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Página 1 de 10 UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP PROTEÇÃO PENAL AO PATRIMÔNIO Profª Drª Cibele Mara Dugaich EXTORSÃO Artigo 158 do Código Penal Art. 158 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa: Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa. § 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade. § 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no § 3º do artigo anterior. § 3º- Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159, §§ 2º e 3º, respectivamente. NOMEN JURIS: extorsão OBJETIVIDADE JURÍDICA: Incolumidade física, vida, patrimônio e liberdade pessoal. ELEMENTOS DO TIPO: - constranger: é o obrigar, forçar, coagir – ex: entregar o dinheiro, realizar uma obra etc. Página 2 de 10 - alguém: deverá ser pessoa certa e determinada; - violência ou grave ameaça: são os meios pelos quais o agente se vale para coagir a vítima a fazer ou deixar de fazer algo. Caso se pratique violência imprópria (hipnotização, narcotização etc.) o delito será deslocado para o constrangimento ilegal (art. 146 CP) vez que lá o legislador consentiu com outro meio: “...ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência...” e aqui (art. 158 CP) tal hipótese não foi regulada. - com o intuito de obter para si ou para outrem: é o elemento subjetivo do injusto (em que deve ser analisado o estado anímico do agente); - indevida: é o elemento normativo do tipo. Se a vantagem for devida o fato será atípico (poderá haver exercício arbitrário das próprias razões, mesmo que sob ameaça). - vantagem econômica: a finalidade precípua do agente é a vantagem patrimonial. Inexistindo esta, haverá a incidência de outra figura típica, como por exemplo o constrangimento ilegal. - fazer, tolerar que se faça (ex: permitir que o agente rasgue um contrato ou título que represente uma dívida etc.) ou deixar de fazer (ex: não entra com uma ação de cobrança): o escopo será a prática de uma ação ou de uma omissão por parte da vítima. O artigo 158 é um tipo anormal, pois nele constam, além dos elementos objetivos, elementos subjetivos e normativos. Além disso, o dispositivo típico prevê uma única modalidade (um único núcleo), razão pela qual é classificado como crime de ação única. SUJEITO ATIVO: Qualquer pessoa. Trata-se de crime comum, pois qualquer pessoa pode praticá-lo. Se for funcionário público: neste caso haverá concussão, com a simples exigência da vantagem indevida em razão da função. SUJEITO PASSIVO: Qualquer pessoa. Página 3 de 10 ELEMENTO SUBJETIVO DO TIPO: Trata-se de crime doloso. O agente deve constranger com o intuito de obter vantagem econômica, caso contrário estará diante do constrangimento ilegal CONSUMAÇÃO: Existem duas correntes - 1ª corrente: (STF, Damásio e Nelson Hungria) segundo esta corrente, a extorsão é um crime formal, razão pela qual se consuma no momento em que a vítima faz, deixa de fazer ou tolera que se faça algo. - 2ª corrente: entende que a extorsão é um crime material, consumando-se somente quando o agente obtém a vantagem patrimonial. A posição a ser adotada é a primeira, por dois motivos, senão vejamos: o tipo fala em intuito de obter para si ou para outrem vantagem econômica. Assim, basta que o agente constranja a vítima com a finalidade de obter a vantagem econômica para que o crime se consume, não sendo necessária a obtenção da vantagem. Por outro lado, no tipo do estelionato consta o verbo obter, isoladamente, o que significa ser necessário atingir o fim colimado para que o delito se materialize. Por derradeiro, deve ser adotada a primeira corrente em razão da súmula 96 do STJ, que diz o seguinte: “O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem econômica”. Sendo o crime formal, a participação ou coautoria só poderá ocorrer até o momento em que a vítima vier a fazer, deixar de fazer ou tolerar que se faça algo. Após isto, haverá, por parte de terceiro, favorecimento real. TENTATIVA: É admissível. Trata-se de crime plurissubsistente, ou seja, que admite fracionamento de condutas, razão pela qual é admissível a tentativa, como por ex. quando o constrangimento não chega ao conhecimento da vítima. CAUSAS DE AUMENTO DE PENA (artigo 158, § 1º): Página 4 de 10 - concurso de agentes: tendo em visto que o legislador emprega a expressão “cometimento de duas ou mais pessoas”, há necessidade de pelo menos duas pessoas executando o crime; - emprego de arma. EXTORSÃO QUALIFICADA (§§ 2º e 3º): a) se da violência resulta lesão corporal grave ou morte: o legislador fez expressa referência ao art. 157, § 3º CP, ou seja, se da violência resulta lesão corporal grave, a pena será de 7 a 15 anos, se resulta morte, a pena será de 20 a 30 anos. b) “sequestro relâmpago”: é o crime que se perfaz mediante a restrição da liberdade da vítima, ou seja, é mantida em poder dos extorsionários para ultimar a vantagem econômica. Entrou em vigor em nosso sistema através da L. 11.923, de 17.04.2009. Segundo o texto legal, aplica-se esta qualificadora quando a restrição da liberdade da vítima é necessária à consecução da extorsão, ou seja, enquanto a vítima deve permanecer junto aos sujeitos para ultimar a vantagem. Diferença do roubo (art. 157, § 2º, V CP) se dá, pois no roubo a restrição da liberdade da vítima é utilizada para subtração do bem ou para evitar que a vítima busque socorro enquanto se pratica o crime. No “sequestro relâmpago”, o ofendido tem sua liberdade restringida como meio indispensável à obtenção da vantagem econômica, sendo imprescindível mantê-lo junto à ação criminosa para sua consumação, o que se dá como nos saques a caixas eletrônicos. Isso se dá porque sem a participação da vítima, fornecendo a senha a coisa objetivada pelo meliante (soma em dinheiro) não será atingida. Assim, permanecerá o art. 157, § 2º V CP quando o agente mantém a vítima apenas para conseguir a posse da coisa que já está consigo, v.g., quer o carro da vítima e a leva junto para abandoná-la em algum lugar ermo e conseguir fugir. Agora, perambular pela cidade com a vítima visando a colaboração desta para saques em caixas eletrônicos, trata-se do art. 158, § 3º CP. O sujeito responderá pela pena de reclusão de 6 a 12 anos. Se resulta lesão corporal grave a pena será de reclusão de 16 a 24 anos, e se resulta morte a pena será de reclusão de 24 a 30 anos, conforme determinação expressa Página 5 de 10 deste parágrafo terceiro onde enseja a aplicação das qualificadoras do crime de extorsão mediante sequestro (art. 159, §§ 2ª e 3º CP). Observe-se que essas qualificadoras (lesão corporal grave e morte) apesar de tratar-se de um tipo remissivo ao art. 159, §§ 2º e 3º CP, não foram acrescidas no rol dos crimes hediondos (L. 8.072/90). Assim, é inapropriado utilizar de analogia para afirmar que as qualificadoras da extorsão por restrição da liberdade (sequestro relâmpago), pois trata-se de analogia in malam partem, o que é vedado em matéria de direito penal. É possível a hipótese de aplicação de ambos os crimes (roubo e extorsão) quando se verifica duas práticas isoladamente configuradas. PENAS: Extorsão simples (caput): reclusão de 4 a 10 anos, e multa. Extorsão agravada – causa de aumento (§ 1º, art. 9º, L. 8.072/90): aumento de 1/3 (§ 2º) até ½ ou ½ (L. 8.072/90, art. 9º). Extorsão qualificada (§ 2º): lesão grave – reclusão de 7 a 15 anos,e multa; morte – reclusão de 20 a 30 anos, e multa; sequestro relâmpago – reclusão de 6 a 12 anos; se resulta lesão corporal grave – reclusão de 16 a 24 anos; se resulta morte reclusão de 24 a 30 anos. AÇÃO PENAL: Pública incondicionada. EXTORSÃO MEDIANTE SEQUESTRO Artigo 159 do Código Penal Art. 159 – Seqüestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate: Pena - reclusão, de oito a quinze anos. Extorsão qualificada: § 1º - Se o seqüestro dura mais de 24 (vinte e quatro) horas, se o seqüestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessenta) anos, ou se o crime é cometido por bando ou quadrilha. Pena - reclusão, de doze a vinte anos. § 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Página 6 de 10 Pena - reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos. § 3º - Se resulta a morte: Pena - reclusão, de vinte e quatro a trinta anos. Delação premiada: § 4º - Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do seqüestrado, terá sua pena reduzida de um a dois terços. NOMEN JURIS: extorsão mediante sequestro. OBJETIVIDADE JURÍDICA: Liberdade individual e patrimônio. Trata-se de crime pluriofensivo tendo em vista que há mais de um bem jurídico sendo tutelado. DIFERENÇA DO SEQUESTRO RELÂMPAGO: Naquela figura (art. 158, § 3º CP) a restrição da liberdade é imediata à obtenção da vantagem econômica (só esta é exigida neste crime), serve-se enquanto a vítima fica em poder dos extorsionários para entregar as senhas magnéticas, v.g., para depois, obtida a vantagem econômica, ser libertada. Já na extorsão mediante sequestro há um afastamento físico do ofendido das pessoas de seu relacionamento para que seja entregue aos extorsionários qualquer vantagem (e não só econômica) como condição ou preço de resgate. ELEMENTOS DO TIPO: - sequestrar: significa privar alguém de sua liberdade de ir e vir, sua liberdade de locomoção. - modalidades de execução: o tipo não apresenta explicitamente as modalidades de execução deste crime, mas é certo que estão inseridas implicitamente no verbo sequestrar, sendo elas a violência, grave ameaça ou qualquer outro recurso que impossibilite a defesa da vítima. - vantagem: deve ser econômica, pois este crime está inserido no Título dos crimes contra o patrimônio. Além disto, a vantagem deve ser indevida, pois se devida for, o agente Página 7 de 10 responderá por sequestro em concurso material com exercício arbitrário das próprias razões. - como condição ou preço do resgate: condição consiste na pratica de um ato (ex/ obtenção de determinado documento) e preço diz respeito ao pagamento de determinada moeda. ELEMENTO SUBJETIVO: O móvel anímico do agente é o dolo. Mas, trata-se de dolo específico de obter vantagem como condição ou preço de resgate. Seja o dolo apenas de privar a liberdade e haverá o crime do art. 148 CP. Claro que, se apesar de no início haver essa simples intenção de sequestro (art. 148 CP) e enquanto a vítima esteja em seu poder, resolva o agente pedir resgate, haverá o chamado crime progressivo, configurando a extorsão mediante sequestro. Crime progressivo é aquele em que ao agente, para alcançar a produção de um resultado mais grave, realiza a produção de outro, de menor lesividade, que é intermediário (passagem) ao caminho da consecução daquele. Tal qual ocorre no homicídio, para cuja realização passa antes o agente pelo cometimento de lesão corporal. Como consequência, o evento menos grave (passagem) ficará absorvido. SUJEITO ATIVO: Qualquer pessoa. Trata-se de crime comum que pode ser praticado por qualquer pessoa. SUJEITO PASSIVO: Quem sofre a privação da liberdade e a lesão patrimonial. A vítima deve ser um ser humano. Assim, a privação de liberdade de animal de estimação, mesmo que tenha por finalidade a obtenção de resgate, caracterizará tão somente crime de extorsão. Caso a pessoa sequestrada seja um cadáver e o escopo seja um pedido de resgate, a responsabilização penal se dará pelo artigo 211, CP e não pelo artigo em questão, pois há necessidade que o sujeito passivo seja pessoa humana viva. Página 8 de 10 CONSUMAÇÃO: O crime é formal. Por isso, o crime se consuma com a realização da conduta, pouco importando que conste no tipo incriminador o resultado. Não havendo, pois, a necessidade da ocorrência dele, isto é, a obtenção da vantagem econômica para que venha a se consumar. Assim, o crime irá se consumar no exato instante em que a vítima for privada da sua liberdade de ir e vir (observa-se, porém, que há necessidade da vítima permanecer por tempo relevante com os sequestradores para que ocorra a consumação). Obviamente que, para que os agentes respondam por este crime e não pelo do artigo 148, deverá ser provada a intenção dos mesmos na obtenção do resgate. O pagamento do resgate, pois, é mero exaurimento do crime, podendo, quando muito, ser observado pelo Juiz no momento de fixação da pena base, pois o artigo 59 CP indica como circunstância judicial as “consequências do crime”. Trata-se de crime permanente em que a consumação se protrai no tempo, sendo possível, em virtude desta continuidade do estado flagrancial, a prisão em flagrante delito a qualquer tempo. TENTATIVA: É admissível. Ocorre quando os sequestradores iniciam a execução do crime e não conseguem levar a pessoa que pretendem sequestrar. Porém, tratando-se de crime formal, em havendo privação da liberdade, o crime já se resta consumado. FORMAS QUALIFICADAS (art. 159, §§ 1º, 2º e 3º, CP): a) duração de mais de 24 horas de privação de liberdade (§ 1º): leva-se em consideração não só o sofrimento da vítima e familiares, mas a impaciência do legislador pois no cárcere privado (que também há restrição da liberdade da vítima) a pena passará a sofrer acréscimo com decurso de longos 15 dias (art. 148, § 1º, III CP). b) vítima menor de 18 anos (§ 1º): merecem mais veemente tutela da lei mercê de sua reduzida capacidade de defender-se. Se o agente está em erro, em caso da vítima aparentar ter muito mais idade, tal qualificadora não deverá incidir devendo o agente ser beneficiado. Página 9 de 10 c) crime praticado por integrantes de bando ou quadrilha (§ 1º): o termo “bando ou quadrilha” faz referência ao art. 288 CP que, após a Lei 12.850, de 2.8.2013 passou a se chamar “Associação Criminosa”. Dessa forma, onde se lê “bando ou quadrilha, deve ser entendido “associação criminosa”. A definição é extraída do art. 288 CP. É o grupo de no mínimo três indivíduos, de forma estável e permanente, com finalidade de praticar crimes. Para ser aplicada essa qualificadora prevista no art. 159, § 1º deve-se comprovar a estabilidade e permanência da associação criminosa, ou seja, estão reunidos para prática reiterada de crimes (vários), caso contrário, não incidirá esta qualificadora. Por essa razão, ou seja, por ser reconhecido como circunstância qualificadora, a associação criminosa para a extorsão mediante sequestro não se aplica o crime autônomo do art. 288 CP em concurso material (art. 69 CP), tampouco da associação criminosa para crimes hediondos (art. 8º, L. 8.072/90), por força da proibição de dupla valoração pelo mesmo fato – ne bis in idem. d) se do fato resulta lesão corporal grave (§ 2º): inicialmente observe-se que essa qualificadora fala em “resultado do fato” e não “da violência” como ocorre no roubo (art. 157, § 3º CP). Assim, a aplicação dessa qualificadora advirá com a ocorrência ao sequestrado, de lesão prevista nos §§ 1º e 2º do art. 129 CP, seja a lesão advinda da violência ocorrida diretamente enquanto sequestrada a vítima (agressões) ou pelos maus- tratos enquanto sequestrada (natureza do cativeiro, má alimentação, vítima que precisava de medicamentos constantes (diabética), doençasadquiridas no cativeiro etc.). Basta que a lesão seja grave, derivada de dolo ou mesmo a culpa do agente. e) se do fato resulta morte (§ 3º): quer dizer, se do fato sequestro (e não só da violência) resulta morte. Enquanto a vítima estiver em poder dos sequestradores, vindo a falecer por qualquer motivo, aplica-se essa qualificadora. Nestas hipóteses, como o legislador considerou que o resultado agravador adviesse “do fato” sequestro, fácil entender que mesmo lesões culposas (não queridas) servirão para fazer incidir as qualificadoras deste parágrafo 2º. CAUSA DE REDUÇÃO DE PENA (§ 4º): O legislador reconheceu a possibilidade da chamada delação premiada. Trata-se do benefício de reduzir-se a pena de 1/3 a 2/3 ao agente que denunciar o crime à autoridade Página 10 de 10 (Juiz de direito, Promotor de Justiça, Delegado de Polícia, notadamente), facilitando a libertação do sequestrado. A quantidade de redução de pena é decidida pelo juiz, comportando a ideia de que quanto mais causal (necessária) à libertação da vítima, mais rápida, mais deve ser premiado (reduzida a pena). Havendo a confissão que não logre a permitir a libertação do sequestrado, o confitente apenas pode se valer da atenuante genérica da parte geral do Código Penal (art. 65, III, “d). Requisitos: 1. denúncia a autoridade do que concorre ao crime. 2. proporcione a libertação da vítima. Importante consignar que a Lei 12.850/13 trouxe uma seção específica acerca da colaboração premiada (art. 4º até 7º) em organizações criminosas, inclusive, alargando alguns benefícios, como aplicação de penas restritivas de direitos e mesmo perdão judicial ao colaborador. Por ser uma novatio legis in mellius, passível de aplicação ao crime em estudo. PENA: Forma simples (caput): reclusão de 8 a 15 anos Formas qualificadas (§§ 1º, 2º e 3º): reclusão de 12 a 20 anos (§ 1º); de 16 a 24 anos (§ 2º), de 24 a 30 anos (§ 3º). Causa especial de aumento de pena (art. 9º, L. 8.072/90): aumento de ½. Causa de redução de pena (§ 4º): redução de 1/3 a 2/3. AÇÃO PENAL: Pública incondicionada.