer ente da administração desrespeitar os preceitos
constitucionais sobre o tema. Assim, a tese deve permanecer hígida e
orientar todas as esferas da administração, não havendo mais o que se
discutir a respeito de eventual iniciativa legislativa para edição de lei que trate
da proibição ao nepotismo.” 5
0,50
c) Merece destaque que o referido projeto de lei, além de norteado em
princípios constitucionais inegociáveis, encontra amparo na Súmula
Vinculante nº 13.
0,50
Referência:
4 FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional, 6ª Ed., p. 1.085
5 PUGLIESE, William Soares. Teses jurídicas dos Tribunais Superiores: Direito 5
Constitucional 1 / Clêmerson Merlin Clève e Pedro Henrique Galotti Klenicke, coordenação.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017.
GRUPO II – DIREITO PENAL
GRUPO II – QUESTÃO 1
Sulpício Tarquinius tem 35 anos e reside com a esposa e seus quatro filhos na cidade
de Goiânia/GO. Não possui qualquer passagem criminal. Deprimido por ter sido
demitido do trabalho em razão da contenção de gastos do empregador e com diversas
dívidas, foi procurado por um indivíduo conhecido como Zé Cannabis. Referido
indivíduo lhe propôs para que se dirigisse até uma das cidades do Mato Grosso do Sul,
que faz divisa com o Paraguai, a fim de que buscasse uma “mercadoria para fins
medicinais” e, com ela, retornasse até a origem. Para tanto, lhe ofereceu o pagamento
de R$ 2.000,00 (dois mil reais), que seria pago quando finalizasse o serviço. De tal modo,
Zé Cannabis entregou a Sulpício as passagens de ônibus e lhe passou as coordenadas
do que deveria ser feito, assim como declinou as características físicas da pessoa que
faria a entrega da dita mercadoria e demais recomendações. E assim foi feito. Ao
desembarcar na cidade fronteiriça, Sulpício Tarquinius recebeu uma mala que pesava
aproximadamente 30 kg, além da passagem de retorno até Goiânia/GO. Sem conferir o
conteúdo, aguardou naquela cidade o horário do ônibus de volta. No trajeto de volta,
ainda no estado do Mato Grosso do Sul, o ônibus foi abordado pela equipe do
Departamento de Operações de Fronteira (DOF), azo em que constatou que Sulpício
Tarquinius transportava consigo cerca de 30 kg de maconha. Encaminhado para a
Delegacia de Polícia local, a autoridade policial, após ouvir a versão do autuado, que
corresponde ao contexto narrado, efetua a lavratura do auto de prisão em flagrante e
indicia Tarquinius como incurso no art. 33 § 4º da Lei 11.343/06 (Lei de Drogas), ou seja,
tráfico privilegiado. Registre-se que o Delegado de Polícia fundamentou o indiciamento
diante da versão apresentada pelo autor e, ainda, destacou o fato de ser ação
corriqueira naquela região do Estado. Outrossim, indicou precedentes recentes do
7
Poder Judiciário, que dão amparo ao seu posicionamento. O caso foi levado a(o)
Promotor(a) de Justiça Substituto(a), que recém assumiu a comarca fronteiriça para
análise. Diante da situação apresentada, responda: (Valor da questão: 1,5 ponto)
a. É correta a capitulação apontada pela autoridade policial? Fundamente. (0,25 ponto).
b. É possível afirmar que, hodiernamente, passou a ser reconhecido a figura do crime
propriamente dito de tráfico privilegiado? Fundamente. (0,25 ponto).
c. À luz da jurisprudência dos Tribunais Superiores, tráfico privilegiado deve ser
considerado crime equiparado a hediondo? Discorra sobre as razões que levaram
ao posicionamento jurisprudencial e aponte as consequências jurídicas correlatas.
(0,50 ponto).
d. Discorra sobre o delito tráfico privilegiado e a (in)compatibilidade com os mandados
constitucionais de criminalização, concluindo com seu posicionamento,
devidamente fundamentado. (0,50 ponto).
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30
Resposta Ideal Pontuação
máxima
ITEM A:
- afirmar o erro da autoridade policial;
- fundamento legal e jurisprudencial;
- capitulação correta do crime narrado na questão.
a) É correta a capitulação apontada pela autoridade policial?
Fundamente. (0,25 ponto).
A autoridade policial laborou em equívoco, na capitulação do indiciamento
do autor. Ninguém comete o crime do art. 33 § 4º. Comete-se o crime do art.
33, caput, ou de seu § 1º, ainda que, na terceira fase da aplicação da pena,
o agente seja beneficiado pela diminuição de pena prevista no § 4º.
Ainda que o crime tenha sido praticado na região de fronteira com o
Paraguai, o enredo não apontou evidências para afirmar a ocorrência da
transnacionalidade, prevista no art. 40, inciso I da Lei 11.343/06.
Todavia, a situação enseja na majorante prevista no art. 40, inciso V, qual
seja, tráfico interestadual. E assim deverá ser considerado "ainda que não
tenha haviado a efetiva transposição de fronteiras entre estados da
Federação, sendo suficiente a demonstração inequívoca da intenção de
realizar o tráfico interestadual", a teor da Súmula 587 do STJ.
Desse modo, a capitulação consentânea com o caso concreto é a de que
Tarquinius deveria ser indiciado como incurso no art. 33, caput, c/c art. 40,
inciso V da Lei 11343/06, consignando que o reconhecimento da minorante
prevista no § 4º trata-se de matéria probatória a ser explorada durante a
persecução probatória.
0,25
ITEM B:
- afirmar a impossibilidade do reconhecimento do tráfico privilegiado;
- apresentar os fundamentos doutrinários e jurisprudenciais.
b) É possível afirmar que, hodiernamente, passou a ser reconhecido a
figura do crime propriamente dito de tráfico privilegiado? Fundamente.
(0,25 ponto).
O “tráfico privilegiado”, assim denominado pela incidência das circunstânciasComo bem
assevera o professor Landolfo Andrade de Souza, "prova disso é que a Lei
14.230/2021 também incluiu o § 7º no art. 12 da LIA, para dispor que as
sanções aplicadas a pessoas jurídicas com base na LIA e na LAE deverão
observar o princípio constitucional do non bis in idem" (...)" - ANDRADE,
LANDOLFO. A aplicação subsidiária da Lei de Improbidade Administrativa
às pessoas jurídicas: a necessária releitura do artigo 30, I, da Lei
12.846/2013. GENJURÍDICO, 2022. Disponível em: Acesso em: 1º de
fevereiro de 2023. 3.Representantes legais das pessoas jurídicas atuantes
na licitação fraudulenta que favoreceram a empresa vencedora: os
representantes legais, uma vez demonstrado o elemento volitivo doloso
para a improbidade, responderão por infringência ao art. 11, inciso V, da Lei
de Improbidade Administrativa. Caso tenham recebido vantagem
econômica, também estarão passíveis de serem responsabilizados pelo art.
9º, caput, e inciso II. 4.Agentes públicos da CPL (Comissão Permanente de
Licitação): a atuação dos agentes da CPF foi conluiada com o Secretário de
Obras e com os representantes das empresas. Desta forma, houve a fraude
que ensejou o vencimento do certame por uma delas, a qual passou a ser
responsável pelo contrato. Em razão da constatação de recebimento de
propina para esse ajuste, cabível a incidência do art. 9º, I e II. Havendo
prova de que havia prévio conhecimento de que a vencedora iria propiciar
dano ao erário, também há a incidência do art. 10, caput (aqui vale informar
que há a discussão jurisprudencial sobre o dano in re ipsa e a mudança na
Lei de Improbidade Administrativa). Como não há no enunciado esse
detalhamento, será considerado caso o candidato tenha destacada a
hipótese. Ademais, há clara incidência do art. 11, V, da Lei de Improbidade
Administrativa. 5.Secretário de Obras: sua atuação ocorreu tanto para a
fraude à licitação, como para ocorrência de fraude na execução do contrato,
onde houve o enriquecimento ilícito por parte da empresa vencedora e
seu(s) represente(s) legal(is). Ademais, restou comprovado o recebimento
de propina. Deste modo, é cabível a incidência do art. 9º, caput, incisos I,
II, IX e X; art. 10, caput e incisos I, VIII, XII e art. 11, V, todos da Lei de
Improbidade Administrativa. 6.Agentes públicos fiscais da execução do
contrato: como restou comprovado o recebimento de propina pelos
envolvidos, bem como que estes atuaram para que houvesse a fraude na
execução do contrato, com dano ao erário e enriquecimento ilícito por parte
da empresa vencedora e seu(s) represente(s) legal(is), é possível a
incidência do art. 9º, caput e incisos VI, IX e X, bem como art. 10, caput, e
inciso XII da Lei de Improbidade Administrativa. 7.Familiares dos agentes
públicos e do Secretário de Obras: nada obstante serem passíveis de
responsabilizações na seara criminal (como, por exemplo, na Lei de
Lavagem de Dinheiro), a responsabilização de improbidade administrativa
exige a comprovação do elemento subjetivo do tipo de improbidade e
atuação (conduta volitiva) para que ela ocorra (art. 3º, caput). No caso, a
descrição aponta para um conluio dos familiares, auxiliando no esquema do
fluxo da propina do agente privado (empresa vencedora) para os agentes
públicos. Somente se houver demonstração da consciência de que tais
condutas e sua inserção na engrenagem para ocorrência dos atos ilícitos,
poderá haver suas responsabilizações. Assim, esse tópico será aberto para
verificação da digressão do candidato. 8.Gerente e contador da empresa
68
vencedora: não há informação no enunciado de que estes obtiveram
dinheiro para os atos praticados. Caso seja comprovado, é possível a
incidência da tipificação do art. 9º e alguns de seus incisos, da LIA. Sendo
preciso ao enunciado, suas atuações, dolosas, contribuíram para o dano ao
erário, porquanto cientes do prejuízo que estavam a causar aos cofres
públicos quando orquestraram a fraude à licitação e à execução do contrato
com a má qualidade dos produtos e falta do serviço devido. Não incide, pois,
o disposto no art. 3º, § 1º. Assim, podem responder pelo disposto no art. 10,
caput, VIII, XII c.c. art. 3º da LIA. 9.Por fim, como não houve qualquer
comprovação de atuação do prefeito municipal nas fraudes descritas, ele
não pode ser responsabilizado apenas por ser o gestor, lembrando-se que
os atos de improbidade administrativas somente são puníveis quando a
conduta do agente é dolosa (art. 1º, §§ 1º e 2º). Eventuais citações às
infrações da Lei 14.133/21, a título de fundamentação, serão consideradas.
Mas não há sua exigência. Vale destacar, por fim, que não foram
questionadas as implicações criminais e, assim, eventuais apontamentos
demonstrarão falta de atenção e impropriedade a serem consideradas na
avaliação. A resposta do espelho, vale destacar, assim como nas demais
questões da prova, possui quantidade de linhas superior ao disponibilizado
ao candidato, apenas para melhor compreensão das justificativas e bases
normativas, jurisprudenciais e doutrinárias das respostas apresentadas
como ideais pelo examinador.
b) Partindo-se da premissa que houve o término das investigações e,
constatadas as ilegalidades destacadas no item anterior, o Ministério
Público pode empreender as seguintes medidas:
1.Postular perante o Poder Judiciário o compartilhamento de provas da
esfera criminal (cautelares criminais citadas no enunciado) para a esfera
cível, conforme preceitua o art. 372 do Código de Processo Civil e
precedentes do STF e STJ). Exemplos: STF- Inq 3305 AgR, Relator(a): Min.
MARCO AURÉLIO, Relator(a) p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO,
Primeira Turma, julgado em 23/02/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-
137 DIVULG 30-06-2016 PUBLIC 01-07-2016. STJ - REsp 1122177/MT,
Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em
03/08/2010, DJe 27/04/2011). STJ - AgInt no AREsp 1333528/SP, Rel.
Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em
19/08/2019, DJe 22/08/2019.
2.Postular judicialmente a indisponibilidade dos bens e valores dos
envolvidos, nos termos do art. 16 da Lei 8.429/92.
3.Também é possível postular o afastamento dos agentes públicos (agentes
e Secretário de Obras), se a medida se mostrar necessária à instrução
processual e/ou para evitar a iminente prática de novos ilícitos (Lei 8.429/92,
art. 20, § 1º).
4.Pode-se, nos casos em que se mostrarem cabíveis e autorizados pela
norma, haver a proposta de acordo de não persecução cível extrajudicial
(ANPC) aos envolvidos, nos termos do art. 17-A da Lei de Improbidade
Administrativa e Resolução 3/2021-CPJ do MPMS.
5.Frente às pessoas jurídicas, pode ser celebrado o acordo de leniência (Lei
Anticorrupção, Capítulo V). Contudo, em razão de discussões na
jurisprudência acerca da legitimidade do Ministério Público, a
recomendação é que seja celebrado conjuntamente pelos demais
legitimados estampados na norma citada. Essa interpretação tem sido
disposta em atenção ao disposto no art. 129, IX, da Constituição Federal;
art. 5º, § 6º, da Lei 7.347/85; art. 26 da Convenção de Palermo; art. 37 da
Convenção de Mérida; art. 3º, § 2º e § 3º do Código de Processo Civil, art.
840 e 932, III, do Código Civil; art. 16 a 21 da Lei 12.846/12 e Lei 13.140/15.
No Ministério Público de Mato Grosso do Sul, tem-se a Resolução
006/2019-CPJ. No sentido da possibilidade do acordo pelo Ministério
Público: Tribunal Regional Federal da 1ª Região (Quarta Turma). AI
0019619- 52.2017.4.01.0000/GO. Relator: Desembargador Federal Olindo
Menezes. Julgado em 20.8.2019, publicado em 5 set. 2019. Ainda: Tribunal
Regional Federal da 4ª Região. Agravo de Instrumento 5023972-
66.2017.4.04.0000. Terceira Turma, Relatora Desembargadora Vânia Hack
de Almeida, DJe 24.8.2017 (aqui, afirmando a legitimidade, mas
2,00
69
condicionando à atuação conjunta de outros órgãos). Também afirma a
legitimidade do Ministério Público: ATHAYDE, Amanda. Manual dos
Acordos de Leniência no Brasil: Teoria e Prática. BeloHorizonte: Editora
Fórum, 2019, p. 258–26. Como a questão ainda é discutida, referidos
apontamentos precisam ser enfrentados pelo candidato.
6.Frente às pessoas jurídicas, pode haver ajuizamento de ação com vistas
à aplicação de sanções previstas na Lei Anticorrupção (art. 19).
7.Frente às pessoas jurídicas, também podem ser requeridas medidas de
indisponibilidade de bens, direitos e valores necessários à garantida do
pagamento de multa ou da reparação integral do dano (Lei Anticorrupção,
art. 19, § 4º).
8.É possível o ajuizamento de ação para responsabilização por ato de
improbidade administrativa (LIA art. 17) aos envolvidos cujo ANPC não se
mostrar legalmente cabível ou, ainda, aos que não aceitarem sua
celebração.
9.Pode-se ajuizar Ação Civil Pública (Lei 7.437/85) frente à questão da
execução do contrato, com eventual pedido de suspensão e/ou nulidade,
caso ainda seja pertinente, conveniente e cabível.
GRUPO V - QUESTÃO 5
Chegou à Promotoria de Justiça informação de que um casal, por entender que o ensino
praticado nas escolas de seu município seria de baixa qualidade e por não concordar
com algumas exposições feitas em sala de aula pelo corpo docente da escola de seu
filho, resolveu não renovar a matrícula, tirando-o da unidade escolar. Assim, os
responsáveis legais da criança passaram, por conta própria, a promover os estudos do
filho, em espécie de ensino domiciliar particular, valendo-se de livros didáticos
utilizados em outras escolas não existentes em sua localidade e por eles adquiridos na
internet. Essa conduta dos responsáveis legais da criança encontra amparo na
legislação e no sistema jurídico brasileiro? Fundamente.
(Valor da questão: 0,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal
Pontuação
máxima
a) A Constituição Federal estabelece em seu art. 229 o dever dos pais em
educar os filhos menores. O Código Civil, no art. 1.634, inciso I, regra que
compete a ambos os pais, quanto aos filhos, dirigir-lhe a criação e a
educação. O Estatuto da Criança e do Adolescente, via art. 22, determina
incumbir aos pais a educação dos filhos menores. Nada obstante os
dispositivos acima destacarem os deveres dos pais na educação dos filhos
menores, o Supremo Tribunal Federal decidiu não haver direito público
subjetivo da criança ou de sua família ao ensino domiciliar, porquanto não
existente na legislação brasileira (Repercussão Geral, Tema 822: “Recurso
Extraordinário em que se discute, à luz dos arts. 205, 206, 210, 214 e 229,
da Constituição Federal, a possibilidade de o ensino domiciliar
(homeschooling) ser proibido pelo Estado ou viabilizado como meio lícito de
cumprimento, pela família, do dever de prover educação”). Assim,
pronunciou-se o Supremo Tribunal Federal: “1. A educação é um direito
fundamental relacionado à dignidade da pessoa humana e à própria
cidadania, pois exerce dupla função: de um lado, qualifica a comunidade
como um todo, tornando-a esclarecida, politizada, desenvolvida
(CIDADANIA); de outro, dignifica o indivíduo, verdadeiro titular desse direito
subjetivo fundamental (DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA). No caso da
educação básica obrigatória (CF, art. 208, I), os titulares desse direito
indisponível à educação são as crianças e adolescentes em idade
escolar. 2. É dever da família, sociedade e Estado assegurar à criança,
ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, a educação. A
Constituição Federal consagrou o dever de solidariedade entre a família e
o Estado como núcleo principal à formação educacional das crianças,
0,50
70
jovens e adolescentes com a dupla finalidade de defesa integral dos direitos
das crianças e dos adolescentes e sua formação em cidadania, para que o
Brasil possa vencer o grande desafio de uma educação melhor para as
novas gerações, imprescindível para os países que se querem ver
desenvolvidos. 3. A Constituição Federal não veda de forma absoluta o
ensino domiciliar, mas proíbe qualquer de suas espécies que não respeite
o dever de solidariedade entre a família e o Estado como núcleo principal à
formação educacional das crianças, jovens e adolescentes. São
inconstitucionais, portanto, as espécies de unschooling radical
(desescolarização radical), unschooling moderado (desescolarização
moderada) e homeschooling puro, em qualquer de suas variações. 4. O
ensino domiciliar não é um direito público subjetivo do aluno ou de sua
família, porém não é vedada constitucionalmente sua criação por meio de
lei federal, editada pelo Congresso Nacional, na modalidade “utilitarista” ou
“por conveniência circunstancial”, desde que se cumpra a obrigatoriedade,
de 4 a 17 anos, e se respeite o dever solidário Família/Estado, o núcleo
básico de matérias acadêmicas, a supervisão, avaliação e fiscalização pelo
Poder Público; bem como as demais previsões impostas diretamente pelo
texto constitucional, inclusive no tocante às finalidades e objetivos do
ensino; em especial, evitar a evasão escolar e garantir a socialização do
indivíduo, por meio de ampla convivência familiar e comunitária (CF, art.
227)”. A Constituição Federal, art. 208, firma que “o dever do Estado com a
educação será efetivado mediante a garantia de: I - educação básica
obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade,
assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram
acesso na idade própria”. Vale lembrar que a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (Lei 9.394/96), em seu art. 6º, estabelece que “é dever
dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula das crianças na educação
básica a partir dos 4 (quatro) anos de idade”. O Estatuto da Criança e do
Adolescente, no art. 54, reza: “Art. 54. É dever do Estado assegurar à
criança e ao adolescente: I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito,
inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria.” Por fim,
uma vez instados a cumprirem a obrigação da inserção do filho na escola,
caso não a cumpram, além da aplicação de medidas protetivas pelas
autoridades competentes (ECA, ART. 101, II) em razão da constatação de
situação de risco (ECA, art. 98), os pais estão sujeitos a medidas de
responsabilização (art. 208, I), como prevê o art. 249 do ECA ou art. 246 do
Código Penal (mas essa medida penal não será cobrada na avaliação desta
prova ante a especialidade da matéria exigida).
GRUPO V - QUESTÃO 6
Chegou à Promotoria de Justiça representação elaborada por uma organização social a
qual relata diversas violações ao sistema normativo de proteção da pessoa com
deficiência. Entre outras alegações, aponta que as obras que estão sendo realizadas no
município não atendem diversos aspectos e mandamentos das normas de
acessibilidade. Informa também que há licitações em andamento, sem que haja a devida
observação dos regramentos relativos à acessibilidade. Diante dos referidos
apontamentos, após investigações, foram confirmadas algumas violações às normas
aplicáveis aos casos. Lembrando que as respostas devem sempre ser fundamentadas
na legislação, nas normas do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, na doutrina e
jurisprudência, ante o exposto, responda:
(Valor da questão: 1,0 ponto)
a. Quais normas incidem e quais situações podem denotar ofensa à acessibilidade de
pessoas com deficiência decorrente de obras públicas, a ensejar medidas por parte
do Ministério Público para a correção das situações evidenciadas? (0,25 ponto)
b. Quais são os instrumentos procedimentais e jurídicos passíveis de serem
utilizados? (0,25 ponto)
c. Há possibilidade de responsabilização e, se for possível, qual(is) seria(m) e em que
casos? (0,50 ponto)
71
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal
Pontuação
máxima
a) A questão de acessibilidade exposta na questão é centrada em obras
realizadas no município, tanto as que estão em andamento comoas que
são objeto de processos licitatórios. Deste modo, além de dispositivos da
Constituição Federal (tais como art. 1º, II e III; art. 3º, I; art. 5º; art. 6; art. 23,
II; art. 227, § 2º e art. 244), deve-se verificar se as situações encontradas
estão a violar os dispositivos da Lei 10.048/200 e Lei de Acessibilidade (Lei
10.098/2000) e suas implicações, porquanto essa Lei apresenta diversos
aspectos que as obras do município devem observar. Também os
parâmetros do Decreto 5.296/2004 e Decreto 9.451/18 podem e devem ser
observados. Também devem ser observadas as disposições sobre
acessibilidade contidas no Estatuto das Cidades (Lei 10.257/2001). Outra
norma a ser utilizada é o Estatuto da Pessoa com Deficiência ou Lei
Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), a qual
possui amplo arcabouço de disposições e diretivas a serem considerados,
inclusive sobre questões de acessibilidade e obras. A Lei 14.133/21 (nova
Lei de Licitações e Contratos), em seu art. 6º, inciso XXIV, alínea “e”, prevê
que haja, no termo de referência, “parâmetros de adequação ao interesse
público, de economia na utilização, de facilidade na execução, de impacto
ambiental e de acessibilidade” e, ainda, no art. 45, VI, dispõe
expressamente que “as licitações de obras e serviços de engenharia devem
respeitar, especialmente, as normas relativas a: acessibilidade para
pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida.” Caso a licitação
ainda esteja sob a égide da Lei 8.666/93, há o disposto em seu art. 66-A,
quanto ao dever de cumprir na execução do contrato as regras de
acessibilidades previstas na legislação. No Mato Grosso do Sul, há a Lei
Estadual nº 4.314/2013, bem com o Decreto nº 10.015/2000.
0,25
b) No caso, tratando-se de atuação do Ministério Público, poderá ser
instaurado procedimento de investigação (procedimento preparatório ou
inquérito civil) tanto para coleta das informações como para alicerce das
medidas, visando estabelecer o cumprimento das normas de acessibilidade
das obras, bem como para eventuais medidas de responsabilização.
Poderá realizar audiência pública para coleta de dados. Constatadas as
irregularidades, o Ministério Público poderá expedir Recomendação,
celebrar Termo de Ajustamento de Conduta ou ingressar com ações
judiciais (Lei 7.347/87 e Lei 7.853/89), com obrigações de fazer (cumprir os
ditames legais) e não fazer (abster-se do descumprimento como, por
exemplo, cessar eventual procedimento licitatório ou obra em andamento,
até que haja sua correção; entre outros). STJ: “é cabível a ação civil pública
que objetiva obrigação de fazer a fim de garantir acessibilidade nos prédios
públicos e privados às pessoas com deficiência, assim como há interesse
de agir do Ministério Público para tanto” (AgInt no Resp 1.563.459/SE. J.
03.08.2017; REsp 987.208/SP, j. 16.04.2009; REsp 1.270.420/MG, j.
15.05.2017). Caso constate necessidade de acompanhamento das políticas
públicas, poderá instaurar um Procedimento Administrativo (Res. 005/2012-
CPJ-MPMS). Importante lembrar que a resposta deve ter relação com o
caso prático do enunciado. Instrumentos genéricos e fora do contexto serão
considerados negativamente (como em todas as questões da prova).
0,25
c) Pode haver responsabilização do poder público, de particulares e de
agentes públicos. A referente ao poder público está em boa parte
considerada no item “b”. As violações da Lei 14.133/21 (Lei de Licitações e
Contratos), além das demais normas citadas no item “a”, devem ser
consideradas. Caso haja demonstração de que a conduta dos responsáveis
foi dolosa ou culposa, medidas de responsabilização podem ser encetadas.
Caso se constate dano ao erário (por exemplo, com necessidade de
alteração de obras e custos adicionais) em razão da conduta dolosa ou
culposa, também podem ser cobrados os valores do prejuízo ao patrimônio
público dos agentes e/ou particulares envolvidos, conforme prevê a Lei de
Ação Civil Pública (Lei 7.347/85). Ainda, a situação, conforme vasta
0,50
72
jurisprudência, pode ensejar postulação de reparação por dano moral
coletivo/social. Pode haver, conforme o caso e análise das condutas
(dolosas), eventual responsabilização pela prática de atos de improbidade
administrativa, nos termos da Lei 8.429/92 (mas considerar a exigência do
dolo). Não se exigirá na resposta, por se tratar de avaliação de direitos
difusos, os apontamentos sobre responsabilização na seara criminal, como
as previstas no art. 8º da Lei 7.853/89, nem as concernentes a
responsabilização por crimes em licitações e contratos, previstos no Código
Penal pela Lei 14.133/21.
GRUPO VI: DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO ELEITORAL E DIREITO
INSTITUCIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO
GRUPO VI - QUESTÃO 1
Sobre o tema Abuso de Poder e suas consequências eleitorais, o doutrinador José Jairo
Gomes ensina: “Preocupou-se o Legislador com os efeitos deletérios que a influência
e o uso abusivo de poder podem exercer no processo eleitoral. Daí a criação de um
conjunto próprio de normas com o fito de proteger ‘a normalidade e legitimidade das
eleições’, notadamente ‘contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício
de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.” (GOMES, José Jairo.
Direito Eleitoral. 18. ed. Editora Gen/Atlas. p. 755).
Discorra sobre o referido tema, sem deixar de abordar as seguintes modalidades de
abuso de poder: econômico, político, midiático e religioso.
(Valor da questão: 1,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) Discorrer de forma ampla sobre “Abuso de Poder” como o uso não correto
de direito, situação ou posição jurídico-social com o objetivo de exercer
indevida influência sobre o processo eleitoral, o que pode ocorrer pelo
cerceamento da liberdade política dos eleitores, manipulação de suas
consciências políticas ou indução de suas escolhas. Jurisprudência.
Gravidade e relevância do abuso. Previsão Constitucional (art. 14, § 9º).
0,30
b) Abuso de Poder Econômico: ação ou omissão que revele mau uso de
recurso, estrutura, situação jurídica ou direito patrimoniais em proveito ou
detrimento de candidaturas. Artigos 14, § 9º da Constituição Federal, 237,
caput, do Código Eleitoral, 19 e 22 da Lei Complementar nº 64/1990, Lei
9.504/97.
0,30
c) Abuso de Poder Político: forma de abuso de poder de autoridade
praticado por autoridade pública. Desvirtuamento de ações desenvolvidas
por agentes públicos no exercício de suas funções com o objetivo de
influenciar o voto e influenciar o comportamento do eleitor. Artigos 14, § 9º
da Constituição Federal, 237, caput, do Código Eleitoral, 19 e 22 da Lei
Complementar nº 64/1990, Lei 9.504/97.
0,30
d) Abuso de Poder Midiático: o desvirtuamento de ações desenvolvidas nos
meios de comunicação social revelado por atuação ostensiva ou velada
para influenciar a vontade política do eleitor. Exposição excessiva de
caráter positivo ou negativo. Resolução nº 23.714/2022 do Tribunal Superior
Eleitoral (combate à desinformação eleitoral) Artigo 22 da Lei
Complementar nº 64/1990, Lei 9.504/97.
0,30
e) Abuso de Poder Religioso: entendido como a realização de discursos,
prática de atos, cessão de espaços e estruturas relacionadas ao culto e à
expressão da fé que são corrompidos com o objetivo de manipular a tomada
de decisão do eleitor. Artigo 22 da Lei Complementar nº 64/1990, Lei
9.504/97, Interpretação Jurisprudencial.
0,30
Referência:
GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. Editora Atlas;
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral, Editora Del Rey;
ZILIO, Rodrigo Lopes. Direito Eleitoral. Editora JusPodivm.
73
GRUPO VI - QUESTÃO 2
Recente inovação legislativa introduziu a chamada Federação Partidária no direito
eleitoral brasileiro. Discorra sobre o conceito, a finalidade e os principais pontos do
instituto, apresentando comparação com outrasfiguras similares, além de sua
interpretação jurisprudencial.
(Valor da questão: 1,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O conceito do instituto está previsto na Lei 14.208.2021 que introduziu o
art. 11-A na Lei dos Partidos Políticos, é necessário apontar seus principais
pontos;
Discorrer sobre a finalidade das Federações Partidárias, principalmente o
fato de terem surgido para ocupar o espaço que surgiu após o término das
coligações no sistema proporcional, sua interferência positiva na
manutenção das agremiações com menor representatividade, em face da
regra que prevê um aumento progressivo dos critérios de cláusula de
desempenho (art. 3º da E.C. nº 97/2017.
0,50
b) Paralelo com as coligações partidárias, em especial o tempo de duração,
sistema de abrangência e espaço de incidência dos dois institutos.
0,50
c) Jurisprudência – ADI 7021/DF e Regra de Transição, Princípios da
Isonomia, Segurança Jurídica e Efetividade da Norma (31/5/2022).
0,50
Referência:
GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. Editora Atlas;
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral, Editora Del Rey;
ZILIO, Rodrigo Lopes. Direito Eleitoral. Editora JusPodivm.
GRUPO VI - QUESTÃO 3
A Lei Complementar nº 135/2010 – Lei da Ficha Limpa trouxe o prazo de 8 (oito) anos de
inelegibilidade para os casos de condenações por abuso de poder. O prazo anterior era
de 3 (três) anos e estava expresso na redação original da Lei Complementar nº 64/1990
(artigo 1º, I, “d”). Discorra de forma fundamentada, inclusive com amparo
jurisprudencial, sobre o instituto da inelegibilidade e a possibilidade, ou não, da
aplicação do prazo previsto na LC nº 135/2010 aos casos de condenação que
antecederam ao ingresso de referido dispositivo legal no ordenamento jurídico pátrio.
(Valor da questão: 1,0 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O instituto da inelegibilidade, entendido como requisito negativo de
elegibilidade fundado em fatos, condutas ou circunstâncias previstas na
Constituição Federal ou em lei complementar que impedem, por
determinado tempo ou sob certas condições, o exercício da capacidade
eleitoral passiva com o objetivo de proteger a normalidade e a legitimidade
das eleições contra o abuso de poder e a moralidade e probidade
administrativa para o exercício do mandato. Artigo 14, § 9º da Constituição
Federal.
0,30
74
b) O prazo de inelegibilidade a ser aplicado na situação apresentada é o de
8 anos trazido pela Lei da Ficha Limpa. Fundamentar a resposta citando as
Ações Declaratórias de Constitucionalidade nº 29, 30 e Recurso
Extraordinário 929.670 do Supremo Tribunal Federal. Abordar a não
violação da coisa julgada, os princípios da isonomia, soberania popular e
irretroatividade
0,70
Referência:
GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. Editora Atlas;
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral, Editora Del Rey;
ZILIO, Rodrigo Lopes. Direito Eleitoral. Editora JusPodivm.
GRUPO VI - QUESTÃO 4
“O controle judicial constitui, juntamente com o princípio da legalidade, um dos
fundamentos em que repousa o Estado de Direito. De nada adiantaria sujeitar-se a
Administração Pública à lei se seus atos não pudessem ser controlados por um órgão
dotado de garantias de imparcialidade que permitam apreciar e invalidar os atos ilícitos
por ela praticados”. Essa é a lição de Maria Sylvia Zanella Di Pietro (Direito
Administrativo, 35. ed., Editora Forense). Discorra a respeito do Controle Judicial da
Administração Pública, em especial sobre políticas públicas e atuação do Ministério
Público.
(Valor da questão: 2,0 pontos)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O princípio da legalidade como ponto de partida da opção a ser feita pelo
administrador público e da análise do Poder Judiciário.
0,20
b) Discricionariedade administrativa: limites e possibilidade ou não de
discricionariedade do administrador público na escolha de diferentes
opções e o mérito do ato, entendido como campo de liberdade suposto na
lei e que efetivamente venha a remanescer no caso concreto.
0,30
c) Risco do fenômeno do ativismo judicial como indevida interferência nos
demais poderes e os limites da intervenção judicial, considerando as
premissas aqui colocadas.
0,30
d) Abordar o desvio de poder, entendido como o manejo de uma
competência em descompasso com a finalidade em vista da qual foi
instituída.
0,20
e) Reserva do possível e o mínimo existencial (núcleo essencial dos direitos
fundamentais) a ser resguardado pelo Judiciário;
0,20
f) Estado de coisas inconstitucional entendido como uma técnica decisória
para a superação de situações de violações graves e sistemáticas dos
direitos fundamentais, exigindo a participação coordenada de diferentes
atores sociais.
0,40
g) Atuação do Ministério Público como garantidor dos direitos fundamentais,
em especial diante da omissão estatal, e seu papel em relação às políticas
públicas que não deve se limitar a um mero controlador da legalidade, mas
que participa de forma ativa das decisões governamentais. O Ministério
Público como agente de transformação social. Meios: Audiências Públicas,
Recomendações e Termos de Ajustamento de Conduta, Inquéritos Civis e
demais procedimentos administrativos, acordo de não persecução cível e
Ações Civis Públicas, por exemplo.
0,40
Referência:
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. Editora Forense;
OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Curso de Direito Administrativo. Editora Forense;
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. Editora Malheiros.
75
GRUPO VI - QUESTÃO 5
Celso Antônio Bandeira de Mello leciona: “Através da Constituição e das leis os
cidadãos recebem uma série de direitos. Cumpre, todavia, que o seu exercício seja
compatível com o bem-estar social. Em suma, é necessário que o uso da liberdade e da
propriedade esteja entrosado com a utilidade coletiva, de tal modo que não implique
uma barreira capaz de obstar à realização dos objetivos públicos.” (Curso de Direito
Administrativo, 23. ed., Editora Malheiros, p. 788). Discorra sobre o tema Poder de
Polícia, expondo seu conceito, características, fundamentos e limites.
(Valor da questão: 1,0 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) Conceito: Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello, Poder de Polícia,
em seu sentido amplo (abrangendo atos do Legislativo e do Executivo),
pode ser conceituado como a atividade estatal de condicionar a liberdade e
a propriedade, ajustando-as aos interesses coletivos. Em seu sentido
estrito, relaciona-se com as intervenções gerais e abstratas, como os
regulamentos, concretas e específicas (autorizações, licenças), que obstam
o desenvolvimento de atividades particulares contrastantes com os
interesses sociais.
Já a doutrinadora Maria Sylvia Zanella Di Pietro conceitua poder de polícia
como a atividade do Estado consistente em limitar o exercício dos direitos
individuais em benefício do interesse público. Artigo 78 do Código Tributário
Nacional.
0,20
b) Características:
Discricionariedade: a lei pode deixar certa margem de liberdade de
apreciação quanto a determinados elementos, como o motivo ou o objeto.
Assim, no caso concreto, a Administração terá que decidir qual é o melhor
momento de agir.
Autoexecutoriedade: é a possibilidade que tem a Administração de, com os
próprios meios, pôr em execução as suas decisões, sem precisar recorrer
ao Poder Judiciário.
Coercibilidade: para o particular a decisão administrativa é obrigatória,
admitindo o emprego de força estatal para o seu cumprimento.
Mencionar e explicarcada uma das características.
0,20
c) Fundamentos: A supremacia do interesse público sobre o interesse
privado (manutenção da ordem pública) e, em razão da constitucionalização
do Direito Administrativo, também deve ser considerado como fundamento
do poder de polícia a promoção e a proteção dos direitos fundamentais
(Marçal Justen Filho e Rafael Carvalho Rezende Oliveira).
0,30
d) Limites: aqueles previstos em lei, quanto à competência, à forma, aos
fins, aos motivos e ao objeto, observância das regras da proporcionalidade
entre meios e fins, da necessidade e da eficácia. De acordo com Márcio
Fernando Elias Rosa, o exercício do poder de polícia encontra seus limites
em seu próprio fundamento, qual seja, condicionar o exercício de direitos
individuais em benefício do interesse da coletividade.
0,30
Referência:
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. Editora Forense;
OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Curso de Direito Administrativo. Editora Forense;
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. Editora Malheiros;
ROSA, Márcio Fernando Elias. Direito Administrativo. Editora Saraiva.
76
GRUPO VI - QUESTÃO 6
Discorra sobre o Conflito de Atribuições entre membros do Ministério Público e suas
possibilidades de solução conforme os ramos ministeriais a que pertencerem os
envolvidos.
(Valor da questão: 1,0 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 30 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) O conflito de atribuições entre membros do mesmo Ministério Público
Estadual é decidido pelo Procurador-Geral de Justiça. Artigo 10 da Lei
8.625/93.
0,10
b) O conflito entre membros do Ministério Público Federal é decidido pela
Câmara de Coordenação e Revisão com recurso ao Procurador-Geral da
República. Artigo 62 e 49, VIII da LC 75/93.
0,10
c) O conflito entre membro de um dos ramos do Ministério Público da União
e membro de outro ramo do Ministério Público da União é decidido pelo
Procurador-Geral da República. Artigo 26, VII da LC 75/93.
0,10
d) O conflito entre membro de Ministério Público Estadual e membro do
Ministério Público Federal é decidido pelo Conselho Nacional do Ministério
Público.
0,10
e) O conflito entre membro de Ministério Público de um Estado e de membro
de outro Ministério Público Estadual é decidido pelo Conselho Nacional do
Ministério Público.
0,10
f) Citar a evolução do entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o
tema quando envolver membros de diferentes Ministérios Públicos dos
Estados e membro de Ministério Público Estadual e membro do Ministério
Público Federal. STF, plenário, ACO 843/SP, julgado em 05/06/2020.
0,30
g) Fundamentos da virada de entendimento do STF sobre o tema: O
Procurador-Geral da República seria parte interessada na solução da
demanda, uma vez que acumula a chefia do Ministério Público da União e
do Ministério Público Federal.
0,10
h) Uma interpretação sistemática dos preceitos constitucionais do Ministério
Público revela a competência do Conselho Nacional do Ministério Público
para dirimir essa hipótese de conflito de atribuição, com fundamento no
artigo 130-A, § 2º e incisos I e II, da Constituição Federal considerando o
controle de legalidade das ações administrativas dos membros e órgãos
dos diferentes ramos do Ministério Público.
0,10
Referência:
MOREIRA ALVES, Leonardo Barreto e ZENKNER, Marcelo. Ministério Público – LEI 8.625/93.
Editora JusPodivm;
CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Vade Mecum de Jurisprudência Dizer o Direito 2022.
Editora JusPodivm.
GRUPO VI - QUESTÃO 7
Discorra sobre a atuação resolutiva do Ministério Público e sua importância para o
cumprimento eficiente de seu papel constitucional
(Valor da questão: 2,0 pontos)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 50 linhas.
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (arts. 127 e
129) consagrou dois modelos de Ministério Público, o que atua perante o
Judiciário, objetivando geralmente a tutela por adjudicação, e o que atua
extrajudicialmente como intermediador da pacificação social, visando
normalmente à resolução consensual dos conflitos, controvérsias e
0,30
77
problemas. É necessária uma revisitação da atuação jurisdicional do
Ministério Público (abandonar o simples demandismo), de modo a buscar a
proatividade e a resolutividade da Instituição e, ao mesmo tempo, evitar a
propositura de demandas judiciais em relação às quais a resolução
extrajudicial é a mais indicada.
b) É insuficiente a divisão da atuação do Ministério Público somente com
arrimo na base territorial das comarcas, é necessária a implementação de
Promotorias Regionais, principalmente para atuar em ilícitos ou danos a
direitos fundamentais de dimensão regional, estadual ou nacional, assim
como para que possam atuar no acompanhamento e na fiscalização da
implementação de políticas públicas efetivadoras dos direitos fundamentais.
0,20
c) A adequação da independência funcional do órgão do Ministério Público
ao planejamento funcional estratégico da Instituição.
0,30
d) O papel do Conselho Nacional do Ministério Público na implementação
de um Parquet de perfil resolutivo.
0,30
e) Adoção de práticas institucionais que contribuam para a transformação
da realidade social, realização de palestras e a utilização dos projetos
sociais como novos mecanismos de atuação da Instituição.
0,20
f) Capacidade de articulação política, mediação de demandas sociais,
capacidade de diálogo e consenso e priorização da atuação preventiva. De
acordo com o doutrinador Marcelo Pedroso Goulart, o Ministério Público
deve enxergar o Estado como espaço de universalização dos direitos
fundamentais e fiscalizar/cobrar a implementação de políticas públicas.
Atuação não de mero tutor da sociedade, mas como parceiro dos demais
sujeitos políticos.
0,20
g) Realização periódica de audiências públicas, utilização de instrumentos
como termo de ajustamento de conduta, acordos de não persecução e
arquivamento resolutivo sempre que for a medida mais adequada.
0,20
h) Priorizar a atuação em tutela coletiva e avaliar se a atuação individual
não desestabilizará as políticas públicas sobre a matéria.
0,30
Referência:
GOULART, Marcelo Pedroso e DE ALMEIDA, Gregório Assagra. Elementos para uma Teoria
Geral do Ministério Público. Editora D´Plácido;
MAZZILLI, Hugo Nigro. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo.
Carta de Brasília. Aprovada no 7º Congresso de Gestão do CNMP.
Recomendação nº 54/2017 do CNMP.
Recomendação nº 2/2018 da Corregedoria Nacional – CNMP.estabelecidas no § 4º do art. 33 da Lei nº 11343/06, não se revela como tipo
penal específico, não possuindo existência jurídica autônoma, pois as
condutas típicas estão prévias no caput e no § 1º daquela norma. Não se
está diante de um tipo penal novo em relação ao crime de tráfico de drogas.
Não há um tipo penal derivado, mas a incidência de uma causa de diminuição
de pena sobre o tipo penal básico. Em outras palavras, o §4º não é norma
incriminadora, não descreve comportamentos a serem punidos, sendo
apenas uma causa de diminuição de pena. Portanto, haja ou não a sua
incidência, o que se pune é a conduta estabelecida no caput ou no § 1º, é
este comportamento descrito que materializa o dever de proteção
constitucional.
0,25
8
Ressalte-se que a terminologia “tráfico privilegiado” é uma terminologia dada
pela jurisprudência.
ITEM C:
- afirmar que o tráfico privilegiado não é tido como hediondo, conforme
julgado STF (HC 118533/MS);
- apresentação das razões do novo entendimento, com as respectivas
consequências jurídicas;
- mencionar o cancelamento da Súmula 512 do STJ.
c) À luz da jurisprudência dos Tribunais Superiores, tráfico privilegiado
deve ser considerado crime equiparado a hediondo? Discorra sobre as
razões que levaram ao posicionamento jurisprudencial e aponte as
consequências jurídicas correlatas (0,50 ponto).
No âmbito do STF, no julgamento do Habeas Corpus 118533/MS (Rel. Min.
Cármen Lúcia, Tribunal Pleno, julgado em 23/06/2016), a maioria dos
Ministros votou pela descaracterização da hediondez do “tráfico privilegiado”,
a alterar, assim, toda a dinâmica jurídico processual dos delitos cometidos
nessas circunstâncias, notadamente o lapso temporal para progressão de
regime de penas e de livramento condicional. No referido julgamento,
entendeu-se que que a modalidade privilegiada apresentaria “contornos mais
benignos, menos gravosos, notadamente porque são revelados o
envolvimento ocasional do agente com o delito, a não reincidência, a
ausência de maus antecedentes e a inexistência de vínculo com organização
criminosa. Ressalte-se que, enquanto hediondo, o “tráfico privilegiado”
pressupunha o cumprimento de 2/5 (se o agente for primário) ou 3/5 (se
reincidente) para ter direito a progressão de regime prisional, e, para
livramento condicional, 2/3 (se não for reincidente específico); se afastada a
hediondez, a progressão do regime prisional passaria a ser de 1/6 (como
todo crime comum) e, para livramento condicional, 1/3 (se primário e bons
antecedentes) e 1/2 (se reincidente). Portanto, o referido julgamento alterou
de forma significativa os paradigmas para concessão dos benefícios para
condenados por crime de “tráfico privilegiado”.
Em decorrência desse julgamento, a Terceira Seção cancelou a Súmula 512
do STJ, que estabelecia que “a aplicação da causa de diminuição de pena
prevista no art. 33, § 4º, da Lei no 11343/2006, não afasta a hediondez do
crime de tráfico de drogas”.
Assinalou-se que, ainda que o julgamento não guarde efeito vinculante e
eficácia erga omnes, a fim de observar os princípios da segurança jurídica,
da proteção da confiança e da isonomia, assim como de evitar a prolação de
decisões contraditórias nas instâncias ordinárias e também no âmbito do
STJ, a temática foi revisada sob o rito dos recursos repetitivos (Rerc
1.329.088/RS – Tema 600).
A decisão proferida no HC 118533 criou uma outra categoria de delito.
Limitou-se a afastar a hediondez do tráfico de drogas privilegiado apenas
para que não fosse aplicado o regime mais severo do livramento condicional
(art. 44, parágrafo único da Lei no11343/06) e progressão de regime (art. 2º
§ 2º da Lei no 8072/90), mantendo, no entanto, a inafiançabilidade, a graça
e a anistia. Ou seja, haveria então o crime hediondo, o crime não hediondo
e o “tráfico privilegiado” – não hediondo, mas inafiançável e insuscetível de
graça, indulto ou anistia.
0,50
ITEM D:
- conceituar mandado constitucional de criminalização;
- afirmar a supremacia da CF e incompatibilidade do legislador ordinário de
conferir tratamento mais benigno ao tráfico de drogas;
- apontar os princípios constitucionais envolvidos;
- críticas do candidato ao atual entendimento jurisprudencial, apontando as
consequências correlatas.
d) Discorra sobre o delito tráfico privilegiado e a (in)compatibilidade
com os mandados constitucionais de criminalização, concluindo com
seu posicionamento, devidamente fundamentado. (0,50 ponto).
0,50
9
O art. 5º, inciso XLIII da CF estabelece que “a lei considerará crimes
inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática de tortura, o tráfico
ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como
crimes hediondos, por ele respondendo os mandantes, os executores e os
que, podendo evitá-los, se omitirem”.
A utilizar da expressão “considerará”, o legislador constituinte estabeleceu
verdadeiro mandamento ao legislador ordinário, ordem a ele por ele
obedecida dada a supremacia da Carta Magna. A própria Constituição
Federal, de forma clara e precisa, confere o caráter hediondo ao tráfico de
drogas, não cumpre ao intérprete negá-lo. A expressão “e os definidos como
crimes hediondos” é tão somente norma de extensão a fim de possibilitar a
integração de outras modalidades delitivas a serem estabelecidas pelo
legislador ordinário, ao tratamento constitucionalmente diferenciado
destinado de forma expressa à tortura, ao tráfico de drogas e ao terrorismo.
Essa norma constitucional, inserida na moldura estabelecida com a inclusão
do art. 5º da CF, revela uma ordem expressa do legislador ordinário para que
mantenha a equiparação do tráfico ilícito de entorpecentes aos crimes
hediondos e lhe confira tratamento penal mais rigoroso aos demais delitos.
O que a CF exige, por força dos mandados, é um standart mínimo de tutela,
certamente vinculado àquelas agressões mais repulsivas ao objeto de tutela
que ela, a Constituição, predefiniu como merecedores de proteção jurídico
penal. Pelo fato de o mandado de criminalização compor o sistema objetivo
de proteção dos direitos fundamentais, tem-se que o próprio constituinte
originário estabeleceu o sopesamento prévio entre o principio da proibição
de excesso e da proteção penal eficiente, a ensejar maior restrição ao status
negativo do infrator e a propiciar maior frente ao status positivo ocupado pela
sociedade na relação jurídica ilustrada. A cumprir o dever de proteção
constitucional imposto, o legislador ordinário manteve a equiparação do
tráfico ilícito de entorpecentes aos crimes hediondos na Lei no 8072/1990 e
dele tratou especificamente na Lei no 11343/06.
De outro lado, a crítica que se faz a respeito do posicionamento vigente é a
de que uma causa de diminuição de pena não pode descaracterizar o tráfico
como crime hediondo. Tal interpretação gera desproteção social. O chamado
tráfico ilícito de drogas “privilegiado” não deixa de ser tráfico ilícito de drogas
em função da incidência do redutor de pena em foco. A incidência do § 4º é
encontrada apenas na fundamentação da dosimetria da pena.
Embora o precedente do Supremo Tribunal Federal, o denominado “tráfico
privilegiado” continua a ser equiparado aos crimes hediondos por expressa
ordem do constituinte originário, em atenção ao princípio da proteção penal
eficiente por ele observado a se submeter ao mesmo rigorismo penal imposto
aos demais delitos que se inserem nessa categoria e as vedações
expressamente estabelecidas no inciso XLIII, do art. 5º, norma que compõe
o eixo estrutural da Constituição.
Referência:
NETO, Aluisio Antonio Maciel. Liberdades, garantias e direitos sociais: aplicação da
proporcionalidade nos conflitos penais e sociais. Editorial Juruá, 2020.
Supremo Tribunal Federal – HC 118533/MS.
Superior Tribunal de Justiça – Jurisprudência em tese (Lei de Drogas).
GRUPO II – QUESTÃO 2
Qual é o significado da expressão “DireitoPenal Moderno”? Justifique e exemplifique.
(Valor da questão: 0,75 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 15
Resposta Ideal Pontuação
máxima
10
a) ORIGEM E CONCEITO: Segundo as lições de Edgardo Alberto Donna, o
chamado Direito Penal Moderno se encontra com um fenômeno quantitativo
que tem seu desenvolvimento na parte especial. Não há código que nos
últimos anos não haja aumentado o catálogo de delitos, com novos tipos
penais, novas leis especiais e uma forte agravação das penas. Possui como
característica mais marcante a forma de atuar, absolutamente, preventiva,
ou seja, antecipando a resposta penal antes da afetação a qualquer bem
jurídico ou mesmo da colocação dos mesmos em estado periclicitante.
Portanto, o Estado tutela, preventivamente, por meio do direito penal, o
suposto bem jurídico coletivo que teria sido afetado, ou que estaria em vias
de sê-lo. Com isso, há uma progressiva expansão do significado de bem
jurídico, estabelecendo pressupostos preventivos contra novos riscos.
0,25
b) CARACTERÍSTICAS: forma de atuar, absolutamente, preventiva, ou seja,
antecipando a resposta penal antes da afetação a qualquer bem jurídico ou
mesmo da colocação dos mesmos em estado periclicitante. Portanto, o
Estado tutela, preventivamente, por meio do direito penal, o suposto bem
jurídico coletivo que teria sido afetado, ou que estaria em vias de sê-lo. Com
isso, há uma progressiva expansão do significado de bem jurídico,
estabelecendo pressupostos preventivos contra novos riscos.
0,25
c) EXEMPLOS: aumento do rol dos crimes de perigo abstrato, delitos
econômicos, crime organizado, direito penal ambiental, terrorismo, mudança
de tratamento do criminoso, enxergando-o como um inimigo, aumento de
proteção a bens jurídicos abstratos, como a saúde pública, crimes
cibernéticos e outros.
CRÍTICA A TEORIA: Pontua Rogério Greco que o Direito Penal Moderno segue
as orientações político criminais de um direito penal máximo, deixando de
lado, muitas vezes, as garantias penais e processuais penais, sob o falso
argumento de defesa da sociedade.
0,25
Referência:
GRECO, Rogério. Direito Penal do Equilíbrio: uma visão minimalista do Direito Penal. 11ª
ed. Niterói, RJ: Impetus, 2020, p. 36.
DONNA, Edgardo Alberto. Derecho Penal - Parte general. Tomo I, p. 63-64.
GRUPO II – QUESTÃO 3
Ensina Claus Roxin que o Direito Penal tem como missão a proteção dos bens jurídicos
mais importantes de uma sociedade (A proteção de bens jurídicos como função do
Direito Penal). Já Jakobs sustenta que, numa perspectiva funcionalista, busca-se a
preservação da norma (Fundamentos do Direito Penal). Tendo em vista essas balizas, a
conduta criminosa deve ser coibida e punida por critérios técnicos desenvolvidos pela
dogmática jurídica para a realização de justiça, com parâmetros de proporcionalidade.
Ademais, ao mesmo tempo em que é dever do Estado evitar a impunidade, também deve
se evitar os excessos pelos agentes que interpretam a lei. Por isso, há a previsão de
penas mais severas para crimes dolosos, com imposição de sanções penais mais
severas, porquanto representa um maior perigo à sociedade. Dado esse contexto e, com
base nas concepções doutrinárias, o(a) candidato(a) deverá:
(Valor da questão: 2 pontos)
a. Apresentar conceitos e fundamentos das posições normativas e cognitivas para a
aferição do dolo/ culpa do agente; (0,5 ponto)
b. Responder se é possível afirmar que existe “Dolo sem vontade”, justificando seu
posicionamento. (0,5 ponto)
c. Caso hipotético: Trânsito. Agente, após sair de uma festa, embriagado, entra em seu
automóvel e passa a dirigir em alta velocidade. Adentra em uma estrada federal, local
em que, ao perder o controle do veículo, invade a contramão de direção e colide em
um veículo, produzindo a morte do motorista deste. O condutor do veículo alega ser
“acidente de trânsito”.
Remetido o persecutório ao Promotor(a) de Justiça Substituto(a) para análise. Dado
o caso prático, o candidato(a) deverá responder:
Quais são os parâmetros que devem ser utilizados para aferição da responsabilidade
do agente, indicando a teoria a ser adotada? Fundamente. (0,5 ponto)
11
d. Caso o entendimento seja pela caracterização de homicídio pelo dolo eventual, é
possível afirmar que há compatibilidade com a modalidade qualificada?
Fundamente. (0,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40
Resposta Ideal Pontuação
máxima
ITEM A:
- conceitos da posição cognitiva e normativa de dolo, com seus respectivos
fundamentos;
- estabelecer o paralelo entre a concepção psicológica de dolo e as posições
normativas e cognitivas.
a) Apresentar conceitos e fundamentos das posições normativas e
cognitivas para a aferição do dolo/ culpa do agente; (0,5 ponto)
A posição psicológica de dolo, que adota a teoria da vontade para o dolo
direto e a teoria do consentimento para o dolo eventual, recebe duras críticas
de uma linha doutrinária que defende uma concepção cognitiva e normativa
de dolo. Segundo Fernando Palma, o Direito Penal não pode abrir mão de um
critério de intencionalidade ao tratar do dolo. A questão envolvendo o dolo há
uma questão específica lógica de “aceitação de riscos”, que acaba sendo
equiparada à “pura intencionalidade”.
Nesse contexto, a posição cognitiva de dolo traz para análise a ideia de risco
e probabilidade.
Se o agente tem o conhecimento do risco que sua conduta representa – e
isso é resultado de uma máxima de experiência pela qual qualquer pessoa
normal naquela circunstância teria noção – e age, deve ser punido a título de
dolo. Dizer simplesmente, em caso de dolo eventual, que o agente “aceitou o
resultado” – algo que somente é extraído pela análise de sua conduta no caso
concreto -, é buscar uma justificativa para a punição mais gravosa. Não é
necessária a suposta equiparação. Assim, defende-se que o dolo é
representado pelo próprio perigo concreto que a conduta possui.
Em outro sentido, a posição normativa, defendida por Jakobs, afirma que os
atos arriscados em gerar resultado incorre na “aprovação em sentido jurídico”.
Puppe afirma que não há como se esperar outra análise que não a normativa
para essa definição, pois, no sentido meramente psicológico de dolo, “se a
aprovação fosse compreendida em tal sentido literal, apenas os criminosos
por convicção agiriam dolosamente”. Com isso, atribui-se a normatização do
elemento volitivo do de dolo, de maneira a importar a representação do
agente, que pratica a conduta arriscada, visando atingir o resultado. Assim,
afasta-se a concepção psicológica.
0,50
ITEM B:
- afirmar a existência do “Dolo sem vontade”;
- fundamentação conforme os ensinamentos de Luís Greco que aduz que “o
querer é extraído da conduta do agente, tratando-se de uma questão de
interpretação”.
- deverá o candidato desenvolver os fundamentos fáticos-jurídicos da doutrina
citada.
b) Responder se é possível afirmar que existe “Dolo sem vontade”,
justificando seu posicionamento. (0,5 ponto)
Sim, a doutrina reconhece a existência do Dolo sem vontade.
Segundo Luís Greco, o “querer” é extraído da conduta do agente. Trata-se de
uma questão de interpretação. Consiste em um juízo de valor que recai sobre
a conduta e em que há uma conclusão: com essa conduta o agente “quis” o
resultado. O “assumir o risco” de produção do resultado é arriscar-se de tal
forma que a conclusão leva a ideia de “querer” (aceitar, admitir) o resultado
lesivo. Na realidade, a conclusão seria de que o agente teve “vontade”, o
“propósito”, a “intenção” de praticar o crime e produzir o resultado proibido
pela norma penal.
O conhecimento (saber), aspecto intelectual, é essencial para a configuração
do dolo, pois é a partir dele que o agente poderá determinar o seu agir.
0,50
12
Conhecendo o risco do resultado lesivo, o sujeito ativo pode decidir entre
intentar ou não a conduta. Somente a partirdele pode o agente tomar uma
decisão apta à criação de um perigo doloso. Lado outro, se o autor não
representa o resultado, não lhe pode ser atribuída a responsabilidade, pois
não há consciência das consequências de sua atuação. Portanto, para a
formação do elemento cognitivo, são necessárias a consciência do risco de
lesão, a idoneidade do meio e a probabilidade do resultado. A consequência
que depende do fortuito só pode ser imputada a título de culpa.
Justifica-se o posicionamento em razão de o Direito Penal não poder cegar a
essa definição a partir daquilo que o agente vai externar ao admitir, ou não,
que queria ou assumiu o risco de gerar o resultado. Seria um grande passo
para gerar a impunidade de crimes graves.
ITEM C:
- afirmar que o agente deverá responder por homicídio doloso, na modalidade
eventual;
- refutar a autodefesa e proceder a análise dos dados apresentados no caso
proposto no enunciado;
- concluir pelo risco extremo da conduta e elevada probabilidade de dar causa
ao resultado morte;
- apontamentos da doutrina e jurisprudência.
c) Caso hipotético: Trânsito. Agente, após sair de uma festa,
embriagado, entra em seu automóvel e passa a dirigir em alta
velocidade. Adentra em uma estrada federal, local em que, ao perder
o controle do veículo, invade a contramão de direção e colide em um
veículo, produzindo a morte do motorista deste. O condutor do
veículo alega ser “acidente de trânsito”.
Remetido o persecutório ao Promotor(a) de Justiça Substituto(a)
para análise. Dado o caso prático, o candidato(a) deverá responder:
Quais são os parâmetros que devem ser utilizados para aferição da
responsabilidade do agente, indicando a teoria a ser adotada?
Fundamente. (0,5 ponto)
O agente deverá responder por homicídio doloso, na modalidade eventual.
Muito embora o condutor tenha alegado mero “acidente de trânsito”,
caracterizado pela “ausência de vontade” de causar o resultado morte, o
contexto fático apresentado autoriza a conclusão que o agente assumiu o
risco efetivo de produzir o resultado.
A imputação atribuída ao agente não resultou a aplicação aleatória do dolo
eventual. Indicou-se, com efeito, as circunstâncias especiais do caso,
notadamente a embriaguez, o excesso de velocidade e a perda do controle
do veículo, indicando a falta de respeito ou indiferença para com o resultado
lesivo.
Ressalte-se que a negação do autuado sobre a “assunção” do resultado, não
é suficiente para acolher a versão apresentada. Isso porque, o que define se
o resultado pode ser atribuído a título de dolo não é a vontade psicológica,
mas o conhecimento – o conhecimento que permite ao agente dominar o que
está realizando. No caso telado, vê-se que o somatório de fatores,
representaram um risco extremo da conduta, consistente em dirigir
embriagado, e em alta velocidade, sem qualquer controle do veículo, em uma
estrada movimentada, fatores que geraram uma elevadíssima probabilidade
de dar causa a uma colisão com resultado “morte”, o que, ao fim e ao cabo,
independe da vontade do agente.
Por fim, consigne-se que, em crimes de trânsito, a ocorrência de dolo é
possível, desde que estejam presentes elementos que indiquem a presença
do dolo eventual pela análise da conduta arriscada do agente e o grau de
probabilidade de produção do resultado.
A doutrina e jurisprudência, em grande parte, adota a teoria da vontade no
cenário brasileiro, na medida em que o consentimento é extraído pela opção
de prosseguir na conduta arriscada, somado à indiferença do agente quanto
ao resultado (STF, HC 124687/MS, Min. Luís Roberto Barroso). Contudo,
adverte Schlle Gomes que como “não há como adentrar na mente do autor
do delito”, buscando em seu ato o “consentimento” em relação ao resultado,
0,50
13
nada mais do que um jogo retórico e pouco científico para analisar e assumir
a necessidade de adoção de uma concepção cognitiva de dolo na esteira da
posição defendida por Puppe, Herzberg, ou Jakobs.
ITEM D:
- afirmar a possibilidade do reconhecimento das qualificadoras;
- mencionar a divergência na jurisprudência das cortes superiores;
- abordar a (im)possibilidade de denúncia de qualificadoras de natureza
subjetiva e objetiva, com as respectivas diferenciações e fundamentos;
- destacar que o reconhecimento ou afastamento caberá ao Tribunal do Júri.
d) Caso o entendimento seja pela caracterização de homicídio pelo dolo
eventual, é possível afirmar que há compatibilidade com a modalidade
qualificada? Fundamente. (0,5 ponto)
Sim. No caso versado, o agente, embriagado, que dirige em alta velocidade
e perde o controle do veículo, invadindo a contramão, provocando o resultado
morte de terceiro, vislumbra-se a prática de homicídio qualificado. Poderá
incidir as qualificadoras de ordem subjetiva e objetiva.
Contudo, registre-se que o entendimento das cortes superiores oscila a
respeito da compatibilidade ou incompatibilidade do dolo eventual no
homicídio com as qualificadoras. A despeito disso, é muito sedimentado, que
não há incompatibilidade entre o reconhecimento do dolo eventual e as
qualificadoras previstas no art. 121 do Código Penal, porquanto o juiz natural
da causa, Conselho de Sentença, é quem decidirá se a conduta é qualificada.
Quanto às qualificadoras de ordem subjetiva, embora existam julgados do
próprio STJ no sentido de que é inaplicável ao homicídio de trânsito cometido
mediante dolo eventual, é bom ter em mente que os princípios do juiz natural
da causa e da soberania dos vereditos sustentam denúncias e pronúncias
com essas qualificadoras, e só o plenário a questão deverá ser decidida
(AgRgResp 1831164, 5ª Turma STJ).
No que concerne às qualificadoras objetivas, a despeito da divergência
jurisprudencial, alinhamos a tese da compatibilidade. Isso porque as
qualificadoras serão devidas quando constatado que o autor delas se utilizou
dolosamente como meio ou como modo específico mais reprovável para agir
e alcançar outro resultado, mesmo sendo previsível e tendo admitido o
resultado morte. Com essas considerações, elege-se o posicionamento pela
compatibilidade, em tese, do dolo eventual também com as qualificadoras
objetivas (art. 121, § 2º, III e IV, do CP). AgRg no AgRg no RECURSO
ESPECIAL Nº 1836556 - PR (2019/0266545-4) RELATOR : MINISTRO JOEL
ILAN PACIORNIK).
Registre-se, por fim, que as autoridades incumbidas da investigação e
persecução penal não podem deixar de compreender que a ação do condutor
e a lesividade dos meios de execução ínsitos a esses delitos, podem
constituir-se como qualificadoras. Para tanto, deverá se atentar se as provas
produzidas permitem o enquadramento para a imputação penal, de maneira
que a decisão final sobre a (im)pertinência da circunstância compete ao
Tribunal do Júri.
0,50
Referência:
GOMES, Márcio Schlee. Dolo: cognição e risco: avanços teóricos. Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2019.
GOMES, Enéias Xavier. Dolo sem vontade psicológica: perspectivas de aplicação no
Brasil. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2017.
GRECO, Luís. Dolo sem vontade. In: Dias, Augusto Silva: em comemoração ao 70º
aniversário. Coimbra: Almedina, 2009.
GRUPO II – QUESTÃO 4
A Lei no14.132/2021 instituiu o art. 147-A ao Código Penal, para prever o crime de
perseguição, também conhecido como stalking e revogou o art. 65 da Lei das
Contravenções Penais, que anteriormente previa a contravenção de penal de
molestamento. Tendo em vista os referidos institutos, aponte a diferença entre ambos
e aborde a evolução da infração penal, ao longo do tempo, declinando exemplos.
(Valor da questão: 0,75 ponto).
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20
14
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) CONCEITO E ASPECTOS GERAIS DAS LEIS CITADAS:
Estamos diante de uma conduta proibida, que antes era disciplinada na LCP
e agora virou crime. Analisando a figura normativa, anteriormente, de maneira
mais simplória, assim descrevia o art.65 da LCP: “Molestar alguém ou
perturbar-lhe a tranquilidade, por acinte ou por motivo reprovável”. Agora, do
artigo 147-A, se extrai que o crime de stalking consiste em um crime habitual,
cuja conduta é de perseguir (perturbar, atormentar) alguém (homem ou
mulher). O § 1º dispõe sobre as causas de aumento de pena,
A palavra stalking deriva da tradução do verbo to stalk, que pode ser
entendido como ficar à espreita, vigiar, espiar.
A principal diferença está no esclarecimento expresso da necessidade de
reiteração de atos, e, sendo crime, o aumento de pena, quando se envolve
criança, adolescente, idoso, ou mulher, é um avanço importante, já que a
pena é aumentada pela metade.
0,15
b) CARACTERÍSTICAS E EXEMPLOS:
Percebe-se que o Brasil adotou um modelo parecido com o de outros países:
1. comportamento doloso e habitual, composto necessariamente por mais de
um ato de perseguição ou assédio à mesma vítima;
2. o motivo do autor para praticar a conduta é um interesse pessoal, como
admiração, crença, interesse relacional ou vingança;
3. a vítima, por conta da repetição, deve se sentir incomodada em sua
privacidade e/ou temerosa por sua segurança.
Outro ponto importante é que esse ato ilícito deve acontecer reiteradamente,
e por qualquer meio. Contudo, o meio utilizado deve ser individualizado, ou
seja, não basta copiar o tipo aberto, mas explicitar a maneira que essa
perturbação foi perpetrada. A ação nuclear, portanto, pode atingir a vítima de
3 formas:
- ameaçando sua integridade física ou psíquica;
- restringindo a capacidade de locomoção (148 – restringir em um cômodo é
outro crime - a pessoa não pode ir mais a lugares, pois vai encontrar com o
autor do stalking);
- invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade.
Trata-se de uma situação bastante comum após o desfecho de um
relacionamento amoroso, no qual uma das partes não se conforma com a
decisão tomada pela outra pessoa.
As condutas perpetradas pelo agente acometido pela síndrome
de stalking perfazem um contexto de perseguição, como, por exemplo:
inúmeras chamadas no celular, espera na saída do trabalho, envio de
presentes indesejados, como flores no trabalho da mulher, encontros
provocados para constranger a vítima, envio de mensagens no celular e
outras tantas formas inconvenientes de impor a presença refutada e agredir
psicologicamente a vítima, vai à sua casa ou trabalho sem ser chamada, usa
de diversos artifícios para o intimidar a não iniciar nova relação amorosa,
incorre no delito.
Outrossim, stalking pode ocorrer por intermédio da internet, caracterizando-
se o que se chama de cyberstalking. Na forma virtual, acontece com o envio
de mensagens eletrônicas, recados, convites insistentes ou ofensas e
perseguição nas redes sociais, na busca incessante de manter-se próximo
à vítima.
0,40
c) JURISPRUDÊNCIA STJ:
Outra questão que merece análise é: o art. 147-A do CP revogou o art. 65
da LCP? Segundo o STJ (AgRg no HC 680738/DF), o crime de stalking não
afasta tipificação de perturbação da tranquilidade e, portanto, não significa
que tenha ocorrido a abolitio criminis (extinção do delito) em relação a todos
os fatos que estavam enquadrados na referida infração penal. A esse
fenômeno dá-se o nome de continuidade normativo típica.
0,20
Referência:
Disponível em: https://www.dizerodireito.com.br/2021/04/lei-141322021-institui-o-crime-
de.html. Acesso em: 14 mar. 2023.
15
Disponível em: https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2021/04/01/lei-14-13221-
insere-no-codigo-penal-o-art-147-para-tipificar-o-crime-de-perseguicao/. Acesso em: 14 mar.
2023.
Superior Tribunal de Justiça: AgRg no HC 680738 / DF
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS
2021/0221831-2.
Ana Lara Camargo De Castro, Spencer Toth Sydow, STALKING E CYBERSTALKING
(2023).
GRUPO II – QUESTÃO 5
Quanto ao assunto self laundering, explique sobre a imputação simultânea, ao mesmo
réu, do delito antecedente e do crime de lavagem, e os requisitos necessários para que
não ocorra o fenômeno da consunção, segundo a orientação da Corte da Cidadania.
(Valor da questão: 1 ponto).
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 20
Resposta Ideal Pontuação
máxima
a) CONCEITO DE LAVAGEM E AUTOLAVAGEM:
o crime de lavagem de capitais tipifica exatamente a conduta de ocultar ou
dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou
propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou
indiretamente, de infração penal.
Embora a tipificação da lavagem de capitais dependa da existência de um
crime antecedente, a jurisprudência do STJ admite a possibilidade da
autolavagem, isto é, a imputação simultânea, ao mesmo réu, do delito
antecedente e do crime de lavagem, desde que sejam demonstrados atos
diversos e autônomos daquele que compõe a realização do primeiro crime,
circunstância em que não ocorrerá o fenômeno da consunção (AgRg no HC
120936/RN, APn 940/DF, APn 923/DF, APn 856/DF).
0,20
b) EXPLICAR O PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO E FAZER O PARALELO COM O CRIME DE
LAVAGEM DE DINHEIRO:
como sabido, o princípio da consunção é aplicável aos casos em que um
crime serve como meio necessário ou de preparação para outro. Segundo
assentou-se, se a lavagem de dinheiro é feita por meio de atos diversos dos
que compõem o crime antecedente, é possível imputar ao réu também a
prática de autolavagem, hipótese em que não ocorre o fenômeno da
consunção.
- MENCIONAR A MUDANÇA VINDA COM A LEI NO 12683/12 E ASPECTOS GERAIS DA
CONVENÇÃO DE PALERMO:
Ressalte-se que a Lei no 12683/2012, passou a prever que toda e qualquer
infração que gere valores, direitos ou bens podem se constituir como delito
antecedente ao crime de lavagem de dinheiro. Destaque-se que a
Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional
(Convenção de Palermo), que adentrou no ordenamento jurídico nacional do
Decreto nº 5.015/04. Assim, assentou que “a própria convenção de Palermo
(promulgada pelo Decreto Lei 5015, de 12 de março de 2004), no seu art. 6º
§ 2º, deixa a critério dos Estados-Parte definirem se as pessoas que tenham
cometido a infração principal respondam pelo branqueamento de capitais”.
- CITAR A NECESSIDADE DO ESTADO EM APONTAR ASPECTOS MÍNIMOS NA
ACUSAÇÃO, CONFORME PRECEDENTES:
Para tanto, nesta espécie de crime, o Estado deverá indicar lastro probatório
mínimo em relação ao crime de lavagem de dinheiro e à infração penal
antecedente (RHC 115171/RJ, APn 923/DF, RHC 106107/BA, HC
150729/SP – jurisprudência em tese – STJ). Em casos tais, se a ação for
confirmada, a partir do devido processo legal e da consequente disposição
de todos os meios de prova ao alvitre das partes, notoriamente o contraditório
e a ampla defesa, que o autor enfunou ares de legalidade ao dinheiro
recebido e transferido, estará configurado o crime de lavagem de capitais.
0,50
c) EXPLICITAR O POSICIONAMENTO SOBRE A AUTOLAVAGEM, CONFORME STJ: 0,30
16
na ótica da Corte da Cidadania, na autolavagem (self laundering/autolavado)
há ainda uma reprovabilidade ainda maior, à medida em que o autor da
infração penal antecedente, já com a posse do proveito do crime, ao invés
de apenas fazer uso dos bens e valores proveito do crime, perpetra uma
nova empreitada criminosa, repleta de condutas típicas reprováveis, visando
dar aparência de licitude ao produto criminoso que abrolhou com a prática
da infração penal antecedente. O agente utiliza-se dos bens e valores à sua
disposição e reinicia a prática de uma série de condutas típicas, a imprimir a
aparência de licitude do recurso obtido com a prática da infração penal
anterior.
Naquele julgamento, o STJ afirmou que “não há falar em ausência de
autonomia entre a corrupção passiva e a lavagem de dinheiro, com a
consunção do segundo delito pelo primeiro. Isso porque não é possível ao
agente, a pretexto de não ser punido pelo crime anterior ou com o fim de
tornar seguro o seu produto, praticarnovas infrações penais, lesando outros
bens jurídicos.”
- MENCIONAR O PRECEDENTE DO JULGAMENTO DO MENSALÃO (AÇÃO PENAL 470
STF) E EXPOR O POSICIONAMENTO FIRMADO PELOS MINISTROS:
por fim, registre-se que a Corte de Cidadania se baseou no precedente
advindo do julgamento da Ação Penal 470 STF, em que se afirmou que a
“autolavagem pressupõe a prática de atos de ocultação autônomos do
produto do crime antecedente (já consumado).
Naquele julgado, foi consignado “a possibilidade de o autor do crime
antecedente ser responsabilizado também pela lavagem de dinheiro
recebido a título de propina (autolavagem). A ressalva que se faz, de modo
a evitar a dupla incriminação pelo mesmo fato, é no sentido de que a
caracterização da lavagem de dinheiro pressupõe a realização de atos
tendentes a conferir a aparência de ativo lícito ao produto do crime
antecedente, já consumado.
Referência:
Jurisprudência em tese – STJ – Do Crime de Lavagem I e II.
Informativo 726 – STJ (A-n 989-DF).
Ação Penal 470 STF.
GRUPO II – QUESTÃO 6
Sobre o instituto da Colaboração Premiada, responda (Valor da questão: 2 pontos)
a. Se existe diferença com a Delação Premiada? (0,25 ponto)
b. Sobre a natureza jurídica; (0,25 ponto)
c. Sobre a previsão no ordenamento jurídico brasileiro; (0,25 ponto)
d. Sobre a (Im)Possibilidade de combinação de leis; (0,25 ponto)
e. Sobre Plano de validade, existência e eficácia; (0,25 ponto)
f. Se um membro de Organização Criminosa, sob pretexto de agir em colaboração
premiada, inserir dados capazes de embaraçar a persecução penal, qual é a
consequência jurídica desse ato? (0,25 ponto)
g. Sobre Prêmios ao colaborador: rol, limites e critérios para a escolha no caso
concreto. (0,5 ponto)
Quantidade de linhas necessárias para responder à questão: 40
Resposta Ideal Pontuação
máxima
ITEM A:
- afirmar que existe diferença e conceituar colaboração e delação premiada;
- estabelecer, ao menos, 3 diferenças entre os institutos.
a) Se existe diferença com a Delação Premiada. (0,25 ponto).
Sim, a delação premiada não deve ser vista como sinônimo de colaboração
premiada, mas sim uma espécie do gênero colaboração.
A delação consiste na indicação de que a pessoa delatada também praticou
determinado crime ou integrou, com determinada função, uma organização.
0,25
17
Traduz-se na cooperação do acusado ou investigado, no sentido de inculpar
a prática de infrações penais, por seus eventuais comparsas. Refere-se a um
mecanismo por meio do qual o investigado ou acusado, ao colaborar com as
autoridades apontando outras pessoas que também estão envolvidas na
trama criminosa, obtém benefícios na fixação da pena ou mesmo na
execução penal. AgInt no RMS 48925/SP, Rel. Ministra REGINA HELENA
COSTA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 13/03/2018, DJe 05/04/2018.
A colaboração é mais ampla: pode envolver não somente a indicação de
demais autores como também a recuperação de ilícitos e a indicação e
entrega efetiva de elementos probatórios materiais, como extratos de conta,
smartphones, memórias externas, documentos, cheques, entre outros. A
colaboração premiada é disciplinada no ordenamento jurídico pátrio,
precipuamente, pelos arts. 4º a 7º da Lei nº 12.850/13, e, no âmbito do direito
internacional, pelo art. 26 da Convenção das Nações Unidas contra o crime
organizado transnacional (Convenção de Palermo), da qual o Brasil é
signatário, promulgada mediante o Decreto nº 5.015/04. Os benefícios
decorrentes do instituto são aqueles apontados taxativamente pela Lei nº
12.850/13, quais sejam, perdão judicial, redução da pena privativa de
liberdade em até 2/3 (dois terços), ou sua substituição por restritiva de
direitos (art. 4º, caput), além do não oferecimento de denúncia (art. 4º, § 3º)
e progressão do regime de cumprimento da pena (art. 4º, § 5º).
Além disso, o STF RHC 219193, 1ª Turma, Relator Luiz Fux, julgamento em
08.11.2022), traçou outras diferenças:
1 - A colaboração premiada trata-se de negócio jurídico processual, entre
órgão de persecução penal e colaborador, enquanto que a delação constitui
meio de obtenção de prova da prática de crimes em geral, sendo ato
unilateral do acusado.
2 – A Delação, diferentemente do acordo de Colaboração Premiada,
independe de qualquer ato formalizador das declarações.
3 - o Acordo de Colaboração Premiada é, atualmente, apenas um dos
instrumentos através dos quais a Delação de crimes – praticados ou não pelo
próprio delator – chega ao conhecimento das autoridades de persecução
penal.
ITEM B:
- trazer o entendimento do STF sobre a natureza jurídica;
- comentários da doutrina sobre a dupla natureza e as consequências.
b) Sobre a natureza jurídica. (0,25 ponto).
STJ: tem natureza jurídica de negócio jurídico bilateral e personalíssimo
firmado entre as partes interessadas AgRg no REsp 1793377/PR, julgado
em 05.10.2022, Corte Especial
STF: natureza de negócio jurídico processual e meio de obtenção de prova,
HC 127483/PR.
Pontua a doutrina que, em compasso com a jurisprudência dos Tribunais
Superiores, a Lei nº 13964/2019 (Lei Anticrime), que conferiu nova redação
à Lei 12850/2013, no seu art. 3º-A, anotou expressamente que a colaboração
premiada tem dupla natureza: negócio jurídico processual e meio de
obtenção de prova. Assim sendo, terá aptidão para autorizar a deflagração
da investigação preliminar, visando a adquirir coisas materiais, traços ou
declarações dotadas de força probatória.
0,25
ITEM C:
- Resposta completa: 10 exemplos.
c) Sobre a Previsão no ordenamento jurídico brasileiro. (0,25 ponto).
Possui previsão nas seguintes leis: - art. 8º da Lei nº 8072/90 (Crimes
Hediondos); - art. 159 § 4º (extorsão mediante sequestro), do Código Penal;
- art. 16 da Lei nº 8137/90 (crimes contra a ordem tributária), - art. 25 § 2º da
Lei nº 7492/86 (Lei contra o Sistema Financeiro Nacional); - art. 6º da Lei nº
12850/13 (Lei do Crime Organizado); - art. 1 § 5º, da Lei nº 9613/96
(Lavagem de Capitais); - art. 13 e 14 da Lei nº 9807/99 (Lei de proteção a
vítimas e testemunhas); - art. 41 da Lei nº 11343/06 (Lei de Drogas); - art. 87
da Lei nº 12529/11 (Lei do acordo de Leniência); - art. 16º da Lei nº
0,25
https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp?i=1&b=ACOR&livre=(('AIRMS'.clas.+e+@num='48925')+ou+('AgInt%20no%20RMS'+adj+'48925').suce.)&thesaurus=JURIDICO&fr=veja
https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp?i=1&b=ACOR&livre=(('AGRESP'.clas.+e+@num='1793377')+ou+('AgRg%20no%20REsp'+adj+'1793377').suce.)&thesaurus=JURIDICO&fr=veja
18
12846/2013 (Lei Anticorrupção); - art. 16 da Lei nº 13260/2016 (Lei do
Terrorismo), - art. 9º da Lei nº 13344/2016 (Tráfico de Pessoas).
ITEM D:
- afirmar a impossibilidade de combinação de leis e fundamentar, citando a
súmula 501 STJ;
- apontar que não há conflito aparente de normas, estabelecendo os
fundamentos correlatos;
- diferenciar a Lei nº 12850/2013 das demais, que continuam vigentes.
d) Sobre a (Im)Possibilidade de combinação de leis (0,25 ponto).
Não é possível a combinação de leis que versam sobre o instituto. Nos
termos da Súmula 501 do STJ, é vedado qualquer interpretação que importe
em combinação de lei. Desse modo, ao se reconhecer que as leis de
colaboração premiada convivem, é de rigor concluir que é vedado o
empréstimo de prêmios mais amplos nos casos em que a legislação
específica prevê exclusivamente a diminuição de pena como benefício
possível.
A esse respeito, importa citar que a maioria da doutrina sustenta que não há
que se falar em conflito aparente de normas, na medida em que a única lei a
tratar sobre Colaboração Premiada no aspecto processual é a do Crime
Organizado, Lei nº 12850/13. Saliente-se que referida lei não esgota o
assunto colaboração. A maioria das legislações prevê que o instituto se
reporta apenas a causas de diminuição de pena e são legislações temáticas,
amarradas à determinada estrutura criminal específica, como o tráfico de
drogas, lavagemde dinheiro ou crime contra o sistema financeiro. Assim
sendo, o sistema confere permissões conciliáveis, cada qual dentro da sua
temática, para que o Estado e o investigado ou acusado possam acordar
acerca dos termos da colaboração e do respectivo prêmio. Portanto, não há
que se falar em revogação tácita, mormente diante do fato de que eventuais
contradições entre dispositivos legais não se presumem.
0,25
ITEM E:
- justificar a necessidade dessa análise, conforme a natureza jurídica
reconhecida pelo STF;
- plano de existência, com conceito e previsão legal;
- plano de validade, com conceito e previsão legal, fixando a mudança com
o PAC;
- plano de eficácia, com conceito, previsão legal e consequências.
e) Sobre Plano de validade, existência e eficácia. (0,25 ponto).
Ao decidir que colaboração premiada é negócio jurídico como meio para a
obtenção de provas – referência positivada em lei, o STF, no HC 127483/PR,
estabeleceu parâmetros de exame do negócio jurídico, que deve se dar nos
planos de existência, validade e eficácia do acordo. Tratam-se de algumas
regras que fixam forma e conteúdo mínimo para a documentação.
Plano de existência: regularidade formal. Os requisitos formais do acordo de
colaboração premiada estão previstos no art. 6º da Lei nº 12850/2013, os
quais se revelam como pressupostos de existência da colaboração. Com
isso, o juízo vai verificar se a documentação mostrada apresenta o conteúdo
mínimo previsto na Lei.
Plano de validade: voluntariedade. Para tanto, a legislação processual impõe
ao Juiz a necessidade de ouvir o colaborador reservadamente,
acompanhado apenas por seu defensor, para que, antes da homologação,
dentre outra questões, possa se certificar de que a contribuição do celebrante
é efetivamente livre de vícios e decorrente de ato de vontade (art. 4º § 7º
LCO). A Lei nº 13964/2013 transformou a oitiva do colaborador como
solenidade obrigatória para aferir a liberdade de sua contribuição. Nos
0,25
19
termos originais da Lei nº 12850/13, não havia essa obrigatoriedade, pois a
oitiva era facultativa.
Plano de eficácia: homologação judicial. É o ato que confere eficácia ao
acordo de colaboração ou, em outras palavras, assegura que, cumpridos
seus termos, o celebrante receberá a contrapartida ajustada e registrada em
termo (art. 4º § 7º). O acordo existente e válido, somente será eficaz se for
submetido à homologação judicial. Para tanto, analisa-se a regularidade,
legalidade, adequação e voluntariedade. Caso não atenda tais requisitos, o
juiz poderá recursar a homologação da proposta (§ 8º).
ITEM F:
- responder que incidiu no art. 2º § 1º da Lei 12850/13;
- assinalar que o embaraço à investigação se dá TANTO na fase extrajudicial
e judicial, conforme decidido pelo STJ (informativo 650).
f) Se um membro de Organização Criminosa, sob pretexto de agir em
colaboração premiada, inserir dados capazes de embaraçar a
persecução penal, qual é a consequência jurídica desse ato? (0,25
ponto).
Deverá responder como incurso no art. 2º, § 1º da Lei nº 12850/2013 (Impedir
ou embaraçar a investigação de Organização Criminosa). Esse crime é
reconhecido, ainda que o embaraço seja na fase judicial. Assim decidiu o
STJ (HC 487962-SC), Informativo 650 STJ. Vejamos:
Não é razoável dar ao art. 2º, §1º, da Lei nº 12.850/2013 uma interpretação
restritiva para reconhecer como típica a conduta do agente de impedir ou
embaraçar a investigação somente na fase extrajudicial. Com efeito, as
investigações se prolongam durante toda a persecução criminal, que abarca
tanto o inquérito policial quanto a ação penal deflagrada pelo recebimento da
denúncia. Não havendo o legislador inserido no tipo a expressão estrita
"inquérito policial", compreende-se ter conferido à investigação de infração
penal o sentido de persecução penal como um todo, até porque carece de
razoabilidade punir mais severamente a obstrução das investigações do
inquérito do que a obstrução da ação penal. Frise-se que também no curso
da ação penal são feitas investigações e diligências objetivando a busca da
verdade real, sendo certo que as investigações feitas no curso do inquérito,
como no da ação penal, se diferenciam, primordialmente, no que diz respeito
à amplitude do contraditório, ampla defesa e o devido processo legal.
Ressalta-se que a persecução penal é contínua não havendo de se falar em
estancamento das investigações com o recebimento da denúncia. Ademais,
sabe-se que muitas diligências realizadas no âmbito policial possuem o
contraditório diferido, de tal sorte que não é possível tratar inquérito e ação
penal como dois momentos absolutamente independentes da persecução
penal.
0,25
ITEM G:
- necessidade de estabelecer critérios para eleger prêmios adequados ao
caso concreto;
- afirmar a possibilidade de conceder mais de um benefício ao colaborador,
se a lei permitir. Citar as leis;
- mencionar a impossibilidade de estabelecer benefícios não previstos. Citar
os princípios da segurança jurídica e proteção da confiança, como
balizadores da decisão;
- limitação material para o princípio da colaboração premiada, para caso de
crime hediondo;
- critérios para a escolha dos prêmios (caráter objetivo e subjetivo), com
alusão à previsão legal.
0,50
20
g) Sobre Prêmios ao colaborador: rol, limites e critérios para a escolha
no caso concreto. (0,5 ponto).
O proponente deve observar a existência de critérios para se esta eleger o
prêmio mais adequado ao caso concreto ou até de mais um deles, caso se
compreenda que os benefícios previstos em lei são cumuláveis.
A maioria das leis que regulam a colaboração premiada em sede de direito
material traz apenas uma causa de diminuição de pena como benefício
possível. Por outro lado, as Leis nº 9613/98 (Lavagem de Capitais), Lei nº
9807/99 (Proteção a vítimas, testemunhas e réus colaboradores), Lei nº
12850/13 (Crime Organizado), além das Leis de Combate ao Tráfico de
Pessoas e ao Terrorismo (por remeterem a aplicação da Lei nº 12850/13),
trazem a possibilidade de mais de um benefício ao colaborador. No que
tange a possibilidade de se acumularem prêmios, descarta-se a hipótese de
benefícios inconciliáveis, como combinação de imunidade com substituição
da pena privativa de liberdade por sanções restritivas de direitos.
Embora o STF (HC 127483/PR), tenha sinalizado a possibilidade de o acordo
versar sobre os efeitos extrapenais da condenação, o princípio da segurança
jurídica e da proteção da confiança, usados como balizadores da decisão,
não abrem caminho ilimitado para a criação de benefícios de direito penal ou
processual penal não previstos na legislação, como, por exemplo, regime de
cumprimento de pena diferenciados (art. 4º § 7º, II).
Outra limitação levantada pela doutrina é a possibilidade de se identificar
limites materiais para a colaboração premiada, especialmente para a
persecução de crimes dolosos contra a vida, uma vez que a maciça maioria
dos casos envolve delito de homicídio qualificado, consumado ou tentado,
delito de natureza hedionda. Assim, na esteira do art. 5º, XLIII, da CF, se a
anistia e graça não podem ser concedidos para os autores de delitos
hediondos, também não há razão para se admitir o perdão judicial, ainda que
estabelecido como prêmio de uma colaboração efetiva. No caso, há apenas
a possibilidade de admitir redução máxima de pena ao colaborador autor de
crime hediondo, mas não de perdão judicial.
A imunidade penal prevista no art. 4 § 4º é prêmio que se viabiliza apenas se
o agente colaborador, em fase de investigação, preencha os requisitos. É
uma exceção ao princípio da obrigatoriedade. Trata-se de proposta privativa
ao membro do Ministério Público, diante do art. 129, I, da CF. Como
assentou o STF, não há espaço para que o Delegado de Polícia crie
obstáculo ao ajuizamento de denúncia por meio de um acordo