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CAPÍTULO II DUPLO ASPECTO EDUCATIVO DO LAZER Sem entrarmos no mérito da qualidade, observa-se que o tempo disponível já é em grande parte ocupado, naturalmente, por atividades culturais. Esse fato, se tomado isoladamente, poderia levar a afirmações bem distantes do quadro de situação global, e por outro lado, bem próximas do senso comum, como a consideração da multiplicação de equipamentos, fruto da ação do poder público ou da iniciativa privada, como fator suficiente para o atendimento ótimo dos conteúdos culturais do lazer. É o que ocorre de fato, nas cidades que dispõem de maiores recursos: construções para perpetuar o no- me de administradores, marcos de passagem pelo poder, ou formas de garantir a manutenção desse poder. Na realidade, os fatos não se processam tão de acordo com o senso comum, principalmente se consi- derarmos a função de desenvolvimento dessas ativida- des, não as reduzindo simplesmente ao repouso e entre- tenimento, ou seja, não as valorizando na perspectiva "funcionalista". Contudo, o quadro ideal de ocupação do "tempo livre" é rompido quando se analisa a situação concreta, verificando-se que, mesmo em cidades de "tradição" no que se refere ao lazer, como o Rio de Janeiro, grandes 57contingentes populacionais trabalham nos finais de se- zado, o estímulo, a iniciação, que possibilitem a passa- mana e, mesmo aqueles que não exercem atividades gem de níveis menos elaborados, simples, para níveis profissionais, participam de uma gama restrita de pro- mais elaborados, complexos, com o enriquecimento do gramações, a grande maioria restringindo-se ao ambien- espírito crítico, na prática ou na observação. Verifica-se, te doméstico assim, um duplo processo educativo o lazer como Com efeito, faltam elementos de análise com base veículo e como objeto de educação empírica para a constatação da quantidade de tempo Praticamente todos os autores, ligados ao estudo do disponível da nossa população. As pesquisas do tipo lazer, reconhecem esse seu duplo aspecto educativo. E orçamento/tempo só contribuem para confundir, ao essa afirmação confirma as observações feitas no capí- invés de esclarecer, principalmente na nossa realidade, tulo anterior, ou seja, a impossibilidade de rotulações onde apenas uma pequena parcela da população é con- maniqueístas do pensamento manifestado pelos vários siderada "economicamente ativa" Entretanto, embora o reconhecimento desse Contudo, não podemos negar que alguns gêneros duplo aspecto educativo seja quase unânime, variam os são bastante difundidos entre a população em geral. enfoques dados ao tratamento da relação lazer/educa- Mas esse fato nos dá apenas uma visão muito particula- ção. Como vimos, existe uma vinculação entre os valo- rizada da apropriação do lazer pela população. Deixa de res atribuídos ao lazer e à educação, sobretudo entre os considerar aspectos importantes, verificados na situa- autores do primeiro campo de atuação, área central ção, tais como: a restrição quantitativa e sobretudo deste estudo. qualitativa no acesso à produção cultural, o consumo No primeiro capítulo, essa relação foi examinada desligado da cultura vivida e a prática isolada e confor- com respeito aos campos privilegiados para a ocorrência mista. Em outras palavras, deixa de considerar a neces- da educação, e confrontada com opiniões de autores sidade de uma ação educativa que procure colaborar na mais diretamente ligados à área pedagógica. É propósito correção dessas tendências indesejáveis, do ponto de deste capítulo, ao examinar o duplo aspecto educativo vista de quem considera o plano cultural como um canal do lazer, procurar estabelecer as relações entre os valo- possível para mudanças de repercussão, inclusive, no res atribuídos, analisados anteriormente, e o lazer, en- plano social. É o que procurarei analisar no decorrer tendido como instrumento e objeto de educação. Em- deste capítulo. bora não restrita a uma única questão, a indagação Trata-se de um posicionamento baseado em duas principal diz respeito às implicações entre os valores constatações: (a primeira, que o lazer é um veículo pri- expressos pelas correntes "moralista", "romântica", vilegiado de educação; e a segunda, que para a prática "utilitarista" e "compensatória" e o duplo aspecto edu- positiva das atividades de lazer é necessário o aprendi- cativo do lazer. 1. Centro latino americano de Pesquisas em Ciências Sociais, Lazer na região 3. o assunto é abordado por vários autores e, mais especificamente, por metropolitana do Rio de Renato REQUIXA, Sugestões de diretrizes para uma política nacional de 2. Abordo a questão no ensaio Lazer e humanização, p. 34. lazer, pp. 52-59. 58 59Silvia Claudete Educ. Física Reg 1. o LAZER COMO VEÍCULO DE EDUCAÇÃO dos em conceber novas formas de educação a dessas ocupações de lazer propicia Tratando-se do lazer como veículo de educação, é necessário considerar suas potencialidades para o de- Requixa tanto considera que se pode educar pela senvolvimento pessoal e social dos indivíduos. Tanto prática do lazer, como também reconhece a importância de se educar para o lazer. Só que, nesse último caso, cumprindo objetivos como relaxa- argumenta que o próprio exercício do lazer será mento e o prazer propiciados pela prática ou pela con- o melhor estímulo educativo para o próprio lazer" Ao templação, quanto objetivos instrumentais, no sentido preconizar uma política de lazer, o autor adverte que de contribuir para a compreensão da realidade, as ativi- talvez fosse melhor referir-se a uma política educacio- dades de lazer favorecem, a par do desenvolvimento nal, " que considere outros tempos, outros espaços pessoal, também o desenvolvimento social, pelo reconhe- e recursos, que faça do lazer uma escola para todas as cimento das responsabilidades sociais, a partir do agu- faixas etárias o lazer tal como conceituamos: apro- çamento da sensibilidade ao nível pessoal, pelo incentivo veitamento de todo o tempo livre dos indivíduos, orien- ao pelas oportunidades de con- tados por diferentes tipos de animadores, nos diversos tatos primários e de desenvolvimento de sentimentos de espaços urbanos" solidariedade. Sem entrar na discussão de conceitos como "tempo Uma das questões mais abordadas pelo sociólogo livre", que já abordei anteriormente, "orientação de Renato Requixa exatamente a do alto potencial edu- atividades" e "animadores", que analisarei mais adian- cativo que as atividades de lazer podem ser portadoras. te, do meu ponto de vista, essa afirmação seria correta Aliás, para esse autor "começa a ampliar-se o dimensio- se fossem verificadas de fato, as condições ideais de namento do lazer, no momento em que vislumbramos prática do lazer, ou seja, se não existissem privilégios suas possibilidades na área da educação. Nesse sentido, de classe, de sexo, de faixa etária na apropriação do lazer. Conforme já tive ocasião de na nossa o primeiro aspecto a considerar é aquele que, para todos sociedade, sempre tendo como base o fator econômico, os técnicos, os profissionais, e os estudiosos do social, observa-se um conjunto de variáveis sexo, faixa etá- pode ser aceito como essencial e o mais provocante pela ria, níveis de escolaridade. estereótipos formando um riqueza de possibilidades que oferece. Referimo-nos às todo inibidor para a prática do lazer. É certo que não se concepções relativas ao aproveitamento das ocupações pode ignorar as interfaces desse duplo processo educa- de lazer como instrumento de educação para considerá- tivo do lazer, aqui analisado. E assim, a educação para veis parcelas da coletividade. Nesta dimensão, o lazer não é apenas um bem de consumo, mas também, centro 5. Renato REQUIXA, Sugestões de diretrizes para uma política nacional de de convergência da atenção dos especialistas, interessa- lazer, p. 27. 6. Renato REQUIXA, lazer e a civilização urbana, Boletim de Intercâmbio, 81. 4. Para uma análise de "objetivos consumatórios" e "instrumentais" ver David 7. Idem, Sugestões de diretrizes para uma política nacional de lazer, pp. 19-20. K. BERLO, o Processo da comunicação, pp. 24-27. 8. Lazer e humanização, pp. 49-56. 60 61o lazer, através da prática do lazer, conforme foi e no acesso à produção cultural, e da recusa dos precon- dado por Requixa, é uma realidade Com relação ao cine- ceitos que sempre marcaram a educação para o lazer ma, Stanley Reed destaca esse "importante processo de tendo como canal a educação formal. auto-educação" que está ocorrendo em toda a parte. Para ele "nós todos vemos e aprendemos; isto é, apren- Se essas observações não forem levadas em conta, demos a discriminar, e praticamente não tenho dúvidas uma "educação para o lazer" que privilegie próprio de que o grande público, hoje, não só tem mais expe- exercício do lazer", além de confundir-se com a "educa- riência em ver filmes do que há vinte, dez, ou mesmo ção pelo lazer", denota a crença na superioridade da cinco anos, como também é mais sofisticado, mais crite- ação cultural sobre a atuação escolar, que fica ainda rioso, mais seletivo, e mais aventuroso" Mas nesse cam- mais clara quando Requixa coloca a possibilidade dos po, ou seja, o do acesso à produção cultural, mesmo sem excluídos do sistema educacional recuperarem no lazer levar em conta as diferenças significativas de apropria- as oportunidades perdidas. Destacando as possibilida- ção verificadas no plano social, nossa história é muito des educativas do lazer, enquanto veículo de educação, recente. Tanto no âmbito da criação como no da difusão, o sociólogo afirma que o lazer cultural compensa somente nas primeiras décadas do século XX é que se a pobreza intelectual e a mesmice do trabalho urba- inicia um maior desenvolvimento cultural entre nós, no, ao mesmo tempo que transmite informações capa- com o princípio da consolidação de uma criação nacio- zes de equipar o trabalhador para melhor fruir desse nal. E essa época coincide com início da sociedade de mesmo lazer cultural" Isso reflete uma tendência produção industrial. Entramos, assim, na fase de produ- "compensatória" na consideração do lazer como veículo ção, do consumo, sem praticamente nenhuma tradição de educação, tendência essa presente na maioria dos cultural. autores que analisam as possibilidades da educação pelo lazer, e que combina, que se encaixa muito bem, com Toda essa situação, sem dúvida, favorece as influên- a valoração "utilitarista" do lazer. cias da indústria cultural, que tende a gerar necessida- des padronizadas, para maior facilidade no Diga-se de passagem que, qualquer consideração do potencial educativo do lazer embasada em valores "fun- perpetuando ou dificultando a superação de uma situa- cionalistas", aspecto analisado no capítulo anterior, ca- ção de conformismo. Torna ainda mais necessário um racteriza-se como uma visão utilitarista desse campo de processo educativo de incentivo à imaginação criadora, atuação, pelo menos tal como o conceituamos, na pri- ao espírito crítico, ou seja, uma educação para o lazer, meira parte deste estudo. Assim, só tem sentido se falar que procure não criar necessidades, mas satisfazer ne- em aspectos educativos do lazer, se esse for considerado, cessidades individuais e sociais. Não se trata de uma conforme já dissemos anteriormente, como um dos pos- posição utópica de retorno à sociedade tradicional, mas síveis canais de atuação no plano cultural, tendo em de um posicionamento contra o privilégio na aspiração vista contribuir para uma nova ordem moral e intelec- 9. Stanley REED. o cineasta e o público. In: Jean CREEDY (org.) contexto 10. Renato REQUIXA, lazer e a civilização urbana, Boletim de Inter- social da arte, p. 114. câmbio (20): 83. 62 63tual, favorecedora de mudanças no plano social. Em culturais, tecnológicas, etc., e principalmente, o desen- outras palavras: tem sentido se falar em aspectos volvimento cultural, aqui entendido como uma mudan- educativos do lazer, ao considerá-lo como um dos cam- ça julgada positiva, na perspectiva de democratização da pos possíveis de A instrumentaliza- cultura e de melhoria da qualidade de vida para todos ção, mesmo educacional, do tempo disponível das pes- os estratos sociais, categorias de idade, de sexo, soas, onde se busca, ou se deveria buscar, fundamental- Dentro da visão compensatória do lazer, a "educa- mente o prazer, só tem sentido na medida em que possa ção permanente" é vista, basicamente, como "educação contribuir para que essas mesmas pessoas tenham mais de adultos" levada a efeito no "tempo livre", baseada na prazer de viver, sejam menos pressionadas por uma es- trutura sufocante, em que uma mino- informalidade, espontaneidade e comunicação, buscan- ria tem excesso de recursos, de espaço e de tempo, pela do a adesão alicerçada na motivação crença de que exploração da grande maioria, cujo tempo, quando não o interesse do adulto pela educação é espontâneo, ao in- é desocupado, pela incapacidade do modelo econômico verso do que ocorre com a criança, onde há imposição imposto gerar trabalho, é livre entre aspas. Só tem caso contrário não será nada mais que um ins- trumento para prolongar, por novos períodos da vida, o sentido, na medida que contribuir para eliminar essas sistema escolar sistema esse reconhecidamente ina- aspas. dequado para uma educação à qual o indivíduo se deve Conforme analisado no capítulo anterior, os auto- entregar espontânea e voluntariamente" res mais diretamente ligados ao estudo do lazer, relati- Ao considerar o lazer como o campo privilegiado vizam, ou praticamente recusam, o valor da escola no para a educação permanente fica, mais uma vez, carac- processo educativo. E essa relativização fica ainda mais terizada a visão utilitarista/compensatória das ativida- caracterizada, embora quase nunca seja negado decla- des praticadas no "tempo livre" e seu caráter "funcio- radamente o valor da educação escolar, quando são des- nalista", como dissimulador das desigualdades. Consi- tacadas as possibilidades do lazer enquanto veículo de dero oportunas as indagações de Gadotti a esse respei- educação. to; ele pondera que "a educação permanente prolonga A alternativa preconizada com maior ênfase é a- (...) o mito da educação, sustentando que a formação "educação permanente". A educação pelo lazer dar-se-ia é um pressuposto da ação e que é suficiente um 'suple- numa perspectiva de "educação permanente", que bus- mento de para mudar a ordem das coisas" caria o desenvolvimento cultural, através da animação e questiona "Não será essa uma forma de infantilizar sócio-cultural, conceituada por Requixa como o a idade adulta? Não será essa uma forma de conter os esforço de indivíduos de diferentes grupos sociais e do homens sempre a meio caminho de suas reais possibi- Estado, para organizar uma vida social e cultural, cuja lidades?" 13 ação se deve desenvolver, particularmente, no tempo li- vre. Suas funções podem compreender a adaptação e a 11. Renato REQUIXA, Sugestões de diretrizes para uma política nacional de lazer, p. 94. integração social destinadas a superar os desequilíbrios 12. Jesus Vazquez PEREIRA, Lazer e educação permanente, Cadernos de e conflitos, provocados pelas transformações sociais, Lazer, (4) 47. 13. Moacir GADOTTI, A educação contra a educação, p. 64 65Esse questionamento me parece bastante proceden- Outra alternativa para a educação pelo lazer é con- te se analisarmos a forma com que a "educação perma- substanciada na visão "apologética" da cultura de mas- nente" vem sendo entendida entre nós, na prática. As sas, onde a educação, ligada aos sistemas formais de en- análises efetuadas por Bárcia concluíram que, "No Bra- sino, em outras palavras, à escola, é subestimada como sil, a educação extra-escolar, sob suas múltiplas formas anacronismo dentro da sociedade moderna. Não se nega de intervenção, tem a função essencial de substituir o a sua necessidade, mas se relativiza de tal modo sua efi- ensino, tornando-se então, para uma grande parcela da cácia, que a não negação chega a parecer um eufemis- população analfabeta ou semi-escolarizada, a principal mo para mascarar sua inutilidade. Para Eduardo Por- forma de educação" A ver, a função compensató- tella, por exemplo, "a educação, submetida à idéia não ria da relação educação pelo lazer com "educação per- satisfatoriamente modernizada de escola, é uma técnica manente" fica ainda mais explicitada na constatação de de transmissão cultural, necessária sem dúvida, porém Bárcia, quanto à maneira que essa "educação perma- vagarosa quando confrontada com o relógio urbano. Já nente" vem se efetivando na realidade concreta, como a cultura, imagem e contorno da nova educação, dispõe suplência de escolaridade aos que não puderam fa- de um outro dinamismo, transformada que foi pela pre- zê-lo em época própria no ensino regular" Essa inten- sença avassaladora dos veículos de comunicação de mas- ção de "confundir o ensino supletivo na forma de su- sa (...) Quem educa majoritariamente a sociedade dos plência com educação permanente" é denunciada tam- nossos dias são os novos meios de veiculação cultu- bém por Bárbara ral" 18 Outro aspecto que considero importante na análise Quanto a este aspecto há diferenças de enfoque en- de Gadotti sobre a educação permanente é a constata- tre os autores. Alguns, particularmente os da aborda- ção que o seu discurso não coloca fundamental- gem "romântica", procuram alertar para os perigos do mente em questão o monopólio da instituição na sua consumismo ou para a contaminação dos valores huma- tarefa (necessária) de educar o indivíduo. Pelo contrá- nos e culturais tradicionais das ocupações de lazer pelos rio observa o autor através da Educação Perma- valores de mercado Essa crítica, no entanto, não é le- nente quer-se justamente estender o domínio da edu- vada a efeito apenas pelos "românticos", que vêem na cação. Esta se estende agora a todos os domínios: lazer, ação educativa da família um antídoto para os efeitos vida em família, participação social, vida profissional e negativos dos meios de comunicação de massas. É ma- outros aspectos da existência humana E esta ex- tensão, quando relacionada à educação pelo lazer, alia nifestada também pelos adeptos da "educação perma- aos valores tilitaristas/compensatórios já destacados, que pregam como antídoto, o "desenvolvimen- o moralista/controlador. to cultural da sociedade" 20 18. Criatividade, trabalho e lazer, Arte & 4 (17): 7. 14. Mary Ferreira BÁRCIA, Educação permanente no Brasil, pp. 54-55. 19. Ethel Bauzer MEDEIROS, Educação para o lazer, Boletim de 15. Ibid.. p. 59. bio, (3): 46. 16. Escola, Estado e Sociedade, p. 122. 20. Jesus Vazquez PEREIRA, Lazer e educação permanente, Cadernos de 17. Moacir GADOTTI, A educação contra a educação, p. 79. Lazer, (4) 47. 66 67Na crítica aos efeitos dos meios de comunicação de mo poderão ser ativos ou passivos, dependendo de ní- massas, como já observei no capítulo anterior, conver- veis, que Dumazedier classifica em elementar ou con- gem as opiniões dos autores mais diretamente ligados formista, médio ou crítico e superior ou inventivo Na às duas áreas de investigação aqui analisadas: lazer e tentativa de definir o espectador ativo, Dumazedier ar- educação. Creio que essa convergência é devida à dificul- rola como características a seletividade, a sensibilidade, dade de distinguir que o valor cultural de uma atividade a compreensão, a apreciação e a explicação; é o que está ligado, sobretudo ao nível alcançado, seja na prá- reúne todas as possibilidades de sua sensibilidade e in- tica, seja no consumo, ponto de vista que comungo com teligência para refazer, do melhor modo possível e a seu Assim procedendo, esses autores assus- modo, o caminho percorrido pelo criador" 25 tam-se com a tendência ao crescimento do consumo em Concordo com as ponderações de Dumazedier. Isso detrimento da prática, com o aumento da "produção pode ser constatado na análise dos elementos compo- cultural" em nível elevado em relação à "criação cul- nentes do conceito de lazer que emiti no capítulo ante- tural". rior. Na verdade, you mais além nessa questão, uma vez A distinção entre a prática e o consumo é acompa- que, revendo minhas posições anteriores, coloco entre nhada, via de regra, por juízos de valor. À apologia da as possibilidades de opção para a ocupação do "tempo prática, freqüentemente colocada, os perigos disponível", a contemplação propiciada pelo ócio, o que da passividade do consumo. No entanto, em se conside- não ocorre com sociólogo francês. Mas também, não rando as atividades de lazer, o que seriam a atividade e posso deixar de considerar que as barreiras sócio-econô- a passividade? Todo o "assistir", todo o consumo, per- micas e o baixo nível educacional criam todo um clima tenceria ao campo da passividade? Então seria preferí- favorável para a indústria cultural. vel executar uma harmonia primária a tomar contato Com o desenvolvimento das técnicas de comunica- com obras musicais mais elaboradas, indo a um concer- ção de massas, a produção cultural deixa de atingir um to ou ouvindo uma gravação? Dumazedier procura es- nível local e passa a abranger um mercado consumidor clarecer que, em si mesma, a atividade de lazer não é muito maior. Esses conteúdos que devem sensibilizar ativa ou passiva, " mas o será pela atitude que o in- grandes massas de pessoas de diferentes culturas, ida- divíduo assumir com relação atividades decorrentes des e condições sócio-econômicas, ficam assim interna- do próprio Não coloca entre essas atitudes uma cionalizados, trazendo como a homogenei- oposição absoluta; para ele existem situações, nas zação. E essa internacionalização não se refere unica- quais há pontos dominantes que variam de acordo com mente à passagem de padrões de países desenvolvidos os indivíduos e as circunstâncias, obedecendo a um con- para os subdesenvolvidos (colonialismo cultural), mas tinuum que poderia ser medido por uma escala de inten- também dentro de um mesmo país, em se considerando sidade" 23 Dessa forma, tanto a prática quanto o consu- as regiões mais desenvolvidas, em comparação com as mais atrasadas. 21. Joffre DUMAZEDIER, Lazer e cultura popular, pp. 255-262. 22. Ibid., p. 257. 24. Idem, A teoria sociológica da decisão, pp. 72-73. 23. Ibid., p. 257. 25. Idem, Lazer e cultura popular, p. 262. 68 69Foge ao objetivo deste trabalho uma análise mais que se questiona é o baixo nível dessas programações. detida sobre o conteúdo da "produção cultural" e sua Se por um lado é certo que as manifestações da abrangência, mas não se pode deixar de observar alguns tria cultural poderiam cumprir pelo menos alguns re- aspectos da questão, quando se aborda a educação pelo quisitos que contribuíssem para o desenvolvimento cul- lazer. E nesse particular, o próprio "todo inibidor" a que tural, é também verdadeiro que, na prática, as decisões me referi anteriormente, restringe as opções para a ocu- são tomadas em termos de rentabilidade financeira, pação do "tempo disponível". As poucas pesquisas de evidenciando a homogeneização do consumo. Mas, os que dispomos na dão conta de que a grande efeitos dos meios de comunicação de massa seriam os maioria do tempo disponível é usufruído nos próprios únicos a determinar o consumo da produção cultural locais de moradia, dentro das casas, o que propicia a como mercadoria? filósofo Fritz Pappenheim, embora formação de um da televisão. É nota- concordando com o caráter de mercadoria e com o baixo damente através desse veículo que os padrões dos gran- nível dos programas de rádio e televisão, salienta que des centros, em especial do eixo Rio-São Paulo, vêm sen- " muito antes do advento de tais programas a indús- do impostos a todo o país, em virtude do surgimento tria do divertimento era dominada pela estrutura da das redes, alternativa econômica para a produção. Esse mercadoria" Para ele, esse tipo de relação causal fato, aliado a outros, como o crescente processo de urba- exemplifica a tendência a atribuir a culpa exclusiva- nização, vem contribuindo para o desaparecimento de mente à máquina e à tecnologia. IND manifestações culturais autênticas, nos vários gêneros, notadamente das festas, tanto lúdico-religiosas como Na realidade, uma série de fatores contribuem para a homogeneização da produção cultural, num nivela- mento por baixo. A alienação do trabalho, motivada pela A necessidade do estímulo para o consumo rápido despersonalização, pela ausência de participação e pelo faz com que o nível da maioria das obras veiculadas seja caráter inacabado do produto, como salienta Georges elementar e fragmentário. A pobreza de conteúdo é uma constante da produção oferecida ao grande público, nos está para muitos autores no centro da padronização das atividades fora do trabalho, e do lazer vários gêneros culturais, notadamente naqueles mais de uma maneira geral, como já foi analisado no primei- consumidos, caso dos filmes feitos para televisão, das ro capítulo. fotonovelas, da música "pop" e dos "best-sellers". É uma enfadonha repetição de estilos, de ritmos, de temas, de Isso ocorre em todos os gêneros culturais, mas fica estrutura. mais evidenciado no esporte e na arte. Nesse último gê- nero, a reprodutibilidade técnica, desenvolvida pelos di- Contudo, não podemos negar a importância dos versos meios de comunicação modernos, provocou tam- meios de comunicação de massa na difusão das ativida- bém um distanciamento entre o produto do artista e o des de lazer, levando-as até mesmo à casa das pessoas. espectador. Com a perda do "hic et nunc" na reprodu- 26. Tania Nogueira ÁLVARES, o público de teatro em São Paulo, Cadernos 27. Fritz PAPPENHEIM, A alienação do homem moderno, pp. 82-83. de 19. 28. Georges FRIEDMANN, o trabalho em migalhas, pp. 205-206. 70 71ção, a obra de arte perde a sua "aura" as suas carac- co, também é verdade que essa relação continua a exis- terísticas de unicidade e autenticidade. Desse modo, os tir, ainda que não diretamente. Assim, se anteriormen- espectadores deixam de ir ao objeto para que o objeto vá te eram o aplauso e a vaia, ou seja, a reação de um pú- aos apreciadores, o que provoca uma defasagem entre blico local, que orientavam a produção de um músico, as artes industrializadas e as apresentadas fora dos hoje é o movimento do mercado de disco que fornece o meios de comunicação de massa, caso do teleteatro, ou termômetro para o criador. Em última instância, ain- do cinema em relação ao teatro. Assim, se o conteúdo da é o público, embora agora muito mais impessoal, deste último não sofre tão diretamente o processo de ho- quem fornece os indicadores do sucesso ou do fracasso. mogeneização, sua abrangência também é muito menor Deve-se ressalvar aqui, que a questão é de quantidade e do que o cinema, em termos de público Isso não de qualidade. Assim, a resposta é idêntica mesmo ocorre não só no teatro, mas em outras manifestações se considerando Chico Buarque ou Lindomar Castilho. como as artes plásticas de uma maneira geral. Talvez Pode-se dizer até que essa relação é gradativa, tornan- até se possa estabelecer, entre a resistência de certos do-se tanto mais forte quanto mais abrangente for a gêneros à homogeneização e sua abrangência, uma re- produção. Assim, um pintor poderá continuar desenvol- lação causal, ainda que não exclusiva. vendo suas atividades artísticas, mesmo que a sua obra No geral, nas discussões sobre os efeitos dos veículos não seja apreciada além de um pequeno círculo com- de comunicação de massa no público, tanto seus defen- posto por críticos ou Já para um programa sores, quanto os críticos perdem a idéia de processo. Ber- de televisão, isso significaria uma duração muito curta lo denomina estas formas de tratar o assunto de "agu- no ar. Esta relação entre criador e público atinge graus lha ou seja, seu conceito de efeito dá de dependência que vão até o impedimento da criação, a entender que um programa de rádio ou de televisão dependendo do gênero desenvolvido. Assim, o músico po- pode ser encarado como uma agulha de injeção. Bas- de continuar realizando sua criação musical, mesmo sem taria injetar as mensagens na mente do público e seriam aceitação pelo grande público, e sobreviver através de produzidos o ensino ou a diversão ou a maior participa- outras atividades paralelas. mesmo não acontece, por ção em assuntos cívicos" Do meu ponto de vista, esta exemplo, com o cineasta, ainda que independente, uma é uma maneira simplista de análise, pois se considera vez que, não obtendo o retorno dos custos da produção, apenas uma parte do processo. Quais seriam, por exem- fica praticamente impossibilitada a realização de outras plo, os efeitos da reação do público sobre a televisão? obras Quais as relações possíveis entre o produtor e o público? Analisando as correntes de pensamento que dizem Se é verdade que indústria cultural provocou um respeito às manifestações culturais na atualidade, va- rompimento na relação direta do criador com o públi- mos encontrar, de um lado uma visão negativa e pessi- mista, que ressalta os efeitos nocivos da homogeneiza- 29. Walter BENJAMIN, A obra de arte na época de sua reprodutiblidade técnica. In: Luiz Costa LIMA (org.) Teoria da cultura de massa, pp. 254-258. 31. Stanley REED, o cineasta e o público, In: Jean CREEDY (org.) o con- 30. David K. BERLO, processo da comunicação, p. 33. texto social da arte, passim. 72 73ção cultural a serviço da sociedade de consumo. Esses de conteúdo. Nesse sentido, é cada vez mais necessária a autores, na sua maioria, classificam a cultura de massa consideração do lazer como objeto de educação a edu- como subcultura, tendo como ponto de referência uma cação para o lazer. pretensa cultura superior. De outro lado estão aqueles que ressaltam os fatores positivos próprios da cultura De maneira alguma, adoto a posição ingênua de de massa, tais como o acesso à produção e a conseqüente considerar que essa educação seria a "salvadora" ou o minimização dos efeitos da divisão em classes, nesse "antídoto" para a alienação que se verifica no campo do acesso. Umberto denomina de "apocalíptica" a lazer. que advogo é a sua necessidade como maneira primeira posição e de "integrada" a segunda. Na reali- de facilitar o acesso à "contra-informação" Esse con- dade são conceitos-fetiche que correspondem a atitudes ceito propõe o fornecimento de instrumentos ao opostas, ambas passivas e conformistas, pois, se de um consumidor para que ele possa fazer uma decodificação lado a oposição à banalidade se faz pela recusa e pelo crítica das mensagens veiculadas pelos meios de comu- silêncio, numa atitude de desconfiança a toda ação que nicação tente promover uma mudança, na outra corrente dá-se a sujeição aos quadros estabelecidos, desprovida de di- Documento Básico do IV Ciclo de Estudos Inter- mensão A proposta de Eco se caracteriza por disciplinares de Comunicação INTERCOM define considerar uma adaptação não às condições objetivas, a contra-informação como "a prática de comunicação e mas a partir delas, assumindo a ocorrência histórica da de militância política que resistem à ordem hegemônica "indústria cultural" e da "massa". vigente e lutam pela instalação de uma nova hegemo- Embora existam problemas como operadores cultu- nia" Dessa forma, pressupõe um processo que visaria rais que vêem nas massas, em primeiro lugar, uma fon- garantir a circulação de informações sobre situa- te de lucro, deve-se opor-lhes a perspectiva humanista ções de classe, à margem dos canais controlados pelo que considera que, se o homem é resultado das circuns- poder constituído e também utilizando os espaços que tâncias, devemos agir para que essas circunstâncias se- as contradições da burguesia oferecem no seio desses jam humanizadas. o processo de depuração dessa cul- canais" Temos um exemplo tão próximo de nós, que tura de massa é bastante lento, mas já começa a mostrar quase seria desnecessário lembrá-lo, quando se aborda seus sinais. Há uma espécie de auto-educação do públi- a questão: a campanha pelas "eleições diretas-já" que, co em geral, a despeito do "todo inibidor" já referido, sabotada pelos principais veículos em termos de abran- um progresso na seletividade e de quando em quando, gência e poder de comunicação, ganhou as ruas e forjou alguns saltos qualitativos. Fragmenta-se assim, o todo espaços dentro dos próprios veículos que a rejeitaram no consumidor, exigindo, é bem verdade que de forma bas- início. tante incipiente, uma produção diversificada em termos 34. SILVA, Carlos Eduardo Lins da, Comunicação, hegemonia e contra-infor- 32. Apocalípticos e integrados, passim. mação, p. 13. 33. Sobre o assunto ver também Alice BRILL, A arte e a cultura de massa, 35. Ibid., p. 13. Suplemento Cultural, o Estado de São Paulo, p. 8. 36. Ibid., p. 14. 74 75pro Julgo importante destacar as possibilidades da segue 'fazendo a cabeça' de 60 milhões de pessoas todos uma vez que pode-se observar, nas os dias, e o rádio de 90 milhões. É um combate desigual, duas áreas de investigação deste estudo lazer e edu- onde um dos lados já entra no ringue com a 38 cação e principalmente na da educação, uma crítica Com isso não estou negando a importância ao estí- ferrenha aos veículos de comunicação de massa, desta- mulo para a prática do lazer como criação cultural. Es- cando sua eficiência na manutenção da hegemonia bur- se aspecto não pode deixar de ser considerado, quando guesa. Mas, como observa Carlos Eduardo Lins da Silva, se aborda a educação pelo lazer. Pelo contrário, deve ser exatamente por isso que o papel da contra-infor- privilegiado, sobretudo na infância, conforme veremos, mação nesses meios é fundamental. Se a hegemonia sig- como uma forma de resistência, uma espécie de forma- nifica a manutenção da coesão e da direção da socieda- ção de arcabouço que permita atitudes críticas, criati- de através da ação ideológico-cultural, é evidente que vas, não só na prática como no consumo na vivência nenhum conjunto de forças sociais a deterá na socieda- do lazer. de contemporânea sem ter acesso aos mais eficazes ins- trumentos de difusão ideológico-cultural" Todas essas questões e posicionamentos levam-nos a conferir especial atenção ao outro aspecto educativo Ao se considerar as possibilidades da educação pelo do lazer, ou seja, a sua consideração como objeto de edu- lazer não se pode descartar campos de atuação por ati- cação. tudes preconceituosas. Não se pode adotar comporta- mentos "missionários" e "exclusivistas", que colocam 2. LAZER COMO OBJETO DE EDUCAÇÃO para o educador ligado à Escola, ou para o profissional do lazer, as "nobres tarefas educacionais". Isso é corres- Conforme já manifestei, no início deste capítulo, é ponder às expectativas do poder dominante. ponto de relativo consenso entre os autores consultados, que desenvolvem estudos na área do lazer, a considera- Por todos esses fatores, concordo com Gabriel Priol- ção da necessidade da "educação para o lazer". li Neto, na sua argumentação: "Quando se admite um controle monolítico dos meios de comunicação por par- Requixa destaca a "importância de ser o homem te de quem os detém, aceita-se a idéia de que não é pos- educado para racionalmente preparar para si mesmo sível fazer nada em seu interior e que as tentativas de uma arte de viver, em que não se perca o equilíbrio ne- uma ação contra-ideológica são facilmente neutralizá- cessário entre o trabalho e o lazer, e em que se antecipe veis. Em decorrência, desloca-se o eixo central da luta a vida de lazer" Para o autor, a educação para o lazer para fora dos meios de massa, sustentando-se a tese de consiste no aprendizado para o uso do tempo que a ação possível está nas formas de comunicação di- reta, artesanais. Desse modo, mantém-se o trabalho po- 38. A TV para o bem do Brasil, In: Carlos Eduardo Lins da SILVA (org.) lítico em escala sempre reduzida, enquanto a televisão Comunicação, hegemonia e contra-informação, pp. 107-108. 39. Renato REQUIXA, Sugestões de diretrizes para uma política nacional de lazer, p. 56. 37. p. 18. 40. Ibid., p. 28. 76 77Abordando aspectos que essa educação deve incluir, o verdadeira bola de neve que a indústria e o comércio do sociólogo enfatiza a necessidade de se demonstrar a im- lazer hoje representam em qualquer país do 46 portância do e o aprendizado estímulo na mesmo autor declara-se convencido, cada vez mais, diversificação de atividades Já em outro da necessidade do trabalho, do lazer e da educação for- trabalho, e quanto à primeira necessidade apontada, marem um todo harmônico " indispensável a um destaca a importância da discusão do tema, tanto por país como o nosso que tem fome e sede de desenvolvi- educadores, como em pronunciamentos de órgãos públi- mento" 47 Declara, ainda: " o que nos falta e em lar- cos difundindo a aceitação de sua valorização "para ga escala é a educação permanente para o lazer, educa- todas as camadas da população" Entretanto, a difu- ção do homem para a produtividade, para a poupança, são das idéias da necessidade de lazer é fundamentada para a economia, conscientizando-o de que sem estes na sua importância como instrumento de signifi- elementos o lazer jamais poderá ser usufruído por cativo valor auxiliar no amplo esquema educacional em todos" 48 que se empenha a nação" 45 A necessidade do estímulo à prática do lazer, como Aqui também, pode-se perceber alguns dos valores um dos aspectos a serem considerados na educação para utilitaristas pregados nessa educação para o lazer. lazer, é retomado por Requixa ao demonstrar a impor- aprendizado para o uso do "tempo livre" não considera dos jovens serem motivados " para a prática que esse tempo não é livre, ou que pelo menos, não deve de atividades lúdicas sadias, afastando-os profilatica- ser considerado de maneira abstrata, indistintamente, mente de situações potencialmente deletérias do ponto para todas as camadas da população. É louvável a con- de vista moral ou legal Essas "situações poten- sideração do lazer, ainda que de forma auxiliar, no es- cialmente perigosas" são muito consideradas, quando quema educacional em que a nação se empenha. Mas, se aponta a necessidade da educação para o lazer. Para quem se dedica a esse esforço, e para quem ele se des- isso contribui a crença na diminuição progressiva do tina? tempo de trabalho, que requer entre outros cuidados " Os valores marcadamente utilitaristas atribuídos preparo humano para um lazer construtivo, tanto das lideranças recreativas conscientemente capacitadas ao lazer são também lembrados, quando se procura jus- tificar a necessidade da educação para o lazer, disfar- e experientes, quanto da educação para o lazer como um dos objetivos da escola" 50 a inculcação de uma ideologia consumista e de- senvolvimentista. J. V. Freitas Marcondes analisa o va- Estaríamos, assim, na opinião de alguns analistas, lor educacional e econômico do lazer, destacando caminhando para uma "civilização do Gilberto 41. Ibid., p. 56. 46. Trabalho, lazer e educação, Documento (8/9) 22. 42. Ibid., p. 57. 47. Ibid., p. 23. 43. Idem, o lazer na cidade grande e os espaços urbanizados, Cadernos de 48. Ibid.. p. 23. lazer (1): 25. 49. o lazer na cidade grande e os espaços urbanizados, Cadernos de Lazer 44. Ibid., p. 24. 31. 45. Ibid., p. 25. 50. Lenea GAELZER, Lazer, ou maldição, p. 101. 78 79Freyre, por exemplo, coloca a necessidade da educação gimento e, principalmente, pela inexistência de uma para o lazer, na perspectiva de um futuro dominado pe- atitude renovadora" 53 la automação, quando o homem precisará de ser educado por mais fantástico que isto ainda pareça à Algumas palavras ou expressões utilizadas pela au- maioria da gente de hoje, mais para lazer do que para tora chamam a atenção ("ocupação", "desempenho", o trabalho", educação essa que permita encher o "reserva de tempo") como traços definidores do caráter seu tempo desocupado com atividades lúdicas 51 social exigido pelo nosso tempo. Procurando definir o caráter social adequado ao século XX, Erich Fromm Manifesta-se, aqui, ao lado da visão "utilitarista", conclui que a sociedade moderna " necessita de ho- a concepção "moralista" do lazer, na sua relação com a mens que cooperem sem atritos que educação para o lazer. Esse aspecto é enfocado por vá- desejem consumir cada vez mais e cujos gostos estejam rios autores, constituindo uma verdadeira pregação da padronizados e possam ser facilmente influenciados e necessidade de discernimento entre o bem e o mal, en- previstos" 54 conceito de "caráter" difere do de "per- tre o "sadio" aproveitamento do tempo, como antídoto e é definido como a organização mais aos perigos que rondam, sobretudo o jovem. Para Gael- ou menos permanente, social e historicamente condicio- zer desenvolvimento da capacidade seletiva da nada aos impulsos e satisfações do indivíduo o tipo de consciência exige exercício e esclarecimento, força de com o qual ele aborda o mundo e as pes- vontade e caráter. caráter é suscetível de progresso soas". Assim, o caráter social é entendido como a pela educação. jovem pode aprimorar o caráter como parte do 'caráter' que é compartilhada por grupos signi- treina um ficativos e que, como a maioria dos cientistas sociais contemporâneos o definem, é o produto da experiência Por essa e outras observações da mesma autora, destes Variando de acordo com a estrutura pode-se supor, embora ela não aborde essa questão, que social, a formação do novo caráter social, exigido por esse "caráter" tem uma conotação muito mais social do cada momento histórico, é inserida na infância, poden- que pessoal. Sua formação deve ser iniciada o mais pre- do ser estimulada ou frustrada na vida cocemente sem que o homem tenha sido motivado desde a infância, sem ter aprendido várias Pode-se entender mais uma vez, aqui, as caracterís- ocupações para o tempo livre, provavelmente não en- ticas funcionalistas da visão moralista da educação para contre razões suficientes para vencer as dificuldades o lazer, no sentido de adestramento para o aproveita- mento do "tempo livre", tendo em vista a inculcação do pessoais reservando tempo e buscando um desempenho; caráter social exigido para a manutenção da estrutura desanimado, entregar-se-á ao sono ou ao aborrecimento, vigente. vencido pela inibição, falta de habilidade, pelo constran- 53. Lenea GAELZER, Lazer, ou maldição, p. 50. 51. Tempo, ócio e arte: reflexões de um em face do avanço 54. Psicanálise da sociedade contemporânea, p. 114. da automação, Revista Brasileira de Cultura, 2 (3) 54. 55. David RIESMAN, A Multidão p. 68. 52. Lazer, ou maldição, p. 21. 56. Ibid., p. 70. 80 81Ao fazer essas observações críticas não estou negan- remos que dela decorre também uma diferença básica do a necessidade da educação para o lazer. Pelo contrá- na pedagogia orientadora da educação para a arte, que rio, considero que para desenvolvimento de atividades corresponde a duas grandes linhas: uma tradicional, no "tempo disponível", de atividades de lazer, quer no que se confunde com o cotidiano das pessoas, e está li- plano da produção, quer no do consumo não conformis- gada a uma cultura mais localizada a chamada edu- ta e crítico, é necessário aprendizado. Se procedermos a cação espontânea, que está basicamente vinculada à uma análise dessas atividades no plano social, verifica- arte tradicional; a outra, depende de uma aprendizagem remos que na sociedade tradicional não havia uma rí- mais especializada e sistematizada, estando ligada ao gida divisão entre a arte, o esporte e outros gêneros de desenvolvimento das atividades da "arte erudita" é atividade, que os conteúdos do lazer, e a vida a chamada educação planejada. Na educação espontâ- diária. A partir do advento dos conceitos de "arte eru- nea processa-se naturalmente a iniciação para a produ- dita", de elite", etc., é que tanto a produção ção e consumo artísticos, uma vez que não ocorre a di- quanto o consumo passam a constituir privilégios das visão entre os dois níveis de forma nítida. Na educação chamadas elites, exatamente as classes sociais que têm planejada, é necessário, para uma verdadeira educação acesso ao No plano da produção, a carac- para a arte, a iniciação não somente na produção que terística da cultura na sociedade tradicional é a criação tenha em busca a formação ou descoberta de "talentos", coletiva, em contraposição à cultura erudita, em que o mas também que represente estímulos no consumo crí- criador é "autônomo" indivíduo ou grupo especial- tico, no fruir da produção. mente adestrado para essa finalidade com rigorosa pre- paração. Embora a expansão da indústria cultural te- Essas observações, feitas a título de exemplo com relação às atividades artísticas, podem ser estendidas nha colocado o lazer mais próximo do cotidiano, para aos vários campos abrangidos pelos conteúdos culturais atender às necessidades do consumo, tornando seus con- do lazer. É importante esclarecer que, distinguindo a teúdos não tão elevados, e até mesmo vulgares, o criador cultura tradicional e a moderna, não quero dizer que indivíduo ou grupo continua sendo uma pessoa uma começa onde a outra termina. Não existe distin- especial. Vejamos, a título de exemplo, o que ocorre em ção rígida, ou claros limites divisores; pelo contrário, o um campo específico dos conteúdos culturais do lazer que ocorre, embora a tendência seja a a arte. cada vez mais acentuada do moderno, é a convivência. Na cultura tradicional a arte é vista como canal, Assim, observa-se, ao mesmo tempo, com relação às ati- ambiente. É festa, " feita para o encontro e a comuni- vidades de lazer, uma educação espontânea, nas esco- cação, não é o fim, mas o meio" Ao contrário, na arte las de samba, nos clubes de várzea, na decoração dos "erudita" há um distanciamento entre produtor e con- andores das procissões, etc., e uma educação planejada, sumidor. Se considerarmos essa diferenciação, verifica- nos conservatórios, nas escolinhas dos vários esportes, nos de arte, etc., e na Escola. 57. Mauro Sá Rego COSTA, Manifestações populares e educação em arte, Essa última agência de educação para o lazer, na Boletim de Intercâmbio, 1 (4) 35. grande maioria das vezes menosprezada pelos teóricos 82 83da área, na perspectiva do lazer que ou seja, no E prossegue, na sua minuciosa caracterização: "Tendo seu entendimento como um dos canais de su- em mira contrabalançar as pressões das diversões co- peração do senso comum, tem um papel preponderante mercializadas (que vendem em massa 'pacotes de lazer', e fundamental, como mediadora entre a cultura popu- plenos de ocupações sedentárias, para meros especta- lar e a dominante, questão que examinarei mais deti- dores), o esforço educacional procura desde cedo esti- damente no Capítulo trabalho. mular a participação efetiva em atividades variadas de Na sua análise da educação para o lazer, Ethel Bau- Para conquistar mais participantes, planejam-se zer Medeiros, faz uma interessante caracterização das e se desenvolvem programas diversificados, capazes de duas grandes linhas observadas historicamente a tra- atender às diferenças individuais. Assim, enquanto in- dicional ou espontânea e a sistemática. Nessa perspec- dústria e comércio de lazer fomentam o conformismo tiva, a autora aborda ainda a passagem do lazer de "pri- (forçando a compra dos brinquedos e diversões que pro- vilégio de nobres" para "possibilidade de classe econô- duzem em série), os educadores incentivam a imagina- mica" No entanto, suas análises são marcadamente ção criadora e a multiplicação de experiências em con- abstratas, o que fica patente quando descreve as carac- textos variados. Enquanto aquelas geram necessidades terísticas da educação para o lazer incorporadas na so- de consumo, estas promovem o desenvolvimento de há- ciedade industrial. Segundo a autora, entre os novos bitos, habilidades e atitudes de participação ativa, van- objetivos de que se reveste essa educação, está bom tajosas para o desenvolvimento pessoal e o aperfeiçoa- mento do grupo" 60 convívio com a natureza, cada vez mais ameaçada por desmatamentos, destruição de mananciais, desrespeito Além da não especificação de onde ocorreriam con- à flora, fauna, etc. Os esportes de caça e pesca são regu- cretamente essas características descritas como compo- lamentados; nos grandes parques e nos jardins botâni- nentes da educação para o lazer, na fase de industriali- cos e zoológicos, organizam-se serviços de 'interpreta- zação, percebe-se uma visão "idealista" do processo edu- ção da natureza', destinados a despertar o respeito pelo cativo e do lazer, como se eles, por si sós, ou em cone- xão, pudessem salvar a Natureza é recuperar o humano meio ambiente e o gosto pela vida ao ar livre; com fins da vida do homem moderno. Pelo contrário, o que se tem análogos, criam-se facilidades para acampamentos verificado na realidade, em especial em países de capi- (com ou sem pernoite), junto aos centros urbanos, onde talismo periférico, é o oposto do descrito por Ethel. o verde vai rareando. Nas áreas em que a industrializa- ção vai abafando artesanato e folguedos populares, in- Também no âmbito da educação para o lazer, a centivam-se atividades tradicionais de lazer, capazes de maioria dos autores ligados à área, colocam sérias re- servas às contribuições que poderiam ser efetuadas no facilitar a coesão da comunidade, ao propiciarem sen- âmbito da Escola. Deve-se ressaltar, no entanto, que elas timentos de identidade cultural em clima de alegria" 59 não são negadas pelos diversos autores, alguns até con- 58. Educação para o lazer, Boletim de Intercâmbio, 1 (3) 59. Ibid., p. 46. 60. Ethel Bauzer MEDEIROS, Educação para o lazer, Boletim de Intercâmbio, 1 (3): 47. 84 85e ferindo-lhes certo destaque. Assim, para Ethel, da "ação relação entre o nível de escolaridade e a prática do lazer. educativa consciente", para o "bom uso do lazer", deve- estudo de Guidi, em Brasília, conclui que a diversifi- rão participar a família, a Igreja, os órgãos públicos e cação na prática do lazer é função do nível de escolari- privados, enfim, toda a comunidade em esforço conju- dade Na caracterização do público de teatro em São gado. "A escola, porém, irá dar-lhe cunho sistemático, Paulo, Tania Nogueira Álvares, constatou a influên- visando a atividade cuja prática poderá prosseguir vida cia da escola e do ambiente familiar no desenvolvimento afora" 61 Enfatiza a autora que, nessa tarefa, compete do gosto pelo teatro" 67 Não se pode deixar de frisar que, à Escola "incluí-la no seu Abordarei os as- entre nós, falar em nível de escolaridade, salvo exceções pectos mais específicos no terceiro capítulo deste estu- que confirmam a regra, é falar de classe social, pelo me- do. Por ora, importa frisar que a atuação da Escola não nos no que se refere a oportunidades oferecidas, o que de é negada no âmbito da educação para o lazer. forma alguma, significa que o contrário possa ser ver- dadeiro. Ainda que relativizadas, as evidências das relações estabelecidas entre níveis de instrução e lazer, não po- Apesar de tudo, na preocupação de destacar o fra dem ser ignoradas pelos teóricos do lazer, que fazem a casso da Escola na educação para o lazer, os autores da NAL apologia da "crise escolar". Dumazedier admite a in- área propõem a formação de especialistas que se dedi- fluência exercida pelos níveis de instrução escolar sobre quem a essa tarefa. As formas de justificar a existência os conteúdos das atividades de lazer, embora afirme que desses especialistas são variadas, assim como também ela seja menos extensa do que possa Requixa, o são as descrições de suas características e denomina- em artigo onde analisa lazer da juventude, cita entre ções. A mais comumente utilizada é a de 'animador cul- os vários fatores que afetam quantitativa e qualitativa- tural", cujos atributos e atuação procurarei analisar mente o "tempo livre" do jovem brasileiro, a forte inci- dência do analfabetismo e de evasão E essa re- no 4.° capítulo deste trabalho. Vejamos algumas outras. lação assume proporções dramáticas entre nós, pelas Gaelzer denomina esse especialista de "líder recrea- altas taxas de analfabetismo, engrossadas pelos amplos cional", necessário, principalmente nas grandes cida- contingentes da população que apenas conseguem des, onde as oportunidades para a prática do lazer são letrar" e não "ler" a realidade mais restritas, para administrar equipamentos e "favo- recer a prática de experiências em programas cuidado- Embora tenhamos muito poucas investigações nes- samente planejados" 68 para crianças, jovens e adultos, se sentido, as de que se pode lançar mão demonstram a embora ressaltando que esse planejamento deva ser efe- tuado com e não para o Manifesta, mais uma 61. Idem, lazer no planejamento urbano, p. 121. 62. Ibid. p. 169. 63. Sociologia empírica do lazer, p. 241. 66. J. GUIDI, Juventude e lazer. lazer no contexto sócio-cultural de 64. Juventude e tempo livre em países em desenvolvimento, Boletim de Inter- lia na faixa etária de 18 a 20 câmbio, 1 (1): 9. 67. o público de teatro em São Paulo, Cadernos de Lazer, 22. 65. Ver a distinção entre "soletrar" e "ler" em Paulo FREIRE, A importância 68. Lenea GAELZER, Lazer: bênção ou maldição, p. 78. do ato de ler, Resumos do 3.° COLE: 3-6. 69. Ibid., p. 81. 86 87vez, sua visão "moralista" do lazer, ao advogar a exis- da pelo e serenidade), pensada, planeja- tência dessa "liderança", argumentando que " não é da, situada na sua realidade social e regida pela doação, suficiente trazer os jovens para as unidades de Recrea- com amor, compreensão com o próximo, capacidade de ção livrando-os dos males que provêm da liberdade sem sacrifício e renúncia" papel deste verdadeiro mes- orientação, mas fazê-los desenvolver um físico saudável tre na "arte de influenciar pessoas" 75 segundo a auto- e forte complementado de um apuro moral e espi- ra, seria o de instrumentalizar o interesse que motiva o ritual" Assim, relaciona diretamente, "o aprimora- indivíduo a procurar o lazer ser ele mesmo, recrear- mento de caráter (...) a uma cuidadosa seleção de ati- se, aprender, descobrir, conviver e praticar perseguin- vidades" 71 do os objetivos mais gerais conseqüentes - o desenvol- Ao caracterizar o líder de recreação a autora revela vimento integral, a cultura, a saúde e a educação a função de adestramento de personalidade que esse pro- A não inclusão de qualquer referência quanto ao posi- fissional cumpriria, uma vez que propõe avaliar o valor cionamento político dessa liderança parece desnecessá- da liderança exercida, medindo a extensão da persistên- ria, uma vez que já está implícita nos atributos expli- cia, no futuro, das atividades e atitudes aprendidas e citados. Iniciada na escola, através da prática recrea- dos interesses criados nos tiva, a formação do "líder recreacional", ajudará, atra- vés do seu exemplo de vida e de sua prática profissional, Questionando qual poderia ser a colaboração da es- a manutenção dos valores consagrados, o "status quo", cola, no sentido de contribuir para a formação prática a "paz social". dos líderes, a autora situa no âmbito escolar o início do " exercício da liderança para uma liberdade discipli- Outra denominação para o especialista em lazer é nada, por meio de atividades recreativas". destacando o de "aconselhador". Ethel Bauzer Medeiros, distingue ser essa " uma preocupação constante entre as mui- o aconselhamento como um novo campo emergente tas na formação integral do cidadão prestante do futu- na área do A autora usa os termos "aconselha- ro" 73 mento em" e "educação para" o lazer, praticamente como sinônimos, inserindo-os no quadro da "educação Ao traçar um "perfil ideal desse líder", Gaelzer des- continuada", denominação que prefere usar como subs- taca como características desejáveis: receptividade, ati- tituto para "educação permanente". Chama também a vidade e realização, não-diretividade, bondade, coragem, atenção para a preocupação dos profissionais da área atualização e sensibilidade para com os problemas so- com o excesso de intervenção nas atividades, que pro- ciais, idealismo e saúde. Completa o perfil, recomendan- curam contrabalançar pelo planejamento com e não do que esse líder deve ter uma vida disciplinada (marca- para o público. Ethel afirma, ainda, que a preocupação 70. Ibid., p. 84. 74. Ibid., p. 87. 71. Ibid., p. 84. 75. Ibid., p. 87. 72. Ibid., p. 83. 76. Ibid., p. 50. 73. Ibid., p. 79. 77. Educação para o lazer. Boletim de Intercâmbio, 1 51. 88 89em formar profissionais qualificados para o "bom apro- sas" de instrumentalização da cultura, entendida como veitamento do lazer" é uma inovação que se alastra, à fator de compensação de sua "improdutividade" na so- medida que ele " vai deixando de ser opção pessoal ciedade capitalista. Dessa forma, procura-se ....con- para se tornar problema social e, mesmo 78 vencer cada indivíduo de que estará fadado à exclusão A ocorrência do "aconselhamento em lazer", descri- social se cada uma de suas experiências não for prece- to por Ethel como emergente na sociedade pós-indus- dida de informações e fins". Ocorre, assim, a transfor- mação da cultura em guia prático para viver cor- trial, assemelha-se à atividade dos "consultores de la- retamente (orientando a alimentação, a sexualidade, o zer", termo usado por David englobando trabalho, o gosto, o lazer) e, conseqüentemente, em po- grande número de profissionais ligados ao lazer e, cuja deroso elemento de intimidação social 83 finalidade, seria a de estimular a pessoa da sociedade moderna " para um entretenimento mais imaginati- A título de ilustração dessa posição expressada por vo, ajudando-a a compreender a importância da diver- Marilena Chauí, é interessante registrar que, na pesqui- são para o seu próprio desenvolvimento rumo à autono- sa já mencionada, sobre a teatros em São mia" 80 Só que, do meu ponto de vista, a concepção de Paulo, efetuada por Tania Nogueira Álvares, entre as Riesman é bastante crítica quanto à prática desses con- razões para não se ir ao teatro, encontra-se "...a " idéia, sultores, sobretudo na análise que efetua do comporta- bastante popular, de que, para ir ao teatro, é preciso mento desses profissionais, nos períodos de férias, com- 'entender', ter uma 84 parando-os a hábeis vendedores de mercadorias ou ser- Os riscos na formação de especialistas em lazer, in- cluem os mesmos que envolvem os de outras áreas ou campos de atuação, com agravantes, derivados da pró- Analisando, de maneira geral, e não especificamen- te quanto ao lazer, a formação dos especialistas, Mari- pria natureza das atividades de lazer. Stanley Parker, lena Chauí, entende-os como "necessários" ao sistema analisando a opinião de vários autores, constata a con- uma vez que, seu discurso competente teria o poder de cordância quanto ao valioso papel da educação, na con- gerar o sentimento da incompetência tanto individual tribuição para um melhor aproveitamento do lazer. No quanto coletiva "arma poderosa de dominação" 82 Situa entanto, destaca que o maior problema é saber até onde a atuação do especialista, ou melhor, o resultado de sua se pode ir na "recomendação" do tipo de atividade que atuação, como uma das maneiras "mais sutis e perigo- mais convém a cada Prosseguindo na sua análise, o sociólogo detecta opiniões contrárias à valorização 78. Ibid., p. 47. exagerada que se dá a levantamentos efetuados junto a 79. A multidão solitária, p. 370. populações no sentido de orientar a elaboração de pro- 80. Ibid., p. 372. 81. Ibid., p. 372 82. Marilena o que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte 83. Ibid., p. 60. do educador. In: Carlos R. BRANDÃO (org.) o educador: vida e morte, 84. o público de teatro em São Paulo, Cadernos de Lazer, (4) 20. p. 58. 85. A sociologia do lazer, p. 115. 90 91gramações objetivando a educação para o lazer, uma vez mas privilegiando o "produto". Dessa forma, reflete e re- que podem contribuir para reduzi-la a estímulos, a ten- força a ideologia dominante. dências ditadas por interesses que não podem ser preci- Ao defender a educação para o lazer é necessário Em outras palavras, segundo minha interpre- tação, pode-se cair na falácia do argumento de "dar ao que se esteja consciente de seus riscos. É necessário povo o que ele quer", tão utilizado entre embutido observar que esses riscos ocorrem também no âmbito da na justificativa do "planejar com e não planejar para" instituição Escola, tal como funciona, aliás, não apenas já abordada anteriormente. Por outro lado, e num outro no que diz respeito à educação para o lazer, mas à edu- extremo, a propósito de se "elevar o nível" do lazer usu- cação em geral. É necessário observar, ainda, que não fruído, a educação para o lazer pode vir a ser orientada se pode efetuar a separação entre a educação para o la- por valores da ideologia dominante, "folclorizando" a zer e a educação em geral. Assim procedendo, teremos cultura popular e valorizando uma cultura pretensa- melhores condições de analisar os equívocos verificados mente "erudita". na relação lazer/escola, objeto do próximo capítulo. Outras observações importantes, nas críticas de Parker aos riscos que envolvem a educação para o la- zer, situam-se na forma com que é desenvolvida, bus- cando encorajar a prática de atividades consagradas, o que pode contribuir para a não exploração de concep- ções alternativas Corroboram essa crítica duas cons- tatações: a primeira, que algumas atividades só são apreciadas ou desenvolvidas em estágios diferenciados de maturidade física, emocional e mental; e a segunda, que as modificações ocorridas, nos campos técnico e social, se processam de maneira rápida, alterando o qua dro de atividades possíveis de serem Do meu ponto de vista esses riscos são procedentes e deri- vam da forma como se processa a educação para o lazer. Orientada por valores conservadores, "compensatórios", "moralistas", ou "utilitaristas", centra-se em conteúdos, não levando em conta a idéia do processo de fruição, 86. Ibid., p. 115. 87. Ibid., p. 119. 88. Ibid., p. 116. 92 93